quarta-feira, 6 de maio de 2026

“AS MENINAS”, LYGIA FAGUNDES TELLES

 PERSONAGENS:

 

As protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes, procuram exprimir suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos seus anseios. Utilizando a reflexão e o diálogo, as personagens se analisam, exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao passado, pela incapacidade de superar a inércia, pelo status quo

As meninas” é a história do fracasso de três tentativas de libertação das imposições sociais.

Uma interessante maneira de iniciar a descrição das personagens se dá pelas palavras de Madre Alix, a madre superiora do pensionato em que as jovens se encontram e que desabafa para Lia:

“Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que não telefona? Ana Clara, aí está. Ana Clara. Como me procura e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como vou separar a realidade da invenção? (TELLES, 1998, p. 141-142). ”

Em LORENA VAZ LEME, vemos a imagem da menina inocente e ainda virgem, que vive em seu quarto muito limpo e organizado, e que, sempre que possível, manifesta seu instinto cuidador com relação às amigas – empresta-lhe seus objetos, seu dinheiro, penteia seus cabelos, oferece sua banheira para que tomem banhos demorados, etc. Sua paixão por um homem casado e, pelo que se constata, desinteressado dela, leva-a a passar toda a narrativa esperando por um telefonema que não chega.

Filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com frequência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca frequentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subsequente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha concha. Meu delicado mundo que amo tanto (230), e que anteriormente foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou o quarto com papel dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro (51). Ela se descreve como sendo do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim (15); Sou da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na vidraça (49). Didática na propagação de seus valores, gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico (50). Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas frequentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho coloca-a em frequente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

No início do romance, Lorena afirma: “Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato” (TELLES, 1998, p. 14) – ameaça repetida muitas vezes, mas que logo se percebe que não tem fundo de verdade. Sobre a menina cujo apelido na faculdade é MAGNÓLIA DESMAIADA (o que parece sugerir a falta de energia e vibração de uma pessoa frágil), conhecemos mais um pouco de sua personalidade pela voz de Lia:

“Morre de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que rasguei tudo [o romance que escrevia]. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa menina (TELLES, 1998, p. 27).”

Uma descrição oposta, com Lorena falando de Lia, vemos no trecho a seguir, em que se conhecem a origem de Lia, sua mudança para o local onde se encontra no momento e um pouco de seu caráter militante:

Lembrava-se de LIA chegando com as duas malonas estourando de coisas. E “O Capital” debaixo do braço, metido num papel de pão que mais mostrava do que escondia. ‘A mãe é morena da Bahia casada com holandês’, pensou assim que a viu. Era baiana com alemão, Herr Paul, ex-nazista que virou Seu Pô, um tranquilo comerciante apaixonado por música e por Dona Dionísia, para os íntimos, Diú [...] Deu Lião. Loucura, imagine, um nazista de águia no peito, entende, vir parar em Salvador e lá então, não sei explicar mas se apaixona pela moça Diú e a soma é Lia de Melo Schultz que faz seu necessaire e vem terminar o curso no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Um pé baiano, o outro berlinense. Alpargata Conga (TELLES, 1998, p. 58). ”

É também Lorena quem atenta para a herança que Lia traz do pai, revelada por sua força e vigor germânicos, e “andejo capaz de fome, inverno e tortura com travessia em rio coalhado de jacaré” (TELLES, 1998, p. 59). Da mãe baiana, notam-se tanto as “proporções gloriosas” e a “cabeleira de sol negro desferindo os raios por todos os lados”, que fivela nenhuma consegue prender, quanto o “açúcar da voz quando está nostálgica” (TELLES, 1998, p. 59).

LIA DE MELO SCHULTZ serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.

Veio da Bahia para fugir da mãe super protetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso e que, junto dele e de mais um grupo de amigos, ela luta pela liberdade em um cenário político nada propício para tal.

Pela voz de Lia, é possível enxergar a crítica de Lygia Fagundes Telles com relação aos horrores da ditadura e à repressão que ela impunha, visto que a personagem vivencia o medo constante das autoridades, mas, mesmo assim, acredita em sua causa e em dias melhores, não deixando, portanto, de lutar.

