I – AUTOR:
IACYR ANDERSON FREITAS nasceu em
Patrocínio do Muriaé-MG, em 22 de setembro de 1963. Formado
Sua obra se encontra bastante
divulgada em outras línguas e países (Colômbia, Espanha, Argentina, Estados
Unidos, França, Chile, Malta, Itália e Portugal). Além de colaborar
intensamente na imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em “Sertã” (Espanha), Saudade (Portugal), “Private” (Itália), “Comum Presencia” (Colômbia), “Punto
di vista” (Itália), “O comércio do Porto” (Portugal), “Los rollos del mal muerto” (Argentina), “Internacional Poetry Reiew” (USA), “Ricerca research recherche” (Itália), “Fokus” (Malta) e “Rimbaud Revue” (França), entre outros.
II –
CARACTERÍSTICAS:
Surpresa, no entanto, é defrontarmo-nos com o ficcionista Iacyr
Anderson Freitas, que se mostra por inteiro nesse volume de contos, “Trinca dos
traídos”.
Consciente do imenso abismo que separa os gêneros, o autor assume como
prosador uma faceta nova, como se outra mão se nos apresentasse para guiar,
outra voz se elevasse a clamar contra o absurdo da vida.
O poeta não abandona o ficcionista, mas deixa-o livre para erigir
universos próprios, onde a condição humana, matéria-prima de todas as suas
preocupações, seja mais uma vez interpelada, agora sob outras formas.
É curioso que, num momento em que apela, uma certa linhagem de
prosadores, para a linguagem neonaturalista, quase jornalística, ou até mesmo
mimética, pseudo-realista, Iacyr venha se apresentar vestido numa roupagem
clássica, em tudo estranha e em tudo próxima.
Uma escolha na qual se percebe sua urgência em transcender o instante e
buscar o que realmente interessa, a essência da arte literária.
O autor não esconde a linhagem a que pertence: basta observarmos as epígrafes
de cada um dos contos – particularmente os prosadores, Franz Kafka, Osman Lins,
Machado de Assis, Albert Camus, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges.
O desconforto do homem, náufrago na inautenticidade, é o tema; a
linguagem poética, a tentativa de traduzir esses estados de alma.”
Iacyr constitui um dos principais representantes da lírica brasileira, assumindo um lugar de destaque entre os revoltosos contra o vanguardismo teórico do concretismo e do neoconcretismo. Sem desprezar as conquistas estéticas do passado, o poeta é moderno em seu permanente diálogo com os grandes poetas da língua portuguesa.
Dividido em três partes ou três
naipes: oito de copas, oito de ouros e oito de espadas, o livro é composto por
vinte e quatro contos, envolvendo relatos confessionais, intimistas e
cotidianos, ao mesmo tempo, que, nos remete a uma reflexão introspectiva dos
mistérios que soldam a alma humana.
Os vinte quatro capítulos
apresentam estrutura bem elaborada, acompanhados de epígrafes de renomados
escritores, afastando-se da irreverência de novos experimentalismos estéticos e
apoiando-se no preciosismo da arte clássica.
Os contos apresentam uma
interdependência entre si, mas são amarrados por um fio condutor que leva o
leitor a repensar a condição humana, a inquietação espiritual, conduzindo-o a
uma revelação, resultando em muitas vezes a uma dolorosa sensação da fragilidade
diante da realidade.
“Iacyr é o ficcionista do estranhamento humano, das atmosferas
opressivas e enigmáticas, das confissões veladas, dos mistérios que rondam a
condição humana”, afirma Lúcio Cardoso.
Da mesma forma, o também crítico
Wilson Martins, no caderno Prosa &
Verso de O Globo destacou que “O realismo de Iacyr Anderson Freitas não
rejeita as regiões turvas da realidade”.
“Um dos grandes representantes da lírica brasileira”, segundo a
avaliação do escritor Alexei Bueno, Iacyr tem agora a rara oportunidade de ver
seu livro de contos figurar numa restrita lista de onze obras obrigatórias para
o vestibular de 2007 da FGV-EDESP (...).
De acordo com o programa
divulgado recentemente, o livro de Iacyr assume a condição de representante da
contemporaneidade literária no Brasil, dentro do rol então elaborado pela FGV:
“Buscando na contemporaneidade uma obra que a representasse, elegemos “Trinca
dos traídos” pelas peculiaridades estéticas que apresenta e, consequentemente,
por sua originalidade literária. Nessa época pós-moderna em que os gêneros se
tangenciam nos limites até mesmo do
improvável, esse livro consegue produzir efeitos de sentido graças a
procedimentos narrativos inovadores sem que se mostre uma intenção de ser
revolucionário. O autor, que antes de ser narrador é poeta (treze livros de
poesia) e ensaísta, opta por pequenas tomadas narrativas com essenciais
lampejos da existência.”
Em “Trinca dos traídos” há uma proposta de jogo cujas regras terão de
ser pensadas e decifradas pelo leitor, pois nada está claro e ostensivo para
cada jogada ou cada lance.
