I – AUTOR:
DIAS GOMES (Alfredo de Freitas D.G.),
romancista, contista e teatrólogo, nasceu em Salvador, BA, em 19 de outubro de
1922. Eleito em 11 de abril de 1991 para a Cadeira nº. 21, na sucessão de
Adonias Filho, foi recebido em 16 de julho de 1991, pelo acadêmico Jorge Amado.
Filho do engenheiro Plínio Alves Dias
Gomes e de Alice Ribeiro de Freitas Gomes, fez o curso primário no Colégio
Nossa Senhora das Vitórias, dos Irmãos Maristas, e iniciou o secundário no
Ginásio Ipiranga. Em 1935, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde
prosseguiu o curso secundário no Ginásio Vera Cruz e posteriormente no
Instituto de Ensino Secundário. Com apenas 15 anos escreveu sua primeira peça, A comédia dos moralistas, que ganhou o
primeiro no Concurso do Serviço Nacional de Teatro em 1939.
O jovem autor
escreveu Pé de Cabra, sua primeira realização teatral de sucesso, que
foi produzida e encenada pelo ator Procópio Ferreira e exibida em diversas
capitais brasileiras nos anos de 1943 e
Em seguida, escreveu as peças O homem que não era seu e João Cambão.
Em 1943, sua peça Amanhã será outro dia
foi encenada pela Comédia Brasileira (companhia oficial do SNT). Assinou
contrato de exclusividade com Procópio Ferreira, para a montagem de várias peças
subsequentes.
Em
"Fiz mais de 500 adaptações para o rádio-teatro. Foi um trabalho de grande valia porque tive que ler quase toda a dramaturgia e literatura universais. O meu volume de leitura, nesses anos, acabou tendo grande importância na minha formação cultural. Ao mesmo tempo, adquiri uma prática artesanal de experimentar, montar os diálogos, as cenas, com grande rapidez, em razão da demanda que o rádio exigia".
Em 1950, casou-se com Janete Emmer
(Janete Clair), com quem teve cinco filhos: Guilherme, Alfredo (falecido),
Denise, Alfredo e Marcos Plínio (falecido). Em fins de 1953, viajou a União
Soviética com uma delegação de escritores, para as comemorações do dia 1° de maio.
Por essa razão, ao voltar ao Brasil, foi demitido da Rádio Clube. Seu nome foi
incluído na "lista negra" e perseguido politicamente em 1953, mesmo
assim, continuou produzindo, mas não assinou seus trabalhos durante um ano e seus
textos para a televisão tiveram que ser negociados com a TV Tupi em nome de
colegas.
Em todo esse
período a atuação mais marcante de Dias Gomes foi como escritor de textos
teatrais, sua grande paixão.
"De todas as artes acho o teatro a mais atuante. Foi uma das primeiras
manifestações culturais no Brasil e serviu de propósitos catequéticos e
políticos. Era a conquista do índio para o Deus branco e consequentemente para
o senhor branco. A valorização do teatro era evidente, pois se não fosse, eles
teriam escrito romances ou pintado quadros. Mas não. Anchieta escreveu e
encenou peças".
Em 1959, escreveu a peça O pagador de promessas, que estreou
no TBC,
Em 1964, Dias Gomes foi demitido da
Rádio Nacional, da qual era diretor-artístico, pelo Ato Institucional n. 1,
enquanto O pagador de promessas estreava em Washington e A invasão era encenada
"Em 68 todas as luzes se apagaram. A minha geração, violentamente castrada, enfrentou a estranha situação de a própria realidade ser considerada subversiva pelos militares, pois ela era injusta, o governo sabia disso e a proibiu nos palcos. Restaram duas opções: ou você se adaptava ao regime e não questionava nada ou partia para um texto de metáforas, caminho que alguns autores encontraram para continuar resistindo e denunciando".
Assediado pela imprensa em geral, Dias Gomes declarava suas intenções de produzir textos para a televisão em que o debate das questões sociais brasileiras e a quebra de alguns tabus fossem tão importantes quanto à trama romântica:
"Pensei em fazer novelas que espelhassem a nossa realidade e acabassem com o maniqueísmo exagerado dos personagens da televisão, os heróis com todas as virtudes e os maus com todos os defeitos. Procurei também introduzir problemas reais do país como o preconceito racial, o conflito de gerações, o fanatismo religioso, o poder de corrupção do dinheiro etc. Ao lado disso, fui acrescentando um elemento pouco frequente nas telenovelas até então: o humor, o humor mesmo na tragédia, pois como diz o poeta, ao lado de quem chora, há sempre alguém que ri. Além do público em geral, em algumas novelas eu procurei conquistar também a juventude. Em Assim na Terra Como no Céu, por exemplo, coloquei assuntos de interesse dos jovens tais como a insegurança, a violência e a recusa em aceitar o mundo que está lhes sendo legado...".
Nas palavras de Dias Gomes: "A telenovela mostra gente que não sabe o que fazer com o dinheiro que ganha e gente que não sabe o que fazer para ganhar dinheiro, gente boa, gente não muito boa, gente má, gente não muito má, enfim, todo o mundo e submundo da sociedade heterogênea na qual vivemos, contraditória, louca, que constrói e destrói, onde o ter é muito mais importante que o ser, onde Deus e o Diabo dão as mãos e dançam juntos".
“A televisão é um veículo que mostra uma
realidade da qual é produto, por isso não tenho preconceito algum em trabalhar
nela, aliás, se tivesse não teria ido. Mas se eu pudesse escolher passaria a
vida toda escrevendo para o teatro. Fui para a televisão num momento em que
todas as minhas peças estavam sendo proibidas e eu precisava sobreviver
economicamente. Por outro lado, dentro das minhas convicções sociais, achei
importante encarar essa platéia gigantesca. Toda a minha geração sonhou com o
teatro popular. A televisão me oferecia esse meio de expressão popular. Fui
para a rede Globo e me senti à vontade porque, naquela época, nunca alguém
mudou uma vírgula dos meus textos, nem me disse o que escrever. Meus textos
eram alterados pela censura militar. Várias vezes a censura pediu a minha
cabeça e a de outros autores comunistas, mas a Globo não concordou. Apenas mais
recentemente a censura interna da emissora interferiu num texto meu, mudando
diversas coisas na nova versão, para a TV, que eu tinha feito de O Pagador de Promessas."
Dias Gomes é considerado um dos maiores autores de telenovelas do país em razão do seu grande talento em retratar a sociedade brasileira através de uma contundente crítica social, exibida de maneira franca, lúcida e repleta de humor. Os textos do autor procuram espelhar as angústias da atualidade sem explorar dogmas. Questionam problemas sem a pretensão de apresentar soluções. Apenas os evidenciam para chamar a atenção do público sobre determinadas questões sociais, sem a intenção de propagar "mensagens". Até porque, utiliza-se constantemente da comicidade quando mostra o trágico. Procura provocar o riso quando revela a farsa e o ridículo que se ocultam sob tantas situações político-administrativas injustas.
