segunda-feira, 8 de junho de 2026

PERSÉPOLIS, MARJANE SATRAPI E VICENT PARONNAUD

 


Se as pessoas virem o filme e disserem que essas pessoas são seres humanos como nós, o filme teve sucesso”, Marjane Satrapi.

I – INTRODUÇÃO:

“Persépolis”

França, 2007 – 95 min.
Drama /Animação adulta
Direção: 
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Roteiro:
Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Elenco:
Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian, Gabrielle Lopes, François Jerosme.

“Persépolis” é um longa de animação de 2007 de autoria de Marjane Satrapi, ilustradora e cartoonista, nascida em Rasht, Irã, em 1969 e Vincent Paronnaud. 
Trata-se da adaptação dos quatro volumes da aclamada graphic novel homônima e autobiográfica de Satrapi, publicada na França entre 2000 e 2003, e que apesar da fidelidade aos textos e ilustrações de origem, tem vida própria. 
Indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro da categoria, “Persépolis” sagrou-se vencedor do prêmio Cesar além de faturar a estatueta do júri especial de Cannes.
O tomo inicial de “Persépolis” foi lançado na França, em 2001, por uma pequena editora independente. Logo se tornou um fenômeno de crítica e público e, no mesmo ano, foi premiado no Festival de Angoulême, na França. Rapidamente a série se espalhou pelo mundo, sendo publicada na Itália, Holanda, Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Israel, Suécia, Finlândia, Noruega, Japão, Coréia do Sul, Hong Kong, Turquia e Estados Unidos.
No primeiro livro, Marjane Satrapi, então com 9 anos, viu a Revolução Islâmica sob a ótica de uma criança. O segundo focou a guerra contra o Iraque. No terceiro, ela se autoexilou, aos 14 anos, na Áustria, pois os pais acreditavam que ela teria uma educação melhor fora do país, onde quase morreu de frio. No quarto, a autora/personagem narra seu retorno ao Irã para cursar a universidade, já adulta.
O material foi reunido no Brasil pela Companhia das Letras em uma edição única. Evidentemente, é impossível comparar a história das 352 páginas impressas de “Persépolis” a um filme com 95 minutos, além da dedicação e esforço necessário para produzir um filme de hora e meia a 12 imagens por segundo. Dessa forma, o longa-metragem, preto e branco (apenas os momentos inicial e final têm cor) foca nos “melhores momentos” do livro e tem como seu grande mérito embelezá-lo. 
O traço de Marjane, inconfundível, ganha vida, texturas e outros tons de cinza, o que o diferencia bastante do preto e branco, contrastados da HQ. O resultado visual é ainda mais bonito que o original, embora esse formato ainda sofra o preconceito das massas consumidoras. Caberia, assim, à adaptação cinematográfica a tarefa de popularizar a incrível história de Marjane. Ao explicar porque o filme foi feito com os tradicionais quadros desenhados à mão (desenhos animados individuais) em vez dos gráficos gerados por computador, Satrapi disse:

“As linhas dos gráficos gerados por computador não têm imperfeições. Isso tira personalidade às personagens, os seres humanos não são perfeitos e as linhas desenhadas à mão refletem melhor as suas almas.” Já faz muito tempo que os filmes de animação deixaram de ser um programa somente para as crianças. Este filme é o produto de muitos artistas a trabalhar durante três anos, e interpretado através do olhar de Chiara Mastroianni que dá a voz à personagem de Marjane, a filha única de um casal culto; Catherine Deneuve com o papel de Sra. Satrapi; a neta adorada pela avó por Danielle Darieux e Simon Abkarian, cujas vozes deram ainda mais vida as personagens e a todos os que nos bastidores estiveram ocupados a desenhar, inserir a música, editar, etc. 
Com traços simples, mas de composição complexa, passando longe de animações digitais e apelando para um lado “tradicionalista” da arte, “Persépolis” é o fruto daqueles que encorajaram Satrapi a publicar as suas novelas gráficas, muito populares entre os fãs da banda desenhada, e os seus colaboradores na realização do filme. 
A força da arte de Satrapi conquistou o apoio de pessoas influentes, incluindo duas atrizes francesas conhecidas internacionalmente, e isso por sua vez ajudou o filme a entrar nos canais convencionais. No entanto, o trabalho desses artistas foi guiado pela ideologia artística e não pelo dinheiro ou fama.
Numa entrevista disponível na página da internet do “Persépolis”, Satrapi diz sobre sua parceria com Paronnaud:

“Sob muitas formas nós somos muito diferentes e até mesmo opostos, mas completamo-nos um ao outro ao fazermos este filme e mostramos que todas as baboseiras sobre Oriente e Ocidente e o choque cultural com que somos bombardeados não passam de um disparate. “O filme é uma preciosa obra de arte. A sua forma minimalista parece ser a melhor maneira de contar uma história tão cheia de acontecimentos e importantes questões. A brevidade das palavras, a simplicidade dos desenhos e a economia de cores narram uma história compacta cheia de humor e reflexões. O que num outro contexto poderia ser considerado fraqueza artística, como a simplicidade ou por vezes mesmo a rudeza das linhas, a falta de cor e a clara franqueza do texto, são tudo virtudes de “Persépolis.”
Com uma linguagem rápida, diálogos divertidos e belas imagens, “Persépolis” é um filme de animação com objetivo de expor a intolerância religiosa e as violações de direitos humanos contra a comunidade religiosa no Irã.
Com temas pesados, dosados pelo humor conferido pela adorável protagonista, este é um exemplar (cada vez mais comum) de animação destinada ao público adulto.
Durante a infância, Marjane Satrapi viu de perto as agruras sofridas por seus familiares nas mãos da monarquia Xá do Irã. Mais tarde, sentiu na pele a ascensão da cruel e sanguinária Revolução Islâmica, período em que foi obrigada a deixar país para garantir sua sobrevivência. Com uma biografia trágica como essa, a escritora poderia muito bem ter criado uma obra triste e amargurada quando resolveu contar a história de sua vida. Em vez disso, publicou “Persépolis”, uma cativante e até bem-humorada e autobiografia contada a partir de histórias em quadrinhos, onde a família e os amigos são expostos em primeiro plano e a tragédia é usada apenas como pano de fundo, realizando um filme verdadeiramente único dentro de sua própria proposta.
“Persépolis”, portanto, é uma obra cativante, mas, obviamente, não é para todos. O governo iraniano, claro, acusou o filme de “fazer um retrato irreal das conquistas e resultados da gloriosa Revolução Islâmica”. 

II – ENTREVISTA COM MARJANE SATRAPI E CHIARA MASTROIANNI:


O filme tem obtido diversas indicações e prêmios. Isso foi uma surpresa?

MARJANE SATRAPI: Foi sim. Três anos atrás eu conversei com meu melhor amigo [Vincent Paronnaud] e perguntei se ele queria fazer o filme comigo. Montamos o estúdio em Paris e reunimos todos os nossos amigos para fazê-lo. Foi um trabalho de amizade essa animação preto e branco – e aí subitamente ela ficou pronta e recebemos uma indicação para Cannes [o filme empatou com Stellet Licht na categoria Prêmio do Júri]. Sabe? Um filme feito com o que tínhamos à mão… foi incrível. Estou muito honrada e feliz e não esperava toda essa atenção.

CHIARA MASTROIANNI: Eu falei pra Marjane que ela devia começar a montar um clipping ou coisa assim. A lista está ficando grande! É uma enorme surpresa, sem dúvida. Quando começamos era algo pequeno e entre um pequeno grupo de pessoas – e agora ele está solto por aí, circulando o mundo e as pessoas estão adorando e dando prêmios a ele… é a cereja no bolo!

Chiara, quando você entrou no projeto já sabia que ele seria tão especial?

CHIARA: No momento que encontrei Marjane soube imediatamente que o filme seria especial. Eu conhecia o livro, que eu gosto muito e considero muito especial – mas a verdade é que fui eu que corri atrás dela quando soube que a história em quadrinhos se transformaria em filme, de tanto que gosto dela. Eu nunca faço isso… sou tímida demais, mas dessa vez eu tinha que fazer parte do projeto. Nos encontramos, tomamos uns drinks, gostamos uma da outra e ela me contratou. Eu acreditei nesse projeto desde o início, mas não tinha a menor ideia de que ele seria tão celebrado.

E como foi o processo de dublagem?

CHIARA: No início foi um pouco estranho, foi numa sala não muito diferente desta… eu não tinha referência alguma da animação… e só depois percebi como isso foi bom. Sem a animação eu não tinha que me preocupar com sincronia labial e podia ser totalmente livre para atuar como quisesse. Foi liberador nesse sentido. Coube aos animadores trabalharem com a nossa atuação e não o contrário.

Marjane, como foi sua colaboração com Vincent?