“Trinca dos traídos” retrata “pequenas traições” que nos consome
diariamente.
III – SÍNTESE DO
ENREDO:
OITO DE COPAS
NO DORSO DOS DOMINGOS
“Muitas coisas tinham
ocorrido até chegarem a esse viver suspenso sobre o vazio do dia seguinte.”
Fernando
Namora
O narrador em primeira pessoa e de
maneira introspectiva traz à tona um acontecimento marcante de sua infância.
“Qual a importância desse fato agora? Nenhuma, eu me dizia. Mas por
quê, apesar de todos os esforços, não conseguira jamais me libertar do
ocorrido?”
O menino de nove anos de idade
estava no alto de uma mangueira de sua velha casa, observando a tarde cair,
quando notou que sua mãe e seu tio (o irmão mais novo de seu pai), saíram pela
porta dos fundos, cochichando, aparentando afobações e adentraram no quintal.
Nessa época, por uma fatalidade
do destino seu pai havia sofrido um acidente e ficado paraplégico, sofrendo as
limitações impostas em sua vida, trocando a agitação de seu dia a dia, por uma
passividade dependente de uma cadeira de rodas.
As pessoas queridas nunca o
abandonaram e revezavam-se a entretê-lo de todas as formas, a fim de que não se
sentisse inútil e caísse em depressão.
A mãe preocupada com uma atitude
suicida de seu esposo tomou todas as precauções possíveis e imaginárias,
escondendo o revólver, os remédios, os inseticidas etc
O seu cunhado na ocasião
portava-se totalmente solícito, prestando-lhe toda à dedicação necessária; além
de muito atencioso, principalmente com o seu “sobrinho predileto”.
O prestativo tio e sua mãe sem
perceberem a presença do menino no alto da mangueira, esconderam-se atrás da
folhagem e se beijaram.
“Essa era a imagem que ficara para sempre em mim, como um crime: minha
mãe e meu tio se beijando.”
O menino perante a cena ficou imóvel,
sentindo-se um miserável, sem ter e nem poder ter reação nenhuma. Calou-se, mas
nunca mais se esqueceu, principalmente, quando em seguida, ouviu a voz de seu
pai. “Aquele rosário de sílabas sem
brilho, sempre sem brilho algum, que tomara sua voz após o acidente.”
Dois meses depois, “por
coincidência”, no aniversário de seu tio, seu pai suicida-se com um tiro na
cabeça.
“Por que se matara exatamente naquele dia? Das mil derivações que
assombravam o beijo que eu colhera, quanto de fato chegara a seu conhecimento?
Como ele conseguira ter a seu alcance, apesar dos esforços da família, um
revólver carregado?”
Todas essas indagações
fervilhavam na mente do menino e a única certeza que ele tinha era que “Ali os amantes deveriam arder, deveriam arder
sem termo e sem perdão, pois tudo para mim estava consumado.”
O menino guardou esse rancor em
seu coração e esse ódio foi transformando-o numa pessoa arredia e casmurra.
Outro agravante veio após a morte
de seu pai: a questão financeira, que após o acidente havia piorado.
O tio alegando problemas
profissionais afastou-se da cidade e o narrador, mudou-se para dedicar-se aos
estudos.
Passado algum tempo, ingressou na
universidade e alegando falta de tempo, evitava visitar a sua mãe e àquele
lugar que lhe marcara com lembranças que tentava esquecer.
“Por mera opção, as férias de meu trabalho nunca coincidiam com as
férias da universidade e, assim, eu não tinha mesmo como viajar.”
Era como uma vingança. “Minha mãe não me perdoava á ausência (...)
eu também não lhe perdoava o ocorrido.”
Tudo se misturava em sua mente: a
imagem do beijo; a voz rouca de seu pai; o estrondo do tiro e seu silêncio
rancoroso.
Terminado a graduação, fez o
mestrado e o doutorado, como quisesse se ocupar e não pensar em sua infância e
fugir do enfrentamento do desconforto que trazia em seu coração.
“Esse distanciamento tornou-se, com os anos, insuportável. Pesava-me
sobremaneira, pois não me seria difícil compreender então o quanto aquela pobre
mulher padecera.”
Refletia sobre todos os
dissabores que a vida reservara àquela mulher: o acidente de seu marido, a luta
contra a depressão dele, as dificuldades financeiras, os afazeres domésticos,
as crianças para criar, a necessidade de complementar o orçamento doméstico...
“Por fim, em decorrência de tudo isso, a anulação de sua própria
existência.”
O menino de nove anos de idade, com
certeza, era impossibilitado de perceber as necessidades humanas e através de
sua limitação, a única cena marcante era o beijo adúltero e o sofrimento de seu
pai.
“A esse menino, cegando-o a furto, o horizonte inquisitorial. A
condenação a tudo o que o transcendia em sangue e sêmen. A palmatória que
escondia, por dentro, trevas duríssimas de ignorância. Por que compreendemos
sempre a posteriori? Por que condenamos tanto o que tão-somente nos
ultrapassa?”
