sábado, 5 de abril de 2025

MÚSICA ZERA A REZA, CAETANO VELHOSO

 


ZERA A REZA, CAETANO VELOSO

Vela leva a seta tesa

Rema na maré

Rima mira a terça certa

E zera a reza

Zera a reza, meu amor

Canta o pagode do nosso viver

Que a gente pode entre dor e prazer

Pagar pra ver o que pode

E o que não pode ser

A pureza desse amor

Espalha espelhos pelo carnaval

E cada cara e corpo é desigual

Sabe o que é bom e o que é mau

Chão é céu

E é seu e meu

E eu sou quem não morre nunca

Vela leva a seta tesa

Rema na maré

Rima mira a terça certa

E zera a reza

  “Zera a reza”, primeira letra do disco “Noites do Norte” (2000) revela mais uma demonstração da arte neobarroca de Caetano Veloso, artista engajado com seu tempo, cujas letras são, quase sempre, tidas como complexas e de difícil entendimento, ou seja, o receptor desfruta a letra e a melodia, mas encontra dificuldades para entender a mensagem.

O neobarroco, que segundo Chiampi (1998), é uma reciclagem do barroco histórico feita nos dias atuais, surge como característica do “fim das utopias”. Severo Sarduy (1979), em seu ensaio O barroco e o neobarroco, apontam três mecanismos de artificialização que são á base da teoria neobarroca, a saber: substituição, troca do objeto-foco por outro, que faz referência àquele; proliferação, a multiplicação de metonímias do objeto-foco através da repetição de termos e mesmo sequências de significantes; e condensação, fusão de dois dos termos de uma cadeia de significantes, de cujo choque resulta um terceiro termo que resume semanticamente os dois primeiros.

“As palavras da letra são uma brincadeira nada rigorosa com inversões e espelhamentos” (Veloso, 2003).

Esta definição feita pelo compositor refere-se aos quatro primeiros versos da letra, em que os anagramas: vela-leva; seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa; zera-reza, utilizados aqui como ludismo, desviam a atenção do receptor para o texto sob a letra.
Em “Zera a reza” apresenta um dualismo pois, citando a reza, momento sagrado em que o ser se comunica com o divino, e a música/dança, momento de profanação do corpo e, o pecado, Caetano Veloso parodia veladamente com a letra Deus e o Diabo (1989), de sua autoria, em que o verso “O carnaval é a invenção do Diabo / que Deus abençoou”, fortalece a correlação entre espírito e corpo; perdão e pecado; virtude e prazer, características fundamentais do estilo barroco.
Nos versos: “Zera a reza meu amor / canta o pagode do nosso viver” há um convite para que o receptor, evocado através da expressão “meu amor”, abandone seu estado contemplativo, principalmente, a reza, e aproveite ao máximo sua vida, pois tudo é transitório e a vida breve. Há aqui a intertextualidade com os versos da canção Deixa sangrar (1989), também de Caetano: “Deixa o mar ferver, deixa o sol despencar / deixa o coração bater, se despedaçar / chora depois mas agora deixa sangrar, deixa o carnaval passar”, ou seja, é preciso zerar a reza, livrar-se das convenções e extravasar os sentimentos e as emoções.

O carnaval é um conjunto de festividades populares que ocorrem em diversos países e regiões católicas nos dias que antecedem o início da Quaresma, principalmente do domingo da Quinquagésima à chamada terça-feira gorda, “a terça certa”.

A própria origem do carnaval é obscura, embora seja encontrado já no latim medieval, como carnem levare ou carnelevarium, palavra dos séculos XI e XII, que significava a véspera da quarta-feira de cinzas, isto é, a hora em que começava a abstinência da carne durante os quarenta dias nos quais, no passado, os católicos eram proibidos pela igreja de comer carne.
É possível que suas raízes se encontrem num festival religioso primitivo, pagão, que homenageava o início do Ano Novo e o ressurgimento da natureza, mas há quem diga que suas primeiras manifestações ocorreram na Roma dos césares, ligadas às famosas saturnálias, de caráter orgíaco. Contudo, o rei Momo é uma das formas de Dionísio, o deus Baco, patrono do vinho e do seu cultivo; e isto, faz recuar a origem do carnaval para a Grécia arcaica, para os festejos que honravam a colheita. Sempre uma forma de comemorar, com muita alegria e desenvoltura, os atos de alimentar-se e beber, elementos indispensáveis à vida. É, portanto “entre dor e prazer” que acontece o pagode, o samba, o carnaval, feito, em grande parte, por pessoas que passam a maior parte do ano em meio a dor, pela marginalidade social imposta.
Dessa maneira, é preciso “pagar pra ver o que pode / e o que não pode ser”, arriscar-se, extravasar-se com toda coragem, sem medo e sem culpas, mesmo que seja por poucos dias.
Segundo Bakhtin (1999), em seus estudos sobre o contexto de Rabelais, “os bufões não eram atores que desempenhavam seu papel no palco. Pelo contrário, eles continuavam sendo bufões e bobos em todas as circunstâncias da vida. Situavam-se na fronteira entre a vida e a arte”. Bakhtin (1999) observa ainda que os atores assistiam às funções do cerimonial sério, para parodiá-los. O carnaval ignora toda distinção entre atores e expectadores, pois os expectadores vivem o carnaval. Obviamente, as representações carnavalescas atuais são outras, mas ainda percebe-se esta essência do carnaval como uma “segunda vida”, principalmente para aqueles que trabalham durante o ano preparando a festa, apesar da turistização, e de se fazer hoje um carnaval com palco (Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro; entre outros).
O folião é um participante essencial para a existência do carnaval, seu sujeito e objeto; ator e expectador, onde o “chão é céu” por onde as estrelas, que são os passistas desfilam e brilham no palco ilimitado para o show de uma vida “que pode e o que não pode ser”, livre das convenções morais, sociais, religiosas e, com a própria realidade.
Há uma citação de um verso da letra Gente (1977), do mesmo autor, em que diz que “Gente é pra brilhar”. O carnaval permite a elevação do povo, inclusive os mais carentes, ao céu e às estrelas.
Não há hierarquia, desigualdades e nem diferenças. O essencial é festejar a vida com toda a expressividade que o corpo permite, libertando o “eu reprimido” até na “terça certa”, a “terça-feira gorda”, o último dia da festa.
Para Bakhtin (1999) “convertia-se na forma de que se revestia a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância”.
O verso “E eu sou o que não morre nunca”, parodia com outros, “o samba não vai morrer”, da canção Desde que o samba é samba (1993); “o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor” e atenta para o fato de que, o eu-lírico incorpora o próprio samba, zerando o sagrado, transcendendo e imortalizando como um deus.
Nos versos: “A pureza desse amor / espalha espelhos pelo carnaval” apontam para as pessoas que ideologicamente e passionalmente trabalham o ano todo, envolvidas na expectativa do carnaval e em seu brilho.
Os espelhamentos, quase anagramáticos desenvolvendo novas técnicas poéticas em “Espalha-espelhos e cada-cara” retomam a ideia inicial do jogo como recurso para desviar a atenção do leitor tal como observa Affonso Ávila (1994), ao tratar do artista barroco. Ao fazer o jogo de espelhamentos com as palavras do refrão: vela-leva; seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa; zera-reza, e ao dizer que “espalha espelhos” Caetano Veloso trabalha criando um processo de metalinguagem na letra.
A proliferação dos significantes: “pagode do nosso viver”; “pode entre dor e prazer”; “vê o que pode e o que não pode ser”, “espelho”, “conhece o bom e o mau”, “que não morre nunca”, resulta no significado “samba”, simbolizado no título por “zera a reza”.
Não é por acaso que Zera a reza abre o disco Noites do Norte (2000), um disco que, inspirado pelo pensamento do abolicionista Joaquim Nabuco, tem fortemente impresso nas letras a questão da cultura afra-descendência. Portanto iniciá-lo falando do samba, dança de origem africana, herança dos negros trazidos como escravos, e do carnaval, festa popular que, no Brasil, incorporou o samba, além do frevo e hoje do axé, como ritmos matrizes. Todavia, Caetano Veloso faz essa homenagem de forma velada, através do jogo significante/significado, das proliferações e substituições que caracterizam a obra neobarroca.


sábado, 22 de março de 2025

ZELIG (1983), WOODY ALLEN

 


 “Uma reflexão sobre as pressões das organizações e da sociedade sobre o indivíduo e as ameaças à identidade individual.” 

