“Emoção, humor e sensibilidade na trajetória de um garoto que vive seu rito de passagem cercado pela magia do futebol, descobrindo o valor da amizade, solidariedade, o sexo e a maior das lições: não se pode controlar cada lance da vida, como em uma solitária partida de futebol de botão”, Cao Hamburguer.
I – APRESENTAÇÃO:
Ficha Técnica:
Título Original: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Estúdio: Gullane Filmes / Caos Produções Cinematográficas / Miravista / Globo
Filmes
Distribuição: Buena Vista International
Direção: Cao Hamburger
Roteiro: Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert e Cao Hamburger,
baseado em história original de Cláudio Galperin e Cao Hamburger
Produção: Caio Gullane, Cao Hamburger e Fabiano Gullane
Música: Beto Villares
Fotografia: Adriano Goldman
Direção de Arte: Cássio Amarante
Figurino: Cristina Camargo
Edição: Daniel Rezende
Elenco:
Michel Joelsas (Mauro)
Germano Haiut (Shlomo)
Daniela Piepszyk (Hanna)
Caio Blat (Ítalo)
Paulo Autran (Mótel)
Simone Spoladore (Bia)
Eduardo Moreira (Daniel)
Liliana Castro (Irene)
Premiações:
– Ganhou 3 prêmios no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, nas categorias de
Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Foi ainda
indicado nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Caio Blat e
Germano Hault), Melhor Atriz Coadjuvante (Simone Spoladore), Melhor Figurino,
Melhor Maquiagem, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição – Ficção, Melhor
Fotografia e Melhor Som.
– Ganhou o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cinema Latino-Americano de
Huelva.
– Ganhou o Troféu Redentor de Melhor Filme – Júri Popular, no Festival do Rio.
– Ganhou o Prêmio do Júri – Menção Honrosa e o Prêmio Petrobras Cultural de
Difusão – Melhor Filme de Ficção, na Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo.
– Ganhou 4 troféus no prêmio da Academia Brasileira de Cinematografia, nas
categorias de Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Som e Melhor
Edição.
– Ganhou 2 prêmios no Prêmio ACIE de Cinema, nas categorias de Melhor Filme e
Melhor Roteiro. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Diretor, Melhor
Ator (Michael Joelsas) e Melhor Fotografia.
– Ganhou 5 prêmios do Prêmio Fiesp/Sesi-SP do Cinema Paulista, nas categorias
de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Germano Haiut),
Melhor Atriz Coadjuvante (Daniela Piepszyk) e Melhor Direção de Arte. Foi ainda
indicado nas categorias de Melhor Ator (Michel Josias), Melhor Ator Coadjuvante
(Caio Blat), Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Trilha
Sonora.
Curiosidades:
O filme é o segundo longa-metragem de Cao Hamburger:
• A linguagem primorosa do diretor criou um filme capaz de sensibilizar adultos
e crianças, e, informar a ambivalência vivida durante a chamada Era de Chumbo
da Ditadura Militar. O contraste da vivacidade do menino Mauro com a pulsante
violência repressora que inunda misteriosamente a vida do país torna o filme
intenso, delicado e comovente;
• O roteiro demorou quatro anos para ser feito e passou por quatro pessoas: o
próprio Cao, Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert, que são
homenageados no filme com os papéis infantis dos amiguinhos de Mauro, no Bairro
do Bom Retiro;
• Foi realizada uma pesquisa com mais de mil crianças, para a seleção dos
intérpretes dos personagens pré-adolescentes de “O Ano em que Meus Pais Saíram
de Férias”;
As filmagens duraram 8 semanas;
O orçamento de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” foi de R$ 3 milhões;
• O filme não é feito só de colagens. Muita coisa saiu da própria vida dos
realizadores. Hamburguer viu o pai judeu e a mãe católica serem presos pela
ditadura. E também atuou como goleiro no time da infância. Essas memórias
afetivas respondem pelos melhores momentos do filme.
Estreou na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2006.