Perdoar, para ele, no entanto, era
uma missão super-humana. Por mais que o narrador tivesse compreendido todo aquele
desconforto do passado, ao mesmo tempo, não conseguia aceitá-lo, nem perdoar o
erro de sua mãe e seu tio.
Por mais que se esforçasse, tudo
parecia falso e dissimulado.
“De uma forma avessa e definitiva, essa máscara tomou de mim a face
antiga e não havia mais como retroceder: eu estava condenado a ser o homem
distante e frio que eu não era.”
Agora, passado tantos anos de
distanciamento e de culpas, o narrador encontra-se na sala de sua antiga casa,
remoendo o seu passado, tendo o retrato de seu pai à sua frente e, desejando
que aquele “casmurro” de hoje, retorne-se àquele menino puro de nove anos que
passava horas na mangueira, observando o canto das cigarras e o entardecer.
O narrador olha para sua mãe já
envelhecida, solitária e doente e reflete sobre a barreira que ele criou.
“Olho-a sem pressa, desfiando o sisal do silêncio que nos cabe. Sua
infelicidade talvez me torture, talvez me redima. De quando em quando, uma
exclamação fortuita ou, se muito, um comentário sem nexo. Pouco nos falamos,
essa é a verdade. E temo que tenha sido assim a vida inteira. Ah, que o destino
não nos reserve jamais outra chance no mundo.”
A comida chocha que é servida não
traz o tempero insuperável de sua mãe, que parece definhar na cama entre muitas
dores, esperando á hora de sua partida.
“Ontem a vi discutindo com seus dois irmãos, há muito falecidos. Hoje
não parece estar para conversas. Fica me olhando, com uma altivez um tanto
descorada, como se eu fosse um estranho. As poucas palavras escapam dos umbrais,
na noite, sem resposta.
Falamos para nós mesmos,
TORNAR-SE ANDARILHO
“Com o maior prazer eu faria – por que não? – uma excursão em companhia de absolutamente ninguém. É claro que para as montanhas, onde mais?”
Franz
Kafka
Narrado em terceira pessoa, a
narrativa apresenta-nos o protagonista: homem casado, pai de três filhos,
funcionário público, morador em um apartamento.
Durante uma viagem, o
protagonista para em um restaurante da serra e enquanto a família termina de
fazer a refeição ele, caminha para a varanda, a fim de tomar uma brisa e
observar a paisagem local.
De repente “(...) como um comboio alucinado dentro do seu peito de homem, tão
fortemente ecoava. Então, olhou, através do vidro embaçado, a família que ainda
não se levantara da mesa. Naquele instante, como num passe de mágica, ele não
mais a reconhecia.”
Avaliou o filho perguntador, como
se “o próprio ato de viver fosse
explicável. Como se fosse possível a algum vivente visitar cada um dos cômodos
de sua própria morte”; depois, reparou na filha mais velha, “que tanto se parecia com ele, que tanto a
ele se agarrava para tentar compreender o que jamais teria resposta”,
depois vislumbrou a imagem de sua avó e em sua filha caçula.
Em seguida, observou sua esposa. “Vulto que se apoiava nele para enfrentar os
filhos, para respirar além dos limites do pequeno apartamento em que viviam.
Para existir, ostentando a custo uma insuportável dignidade.”
Passou, então, a refletir sobre
sua família. Ele fazia parte dela, mas não a escolhera, não a pedira e tão
pouco a conhecia, como também, não optara por ser o que era. Afastando o seu
olhar da vidraça e mirando a paisagem, tomou o seu primeiro passo: a liberdade
de escolha e partiu em direção a uma das margens da estrada, seguindo o seu
caminho. Aquele que escolhera, deixando para traz o passado que não lhe
pertencia. Um passado pré-estabelecido pelas normas de uma sociedade que ele se
negava a corresponder. Livrou-se de seus pertences, agora inúteis para a sua
nova vida e seguiu uma trilha, afundando-se na mata fechada.
“Desceu sem pressa. Sim, agora ele deveria escolher. Esta era a sua
mais íntima grandeza. Um pouco antes do primeiro desvio, lembrou-se também de
afrouxar os sapatos e jogar fora os papéis que, nos bolsos, como num último
esforço, ainda insistiam inutilmente em chamá-lo pelo nome.”
APENAS VOLTAR
Eugenio
Montale
Outro conto narrado em primeira
pessoa, o narrador-personagem através de um retrocesso rápido recorda-se dos
sonhos de adolescência, sua maturidade tornando-se um homem responsável e
trabalhador e, a sua longa trajetória de trinta e três anos, sendo um
caixeiro-viajante.
O protagonista, embora, tivera
uma vida difícil, sem paradas e no anonimato; sua motivação consistia em um
único plano: regressar à sua terra natal; local onde nasceu, cresceu, estudou e
nunca mais retornou.
