"Mulher
com chapéu" (1940), de Di Cavalcanti
Publicado em 1885 na Gazeta de
Notícias (depois no livro “VÁRIAS HISTÓRIAS”, em 1896) e mais amplamente
inscrito em um período de intensa criação de Machado de Assis em contos, “UNS
BRAÇOS” é um texto recorrente nas diversas coletâneas didáticas, críticas e de
divulgação do autor, que revela a expressividade fortemente unívoca dos
aspectos contextuais, temáticos e estilísticos da escrita machadiana.
A ação está restrita à brevidade
temporal e quase somente ao ambiente doméstico, urbano, mais precisamente na
Rua da Lapa, em 1870, pouco tempo depois do término do Romantismo. É possível
observar que algumas características do Realismo vão surgindo, mesmo que
suavemente, já que Machado está à frente do seu tempo e anuncia a tendência que
está por vir.
O foco narrativo é de terceira
pessoa que conduz quer contar em paralelo os sucessivos pensamentos das
personagens, reforçando uma composição de múltiplos pontos de vista sobre a
realidade, bastante relativizada, assim como é uma voz que omite ou desconhece
algumas causas da ação, demonstrando ser a realidade também escorregadia e
ilusória, com o efeito último de problematizar o paradigma da representação
realista. Indo além, a colocação dos eventos mais importantes da narrativa na
esfera íntima das relações amorosas complica ainda a percepção romântica do
real, trazendo o amor para o mesmo jogo de incertezas.
Primeiramente, pode-se tentar
reconstruir as identidades das TRÊS PERSONAGENS que compõem a cena de abertura
da história, que são conhecidas aos poucos, para entender o diagrama de suas
forças idiossincráticas e sociais.
É a história de INÁCIO, jovem
de 15 anos que foi retirado do seio de uma família modesta, composta pela mãe,
pelas irmãs e pelo pai barbeiro, cujo espírito de grandeza (principalmente
financeira) ao vislumbrar o futuro do filho fizera com que ele confiasse Inácio
ao solicitador (funcionário do Judiciário, algo entre procurador e advogado)
BORGES, para ser aprendiz na profissão burocrática da procuradoria judiciária.
A mudança na vida de Inácio
foi drástica, pois ele precisou ir morar no quarto dos fundos da casa do
patrão, não desfrutando da usual intimidade familiar, sendo obrigado ao
desgosto de um trabalho que exercia sem vontade nem habilidade, e vivendo sob a
proteção de um homem que parecia estar longe de um ideal de figura paterna, ou
mesmo de patrão.
Essa dependência durava cinco
semanas quando o conto se inicia (note que nesse conto Machado mostra o dom que
possui para narrativas memorialistas. Veja também o seu início abrupto, sendo o
leitor jogado de chofre no meio da história, técnica chamada de in media res) com Inácio sendo acusado
de algo que o fazia sofrer os grosseiros impropérios de Borges, “a preguiça do corpo”, o “sono pesado e contínuo” (p. 377), o “devanear à larga” (p. 378).
Seu novo estilo de vida,
dentro do quadro social brasileiro da época de Machado, hierarquizado entre os
extremos da ordem senhorial dos proprietários e da ordem dos escravos, libertos
ou não, correspondia à rubrica de dependente, já que agora dependia dos favores
(moradia, alimentação e educação profissional) de alguém pertencente a uma
classe superior. Pouco superior, nesse caso, porque o pai de Inácio também era
um trabalhador assalariado como Borges, que, inclusive, para manter sua
condição, “trabalhava como um negro”
(p. 380).
Outro aceno importante
presente na cena do jantar é a interpretação metafórica dos signos não-verbais
da realidade, como o corpo, seus gestos e movimentos, em signos verbais, em
linguagem ou língua escrita. Tem-se, de início, apenas a figura de um Borges
ruminante, que “abarrotava-se de alface e
vaca” (p. 378) ruidosamente, como se assim fizesse seu discurso agressivo
contra Inácio ressoar ainda nos pobres ouvidos do empregado, até suspendê-lo
com “vírgulas” de vinho.
