sexta-feira, 20 de outubro de 2017

VOZES ANOITECIDAS, MIA COUTO




I – AUTOR:

Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido por Mia Couto, nasceu em 5 de julho de 1955 na cidade da Beira em Moçambique. É filho de uma família de emigrantes portugueses. O pai, Fernando Couto, natural de Rio Tinto, foi jornalista e poeta, pertencendo a círculos intelectuais, tipo cineclubes, onde se faziam debates. Chegou a escrever dois livros que demonstraram preocupação social em relação à situação de conflito existente em Moçambique. Mia Couto publicou os seus primeiros poemas no jornal Notícias da Beira, com 14 anos. Iniciava assim o seu percurso literário dentro de uma área específica da literatura – a poesia –, mas posteriormente viria a escrever as suas obras em prosa. Em 1972 deixou a Beira e foi para Lourenço Marques para estudar medicina. A partir de 1974 enveredou pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) – de 1976 a 1976; da revista semanal Tempo – de 1979 a 1981 e do jornal Notícias – de 1981 a 1985. Em 1985 abandonou a carreira jornalística.
Reingressou na Universidade de Eduardo Mondlane para se formar em biologia, especializando-se na área de ecologia, sendo atualmente professor da cadeira de Ecologia em diversas faculdades desta universidade. Como biólogo tem realizado trabalhos de pesquisa em diversas áreas, com incidência na gestão de zonas costeiras e na recolha de mitos, lendas e crenças que intervêm na gestão tradicional dos recursos naturais. É diretor da empresa Impacto, Lda. – Avaliações de Impacto Ambiental. Em 1992, foi o responsável pela preservação da reserva natural da Ilha de Inhaca.
Mia Couto é um “escritor da terra”, escreve e descreve as próprias raízes do mundo, explorando a própria natureza humana na sua relação umbilical com a terra. A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos, confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. Cada palavra inventada como que adivinha a secreta natureza daquilo a que se refere, entende-se como se nenhuma outra pudesse ter sido utilizada em seu lugar. As imagens de Mia Couto evocam a intuição de mundos fantásticos e em certa medida um pouco surrealistas, subjacentes ao mundo em que se vive, que envolve de uma ambiência terna e pacífica de sonhos – o mundo vivo das histórias. Mia Couto é um excelente contador de histórias. É o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras, como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa.
Atualmente é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. As suas obras são traduzidas e publicadas em 24 países. Várias das suas obras têm sido adaptadas ao teatro e cinema. Tem recebido vários prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da sua obra literária.
É, comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007 o prêmio União Latina de Literaturas Românicas.

II – CARACTERÍSTICAS;

O próprio Couto, define-se:
Sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o meu território preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua do meu lado português a marca da minha individualidade africana. Necessito tecer um tecido africano e só o sei fazer usando panos e linhas europeias. O gesto de bordar me ensina que estou inventando uma outra ordem e nessa ordem esses valores iniciais de nacionalidade já pouco importam. (COUTO, 1997)
O estilo do escritor é inovador porque introduz elementos, expressões e léxico que não são característicos dos outros autores. Desde a infância conheceu diversos grupos étnicos em Moçambique de maneira que pode contar as histórias do seu povo. Na narrativa o autor intenta mostrar as culturas que fazem parte do mosaico étnico de Moçambique. A linguagem literária de Mia Couto é tocada pela oralidade e é cheia de neologismos, da aglutinação, da prefixação e outros modos de recriação do léxico. Enumerar todos os resultados dessa criatividade lexical seria impossível, mas alguns exemplos são: depressou-se, entre-quando, deslembrava, sozinhidão, fantasiática, administraidor... Do mesmo modo o autor usa o português oral do quotidiano de Moçambique e as marcas de moçambicanidade estão sempre presentes nos livros. A moçambicanidade pode refletir-se nos espaços reais ou irreais ou em múltiplas vozes narradoras. Os elementos fantásticos e sobrenaturais produzem estranheza nos leitores, mas os contos foram escritos de maneira que tudo parece normal. O humor nos contos é introduzido para provocar emoção ou para fazer menos dramáticos os sucessos trágicos.
O autor nos seus livros exibe numerosas situações que se referem aos mitos, às lendas e ao folclore nacional. Assim, as obras contrastam com a vida ordinária e mostram-nos o fantástico e o irreal. Além disso, mostram o conflito entre o mundo moderno e o mundo tradicional. Os valores tradicionais mantêm-se por meio de situações raras que os portugueses não podem compreender. De modo que essas situações que aparecem nos livros de Couto são uma forma de resistência cultural. Mas também representam a conservação da identidade nacional moçambicana.
Pelo seu estilo de escrita foi comparado a autores tais como Gabriel García Márquez, Jorge Amado e Guimarães Rosa. Couto utiliza as invenções linguísticas e os neologismos mas sempre retratando a realidade do povo moçambicano. A oralidade usada reflete as marcas da identidade cultural. Em vista disso, conserva a identidade moçambicana combinando a oralidade que representa a tradição e a escrita que representa a modernidade.
Igualmente, o autor explora as próprias raízes do mundo e descreve a relação entre homem e a natureza. Tenta reescrever a realidade e exibir com a escrita tudo o que caracteriza a cultura do seu povo falando sobre a vida, a morte, a ignorância, o racismo, a guerra, a corrupção, o amor, o ódio...
Lendo as obras de escritor os leitores em diversas partes do mundo podem conhecer melhor a cultura moçambicana. Mia Couto é sem dúvida, o escritor moçambicano que melhor representa a realidade cultural do seu país e o que até mais longe a transporta, dado que, atualmente, são já 14 as línguas em que contos, crônicas, poemas e livros seus estão à disposição de leitores falantes dessas mesmas línguas. E isto porque não é possível permanecer indiferente ao fascínio que se desprende da sua escrita, onde se perde a noção do tempo e do espaço presentes, para se entrar no tempo do sonho, desligado da contingência temporal, mergulhando-nos a imaginação na plenitude do eterno e do universal. (ANGIUS, 1998, pp. 16-17)
As narrativas do autor expõem várias culturas e crenças do homem moçambicano. O espaço etno-social apresentado nos contos abrange universos culturais muito diversos. Misturam-se elementos africanos, europeus, indianos, árabes e muçulmanos. Essa combinação de elementos de culturas diferentes mostra o mosaico étnico de Moçambique:
“Os ritos, mitos e outras marcas distintivas do país em que o escritor nasceu, através da sua obra, tomam lugar no mundo contemporâneo e completam a panóplia de culturas que a literatura põe em convivência ativa.“ (Angius, 1998, p. 17)
Segundo Pires Laranjeira (1995, p. 314), no primeiro lugar aparece a criatividade e inventividade da linguagem. Isso significa que a nível da sintaxe e do léxico a linguagem muda. A fala e as estruturas das línguas africanas modificaram a norma europeia. A consequência dessa influência é a nova norma moçambicana. Igualmente, as falas populares influíram a língua literária flexibilizando e remodelando a frase. A linguagem usada é muito rica em neologismos e estruturas sintáticas inventadas.
Conforme Cavacas (2006, pp. 65-67), Mia Couto utiliza nas suas obras o português que tem algumas características do português rural que ele mistura com o português oral de Moçambique. “O léxico é recriado sempre a partir da língua portuguesa de Moçambique e de outras línguas que com ela coabitam o espaço moçambicano. Também, a aproximação ao português oral de Moçambique nos seus reflexos a nível da organização morfo-sintática que serve o texto e na forma oralizante do discurso. “ (Cavacas, 2006, p. 67)
De acordo com Pires Laranjeira (1995, p. 316), o humor é construído através da intriga, de situações e acontecimentos, de personagens e seus nomes, da narração ou da linguagem e da enunciação. Remete-nos para enredos e tramas sem nenhuma lógica que se caracterizam pelo absurdo, irrealismo e situações cheias de drama, angústia e tragédia. O humor de intriga provém de uma intriga por si só engraçada ou fantástica. O humor de situação ou acontecimento não envolve uma intriga completa, mas apenas um episódio. O humor de personagem define-se pela linguagem, as histórias que conta ou o seu comportamento.
Frequentemente mostra a fala da personagem sem competência linguística perfeita do português. O humor dos nomes próprios de mesmo modo está presente nas suas obras porque certos nomes são cômicos em si mesmos ou por contradição com características da personagem, por exemplo, a personagem que se chama Rosalinda, uma mulher muito gorda.
O humor na narração verifica-se no modo de contar os acontecimentos. O humor da linguagem verifica-se no nível sintático e lexical. O humor de enunciação nota-se no modo de organização do discurso e na construção da frase.
Segundo Pires Laranjeira (1995, p. 315), outra característica do estilo coutiano é o realismo na descrição de ações e caracteres. Assim, no conto “A fogueira” no início está descrita o cenário de pobreza e de devastação. Esse começo é importante porque mostra como vai ser o cenário dos restantes contos na obra “Vozes anoitecidas”: escassez, desolação e carências. No segundo conto, “O último aviso do corvo falador”, de igual modo “se desenha, um ambiente, costumes, tipos sociais, uma espetacular ação que origina a expetativa da intriga: no meio da praça, plena de gente que petisca na cantina, um pintor reformado, de nome Zuzé Paraza, magro, que fuma um cigarro da pior qualidade, começa a tossir e vomita um corvo vivo. ” (Pires Laranjeira, 1995, p. 316)
De acordo com Pires Laranjeira (1995, p. 316), a introdução do fantástico transforma esse realismo num realismo animista (a expressão é dos angolanos Henrique Abranches e Pepetela). O realismo animista aproxima-se ao realismo mágico sul-americano que igualmente descreve os ambientes, caracteres e ações através dos sonhos e a imaginação. Na ficção, Mia Couto utiliza elementos que se aproximam do realismo fantástico e do maravilhoso para representar a dor, a miséria e as consequências traumáticas da guerra civil.
Isso é o caso na narrativa da obra “Terra Sonâmbula”. O elemento fantástico é introduzido de repente para provocar emoção e estranheza no leitor. Os leitores moçambicanos não urbanos são habituados a tal quadro imaginativo e conceptual. Por exemplo, no conto “O último aviso do corvo falador” o autor apresenta o mito como algo ordinário e habitual:
Logo depois da sua apresentação, o pintor reformado monta um negócio, com o auxílio do corvo, que a narração deu como vomitado, mas cuja aparição podemos imaginar sempre como um expediente do pintor. Certo é que a narração acaba também por mostrar que aconteceu o incrível: uma maldição de Zuzé Paraza abate-se, de facto, sobre o indiano Sulemane, segundo marido da mulata Dona Candida, que o consultara para obviar aos estranhos achaques dele na hora do leito de amor. A maldição é encarada como um sinal para toda a povoação, que, ao notar a escapadela do advinho, toma-a como presságio colectivo e bate em retirada, abandonando a aldeia. (PIRES LARANJEIRA, 1995, p. 316)

“Vozes Anoitecidas” é o livro de estreia de Mia Couto no mundo da prosa. Em toda a obra entrelaçam-se episódios fantásticos, trágicos e humorísticos que incluem personagens interessantes que representam a sociedade moçambicana. É uma obra na qual o autor transmite as vozes da sua gente, as vozes dos antepassados. Portanto, a leitura do livro é também um reconhecimento de marcas da cultura moçambicana.

III - “VOZES ANOITECIDAS”

“Vozes anoitecidas” é uma coletânea de contos de Mia Couto. A obra foi publicada pela primeira vez em 1986 e é o seu primeiro livro em prosa e a obra que projetou o escritor para o mundo. Até então era conhecido só como jornalista e poeta.
Nesta obra o escritor forma o vínculo entre o registo oral e escrito o que é uma das principais características da sua escrita. Em 2013 o livro foi vencedor do Prêmio Camões.
Couto relata histórias de um Moçambique devastado no pós-guerra. Mais que isso, vemos o retrato de gente que luta todos os dias pela sobrevivência. Assim, a maioria dos contos da coletânea mostra as dificuldades e os problemas sociais das personagens. Trata-se dos assuntos que incomodavam o autor porque o livro foi escrito na época em que o país estava na guerra civil.
A obra mostra uma nação que sofre pela guerra, pela fome e por medo das minas.
Muitas vezes não podemos determinar o gênero literário da obra (prosa, poesia) ou se estamos no sonho ou na realidade.
Este é um livro interessante porque nos leva a refletir sobre a existência humana, o passado e o futuro e sobre os seres humanos que somos. O contato com uma cultura tão distinta muda as convicções e as atitudes dos leitores sobre as próprias vidas.

Conforme Leite (2014, p. 41), a guerra civil em Moçambique é o cenário da maioria dos contos de “Vozes anoitecidas”. Também, esses contos têm um sentido trágico que se resolve com a precipitação dos enredos para a morte. Isso particulariza-se nas histórias pessoais de cada uma das personagens e suas desventuras.
De acordo com Leite (2014, p. 41), a língua utilizada pelo autor na escrita dos contos é uma forma de nos informar sobre a constante crise que a sociedade moçambicana vive através das histórias trágicas do seu quotidiano. Porém, a língua é um dos meios escolhidos pelo autor para recuperar as marcas culturais da oralidade da sociedade tradicional, a visão do mundo mítica e o onirismo, ou seja, a relação entre o homem, a natureza e a comunidade.
No conto Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar? Estamos ante duas formas de pensar, ou dois mundos em confronto, o fantástico e o racional:

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Ai, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas das existências. A minha mulher matei, dizem. Na vida real, matei uma que não existia. Era um pássaro. Soltei-lhe quando vi que ela não tinha voz, morria sem queixar. Que bicho saiu dela, mudo, através do intervalo do corpo?

