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quarta-feira, 16 de julho de 2025

Conto: "O caso da vara", Machado de Assis

 

“Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos, parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava; finalmente, parou. Para onde iria? Para casa, não; lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria cousa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:

– Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
– Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço…
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
– Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário… Talvez assim…
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas idéias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar, Onde morava? Estafa tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
– Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estafa reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar a casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar, espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
– Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
– Descanse, e explique-se.
– Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro; mas espere.
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de casa, e de fora, que estavam sentadas em volta da sala, diante das suas almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá Rita vivia principalmente de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. Enquanto o rapaz tomava fôlego, ordenou às pequenas que trabalhassem, e esperou. Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
– Como assim? Não posso nada.
– Pode, querendo.
– Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é zangado!
Damião viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe aos pés, beijou-lhe as mãos, desesperado.
– Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
Sinhá Rita, lisonjeada com as súplicas do moço, tentou chamá-lo a outros sentimentos. A vida de padre era santa e bonita, disse-lhe ela; o tempo lhe mostraria que era melhor vencer as repugnâncias e um dia…”Não, nada, nunca!” redarguia Damião, abanando a cabeça e beijando-lhe as mãos; e repetia que era a sua morte.
Sinhá Rita hesitou ainda muito tempo; afinal perguntou-lhe por que não ia ter com o padrinho.
– Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda a ninguém…
– Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não…
Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse à casa do Sr. João Carneiro chamá-lo, já e já; e se não estivesse em casa, perguntasse onde podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar imediatamente.
– Anda, moleque.
Damião suspirou alto e triste. Ela, para mascarar a autoridade com que dera aquelas ordens, explicou ao moço que o Sr. João Carneiro fora amigo do marido e arranjara-lhe algumas crias para ensinar. Depois, como ele continuasse triste, encostado a um portal, puxou-lhe o nariz, rindo:
– Ande lá, seu padreco, descanse que tudo se há de arranjar…
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como o diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas, e pedia-lhe outras, que ele referia com singular graça. Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:
– Lucrécia, olha a vara!


A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo do costume. Damião olhou para a pequena; era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe negaria o perdão… Demais, ela rira por achar-lhe graça; a culpa era sua, se há culpa em ter chiste.
Nisto, chegou o João Carneiro. Empalideceu quando viu ali o afilhado, e olhou para Sinhá Rita, que não gastou tempo com preâmbulos. Disse-lhe que era preciso tirar o moço do seminário, que ele não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes um padre de menos que um padre ruim. Cá fora também se podia amar e servir a Nosso Senhor. João Carneiro, assombrado, não achou que replicar durante os primeiros minutos; afinal, abriu a boca e repreendeu o afilhado por ter vindo incomodar “pessoas estranhas”, e em seguida afirmou que o castigaria.
– Qual castigar, qual nada! Interrompeu Sinhá Rita. Castigar por quê? Vá, vá falar a seu compadre.
– Não afianço nada, não creio que seja possível…
– Há de ser possível, afianço eu. Se o senhor quiser, continuou ela com certo tom insinuativo, tudo se há de arranjar. Peça-lhe muito, que ele cede. Ande, senhor João Carneiro, seu afilhado não volta para o seminário; digo-lhe que não volta…
– Mas, minha senhora…
– Vá, vá.
João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar. Estava entre um puxar de forças opostas. Não lhe importava, em suma, que o rapaz a abasse clérigo, advogado ou médico, ou outra qualquer cousa, vadio que fosse; mas o pior é que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: “digo-lhe que ele não volta”. Tinha de haver por força um escândalo. João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante. Os olhares que deitavam a Sinhá Rita eram de súplica, mesclados de um tênue raio de censura. Por que lhe não pedia outra cousa? Por que lhe não ordenava que fosse a pé, debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá? Mas logo persuadir ao compadre que mudasse a carreira do filho… Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara. Ah! Se o rapaz caísse ali, de repente, apoplético, morto! Era uma solução, — cruel é certo, mas definitiva.
– Então? insistiu Sinhá Rita.
Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba, procurando um recurso. Deus do céu! Um decreto do Papa dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem. João Carneiro voltaria para casa e ia jogar os três-setes. Imaginai que o barbeiro de Napoleão era encarregado de comandar a batalha de Austerlitz… Mas a Igreja continuava, os seminários continuavam, o afilhado continuava, cosido à parede, olhos baixos, esperando, sem solução apoplética.
– Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala.
Não teve remédio. O barbeiro meteu a navalha no estojo, travou da espada e saiu à campanha. Damião respirou; exteriormente deixou-se estar na mesma, olhos fincados no chão, acabrunhado. Sinhá Rita puxou-lhe desta vez o queixo.
– Ande jantar, deixe-se de melancolias.
– A senhora crê que ele alcance alguma cousa?
– Há de alcançar tudo, redargüiu Sinhá Rita cheia de si. Ande, que a sopa está esfriando.
Apesar do gênio galhofeiro de Sinhá Rita, e do seu próprio espírito leve, Damião esteve menos alegre ao jantar que na primeira arte do dia. Não fiava do caráter mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim, voltou às pilhérias da manhã. À sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala, e perguntou se o vinham prender.
– Hão de ser as moças.
Levantaram-se e passaram à sala. As moças eram cinco vizinhas que iam todas as tardes tomar café com Sinhá Rita, e ali ficavam até o cair da noite.
As discípulas, findo o jantar delas, tornaram às almofadas do trabalho. Sinhá Rita presidia a todo esse mulherio de casa e de fora. O sussurro dos bilros e o palavrear das moças eram ecos tão mundanos, tão alheios à Teologia e ao Latim, que o rapaz deixou-se ir por eles e esqueceu o resto. Durante os primeiros minutos, ainda houve da parte das vizinhas certo acanhamento; mas passou depressa. Uma delas cantou uma modinha, ao som da guitarra, tangida por Sinhá Rita, e a tarde foi passando depressa. Antes do fim, Sinhá Rita pediu a Damião que contasse certa anedota que lhe agradara muito. Era a tal que fizera rir Lucrécia.
– Ande, senhor Damião, não se faça de rogado, que as mocas querem ir embora. Vocês vão gostar muito.
Damião não teve remédio senão obedecer. Malgrado o anúncio e a expectação, que serviam a diminuir o chiste e o feito, a anedota acabou entre risadas das moças. Damião, contente de si, não esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para acabar a tarefa. Não ria; ou teria rido para dentro, como tossia.
Saíram as vizinhas, e a tarde caiu de todo. A alma de Damião foi-se fazendo tenebrosa, antes da noite. Que estaria acontecendo? De instante a instante, ia espiar pela rótula, e voltava cada vez mais desanimado. Nem sombra do padrinho. Com certeza, o pai fê-lo calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um pedestre e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário. Damião perguntou a Sinhá Rita se a casa não teria saída pelos fundos; correu ao quintal, e calculou que podia saltar o muro. Quis ainda saber se haveria modo de fugir para a Rua da Vala, ou se era melhor falar a algum vizinho que fizesse o favor de o receber. O pior era a batina; se Sinhá Rita lhe pudesse arranjar um rodaque, uma sobrecasaca velha… Sinhá Rita dispunha justamente de um rodaque, lembrança ou esquecimento de João Carneiro.
– Tenho um rodaque do meu defunto, disse ela, rindo; mas para que está com esses sustos? Tudo se há de arranjar, descanse.
Afinal, à boca da noite, apareceu um escravo do padrinho, com uma carta para Sinhá Rita. O negócio ainda não estava composto; o pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga. João Carneiro lutou muito para conseguir que o compadre não resolvesse logo, que dormisse a noite, e meditasse bem se era conveniente dar à religião um sujeito tão rebelde e vicioso. Explicava na carta que falou assim para melhor ganhar a causa. Não a tinha por ganha; mas no dia seguinte lá iria ver o homem, e teimar de novo. Concluiu dizendo que o moço fosse para a casa dele.
Damião acabou de ler a carta e olhou para Sinhá Rita. “Não tenho outra tábua de salvação”, pensou ele. Sinhá Rita mandou vir um tinteiro de chifre, e na meia folha da própria carta escreveu esta resposta: “Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos”. Fechou a carta com obreia, e deu-a ao escravo, para que a levasse depressa. Voltou a reanimar o seminarista, que estava outra vez no capaz da humildade e da consternação. Disse-lhe que sossegasse, que aquele negócio era agora dela.
– Hão de ver para quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!
Era a hora de recolher os trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas tinham concluído a tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os bilros, já sem ver; Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.
—Ah! malandra!
– Nhanhã, nhanhã! Pelo amor de Deus! Por Nossa Senhora que está no céu.
– Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a
– Ande cá!
– Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.
– Não perdôo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que não, que a havia de castigar.
– Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da sala; Sinhá Rita, não querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista:
– Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio… Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele, atrasara o trabalho…
– Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então por tudo o que houvesse de mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor…
– Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou a Sinhá Rita. “