Na verdade, ele já havia retornado algumas vezes à sua cidade, porém em
caráter de férias e essas visitas esporádicas, aguçavam mais ainda seu plano de
poder voltar definitivamente para lá.
Assim que se aposentou, concretizou seu tão
esperado sonho.
“Consegui alugar um sobrado
não muito distante da rua em que nasci e cresci. Sobrado amplo, com boa varanda
e, de quebra, com um quintal formidável. Decorridos alguns meses, já me
encontrava inscrito em todos os carteados da região.”
Um dia voltando de um passeio foi surpreendido por uma forte chuva que o
obrigou esconder-se sob a marquise de uma pequena loja de ferragens. Enquanto
aguardava o temporal passar, pôs-se a observar a fachada da escola que estudou
durante oito anos e que foi a responsável por sua formação de caráter. Notou um
velho desenho de um livro aberto com algumas figuras estranhas e uma frase em
latim, que nunca havia reparado. Começou a reparar ao seu redor e a cidade lhe
parecia desconhecida.
“Da chuva vi surgir uma cidade
estranha, inimiga.”
Uma grande melancolia tomou conta de seu coração e ele percebeu o quanto
estava enganado. Ali não era o seu lugar, mas, sim, um sonho que ele cultivou
durante todos esses anos.
“Não buscara aqueles espaços,
mas o passado que em cada coisa se entranhara. Como se fosse possível compensar
a perda desse passado com a proximidade de seus entulhos.”
Concluiu, assim, que “a aventura ainda não terminara. Que era preciso, embora velho, prosseguir. Escavar o limo. Tudo para que eu não passasse o resto de meus dias assim. Desamparado. Procurando.”
O FEL DOS FATOS
“O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la.”
Murilo Mendes
ELA
Utilizando-se de um eu lírico
feminino, em primeira pessoa, a narradora expõe suas dúvidas sobre um possível
adultério ocorrido entre seu marido e sua amiga.
De início não acreditava, mas depois de cultivar várias provas, concluiu
que era verdade.
“Há sempre um rol de certezas
que vamos cultivando, cultivando devagarinho, cozinhando em fogo brando, e que
ganha força com as diversas leituras que o mundo vai unhando na alma da gente.
Leitura de um gesto, de uma troca tonta de olhares, assim por acaso, na rua ou
na igreja. Isso fui colhendo, metódica, com a dor de quem ajunta os cacos de
seu vaso preferido. E que não prestará deveras depois de colado.”
A narradora de forma
introspectiva e não linear, vai tecendo comentários que corriam pelas
redondezas.
“Contaram-me da tristeza da
outra. Da sua mal parida viuvez. Acredito? Sim e não. Talvez doa mais esse
abandono na concubina que na esposa. (...) Posso até desconfiar da tristeza da
outra, isso bem que me engrandece, só não acredito inteiramente na existência
do caso.”
Em seguida, passa a criticar a passividade
do marido da adúltera perante as acusações e chega afirmar que um homem assim
merecia uma boa ripada na moleira:
“Como
pode existir um homem assim, meu Deus? Sei de gente que chegou mesmo a
interpelá-lo, com escárnio, acerca do assunto. E ele bem que se fez de
desentendido, ostentando com orgulho o seu jeito de tonto.”
Passa, então, a refletir se ele não sofria como ela, a respeito da
incerteza da traição.
Alguns comentavam que o marido traído agia dessa forma, pois temia a
valentia do amante de sua esposa.
“Com fama de brigador, meu marido
é um sujeito por demais calado. Calado e sem muitos amigos. De certa forma,
esse seu silêncio, que tanto me incomodava, foi crescendo com o tempo.”
Sentindo-se abandonada, a narradora foi tirar satisfações com o marido
da obra. Este se comportou indiferente à situação. Respondeu-lhe com um sorriso
vago, triste e com um gesto vago nos ombros, sem admitir ou negar qualquer
suposição.
A narradora cansada de solidão e da frieza do seu marido, decide traí-lo.
“Foi uma vez somente, e
ninguém pode imaginar o quanto esse deslize me custou. (...) Isto aconteceu na
primeira semana de dezembro. Na semana seguinte, numa manhã de sábado, meu
marido saiu para pescar e não voltou mais.”
Sem nenhuma explicação, seu marido partiu sem bagagem, sem deixar pistas,
bilhetes nem despedidas.
O que mais a corrói é que ela nunca teve certeza da traição de seu
marido, mas carregará para sempre em seu coração, a culpa por sua traição.
“O que me ofende é pensar que,
talvez, sob as inexplicáveis malhas do meu desamparo atual, esteja o
conhecimento do que fiz. Estejam os olhos de meu marido, aqueles olhos que
nunca perdoaram o que quer que seja, queimando feito brasa viva os lençóis da
minha infidelidade.”
Passados algum tempo, os boatos
surgem e uma vizinha vem contar-lhe que alguém tinha visto seu marido numa
cidade próxima, pegando um ônibus.
A esperança reacende no coração
da narradora que passa esperá-lo dormindo ao lado da porta da entrada.
