quinta-feira, 22 de julho de 2010

IRACEMA – A LENDA DO CEARÁ (1865)




I – AUTOR:

JOSÉ DE ALENCAR (Mecejana-CE, 1829 – Rio de Janeiro-RJ, 1877)

José Martiniano de Alencar, filho natural de um padre, que depois se tornou senador do Império e presidente do Ceará e de uma prima em primeiro grau, Ana Josefina de Alencar. O relacionamento rendeu doze filhos, que foram reconhecidos pelo clérigo em 1853.
Vindo de uma aristocracia rural e da oligarquia provinciana, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro em 1839.
Aos 10 anos de idade, era considerado o leitor oficial da família, tornando-se um fanático voraz de Literatura.
Retornou ao Ceará apenas uma vez, aos doze anos.
Em 1843, mudou-se para São Paulo, onde cursou da Faculdade de Direito, exceto o 3º ano que cursou em Olinda. Na época mantinha-se afastado dos movimentos acadêmicos e literários da faculdade.
Em 1846, fundou uma revista semanal chamada “Ensaios Literários”. Neste período escreveu seu primeiro romance “Os Contrabandistas” ou “Os Negreiros do Rio de Janeiro”, que foram queimados por um colega de quarto.
Formado, advogou no Rio de Janeiro, mas nunca se afastou da literatura. Colaborou no “Correio Mercantil” (Ao Correr da Pena, 1854).
Em 1856, já como redator-chefe do “Diário do Rio de Janeiro”, sob o pseudônimo de Ig, escreveu uma série de críticas à obra “A Confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães, “poema feito por quem não era poeta e mandado publicar pelo imperador, e tanto tinha razão que, hoje, o poema tem importância apenas cronológica e só é lembrado em função da crítica de Alencar.”
Ainda neste ano, publicou “Cinco Minutos” e, em 1857, “A Viuvinha”, obras romanescas de ambientação carioca.
Em seguida, veio “O Guarani” (1857), romance histórico-indianista, seu primeiro grande sucesso literário.
Em 1865, publica “Iracema”, por conta própria, torna-se chefe da Secretaria do Ministério da Justiça e mais tarde, passa a consultor desse ministério.
Em 1860, morre seu pai e o autor entra para a vida política, elegendo-se em 1861, deputado provincial pelo Ceará, pelo Partido Conservador e em 1968, ministro da Justiça do Gabinete Itaboraí. Na ocasião assinou a lei que proibia a venda de escravos sob pregão e em exposição pública, prática muito exercida no chamado Mercado do Valongo.
Nessa época começam as discórdias entre o autor e D.Pedro II, que vetará a sua escolha para senador do Império, embora tenha sido o mais votado (Alencar comunicou a D.Pedro II seu desejo de ingressar no Senado e D.Pedro II observou que era cedo, pois o mesmo era muito moço; então, Alencar respondeu que ”Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal.”)
Desistiu da política e passou a dedicar-se exclusivamente à sua carreira literária.
Nem mesmo o sucesso de “O Guarani” tirou o autor da amargura e do isolamento.
“Atacado, negado, vilipendiado, na vida literária e na política, só no lar, bem constituído, encontrava tranqüilidade e compreensão. (...) Torna-se um velho aos 40 anos de idade e adota o pseudônimo de Sênio.”
Já doente, viaja à Europa, mas nada o anima.
Morre em 1877, envelhecido, embrutecido e solitário; preocupado com a situação financeira em que deixava os seus.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“A urbanização da cidade do Rio de Janeiro, agora transformada em corte, criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural, profissionais liberais e jovens estudantes, todos em busca de “entretenimento”; o espírito nacionalista a exigir uma “cor local” para os romances, e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras; o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins; o avanço do teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil.” (José de Nicola)

III – ESTILO DE ÉPOCA:

Prosa romântica no Brasil (1844-1881)

IV – ESTILO DO AUTOR:

- Indianismo alencariano:
- Criação de uma identidade cultural e nacional para o Brasil;
- A idealização heróica e a utopia do retorno ao índio;
- Revisão e o resgate dos processos de formação da nacionalidade brasileira;
- Defesa da “língua brasileira”, independente dos padrões portugueses;
- Lendas e mitos da terra selvagem e o consórcio do povo invasor com a terra conquistada.

V – TEMÁTICA:

- Ódio de duas nações adversárias (tabajaras versus pitiguaras);
-Argumento histórico de alguns personagens (Martim, Camarão, guerra holandesa);
-Tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes;
- Beleza física e moral de Iracema;
- Heroísmo, ciúmes e valor marcial;
- Valor de uma amizade sincera;
- Natureza exuberante;
- Dor, solidão e melancolia;
- Grandes façanhas guerreiras;
- Colonização e formação de uma raça;
- Religiosidade e
-Pintura dos vultos heróicos e das paixões guerreiras

VI – ESTRUTURA:

Composto de trinta e três capítulos curtos, enfeixados por um Prólogo e uma Carta final, o autor concentra-se na linguagem poética, a narração do conflito amoroso entre Iracema e Martim, representantes de duas raças.

José de Alencar acrescentou à obra notas de rodapé que aludem à história e geografia da região descrita no romance e elucidam o sentido dos vários termos tupis utilizados por ele. Com essas notas, pode-se perceber todo o trabalho de pesquisa que embasou a criação de “Iracema”. São, portanto, o apoio documental à ficção do autor.