Outro ponto de interesse da obra
televisiva do autor é a coerência de narração do tema e da condução das
personagens dentro da história. Como a telenovela é uma obra aberta em relação
ao seu desenvolvimento diário, ou seja, tudo pode acontecer na trama cotidiana
para que se tenha história durante 150 capítulos, muitos autores iniciam
assuntos secundários que não são terminados, dão fim inverossímil a outros
assuntos ou a personagens ou ainda se perdem no emaranhado de tramas. Dias
Gomes é um dos poucos autores do gênero a ter lógica narrativa em todas as suas
obras.
Por outro lado, o
seu modo de utilizar temas surrealistas ou mesmo absurdos em suas histórias
abriu o leque de perspectivas da temática do gênero.
Em relação aos temas fantásticos que
aborda, Dias declarou:
Em 1980, em decorrência da decretação da Anistia, foi reintegrado aos quadros da Rádio Nacional, e seus trabalhos como Roque Santeiro, foram liberados para apresentação. Do período pós-anistia, apresenta a peça, Campeões do mundo, encenada em novembro de 1980 no Teatro Villa-Lobos, do Rio. Em 1983, Vargas (nova versão de Dr. Getúlio) estreou no Teatro João Caetano, do Rio. No dia 16 de novembro, faleceu sua esposa, a novelista Janete Clair.
A peça Vamos soltar os demônios (Amor
em campo minado), em que procurou discutir a situação do intelectual dentro
de um regime político autoritário, já liberada pela censura, estreou no Teatro
Santa Isabel, de Recife, em 1984. Nesse ano, Dias Gomes casou-se com Maria
Bernardete, com quem tem duas filhas: Mayra e Luana.
Em 1985, criou e dirigiu, até
Apesar do sucesso,
o autor declarava continuamente que não pretendia mais fazer televisão e que
chegava mesmo a abominá-la, em razão do veículo nocivo em que ela havia se
transformado ao buscar sucesso e audiência a qualquer preço. Mesmo assim, foi
sempre solicitado a escrever ou adaptar suas obras. Cansado do longo trabalho
de fazer telenovelas, preferiu, nos últimos anos, realizar minisséries, que
considerava mais imediatas e uma boa forma de abordagem dos temas nacionais.
Para ele: "uma novela boa tem três capítulos: começo, meio e fim. Parei de
escrevê-las porque é o caminho mais curto para um enfarte. Assisti-las, então,
nem pensar..."
A obra escrita de Dias Gomes foi
reunida na COLEÇÃO DIAS GOMES, coordenação de Antonio Mercado, composta dos
seguintes volumes: 1. Os heróis vencidos (1989); 2. Os falsos mitos (1990); 3.
Os caminhos da revolução (1991); 4. Espetáculos musicais (1992); 5. Peças da
juventude (1994);
Alfredo de Freitas Dias Gomes faleceu
TEATRO: A comédia dos
moralistas (1939); Esperidião, inédita (1938); Ludovico, inédita (1940); Amanhã
será outro dia (1941); Pé-de-cabra (1942); João Cambão (1942); O homem que não
era seu (1942); Sinhazinha (1943); Zeca Diabo (1943); Eu acuso o céu (1943); Um
pobre gênio (1943); Toque de recolher (revista), em parceria com José Wanderlei
(1943); Doutor Ninguém (1943); Beco sem saída (1944); O existencialismo (1944);
A dança das horas (inédita), adaptação do romance Quando é amanhã (1949); O bom
ladrão, inédita (1951); Os cinco fugitivos do Juízo Final (1954); O pagador de
promessas (1959); A invasão (1960); A revolução dos beatos (1961); O bem-amado
(1962); O berço do herói (1963); O santo inquérito (1966); O túnel (1968);
Vargas (Dr. Getúlio, sua vida e sua glória), em parceria com Ferreira Gullar
(1968); Amor em campo minado (Vamos soltar os demônios) (1969); As primícias
(1977); Phallus, inédita (1978); O rei de Ramos (1978); Campeões do mundo
(1979); Olho no olho, inédita (1986); Meu reino por um cavalo (1988).
TELEVISÃO: Telenovelas na TV
Globo: A ponte dos suspiros, sob o pseudônimo de Stela Calderón (1969); Verão
vermelho, (1969/1970); Assim na terra como no céu (1970/1971); Bandeira 2
(1971/1972); O bem-amado (1973); O espigão (1974); Saramandaia (1976); Sinal de
alerta (1978/1979); Roque Santeiro (1985/1986); Mandala, sinopse e primeiros 20
capítulos (1987/1988); Araponga, com Ferreira Gullar e Lauro César Muniz
(1990/1991).
Minisséries: Um tiro no
coração, em co-autoria com Ferreira Gullar, inédita (1982); O pagador de
promessas (1988); Noivas de Copacabana (1993); Decadência (1994); O fim do
mundo (1996).
Seriados: O bem-amado
(1979/1984); Expresso Brasil (1987).
Especiais (Telepeças): O
bem-amado, em adaptação de Benjamin Cattan, TV Tupi, "TV de
Vanguarda" (1964); Um grito no escuro (O crime do silêncio), TV Globo,
"Caso Especial" (1971); O santo inquérito, em adaptação de Antonio
Mercado, TV Globo, "Aplauso" (1979); O boi santo, TV Globo (1988); A
longa noite de Emiliano, inédita, TV Globo.
ROMANCES: Duas sombras apenas
(1945); Um amor e sete pecados (1946); A dama da noite (1947); Quando é amanhã
(1948); Sucupira, ame-a ou deixe-a (1982); Odorico na cabeça (1983); Derrocada
(1994); Decadência (1995).
CONTOS: A tarefa ou Onde
estás, Castro Alves? in Livro de cabeceira do homem, ano I, v. III (Civilização
Brasileira, 1967); A tortuosa e longa noite de Emiliano Posada, inédito.
CINEMA: O pagador de promessas,
direção de Anselmo Duarte, Leonardo Vilar, Glória Menezes, Dionísio Azevedo,
Geraldo Del Rey, Norma Benguell, Othon Bastos e Antonio Pitanga (1962); O
marginal (roteiro), direção de Carlos Manga, com Tarcísio Meira e Darlene
Glória (1974); O rei do Rio (adaptação de O rei de Ramos), direção de Bruno
Barreto, com Nuno Leal Maia, Milton Gonçalves e Nelson Xavier (1985); Amor em
campo minado, direção de Pastor Vera, Cuba (1988).
III - ESTILO LITERÁRIO:
A dramaturgia
brasileira ficou à margem da renovação modernista na década de 1920, ficando
ausente das comemorações da Semana de Arte Moderna, realizada
O crítico Sábato
Magaldi afirmou que “o teatro brasileiro
entrou verdadeiramente no século XX, no dia 28 de dezembro de 1943, quando sob
a direção do polonês Ziembinski, a peça de “Vestido de Noiva”, de Nelson
Rodrigues.”
