“Se as pessoas virem o filme e disserem que essas pessoas são seres
humanos como nós, o filme teve sucesso”, Marjane Satrapi.
I – INTRODUÇÃO:
“Persépolis”
França, 2007 – 95
min.
Drama /Animação adulta
Direção:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Roteiro:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco:
Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian,
Gabrielle Lopes, François Jerosme.
“Persépolis” é um longa de animação de 2007 de autoria de Marjane
Satrapi, ilustradora e cartoonista, nascida em Rasht, Irã, em 1969 e Vincent
Paronnaud.
Trata-se da adaptação dos quatro volumes da aclamada graphic novel homônima e
autobiográfica de Satrapi, publicada na França entre 2000 e 2003, e que apesar
da fidelidade aos textos e ilustrações de origem, tem vida própria.
Indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro da categoria, “Persépolis” sagrou-se
vencedor do prêmio Cesar além de faturar a estatueta do júri especial de
Cannes.
O tomo inicial de “Persépolis” foi lançado na França, em 2001, por uma pequena
editora independente. Logo se tornou um fenômeno de crítica e público e, no
mesmo ano, foi premiado no Festival de Angoulême, na França. Rapidamente a
série se espalhou pelo mundo, sendo publicada na Itália, Holanda, Portugal,
Espanha, Alemanha, Inglaterra, Israel, Suécia, Finlândia, Noruega, Japão, Coréia
do Sul, Hong Kong, Turquia e Estados Unidos.
No primeiro livro, Marjane Satrapi, então com 9 anos, viu a Revolução Islâmica
sob a ótica de uma criança. O segundo focou a guerra contra o Iraque. No
terceiro, ela se autoexilou, aos 14 anos, na Áustria, pois os pais acreditavam
que ela teria uma educação melhor fora do país, onde quase morreu de frio. No
quarto, a autora/personagem narra seu retorno ao Irã para cursar a
universidade, já adulta.
O material foi reunido no Brasil pela Companhia das Letras em uma edição única.
Evidentemente, é impossível comparar a história das 352 páginas impressas de
“Persépolis” a um filme com 95 minutos, além da dedicação e esforço necessário
para produzir um filme de hora e meia a 12 imagens por segundo. Dessa forma, o
longa-metragem, preto e branco (apenas os momentos inicial e final têm cor)
foca nos “melhores momentos” do livro e tem como seu grande mérito
embelezá-lo.
O traço de Marjane, inconfundível, ganha vida, texturas e outros tons de cinza,
o que o diferencia bastante do preto e branco, contrastados da HQ. O
resultado visual é ainda mais bonito que o original, embora esse formato ainda
sofra o preconceito das massas consumidoras. Caberia, assim, à adaptação
cinematográfica a tarefa de popularizar a incrível história de Marjane. Ao
explicar porque o filme foi feito com os tradicionais quadros desenhados à mão
(desenhos animados individuais) em vez dos gráficos gerados por computador,
Satrapi disse:
“As linhas dos gráficos gerados por computador não têm imperfeições. Isso tira
personalidade às personagens, os seres humanos não são perfeitos e as linhas
desenhadas à mão refletem melhor as suas almas.” Já faz muito tempo que os
filmes de animação deixaram de ser um programa somente para as crianças. Este
filme é o produto de muitos artistas a trabalhar durante três anos, e
interpretado através do olhar de Chiara Mastroianni que dá a voz à personagem
de Marjane, a filha única de um casal culto; Catherine Deneuve com o papel de
Sra. Satrapi; a neta adorada pela avó por Danielle Darieux e Simon Abkarian,
cujas vozes deram ainda mais vida as personagens e a todos os que nos
bastidores estiveram ocupados a desenhar, inserir a música, editar, etc.
Com traços simples, mas de composição complexa, passando longe de animações
digitais e apelando para um lado “tradicionalista” da arte, “Persépolis” é o
fruto daqueles que encorajaram Satrapi a publicar as suas novelas gráficas,
muito populares entre os fãs da banda desenhada, e os seus colaboradores na
realização do filme.