Mas surgirão posteriormente
desdobramentos dessa concepção das coisas como recursos discursivos,
gramaticais, simbólicos, ou seja, como mediações das palavras, e não como
coisas em si. Além disso, a mastigação de Borges é narrada de um ângulo menos
distante e idealizado do que poderia ser aquele do pai de Inácio, a quem o
solicitador parecia uma figura respeitável, de certa importância, o que já
começa a demonstrar a relatividade das percepções.
O segundo membro da célula
familiar de que Inácio se aproximara é D. SEVERINA, A MULHER DOS BRAÇOS COBIÇADOS,
única razão de seu admirador não fugir daquela casa, que vivia com Borges
“maritalmente, há anos” (p. 377), o que institui a figura da esposa não
consagrada pelo matrimônio.
Deve-se lembrar que na época
em que se passa a história, 1870, não era comum uma mulher exibir tal parte do
corpo. Mas, antes que se pense que ela era despudorada, deve-se lembrar que só
o fazia por passar por certas dificuldades que tornava o seu vestuário falto de
peças mais adequadas.
Ainda assim, os breves
momentos em que via a mulher e principalmente os braços dela eram, para Inácio,
o grande alívio diante de um cotidiano tão massacrante.
BORGES repreende INÁCIO por
andar tão distraído, confundindo papéis e errando casas. Logo em seguida, o
narrador faz a seguinte observação acerca de Inácio:
Cabeça
inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer
saber e não acaba de saber nada.
Inácio
ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para
colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs.
Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de
D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Durante as refeições, Inácio
procura ao máximo prolongar sua permanência na mesa para poder continuar na
presença de D. Severina:
Inácio
demorou o café o mais que pode. Entre um e outro gole alisava a toalha,
arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos
quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros
trazidos de festas encaixilhados em casa.
Severina,
por sua vez, trazia sempre os braços nus à mesa, podendo-se tratar de uma
provocação, ainda que inconsciente, mesmo se já gastara todos os vestidos de
manga comprida que possuía.
Até que um dia D. Severina
percebe o interesse que desperta no moço. Demora a aceitar, pois considera-o
apenas uma criança. Mas, quando vê o homem já na forma do menino, entra num
sentimento conflitante, misto de vaidade e pudor. Por isso oscila entre tratar
mal o rapaz e mostrar preocupação com o seu bem-estar.
Inácio
começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase tanto como
o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até
meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por
outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso
era curto.
Era um “amor adolescente e virgem” (p. 381), puro em razão da inexperiência
e sofreguidão emocional do moço, mas era impuro por escolher uma mulher
proibida.
O sentimento de Inácio era “confuso, vago, inquieto, que lhe doía e
fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor”.
Nesta passagem, Machado descreve exatamente o sentimento da paixão, que é por
si só algo contraditório, dúbio e perturbador.
Trata-se, aqui, do despertar
sexual do rapaz que implica diversas impossibilidades: ao apontar a diferença
de idade entre Severina e Inácio, Machado é elegante e delicado; prefere a
sugestão em vez da obviedade. Primeiro anuncia a idade do menino: “Tinha quinze anos feitos e bem feitos”,
para mais a frente deixar-nos à par da idade da senhora: “Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos”.
Severina não só é mais velha
(quase o dobro da de Inácio), ela vinha de uma classe superior e era casada, e
ambos estão inseridos na sociedade oitocentista, impregnada de valores morais e
sociais muito rígidos.
Inácio, porém, não é o único a
ter comportamentos contraditórios. Severina adota uma postura essencialmente
ambígua, contraditória e misteriosa.
D. Severina, na sala da
frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou
alguma coisa.
Rejeitou
a ideia logo, uma criança! [...] Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que
entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que
admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi
rejeitada, antes afagada e beijada.
D. Severina, primeiro, recusa
a ideia de que o rapaz estivesse mesmo demonstrando interesse, para logo depois
descartar essa rejeição, afinal, ela não
podia ser amada ou desejada? Depois, passa a imaginar Inácio de forma
sexualizada, em seus traços físicos da puberdade, para, enfim, procurar
justificativas para a atitude do rapaz, por querer, justamente, se sentir mais
viva, e consequentemente, menos submissa, assim, passa também a devanear e a
assumir um comportamento semelhante ao do rapaz: “há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente
as sacuda, elas tornam e pousam” (p. 379).
