domingo, 3 de outubro de 2010

A CIDADE DE DEUS (2002)


“É claro que nem o filme nem o romance seguem fielmente a história da criminalidade em Cidade de Deus, porque seria documentário ou histórico (ciência), respectivamente. (...) O meu compromisso é com o real da obra de arte e não imediatamente com a realidade histórica que queremos mudar.”

Fernando Meirelles



I – AUTOR:

Fernando Meirelles nasceu em 9 de novembro de 1955, em São Paulo (SP). Seu pai é médico gastroenterologista e, por conta disso, viajou diversas vezes para a Ásia e América do Norte, o que possibilitou a Meirelles conhecer diversas culturas, ainda jovem.
Aos 12 anos, ganhou de presente sua primeira câmera de filmar. O que era para ser um passatempo, jamais saiu de suas mãos. Mesmo quando na década de 80, cursou Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (USP). Seu trabalho de graduação foi aprovado com a nota mínima, pois diferente de seus colegas, apresentou um filme como conclusão do curso.
Na mesma época fundou, juntamente com quatro amigos (Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dário Vizeu e Beto Salatini) a produtora independente Olhar Eletrônico. Em 1982 a produtora levou ao ar programas de televisão sobre atualidades, além da série infantil Ra Tim Bum, com mais de 180 episódios.
No final da década de 80 sua aproximação com o mercado publicitário era cada vez maior. Em 1990, fecharam a produtora para fundar a O2 Filmes. Em pouco mais de uma década a empresa se tornou uma das principais do país no segmento.
Depois de alguns trabalhos para TV, em 1998 dirigiu seu primeiro longa-metragem para o cinema: a continuação do filme infantil O Menino Maluquinho. Quatro anos depois, com o filme Domésticas, conquistou diversos prêmios em festivais nacionais.
Mas a grande virada de sua carreira viria em 2002. Dirigindo o aclamado, Cidade de Deus, seu trabalho ganhou uma repercussão internacional, sendo considerado um dos melhores filmes da década e um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. O sucesso foi tão grande que o filme recebeu quatro indicações ao Oscar, uma delas para Meirelles na categoria de Melhor Diretor.
Em 2005, firmou-se como um dos mais importante diretores internacionais ao levar para o cinema O Jardineiro Fiel. O trabalho lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro e outra ao BAFTA, ambas na categoria de Melhor Diretor.
Seu mais novo filme é Ensaio Sobre a Cegueira, baseado na obra do escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura.
Fernando Meirelles é casado com Ciça Meirelles e pai de dois filhos: Francisco e Carolina.

II – TEMÁTICA


"Não é você quem assiste ao filme e, sim, o filme que assiste você. Cidade de Deus é mais que um filme com uma mensagem, é um tapa na cara em forma de filme.”

Arnaldo Jabor


Baseado no livro de Paulo Lins, esta crônica do submundo do crime carioca tomou dois anos de sua vida e de sua carreira. Paulistano, Meirelles mudou-se para o Rio para exercitar os talentos locais da favela Cidade de Deus e, então, recrutá-los para o filme.
Cidade de Deus tem como núcleo central o fenômeno da violência e da criminalidade. Se este fenômeno pode ser estudado via depoimentos e estudos sociológicos, a abordagem ficcional não é menos rica, pois a percepção fina e acurada do artista, ao recordar a realidade para montar sua obra, produz intensos e valiosos efeitos de verdade.
Assistir a Cidade de Deus é uma revelação - revelar o apartheid social que existe no Brasil e que a classe média e a elite dirigente não é capaz de enxergar. Estado, leis, cidadania, política, educação, perspectiva e futuro são conceitos abstratos, mera fumaça quando vistos do outro lado do abismo.
O filme é feito de dentro para fora da favela. Um filme sem cenários e sem técnicas de interpretação, aliás, sem atores profissionais, mas com garotos que vivem aquela realidade, e que podem nos trazer ao menos a sensação do que é viver à margem.
Cidade de Deus não fala apenas de uma questão brasileira e sim de uma questão global. De sociedades que se desenvolvem na periferia do mundo civilizado. Da riqueza opulenta do primeiro mundo, que não consegue mais enxergar o terceiro ou quarto mundo, do outro lado ou no fundo do abismo.
A análise do filme vai além do mero determinismo. Procura revelar uma análise sem dissociar o homem da sociedade nem a sociedade do homem. É um mergulho nas raízes psicológicas da crueldade, da compulsão, da astúcia e da angústia dos jovens que vivem excluídos do sistema da produção. Desigualdade, discriminação e preconceito são esferas do cotidiano dos excluídos brasileiros.
O filme não se preocupa em fazer marcações rígidas e foge do clichê entre o bem versus o mal. Afinal, o grande mérito do filme é questionar o papel e a responsabilidade de todos. Para Kátia Lund “a violência e o tráfico é um problema social e não policial.” Assim, o filme cumpre seu papel social de todas as formas possíveis.


III - PRÊMIOS:

Depois de uma bateria de prêmios no exterior (incluindo os festivais de Havana, Toronto, Cartagena, Marrakesh e Uruguai), o filme veio ao Brasil e se tornou um massivo estrondo de bilheteria, expondo um potencial nunca imaginado para produções nacionais.
A carreira brilhante de Cidade de Deus não terminaria aí, mas viria a ser interrompida com a fracassada tentativa de uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003. O presidente da Miramax, distribuidora do filme nos EUA, no entanto, não desistiu e, graças a uma brecha nos procedimentos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (A.M.P.A.S.), relançou o filme em janeiro daquele ano, tornando-o novamente elegível, agora nas categorias principais.
A estratégia deu certo: o filme ficou quase todo o ano em cartaz, levando prêmios de quase todas as associações de críticos dos EUA (Nova York, Dallas, Las Vegas, Chicago e Boston) e o cobiçado BAFTA. A exposição atraiu a atenção dos membros votantes da Academia, e o resultado foram às quatro inéditas e vitoriosas indicações do filme para o maior prêmio do cinema. Sua vitória em qualquer uma delas seria mera eventualidade: o reconhecimento já era significativo, insubstituível e digno de aplausos.


IV – CONTEXTO HISTÓRICO SOCIAL:


A década de 60 é marcada pelo inicio da ditadura militar. O movimento militar de 31 de março de 1964, responsável pela queda de João Goulart, considerava-se revolucionário e regenerador, pois, seus ideais purificadores, iriam libertar o país da corrupção e do comunismo. O regime militar se impunha por meio de violência e pela força, anulando a democracia e a participação popular, seja por meio da repressão, seja pela censura aos meios de comunicação e também pela eficiente propaganda do governo cuja TV Globo, tornou-se beneficiada e porta voz.
Na área econômica, o período militar, com o objetivo de promover o desenvolvimento, realizou o “Milagre econômico”.
Tratava-se de uma combinação de crescimento econômico com taxas relativamente baixas de inflação. Uma proposta de modernização e reforma do Estado. Entre 1968 e 1969 o país cresceu num ritmo impressionante, registrando a variação respectivamente de 11,2% e 10,0 do PIB o que resulta em 8,1% e 6,8% no cálculo per capita.
A média do PIB anual foi de 11,2% sendo o pico, em 1973, cujo índice foi de 13% contra uma inflação anual de 18%, em contraste com o período anterior, cujo crescimento inflacionário girava em torno de 25,4%.
O “Milagre” deixou como herança os aspectos negativos de natureza social. Apesar de o PIB ser um indicador do estado geral da economia, seja em números brutos, seja per capita, ele não exprimia a distribuição da renda. A política econômica dos tecno- burocratas pretendia fazer o “bolo crescer para depois dividi-lo”. Privilegiou-se assim a acumulação de capitais sem, contudo distribuí-los. Ao contrário, o salário dos trabalhadores acabou comprimido em contraste com a classe média que teve um aumento de seu poder de consumo. Tudo isso resultou em uma concentração de renda acentuada que vinha de anos anteriores, levando a desproporção entre os avanços econômicos e o retardamento e abandono dos programas sociais do Estado.
Atualmente, o Brasil é um país que possuí uma posição destacada pelo seu potencial industrial em contraste os seus baixos indicadores de saúde, educação e habitação.


V – CARACTERÍSTICAS:

“Movimentando-se esteticamente entre a ficção e o documentário Cidade de Deus compõe esta lista de filmes com o objetivo de contribuir com a variedade e originalidade das formas atuais do cinema nacional. Vale neste caso lembra que foi um filme indicado a quatro Oscars pela sua “forma realista” de apresentação da realidade por meio desse código complexo que é o cinema. A trama se dá em um dos locais mais violentos do Rio de Janeiro e por meio de uma câmera uma personagem registra e analisa o dia a dia da favela, livrando-se, ao mesmo tempo, de compartilhar daquela forma de vida.” (WWW.fgvsp.br)


Cidade de Deus retrata a ascensão do tráfico de drogas de forma chocante e realista. Baseando-se em uma pesquisa etnográfica documental, Paulo Lins faz uma análise psicológica das personagens, evitando a visão de fora, uma visão pequeno-burguesa.
Trata-se de uma história de miséria, sofrimento, dor, angústia e morte, onde a violência é uma linguagem e a sobrevivência uma palavra escrita com sangue.
Evitando os sentimentalismos piegas e os ensaios psicológicos da modernidade; mas, sem ficar pela superficialidade estética da violência; realçando o essencial sem nenhum excesso e com uma inacreditável verossimilhança, o diretor descreve e explica, de forma quase didática, o aparecimento, a consolidação e o funcionamento cotidiano da máquina do crime num aglomerado urbano. Apresentando um submundo com suas relações de poder e interesse; as lealdades e os silêncios; as divisões territoriais; a economia assente nas drogas; a simbiose com a sociedade que a envolve; a organização hierárquica e até a sociologia da violência, Cidade de Deus é o reflexo de uma política nacional de um país doente, que se deixou levar por todos os preconceitos estúpidos.
Alternando momentos poéticos de forma lírica com outros em que a violência é animalesca, o filme registra o crescimento de uma urbanidade desumana, distanciando-se do contexto político e social que constituiu a realidade da Cidade de Deus.
O filme, assentado numa estrutura épica da modernidade, não necessariamente respeita tempo ou ação dramática.
Sua essência dialoga com um espectador alienado que insiste em não ver uma realidade muito próxima.
Cidade de Deus não apresenta uma personagem principal, pois é próprio meio, o momento e a raça que determinam a trajetória das personagens, exceto Buscapé que não se deixa corromper pelo sistema.
A miséria é limitada à sua insignificância, a um simples pano de fundo; a sensualidade é explicitamente sugerida; a beleza da Cidade Maravilhosa passa despercebida, para retratar uma estória de sangue, suor, lágrimas e culpa. Enfim, um “Rio de Janeiro longe dos cartões postais”, entre as décadas de 60, 70 e anos 80.