O pensamento da personagem central caracteriza o pensamento mítico, a multiplicidade e a contradição das identidades (Carlota pode ser mulher e pássaro). A personagem narrador cumula em si essa desordem das identidades (“Sou muitos“).
De acordo com Leite (2014, pp. 46-47) no conto “O último aviso do corvo falador” o mito se instala no processo narrativo de Mia Couto sem nenhuma surpresa:

Foi ali, no meio da praça, cheio de gente bichando na cantina. Zuzé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro ‘mata-ratos’. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. O pássaro saiu inteiro das entranhas dele...
No conto “As Baleias de Quissico”, a personagem Bento João Mussavele imagina que existem as baleias salvadoras que vão salvar a população da pobreza:

Não, o animal estava ali, ouvia-lhe a respiração, aquele rumor profundo já não era da tempestade, era a baleia chamando por ele. Sentiu que já sentia pouco, era quase só aquele arrefecimento da água a tocar-lhe o peito. Qual invenção, qual quê? Eu não disse que era preciso ter fé, mais fé do que dúvida? Habitante único da tempestade, Bento João Mussavele foi segundo mar adiante, sonho adiante.

IV – TÍTULO:

O título do livro apresenta um tanto de metafórico. O termo vozes remete à construção discursiva, à possibilidade de se expressar, oralmente em especial, o que é bastante pertinente, considerando que a ancestralidade africana se faz presente. E o termo anoitecidas nos remete igualmente a uma tradição moçambicana, pois segundo Henri Junod, que fez um profundo estudo sobre a cultura no sul de Moçambique, a narração dos contos africanos obedece a determinados rituais:
Há que tomar uma bizarra precaução quando se contam contos: é um tabu fazê-lo durante o dia; trata-se de um entretenimento da noite; o que transgredir essa regra torna-se calvo! (...) Penso que essa proibição provém de que, como esse jogo é tão popular, os indígenas receiam consagrar-lhe tempo demasiado: perderiam toda vontade de trabalhar, se começassem a jogá-lo logo a meio dia. Por isso se interditaram, instintivamente, a narração de contos durante o dia (JUNOD, apud LOPES, 2004, p. 185).
Apesar desse componente mais local, o leitor brasileiro ou de outros países pode bem se deparar com situações similares, pois Couto consegue abordar temáticas abrangentes, especialmente as relações mais diversas.
O próprio Mia Couto em prefácio revela que anoitecer as vozes significa impedir o desenvolvimento da imaginação, da fantasia. Quer dizer, um discurso que é impedido de se manifestar por estar nas trevas, no esquecimento. Contra isso, contra o esquecimento, manifesta-se a literatura, que tira do limbo, da escuridão as histórias ou esquecidas ou não contadas.
Esse é, pois, o papel do escritor, o de inventar ou o de resgatar histórias orais. O que chama a atenção inicialmente na literatura de Couto é a semelhança com a obra de Guimarães Rosa, especialmente por conta dessa oralidade, do trabalho estético da oralidade.
Sem dúvida, o leitor experiente conseguirá perceber as semelhanças entre os dois autores.

V - RESUMO DOS CONTOS DA OBRA “VOZES ANOITECIDAS”:

1. “A fogueira”: é o primeiro conto de “Vozes Anoitecidas” e é uma boa introdução à obra de Couto. Relata a história de um casal de idosos que vive numa grande pobreza. Eles começam a discutir sobre o futuro incerto e a morte.
Como estão velhos e sozinhos, o marido tem uma preocupação: saber quem enterraria a mulher se ele morresse antes dela.
Um dia o marido decidiu que ia cavar o cemitério para a sua mulher. Dedicou-se ao buraco durante duas semanas. Ele não queria deixar a esposa sofrer no caso de ele morrer antes. Esforçava-se muito, sem descanso e trabalhava mesmo com o mau tempo e a chuva.

- Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir tua cova, mulher.
A mulher comovida, sorriu:
– Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. (A fogueira.
(pág. 22)
E faz isso todos os dias, devagar devido à idade e à pouca força.
Durante duas semanas o velho dedicou-se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. (p. 23)

Também, não comia e estava doente. No dia seguinte, sem forças caiu. A mulher puxou-o pelos braços e trouxe-o para dentro.
Acamado, volta a ter a preocupação pela mulher, afinal quem a colocaria na cova se ele viesse a morrer. Por isso mesmo, decide que a cova não pode ficar sem serventia e que o melhor a se fazer é matar a mulher antes que ele próprio morra. Ainda que seja estranho, não se trata de uma decisão com ódio ou outro sentimento ruim. Acredita, segundo sua visão de mundo, que esse é o correto a se fazer. A mulher, comunicada pelo marido sobre tal decisão, aceita passivamente, sem admoestá-lo, sem se revoltar ou falar qualquer coisa em contrário.
– É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim. (p. 25)

No dia seguinte, o marido não resiste e é encontrado morto pela mulher. Durante a noite, a velha sonhara com os antepassados, sonhara com as histórias contadas e o sentido que faziam para manter a integridade do grupo. O que se deve, portanto, destacar no conto é, além da extrema pobreza em que vivem, a singeleza e a harmonia do casal, é. Se falta riqueza material, sobram a eles exatamente elementos da cultura local, o respeito à sabedoria dos mais velhos, o respeito às decisões.
Esse primeiro conto revela já o contraste entre o mundo moderno, egoísta, de busca por novidades e a harmonia de uma sociedade que, como os velhos, morrem e eles próprios têm de cavar a própria cova. Afinal, não morreu a mulher, mas faleceu o marido. A única coisa certa nas vidas do casal é a morte.

2. “O último aviso do corvo falador”: neste conto Mia Couto usa o elemento fantástico ou realismo mágico.
O pintor Zuzé Paraza, após um acesso de tosse, por um efeito de magia vomitou um corvo, animal este, muito especial. Oriundo da fronteira da vida e capaz de fornecer informações sobre os mortos através de seu crocito.

Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando na cantina. Zuzé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro “mata-ratos”. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. Então, assim contam os que viram, ele vomitou um corvo vivo. (pág. 29)

A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bruxezas, realmente. No dia seguinte, todos levantaram cedo. Correram à casa de Zuzé Paraza. Todos queriam ver o pintor, todos queriam-lhe pedir favor, encomendar felicidades. (pág. 38)

O corvo de imediato mostrara sua habilidade em falar. Porém, o único a compreender sua fala era o próprio Zuzé.
Verdade ou não, o pintor de parede passou a ser visto pela comunidade como alguém detentor de poderes mágicos e era sempre consultado por essa pretensa habilidade que teria o corvo.
Ele prestava consultas a toda a gente e previa-lhes o futuro.

Os pedidos logo acorreram numerosos. Zuzé já não tinha quarto, era gabinete. Não dava conversa, eram consultas. [...] E assim entra na história Dona Cândida, mulata de volumosa bondade, mulher sem inimigos. “ (p. 30)

Um dia no seu consultório chegou a dona Cândida, uma mulher mulata e esposa de Sulemane que era comerciante indiano. Também, era viúva de um negro que se chamava Evaristo.
Segundo o que foi relatado no conto, a morte de um marido deveria suceder um ritual de modo dar-lhe sossego espiritual na outra vida.
Tinha suas suspeitas: Evaristo era da raça negra, natural da região. Dona Cândida, com certeza não cumprira as cerimônias da tradição para afastar a morte do primeiro marido. (p. 32)

Apesar da suspeita, ela confirma que fizera tudo quanto mandaram. Zuzé pede ao corvo que investigue o caso. Mesmo com algum temor da mulher, ele pousa em seu ombro.
O conto tem um tanto de cômico também, pelo inusitado da cena. O leitor é capaz de perceber as intenções de Zuzé. Após ouvir o corvo, ele conclui que Evaristo deveria estar passando frio e que precisaria das suas roupas. Como ela, no ritual de encomendação, já se desfizera das roupas, Zuzé propõe que dê roupas do atual noivo, que o Evaristo certamente não se importaria.
– O Sulemane não pode saber disto. Meu Deus! Se ele desconfia!
– Fica descansada, dona Candida. Ninguém vai saber. Só eu e o corvo. (p. 34)

Zuzé queria conseguir novas roupas e não resistiu e vestiu as roupas entregues. Mais tarde, Sulemane toma conhecimento que as suas roupas estavam com Zuzé e, procura-o para ajustar as contas. O encontro resulta em agressão física e na morte do pássaro por um acidente. Na discussão, Sulemane cai sobre a ave.
Zuzé, aproveitando-se da atitude intempestiva de Sulemane que acaba mantando por acidente a ave, faz profecias malignas contra. Sulemane, que logo em seguida, começa a passar mal. O fato serviu para reforçar a crença nos poderes de Zuzé.
 A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bruxezas, realmente. (p. 38)

Depois disso, Zuzé previu uma praga na cidade e decidiu abandonar a região. Crendo nisso e na atitude do pintor elevado à condição de bruxo, um a um, os moradores abandonaram suas casas e partiram para outras terras.

Tais crenças despertam também crendices. No caso, Sulemane parecia não conseguir ter relações com Dona Cândida, e ela acreditava que poderia ser devido a algum feitiço do marido morto.

3. “De como vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro”: Ascolino, originário de Goa, morava em Moçambique e se intitulava indo-português [...], católico de fé e costume (p. 59).

Apenas como referência, Goa é atualmente um dos estados da Índia, mas foi território português na Ásia entre 1510 e 1961.

Vestia sempre de rigor, fato de linho branco, sapatos de igual branco, chapéu de idem cor. Cerimonioso, emendado, Ascolino costurava no discurso os rendilhados lusitanos da sua admiração. [...] Qui tém, homem? Essetragô sapúe de nosso. Não obstante, qui vai pagar? (p. 59 e 61)

A dona Epifânia era a sua esposa e Vasco João Joãoquinho o criado. Ascolino era infeliz no casamento com Epifânia porque ela era uma mulher muito fria e não lhe mostrava o amor e o carinho. Ela era devota a Deus. Com isso, a diversão de Ascolino era beber no bar do Meneses, na companhia do seu empregado João.
Montava sempre na bicicleta que seu criado pedalava.

Houvesse ou não visitas repetia-se o ritual. Vasco João Joãoquinho, fiel e dedicado empregado, surgia da sombra das mangueiras. Fardava caqui, balalaica e calção engomado. Aproximava-se trazendo uma bicicleta. Ascolino Fernandes, protocolar, inclinava-se perante ausentes e presentes. O empregado entregava-lhe uma pequena almofada que ele ajeitava no quadro da bicicleta. Acomodava-se, com cuidado de não manchar as calças na corrente. Ultimados os preparos, Vasco João Joãoquinho montava no selim e, com um puxão vigoroso, dava início ao desfile. (pág. 60)

O bar era dividido entre os brancos e os pretos; os brancos junto com Ascolino ficavam na parte da frente e Joãoquinho ficava na parte traseira com outros pretos. No bar, Ascolino contava aos amigos as peripécias de Ascolino, o que ele fazia para ter a atenção da esposa. Certa feita, destruiu móveis da casa, quis destruir as imagens dos santos e símbolos religiosos, para ver se a esposa olhava para ele. Porém, o efeito foi o contrário.
Uma noite Ascolino estava muito bêbado e passaram ele e o criado a noite fora de casa.
De manhã, quando acordaram e voltaram a casa descobriram que Epifânia intentava abandonar o seu marido. E eles não conseguiram impedi-la.
Alertado por Vasco, Ascolino diz que eles têm de perseguir o caminhão que estava levando a mudança da esposa. Manda Vasco pegar a bicicleta e irem atrás dela. Evidente que jamais alcançariam a esposa assim.
Apesar disso, Vasco prepara a bicicleta em partem em busca dela. Não, sem antes Ascolino dizer:
Pedal, pedal depresse. Não obstante, temos que chegar cedo. Hora de cinco hora temos que volta na cantina de Meneses. (p. 71)

Trata-se de um conto em que a comédia prevalece. Outra característica é a semelhança com a narrativa de Guimarães Rosa.
Ascolino é um personagem um tanto caricato, seu modo de falar é bem marcado, revelando uma pretensa nobreza.

4. “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar”: também remete o leitor a Guimarães Rosa, pois o narrador se dirige a um interlocutor ausente, no caso um advogado. Na esteira de Riobaldo (de Grande sertão: veredas), o narrador quer confessar seu crime.
Este conto é um relato confessional do marido de Carlota Gentina que cometeu um homicídio.
A história, dividida em quatro partes, trata como o narrador matou sua esposa, os motivos que o levaram a cometer o crime, bem como sobre seu arrependimento e necessidade de pagar pelo crime. Seu objetivo é explicar ao advogado como ocorreu tudo.
Queria comprovar se a sua mulher era um animal ou não. O marido já está na prisão há seis anos.
O senhor, doutor das leis, me pediu de escrever a minha história. Aos poucos, um pedaço cada dia. Isto que eu vou contar o senhor vai usar no tribunal para me defender. [...] Afinal, estou aqui na prisão porque me destinei prisioneiro. Nada, não foi ninguém que queixou. Farto de mim me denunciei. (p. 75-76)

Para explicar o seu ato, relata a história do seu cunhado Bartolomeu, que deixa cair, acidentalmente, em sua esposa uma lenha em brasa.
A mulher emite um grito estranho, como se fosse de um animal. Na cultura moçambicana tradicional, o fato indica que ela seria uma nóii, isto é, uma feiticeira.
Alertado por Bartolomeu, o narrador fica preocupado e imagina ser casado com uma também, afinal eram irmãs. Por isso, resolve tirar a prova. Tinha de a submeter a um sofrimento, uma dor profunda.
Joga em Carlota água fervendo. Porém, para sua surpresa, ela não gritou, apenas chorou sem muito barulho. Ele, então, ficou em dúvida, imaginava que ela poderia se transformar em um animal.
Quando trouxe a Carlota para fora de casa viu que ela tinha morrido e concluiu que era um pássaro. Depois, sonhava com ela. Nos sonhos, ela cantava e ele viu a própria morte. Por isso o título do conto.
Carlota Gentina era um pássaro, desses que perdem voz nos contraventos. (p. 79)

Confessou que era culpado pelo crime.
Há já seis anos que se entregara à polícia. É consciente do seu engano. Bartolomeu foi à prisão e contou-lhe tudo como se passou. A mulher de Bartolomeu não era animal e isso ele confirmou muitas vezes. Nem gatinhava, nem passarinhava, nada. Era pessoa.
E se irmã de Carlota não era animal, Carlota também não podia ser.
Por isso, ele sabe que cometeu um crime, mas não contra os homens, e sim contra a cultura local.
Ele se divide entre o mundo português, com suas leis, cultura e a cultura moçambicana. Chega a dizer que “mesmo brancos somos pretos”, ou seja, não porque houve a colonização que o ser moçambicano está totalmente morto. Trata-se, portanto, de um conto que revela a preocupação localista de Mia Couto. Em resumo, o narrador acredita que deva ser julgado pela justiça tradicional, pois seria julgado considerando a tradição. Partindo do princípio de que o seu crime foi por uma justa causa, a desconfiança que teve.

