terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

BARROCO II - ROMA - CARAVAGGIO (1571-1610)


Chamado de “Gênio do mal”, “anti-Cristo da pintura”, Caravaggio foi o primeiro e o último artista que explorou o contraste de luz e sombras.

O escritor vitoriano John Ruskin o acusou de “se alimentar perpetuamente...de horror, feiúra e da sujeira do pecado”; contudo, foi o mais original artista do século XVII.
Na visão do pintor contemporâneo Poussin, ele era um subversivo; para a polícia, um homicida; para os grandes artistas, um inovador e um mestre que tornou a pintura religiosa ao mesmo tempo hiper-real e imediata.

Em arte, tudo o que não for tirado da vida é frivolidade”, afirmava o artista.

Boêmio e rebelde aliou-se à escória da sociedade, viveu rodeado de intrigas, brigas e fugiu de Roma para se livrar da prisão por assassinato. Vagou de cidade a cidade, sempre deixando problemas e escândalos para trás. Desprezava o tradicionalismo, principalmente a pintura renascentista. No lugar de uma pintura nos padrões dos ideais de modelos clássicos, preferiu pintar uma cigana que encontrou na rua, substituindo a beleza ideal renascentista por uma personagem marginal.
Caravaggio afirmava que as vielas e as ruas de má fama, a gente desprezível que ele pintava, eram a única fonte verdadeira da arte e não as normas decretadas por outros.
Morreu aos 37 anos de idade.

CARACTERÍSTICAS:


As suas primeiras obras mostram-nos uma representação exata, baseada na atenção meticulosa às texturas e cores locais de objetos de que podia dispor em seu estúdio: arranjos de frutos e flores, garrafas de vinho, móveis, roupas, espadas etc. Sabe-se até que possuiu um par de asas de pássaro. Todas essas coisas aparecem, na sua pintura, principalmente nas primeiras que são mais coloridas.

Com relação às figuras vivas, encontrou muitas dificuldades para fazer com que um modelo ou vários modelos posassem no estúdio; além da impossibilidade de pintar figuras em ação violenta.
Caravaggio concentrava-se em temas violentos envolvendo membros agitados e rostos contorcidos, e era capaz de criar uma convincente imagem, porém não resolvia o problema do movimento. Perante essa fraqueza, suas figuras parecem paralisadas, quase gélidas.
Seu cenário afasta-se do realismo, apresenta uma espécie de muralha de escuridão que cai atrás das figuras como uma cortina impenetrável.
Considerado um artista realista pelos detalhes de superfície, ao mesmo tempo, falta-lhe a capacidade de reunir os detalhes para que forme um todo convincente.
O artista se distingue na perfeição aos fatos físicos e psicológicos de uma circunstância.
Em suas últimas obras, observamos que as vestimentas pitorescas e a natureza morta estão quase ausentes; porém, não despreza o pormenor de um rendilhado de uma peça de vestuário o grão de uma peça de madeira ou o gume afiado de uma lâmina de espada.
Esses detalhes correspondem às pequenas coisas que o olho registra em momentos de crise, refletindo dessa maneira o realismo psicológico do ser humano.
Caravaggio foi um realista, sobretudo na sua escolha de personagens. Transformou os santos em pessoas comuns e os milagres, em eventos do cotidiano. Uma Madalena ou uma Santa Catarina, por Caravaggio, é uma moça romana comum trajando roupas de sua época e somente identificável como santa por seus atributos. Embora se especializasse em pinturas religiosas, defendia a “pintura direta” da natureza e diretamente dos cortiços mais baixos, afastando-se da tradição de representar as figuras sagradas como heróis, criando dessa forma, o anti-herói na arte religiosa.
Retrata os episódios bíblicos em cantos sombrios e as suas personagens trajam roupas descoloridas e modestas. Pessoas comuns e anônimas rodeiam a figura de Cristo ou os santos, que por muitas vezes apresentam os pés sujos, fazendo que suas pinturas fossem altamente rejeitas pela igreja na época. Mas, baseando-se na concepção sustentada pela Contra-Reforma, de que a fé era acessível a todos, Caravaggio tornou-se um grande inovador na época.
O pintor usa a perspectiva de modo a trazer o espectador para dentro da ação. O “chiaroscuro” captura as emoções e intensifica o impacto da cena por meio dos contrastes de luz e sombra.
Essa encenação não tradicional; mas, sim teatral, joga um foco de luz crua sobre o tema do primeiro plano atraindo à atenção do espectador e transmitindo a força da narrativa e a reação psicológica das personagens.