A obra traz também o “argumento histórico” utilizado pelo autor para sua composição: “Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Paraíba, partiu como capitão-mor de descoberta, levando uma força de oitenta colonos e oitocentos índios. Chegou à foz do Jaguaribe e aí fundou o povoado que teve nome de Nova Lisboa.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
(...) No Rio Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos índios do litoral e seu irmão Poti.
(...) Como chefes dos tabajaras são mencionados Mel-Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauí. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliáveis e rancorosos dos portugueses e aliados dos franceses do Maranhão que penetraram até Ibiapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos por sua aliança firme com os portugueses.”

Como o próprio autor indica, essa nota contém o “argumento histórico” da lenda que pretende contar. Nela se dão dados da principal personagem masculina, que corresponde à figura histórica do português Martim Soares Moreno; e das figuras históricas dos índios Poti e Jacaúna, que vão ser recriadas ficcionalmente.

PRÓLOGO VERSUS EPÍLOGO:

Dirigidos ao Dr. Jaguaribe, nas condições de um amigo e representante particular de um leitor; Alencar objetiva atingir o leitor coletivo, pois tem consciência de que escreve para todo o seu público. No prólogo discorre sobre a referida obra, afirmando que “(...) o livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os múrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros.”
Em seguida acrescenta que foi escrito “por um filho ausente, para muitos estranhos”, afinal “quem não pode ilustrar a terra natal, canta as sua lendas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos.”
Alencar diz ser avesso aos prólogos, pois “roubam as primícias do sabor literário” e, completa que “(...) na última página me encontrará de novo...”
No epílogo, Alencar divaga que “(...) meio descrido das coisas, e mais dos homens; por isso buscava na literatura diversão à tristeza que me infundia o estado da pátria entorpecida pela indiferença.”
Tratava-se das “tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes.” Já havia escrito algumas cartas criticando a Confederação dos Tamoios e afirmando que “as tradições dos indígenas dão matéria para um grande poema que talvez um dia alguém apresente sem ruído nem aparato, como modesto fruto de suas vigílias”.
José de Alencar lia nessa época todas as obras de temática indígena, mas discordava da falta de originalidade de pensamentos e expressões da poesia nacional. Acreditava que “o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as idéias, embora rudes e grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e pensamentos dos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem.”
O autor após viajar em 1848 para a sua terra natal aproveitou-se de suas lendas e tradições para compor Iracema – “A lenda do Ceará”. Depois de concluído o livro, confessa que abusou de certas imagens e de comparações e adverte que caso a obra tenha segunda edição “será escoimada destes e outros defeitos que lhe descubram os entendidos.”

VI – LINGUAGEM:

- Poema em prosa ou prosa poética
“Em um desses volveres do espírito à obra começada, lembrou-me de fazer uma experiência em prosa”. Com esta frase e as que se seguem, o autor diz que, a partir do texto que concebera como um poema, decide fazer outro, na mesma linha indianista, dessa vez transferindo a poesia para a linguagem da prosa, que ele considera de expressão mais flexível.
- Estilo figurado, recursos variados de frase poética, ritmo encantatório, musical e riqueza imagética
- Fontes clássicas da língua e sabor arcaizante
- Termos indígenas
- Aliteração, símiles (comparações explícitas), dípticos (formas ampliadas dos símiles), imagens cromáticas, metáforas, prosopopéia, metonímia etc
- Profunda densidade poética: a poetização da prosa invade a ação, fundindo o mito e o cenário natural, explorando a cor local.
- As frases têm um ritmo ondulatório.
- Linguagem predominantemente conativa, sucessão de imagens que o leitor deve decodificar para aprender o significado do texto.


- Os três primeiros parágrafos possuem musicalidade, que podem ser dispostos como versos de um poema tradicional:

Verdes mares bravios (6)
de minha terra natal, (7)
onde canta a jandaia (6)
nas frondes da carnaúba; (7)

Verdes mares, que brilhais (7)
Como líquida esmeralda (7)
Aos raios do sol nascente, (7)
Perlongando as alvas praias (7)
Ensombradas de coqueiros; (7)

Serenai, verdes mares, (6)
E alisai docemente (6)
A vaga impetuosa, (6)
Para que o barco aventureiro manso (10)
Resvale à flor das águas. (6)

- As vogais e os ditongos são de timbre aberto dando musicalidade e um colorido ao texto
- Harmonia entre a natureza paradisíaca (agrestes e pitorescas), a poesia e as figuras do mito
- Estudo da língua da sociedade indiana e de suas idéias

VII – FOCO NARRATIVO:

A história é narrada em terceira pessoa, por um narrador que conhece os fatos narrados, reconstituindo-os e interpretando-os.
Com predominância do tempo verbal presente do indicativo, o autor que se supõe impessoal, intromete-se na narração e se coloca como o narrador da história (“uma história que me contaram...”) para narrar uma lenda ouvida por ele da oralidade de sua terra natal, o Ceará.

