MARTHA MEDEIROS, filha de José
Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros. Casou-se com o
publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas, Júlia e Laura.
Estudou num dos mais tradicionais colégios de Porto Alegre, o Nossa Senhora do
Bom Conselho, no bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre.
Trabalhou em propaganda e
publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido
recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país
seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de oito
meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de
águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas
para jornal e desde então tem publicado regularmente seus textos em revistas e
jornais do país.
Reunidas as crônicas, publicou
sua primeira coletânea em 1985 com o sugestivo título de “Striptease”.
Como cronista, seu objetivo é
o de desnudar a vida cotidiana, apresentar ao leitor seu modo de olhar para os
mais diversos fatos da vida nacional e de temas que possam interessar as
pessoas de modo geral. Com as redes sociais, todos se sentem um tanto cronista
do cotidiano, mas, sem dúvida, nem todos têm o talento para escrever, para se expressar
com correção e estilo por escrito.
O livro em questão, “Topless”,
apresenta 54 crônicas escritas entre 1995 e 1997. Passados vinte anos, há crônicas
cujo assunto podem ter envelhecido, tendo em vista que a crônica é um gênero
híbrido, entre o literário e o jornalístico. E é exatamente o literário que faz
da crônica um texto permanente, pois, ao comentar os fatos do dia a dia, o
cronista busca revelar o que ele teria de essencial.
Assim, o leitor, além de tomar
contato com algum acontecimento dos anos 90, é levado a perceber que qualquer
acontecimento apresenta o seu tanto de permanente, de essencial para se
compreender a vida, se compreender o ser humano.
Por se tratar de diversos
textos, vamos procurar separar as crônicas não por sequência, e sim por temas, de
modo a facilitar os comentários e a análise. Com isso, esperamos destacar as
características comuns, incluindo tratamento estético e construção discursiva, de
modo a facilitar a leitura.
Conforme já referido, a
crônica é um gênero que trata do cotidiano. Como tal, o objetivo é tratar dos
temas mais variados e prementes. Em 1996, por exemplo, uma preocupação comum
era discutir o fim do milênio e como seria a vida no século XXI e no 3º milênio
da Era Cristã. Muitos acreditavam que esse tempo marcaria o fim do mundo. Por
isso, eram normais as reflexões existenciais do tipo:
“quem sou eu, de onde vim, para onde vou?”
Medeiros em “Vidas passadas
para trás” discute exatamente essa temática. Apesar de instigar muita gente,
Medeiros expressa seu desejo de viver apenas o que tem para ser vivido, sem se
preocupar tanto “para onde iremos”.
Conforme diz no final de
crônica: “A mim basta um banho quente, um
pijama limpo e dormir acreditando que amanhã tem mais”. (p. 63)
Retoma a temática em “O
Terceiro lado da moeda”. O título, um tanto irônico, revela algo que se podemos
verificar na atualidade: a busca por uma maior compreensão do diferente, não apenas
o oposto, como o lado A e o lado B, e sim o terceiro lado, conforme indica o
título.
Esse terceiro lado pode ser a homossexualidade,
ou viver de outro modo sem ter de escolher entre ser solteiro ou casado, entre
ser da direita ou da esquerda, entre o certo e o errado moralmente falando.
Observe-se que, com efeito, estamos na segunda década do terceiro milênio, que
tem se caracterizado propriamente por estilos de vida alternativos e igualmente
aceitos socialmente falando, pela busca da afirmação das minorias, pela tentativa
compreensão do outro, pela valorização da multiplicidade (ainda que ainda
permaneça em pauta o discurso do ódio, da radicalização político-ideológico e
também religiosa em diversos setores da sociedade).
Outro assunto recorrente nas
crônicas de Martha Medeiros é a moda. Ao menos, em cinco crônicas, a autora
trata do assunto. Por exemplo, em “Verão: decadência do Império”, reflete sobre
a deselegância no modo de se vestir das pessoas no verão, justificada pela
necessidade de se usar pouca roupa no dia a dia; com o agravante de, muitas
vezes, homens, em determinadas funções, trabalharem sem camisa.