Trata-se de um quadro de
adultério pintado com suaves tintas por Machado de Assis, cuidadoso que é na
estruturação de suas histórias, nunca ferindo as vistas dos leitores.
A profundidade do caráter de
Severina é perceptível até mesmo por sua descrição física:
Não se
pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum adorno; o próprio
penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os
no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um
lenço escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e
sólidos.
Ao descrever seus anos como
floridos e sólidos, o autor contrasta o viço de sua beleza com a sua situação
social e sua postura diante do casamento.
Logo vemos a sexualidade reprimida diante dos fatores sociais. Esse
conflito vai achar refúgio nos sonhos e insinuações inocentes de Inácio, que
não consegue esconder as distrações à mesa, os olhares indiscretos e o fascínio
por seus braços. Dona Severina apaixona-se antes por sua própria beleza, ao
descobrir-se desejada e dá vazão aos seus sentimentos, talvez porque seu marido
não demonstrasse afeto ou ela achasse impossível ser notada por um jovem de
apenas quinze anos.
Na passagem seguinte, a
atitude do solicitador pode ser uma simples repressão, mas pode ser também que
estivesse desconfiando de algum interesse por parte de sua mulher e de seu
escrevente. Trata-se de um vazio que o texto cria e que o leitor deve resolver
sozinho, porque a narrativa machadiana não se compromete em resolver os
conflitos que ela mesma cria:
- Que
é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns
minutos de pausa.
- Não
tenho nada.
-
Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um
bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...
D. Severina pega de surpresa
dissimulou seus pensamentos, entabulando uma conversa sobre sua comadre para
fugir à ameaça “de um bom remédio para
tirar o sono aos dorminhocos”, proferida pelo marido que, mais uma vez,
esteve “fuzilando ameaças” sem
cumpri-las e provou ser “antes grosseiro
que mau” (p. 380). Pouco depois, estando convencida de que descobrira uma
verdade moralmente reprovável, “chegou a
pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho” (p.
380).
D. Severina, no entanto, “aqui estacou: realmente não havia mais que
suposição, coincidência e possivelmente ilusão”. Será que agora tinha dado a inventar coisas? “Não,
não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho,
o acanhamento, as distrações, para rejeitar a ideia de estar enganada” (p.
380).
D. SEVERINA dividida entre o
sim e do não, dentro do labirinto em que o narrador fecha também o próprio
leitor, a despeito de este conhecer as intenções de Inácio, D. Severina decidiu
interromper suas conjeturas e se voltar à objetividade da observação minuciosa
do mundo exterior: “refletindo que seria
mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de
observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das coisas” (p. 380).
A sujeição feminina
encontra-se também manifesta na passagem em que Severina teme acariciar seu
próprio marido por medo de irritá-lo ainda mais: “fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais”. Porém,
como quem se indigna com essa submissão, Severina tem atitudes mais que ousadas
para uma senhora casada inserida na sociedade brasileira oitocentista. Como
achasse por bem observar o rapaz Inácio antes de tomar uma atitude inapropriada
e precipitada, aceitou estrategicamente que tudo fora apenas ilusão, e “percebeu que sim, que era amada e temida,
amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um sentimento de
inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo.”
Perdida nos extremos de sua
realidade íntima, trata Inácio mais secamente, chegando, às vezes, ao
contrário, a dedicar-lhe meiguice e atenção. Além de sua inconstância, o
narrador mostra também os titubeios do jovem após percebê-la, a vontade de ir
embora, uma ideia que nunca se concretiza e sempre permanece em segundo plano.
- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais. Não
foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira
outros tão bonitos e tão frescos.
O próximo comportamento de D.
Severina foi oferecer a Inácio todos os seus cuidados, desencadeando no moço
algumas reações adversas.
“Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e
não via mulher, ao longe ou ao perto, que lhe não trouxesse à memória” (p.