VI – ESPAÇO E TEMPO

O verdadeiro protagonista é a própria Cidade de Deus.
Construída pelo governo de Carlos Lacerda entre 62 e 65 na zona oeste do Rio de Janeiro, a Cidade de Deus é um núcleo habitacional que foi povoado por moradores de áreas atingidas pelas enchentes mais fortes que a cidade já havia enfrentado em sua história.
Erguida num espaço inóspito, sem infra-estrutura, luz e esgoto, o conjunto era a esperança de vida melhor para centenas de famílias, mas se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro, no começo dos anos 80.
Poucas cenas se passam fora da favela.



VII – ESTRUTURA:

“Para que o espectador compreendesse a evolução do tráfico e a transformação da Cidade de Deus no período de 12 anos, decidi dividir a história em três fases, dando a cada uma delas características distintas como se fossem três filmes diferentes. Isso daria a sensação de transformação e evolução do crime” (MANTOVANI, MEIRELLES, MULLER, 2003, p. 20)
O filme apresenta o contexto social, político, econômico e cultural carioca dividido em três histórias: A História de Cabeleira; A História de Bené e A História de Zé Pequeno e através da óptica da personagem Buscapé, elo intermediário entre as três histórias, no bairro carioca Cidade de Deus, entre os anos 60 e o início dos anos 80.
Em Cidade de Deus o elenco contava somente com atores novatos que foram escolhidos entre garotos que vivem em diversas favelas e comunidades do Rio de Janeiro, e que não tinham tido qualquer contato com atuação, escolhido entre garotos que vivem em diversas favelas e comunidades do Rio de Janeiro, e que não tinham tido qualquer contato com atuação, exceto Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura).
A produção do filme passou cerca de quatro meses em laboratório com esses atores, fazendo com que existisse uma integração entre eles, como se eles realmente se conhecessem há muito tempo, tivessem crescido juntos, ou criando rivalidades. Uma passagem que pode ser citada, sem que se estrague a surpresa do filme, é o do Caixa Baixa, um grupo de crianças com idade entre seis e doze anos que cometem pequenos assaltos, ao vê-los juntos, em um assalto, o espectador tem a sensação que realmente existe irmandade que há entre eles.
A linguagem é coloquial e repleta de palavrões em seus diálogos, acentuando o objetivo de chocar ao espectador, mas que se dissolvem diante do contexto social e cultural do espaço.

Cidade de Deus apresenta uma ruptura com a linearidade e é dividida em três partes:

I Parte: anos 60


Buscapé segue sua vida evitando envolver-se com os hábitos condenáveis, embora fume maconha eventualmente, e, com os conflitos locais, principalmente com Zé Pequeno, mesmo sabendo que ele foi o assassino de seu irmão no tempo do Trio Ternura.
Buscapé sonha ter uma namorada e futuramente, um emprego como fotógrafo.



III Parte: final dos anos 70 e início dos anos 80

Na primeira parte do filme é apresentado o nascimento da Cidade de Deus: as brincadeiras infantis; as “peladas”, onde assistimos Buscapé ainda criança levando um gol; a paisagem acinzentada; a formação das casas disformes; a ingenuidade e a inocência das crianças que ainda prevaleciam no local; as aventuras do Trio Ternura e as personagens, Dadinho e Bené, uma quadrilha de criminosos iniciantes. Essa parte é composta pelo: prólogo; apresentação; assalto ao caminhão de gás (Dadinho faz a proposta do assalto, o que irrita Marreco); o assalto ao motel (os cadáveres dos funcionários e clientes do motel); a separação de Alicate, Marreco (irmão de Buscapé) e Cabeleira, com cada um lidando com a cumplicidade e as consequências do assalto, além da preocupação com a busca policial.
Alicate se machuca, arrepende-se e busca regeneração na igreja; Marreco apanha do pai e Cabeleira se esconde na casa de Maracanã e se envolve com Berenice.
Em paralelo a eles, temos Paraíba, agindo como delator.
A transição do tempo é acompanhada por um clip que acentua o final desta sequência e o inicio da próxima: fuga do motel; complicações e fim do Trio Ternura (letreiros identificam que passaram seis meses). Esta sequência inicia-se quando Cabeleira recebe uma intimação de Berenice para levar uma vida de “otário”; Marreco volta a trabalhar como peixeiro (junto com Buscapé), engraça-se com a mulher do Paraíba, toma dinheiro de Dadinho e foge.
Paraíba assassina sua esposa, a polícia descobre e a imprensa chega. Cabeleira tenta fugir com Berenice e Paraíba vê (no momento em que está sendo preso), concluindo com a morte de Cabeleira, pela polícia.
A sequência encerra-se com Buscapé admirando a máquina fotográfica de um repórter, no momento em que este fotografa o cadáver de Cabeleira e, a partir dessa observação, desenvolve em Buscapé, o sonho de vir ser fotógrafo.
Ainda nessa década, o Trio Ternura é desfeito, depois do trágico assalto ao motel com a participação de um garoto chamado Dadinho.


II Parte: anos 70

"Se a droga fosse liberada naquela época, o Zé Pequeno seria eleito o Homem do ano".

Buscapé



Na segunda parte, devido à expansão demográfica e o desenvolvimento do local, a comunidade adquire estrutura de uma grande favela, atraindo o crime, a repressão, as drogas e o tráfico. No âmbito cultural, os moradores são atraídos pelo modismo da época: calça boca-de-sino, cabelos black power, camisas Hang Tem, danceterias e ritmos músicas de época.
A ideologia pacifista da época é contracenada pela violência e a disputa dos traficantes pelo controle dos pontos de drogas, “as bocas”, porém, aparentemente disfarçada, imperando a lei do silêncio.
O pequeno Dadinho, participante do assalto do motel, adquiriu a maioridade; transformou-se em Zé Pequeno, o bandido mais perigoso do local; substituiu o mundo dos assaltos pelo mundo do tráfico e tornou-se um dos maiores detentores das “bocas” na comunidade, tendo como maior rival, Cenoura, outro traficante temível.


De acordo com o projeto, o prólogo que abre o filme pertence cronologicamente à Parte III. Isso acontece, pois o filme nos é narrado numa série de “voltas”, sendo a mais ampla esta diagramada anteriormente.
O desfecho do filme acontece nos anos 80, quando a Cidade de Deus já é uma favela gigantesca, e o tráfico está cada vez mais forte e desumano.
A violência na Cidade de Deus está descontrolada, crianças de faixa etária de dez anos, conhecidas por bando da Caixa-Baixa, praticam assaltos descaradamente.
Até o pacato Buscapé acaba corrompendo-se e entra para o mundo do crime, tenta um assalto frustrado em um ônibus. Desse episódio desencadeará sérios conflitos.
Mané Galinha, o cobrador de ônibus, é um trabalhador digno que tenta sobreviver honestamente na Cidade de Deus. Mas, o destino o levará ao delito.
Na época, Zé Pequeno dominava a Cidade de Deus. Era temido e respeitado, ao mesmo tempo, “deus” de toda aquela dor e miséria.


Zé Pequeno está na reta final de ter todo o domínio do tráfico e eliminar Cenoura, seu rival e concorrente. E então a fatalidade promove o encontro entre Zé Pequeno e o Mané Galinha. Zé Pequeno estupra a namorada, mata seu irmão e destrói à bala a casa de Mané Galinha. Cego de vingança o ex-cobrador ataca o bando de Zé Pequeno e se alia ao grupo do Cenoura.



VIII – EVOLUÇÃO DAS PERSONAGENS:


A obra inicia-se com uma cena extraordinária de uma perseguição de um galináceo contracenando com o narrador da história, um garoto encurralado entre duas fileiras de pessoas armadas: de um lado, os traficantes e, do outro, os policiais, tendo no meio desse confronto, a população imparcial da favela. acompanhada pela frase: ”se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come”.
Mas, essa imparcialidade é ameaçada quando pressionada, tornando-se principal responsável e mantenedora das mazelas sociais a que estão vinculadas, principalmente pelo silêncio e pela conivência.
Afinal, são os moradores da favela que escondem e aceitam os favores dos traficantes; além de acatarem o tema de “justiça pelas próprias mãos”.
Nessas primeiras cenas, o cenário é repleto de diversidade de animais, desde a galinha perseguida no início até as vacas e cavalos que percorrem as ruas da favela, passando pelos peixes que são vendidos pela família do narrador.
Entretanto, o animal mais presente é o cachorro: representação de fidelidade, cumplicidade, dependência e agressividade, - uma alegoria dos habitantes desse universo.
Para contar a estória desse lugar, o filme narra à vida de diversas personagens, todas vistas sob o ponto de vista do narrador, Buscapé.
Este, um menino pobre, negro, muito sensível e bastante amedrontado com a ideia de se tornar um bandido; mas, também inteligente suficientemente para se resignar com trabalhos quase escravos.
Buscapé cresceu num ambiente bastante violento. Apesar de sentir que todas as chances estavam contra ele, descobre que pode ver a vida com outros olhos: os de um artista. Acidentalmente, torna-se fotógrafo profissional, essa foi sua libertação.
Buscapé não é o verdadeiro protagonista do filme; afinal, não é o único que faz a estória acontecer; não é o único que determina os fatos principais. No entanto, não somente sua vida está ligada com os acontecimentos da estória, mas também, é através da sua perspectiva que entendemos a humanidade existente, em um mundo aparentemente condenado por uma violência infinita.
A matéria prima do romance veio de uma pesquisa sobre a criminalidade na favela carioca Cidade de Deus, da qual participou o autor. A partir de personagens reais e fatos ali ocorridos, Lins construiu seu enredo, situado nos anos 60, 70 e 80, mostrando como o tráfico de drogas se iniciou timidamente, apenas mais uma entre várias práticas marginais, como assaltos e roubos, até se instalar como atividade principal das gangues. Vemos ali, a força e o poder econômico que essas novas quadrilhas atingiram, a ponto de ser hoje um poder paralelo, que desafia e controla parte do estado, impondo suas próprias exigências.
Tanto o romance como o filme focalizam a extraordinária violência da fração marginal, mas não estão preocupados em fazer um relato documental como um todo. Em sua rica complexidade social, a favela mescla trabalhadores honestos e bandidos, em áreas bem delimitadas e discriminadas, segundo o próprio autor.
É necessário não confundam favelados com marginais. Embora ambos convivam em situações muitas vezes sub-humanas, miseráveis e de exclusão, nem todos reagem da mesma forma a essa privação. O que faz com que frente à miséria e suas condições degradantes, alguns optem, se é que podemos falar assim, pelo crime, e outro não.
O filme entrecruza várias histórias diferentes, o núcleo narrativo mais duro está centrado em três adolescentes e seus irmãos menores, entre eles o narrador Buscapé, que centraliza e unifica os diversos episódios contados em flash back e a dupla Bené e Dadinho, que terão grande destaque no desenvolver da trama.
Na primeira fase, os adolescentes executam pequenos golpes e assaltos. Não planejam matar ninguém em suas incursões. Se isso ocorre deve-se mais a um imprevisto inoportuno do que a uma ação planejada.
O autor mostra a marginalidade num momento pré-tráfico de drogas, coisa que se alterará completamente na década seguinte.
O episódio que mostra o final trágico dos três adolescentes e o posterior, que trata da irrupção franca do tráfico, estão ligadas pela personagem Dadinho.
Na primeira fase do filme, vê-se Dadinho, uma criança que se diferençava pela intensidade assustadora de sua violência e agressividade, olhando fascinado para uma arma e apontando para Marreco (de quem recebe um tapa). Mais tarde, Dadinho oferece uma arma para Marreco pouco antes de usá-la para matá-lo. Em seguida, vê-se uma série de planos rápidos de Dadinho rindo e atirando.