VIII – TEMPO:

A partir do capítulo II, o narrador através do recurso de flash-back, relata o nascimento, a descrição da beleza de Iracema, sua origem e o seu encontro com Martim.
Ao ler o “Argumento Histórico” perceberemos que a obra se desenrola em três anos diferentes: 1604, 1608 e 1611, mas o tempo do romance está parcialmente fora de uma sequência histórica linear

IX - PERSONAGENS:

TABAJARAS:
. Iracema – “a virgem dos lábios de mel”, representa o amor. Filha de Araquém, o Pajé da tribo; irmã de Caubi e sobrinha do ancião Andira
. Araquém – “o ministro de Tupã”, representa a sabedoria: solenidade da velhice contrastando com a beleza agreste de Iracema, um patriarca do deserto, ensinando aos moços os conselhos da prudência. Líder espiritual, conhecedor do que se passa na mente e no coração de cada um de sua tribo, principalmente durante o ritual sagrado da ingestão do licor da jurema.
. Caubi – representa o jovem guerreiro, o domínio da terra, a integração com o meio, o guia, “senhor dos segredos da natureza, da caça e dos caminhos”. Filho de Araquém
. Irapuã – chefe da tribo tabajara, representa o ciúme e o valor marcial. Possuindo posição anticolonialista defende as terras indígenas contra a invasão dos brancos, combatendo inclusive os pitiguaras, aliados aos portugueses e favoráveis à colonização.
. Andira – representa o ancião guerreiro. Irmão de Araquém.

PITIGUARAS/POTIGUARAS:
. Antônio Felipe Camarão (Poti) representa a amizade e a confiança. Amigo de Martim e irmão de Jacaúna
- Jacaúna – chefe da tribo dos pitiguaras
- Jatobá – pai de Poti e Jacaúna
- Batuireté – feiticeiro da tribo dos pitiguaras e avô de Jacaúna e Poti. Já com idade avançada e experiente, torna-se uma espécie de oráculo de guerra e passará a ser chamado de Maranguab, “o grande sabedor da guerra”.

PORTUGUÊS:
. Martim Soares Moreno (Coatiabo) – “o gavião branco”, representa o colonizador. Portador de virtudes cavalheirescas amou a pátria mais que à esposa, esse é o patrimônio que ele transmite a Moacir.

X - ENREDO:


Iracema, Séc. XIX (1881)
óleo s/ tela, José Maria de Medeiros.
Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

CAPÍTULO I

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
- Iracema!
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o
viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
- Iracema!
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite!
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.”

CAPÍTULO II

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.”

Iracema após banhar-se, repousa; enquanto a ará, sua companheira, brinca junto dela. Escuta um rumor na floresta e pensa trata-se de um espírito do mal: rápida e ágil, “a flecha embebida no arco partiu” e estancou no rosto de um estrangeiro, que “tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas”.
O guerreiro estranho assustou, pois “aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.”
Iracema sentida pelo acontecido correu para o guerreiro e com a mão estancou o sangue que escorria, “quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.”
Em seguida o estranho se dirige a Iracema na “linguagem” de seus irmãos e identifica-se, “venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus”. A virgem assusta-se pelo fato do estranho conhecer córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao bárbaro potiguara, comedor de camarão, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar à raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”

A objeção principal de Irapuã em relação aos pitiguaras, também chamados de potiguaras (comedores de camarão) pelos tabajaras como forma de desprezo, era que vencidos pelos brancos e por eles dominados, acabariam por permitir que o invasor chegasse até as terras dos tabajaras. Suas palavras demonstram sua intenção de atacar o inimigo e não se manter passivamente “como a pomba”.
Andira, irmão do Pajé, posiciona-se contra Irapuã, propondo a tática da defesa como a do melhor ataque: “Celebra, Irapuã, a vinda dos emboadas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.”
Irapuã compara o comportamento de Andira a um “velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da vítima que dorme.”

CAPÍTULO VI

Martim passeia pelos campos dos tabajaras e é surpreendido por Iracema.
“– É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro?”
Martim responde que são saudades de sua pátria. Então, Iracema pergunta:
”– Uma noiva te espera?”
“– Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos lábios de mel, nem mais formosa! murmurou o estrangeiro.
- A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n’alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura do seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seis que batiam opressos.
A virgem falou enfim:
- A alegria voltará logo à alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que ele veja antes da noite a noiva que o espera.”

Já que Iracema não pode se entregar fisicamente a Martim, realizará a comunhão entre os dois através do sonho.
Encaminha-o até o bosque sagrado, prepara o verde licor da jurema e oferece ao guerreiro.
Através do sono (transe), Martim revive seus melhores momentos: retorna à terra natal, reencontra a sua família e “revê mais lindo e terno anjo puro dos amores infantis.”
Porém, Iracema ao se entregar, por meio da alucinação e através de outra mulher, é a ela que Martim procura e deseja. Durante o êxtase de Martim, ele abraça Iracema e “a virgem reclinou-se ao peito do guerreiro, e ficou ali trêmula e palpitante como a tímida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.”

CAPÍTULO VII

Iracema ouve um rumor na floresta e depara-se com Irapuã.

córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao bárbaro potiguara, comedor de camarão, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar à raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”

A objeção principal de Irapuã em relação aos pitiguaras, também chamados de potiguaras (comedores de camarão) pelos tabajaras como forma de desprezo, era que vencidos pelos brancos e por eles dominados, acabariam por permitir que o invasor chegasse até as terras dos tabajaras. Suas palavras demonstram sua intenção de atacar o inimigo e não se manter passivamente “como a pomba”.
Andira, irmão do Pajé, posiciona-se contra Irapuã, propondo a tática da defesa como a do melhor ataque: “Celebra, Irapuã, a vinda dos emboadas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.”
Irapuã compara o comportamento de Andira a um “velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da vítima que dorme.”