Mesmo as mulheres ficam em
situação complicada por conta da maquiagem, que derrete com o suor.
Outro exemplo da moda citado
pela autora está no uso do vocabulário. Em “Grande África”, Medeiros lembra que
alguns termos deixam de ser utilizados com o tempo, trata-se do envelhecimento
das expressões, das gírias e mesmo de certos objetos que deixam de ser utilizados
com o tempo.
O
vocabulário da hora (lembra “da hora”?) não resiste a mais de uma geração. Às
vezes, nem a um único verão. Fazer o quê? Continuar tagarelando do jeito que se
sabe, com as palavras que encontrar. Só não vale fechar a matraca. (p.
129)
Por referência a uma música de
Cazuza, “Mentiras sinceras” é uma crônica sobre o ato de falar a verdade ou a
necessidade de ocultá-la. Nem sempre falar a verdade abertamente é algo
positivo para o convívio social. Isso porque revelar a verdade diretamente pode
ser deselegante; ao contrário, haveria formas brandas de ser verdadeiro ou ao
menos não ser tão direto.
Em outros termos, há verdades
que não precisam ser expressas, como dizer que uma pessoa está malvestida ou
que ela é um tanto ignorante. Isso pode gerar conflitos desnecessários.
A violência das palavras
também ocorre nas relações interpessoais. No caso de “Vestidos para matar”, a
cronista fala sobre as fardas usadas por militares. Se é elegante, chamativo,
por outro lado sugere violência, ditadura, grosseria (lembre-se que a Ditadura
acabara há cerca de uma década em relação ao período em que ela escreve). E, de
fato, em três crônicas se refere a esse período sinistro da história brasileira
recente. Ditaduras são sempre ruins, não importa se de direita ou de esquerda.
São formas de governo que devem ser banidas de vez da sociedade brasileira de
modo a fazer a vida em comum fluir melhor, com mais leveza.
Em “Loteria dos espertos”, a
autora inicia falando sobre algo que veio a se tornar comum, processos judiciais
como meio não ético para ganhar dinheiro, como processar alguém por um
xingamento ou uma empresa por não ter cumprido um acordo. Evidente que não se
deve prejudicar o outro, mas muitas ações poderiam ser resolvidas sem a
intervenção do poder judiciário. No caso, o uso excessivo dessa mediação judiciária
sugere a tal indústria dos processos. Na crônica, em questão, porém, seu
objetivo principal é lembrar que foi nos anos 90 que os atos da Ditadura começaram
a ser revistos e quando pessoas que efetivamente sofreram no período apenas por
terem expressado ideias de modo contrário ao pensamento dos militares passaram
a ser recompensadas financeiramente. Nesse caso, foi necessária a ajuda da justiça
como meio de rever o passado recente e fazer as devidas correções.
Por outro lado, a liberdade
excessiva ou sem o devido cuidado pode gerar situações perigosas ou, ao menos,
constrangedoras. A autora relata em “Assassinos por distração” que à época
jovens na Flórida, EUA, teriam arrancado placas de trânsito para se divertirem.
A falta de sinalização provocou um grave acidente e esses jovens foram
condenados a quinze anos de detenção. O caso é todo complexo e dividiu
opiniões. Para Medeiros, no mínimo os jovens agiram sem pensar e mereceriam uma
punição, talvez não tão longa. Fato é que em sociedades democráticas, a
liberdade tem de ser usada com cuidado, pois pode prejudicar outros.
Não
somos marginais, mas somos todos homicidas em potencial. Basta uma
inconsequência, uma distorção de valores ou uma sandice como a dos jovens
americanos. (p. 166-167)
Medeiros toma uma situação
qualquer do cotidiano para fazer considerações de ordem específica ou moral ou
apenas para levar o leitor à reflexão.
