1. A
obra narra uma sociedade em vias de transição de extremamente agrária, para
urbana. Qualidades e defeitos de toda uma classe são retratados, pela obra, em
igual peso. Sentimentos de exaltação da dignidade via trabalho, confiança nos
negócios, solidariedade familiar fazem parte de uma vida antes da crise.
Preconceitos, orgulho, raiva dos familiares ricos, teimosia baseada nos hábitos
antigos, incapacidade de educar filhos e de aceitar a nova ordem social
pertencem ao mundo pós crise do café e falência do capitalismo.
As
mulheres são mais dadas ao trabalho como forma realista de perceber a gravidade
da situação e não fugirem à tentação romântica do sonho. Lucília, por exemplo,
costura o tempo todo a fim de que não falte o mínimo para sobrevivência da
família. Ela chega a abrir mão do casamento para viver a realidade dura de sua
vida.
Os
homens, no entanto, são mais afeitos ao sonho do passado. Quim, por exemplo,
acha que receberá o café que vendeu fiado e pensa em reaver a fazenda. Seu
filho, Marcelo, é um perdulário, beberrão e preguiçoso. Não foi educado para o
trabalho e vive mole, sem contribuir em nada para que a família supere os
tempos de crise.
A
resignação de Helena, por exemplo, não pode ser considerada felicidade,
tampouco a alternativa de trabalho encontrada por Lucília. O trabalho, para
ela, não é uma opção, é um sacrifício, a ponto de pensarmos que a moça está
presa àquela casa, aos pais.
No
entanto, é em Quim que a percepção de que “tudo acabou” apresenta-se de maneira
mais decisiva. Na cena final, quando descobre que nada mais há para fazer.
O
resto de sua vida ele será um morto-vivo; o que é, de certa forma, um cadáver
exposto.
“Joaquim:
Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha filha. Não precisa ter medo.
Eu... eu...‟
Poderíamos
acrescentar: estou morto!
Em
nenhum desses casos há o sentimento do romantismo. É como se a falência também
secasse a emoção e a obra se tornasse dura, pesada. É como se a obra tivesse
duas palavras que a sintetizasse cada uma em sua época. No passado, ESPERANÇA e
no presente, DESESPERO.
2.
A Moratória não aponta qualquer solução para o momento
histórico que retrata. O objetivo primeiro, nessa peça, não é falar sobre a
sociedade, mas mostrar um drama familiar que se desenvolve em um contexto
social específico. E assim, Quim e sua
família vivem seu drama como metonímia do drama dessa época.
3. Além da temática
pessimista, em que passado e futuro tomam o lugar do presente, alijando a
dramaturgia rigorosa do teatro clássico, Jorge Andrade não se atém as leis
unitaristas de ação, tempo e espaço, ou tampouco a organização que vai da
harmonia à desarmonia, adensando-se sua tensão.
Outra questão comum da
tragédia é a destruição do herói, na qual uma nova forma e distribuição de
forças ocorre com a morte.
Não há
uma morte efetiva em A moratória, porém, percebemos que os personagens
experimentam uma morte social, por um lado, e existencial por outro. Sobretudo
o protagonista Joaquim, que vai se reduzindo a um fiapo humano, como bem
representado metaforicamente na peça em sua mania de desfiar panos. Apesar de
este personagem apresentar um otimismo e afirmar-se verbalmente com sua
esperança durante toda a peça, a ação que ele mostra de fato não é algo sendo
remediado, mas desfiado até desaparecer.
Desde
o início, percebe-se que Lucília dispara um ditado popular: “[...]. O que não
tem remédio, remediado está. ” (ANDRADE, 1993, p. 30).
Mais
pragmática, ela costura para remediar/remendar seu destino, não sem dor ou
amargura. Entretanto, para Joaquim, nada se remenda/remedia, e sim, se desfia.
O foco
da peça é a perda que domina toda a família, e todas as falas da peça indicam
esse estado amorfo em que se encontram. Em um momento negam, em outro omitem a
verdade dos fatos, mas no fundo todos já sabem, com maior (Lucília) ou menor
clareza (Joaquim), do destino trágico deles. Não existe volta possível à
fazenda, tampouco à vida antiga. E a peça atenta para um estado de paralisia
que provém da recusa dos personagens a aceitar um destino que se impõe, ao
mesmo tempo em que se vivencia essa perda.
Cada personagem do núcleo familiar tem uma forma de
experienciar seu destino. Joaquim, “cego” de esperança, só no fim sucumbe.
