sábado, 21 de fevereiro de 2026

“A MORATÓRIA”, JORGE ANDRADE

ANÁLISE-CRÍTICA LITERÁRIA SOBRE A OBRA:A MA

1. A obra narra uma sociedade em vias de transição de extremamente agrária, para urbana. Qualidades e defeitos de toda uma classe são retratados, pela obra, em igual peso. Sentimentos de exaltação da dignidade via trabalho, confiança nos negócios, solidariedade familiar fazem parte de uma vida antes da crise. Preconceitos, orgulho, raiva dos familiares ricos, teimosia baseada nos hábitos antigos, incapacidade de educar filhos e de aceitar a nova ordem social pertencem ao mundo pós crise do café e falência do capitalismo.

As mulheres são mais dadas ao trabalho como forma realista de perceber a gravidade da situação e não fugirem à tentação romântica do sonho. Lucília, por exemplo, costura o tempo todo a fim de que não falte o mínimo para sobrevivência da família. Ela chega a abrir mão do casamento para viver a realidade dura de sua vida.

Os homens, no entanto, são mais afeitos ao sonho do passado. Quim, por exemplo, acha que receberá o café que vendeu fiado e pensa em reaver a fazenda. Seu filho, Marcelo, é um perdulário, beberrão e preguiçoso. Não foi educado para o trabalho e vive mole, sem contribuir em nada para que a família supere os tempos de crise.

A resignação de Helena, por exemplo, não pode ser considerada felicidade, tampouco a alternativa de trabalho encontrada por Lucília. O trabalho, para ela, não é uma opção, é um sacrifício, a ponto de pensarmos que a moça está presa àquela casa, aos pais.

No entanto, é em Quim que a percepção de que “tudo acabou” apresenta-se de maneira mais decisiva. Na cena final, quando descobre que nada mais há para fazer.

O resto de sua vida ele será um morto-vivo; o que é, de certa forma, um cadáver exposto.

“Joaquim: Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha filha. Não precisa ter medo. Eu... eu...‟

Poderíamos acrescentar: estou morto!

Em nenhum desses casos há o sentimento do romantismo. É como se a falência também secasse a emoção e a obra se tornasse dura, pesada. É como se a obra tivesse duas palavras que a sintetizasse cada uma em sua época. No passado, ESPERANÇA e no presente, DESESPERO.

2. A Moratória não aponta qualquer solução para o momento histórico que retrata. O objetivo primeiro, nessa peça, não é falar sobre a sociedade, mas mostrar um drama familiar que se desenvolve em um contexto social específico. E assim, Quim e sua família vivem seu drama como metonímia do drama dessa época.

3. Além da temática pessimista, em que passado e futuro tomam o lugar do presente, alijando a dramaturgia rigorosa do teatro clássico, Jorge Andrade não se atém as leis unitaristas de ação, tempo e espaço, ou tampouco a organização que vai da harmonia à desarmonia, adensando-se sua tensão.

Outra questão comum da tragédia é a destruição do herói, na qual uma nova forma e distribuição de forças ocorre com a morte.

Não há uma morte efetiva em A moratória, porém, percebemos que os personagens experimentam uma morte social, por um lado, e existencial por outro. Sobretudo o protagonista Joaquim, que vai se reduzindo a um fiapo humano, como bem representado metaforicamente na peça em sua mania de desfiar panos. Apesar de este personagem apresentar um otimismo e afirmar-se verbalmente com sua esperança durante toda a peça, a ação que ele mostra de fato não é algo sendo remediado, mas desfiado até desaparecer.

Desde o início, percebe-se que Lucília dispara um ditado popular: “[...]. O que não tem remédio, remediado está. ” (ANDRADE, 1993, p. 30).

Mais pragmática, ela costura para remediar/remendar seu destino, não sem dor ou amargura. Entretanto, para Joaquim, nada se remenda/remedia, e sim, se desfia.

O foco da peça é a perda que domina toda a família, e todas as falas da peça indicam esse estado amorfo em que se encontram. Em um momento negam, em outro omitem a verdade dos fatos, mas no fundo todos já sabem, com maior (Lucília) ou menor clareza (Joaquim), do destino trágico deles. Não existe volta possível à fazenda, tampouco à vida antiga. E a peça atenta para um estado de paralisia que provém da recusa dos personagens a aceitar um destino que se impõe, ao mesmo tempo em que se vivencia essa perda.