II – TÍTULO:
“O ano em que meus pais saíram de férias” (2006) não teria esse título se não
fosse um humor de mercado. Convenceram o diretor Cao Hamburguer de que “Vida de
Goleiro”, o nome original, afastaria o público feminino. A mudança faz sentido,
mas o anterior era mais abrangente, mesmo porque a metáfora futebolística se
faz muito presente.
III – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:
“O ano em que meus pais saíram de férias” dialoga com a história/memória de uma
criança no período de vigência do Ato Institucional de nº. 5 – AI-5 (1968/1978).
O Brasil sofria o auge do regime militar sob o governo do general Emilio
Garrastazu Médici. Em junho, mesmo com a situação política conturbada pela qual
o país passava a seleção de Pelé, Tostão e Rivelino conquistaram o
tricampeonato do mundo de futebol no México. Enquanto isso, os pais do garoto
Mauro “saíram de férias”.
Embora o diretor consiga restituir o cenário da época e construir um clima de
tensão muito melhor que muitas produções que abordam o tema, a intenção do
filme não é a de narrar os acontecimentos referentes ao período histórico cujos
resquícios ainda se encontram presentes. Tanto a ditadura quanto a conquista do
tri funcionam apenas como pano de fundo para o filme; um contexto histórico que
cria relações com aquilo que de fato se deseja mostrar.
A produção do filme se esmerou na reconstituição visual de época. Alguns signos
são apresentados ensejando “diálogos” com a memória. A narrativa chega a
provocar nostalgia quanto às diversões da época. O diálogo pode ser descrito como
pretendendo uma “reação responsiva” emocional, fundamental para conquistar a
anuência do público.
Não faltaram as pichações de “Abaixo a ditadura!” tão frequentes na paisagem
urbana daqueles anos, completamente ininteligível para os analfabetos
políticos, como a maioria das crianças de dez anos.
Os diálogos aqui operam em dois sentidos: um relativo propriamente ao
conhecimento histórico, outro voltados para aqueles que da mesma idade de
Mauro, liam as pichações nas paredes e muros e não as entendiam. Mauro, ao se
relacionar com Shlomo, ao dialogar com o mundo que se descortina diante de seus
olhos de diversas maneiras, Mauro/Cao Hamburger também tece para o público um
diálogo e uma reconciliação entre essas duas gerações.
IV – RESUMO DO ENREDO:
Mauro, interpretado pelo ator-mirim Michel Joelsas, tem 12 anos, adora futebol
e jogo de botão. Vive no “país do futebol” às vésperas da Copa do Mundo de
1970. Como qualquer menino brasileiro, Mauro queria acompanhar aos jogos,
torcer e vibrar ao lado de seus pais.
A vida confortável junto a sua família permitiu-o investir em suas brincadeiras
e desafios no tabuleiro de botão. Mauro projetou seguranças e até a
possibilidade de vitória. Entretanto, a vida estável de filho único, sofre
grandes transformações: seus pais, Daniel e Miriam, de aproximadamente 30 anos,
são dois militantes da esquerda e são forçados a “sair de férias” (eufemismo
utilizado para exílio), devido às perseguições políticas da época.
Mauro, assim, como um goleiro solitário, vê-se obrigado a abandonar o seu mundo
de aconchego familiar, de forma inesperada e sem motivo aparente, e é levado de
Belo Horizonte para São Paulo para viver com o avô (Paulo Autran), um judeu
morador do bairro do Bom Retiro. O bairro do Bom Retiro é famoso por ter
abrigado imigrantes, tanto brasileiros, nordestinos vindos para o sudeste em
meados da década de 60, quanto estrangeiros, destacando-se nesse último judeus
e italianos. Deixarem-no com a suposta certeza de que Mauro seria cuidado por
seu avô. Durante a viagem, seus olhos ávidos captam as novidades na estrada, os
soldados, a cidade de São Paulo, o elevador que não sabe utilizar, a língua
falada pelas vizinhas, o hebraico, a qual não compreende, entre outros.
O que os pais não esperavam é que o avô paterno falecesse no mesmo dia em que o
menino chegou a São Paulo.
Mauro está prestes a experimentar uma dura aprendizagem de vida. Com a ausência
de seus pais, Mauro entra em contato com um mundo totalmente diferenciado do
seu habitual, onde a renúncia, a solidão e a incerteza passam a ser suas
companheiras. E, como um goleiro, o menino deveria defender-se e conquistar dia
a dia sua vitória pessoal.