A Ku Klux Klan, que via Zelig como judeu, e que podia se transformar em negro e em índio, o encarava como uma tripla ameaça.”

Tenho um caso interessante. Estou tratando dois pares de gémeos siameses com dupla personalidade. Sou cobrado oito vezes mais!” (Leonard Zelig, fala insana nº 1 do filme “Zelig”)

ELENCO:

Woody Allen (Leonard Zelig)
Mia Farrow (Dra. Eudora Fletcher)
John Buckwalter (Dr. Sindell)
Marvin Chatinover (Médico)
Stanley Swerdlow (Médico)
Paul Nevens (Dr. Birsky)
Sol Lomita (Martin Geist)
Mary Louise Wilson (Irmã Ruth)
Richard Litt (Charles Koslow)
Sharon Ferrol (Miss Baker)
Stephanie Farrow (Meryl)

FICHA:

Título Original: Zelig
País de Origem: EUA
Ano de Lançamento: 1983
Gênero: Comédia / Fantasia
Duração: 1h 29Min
Idioma: Inglês

HISTÓRICO:


Comédia dramática dirigida e protagonizada por WOOD ALLEN.
Com este hilariante “Zelig” (1983), Wood Allen se entrega a um trabalho inédito de sua carreira: a metalinguagem. 
“Zelig” é, sob muitos pontos de vista, um dos mais atípicos filmes de Allen. Contrariando a sua média de um filme por ano, o realizador concentrou-se por muito tempo na realização desta obra, devido a dificuldades técnicas e ao seu perfeccionismo levado ao extremo. 
Os problemas na montagem e finalização foram tantos que Allen ainda rodou e distribuiu “A Midsummer night’s sex comedy” e “Broadway Danny Rose” enquanto “Zelig” se encontrava em pós-produção com testes de laboratório, manipulação da película e preparação dos efeitos especiais. 
A principal razão para todos estes problemas prende-se a determinação de Allen em atingir ao máximo a dicotomia entre a realidade e a ficção, criando um “autêntico documentário”, alicerçando-se nos códigos do formato jornalístico, porém de um protagonista fictício.
A sua forma de narrar a história em questão, apesar de não ser completamente inédita, é o que mais desperta atenção nesse filme. 
Allen já havia utilizado desse recurso em outros de seus filmes, “Um Assaltante Bem Trapalhão”, 1969; “Maridos e Esposas”, 1992 e “Poucas e Boas”, 1999.

No entanto, nesses títulos, há uma mistura de falso documentário e ficção normal, algo que não ocorre em “Zelig”. O diretor, em “Zelig” imprime uma bizarra narrativa que intercala testemunhos da atualidade (ou pelo menos da atualidade em que o filme foi rodado, em indícios dos anos 80) com imagens de arquivo dos anos 20-30, juntando cenas de antigos documentários com sequências novas de ficção, conseguindo ótimos resultados e propiciando ao diretor de fotografia Gordon Willis a oportunidade de um trabalho magistral.

A fita aprimorou a técnica de montagem de cenas rodadas com material antigo, reunindo depoimentos de intelectuais reais e permitindo que Allen, contracenasse com personalidades falecidas para dar um aspecto de maior fidedignidade, o que resultou num filme considerado o mais criativo. Dessa forma, o filme fascina na medida em que a presença de Zelig distorce a história verdadeiramente documentada no passado, como por exemplo, a passagem ficcional de Zelig pelos Estados Unidos nas décadas de 20 e 30; sua ida a Europa durante a ascensão de Hitler; a confusão que causou no vaticano; os resquícios deixados na dança e música daquela época, bem como no cinema.


TÉCNICA E MONTAGEM:


Com recursos praticamente zerados e ainda levando-se em consideração que, no início dos anos 80, os efeitos especiais ainda eram uma lenda urbana, Allen realizou um trabalho esteticamente perfeito. 
Wood Allen sempre flertou com diferentes modos de narrar. Em “Zelig” as personagens e o conflito humano são apresentados através da reunião de diversos depoimentos extraídos de cinejornais, fotos e filmes noticiosos da época, alguns originais, retocados ou modificados, outros simplesmente produzidos e envelhecidos, permitindo a inclusão, no filme, de alguns momentos significativos do século XX. 
O contraste conseguido com as imagens em preto e branco versus as cenas da atualidade fotografadas em cores (época em que o filme foi rodado), dá-lhe um caráter de verossimilhança tão perfeito que chega, muitas vezes, impressionar o espectador. Allen e Gordon Willis, diretor de fotografia, para conseguirem essa proeza utilizaram-se de várias câmeras e lentes próprias da década de 20 e 30, filmando com Super8, câmeras de TV, câmeras de 35 mm, simulando danos aos negativos para fazer com que o produto final se confunda com antigo. Para tanto, pisaram em cima dos mesmos, jogaram-nos na água, arranharam, colocaram na geladeira etc. Além de recorrerem a técnica do “chroma key” de processamento de imagens cujo objetivo é eliminar o fundo de uma imagem para isolar as personagens ou objetos de interesse que posteriormente são combinados com uma outra imagem de fundo para registrar a aparição de Zelig,
entre as diversas personalidades da época. Entre elas, Zelig ao lado do Papa Pio XI, entre convidados famosos no “garden party” do escritor Scott Fitzgerald; ao lado de Hitler; Charles Lindbergh, Al Capone, William Randolph Hearst , Marion Davies, Charlie Chaplin, Josephine Baker, Fanny Brice, Carole Lombard, Dolores Del Rio, Adolf Hitler, Josef Goebbels, Hermann Göring, James Cagney, Jimmy Walker, Lou Gehrig, Babe Ruth, Bobby Jones; incluindo, também, a ensaísta Susan Sontag, o psicólogo Bruno Bettelheim, o escritor vencedor do Prêmio Noberl Saul Bellow, o autor político Irving Howe, o historiador John Morton Blum e a empresária da noite de Paris Bricktop, buscando, dessa forma, ultrapassar a barreira da ficção.
O resultado, além de ser perfeito, graças a essa engenhosa montagem é recheado pelo humor famoso do cineasta. 
Há um distanciamento entre o espectador, os atores e suas falas, exceto em algumas filmagens sonoras, como as sessões de análise gravadas pela Dra. Fletcher.
No entanto, mesmo com limitado tempo de fala, as personagens apresentam-se fortemente marcadas, sempre presentes, pois esses recursos se tornam imperceptíveis, centralizando-se na narrativa e nunca chamando a atenção para si mesmo.
O filme “Zelig” surpreende não só pela direção, fotografia e roteiro. A trilha sonora do filme também merece destaque. Nela, encontra-se: “I’m Sitting on Top of the World” e “Five Feet Two, Eyes of Blue”, de Ray Henderson, Sam Lewis e Joe Young; “Sunny Side Up”, de Henderson, Lew Brown e Buddy G. DeSylva; “Ain’t We Got Fun”, de Richard A. Whiting, Ray Egan e Gus Kahn; “Charleston”, de James P. Johnson e Cecil Mack; “I’ll Get By”, de Fred E. Ahlert e Roy Turk; “I’ve Got a Feeling I’m Falling”, de Fats Waller, Harry Link e Billy Rose; “I Love My Baby (My Baby Loves Me)”, de Harry Warren e Bud Green; “A Sailboat in the Moonlight”, de Carmem Lombardo e John Jacob Loeb; “Chicago (That Toddlin’ Town)”, de Fred Fisher; e “Anchors Aweigh”, de Charles A. Zimmerman e Alfred Hart Miles. Dick Hyman também compôs diversas canções supostamente inspiradas pelo fenômeno Zelig, incluindo “Leonard the Lizard,” “Reptile Eyes,” “You May Be Six People, But I Love You,” “Doin’ the Chameleon,” “”The Changing Man Concerto,” e “Chameleon Days” – esta executada por Mae Questel, a voz de Betty Boop.