MARJANE: Antes de trabalharmos juntos em Persépolis, Vincent e eu já éramos amigos de longa data. Trabalhamos juntos no mesmo estúdio durante muito tempo. Não dá pra dizer “ele fez isso, eu fiz aquilo”. Foi uma colaboração com muito diálogo – construímos tudo camada a camada juntos e colocamos no forno ao final juntos. Vendo o resultado depois de tantas discussões é impossível dizer o que ali é dele e o que é meu. Fizemos tudo lado a lado – algo que acho que só foi possível porque somos grandes amigos.

Chiara, como foi trabalhar com os dois?

CHIARA: Foi muito interessante, pois Marjane, além de dirigir, atuou comigo – ela fez todas as vozes dos personagens que estavam em cena comigo durante as gravações. E Vincent estava nos bastidores, checando tudo. A dinâmica entre os dois era ótima, os dois têm o mesmo alto nível de exigência, o que eu adoro. Eles fazem um ótimo dueto. 

Marjane, no seu filme você mostra o mercado negro iraniano de fitas e produções proibidas pelo governo. Você já parou pra pensar que seu filme provavelmente vai parar lá também? Acha isso estranho?

MARJANE: Nem um pouco. Eu era tão acostumada com esse mercado negro que não o vejo como algo estranho ou peculiar. Aquele era um período da minha vida – as coisas que eu queria só existiam naquele mercado negro. Acho ótimo que agora farei parte dele. 

Como foi a seleção de elenco? Você tem algumas pessoas bem famosas dublando o filme…

MARJANE: Além de famosos, esses atores e atrizes são excelentes. Se não fosse assim eu teria procurado a Paris Hilton. Com certeza daria uma falação maior. Mas, claro, optamos por grandes atores. Quando você faz um filme como esse quer o melhor pra ele e essa seleção, pra mim, reflete isso, com os melhores. Fizemos uma seleção dos sonhos prévia e mandamos pra essas pessoas o roteiro – e todos disseram “sim”. Foi incrível. 

Com o sucesso do filme, imagino que você esteja sendo procurada por estúdios para outros projetos…

MARJANE: Nada. Ninguém nos ofereceu coisa alguma. Mas Vincent e eu queremos fazer outro filme juntos. Primeiro vamos nos concentrar no que temos em mente e depois, se alguém nos procurar, estamos abertos a novas ideias, claro.

III – TÍTULO:


O nome Persépolis é uma criação dos gregos, que a chamaram de “Cidade dos Persas”, originário do grego parseh + polis. O nome original, aparentemente, era apenas Parseh, mas atualmente o local é mais conhecido como Takht-e Jamshid, que significa “Trono de Jamshid”.
Jamshid foi um dos míticos reis da Pérsia, mas é a Dário I que se deve o início da construção da fabulosa cidade de Persépolis, cujos tesouros já estiveram protegidos por muralhas que atingiam os dezoito metros de altura. O lugar foi escolhido por sua majestosidade natural para ser palco de cerimônias e festejos imperiais, como o Nawruz, o Ano Novo Zoroastra, e exibir as grandezas do império, que chegou a abranger um território que ia até ao Egito, à Grécia e à Índia, atingindo o apogeu depois da fundação da cidade, em 518 a.C. Toda a corte atravessava o deserto entre a capital, Susa, a cerca quinhentos quilômetros, e repetia a viagem no sentido inverso mal acabavam as festas.
Os reis Xerxes e Artaxerxes continuaram a sua construção; palácios e outros monumentos foram-lhe sendo acrescentados durante um período de cento e cinquenta anos, tudo em calcário cinzento e mármore, com recurso a colunas de madeira de cedro e outras árvores gigantescas trazidas da Índia e do Líbano das quais, evidentemente, já nada resta. 
A cidade chegou ao fim quando Alexandre, o Grande, da Macedônia, enviou grande parte de seu exército para Persépolis em 330 a.C.. Alexandre realizando uma aproximação rápida logo invadiu os portões persas e capturou as riquezas do império antes que eles fossem retirados do local. Ele deixou sua tropa a vontade para saquear Persépolis por diversos dias. Logo depois a cidade foi toda queimada, mas não se sabe se o fogo foi um descuido ou uma vingança pelo fato dos persas terem queimado a Acrópoles de Atenas. 
O magnífico Portal de Xerxes, ladeado por figuras com corpo de leão e cabeça “persa”; as colunas do palácio de Apadana, com cerca de vinte metros de altura; a estatuária e os relevos impressionam, desdobrando-se em figuras de uma perfeição impressionante: animais e pessoas com roupas e toucados elegantes que permitem identificar a sua origem; águias de cabeça dupla, estátuas de mãos dadas, cabelos e barbas enrolados em minuciosos caracóis, touros assírios devorados por leões persas, filas de homens que sobem as escadas dos palácios com ofertas para o rei, recontam em silêncio as extraordinárias histórias da época.