A força da arte de Satrapi conquistou o apoio de pessoas influentes, incluindo
duas atrizes francesas conhecidas internacionalmente, e isso por sua vez ajudou
o filme a entrar nos canais convencionais. No entanto, o trabalho desses
artistas foi guiado pela ideologia artística e não pelo dinheiro ou fama.
Numa entrevista disponível na página da internet do “Persépolis”, Satrapi diz
sobre sua parceria com Paronnaud:
“Sob muitas formas nós somos muito diferentes e até mesmo opostos, mas
completamo-nos um ao outro ao fazermos este filme e mostramos que todas as
baboseiras sobre Oriente e Ocidente e o choque cultural com que somos
bombardeados não passam de um disparate. “O filme é uma preciosa obra de arte.
A sua forma minimalista parece ser a melhor maneira de contar uma história tão
cheia de acontecimentos e importantes questões. A brevidade das palavras, a
simplicidade dos desenhos e a economia de cores narram uma história compacta
cheia de humor e reflexões. O que num outro contexto poderia ser considerado
fraqueza artística, como a simplicidade ou por vezes mesmo a rudeza das linhas,
a falta de cor e a clara franqueza do texto, são tudo virtudes de “Persépolis.”
Com uma linguagem rápida, diálogos divertidos e belas imagens, “Persépolis” é
um filme de animação com objetivo de expor a intolerância religiosa e as
violações de direitos humanos contra a comunidade religiosa no Irã.
Com temas pesados, dosados pelo humor conferido pela adorável protagonista,
este é um exemplar (cada vez mais comum) de animação destinada ao público
adulto.
Durante a infância, Marjane Satrapi viu de perto as agruras sofridas por seus
familiares nas mãos da monarquia Xá do Irã. Mais tarde, sentiu na pele a
ascensão da cruel e sanguinária Revolução Islâmica, período em que foi obrigada
a deixar país para garantir sua sobrevivência. Com uma biografia trágica como
essa, a escritora poderia muito bem ter criado uma obra triste e amargurada
quando resolveu contar a história de sua vida. Em vez disso, publicou
“Persépolis”, uma cativante e até bem-humorada e autobiografia contada a partir
de histórias em quadrinhos, onde a família e os amigos são expostos em primeiro
plano e a tragédia é usada apenas como pano de fundo, realizando um filme
verdadeiramente único dentro de sua própria proposta.
“Persépolis”, portanto, é uma obra cativante, mas, obviamente, não é para
todos. O governo iraniano, claro, acusou o filme de “fazer um retrato irreal
das conquistas e resultados da gloriosa Revolução Islâmica”.
II – ENTREVISTA COM MARJANE SATRAPI E CHIARA MASTROIANNI:
MARJANE SATRAPI: Foi sim. Três anos atrás eu conversei com meu melhor amigo [Vincent Paronnaud] e perguntei se ele queria fazer o filme comigo. Montamos o estúdio em Paris e reunimos todos os nossos amigos para fazê-lo. Foi um trabalho de amizade essa animação preto e branco – e aí subitamente ela ficou pronta e recebemos uma indicação para Cannes [o filme empatou com Stellet Licht na categoria Prêmio do Júri]. Sabe? Um filme feito com o que tínhamos à mão… foi incrível. Estou muito honrada e feliz e não esperava toda essa atenção.
CHIARA MASTROIANNI: Eu falei pra Marjane que ela devia começar a montar um clipping ou coisa assim. A lista está ficando grande! É uma enorme surpresa, sem dúvida. Quando começamos era algo pequeno e entre um pequeno grupo de pessoas – e agora ele está solto por aí, circulando o mundo e as pessoas estão adorando e dando prêmios a ele… é a cereja no bolo!
Chiara, quando você entrou no projeto já sabia que ele seria tão especial?