A partir de então, começam a surgir inúmeros
grupos e autores que deram novo impulso ao teatro brasileiro contemporâneo e
entre eles, situa-se Dias Gomes.
Encenada pela primeira vez a
29 de julho de 1960, no Teatro Brasileiro de Comédia (São Paulo), O
pagador de promessas marca o início da segunda fase do teatro de Dias
Gomes e sua consagração como um dos mais destacados dramaturgos contemporâneos
do Brasil. Considerada por Anatol Rosenfeld como uma tragédia, no sentido
clássico do termo, O Pagador de Promessas, segundo o próprio Dias Gomes, “é a história de um homem que não quis
conceder - e foi destruído”.
IV – TEMPO:
Narrativa linear e tempo cronológico.
Há também a inclusão do memorialismo, feedbacks.
V – ESPAÇO:
A história acontece no Estado da Bahia – do interior até Salvador.
VI – ESTRUTURA:
Obra
dramática composta por três atos, sendo que os dois primeiros ainda são
subdivididos em dois quadros cada um.
VII– “O PAGADOR DE PROMESSAS”
“O HOMEM, no sistema
capitalista, é um ser que luta contra uma engrenagem social que promove a sua
desintegração, ao mesmo tempo que aparenta e declara agir em defesa de sua
liberdade individual. Para adaptar-se a essa engrenagem, o indivíduo concede
levianamente, ou abdica por completo de si mesmo. O Pagador de Promessas é
a estória de um homem que não quis conceder – e foi destruído. Seu tema central
é, assim, o mito da liberdade capitalista. Baseado no princípio da liberdade de
escolha, a sociedade burguesa não fornece ao indivíduo os meios necessários ao
exercício da dessa liberdade, tornando-a, ilusória. (GOMES, DIAS. 1972)
PRIMEIRO ATO: Primeiro quadro.
A primeira cena da peça teatral inicia-se às quatro horas e trinta minutos. Ainda não havia amanhecido na cidade de Salvador e o casal Zé do Burro e sua esposa Rosa, chegam a frente à igreja de Santa Bárbara.
Saíram às cinco da
manhã do interior baiano e caminharam sete léguas até que chegam à igreja um
pouco antes desse horário.
Zé do Burro era um
homem muito simples, proprietário rural de um pequeno pedaço de terra no
interior do Nordeste, donde tirava o sustento de sua família e possuía um burro,
o Nicolau por quem tinha muito apego
e que acreditava que tinha “alma de gente”.
Uma fatalidade
mudou o rumo de sua vida: um dia o burro foi atingido por uma queda de uma árvore,
em virtude de um raio, deixando-o gravemente ferido.
Zé do Burro desesperado ante essa
situação, fez uma promessa à Santa Bárbara: caso seu burro se recuperasse, ele dividiria
suas terras entre os necessitados e carregaria uma cruz tão pesada como a de
Jesus até a igreja da Santa.
Como em sua cidade não havia a respectiva igreja, fez a promessa em um terreiro de candomblé, onde ela é conhecida pelo nome de Iansã.
Seu burro se recupera
e assim, ele e sua esposa, partem em via
crucis para cumprir o prometido e oferecer ao padre responsável pela
referida igreja, à sua cruz.
Mas, ao chegarem ao
local, encontram a igreja ainda fechada e por mais que Rosa insistisse
para que ele deixasse a cruz na porta, Zé mantinha-se firme na ideia de que a
promessa só seria cumprida se ele deixasse a cruz na frente do altar como
prometera.
Zé — (Olhando a igreja.) É essa. Só pode ser essa. (Rosa pára também, junto aos degraus, cansada, enfastiada e deixando já entrever uma revolta que se avoluma.)
Rosa — E agora? Está
fechada.
Zé — É cedo ainda. Vamos
esperar que abra.
Rosa — Esperar? Aqui?
Zé — Não tem outro jeito.
Rosa — (Olha-o com raiva
e vai sentar-se num dos degraus. Tira o sapato.) Estou com cada bolha d’água no
pé que dá medo.
Zé — Eu também.
(Contorce-se de dor. Despe uma das mangas do paletó.) Acho que os meus ombros
estio em carne viva.
Rosa — Bem feito. Você
não quis botar almofadinhas, como eu disse.
Zé — (Convicto) Não era
direito. Quando eu fiz a promessa, não falei em almofadinha.
Rosa — Então: se você
não falou, podia ter botado; a Santa não ia dizer nada.
Zé — Não era direito. Eu
prometi trazer a cruz nas costas, como Jesus. E Jesus não usou almofadinhas.
Rosa — Não usou porque
não deixaram.
Zé — Não, esse negócio de
milagres, é preciso ser honesto. Se a gente embrulha o santo, perde o crédito.
De outra vez o santo olha, consulta lá os seus assentamentos e diz: — Ah, você
é o Zé do Burro, aquele que já me passou a perna! E agora vem me fazer nova
promessa. Pois vá fazer promessa pro diabo que o carregue, seu caloteiro duma
figa! E tem mais: santo é como gringo, passou calote num, todos os outros ficam
sabendo.
Rosa — Será que você
ainda pretende fazer outra promessa depois dessa? Já não chega?
Zé — Sei não ... a gente
nunca sabe se vai precisar. Por isso, é bom ter sempre as contas em dia. (Ele
sobe um ou dois degraus. Examina a fachada da igreja à procura de uma
inscrição.)
Rosa — Que é que você
está procurando?
Zé — Qualquer coisa
escrita, pra a gente saber se essa é mesmo a igreja de Santa Bárbara.
Rosa — E você já viu
igreja com letreiro na porta, homem?
Zé — É que pode não ser
essa...
Rosa — Claro que é essa.
Não lembra o que o vigário disse? Uma igreja pequena, numa praça, perto duma
ladeira...
Zé — (Corre os olhos em
volta.) Se a gente pudesse perguntar a alguém...
Rosa — Essa hora está
todo mundo dormindo. (Olha-o quase com raiva.) Todo o mundo ... menos eu, que
tive a infelicidade de me casar com um pagador de promessas. (Levanta-se e
procura convencê-lo.) Escute, Zé... já que a igreja está fechada, a gente podia
ir procurar um lugar para dormir. Você já pensou que beleza agora uma cama? ...
Zé — E a cruz?
Rosa — Você deixava a
cruz aí e amanha, de dia ...
Zé — Podem roubar ...
Rosa — Quem é que vai
roubar uma cruz, homem de Deus? Pra que serve uma cruz?
Zé — Tem tanta maldade no
mundo. Era correr um risco muito grande, depois de ter quase cumprido a
promessa. E você já pensou: se me roubassem a cruz, eu ia ter que fazer outra e
vir de novo com ela nas costas da roça até aqui. Sete léguas.
Rosa — Pra quê? Você
explicava à santa que tinha sido roubado, ela não ia fazer questão.
O casal, então, se aloja na escadaria enquanto esperam amanhecer e a igreja abrir.
Rosa, deitada ao lado de seu
marido, reclama de sua teimosia, da longa caminhada percorrida, do
cansaço e das bolhas em seus pés e depois,
acaba adormecendo.
