Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva em cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro vistes.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
O soneto, que os biógrafos associam à morte de Dinamene (Tinanmen),
amante chinesa com que Camões viveu em Macau, é um dos mais conhecidos. Segundo
a tradição, acusado de delitos administrativos, Camões e Dinamene teriam sido
levados da China para a Índia, onde seria julgado o poeta. Na viagem, por volta
de 1560, o navio naufraga nas costas do rio Mekong. Camões teria conseguido
salvar-se e salvar “Os Lusíadas”, que trazia quase concluído, mas teria perdido
Dinamene, a sua “alma gentil”, relembrada em elevado tom elegíaco, quase
místico.
O Platonismo revela-se, no soneto, pela sublimação eternizadora da
amada, a partir de sua morte. O poeta contempla a amada transubstanciada em
puro espírito (“lá no assento etéreo”), por via do muito amar.
O apelo aos sentidos é transcendentalizado, imaterializado, buscando
Dinamene no Céu, em Deus, entendidos como valores filosóficos, míticos e não
apenas religiosos ou cristãos.
A morte implica uma espécie de purificação. A amada que partiu para esse
“mundo das ideias e formas eternas”, também se torna objeto de elevação e
saudade. Mas a “reminiscência”, neste caso, tem mão dupla: do poeta, que se
eleva à beleza imaterial da amada, como usual, e também na direção oposta, pois
o poeta sugere a possibilidade de que a amada se lembra dele, “lá do assento
etéreo”.
O poeta clássico equilibra a expressão de seus transes existenciais com
a disciplina clássica. Emoção e razão, expressão pessoal e imitação modelam uma
dicção sóbria, contida, mas nem por isso menos comovente. Mesmo quando
aproveita o material autobiográfico, não há o desequilíbrio desesperado dos
românticos.
A morte da amada serve também ao exercício poético da imitação, no caso,
do modelo petrarquista: “Questa anima gentil Che si diparte” e “Anima bella, da
quel nodo sciolta.”
A situação conflitiva que o poeta retrata projeta uma tensão que se
aproxima do Maneirismo e, por essa via, do Barroco: a presença da morte, o tom
fatalista, o dualismo que opõe vida e morte, passado e presente, serenidade e
sofrimento.
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