5. “Os pássaros de Deus”: esse conto trata as linhas que separam a religião e a loucura. A personagem principal é um pescador que se chama Ernesto Timba. Um dia ele salvou uma ave ajudando-a a retomar voo. Mas a ave sempre regressava ao barco de Ernesto.
Ele pensava que isso era um sinal e que a ave tinha sido enviada por Deus.
Nada, o pássaro não se mexia. Foi então que o pescador suspeitou: aquilo não era um pássaro, era um sinal de Deus. Esse aviso do céu havia de matar, para sempre o seu sossego. (p. 53)

Então, decidiu voltar com o pássaro a casa e começou a cuidar dele.  No dia seguinte, Ernesto construiu uma gaiola e deu o peixe que tinha pescado ao pássaro.
Como chegava a desviar comida destinada à família para alimentar o pássaro, a comunidade passou a vê-lo como louco.
A mulher achava que era maluco. Ernesto não deixava que ninguém tocasse naquele pássaro. A ave engordou muito, mas era triste porque não tinha companhia. Por esta razão, Ernesto pediu a Deus que enviasse uma companheira para a ave solitária.
Não demorou muito para que surgisse outro pássaro. Era um casal, que gerou filhotes.
Timba cuidava e alimentava mais as aves do que a própria família.

Na aldeia, espalhou-se a suspeita: Ernesto Timba estava era maluco. A própria mulher, depois de muito ameaçar, abandonou o lar, levando com ela todos os filhos. (p. 55)
Em certo momento, após voltar do trabalho, Timba encontra o pássaro morto, havia sido queimado na gaiola. O fato o leva a acreditar que os assassinos do pássaro seriam amaldiçoados por serem pássaros divinos. Timba chorava. Também, pediu a Deus que não castigasse ninguém porque ele queria entregar-se em nome da comunidade. Dias depois foi encontrado morto com o seu corpo ligado à superfície do rio.

Em certo momento, Timba, que tinha muita tristeza, é encontrado morto às margens do rio onde costumava pescar. Logo anunciaram a morte do louco do local. Tentaram tirá-lo da margem, mas, estranhamente, parecia colado à terra. Mesmo os homens mais fortes da aldeia não conseguiram tirar o cadáver de onde estava.
Começou, nesse momento, uma tempestade, o que muito assustou os moradores, imaginando que poderia ser o castigo anunciado por Timba. E esta chuva que consegue mover seu corpo rio abaixo.
Plácido, o rio foi ficando longe, a rir-se da ignorância dos homens. E num embalo terno foi lavando Ernesto Timba, corrente abaixo, a mostrar-lhe os caminhos que ele apenas tinha aflorado em sonhos. (p. 56)

Com esse término, o narrador faz uma oposição entre a racionalidade que contraria a fantasia, o sonho. Esse contraste é tipificado entre o pescador e demais moradores, que o viam como um desequilibrado.

6. “O dia em que explodiu Mabata-bata”: também tem seu início marcado por crendice.
O conto retrata a história de um jovem pastor que se chama Azarias. Ele era órfão e vivia com o tio Raul e a avó Carolina.
O tio, no entanto, não o tratava bem. Obrigava-o a trabalhar o dia todo e ainda o ameaçava caso perdesse algum boi.
A ameaça do tio soprava-lhe os ouvidos. Aquela angústia comia-lhe o ar todo. Que podia fazer? Os pensamentos corriam-lhe como sombras, mas não encontrava saída. (p. 42)

A única tarefa de Azarias era cuidar do gado do seu tio.
Azarias gostaria muito de estudar, ter perspectivas de uma vida melhor, assim como, inclusive, ter tempo para se divertir, brincar, o que o tio impedia de ele fazer porque tinha sempre de trabalhar.
O boi Mabata-bata era o boi mais forte da manada sob a responsabilidade de Azarias. Também, esse boi serviria como dote durante a cerimônia de casamento do tio Raul. Mas um dia, quando pastava, o Mabata-bata acionou uma mina e morreu.
O pastor, o jovem Azarias, acredita que tenha sido obra de ndlati, a ave do relâmpago, que teria enviado um raio, mesmo em um dia claro, sem nuvens.
O jovem pastor ficou preocupado em retornar sem o principal boi do rebanho e decidiu fugir. Já que Azarias não regressava com os bois, a avó Carolina ficou muito preocupada.
Já era noite e Raul estava preocupado com o sumiço do sobrinho. Não tanto com o bem-estar dele, e sim porque achava que o menino estaria vadiando. Carolina não queria que ele fosse porque os soldados informaram que a região estava minada.
Raul, mesmo alertado para a possibilidade de pisarem outras minas, decide ir atrás do menino, que, mesmo não tendo culpa, ainda assim pensava em castigá-lo.
Carolina vai atrás dos dois. A senhora, mais compreensível, localiza o neto e tenta convencê-lo a se apresentar, dizendo que Raul não bateria nele e prometeram-lhe um prêmio. Azarias disse que queria ir à escola no próximo ano. Aparentemente o tio Raul concorda com o pedido.
Porém, ao sair para ir ao encontro do tio e a da avó, Azarias aciona uma mina e morre. A descrição é um tanto poética e sugere uma espécie de libertação da opressão a que era submetido o menino.
O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. [...] Azaria correu e abraçou-a [ndlati] na viagem da sua chama. (p. 47)

O conto explora, pois, o estado de pobreza de muitos moçambicanos, bem como reproduz a tirania de determinados grupos sobre os demais. No conto isso ocorre mesmo entre parentes. Além disso, a presença de minas é indicativa das guerras travadas em Moçambique após o processo de independência do país, ocorrido nas décadas de 60 e 70 do século XX.

7. “A história dos aparecidos”: essa história é uma crítica oculta ao governo corrupto.
Retrata o desaparecimento de alguns cidadãos, cuja morte foi operada pelo Estado, mas oficialmente teriam se afogado ou morrido de alguma doença. Moçambique viveu sob o regime português até 1975. Depois disso houve guerra civil em busca da consolidação do poder por grupos ideológicos diferentes, ou sob inspiração marxista ou sob inspiração mais liberalista. Em momentos assim, é comum que haja uma perseguição aos direitos civis, e os cidadãos fiquem sem a devida liberdade de expressão. No caso do conto, a ideia é falar sobre a morte civil. Se o indivíduo está vivo, oficialmente está morto. E é contra isso que devem lutar alguns personagens, Luís Fernando e Aníbal Mucavel.
As águas levaram a aldeia inteira. Não ficou nada no lugar. Salvaram-se muitos e alguns desapareceram entre os quais estavam Luís e Aníbal. Eles morreram dentro da água. A morte deles era uma certeza quando uma tarde apareceu outra vez. Os vivos estavam muito assustados com a chegada deles e chamaram a polícia. Não havia lugar para os mortos de regresso imprevisto.

Luís e Aníbal tornaram-se o assunto e tinham de ir às autoridades para explicarem a sua situação. Um homem disse-lhes que eram apenas almas e não a realidade materialista como os outros habitantes. Nesse caso, eles decidiram queixar-se a uma comissão. A comissão trabalhou durante dois dias.
Em seguida, convocaram uma assembleia geral dos aldeões. O chefe da comissão anunciou que os aparecidos devem ser considerados vivos. Mas não deveriam repetir essa saída da aldeia ou da vida.

– Como não estamos? Vocês riscam a pessoa assim qualquer maneira?
– Mas vocês morreram, nem sei como que estão aqui.
– Morremos como? Não acredita que estamos vivos?
– Talvez, estou confuso. Mas este assunto de vivo não-vivo é melhor falarmos com os outros camaradas. (p. 118-119)

Toda a aldeia ficou surpresa. Não sabiam o que fazer, como agir. Depreende-se daí a importância maior que se dá à burocracia que a aspectos reais e efetivos do ser humano, como estar vivo de fato e necessitar de suprimentos básicos para a sobrevivência.
A resolução vem de uma comissão governamental, que conclui estarem de fatos os dois vivos, mas que deveriam estar mais atentos para que isso não viesse a se repetir.
– Mas os dois aparecidos é bom serem avisados que não devem repetir essa saída da aldeia ou da vida ou seja lá de onde. Aplicamos a política da clemência, mas não iremos permitir a próxima vez. (p. 123)

Apesar de algum nonsense, a decisão tem um tanto de irônico, e para isso que o narrador chama a atenção, para o absurdo da sociedade totalmente controlada por um poder estatal, que retira dos indivíduos a autonomia até mesmo para ser, para existir.
Mia Couto escreve sobre diversas temáticas, desde aquelas mais cômicas, até essas mais trágicas, sempre com o intuito de retratar Moçambique em toda a sua riqueza cultural. Como país colonizado, caso do Brasil também, há sempre um choque cultural, entre a tradição local e a trazida pelos colonizadores. Às vezes, dessa mistura, surge uma cultura mestiça; às vezes, surge também o conflito, o embate entre perspectivas.

8. “A menina do futuro torcido”: este conto retrata a história de Joseldo Bastante que era um mecânico da pequena vila. Viajava e procurava maneiras para solucionar a sua vida e ganhar dinheiro.
A perspectiva de um futuro fica tolhida pela falta de oportunidade. Com isso, quando surge uma, por absurda que seja, agarra-se com toda a gana.
Chegaram à cidade notícias de sucesso de um jovem que podia virar e revirar o corpo como uma cobra. Foi contratado por um empresário. Todos queriam vê-lo e tornou-se muito rico. Joseldo tinha doze filhos e resolveu que Filomeninha havia de ser contorcionista. A partir desse momento o pai treinava a sua filha a curvar e ela iniciou as ginásticas e evoluía lentamente.

A partir desse momento, vais treinas curvar-te, levar a cabeça até no chão e vice-versa. (p. 128)
E assim fez. Com base na própria intuição, Joseldo iniciou treinamentos com a filha, os mais disparatados. De manhã, regava-a com água quente para os ossos dela ficarem adaptáveis. A menina estava toda torcida para trás e queixava-se de dores, mas o pai não parava. Desejava todos os dias que o empresário passasse pela vila. Enquanto isso, Filomeninha piorava e já quase não andava e começou a vomitar. Uma tarde, chegou o empresário à cidade. A menina queixava-se do frio. Nem o vestido largo podia esconder os estremeções dela. O empresário disse-lhes que não lhe interessava o contorcionismo porque já o tinha visto e não provocava sensação. Naquele momento lhe interessavam os tipos com dentes de aço que podiam roer madeira e mastigar pregos.
A única coisa que me interessa agora esses tipos com dentes de aço. Umas dessas dentaduras que vocês às vezes têm, capazes de roer madeira e mastigar pregos. (p. 131)

De volta à aldeia, Joseldo imaginou que a filha parecia ter esses tais dentes fortes...
Quando voltaram no comboio o pai abanou o braço da filha e foi então que o corpo de Filomeninha tombou torcido no colo do pai.

9. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”: dividido em seis partes, tematiza assuntos diversos - da eutanásia à xenofobia.
No início, há uma pequena reflexão sobre o narrado. Se aquilo que se narra é a verdade, ou apenas um modo de olhar para a verdade. Se é possível apreender o todo ou apenas parte dele. Em rigor, a literatura tem como um de seus objetivos explicar o real com base na fantasia, na imaginação. E o todo depende de várias partes: do olhar de quem escreve, de quem conta, ao olhar de quem lê.
Não quero mostrar verdade, disse nunca soube. Se invento é culpa da vida. A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. (p. 135)
A narrativa vai sendo construída aos poucos.
Mississe era uma viúva chinesa e misteriosa, que morava em Muchatazina, Moçambique e que, pelo exotismo, era assediada por muitos portugueses e também moçambicanos. Mas ela não demonstrava interesse por ninguém. Era muito triste, bebia álcool e às noites gritava e chorava.
A viúva embrulhava-se nos azedos, enviuvando sempre mais. Os portugueses, ricos até, saíam de ombros cabisbaixos. (p. 138)
Patanhoca, que significa na língua local aquele que pega cobra, era um domador de serpentes. Embora tivesse essa habilidade, era, segundo o narrador, um coitado, alguém sem posses materiais ou possuidor de vasta cultura. O narrador não sabe muito sobre sua vida pregressa. Sabe apenas que ele lida com cobras, que as doma e que tira o couro delas. Conhecendo a história da viúva, decidiu que a protegeria dos assediadores, dos que porventura quisessem lhe fazer mal. Por isso, soltava suas cobras no entorno da casa da chinesa, impedindo que ela saísse ou que alguém se aproximasse durante a noite.
Tudo isso, todo esse serviço de guarda, o Patanhoca fazia sem pedir a troca. (p. 140)
Como era feio sempre escondia a sua cara. Apaixonou-se pela dona Mississe mas tinha vergonha de mostrar o seu corpo.
Também, Patanhoca usava as cobras para a fechar. Tinha medo que ela não fugisse com outro homem. Só Patanhoca podia afastar as serpentes e permitir a entrada e saída das pessoas de casa.
Após esse acontecimento, quatro noites se passaram. Na primeira, a chinesa convidou o domador de cobras para que entrasse em sua casa. Ele não entendeu o motivo ou se fez de inocente. Ela o chamou de João, o que causou mais descontentamento ainda, pois preferia ser chamado por seu apelido. É provável que quisesse esquecer o passado.
Sou Patanhoca, eu mesmo. Não é só nome que fui dado. Tenho focinho, não é cara de pessoa. (p. 142)
Na segunda noite, ela o espera ainda mais bonita e ele chega mais cedo. Apesar de ela mostrar verdadeiro interesse por ele, Patanhoca quer manter-se distante. Parece que são mundos que colidem e ele quer preservar o que é, sem misturar-se com uma mulher de outro país, outra cultura. Mesmo assim, aproximam-se sem ter algo efetivo. Por isso mesmo, nessa segunda noite, têm uma primeira briga, motivado por um pretenso ciúmes.
A china Mississe roubara-lhe o fogo que a gente acende nos outros. (p. 145)
A terceira noite é marcada pelo conflito dele, quer esquecê-la, não quer ser envolver com essa mulher, isso significaria mudar sua vida, seu estilo de vida que havia adotado, inclusive com outro nome, não mais o nome de batismo, um nome cristão. Tem dúvida também se ela ainda o iria querer por conta da briga da segunda noite. Teve então um sonho.
Ouviu as visões com atenção. Diziam o seguinte: ela estava arrependida, perdoara. Ele seria aceite, outra vez João, outra vez nome e cara. Outra vez gostado. (p. 147)
E, de acordo com que sonhara, ela o esperava na outra noite, ainda mais bonita. Ele se sentiu confiante, sentiu-se não mais o Patanhoca, e sim o João, como ela preferia chamá-lo. Ela o chamou para beberem, deixarem-se levar pelo desejo, pelas sensações. Ele fica confuso com isso.
Agora, sou João ou Patanhoca?
Ela então lhe pede um favor, queria que buscasse um remédio, um mitombo. Não fica claro o que seria isso.
Ele próprio fica em dúvida qual seria a razão do pedido:
Talvez era uma armadilha, aldrabice de esperanças.
Seria um remédio devido a uma picada de cobras?
Na verdade, o final, um tanto ambíguo, revela a real intenção da chinesa: ela queria se matar, queria o tal remédio, que na verdade seria o veneno da cobra para poder se matar. Por esse motivo, João passou como o assassino da viúva, mas isso fica no plano da ambiguidade, conforme anunciara desde o início o narrador.