Zé, que estava extremamente cansado da jornada
com a cruz, tenta manter-se em vigília, mas acaba cochilando constantemente.
Nesse momento, chega à praça, Bonitão, um gigolô "insensível a tudo isso. Ele é frio e brutal em sua profissão. Encara a exploração a que submete Marli e outras mulheres, como um direito que lhe assiste, ou melhor, um dom que a natureza lhe concedeu, juntamente com seus atributos físicos. Em seu entender, sua beleza máscula e seu vigor sexual aliados a um direito natural de subsistir, justificam plenamente seu modo de vida. É de estatura um pouco acima da média, forte e de pele trigueira, amulatada. A ascendência negra é visível, embora os cabelos sejam lisos, reluzentes de gomalina e os traços regulares, com exceção dos lábios grossos e sensuais e das narinas um tanto dilatadas. Veste-se sempre de branco, colarinho alto, sapatos de duas cores” e Marli, uma prostituta, "ela tem, na realidade, vinte e oito anos, mas aparenta mais dez. Pinta-se com algum exagero, mas mesmo assim não consegue esconder a tez amarelo-esverdeada. Possui alguns traços de uma beleza doentia, uma beleza triste e suicida. Usa um vestido muito curto e decotado, já um tanto gasto e fora de moda, mas ainda de bom efeito visual. Seus gestos e atitudes refletem o conflito da mulher que quer libertar-se de uma tirania que, no entanto, é necessária ao seu equilíbrio psíquico - a exploração de que é vítima por parte de Bonitão vem, em parte, satisfazer um instinto maternal frustrado. Há em seu amor e em seu aviltamento, em sua degradação voluntária, muito de sacrifício maternal, ao qual não falta, inclusive, um certo orgulho."
Eles discutem e deixam nítida a relação entre a submissão e a exploração entre eles. Marli entrega-lhe o dinheiro que conseguiu através de sua prostituição e ele reclama do pouco que ela conseguiu. Ela defende-se alegando que o serviço de prostituição não rendia como antes e os dois acabam brigando.
Marli o amava, mas Bonitão via na pobre moça, uma mercadoria, fruto de sua renda financeira.
Marli parte e Bonitão repara no
casal da escadaria da igreja. Dirige-se até eles.
Zé do Burro é "homem ainda moço, de 30 anos presumíveis,
magro, de estatura média. Seu olhar é morto, contemplativo. Suas feições
transmitem bondade, tolerância e há em seu rosto um “que” de infantilidade.
Seus gestos são lentos, preguiçosos, bem como sua maneira de falar. Tem barba
de dois ou três dias e traja-se decentemente, embora sua roupa seja mal talhada
e esteja amarrotada e suja de poeira" e Rosa "pouco parece ter de comum com ele (Zé do
Burro). É uma bela mulher, embora seus traços sejam um tanto grosseiros, tal
como suas maneiras. Ao contrário do marido, tem “sangue quente”. É agressiva em
seu “sexy”, revelando, logo à primeira vista, uma insatisfação sexual e uma ânsia
recalcada de romper com o ambiente em que se sente sufocar. Veste-se como uma
provinciana que vem à cidade, mas também como uma mulher que não deseja ocultar
os encantos que possui."
Bonitão, enquanto conversa com Zé do
Burro repara com interesse na beleza física de Rosa. Em seguida, sugere ao Zé
do Burro que fosse observar se a porta lateral da sacristia já não se abrira,
pois o padre costumava levantar-se cedo para preparar a missa das seis.
Rosa, por sua vez, conversa com Bonitão,
queixa-se de sua vida, de seu marido, conta-lhe sobre a promessa, a divisão de
terras com os lavradores pobres, a viagem etc
Bonitão percebendo a ingenuidade de Zé e o
“atiramento” de Rosa, com astúcia de um grande conquistador, corteja Rosa e coloca-se
à disposição a ajudá-los sob o disfarce de um bom rapaz. Bonitão sugere
providenciar um hotel para que eles descansassem até a igreja abrir.
Zé do Burro agradece, mas rejeita a proposta.
Afinal, ele não podia deixar a cruz ao léu, além de correr o risco de a roubarem.
Mas, preocupado com
o cansaço e a segurança de sua esposa e, confiando na “honestidade e bondade do
novo amigo” permite e até incentiva que Rosa o acompanhe.
Saem os dois, Bonitão e Rosa, de cena.
Amanhece e começa a agitação ao redor da praça. Zé do Burro permanece firme em suas convicções e espera ansioso à abertura da igreja.
Chega a Beata vestida "toda de preto, véu na cabeça, passinho miúdo".
Ela representa a figura clássica da mulher que vive para a igreja, talvez para
preencher algum vazio em sua vida ou talvez por uma fé ingênua. A Beata reclama
ao Sacristão que a porta da igreja se mantinha fechada, mesmo depois de soarem
os sinos.
O Sacristão "é um homem de perto de 50 anos. Sua mentalidade, porém, anda aí pelos quatorze. Usa óculos de grossas lentes, é míope. O cabelo teima em cair-lhe na testa, acentuando a aparência de retardado mental."
Os dois avistam Zé do Burro e sua cruz.
Bonitão volta e Zé
do Burro pede para falar com o Padre
Olavo, o responsável pela Igreja, “um
padre moço ainda. Deve contar, no máximo, quarenta anos. Sua convicção
religiosa aproxima-se do fanatismo. Talvez, no fundo, isto seja uma prova de
falta de convicção e autodefesa. Sua intolerância - que o leva, por vezes, a
chocar-se contra princípios de sua própria religião e a confundir com inimigos
aqueles que estão de seu lado - não passa, talvez, de uma couraça com que se
mune contra uma fraqueza consciente."
Em seguida, aparecem a Beata, o Sacristão e o
Padre Olavo.
Zé explica a promessa:
- Nicolau foi ferido com a queda de uma árvore; estando para morrer, Zé fez a promessa.
- O burro -
Nicolau é um burro! - salva-se.
Zé – Seu vigário me desculpe, mas eu tentei de tudo. Preto Zeferino é rezador afamado na minha zona: sarna de cachorro, bicheira de animal, peste de gado, tudo isso ele cura com duas rezas e três rabiscos no chão. Todo o mundo diz. E eu mesmo, uma vez estava com uma dor de cabeça danada, que não havia meio de passar. Chamei Preto Zeferino, ele disse que eu estava com o Sol dentro da cabeça. Botou uma toalha molhada na minha testa, e derramou uma garrafa d’água, rezou uma oração, o sol saiu e eu fiquei bom. (p. 43)
O Padre repreende-o:
Padre – Você fez mal, meu
filho. Essas rezas são orações do demo.
Zé – Do demo, não senhor.
Padre – Do demo, sim.
Você não soube distinguir o bem do mal. Todo homem é assim. Vive atrás do
milagre em vez de viver atrás de Deus. E não sabe se caminha para o céu ou para
o inferno.