CAPÍTULO VII

Iracema ouve um rumor na floresta e depara-se com Irapuã.
O guerreiro tabajara diz que seguiu Iracema, pois ouviu que a cabana de Araquém guardava um inimigo.
Iracema diz que o estrangeiro é hóspede de Araquém e quem o ofende, estará ofendendo Tupã.
A virgem ameaça Irapuã com seu arco e o chefe dos tabajaras se retrai, afinal “o golpe que deveria ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a ele próprio, o coração.”
Sedento de vingança, o chefe tabajara ameaça matar o guerreiro branco e diz:
“– A sombra de Iracema não esconderá sempre o estrangeiro à vingança de Irapuã. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher”
“Dizendo estas palavras, o chefe desapareceu entre as árvores. A virgem sempre alerta, volveu para o cristão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado.”
“(...) Desejava abrigá-lo contra todo o perigo, recolhê-lo em si como em um asilo impenetrável. Acompanhando o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.”

A chegada de Irapuã interrompeu a “entrega” dos amantes. Iracema passa a viver neste momento o medo pelas ameaças de Irapuã e suspensão do clímax amoroso.


CAPÍTULO VIII

Amanhece e “a luz da manhã dissipou os sonhos da noite”, “ficou apenas um vago sentir”. Levanta-se e desorientado (entre o sonho e a realidade), sai à procura de Iracema, encontrando-a, entristecida.

Confirmando a afirmativa do capítulo VII, a desorientação espacial e dos sonhos de Martim chocam com a dura realidade de Iracema.
A virgem anuncia a chegada de Caubi (seu irmão) e a próxima partida de Martim. Acrescenta que depois da separação será como “a juriti, quando a árvore seca, foge do ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ela vai ficar, como o tronco nu, sem ramas, nem sombras.”
O guerreiro diz que ficará para voltar ver Iracema sorrir, mas ela responde que é impossível, pois o guerreiro que a possuísse, morreria.

“– O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba, tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da açucena.”

CAPÍTULO IX

Ocorre a preparação da partida de Martim que será acompanhado por Caubi, o senhor dos caminhos. Iracema entrega-lhe o moquém da viagem, o presente da volta e oferece ao estrangeiro sua rede
de presente “quando nela dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema”
E ele responde:
“–Tua rede, virgem dos tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora, o vento frio da noite, ela guardará para o estrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.”
Araquém despede-se dizendo:
“– Bem-ido seja o hóspede, como foi bem-vindo à cabana de Araquém.”
“A boca do guerreiro pousou na boca mimosa da virgem. Ficaram ambos assim unidos como dois frutos gêmeos do araçá, que saíram do seio da mesma flor.”

Na despedida: um beijo, uma lágrima e o último sorriso de Iracema.

CAPÍTULO X

Depois da partida, Iracema emudeceu. “A ará, pousada no jirau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos tabajaras, Iracema a esqueceu.”
De repente, Araquém escutou o canto da inhuma e o grito de guerra de Caubi.
Mais rápida que a ema selvagem, Iracema atravessa a floresta e pode ver Caubi enfrentando cem guerreiros tabajaras com Irapuã à frente, ameaçando matá-lo caso não entregasse o guerreiro. Iracema posiciona-se diante de Martim, para defendê-lo.
Caubi ordena que Iracema leve Martim à cabana de Araquém, o único que poderia salvá-lo.
Martim quer enfrentá-los: “- Os guerreiros de meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquele que tu vês não foi o primeiro a provocá-lo, é porque seus pais lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.”
De repente ecoou o grito de guerra dos pitiguaras através da inúbia (trombeta de guerra. Os indígenas as tinham tão grandes que mediam muitos palmos no diâmetro da abertura) e os tabajaras preparam-se para lutar.
Ficando somente Martim com Iracema.

CAPÍTULO XI

Irapuã não encontrando o inimigo e acreditando que fosse um ardil de Iracema para salvar Martim, dirige-se à cabana de Araquém para buscá-lo.
Martim por ser um forte guerreiro (ou por fazer parte de um mundo machista) incomodava-se com a proteção da Iracema.
O chefe tabajara acusa o estrangeiro de ter roubado a virgem que guarda os sonhos da jurema. Iracema desmente e Martim acusa-o de “ser indigno de ser chefe de guerreiros valentes!”
Araquém afirma que “se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flor de seu corpo, ela morrerá; mas o hóspede de Tupã é sagrado; ninguém o ofenderá; Araquém o protege.”

Araquém ameaça-o com a fúria de Tupã e pede que ele escute a ira de Tupã através do ronco do trovão.
“Araquém proferindo essa palavra terrível, avançou até o meio da cabana; ali ergueu a grande pedra e calcou o pé com força no chão: súbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.”

Irapuã curvou-se e partiu.
Perante tal proeza, Martim fica assustado com os poderes de Araquém, “ele não podia crer que o deus dos tabajaras desse a seu sacerdote tamanho poder.”
Iracema aproxima-se delicadamente de Martim e ele dirige-se a ela com agressividade e aspereza.
A virgem pergunta-lhe porque a trata dessa forma e o estrangeiro ainda cismado pelo que vira, alega que teme a maldição de Tupã.
Embora Iracema conheça a tática de seu pai para aterrorizar os tabajaras (a voz de Tupã), também conhece a punição que lhe cairá caso ela se entregue ao branco.
Porém, como forma de defesa, Iracema acusa Martim que seu medo não é do sobrenatural, mas, sim, “é o canto da virgem loura, que te chama!”