Dadinho, adolescente ou jovem adulto, vai a um pai de santo que o rebatiza com o nome de Zé Pequeno, prometendo-lhe imunidade contra os inimigos, principalmente o Cenoura, seu rival, caso usasse um determinado amuleto. A partir daí, Zé Pequeno se transforma num chefão da droga. Instaura um reino de terror e violência, apenas mediado pelo amigo Bené, que muitas vezes o contém no extravasar da mais pura violência. Outro detalhe que merece destaque é a maneira impositiva como Zé Pequeno, segura e maneja um revólver.
A composição de Buscapé é igualmente interessante. A personagem é associada diretamente a um objeto: a máquina fotográfica e esse fato, não só caracteriza a personagem como apresenta a sua evolução pessoal dentro do filme.
A caracterização de Zé Pequeno e Buscapé em Cidade de Deus é supostamente oposta. No caso de Pequeno, temos sua “risada fina, estridente e rápida” e esta risada serve para valorizar o sadismo dessa personagem, que ri dessa maneira principalmente quando mata alguém. Esta contraposição entre uma risada e um ato de violência serve para gerar algum temor nas demais personagens, como nos confirma Buscapé após a tomada da Boca dos Apês, e para gerar antipatia junto ao espectador.
Em determinado momento, Bené se apaixona. Planeja abandonar o crime e viver em outro lugar. Faz uma festa de despedida, onde é acidentalmente morto. Essa perda radicaliza a violência de Zé Pequeno até os estertores finais.
Há alguma relação entre a máquina fotográfica e a arma: ambas são, de certo modo, símbolos de status, já que tanto Zé Pequeno quanto Buscapé, cada qual a sua maneira, assumem estes símbolos e mudam de vida. O roteiro brinca com isso, no clímax do filme, quando Pequeno ordena que Buscapé tire uma foto do grupo dele e no momento do clique da máquina fotográfica, soa o som de um tiro que atinge um dos traficantes. Neste instante surge Mané Galinha e se inicia a batalha final entre ele e Pequeno, observada pelo narrador. A foto que Buscapé faz da morte de Pequeno lhe garante emprego no jornal – o que marca sua mudança de vida.

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


O bandido brasileiro:

Longe do estereótipo dos gangsters americanos dos filmes de Hollywood (“Poderoso Chefão”, “Scarface”) que representam o capitalismo selvagem e, das anomalias psicológicas (“Psicose”, “Kannibal”); o bandido brasileiro apresentado em Cidade de Deus é fruto de descaso político-cultural e social, cujos valores morais foram desapreendidos (ou nunca adquiridos!) por circunstâncias alheias à sua vontade.
Cidade de Deus nos oferece uma verdadeira radiografia centrada não só na pobreza urbana; mas, principalmente na pobreza humana. É o retrato dos excluídos, marginalizados e humilhados. Sem acesso a escolaridade, não possuindo discurso político consistente, sem objetivo de vida (exceto Buscapé que busca melhor), eles vivem às margens de uma sociedade, dita civilizadora.
Mas, se as personagens calam-se diante da sua dura realidade; o ritmo da câmera, a trilha sonora, as cores e a linguagem do filme, conseguem influenciar a consciência do espectador e fazê-lo compreender que o desvio moral apresentado é resultante da realidade dolorosa do Rio de Janeiro ou de qualquer outra metrópole.


Buscapé

O Buscapé do livro é mostrado como uma referência positiva de alguém da comunidade: quando criança era estudioso e trabalhador, torna-se retratista, após agir muito tempo como líder comunitário da Cidade de Deus. Ele é relativamente externo ao “Movimento”, cometendo apenas um pequeno delito. No livro, é um cocota – garoto classe média-baixa da favela, branco, cabeludo e fã de rock´n´roll. A não ser pela cor de pele, este Buscapé não difere essencialmente do narrador do filme.
Mas parece haver uma motivação narrativa para esta mudança, que talvez tenha sido uma tomada de decisão inconsciente dos autores: se tivéssemos um narrador branco, que contasse a história centralizada em personagens negros, teríamos uma visão supostamente “de fora”; Buscapé está relativamente distanciado da ação principal do filme, mas ele não é um “estranho”, alheio a ela.
A equipe de criação de Cidade de Deus pareceu sugerir algo sobre isso, em pelo menos dois aspectos: a cor de pele de Buscapé e o fato de o bandido Marreco ser irmão dele: ambos têm uma origem, educação e condição de vidas semelhantes, mas Marreco se afirma burro, acreditando que por isso se tornou bandido, enquanto Buscapé é um garoto inteligente que deve estudar.


Bené


Bené, amigo de Zé Pequeno, embora faça parte do “grupo”, distancia-se dos outros pela sua boa índole, sua simpatia, lealdade e amizade.
Com sua bondade, Bené representa um contraponto à ferocidade de Zé Pequeno, como no caso de Neguinho, um dos traficantes mais espertos de Cenoura (segundo nos informa Buscapé), e por quem assume a Boca dos Apês.
Mais tarde, Pequeno toma a Boca dos Apês e deseja matar Neguinho, mas Bené, à sua maneira, o impede. Em seguida, Zé Pequeno expulsa Neguinho da favela, após este matar próximo da Cidade de Deus. Novamente Bené salva Neguinho, mas desta vez Pequeno repete uma expressão presente no livro: “quem cria cobra amanhece picado, morou?”. Neguinho, disposto a se vingar de Zé Pequeno, entra armado no baile de despedida de Bené. Num momento em que Pequeno discute com Bené, este recebe acidentalmente um tiro de Neguinho e morre.
É importante observar que enquanto Zé Pequeno busca o poder, Bené com o dinheiro do tráfico busca ascender socialmente, ingressando na turma dos “cocotas” que para ser aceito, investe em sua aparência: usa roupas de marca, pinta os cabelos de loiro. Sua autenticidade conquista o espectador e a “musa” da estória, Angélica, filha de um sargento, que lhe convence sair do mundo do crime, causando inveja a Zé Pequeno.
Os sonhos de Bené e Angélica são triviais perante a situação em que vivem: uma casinha num sítio, filhos e felicidade.
Em sua festa de despedida da Cidade de Deus, onde Bené consegue reunir grupos diferentes, dá-se o clímax do filme: Bené é morto e Zé Pequeno encontra-se sem equilíbrio; afinal Bené simbolizava o coração de Zé Pequeno. A partir desse momento, Zé Pequeno desenvolve toda a sua crueldade.


Corrupção e silêncio

O filme apresenta a corrupção policial, a cobrança de propinas e o “passe” livre dos bandidos em troca de favores.
A introdução da personagem de nome Tio Sam, que vende armas aos bandidos é muito oportuna, pois faz referência ao principal país produtor de armas do mundo, que investe muito dinheiro em repressão de drogas e, no entanto, é tolerante com o contrabando de armas para o terceiro mundo.
Uma cena chocante no filme é a brutalização de duas crianças; uma delas é morta por outra criança a mando de bandidos maiores, para provar sua valentia e manter a lei da favela, que não permite assaltos dentro da comunidade.


Destino trágico

A trajetória de vida de Zé Galinha com todos os seus dilemas morais até entrar para o mundo do crime e reforça a ideia de que um destino trágico, mais que a má índole, força as personagens a romperem com a ordem jurídica e moral da sociedade.


O ser anônimo


Zé Pequeno representa o anonimato do ser humano: sem um nome próprio (antes Dadinho, depois Zé Pequeno); sem um sobrenome familiar (família desconhecida); sem emprego digno; sem endereço fixo (morador da Cidade de Deus); sem identidade; sem passado; sem amor e sem carinho, traz em si toda uma herança que só poderia terminar numa notícia de jornal, virada do avesso pela indeterminação que cumpre seu destino para a morte.


A religiosidade

A religiosidade no filme é retratada nos eventos da terceira fase do filme (“o que era um purgatório… agora virou um inferno…”- referindo-se à guerra entre Pequeno e Galinha). Outro comentário de Buscapé que se vale deste tema é quando ele afirma que Pequeno é o “feioso do mal” contra Galinha, que é o “bonitão do bem”. Um mundo extremamente moralista, dividido entre o Bem (ao qual se associa a beleza, a bondade e a pureza) e o Mal (associado ao feio, disforme, ao arrogante e presunçoso), se integra ao tema da religião.

Ciclos interrompidos

Outro motivo que podemos destacar no filme é o da morte como um ciclo. No filme, as trajetórias dos garotos envolvidos com o crime e o tráfico de drogas parecem seguir um ciclo, no qual estes garotos amadurecem e morrem muito rapidamente. Alguns das personagens que integram o crime em Cidade de Deus parecem atender ao seguinte procedimento: eles entram em cena, conhece-se um tanto deste personagem enquanto ele segue seus objetivos, até que a personagem morre. Quando a personagem se nega ou renega de alguma forma a viver do crime, é morto ou por uma “cobra criada” ou quase casualmente (a ponto de ficar a impressão de que há uma instância realmente divina na Cidade de Deus). Como o filme se passa, cronologicamente, em três épocas distintas, diferentes personagens parecem repetir esta lógica.