Vocabulário:
Três-setes: espécie de jogo de vazas;
pedestre: soldado de polícia munido de chibata, no Rio antigo;
aljube: cárcere escuro, para padres;
presiganga, navio-prisão, ou que recolhia presos;
rodaque, antigo casaco masculino.

II – FOCO NARRATIVO:

Trata-se de um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente, haja vista que conhece tudo sobre a história, e que, além disso, está presente em todos os lugares da mesma.

III – TEMPO:

A narrativa se passa no século XIX, no período imperial brasileiro, Segundo Reinado, em 1850. Os fatos que permeiam o enredo são narrados cronologicamente.
Machado de Assis captou seu tempo e projetou nos textos que escreveu sua percepção sobre a sociedade brasileira da época e seus múltiplos aspectos – economia, política, cultura, dentre outros. Nas tensões vividas em seus contos e romances, Machado retrata a realidade da sociedade brasileira e as mudanças por que o Brasil vinha passando misturando elementos ficcionais e historiografia.
Entretanto, a personagem Damião ao recordar-se de seu ingressou no seminário, realiza uma digressão de caráter memorialista, mesclando o tempo psicológico.

III – ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:

O conto machadiano “O caso da vara” ultrapassa a temática da escravidão, pois revela grande preocupação pela análise de caracteres e pela dissecação da alma humana.
Machado de Assis não se limita a um contexto histórico social brasileiro, apesar de denunciar a exploração desumana e injustiça, presentes na escravidão que permeava a sociedade da época. O autor analisa psicologicamente o indivíduo e, de maneira universal, explana a falta de ética, moral e de princípios da classe social vigente perante os interesses próprios.
Machado desnuda as mazelas da existência humana e expõe a escassez, a crueldade, a ganância, o autoritarismo e a opressão do indivíduo, apresentando-o com um ser incompleto que se utiliza de outro para se favorecer.
Neste conto, Machado enfoca o drama particular de Damião, que deseja abandonar o seminário. Para conseguir seu objetivo, Damião utiliza-se da sua influência. A partir daí, o conto apresenta um vasto painel de interesses, poderes e favores.
Damião consciente do seu limite mediante a enérgica decisão de seu padrinho João Carneiro e, conhecendo o prestígio que Sinhá Rita exerce sobre o mesmo, pede que ela interceda por ele junto ao padrinho e, por este, ao pai.
É importante ressaltar que Sinhá Rita só atendeu ao seu pedido para demonstrar sua força e porque, sentiu-se “lisonjeada com as súplicas” de Damião.
No entanto, esse jogo de interesses acaba por envolver Lucrécia, uma negrinha magricela de onze anos aparentes, que servia Sinhá Rita e que por curiosidade havia deixado seus afazeres domésticos para ouvir as anedotas de Damião.
Sinhá Rita percebendo a distração da menina, ameaça-a com a vara caso não cumprisse suas obrigações.
O fato desperta compaixão em Damião que decide, caso necessário, proteger a criada.
Sinhá Rita, por sua vez, envia um bilhete impositor favorável a Damião.
À noite, Sinhá Rita certifica-se que Lucrécia não havia terminado seus trabalhos. De maneira rígida pede que Damião lhe alcance a vara, o símbolo de autoritarismo e punição. O protagonista dividido entre a sua solidariedade com a menina e a sua liberdade do seminário, revê seus conceitos e decide proteger a si mesmo e, apesar de presenciar as súplicas de Lucrécia, entrega a vara a Sinhá Rita.
“O caso da vara” denuncia a mesquinhez do ser humano e os interesses pessoais e, revela como esses vícios habitam o cotidiano das relações humanas desestruturando a personalidade daqueles que buscam autoconservação.

 


quarta-feira, 27 de novembro de 2024

O ENFERMEIRO, MACHADO DE ASSIS

 


O conto O Enfermeiro está, certamente, entre os melhores contos de Machado de Assis.

Narrado em primeira pessoa a um interlocutor imaginário, é a história do último enfermeiro do rabugento coronel Felisberto, que esgana seu indócil paciente.
Sofre o drama de consciência, intensificado pela herança do pecúlio do velho, mas a culpa arrefece quando se vê reconhecido por sua dedicação extrema. São todos exemplos maduros do realismo machadiano.

