sábado, 23 de outubro de 2010

SURREALISMO – “SUR RÉALISME”


“Além da Realidade”



SUR – sobre, em cima, super ou supra
RÉALISME - realidade
"Quando o homem quis imitar a marcha, ele criou a roda, que não se parece com uma perna. Assim fez também com o surrealismo, sem o conhecimento racional".
Apollinaire, “Les Mamelles de Tirésias”, Prefácio.


I – DADOS CRONOLÓGICOS:

O Surrealismo (“filho legítimo do Dadaísmo”) foi um movimento internacional que nasceu entre as duas guerras mundiais, ou seja, foi criado sobre as cinzas da Primeira Guerra e sobre a experiência acumulada de todos os outros movimentos e floresceu na Europa e nos Estados Unidos nos anos vinte e trinta.
Em 1916, Apollinaire classificou como “drama surrealista em dois atos” sua obra “Les Mamelles de Tirésias”, ópera cômica de uma ironia cáustica.


Trajes Ferat por Serge, 1917


II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

Os artistas do início do século XX parecem loucos: se são Expressionistas, se perdem tentando ser emocionais; se são Cubistas, deixam a natureza visível como um boneco sem cabeça; se são Futuristas, escandalizam afirmando que um carro de corrida é mais bonito que a lindíssima Vitória de Samotrácia e que todas as belezas amontoadas nos museus deveriam ser queimadas numa gigantesca pira.
Parece que, com sua loucura, somente querem e sabem destruir.
O Dadaísmo, as teorias psicoanalíticas de Freud e as incitantes incoerências da arte dos loucos, das crianças e dos primitivos indígenas, junto ao afã revolucionário, são o caldo de cultivo no qual se cozinhará a grande mistura do Surrealismo.

Tudo começou com um movimento literário promovido por seu padrinho André Breton (1896-1970), dissidente do Dadaísmo, que rompera com Tzara, lançou em Paris, o Manifesto do Surrealismo, em 1924.


André Breton


Depois de esclarecer que a palavra “Surrealismo” não teve sorte na maneira que alguns a utilizaram antes, André Breton a define proclamando-a no “Primeiro Manifesto Surrealismo” que em 1924, escreve e outros assinam com ele. Assim:

“SURREALISMO”: s.m. Automatismo psíquico puro por cujo meio tenta se expressar tanto verbalmente como por escrito, ou de qualquer outro modo, o funcionamento real do pensamento. Ditado do pensamento, com exclusão de todo controle exercido pela razão e à margem de qualquer preocupação estética.

ENCICLOPÉDIA: O Surrealismo se baseia na crença da realidade superior de certas formas de associação que tinham sido depreciadas, na onipotência do sonho, na atividade desinteressada do pensamento. Tende a provocar a ruína definitiva dos outros mecanismos psíquicos e a suplantá-lo na solução dos principais problemas da vida.

Em 1925 sai a “Declaração” em cujo final anuncia um Escritório de Investigações Surrealistas e que consta de um curto preâmbulo e de nove pontos:

Diante de uma falsa interpretação do nosso propósito estupidamente difundida em público. Declaramos algo que escapa a toda balbuciante crítica literária dramática, filosófica, exegética e inclusive teológica, contemporâneas:

1. Não temos nada a ver com a literatura; mas, em caso de necessidade, somos capazes de utilizá-la como fazem todos.
2. O Surrealismo não é um meio de expressão nu ou mais fácil, nem sequer uma metafísica da poesia. É um meio de libertação total do espírito e de tudo parecido a ele.
3. Estamos totalmente decididos a fazer a Revolução.
4. Associamos a palavra “surrealismo” a “revolução” somente para evidenciar, o caráter desinteressado, independente e inclusive, completamente desesperado desta revolução.
5. Não pretendemos mudar em nada os costumes dos homens, mas pensamos demonstrar a fragilidade de seus pensamentos e sobre que apoios vacilantes, sobre que cavernas edificaram suas mansões cambaleantes.
6. Lançamos esta solene advertência à sociedade; que preste atenção a seus desvarios, a cada um de seus passos em falso. Seremos implacáveis.
7. Em cada um dos cantos do seu pensamento, a sociedade voltará a se encontrar conosco.
8. Somos especialistas na revolta. Não existe meio de ação que, chegada a hora, não sejamos capazes de empregar.
9. Dirigimo-nos de maneira especial ao mundo ocidental; o Surrealismo existe. “O Surrealismo não é uma forma poética. É um grito do espírito que se revolve sobre si mesmo e que está totalmente disposto a triturar suas entranhas. Com autênticas marteladas, se for preciso!”