Mensagem moralista


Em Cidade de Deus não existem mocinhos. Todos estão envolvidos no círculo vicioso do tráfico de drogas e da violência. E no final, todos são vítimas.
No final do filme, enquanto crianças armadas transitam pela favela articulando seus próximos planos, Buscapé (Wilson Rodrigues) fala de sonhos profissionais com um amigo, simbolizando a esperança, a honestidade (aliás, como muitos da favela), o esforço e a luta que apesar das grandes privações que os moradores da favela passam, pode-se vencer através da coragem e do trabalho decente.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Panorama Literário


PANORAMA LITERÁRIO

Séculos VIII a.C. a II a.C.:




As primeiras obras da História que se tem informação são os dois poemas atribuídos a Homero: Ilíada e Odisséia. Os dois poemas narram às aventuras do herói Ulisses e a Guerra de Tróia. Na Grécia Antiga os principais poetas foram: Píndaro, Safo e Anacreonte. Esopo fica conhecido por suas fábulas e Heródoto, o primeiro historiador, por ter escrito a história da Grécia em seu tempo e dos países que visitou entre eles o Egito Antigo.
Séculos I a.C. a II d.C. : A literatura na História de Roma Antiga
Vários estilos que se praticam até hoje, como a sátira, são originários da civilização romana. Entre os escritores romanos do século I a.C. podemos destacar: Lucrécio (A Natureza das Coisas); Catulo e Cícero. Na época de 44 a.C. a 18 d.C., durante o império de Augusto, corresponde uma intensa produção tanto em poesia lírica, com Horácio e Ovídio, quanto em poesia épica, com Virgílio autor de Eneida. A partir do ano 18, tem início o declínio da História do Império Romano, com as invasões germânicas. Neste período destacam-se os poetas Sêneca e Petrônio.
Séculos III a X
Após a invasão dos bárbaros germânicos, a Europa se isola, forma-se o feudalismo. A Igreja Católica começa controlar a produção cultural. A língua (latim) e a civilização latina são preservadas pelos monges nos mosteiros. A partir do século X começam a surgir poemas, principalmente narrando guerras e fatos de heroísmo.
Século XI : As Canções de Gesta e as Lendas Arturianas:


É a época das Canções de Gesta, narrativas anônimas, de tradição oral, que contam aventuras de guerra vividas nos séculos VIII e IX, o período do Império Carolíngio. A mais conhecida é a Chanson de Roland (Canção de Rolando ) surgida em 1100. Quanto à prosa desenvolvida na Idade Média, destacam-se as novelas de cavalaria, como as que contam as aventuras em busca do Santo Graal (Cálice Sagrado) e as lendas do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda.

Séculos XII a XIV: O trovadorismo e as cantigas de escárnio e maldizer

É o período histórico do trovadorismo e das poesias líricas palacianas. O amor impossível e platônico transforma o trovador num vassalo da mulher amada, exemplo do amor cortês. Neste período, também foi comum o poema satírico, representado pelas cantigas de escárnio (crítica indireta) e de maldizer (crítica direta).

Séculos XIV a XV : Humanismo


O homem passa a ser mais valorizado com o início do humanismo renascentista. A literatura mantém características religiosas, mas nela já se podem ver características que serão desenvolvidas no Renascimento, como a retomada de ideais da cultura greco-romana. Na Itália, podemos destacar: Dante Alighieri autor da Divina Comédia, Giovanni Bocaccio e Francesco Petrarca. Em Portugal, destaca-se o teatro do poeta de Gil Vicente autor de A Farsa de Inês Pereira.
Século XVI : O classicismo na História:



O classicismo tem como elemento principal o resgate de formas e valores da cultura clássica, ou seja, greco-romana. O mais importante poeta deste período histórico foi Luís de Camões que escreveu Os Lusíadas, narrando às aventuras marítimas da época dos descobrimentos. Destacam-se também os franceses François Rabelais e Michel de Montaigne. Na Inglaterra, o poeta de maior sucesso foi William Shakespeare se destaca na poesia lírica e no teatro. Na Espanha, Miguel de Cervantes faz uma sátira bem humorada das novelas de cavalaria e cria o personagem Dom Quixote e seu escudeiro, Sancho Pança, na famosa obra Dom Quixote de La Mancha.

BRASIL XVI – Os primeiros registros de atividade escrita no Brasil são textos informativos sobre a "nova terra". São crônicas históricas como a Carta ao Rei dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha; o Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a Que Vulgarmente Chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo; o Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa; e o Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, composto entre 1556 e 1558 pelo padre Manoel da Nóbrega. Destacam-se também o teatro e os poemas do padre José de Anchieta.

Século XVII –


As idéias da Contra-Reforma marcaram profundamente esta época, principalmente nos países de tradição católica mais forte como, por exemplo, Espanha, Itália e Portugal. Na França, a oratória sacra é representada por Jacques Bossuet que defendia a origem divina dos reis. Na Espanha, destacam-se os poetas Luís de Gôngora e Francisco de Quevedo. Na Inglaterra, marca significativamente a poesia de John Donne e John Milton autor de O Paraíso Perdido.

BRASIL XVII –


Sob influência da Contra-Reforma, a estética barroca tenta conciliar opostos, como Deus e diabo, bem e mal, carne e espírito, pecado e arrependimento. Na literatura, o conflito se traduz em figuras de oposição, bem como no exagero e no estilo sinuoso. Esse movimento corresponde ao nascimento da literatura brasileira. O marco inicial é o poema épico Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira. Mas é Gregório de Matos o maior representante do gênero. Sua poesia lírica, bastante influenciada por Camões, Gôngora e Quevedo, se subdivide em amorosa, reflexiva e religiosa. No gênero satírico, Gregório de Matos não poupa ninguém de suas críticas, ficando por isso conhecido como "Boca do Inferno". Na prosa, destacam-se os sermões de padre Antônio Vieira (Sermão de Santo Antônio ou dos Peixes).

Século XVIII: O Neoclassismo:



Época da valorização da razão e da ciência para se chegar ao conhecimento humano. Os filósofos iluministas fizeram duras críticas ao absolutismo. Na França, podemos citar os filósofos Montesquieu, Voltaire, Denis Diderot e D'Alembert, os organizadores da Enciclopédia, e Jean-Jacques Rousseau. Na Inglaterra, os poetas Alexander Pope, John Dryden, William Blake. Na prosa pode-se observar o pleno crescimento do romance.
Obras e autores deste período da História: Daniel Defoe autor de (Robinson Crusoé); Jonathan Swift (As Viagens de Gulliver); Samuel Richardson ( Pamela ); Henry Fielding ( Tom Jones ); Laurence Sterne ( Tristram Shandy ). Nessa época, os contos de As Mil e Uma Noites aparecem na Europa em suas primeiras traduções.

BRASIL XVIII –



O neoclassicismo se coloca contra os excessos formais do barroco e tenta retomar os valores desenvolvidos no classicismo. Reflete a aversão do espírito iluminista ao obscurantismo religioso do século anterior. Já o termo arcadismo, também atribuído a esse movimento literário, se deve ao bucolismo de muitos poetas do período, que adotavam pseudônimos de pastores para assinar seus poemas. O marco do arcadismo no Brasil é a publicação, em 1768, de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa. Influenciado pelo iluminismo, ele participa da Inconfidência Mineira ao lado dos poetas Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga. Este, além das liras, reunidas em Marília de Dirceu, escreve também obra satírica, como as Cartas Chilenas. No gênero épico, destacam-se José Basílio da Gama (O Uraguai) e frei José de Santa Rita Durão (Caramuru). Igualmente se salientaram, ao fim do século, Domingos Caldas Barbosa e Silva Alvarenga.

Século XIX (primeira metade): O Romantismo



No Romantismo há uma valorização da liberdade de criação. A fantasia e o sentimento são muito valorizados, o que permite o surgimento de obras de grande subjetivismo. Há também valorização dos aspectos ligados ao nacionalismo.
Poetas principais desta época: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Giacomo Leopardi, James Fenimore Cooper e Edgard Allan Poe.


BRASIL século XIX –

A saturação dos modelos neoclássicos e a necessidade de uma literatura que expresse o país independente resultam no florescimento do romantismo. O marco inicial do movimento é a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836. O ideal romântico do nacionalismo é expresso pelos indianistas, dos quais se destaca o poeta Gonçalves Dias (Primeiros Cantos). O individualismo é representado pela geração ultra-romântica – Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Fagundes Varela e Álvares de Azevedo –, influenciada pelo poeta inglês Lord Byron. O principal nome da poesia condoreira, que se caracteriza pela grandiloqüência e pelo uso de antíteses e hipérboles, é Castro Alves (Espumas Flutuantes), conhecido como o poeta dos escravos. Considerado o fundador do romance nacional, José de Alencar é o autor de narrativas indianistas (O Guarani), históricas (As Minas de Prata), urbanas (Lucíola) e regionalistas (O Gaúcho).


Século XIX - segunda metade: O Realismo


Movimento que mostra de forma crítica a realidade do mundo capitalista e suas contradições. O ser humano é retratado em suas qualidades e defeitos, muitas vezes vitimas de um sistema difícil de vencer.
Principais representantes: Gustave Flaubert autor de Madame Bovary, Charles Dickens (Oliver Twist ), Charlotte Brontë (Jane Eyre), Emily Brontë (O Morro dos Ventos Uivantes), Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoi, Eça de Queiroz, Cesário Verde, Antero de Quental e Émile Zola, Eugênio de Castro, Camilo Pessanha, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire.

BRASIL XIX - segunda metade:



O esgotamento da literatura romântica, que se alimentava de uma visão idealizadora da realidade, conduz à consagração do realismo. Influenciado pelo cientificismo, em voga na época, o movimento busca a descrição objetiva da realidade. O maior escritor do período, Machado de Assis, no entanto, não segue ortodoxamente esses princípios. Sua carreira costuma ser dividida em fase de aprendizagem, na qual se observam resquícios do romantismo, como nos romances: Ressurreição, A Mão e a Luva e Helena; e a fase de maturidade, em que enfatiza a penetração psicológica e a reflexão sobre a existência, como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.

Os contemporâneos de Machado de Assis adotam o naturalismo, que considera o homem fruto do meio em que vive e leva a observação ao nível da minúcia, em sua ânsia de descrever cientificamente a realidade.
O principal representante dessa tendência no Brasil é Aluísio Azevedo, autor de
O Mulato e O Cortiço . Raul Pompéia cria em O Ateneu um estilo híbrido, realista com traços naturalistas, incorporando também elementos vagos e sugestivos, característicos do impressionismo, e a descrição grosseira e caricatural do expressionismo.

Na poesia, duas correntes dividem os artistas: o parnasianismo e o simbolismo.
O parnasianismo propõe o ideal da arte pela arte, dando preferência a uma poesia descritiva, em que sobressaem o rigor formal e o gosto por temas clássicos.
No Brasil, o movimento ganha a cena literária a partir da década de 1880 e nela permanece até o começo do século XX. Seus maiores expoentes são Alberto de Oliveira (Meridionais), Raimundo Correia (Sinfonias) OlavoBilac (Poesias)


Os primeiros livros filiados ao simbolismo, Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poemas), pertencem a João da Cruz e Sousa e foram publicados, ambos, em 1893. O movimento simbolista preocupa-se não em descrever objetivamente, mas em sugerir. Por isso seus poemas parecem vagos, feitos de imagens que se originam no sonho, na intuição, nas camadas mais profundas do inconsciente. Os versos possuem grande musicalidade. Outro poeta simbolista de destaque é Alphonsus de Guimaraens (Dona Mística).