CHIARA: No momento que encontrei Marjane soube imediatamente que o filme seria especial. Eu conhecia o livro, que eu gosto muito e considero muito especial – mas a verdade é que fui eu que corri atrás dela quando soube que a história em quadrinhos se transformaria em filme, de tanto que gosto dela. Eu nunca faço isso… sou tímida demais, mas dessa vez eu tinha que fazer parte do projeto. Nos encontramos, tomamos uns drinks, gostamos uma da outra e ela me contratou. Eu acreditei nesse projeto desde o início, mas não tinha a menor ideia de que ele seria tão celebrado.
E como foi o processo de dublagem?
CHIARA: No início foi um pouco estranho, foi numa sala não muito diferente desta… eu não tinha referência alguma da animação… e só depois percebi como isso foi bom. Sem a animação eu não tinha que me preocupar com sincronia labial e podia ser totalmente livre para atuar como quisesse. Foi liberador nesse sentido. Coube aos animadores trabalharem com a nossa atuação e não o contrário.
Marjane, como foi sua colaboração com Vincent?
MARJANE: Antes de trabalharmos juntos em Persépolis, Vincent e eu já éramos amigos de longa data. Trabalhamos juntos no mesmo estúdio durante muito tempo. Não dá pra dizer “ele fez isso, eu fiz aquilo”. Foi uma colaboração com muito diálogo – construímos tudo camada a camada juntos e colocamos no forno ao final juntos. Vendo o resultado depois de tantas discussões é impossível dizer o que ali é dele e o que é meu. Fizemos tudo lado a lado – algo que acho que só foi possível porque somos grandes amigos.
Chiara, como foi trabalhar com os dois?
CHIARA: Foi muito interessante, pois Marjane, além de dirigir, atuou comigo – ela fez todas as vozes dos personagens que estavam em cena comigo durante as gravações. E Vincent estava nos bastidores, checando tudo. A dinâmica entre os dois era ótima, os dois têm o mesmo alto nível de exigência, o que eu adoro. Eles fazem um ótimo dueto.
Marjane, no seu filme você mostra o mercado negro iraniano de fitas e produções proibidas pelo governo. Você já parou pra pensar que seu filme provavelmente vai parar lá também? Acha isso estranho?
MARJANE: Nem um pouco. Eu era tão acostumada com esse mercado negro que não o vejo como algo estranho ou peculiar. Aquele era um período da minha vida – as coisas que eu queria só existiam naquele mercado negro. Acho ótimo que agora farei parte dele.
Como foi a seleção de elenco? Você tem algumas pessoas bem famosas dublando o filme…
MARJANE: Além de famosos, esses atores e atrizes são excelentes. Se não fosse assim eu teria procurado a Paris Hilton. Com certeza daria uma falação maior. Mas, claro, optamos por grandes atores. Quando você faz um filme como esse quer o melhor pra ele e essa seleção, pra mim, reflete isso, com os melhores. Fizemos uma seleção dos sonhos prévia e mandamos pra essas pessoas o roteiro – e todos disseram “sim”. Foi incrível.
Com o sucesso do filme, imagino que você esteja sendo procurada por estúdios para outros projetos…
MARJANE: Nada. Ninguém nos ofereceu coisa alguma. Mas Vincent e eu queremos fazer outro filme juntos. Primeiro vamos nos concentrar no que temos em mente e depois, se alguém nos procurar, estamos abertos a novas ideias, claro.
O nome Persépolis é uma criação dos gregos, que a chamaram de “Cidade dos Persas”, originário do grego parseh + polis. O nome original, aparentemente, era apenas Parseh, mas atualmente o local é mais conhecido como Takht-e Jamshid, que significa “Trono de Jamshid”.
Jamshid foi um dos míticos reis da Pérsia, mas é a Dário I que se deve o início da construção da fabulosa cidade de Persépolis, cujos tesouros já estiveram protegidos por muralhas que atingiam os dezoito metros de altura. O lugar foi escolhido por sua majestosidade natural para ser palco de cerimônias e festejos imperiais, como o Nawruz, o Ano Novo Zoroastra, e exibir as grandezas do império, que chegou a abranger um território que ia até ao Egito, à Grécia e à Índia, atingindo o apogeu depois da fundação da cidade, em 518 a.C. Toda a corte atravessava o deserto entre a capital, Susa, a cerca quinhentos quilômetros, e repetia a viagem no sentido inverso mal acabavam as festas.