O narrador nos relata a história de uma vez em que tinha ido trabalhar como enfermeiro para um riquíssimo senhor de nome Felisberto. Era tão rico quanto ranheta, o que havia motivado os inúmeros pedidos de demissão de enfermeiros anteriores. Por causa disso, o narrador é tratado pelo padre da pequena cidade interior em que estão com toda a atenção, já que é quase a última esperança.
Corre a seu favor o fato de o senhor estar muito doente e, portanto, à beira da morte. Por sorte, o protagonista se mostra como o mais paciente que já havia sido contratado, o que angaria alguma simpatia do velho. Mas a lua-de-mel durou pouco tempo: logo o doente mostrou o seu gênio e começou a tratar rispidamente o enfermeiro. De primeira, aguentou, até que atingiu seu limite e pediu demissão. Surpreendentemente, o oponente amansou, pedindo desculpa e confessando que esperava do enfermeiro tolerância para o seu gênio de rabugento.

As pazes voltaram, mas por pouco tempo. A tortura retoma, até o momento em que o idoso atira uma vasilha d’água que acerta a cabeça do enfermeiro. Este, cego com a dor, voa sobre o velho, terminando por matá-lo esganado.
Começa então o processo mais interessante do conto. O narrador remói-se de remorso, mas começa a arranjar desculpas em sua mente para arejar sua consciência (trata-se de uma temática muito comum em Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas ela já havia aparecido, num capítulo em que o narrador a metaforizava. Quando fazemos coisas erradas, é como se nossa consciência ficasse numa casa sufocada, com todas as portas e janelas fechadas. Então inventamos desculpas, muitas vezes nos enganamos mesmo, lembramos de outros fatos, como se fosse possível, por meio de uma boa ação, real ou inventada, compensarmos falhas, ou seja, abrir a janela da casa e arejar a consciência): o velho tinha um aneurisma em estágio terminal que iria estourar a qualquer hora mesmo. No entanto, para complicar sua situação, quase que como uma ironia, o testamento do velho declara que o enfermeiro era o único herdeiro. O protagonista mergulha num conflito interior, que pensa eliminar doando a fortuna. É mais uma maneira de tentar arejar a consciência.
A partir de então começa o processo mais interessante do conto. Quando as pessoas vêm elogiar sua paciência com um velho tão insuportável, resolve elogiá-lo o máximo possível em público, como maneira de ocultar para a opinião alheia todo vestígio do crime. O pior é que acaba até se iludindo, eliminando de toda a sua consciência qualquer resto de crise. Nem sequer se livra, pois, da herança. Chega a fazer doações, como recurso de, digamos, “arejamento de consciência”. Fica, portanto, a ideia de que muitas vezes o universo de valores internos (o enfermeiro foi criminoso ao assassinar Felisberto) não corresponde ao de valores externos (uma cidade inteira o elogia pela paciência e dedicação a um velho rabugento). E o mais incrível é que, mesmo sabendo do seu próprio universo interno e, portanto, da verdade, o narrador ilude a si mesmo. A literatura machadiana encara esse processo como comum no ser humano.

 


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SEGUNDO MILLÔR, EM “DOM CASMURRO”, FOI BENTINHO QUEM TRAIU CAPITU


De Millôr Fernandes para a Veja on-line
   Publiquei, através de anos, no Estadão, no “O Dia”, e no “Jornal do Brasil” – ao todo aproximadamente dois milhões de exemplares – “pesquisa” sobre “Dom Casmurro”, a obra magna de Machado de Assis. Como minha página era a capa exterior dos jornais citados, e o assunto era picante – se Escobar, “herói” do romance, tinha ou não tinha comido a Capitu, eterna e tola discussão entre beletristas -, devo ter alcançado pelo menos cem mil desprevenidos. Bom, não apenas mostrei que Escobar comeu a Capitu, como, não sei na, acho que tirei “Dom Casmurro” do “armário”.
   Como não sou dos maiores – e nem mesmo dos menores – admiradores do bruxo, fundados da Academia Brasileira de Letras (“a Glória que fica, eleva, honra e consola”, eu, hein, que frase!), não vou discutir a maciça, inexpugnável web protecionista que se criou em torno dele.. Não quero polemizar (falta-me vontade e capacidade) com a candura que os eruditos (com acento no ú, por favor) têm pra relação equívoca entre Capitu, a “dos olhos de ressaca” (que Machado não explica se era ressaca do mar ou de um porre), e Escobar, o mais íntimo amigo de Bentinho, narrador e personagem do livro (evidenete alter ego do próprio Machado).
   A desconfiança básica vem desde 1900, quando Machado publicou “Dom Casmurro”. “Dom Casmurro” é ou não é corno, palavra cujo sentido de humilhação masculina – que ainda mantém bastante de sua força nesta época de total permissividade – na época de Machado era motivo de crime passional, “justa defesa da honra”, e outros desagravos permitidos pela legislação e pelos costumes.
Curioso que, ontem como hoje, o epíteto corna não se grudou à mulher. Ela é tola, vítima, “não sei como suporta isso!”,corneia ele também!”, mas o epíteto não colou.
   “Dom Casmurro” sofre da dor específica umas 50 páginas do romance, envenenado pela hipótese da infidelidade de Capitu. Que dúvida, cara pálida? Capitu deu pra Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado de Assis, só não coloca no livro o DNA do Escobar porque ainda não havia DNA.  Mas fica humilhado, desesperado mesmo, à proporção que o filho cresce e mostra olhos, mãos, gestos e tudo o mais do amigo, agora morto. Bentinho chega a chamar Escobar de comborço (parceiro na cama).
   Não fiz interpretações. Apenas selecionei frases – momentos – do próprio Dom Casmurro/Machado, da edição da Editora Nova Aguillar. Leiam, e concordem ou não.
Pág. 868 Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.”
Mesma páginaEscobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro...Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei, cá ficou...
Pág. 876 Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes também e Escobar mais que os rapazes e os padres.”
Pág. 883Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa...mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas.
   Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino e delgado.”
Mesma páginaFui levá-lo à porta...Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver-se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.”
Mesma páginaCapitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
   - É o Escobar, disse eu.”
Pág. 887 “- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.
   - Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça...Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro, e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.”
Pág 899Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se não me visse desde longos meses.
   - Você janta comigo, Escobar?
   - Vim para isto mesmo.”
Pág. 900Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.”
Pág. 901Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão: um padre que estava com eles não gostou...”
Pág. 902Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos.”
Pág. 913Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.”
Pág. 914A amizade existe, esteve toda nas mãos com quem apertei as de Escobar ao ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto; estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com grande força.”
Págs. 925/26 (Depois da morte de Escobar) “Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé, sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória, escrita embaixo, não nas costa do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70.”
...
P.S.: Mas, se vocês ainda têm dúvida, leiam a página 845 do fúlgido romance. Bentinho, ele próprio, fica pasmo, e realizado, quando consegue dar um beijo (que dizer, apenas um bicota) em Capitu. É ele próprio quem fala, entusiasmado com seu feito de bravura:
   “De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de orgulho:
     - Sou homem!”