Zé – Para o inferno? Como
pode ser, Padre, se a oração fala de Deus? (Recita.) “Deus fez o Sol, Deus fez a luz, Deus fez toda a
claridade do Universo grandioso. Com Sua Graça eu te benzo, te curo. Vai-te
Sol, da cabeça desta criatura para as ondas do Mar Sagrado, com os santos poderes
do Padre, do Filho e do Espírito Santo.” Depois rezou um Padre Nosso e a dor de
cabeça sumiu no mesmo instante.
Sacristão – Incrível!
Padre – Meu filho, esse homem era um feiticeiro.
Zé – Como feiticeiro, se
a reza é pra curar?
Padre – Não é para curar,
é para tentar. E você caiu na tentação.
Zé – Bem, eu só sei que
fiquei bom. (pp. 43-44)
O Padre Olavo fala com
a autoridade que a Igreja lhe confere. É enquanto tal que demoniza a crença
popular. Zé do burro, um homem simples, um homem do campo, expressa em sua
simplicidade a perplexidade diante das verdades
que o padre pronuncia. Mas seus argumentos, embora simples, são comprovados
pelos fatos da vida. Ao padre só resta a demonização e a afirmação de que o
homem caiu em tentação.
Não obstante, Zé do burro
parece não se abalar com o discurso condenatório da autoridade eclesial.
Continuando o relato, conta que as rezas não surtiram efeito para o burro
Nicolau. Então, a comadre Miúda sugeriu que ele fosse ao “candomblé de Maria de
Iansã”. O padre, que até então procurava conter a sua indignação, exclama:
“Candomblé?!” Zé responde:
Zé – Sim, é um candomblé
que tem duas léguas adiante da minha roça. (Com a consciência de quem cometeu uma falha, mas não muito grave.)
Eu sei que seu Vigário vai ralhar comigo. Eu também nunca fui muito de frequentar
o terreiro de candomblé. Mas o pobre Nicolau estava morrendo. Não custava
tentar. Se não fizessem bem, mal não
fazia. E eu fui. Contei pra Mãe-de-Santo o meu caso. Ela disse que era
mesmo com Iansã, dona dos raios e das trovoadas. Iansã tinha ferido Nicolau,
pra ela eu devia fazer uma obrigação, quer dizer: uma promessa. Mas tinha que
ser uma promessa bem grande, porque Iansã, que tinha ferido Nicolau com um
raio, não ia voltar atrás por qualquer bobagem. E eu me lembrei então que Iansã
é Santa Bárbara e prometi que se Nicolau ficasse bom eu carregava uma cruz de
madeira de minha roça até a Igreja dela, no dia de sua festa, uma cruz tão
pesada como a de Cristo.
Padre – (Como se anotasse as palavras.) Tão
pesada como a de Cristo. O senhor prometeu isso a...
Zé – A Santa Bárbara.
Padre – A Iansã!
Zé – É a mesma coisa...
Padre – (Grita.) Não é mesma coisa! (Controla-se.) Mas continue... (pp.
44-45)
Porém, o seu maior
desafio é convencer o padre a deixá-lo entrar na igreja com a cruz e, assim,
pagar a promessa. Afinal, a graça foi alcançada e o burro Nicolau foi curado.
Para o Zé, foi um milagre. “Só eu e ele [o burro] sabíamos do milagre. (Como
que retificando.) Eu, ele e Santa Bárbara”, frisa Zé. (p.46)
Pe. Olavo fica escandalizado pelos motivos apresentados por Zé: promessa para salvar um burro num terreiro de candomblé, além de não aceitar a relação entre Santa Bárbara e Iansã, tão natural para Zé e tão pecaminosa para ele.
Zé do Burro acrescenta que prometeu e
cumpriu dividir seu sítio com os lavradores mais pobres e todos esses fatores
contribuem para uma grande discórdia.
Em sua simplicidade, Zé do Burro, não atenta que seus argumentos irritam ainda mais o vigário. Em sua maneira de conceber a religiosidade, não há qualquer contradição em acreditar em Deus, Santa Bárbara e buscar o socorro da divindade do candomblé. Porém, isto é inconcebível para o vigário:
Padre – (Procurando, inicialmente, controlar-se.)
Em primeiro lugar, mesmo admitindo a intervenção de Santa Bárbara, não se
trataria de um milagre, mas apenas de uma graça. O burro podia ter-se curado
sem intervenção divina.
Zé – Como, Padre, se ele
sarou de um dia pro outro...
Padre – (Como se não o ouvisse). E além
disso, Santa Bárbara se tivesse de lhe conceder uma graça, não iria fazê-lo num
terreiro de candomblé!
Zé – É que na capela do
meu povoado não tem uma imagem de Santa Bárbara. Mas no candomblé tem uma
imagem de Iansã, que é Santa Bárbara...
Padre – (Explodindo.) Não é Santa Bárbara!
Santa Bárbara é uma santa católica. O
senhor foi a um ritual fetichista. Invocou uma falsa divindade e foi a ela que prometeu esse sacrifício!
Zé – Não, Padre, foi a
Santa Bárbara. Foi até a igreja de Santa Bárbara que prometi vir com a minha
cruz. E é diante do altar que vou cair de joelhos daqui a pouco, pra agradecer
o que ela fez por mim! (p. 46)
Zé insiste e acredita que o padre, apesar de ralhar e condenar a sua atitude permitirá que cumpra a promessa.
Mas a resposta do
vigário será clara, dura e definitiva:
Zé – (Em desespero). Mas Padre, eu prometi
levar a cruz até o altar-mor! Preciso cumprir a minha promessa!
Padre – Fizesse-a então
numa igreja. Ou em qualquer parte, menos num antro de feitiçaria.
Zé – Eu já expliquei...
Padre – Não se pode
servir a dois senhores, a Deus e ao Diabo!
Zé – Padre...
Padre – Um ritual pagão,
que começou num terreiro de candomblé, não pode terminar na nave de uma igreja!
Zé – Mas Padre, a
igreja...
Padre – A igreja é a casa
de Deus. Candomblé é o culto do Diabo!
Zé – Padre, eu não andei
sete léguas para voltar daqui. O senhor não pode impedir a minha entrada. A
igreja não é sua, é de Deus.
Padre – Vai desrespeitar
a minha autoridade?
Zé – Padre, entre o
senhor e Santa Bárbara, eu fico com Santa Bárbara. (pp. 48-49).
O padre se retira e ordena ao sacristão que mantenha a porta principal da igreja fechada. Os fiéis devem usar a porta da sacristia, pela qual não é possível entrar com a cruz trazida por Zé do Burro. Este fica no meio da praça, tenso, perplexo e revoltado.
O discurso do padre
se fundamenta numa concepção de bem e mal que não corresponde à tradição do
candomblé. O dualismo bem/mal é estranho à divindade africana. O candomblé não
faz distinção entre o bem e o mal, como o faz a tradição judaico-cristã. O
candomblé opera num contexto ético diferenciado. Como esclarece Prandi
(1995/96: 78):
"A diferença entre o bem e o mal depende
basicamente da relação entre o seguidor e seu deus pessoal, o orixá. Não há um
sistema de moralidade referido ao bem-estar da coletividade humana, pautando-se
o que é certo ou errado na relação entre cada indivíduo e seu orixá particular.