“Baco”, 1593-1594


"A luz na arte de Caravaggio é, por vezes, muito mais do que simples meio de iluminação: é uma força ativa. O poder de Cristo em Vocação de São Mateus se manifesta pelo agudo e cortante facho de luz que acompanha sua presença. E São Paulo, no quadro que mostra sua conversão parece ter sido atirado ao chão pela ofuscante luz que vem do alto."


O futuro apóstolo está numa taverna escura, cercado de homens chiques contando dinheiro, quando Cristo ordena: “Siga-me.” Um foco de luz diagonal ilumina a expressão aterrada e o gesto de perplexidade do coletor de impostos.
Observe como a luz que ilumina a cena vem da direita e não da janela que está no fundo, como seria natural. Essa luz dirige a atenção do observador para o grupo sentado em torno da mesa.
O contraste de luz e sombra valoriza a pintura, pois os corpos ganham volume; observe como parecem esculturas, e não desenhos bidimensionais, isto é, pintados apenas com altura e largura.


“Ceia em Emaús”, 1601

O artista apresenta o momento em que os apóstolos descobrem que seu companheiro à mesa é o Cristo ressuscitado como se fosse um encontro inesperado num bar. Os discípulos empurrando as cadeiras para trás e estendendo os braços, uma tigela de frutas secas prestes a cair da mesa, fazem a ação saltar para fora do quadro, envolvendo o espectador na cena.

Os peregrinos estão vestidos à moderna e Jesus à antiga. Ele benze os alimentos, depois da ressurreição.
A pintura é também o expoente da técnica por Caravaggio concebida, o tenebrismo, a qual consiste na aplicação de um fundo escuro, muitas vezes completamente negro, e incidência de focos de luz sobre os detalhes, normalmente nos rostos.
A cena desenrola-se numa modesta casa em Emmaus, onde se encontram os peregrinos. Reflecte o instante no qual Jesus abençoa a refeição, revelando-se aos seus interlocutores e que retribuem com expressões de espanto ou choque. Embora conste no centro da ação e seja alvo da atenção e espanto dos três pescadores, Jesus não surge aparentando ser uma divindade, mas sim um conselheiro, como exemplo.



“A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco”, 1600-16001

Caravaggio mostra São Paulo estendido no chão, caído de um cavalo cuja traseira é pintada em primeiro plano. O foco de luz crua revela detalhes como as veias das pernas do cavalariço e sulcos na armadura de São Paulo; enquanto que, os elementos não essenciais, desaparecem no fundo escuro. A crina branca emenda com a pata nos leva a Paulo (Saulo de Tarso que através de um raio, “a luz divina”, caiu do cavalo e criou o cristianismo).



Crucificação de São Pedro”, 1601.
 
 
“Morte da Virgem”, 1605.
 
O artista usando o corpo de uma afogada como modelo para a Virgem, irreverentemente representando a Madonna com pés descalços e corpo intumescido, cercada por populares consternados. Embora o quadro fosse recusado pela paróquia que o encomendara, foi comprado pelo duque de Mãntua, a conselho do pintor de sua corte, Rubens.
O drama humanístico é recuperado no seu valor total, de perda e de dor, de verdadeira derrota: um destino irremediável, que a cabeça inclinada de Madalena, em primeiro plano, descreve com algo de perda inconsolável. Embora, a obra se trate de uma cena de morte “sagrada” a obra revela uma intensa observação do real e um sentimento de desespero perante um acontecimento insondável e, contudo, inevitável.


“David com a cabeça de Golias”, 1600.

 
São Jerônimo, um dos quatro doutores da Igreja (estatuto conseguido após a sua morte e que partilha com Santo Ambrósio, Santo Agostinho de Hipona e São Gregório Magno), foi quem traduziu para latim a versão grega do Antigo e do Novo Testamento, tarefa que lhe levou mais de 20 anos de vida. É conhecida por Vulgata, pois estava escrita na língua mais utilizada na Igreja do Ocidente. É por isso uma figura importante para o Catolicismo. No entanto, a Igreja Protestante tinha intenções de mandar traduzir a Bíblia para os idiomas locais onde o Protestantismo vigorava. Uma vez que os católicos faziam questão que se difundisse apenas á versão de São Jerônimo, durante muito tempo a discussão foi subindo de tom.