10. “De como o velho Jossias foi salvo das águas”: o Agosto e o velho Jossias estavam esperando a chuva. Recordavam a grande fome de há vinte anos e também as cerimônias para pedir a chuva. Mas nada. Nenhuma gota da chuva caiu. Os velhos insistiram de forma que conversaram com os mortos no cemitério. Jossias queria levar as panelas do ngovo (a aguardente do milho para os mortos). No caminho começou a beber e perdeu a razão. Bebeu mais de metade e não se podia levantar. Restava quase nada. Então, para esconder o que tinha feito encheu as panelas com a água estagnada de um poço abandonado. No momento em que descia pelas paredes do velho poço as paredes caíram sobre ele. Pensou que ninguém o iria encontrar. Mas Deus mandou a chuva. A água crescia e toda a terra foi inundada. Nesse instante apareceu um barco com dois pretos e um branco. Jossias hesitava porque esse barco não podia salvá-lo da desgraça na vida, só da morte. Preferia morrer ali, perto da sua casa e terra. Finalmente, os homens salvaram-no e ele agarrou-se com a velha manta bebendo a chávena de chá quente.

Desejou que a viagem não tivesse fim como se o salvassem do tempo e não das águas, como se o tivessem liberto não da morte mas da sua terrível e solitária espera. Com olhos de menino, fixou o escuro engolindo a terra, a tarde anoitecendo tudo. (p. 113-114)
Com esse “Vozes anoitecidas”, Mia Couto revela um mundo que ficaria esquecido sem o discurso literário, quer, pois, revelar a cultura moçambicana, os contrastes dessa cultura que tenta libertar-se das amarras coloniais, mas reconhece a importância dessa mistura para ser o que é.

11. “Saíde, o Lata de Água”: este conto é uma crítica contra a violência à mulher porque aborda o machismo sob ótica pós-moderna e também, joga com o binômio fantasia e verdade, invenção e realidade.
No caso, Saíde se casa com uma mulher, Júlia, que já havia se relacionado com outros homens. A despeito de muitos criticarem Saíde, que acreditavam que ele deveria se casar com uma virgem, insiste no casamento.
Quando souberam que andava com ela, condenaram-no. Ela estava muito usada. Devia escolher uma intacta, para ser estreada com seu corpo. (p. 88)
Trata-se de um discurso machista recorrente, a ideia segundo a qual a mulher para se casar deve permanecer virgem.
Casados, precisavam de filhos, “é um documento exigido pelos respeitos”. No entanto, Saíde é estéril.
Por isso, pede à mulher que se deite com outro homem para poder engravidar. Apesar do absurdo da situação, ela aceita, e passa a dormir com homens diferentes, até que consegue engravidar.
Só queria ter um filho com ela, nada mais, e não importava quem seria o pai da criança.
Saíde festejou a notícia, mas em um acesso de raiva e ciúmes, exija saber que seria o verdadeiro pai. Júlia, porém, se recusa a falar, afirmando apenas que ele era o pai verdadeiro. E o contrato era: Saíde nunca perguntaria sobre a paternidade do filho.
Em princípio, o casamento se assenta, ainda mais com o nascimento do filho. Assim, para encobrir uma mentira, teve de inventar outra. Ninguém poderia saber que ele era incapaz de fazer filhos em uma mulher. Também não podiam saber que ele havia sido traído com seu consentimento.
Na vizinhança ninguém desconfiava da identidade do pai. Saíde às vezes gostava do filho e às vezes lhe parecia como um intruso na sua vida.  De qualquer modo, passa a ameaçar a esposa, que decide ir embora às escondidas da cidade.
Saíde fingia todas as noites bater nela.
A vizinhança quer saber o que estava acontecendo e um representante, Severino, inquire de Saíde o porquê de tanta violência contra a esposa. Conta então uma das verdades, que ela havia partido, mas para manter a aparência de que o casamento ainda continuava, inventava que estaria batendo nela.
– Eu faço isto não sei porquê. É para vocês pensarem que ela ainda está. Ninguém pode saber que fui abandonado. Sempre que bato não é ninguém que está por baixo desse barulho. Vocês todos pensam que ela não si porque sofre da vergonha dos vizinhos. Enquanto não... (p. 92)
Em respeito ao amigo, Severino decide manter o segredo.

12. “As baleias de Quissico”: o protagonista do conto é Bento João Mussavele, que relata ao seu tio que apareceram as baleias mágicas no Quissico.
Conforme um jornalista tratava-se de um peixe grande que aparecia à noite na praia e as pessoas chegavam e pediam várias coisas. Sobretudo comida. Mas tudo isto era uma fantasia. O povo de lá estava com muita fome e por isso inventava esses aparecimentos. Logo a seguir, Bento decidiu perguntar aos sábios do bairro sobre o assunto. Agostinho, o preto, afirmou que a baleia não era peixe, mas um mamífero. Essa conversa não satisfez Bento.
Depois, falou com o senhor Almeida quem não lhe deu nenhuma confirmação sobre as baleias. Nesse momento, Bento decidiu viajar para a costa do Quissico. Chegou às casas abandonadas da praia e instalou-se numa delas. Finalmente, uma noite acordou e saiu de casa completamente nu entrando na água. Pensava que tinha ouvido a baleia chamar por ele. Mas era só um sonho.

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1. LITERATURA FANTÁSTICA:

Conforme Monard e Rech (1974, pp. 7-11), a literatura fantástica relata os diversos fenômenos extraordinários e inexplicáveis. É um tipo de criação literária que engloba lendas, mitos, escritos surrealistas, etc. Os autores criam um mundo irracional cheio de acontecimentos esquisitos dentro da narrativa. Esse mundo fantástico intenta descrever e exprimir tudo aquilo que o racional não pode explicar eliminando os limites entre o normal e o anormal. Contudo, o que os europeus consideram fantástico nem sempre pode ser considerado como tal para um africano. Pois muitos dos fenômenos aqui identificados como fantásticos poderiam ser qualificados por um africano como algo normal.

O próprio Mia Couto disse na entrevista em anexo Conversa com Mia Couto (p. 90):

Para um leitor europeu a referência a um homem que, de noite, se transmuta em hiena pode ser do domínio do fantástico. Mas para um moçambicano rural (e para a maioria dos urbanos) esse detalhe é da ordem do natural.”

Segundo Robles (2007, p. 35-37), para Todorov, na obra Introduction à la Littérature Fantastique (1970), o fantástico define-se como uma invasão inesperada do inexplicável no mundo concreto. Cria-se uma situação de ambiguidade que confunde a nossa compreensão. O texto fantástico supõe a presença das duas ordens contraditórias (o mundo natural e o sobrenatural).
O elemento sobrenatural desrracionaliza a realidade. O racional e o irracional, o real e o irreal coexistem no interior da narrativa criando uma contradição e ambiguidade. Mia Couto apresenta um mundo onde se entrelaçam os acontecimentos fantásticos e reais. O fantástico coutiano resulta de uma invasão do sobrenatural no mundo quotidiano. O sobrenatural é um dos aspetos mais frequentes da sua escrita. Os fenômenos extraordinários nos contos permanecem sem nenhuma explicação e não causam qualquer estranheza: A coexistência do pensamento mítico com um espaço híbrido de realidade e ficção, à maneira do realismo mágico, desempenha um papel basilar na construção do fantástico nas 32 obras de Mia Couto. Com efeito, as narrativas coutianas proporcionam-nos, frequentemente, mundos mágicos onde tudo é possível; no entanto, não descuram o real nem os mitos enraizados no subconsciente coletivo moçambicano. (ROBLES, 2007, p. 36)

a) No conto “O último aviso do corvo falador” o efeito fantástico é produzido quando Zuzé Paraza vomita o corvo vivo que sai das entranhas dele. E ainda mais, o corvo aprende a falar a língua humana:

Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando na cantina. Zuzé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro “mata-ratos”. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. Então, assim contam os que viram, ele vomitou um corvo vivo.
O pássaro saiu inteiro das entranhas dele. Estivera tanto tempo lá dentro que já sabia falar. Embrulhado nos cuspes, ao princípio não parecia. A gente rodou a volta do Zuzé, espreitando o pássaro caído da sua tosse. O bicho sacudiu os ranhos, levantou o bico e para espanto geral, disse as palavras. Sem boa pronúncia, mas com convicção...”

No mesmo conto o efeito fantástico é produzido quando a mulher de Sulemane descreve o comportamento extraordinário do seu marido às noites devido à maldição de Zuzé:

A gorda senhora explicou suas aflições: o segundo casamento decorria sem demais. Até que o novo marido, o Sulemane, passou a sofrer de estranhos ataques. Aconteciam à noite, nos momentos em que preparavam namoros. Ela tirava o soutia, o Sulemane chegava-se pesado. Era então que aparecia o feitiço: grunhidos em lugar da fala, babas nos lábios, vesgueira nos olhos. Sulemane, confessava ela, o meu Sulemane salta da cama e assim, todo despido, gatinha, fareja, esfrega no chão e, por fim, focinha no tape. Depois, todo suado, o coitadinho pede água, acaba um garrafão. Não fica logo-logo o mesmo: demora a recuperar. Gagueja, so ouve do direito e adormece de olhos abertos...”

b) No conto “O dia em que explodiu Mabata-bata” o efeito fantástico é produzido quando um boi explode por causa das minas:
De repente, o boi explodiu. Rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grão e folhas de boi. A carne eram já borbolentas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num qualquer ramo, balouçando a imitar a vida, no invisível do vento.

c) No conto “Os pássaros de Deus” o efeito fantástico é produzido pelo facto do corpo de Ernesto estar ligado ao rio e também porque estava tão pesado que ninguém podia separá-lo da água:

No dia seguinte, encontraram Ernesto, abraçado a corrente do rio, arrefecido pelo cacimbo da madrugada. Quando o tentaram erguer, verificaram que estava pesado e que era impossível separá-lo da água. Juntaram-se os homens mais fortes mas foi esforço vão. O corpo estava colado à superfície do rio.

d) No conto “As baleias de Quissico” o efeito fantástico é produzido pela crença que existe uma baleia mágica no Quissico:

- Você sabe o que é uma baleia... sei lá como... -Baleia?
- É isso mesmo.
- Mas a propósito de quê vem a baleia?
- Porque apareceu no Quissico. É verdade.
- Mas não há baleias, nunca eu vi. E mesmo que aparecesse como é que as pessoas sabem o nome do animal?
- As pessoas não conhecem o nome. Foi um jornalista que disse essa coisa de baleia, não baleia. Só sabemos que é um peixe grande, cujo esse peixe vem pousar na praia.

No outro exemplo do conto “As baleias de Quissico” o efeito fantástico é produzido pelo facto de que a baleia mágica traz a comida e outras coisas necessárias à população. Mas a baleia mágica não existe e é só o aparecimento das pessoas que estão com muita fome:

Vem da parte da noite. Abre a boca e, chii, se você visse lá dentro... está cheio das coisas. Olha, parece armazém mas não desses de agora, armazém de antigamente. Cheio. Juro, é a sério. Depois, deu os detalhes: as pessoas chegavam perto e pediam. Cada qual, conforme. Cadaqualmente. Era só pedir. Assim mesmo sem requisição nem guia de marcha. O bicho abria boca e saía amendoim, carne, azeite de oliveira. Bacalhau, também.
- Você, já viu? Um gajo ali com uma carrinha? Carrega as coisas, enche, traz aqui na cidade. Volta outra vez. Já viu dinheiro que sai?

e) No conto “A menina de futuro torcido” o efeito fantástico é produzido pelo facto de um jovem rapaz poder revirar o corpo. Por esta razão ficou muito rico:

Durante toda uma semana, chegavam da cidade notícias de um jovem que fazia sucesso virando e revirando o corpo, igual uma cobra. O rapaz tinha sido contratado por um empresário para exibir suas habilidades, confundir o trás para a frente. Percorria as terras e o povo corria para lhe ver. Assim, o jovem ganhou dinheiro até encher caixas, malas e panelas. Só devido das dobragens e enrolamentos da espinha e seus anexos. O contorcionista era citado e recitado pelos camionistas e cada um aumentava uma volta nas vantagens elásticas do rapaz. Chegaram mesmo a dizer que, numa exibição, ele se amarrou no próprio corpo como se fosse um cinto. Foi preciso o empresário ajudar a desatar o nó; não fosse isso, ainda hoje o rapaz estaria cintado.