TEMPO E NARRADOR: 

A técnica criativa do filme disponibiliza recursos audaciosos, como o uso de depoimentos posteriores ao tempo da trama e o uso de um narrador constante sem afetar seu mérito. 
Allen consegue fazer humor satírico e contar a história através de diversos pontos de vista, passando para o espectador o clima de comoção de diferentes segmentos da sociedade em relação a Leonard.
A história se passa em meio ao ritmo alucinante entre os anos de 1920 e 1930, na efervescência do “American way of life”. Porém, apresenta um retrato específico não só da América (os anos loucos, à ascensão do fascismo na Europa, o surgimento das estrelas que começavam a emergir e à exploração mediática das suas vidas em mudança), como do próprio mundo, tal como Zelig. 
Allen ainda aproveita as circunstâncias para ironizar a imprensa, suas raízes judaicas, os relacionamentos, o K.K.K. e o Partido dos Trabalhadores (Labor Party), por quem Leonard é odiado.

RESUMO DO ENREDO:

“Zelig” não se resume apenas numa comédia divertida Trata-se de uma história lírica, comovente, sociológica, histórica, psicanalítica, reflexiva etc.
Leonard Zelig é o protagonista desse virtuosismo filme, interpretado pelo próprio Wood Allen que sem afastar emocionalmente o espectador da sua personagem, leva-o questionar sobre a perda de personalidade e sobre a aceitação do indivíduo pela sociedade.
Para o protagonista, somente os outros eram interessantes e para suprir a falta de amor próprio, adquire a misteriosa capacidade de transformar sua personalidade e fisionomia na presença das pessoas que o cercam, tornando-se um legítimo camaleão-humano, objetivando integrar-se e ser aceito na sociedade. De tão acostumado a absolver a personalidade de outros, Zelig despreza sua própria, abdicando assim de sua humanidade, vivendo uma não existência, que, fugindo de si mesmo, perde sua individualização e cai num coletivo padronizado.


A cultura o exilou no seio do seu próprio ser, para que pudesse ser sujeito. Introduziu no que era próprio o alheio, o outro. E, é principalmente neste tema que o filme se debruça: na transformação e perda de personalidade por parte de um homem, em detrimento da sua integração, do desejo de se misturar nas multidões e não se destacar.

Sabe-se que o camaleão é um réptil que, para se adequar ao ambiente ao seu redor e passar despercebido pelos seus inimigos, muda sua cor. No caso de Zelig, não se trata de performances dramáticas, a sua metamorfose ocorre involuntariamente, forma de adaptação ao interesse do momento de acordo com o ambiente em que se encontra inserido
Zelig é observado inicialmente numa festa, por F. Scott Fitzgerald, que nota que, ao mesmo tempo em que circula entre os convidados comportando-se de forma refinada e culta, em outro momento, o protagonista se mistura aos criados na cozinha, vociferando enfurecidamente contra os “gatos gordos” em linguagem coloquial.
Identificado aos poucos, pelo seu dom de transformação, Zelig ganha notoriedade e passa a ser o centro de curiosidade da mídia, das manchetes internacionais; de médicos; psicólogos; curiosos e de pesquisadores de universidades especializadas para que se possa detectar a anormalidade que o atormenta.
Essa particularidade o faz uma aberração e também, uma celebridade, em meio ao ritmo alucinante dos anos 20, na efervescência dos EUA, quando a imprensa vive de escândalos, de novidades escabrosas e chocantes.

Sua foto e seu martírio são espalhados por jornais de variadas tendências da época e o seu caso é tratado com extremo sensacionalismo, dividindo opiniões públicas, ora sendo amado ora sendo odiado.
Zelig é internado num hospital psiquiátrico e muitos cientistas empenham-se em diagnosticar este estranho fenômeno, mas todas as pesquisas não atingem êxito. Entre os diagnósticos, das mais variadas espécies, encontra-se os de caráter psiquiátrico até os físicos, provenientes de mau funcionamento de determinados órgãos, inclusive prenúncio estipulando tempo de vida curta para o paciente. 


Sua anomalia desperta o interesse profissional de uma psiquiatra, a única pessoa que realmente parece preocupar-se com Zelig, a Dra. Fletcher (Mia Farrow), que ao contrário dos outros, acredita que seja uma perturbação mental. 
Ela vê Zelig não como um títere manipulado pela sociedade ou uma experiência científica e, sim, como um ser humano que anseia ser aceito, amado e compreendido. 
Eudora pretende tratá-lo clinicamente, através do uso da hipnose, mas esbarra nos interesses de sua família, que visão capitalizar esse “dom” de Zelig e exibi-lo como um espetáculo lucrativo.


A médica descobre que Zelig anseia tão fortemente por aprovação que se altera fisicamente, na esperança de se adequar aos que o cercam. A determinação da Dra. Fletcher permite eventualmente que ela o cure, não sem, no entanto, algumas complicações; ela acaba por elevar tanto a autoestima de Zelig que ele termina desenvolvendo temporariamente uma personalidade que é violentamente intolerante a respeito das opiniões de outras pessoas.
A médica descobre que está se apaixonando por Zelig. Devido à cobertura feita pela mídia do caso, tanto o paciente quanto a doutora tornam-se parte da cultura popular de seus tempos. No entanto, a fama é a principal causa de sua divisão; a mesma sociedade que fez de Zelig um herói acaba por destrui-lo.


Médica e paciente se apaixonam, entretanto, ela não aceita o seu pedido de casamento enquanto Zelig não se libertar de suas personagens.
Outra oportunidade o coloca novamente em contato com Eudora Fletcher que após estudar o seu caso, realizar muitas entrevistas e consultas consegue fazer com que ele entenda a sua importância como ser humano único, singular, com beleza própria e inconfundível.
A doutora Fletcher o encontra na Alemanha, trabalhando com os nazistas, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Juntos, fogem e retornam aos EUA, onde são proclamados heróis (depois que Zelig, usando mais uma vez sua habilidade, imita as habilidades de pilotagem de Fletcher e pilota o avião que lhes traz de volta, cruzando o Atlântico, de ponta cabeça).
O tratamento psiquiátrico, um autêntico resgate daquela prisão que era o seu fenômeno de homem-camaleão, transforma-se numa história de amor. Assim, diante de uma história de alguém que se perdeu em si próprio e que, apenas com a ajuda de uma psiquiatra dedicada (Mia Farrow) e, em última instância, do amor, terá Zelig alguma hipótese de se reencontrar.
Não mais encontrando sentido no medo do sobre-eu, que estava no fundo de todo relacionamento, o eu perde o medo do outro. Para sobreviver, ele não mais precisa ser como o outro, nem corresponder ao seu desejo. Ele deixa de ser objeto “ser-para-os-outros” e conquista a condição de sujeito “ser-para-si”. 
A Dra. Eudora Fletcher confirma a Zelig que é a ele que ama, e não, as outras pessoas por ele representadas. Promete a Zelig o seu amor quando ele vir amar a si mesmo. Indica-lhe o caminho da cura, salvando-o de seus fantasmas e acabam se casando. No entanto, começam a pulular vários processos para que ele reconheça a paternidade de várias crianças; as mulheres que ele iludiu quando assumia outras personalidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:


“Zelig” é uma crítica social sarcástica, eficiente do cinema contemporâneo.
O filme é interessantíssimo sob o ponto de vista psicológico e humano: a capacidade mimética do “eu é outro” e a necessidade de “ser famoso por não se ser ninguém em concreto”, traz ainda um questionamento sociológico.
Zelig ao proceder à multiplicação interior e exterior, paga um alto preço: a de sua despersonalização enquanto indivíduo, o da desintegração do “eu”.
Allen registra autobiograficamente seus conflitos em Zelig, desbloqueando as barreiras que normalmente se erguem na percepção do eu e do outro. Allen é uma referência no que diz respeito à dualidade da personalidade, atribuindo ao ator (a gagueira, a fala apressada de um nova-iorquino, etc.) às principais características do autor e brincando com as fronteiras que separam a história, da realidade inventada das suas narrativas cinematográficas.
O filme contém, também, alguns dos elementos temáticos do cinema de Allen: uma crítica sutil a sociedade; a questão judaica, o fato de não conseguirem um espaço dentro da sociedade; o racismo dentro dos EUA, “um judeu que pode se transformar em índio ou negro é uma tripla ameaça” e a necessidade de produzirem ídolos.
Woody Allen demonstra toda a sua cultura e faz exatamente aquilo que os regimes totalitários faziam: a perda da identidade para se fazer parte da massa, Zelig é exatamente isso e, para criticá-los, cria uma análise crítica sobre a farsa, travestida de realidade. 
A criação deste personagem fantástico também permite ao cineasta discutir como há uma exploração midiática de casos e eventos semelhantes. Com a mesma velocidade, sofreu acusações e foi rejeitado pela imprensa e pela sociedade. 


Zelig é a concretização do nosso tempo, da busca por uma identidade e da construção dela própria a partir do outro. Para se sentir mais seguro, usando as palavras do próprio personagem. Ergin Goffman, citado no início, diz que “(…) o papel que um indivíduo desempenha é talhado de acordo com os papéis desempenhados pelos outros presentes e, ainda, esses outros também constituem a plateia” (GOFFMAN, 1999).
Além disso, o filme mostra que o “fenômeno Zelig” rendeu canções, brinquedos, até mesmo um filme hollywoodiano contando sua história, enfim, foi um grande modismo nos anos 20 e 30. E mostra como a cultura americana pode transformar um cidadão comum no inimigo público número 1 e logo em seguida, perdoá-lo, elevá-lo a herói como quem muda de roupa e subitamente ser esquecido nas décadas seguintes.

Fernando Pessoa ao criar seus heterônimos também procede à multiplicação, porém somente interior: uma poli personalidade. Mediante essa dispersão anímica, o poeta se habilita a ver o mundo como os outros o veem. Os seus heterônimos são, por isso, meios de conhecer a complexidade cósmica, impossível para uma única pessoa e de forma consciente. 

“Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo.
Transbordei-me, não fiz senão extravasar-me.” 

                           Fernando Pessoa – Álvaro de Campos 

Leonard Zelig no início de seu tratamento psicológico afirma que a sua primeira experiência com a multiplicidade dos seus “eus”, foi quando se sentiu inferiorizado por não ter lido “Moby Dick”, de Herman Melville e; ironicamente, quando Leonard Zelig está prestes a morrer, sentiu grande tristeza por não ter terminado a leitura do referido livro como se sentisse ainda incompleto.

“Moby Dick” (1851) é uma obra que transita pelos gêneros da aventura, crônicas de viagem, memorialismo, misticismo, filosofia, ciência, história, teatro e muito humor. Esta obra que é tão complexa, ao mesmo tempo é um feito inigualável, pela redução das personagens e pelo curto tempo que foi escrita.
Com uma colossal baleia branca, um capitão, um navio, o oceano e alguns coadjuvantes, Melville reproduziu com rigorosa perfeição o fluxo da vida em toda a sua complexidade: a essência da literatura, a partir de um mínimo de elementos.

O narrador, Ismael, um sujeito meio apagado e irônico ao extremo, embarca num navio baleeiro em Nantucket, na costa leste americana, para trabalhar alguns meses como membro da tripulação de um navio, o Pequod, caçando baleias de uma espécie gigantesca, muito valiosa pelo seu óleo.
Ahab, o capitão do Pequod, perdeu uma perna, quarenta anos antes, na caçada a Moby Dick, a “baleia assassina”. A baleia conseguiu escapar. Ao contrário do resto da tripulação, que embarcou por dinheiro ou aventura. O único objetivo de Ahab nesta viagem era capturar Moby Dick e matá-la. Dizê-lo “movido pelo desejo de vingança” seria simplificar demais as coisas: a caçada é a existência inteira de Ahab e seu sentido único.
Enquanto não chega o momento da perseguição definitiva a Moby Dick, várias tramas paralelas se desenvolvem na viagem: os marinheiros do Pequod caçam algumas baleias, interagem com outros navios em alto-mar, bebem e se divertem, enquanto Melville aproveita para interromper a narrativa, a toda hora, para fazer digressões sobre o mundo das baleias, sua fisiologia, técnicas de caças etc.
O foco narrativo é deslocado para a terceira pessoa, adquirindo um narrador onisciente e relatando através de um monólogo interior, o fluxo de consciência de Ahab e de alguns outros marinheiros.
Nesse enredo tão simples, Melville recombina várias narrativas e alegorias da Bíblia, fazendo de sua obra um livro de profecias, as quais todas se cumprem. Tudo, em “Moby Dick” há presságios do destino final, desde os mais óbvios (como o sermão do padre Mapple, antes do embarque) aos mais ocultos, do mesmo modo como a natureza, por meio de sinais, anuncia o clima vindouro.
Os navios que o Pequod encontra pelo oceano fornecem pistas de que uma grande tragédia está para acontecer com Ahab e sua tripulação. Mas todos os homens do Pequod, aos poucos, vão sendo contaminados pela obsessão.
Ahab termina por ceder, traindo a própria consciência por fraqueza de caráter ou excesso de fidelidade. Ele mais do que ninguém, não pode deixar de caminhar para a morte e levar a tripulação consigo. 
A revolta de Ahab contra o destino, contra a submissão do homem às forças da natureza, é acompanhada de uma completa ignorância de que seria possível subtrair-se completamente a tal submissão.
Há também na tripulação um menino louco, Pip, cuja aceitação tranquila da própria desgraça inspira em Ahab certa curiosidade, afeto e simpatia; a consciência desses sentimentos poderá contribuir para sua possível “conversão”.
No capítulo “A Sinfonia”, depois de uma veemente confissão a Starbuck, Ahab parece enfim perceber a própria insanidade, e resolve desistir de seus planos. Mas a alquimia espiritual requerida é muito mais exigente e complexa: no momento em que está para consolidar sua decisão, ele sente o cheiro de Moby Dick. É a prova final; mas, cego pelas sensações, ele rejeita em definitivo o chamado. Sua obsessão, como não poderia deixar de ser, ressurge com ainda maior fúria, e ele parte, sem vacilar, para sua nêmese.
No terceiro dia que luta contra a baleia, Moby Dick destrói o Pequod e Ismael (como no livro de Jô, “E só eu escapei para vos dar a notícia”), relata friamente como foi o único a sobreviver ao naufrágio, agarrado ao caixão (coffin) de um dos arpoadores do navio, Queequeg. É interessante notar que Ismael e Queequeg se conheceram, pouco antes de embarcar, na estalagem.