CAPÍTULO XII

Já era noite quando o guerreiro escuta o cantar da gaivota, a atiati, a garça do mar. Iracema desconhece esse cantar, por ser virgem da serra. Trata-se do grito de guerra de Poti, amigo de Martim. Iracema temeu por seus irmãos, pois a fama do bravo Poti, irmão de Jacaúna percorria por toda a serra, mas opta por salvar o estrangeiro. Martim a tranquiliza dizendo que não deixará correr sangue nos campos dos tabajaras.
Em seguida, prepara-se para ir ao encontro de seu amigo e é impedido pela virgem: “-O hóspede de Araquém não pode sair desta cabana, porque os guerreiros de Irapuã o matarão.”
Iracema se oferece a ir ao encontro com Poti e trazer “as falas do guerreiro amigo”.
Araquém a orienta para levantar a pedra e esconder o estrangeiro no seio da terra.

Poti tendo perdido Martim durante a caçada, procura-o nos campos dos tabajaras, identificando-se com o grito da gaivota, afinal “as praias são dos pitiguaras, senhores das palmeiras”
Iracema será a mediadora entre Poti e Martim


CAPÍTULO XIII

Iracema parte para a mata em busca de Poti, que só aparece após ela ter dito o seu nome: “– Guerreiro Poti, teu irmão branco te chama pela boca de Iracema.”
Poti desconfiado de Iracema se recusa a falar de seus planos com ela. Nega o seu auxílio para conduzi-lo até Martim e desconversa quando ela lhe pergunta sobre os guerreiros que ele trazia.
Iracema explana a situação a Poti, os riscos e perigos que Martim sofre e a sua proteção na cabana de Araquém.
A virgem tabajara volta à cabana e contou o que ouviu de Poti.
Martim insiste em partir e “cingiu-lhe Iracema o colo com os lindos braços”. Ele diz que irá ao encontro de

Poti e que não teme Irapuã: “tem medo dos olhos da virgem de Tupã”.
Iracema chama-o de ingrato e acusa-o de arriscar a sua vida e de seu irmão, pois “teu rasto guiará o inimigo aonde se oculta o guerreiro do vale.”
Nesse momento, Caubi traz a notícia do próximo ataque de Irapuã. Iracema conduz o estrangeiro ao antro da terra e a voz de Tupã ecoou novamente.

Esse capítulo marca negativamente a falta de confiança de Poti pela índia tabajara, afirmando que só falará com diretamente com Martim; não aceita pisar na cabana dos inimigos “nunca filha dos tabajaras, um guerreiro pitiguara passou a soleira da cabana inimiga, se não foi como vencedor” e não lhe conta seus planos.


CAPÍTULO XIV

Irapuã e seus homens chegam à cabana de Araquém.
“Rugem vingança contra o estrangeiro audaz que afrontando suas armas, ofende o deus de seus pais, e o chefe de guerra, o primeiro varão tabajara.”
Na porta da cabana encontram Caubi bloqueando a passagem. Quando Irapuã decide enfrentar Caubi, a voz de Tupã ressoa no ar, fazendo-os temerem o seu deus.
Nas entranhas da terra, após a voz de Tupã emudecer contra os guerreiros de Irapuã, agora é a vez de Poti falar ao amigo através da voz de Tupã:
“– A mulher é fraca, o tabajara traidor, e o irmão de Jacaúna prudente.”
“Iracema suspirou e pousou a cabeça no peito do mancebo.”
Poti ordena que Martim parta antes que o Sol se levante na serra e caminhe pelas margens do ninho das garças, seguindo a estrela morta. Acrescenta que está só, pois seguira os rastos do amigo afastando-se dos guerreiros de sua taba, mas que tinha enviado seu cão fiel a Jacaúna.
Iracema sugere que esperem “a lua das flores nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pajé os sonhos alegres.”
“Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repeliu. O toque de seu corpo, doce como a açucena-do-mato, e macio como o ninho do beija-flor, magoou seu coração, porque lhe recordou as palavras terríveis do Pajé.”

CAPÍTULO XV

“Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.
Iracema recosta-se langue ao punho da rede, seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.
Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse adito d’alma, o himeneu do amor.”
Araquém nesse momento soltou um gemido doloroso, como se pressentira a desgraça de sua raça.
O cristão repele o seio da virgem, fecha os olhos, pede forças a seu Deus pra livrá-lo da tentação, “ mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma onda de ardente chama. Assim quando a criança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflamadas que lhe queimam as faces” e diz: “– Virgem formosa do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na cabana de Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz.”
“– Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria?”
Martim responde que quer sentir novamente os sonhos da jurema que são doces e saborosos.
Iracema magoada afirma que o estrangeiro quer que o sonho o leve para a terra de seus irmãos e onde ele viverá à cintura da virgem branca.
Iracema entrega-lhe o licor verde e dessa forma, Martim “podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.”
“Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. (...) em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor.”
Martim ao acordar assusta-se e ao ver Iracema colada ao seu corpo, pensa que estava sonhando e só volta à realidade ao ouvir o alarido da taba.
Iracema escondeu no coração a sua ventura.
“Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.”