sábado, 12 de maio de 2012

O ESPELHO, Papéis Avulsos, MACHADO DE ASSIS



Esboço de uma nova teoria da alma humana

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. 
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lhe um dos presentes, e desafiou o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu: 
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão. 
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, -uma conjetura, ao menos. 
- Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... 
- Duas? 
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma... 
- Não? 
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis... 
- Perdão; essa senhora quem é? 
- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos... 
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que  conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração: 
- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na
Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom... 
- Espelho grande? 
- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais.
O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu? 
- Não. 
- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não? 
- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes. 
- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! Pérfidos! Mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados. 
- Matá-lo? 
- Antes assim fosse. 
- Coisa pior? 
- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? Era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! -For ever, never! Confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se? 
- Sim, parece que tinha um pouco de medo. 
- Oh! Fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único - porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne voistu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala.  Tic-tac, tic-tac.
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.
Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo.
Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar.  Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel. 
- Mas não comia? 
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes.
As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac... 
- Na verdade, era de enlouquecer. 
- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação.
Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha ideia... 
- Diga. 
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar. 
- Mas, diga, diga. 
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir... 
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.

2 – Análise crítica literária:


2.1 – FOCO NARRATIVO:

“O espelho” inicia-se com foco narrativo em terceira pessoa. Após, tem-se o narrador-personagem, em primeira pessoa e, no parágrafo final, a narrativa retorna a terceira pessoa.

2.2 – TEMPO:

Embora, no início do conto há índices temporais: “uma noite”; “vai senão quando, no meio da noite”; “usou da palavra e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta”, o que domina na narrativa não é o tempo cronológico, não há uma preocupação excessiva em contar a estória, preocupação maior é com a análise, uma dissecante e profunda, em que o escritor procura desnudar a personagem e revelar as suas entranhas.
Debruçado sobre a reconstrução do solitário Jacobina, que vai revivendo um fato que jaz na suas entranhas, através de tempo psicológico, um flash-back.
Durante a estadia da casa de D. Marcolina, realçando a solidão, quando a tia se vai e os escravos fogem, há uma ênfase especial do tempo cronológico, realçado pela onomatopéia “tic-tac” e fazendo analogia com o ritmo temporal da eternidade. A ação se desenrola cronologicamente, cadenciada pelo tic-tac do relógio.
Desde que ficara só, o jovem não olhava para o espelho: “no fim de oito dias deu-me a veneta de olhar para o espelho”. Este é um fato importante na trama e na “defesa de tese” de Jacobina. Após a “ressurreição” do alferes, o tempo é também elemento expressivo: “Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes” (...); no fim de duas, três horas, despia-me outra vez”. 
O tempo vai ajudá-lo a vencer a solidão.
“Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir”...
Nas duas linhas finais, há uma volta ao presente e finda o “flash back”.

2.3 – ESPAÇO:

O espaço, no conto, é bem delineado, a discussão inicial começa em uma casa no morro de Santa Teresa, bairro de classe média no Rio de Janeiro onde, no final do século XIX, residiam muitos funcionários públicos, com sala “pequena, alumiada a velas”; em uma visão macroscópica, o espaço fechado abre-se para o exterior: a luz das velas “fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com suas agitações e aventuras, e o céu em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas”. Este é um espaço neutro, sem drama, antes do episódio, do conflito.
O segundo espaço consiste no sítio, onde Jacobina, fica sozinho, alargando-se para um espaço aberto: “a poeira da estrada e o capinzal dos morros”...

2.4 – TEMAS:

“O espelho descreve a passagem sutil entre níveis de consciência, os quais refletem em níveis sociais: trata-se do processo dialético que compreende a passagem do indivíduo, para o tipo, para a pessoa“ (BOSI, 1999, p. 158 e ss).

O conto de Machado de Assis esboça uma teoria sobre a alma humana, discutindo o tema da consciência trágica como elemento fundamental do pensamento do homem moderno e contém a experimentação formal, a profunda análise psicológica, a atmosfera pessimista e desiludida que marca a segunda fase machadiana, colocando questões de natureza filosófica, como a relação entre identidade e alteridade; a vida como representação ou o mundo como teatro; a presença de uma dimensão incomunicável no ser; a alienação; a vida social condicionando o comportamento, impondo a ausência de liberdade do indivíduo e, como variação deste tema, o da ascensão social como forma de mascaramento.
Esta concepção machadiana sobre a alma ou sobre o sujeito encontra eco em vários pensadores e escritores oitocentistas e, posteriormente, na filosofia existencialista.
Jacobina teoriza sobre a alma, apresentando-a negativamente: o homem tem duas almas, uma inferior: identificada aqui aos processos subjetivos e uma alma exterior (plano objetivo), a qual se relaciona aos processos externos ao homem, isto é, aos valores sociais estabelecidos. O fato de esta estrutura ser marcada pela duplicidade e pela inconstância, já que ambas mudam de natureza e de estado, faz revelar a ausência de unidade da alma, ou seja, o sujeito moderno apresenta-se como um ser vazio. Ou melhor, se por um lado, a sociedade assume a face de um destino, já que ela é uma força de coação, por outro, esta mesma força é informe, instável.
Nessa tensão, o humano apresenta-se desumanizado, conforme observa Raymundo Faoro:

“A separação da vida em dois pedaços, revivendo uma ideia dos céticos gregos, acentua a desumanização, o aviltamento espiritual na existência do contexto social, sinistramente equiparado à cega divindade, ao monstro que vigia o passo ensaiado e presunçoso do ator” (FAORO, 1981, p. 422).

Nietzsche em “O nascimento da tragédia” caracteriza a passagem do estado apolíneo (máscara social, aparência, o visível) ao estado dionisíaco (funções instintivas e inconscientes) como uma ruptura do princípio de individuação e com os limites do “si mesmo” que acarreta uma integração do “eu ao mundo”, propiciando uma visão mais autêntica e profunda da realidade, um mergulho na alteridade.

“(...) nosso corpo é apenas uma estrutura social de muitas almas” (NIETZSCHE, 1993, § 19, p. 25).