Helena, sua mulher, é tolerante; embora tenha clareza do caráter irreversível
da situação, reza para que a família volte a se estabilizar, pois esta é a
única forma na qual consegue viver. Ela tem como certo que as recordações não
podem ser apagadas. Marcelo não tem esperança; devaneia, bebe, não aceitando
seu destino. Embora diga em um diálogo com o pai: “O que importa é aceitar ou
não o presente. Esquecer, saber esquecer. (Pausa) [...]” (ANDRADE, 1993,
p. 119), como se problematizasse seu destino, ensaia uma mudança, tenta
trabalhar, mas não consegue verdadeiramente esquecer; é fraco, não tendo força
para heroicamente mudar seu destino. Lucília, embora relute e também se desespere,
tem a lucidez mais aguçada a ponto de perceber o caráter irremediável da
situação em que vivem. Em um diálogo no segundo ato com Olímpio – com o qual
viveu um namoro, no momento suspenso –, ao recusar o noivado com o rapaz,
explicita como vê seu destino:
É muito mais grave do que parece. Você está pensando na
situação financeira em que vamos ficar e eu não. Sinto que todos nós vamos ser
envolvidos e, depois, não poderemos mais ser os mesmos. Não é só a fazenda que
estamos ameaçados a perder. (ANDRADE, 1993, p. 106).
Todos lamentam, ninguém de fato aceita os fatos concretos, e
Joaquim experimenta a morte em vida, sucumbindo a seu destino trágico.
A cena final compõe o quadro do desespero familiar que essa
tomada de consciência produz. Lucília cai sentada na máquina soluçando
fortemente (depois é retirada por Olímpio da sala e da cena), Helena caminha
lentamente e se posiciona atrás da cadeira onde está sentado Joaquim, pondo a
mão em seus ombros, e Marcelo senta-se no banco. E a peça termina com as falas
dos três em murmúrios desconexos, cada qual dentro de seu próprio mundo,
remoendo suas perdas.
Essa cena pode ser pensada como uma foto de família que
retrata, para a posteridade, não a potência de uma unidade familiar, mas o
desarranjo trágico de seus personagens dentro dessa unidade. Os pais ainda
mantêm a pose de foto de família, mas em alheamento mórbido, e os filhos ou
deixam a cena (Lucília) ou estão “desfocados” (Marcelo, sem lugar, sentado no
banco no mesmo espaço onde estão os pais, mas não junto deles).
4.
Ainda que Joaquim saia da fazenda carregando uma esperança de retorno,
compreendemos de imediato que essa consiste apenas num escudo para protegê-lo
da realidade. Enquanto ouvimos os sons dos machados a destruir as cerejeiras,
vemos Joaquim aflito perante o destino do seu amado jabuticabal. As árvores
simbolizam um mundo de belezas sendo engolido pela praticidade da nova ordem,
que não admite o desperdício, já que elas não têm função econômica dentro das
fazendas.
5. Em
Jorge Andrade, não há a ideia de cidade como "promoção social", mas,
ao contrário, a família de Joaquim é vista pela perspectiva da perda da
propriedade, do espaço, dos referenciais de vida. Ao situar a tradição de
Joaquim, o dramaturgo informa o leitor acerca da existência de um passado
distante, no qual as relações eram permeadas por outros valores. Suas
reminiscências atualizam um passado saudoso, que mais lembra uma "idade do
ouro perdida", na qual o espaço familiar norteava as relações pessoais e
inclusive as mercantis. Na evocação de Joaquim, um passado fundador é
recuperado, a memória individual vai chamando as experiências esquecidas e
desvelando os conflitos do presente em face das inúmeras mudanças, dentre elas:
a passagem para a cidade e a fugacidade do tempo.
Os
personagens de Jorge Andrade representam, portanto, homens que caminham no
limite dessas transformações. Trazem permanências de tempos que se transformam,
mas convivem com a emergência de novos valores e novas formas de produção da
vida.
6. É a
ação de Joaquim, ao olhar o quadro na parede, que anuncia para o espectador a
existência de um outro plano de acontecimentos. Assim, o plano rural (1929)
é revelado com a entrada de Helena – esposa de Joaquim – em cena.
Nas
suas falas, o leitor/espectador começa a ser informado acerca de uma possível
crise financeira de Joaquim. As dificuldades são decorrentes da falta de chuva,
mas, aos poucos, vai se percebendo que a situação do fazendeiro se origina
também de problemas financeiros adquiridos com o plantio e mercantilização do
café.