Na colina rochosa sobranceira ao complexo e em Naghsh-é Rostam foram escavados sete túmulos, anunciados no exterior por guerreiros e cavalos gigantescos recortados na pedra com uma maestria digna de féretros reais onde se encontram sepultados os maiores imperadores persas, de Dário I a Xerxes e Artaxerxes.
As escavações começaram em 1930, mas o primeiro visitante ocidental foi o frade Agostinho e diplomata Antonio de Gouveia, admirando já tanta grandeza:

“As paredes dellas estavam todas cubertas de muytas figuras de relevo, mas tambem esculpidas que duvido eu se pudessem lavrar melhor em materia mais branda, por estas escadas se entrava num pateo grande onde estavam as quarenta colunas, que dam nome ao sitio (…) os portaes por onde se entrava a este pateo eram muy altos e as paredes muy largas de hua parte, e outra dellas sahiam Leões & outros animais ferozes, relluados na mesma pedra, tambem lavrados que pareciam que ainda queriam meter medo (…)”.Sobre a escrita cuneiforme que cobre algumas paredes não escapou à sua observação, tendo mesmo lamentado que, como ninguém a conseguia ler:

“tudo ajuda a fazer esquecer o que o ambicioso rey desejou tanto eternizar”. Hoje, Persépolis é Patrimônio Mundial da Humanidade e, mesmo com os seus segredos desvendados, ainda é um lugar que faz sonhar.

IV – TEMPO E ESPAÇO: 


“Persépolis” narra quinze anos da vida de Marjane Satrapi, desde a infância em Teerão no seio de uma família progressista, passando pela Revolução Iraniana; queda do Xá; instalação de um regime fundamentalista e repressor, até à guerra contra o Iraque e o seu exílio como estudante em Viena aos 22 anos, e, finalmente um regresso a casa.
O filme faz uma crônica sobre a situação política do Irã (indo do final da década de 70 até o início dos anos 90), um país que tem uma posição geográfica estratégica na região em que está situado, mas que tem uma história de disputa de poder muito complexa.

V – TEMÁTICA:

“Se não virmos ás pessoas como seres humanos, podemos bombardeá-las e nada acontece. Diariamente são mortas centenas de pessoas no Iraque e nós nem sequer fizemos um minuto de silêncio”, afirma Satrapi. O filme tem como tema a história do Irã contemporâneo através da visão de uma criança de nove anos descendente de uma família intelectual com grandes ambições: ser a última profetisa da galáxia e assim poder salvar o mundo.



A história de Marjane tem como pano de fundo os acontecimentos históricos que moldaram seu destino e jogaram um papel não tão insignificante no moldar do mundo: a Revolução Iraniana de 1979 e o que se lhe seguiu. O derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica. Assim, “Persépolis” retrata a perda da inocência. Quando encontramos Marji pela primeira vez, ela é uma menina de nove anos que, nas suas próprias palavras, usa roupas “Adidas”, tem Bruce Lee como ídolo. No entanto, a situação política do seu país é um verdadeiro caos. O Xá e seu regime brutal está prestes a ser deposto e toda esta realidade lhe é explicada pelo seu pai (dublado por Simon Abkarian) e pelo seu tio, que foi um ex-prisioneiro político. 