A base moral está inscrita no cotidiano pelo catolicismo ou pelos valores não
religiosos da sociedade."
Na medida em que a religião afro é submetida à ótica judaico-cristã torna-se difícil compreender os seus ritos, simbolismos e divindades. A simplificação dual mal/bem na visão, por exemplo, do Padre Olavo, induz à identificação da sua religião como a “do bem” e a outra é identificada ao maligno. A demonização do outro, é claro, também rende dividendos importantes no mercado dos bens simbólicos religiosos. E, para o sectário e intolerante, é fator de reafirmação da convicção religiosa.
Essa demonização não se restringe ao discurso do Padre Olavo, mas também se manifesta entre os fiéis. Na peça, podemos observar este fator através da personagem Beata. É ilustrativo o diálogo que ela mantém com Minha Tia, personagem devota de Iansã:
Minha Tia – (Oferece.) Caruru, Iaiá?
Beata – (Pára junto a ela.) Quê?
Minha Tia - Caruru de
Iansã...
Beata – (Como se ouvisse o nome do Diabo.)
Iansã?! E que é que eu tenho com dona Iansã? Sou católica apostólica romana, não acredito em bruxarias!
Minha Tia – Adiscurpe,
Iaiá, mas Iansã e Santa Bárbara não é a mesma coisa?
Beata – Não é não
senhora! Santa Bárbara é uma santa. E Iansã é... coisa do candoblé, que Deus me
perdoe! (Benze-se repetidas vezes e sai.) (GOMES, 1972: 108-109).
Padre Olavo permanece intransigente, Zé também. A inflexibilidade do primeiro se vincula à concepção sobre a proeminência da religião católica e a demonização da religião afro-brasileira. Ele está convicto de que defende os valores cristãos, a igreja católica e a divindade que acredita. A convicção em si não é boa ou má, mas pode causar efeitos traumatizantes em relação ao “outro”, isto é, àquele que não partilha de tal convicção com a mesma intensidade.
SEGUNDO ATO: Primeiro quadro.
Passada duas horas
do conflito estabelecido, a praça já aglomerava diversos curiosos: Minha Tia, vendedora de acarajés, carurus e
outras comidas típicas; Galego,
“comerciante de origem estrangeira, dono
de um bar na praça da igreja de Santa Bárbara”; Dedé Cospe-Rima, poeta popular, ao estilo repentista, "mulato, cabeleira de pixaim, sob o surrado
chapéu de coco - um adorno necessário à sua profissão de poeta-comerciante.
Traz, embaixo do braço, uma enorme pilha de folhetos: abecês, romances
populares
Conversam sobre Zé do Burro e cada um expressa a sua opinião sobre o caso do “pagador de promessas”.
Os interesses locais então se voltam para o pequeno caso, e cada segmento social da cidade quer tomar partido da situação da forma que puder.
O Guarda vai tirar
satisfação com Zé do Burro e promete interceder por ele, perante o padre.
Rosa volta com "ar culpado" e reclama pela falta de interesse que Zé tem por ela.
Aparece o Repórter acompanhado pelo Fotógrafo. Entrevista o Zé do Burro e querendo conquistar uma manchete no jornal, classifica-o como o novo Messias, um grande Mártir, apoiador da reforma agrária e cria envolta da promessa dele uma campanha política, distorcendo os fatos com o intuito de vender a notícia, enquanto o fotógrafo "bate umas chapas".
Bonitão surge novamente e tenta persuadir Rosa a largar o marido e ficar com ele. Enquanto isso, Minha Tia aconselha Zé do Burro cumprir sua promessa no terreiro, pois concorda que Santa Bárbara e Iansã são as mesmas santas.
Zé do Burro
permanece inflexível perante tudo e a todos.
Marli reaparece e tem uma crise de ciúmes na
frente de Rosa e Bonitão denunciando o envolvimento de Rosa e Bonitão.
Segundo quadro.
"Três horas da tarde. Zé do Burro e Rosa continuam no meio da praça. Minha Tia com seu tabuleiro, na porta da igreja, o Galego na venda, Dedé Cospe-Rima" aparece oferecendo a Zé do Burro seus romances "ABC da Mulata Esmeralda".
"Zé do Burro recusa com um gesto."
Dedé já sabendo das novidades, oferece ajuda a Zé do Burro escrevendo versos
difamatórios contra o padre.
Zé do Burro recusa novamente.
Em seguida, surgem o capoeirista Mestre Coca, "um mulato alto, musculoso e ágil. Veste calças brancas "boca de
sino" e camisa de meia”, e o Policial. Secreta "o tira clássico. Chapéu enterrado até os olhos, mãos nos bolsos,
inspira mais receio que respeito. À primeira vista, tanto pode ser o
representante da lei" é chamado por Bonitão e ficam ambos, por
enquanto, nas cercanias disfarçadamente espionando a situação. O Guarda traz um
jornal com a manchete "O novo
Messias prega a revolução". Todos ficam espantados com a distorção dos
fatos feito pelo repórter.
Zé começa a perder a paciência e arma uma
gritaria. O padre reage. Diante do conflito chega o Monsenhor, autoridade superior da igreja, propondo a Zé uma
solução: “ele, Monsenhor, na qualidade de
representante da Igreja, pode liberar Zé da promessa, dando-a por cumprida.
”
Sua intervenção pretende demonstrar o quanto a igreja é tolerante. Diante do público que acompanha a contenda entre o padre e o pagador de promessas, ele afirma que foi designado pelo superior hierárquico para cuidar do caso e “dar uma prova de tolerância da igreja para com aqueles que se desviam dos cânones sagrados...” (86). A tolerância é delimitada por aquilo que o Monsenhor acredita ser o cânone, a verdade da igreja. O diálogo a seguir explicita seus limites:
“(...) não pode renunciar sem renunciar à sua dignidade e, portanto, à sua própria substância humana que se afirma no cumprimento do imperativo, para ele absoluto, contra as resistências dos outros e mesmo contra as resistências do impulso pessoal de auto-conservação, que deveria impor-lhe o resguardo não só da própria vida, mas, sobretudo da honra de marido ibero-americano, em face do desencaminhamento da mulher pela cidade”.
Zé rejeita a proposta. Afirma que promessa foi feita à Santa e só ela poderia liberá-lo. Segue o impasse. Zé explode novamente e avança com a cruz sobre a Igreja.
O padre fecha a
porta. Zé, já desesperado, bate com a cruz na porta. O drama é total.
Zé – (Interrompe). Padre, eu sou católico. Não entendo muita
coisa do que dizem, mas queria que o senhor entendesse que eu sou católico.
Pode ser que eu tenha errado, mas sou católico.
Monsenhor – Pois bem.