No
prosseguimento da narrativa há a volta ao plano urbano (1932).
É significativo perceber no texto os sutis mecanismos que Jorge Andrade vai
utilizando para oscilar entre um plano e outro e, assim, construir duas
histórias em tempos distintos, conseguindo, dessa forma, não confundir o
espectador.
7. A
procura pela formação superior como uma das vias de ascensão social é um fato
que remonta ao início do século XIX. Seja no campo ou na cidade, o dinheiro e a
instrução foram importantes determinadores das relações de poder. O personagem
Olímpio, no século XX, é uma exemplar representação da capacidade de
permanência dessa figura:
(...)
O diploma universitário tornava-se para muitos a promessa suprema da ascensão
social e a entrada nas universidades era bem mais procurada por causa desta
esperança, do que com o fim de adquirir algum saber ou alguma eficiência.
Torna-se
difícil dissociar as falas de Olímpio do meio do qual ele é originário, o que
permite desvelar as suas intenções como personagem. Olímpio aparenta ter
consciência das verdadeiras causas da crise da família de Joaquim. Mas, ainda
assim, no seu consolo a Lucília, diz haver sempre uma solução. A ambiguidade
aqui se apresenta, pois o que se vê é a tentativa de Olímpio em salvar a união
com Lucília, mas, ao mesmo tempo, suas falas deixam transparecer que não há
nenhum outro caminho para a decadência dos fazendeiros. O posicionamento de
Joaquim diante das circunstâncias fica claro na seguinte passagem:
Olímpio:
(Pausa) Sei o que sente. Acha humilhante depender de mim, o filho do
inimigo político de seu pai. Como se casamento fosse só isto: combinação de
fortunas ou de partidos políticos. Nunca aprovei esta mentalidade e espero que
isto acabe de uma vez. Sempre achei vergonhoso o que meu pai fez ao seu e o que
o seu fez a muita gente. Esse coronelismo que não reconhece razão a ninguém,
que destrói tudo, que é cego!
Se
Olímpio é a representação do profissional liberal em ascensão, Joaquim não
deixa de simbolizar uma variação do típico "coronel". O dramaturgo,
em A Moratória, localiza essas duas figuras, seus
enfrentamentos e suas alianças em 1929.
8. Ao
ler um jornal, Joaquim menciona palavras como: 'ditadura' e 'PRP', o que
imediatamente remete o leitor ao processo histórico pelo qual o país passou por
volta de 1930, exatamente o momento de contextualização da unidade de tempo e
ação da peça de Jorge Andrade.
Ao
deixar o jornal, Joaquim volta-se para Lucília, quando então começam a falar de
crises política e familiar, discussão que os leva a revelar, nos seus
subtextos, as dificuldades que cada um sofreu em decorrência da crise cafeeira
de 1930. As inúmeras perdas são verbalizadas: Joaquim, a fazenda; Lucília, o
matrimônio. Nesse movimento, incluem-se Marcelo e Helena: o filho foi privado
da liberdade anterior, já Helena não mais sente a tranquilidade da estrutura
familiar, calcada em valores construídos no âmbito da aristocracia rural.
O
dramaturgo reforça a insatisfação dos personagens quando nota o nivelamento
social a que foi relegada a família do fazendeiro, dentre eles, a preocupação
com as aparências, com a manutenção de certa pompa já perdida.
No
terceiro ato surge uma das mais belas e sensíveis cenas escritas por Jorge
Andrade. Nela estão Helena e Joaquim na situação de despedida das terras. Mas,
para construir o estado de solidão e abandono do casal, o dramaturgo recorre a
vários momentos curtos e marcantes: a relação afetiva de Joaquim com a casa de
fazenda, com as coisas que no dia a dia o cercam: balaústre, porta, forro do
quarto, a plantação de café e o cheiro de terra molhada que entra pela noite
com a chuva. Joaquim volta a recordar o hábito de sempre levantar cedo, o tempo
em que namorou e depois se casou com Helena, o estilo de vida de seus
antepassados, a vida na cidade e, enfim, o medo de deixar as terras. São
elementos que vão expondo o apego às coisas e ao passado e, ao mesmo tempo, vão
expondo a fragilidade de Joaquim. O dramaturgo vai minando, corroendo as
certezas do personagem, elevando-o a um estado patético.