 

segunda-feira, 10 de março de 2025

TOPLESS, MARTHA MEDEIROS

MARTHA MEDEIROS, filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros. Casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas, Júlia e Laura. Estudou num dos mais tradicionais colégios de Porto Alegre, o Nossa Senhora do Bom Conselho, no bairro Moinhos de Vento. Formou-se em 1982 na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre.

Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de oito meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e desde então tem publicado regularmente seus textos em revistas e jornais do país.

Reunidas as crônicas, publicou sua primeira coletânea em 1985 com o sugestivo título de “Striptease”.

Como cronista, seu objetivo é o de desnudar a vida cotidiana, apresentar ao leitor seu modo de olhar para os mais diversos fatos da vida nacional e de temas que possam interessar as pessoas de modo geral. Com as redes sociais, todos se sentem um tanto cronista do cotidiano, mas, sem dúvida, nem todos têm o talento para escrever, para se expressar com correção e estilo por escrito.

O livro em questão, “Topless”, apresenta 54 crônicas escritas entre 1995 e 1997. Passados vinte anos, há crônicas cujo assunto podem ter envelhecido, tendo em vista que a crônica é um gênero híbrido, entre o literário e o jornalístico. E é exatamente o literário que faz da crônica um texto permanente, pois, ao comentar os fatos do dia a dia, o cronista busca revelar o que ele teria de essencial.

Assim, o leitor, além de tomar contato com algum acontecimento dos anos 90, é levado a perceber que qualquer acontecimento apresenta o seu tanto de permanente, de essencial para se compreender a vida, se compreender o ser humano.

Por se tratar de diversos textos, vamos procurar separar as crônicas não por sequência, e sim por temas, de modo a facilitar os comentários e a análise. Com isso, esperamos destacar as características comuns, incluindo tratamento estético e construção discursiva, de modo a facilitar a leitura.

Conforme já referido, a crônica é um gênero que trata do cotidiano. Como tal, o objetivo é tratar dos temas mais variados e prementes. Em 1996, por exemplo, uma preocupação comum era discutir o fim do milênio e como seria a vida no século XXI e no 3º milênio da Era Cristã. Muitos acreditavam que esse tempo marcaria o fim do mundo. Por isso, eram normais as reflexões existenciais do tipo:

quem sou eu, de onde vim, para onde vou?”

Medeiros em “Vidas passadas para trás” discute exatamente essa temática. Apesar de instigar muita gente, Medeiros expressa seu desejo de viver apenas o que tem para ser vivido, sem se preocupar tanto “para onde iremos”.

Conforme diz no final de crônica: “A mim basta um banho quente, um pijama limpo e dormir acreditando que amanhã tem mais”. (p. 63)

Retoma a temática em “O Terceiro lado da moeda”. O título, um tanto irônico, revela algo que se podemos verificar na atualidade: a busca por uma maior compreensão do diferente, não apenas o oposto, como o lado A e o lado B, e sim o terceiro lado, conforme indica o título.

Esse terceiro lado pode ser a homossexualidade, ou viver de outro modo sem ter de escolher entre ser solteiro ou casado, entre ser da direita ou da esquerda, entre o certo e o errado moralmente falando. Observe-se que, com efeito, estamos na segunda década do terceiro milênio, que tem se caracterizado propriamente por estilos de vida alternativos e igualmente aceitos socialmente falando, pela busca da afirmação das minorias, pela tentativa compreensão do outro, pela valorização da multiplicidade (ainda que ainda permaneça em pauta o discurso do ódio, da radicalização político-ideológico e também religiosa em diversos setores da sociedade).

Outro assunto recorrente nas crônicas de Martha Medeiros é a moda. Ao menos, em cinco crônicas, a autora trata do assunto. Por exemplo, em “Verão: decadência do Império”, reflete sobre a deselegância no modo de se vestir das pessoas no verão, justificada pela necessidade de se usar pouca roupa no dia a dia; com o agravante de, muitas vezes, homens, em determinadas funções, trabalharem sem camisa.

Mesmo as mulheres ficam em situação complicada por conta da maquiagem, que derrete com o suor.

Outro exemplo da moda citado pela autora está no uso do vocabulário. Em “Grande África”, Medeiros lembra que alguns termos deixam de ser utilizados com o tempo, trata-se do envelhecimento das expressões, das gírias e mesmo de certos objetos que deixam de ser utilizados com o tempo.

O vocabulário da hora (lembra “da hora”?) não resiste a mais de uma geração. Às vezes, nem a um único verão. Fazer o quê? Continuar tagarelando do jeito que se sabe, com as palavras que encontrar. Só não vale fechar a matraca. (p. 129)

Por referência a uma música de Cazuza, “Mentiras sinceras” é uma crônica sobre o ato de falar a verdade ou a necessidade de ocultá-la. Nem sempre falar a verdade abertamente é algo positivo para o convívio social. Isso porque revelar a verdade diretamente pode ser deselegante; ao contrário, haveria formas brandas de ser verdadeiro ou ao menos não ser tão direto.

Em outros termos, há verdades que não precisam ser expressas, como dizer que uma pessoa está malvestida ou que ela é um tanto ignorante. Isso pode gerar conflitos desnecessários.

A violência das palavras também ocorre nas relações interpessoais. No caso de “Vestidos para matar”, a cronista fala sobre as fardas usadas por militares. Se é elegante, chamativo, por outro lado sugere violência, ditadura, grosseria (lembre-se que a Ditadura acabara há cerca de uma década em relação ao período em que ela escreve). E, de fato, em três crônicas se refere a esse período sinistro da história brasileira recente. Ditaduras são sempre ruins, não importa se de direita ou de esquerda. São formas de governo que devem ser banidas de vez da sociedade brasileira de modo a fazer a vida em comum fluir melhor, com mais leveza.

Em “Loteria dos espertos”, a autora inicia falando sobre algo que veio a se tornar comum, processos judiciais como meio não ético para ganhar dinheiro, como processar alguém por um xingamento ou uma empresa por não ter cumprido um acordo. Evidente que não se deve prejudicar o outro, mas muitas ações poderiam ser resolvidas sem a intervenção do poder judiciário. No caso, o uso excessivo dessa mediação judiciária sugere a tal indústria dos processos. Na crônica, em questão, porém, seu objetivo principal é lembrar que foi nos anos 90 que os atos da Ditadura começaram a ser revistos e quando pessoas que efetivamente sofreram no período apenas por terem expressado ideias de modo contrário ao pensamento dos militares passaram a ser recompensadas financeiramente. Nesse caso, foi necessária a ajuda da justiça como meio de rever o passado recente e fazer as devidas correções.

Por outro lado, a liberdade excessiva ou sem o devido cuidado pode gerar situações perigosas ou, ao menos, constrangedoras. A autora relata em “Assassinos por distração” que à época jovens na Flórida, EUA, teriam arrancado placas de trânsito para se divertirem. A falta de sinalização provocou um grave acidente e esses jovens foram condenados a quinze anos de detenção. O caso é todo complexo e dividiu opiniões. Para Medeiros, no mínimo os jovens agiram sem pensar e mereceriam uma punição, talvez não tão longa. Fato é que em sociedades democráticas, a liberdade tem de ser usada com cuidado, pois pode prejudicar outros.

Não somos marginais, mas somos todos homicidas em potencial. Basta uma inconsequência, uma distorção de valores ou uma sandice como a dos jovens americanos. (p. 166-167)

Medeiros toma uma situação qualquer do cotidiano para fazer considerações de ordem específica ou moral ou apenas para levar o leitor à reflexão.