Cada personagem do núcleo familiar tem uma forma de experienciar seu destino. Joaquim, “cego” de esperança, só no fim sucumbe. Helena, sua mulher, é tolerante; embora tenha clareza do caráter irreversível da situação, reza para que a família volte a se estabilizar, pois esta é a única forma na qual consegue viver. Ela tem como certo que as recordações não podem ser apagadas. Marcelo não tem esperança; devaneia, bebe, não aceitando seu destino. Embora diga em um diálogo com o pai: “O que importa é aceitar ou não o presente. Esquecer, saber esquecer. (Pausa) [...]” (ANDRADE, 1993, p. 119), como se problematizasse seu destino, ensaia uma mudança, tenta trabalhar, mas não consegue verdadeiramente esquecer; é fraco, não tendo força para heroicamente mudar seu destino. Lucília, embora relute e também se desespere, tem a lucidez mais aguçada a ponto de perceber o caráter irremediável da situação em que vivem. Em um diálogo no segundo ato com Olímpio – com o qual viveu um namoro, no momento suspenso –, ao recusar o noivado com o rapaz, explicita como vê seu destino:

É muito mais grave do que parece. Você está pensando na situação financeira em que vamos ficar e eu não. Sinto que todos nós vamos ser envolvidos e, depois, não poderemos mais ser os mesmos. Não é só a fazenda que estamos ameaçados a perder. (ANDRADE, 1993, p. 106).

Todos lamentam, ninguém de fato aceita os fatos concretos, e Joaquim experimenta a morte em vida, sucumbindo a seu destino trágico.

A cena final compõe o quadro do desespero familiar que essa tomada de consciência produz. Lucília cai sentada na máquina soluçando fortemente (depois é retirada por Olímpio da sala e da cena), Helena caminha lentamente e se posiciona atrás da cadeira onde está sentado Joaquim, pondo a mão em seus ombros, e Marcelo senta-se no banco. E a peça termina com as falas dos três em murmúrios desconexos, cada qual dentro de seu próprio mundo, remoendo suas perdas.

Essa cena pode ser pensada como uma foto de família que retrata, para a posteridade, não a potência de uma unidade familiar, mas o desarranjo trágico de seus personagens dentro dessa unidade. Os pais ainda mantêm a pose de foto de família, mas em alheamento mórbido, e os filhos ou deixam a cena (Lucília) ou estão “desfocados” (Marcelo, sem lugar, sentado no banco no mesmo espaço onde estão os pais, mas não junto deles).

 

4. Ainda que Joaquim saia da fazenda carregando uma esperança de retorno, compreendemos de imediato que essa consiste apenas num escudo para protegê-lo da realidade. Enquanto ouvimos os sons dos machados a destruir as cerejeiras, vemos Joaquim aflito perante o destino do seu amado jabuticabal. As árvores simbolizam um mundo de belezas sendo engolido pela praticidade da nova ordem, que não admite o desperdício, já que elas não têm função econômica dentro das fazendas.

 

5. Em Jorge Andrade, não há a ideia de cidade como "promoção social", mas, ao contrário, a família de Joaquim é vista pela perspectiva da perda da propriedade, do espaço, dos referenciais de vida. Ao situar a tradição de Joaquim, o dramaturgo informa o leitor acerca da existência de um passado distante, no qual as relações eram permeadas por outros valores. Suas reminiscências atualizam um passado saudoso, que mais lembra uma "idade do ouro perdida", na qual o espaço familiar norteava as relações pessoais e inclusive as mercantis. Na evocação de Joaquim, um passado fundador é recuperado, a memória individual vai chamando as experiências esquecidas e desvelando os conflitos do presente em face das inúmeras mudanças, dentre elas: a passagem para a cidade e a fugacidade do tempo.

Os personagens de Jorge Andrade representam, portanto, homens que caminham no limite dessas transformações. Trazem permanências de tempos que se transformam, mas convivem com a emergência de novos valores e novas formas de produção da vida.

 

6. É a ação de Joaquim, ao olhar o quadro na parede, que anuncia para o espectador a existência de um outro plano de acontecimentos. Assim, o plano rural (1929) é revelado com a entrada de Helena – esposa de Joaquim – em cena.