Mauro, então, inicia sua travessia de descobertas e aceitações.
O menino é obrigado a viver com Shlomo (interpretado pelo ator amador
pernambucano Germano Haiut), judeu ortodoxo e vizinho de seu avô que o
abriga. No entanto, esse acolhimento não será fácil a principiar pelo
conflito cultural e de gerações. Mauro, embora não seja filho de uma judia, seu
pai e o avô são judeus, porém ele é considerado um gói (um não judeu) pela
comunidade judaica.
Mauro está sujeito à solidariedade e a sobrevivência de Schlomo, a quem terá
que confiar e ater-se, e reluta em compartilhar e interagir (chega a urinar no
vaso de plantas); passa os dias ao lado do telefone aguardando notícias de seus
pais, que prometeram voltar a tempo do começo da Copa; não quer tomar banho nem
se alimentar. A tristeza, a depressão e a angústia devastavam seu peito e seus
dias.
A sua “aceitação da nova vida” implicaria diretamente na consciência de seu
abandono e, isso, Mauro jamais aceitaria.
Para ilustrar esse momento na vida do garoto, Cao recorreu a metáfora do
goleiro: assim como o jogador está fadado a uma condição solitária durante uma
partida de futebol, Mauro também está sozinho em um ambiente diferente daquele
o qual era acostumado em Minas. Ele não frequenta a escola nem tem companheiros
para jogar futebol. Diante tantas ameaças, amedrontado Mauro até arrisca sua
vida, ao tentar passar de uma sacada do prédio, a outra para poder atender ao
telefone.
O menino Mauro, antes personagem secundária torna-se protagonista da sua
história. À medida que espera seus pais, adapta-se a um universo estranho a
ele, obrigando-o a conviver com pessoas e realidades diferentes da sua,
alterando seu cotidiano.
A nova realidade solidária em que a personagem é inserida arquiteta um limite
para aparelhar sua nova vida, no tempo e no espaço. Mauro necessitará
desenvolver-se intelectualmente e emocionalmente para adequar-se aos novos
elementos humanos e culturais.
Paralelo a essa crise existencial estabelecida, tem-se de pano de fundo o
contexto político do ano de 1970. Assim, como o país enfrentava um clima de
tensão, devido à pressão provocada pela ditadura misturada a expectativa da
copa do mundo, o menino Mauro também passava por um momento de instabilidade,
incompletude, aguardo e espera.
Aos poucos, Mauro, torna-se Mosha, seu novo apelido, e é aceito na comunidade
na qual não fazem parte, apenas, judeus, mas italianos, gregos, negros e, esta
pluralidade racial vai enriquecendo suas relações interpessoais.
Mauro, então, conquista autonomia emocional para superar o desespero de estar
só no mundo e aprende com o que vive. Consegue parceiros para brincar e jogar
futebol; repara na garota bonita do bairro; veste as luvas de couro do avô com
curiosidade; vibra ao completar seu álbum de figurinhas; conhece as
mulheres despidas (quando os meninos pagam à Hanna, espécie de par romântico de
Mauro, a fim de ver mulheres se trocando pelo buraco da parede da loja, onde a
mãe da menina trabalha) e tantas outras emoções, inclusive, pode sonhar em ser
negro e voador, torcer pelo Brasil, conhecer seus antepassados e a sua origem.
Em outro momento, assistimos a comemoração solitária de Mauro de um gol,
enquanto a câmera enfoca-o do lado de fora do apartamento, e com as janelas
fechadas. No entanto, vemos Mauro gritar, mas o som é abafado.
Também somos surpreendidos com o início da transmissão do jogo entre
Tchecoslováquia e Brasil. Ítalo, um jovem universitário interpretado por Caio
Blat, proclama: “Se o Brasil perder, será bom – será uma vitória do
comunismo!”. Os amigos concordam e até tentam comemorar quando a
Tchecoslováquia faz o primeiro gol da partida, mas soltam a voz de verdade,
pulam e se emocionam nos gols do Brasil, o patriotismo falando mais alto que a
ideologia política, pouco importando, na prática, se Médici aproveitara a transmissão
para fazer propaganda da ditadura.