O corpo é, portanto, um campo de forças em eterno conflito. Não há uma unidade subjacente a este dinamismo, pelo contrário, aquilo que se chama sujeito aparece como o resultado deste processo, isto é, o “eu” não é o fator determinante ou casual de todas as ações. Aquilo que aparece como “eu”, enquanto elemento uno e estável, nada mais é do que uma ficção, ele é o reflexo de uma vontade que tenta manter-se estável, indiferente, no interior da multiplicidade das mudanças.
Esta duplicidade é simbolizada pelo reflexo especular, pelo desdobramento de si que a imagem refletida no espelho provoca. Assim, o objeto espelho tem o poder de realizar uma operação metafísica: ele mostra o homem para si e em si mesmo como alteridade. Trata-se aqui do ato de pensar a si mesmo a partir do seu reflexo: pensar a si como “um outro”. Este conflito – ser um e ser outro – é parte mesmo do homem. Mais precisamente, este conflito é o próprio homem. O próprio simbolismo do espelho contém esta duplicidade: trata-se de um símbolo solar-masculino (a inteligência celeste refletida) e um símbolo lunar-feminino (o reflexo da luz solar).
A alma exterior só existe porque os outros existem, isto é, ela vive das relações com o mundo. Esta esfera tende a desumanizar, a transformar o homem num autômato, nela dá-se um aviltamento da interioridade em função das relações sociais. A alma exterior é a determinação do destino. Ora, a esfera da sociedade e da publicidade identifica-se também ao mal, visto ser aquilo que provoca a desagregação do “eu”, e que, assim o fazendo, provoca a dor. A esfera do impessoal tem um poder bi-articulado, pois, tanto nega a possibilidade da autenticidade, quanto a possibilita.
O protagonista do conto, ao revelar esta consciência do ser como gradação de valor, afirma-se como um niilista pleno: ele configura o homem moderno, na medida mesmo em que revela sua impossibilidade de adesão às coisas. Ou melhor, mesmo sua adesão é uma farsa, é uma aparência.
Segundo Alfredo Bosi:
 “O espelho é a matriz de uma certeza machadiana que poderia formular-se assim: só há consciência no desempenho do papel social; aquém da cena pública a alma humana é dúbia e veleitária” (BOSI, 1981, p. 449).
“O espelho” teatraliza a passagem de um estado a outro, da luz à sombra, do determinado ao indeterminado, revelando a duplicidade inerente ao ser, sem priorizar uma esfera em detrimento de outra.
A alma interior revela a mesma inconstância. Um dos momentos mais interessantes do conto é quando Jacobina, estando sozinho, passa pela experiência da negatividade, cujo início se dá com o tédio, que se intensifica cada vez mais, passando pelo nervosismo, o aborrecimento, a angústia. Notemos que esse aprofundamento na solidão é acompanhado pelo som do relógio. “As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade”(ASSIS, 1952, p. 267). Com o relógio, o próprio tempo, em seu efetivar-se, tornar-se concreto.
Jacobina identifica no som da pêndula não apenas o tempo em sua continuidade, mas o abismo do tempo: “Never, for ever! – For ever, never!Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada” (ASSIS, 1952, p. 267).
Há assim, uma relação entre o tempo e a ausência de determinação: todas as ações da personagem aparecerão como vazias de sentido. Enquanto a alma exterior não retorna, Jacobina andava de um lado a outro, saía de casa, voltava para casa, “(...) estirava-me no canapé da sala. Tic-tac tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros da janela, assobiava” (ASSIS, 1952, p. 268).
Notemos que, imerso em si, a personagem, para se ocupar, afugentando o tédio – parece liberar o seu potencial criativo:
“Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. (...) Coisa nenhuma. Quando muito, via negrejar a tinta e alvejar o papel “ (ASSIS, 1952, p. 267). Este malogro no ato criativo leva a uma série de ações inúteis, num ímpeto de imaginação: “Recitava versos, discursos, trechos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia de trinta volumes. As vezes, fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e nada mais. (ASSIS, 1952, p. 269).
Ao descrever as ações físicas de Jacobina, Machado realça-lhes a fugacidade, pois estas ações não estão previamente orientadas, isolando-se num quadro de racionalidade e funcionalidade que as torne significativas. Esta perda do sentido da atividade, sua falta de projeção para um futuro, é gerado do tédio. Este resulta, portanto, desta total imersão no presente. Na ótica do tédio, o tempo aparece como elemento de nadificação: em seu fluir, ele esvazia o sentido de toda e qualquer ação humana, fornecendo à vida um caráter de insignificância. Esta compreensão machadiana se aproxima a Schopenhauer. Para o autor de “O mundo como vontade e representação”, a vida contém uma espécie de círculo vicioso, originado na dinâmica entre o desejo-satisfação-tédio-desejo.  Ao perceber este círculo, o homem se conscientiza da inutilidade e do absurdo da vida. Assim, aquilo que, no tempo, eternamente retorna, é o vazio, o nada.  Para Schopenhauer, o desejo funda-se na dor, já que consiste na expressão de uma carência, mas, somente esta carência é positiva, pois, a realização do desejo, enquanto supressão da dor, ao dar origem à satisfação, lança o ser na pura negatividade, já que aquilo mesmo que permitia toda e qualquer relação deixou de existir. Ora é a dor que possibilita tal relação, daí a sua positividade: o homem é mais sensível na dor, ela o constrange a ir mais fundo em si mesmo, em suma, a dor mobiliza. Assim, na situação oposta, a ausência de mobilização provocará a insensibilidade. E o que ocorrerá com a personagem Jacobina: “Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico” (ASSIS, 1952, p. 267).
Ao mergulhar em si mesmo, Jacobina perde sua humanidade. Assim, por ironia, aquela que seria a dimensão mais verdadeira da existência, a alma interior, a subjetividade, dimensão esta que, em sua autenticidade se resguardaria da mentira social e do constrangimento do impessoal, esta dimensão mostra-se também como um grande vazio: o sujeito não é nada, e o tédio foi o princípio de uma experiência que, quando intensificada, revela o ser como pura negação. Mas, esta insensibilidade também se apresentará no lado oposto, isto é, com a alma exterior.
Jacobina enquanto está cercado pelos prazeres – a atenção plena, os cuidados, os elogios – a personagem vai se tornando insensível, a ponto de o alferes eliminar o homem. Ora, não devemos pensar que o jovem alferes é uma vítima da sociedade. Pelo contrário, ele sente-se mesmo seduzido por todas aquelas atenções, deixando-se tomar por sua máscara social, devido mesmo à sua própria vaidade.
No fundo, Jacobina é movido pela aspiração a distinguir-se, elemento fundamental da vida como vontade de poder. Jacobina percebe que se torna mais forte ao ser alferes e submete-se a este jogo, até eliminar em si o que restava do homem.
A eliminação da humanidade leva a uma perda da relação consigo: Jacobina não experimenta a si como positividade, já que não sofre. Por não sofrer, ele também deixa de compreender ou perceber o que lhe é externo: “As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes” (ASSIS, 1953, p. 264). Ora, Jacobina recai em si justamente quando está totalmente “fora de si, em que é plenamente sua máscara. Esta queda é precedida por uma falha.
A vaidade de Jacobina será usada contra ele mesmo. Ora, uma das funções da Guarda Nacional era a de fiscalizar os escravos, mas a personagem desvia-se de sua ocupação, havendo uma inversão dos valores: a farda prende a personagem, pois este, olhando para si, não vê as intenções profundas do outro, possibilitando a fuga dos escravos da fazenda. Estes escravos utilizam-se da própria força de Jacobina – o reconhecimento da importância de seu cargo – para dominá-lo. Este domínio se faz também a partir de uma máscara de fraqueza, já que a subserviência, a submissão e a obediência dos escravos serviram como disfarce para velar a intenção da fuga.
A falha de Jacobina, a vaidade, o privou do último resquício de sua alma exterior. E justamente quando Jacobina se vê privado dos seus hábitos, de sua alma exterior, que ele irá experimentar a dor, isto é, terá consciência de si mesmo e, este sentir a si, tornando-se insuportável, o levará sempre a querer “sair de si”, ou seja, ele irá desejar profundamente o retorno do outro.
Se a máscara de alferes é mais forte que a do homem, posto que a elimina, ela também é o lugar da fraqueza, já que sua força depende de um elemento externo, mais precisamente, o olhar do outro. Assim sendo, quando se pensa que o homem por trás da máscara seria o elemento de sustentação da unidade, revela-se o pior: o homem não é absolutamente nada. A interioridade é pura possibilidade de ser, mera disponibilidade que, como tal, é pura indeterminação.
No entanto, no conto, todas as ações revelam-se vazias de sentido pelo fato de não haver um outro que as reconheça. O problema do outro, como vimos, reside em sua inconstância radical. Isto é, o “outro” configura e agrega o homem e sem a mediação do “outro” (da sociedade), o ser que é pura possibilidade de ser se perde no vazio. Assim a ausência de liberdade apresenta-se como a condição da vida: para vir a ser, é necessário que o homem assuma até mesmo aquilo que ele não é, assuma uma máscara. Mas, essa máscara não é um “outro” totalmente diferente daquele que seria o “eu” original, pelo contrário, ela se vincula ao “eu”. O “eu” é algo situado entre o si mesmo e a sociedade: alteridade radical.
Dessa forma, a teoria da alma é irônica: não há alma alguma, já que o ser da alma é múltiplo. A única existência necessária é a da opinião, a da alma exterior, em suma, a aparência. O papel social forma assim a percepção e a consciência e, do mesmo modo como desagrega, ele também agrega. No conto, o espelho é, por assim dizer, um símbolo: ele é o “outro” que integra Jacobina a si mesmo e recupera sua alma exterior.
“Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros” (ASSIS, 1952, p. 271). Assim, após a negatividade radical, as coisas retornam a seu ser. Mas, para voltar a si e poder conviver novamente, Jacobina joga com sua aparência: ele ensaia as suas ações, como um ator ensaia os gestos da personagem.  Assim, Jacobina poderá ser ele mesmo sendo “um outro”.
Ainda jovem Jacobina percebeu os mecanismos do jogo social, podendo, enquanto comediante distanciar-se criticamente. Como consequência, podemos especular que, quando adulto, Jacobina não se envolve mais com nada, limitando-se a observar. Ou seja, Jacobina penetrou na essência dolorosa da vida, isto é, no abismo dionisíaco, aprendendo o mal da existência.