BRASIL 1900-1922 –


Os modelos parnasianos e simbolistas estão desgastados, mas não há nova proposta estética, que só se manifesta com o modernismo, em 1922. O pré-modernismo é considerado um período de transição, em que prevalece a preocupação em entender a realidade social brasileira. Desenvolve-se então o regionalismo, que aparece ainda no século XIX, com José de Alencar, Franklin Távora e Bernardo Guimarães, e se caracteriza pela descrição pitoresca dos costumes do interior. João Simões Lopes Neto, Valdomiro Silveira e Afonso Arinos estão entre os principais nomes dessa tendência, mas o destaque pertence a Monteiro Lobato, autor de Urupês e Cidades Mortas, que se volta, em seus contos, para o cotidiano do caipira. Ele também é muito conhecido pelas histórias infantis do Sítio do Picapau Amarelo. Lima Barreto transpõe para seus romances a vida dos subúrbios cariocas, numa linguagem que se distancia da influência parnasiana e da ideologia positivista. Euclides da Cunha relata a Guerra de Canudos no monumental trabalho Os Sertões. Sobressai ainda a obra original de Augusto dos Anjos (Eu), que traz para o universo da poesia o vocabulário científico e a escatologia característicos do naturalismo.


Décadas de 1910 a 1930 : fugindo do tradicional:


Os escritores deste momento da História vão negar e evitar os tipos formais e tradicionais. É uma época de revolução e busca de novos caminhos e novos formatos literários.
Principais escritores deste período: Ernest Hemingway, Gertrude Stein, William Faulkner. S. Eliot, Virginia Woolf, James Joyce, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cesar Vallejo, Pablo Neruda, Franz Kafka, Marcel Proust, Vladimir Maiakovski. Em Portugal, com a ascensão de Salazar ao poder inicia um avanço das ideologias de extrema direita (nazismo, fascismo, integralismo) e de luta contra a expansão comunista. Na Espanha, uma guerra civil iniciada em 1936 levou ao poder o general Franco, que governou o país até 1976. Surge em 1915, com a publicação da revista Orpheu. Período de nacionalismo e saudosismo, várias revistas: A Águia (tem Fernando pessoa como colaborador), Orpheu, Ícaro, etc. José Régio: a poesia entre deus e o diabo: (1901-1969) Principal expressão do grupo formado em torno da revista Presença, da qual foi um dos fundadores e diretores. Inicia sua carreira em 1925, com a publicação de Poemas de Deus e do diabo, dois anos antes da criação da revista. José Saramago, um dos mais importantes escritores da atualidade, descendente dos neo-realistas: Prêmio Nobel de Literatura 1998.

BRASIL 1922-1930 –


O evento que marca o início do modernismo no Brasil é a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo. Influenciados pelas vanguardas européias, os modernistas promovem uma revolução estética baseada principalmente no verso livre, na incorporação poética do cotidiano, na utilização de uma linguagem telegráfica, fragmentada, com elementos extraídos da oralidade e do coloquialismo. Seus expoentes são Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Destacam-se ainda os escritores Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo (do grupo Verde-Amarelo), Raul Bopp e Alcântara Machado.


BRASIL 1930-1945 –



As conquistas modernistas vão sendo incorporadas aos padrões estéticos nacionais, o que permitiu à chamada geração de 30 voltar-se aos temas de teor social, como a denúncia das desigualdades no campo e na cidade. No romance, o movimento é conhecido como neo-realista e aparece nas obras de Graciliano Ramos, Vidas Secas, de José Lins do Rego, Fogo Morto, de Rachel de Queiroz, O Quinze, e de Jorge Amado, O País do Carnaval, autores que tratam da seca, da vida miserável nordestina, da exploração e do desajuste social e psicológico. Erico Veríssimo escreve, nesse período, romances urbanos, entre eles Clarissa e Olhai os Lírios do Campo. Dyonélio Machado inova a narrativa psicológica, retratando o temor que assola um indivíduo de classe média, sem dinheiro e sem perspectivas de melhora, em Os Ratos. Na poesia, observa-se o retorno a um texto de contornos místicos, religiosos e sugestivos, que lembra certos aspectos do romantismo e do simbolismo. Os principais poetas que atuam a partir de então são Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e Augusto Frederico Schmidt. Mário Quintana segue essa tendência até a década de 1990. Carlos Drummond de Andrade, um dos mais importantes poetas brasileiros, realiza uma síntese entre racionalismo e lirismo, revolta e conformismo, angústia e humor.

Década 1940 : a fase pessimista


O pessimismo e o medo gerados pela Segunda Guerra Mundial influenciaram este período. O existencialismo de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus vão influenciar os autores desta época. Na Inglaterra, George Orwell faz uma amarga e triste profecia do futuro na obra 1984.

Década de 1950: crítica ao consumismo


As obras desta época da História criticam os valores tradicionais e o consumismo exagerados imposto pelo capitalismo, principalmente norte-americano. O poeta Allen Ginsberg e o romancista Jack Kerouac são seus principais representantes. Henry Miller choca a crítica com sua apologia da liberdade sexual na obra Sexus, Plexus, Nexus. Na Rússia, Vladimir Nabokov faz sucesso com o romance Lolita.

BRASIL 1945-1960 –


A literatura brasileira abandona o compromisso estrito com as temáticas de orientação social e revela a tendência ao experimentalismo lingüístico. João Guimarães Rosa, autor de Sagarana e Grande Sertão: Vereda desenvolve um regionalismo universalista. João Cabral de Melo Neto trata da problemática social em Morte e Vida Severina e produz uma poesia em que sobressaem o rigor formal e a contenção, sem prejuízo do lirismo, em obras como A Educação pela Pedra. Clarice Lispector (Perto do Coração Selvagem e Laços de Família) volta-se para a realidade psicológica das personagens, revelando influência do existencialismo e valorizando as técnicas do fluxo de consciência. Também na linha do romance psicológico está a ficção de Cornélio Pena (A Menina Morta) e de Lúcio Cardoso (Crônica da Casa Assassinada). Na década de 1950 surge a poesia concreta, movimento de vanguarda, criado pelos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari. Ela se opõe ao formalismo da geração de 45, ao se aproximar dos modernistas de 22, na medida em que propõe a destruição do verso e a exploração inovadora dos espaços da página. Rivalizando com o grupo concretista aparece, em 1962, a Poesia Práxis, de Mário Chamie.


Décadas de 1960 e 1970:


Surge o realismo fantástico, como na ficção dos argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Na obra do colombiano Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, se misturam o realismo fantástico e o romance de caráter épico. São épicos também alguns dos livros da chilena Isabel Allende autora de A Casa dos Espíritos. No Peru, Mario Vargas Llosa é o romancista que ganha prestígio internacional. No México destacam-se Juan Rulfo e Carlos Fuentes, no romance, e Octavio Paz, na poesia.
A literatura muda o foco do interesse pelas relações entre o homem e o mundo para uma crítica da natureza da própria ficção. Um dos mais importantes escritores a incorporar essa nova concepção é o italiano Ítalo Calvino.

BRASIL Décadas de 1960 e 1970:


A situação política do país, com seus sucessivos governos militares e a censura fortaleceram os romances-reportagens, como os de José Louzeiro, e as obras que têm como pano de fundo a realidade brasileira, como Quarup, de Antônio Callado. São também retratos da época livros como Zero, de Ignácio Loyola Brandão, e A Festa, de Ivan Ângelo. Outro autor importante é Raduan Nassar, com sua linguagem apurada. Lígia Fagundes Telles publica contos e romances de grande penetração psicológica. Na linha dos romances intimistas, sobressaem a narrativa refinada de Autran Dourado (Sinos da Agonia) e o complexo trabalho estilístico de Osman Lins (Avalovara). Os contos de Dalton Trevisan misturam o grotesco ao banal. Pedro Nava destaca-se como memorialista. Ferreira Gullar, que se distanciara da poesia concreta, continua a produzir sua poesia participante. A partir do fim dos anos 1970 aparece à chamada geração mimeógrafo, responsável por uma poesia anárquica, satírica e coloquial. Seus principais nomes são Ana Cristina César e Cacaso.


BRASIL Década de 1980 – O período conhecido por pós-modernidade tem como característica marcante a heterogeneidade – pluralidade de vozes, de estilos, de gêneros e de visões do mundo. No Brasil, a chamada geração de 80 é marcada pelo desencanto em relação aos ideais de engajamento social e político da década de 1970. Caracteriza-se pela temática predominantemente urbana, com ênfase nos estilos pessoais e na exploração de novas técnicas narrativas. João Antônio revitaliza o conto brasileiro, e Silviano Santiago, a narrativa ficcional, com Em Liberdade (1981).


BRASIL 1980-1985 – No gênero policial, Rubem Fonseca explora os efeitos psíquicos, sociais e estéticos da violência urbana, sobretudo em A Grande Arte (1983). Hilda Hilst trabalha temas metafísicos, privilegiando a exploração do universo sexual e a utilização do fluxo de consciência em poesia e prosa poética. Nas obras de João Gilberto Noll (A Fúria do Corpo), a sexualidade vem acompanhada de um clima pesado de delírio. Caio Fernando Abreu dedica-se ao romance urbano de inflexões intimistas. João Ubaldo Ribeiro investiga a história da identidade brasileira em Viva o Povo Brasileiro (1984). Do mesmo ano é o romance de Nelida Piñon, República dos Sonhos, que aborda as aventuras de imigrantes no Brasil. Na poesia, José Paulo Paes, Haroldo de Campos e Paulo Leminski continuam a explorar técnicas inspiradas no concretismo. Ganha destaque a poesia de Adélia Prado, que trabalha o universo feminino e cotidiano.


BRASIL 1986-1989 – Ana Miranda lança o romance, Boca do Inferno, sobre a vida de Gregório de Matos. No romance intimista destaca-se o livro de estréia de Milton Hatoum, Relato de um certo oriente. Josué Montello privilegia o universo maranhense em narrativas históricas. Nesse período divulga-se a poesia de Manuel de Barros (publicada em 1990), cujo apurado trabalho estilístico se volta para os temas ligados à região do Pantanal. Também é importante a obra reflexiva e metalingüística da poetisa Orides Fontela.


BRASIL Década de 1990 – Em meio à pluralidade de estilos e técnicas característicos da pós-modernidade, sobressaem algumas tendências comuns. É o caso dos romances que, inspirados no fim do milênio, procuram analisar a história do país por meio de incursões ficcionais na história contemporânea. Também ressurge a temática memorialística, que, com base em lembranças pessoais, compõe certos painéis da história nacional.


BRASIL 1990-1995 –


O compositor Chico Buarque estréia no romance com a narrativa labiríntica e delirante de Estorvo (1991)
Na moderna prosa regionalista, Francisco Dantas retrata um Nordeste em decadência em Coivara da Memória e João Silvério Trevisan se destaca no romance histórico (Ana em Veneza). Na poesia, a influência do concretismo e da música popular aparece na obra de Arnaldo Antunes. Ganha importância uma nova geração de poetas: Alexei Bueno, Nelson Ascher, Régis Bonvicino, Rubens Rodrigues Torres Filho e Paulo Henriques Britto, além do veterano Wally Salomão.