381), e, em casa, estava inquieto, sem entender e dormindo mal. O rapaz
realmente sofria sua paixão, já não se encontrava e até começava a deixar de
ser o pródigo dorminhoco de antes, porque, com as novas esperanças vindas com o
carinho que recebia, “acordava de noite, pensando em D. Severina” (p. 381).
Esse triste insucesso começou
com “a mesma linguagem obscura e nova de
D. Severina” (p. 382) cantada pelo mar, avistado, através da janela do
quarto, pelo solitário Inácio. Era como se o fluxo e influxo das ondas não
fossem coisas reais, mas signos a serem interpretados, mediações linguísticas
que, em sentido último, enfraquecem a perspectiva de uma realidade una,
transparente e sem contradições.
Já um pouco hipnotizado e como
estivesse cansado, pois “dormira mal a
noite, depois de haver andado muito na véspera” (p. 382), começou a ler o
folheto da História da Princesa Magalona, filha de El-rei de Nápoles, e do
nobre e valoroso Pierre, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos e
adversidades que passaram, difundido no Brasil junto a outros folhetos
populares de cordel, por volta dos anos de 1860 e 70. Comparou a heroína desse
livro de origem medieval e de todas as outras histórias antigas à D. Severina,
mas quem serviria ao papel da princesa capturada, de quem o bravo herói,
cavaleiro ou príncipe, se aproxima para salvá-la do sono mais profundo com um
beijo apaixonado, seria ele próprio, outra Branca de Neve, Bela Adormecida ou
até Julieta de Shakespeare, que, dessa vez, fez falhar a profecia romântica.
Mesmo que Inácio fosse o nobre e valoroso cavaleiro medieval da época da
Princesa Magalona, havia demasiado torpor em seu olhar a aproximação da “dama de seus cuidados”, com braços
passivos que não foram ao encontro dos de D. Severina. Enfim, ele dormia.
Pena
ter ele justamente ido recuperar a noite de insônia na hora errada,
causando, por esse infortúnio, o fim de seu caso amoroso com tão lindos braços...
Essa frase já aponta para o
próprio final do conto, e poderia mesmo ser repetida, em se tratando de um
adiantamento de expectativas.
A simultaneidade temporal das
ações e do sono de Inácio vivida na sala próxima ao seu quarto é imediatamente
revelada. D. Severina sofria sintomas de loucura e criava pretextos para ir
vê-lo, julgando-o doente. A visão angelical do moço dormindo, apesar de tocar
seu coração, convenceu-a de que estava diante de uma criança. Convenceu a si
mesma com a argumentação do sentimento, “naquela
língua sem palavras que todos trazemos conosco” (p. 383).
D. Severina aproxima-se de
Inácio dormindo na rede e dá-lhe um leve beijo na boca. Enquanto os pensamentos
e impulsos de D. Severina davam reviravoltas, um primeiro incidente veio
confirmar a compleição um tanto infantil de Inácio: ele não acordou com o
barulho da tigela derrubada pelo gato ali perto, que sobressaltou a senhora.
“A criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos
contíguos, nem os beijos de verdade” (p. 383-4).
Depois do beijo dado por D. Severina
no moço dorminhoco, que, naquele exato momento, sonhava ser beijado pelo mesmo
beijo, ela sentiu primeiramente medo, em seguida vergonha pelo ato incestuoso
de se aproveitar de um filho inconsciente, e irritação por ele talvez estar só
fingindo que dormia. Sentia e pensava isso tudo sem a certeza de nada. Já
Inácio só tinha a certeza de que sonhava e de que nada havia interrompido suas
horas de descanso até o jantar, durante as quais “ouvia as palavras dela, que eram lindas, cálidas, principalmente novas,
ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que o
entendesse” (p. 383). A linguagem do amor só podia ser por ele interpretada
em sonho, longe de sua amada real.
Uma semana depois do beijo
“sonhado”, Borges dispensa o garoto de forma admiravelmente amistosa sem
nenhuma razão exata. O menino não vê mais D. Severina, guardando a sensação
daquela tarde como algo que não ia ser superado em nenhum relacionamento de sua
existência.