Interessa comentar, ainda, que Lia mostra-se desinteressada de qualquer cuidado com a aparência e com nenhuma vaidade. Novamente, é Lorena quem fala da amiga: “quando levantou o braço (usava uma camiseta sem mangas) me levantei e fui correndo buscar a gilete, pelo amor de Deus, Lião, passa a gilete nessa axila! Ela obedeceu e fez sua distinção: ‘Axila é quando está raspado, entende. Sovaco é quando não se raspou’ [...]” (TELLES, 1998, p. 278).

Lia também chega a revelar que sua primeira experiência sexual ocorreu com uma mulher e que, depois desta, nenhuma outra foi igual, o que sugere uma tendência à homossexualidade, apesar de seu namoro com Miguel.

Pela própria voz da personagem, tomamos conhecimento da força que a impele em favor de sua causa:

“Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos – repito e meus olhos estão nadando em lágrimas (TELLES, 1998, p. 164). “

O sentimento da personagem Lia é motivado pela força e pelo desejo de modificar um cenário, de agir em favor de um objetivo e de ter sua voz ouvida. A intensidade da ânsia de Lia é tão forte que lágrimas lhe vêm aos olhos; e ela também resiste, assim como o pedregulho.

Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

ANA CLARA CONCEIÇÃO, por sua vez, é a mais obscura das meninas. Apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente.

Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída, de quem tem vergonha e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida.

Ana foi seduzida por um dentista, que abusava sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes.

Dividida entre um casamento com um milionário e seu amor, Max, “Ana Turva” sofre com sua decadência no mundo das drogas: “acendeu a luz do banheiro mas recuou diante do espelho. Bateu as pálpebras, aturdida. Desviou da própria imagem o olhar enfurecido. Afundou as mãos na cabeleira” (TELLES, 1998, p. 100).

Seu possível casamento com o referido milionário, que as amigas, sempre tentando livrá-la das drogas e do álcool, chegam a duvidar que realmente exista – seria a válvula de escape para ver-se livre da pobreza e de seu passado, deixando para trás a violência física, sexual e moral da qual ela e sua mãe foram vítimas. O trecho a seguir revela um pouco do cruel cenário que rodeava sua infância:

“Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e agora estava deitada e encolhida gemendo aí meu Jesus aí meu Jesus meu Jesusinho. Mas o Jesusinho queria era distância da gente. Então catei a primeira barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de chorar, chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores ideias nasceram do ódio. [...] Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha de tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber, nesse tempo era o Sérgio. ‘Não quero nem saber’, ele disse dando-lhe um bom pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu mais encolhidinha do que uma formiga, nunca pensei que ela fosse assim pequena. Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou [...] Não chorei nem nada mas por que havia? Não senti nada (TELLES, 1998, p. 83).“

Em boa parte da narrativa, Ana Clara encontra-se embriagada e afetada pelo consumo de drogas, fato que se nota também em suas falas e pensamentos, que se mostram confusos e embaralhados sob efeito de narcóticos. Em uma dessas falas, Ana Clara revela à Madre Alix que sente Jesus em seu coração, com sua coroa de espinhos, e que Ele a escolheu apesar de tudo que já lhe aconteceu: “se ele me escolheu é porque eu mereço e Ele viu tanta humilhação tanto sofrimento lembra o que sofri com todos aqueles sacanas que. Eu era criança e os sacanas. Nem podia me defender nem nada, eu era criança” (TELLES, 1998, p. 187).

Faz-se necessário ressaltar, aqui, dois pontos importantes. Primeiramente, surge a dúvida sobre o que realmente significa essa “presença” que a jovem sente: se se trata, de fato, de um acontecimento sobrenatural; se esse é apenas mais um de seus delírios fantasiosos; ou, ainda, se a referência à coroa de espinhos seria uma alusão a algum tipo de dor resultante de seu significativo consumo de álcool e drogas. O segundo ponto a ressaltar é a violência sexual que fica implícita em sua fala, quando a jovem se refere aos “sacanas que”, quando ainda era criança. A sentença inacabada pode se justificar pelo efeito das substâncias ingeridas, mas, também, pela dor e humilhação que tais acontecimentos lhe causaram. Todo o sofrimento do passado, como se vê, continua latente na personagem, cuja ânsia maior é livrar-se da situação em que vive, para livrar-se, também, dos fantasmas que a cercam.

Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.