“Se ele errou com aquela
comborça – e este erro tanto me justifica – sejamos, pois, mutuamente
perdoados.”
ELE
O conto “Ele” é iniciado de forma
abrupta.
O narrador, através de comentários
“maldosos”, fica sabendo do relacionamento adúltero de sua esposa.
“Então sou eu o tonto. Admito. E que os argutos da cidade continuem o
milagre da multiplicação. Da multiplicação do meu nome de tonto, por todos os
becos e vielas e bares sujos deste bairro.”
Diziam tratar-se de um homem
calado, seco de gestos e linguagem, e ostentando a fama de valentão, “todos se sentiam no direito de, sem muitos
freios, cobrirem de esterco a minha honra.”
O marido traído seguiu sua
esposa, falou-lhe sobre os boatos e ela negou tudo.
“(...) disse-me que faziam isso comigo porque eu não exigia o devido
respeito. Porque os outros pensavam que eu fosse um frouxo, um borra-botas.”
Os boatos, no entanto,
prosseguiram, e ele resolveu tomar uma providência mais severa. “Talvez um crime. Competia-me desagradá-los,
pensei, e não lhes oferecer jamais o que buscavam. De mão beijada, jamais.”
Preparou um plano ardiloso:
separou uma corda, um facão e os sacos de aniagem e, levou-os para debaixo de
uma ponte desativada. Recolheu umas pedras que serviriam para esconder o
material; vigiou o valentão e certificou-se que, aos sábados ele pescava sozinho
e curvo na beira daquele rio. Num sábado de dezembro o seguiu.
Tentando aparentar naturalidade e para conseguir um álibi, o narrador
fez compras, conversou com algumas pessoas, foi à igreja e depois de “concluída a encenação, parti sem demora
para o local.”
Lá, avistou o pescador solitário e calado. Aproximou-se e deferiu o
primeiro golpe: “(...) pegando-lhe em
cheio na cabeça, parecia ter sido o bastante. Por segurança, desferi outros
mais. Peguei então o material escondido sob a ponte. Num local protegido pelas
folhagens e arbustos, tratei de retalhar bem o corpo e colocar as suas partes
em sacos repletos de pedras. Feito o serviço, aquela densa fusão mineral de
carne e osso, usei mais alguns sacos de aniagem para limpar as manchas de
sangue. Foi um alívio ver sumir, na água barrenta e funda do melhor ponto do
rio, o receio que me torturava. A minha terrível humilhação.”
O narrador trocou de roupa e
retornou á sua rotina como nada tivesse acontecido. À noite, choveu forte,
cooperando com a limpeza de alguns vestígios restantes.
No entanto, não consegue
desvincular-se da imagem surpresa e amedrontada do morto. Aquele ato que o libertara
para sempre dos rótulos adquiridos, transportava-o agora, para suas entranhas
recônditas de sua infância.
“Assustado e só, como sempre
estivera em toda a vida. Se antes havia em mim muitas dúvidas acerca da
infidelidade de minha mulher, depois do acontecido essas dúvidas não poderiam
mais existir. Sumiram de vez naquelas águas turvas. Para justificar o trejeito
infantil daquele rosto tomado de sangue e surpresa, subia do meu estômago uma
certeza desesperada, última. Eu precisava odiá-lo, com todas as forças.”
O crime, assim, adquirira outra
importância: ele provara ao mundo de que era capaz o “perfeito idiota”.
Por muito tempo, investigaram o sumiço desse
indivíduo e sem encontrar nenhuma informação, foi taxado como desaparecido. Por
muito tempo, diziam que a esposa do desaparecido o esperava para recebê-lo de
braços abertos.
Às vezes, alguém comentava que o vira em algum ônibus ou numa cidade
próxima, sozinho ou acompanhado por alguma amante.
“E ninguém suspeita que o tonto aqui está sorrindo. Falam ainda que
minha mulher anda triste. Talvez ande. Certas tardes a vejo olhando lá para as
bandas do rio e o meu coração se contraí. Tenho vontade de lhe dizer que o tal
valentão ainda vai voltar, que nenhuma pescaria é para sempre. Afinal, não há
mais nada a fazer. Só nos resta mesmo esperar que ele traga bons peixes.”
DE BAR EM BAR
“Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.”
Manuel Bandeira
“O que pode fazer um homem
solitário, numa noite de sexta-feira, sob um calor de trinta e cinco graus?”
O conto inicia-se com a reflexão de um narrador-personagem sentindo-se
aprisionado em seu apartamento, quando a vida acontecia lá fora.
Os livros, o som e a televisão não correspondiam aos seus anseios e a
alternativa era buscar na correria noturna, diversão e companhia que o tirassem
do seu tédio.
Caminhando pelas ruas em busca de um rosto conhecido, escolhe um bar
para relaxar e tomar uma cerveja. Com seu jeito tímido e tendo poucos amigos, a
possibilidade de encontrar algum conhecido era limitada. Repara num canto do
bar em um “sujeito de aparência estranha
e aspecto triste, também sem companhia, estava plantado duas mesas adiante. De
minuto em minuto, ele me espiava, tentando em vão disfarçar seu desconforto.”