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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Conto: O caso da vara - Machado de Assis


I – CONTO “O CASO DA VARA” NA ÍNTEGRA:

“Damião fugiu do seminário às onze horas da manhã de uma sexta-feira de agosto. Não sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos, parou vexado; não contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e desandava; finalmente, parou. Para onde iria? Para casa, não; lá estava o pai que o devolveria ao seminário, depois de um bom castigo. Não assentara no ponto de refúgio, porque a saída estava determinada para mais tarde; uma circunstância fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, João Carneiro, mas o padrinho era um moleirão sem vontade, que por si só não faria cousa útil. Foi ele que o levou ao seminário e o apresentou ao reitor:
- Trago-lhe o grande homem que há de ser, disse ele ao reitor.
- Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que seja também humilde e bom. A verdadeira grandeza é chã. Moço...
Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao seminário. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refúgio nem conselho; percorreu de memória as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:
- Vou pegar-me com Sinhá Rita! Ela manda chamar meu padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminário... Talvez assim...
Sinhá Rita era uma viúva, querida de João Carneiro; Damião tinha umas idéias vagas dessa situação e tratou de a aproveitar, Onde morava? Estafa tão atordoado, que só daí a alguns minutos é que lhe acudiu a casa; era no Largo do Capim.
- Santo nome de Jesus! Que é isto? bradou Sinhá Rita, sentando-se na marquesa, onde estafa reclinada.
Damião acabava de entrar espavorido; no momento de chegar a casa, vira passar um padre, e deu um empurrão à porta, que por fortuna não estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar, espiou pela rótula, a ver o padre. Este não deu por ele e ia andando.
- Mas que é isto, Sr. Damião? bradou novamente a dona da casa, que só agora o conhecera. Que vem fazer aqui?
Damião, trêmulo, mal podendo falar, disse que não tivesse medo, não era nada; ia explicar tudo.
- Descanse, e explique-se.
- Já lhe digo; não pratiquei nenhum crime, isso juro; mas espere.
Sinhá Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de casa, e de fora, que estavam sentadas em volta da sala, diante das suas almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mãos. Sinhá Rita vivia principalmente de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. Enquanto o rapaz tomava fôlego, ordenou às pequenas que trabalhassem, e esperou. Afinal, Damião contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminário; estava certo de que não podia ser bom padre; falou com paixão, pediu-lhe que o salvasse.
- Como assim? Não posso nada.
- Pode, querendo.
- Não, replicou ela abanando a cabeça; não me meto em negócios de sua família, que mal conheço; e então seu pai, que dizem que é zangado!
Damião viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe aos pés, beijou-lhe as mãos, desesperado.
- Pode muito, Sinhá Rita; peço-lhe pelo amor de Deus, pelo que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte, porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.
Sinhá Rita, lisonjeada com as súplicas do moço, tentou chamá-lo a outros sentimentos. A vida de padre era santa e bonita, disse-lhe ela; o tempo lhe mostraria que era melhor vencer as repugnâncias e um dia..."Não, nada, nunca!" redarguia Damião, abanando a cabeça e beijando-lhe as mãos; e repetia que era a sua morte.
Sinhá Rita hesitou ainda muito tempo; afinal perguntou-lhe por que não ia ter com o padrinho.
- Meu padrinho? Esse é ainda pior que papai; não me atende, duvido que atenda a ninguém...
- Não atende? interrompeu Sinhá Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro se atende ou não...
Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse à casa do Sr. João Carneiro chamá-lo, já e já; e se não estivesse em casa, perguntasse onde podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar imediatamente.
- Anda, moleque.
Damião suspirou alto e triste. Ela, para mascarar a autoridade com que dera aquelas ordens, explicou ao moço que o Sr. João Carneiro fora amigo do marido e arranjara-lhe algumas crias para ensinar. Depois, como ele continuasse triste, encostado a um portal, puxou-lhe o nariz, rindo:
- Ande lá, seu padreco, descanse que tudo se há de arranjar...
Sinhá Rita tinha quarenta anos na certidão de batismo, e vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando convinha, brava como o diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situação, não lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas, e pedia-lhe outras, que ele referia com singular graça. Uma destas, estúrdia, obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinhá Rita, que esquecera o trabalho, para mirar e escutar o moço. Sinhá Rita pegou de uma vara que estava ao pé da marquesa, e ameaçou-a:
- Lucrécia, olha a vara!