Em duas crônicas, a autora se baseia em filmes para fazer essas considerações. “Meryl Streep, chorai por nós” trata de alguns filmes importantes da década de 90, especialmente “As pontes de Madison”, para dizer que também nós podemos exercer papéis diferentes em nossa vida ou apenas manter algo regular, sem grandes mudanças. Para Medeiros, o mais importante é:

nos acostumarmos com a presença de nossas outras personalidades, sem tentar mascará-las [...] Chama-se a isso amadurecimento. (p. 34)

Já em “No divã com Woody Allen”, seu objetivo é mostrar que o cinema pode se comparar ao cotidiano. Essa seria a lição do diretor, para quem os fatos banais, cotidianos apresentam histórias divertidas e dramáticas que podem bem ser organizadas sob forma de roteiro.

Martha Medeiros, portanto, vê essa característica no diretor norte-americano como determinante para seu modo de produzir cinema, que não precisaria de efeitos especiais, tiros, explosões etc. para contar uma bela história. Mas para isso, temos que aprender com o diretor, “aprender a se divertir com a repetição, com a banalidade, com o previsível” (p. 66) Trata-se, pois, de um cinema do prosaico, da vivência que qualquer um de nós pode experimentar.

Crônica interessante para compararmos o olhar do passado a respeito do que vivemos agora é “Os livros da nova era”, escrita em 1995, em que fala sobre o advento do livro no formato digital. Passados mais de vinte anos, trata-se de uma realidade. Porém, como a autora já previa, há ainda relutância em ler livros no formato digital. Com efeito, a maioria dos leitores ainda prefere o suporte papel para ler. A explicação, entre outras, parece ser a mesma data pela cronista.

Aqueles que têm com o livro uma relação íntima, quase religiosa, e que não deixam para abri-lo só quando a tevê está estragada. Eu, por exemplo, gosto do cheiro do livro. Gosto de interromper a leitura num trecho especialmente bonito [...]. Depois reabro e continuo a viagem. (p. 36)

Há, ao menos, seis crônicas em que Medeiros trata sobre a temática livro/literatura/arte. Em “Aula de literatura”, por exemplo, defende que o ensino das letras deve prevalecer sobre a de qualquer outra arte tendo em vista que todos fazemos uso da língua, o que se configura como essencial para a formação do indivíduo. Evidente que não despreza outras artes, como a pintura, por exemplo.

Em “Aquarelas universais”, por exemplo, revela a importância de se visitar um museu, de se conhecerem os grandes pintores, entre os quais a brasileira Tarsila do Amaral. Em complemento está “Gênios monoglotas”, na qual Medeiros trata sobre gênios brasileiros das mais diferentes artes e expressões artísticas, como Millôr Fernandes, Chico Buarque, Jô Soares ou Sônia Braga. Se eventualmente hoje são nomes marcados por escolhas políticas, igualmente foram ou são representantes artísticos de grande valor.

Em “Literatura póstuma”, Medeiros se refere a obras de escritores importantes e que são publicadas postumamente. Sua dúvida é saber se o tal artista gostaria mesmo que fossem publicadas. Em geral, a publicação de um livro esquecido ou guardado na gaveta atende mais a um interesse comercial, posto que determinado nome venderia um livro com facilidade, que a uma evolução estética. De fato, analisando se apenas o valor artístico do livro é provável que um determinado escritor não o tenha publicado por considerá-lo ruim. É o caso do poeta chileno Pablo Neruda, ganhador de diversos prêmios, reconhecido mundialmente, mas que não publicou tudo o que escreveu.

Na maioria das vezes, obras póstumas são obras menores, cujo valor é mais sentimental do que artístico. Seu único benefício é mostrar aos jovens autores que ninguém nasce sabendo e que a prática é a melhor amiga do talento. Mas nem esse argumento me comove. Já bastam as besteiras que fazemos em vida. (p. 123)

Outro caso é o da morte de artista odiado, não tanto por sua obra, e sim por suas escolhas políticas ou posições a respeito de assuntos polêmicos. Era o caso do jornalista e escritor Paulo Francis, que fez vários inimigos especialmente porque não tinha muito cuidado em expressar opiniões, por mais polêmicas que fossem. Há, inclusive, uma suposição de que tenha falecido em decorrência de uma declaração sua de que haveria corrupção na Petrobrás, isso nos anos 90, o que motivou diretores da estatal processá-lo exigindo o pagamento de uma indenização altíssima.

Independente das opiniões fortes do jornalista, Medeiros destaca que a morte de Francis, ocorrida em 1997, deixou uma lacuna na arte e no jornalismo, pelo fato de o autor ter grande capacidade de análise, além de talento para escrever.

É por isso que todos aqueles que adoravam Paulo Francis e também os que o odiavam do fundo do coração devem lamentar sua morte. (p. 126)

Mudando um pouco o foco, relata que as viagens de avião começaram a baratear, o que permitiu a um maior número de pessoas viajar pelo país ou para o exterior. Medeiros chama a atenção para isso em “A classe econômica vai ao Paraíso”. Na crônica, seu objetivo maior é revelar que viagens deveriam ser meio de aumentar o conhecimento cultural, e não apenas meio de comprar produtos variados, sem maior utilidade, apenas para se dizer que comprou determinado coisa no exterior.

Mas para sacoleiros natos, [...] estar em Miami ou Nova York dá na mesma, desde que haja um camelódromo em volta do hotel. (p. 57)

Na crônica que dá título ao volume: “Topless: atentado ao pudor”, há uma reflexão de ordem moral e também comportamental do brasileiro. O termo anglicano, topless, serve para indicar um hábito muito comum em praias europeias e em algumas localidades dos EUA de as mulheres ficarem sem a parte de cima do biquíni, deixando os seios à mostra. Medeiros chama a atenção para o fato de que o brasileiro é aparentemente liberal no assunto sexualidade, porém, por estranho que seja, reagia mal (e ainda continua a reagir) quando uma mulher faz topless na praia, por exemplo.

A autora descreve que em carnaval, em situações erotizantes, como em filmes, novelas etc. não se vê problema uma mulher ficar seminua, porém na praia ou em ambientes públicos, o ato se torna uma afronta aos chamados bons costumes. Contradições que, mesmo tendo passados vinte anos da publicação da crônica, ainda persistem.

Basta uma garota fazer topless numa praia de Santa Catarina ou de Pernambuco para provocar um clarão a sua volta, como se ela estivesse com lepra. (p. 51)

O tema mais recorrente nas crônicas do livro é relacionamento, o que inclui o casamento em si, as separações, a maternidade, o feminismo e assuntos correlatos. São ao menos dezoito crônicas sobre essas temáticas. Vamos resumir e analisar as principais, estabelecendo algumas relações entre elas.

Trata dos relacionamentos antes, durante e após o casamento. Seu objetivo parece ser o de analisar os novos tempos (leia-se fim de século, mas claro que muito do que ela disse continua a fazer parte do contexto atual).

Uma das crônicas é sobre pensão alimentícia. A autora se refere a um episódio da época em que um ex-marido foi preso por não pagar corretamente a pensão.

O advento do novo Código Civil, em 2002, mudou essa relação, mas como o texto é de 1996 seguia regras antigas em que sempre cabia ao homem pagar a pensão.

Pós-2002, o entendimento legal passou a ser outro. De qualquer modo, Medeiros chamava a atenção para o fato de que se a mulher queria independência, ela teria de ser plena, incluindo a financeira, sem depender mais de ex-, de modo a não requerer a prisão pela falta de pagamentos não a filho, mas à própria ex-esposa.

Pensão alimentícia, só para as crianças. Se ela tem uma formação profissional e tem saúde, é hipocrisia querer herdar o paternalismo que tanto se lutou para romper. (p. 16)

Em outra crônica, “Mulher solteira procura”, a cronista revela as contradições do sentimento feminino.

Apesar de uma maior independência, as mulheres ainda sonham com o casamento, ao menos com o ato em si, encontrar aquilo que os contos de fada já falavam, a busca pelo príncipe. Isso porque se cobrava e se cobra da mulher que cumpra com seu dever social: casar se.