Em duas crônicas, a autora se
baseia em filmes para fazer essas considerações. “Meryl Streep, chorai por nós”
trata de alguns filmes importantes da década de 90, especialmente “As pontes de
Madison”, para dizer que também nós podemos exercer papéis diferentes em nossa
vida ou apenas manter algo regular, sem grandes mudanças. Para Medeiros, o mais
importante é:
nos
acostumarmos com a presença de nossas outras personalidades, sem tentar
mascará-las [...] Chama-se
a isso amadurecimento. (p. 34)
Já em “No divã com Woody Allen”,
seu objetivo é mostrar que o cinema pode se comparar ao cotidiano. Essa seria a
lição do diretor, para quem os fatos banais, cotidianos apresentam histórias
divertidas e dramáticas que podem bem ser organizadas sob forma de roteiro.
Martha Medeiros, portanto, vê
essa característica no diretor norte-americano como determinante para seu modo
de produzir cinema, que não precisaria de efeitos especiais, tiros, explosões
etc. para contar uma bela história. Mas para isso, temos que aprender com o diretor,
“aprender a se divertir com a repetição,
com a banalidade, com o previsível” (p. 66) Trata-se, pois, de um cinema do
prosaico, da vivência que qualquer um de nós pode experimentar.
Crônica interessante para
compararmos o olhar do passado a respeito do que vivemos agora é “Os livros da
nova era”, escrita em 1995, em que fala sobre o advento do livro no formato
digital. Passados mais de vinte anos, trata-se de uma realidade. Porém, como a
autora já previa, há ainda relutância em ler livros no formato digital. Com
efeito, a maioria dos leitores ainda prefere o suporte papel para ler. A
explicação, entre outras, parece ser a mesma data pela cronista.
Aqueles
que têm com o livro uma relação íntima, quase religiosa, e que não deixam para
abri-lo só quando a tevê está estragada. Eu, por exemplo, gosto do cheiro do
livro. Gosto de interromper a leitura num trecho especialmente bonito [...]. Depois
reabro e continuo a viagem. (p. 36)
Há, ao menos, seis crônicas em
que Medeiros trata sobre a temática livro/literatura/arte. Em “Aula de
literatura”, por exemplo, defende que o ensino das letras deve prevalecer sobre
a de qualquer outra arte tendo em vista que todos fazemos uso da língua, o que
se configura como essencial para a formação do indivíduo. Evidente que não
despreza outras artes, como a pintura, por exemplo.
Em “Aquarelas universais”, por
exemplo, revela a importância de se visitar um museu, de se conhecerem os grandes
pintores, entre os quais a brasileira Tarsila do Amaral. Em complemento está “Gênios
monoglotas”, na qual Medeiros trata sobre gênios brasileiros das mais
diferentes artes e expressões artísticas, como Millôr Fernandes, Chico Buarque,
Jô Soares ou Sônia Braga. Se eventualmente hoje são nomes marcados por escolhas
políticas, igualmente foram ou são representantes artísticos de grande valor.
Em “Literatura póstuma”,
Medeiros se refere a obras de escritores importantes e que são publicadas postumamente.
Sua dúvida é saber se o tal artista gostaria mesmo que fossem publicadas. Em
geral, a publicação de um livro esquecido ou guardado na gaveta atende mais a
um interesse comercial, posto que determinado nome venderia um livro com
facilidade, que a uma evolução estética. De fato, analisando se apenas o valor
artístico do livro é provável que um determinado escritor não o tenha publicado
por considerá-lo ruim. É o caso do poeta chileno Pablo Neruda, ganhador de
diversos prêmios, reconhecido mundialmente, mas que não publicou tudo o que escreveu.
Na
maioria das vezes, obras póstumas são obras menores, cujo valor é mais
sentimental do que artístico. Seu único benefício é mostrar aos jovens autores
que ninguém nasce sabendo e que a prática é a melhor amiga do talento. Mas nem
esse argumento me comove. Já bastam as besteiras que fazemos em vida. (p.
123)
Outro caso é o da morte de
artista odiado, não tanto por sua obra, e sim por suas escolhas políticas ou
posições a respeito de assuntos polêmicos. Era o caso do jornalista e escritor
Paulo Francis, que fez vários inimigos especialmente porque não tinha muito cuidado
em expressar opiniões, por mais polêmicas que fossem. Há, inclusive, uma
suposição de que tenha falecido em decorrência de uma declaração sua de que haveria
corrupção na Petrobrás, isso nos anos 90, o que motivou diretores da estatal
processá-lo exigindo o pagamento de uma indenização altíssima.