A pequena abaixou a cabeça, aparando o golpe, mas o golpe não veio. Era uma advertência; se à noitinha a tarefa não estivesse pronta, Lucrécia receberia o castigo do costume. Damião olhou para a pequena; era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos. Damião reparou que tossia, mas para dentro, surdamente, a fim de não interromper a conversação. Teve pena da negrinha, e resolveu apadrinhá-la, se não acabasse a tarefa. Sinhá Rita não lhe negaria o perdão... Demais, ela rira por achar-lhe graça; a culpa era sua, se há culpa em ter chiste.
Nisto, chegou o João Carneiro. Empalideceu quando viu ali o afilhado, e olhou para Sinhá Rita, que não gastou tempo com preâmbulos. Disse-lhe que era preciso tirar o moço do seminário, que ele não tinha vocação para a vida eclesiástica, e antes um padre de menos que um padre ruim. Cá fora também se podia amar e servir a Nosso Senhor. João Carneiro, assombrado, não achou que replicar durante os primeiros minutos; afinal, abriu a boca e repreendeu o afilhado por ter vindo incomodar "pessoas estranhas", e em seguida afirmou que o castigaria.
- Qual castigar, qual nada! Interrompeu Sinhá Rita. Castigar por quê? Vá, vá falar a seu compadre.
- Não afianço nada, não creio que seja possível...
- Há de ser possível, afianço eu. Se o senhor quiser, continuou ela com certo tom insinuativo, tudo se há de arranjar. Peça-lhe muito, que ele cede. Ande, senhor João Carneiro, seu afilhado não volta para o seminário; digo-lhe que não volta...
- Mas, minha senhora...
- Vá, vá.
João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar. Estava entre um puxar de forças opostas. Não lhe importava, em suma, que o rapaz a abasse clérigo, advogado ou médico, ou outra qualquer cousa, vadio que fosse; mas o pior é que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: "digo-lhe que ele não volta". Tinha de haver por força um escândalo. João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante. Os olhares que deitavam a Sinhá Rita eram de súplica, mesclados de um tênue raio de censura. Por que lhe não pedia outra cousa? Por que lhe não ordenava que fosse a pé, debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá? Mas logo persuadir ao compadre que mudasse a carreira do filho... Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara. Ah! Se o rapaz caísse ali, de repente, apoplético, morto! Era uma solução, — cruel é certo, mas definitiva.
- Então? insistiu Sinhá Rita.
Ele fez-lhe um gesto de mão que esperasse. Coçava a barba, procurando um recurso. Deus do céu! Um decreto do Papa dissolvendo a Igreja, ou, pelo menos, extinguindo os seminários, faria acabar tudo em bem. João Carneiro voltaria para casa e ia jogar os três-setes. Imaginai que o barbeiro de Napoleão era encarregado de comandar a batalha de Austerlitz... Mas a Igreja continuava, os seminários continuavam, o afilhado continuava, cosido à parede, olhos baixos, esperando, sem solução apoplética.
- Vá, vá, disse Sinhá Rita dando-lhe o chapéu e a bengala.
Não teve remédio. O barbeiro meteu a navalha no estojo, travou da espada e saiu à campanha. Damião respirou; exteriormente deixou-se estar na mesma, olhos fincados no chão, acabrunhado. Sinhá Rita puxou-lhe desta vez o queixo.
- Ande jantar, deixe-se de melancolias.
- A senhora crê que ele alcance alguma cousa?
- Há de alcançar tudo, redargüiu Sinhá Rita cheia de si. Ande, que a sopa está esfriando.
Apesar do gênio galhofeiro de Sinhá Rita, e do seu próprio espírito leve, Damião esteve menos alegre ao jantar que na primeira arte do dia. Não fiava do caráter mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim, voltou às pilhérias da manhã. À sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala, e perguntou se o vinham prender.
- Hão de ser as moças.
Levantaram-se e passaram à sala. As moças eram cinco vizinhas que iam todas as tardes tomar café com Sinhá Rita, e ali ficavam até o cair da noite.
As discípulas, findo o jantar delas, tornaram às almofadas do trabalho. Sinhá Rita presidia a todo esse mulherio de casa e de fora. O sussurro dos bilros e o palavrear das moças eram ecos tão mundanos, tão alheios à Teologia e ao Latim, que o rapaz deixou-se ir por eles e esqueceu o resto. Durante os primeiros minutos, ainda houve da parte das vizinhas certo acanhamento; mas passou depressa. Uma delas cantou uma modinha, ao som da guitarra, tangida por Sinhá Rita, e a tarde foi passando depressa. Antes do fim, Sinhá Rita pediu a Damião que contasse certa anedota que lhe agradara muito. Era a tal que fizera rir Lucrécia.
- Ande, senhor Damião, não se faça de rogado, que as mocas querem ir embora. Vocês vão gostar muito.
Damião não teve remédio senão obedecer. Malgrado o anúncio e a expectação, que serviam a diminuir o chiste e o feito, a anedota acabou entre risadas das moças. Damião, contente de si, não esqueceu Lucrécia e olhou para ela, a ver se rira também. Viu-a com a cabeça metida na almofada para acabar a tarefa. Não ria; ou teria rido para dentro, como tossia.
Saíram as vizinhas, e a tarde caiu de todo. A alma de Damião foi-se fazendo tenebrosa, antes da noite. Que estaria acontecendo? De instante a instante, ia espiar pela rótula, e voltava cada vez mais desanimado. Nem sombra do padrinho. Com certeza, o pai fê-lo calar, mandou chamar dois negros, foi à polícia pedir um pedestre e aí vinha pegá-lo à força e levá-lo ao seminário. Damião perguntou a Sinhá Rita se a casa não teria saída pelos fundos; correu ao quintal, e calculou que podia saltar o muro. Quis ainda saber se haveria modo de fugir para a Rua da Vala, ou se era melhor falar a algum vizinho que fizesse o favor de o receber. O pior era a batina; se Sinhá Rita lhe pudesse arranjar um rodaque, uma sobrecasaca velha... Sinhá Rita dispunha justamente de um rodaque, lembrança ou esquecimento de João Carneiro.
- Tenho um rodaque do meu defunto, disse ela, rindo; mas para que está com esses sustos? Tudo se há de arranjar, descanse.
Afinal, à boca da noite, apareceu um escravo do padrinho, com uma carta para Sinhá Rita. O negócio ainda não estava composto; o pai ficou furioso e quis quebrar tudo; bradou que não, senhor, que o peralta havia de ir para o seminário, ou então metia-o no Aljube ou na presiganga. João Carneiro lutou muito para conseguir que o compadre não resolvesse logo, que dormisse a noite, e meditasse bem se era conveniente dar à religião um sujeito tão rebelde e vicioso. Explicava na carta que falou assim para melhor ganhar a causa. Não a tinha por ganha; mas no dia seguinte lá iria ver o homem, e teimar de novo. Concluiu dizendo que o moço fosse para a casa dele.
Damião acabou de ler a carta e olhou para Sinhá Rita. "Não tenho outra tábua de salvação", pensou ele. Sinhá Rita mandou vir um tinteiro de chifre, e na meia folha da própria carta escreveu esta resposta: "Joãozinho, ou você salva o moço, ou nunca mais nos vemos". Fechou a carta com obreia, e deu-a ao escravo, para que a levasse depressa. Voltou a reanimar o seminarista, que estava outra vez no capaz da humildade e da consternação. Disse-lhe que sossegasse, que aquele negócio era agora dela.
- Hão de ver para quanto presto! Não, que eu não sou de brincadeiras!
Era a hora de recolher os trabalhos. Sinhá Rita examinou-os; todas as discípulas tinham concluído a tarefa. Só Lucrécia estava ainda à almofada, meneando os bilros, já sem ver; Sinhá Rita chegou-se a ela, viu que a tarefa não estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.
—Ah! malandra!
- Nhanhã, nhanhã! Pelo amor de Deus! Por Nossa Senhora que está no céu.
- Malandra! Nossa Senhora não protege vadias!
Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás e agarrou-a
- Ande cá!
- Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.
- Não perdôo, não. Onde está a vara?
E tornaram ambas à sala, uma presa pela orelha, debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que não, que a havia de castigar.
- Onde está a vara?
A vara estava à cabeceira da marquesa, do outro lado da sala; Sinhá Rita, não querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista:
- Sr. Damião, dê-me aquela vara, faz favor?
Damião ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele, atrasara o trabalho...
- Dê-me a vara, Sr. Damião!
Damião chegou a caminhar na direção da marquesa. A negrinha pediu-lhe então por tudo o que houvesse de mais sagrado, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor...
- Me acuda, meu sinhô moço!
Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou a Sinhá Rita. “