Nas suas falas, o leitor/espectador começa a ser informado acerca de uma possível crise financeira de Joaquim. As dificuldades são decorrentes da falta de chuva, mas, aos poucos, vai se percebendo que a situação do fazendeiro se origina também de problemas financeiros adquiridos com o plantio e mercantilização do café.

No prosseguimento da narrativa há a volta ao plano urbano (1932). É significativo perceber no texto os sutis mecanismos que Jorge Andrade vai utilizando para oscilar entre um plano e outro e, assim, construir duas histórias em tempos distintos, conseguindo, dessa forma, não confundir o espectador.

 

7. A procura pela formação superior como uma das vias de ascensão social é um fato que remonta ao início do século XIX. Seja no campo ou na cidade, o dinheiro e a instrução foram importantes determinadores das relações de poder. O personagem Olímpio, no século XX, é uma exemplar representação da capacidade de permanência dessa figura:

(...) O diploma universitário tornava-se para muitos a promessa suprema da ascensão social e a entrada nas universidades era bem mais procurada por causa desta esperança, do que com o fim de adquirir algum saber ou alguma eficiência.

Torna-se difícil dissociar as falas de Olímpio do meio do qual ele é originário, o que permite desvelar as suas intenções como personagem. Olímpio aparenta ter consciência das verdadeiras causas da crise da família de Joaquim. Mas, ainda assim, no seu consolo a Lucília, diz haver sempre uma solução. A ambiguidade aqui se apresenta, pois o que se vê é a tentativa de Olímpio em salvar a união com Lucília, mas, ao mesmo tempo, suas falas deixam transparecer que não há nenhum outro caminho para a decadência dos fazendeiros. O posicionamento de Joaquim diante das circunstâncias fica claro na seguinte passagem:

Olímpio: (Pausa) Sei o que sente. Acha humilhante depender de mim, o filho do inimigo político de seu pai. Como se casamento fosse só isto: combinação de fortunas ou de partidos políticos. Nunca aprovei esta mentalidade e espero que isto acabe de uma vez. Sempre achei vergonhoso o que meu pai fez ao seu e o que o seu fez a muita gente. Esse coronelismo que não reconhece razão a ninguém, que destrói tudo, que é cego!

Se Olímpio é a representação do profissional liberal em ascensão, Joaquim não deixa de simbolizar uma variação do típico "coronel". O dramaturgo, em A Moratória, localiza essas duas figuras, seus enfrentamentos e suas alianças em 1929.

 

8. Ao ler um jornal, Joaquim menciona palavras como: 'ditadura' e 'PRP', o que imediatamente remete o leitor ao processo histórico pelo qual o país passou por volta de 1930, exatamente o momento de contextualização da unidade de tempo e ação da peça de Jorge Andrade.

Ao deixar o jornal, Joaquim volta-se para Lucília, quando então começam a falar de crises política e familiar, discussão que os leva a revelar, nos seus subtextos, as dificuldades que cada um sofreu em decorrência da crise cafeeira de 1930. As inúmeras perdas são verbalizadas: Joaquim, a fazenda; Lucília, o matrimônio. Nesse movimento, incluem-se Marcelo e Helena: o filho foi privado da liberdade anterior, já Helena não mais sente a tranquilidade da estrutura familiar, calcada em valores construídos no âmbito da aristocracia rural.

O dramaturgo reforça a insatisfação dos personagens quando nota o nivelamento social a que foi relegada a família do fazendeiro, dentre eles, a preocupação com as aparências, com a manutenção de certa pompa já perdida.

 

No terceiro ato surge uma das mais belas e sensíveis cenas escritas por Jorge Andrade. Nela estão Helena e Joaquim na situação de despedida das terras. Mas, para construir o estado de solidão e abandono do casal, o dramaturgo recorre a vários momentos curtos e marcantes: a relação afetiva de Joaquim com a casa de fazenda, com as coisas que no dia a dia o cercam: balaústre, porta, forro do quarto, a plantação de café e o cheiro de terra molhada que entra pela noite com a chuva. Joaquim volta a recordar o hábito de sempre levantar cedo, o tempo em que namorou e depois se casou com Helena, o estilo de vida de seus antepassados, a vida na cidade e, enfim, o medo de deixar as terras. São elementos que vão expondo o apego às coisas e ao passado e, ao mesmo tempo, vão expondo a fragilidade de Joaquim. O dramaturgo vai minando, corroendo as certezas do personagem, elevando-o a um estado patético.

