PERSONAGENS:
As
protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes,
procuram exprimir suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos
seus anseios. Utilizando a reflexão e o diálogo, as personagens se analisam,
exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao passado, pela
incapacidade de superar a inércia, pelo status quo.
“As
meninas” é a história do fracasso de três tentativas de libertação das
imposições sociais.
Uma
interessante maneira de iniciar a descrição das personagens se dá pelas
palavras de Madre Alix, a madre superiora do pensionato em que as jovens se
encontram e que desabafa para Lia:
“Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas,
chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto
quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. O que sei, afinal?
Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado
preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não
tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que
ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que
não telefona? Ana Clara, aí está. Ana Clara. Como me procura e faz confissões,
eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo?
Como vou separar a realidade da invenção? (TELLES, 1998, p. 141-142). ”
Em LORENA
VAZ LEME, vemos a imagem da menina inocente e ainda virgem, que vive em seu
quarto muito limpo e organizado, e que, sempre que possível, manifesta seu
instinto cuidador com relação às amigas – empresta-lhe seus objetos, seu
dinheiro, penteia seus cabelos, oferece sua banheira para que tomem banhos
demorados, etc. Sua paixão por um homem casado e, pelo que se constata,
desinteressado dela, leva-a a passar toda a narrativa esperando por um
telefonema que não chega.
Filha
de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna
na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com frequência passagens da
Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados,
escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem
harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da
própria família e evoca frequentemente esse passado, onde contrapõe os momentos
felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subsequente
desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em
sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias,
terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha
concha. Meu delicado mundo que amo tanto (230), e que anteriormente
foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou o quarto com papel
dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem
estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro (51). Ela se descreve como
sendo do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim (15); Sou
da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na
vidraça (49). Didática na propagação de seus valores, gostaria
de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar
nele, é lógico (50). Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um
mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz
chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas frequentes de colegas, e de
onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia,
trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que
recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as
amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho
coloca-a em frequente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de
sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No
entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir positivamente,
encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um
possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por
perceber a impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor
de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua
"concha" definitivamente.
No
início do romance, Lorena afirma: “Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não
telefonar, me mato” (TELLES, 1998, p. 14) – ameaça repetida muitas vezes, mas
que logo se percebe que não tem fundo de verdade. Sobre a menina cujo apelido
na faculdade é MAGNÓLIA DESMAIADA (o que parece sugerir a falta de energia e
vibração de uma pessoa frágil), conhecemos mais um pouco de sua personalidade
pela voz de Lia:
“Morre
de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que
rasguei tudo [o romance que escrevia]. Não é uma forma de esconder seu
sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a
esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá
morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa
menina (TELLES, 1998, p. 27).”
Uma
descrição oposta, com Lorena falando de Lia, vemos no trecho a seguir, em que
se conhecem a origem de Lia, sua mudança para o local onde se encontra no
momento e um pouco de seu caráter militante:
“Lembrava-se de LIA chegando com as duas
malonas estourando de coisas. E “O Capital” debaixo do braço, metido num papel
de pão que mais mostrava do que escondia. ‘A mãe é morena da Bahia casada com
holandês’, pensou assim que a viu. Era baiana com alemão, Herr Paul, ex-nazista
que virou Seu Pô, um tranquilo comerciante apaixonado por música e por Dona
Dionísia, para os íntimos, Diú [...] Deu Lião. Loucura, imagine, um nazista de
águia no peito, entende, vir parar em Salvador e lá então, não sei explicar mas
se apaixona pela moça Diú e a soma é Lia de Melo Schultz que faz seu necessaire
e vem terminar o curso no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Um pé baiano, o
outro berlinense. Alpargata Conga (TELLES, 1998, p. 58). ”
É
também Lorena quem atenta para a herança que Lia traz do pai, revelada por sua
força e vigor germânicos, e “andejo capaz de fome, inverno e tortura com
travessia em rio coalhado de jacaré” (TELLES, 1998, p. 59). Da mãe baiana,
notam-se tanto as “proporções gloriosas” e a “cabeleira de sol negro desferindo
os raios por todos os lados”, que fivela nenhuma consegue prender, quanto o
“açúcar da voz quando está nostálgica” (TELLES, 1998, p. 59).
LIA DE MELO SCHULTZ serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.
Veio
da Bahia para fugir da mãe super protetora e do pai com um passado misterioso
de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de
agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante
da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso e que, junto dele e de
mais um grupo de amigos, ela luta pela liberdade em um cenário político nada
propício para tal.
Pela
voz de Lia, é possível enxergar a crítica de Lygia Fagundes Telles com relação
aos horrores da ditadura e à repressão que ela impunha, visto que a personagem
vivencia o medo constante das autoridades, mas, mesmo assim, acredita em sua
causa e em dias melhores, não deixando, portanto, de lutar.