No mesmo conto o efeito fantástico é produzido quando o empresário explica que quer contratar só as pessoas que têm dentes de aço e que podem roer madeira e mastigar pregos:

- A única coisa que me interessa agora são esses tipos com dentes de aço. Umas dessas dentaduras que vocês as vezes tem, capazes de roer madeira e mastigar pregos. O Joseldo sorriu, envergonhado, e desculpou-se de não poder servir:
- Sou mecânico, mais nada. Parafusos mexo com a mão, não com os dentes.

f) No conto “Patanhoca, o cobreiro apaixonado” o efeito fantástico é produzido quando a personagem principal, Patanhoca, explica que tem focinho em vez de nariz e por isso não quer que Mississe o veja:

Um homem chora? Sim, se lhe acordam a criança que tem dentro. O Patanhoca chora, não sabe lagrimar, fazem falta os lábios. -Por que você não volta mais outra vez? -Sou Patanhoca, eu mesmo. Não é só nome que fui dado. Tenho focinho, não é cara de pessoa. -Não você é João. É o meu João.

O humor Conforme Pires Laranjeira (1995, pp. 316-317), o humor tem a tarefa de tornar menos dramáticos os acontecimentos trágicos tais como a morte, a repressão, a guerra, etc. Pode também suavizar ou aprofundar a crítica social ou a ideologia política. Humor de personagem é definido pela linguagem, as histórias que conta ou o seu comportamento.

Assim, Ascolino do Perpetuo Socorro é um indo-português. No conto “De como se vazou a vida de Ascolino do Perpetuo Socorro Ascolino fala assim:

- Qui tém, homem? Essetragô sapéu de nosso. No conto A princesa russa no livro Cada homem é uma Raça a fala da personagem principal do conto é adequada a uma pessoa que não possui uma competência linguística perfeita do português: “Tode minha vide eshtá lá. O home que amo eshtá na Rússia, Fartin (...) Chame-se Anton, esse é único sanhor de meu caração.

Segundo Pires Laranjeira (1995, pp. 317-318), essa incompetência linguística provoca o nosso sorriso. Nalguns casos, pode encontrar-se também em falantes portugueses. A apócope do m, em homem, é típica do falar de algumas regiões e estratos sociais portugueses (com origem no campo). Igualmente, a pronúncia incorreta provoca os sorrisos nos leitores:

Qualquer criança de tenra idade pode pronunciar as formas do verbo estar com a primeira sílaba arrastada até a sibilação que aquele h procura traduzir. Tanto a pronúncia popular, como a falha articulatória ou o simples balbucio inocente dão sempre origem a um manancial de piadas, anedotas ou brincadeiras. (Pires Laranjeira, 1995, p. 317)

2. HUMOR:

a) No conto “A fogueira” o humor de personagem provém da proposta do marido de começar a preparar a cova para a velha mulher:

Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
- Estou a pensar.
- É o quê, marido? -Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou-lhe enterrar?

Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
- Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.

A mulher, comovida, sorriu:
- Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida.

No mesmo conto o humor de personagem provém do pedido da mulher que seu corpo fique perto do chão:
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu a capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
- Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
- Queres o quê?
- Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
- Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.

No outro exemplo do conto “A fogueira” o humor de personagem é provocado pelo acordo entre o marido e a mulher:

Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
- Mulher – disse ele com voz desaparecida.
- Não lhe posso deixar assim.
- Estás a pensar o quê?
- Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar-te.
- É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
- Sim, hei-de matar você; hoje não, falta-me o corpo.

b) No conto “O último aviso do corvo falador” o humor da situação e acontecimento provém do aparecimento do corvo na trama:
O corvo rodou no poleiro redondo da mulata. -Desculpe, Sr. Zuzé: ele não me vai cagar em cima?
- Não fale, Dona Cândida. O bicho precisa concentrar. Por fim, o pássaro pronunciou-se. Zuzé escutava de olhos fechados, ocupado no esforço da tradução.
- Que foi que disse ele? -Não foi o pássaro que falou. Foi o Varisto. - Evaristo? – desconfiou ela.
– Com aquela voz?
- Falou através do bico, não esqueça. A gorda ficou séria, ganhando créditos.

c) No conto “De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro” o humor de personagem é provocado quando a personagem principal, Ascolino, diz ao seu empregado que voltam à cantina de Meneses em vez de ir resgatar a esposa:
Já nem sequer o ruído do camião se sente nos arrozais em volta. Ascolino, vice-rei, comanda impossível cruzada para resgatar a esposa perdida.
- Pedal, pedal depresse. Não obstante, temos que chegar cedo. Hora de cinco hora temos que voltar na cantina de Meneses.
No mesmo conto o humor de personagem provém de Ascolino e Vasco e uso de uma linguagem coloquial num discurso espontâneo:

A custo, Ascolino se recompõe. Avalia os estragos e dispõe-se a ralhar:
- Qui tém, homem? Essetragô sapéu de nosso.
- Não obstante, quem qui vai pagar?
- Desculpa, patrão. Foi desviar bacecola. Devido desse matope que passámos.
- Vucê não viu, pá? Já disse toda hora: não faça travage deripente.

d) No conto “A história dos aparecidos” o humor de intriga provém do enredo engraçado. Os dois homens desapareceram, mas quando voltaram ninguém acreditava que estavam realmente vivos:
O responsável explicou as dificuldades e o peso deles, mortos de regresso imprevisto. -Olha: mandaram os donativos. Veio a roupa das calamidades, chapas de zinco, muita coisa. Mas vocês não estão planificados. O Aníbal ficou nervoso com as contas de que eram excluídos:
- Como não estamos? Vocês riscam a pessoa assim qualquer maneira? -Mas vocês morreram, nem sei como que estão aqui.
- Morremos como? Não acredita que estamos vivos?
-Talvez, estou confuso. Mas este assunto de vivo não-vivo é melhor falarmos com os outros camaradas... O responsável consultado concluiu, rápido:
- Não interessa se morreram completamente. Se estão vivos ainda é pior. Era melhor ter aproveitado a água para morrerem-se.

No outro exemplo do conto “A história dos aparecidos” o humor de personagem provém de Samuel, o professor, quando ele sugere aos aparecidos que fiquem e lutem contra a autoridade:

Luís levantou-se e espreitou no escuro. Andou em círculo e regressou ao centro, aproximando-se do professor:
- Samuel, não tens medo?
- Medo? Mas, essa gente tem que cair. Não foi a razão da luta acabar com esta porcaria de gente?
- Não estou a falar disso – respondeu Luís.
- Não tens medo que nos apanhem aqui contigo?
- Com vocês? Mas, afinal, vocês existem? Não posso estar com quem não existe. Riram-se. Levantaram-se e separaram-se pelas duas portas da casa. Aníbal, antes de entrar:
- Eh, Samuel! A luta continua!

e) No conto “Saíde, o Lata de Água” o humor de nomes próprios provém do nome de personagem principal. Todos começaram a chamá-lo assim porque sua mulher teve muitos maridos antes de conhecê-lo:
Quando souberam que andava com ela, condenaram-no. Ela estava muito usada. Devia escolher uma intacta, para ser estreada com seu corpo. Ele não quis ouvir. Foi então que passaram a chamá-lo de Lata de Água. Em toda a parte, alcunha substituiu o nome. A água aceita a forma de qualquer coisa, não tem a própria personalidade.

CONCLUSÃO:

A literatura moçambicana desenvolvia-se lentamente. Ainda nas primeiras décadas do século XX faltavam as instituições literárias adequadas, as editoras e até os leitores em número maior. Mas finalmente conseguiu consolidar-se depois da independência nos anos 70 com uma nova geração literária que incluía Mia Couto. Podemos afirmar que nesta década a literatura moçambicana se estabiliza como um sistema literário reconhecido não só no país, mas também internacionalmente. Mia Couto, hoje, tem 60 anos e além de ser escritor, é biólogo, e professor. Escreveu mais de 30 livros. É ainda um dos escritores mais famosos e traduzidos não só no mundo lusófono, mas também globalmente. Portanto, as obras dele são publicadas em mais de 20 países. Já recebeu numerosos prêmios literários pelo seu estilo de escrita. O autor narra sobre diversos temas nas obras (a guerra, a política, o quotidiano do povo, a morte, a violência contra a mulher...). Mia Couto cria, recria e renova a língua portuguesa inventando palavras e usando diferentes processos de criação lexical (prefixação, sufixação, composição, amálgama lexical). Igualmente utiliza o léxico de diferentes partes de Moçambique e aproveita o contato de várias culturas para produzir um novo modelo de narrativa. O uso do português, uma língua europeia, no território africano resultou em diferentes variedades locais. Na sua escrita, Couto combina a norma europeia do português com as línguas bantas de modo que cria um discurso literário original e muito autêntico. Uma expressão literária de maior expressividade, criatividade e liberdade. A língua é um sistema em constante mudança e parece que Mia Couto sabe aproveitar tudo o que ela oferece com tanta facilidade. O autor relaciona os elementos da cultura tradicional com elementos modernos e transmite aos leitores as crenças, as tradições e os costumes dos povos africanos. Também, ensina aos leitores sobre os valores da tradição e do passado e sobre a relação entre natureza e homem.
Os mitos que estão presentes na narrativa de Couto tentam preservar as raízes e a memória coletiva moçambicana. Nos 12 contos da obra “Vozes anoitecidas” o autor utiliza a tradição africana, a oralidade, uma linguagem coloquial cheia de inovações linguísticas, e os traços do fantástico para retratar os problemas quotidianos do povo moçambicano. Usando o humor o escritor revela os acontecimentos mais trágicos daqueles que sofrem pela miséria e pobreza e que têm muitas dificuldades no dia a dia. Além disso, usa ironia e humor negro para criticar a sociedade, a guerra civil, e a ideologia política do país.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

“O OVO APUNHALADO", CAIO FERNANDO ABREU - CONTO: GRAVATA



A primeira vez que a viu foi rapidamente, entre um tropeço e uma corrida para não perder o ônibus. Mesmo assim, teve certeza de que havia sido feita apenas para ele. No ônibus, não houve tempo para pensá-la mais detidamente, mas, no dia seguinte, saindo mais cedo do trabalho, parou em frente à vitrine para observá-la. Era nada menos que perfeita na sua cor vagamente indefinível, entremeada de pequenas formas coloridas, em seu jeito alongado, na consistência que pressentia lisa e mansa ao toque. Disfarçado, observou o preço e, em seguida, retomou o caminho. Cara demais, pensou, e enquanto pensava decidiu não pensar mais no assunto.
Quase conseguiu — até o dia seguinte quando, voltando pela mesma rua, tornou a defrontar-se com ela, no mesmo lugar, sobre um suporte de veludo vermelho, escuro, pesado. Um suporte digno de tanta dignidade, pensou. E imediatamente soube que já não poderia esquecê-la. No ônibus, observou impiedoso as gravatas dos outros homens, todas levemente desbotadas e vulgares em suas colorações precisas, sem a menor magia.
Pelo vidro da janela analisou sua própria gravata, e decepcionou-se constatando-a igual a todas as outras. Em casa, atarefado na cozinha, dispondo pratos, panelas e talheres para o próprio jantar, conseguiu por alguns momentos não pensar — mas um pouco mais tarde, jornal aberto sobre os joelhos, olhar perdido num comercial de televisão, surpreendeu-se a fazer contas, forçando pequenas economias que permitissem possuí-la.
Na verdade, era mais fácil do que supunha. Alguns cigarros a menos, algumas fomes a mais. Deitado, a cama pareceu menos vazia que de costume. Na manhã seguinte, tomou a decisão: dentro de um mês, ela seria sua. Passou na loja, mandou reservá-la, quase envergonhado por fazê-la esperar tanto. Que ela, sabia, também ansiava por ele.
Trinta dias depois ela estava em suas mãos. Apalpou-a sôfrego, enquanto sentia vontade de usar adjetivos pomposos e cintilantes, de recriar toda a linguagem para comunicar-se com ela — o trivial não seria suficientemente expressivo, nem mesmo o meramente correto seria capaz de atingi-la: metafísicas, budismos, antropologias.
Permaneceu deitado durante muito tempo, a observá-la sobre a colcha azul. Dos mais variados ângulos, ela continuava a mesma, terrivelmente bela, vaga e inatingível — mesmo ali, sobre a cama dele, mesmo com a nota de compra e o talão de cheques um pouco mais magro ao lado. Olhava os sapatos, as meias, a calça, a camisa — e não conseguia evitar uma espécie de sentimento de inferioridade: nada era digno dela. Um pouco mais tarde abriu o guarda-roupa e então deixou que um soluço comprimisse subitamente seu peito de coração ardente, como duas mãos que apertassem para depois libertá-lo em algumas lágrimas desiludidas. Não era possível. Não podia obrigá-la, tão nobre, a servir de companhia àqueles ternos, sapatos e camisas antigos, gastos, vulgares, cinzentos. Foi depois de olhar perdido para o assoalho que teve como um repente de lucidez. Então encarou agressivo a impassibilidade da gravata e disse:
– Você é minha. Você não passa de um objeto. Não importa que tenha vindo de longe para pousar entre coisas caras na vitrine de uma loja rica. Eu comprei você. Posso usá-la à hora que quiser. Como e onde quiser. Você não vai sentir nada, porque não passa de um pedaço de pano estampado. Você é uma coisa morta. Você é uma coisa sem alma. Você...
Não conseguiu ir adiante. A voz dele estremeceu e falhou bem no meio de uma palavra dura, exatamente como se estivesse blasfemando e Deus o houvesse castigado.
Um Deus de plástico, talvez de acrílico ou néon. Olhou desamparado para o sábado acontecendo por trás das janelas entreabertas e, sem cessar, para a colcha azul sobre a cama, logo abaixo da janela e, mais uma vez, para a gravata exposta em seu suporte de veludo pesado, vermelho.
Ele enxugou os olhos, encaminhou-se para a estante. Abriu um dicionário. Leu em voz alta:

Gravata S. f: lenço, manta ou fita que os homens, em trajes não caseiros, põem à roda do pescoço e por cima do colarinho da camisa, atando-a adiante com um nó ou laço. Golpe no pescoço, em algumas lutas esportivas. Golpe sufocante, aplicado com o braço no pescoço da vítima, enquanto um comparsa lhe saqueia as algibeiras.