Vocabulário:
Três-setes: espécie de jogo de vazas;
pedestre: soldado de polícia munido de chibata, no Rio antigo;
aljube: cárcere escuro, para padres;
presiganga, navio-prisão, ou que recolhia presos;
rodaque, antigo casaco masculino.


II - FOCO NARRATIVO:

Trata-se de um narrador em terceira pessoa onisciente e onipresente, haja vista que conhece tudo sobre a história, e que, além disso, está presente em todos os lugares da mesma.


III - TEMPO:

A narrativa se passa no século XIX, no período imperial brasileiro, Segundo Reinado, em 1850. Os fatos que permeiam o enredo são narrados cronologicamente.
Machado de Assis captou seu tempo e projetou nos textos que escreveu sua percepção sobre a sociedade brasileira da época e seus múltiplos aspectos - economia, política, cultura, dentre outros. Nas tensões vividas em seus contos e romances, Machado retrata a realidade da sociedade brasileira e as mudanças por que o Brasil vinha passando misturando elementos ficcionais e historiografia.
Entretanto, a personagem Damião ao recordar-se de seu ingressou no seminário, realiza uma digressão de caráter memorialista, mesclando o tempo psicológico.


III – ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:

O conto machadiano “O caso da vara” ultrapassa a temática da escravidão, pois revela grande preocupação pela análise de caracteres e pela dissecação da alma humana.
Machado de Assis não se limita a um contexto histórico social brasileiro, apesar de denunciar a exploração desumana e injustiça, presentes na escravidão que permeava a sociedade da época. O autor analisa psicologicamente o indivíduo e, de maneira universal, explana a falta de ética, moral e de princípios da classe social vigente perante os interesses próprios.
Machado desnuda as mazelas da existência humana e expõe a escassez, a crueldade, a ganância, o autoritarismo e a opressão do indivíduo, apresentando-o com um ser incompleto que se utiliza de outro para se favorecer.
Neste conto, Machado enfoca o drama particular de Damião, que deseja abandonar o seminário. Para conseguir seu objetivo, Damião utiliza-se da sua influência. A partir daí, o conto apresenta um vasto painel de interesses, poderes e favores.
Damião consciente do seu limite mediante a enérgica decisão de seu padrinho João Carneiro e, conhecendo o prestígio que Sinhá Rita exerce sobre o mesmo, pede que ela interceda por ele junto ao padrinho e, por este, ao pai.
É importante ressaltar que Sinhá Rita só atendeu ao seu pedido para demonstrar sua força e porque, sentiu-se “lisonjeada com as súplicas” de Damião.
No entanto, esse jogo de interesses acaba por envolver Lucrécia, uma negrinha magricela de onze anos aparentes, que servia Sinhá Rita e que por curiosidade havia deixado seus afazeres domésticos para ouvir as anedotas de Damião.
Sinhá Rita percebendo a distração da menina, ameaça-a com a vara caso não cumprisse suas obrigações.
O fato desperta compaixão em Damião que decide, caso necessário, proteger a criada.
Sinhá Rita, por sua vez, envia um bilhete impositor favorável a Damião.
À noite, Sinhá Rita certifica-se que Lucrécia não havia terminado seus trabalhos. De maneira rígida pede que Damião lhe alcance a vara, o símbolo de autoritarismo e punição. O protagonista dividido entre a sua solidariedade com a menina e a sua liberdade do seminário, revê seus conceitos e decide proteger a si mesmo e, apesar de presenciar as súplicas de Lucrécia, entrega a vara a Sinhá Rita.
“O caso da vara” denuncia a mesquinhez do ser humano e os interesses pessoais e, revela como esses vícios habitam o cotidiano das relações humanas desestruturando a personalidade daqueles que buscam autoconservação.