BRASIL 1996-1999 –



Bernardo Carvalho mescla o suspense ao trabalho de desconstrução da narrativa nas obras Os Bêbados e os Sonâmbulos (1996) e Teatro (1998). Dentro do gênero urbano e policial, Patrícia Melo evidencia a influência de Rubem Fonseca em O Matador (1995). Paulo Lins estréia na prosa com Cidade de Deus (1997), romance social ambientado na periferia carioca. Na literatura de orientação memorialista, destacam-se Carlos Heitor Cony (Quase Memória, 1997) e Modesto Carone (Resumo de Ana, 1999), cuja narrativa explora a lembrança articulada à observação de fatos reais. A ficção ligada a acontecimentos históricos também está presente na obra de Zulmira Ribeiro Tavares (Cortejo em Abril, 1998) e de Moacyr Scliar (Sonhos tropicais). Silviano Santiago aborda a decadência familiar em De Cócoras (1999). Na poesia, são publicados livros póstumos de Carlos Drummond de Andrade (Farewell, 1997) e de Guimarães Rosa (Magma, 1998). Ferreira Gullar lança o livro de poemas Muitas Vozes (1999).


BRASIL 2001 –


A escritora Patrícia Melo recebe o Prêmio Jabuti, na categoria Romance, com Inferno, um painel de personagens do Rio de Janeiro, em que o protagonista da epopéia carioca é um fora-da-lei, Reizinho, um garoto de 11 anos, ex-viciado em crack. Anderson Braga Horta vence na categoria Poesia, com o livro Fragmentos da Paixão. O livro Corações Sujos, do escritor e jornalista Fernando de Moraes, conquista o prêmio de melhor livro na categoria reportagem. A obra aborda a história da Shindo Renmei, a seita nacionalista que aterrorizou a colônia japonesa no Brasil após o fim da II Guerra Mundial, por se recusar a aceitar que o Japão saiu derrotado do conflito. Em Ciências Sociais destaca-se a obra, Intelectuais à Brasileira, de Sérgio Micelli. Na categoria infanto-juvenil, o lançamento de Lendas Brasileiras, de José Arrabal, destaca-se por traçar um painel de lendas e fábulas abrangendo todas as regiões do país. O autor escolheu a narrativa como linguagem em vez da descrição, convencionalmente usada para contos.

BRASIL 2002 –


Ariano Suassuna recebe o Prêmio Jorge Amado de Literatura e Arte, na Bahia, pelo conjunto de sua obra.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O SHOW DE TRUMAN (1998)

Truman ou True Man; Christof ou “Cristo - em off”;
alegoria do sonho americano ou a cidade simulacro”.


“A história de um homem, Truman Burbank, que vive, desde o seu nascimento, em um mundo falso, onde todos são atores, a cidade é apenas um grande cenário e cujo cotidiano é filmado e transmitido ao vivo pela TV minuto a minuto, sem que ele saiba. Um filme polêmico que aborda questões atuais como a perda da privacidade devido à vigilância cada vez mais presente em nossas vidas, a idéia de que o mundo se transformou em um simulacro de si mesmo e de uma sociedade prisioneira de comportamentos codificados pela massificação da tecnologia, onde a vida de verdade está na TV, em incontáveis “reality shows”. (FGV-Direito)


I – O FILME:

FICHA TÉCNICA:

• título original:The Truman Show
• gênero:Drama
• duração:01 hs 42 min
• ano de lançamento:1998
• site oficial:http://www.truman-show.com
• estúdio:Paramount Pictures
• distribuidora:Paramount Pictures / UIP
• direção: Peter Weir
• roteiro:Andrew Niccol
• produção:Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin e Adam Schroeder
• música:Philip Glass e Burkhart von Dallwitz
• fotografia:Peter Biziou
• direção de arte:Richard L. Johnson
• figurino:Marilyn Matthews
• edição:William M. Anderson e Lee Smith
efeitos especiais:The Computer Film Company / Cinesite Hollywood / EDS
Digital Studios

Dirigido por PETER WEIR, “O Show de Truman” ou ”O show da vida”, com aproximadamente 103 minutos de duração e roteiro de Andrew Niccol, foi lançado em 1998 nos Estados Unidos, pela Paramount Pictures.


II – ESPAÇO E TEMPO:


TRUMAN BURBANK (Jim Carrey) vive na bucólica cidadezinha litorânea de SeaHeaven. É interessante observarmos que a denominação da cidade nos remete a um Paraíso terrestre, “o locus amoenus”, onde tudo gera em perfeita harmonia, equilíbrio e tranquilidade. No entanto, ocorre uma contradição irônica; pois, é um lugar que não apresenta perigos e não acontece nada de extraordinário, no entanto, o protagonista do filme é um corretor de seguros.
SeaHeaven na realidade é a pacata cidade Seaside, localizada no norte da Flórida, estado americano dos mais conservadores. Foi ali, mesmo na Flórida que Walt Disney criou seu mundo de sonhos, uma cidade inteira de diversão – a Walt Disney World. Dentro da Walt Disney World está a cidade Celebration, uma cidade real, construída para os funcionários da Disney Company, que muito se assemelha à SeaHeaven de “O Show de Truman”; portanto, o filme não está tão distante da realidade.
O filme retrata a alegoria do sonho americano (o estilo de vida nos Estados Unidos): Truman está bem empregado; tem um casamento aparentemente feliz com a enfermeira Meryl; possui amigos “fiéis” e convive com vizinhos que gostam muito dele.
A única coisa que difere TRUMAN dos outros milhões de norte-americanos de classe média, é que ele é a única coisa real, até os pedestres são atores contratados para dar-lhe a ilusão de falsa realidade e a cidade não passa de um imenso cenário, o maior e mais tecnológico já construído pelos homens.

O tempo é cronológico e começa a partir do nascimento de Truman até o protagonista completar seus trinta anos de idade. Sua vida é televisionada 24 horas por dia, através de 5.000 câmeras existentes na cidade, controladas por Christof e sua equipe que ficam escondidos atrás da bela lua que permeia o céu artificial da noite de SeaHeaven e apresentada aos telespectadores em 10.909 capítulos.
Truman leva alegria e esperanças para milhões de telespectadores em todo o mundo, sem saber que é a estrela de um “reality show”, mercadoria e vítima de um sistema dominador que procura atender seus interesses, impondo um modelo social permeado por uma falsa e ilusória ideologia.
Essa ideia absurda de uma telenovela estar no ar intermitentemente por 30 anos mostrando a vida de uma pessoa normal, não é tão longínqua da realidade da mídia do final do século passado e aí está seu sombrio e premonitório valor. Em tempos de programas que levam a desgraça do cidadão comum às casas de milhares de pessoas, não é difícil imaginar que quando este modelo cansar, levando farsas orquestradas a palcos de TV, só mesmo a vida de uma pessoa real pode saciar os desejos voyerísticos dos telespectadores cada vez mais céticos. Fundamentando-se na teoria crítica, é importante salientar a existência de duas perspectivas abordadas no filme: a do mundo conhecido por TRUMAN e a dos telespectadores do grande show. Decisões e atitudes são impostas e, as pessoas falsas e os telespectadores do “reality show” manifestam ira em torno da manipulação do poder.
Portanto, em um futuro não muito distante, uma telenovela é protagonizada por uma personagem real.


III – PERSONAGENS:



Assim, tudo é cenário no "Show de Truman": a cidade, as casas, os cidadãos da cidade, que são atores, os pais de Truman, os amigos de Truman, a mulher de Truman; neste mundo perfeito e artificial só o próprio Truman não sabe que vive uma ficção; vivendo sua vida de mentira, dentro de uma verdade fabricada para ele e, completamente alheio a esta conspiração - o american way of life elevado ao state of art. Sua vida é acompanhada por milhões de telespectadores que assistem estupefatos diariamente à simulação de uma vida ao vivo.
Durante o filme, observamos quatro tipos de personagens:

1. Personagens que não tem qualquer consciência do que fazem (Meryl, a mulher de TRUMAN);


2. Personagens que faz para cumprir ordens (Marlon, amigo);
3. Personagens que tentam impedir que isso continue a acontecer (Sylvia) e
4. Personagens que tem consciência plena e faz com convicção (Christof).



Neste mundo colorido, onde o azul do céu é cenário para personagens como o cachorro Pluto, e onde pessoas, durante uma simples conversa, fazem merchandinsing de produtos alimentícios, utilidades domésticas, planos de saúde e outros, Truman (ou True Man, um Homem de Verdade) não percebe que seu arbítrio livre não é e, quando o faz, a evasão é monitorada por Christof (o criador do programa, o diretor, ou “Cristo”).
O programa é cria da indústria cultural, produzido do alto pelas instituições sociais dominantes, que determinam o processo de consumo, instaurando na audiência uma reação automática e irreflexiva perante àquilo a ser consumido.
Esse fato pode ser observado nas cenas em que aparecem as garçonetes, os policiais, as duas senhoras e o rapaz da banheira, pois essas pessoas estão constantemente assistindo ao show, inclusive em seus locais de trabalho e no correr da noite, não demonstrando preocupação com o fato de TRUMAN viver todos os dez mil novecentos e nove capítulos aprisionado para entretê-los e vender-lhes os variados gêneros de produtos circulantes no sistema de livre-mercado. Às pessoas não são capazes de tomar decisões sem a intervenção de agentes externos e passam a aderir acriticamente aos valores impostos e dominantes, difundidos pelos meios.
TRUMAN, por sua vez, é a personificação dessas pessoas. Vive em um mundo controlado, onde produtores se conjugam harmonicamente, determinando os padrões de consumo, tendo como objetivos principais à venda de mercadorias e o lucro acima de tudo, não importando a qualidade do produto, nem se estão sendo dignos com a humanidade e a sociedade. Pois, não importa como TRUMAN se sinta, ele faz parte desse modelo forçado e assim deverá permanecer. Eis aqui um ponto fundamental do filme, mostrando algumas das fragilidades da teoria crítica.
No desenrolar do filme, o diretor vai deixando transparecer um contato feito, em capítulos anteriores, entre TRUMAN e Sylvia. Ela tentou alertá-lo sobre a condição vivida por ele e por isto foi expulsa. Desde então, TRUMAN começa a amadurecer um desejo de encontrá-la, de viajar para conhecer outros lugares. Isto mostra que os indivíduos não são totalmente desprovidos de autonomia, consciência e capacidade de julgamento, como previa a teoria crítica, nem que a mentalidade das massas é algo imutável.


IV – TEMÁTICA:


“O direito à privacidade e a mídia no século XXI”

Uma tese sustentada pelo filme seria como a televisão invade inteiramente a subjetividade, confunde público e privado, aprisiona os sujeitos numa vida alienada, ditada pelos valores do mercado, onde a felicidade está equacionada à posse de bens de consumo e a própria identidade pessoal se esfuma frente às identidades por ela fornecida, especialmente, aquelas veiculadas pela publicidade, que forjam imagens de masculinidade ou feminilidade, de sucesso e de triunfo.
As ideias de Truman são habilmente construídas através de propagandas. Um ideário necessário para a manutenção do Estado é incutido em sua mente através dos meios de comunicação e das pessoas ao seu redor, simbolizando dessa forma, uma sátira mordaz do americano típico comum, modelo fabricado, adotado por milhares numa sociedade pré-fabricada e prática.