Suspirou, tranquilizado. Não havia mistério. Colocou o dicionário de volta na estante e voltou-se para encará-la novamente. E tremeu. Alguma coisa como um pressentimento fez com que suas mãos se chocassem de repente num entrelaçar de dedos. E suspeitou: por mais que tentasse racionalizá-la ou enquadrá-la, ela sempre ficaria muito além de qualquer tentativa de racionalização ou enquadramento. Mas não era medo, embora já não tivesse certeza de até que ponto o olhar dele mesmo revelava uma verdade óbvia ou uma outra dimensão de coisas, inatingível se não a amasse tanto. Essa dúvida fez com que oscilasse, de tal maneira precário que novamente precisou falar:
– Você não passa de um substantivo feminino — disse, e quase sem sentir acrescentou - ... mas eu te amo tanto, tanto.
Recompôs-se, brusco. Não, melhor não falar nada. Admitia que não conseguisse controlar seus pensamentos, mas admitir que não conseguisse controlar também o que dizia lançava-o perigosamente próximo daquela zona que alguns haviam convencionado chamar loucura. E essa era a primeira vez que se descobria assim, tão perto dessas coisas incompreensíveis que sempre julgara acontecerem aos outros — àqueles outros distanciados, melancólicos e enigmáticos, que costumava chamar de os-sensíveis — jamais a ele. Pois se sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas.
Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo, já se sabia perdendo-se dentro dele — finalmente, podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela.
Todo enleado nesse pensamento, tomou-a entre os dedos de pontas arredondadas e colocou-a em volta do pescoço. Os dez dedos esmeraram-se em laçadas: segurou as duas pontas com extremo cuidado, cruzou a ponta esquerda com a direita, passou a direita por cima e introduziu a ponta entre um lado esquerdo e um lado direito. Abriu a porta do guarda-roupa, onde havia o espelho grande, olhou-se de corpo inteiro, as duas mãos atarefadas em meio às pontas de pano. Sentia-se aliviado. Já não era tão cedo nem era mais sábado, mas se se apressasse podia ainda quem sabe viver intensamente a madrugada de domingo. Vou viver uma madrugada de domingo — disse para dentro, num sussurro. — Basta apertar. Mas antes de apertar uma coisa qualquer começou a acontecer independente de seus movimentos. Sentiu o pescoço sendo lentamente esmagado, introduziu os dedos entre os dois pedaços de pano de cor vagamente indefinível, entremeado por pequenas formas coloridas, mas eles queimavam feito fogo.
Levou os dedos à boca, lambeu-os devagar, mas seu ritmo lento opunha-se ao ritmo acelerado da gravata, apertando cada vez mais. Ainda tentou desvencilhar-se duas, três, quatro vezes, dizendo-se baixinho do impossível de tudo aquilo, o pescoço queimava e inchava, os olhos inundados de sangue, quase saltando das órbitas. Quando tentou gritar é que ergueu os olhos para o espelho e, antes de rodar sobre si mesmo para cair sobre o assoalho, ainda teve tempo de ver um homem de olhos esbugalhados, boca aberta revelando algumas obturações e falhas nos dentes, inúmeras rugas na testa, escassos cabelos despenteados, duas pontas de seda estrangeira movimentando-se feito cobras sobre o peito, uma das mãos cerradas com força e a outra estendida em direção ao espelho — como se pedisse socorro a qualquer coisa muito próxima, mas inteiramente desconhecida.

ANÁLISE LITERÁRIA:

“[...] podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela”.
Caio Fernando Abreu

No conto “Gravata”, de Caio Fernando Abreu, há uma clara referência ao fator econômico na construção do enredo e na estruturação das personagens, em um contexto marcado por intensas transformações políticas e sociais.
O texto de Abreu apresenta uma metáfora do indivíduo que é dominado e sufocado pela sociedade, como uma crítica ao mercado, ao consumo excessivo que impera na sociedade capitalista. A solidão do sujeito e a busca do amor em um objeto retratam uma sociedade pautada na lógica do mercado.
Este sufocamento se dá a partir da submissão da identidade individual do sujeito aos padrões de consumo estimulados pelo sistema capitalista.
No conto, a subjetividade do protagonista eleva-se em oposição à objetividade do mercado consumidor, reproduzindo os dilemas mais íntimos dos sujeitos que viviam no ambiente urbano e integravam a força produtiva da época.

O conto “Gravata” apresenta um narrador onisciente que nos expõe a conturbada relação entre um homem e um objeto (a gravata).

Desde seu início, este conto revela-se como uma reflexão acerca da repressão imposta pelo brutalismo característico da sociedade brasileira da década de 1970, entusiasmada com uma promessa de progresso e cada vez mais desumana.
Como afirma Ana Paula Ohe (2009):

O “milagre econômico” brasileiro proporcionou ao país um crescimento da economia em ritmo acelerado. O ingresso maciço de capitais e empresas estrangeiras possibilitara a ampliação do mercado interno e externo. É nesse período, que pela primeira vez, a produção brasileira encontrara um mercado consumidor significativo em outros países, fazendo com que a transitoriedade dos modismos rompesse os limites territoriais para inscrever-se num âmbito global, tornando visível as mudanças nos padrões tanto de produção como de consumo. (OHE, 2009, p. 7)

Este contexto, regido pela lógica do consumo, é refletido no conto a partir da busca do personagem por se sentir incluído socialmente, através da aquisição de um bem material capaz de diferenciá-lo dos demais:

“No ônibus, observou impiedoso as gravatas dos outros homens, todas levemente desbotadas e vulgares em suas colorações precisas, sem a menor magia” (ABREU, 2008, p. 24).

A percepção de que a vida de algumas pessoas em sociedade se tornou efêmera e corriqueira pode ser relacionada com o consumismo, com o acúmulo de bens materiais e, consequentemente, de trabalho e de informação.

Assim, o indivíduo busca sentir-se melhor por meio da aderência a modismos, no caso do conto em análise, através da compra de uma gravata, que além de ser capaz de destacá-lo entre seus iguais – outros homens com o mesmo padrão de vestimenta e, que assim como ele, utilizam transporte coletivo –, também, por si só se constitui em um símbolo de marcação de status.

Pouco sabemos sobre o protagonista: trata-se de uma alegoria do homem comum. Desconhecemos seu nome, somos informados sobre algumas de suas características físicas (apresenta obturações e falhas nos dentes, rugas na testa e escassos cabelos) somente no último parágrafo, até então o destaque era dado apenas à gravata) e sobre parte de sua rotina de trabalho repetido por ele diariamente (trajeto de casa de ônibus para ir ao trabalho, vive sozinho, prepara o próprio jantar, fuma) e a cada saída para o trabalho ele passa pelos mesmos lugares.
A construção desta personagem oferece pistas substanciais para reflexão do distanciamento nas relações pessoais, do sentimento de solidão e perda de identidade que o homem experimenta nas situações características da vida urbana, que aglomera os seres, mas não os aproxima.
A racionalidade predomina em suas ações e torna suas posturas mecânicas, repetitivas.
A personagem está conectada com o mundo através dos meios de comunicação de massa, o que o torna presa fácil de campanhas publicitárias e ideológicas, que como ainda hoje, empurram os indivíduos para um consumo desenfreado e inconsequente, como pode ser constatado em trechos:

Deitado, a cama pareceu menos vazia que de costume” (Id. p. 25) e “em casa, atarefado na cozinha, dispondo pratos, panelas e talheres para o próprio jantar, conseguiu por alguns momentos não pensar – mas um pouco mais tarde, jornal aberto sobre os joelhos, olhar perdido num comercial de televisão [...]” (Id., p. 24).
Não há no texto referência aos sujeitos que o protagonista possa conhecer ou encontrar ao repetir diariamente o mesmo trajeto. Quando o narrador menciona os demais homens que viajam no mesmo ônibus, estes surgem sem rostos, sem traços físicos, sendo identificados apenas pelas roupas que portam. As roupas, assim, são o elemento que equipara todos os homens, enquanto que, suas características físicas e psicológicas não são levadas em consideração.
As marcas urbanas, como as ruas, os ônibus, o asfalto e as lojas, são sobrepostas aos aspectos humanos no texto.

No ônibus, observou impiedoso as gravatas dos outros homens, todas levemente desbotadas e vulgares em suas colorações precisas, sem a menor magia. Pelo vidro da janela analisou a sua própria gravata, e decepcionou-se constatando-a igual a todas as outras” (ABREU, 2001, p. 26).

Sua rotina de trabalho estabelece certa “objetividade” em sua vida. Essa objetividade, no entanto, é abalada pelo encantamento que ele passa a sentir em relação a um objeto (uma gravata). Almejar um objeto novo, supostamente superior ao que possuía, converte o protagonista em apenas mais um dos tantos sujeitos que vivem na urbe, que fazem parte do sistema capitalista que nela impera.

Após ver a gravata pela primeira vez em uma vitrine, entre um tropeço e uma corrida para não perder o ônibus, delineia-se uma relação sentimental entre o homem e o objeto que se torna alvo de seu desejo e tem certeza de que ela havia sido feita apenas para ele e que não poderia mais esquecê-la, então, passou a organizar sua vida objetivando adquiri-la.

“No dia seguinte quando, voltando pela mesma rua, tornou a defrontar-se com ela” (ABREU, 2001, p. 26).

O que surge como diferencial no texto é o fato do protagonista devotar um sentimento tão forte para a gravata (denominado por ele de “amor”), dando ao objeto um status único, equiparando-o a uma pessoa numa espécie de amor platônico:

“No ônibus, não houve tempo para pensá-la mais detidamente, mas, no dia seguinte, saindo mais cedo do trabalho, parou em frente à vitrine para observá-la” (ABREU, 2008, p. 24).

“[...] voltando pela mesma rua, tornou a defrontar-se com ela, no mesmo lugar, sobre um suporte de veludo vermelho, escuro, pesado. Um suporte digno de tanta dignidade, pensou. E imediatamente soube que já não poderia esquecê-la. [...] surpreendeu-se a fazer contas, forçando pequenas economias que permitissem possuí-la. Na verdade, era mais fácil do que supunha. Alguns cigarros a menos, algumas fomes a mais (ABREU, 2008, p. 24-25).

Nesse momento, a gravata ganha vida no texto, assume superioridade como pode constatar no título do conto. Ocupa o espaço dos demais indivíduos nas relações pessoais (objeto humanizado de um lado e sujeito coisificado de outro). Enquanto a ausência de uma precisão na caracterização do protagonista remete a uma equiparação entre todos os “homens”, entre todos os indivíduos que possuem rotinas de trabalho, que tomam ônibus e vivem sozinhos, convertendo-o em apenas mais um sujeito no meio da multidão, a impossibilidade de descrever com precisão a gravata devido à complexidade com que se apresenta para o personagem dá ao objeto um lugar de maior destaque do que o que é conferido ao sujeito. O desejo, a necessidade pelo objeto se apodera do indivíduo de tal forma, que este se vê absolutamente seduzido pela imagem da mesma:

“Era nada menos que perfeita na sua cor vagamente indefinível, entremeada de pequenas formas coloridas, em seu jeito alongado, na consistência que pressentia lisa e mansa ao toque” (ABREU, 2001, p. 24), tanto é, que mesmo após concluir que não dispunha de meios para pagá-la, não conseguiu desistir de comprá-la.

Recorrendo ao conceito apresentado no próprio conto, uma gravata é um “lenço, manta ou fita que os homens, em trajes não-caseiros, põem à roda do pescoço e por cima do colarinho da camisa, atando-a adiante com um nó ou laço” (ABREU, 2008, p. 26), ou seja, algo inapropriado, ou ainda, improvável para um sujeito que em seu trabalho realize atividades que envolvam esforço físico – as quais são desvalorizadas e até vistas com preconceito pela sociedade.

A gravata é usada, comumente, em conjunto com um terno e com sapatos, sendo associada a um traje mais formal e pertencente a ambientes de trabalho que requerem o emprego da razão em oposição à força física. Vinculada ao ambiente urbano, a gravata erige-se como uma marca da rotina de trabalho do protagonista na urbe.
Quando, enfim, consegue adquiri-la, o protagonista se vê em meio a sentimentos opostos: ao mesmo tempo em que busca racionalizar o que sente na tentativa de perceber a gravata como um objeto e, então, fazer uso dela, ele percebe a impossibilidade de controlar suas emoções: o protagonista debate-se entre o objetivo (a lógica do mercado) e o subjetivo (seus sentimentos).

“A cama pareceu menos vazia que de costume” (ABREU, 2001, p. 27), fazendo as vezes de um par romântico:

“Apalpou-a sôfrego, enquanto sentia vontade de usar adjetivos pomposos e cintilantes, de recriar toda a linguagem para comunicar-se com ela” (ABREU, 2001, p. 27).

Mas, seus sentimentos não podem ser facilmente racionalizados. O sujeito do conto de Abreu vê-se perdido, atordoado, pois o fato da gravata ser um objeto não impede que ele a ame. No texto, o narrador nos mostra a gravata com traços humanos, atribuindo-lhe também sentimentos:

“Que ela, sabia, também ansiava por ele” (ABREU, 2001, p. 27).

Ao tentar racionalizar o que sente, busca na falta de humanidade da gravata uma justificativa para a impossibilidade de amá-la:

“Você é minha. Você não passa de um objeto. Não importa que tenha vindo de longe para pousar entre coisas caras na vitrine de uma loja rica. Eu comprei você. Posso usá-la a hora que quiser. Como e onde quiser. Você não vai sentir nada, porque não passa de um pedaço de pano estampado. Você é uma coisa morta. Você é uma coisa sem alma“ (ABREU, 2001, p. 28).