O final previsível não retira nenhum dos méritos alcançados durante o
desenvolvimento do filme. Com o retorno da mãe, ecoa aos ouvidos a palavra
“saudade”, remetendo a pensar na transformação de duas outras palavras
experiências-emocionais observadas no filme, a falta e a ausência. Apesar de
Mauro ter aprendido através do sofrimento, venceu essa etapa por meio do
amadurecimento.
O Brasil é tricampeão, todos comemoram e é nessa época que sua mãe retorna para
buscá-lo, seu pai, entretanto, não volta. Ao final do filme, Mauro conta que
fora exilado, sem, porém, entender o real significado da palavra.
“E, mesmo sem querer, nem entender direito, eu acabei virando uma coisa
chamada exilado.” Mauro, personagem-mirim de ”O ano que meus pais saíram de
férias”.
V – CONSIDERAÇÕES FINAIS:
É importante ressaltar que em “O ano em que meus pais saíram de férias” o
diretor criou uma obra lírica, psicanalítica, social e histórica. Para tanto,
não recorreu às cenas de tortura para retratar o clima de insegurança da
sociedade, embora recriasse com precisão absoluta a ambientação, o figurino e
os diálogos daquele período. Assim, o momento em que os soldados perseguem
estudantes dá o recado sem apelação.
Durante o desenvolvimento de Mauro, a ansiedade gerada pela promessa feita
pelos pais de retornarem no início da copa segue paralelamente aos momentos de
felicidade proporcionados pela copa do mundo e pela descoberta de novos amigos,
do amor, da solidariedade e até mesmo da sexualidade. E o êxito é alcançado
graças à forma que Cao utilizou para transmitir ao espectador o momento de
transição.
Traçando um paralelo com a temática do filme e a história bíblica de Moisés,
percebe-se que com a multiplicação das famílias descendentes dos doze filhos de
Jacó, e a ascensão ao trono do Egito de um faraó que, desconhecendo a história
de José e temeroso de que os “israelitas” ficassem mais fortes e numerosos que
os egípcios, decidiu escravizá-los; como os hebreus continuaram a
multiplicar-se, o faraó intimou as parteiras a matar os filhos homens, por
ocasião do nascimento das crianças, poupando apenas as filhas mulheres; como a
ordem não bastou, tomou uma terceira medida: todo menino que nascesse seria
atirado ao Nilo, devendo ser poupadas as meninas. Nestas circunstâncias a mãe
de Moisés o esconde por três meses, até que o coloca numa cesta de junco untada
com betume e pez e o coloca no Nilo; a filha do faraó encontra a criança e este
se torna parte da família do rei, ou seja, um príncipe. A figura de Moises é
importantíssima para os judeus, pois ele lutou contra a escravidão de seu povo
e sobre ele edifica a primeira ordem religiosa sob as tábuas da lei que Deus o
entrega.
Diante desta narrativa bíblica, pode-se observar dois pontos relevantes ao
filme: Mauro é ao mesmo tempo abandonado e salvo por seus pais, ou seja, seus
pais se veem obrigados a abandoná-lo diante da ameaça e da perseguição
política. Outro ponto, é o quanto Mauro torna-se importante naquela comunidade,
assim como Mosha é importante na história dos hebreus. Por Mauro são realizadas
reuniões, almoços em revezamento, Scholmo, descobre-se acolhedor afetivo, vai
até Belo Horizonte, para buscar explicações sobre o sumiço dos pais de Mauro e
ajudá-lo. Uma grande movimentação e comoção são desencadeadas a partir do
aparecimento de Mosha. Mauro revitaliza quem se solidarizou com ele, sua
presença cria vínculos e relações novas. Fazendo uma analogia à história de
Mosha-Moisés-Mauro, e, considerando assim a importância da história de Moisés
para o judaísmo, pode-se também entender a importância do aparecimento de Mauro
ali no Bom Retiro. Ele é transformador e se transforma nas relações que
experimenta.
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