Por fim, na conclusão do conto, tem-se a fusão do sonho com a realidade. Inácio está dormindo em sua rede, e sonha com Severina encarando-lhe de frente, pegando-lhe nas mãos, cruzando-as nos braços, e dando-lhe um beijo na boca. Este exato momento do sonho coincide com a realidade, pois que Severina de fato beija a boca do rapaz para de imediato sair do quarto, assustada, confusa e arrependida com sua atitude. E não somente por vergonha, mas como forma de punir a si mesma por tamanha ousadia, Severina passa a cobrir os braços à mesa, mas também como punição ao próprio rapaz, a quem ela atribui uma parcela de culpa. A princípio Inácio não percebe que o famoso par de braços não mais está à vista, tão embriago pela sensação do beijo. Ao final, o rapaz deve ir embora da casa do comendador, mas não consegue se despedir de Severina, que inventa uma forte dor de cabeça. O mocinho jamais saberia que não foi um mero sonho, muito embora nunca tenha achado sensação igual à daquele domingo.
Por fim, na conclusão do conto, tem-se a fusão do sonho com a realidade. Inácio está dormindo em sua rede, e sonha com Severina encarando-lhe de frente, pegando-lhe nas mãos, cruzando-as nos braços, e dando-lhe um beijo na boca. Este exato momento do sonho coincide com a realidade, pois que Severina de fato beija a boca do rapaz para de imediato sair do quarto, assustada, confusa e arrependida com sua atitude. E não somente por vergonha, mas como forma de punir a si mesma por tamanha ousadia, Severina passa a cobrir os braços à mesa, mas também como punição ao próprio rapaz, a quem ela atribui uma parcela de culpa. A princípio Inácio não percebe que o famoso par de braços não mais está à vista, tão embriago pela sensação do beijo. Ao final, o rapaz deve ir embora da casa do comendador, mas não consegue se despedir de Severina, que inventa uma forte dor de cabeça. O mocinho jamais saberia que não foi um mero sonho, muito embora nunca tenha achado sensação igual à daquele domingo.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS:
1.
D. SEVERINA:
- Magalhães de Azeredo faz uma
observação muito pertinente em se tratando das figuras femininas de Machado de
Assis, e que se aplica muito bem a D. Severina, cujo nome já aponta para certa
perversidade e consequente sedução, ou, conforme o próprio nome, severidade
mesmo:
As
mulheres, evocadas por Machado de Assis - para quem o eterno feminino é um
vasto elemento moral -, têm de ordinário uma soberania de beleza, de sedução,
de resistência ou mesmo de virtude, que lhe confere a vitória na luta com o
sexo rival. Perversa, em rigor, não vejo nenhuma; perturbadoras há muitas, e de
penosa decifração.
- Dona Severina tem
personalidade complexa, pois muda de postura no decorrer da trama, deixando-se
envolver pela possibilidade de um romance extraconjugal. Embora os valores
morais resistam ao desvio de conduta da jovem senhora, a preservação da família
burguesa triunfa no final da trama.
- Machado lança a temática do
adultério feminino, ainda que suavemente, assunto nunca abordado anteriormente
por outros autores e que viria a ser uma das principais chaves para o Realismo
em ascendência. É justamente o final da trama que marca a decadência romântica,
já que os desejos de Inácio não são extravasados, como é comum no
Romantismo.
- No que concerne ao papel
feminino da época as mulheres tinham maior dependência e viviam sobre o domínio
dos homens, não possuíam desejos próprios como exercer uma profissão e, para
muitos homens, a mulher era vista apenas como uma pessoa doméstica, para cuidar
da casa e dos filhos e porventura satisfazer aos desejos carnais sem nenhum
tipo de carinho.
- As mulheres machadianas para
quem o eterno feminino é uma vasta figura moral, têm de extraordinário uma
soberania de beleza e sedução. Vemos isso em D. Severina quando ela passa a
gostar de si mesma.
- Outra interpretação possível
pela aproximação de D. Severina seja a idealização em Inácio do filho desejado.