E essa relação intensifica-se: “eu te amo tanto, tanto” (ABREU, 2001, p. 29).

O ato de vivenciar algo desconhecido, algo que ele não consegue racionalizar “por mais que tentasse racionalizá-la ou enquadrá-la, ela sempre ficaria muito além de qualquer tentativa de racionalização ou enquadramento” (ABREU, 2001, p. 29) coloca-o em conflito existencial, surge a loucura em oposição à razão.

“Pois sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas” (ABREU, 2001, p. 29).

Quando o protagonista assume seu medo, ele consegue ir além da objetividade que o mantinha atrelado a sua rotina, que o fazia medir suas ações, que o limitava: “sim, podia fazer qualquer coisa” (ABREU, 2001, p. 29).

A personagem ao reconquistar seu equilíbrio, restabelecer sua totalidade e sair do estado de alienação, no qual estava imersa, tenta lidar com o objeto. Há um respeito e uma veneração do sujeito para com o objeto, mas aquele rompe a barreira que os separava e assume o objeto como seu.

“Sentia-se aliviado. Já não era tão cedo nem era mais sábado, mas se se apressasse podia ainda quem sabe viver intensamente a madrugada de domingo” (ABREU, 2001, p. 30).

Nesse momento, o objeto (gravata) que havia catalisado essa tomada de consciência assume vida e sufoca o protagonista: a vida presente na gravata tira a vida do protagonista.

“Ergueu os olhos para o espelho e, antes de rodar sobre si mesmo para cair sobre o assoalho, ainda teve tempo de ver um homem de olhos esbugalhados, [...] duas pontas de seda estrangeira movimentando-se feito cobras sobre o peito [...]” (ABREU, 2008, p. 28).

O final do conto parece conduzir para uma visão fatalista, retratando a impossibilidade do indivíduo de desvencilhar-se do contexto, do mercado, do capitalismo, acabando por ser aniquilado. Entretanto, em seu sentido menos aparente, encontramos um texto que alerta para as relações impessoais e superficiais estabelecidas pela sociedade capitalista.

A desintegração progressiva das ligações sociais, a crescente atomização da sociedade, a intensificação do isolamento dos indivíduos, uns em relação aos outros, e a solidão, necessariamente inerente a essas tendências, torna o sujeito o próprio produto da alienação.

Abreu faz uma crítica a esse modo de vida, no qual as identidades individuais entram em conflito diante dos padrões e papéis sociais que necessitam exercer. Dessa forma, a gravata, metáfora de “mercado”, impede que o indivíduo recobre sua humanidade, sua totalidade, anulando sua existência.

O conto, assim, mergulha na subjetividade do protagonista para mostrar-nos o debate entre o objetivo e o subjetivo e a necessidade de conciliá-los. O sujeito fragmentado, incompleto, surge alienado, como o reflexo do mercado. Sua ambição está no consumo do melhor produto, na aparência. Porém, o consumo continua mantendo-o incompleto.

Abreu nos apresenta uma sociedade automatizada nas relações de produção e consumo e mesmo nas relações sociais. Essa mudança teve como resultado sujeitos alienados que perderam a noção de totalidade (de dominantes passaram a dominados). Na sociedade capitalista moderna, o elemento subjetivo da realidade social surge separado do elemento objetivo, como se fossem duas substâncias independentes: subjetividade vazia de um lado e objetividade coisificada de outro; de um lado o automatismo da situação dada e de outro a psicologização e a passividade do sujeito.

A única forma de romper com essa automatização é através da reflexão de que o homem é o portador verdadeiro do movimento social, tanto no processo produtor e reprodutor de sua vida. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O ENFERMEIRO, MACHADO DE ASSIS




O conto O Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis.
Narrado em primeira pessoa a um interlocutor imaginário, é a história do último enfermeiro do rabugento coronel Felisberto, que esgana seu indócil paciente.
Sofre o drama de consciência, intensificado pela herança do pecúlio do velho, mas a culpa arrefece quando se vê reconhecido por sua dedicação extrema. São todos exemplos maduros do realismo machadiano.

O narrador nos relata a história de uma vez em que tinha ido trabalhar como enfermeiro para um riquíssimo senhor de nome Felisberto. Era tão rico quanto ranheta, o que havia motivado os inúmeros pedidos de demissão de enfermeiros anteriores. Por causa disso, o narrador é tratado pelo padre da pequena cidade interior em que estão com toda a atenção, já que é quase a última esperança.
Corre a seu favor o fato de o senhor estar muito doente e, portanto, à beira da morte. Por sorte, o protagonista se mostra como o mais paciente que já havia sido contratado, o que angaria alguma simpatia do velho. Mas a lua-de-mel durou pouco tempo: logo o doente mostrou o seu gênio e começou a tratar rispidamente o enfermeiro. De primeira, aguentou, até que atingiu seu limite e pediu demissão. Surpreendentemente, o oponente amansou, pedindo desculpa e confessando que esperava do enfermeiro tolerância para o seu gênio de rabugento.
As pazes voltaram, mas por pouco tempo. A tortura retoma, até o momento em que o idoso atira uma vasilha d’água que acerta a cabeça do enfermeiro. Este, cego com a dor, voa sobre o velho, terminando por matá-lo esganado.

Começa então o processo mais interessante do conto. O narrador remói-se de remorso, mas começa a arranjar desculpas em sua mente para arejar sua consciência (trata-se de uma temática muito comum em Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas ela já havia aparecido, num capítulo em que o narrador a metaforizava. Quando fazemos coisas erradas, é como se nossa consciência ficasse numa casa sufocada, com todas as portas e janelas fechadas. Então inventamos desculpas, muitas vezes nos enganamos mesmo, lembramos de outros fatos, como se fosse possível, por meio de uma boa ação, real ou inventada, compensarmos falhas, ou seja, abrir a janela da casa e arejar a consciência): o velho tinha um aneurisma em estágio terminal que iria estourar a qualquer hora mesmo. No entanto, para complicar sua situação, quase que como uma ironia, o testamento do velho declara que o enfermeiro era o único herdeiro. O protagonista mergulha num conflito interior, que pensa eliminar doando a fortuna. É mais uma maneira de tentar arejar a consciência.

A partir de então começa o processo mais interessante do conto. Quando as pessoas vêm elogiar sua paciência com um velho tão insuportável, resolve elogiá-lo o máximo possível em público, como maneira de ocultar para a opinião alheia todo vestígio do crime. O pior é que acaba até se iludindo, eliminando de toda a sua consciência qualquer resto de crise. Nem sequer se livra, pois, da herança. Chega a fazer doações, como recurso de, digamos, “arejamento de consciência”. Fica, portanto, a ideia de que muitas vezes o universo de valores internos (o enfermeiro foi criminoso ao assassinar Felisberto) não corresponde ao de valores externos (uma cidade inteira o elogia pela paciência e dedicação a um velho rabugento). E o mais incrível é que, mesmo sabendo do seu próprio universo interno e, portanto, da verdade, o narrador ilude a si mesmo. A literatura machadiana encara esse processo como comum no ser humano.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

UNS BRAÇOS, MACHADO DE ASSIS


                                     "Mulher com chapéu" (1940), de Di Cavalcanti

Publicado em 1885 na Gazeta de Notícias (depois no livro “VÁRIAS HISTÓRIAS”, em 1896) e mais amplamente inscrito em um período de intensa criação de Machado de Assis em contos, “UNS BRAÇOS” é um texto recorrente nas diversas coletâneas didáticas, críticas e de divulgação do autor, que revela a expressividade fortemente unívoca dos aspectos contextuais, temáticos e estilísticos da escrita machadiana.

A ação está restrita à brevidade temporal e quase somente ao ambiente doméstico, urbano, mais precisamente na Rua da Lapa, em 1870, pouco tempo depois do término do Romantismo. É possível observar que algumas características do Realismo vão surgindo, mesmo que suavemente, já que Machado está à frente do seu tempo e anuncia a tendência que está por vir.                                                                                                                                

O foco narrativo é de terceira pessoa que conduz quer contar em paralelo os sucessivos pensamentos das personagens, reforçando uma composição de múltiplos pontos de vista sobre a realidade, bastante relativizada, assim como é uma voz que omite ou desconhece algumas causas da ação, demonstrando ser a realidade também escorregadia e ilusória, com o efeito último de problematizar o paradigma da representação realista. Indo além, a colocação dos eventos mais importantes da narrativa na esfera íntima das relações amorosas complica ainda a percepção romântica do real, trazendo o amor para o mesmo jogo de incertezas.

Primeiramente, pode-se tentar reconstruir as identidades das TRÊS PERSONAGENS que compõem a cena de abertura da história, que são conhecidas aos poucos, para entender o diagrama de suas forças idiossincráticas e sociais.

É a história de INÁCIO, jovem de 15 anos que foi retirado do seio de uma família modesta, composta pela mãe, pelas irmãs e pelo pai barbeiro, cujo espírito de grandeza (principalmente financeira) ao vislumbrar o futuro do filho fizera com que ele confiasse Inácio ao solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado) BORGES, para ser aprendiz na profissão burocrática da procuradoria judiciária.

A mudança na vida de Inácio foi drástica, pois ele precisou ir morar no quarto dos fundos da casa do patrão, não desfrutando da usual intimidade familiar, sendo obrigado ao desgosto de um trabalho que exercia sem vontade nem habilidade, e vivendo sob a proteção de um homem que parecia estar longe de um ideal de figura paterna, ou mesmo de patrão.

Essa dependência durava cinco semanas quando o conto se inicia (note que nesse conto Machado mostra o dom que possui para narrativas memorialistas. Veja também o seu início abrupto, sendo o leitor jogado de chofre no meio da história, técnica chamada de in media res) com Inácio sendo acusado de algo que o fazia sofrer os grosseiros impropérios de Borges, “a preguiça do corpo”, o “sono pesado e contínuo” (p. 377), o “devanear à larga” (p. 378).
Seu novo estilo de vida, dentro do quadro social brasileiro da época de Machado, hierarquizado entre os extremos da ordem senhorial dos proprietários e da ordem dos escravos, libertos ou não, correspondia à rubrica de dependente, já que agora dependia dos favores (moradia, alimentação e educação profissional) de alguém pertencente a uma classe superior. Pouco superior, nesse caso, porque o pai de Inácio também era um trabalhador assalariado como Borges, que, inclusive, para manter sua condição, “trabalhava como um negro” (p. 380).

Outro aceno importante presente na cena do jantar é a interpretação metafórica dos signos não-verbais da realidade, como o corpo, seus gestos e movimentos, em signos verbais, em linguagem ou língua escrita. Tem-se, de início, apenas a figura de um Borges ruminante, que “abarrotava-se de alface e vaca” (p. 378) ruidosamente, como se assim fizesse seu discurso agressivo contra Inácio ressoar ainda nos pobres ouvidos do empregado, até suspendê-lo com “vírgulas” de vinho.

Mas surgirão posteriormente desdobramentos dessa concepção das coisas como recursos discursivos, gramaticais, simbólicos, ou seja, como mediações das palavras, e não como coisas em si. Além disso, a mastigação de Borges é narrada de um ângulo menos distante e idealizado do que poderia ser aquele do pai de Inácio, a quem o solicitador parecia uma figura respeitável, de certa importância, o que já começa a demonstrar a relatividade das percepções.

O segundo membro da célula familiar de que Inácio se aproximara é D. SEVERINA, A MULHER DOS BRAÇOS COBIÇADOS, única razão de seu admirador não fugir daquela casa, que vivia com Borges “maritalmente, há anos” (p. 377), o que institui a figura da esposa não consagrada pelo matrimônio.
Deve-se lembrar que na época em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do corpo. Mas, antes que se pense que ela era despudorada, deve-se lembrar que só o fazia por passar por certas dificuldades que tornava o seu vestuário falto de peças mais adequadas.

Ainda assim, os breves momentos em que via a mulher e principalmente os braços dela eram, para Inácio, o grande alívio diante de um cotidiano tão massacrante.
BORGES repreende INÁCIO por andar tão distraído, confundindo papéis e errando casas. Logo em seguida, o narrador faz a seguinte observação acerca de Inácio:

Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não acaba de saber nada.

Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.

Durante as refeições, Inácio procura ao máximo prolongar sua permanência na mesa para poder continuar na presença de D. Severina:

Inácio demorou o café o mais que pode. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa.

Severina, por sua vez, trazia sempre os braços nus à mesa, podendo-se tratar de uma provocação, ainda que inconsciente, mesmo se já gastara todos os vestidos de manga comprida que possuía.

Até que um dia D. Severina percebe o interesse que desperta no moço. Demora a aceitar, pois considera-o apenas uma criança. Mas, quando vê o homem já na forma do menino, entra num sentimento conflitante, misto de vaidade e pudor. Por isso oscila entre tratar mal o rapaz e mostrar preocupação com o seu bem-estar.

Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.

Era um “amor adolescente e virgem” (p. 381), puro em razão da inexperiência e sofreguidão emocional do moço, mas era impuro por escolher uma mulher proibida.
O sentimento de Inácio era “confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor”. Nesta passagem, Machado descreve exatamente o sentimento da paixão, que é por si só algo contraditório, dúbio e perturbador.

Trata-se, aqui, do despertar sexual do rapaz que implica diversas impossibilidades: ao apontar a diferença de idade entre Severina e Inácio, Machado é elegante e delicado; prefere a sugestão em vez da obviedade. Primeiro anuncia a idade do menino: “Tinha quinze anos feitos e bem feitos”, para mais a frente deixar-nos à par da idade da senhora: “Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos”.

Severina não só é mais velha (quase o dobro da de Inácio), ela vinha de uma classe superior e era casada, e ambos estão inseridos na sociedade oitocentista, impregnada de valores morais e sociais muito rígidos.

Inácio, porém, não é o único a ter comportamentos contraditórios. Severina adota uma postura essencialmente ambígua, contraditória e misteriosa.

D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa.

Rejeitou a ideia logo, uma criança! [...] Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi rejeitada, antes afagada e beijada.