Caravaggio, bem como outros pintores, optou por retratar São Jerônimo na sua gruta, já idoso, a traduzir a Bíblia. Perto dele tem um dos seus atributos, a caveira que "olha" para a pena quase "abandonada" enquanto o santo olha para a página que é a "pele a pele" da carne do braço com a "carne" do livro, além de estar coberto com as vestes encarnadas que lhe são próprias. Não há sinais do modelo de uma igreja (que simboliza o seu contributo para a Igreja) nem do leão (que alude a uma passagem da vida do santo, quando este no deserto retirou um espinho da pata de um leão, passagem esta que por sua vez tem ligação com a história romana de Audrocles). E mesmo que aparentemente o quadro não tenha nada de especial, ele está cheio de incoerências, ou teasers, como prefiro chamar-lhe, embora estes estejam acessíveis a quem conhece a história. Ora vamos lá ver: foi aos 19 anos de idade que São Jerônimo se retirou para o deserto sírio a fim de meditar e se tornar ermita. Por isso não se compreende a razão de Caravaggio pintá-lo como um velho. Em segundo lugar, a tradução da Bíblia foi posterior a esse período de recolhimento e já em Roma, logo São Jerônimo não podia estar em local tão obscuro. E mesmo que dúvidas houvesse quanto ao local, sabe-se que São Jerônimo não estava assim tão velho quando fez a tradução. O crânio ali colocado é quase uma premonição da sua morte por estar tão próximo do crânio do próprio pintor. Por fim São Jerônimo apresenta as suas vestes encarnadas (e em alguns casos o chapéu de cardeal) próprias dos doutores da Igreja, mas a verdade é que quando o quadro foi pintado, esse “cargo” ainda não existia. Algo que também é assinalável é que Caravaggio pinta São Jerônimo como um velho, quando alguns modelos anteriores o pintavam como um escolástico jovem e saudável. Caravaggio pinta-o como um velho às portas da morte, com os seus músculos fracos e a pela muito branca exposta.
A riqueza da composição cheia de linhas paralelas e perpendiculares é quase infinita, é a "simetria" da caveira com a cabeça calva do santo.
   O David de Caravaggio é áspero, trágico e ambíguo, em suas implicações. As superfícies realisticamente pintadas, a escuridão, a espada, e a violência são o timbre de sua arte, e a cabeça de Golias foi modelada segundo as feições do próprio pintor.


São Jerônimo”, 1571 – 1610.

   Deus da desmedida. Com uma aparência bem afeminada, apresenta a pintura interna (gabinete), retratando a figura sem pernas, porém com realismo nas frutas e com objetos em cena. Com um fundo neutro e apresentando uma figura desnuda, o artista fecha o ângulo no que lhe interessa, delimitando um ponto de vista.


“Repouso durante a fuga para o Egito”

É um exemplo do estilo inicial do pintor, precedendo a característica maneira “escura” por ele desenvolvida subsequentemente, com a qual alterou, decisivamente, a face da arte européia. As suas primeiras pinturas são executadas em cores fortes e claras, quase sem sombras e com uma atenção esmerada aos detalhes de superfície; principalmente nas asas do anjo. A pose do anjo, contudo, ainda é maneirista.


 “A dúvida de Tomé”

O primeiro aspecto que chama a atenção no quadro de Caravaggio é o contraste entre luz e sombra, característico da técnica do “chiaroscuro”. Os contornos claros e precisos, típicos da estética renascentista, perdem espaço para a imprecisão barroca que caracteriza o ser humano de forma menos idealizada.

Outra característica barroca é a tendência de retratar a realidade de modo exagerado (hiper-realismo). No quadro, isso é exemplificado pelo registro perfeito do dedo que São Tomé coloca na chaga de Cristo (a impressão que se tem é a de que ele levanta a pele e coloca o dedo no interior da ferida). O resultado final mostra a harmonia dissonante da estética barroca. O momento retratado é sublime: Jesus, ressuscitado, surge entre seus apóstolos. O dedo que remexe a ferida, porém, assinala a incredulidade humana, o desejo de se certificar antes de aceitar o que parece impossível.


“Chamado de São Mateus”

Um comentário:

Mylena Andrade disse...

Eu queria que falase mais sobre a obra vocação de São Matheus, por que eu estou fazendo um trabalho sobre essa obra mais ainda não estou consequindo explicar nada... Se poder postar mais coisas agradeço... Obrigado(a)!!!