Independente das opiniões
fortes do jornalista, Medeiros destaca que a morte de Francis, ocorrida em
1997, deixou uma lacuna na arte e no jornalismo, pelo fato de o autor ter
grande capacidade de análise, além de talento para escrever.
É por
isso que todos aqueles que adoravam Paulo Francis e também os que o odiavam do
fundo do coração devem lamentar sua morte. (p. 126)
Mudando um pouco o foco,
relata que as viagens de avião começaram a baratear, o que permitiu a um maior
número de pessoas viajar pelo país ou para o exterior. Medeiros chama a atenção
para isso em “A classe econômica vai ao Paraíso”. Na crônica, seu objetivo
maior é revelar que viagens deveriam ser meio de aumentar o conhecimento
cultural, e não apenas meio de comprar produtos variados, sem maior utilidade,
apenas para se dizer que comprou determinado coisa no exterior.
Mas
para sacoleiros natos, [...] estar em Miami ou Nova York dá na mesma, desde que
haja um camelódromo em volta do hotel. (p. 57)
Na crônica que dá título ao
volume: “Topless: atentado ao pudor”, há uma reflexão de ordem moral e também
comportamental do brasileiro. O termo anglicano, topless, serve para indicar um
hábito muito comum em praias europeias e em algumas localidades dos EUA de as
mulheres ficarem sem a parte de cima do biquíni, deixando os seios à mostra.
Medeiros chama a atenção para o fato de que o brasileiro é aparentemente
liberal no assunto sexualidade, porém, por estranho que seja, reagia mal (e
ainda continua a reagir) quando uma mulher faz topless na praia, por exemplo.
A autora descreve que em
carnaval, em situações erotizantes, como em filmes, novelas etc. não se vê
problema uma mulher ficar seminua, porém na praia ou em ambientes públicos, o
ato se torna uma afronta aos chamados bons costumes. Contradições que, mesmo
tendo passados vinte anos da publicação da crônica, ainda persistem.
Basta
uma garota fazer topless numa praia de Santa Catarina ou de Pernambuco para
provocar um clarão a sua volta, como se ela estivesse com lepra. (p.
51)
O tema mais recorrente nas
crônicas do livro é relacionamento, o que inclui o casamento em si, as separações,
a maternidade, o feminismo e assuntos correlatos. São ao menos dezoito crônicas
sobre essas temáticas. Vamos resumir e analisar as principais, estabelecendo
algumas relações entre elas.
Trata dos relacionamentos
antes, durante e após o casamento. Seu objetivo parece ser o de analisar os
novos tempos (leia-se fim de século, mas claro que muito do que ela disse
continua a fazer parte do contexto atual).
Uma das crônicas é sobre
pensão alimentícia. A autora se refere a um episódio da época em que um ex-marido
foi preso por não pagar corretamente a pensão.
O advento do novo Código
Civil, em 2002, mudou essa relação, mas como o texto é de 1996 seguia regras antigas
em que sempre cabia ao homem pagar a pensão.
Pós-2002, o entendimento legal
passou a ser outro. De qualquer modo, Medeiros chamava a atenção para o fato de
que se a mulher queria independência, ela teria de ser plena, incluindo a
financeira, sem depender mais de ex-, de modo a não requerer a prisão pela
falta de pagamentos não a filho, mas à própria ex-esposa.
Pensão
alimentícia, só para as crianças. Se ela tem uma formação profissional e tem
saúde, é hipocrisia querer herdar o paternalismo que tanto se lutou para romper. (p.
16)
Em outra crônica, “Mulher
solteira procura”, a cronista revela as contradições do sentimento feminino.
Apesar de uma maior
independência, as mulheres ainda sonham com o casamento, ao menos com o ato em si,
encontrar aquilo que os contos de fada já falavam, a busca pelo príncipe. Isso
porque se cobrava e se cobra da mulher que cumpra com seu dever social: casar se.