D. Severina, primeiro, recusa a ideia de que o rapaz estivesse mesmo demonstrando interesse, para logo depois descartar essa rejeição, afinal, ela não podia ser amada ou desejada? Depois, passa a imaginar Inácio de forma sexualizada, em seus traços físicos da puberdade, para, enfim, procurar justificativas para a atitude do rapaz, por querer, justamente, se sentir mais viva, e consequentemente, menos submissa, assim, passa também a devanear e a assumir um comportamento semelhante ao do rapaz: “há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam” (p. 379).
Trata-se de um quadro de adultério pintado com suaves tintas por Machado de Assis, cuidadoso que é na estruturação de suas histórias, nunca ferindo as vistas dos leitores.

A profundidade do caráter de Severina é perceptível até mesmo por sua descrição física:

Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.

Ao descrever seus anos como floridos e sólidos, o autor contrasta o viço de sua beleza com a sua situação social e sua postura diante do casamento.  Logo vemos a sexualidade reprimida diante dos fatores sociais. Esse conflito vai achar refúgio nos sonhos e insinuações inocentes de Inácio, que não consegue esconder as distrações à mesa, os olhares indiscretos e o fascínio por seus braços. Dona Severina apaixona-se antes por sua própria beleza, ao descobrir-se desejada e dá vazão aos seus sentimentos, talvez porque seu marido não demonstrasse afeto ou ela achasse impossível ser notada por um jovem de apenas quinze anos.

Na passagem seguinte, a atitude do solicitador pode ser uma simples repressão, mas pode ser também que estivesse desconfiando de algum interesse por parte de sua mulher e de seu escrevente. Trata-se de um vazio que o texto cria e que o leitor deve resolver sozinho, porque a narrativa machadiana não se compromete em resolver os conflitos que ela mesma cria:

- Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
- Não tenho nada.
- Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...

D. Severina pega de surpresa dissimulou seus pensamentos, entabulando uma conversa sobre sua comadre para fugir à ameaça “de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos”, proferida pelo marido que, mais uma vez, esteve “fuzilando ameaças” sem cumpri-las e provou ser “antes grosseiro que mau” (p. 380). Pouco depois, estando convencida de que descobrira uma verdade moralmente reprovável, “chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho” (p. 380).

D. Severina, no entanto, “aqui estacou: realmente não havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão”. Será que agora tinha dado a inventar coisas?  “Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações, para rejeitar a ideia de estar enganada” (p. 380).

D. SEVERINA dividida entre o sim e do não, dentro do labirinto em que o narrador fecha também o próprio leitor, a despeito de este conhecer as intenções de Inácio, D. Severina decidiu interromper suas conjeturas e se voltar à objetividade da observação minuciosa do mundo exterior: “refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das coisas” (p. 380).

A sujeição feminina encontra-se também manifesta na passagem em que Severina teme acariciar seu próprio marido por medo de irritá-lo ainda mais: “fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais”. Porém, como quem se indigna com essa submissão, Severina tem atitudes mais que ousadas para uma senhora casada inserida na sociedade brasileira oitocentista. Como achasse por bem observar o rapaz Inácio antes de tomar uma atitude inapropriada e precipitada, aceitou estrategicamente que tudo fora apenas ilusão, e “percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo.”
Perdida nos extremos de sua realidade íntima, trata Inácio mais secamente, chegando, às vezes, ao contrário, a dedicar-lhe meiguice e atenção. Além de sua inconstância, o narrador mostra também os titubeios do jovem após percebê-la, a vontade de ir embora, uma ideia que nunca se concretiza e sempre permanece em segundo plano.

- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais. Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos.

O próximo comportamento de D. Severina foi oferecer a Inácio todos os seus cuidados, desencadeando no moço algumas reações adversas.

Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lhe não trouxesse à memória” (p. 381), e, em casa, estava inquieto, sem entender e dormindo mal. O rapaz realmente sofria sua paixão, já não se encontrava e até começava a deixar de ser o pródigo dorminhoco de antes, porque, com as novas esperanças vindas com o carinho que recebia, “acordava de noite, pensando em D. Severina” (p. 381).

Esse triste insucesso começou com “a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina” (p. 382) cantada pelo mar, avistado, através da janela do quarto, pelo solitário Inácio. Era como se o fluxo e influxo das ondas não fossem coisas reais, mas signos a serem interpretados, mediações linguísticas que, em sentido último, enfraquecem a perspectiva de uma realidade una, transparente e sem contradições.

Já um pouco hipnotizado e como estivesse cansado, pois “dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera” (p. 382), começou a ler o folheto da História da Princesa Magalona, filha de El-rei de Nápoles, e do nobre e valoroso Pierre, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos e adversidades que passaram, difundido no Brasil junto a outros folhetos populares de cordel, por volta dos anos de 1860 e 70. Comparou a heroína desse livro de origem medieval e de todas as outras histórias antigas à D. Severina, mas quem serviria ao papel da princesa capturada, de quem o bravo herói, cavaleiro ou príncipe, se aproxima para salvá-la do sono mais profundo com um beijo apaixonado, seria ele próprio, outra Branca de Neve, Bela Adormecida ou até Julieta de Shakespeare, que, dessa vez, fez falhar a profecia romântica. Mesmo que Inácio fosse o nobre e valoroso cavaleiro medieval da época da Princesa Magalona, havia demasiado torpor em seu olhar a aproximação da “dama de seus cuidados”, com braços passivos que não foram ao encontro dos de D. Severina. Enfim, ele dormia.

Pena ter ele justamente ido recuperar a noite de insônia na hora errada, causando, por esse infortúnio, o fim de seu caso amoroso com tão lindos braços...
Essa frase já aponta para o próprio final do conto, e poderia mesmo ser repetida, em se tratando de um adiantamento de expectativas.

A simultaneidade temporal das ações e do sono de Inácio vivida na sala próxima ao seu quarto é imediatamente revelada. D. Severina sofria sintomas de loucura e criava pretextos para ir vê-lo, julgando-o doente. A visão angelical do moço dormindo, apesar de tocar seu coração, convenceu-a de que estava diante de uma criança. Convenceu a si mesma com a argumentação do sentimento, “naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco” (p. 383).

D. Severina aproxima-se de Inácio dormindo na rede e dá-lhe um leve beijo na boca. Enquanto os pensamentos e impulsos de D. Severina davam reviravoltas, um primeiro incidente veio confirmar a compleição um tanto infantil de Inácio: ele não acordou com o barulho da tigela derrubada pelo gato ali perto, que sobressaltou a senhora.

A criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade” (p. 383-4).
Depois do beijo dado por D. Severina no moço dorminhoco, que, naquele exato momento, sonhava ser beijado pelo mesmo beijo, ela sentiu primeiramente medo, em seguida vergonha pelo ato incestuoso de se aproveitar de um filho inconsciente, e irritação por ele talvez estar só fingindo que dormia. Sentia e pensava isso tudo sem a certeza de nada. Já Inácio só tinha a certeza de que sonhava e de que nada havia interrompido suas horas de descanso até o jantar, durante as quais “ouvia as palavras dela, que eram lindas, cálidas, principalmente novas, ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse” (p. 383). A linguagem do amor só podia ser por ele interpretada em sonho, longe de sua amada real.

Uma semana depois do beijo “sonhado”, Borges dispensa o garoto de forma admiravelmente amistosa sem nenhuma razão exata. O menino não vê mais D. Severina, guardando a sensação daquela tarde como algo que não ia ser superado em nenhum relacionamento de sua existência.

Por fim, na conclusão do conto, tem-se a fusão do sonho com a realidade. Inácio está dormindo em sua rede, e sonha com Severina encarando-lhe de frente, pegando-lhe nas mãos, cruzando-as nos braços, e dando-lhe um beijo na boca. Este exato momento do sonho coincide com a realidade, pois que Severina de fato beija a boca do rapaz para de imediato sair do quarto, assustada, confusa e arrependida com sua atitude. E não somente por vergonha, mas como forma de punir a si mesma por tamanha ousadia, Severina passa a cobrir os braços à mesa, mas também como punição ao próprio rapaz, a quem ela atribui uma parcela de culpa. A princípio Inácio não percebe que o famoso par de braços não mais está à vista, tão embriago pela sensação do beijo. Ao final, o rapaz deve ir embora da casa do comendador, mas não consegue se despedir de Severina, que inventa uma forte dor de cabeça. O mocinho jamais saberia que não foi um mero sonho, muito embora nunca tenha achado sensação igual à daquele domingo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1. D. SEVERINA:

- Magalhães de Azeredo faz uma observação muito pertinente em se tratando das figuras femininas de Machado de Assis, e que se aplica muito bem a D. Severina, cujo nome já aponta para certa perversidade e consequente sedução, ou, conforme o próprio nome, severidade mesmo:

As mulheres, evocadas por Machado de Assis - para quem o eterno feminino é um vasto elemento moral -, têm de ordinário uma soberania de beleza, de sedução, de resistência ou mesmo de virtude, que lhe confere a vitória na luta com o sexo rival. Perversa, em rigor, não vejo nenhuma; perturbadoras há muitas, e de penosa decifração.

- Dona Severina tem personalidade complexa, pois muda de postura no decorrer da trama, deixando-se envolver pela possibilidade de um romance extraconjugal. Embora os valores morais resistam ao desvio de conduta da jovem senhora, a preservação da família burguesa triunfa no final da trama.

- Machado lança a temática do adultério feminino, ainda que suavemente, assunto nunca abordado anteriormente por outros autores e que viria a ser uma das principais chaves para o Realismo em ascendência. É justamente o final da trama que marca a decadência romântica, já que os desejos de Inácio não são extravasados, como é comum no Romantismo.   

- No que concerne ao papel feminino da época as mulheres tinham maior dependência e viviam sobre o domínio dos homens, não possuíam desejos próprios como exercer uma profissão e, para muitos homens, a mulher era vista apenas como uma pessoa doméstica, para cuidar da casa e dos filhos e porventura satisfazer aos desejos carnais sem nenhum tipo de carinho.  

- As mulheres machadianas para quem o eterno feminino é uma vasta figura moral, têm de extraordinário uma soberania de beleza e sedução. Vemos isso em D. Severina quando ela passa a gostar de si mesma.

- Outra interpretação possível pela aproximação de D. Severina seja a idealização em Inácio do filho desejado. Dona Severina compensa ou justifica seu interesse no menino alegando ser ele o filho que ela nunca tivera e por isso cerca-o de tantos mimos e recomendações:
"D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão."
O motivo de tanta brandura poderia ser para realmente confirmar os sentimentos de Inácio para com ela, ou já uma forma inconsciente de aceitação e retribuição desse sentimento, usado para suprir alguma carência afetiva ou mesmo capricho. O fato é que depois do beijo dado em Inácio adormecido na rede desfez todas as suas certezas e a vergonha tomou de conta de seu ser, seja porque foi capaz de fantasiar algo tão intensamente, indo tão longe em seus atos, ou porque o rapaz não correspondeu suas expectativas, ou ainda por medo de ser descoberta e perder sua posição social tão valorizada na época. 


2. FANTASIA E REALIDADE:

- É perceptível no decorrer da história a oposição entre a fantasia e a realidade, onde os sonhos de Inácio se confundem com as reações sucintas e gradativas de Dona Severina. O que é realidade para um, é sonho para o outro; eis o grande conflito da história. Os universos das personagens nunca se encontram e na única oportunidade de se cruzarem, o sono pesado de Inácio é o motivo de frustração desse sonho. O “final feliz”, portanto, não acontece, nem mesmo o reconhecimento recíproco de sentimento entre os personagens; ao contrário, o que existe é uma confusão e a desilusão, os sonhos perdidos na própria realidade.

- Em “Uns braços”, o sonho vira realidade, a realidade, sonho, linguagem simbólica. Então, o que teria dito a Borges D. Severina? Desculpas inventadas que provassem ser Inácio importuno naquela casa? Mentiras bobas que não a incriminassem? Ou nenhuma palavra, deixando que o marido naturalmente percebesse que não valia a pena investir naquele moleque irresponsável e dorminhoco? Há um mistério que não se resolve no conto, porque a língua literária de Machado, assim como a língua do amor, nem mais nem menos confiável do que a realidade das coisas, é sempre nova e obscura.

- O leitor, por sua vez, irá conhecer parcialmente a verdade, porque acaba por participar, de modo indireto, dessas alusões, hesitações e suspensões da realidade dos fatos narrados, sendo colocado em meio aos artifícios do narrador, a fim de também ter um destino literário incerto. Observa-se que, por um lado, o leitor conhece a inocência de Inácio enquanto realmente dormia e a injustiça que Borges (ou Severina?) cometeu ao mandá-lo embora sem muitas explicações, e até com simpatia, o que era incomum de sua parte; assim como também conhece a marca guardada por Inácio daquela primeira paixão em suas experiências amorosas posteriores, a marca definitiva da sexualidade e do abandono da infância, simbolizada no sonho. Por outro lado, o leitor desconhece verdadeiramente o motivo (se é que houve apenas um) de D. Severina passar a evitar Inácio e depois convencer o marido a expulsá-lo dali (se é que partiu dela a iniciativa).
Sob a aura de mistério que encerra o conto, é possível apenas tentar desdobrar como são construídas pelo narrador machadiano ao longo do texto as possibilidades da verdade, as diversas roupagens da realidade das coisas, muitas vezes usadas em conjunto, para perscrutar as hipóteses sobre a razão do afastamento de D. Severina e o responsável pela expulsão de Inácio.

3. CARÁTER VICIOSO E FETICHISTA:

- O caráter vicioso e fetichista da atração de Inácio por D. Severina, que encontra, pela fixação de uma mesma parte do corpo feminino, como visto, longa tradição na obra machadiana. E a culpa pelo impulso sexual, negada por Inácio (“a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente”), mas logo rebatida pelo narrador, que relativiza o comportamento da mulher, dizendo ser “justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de mangas compridas” (p. 378), explicação que, por sua vez, apenas abala um pouco a imagem de um jogo da sedução permanentemente consciente, mas não isenta D. Severina da condição de comprar novos vestidos de mangas, se pudesse fazê-lo.