Interessa
comentar, ainda, que Lia mostra-se desinteressada de qualquer cuidado com a
aparência e com nenhuma vaidade. Novamente, é Lorena quem fala da amiga: “quando levantou o braço (usava uma camiseta
sem mangas) me levantei e fui correndo buscar a gilete, pelo amor de Deus,
Lião, passa a gilete nessa axila! Ela obedeceu e fez sua distinção: ‘Axila é
quando está raspado, entende. Sovaco é quando não se raspou’ [...]”
(TELLES, 1998, p. 278).
Lia
também chega a revelar que sua primeira experiência sexual ocorreu com uma
mulher e que, depois desta, nenhuma outra foi igual, o que sugere uma tendência
à homossexualidade, apesar de seu namoro com Miguel.
Pela
própria voz da personagem, tomamos conhecimento da força que a impele em favor
de sua causa:
“Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia
assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele
resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria
me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que
tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos
– repito e meus olhos estão nadando em lágrimas (TELLES, 1998, p. 164). “
O
sentimento da personagem Lia é motivado pela força e pelo desejo de modificar
um cenário, de agir em favor de um objetivo e de ter sua voz ouvida. A
intensidade da ânsia de Lia é tão forte que lágrimas lhe vêm aos olhos; e ela
também resiste, assim como o pedregulho.
Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.
ANA CLARA CONCEIÇÃO, por sua vez, é a mais obscura das meninas. Apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente.
Filha
de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída,
de quem tem vergonha e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros,
um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida.
Ana
foi seduzida por um dentista, que abusava sexualmente da mãe e da filha.
Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos.
Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a
viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado -
amam-se, mas não conseguem ser felizes.
Dividida
entre um casamento com um milionário e seu amor, Max, “Ana Turva” sofre com sua
decadência no mundo das drogas: “acendeu
a luz do banheiro mas recuou diante do espelho. Bateu as pálpebras, aturdida.
Desviou da própria imagem o olhar enfurecido. Afundou as mãos na cabeleira”
(TELLES, 1998, p. 100).
Seu
possível casamento com o referido milionário, que as amigas, sempre tentando
livrá-la das drogas e do álcool, chegam a duvidar que realmente exista – seria
a válvula de escape para ver-se livre da pobreza e de seu passado, deixando
para trás a violência física, sexual e moral da qual ela e sua mãe foram
vítimas. O trecho a seguir revela um pouco do cruel cenário que rodeava sua
infância:
“Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e
agora estava deitada e encolhida gemendo aí meu Jesus aí meu Jesus meu
Jesusinho. Mas o Jesusinho queria era distância da gente. Então catei a primeira
barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de
chorar, chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores
ideias nasceram do ódio. [...] Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer
que tinha de tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber, nesse
tempo era o Sérgio. ‘Não quero nem saber’, ele disse dando-lhe um bom pontapé.
Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu
mais encolhidinha do que uma formiga, nunca pensei que ela fosse assim pequena.
Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou [...] Não chorei
nem nada mas por que havia? Não senti nada (TELLES, 1998, p. 83).“
Em
boa parte da narrativa, Ana Clara encontra-se embriagada e afetada pelo consumo
de drogas, fato que se nota também em suas falas e pensamentos, que se mostram
confusos e embaralhados sob efeito de narcóticos. Em uma dessas falas, Ana
Clara revela à Madre Alix que sente Jesus em seu coração, com sua coroa de
espinhos, e que Ele a escolheu apesar de tudo que já lhe aconteceu: “se ele me escolheu é porque eu mereço e Ele
viu tanta humilhação tanto sofrimento lembra o que sofri com todos aqueles
sacanas que. Eu era criança e os sacanas. Nem podia me defender nem nada, eu
era criança” (TELLES, 1998, p. 187).
Faz-se
necessário ressaltar, aqui, dois pontos importantes. Primeiramente, surge a
dúvida sobre o que realmente significa essa “presença” que a jovem sente: se se
trata, de fato, de um acontecimento sobrenatural; se esse é apenas mais um de
seus delírios fantasiosos; ou, ainda, se a referência à coroa de espinhos seria
uma alusão a algum tipo de dor resultante de seu significativo consumo de
álcool e drogas. O segundo ponto a ressaltar é a violência sexual que fica
implícita em sua fala, quando a jovem se refere aos “sacanas que”, quando ainda
era criança. A sentença inacabada pode se justificar pelo efeito das
substâncias ingeridas, mas, também, pela dor e humilhação que tais
acontecimentos lhe causaram. Todo o sofrimento do passado, como se vê, continua
latente na personagem, cuja ânsia maior é livrar-se da situação em que vive,
para livrar-se, também, dos fantasmas que a cercam.
Sob
o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o
roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do
consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações
variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas
sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o
ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a
ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da
virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de
Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a
burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem
salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida
e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas
pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto
necessitava.