Terminado a cerveja decide caminhar e por acaso, depara-se com o mesmo
sujeito, trocam olhares e seguem. Ainda insistindo encontrar algum
divertimento, encontra-se novamente com o sujeito e tem a sensação que não era
por acaso, “ele iria me segurar pelo
braço. Talvez proferisse algo. Nada ocorreu, no entanto.”
O narrador continua seu passeio, mas opta pela direção seu apartamento.
“Se tudo permanecesse do mesmo
jeito, sem possibilidade de sucesso à vista, eu estaria próximo de casa.”
Parou numa lanchonete, comeu um lanche e certificou-se que à noite,
embora agitada, nada prometia a ele, decide voltar para o seu lar.
Já perto de sua casa, aguardando o sinal abrir, o estranho “se volta para mim: Você também, não é?”
As palavras não saem e com um gesto vago, balança a cabeça.
“O sinal se abre e nós ainda nos
olhamos, sem mais palavra.”
HOLOCAUSTO
“Mas a vida muito tranquila é assim mesmo, uma chatice.”
Rubem Fonseca
“Primeiro escolho os alunos da oitava série. Apenas um por sala. Não há
ciência alguma nesse processo de seleção, somente uma obscura inclinação
pessoal. Em seguida, começa o jogo. (...) Depois lanço meus veredictos: esse
carece ser mais trabalhado, está verde demais para o holocausto, aquele ali me
serve ou não me serve, etc.”
O primeiro passo foi buscar nos olhares
de alguns alunos a cumplicidade para sua fala.
Em seguida, “provoca-os (...) o prazer que sinto ao humilhá-los, e que eles percebem
em meus olhos, como um carinho extinto.”
A professora sempre foi escolhida
para seus eventos escolares. “Nada mais
natural. Falo apenas o que sinto. Quando disser, por exemplo, que toda educação
deve ser posta a serviço de nossa felicidade – e não do mercado de trabalho ou
da mera satisfação curricular -, buscarei no auditório de pais e alunos os meus
escolhidos. Eles saberão melhor, na carne, a força do que estarei dizendo.”
Em seguida, virão os aplausos e a
execução do hino nacional.
LIMIAR
“O pai não se enganara, aquele era um momento único, ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos.”
Osman Lins
Neste conto, o narrador relata a trajetória de
amadurecimento de seu filho percebida durante uma festa de aniversário infantil.
O pai ao chegar à festa, depois de justificar a ausência da esposa e entrosar o
filho entre as crianças, senta-se na companhia de seus amigos de trabalho.
Durante a festa, o narrador
percebe a mudança de comportamento e de disposição de seu filho. Para não o
perder de vista, o pai preocupado, disfarça algumas idas ao banheiro ao jardim.
“Ao voltar de uma dessas
escapadelas, percebi que a sua alegria inicial se esvaíra de todo, sem nenhum
motivo aparente.”
Em um momento, nota-o em uma fila
para receber os saquinhos de surpresa, espécie de brindes da festa e pôs-se a
observá-lo de longe.
Lembrou-se, então, da conversa da noite anterior: o filho havia
questionado se teria que parar de brincar um dia, pois no colégio alguns
garotos haviam ridicularizado-o por levar brinquedos no recreio.
Tranquilamente, o pai (narrador) explicou-lhe que esse dia chegaria
naturalmente. Acreditando ter encerrado o assunto, o pai não percebera que o
problema latejava dentro de seu filho. Mas, enquanto a fila dos brindes
caminhava, o pai presenciou a saída de seu filho, com a desculpa de buscar um
refrigerante, para não mais voltar ao seu lugar; sem antes, de soltar o
elástico que prendia uma máscara de papel.
“Doravante não precisaria mais dela. Uma
outra, muito mais instigante, acabara de lhe ser confiada.”
TRINCA DOS TRAÍDOS
Carlos Drummond de Andrade
“Agora, aos cinquenta e oito anos de idade: tinha uma amante!”
De início, o caso não passava de
uma aventura até que ele se viu apaixonado e sentiu a necessidade de desabafar
com alguém de confiança.
“Decidiu então colocar o
assunto em pratos limpos. Afinal de contas, não seria surpresa alguma. Sua
esposa já devia imaginar o que sucedia. Apesar das aparências, desde muito o
casamento se acabara.”
Ele estava mais alegre, mais vaidoso, mais jovial; com certeza, sua
esposa teria notado essas mudanças.
Era a primeira vez que ele se revelava totalmente, seus anseios, suas
decepções e as torturas que levaram o seu casamento. E, a pessoa de maior
confiança para esses assuntos era a amante, então, tomou coragem e desabafou.
Contou-lhe sobre o seu casamento: ela com apenas dezessete anos de idade
e cheia de graça e vida; ele, um homem apaixonado e com bons propósitos. A vida
parecia-lhe um mar de rosa até a primeira gravidez de sua esposa e o excesso de
peso que ela adquiriu e nunca mais conseguiu perder.