Em 1930, ANDRÉ BRETON escreve um longo ensaio que qualifica de “Segundo Manifesto do Surrealismo” que sintetizava o seguinte:



“É preciso convir que o surrealismo pretendia antes de tudo provocar, no intelectual e na moral, uma crise de consciência do tipo mais geral e mais grave possível e que o resultado ou o não resultado é a única coisa que pode determinar seu sucesso ou seu fracasso histórico”. O propósito era e é combater com qualquer procedimento “o caráter enganoso das velhas antinomias hipocritamente destinadas a impedir qualquer insólita inquietude humana, dando ao homem uma ideia pobre dos meios que dispõe e fazendo-o desesperar da possibilidade de escapar...á coação universal”.

“Saibam que a ideologia do Surrealismo tende simplesmente à total recuperação da nossa força psíquica por um meio que consiste no vertiginoso descenso ao interior de nós mesmos, na sistemática iluminação de zonas ocultas; e no escurecimento progressivo de outras zonas; no passeio perpétuo em plena zona proibida...”


O oculto e o proibido são as duas incitações mais fortes sentidas pelo pintor Surrealista: os sonhos, o subconsciente, as fantasias declaradas estúpidas, a imaginação insensata, as incoerências da dialética mental, as associações da psique, tudo o reprimido, o erotismo em sua mais crua e condenada realidade.
O onírico é um fator importante no Surrealismo. Os sonhos são lembrados pouco, mal e até com atormentadoras dificuldades. Não existe nenhuma mistificação reprovável em que, com isso, o artista pinte sonhos que não teve dormindo, já que, acordado, é um sonhador nato. O decisivo é criar um novo mundo visível, e não copiar mimeticamente o que tem diante dos seus olhos ou contempla pelos seus escuros ou claros espaços da mente.
O Surrealismo relaciona-se ao nascimento da livre associação e da análise dos sonhos freudiana.
As crenças racionalistas do poder que o homem teria de controlar os desejos e tornar-se o centro de suas próprias decisões foram seriamente abaladas pela teoria psicanálise, desenvolvida por Freud (1856-1939), através da “A Interpretação dos sonhos” (1900).


As dimensões da vida e do pensamento não podiam mais ser orientadas pelas referências herdadas do passado. Era o momento de o indivíduo estabelecer uma nova relação consigo mesmo e com o mundo em que vivia.

As bases da psicanálise eram:
ID – lado agressivo; desejos sexuais; livre das imposições culturais e sociais e, a busca do prazer.
EGO – percepção; formas de encontrar a realização do desejo contido no ID. Quando os impulsos são inaceitáveis (contrariam as regras de convivência social), o EGO defende-se através dos mecanismos de repressão e defesa psíquica contra os ataques e demandas irracionais do ID.
SUPEREGO – censor do ID. É nele que ficam guardadas as proibições e as regras socialmente impostas ao indivíduo.
ID (desejos individuais) – EGO (árbitro desse embate) – SUPEREGO (regras coletivas)


Não resta dúvida de que o amplo desenvolvimento da psicanálise levou a uma nova concepção de moral cada vez mais orientada na direção do homem concreto, com ênfase aos valores da vida e da espontaneidade, o que certamente ajudou na superação de preconceitos e comportamentos hipócritas, bem como na valorização do corpo e das paixões.
O Surrealismo (1924) propunha a emancipação total do ser humano, para que este se libertasse da lógica, da razão, da inteligência crítica e ainda da religião, da família e da moral, apoiando-se nas bases psicanalíticas freudianas sobre o subconsciente, os sonhos, a hipnose e a cura através do processo terapêutico.
Partindo das regras burguesas de um mundo dito civilizado, quem não era louco passa a ser, por exemplo: a mulher que não se casa, torna-se “tia” ou prostituta e daí, surge à histeria, considerado por Charcot como distúrbios femininos, que vinha do útero.
Freud passa a estudar esses distúrbios e desenvolve uma linha própria, concluindo que a mulher tem necessidade de falar. Como a mulher burguesa não era ouvida, pois não produzia, Freud coloca-as num divã olhando para o teto e deixa-as a falar a vontade.
Uma pessoa deitada em um divã, olhando para o teto e falando sozinha, não está construindo um discurso, pois não tem retorno, porque não existe um interlocutor. O analista não está interessa na coerência desse monólogo; mas, sim, nas palavras aleatórias e fazer conexões entre elas. Essas livres associações acabam transmitindo o “funcionamento do pensamento”. Como desconhecemos os nossos desejos e geralmente somos despertados pela mídia, somos impotentes para saber sobre nossos males e é isso que interessa aos analistas.
O caráter simbólico com imagens sem sentindo com a razão, desperta uma lógica própria e revela o inconsciente. Esses símbolos, por exemplo: gavetas e caixas representando o sexo feminino e os objetos pontiagudos, referências ao sexo masculino, são retomados na cena do filme “O cão andaluz” de Luis Buñuel e Salvador Dali.