CAPÍTULO XVI

É chegado o dia do canto da lua nova. Iracema prepara a igaçaba cheia do verde licor, “Araquém decreta os sonhos a cada guerreiro e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara.”
São oferecidas as oferendas a Tupã, enquanto Araquém vela o sonho dos seus guerreiros.
Iracema afasta-se do bosque sagrado e leva Martim ao encontro com Poti. Ela os guiará até as fronteiras dos campos dos pitiguaras. Aproximando das divisas das tribos, Poti pede que Martim se despeça de Iracema.


CAPÍTULO XVII

“– Teu hóspede já não pisa os campos dos tabajaras. É o instante de separar-se dele”, diz Martim.
Iracema diz que não poderá voltar aos campos dos tabajaras; que Araquém não tem mais filha e que ela não pode mais se separar do estrangeiro, pois já é sua esposa: “a filha do Pajé traiu o segredo da jurema.”
Martim choca-se com a notícia, pois achou que tinha sonhado e não vivenciado a entrega dos amantes.
Poti acelera Martim para fugirem. O guerreiro pitiguara “pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação, fortalece o guerreiro, e tomado em excesso, abate a coragem do herói.”

À noite Iracema arma a rede para o seu esposo e senta-se longe, “na raiz de uma árvore, como a cerva solitária, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco.”
“Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d’árvore a que o vento arrancou o lindo cipó” e chamou por sua esposa.
De manhã, Poti vem avisá-los da aproximação dos tabajaras, “enquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu.”
Martim pede ao amigo que fuja e salve Iracema, mas não é atendido “Poti e seu irmão só têm uma vida”.

CAPÍTULO XVIII

Quando os tabajaras se preparam para o combate, escutam o grito de guerra dos pitiguaras que guiados pelo cão Japi, localizam os três fugitivos.
Jacaúna desafia Irapuã e Caubi avança com fúria contra Martim. Iracema pede a Martim que poupe a vida de seu irmão: “se o guerreiro Caubi tem que morrer, morra ele por esta mão, não pela tua.”
Martim pede a Jacaúna que o deixe lutar contra Irapuã, pois “o tabajara pertence ao guerreiro branco”.
Os pitiguaras vencem o combate e Iracema chora ao ver os cadáveres de seus irmãos.

CAPÍTULO XIX

Poti dá o seu cão Japi para Martim para que “mesmo de longe Poti acuda a teu chamado”.
O guerreiro pitiguara leva Martim até um jatobá para lhe mostrar o lugar que tinha nascido e conta-lhe de seu pai, o guerreiro Jatobá e sua mãe Saí, que “aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencê-lo mais vezes.”
Martim abraçou o jatobá, levou a esposa do lado do coração e o amigo do lado da força.

CAPÍTULO XX

“Três sóis havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos pitiguaras, senhores das margens do Camucim e Araracu” e isso a entristecia.
Martim decide partir: “ele era feliz aqui, mas a voz do coração o chama a outros sítios”. Poti diz que os acompanhará, pois “deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.”

No início do capítulo temos o tempo cronológico indicando que haviam transcorrido três dias, cada um deles medido pelo nascer e morrer do sol.

CAPÍTULO XXI

Passaram por Meruoca, Uruburetama, Mundaí, Soipé, Mocoripe; viajando sem destino e apreciando as belezas naturais da região.
Sua intenção era afastar-se cada vez para “arrancar a tristeza do coração de Iracema.”
Decide fixar-se e o guerreiro branco escolheu um lugar para levantar a cabana.

CAPÍTULO XXII

Poti saudou o amigo e falou assim:
“– Antes que o pai de Jacaúna e Poti, o valente guerreiro Jatobá, mandasse sobre todos os guerreiros pitiguaras, o grande tacape da nação estava na destra de Batuireté, o maior chefe, pai de Jatobá.”
Mas, “quando suas estrelas eram muitas, e tantas que seu camucim já não cabia as castanhas que marcavam o número, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do Ubiratã que não verga; a luz dos olhos escureceu.”
Então, Batuireté passou a sua liderança a Jatobá.
“Tomou o bordão de sua velhice e caminho”, pronunciando com tristeza: “- Ah! Meus tempos passados!”
Desde então, àqueles que ali passavam, repetiam suas palavras e o lugar passou a chamar-se Quixeramobim.
Até hoje, os grandes guerreiros pitiguaras procuram Batuireté para se aconselharem como combater.
”Assim as tribos não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.”
Poti vai visitar o avô e Martim irá acompanhá-lo. Maranguab ao ver Martim disse:
“– Tupã quis que estes olhos vissem antes de se apagarem, o gavião branco junto da narceja.”
Depois de proferir essas palavras fechou os olhos e nunca mais abriu. Morrera de velhice e aquela serra passou se a chamar Maranguape.

CAPÍTULO XXIII

“Quatro luas tinham alumiado o céu depois que Iracema deixara os campos do Ipu; e três depois que ela habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.”
A felicidade pairava na cabana dos amantes e do amigo. Martim e Poti caçavam, enquanto Iracema banhava-se na lagoa Porangaba, onde as mães iam mergulhar suas filhas, para “dar formosura às virgens e fazê-las amadas pelos guerreiros”.
Certo dia, quando os amigos voltavam da caça, Iracema vai de encontrá-los, “por cima da carioba trazia uma cintura das flores da maniva, que era o símbolo da fecundidade. Colar das mesmas cingia-lhe o colo e ornava os rijos seios palpitantes e anuncia que:
”– Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ela será mãe de teu filho.”
Martim sente-se completo em sua felicidade e compara-se a uma árvore: “O guerreiro sem a esposa, é como a árvore sem folhas nem flores; nunca ela verá o fruto. O guerreiro sem amigo, é como a árvore solitária que o vento açouta no meio do campo: o fruto dela nunca amadurece.”
A partir desse acontecimento, Martim quer se integrar totalmente à pátria de seu filho e de seu coração.