As
formigas roendo as madeiras da casa – uma bela metáfora desse estado de
passagem do tempo que Joaquim está sofrendo. É interessante perceber a relação
de Joaquim com o relógio de parede; sendo um presente de seus antepassados,
figura como um elemento central nas peças de Jorge Andrade.
Sobre
os laços com seus antepassados, suas heranças e a relação com o tempo, que não
perdoa a quem se esquece de notá-lo, Joaquim fala:
Joaquim:
O pessoal de hoje é muito "perrengue". Só sabe ficar na cidade,
fazendo o que não deve! (Pausa) Quero morrer como meu avô: caçando. (...) Meu
avô comeu a matula e sentou-se encostado ao tronco de uma árvore. Quando os
outros caçadores chegaram já estava morto. Um dos cachorros estava deitado em
sua perna... e ele parecia dormir! (...) [o relógio]... foi presente de
casamento de meu avô ao meu pai. Sabe? Meu avô tinha um propósito. Os antigos
não davam nada assim sem mais nem menos. Sabiam sempre o que era mais útil.
Junto com o presente veio a recomendação: "Meu filho! Não deixe nunca o
sol pegar você na cama e saiba dividir o seu tempo, que tudo..." Disto
ninguém poderá me acusar, Helena, em toda a minha vida, só aquela vez quando
tive maleita não vi o sol nascer.
Essa
atmosfera provocada pelo personagem Joaquim é uma visão mítica de
sensibilidade, na qual a natureza opõe-se aos avanços do mundo urbano
industrializante, pois (...) as virtudes são encaradas como coisas
claramente passadas, pertencentes a uma época anterior, perdida, da vida
rural.
Na
segunda cena deste último ato, o que se encontra é a insuportável sensação de
Lucília ao ter que falar com sua tia sobre o seu vestido. Ajoelhada aos pés de
Elvira, é visível a humilhação de ter que fazer a barra do vestido da tia e,
ainda por cima, ouvi-la falar que não suporta mais ajudar "asilos".
Nesta cena, o leitor/espectador fica sabendo das relações de Elvira com a
família de Joaquim. Sabe-se, desta forma, que após a perda da fazenda ela sofre
uma crise de consciência, passando a ajudar o velho "Quim", mas ainda
assim fica relatando a Lucília, com desdém, os favores prestados.
Revoltada
com as acusações da tia, Lucília comenta:
Lucília:
Isso mostra bem o que a senhora é. A verdade é que deixou a nossa fazenda ir à
praça e ser arrematada por gente que não tinha o menor amor às nossas terras.
Ao se
despedirem da casa da fazenda, Joaquim consola Helena e, como lembrança, leva
um galho de jabuticabeira. Em momento algum falam que estão deixando ou
perdendo suas ligações com aquele espaço, mas procuram maquiar sua dor
assumindo ser apenas uma viagem. De forma alguma aceitam ser uma viagem sem
volta.
Mais
uma vez, o dramaturgo antecipará a última cena para cruzá-la com a terceira;
contrasta assim a despedida da casa rural com os fatos do plano urbano,
quando Helena aguarda a chegada de Joaquim para anunciar-lhe a recusa da
nulidade do processo judicial e que, tampouco, houve alguma moratória por parte
do governo. Nesse sentido, o dramaturgo coloca em cena, simultaneamente, as
perdas de Joaquim em distintos tempos: tanto em 1929 quanto em 1932. O que
marca a vida de Joaquim é a "derrota" que o segmento social, do qual
faz parte, sofre com o decorrer dos fatos.
No
encerramento do texto, percebe-se uma certa apreensão por parte de Helena e
Lucília, que, na dúvida, não sabem o que fazer e nem qual informação dar a
Joaquim sobre a perda do processo. Acreditam até que a mentira seja a melhor
verdade para o velho "Quim". A chegada do ex-fazendeiro é marcada
pela angústia. Sentado e desfiando um trapo de pano, recolhe-se na sua dor. A
reação de Lucília é surpreendente: no seu desespero, solidariza-se com a
melancolia do pai, pois, como Joaquim, acreditou no retorno às terras.
Lucília
e Olímpio saem "abraçados". Marcelo, sentado num canto, pouco
interfere no triste e angustiante diálogo final entre Helena e Joaquim:
Joaquim:
Abril! (Pausa) O café está sendo arruado! (As luzes vão
abaixando lentamente)
Marcelo: Já não se houve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!
(As vozes se transformam num murmúrio e as luzes se apagam definitivamente).