Os reis Xerxes e Artaxerxes continuaram a sua construção; palácios e outros monumentos foram-lhe sendo acrescentados durante um período de cento e cinquenta anos, tudo em calcário cinzento e mármore, com recurso a colunas de madeira de cedro e outras árvores gigantescas trazidas da Índia e do Líbano das quais, evidentemente, já nada resta.
A cidade chegou ao fim quando Alexandre, o Grande, da Macedônia, enviou grande parte de seu exército para Persépolis em 330 a.C.. Alexandre realizando uma aproximação rápida logo invadiu os portões persas e capturou as riquezas do império antes que eles fossem retirados do local. Ele deixou sua tropa a vontade para saquear Persépolis por diversos dias. Logo depois a cidade foi toda queimada, mas não se sabe se o fogo foi um descuido ou uma vingança pelo fato dos persas terem queimado a Acrópoles de Atenas.
O magnífico Portal de Xerxes, ladeado por figuras com corpo de leão e cabeça “persa”; as colunas do palácio de Apadana, com cerca de vinte metros de altura; a estatuária e os relevos impressionam, desdobrando-se em figuras de uma perfeição impressionante: animais e pessoas com roupas e toucados elegantes que permitem identificar a sua origem; águias de cabeça dupla, estátuas de mãos dadas, cabelos e barbas enrolados em minuciosos caracóis, touros assírios devorados por leões persas, filas de homens que sobem as escadas dos palácios com ofertas para o rei, recontam em silêncio as extraordinárias histórias da época.
Na colina rochosa sobranceira ao complexo e em Naghsh-é Rostam foram escavados sete túmulos, anunciados no exterior por guerreiros e cavalos gigantescos recortados na pedra com uma maestria digna de féretros reais onde se encontram sepultados os maiores imperadores persas, de Dário I a Xerxes e Artaxerxes.
As escavações começaram em 1930, mas o primeiro visitante ocidental foi o frade Agostinho e diplomata Antonio de Gouveia, admirando já tanta grandeza:
“As paredes dellas estavam todas cubertas de muytas figuras de relevo, mas tambem esculpidas que duvido eu se pudessem lavrar melhor em materia mais branda, por estas escadas se entrava num pateo grande onde estavam as quarenta colunas, que dam nome ao sitio (…) os portaes por onde se entrava a este pateo eram muy altos e as paredes muy largas de hua parte, e outra dellas sahiam Leões & outros animais ferozes, relluados na mesma pedra, tambem lavrados que pareciam que ainda queriam meter medo (…)”.Sobre a escrita cuneiforme que cobre algumas paredes não escapou à sua observação, tendo mesmo lamentado que, como ninguém a conseguia ler:
“tudo ajuda a fazer esquecer o que o ambicioso rey desejou tanto eternizar”. Hoje, Persépolis é Patrimônio Mundial da Humanidade e, mesmo com os seus segredos desvendados, ainda é um lugar que faz sonhar.
IV – TEMPO E ESPAÇO:
O filme faz uma crônica sobre a situação política do Irã (indo do final da década de 70 até o início dos anos 90), um país que tem uma posição geográfica estratégica na região em que está situado, mas que tem uma história de disputa de poder muito complexa.
V – TEMÁTICA:
“Se não virmos ás pessoas como seres humanos, podemos bombardeá-las e
nada acontece. Diariamente são mortas centenas de pessoas no Iraque e nós nem
sequer fizemos um minuto de silêncio”, afirma Satrapi. O filme tem como tema a
história do Irã contemporâneo através da visão de uma criança de nove anos
descendente de uma família intelectual com grandes ambições: ser a última
profetisa da galáxia e assim poder salvar o mundo.