Vamos lhe dar uma oportunidade. Se é
católico, renegue todos os atos que praticou por inspiração do Diabo e
volte ao seio da Santa Madre Igreja.
Zé – (Sem entender). Como, Padre?
Monsenhor – Abjure a promessa que fez, reconheça que foi
feita ao Demônio, atire fora essa cruz e venha, sozinho, pedir perdão a
Deus.
Zé – (Cai num terrível conflito de consciência).
O senhor acha mesmo que eu devia fazer isso?!
Monsenhor – É a sua única maneira de salvar-se. A igreja
católica concede a nós, sacerdotes, o direito de trocar uma promessa por outra.
Rosa – (Incitando-o a ceder). Zé... talvez
fosse melhor...
Zé – (Angustiado). Mas Rosa... se eu faço isso, estou faltando à minha
promessa. Seja Iansã, seja Santa Bárbara, estou faltando...
Monsenhor – Com a
autoridade de que estou investido, eu liberto dessa promessa, já disse. Venha
fazer outra.
Padre – Monsenhor está
dando uma prova de tolerância cristã. Resta
você escolher entre a tolerância da igreja e a sua própria intransigência.
Zé – (Pausa). O senhor me liberta... mas
não foi ao senhor que fiz a promessa, foi a Santa Bárbara. E quem me garante
que como castigo, quando eu voltar pra minha roça não vou encontrar meu burro
morto. (86-87)
Então, o padre ordena fechar a igreja e proíbe o cumprimento da promessa, deixando Zé do Burro desesperado.
O Monsenhor, apesar de parecer tolerante, reproduz o discurso do Padre Olavo. Ele procura persuadir o outro de que o único caminho possível é aceitar e se submeter. Zé vê-se diante do dilema de renegar a promessa e, assim, em sua forma de ver a relação com a divindade, colocar a vida do burro amado em risco.
A intermediação do
Monsenhor se faz na perspectiva formal e dogmática manifestada pelo padre
Olavo. O Monsenhor também parte do princípio de que Zé cometeu uma heresia e a
igreja não pode ser condescendente. Sua proposta também se mostra inviável,
pois se choca com a concepção religiosa e de mundo do Zé.
A inflexibilidade
de Zé, na análise de Anatol Rosenfeld, “decorre
da defesa das convicções profundas, ligadas aos padrões arcaicos do sertão”.
Segundo Rosenfeld:
“A religiosidade arcaica e o ingênuo
sincretismo de Zé, para quem Iansã e Santa Bárbara, o terreiro e a Igreja,
tendem a confundir-se, se chocam inevitavelmente com o formalismo dogmático do
padre que, ademais, não pode admitir a promoção do burro a ente digno de
promessas” (Id. p. XIV).
Rosenfeld mostra-se
transigente em relação à Igreja, a qual teria atenuado a sua postura a partir da
intervenção do Monsenhor. Parece-nos que a tolerância deste apenas confirma a
intolerância já explicitada pelo Padre Olavo.
Terceiro ato.
Entardeceu. Muita gente na praça e nos arredores da Igreja. Na escadaria da igreja, Zé do Burro e Rosa estão inconformados com a situação.
Na vendola, o Galego, oportunista, está feliz, pois a história está
trazendo movimento ao seu bar. À frente
da vendola, formou-se uma roda de capoeira. Dois tocadores de berimbau, um de
pandeiro e um de reco-reco, sentados num banco, e os “camarados”, formando um
círculo, ao centro do qual, de cócoras, diante dos músicos, estão Mestre Coca e
Manoelzinho.
Dedé Cospe-Rima está entre os componentes da roda e Minha Tia não se
encontra em cena.
Choram os berimbaus e Rosa, dominada pela curiosidade, aproxima-se da roda. Galego oferece um lanche a Zé do Burro e Rosa, mas eles recusam. Rosa aconselha ao marido a voltar para casa, pois ele corre perigo.
Marli volta. Ofende Rosa, ofende Zé. O protagonista parece mudar de atitude. Resolve ir embora "à noite". Rosa quer ir embora já.
Apostas são feitas quanto à entrada ou não de Zé e a cruz na igreja.
Conta que Bonitão
avisou a Polícia.
Retorna o Repórter, trazendo
um colchão e uma tenda de patrocinadores para o conforto do casal com o objetivo de vender o jornal e
diz que tudo já está planejado para segunda-feira. E, se surpreende quando o
casal diz que está de partida para livrarem-se da polícia.
Coca aparece e
também aconselha a Zé do Burro ir logo embora. Bonitão apresenta Secreta a Zé
do Burro para conversarem. Zé do Burro já impaciente começa a gritar pelo padre
alucinadamente. O padre seguido pelo sacristão abre as portas e repreende Zé do
Burro.
Padre Olavo
aproxima-se cinicamente na desculpa de encomendar o corpo de Zé do Burro. Rosa
com rancor fala para não chegar perto. O Padre baixa a cabeça e volta ao alto
da escada
Rosa intercede na conversa
a favor de seu marido, fala sobre a sua inocência, sua pureza e sobre a
promessa feita por ele.
Em seguida, Rosa escuta a conversa entre Secreta e Bonitão e descobre que seu marido está na mira da polícia.
|
|
|
|
|
|
Chegou ao local o Delegado com alguns policiais, querendo
levar Zé do Burro preso, mas ele se declarando inocente e sem nada a temer
afirmou que dali só sairia morto.
Da igreja saem o Sacristão, o Guarda, o
Padre e o Delegado. Tensão da cena acentua-se. Zé ainda tenta, ingênua e
inutilmente, explicar alguma coisa. Ao ser cercado, puxa uma faca.
“E os capoeiras caem sobre os policiais para defendê-lo. Zé do Burro desapareceu na onda humana”
Os policiais foram embora e o padre se sentiu culpado. Mestre Coca consulta
os companheiros com o olhar. Todos compreendem a sua intenção e respondem
afirmativamente com a cabeça. Mestre Coca inclina-se diante de Zé do Burro,
segura-o pelos braços, os outros capoeiras se aproximam também e ajudam a
carregar o corpo.
Colocam-no sobre a cruz, de costas, com os
braços estendidos, como um crucificado. Carregam-no assim, como uma padiola e
avançam para a igreja. Bonitão segura Rosa pelo braço, tentando levá-la dali.
Mas Rosa o repele com um safanão e segue os capoeiras. Bonitão dá de ombros e
sobe a ladeira.
O Padre e o
Sacristão recuam, a Beata foge e os capoeiristas entram na igreja com a cruz,
sobre ela o corpo de Zé do Burro. O Galego, Dedé e Rosa fecham o cortejo.
Só Minha Tia permanece
VIII – CONSIDERAÇÕES FINAIS:
- RELIGIOSIDADE:
Sua preocupação não se restringe à intolerância religiosa, como podemos deduzir a partir do confronto entre o Padre Olavo e Zé do Burro, mas abarca a intolerância universal.