CAPÍTULO XXIV
cabeças em um só corpo e Iracema como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta.

CAPÍTULO XXV

“A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amanhecer.”
“O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão, até que volta no outro ano à lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro também satura-se de felicidade e carece de sono e repouso.”
Os carinhos da esposa, a amizade de Poti e as caças já não saciavam mais o coração de Coatibo. O seu olhar volta-se para a imensidade dos mares e quando via uma igara flutuando, pensava nos seus e a saudade doía.
Um dia Poti avistou uma igara do branco tapuia que ia para as margens do Mearim, onde viviam os aliados dos tupinambás. Iracema percebe a melancolia de Martim e cala-se tristonha.
Chega a cabana um mensageiro dos pitiguaras comunicando que o tapuitinga havia feito aliança com os tabajaras e que Jacaúna precisava de Poti para defender os seus campos.
Coatibo decide partir com Poti.

CAPÍTULO XXVI

Coatiabo preocupa-se em partir sem avisar Iracema e teme que ela possa abandonar a cabana. Poti diz: “– As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro...” e, assim, Coatiabo resolve partir sem se despedir.
Poti vendo a aflição do amigo flechou um goiamum e fincou a flecha de penas vermelhas no chão, com a presa atravessada e explicou ao amigo que, Iracema entenderá o aviso e obedecerá. Martim completou colocando um ramo do maracujá, a flor da lembrança entrelaçando-o na haste da seta e partiu.
Quando Iracema voltou à cabana, entendeu que Martim “manda que ela ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flor todo o tempo até morrer”.
Todos os dias, Iracema sentava-se junto à flecha e esperava por amado.
Os guerreiros que viram Iracema feliz banhando-se na lagoa Porangaba, agora “encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na margem do rio, chamavam aquele sítio da Mecejana, que significa a abandonada.”
Um dia Iracema ouviu chamar pelo seu nome: era a jandaia, sua companheira, que ela abandonara nos campos dos tabajaras e sentiu saudades de sua pátria e de seu pai; mas não se arrependeu de tê-los abandonado.
A partir desse dia a jandaia nunca mais a abandonou.

CAPÍTULO XXVII

Poti e Martim regressam vitoriosos à cabana e a felicidade voltou habitar a alma de Iracema.
“O cristão amou a filha do sertão, como nos primeiros dias, quando parece que o tempo nunca poderá estancar o coração. Mas breves sóis bastaram para murchar aquelas flores de uma alma exilada da pátria.”
“O amigo e a esposa não bastavam mais à sua existência, cheia de grandes desejos e nobres ambições.”
Às vezes, Martim pensava em partir e levar Iracema, “ mas ele sabia que Iracema o acompanharia; e essa lembrança lhe remordeu o coração. Cada passo mais que afastasse dos campos nativos a filha dos tabajaras, agora que ela não tinha o ninho de seu coração para abrigar-se, era uma porção da vida que lhe roubava.”

CAPÍTULO XXVIII

Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.”
Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.

CAPÍTULO XXIX

Martim vê uma grande igara passando com guerreiros brancos inimigos de sua raça, que ameaçavam invadir as praias pertencentes aos pitiguaras. Pede para Poti comunicar-se com Jacaúna e pedir reforço para o combate
À noite quando os pitiguaras comemoravam a derrota dos guaraciabas, nascia o filho de Iracema e Martim.

CAPÍTULO XXX

Iracema após dar à luz, banhou a criança no rio e depois o amamentou.
“– Tu é Moacir, o nascido de meu sofrimento.”
A ará amiga repetiu o nome e desde então unia o nome do Iracema com o de Moacir.
Iracema amparou a criança e buscou o rasto de Moacir, que há três sóis partira. Notou que ele e Poti seguiram ao longo da praia e adivinhou que tinham partido para a guerra.
No dia seguinte Iracema viu entrar em sua cabana um vulto: era Caubi que vinha não por vingança, mas por saudades de Iracema.
Caubi contempla a criança e diz:” – Ele chupou tua alma”
Iracema pergunta sobre seu pai. Caubi responde que Araquém nunca mais ergueu sua cabeça depois que Iracema partiu.
O guerreiro tabajara quer dar o abraço de amizade em Martim. Iracema chora e Caubi assusta-se, pois acreditava que Iracema havia deixado a tristeza nos campos dos tabajaras.

CAPÍTULO XXXI

Iracema pede que Caubi parta.
O leite de Iracema estava secando. A jovem mãe partiu para a mata e ofereceu seus seios a uns cachorrinhos famintos para sugá-los.
“Iracema curte dor, como nunca sentiu; parece que lhe exaurem a vida: mas os seios vão-se
partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.”
“A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema.
Tudo passa sobre a terra.”