Em outras palavras, se
pensarmos no todo, vemos muitas mulheres que têm um pensamento diferente; de
qualquer modo, permanece no senso comum o desejo de casar-se, até porque ser
casada parece trazer algumas vantagens, entre elas a ideia de ser livre, por não
ter de estar, em tese, à procura de algo:
[...] a mulher casada é infinitamente mais livre do que a solteira, pois já
cumpriu o papel que a sociedade exigiu dela – casou! – e agora tem o resto da
vista para ser ela mesma. (p. 22)
“Década de 70: a adolescência
do feminismo” trata sobre a luta feminina por mais direitos e como isso
colaborou para as mudanças de sociabilidade. É uma liberdade conquistada, mesmo
que não plena; sem dúvida, porém, que as mulheres passaram a ter direitos que
antes não se imaginava ter, isso, ao mesmo tempo, gerou deveres também novos.
Em rigor, vivemos ainda hoje um processo de mudança de sociabilidade, em que
nem sempre se tem certeza do que se quer, certeza sobre o papel de cada um. O
fato é que alguns estereótipos, bem como rótulos têm sido revistos.
Ser
mulher nunca foi uma maravilha, assim como nascer homem está longe de ser uma
graça dos céus. Há problemas e vantagens em ambos os lados e, juntos, estamos
fundando uma nova sociedade, sem tanto estereótipo e com um pouco mais de
bom-senso. (p. 40-41)
A mesma ideia, com outro
objetivo, está em “Vovó é uma uva”, fazendo uma brincadeira com os antigos métodos
de alfabetização. A crônica procura mostrar que as avós modernas, como Baby
Consuelo, Danuza Leão, entre outras, não carregam aquele conceito de vovozinha
que faz chá e bolo, sempre à espera dos netinhos; ao contrário, têm vida
própria, são descoladas e são mulheres ainda desejáveis, que despertam sentimentos
sensuais.
É a mudança no modo de olhar para
as mulheres, bem como o papel que elas próprios começaram a construir para si
desde a década de 60.
Essa independência feminina,
bem como o novo homem, pode produzir consequências negativas, como o não
desejar ter filhos. Embora não seja um crime, pode ocorrer de, ao se gerar um
filho não desejado, o casal simplesmente dar o filho para a adoção, de modo a
evitar que o filho venha a atrapalhar seu estilo de vida. É o que se observa em
“Toma que o filho é teu”.
Medeiros chama a atenção para
a possibilidade de, após a doação, ocorrer um arrependimento, porém, a justiça
deveria retirar de vez qualquer direito de um casal reaver um filho já doado.
Até porque, depois, “os pais adotivos também
se sentem legítimos. [...] Crianças não são produtos que vêm com prazo de validade”.
(p. 53-54)
Em “Verdades e mentiras sobre
as mães”, Medeiros segue a mesma linha de reflexão ao abordar alguns mitos a
respeito da maternidade:
“Mãe é mãe”; “Mãe é uma só”;
“Ser mãe é padecer no paraíso”; “Maternidade: missão de toda mulher”.
Para a autora, são mitos, pois
a mulher hoje adquiriu outras perspectivas, apresenta outros interesses, o que
pode sugerir que nem toda mulher teria tal perfil para a maternidade. Porém,
conclui com outro clichê:
“Mamãe eu quero”, ou seja, que
todos amariam a própria mãe, o que também pode não ser exatamente a verdade.
Fato é que a autora quer
chamar a atenção para as mudanças que vêm ocorrendo desde a década de 60,
quando a mulher passou a perceber que seu destino poderia não ser apenas aquele
a que lhe era reservado, casar-se e ter filhos. Com efeito, observamos hoje a
mulher totalmente integrada às mais diversas profissões, de modo a colocar em
prática o princípio democrático do Brasil atual (leia-se, os últimos trinta anos).
Um pouco na contramão da ideia
de mãe moderna, Medeiros fala de Madonna, em “Madona like a virgin”, que
encarna, a despeito de toda liberalidade da cantora, a típica mãe
super-protetora, que proibiria o filho de fazer coisas básicas, como ver TV.