Aquela jovem linda e sensual transformou-se numa senhora resignada. Quando
faziam sexo, ele tinha que buscar em sua memória a menina de dezessete anos que
conheceu e amou, pois àquela com quem estava casado, portava-se como uma morta.
Dessa forma, o relacionamento
sexual tornou-se cada vez mais dificultoso e em pouco tempo, acabou-se de vez.
O narrador descortinando sua intimidade relata que se saciava sozinho como
antes do casamento entre os azulejos frios do banheiro, e quando terminava,
sobravam-lhe somente um vazio e um asco.
A amante trouxera-o novamente ao mundo, sentia-se vivo e, embora, tenha
passado muito tempo feliz ao lado de sua esposa, sentia-se no dever de
contar-lhe toda a verdade.
“Foi através dela (a amante) –
de seu modo sempre diverso de ser mulher e criança ao mesmo tempo – que ele
acabou se libertando da fixação pelo passado de sua esposa. Através dela
calcara novamente os pés no mundo.”
Em um quarto de motel, sentia-se
aliviado de confiar-lhe esses segredos íntimos e, esperava dela a cumplicidade,
o companheirismo e o apoio.
“Chegou a juntar uma pequena série de reticências e pontos de
interrogação. E viu a fala da amante recuar na noite que surgia. Ele estava só.
O que ela lhe dissera aumentava mais e mais, a cada desesperada tentativa de
compreensão, a sua orfandade.”
No entanto, a amante retruca
afirmando tratar-se apenas de uma aventura, acrescenta que ele havia levado
muito a sério. Ela apenas o via como um pai, seu equilíbrio e o companheiro
para todas as horas e, concluiu que seria melhor terminarem “essa aventura” e tornarem-se
bons amigos.
“Por que tornara-se um pai quando tentara, com todas as forças, ser
apenas um homem?
Então percebeu o engano. Ou os enganos. Percebeu que, na verdade, a
amante nunca o viu do modo como ele realmente era, assim como, durante todos os
anos em comum, ele também não chegou a conhecer de fato a mulher com quem se
casara.”
Desolado e arrasado, retornou à
sua casa, sentou-se em uma sala escura e quando acreditou estar sozinho no
mundo, sentiu a aproximação de sua esposa que parecia entender toda a sua
aflição e com o companheirismo que sempre demonstrou ter, ofereceu-lhe uma
xícara de café.
“Ele levantou a cabeça e voltou a se deparar com o erro. Compreendeu
que estavam todos cegos, cegos e condenados, que seria muito difícil, para
qualquer vivente, atravessar aquele oceano de esquecimentos e encontrar do lado
oposto, o consolo de outras pessoas. Viu que não conseguira apenas trair sua
mulher. Não: eram três os traídos. Antes de tudo, enganara a si mesmo. Poderia
haver amor diante de tamanho equívoco?
Foi quando, esboçando afinal um leve sorriso, decidiu tomar o café bem
forte.”
OITO DE OUROS
GENERAL
“Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo.”
Machado de
Assis
A partir daí, passaram a chamá-lo
por General. E, o pacato torneiro mecânico, sentia-se um General, como se o
condecorado uniforme tivesse grudado em sua pele e tornara-o outra pessoa.
Mesmo nos dias de folga, estando à paisana, “via
seu reflexo e não se reconhecia. Contemplava mais e mais, e a cada instante o
estranhamento crescia. Aos poucos, a imagem refletida ia formando, como num
quebra-cabeça, outra pessoa.”
Para evitar a desintegração da
sua identidade, decidiu não tirar mais o uniforme, somente dessa forma,
sentiria um General.
O SACRIFÍCIO
“São os que matam.
Por encomenda
Ou acerto de contas.
Também educam
No seu carinho.
No seu carinho
Que não tocamos.
O lado quente
Da morte.”
Edimilson de Almeida Pereira
O narrador-personagem descreve o seu estado de embriaguez, enquanto pensa no sacrifício “da mulher que dorme a meu lado. Sem o saber, dorme a sua penúltima noite. Amanhã terá saído desta para melhor.”
Essa mulher trata-se de uma ex-prostituta, “a tirou da vida e que agora, sem perdão, irá lhe tirar a própria.”
O narrador confessa que a companheira é lindíssima, mas, talvez, por
acreditar que seus dotes físicos já são suficientes para o erotismo, não
desempenha relativamente bem a sua função de extremosa amante.
“Quando a conheci, ele usava
umas roupas extravagantes, dizia que estudava à noite e já era, garota de
programa. Agora é modelo profissional e não mora mais com os pais. É claro que
eu banco o apartamento e seguro boa parte das despesas, mas tudo na maior surdina, pois não posso ficar com o rabo
preso.”
No dia seguinte, a mulher embarcará e quando retornar trará “o dinheiro prometido”. O narrador irá
encontrá-la, almoçaram juntos e durante o caminho do apartamento, “os outros farão o resto por mim”.