“A psicanálise e a constituição do sujeito humano”

A forma como a psicanálise compreende a constituição do sujeito, baseada em identificações com os objetos primários (pai, mãe) de certa forma afasta a mídia como um fator estrutural construtivo no ser. Outra leitura que a metáfora trazida pelo filme permite, seria uma leitura psicanalítica: a constituição do sujeito humano.
Tausk, discípulo de Freud descreveu nos pacientes esquizofrênicos algo que, ele chamou de aparelho de influência. Estes pacientes sentiam que sua vida era observada cuidadosamente, que seus pensamentos eram comentados, que seu interior era vasculhado, assim como o espaço que eles habitavam era supervisado por forças estranhas e alheias a eles. A psicanálise postula que durante a constituição do sujeito psíquico os outros (a começar pelos pais) se instalam em seu interior como palavra e pensamento, como cuidados que o sujeito realiza consigo mesmo, como uma série de aspectos normativos e instrumentais que passam a constituir seu próprio ser.
Tudo isso que se origina no exterior, passa a ser ego sintônico, ou seja, algo que o sujeito sente em sintonia com seu ser e cuja origem não pode mais ser traçada até suas origens externas. Perde-se o elo que o une ao real.
Quando isso acontece, não se teria realizado uma adequada simbolização desse passado constitutivo, e por isso ele retorna como real. Através desse aparelho de influência o sujeito encontra uma forma de perpetuar esse passado de influências benéficas (ou não) e a proteção dos pais. Isto seria conflitante com os desejos de crescer e de abrir-se, por identificação com os pais, a experiências exogâmicas, que seria o que caracteriza a normalidade. Em outras palavras, a história de Truman mostra a passagem entre a alienação no desejo do Outro e a assunção do próprio desejo, o estabelecimento da própria subjetividade.
A relação entre Truman e a produção do show na televisão onipresente e onipotente, que o controla em tudo com suas cinco mil câmaras de filmar, impondo-lhe seu desejo, impedindo-lhe qualquer autonomia e escolha, seria uma possível representação da relação estabelecida por uma mãe narcísica que toma seu filho como prolongação dela própria para realizar seus desejos onipotentes.
Vemos no filme como todas as tentativas de autonomia apresentadas por Truman são imediatamente rechaçadas, invalidadas, desautorizadas, desestimuladas. Posteriormente ele é impedido e punido por tais tentativas. Fobias e sentimentos de culpa lhe são induzidas com este intuito. As imagens catastróficas da companhia de turismo desestimulam qualquer desejo de sair, de ir para longe; o medo através do rádio e da televisão e, até por meio de cartazes, alertando para o perigo de doenças, ataques terroristas e desastres naturais.
O que falamos até aqui, caracterizariam uma psicose. Uma relação narcísica, não castrada, fundida com o objeto primário, uma impossibilidade de assumir o próprio desejo, a própria subjetividade.
Vemos, entretanto, em TRUMAN, como este sistema narcísico começa a ruir na hora em que, Truman se interessa efetivamente, espontaneamente por uma mulher. É a emergência de seu próprio desejo, não mais aquele decorrente da manipulação externa. Truman estabelece sua relação exogêmica pela escolha da mulher estranha ao meio endogâmico, cuja imagem vai organizando aos poucos, numa colagem de lembranças e afetos, até constituir uma fonte de desejo amoroso. É interessante notar como o acesso a essa mulher é severamente reprimido, como vemos no encontro na praia, quando ela é sumariamente levada por homens.
A fala final de Christof, o criador do programa, tentando fazer Truman ficar no "útero", assegurando-lhe que a vida lá fora é também cheia de mentiras e enganos, e que aqui ele está mais protegido é a tentativa final e frustrada feita pela "mãe" para impedir que o "filho" possa fazer suas descobertas boas e más que o "mundo externo" inevitavelmente lhe trará.
Neste sentido, TRUMAN seria uma metáfora tanto da situação inicial da constituição do sujeito, como também da sua crise maior, aquela que se dá na adolescência.

“O livre-arbítrio”


O ser vigiado enfrenta o “diálogo” com o seu criador, Christof, que tenta convencê-lo a permanecer na cidade, usufruir Seahaven que é um “modelo de mundo”.
Christof com sua voz como se brotasse do sol entre as nuvens, numa clara associação com as aparições kitsch de Deus nas sagas religiosas hollywoodianas (seu próprio nome induz a isso, é o “Cristo - em off”), declama um discurso típico da mídia contemporânea, declarando que o seu real é mais perfeito que o real desconhecido do mundo fora do estúdio: existem as mesmas dores, os mesmos desapontamentos, mas tudo é pior porque fora de controle, não havendo um ideal pleno e monitorador dos acasos.
Mesmo assim, Truman decide. Adentra o escuro oferecido por uma porta que o liberta de um mundo previsível.
Truman prefere o mundo com suas relações imprevisíveis e, num ato de representação, sorri, curva-se ao grande espectador “Deus”, e abandona o paraíso artificial, o que nos parece uma associação ao Gênesis, onde o Éden é preterido face à curiosidade de Adão: a felicidade gerida por uma força superior é rompida por uma esfera desejante incontornável na figura humana que, mesmo lamentando a queda, parte para sua própria aventura.
A aposta é, enfim, no fantasma da liberdade, na quimera do desejo e, se pode diagnosticar o poder da mídia na sociedade contemporânea através de uma fábula exemplar, pois o filme aponta para a possibilidade da interferência, da interseção do singular no plural avesso ao globalismo de ordens dominantes o que, afinal, é incontestável: em todas as sociedades de corte totalitário, subsistiram sempre ideias e comportamentos de resistência, e todas elas acabaram por ruir. A Nova Ordem Mundial, ciente disso, caminha lado a lado à ilusão de liberdade, para destruí-la como conceito, sobrepondo o dístico: liberdade é consumo. Neste sentido caminha a indústria cultural, avessa à cidadania e às relações sociais sem pressões midiáticas. No sentido inverso, a arte disposta a não esconder sob simulacros a riqueza só inerente a um mundo imperfeito.
A sociedade ao mesmo tempo em que se aprisiona, assiste de suas celas/cidadelas a libertação da personagem. Torce por ela. Mas, se reforça em seu aprisionamento, consumindo o produto recomendado pelo merchandising do reality show. Assim, mal liberto Truman de seu espaço-simulacro, a audiência busca saber o que está passando em outro canal.
Truman preferiu sair da TV e entrar no mundo real. Essa opção do protagonista leva-nos a refletir sobre o conhecido “Mito da Caverna”, onde as coisas sensíveis são apenas “sombras imperfeitas das idéias preexistentes”.
Para melhor sintetizar as ideias de Platão; recorremos ao livro VII de “A República”, onde seu pensamento é ilustrado pelo “Mito da Caverna”.
Platão imagina uma caverna onde estão acorrentados os homens desde a infância, de tal forma que, não podendo se voltar para a entrada, apenas enxergam o fundo da caverna. Aí são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas, onde há uma fogueira.
Se um desses homens conseguisse se soltar das correntes para contemplar à luz do dia, “os verdadeiros objetos”, quando regressasse, relatando o que viu aos seus antigos companheiros, esses, o tomariam por louco, não acreditando em suas palavras.
A análise do mito nos remete ao “O Show de Truman” e pode ser feita pelo menos sob dois pontos de vista: o epistemológico (relativo ao conhecimento) e o político (relativo ao poder).
Segundo a dimensão epistemológica, o mito da caverna é uma alegoria a respeito das duas principais formas de conhecimento: na teoria das idéias. Platão distingue o “mundo sensível”, dos fenômenos, e o mundo “inteligível”, das idéias.
O mundo sensível, acessível aos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, e é ilusório: pura sombra do verdadeiro mundo. Acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das ideias gerais, das essências imutáveis que o homem atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos.
Sendo as ideias a única verdade, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que participa do mundo das ideias, do qual é apenas sombra ou cópia.
Voltando ao Mito da Caverna: o filósofo (aquele que se libertou das correntes), ao contemplar a verdadeira realidade e ter passado da “opinião” (doxa) à “ciência” (episteme), deve retornar ao meio dos homens para orientá-los.
Truman ignora o mundo das ilusões e não imagina que pode haver outra realidade, onde o conhecimento exige maior esforço. Assim, o mundo das ilusões é confortável, mas não é confiável.


“A dominação e o ser dominado”

Cristhof, principal responsável pela criação do mundo de Truman, foi perguntado, em uma entrevista para a televisão externa, o porquê de Truman nunca ter chegado perto de sair, de descobrir a natureza real do seu mundo.
Ele respondeu que as pessoas simplesmente aceitam a realidade do mundo no qual estão presentes, mas que se TRUMAN estivesse realmente determinado a descobrir a verdade não haveria como detê-lo. Aconteceu que Truman não estava mais aceitando essa “realidade de mundo” e ao buscar a “liberdade de consciência” enfrenta seu medo do mar e começa a velejar em direção à Sylvia, às ilhas Fiji, à emancipação, à liberdade! Sobrevive a uma imensa tempestade propositalmente provocada e chega, enfim, ao portão de saída. Após um rápido diálogo com Cristhof, que tentava persuadi-lo pela última vez.



Truman executa sua saudação padrão (de muito sucesso perante o público) – “caso não os veja de novo, tenham uma boa tarde e uma boa noite” acompanhada de uma enorme reverência e atravessa a porta levando ao delírio milhões de telespectadores que, de certa forma, também estavam se libertando do consumo desenfreado e irreflexivo.

De forma similar a Truman, o exercício do poder e da dominação sobre as pessoas, faz-se circular por canais cada vez mais sutis, captura os indivíduos, sua ação cotidiana, seus corpos. Onipresente nos objetos construídos, olhares vigilantes imiscuem-se nas mais íntimas formas de relações sociais.
A partir do olho imperceptível de lentes e chips, a sociedade é constantemente vigiada. Tecnologias sem fio, bina, celular, câmeras, células óticas, sensores eletrônicos de digitais, da íris, rastreadores, satélites significam tanto novas liberdades como nova escravidão. Nas ruas, lojas, supermercados, bancos, caixas eletrônicos, portarias, elevadores, deixou de ser constrangedora a presença disseminada do aviso simpático e ao mesmo tempo ameaçador: Sorria. Você está sendo filmado!
Uma eterna vigilância paira sobre edificações, equipamentos, veículos em movimento, e não só serve à segurança como ao controle.