A
mudança de Madonna reforça um mito antigo, o de que ser mãe compensa o abandono
de si mesma. (p.155)
O mesmo se dá em “Parabéns
para você”, em que a autora chama a atenção para as festas de aniversário mais
modernas, que, além de doces, guloseimas, devem ter brincadeiras organizadas
etc., tendo como diretora a mãe, que, mesmo querendo ser moderna, nessa hora
tem que ser mãe.
Por
que suportamos tudo caladas? Porque mãe é sinônimo de sacrifício, entrega,
benemerência. (p. 138)
Já em “Homens, mulheres e
abajures”, seu objetivo é mostrar as diferenças persistentes entre os sexos
opostos, sobretudo no que diz respeito à decoração da casa. Interessante que no
início da crônica afirma que assim como lojas de decoração, era possível achar
locadoras de vídeo em qualquer lugar.
As casas de decoração
permanecem, mas as locadoras foram sendo esquecidas, pouco a pouco. Pois bem,
na crônica, quer mostrar que sempre haverá diferenças entre os sexos, pois os interesses
e a sensibilidade nem sempre são iguais.
Outra crônica a tratar da vida
doméstica é “As musas de Odair José”, por referência às empregadas do lar. Com
as mudanças na sociabilidade, ter uma empregada em casa não significa mais
apenas uma pretensa vadiagem de uma mulher burguesa, cuja vida era basicamente
servir ao marido, mas sim algo necessário para uma dona de casa que é também
profissional, que tem outros afazeres, outras perspectivas de vida. O título é
porque Odair José se tornou um cantor paradigmático das empregadas domésticas
ou secretárias do lar.
Em “Crônica de um casamento
anunciado”, Medeiros revela que em fins do século XX o casamento parecia em
desuso, pelas facilidades de se buscar apenas morar juntos, mas, em rigor, era
uma prática mais recorrente do que se poderia imaginar. Talvez hoje essa
percepção também esteja presente, embora casar-se ainda continua algo bastante
comum. O objetivo da autora é o de mostrar que declarar-se noiva pode não ser
impeditivo para que outra pessoa tente paquerar uma moça. Segundo Medeiros, o
contrário poderia até acontecer: um noivo, em princípio, seria respeitado pelas
mulheres solteiras. Verdade ou não, Medeiros quer dizer que as mulheres tendem
a respeitar mais os comprometidos em comparação aos homens, que, mesmo diante
de uma noiva, tentaria algo com ela. Além de mostrar que noivado é apenas um
rito de passagem, não uma certeza de durabilidade no relacionamento.
Tem
gente que namora duas semanas, casa e comemora bodas de ouro. Outras ficam
noivas dez anos e casada apenas dez dias. Noivado é rito de passagem. Uma
maria-fumaça. A paixão é que é o verdadeiro trem-bala. (p.
78)
Ainda nessa linha temática,
sobre relacionamento, outras duas crônicas tratam sobre a primeira vez e sobre
a manutenção da paixão por anos. Em ambos os casos, a cronista tenta entender
os tempos modernos, sem se esquecer da tradição moral, por assim dizer.
“Em a primeira noite de uma
mulher”, como indica o título, ela aborda a dificuldade natural de uma mulher se
apresentar intimamente a um homem pela primeira vez:
Não é
tarefa fácil nem para balzaquianas calejadas, o que dirá para uma garota cheia
de fantasias na cabeça. (p. 95)
No caso de “O príncipe que virou
sapo”, trata sobre as traições que podem ocorrer durante um relacionamento de
muitos anos. Ela sugere que isso pode acontecer, sem que necessariamente o
traidor queira o fim do relacionamento sério, ou o faz por mau caráter, a não
ser, claro, que não se queira continuar de fato o casamento:
Admitamos:
infidelidades casuais não justificam a separação de duas pessoas que se amam. (p.
98)
Com efeito, muitas vezes a
separação ocorre mais por pressão social que propriamente por um desejo efetivo
do traído.