Partindo desse estudo, conclui-se que a repressão sexual originou os Complexos de Édipo e Electra. Por volta dos anos trinta, percebe-se que não era somente repressão sexual, mas também a repressão da moral burguesa advinda do processo civilizador e a processo moralizador que eram responsáveis pelo desequilíbrio nas pessoas.
Em 1919, os textos de Freud começam a serem traduzidos na França por André Breton (na época, estudante de medicina). Através de experiências com contatos com pessoas com traumas de guerra, Breton torna-se um ativista e relaciona a escrita automática com as palavras aleatórias ditas ao analista, dando um “funcionamento do pensamento”.
Lembrando-se que o século XX é o tempo da lógica, do capitalismo e das fábricas, o Surrealismo apresenta uma proposta revolucionária: libertação na mente para a estética (Belo) e da moral (Bom e mau), sexualmente e artisticamente.


III – CARACTERÍSTICAS:



Desiludidos com o radicalismo e com o niilismo dos dadaístas, André Breton e seu grupo acreditavam que a ação demolidora deveria ser somente uma das etapas de processo criativo. Buscavam uma nova cultura ligada a uma filosofia de pensamento e ação, em que a liberdade era extremamente valorizada e, apesar de seu ativismo e até incongruência serem bem próximos ao dadaísmo, difere-se deste, principalmente por ter uma vocação construtiva que faltava ao seu antecessor.

“(...) as profundezas de nosso espírito abrigam forças estranhas capazes de aumentar as da superfície...”
“O sonho não pode ser também aplicado à solução das questões fundamentais da vida?”
“Conta-se que, diariamente na hora de adormecer, Saint-Pol-Roux mandava colocar sobre a porta de sua mansão (...) um aviso onde se lia: O POETA TRABALHA.”

Esses fragmentos do Manifesto Surrealista deixam bem claros seus objetivos: sondagem do mundo interior, em busca do homem primitivo, da liberação do inconsciente, ou seja, tentar alcançar uma realidade situada no subconsciente, no inconsciente, da valorização do sonho.



“O Surrealismo se baseia na onipotência do sonho e no desinteressado jogo do pensamento; sua finalidade é resolver as condições previamente contraditórias de sonho e realidade, para criar uma realidade absoluta, uma super-realidade”.



São características do Surrealismo:

- Aproximando-se do Romantismo e o Simbolismo, são constantes no Surrealismo; o dualismo entre o otimismo e a melancolia; o tédio e a esperança; a vida vivida e a vida pensada; o sonho e a realidade; a fluidez; o delírio; as imagens vagas; o medo; a solidão e a morte;
- Ilogismo;
- Automatismo verbal e escrito, método pelo qual o artista deixa-se levar pelo seu impulso e registra o que a inspiração lhe dita, sem se preocupar com a lógica;
- Ação mágica, o mito, o maravilhoso e o sobrenatural;
- Humor negro;
- Automatismo psíquico, o inconsciente, a investigação onírica, valorizando um anti-racionalismo, a livre associação de pensamentos e os sonhos, norteado pelas teorias psicanalíticas de Freud;
- Livre de regras, critérios ou juízos;
- Outra realidade interna, vida psíquica, falta de consciência.

Não se trata de fazer uma arte “bela”. Ela é livre da estética, o que interessa é o fluxo, o processo.
Seu objetivo é causar no espectador uma reflexão, servindo como ponto de partida para a associação individual (o que ela simboliza para o observador).
É uma arte para ficar especulando a sua função e tem a função de exigir que o espectador, torne-se um produtor de sentidos. Portanto, não é uma arte narrativa e, sim, associativa; de caráter ilusionista; o lugar não é real; uma “coisa” que parece ser “outra”; títulos casuais e imagens fugidias com nos sonhos.
O Surrealismo conhece uma ruptura interna quando Breton faz uma opção pela arte revolucionária, influenciado que estava pelo marxismo. Muitos seguidores do movimento não admitiam o engajamento da arte, criando assim uma divisão entre os surrealistas comunistas e os não comunistas.
Seguindo a tradição dos demais movimentos do século XX, o Surrealismo era composto por grandes individualidades, que lhe deram importantes e diferentes contribuições.
Seus principais expoentes foram: Hans Arp, Joan Miró, Kurt Schwitters, Marcel Duchamp, Max Ernst, Salvador Dalí, André Masson, René Magritte, entre outros.

2 comentários:

G. HANOCH disse...

Fantástico...! Belo texto! Parabéns pela pesquisa! Um abraço!

belicas disse...

Parabéns pelo artigo ,gostei muito Isabel Lopes prima de António Maria Lisboa