A história de Marjane tem como pano de fundo os acontecimentos
históricos que moldaram seu destino e jogaram um papel não tão insignificante
no moldar do mundo: a Revolução Iraniana de 1979 e o que se lhe seguiu. O
derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica. Assim,
“Persépolis” retrata a perda da inocência. Quando encontramos Marji pela
primeira vez, ela é uma menina de nove anos que, nas suas próprias palavras,
usa roupas “Adidas”, tem Bruce Lee como ídolo. No entanto, a situação política
do seu país é um verdadeiro caos. O Xá e seu regime brutal está prestes a ser
deposto e toda esta realidade lhe é explicada pelo seu pai (dublado por Simon
Abkarian) e pelo seu tio, que foi um ex-prisioneiro político.
A primeira parte do filme apresenta um divisar da vida e da luta de três
gerações da família de Marjane: a história da ditadura; do petróleo; revolta e
revolução.
Diálogos e imagens simples relembram a história amarga, ridicularizam os
tiranos, enquanto seduz o espectador a um contexto histórico-social e cultural
de um país que aderiu ao conservadorismo e repressão muito parecidos à
Inquisição.
Sem intenções moralistas, “Persépolis” parte do particular para o universal,
cruzando ambas as narrativas e sendo simultaneamente íntimo como uma biografia
e abrangente no testemunho, à procura de uma identidade no contexto de uma vida
sob tirania. E se resta alguma ideologia, é a da integridade pessoal nas
relações humanas.
Assim, a história que integra a herança familiar de Marjane e que define a sua
vida faz parte da herança coletiva que molda a existência, as esperanças e os
sonhos de um povo.
A infância de Marjane é marcada pelas figuras de familiares que lutaram contra
o sistema dominante. O pai da mãe, nascido príncipe numa dinastia derrotada,
tornou-se comunista. O seu tio aderiu ao Partido Democrático do Azerbaijão, um
partido que apoiou a então socialista e vizinha URSS e tentou criar uma região
autônoma antes de ser esmagado pelo governo central. Além de dar um esboço de
certo período histórico, aponta para outra verdade: as contradições
fundamentais da sociedade empurram constantemente alguns intelectuais
privilegiados para a revolta contra o sistema. Eles apercebem-se da natureza
obsoleta das relações dominantes e essa compreensão da necessidade de mudar o
mundo e de construir outro mundo com toda uma nova base coloca-os nas fileiras
dos oprimidos e mesmo, por vezes, à frente das suas lutas.
Dessa forma, o pano de fundo de “Persépolis” é baseado na própria trajetória
história do Irã, passando pela imposição religiosa imposta no país, nesse
cenário se encontra Marji. Nascida nos anos 70, ela assiste a Revolução dominar
seu país e levar os seus pais às manifestações.
Logo após a revolução, numa rua de bairro, Marjane e outras crianças perseguem
um menino cujo pai é membro da Savak, a polícia secreta e torturadora do Xá.
Mas quando o confronta, ela não lhe consegue bater. Mais tarde, o Deus de
Marjane diz-lhe para não se preocupar e deixar a justiça para ele.
O derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica. A
narração em voz sobreposta das principais personagens do filme acompanha os
desenhos de Satrapi, imagens de vagas de repressão, mulheres forçadas a cobrir
o cabelo, detenções, fugas do país e execuções. A República Islâmica ataca a
maré revolucionária que derrubou o Xá.
Assiste-se a efusão e a alegria esperançosa das massas iranianas durante os
primeiros dias da revolução, quando as manifestações contra a monarquia apenas
tinham começado e o riso da pequena Marjane quando joga com o pai.
Em seguida, Anoush, o tio de Marjane que fora libertado das prisões do Xá pela
revolução, é novamente preso. Marjane visita-o na prisão na noite anterior à
sua execução e fala-lhe sobre sua convicção na vitória final do
proletariado.
A execução de Anoush torna-se uma alegoria da derrota da revolução. Numa cena
pungente, ela enfurece-se contra o Deus que ela imagina: um velho de barbas
brancas sentado nas nuvens. Ele não representa necessariamente uma religião em
particular.
Marjane rejeita-o, mas essa rejeição não é permanente.