“A cidade simulacro”

A cidade é aprisionada, intermediada pela tela. Tecnologias de informação e comunicação instalam o presente permanente (sem memória coletiva), o tempo real na irrealidade do espaço virtual. O espaço público das relações interpessoais cede lugar ao espaço privatizado, mediado por máquinas. O diálogo passa a ser teclado ou monitorado: instaura-se uma conversação muda, ou, se sonora, sem alma, sem tato, sem o calor da presença. A abertura planetária cria o isolamento dos indivíduos, cativos diante da tela, num processo de comunicação solitária.
A cidade se super expõe. Entrega-se à invasão imperceptível do interior dos espaços públicos e privados, e a mutação dos papéis. A instantaneidade dos meios de comunicação permite uma sucessão de eventos espetacularizados, banalizados, expostos a uma sociedade que a tudo vê, entretanto como espectadora e irresponsabilizada. O usuário, em permanentes deslocamentos, e não o habitante, marca a cidade. A arquitetura tem de adaptar-se aos interlocutores em trânsito, a transeuntes desconhecidos que impõem o risco. Como suporte, apóia-se na tecnologia da invasão: “equipada com objetos de controle, a porta da cidade deixa de ser o gate, o arco do triunfo, e passa a se constituir de ‘sistemas de audiência eletrônicos’, ‘pórticos magnéticos’, que interceptam o suspeito no trajeto”.
Bancos de dados sucedem aos portais e as redes não se inscrevem no tecido construído, mas na interface homem/máquina.
Concentração e objetos construídos dão materialidade e deixam perpassar os olhos do poder. Verdadeiros cenários que aprisionam e sintetizam a realidade: como revela Marlon, “nada do que se vê no Show (de Truman) é falso; é meramente controlado.”
Na cidade tornada palco, o citadino se destitui da capacidade criadora e transformadora, assumindo o perfil de consumidor do produto urbanismo, desvinculando-se de seu papel político enquanto agente da produção do espaço e da cidadania. Um citadino-objeto, associado à imagem da cidade sujeito, como um filho obediente, no colo de uma mãe dedicada.
Essa cidade, concebida para que tudo funcione equilibradamente, é apenas um simulacro no qual todos estão felizes, integrados, adaptados, cumprindo seus papéis determinados, sem imprevistos ou sobressaltos.
Resgatando de Baudrillard as ideias de “simulacro” e “hiper-realidade”, discute a recriação das cidades, a partir de uma “cópia exata de um original que já não existe – ou talvez nunca tenha existido: ele se adianta ao processo mais simples da simulação para criar farsas e fantasias ‘reais’ que funcionam não apenas como imagens e ícones, mas como parte de nossa realidade material”. A “cidade simulacro” se faz marcar pelo “crescente poder político e social das simulações do real como substitutos lógicos e comportamentais para eventos e condições materiais reais” implicando “uma mudança radical no imaginário urbano, nas maneiras pelas quais relacionamos nossas imagens do real com a própria realidade”.
A construção de tal simulacro se dá a partir da produção de um verdadeiro e cotidiano espetáculo, no qual os cidadãos, transformados em consumidores do tema proposto, tornam-se seus atores figurantes. A cidade é reinventada, tematizada, iconificada pelo uso abusivo do city marketing, que transfigura a organização original e fixa novos valores diretamente relacionados com o consumo imposto pela ideologia dominante. Desconstrói as possibilidades de participação política e elimina os pressupostos que permitiriam a gestão democrática do espaço urbano.
“SeaHeaven” se multiplica enquanto cidades planejadas/modelos de cidades, configurando uma imagem de equilíbrio e a materialização do consumo. Abusam da realidade virtual, da simulação e do mascaramento das assimetrias de poder, criando no imaginário coletivo a fantasia de uma cidade segura, civilizada, asséptica. Simples parques temáticos ou hiper-realidades concretas baseiam-se em redes industriais de serviços, articulando a mídia, o capital imobiliário, o entretenimento, em uma cultura pública do consumo de um espaço de qualidade. Multiplicam-se também enquanto que, partes da cidade, no formato de grandes condomínios comerciais e residenciais auto suficiente, shopping centres, espaços multiplex culturais e de lazer, grandes áreas revitalizadas, gentrificadas, business district centres ancorados por corporações comerciais ou financeiras entregam-se a não-lugares que se replicam em todas as geografias, pautados em um sistema de ações com intencionalidades globais que modificam a paisagem e estrangulam os hábitos. Traços originais do lugar são preservados apenas como cópias mal elaboradas de uma memória apagada. Em substituição, são criados ícones urbanos que se apropriam da história, outorgam valor ao solo e à cidade, segregando populações insolváveis e inserindo a urbs num mercado mundial de alta competitividade.
Tais espaços simulacros são mistos de cultura visual, controle espacial e administração privada que alimentam o desenvolvimento da cidade e encaminham o poder local para modelos público-privados de expansão de negócios. Indústrias do imaginário, em que todos obedecem a uma engrenagem que o trabalho comparece disfarçado de animação, ou em que a competência técnica projeta num cad a cidade do pensamento hegemônico, tornada “ideal” para todos os segmentos.
A cidade simulada para a perfeição enclausura, afasta a realidade da produção imperfeita do espaço e do cidadão. Omite as contradições inerentes ao espaço e à sociedade. Exorcisa a segregação (Baudrillard) num postiço mundo da sociabilidade cordial, por assim dizer ficcionalizada que, sob a fachada de um splendid new world, escamoteia o lado sombrio da violência, da pobreza e do trabalho precarizado.


“Parábola sobre o totalitarismo”

Outra leitura possível sobre o filme “O Show de Truman” é uma parábola sobre o totalitarismo (fábula ao regime soviético de então ou antecipação ao império norte-americano de agora?).
Christof (re) escreve a história e manipula a memória; cria o espaço ao qual detêm a personagem; molda a ideologia e faz prevalecer seu poder de dominação. Essa utopia negativa há muito tempo se tornou realidade. Vive-se hoje no mais totalitário de todos os sistemas, cujo centro é formado pelo próprio Ocidente democrático. Dessa maneira, a voz de Christof é a voz do mercado mundial anônimo.
Nessa leitura podemos nos reconhecer como os prisioneiros desse sistema amadurecido. Pequenos Trumans, em menor evidência, mas cativos do mercado, seduzidos pelo consumo subliminarmente imposto pelo merchandising do reality show, ao qual assistimos como substituto de nosso próprio cotidiano.
Truman rechaça a farsa, ao tomar conhecimento dela. Mas, a sociedade contemporânea, se entrega à manipulação por um poder central, que elabora o “pensamento” do indivíduo e recria o imaginário coletivo. Então, consente e até deseja, ser observada, afinal, para muitos, celebridade é ser visto, independente da circunstância. O objeto do desejo é estar no centro da cena, o que torna a sociedade de controle difuso em que “a exposição da privacidade é um valor, não uma tortura”.
Interpassivos, destituídos do espaço enquanto esfera pública, amendrontados com relação ao outro, despolitizados e invadidos na privacidade. Protagonistas ou figurantes? Poder e dominação, simulação e virtualismo, técnica e exclusão. Eis os elementos que nos levam a uma cidade vigiada.
O exercício de controle sobre o espaço urbano se aperfeiçoa e se expressa na arquitetura do medo. Barreiras físicas e de vigilância, muros, grades, guaritas, cercas elétricas, alarmes, sistemas de monitoramento, leitores infravermelho aperfeiçoam e diversificam a cidade carcerária, de Foucault, fazendo emergir a cidade-prisão, lugar em que a polícia substituiu a polis. Pouco diferente da cidade cenário que, mesmo de papel, enclausura, impede que Truman navegue para a liberdade.
O temor da cidade imperfeita, insegura, torna a casa, uma cela “confortável”. O contato com o mundo passa a ser cada vez mais mediado pela tela que, ao mesmo tempo, entretém e atualiza fatos sobre os perigos da rua. O reality show recria, dessa forma, a cotidianeidade abdicada pelo medo; e o olhar eletrônico desloca-se do debate e do conflito coletivo para colocar em destaque o conflito individual, absorvido pela passividade dos citadinos em viver seu cotidiano projetado nesse show da vida.
A cidade fragmentada em territorialidades afronta e recua, provoca e protege-se, enclausura-se em espaços vigiados; ao mesmo tempo vigia.
“A Escola de Frankfurt”
Os frankfurtianos, tendo lido Nietzsche, Freud, Heidegger, sabem que não podem aderir à razão inocentemente. Sabem que a razão não ilumina, não revela a natureza que emancipa do mito através da ciência. Afastam-se do cientificismo materialista, da crença na ciência e na técnica como condições da emancipação social, pois sabem que o progresso se paga com o desaparecimento do sujeito autônomo, engolido pelo totalitarismo uniformizante da indústria cultural ou da sociedade unidimensional. Por isso, o indivíduo autônomo, consciente de seus fins, deve ser recuperado. Sua emancipação só será possível, no nível individual, ao se resolver o conflito entre a autonomia da razão e as forças obscuras e inconscientes que invadem essa mesma razão.

V – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

- O filme começa justamente no momento em que ele passa a desvendar a intrincada equipe que o cerca e a mentira conspiratória que é sua vida.
- Fábula moderna sobre a crueldade dos meios de que uma sociedade avançada pode dispor para manipular os seres humanos.
- O filme lida com a questão do que é a ficção e o que é a realidade. O diretor utiliza-se de várias metáforas para convencer-nos de que realmente é possível estarmos vivendo uma vida artificial sem perceber e que os indivíduos não têm mais controle sobre o que é o público e o que é o privado.
- O culto à celebridade; a vida íntima das pessoas; a curiosidade mórbida que temos na vida dos outros; o mundo virtual; os “paparazzi” etc
- Grande simulação de realidade (tudo que nós passamos pode ser criado, inventado ou controlado) e se a vida é um programa de TV ela precisa de merchandising para se manter viva.
- O que eu quero ou o que a sociedade preparou para mim? Até que ponto o ser humano é livre para escolher seu destino? Quando estamos com outras pessoas somos nós mesmos ou representamos? Como a publicidade na mídia interfere em nossas vidas?
- Referência à liberdade interna, aquela que ninguém é capaz de tocar. Truman expressa essa afirmativa ao exclamar que nunca havia sido colocada uma câmera em sua cabeça e dessa forma, ele exerce essa liberdade em vários momentos; principalmente, quando se lembra de Sylvia, um amor espontâneo e também, quando decide por libertar-se. Aliás, a mulher que Truman esperava encontrar em Fiji simbolizava a sua esperança, que talvez tenha sido a grande catalisadora de capacidade de manutenção do espírito de liberdade.
- Discussão religiosa do paradoxo entre a divina Providência versus o livre-arbítrio. O que é mais importante: a vontade do criador ou a capacidade de escolha e decisão do indivíduo?
- A importância do autoconhecimento; afinal, por que Truman nunca desconfiou da farsa? Será, porque “as pessoas estão acostumadas a viver sem questionar nada ao seu redor”, como respondeu o diretor do filme?!
- Como somos descartáveis, como a vida só interessa realmente àqueles que fazem intimamente parte dela.
- Se nossa vida pode mesmo ser uma mentira, nós somos apenas a imensa propaganda de nós mesmos?

Trailer :