Em outras palavras, se pensarmos no todo, vemos muitas mulheres que têm um pensamento diferente; de qualquer modo, permanece no senso comum o desejo de casar-se, até porque ser casada parece trazer algumas vantagens, entre elas a ideia de ser livre, por não ter de estar, em tese, à procura de algo:

[...] a mulher casada é infinitamente mais livre do que a solteira, pois já cumpriu o papel que a sociedade exigiu dela – casou! – e agora tem o resto da vista para ser ela mesma. (p. 22)

“Década de 70: a adolescência do feminismo” trata sobre a luta feminina por mais direitos e como isso colaborou para as mudanças de sociabilidade. É uma liberdade conquistada, mesmo que não plena; sem dúvida, porém, que as mulheres passaram a ter direitos que antes não se imaginava ter, isso, ao mesmo tempo, gerou deveres também novos. Em rigor, vivemos ainda hoje um processo de mudança de sociabilidade, em que nem sempre se tem certeza do que se quer, certeza sobre o papel de cada um. O fato é que alguns estereótipos, bem como rótulos têm sido revistos.

Ser mulher nunca foi uma maravilha, assim como nascer homem está longe de ser uma graça dos céus. Há problemas e vantagens em ambos os lados e, juntos, estamos fundando uma nova sociedade, sem tanto estereótipo e com um pouco mais de bom-senso. (p. 40-41)

A mesma ideia, com outro objetivo, está em “Vovó é uma uva”, fazendo uma brincadeira com os antigos métodos de alfabetização. A crônica procura mostrar que as avós modernas, como Baby Consuelo, Danuza Leão, entre outras, não carregam aquele conceito de vovozinha que faz chá e bolo, sempre à espera dos netinhos; ao contrário, têm vida própria, são descoladas e são mulheres ainda desejáveis, que despertam sentimentos sensuais.

É a mudança no modo de olhar para as mulheres, bem como o papel que elas próprios começaram a construir para si desde a década de 60.

Essa independência feminina, bem como o novo homem, pode produzir consequências negativas, como o não desejar ter filhos. Embora não seja um crime, pode ocorrer de, ao se gerar um filho não desejado, o casal simplesmente dar o filho para a adoção, de modo a evitar que o filho venha a atrapalhar seu estilo de vida. É o que se observa em “Toma que o filho é teu”.

Medeiros chama a atenção para a possibilidade de, após a doação, ocorrer um arrependimento, porém, a justiça deveria retirar de vez qualquer direito de um casal reaver um filho já doado. Até porque, depois, “os pais adotivos também se sentem legítimos. [...] Crianças não são produtos que vêm com prazo de validade”. (p. 53-54)

Em “Verdades e mentiras sobre as mães”, Medeiros segue a mesma linha de reflexão ao abordar alguns mitos a respeito da maternidade:

“Mãe é mãe”; “Mãe é uma só”; “Ser mãe é padecer no paraíso”; “Maternidade: missão de toda mulher”.

Para a autora, são mitos, pois a mulher hoje adquiriu outras perspectivas, apresenta outros interesses, o que pode sugerir que nem toda mulher teria tal perfil para a maternidade. Porém, conclui com outro clichê:

“Mamãe eu quero”, ou seja, que todos amariam a própria mãe, o que também pode não ser exatamente a verdade.

Fato é que a autora quer chamar a atenção para as mudanças que vêm ocorrendo desde a década de 60, quando a mulher passou a perceber que seu destino poderia não ser apenas aquele a que lhe era reservado, casar-se e ter filhos. Com efeito, observamos hoje a mulher totalmente integrada às mais diversas profissões, de modo a colocar em prática o princípio democrático do Brasil atual (leia-se, os últimos trinta anos).

Um pouco na contramão da ideia de mãe moderna, Medeiros fala de Madonna, em “Madona like a virgin”, que encarna, a despeito de toda liberalidade da cantora, a típica mãe super-protetora, que proibiria o filho de fazer coisas básicas, como ver TV.

A mudança de Madonna reforça um mito antigo, o de que ser mãe compensa o abandono de si mesma. (p.155)

O mesmo se dá em “Parabéns para você”, em que a autora chama a atenção para as festas de aniversário mais modernas, que, além de doces, guloseimas, devem ter brincadeiras organizadas etc., tendo como diretora a mãe, que, mesmo querendo ser moderna, nessa hora tem que ser mãe.

Por que suportamos tudo caladas? Porque mãe é sinônimo de sacrifício, entrega, benemerência. (p. 138)

Já em “Homens, mulheres e abajures”, seu objetivo é mostrar as diferenças persistentes entre os sexos opostos, sobretudo no que diz respeito à decoração da casa. Interessante que no início da crônica afirma que assim como lojas de decoração, era possível achar locadoras de vídeo em qualquer lugar.

As casas de decoração permanecem, mas as locadoras foram sendo esquecidas, pouco a pouco. Pois bem, na crônica, quer mostrar que sempre haverá diferenças entre os sexos, pois os interesses e a sensibilidade nem sempre são iguais.

Outra crônica a tratar da vida doméstica é “As musas de Odair José”, por referência às empregadas do lar. Com as mudanças na sociabilidade, ter uma empregada em casa não significa mais apenas uma pretensa vadiagem de uma mulher burguesa, cuja vida era basicamente servir ao marido, mas sim algo necessário para uma dona de casa que é também profissional, que tem outros afazeres, outras perspectivas de vida. O título é porque Odair José se tornou um cantor paradigmático das empregadas domésticas ou secretárias do lar.

Em “Crônica de um casamento anunciado”, Medeiros revela que em fins do século XX o casamento parecia em desuso, pelas facilidades de se buscar apenas morar juntos, mas, em rigor, era uma prática mais recorrente do que se poderia imaginar. Talvez hoje essa percepção também esteja presente, embora casar-se ainda continua algo bastante comum. O objetivo da autora é o de mostrar que declarar-se noiva pode não ser impeditivo para que outra pessoa tente paquerar uma moça. Segundo Medeiros, o contrário poderia até acontecer: um noivo, em princípio, seria respeitado pelas mulheres solteiras. Verdade ou não, Medeiros quer dizer que as mulheres tendem a respeitar mais os comprometidos em comparação aos homens, que, mesmo diante de uma noiva, tentaria algo com ela. Além de mostrar que noivado é apenas um rito de passagem, não uma certeza de durabilidade no relacionamento.

Tem gente que namora duas semanas, casa e comemora bodas de ouro. Outras ficam noivas dez anos e casada apenas dez dias. Noivado é rito de passagem. Uma maria-fumaça. A paixão é que é o verdadeiro trem-bala. (p. 78)

Ainda nessa linha temática, sobre relacionamento, outras duas crônicas tratam sobre a primeira vez e sobre a manutenção da paixão por anos. Em ambos os casos, a cronista tenta entender os tempos modernos, sem se esquecer da tradição moral, por assim dizer.

“Em a primeira noite de uma mulher”, como indica o título, ela aborda a dificuldade natural de uma mulher se apresentar intimamente a um homem pela primeira vez:

Não é tarefa fácil nem para balzaquianas calejadas, o que dirá para uma garota cheia de fantasias na cabeça. (p. 95)

No caso de “O príncipe que virou sapo”, trata sobre as traições que podem ocorrer durante um relacionamento de muitos anos. Ela sugere que isso pode acontecer, sem que necessariamente o traidor queira o fim do relacionamento sério, ou o faz por mau caráter, a não ser, claro, que não se queira continuar de fato o casamento:

Admitamos: infidelidades casuais não justificam a separação de duas pessoas que se amam. (p. 98)

Com efeito, muitas vezes a separação ocorre mais por pressão social que propriamente por um desejo efetivo do traído.