Na crônica “Casamento, lado A
e lado B”, a temática se repete. Os pontos positivos e negativos do casamento.
A rotina que traz segurança é a mesma rotina que torna a relação monótona.
Por outro lado, na crônica
“uma aventura no supermercado”, Medeiros mostra que mesmo a vida rotineira de
uma dona de casa pode ser aventureira em alguns momentos, no sentido de que a vida
moderna, com seus desafios, correria, indecisões, pode levar uma pessoa a viver
experiências intensas mesmo em um supermercado.
Se
você optou por um supermercado popular, vai querer cortar os pulsos. Você mesma
terá que acomodar suas compras. Ovos com lustrador de móveis, fita de vídeo com
manteiga, uvas com garrafas de refrigerante, tudo junto, como uma grande
família. Dane-se a higiene. (p. 132)
Medeiros aborda a dificuldade
de se encontrar a chamada “alma gêmea” e como as pessoas, para isso, costumavam
recorrer a agências de casamento, exatamente na crônica “Agências de
casamento”.
Escrita em 1997, se atualizada,
certamente a crônica faria menção às redes sociais ou as agências virtuais que
promovem todo tipo de encontro, do casual ao sério. Mudando os tempos, uma
verdade permanece: a dificuldade de se encontrar a pessoa perfeita para nosso
objetivo de vida, desejos, comportamento etc.
Em outra crônica, porém,
“Sargentos e soldados”, a autora afirma que há casais que permanecem unidos mesmo
sendo diferentes, isso porque certamente cada um aceita a diferença do outro
que o complementa ou mostra a vida de outro modo, ao menos.
As
pequenas divergências só ganham ares de drama quando atingem o lado frágil do
casal: o bolso. (p. 163)
Mesmo assim, podem ainda assim
se entenderem.
Apesar de Medeiros quase
sempre escrever da perspectiva feminina, ela não despreza a visão do homem.
Busca entender a dificuldade de ser homem nos tempos modernos (leia-se fins do
século XX e, extrapolando, o século XXI), em que mulher tem voz, tem sonhos,
desejos, projetos pessoais etc. Por isso, propõe o “Dia internacional do
homem”. Por conta da nova mulher, o homem deve se reinventar também. Isso o
levou a fazer serviços domésticos e a experimentar certos julgamentos sociais,
a que eram submetidas apenas as mulheres.
Por
isso, além das lides do lar, os moços trabalham fora. E aí deles se
fracassarem. [...] No amor, a opressão é ainda maior. Os homens que não casam
são marginalizados pela sociedade. São vistos como playboys, filhinhos de mamãe
ou bichas enrustidas. (p. 133)
Nessa linha, “Homens que têm
tudo” discute que tipo de presente um homem deveria receber. No caso, é preciso
esquecer os tradicionais, como meias, gravatas, lenços ou camisas polo. Se a
mulher mudou, o homem também.
Esse é o foco da maior parte
das crônicas de Martha Medeiros, discutir as mudanças nas relações familiares,
no modo de ver o papel de cada sexo. Ora, para uma nova mulher há que se
constituir um novo homem. E, talvez, mais do que isso, excluindo os
estereótipos do que seja um homem, do que seja uma mulher, Medeiros mostra que
há urgências, que antes não se pensava em ter. Claro que em qualquer época,
sempre haverá esse discurso do “no meu
tempo não era assim...” Mas eis o papel do cronista, ou um deles, retratar
a vida cotidiana, registrar por meio de uma linguagem jornalística aquilo que
tem de permanente, ver no efêmero um padrão, um estilo de vida, determinar o
que é comum a muitos indivíduos.
Em “A felicidade no fim de
século”, isso é bastante explícito. Cita algumas personalidades da época, ou
seja, 1995, como Arnaldo Jabor, Danuza Leão, Jô Soares, que mudaram sua vida
pessoal ou profissional, para mostrar que as pessoas comuns, as não
celebridades também têm buscado alternativas para serem felizes, para se
realizarem, para atingirem metas antes impensáveis. Até porque há uma urgência pela
felicidade, como se ela não pudesse esperar. É preciso viver o agora, sempre.