Não obstante, as personagens, diálogos e contexto sócio-político, também permitem a reflexão nesta perspectiva. O próprio autor admite que “há também a intolerância, o sectarismo, o dogmatismo, que fazem com que vejamos inimigos naqueles que, de fato estão do nosso lado” (id.).
Na sociedade em
tempos de globalização parece acirrar-se a intolerância religiosa. No tempo
presente, apesar de toda a sua evolução social e tecnológica, persistem o
preconceito e a intolerância expressados na obra dos anos 1960.
Os preconceitos que
produzem a intolerância se nutrem de diversos alimentos. A intolerância tem
várias faces e se faz presente em qualquer época e território onde pise o ser
humano.
O foco de Dias
Gomes está centralizado na devoção sincera e ingênua de um povo que desconhece
as raízes históricas e sociais de seus cultos, assim, o que interessa a
Gomes é a sinceridade com que o povo
cria o seu meio, as suas crenças e como isso se reflete de forma concreta em
seus atos.
O povo tudo adapta,
e o povo brasileiro cria sua cultura a partir desses elementos heterogêneos.
Não importa se no candomblé Santa Bárbara chama-se Iansã, se a promessa foi
feita em um terreiro e está sendo entregue em uma igreja, se Zé carrega nas
costas uma cruz no interior da Bahia enquanto Cristo o fez 2000 anos atrás
Dessa forma, O pagador de promessas pode ser
interpretado como uma paródia da paixão de Cristo. Inocentemente, percebe que o
mais difícil não fora carregar a cruz por uma longa distância. Mas enfrentar e
lutar com uma sociedade viciosa. Um mundo contaminado pelos interesses, as
intransigências, o autoritarismo e rígidos princípios.
A história da humanidade é também a
história da sua incapacidade de conviver com o outro, com o diferente. Padre
Olavo, ressalta Dias Gomes:
Assim, Zé do Burro é a alegoria da dominação do sistema social e político
de que até a religião se torna instrumento.
Zé também acredita em Deus, se declara católico e respeita a igreja. Mas não pode recuar, pois seria descumprir a promessa – a qual, aliás, é para Santa Bárbara; ele se mostra mais tolerante em relação ao candomblé, na medida em que reconhece a identificação entre esta e Iansã. Zé não pode aceitar o discurso demonizador do padre e nem compreender a relutância deste em negar seu direito de pagar a promessa feita. E, sobretudo, seus valores morais, próprios do homem puro naquele contexto sócio-histórico, não enxerga alternativa que o impeça de cumprir a palavra dada à santa. São dois mundos completamente diferentes que não podem confluir para uma solução intermediária. Nesta perspectiva, e considerando-se a sinceridade da convicção religiosa de ambos, o padre e o pagador de promessas, é quase impossível sair do impasse. Diante da fé absoluta não há saída possível e, no limite, todos têm razão. Porém, da mesma forma que a engrenagem mostra fissuras, representada pela reação de solidariedade ao Zé do Burro, os indivíduos que representam a instituição eclesiástica, também poderiam ter atitude mais flexível diante do pagador da promessa. Em outras palavras, os indivíduos agem diante da estrutura (engrenagem) num campo limitado de ação, é verdade, mas como possibilidades.
- MISCIGENAÇÃO
RELIGIOSA BRASILEIRA
O Candomblé se constitui inicialmente como uma religião de resistência dos escravos e seus descendentes, numa sociedade de domínio branco e católico. Era através do candomblé, como das demais religiões de origens africanas, que os negros mantinham e renovavam seus vínculos com as tradições culturais da África.
“Bastide
mostrou como a habilidade do negro, durante o período colonial, de viver em
dois diferentes mundos ao mesmo tempo era importante para evitar tensões e
resolver conflitos difíceis de suportar sob a condição escrava (Bastide, 1978).
Logo, o mesmo negro que reconstruiu a África nos candomblés reconheceu a
necessidade de ser, sentir-se e se mostrar brasileiro, como única possibilidade
de sobrevivência, e percebeu que para ser brasileiro era absolutamente
imperativo ser católico, mesmo que se fosse também de orixá. O sincretismo se
funda neste jogo de construção de identidade. O candomblé nasce católico quando
o negro precisa ser também brasileiro”.
Dessa forma, a peça de Dias Gomes
é uma contribuição fundamental para que possamos pensar as relações entre as
diversas religiões e a necessidade de desenvolvermos meios e comportamentos que
favoreçam a tolerância religiosa, pois a igreja se revelou aquém do necessário
do que se poderia esperar; além, da incapacidade e do autoritarismo da polícia
em lidar com questões multiculturais, transformando um caso de diversidade
religiosa em um caso policial.
“Mesmo buscando a conciliação, mesmo provida pelo autor de razões convincentes, ela não parece fazer jus às expectativas de sabedoria, caridade e tolerância em face do indivíduo simples, puro e frágil, no seu desespero solitário e na sua fé ingênua. As próprias concessões acabam confirmando a intolerância que, na palavra de Sábato Magaldi, se erige na peça “em símbolo da tirania de qualquer sistema organizado contra o indivíduo desprotegido e só”
- INTERESSES E SENSACIONALISMO
Todos que
participam desse drama visam interesses próprios: as Mães de santo defendem-no
como representante do candomblé e querem usá-lo como líder contra a
discriminação que sofrem da Igreja Católica; o Contador de histórias oferece
seus talentos como proseador para imortalizar a sua história; os Políticos se
aproximam dele pedindo apoio e a
imprensa, simbolizada no Repórter e o Fotógrafo, alegando apoio em sua
defesa da "liberdade de expressão" que o vigário estaria colocando em
jogo e transformando-o num ativista da reforma agrária, baseando-se em sua
promessa de distribuir terras aos pobres, na verdade, como relatado na primeira
cena que ocorre dentro da redação do jornal, eles buscam o sensacionalismo na repercussão do noticiário e
estão completamente desinteressados
no drama do protagonista.
Assim, o pacato e ingênuo Zé do Burro passa a
ser visto como santo e mártir, revolucionário, comunista e ao mesmo tempo é um
infiel para igreja e um criminoso arruaceiro para polícia, sem ao menos
conhecer estes conceitos tão distante ao seu universo.
Zé perde a sua
individualidade e transforma-se numa alegoria, num ícone a mercê dos interesses
alheios. Ele deixa de ser um homem com um propósito pessoal na situação em que
se colocou, pois passa a ser colocado pelo meio em que está. Martirizado, ele
torna-se o novo Cristo local, e através de sua morte é imortalizado como ícone,
sem conseguir simplesmente pagar a sua promessa.
- OS DOIS BRASIS
Zé do Burro representante da ingenuidade e simplicidade do Brasil rural não tem o domínio linguístico e cultural para se fazer compreendido perante os homens que se dizem detentores da intelectualidade urbana; os padres, a polícia e os jornalistas não conseguiram assimilar o sincretismo religioso e as crenças populares tão característicos de grandes camadas sociais no Brasil e, devido a esse choque cultural, resultou no fim trágico do protagonista