Na crônica “Casamento, lado A e lado B”, a temática se repete. Os pontos positivos e negativos do casamento. A rotina que traz segurança é a mesma rotina que torna a relação monótona.

Por outro lado, na crônica “uma aventura no supermercado”, Medeiros mostra que mesmo a vida rotineira de uma dona de casa pode ser aventureira em alguns momentos, no sentido de que a vida moderna, com seus desafios, correria, indecisões, pode levar uma pessoa a viver experiências intensas mesmo em um supermercado.

Se você optou por um supermercado popular, vai querer cortar os pulsos. Você mesma terá que acomodar suas compras. Ovos com lustrador de móveis, fita de vídeo com manteiga, uvas com garrafas de refrigerante, tudo junto, como uma grande família. Dane-se a higiene. (p. 132)

Medeiros aborda a dificuldade de se encontrar a chamada “alma gêmea” e como as pessoas, para isso, costumavam recorrer a agências de casamento, exatamente na crônica “Agências de casamento”.

Escrita em 1997, se atualizada, certamente a crônica faria menção às redes sociais ou as agências virtuais que promovem todo tipo de encontro, do casual ao sério. Mudando os tempos, uma verdade permanece: a dificuldade de se encontrar a pessoa perfeita para nosso objetivo de vida, desejos, comportamento etc.

Em outra crônica, porém, “Sargentos e soldados”, a autora afirma que há casais que permanecem unidos mesmo sendo diferentes, isso porque certamente cada um aceita a diferença do outro que o complementa ou mostra a vida de outro modo, ao menos.

As pequenas divergências só ganham ares de drama quando atingem o lado frágil do casal: o bolso. (p. 163)

Mesmo assim, podem ainda assim se entenderem.

Apesar de Medeiros quase sempre escrever da perspectiva feminina, ela não despreza a visão do homem. Busca entender a dificuldade de ser homem nos tempos modernos (leia-se fins do século XX e, extrapolando, o século XXI), em que mulher tem voz, tem sonhos, desejos, projetos pessoais etc. Por isso, propõe o “Dia internacional do homem”. Por conta da nova mulher, o homem deve se reinventar também. Isso o levou a fazer serviços domésticos e a experimentar certos julgamentos sociais, a que eram submetidas apenas as mulheres.

Por isso, além das lides do lar, os moços trabalham fora. E aí deles se fracassarem. [...] No amor, a opressão é ainda maior. Os homens que não casam são marginalizados pela sociedade. São vistos como playboys, filhinhos de mamãe ou bichas enrustidas. (p. 133)

Nessa linha, “Homens que têm tudo” discute que tipo de presente um homem deveria receber. No caso, é preciso esquecer os tradicionais, como meias, gravatas, lenços ou camisas polo. Se a mulher mudou, o homem também.

Esse é o foco da maior parte das crônicas de Martha Medeiros, discutir as mudanças nas relações familiares, no modo de ver o papel de cada sexo. Ora, para uma nova mulher há que se constituir um novo homem. E, talvez, mais do que isso, excluindo os estereótipos do que seja um homem, do que seja uma mulher, Medeiros mostra que há urgências, que antes não se pensava em ter. Claro que em qualquer época, sempre haverá esse discurso do “no meu tempo não era assim...” Mas eis o papel do cronista, ou um deles, retratar a vida cotidiana, registrar por meio de uma linguagem jornalística aquilo que tem de permanente, ver no efêmero um padrão, um estilo de vida, determinar o que é comum a muitos indivíduos.

Em “A felicidade no fim de século”, isso é bastante explícito. Cita algumas personalidades da época, ou seja, 1995, como Arnaldo Jabor, Danuza Leão, Jô Soares, que mudaram sua vida pessoal ou profissional, para mostrar que as pessoas comuns, as não celebridades também têm buscado alternativas para serem felizes, para se realizarem, para atingirem metas antes impensáveis. Até porque há uma urgência pela felicidade, como se ela não pudesse esperar. É preciso viver o agora, sempre.

Para nossas bisavós, ser era fácil. Bastava casar e ter filhos. [...] Por que esta urgência de viver? Simples, porque a morte tem chegado à bala. (p. 17)

Essa mudança de comportamento está registrada em “O beijo de Maradona”. Escrita em 1996, a crônica discute o novo homem, motivado por um beijo que Maradona teria dado em Cannigia por ocasião da marcação de um gol.

Medeiros aproveita o caso para refletir que, embora não seja comum homens se beijarem, ao menos não em público, tem se permitido demonstração de afeto mútuo, sem serem confundidos como homossexuais. É bem verdade que, passados vinte anos, isso é até mais comum, inclusive o beijo.

O ponto é que, com efeito, demonstrar sentimentos em público não é mais ato exclusivo das mulheres.

Homens sempre tiveram dificuldade com isso, não porque sejam incapazes de sentir, mas sim, por pressão social, cultural, tinham de sempre manter-se firmes nas emoções, por referência ao famoso clichê, segundo o qual “homem não chora”.

Em “Falem bem, falem mal”, Medeiros reflete sobre a necessidade de as celebridades, em particular, terem seu nome e trabalho constantemente comentados. Embora Medeiros não tenha antevisto, hoje, com a proeminência das redes sociais, esse desejo se estendeu a todos, sobretudo os que almejam popularidade mesmo que sob um enforque negativo, pejorativo. Vídeos são gravados com cenas torpes e mesmo assim compartilhados para se obter uma fama um tanto duvidosa. O mais importante é que se curta, se compartilhe qualquer prática, por mais tosca ou néscia que seja.

O papel de personalidades, heróis, líderes é o de inspirar atitudes transformadoras, revolucionárias, positivas. Porém, nem sempre é o que acontece.

Na crônica, “A modéstia sobre ao pódio”, Medeiros fala da ascensão do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Trata-se, pois, de uma personalidade por uma ação positiva, não por se expor em redes sociais de modo a se transformar em pseudo celebridade.

Por fim, vale a pena ainda destacar outra crônica de Martha Medeiros. Nascida no Rio Grande do Sul, a autora analisa o modo de ser gaúcho em “Rio Grande, ame-o e deixe-o”. O título é irônico e remente o leitor ao slogan político dos anos 70, quando o governo ditatorial militar usava a frase: Brasil, ame-o ou deixe-o. Naquele contexto, a ideia de amar refletia o discurso de que era precisa aceitar o status quo ou abandonar o país para que não houvesse luta etc.

No caso da cronista, seu objetivo é mostrar que o bairrismo, o regionalismo que gira em torno de certos locais no país, em especial no Rio Grande, tende a produzir um discurso de afirmação local, porém de consequências ruins para a brasilidade, no sentido de que o gaúcho mais típico vê sua cultura como superior a qualquer outra, gerando certo preconceito em relação a outras regiões.

O Rio Grande do Sul vive para dentro. Cultiva suas tradições como um pai feroz cuida da filha donzela. [...] Mas: o protecionismo gaudério não deixa que se critique a literatura gaúcha, os músicos gaúchos, a costela gaúcha. [...] o confinamento é terreno fértil para preconceitos. (p. 115-117)

O que pode ser visto de modo positivo sob certo ângulo é algo que se revela preconceituoso a todos, afinal o olhar para fora é sempre importante. Compreender o todo é mais vantajoso que um olhar limitado, particularista. Por isso, a literatura de modo geral e em particular de Martha Medeiros, por ampliar nosso modo de olhar, por partir de elementos comuns, leva o leitor a sair de seu mundinho, daquilo que o cerca para ganhar o mundo. É o desnudamento que provoca as crônicas de Martha Medeiros, que quer fazer um topless do que está em nossa mente, para apontar as mudanças e também provocar o leitor a ver para além do próprio mundo, para refletir além do próprio umbigo.