O Deus de Marjane, tal como outras pessoas, só existe para compreender a
realidade, ele nunca é realmente útil. Apenas representa a disputa entre o
conhecido e o desconhecido no seu cérebro, em contrapartida, a sua avó
representa o papel da experiência e da consciência.
Ela pragueja livremente, colhe jasmim que põe no sutiã para “cheirar bem” e
ensina Marjane a preservar a sua integridade. Sempre que Marjane revolta-se
contra aos seus valores por fraqueza ou medo (seja face ao racismo na Áustria
ou aos Pasdaran no Irã), a avó enfatiza a importância da perseverança nos
princípios de uma pessoa, uma vez que ela viu e sabe que os seres humanos,
mesmo na mais difícil das situações, têm escolhas.
Esse Deus faz outra aparição no filme mais tarde quando, ao fracassar na sua
tentativa de encontrar uma vida nova no estrangeiro, Marjane fica cansada da
vida e quer morrer. Mas ela é agora mais experiente e atenta ao seu papel na
mudança. E assim Marx acompanha Deus nessa cena. O Deus de Marjane, com o seu
aspecto e voz de banda desenhada, é um dos muitos toques humorísticos do filme,
mas reflete ao mesmo tempo a disputa da mente humana no processo de compreensão
da realidade.
A realidade da implantação da República Islâmica que se seguiu ao golpe de
Estado de 1981 é trazida à tela pelos rostos de raparigas que usam véus negros.
Mas isso, apesar de amargo, é apenas parte da realidade.
Uma alteração na personalidade dessas raparigas, retratadas com linhas simples,
mas vivas, contrastam nitidamente com os panos negros que envolvem os seus
rostos dinâmicos. Uma nova força está a emergir das profundezas da sociedade. A
revolta das mulheres e das raparigas face à República Islâmica e à sua velha e
podre ideologia faz parte do tecido da história e a narradora é ela própria um
símbolo dessa força vibrante.
Como toda mulher, ela também foi obrigada a usar o véu. Andar com jaqueta jeans
e tênis pelas ruas, como numa das histórias do volume 2, levou Marji a um
interrogatório de uma patrulha de senhoras pró-revolução.
Mas isso é detalhe perto do que acontece no resto do país. Os pais de Marji,
intelectuais liberais com alguns vínculos com o governo anterior, começam a
perder amigos, que misteriosamente desaparecem. Vizinhos e parentes fogem
enquanto podem (o país fecha suas fronteiras em 1981). Com o início da guerra
contra o Iraque, em 1980, uma bomba pode repentinamente cair no seu bairro. O
terror e a falta de perspectiva tomam conta.
Em meio a toda tristeza da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao
revelar o que é ser um civil no meio de uma revolução, de uma transformação
cultural violenta e de uma guerra. Mas, no clima de terror e incerteza do país,
Marji e sua família ainda encontram tempo para rir. São estes momentos, de
humor no meio do caos (às vezes um tanto nervoso), que tornam “Persépolis”
imperdível.
O filme faz recortes da vida da protagonista; da criança curiosa e observadora
até a adolescente petulante e intransigente, que ouvia discos do Iron Maiden e
promovia bate-boca com professores em sala de aula. Sua conduta contestadora é
apoiada pelos pais, profundo detratores do radicalismo e das leis religiosas do
governo do Irã.
Na medida em que se tem a entrada da
Nova República Islâmica, com seus “Guardiões da Revolução”, viver no Irã fica
cada vez mais perigoso e seus pais decidem enviá-la para a Áustria. E é a
partir daí que vemos Marji passar por um processo de amadurecimento, o qual vai
ser marcado pela tentativa dela de encontrar seu lugar e seu papel no meio de
tudo isso.
Longe de casa, lida com alguns preconceitos e decepções amorosas e sofre pela
falta da avó, sua melhor amiga, e da mãe.
Uma menina rebelde vinda do Irã,
Marji alia-se com a maioria dos desterrados da escola, os autoproclamados
anarquistas, nihilistas e outros colegas rebeldes. Algumas linhas divisórias
fundamentais da sociedade são apresentadas como diferentes reações em relação a
esta rapariga estrangeira e escura: o racismo, a misoginia e a igreja por um
lado, e a revolta contra o poder por outro.