As formigas roendo as madeiras da casa – uma bela metáfora desse estado de passagem do tempo que Joaquim está sofrendo. É interessante perceber a relação de Joaquim com o relógio de parede; sendo um presente de seus antepassados, figura como um elemento central nas peças de Jorge Andrade.

Sobre os laços com seus antepassados, suas heranças e a relação com o tempo, que não perdoa a quem se esquece de notá-lo, Joaquim fala:

Joaquim: O pessoal de hoje é muito "perrengue". Só sabe ficar na cidade, fazendo o que não deve! (Pausa) Quero morrer como meu avô: caçando. (...) Meu avô comeu a matula e sentou-se encostado ao tronco de uma árvore. Quando os outros caçadores chegaram já estava morto. Um dos cachorros estava deitado em sua perna... e ele parecia dormir! (...) [o relógio]... foi presente de casamento de meu avô ao meu pai. Sabe? Meu avô tinha um propósito. Os antigos não davam nada assim sem mais nem menos. Sabiam sempre o que era mais útil. Junto com o presente veio a recomendação: "Meu filho! Não deixe nunca o sol pegar você na cama e saiba dividir o seu tempo, que tudo..." Disto ninguém poderá me acusar, Helena, em toda a minha vida, só aquela vez quando tive maleita não vi o sol nascer.

Essa atmosfera provocada pelo personagem Joaquim é uma visão mítica de sensibilidade, na qual a natureza opõe-se aos avanços do mundo urbano industrializante, pois (...) as virtudes são encaradas como coisas claramente passadas, pertencentes a uma época anterior, perdida, da vida rural. 

 

Na segunda cena deste último ato, o que se encontra é a insuportável sensação de Lucília ao ter que falar com sua tia sobre o seu vestido. Ajoelhada aos pés de Elvira, é visível a humilhação de ter que fazer a barra do vestido da tia e, ainda por cima, ouvi-la falar que não suporta mais ajudar "asilos". Nesta cena, o leitor/espectador fica sabendo das relações de Elvira com a família de Joaquim. Sabe-se, desta forma, que após a perda da fazenda ela sofre uma crise de consciência, passando a ajudar o velho "Quim", mas ainda assim fica relatando a Lucília, com desdém, os favores prestados.

Revoltada com as acusações da tia, Lucília comenta:

Lucília: Isso mostra bem o que a senhora é. A verdade é que deixou a nossa fazenda ir à praça e ser arrematada por gente que não tinha o menor amor às nossas terras.

Ao se despedirem da casa da fazenda, Joaquim consola Helena e, como lembrança, leva um galho de jabuticabeira. Em momento algum falam que estão deixando ou perdendo suas ligações com aquele espaço, mas procuram maquiar sua dor assumindo ser apenas uma viagem. De forma alguma aceitam ser uma viagem sem volta.

 

Mais uma vez, o dramaturgo antecipará a última cena para cruzá-la com a terceira; contrasta assim a despedida da casa rural com os fatos do plano urbano, quando Helena aguarda a chegada de Joaquim para anunciar-lhe a recusa da nulidade do processo judicial e que, tampouco, houve alguma moratória por parte do governo. Nesse sentido, o dramaturgo coloca em cena, simultaneamente, as perdas de Joaquim em distintos tempos: tanto em 1929 quanto em 1932. O que marca a vida de Joaquim é a "derrota" que o segmento social, do qual faz parte, sofre com o decorrer dos fatos.

No encerramento do texto, percebe-se uma certa apreensão por parte de Helena e Lucília, que, na dúvida, não sabem o que fazer e nem qual informação dar a Joaquim sobre a perda do processo. Acreditam até que a mentira seja a melhor verdade para o velho "Quim". A chegada do ex-fazendeiro é marcada pela angústia. Sentado e desfiando um trapo de pano, recolhe-se na sua dor. A reação de Lucília é surpreendente: no seu desespero, solidariza-se com a melancolia do pai, pois, como Joaquim, acreditou no retorno às terras.

Lucília e Olímpio saem "abraçados". Marcelo, sentado num canto, pouco interfere no triste e angustiante diálogo final entre Helena e Joaquim:

Joaquim: Abril! (Pausa) O café está sendo arruado! (As luzes vão abaixando lentamente)
Marcelo: Já não se houve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!
(As vozes se transformam num murmúrio e as luzes se apagam definitivamente).

 

 

 



 

 


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