Para
nossas bisavós, ser era fácil. Bastava casar e ter filhos. [...] Por que esta urgência
de viver? Simples, porque a morte tem chegado à bala. (p.
17)
Essa mudança de comportamento
está registrada em “O beijo de Maradona”. Escrita em 1996, a crônica discute o
novo homem, motivado por um beijo que Maradona teria dado em Cannigia por
ocasião da marcação de um gol.
Medeiros aproveita o caso para
refletir que, embora não seja comum homens se beijarem, ao menos não em
público, tem se permitido demonstração de afeto mútuo, sem serem confundidos como
homossexuais. É bem verdade que, passados vinte anos, isso é até mais comum,
inclusive o beijo.
O ponto é que, com efeito,
demonstrar sentimentos em público não é mais ato exclusivo das mulheres.
Homens sempre tiveram
dificuldade com isso, não porque sejam incapazes de sentir, mas sim, por
pressão social, cultural, tinham de sempre manter-se firmes nas emoções, por
referência ao famoso clichê, segundo o qual “homem não chora”.
Em “Falem bem, falem mal”,
Medeiros reflete sobre a necessidade de as celebridades, em particular, terem
seu nome e trabalho constantemente comentados. Embora Medeiros não tenha
antevisto, hoje, com a proeminência das redes sociais, esse desejo se estendeu
a todos, sobretudo os que almejam popularidade mesmo que sob um enforque
negativo, pejorativo. Vídeos são gravados com cenas torpes e mesmo assim compartilhados
para se obter uma fama um tanto duvidosa. O mais importante é que se curta, se
compartilhe qualquer prática, por mais tosca ou néscia que seja.
O papel de personalidades,
heróis, líderes é o de inspirar atitudes transformadoras, revolucionárias, positivas.
Porém, nem sempre é o que acontece.
Na crônica, “A modéstia sobre
ao pódio”, Medeiros fala da ascensão do tenista Gustavo Kuerten, o Guga.
Trata-se, pois, de uma personalidade por uma ação positiva, não por se expor em
redes sociais de modo a se transformar em pseudo celebridade.
Por fim, vale a pena ainda
destacar outra crônica de Martha Medeiros. Nascida no Rio Grande do Sul, a
autora analisa o modo de ser gaúcho em “Rio Grande, ame-o e deixe-o”. O título
é irônico e remente o leitor ao slogan político dos anos 70, quando o governo
ditatorial militar usava a frase: Brasil, ame-o ou deixe-o. Naquele contexto, a
ideia de amar refletia o discurso de que era precisa aceitar o status quo ou abandonar
o país para que não houvesse luta etc.
No caso da cronista, seu objetivo
é mostrar que o bairrismo, o regionalismo que gira em torno de certos locais no
país, em especial no Rio Grande, tende a produzir um discurso de afirmação
local, porém de consequências ruins para a brasilidade, no sentido de que o
gaúcho mais típico vê sua cultura como superior a qualquer outra, gerando certo
preconceito em relação a outras regiões.
O Rio
Grande do Sul vive para dentro. Cultiva suas tradições como um pai feroz cuida
da filha donzela. [...] Mas: o protecionismo gaudério não deixa que se critique
a literatura gaúcha, os músicos gaúchos, a costela gaúcha. [...] o confinamento
é terreno fértil para preconceitos. (p. 115-117)
O que pode ser visto de modo
positivo sob certo ângulo é algo que se revela preconceituoso a todos, afinal o
olhar para fora é sempre importante. Compreender o todo é mais vantajoso que um
olhar limitado, particularista. Por isso, a literatura de modo geral e em
particular de Martha Medeiros, por ampliar nosso modo de olhar, por partir de
elementos comuns, leva o leitor a sair de seu mundinho, daquilo que o cerca para
ganhar o mundo. É o desnudamento que provoca as crônicas de Martha Medeiros,
que quer fazer um topless do que está em nossa mente, para apontar as mudanças
e também provocar o leitor a ver para além do próprio mundo, para refletir além
do próprio umbigo.