Com o coração desfeito, a solidão e a nostalgia, Marji decide voltar às suas raízes: o Irã de 1988, após o massacre de presos políticos pelo regime, depois da guerra com o Iraque. Quase um milhão de pessoas tinha morrido ou ficado incapacitadas. Inúmeras ruas foram rebatizadas com nomes de mortos e um passeio pela cidade era “um passeio por um cemitério”. O fracasso de Marji na Áustria, combinado com o cinzento e o peso da morte em Teerão, tiram-lhe as forças. Começa a pensar na morte. É aqui que Deus e Marx lhe aparecem e lhe dizem para ser forte. Marx salienta com um sorriso que a luta continua. Marjane decide não abandonar a esperança. Levanta-se e leva a sua decisão à prática. Faz os exames, vai para universidade e dá início a mais um episódio da sua vida.
VI – CONSIDERAÇÕES GERAIS:
Este filme coloca importantes questões sobre a revolução. Questões a que
não responde necessariamente, mas que, quando colocadas, despertam o pensamento
e exigem uma análise. Numa cena, um familiar de Marjane está doente e precisa
de um bypass no coração, uma operação que não era possível fazer no Irã. Para
viver, precisa de autorização para deixar o país. A sua esposa dirige-se ao
responsável administrativo do hospital para pedir autorização. O novo chefe
tinha sido porteiro do seu prédio antes da revolução. Tornou-se num muçulmano
inflexível, deixou crescer a barba, não olha para as mulheres nos olhos… e
claro que recusa a autorização de saída. O destino do paciente, suspira ele,
“está na vontade de deus”. A cena faz-nos sentir profundamente a impotência das
pessoas face aos novos reacionários no poder e a predomínio da ignorância e da
superstição contra a ciência, a lógica e os interesses das pessoas.
Essa personagem salienta uma das questões políticas e ideológicas que todas as
revoluções enfrentam. A Revolução abala as velhas relações e abre caminho à
criação de novas relações. Mas quando a liderança está na mão de forças cujo
interesse é preservar a velha ordem sob uma nova forma, como foi o caso do Irã
em 1979, as tendências retrógradas entre as pessoas podem ser reforçadas e
transformadas numa ferramenta nas mãos da nova classe dominante. Uma dessas
tendências é a de usar as oportunidades oferecidas pela situação para se
autopromoverem e tentarem obter posições a que antes não tinham acesso. Por vezes,
essa tendência entre os estratos mais baixos está ligada a um sentimento de
vingança contra os que no passado tinham posições privilegiadas; e muitas vezes
essa violência não visa às classes dominantes, mas os estratos médios educados.
É claro que, sem uma mudança fundamental nas relações existentes, apenas um
punhado (que normalmente têm um aguçado olfato oportunista) chega a algum lugar
e a grande maioria continua a ser despojada e reprimida. A República Islâmica,
que usou todos os recursos ideológicos reacionários, sobretudo a religião, para
estupidificar as massas e estabelecer e preservar o seu domínio tirou proveito
desta tendência retrógrada para manter uma fachada populista e preservar a sua
base entre um sector das massas. O resultado foi uma brutal repressão dos
intelectuais e das massas.
“Persépolis”, à sua própria maneira, expõe completamente os crimes da República
Islâmica. Mas, apesar do que alguns escolham assumir, não negligencia o papel
do Ocidente levar dos tiranos fantoches ao poder e na repressão das massas. Os
espectadores dão-se conta do papel da Grã-Bretanha no golpe de estado que levou
o pai do Xá ao poder, na pilhagem do petróleo do país, no treino dos
torturadores da Savak pela CIA e na venda de armas pelos países ocidentais a
ambos os lados da guerra Irã-Iraque. Tudo isso são lembranças de que o Irã não
existe num vácuo, mas faz parte de um sistema que espalhou os seus tentáculos
por todo o globo e que a luta que aí ocorre faz parte da luta contra esse
sistema global.