Enquanto a observa, lembra-se da promessa novamente esquecida feita à
sua filha: acordarem cedo para verem o amanhecer.
Levanta-se e não conseguindo segurar o seu vômito, corre para o banheiro
e aceita o sacrifício.
UM VELHO
Sá de Miranda
Aparentemente tudo corria na
normalidade, até que no “arco de uma
tarde que deveria ser esquecida, sob a mesma chuva fina de cinquenta anos atrás
– percebi a presença de um velho, encostado à porta principal da repartição”.
O fato repetiu-se diariamente por
muito tempo: “por volta das três da
tarde. E sempre sem nenhum motivo aparente. Amiúde fixava as retinas no balcão
de atendimento e media devagar cada objeto, cada pasta, procurando ler ou
encontrar alguma coisa perdida.”
Aquela figura estranha causava um
mal-estar ao narrador, “um desconsolo,
uma orfandade sem par e sem princípio.”
Decidiu que no dia seguinte o
procuraria, conversaria com ele e tentaria extrair “dessa conversa algum motivo para o abandono que eu sentia.”
No entanto, o velho nunca mais apareceu,
causando certo alívio ao narrador. Até que depois de mais de meio século,
novamente deparou-se com o velho.
“E esse inesperado encontro fará com que, doravante, eu nunca mais me olhe verdadeiramente no espelho.”
PROBATÓRIO
“Chega sempre um instante em que já olhamos demais para uma paisagem, do mesmo modo que é preciso muito tempo para que a vejamos o bastante.”
Albert Camus
“Hoje seria difícil descrever minha emoção, o que senti no dia em que
fui chamado para assumir as funções de auxiliar de administração na empresa
onde agora ocupo o cargo de supervisor de área. (...) O chefe do setor de
pessoal levou-me até uma sala ampla, tomada de janelas muito altas. Ali, sem
muita cerimônia (...) fez uma breve apresentação dos colegas e me encaminhou
até a mesa de trabalho. De acordo com as suas orientações, eu deveria
encadernar e numerar os processos, levando a bom termo uma tarefa
imprescindível para o funcionamento dos demais setores.”
O narrador-personagem relata sua experiência em seu primeiro emprego. Ele desempenha as suas funções com competência, mas um fato o instigava: o modo como seus colegas de trabalho o tratava.
“Eles me observavam o tempo todo. Raramente me dirigiam a palavra. De
uma forma um tanto infantil, também buscavam não dar mostras de que me seguiam
por toda a parte.”
Tentando encontrar uma explicação
para o tal prosseguimento e nada conseguindo, distanciou-se deles e continuou a
executar a sua função com eficiência.
“Passaram-se cerca de dois anos e, numa bela manhã, eis que vejo entrar
na sala o chefe do setor de pessoal, trazendo a tiracolo um rapaz ainda muito
assustado. Fez as apresentações de praxe – o mesmo discurso que embalou também
o meu primeiro dia de trabalho na empresa – e arrastou o aprendiz até uma mesa
contígua à minha.”
De início, o novo funcionário
portava-se timidamente, até que foi adaptando-se e com certa naturalidade,
tentou se integrar ao grupo.
“Fiquei observando o novato. Via nele todo o meu desajuste de outrora. Então reparei que, de um modo coordenado, extraordinário até eu tinha deixado de ser o centro das atenções. Os meus companheiros de jornada não olhavam mais para mim. Todos, inclusive eu mesmo, estávamos fixados no novo funcionário. (...) Pertencia a mim, a partir daquele dia, o feito de ser o mais novo integrante da empresa.”
WORKSHOP, OU PONTO DE FUGA
Manoel de Barros
“É preciso passar ao largo de tudo isso, inclusive do que está sendo
falado pelo consultor da corporação, na abertura do encontro, para se
concentrar apenas, por exemplo, no ponto luminoso que escapa ao aparelho de
reprodução de vídeo.”
Além do artificialismo do
ambiente do workshop, os discursos são repetitivos e vazios.
“O problema, aliás, é que a palestra é a mesma, sem tirar nem pôr, não
mudou nadica em dez anos, sequer as piadinhas se alteraram, o que nos leva a
acreditar que, se o mercado fosse sério, esse profissional da repetição já
deveria estar na rua, devidamente desempregado.”
“Cada um de nós deverá encontrar a maneira mais adequada de ser
vendido. (...) Ser comparado á mercadoria, Deus meu, era crime.”
E num lance de memória, você
recorda daquele chefe do departamento de contabilidade que demitia os
funcionários e que um dia chegou a sua vez. Desempregado teve de transferir os
filhos da escola particular para uma pública, cancelou os cursos extras, os
planos de saúde etc.
“Depois de lutar alguns anos contra as dificuldades financeiras, contra
a depressão da mulher e o desconsolo das crianças, nosso Carrasco abandonou o
comando da família e saltou da janela do apartamento.”