Dona Severina compensa ou justifica seu interesse no menino alegando ser ele o
filho que ela nunca tivera e por isso cerca-o de tantos mimos e recomendações:
"D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da
voz parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um
dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria
depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe
lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão."
O motivo de tanta brandura
poderia ser para realmente confirmar os sentimentos de Inácio para com ela, ou
já uma forma inconsciente de aceitação e retribuição desse sentimento, usado
para suprir alguma carência afetiva ou mesmo capricho. O fato é que depois do
beijo dado em Inácio adormecido na rede desfez todas as suas certezas e a
vergonha tomou de conta de seu ser, seja porque foi capaz de fantasiar algo tão
intensamente, indo tão longe em seus atos, ou porque o rapaz não correspondeu
suas expectativas, ou ainda por medo de ser descoberta e perder sua posição
social tão valorizada na época.
2.
FANTASIA E REALIDADE:
- É perceptível no decorrer da história a oposição entre a fantasia e a
realidade, onde os sonhos de Inácio se confundem com as reações sucintas e
gradativas de Dona Severina. O que é realidade para um, é sonho para o outro;
eis o grande conflito da história. Os universos das personagens nunca se
encontram e na única oportunidade de se cruzarem, o sono pesado de Inácio é o
motivo de frustração desse sonho. O “final feliz”, portanto, não acontece, nem
mesmo o reconhecimento recíproco de sentimento entre os personagens; ao contrário,
o que existe é uma confusão e a desilusão, os sonhos perdidos na própria
realidade.
- Em “Uns braços”, o sonho
vira realidade, a realidade, sonho, linguagem simbólica. Então, o que teria
dito a Borges D. Severina? Desculpas inventadas que provassem ser Inácio
importuno naquela casa? Mentiras bobas que não a incriminassem? Ou nenhuma
palavra, deixando que o marido naturalmente percebesse que não valia a pena
investir naquele moleque irresponsável e dorminhoco? Há um mistério que não se
resolve no conto, porque a língua literária de Machado, assim como a língua do
amor, nem mais nem menos confiável do que a realidade das coisas, é sempre nova
e obscura.
- O leitor, por sua vez, irá
conhecer parcialmente a verdade, porque acaba por participar, de modo indireto,
dessas alusões, hesitações e suspensões da realidade dos fatos narrados, sendo
colocado em meio aos artifícios do narrador, a fim de também ter um destino
literário incerto. Observa-se que, por um lado, o leitor conhece a inocência de
Inácio enquanto realmente dormia e a injustiça que Borges (ou Severina?)
cometeu ao mandá-lo embora sem muitas explicações, e até com simpatia, o que
era incomum de sua parte; assim como também conhece a marca guardada por Inácio
daquela primeira paixão em suas experiências amorosas posteriores, a marca
definitiva da sexualidade e do abandono da infância, simbolizada no sonho. Por
outro lado, o leitor desconhece verdadeiramente o motivo (se é que houve apenas
um) de D. Severina passar a evitar Inácio e depois convencer o marido a
expulsá-lo dali (se é que partiu dela a iniciativa).
Sob a aura de mistério que
encerra o conto, é possível apenas tentar desdobrar como são construídas pelo
narrador machadiano ao longo do texto as possibilidades da verdade, as diversas
roupagens da realidade das coisas, muitas vezes usadas em conjunto, para
perscrutar as hipóteses sobre a razão do afastamento de D. Severina e o
responsável pela expulsão de Inácio.
3.
CARÁTER VICIOSO E FETICHISTA:
- O caráter vicioso e
fetichista da atração de Inácio por D. Severina, que encontra, pela fixação de
uma mesma parte do corpo feminino, como visto, longa tradição na obra
machadiana. E a culpa pelo impulso sexual, negada por Inácio (“a culpa era
antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente”), mas logo
rebatida pelo narrador, que relativiza o comportamento da mulher, dizendo ser
“justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já
gastara todos os vestidos de mangas compridas” (p. 378), explicação que, por
sua vez, apenas abala um pouco a imagem de um jogo da sedução permanentemente
consciente, mas não isenta D. Severina da condição de comprar novos vestidos de
mangas, se pudesse fazê-lo.