1. O autor elaborou uma narrativa nos anos oitocentos com elementos do século XVI, retratando o encontro entre brancos e indígenas, cultura e natureza, amparando em argumentos históricos para celebrar a fundação do povo brasileiro.
2. Iracema é o padrão ideal da esposa e mãe do século XVII. Pelo amor ao marido, Iracema deixa a família, a pátria tabajara e seus campos nativos; abjura a religião e o “segredo da jurema”. Pelo filho, sofre até a tortura de aleitar seu filho à custa do seu próprio sangue (morte da cultura indígena) e sofre solitariamente e sem revolta o desprezo do esposo.
3. Moacir deve crescer à imagem e semelhança do pai, Martim (vitória da colonização), deixando-nos uma reflexão sobre o destino da raça brasileira e principalmente sobre o mestiço. Interessante notar que Moacir não é descrito fisicamente.
4. A história de amor entre Iracema e Martim foi tragada pelo tempo: “Tudo passa sobre a terra”, deixando espaço para a questão social – a nacionalidade.
5. Em “Iracema” já está presente a existência de “dois brasis”: o litoral, habitado pelos pitiguaras e dominado pelos brancos e o sertão, habitado pelos tabajaras, vencidos pelos seus inimigos e defensores da cultura primitiva.
6. Martim é o herói civilizado, sem deixarem de serem igualmente amigos, há em cada um deles um traço característico que corresponde à origem de ambos: a afeição de Poti tem a expressão ingênua, franca, decidida; Martim não sabe ter aquela simplicidade selvagem e às vezes, cala-se perante o amigo.
8. Em “Iracema” há um pouco de Ana Josefina, moça de coragem, que, naqueles recuados tempos, teve
civilizado, sem deixarem de serem igualmente amigos, há em cada um deles um traço característico que corresponde à origem de ambos: a afeição de Poti tem a expressão ingênua, franca, decidida; Martim não sabe ter aquela simplicidade selvagem e às vezes, cala-se perante o amigo.
8. Em “Iracema” há um pouco de Ana Josefina, moça de coragem, que, naqueles recuados tempos, teve ânimo de enfrentar, por amor, os preconceitos da ética social e os cânones da religião e coragem para suportar a humilhação de ler na certidão de batismo dos seus meninos a nota de “filho natural”. Assim como Iracema, sacerdotisa do ritual da jurema, voltada à virgindade, tudo abandona e esquece por amor de Martim.
9. Iracema pode ser associada, sob certo aspecto, a personagem da mitologia clássica, pois são frequentes as referências a sacerdotisas consagradas a rituais sagrados e cujo voto de castidade não pode ser rompido.
10. Iracema é frequentemente associada à personagem de Chateaubriand, “Átala et René” , publicado em 1801 e, que muitos estudiosos consideram uma das fontes de Alencar. A obra reporta-se ao início da extinção dos índios natchez, da Luisiana, região da América Francesa, no vale baixo do Mississipi. Conta à história de dois amantes, Chacta e Átala, vítimas dos inevitáveis conflitos entre as civilizações européias e indígenas.
Segundo Antônio Soares Amora traça um paralelo entre Iracema e Átala, “é o pungente drama amoroso de duas jovens, virgens, em estado de pureza edênica, que vêm a ser vítimas do que a sociedade civilizada concebera como ditames do sentimento e da moral. Átala suicida-se movida cegamente por erradas razões religiosas e, Iracema sucumbe, vítima do abandono a que a relegara Martim, preso a compromissos morais incompatíveis com a dedicação devida ao amor conjugal e à maternidade da infeliz esposa.”
Os pontos comuns entre “Átala et René” e “Iracema” são, entre outros: o tema da felicidade primitiva vivida pelos selvagens que começam a se corromper diante da aproximação do civilizado; o ideal rousseauniano do homem natural, do bom selvagem; o amor de uma índia por um estrangeiro; a morte das duas heroínas; o exótico da paisagem americana; a oposição entre o Novo Mundo da América e o Velho Mundo da Europa e a poetização da prosa.
11. Iracema poderia de alguma forma, também, ser associada à Eva bíblica: virgem que vivia num paraíso e é responsável pela “queda” de Martim, ou seja, é ela que o tenta e o seduz, levando-o a cometer o que se poderia chamar de “pecado original”. Tendo pecado, os amantes expulsam a si mesmos desse “paraíso”, que é perdido. Numa leitura livre, os sofrimentos de Iracema podem incluir até a maldição bíblica de que a mulher deve parir com dor, como castigo.
12. A preocupação do autor em “Iracema” não é cantar lutas heróicas, mesmo relatando alguns episódios guerreiros (Irapuã e Poti), a obra volta-se para a história lírica de uma virgem indiana, dos seus amores e dos seus infortúnios.
13. Alencar estudou profundamente a língua e os costumes selvagens, entendia ele, que era preciso prevenir-se contra um anacronismo moral, que consiste em dar ideias modernas e civilizadas aos filhos incultos da floresta. Tudo ali parece primitivo: a
ingenuidade dos sentimentos e o pitoresco da linguagem.
14. Apesar do valor histórico de alguns personagens, como Martim e Poti (o célebre Camarão, da guerra holandesa), o resto é obra de imaginação e a maior soma de interesses concentra-se na filha de Araquém.
15. Na obra, primeiramente é descrita a beleza física de Iracema; a beleza moral vem depois: a vestal indígena é um complexo de graças e de paixão, de beleza e de sensibilidade, de casta reserva e de amorosa dedicação. Realça-lhe a beleza nativa a poderosa paixão do amor selvagem.

Um comentário:

Mirella Soares disse...

Mto legal, me ajudou mto!!