A primeira parte do filme apresenta um divisar da vida e da luta de três gerações da família de Marjane: a história da ditadura; do petróleo; revolta e revolução.
Diálogos e imagens simples relembram a história amarga, ridicularizam os tiranos, enquanto seduz o espectador a um contexto histórico-social e cultural de um país que aderiu ao conservadorismo e repressão muito parecidos à Inquisição. 
Sem intenções moralistas, “Persépolis” parte do particular para o universal, cruzando ambas as narrativas e sendo simultaneamente íntimo como uma biografia e abrangente no testemunho, à procura de uma identidade no contexto de uma vida sob tirania. E se resta alguma ideologia, é a da integridade pessoal nas relações humanas.
Assim, a história que integra a herança familiar de Marjane e que define a sua vida faz parte da herança coletiva que molda a existência, as esperanças e os sonhos de um povo.
A infância de Marjane é marcada pelas figuras de familiares que lutaram contra o sistema dominante. O pai da mãe, nascido príncipe numa dinastia derrotada, tornou-se comunista. O seu tio aderiu ao Partido Democrático do Azerbaijão, um partido que apoiou a então socialista e vizinha URSS e tentou criar uma região autônoma antes de ser esmagado pelo governo central. Além de dar um esboço de certo período histórico, aponta para outra verdade: as contradições fundamentais da sociedade empurram constantemente alguns intelectuais privilegiados para a revolta contra o sistema. Eles apercebem-se da natureza obsoleta das relações dominantes e essa compreensão da necessidade de mudar o mundo e de construir outro mundo com toda uma nova base coloca-os nas fileiras dos oprimidos e mesmo, por vezes, à frente das suas lutas. 
Dessa forma, o pano de fundo de “Persépolis” é baseado na própria trajetória história do Irã, passando pela imposição religiosa imposta no país, nesse cenário se encontra Marji. Nascida nos anos 70, ela assiste a Revolução dominar seu país e levar os seus pais às manifestações. 
Logo após a revolução, numa rua de bairro, Marjane e outras crianças perseguem um menino cujo pai é membro da Savak, a polícia secreta e torturadora do Xá. Mas quando o confronta, ela não lhe consegue bater. Mais tarde, o Deus de Marjane diz-lhe para não se preocupar e deixar a justiça para ele. 
O derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica. A narração em voz sobreposta das principais personagens do filme acompanha os desenhos de Satrapi, imagens de vagas de repressão, mulheres forçadas a cobrir o cabelo, detenções, fugas do país e execuções. A República Islâmica ataca a maré revolucionária que derrubou o Xá.
Assiste-se a efusão e a alegria esperançosa das massas iranianas durante os primeiros dias da revolução, quando as manifestações contra a monarquia apenas tinham começado e o riso da pequena Marjane quando joga com o pai.
Em seguida, Anoush, o tio de Marjane que fora libertado das prisões do Xá pela revolução, é novamente preso. Marjane visita-o na prisão na noite anterior à sua execução e fala-lhe sobre sua convicção na vitória final do proletariado. 
A execução de Anoush torna-se uma alegoria da derrota da revolução. Numa cena pungente, ela enfurece-se contra o Deus que ela imagina: um velho de barbas brancas sentado nas nuvens. Ele não representa necessariamente uma religião em particular.
Marjane rejeita-o, mas essa rejeição não é permanente. 
O Deus de Marjane, tal como outras pessoas, só existe para compreender a realidade, ele nunca é realmente útil. Apenas representa a disputa entre o conhecido e o desconhecido no seu cérebro, em contrapartida, a sua avó representa o papel da experiência e da consciência.
Ela pragueja livremente, colhe jasmim que põe no sutiã para “cheirar bem” e ensina Marjane a preservar a sua integridade. Sempre que Marjane revolta-se contra aos seus valores por fraqueza ou medo (seja face ao racismo na Áustria ou aos Pasdaran no Irã), a avó enfatiza a importância da perseverança nos princípios de uma pessoa, uma vez que ela viu e sabe que os seres humanos, mesmo na mais difícil das situações, têm escolhas.
Esse Deus faz outra aparição no filme mais tarde quando, ao fracassar na sua tentativa de encontrar uma vida nova no estrangeiro, Marjane fica cansada da vida e quer morrer. Mas ela é agora mais experiente e atenta ao seu papel na mudança. E assim Marx acompanha Deus nessa cena. O Deus de Marjane, com o seu aspecto e voz de banda desenhada, é um dos muitos toques humorísticos do filme, mas reflete ao mesmo tempo a disputa da mente humana no processo de compreensão da realidade. 
A realidade da implantação da República Islâmica que se seguiu ao golpe de Estado de 1981 é trazida à tela pelos rostos de raparigas que usam véus negros. Mas isso, apesar de amargo, é apenas parte da realidade. 
Uma alteração na personalidade dessas raparigas, retratadas com linhas simples, mas vivas, contrastam nitidamente com os panos negros que envolvem os seus rostos dinâmicos. Uma nova força está a emergir das profundezas da sociedade. A revolta das mulheres e das raparigas face à República Islâmica e à sua velha e podre ideologia faz parte do tecido da história e a narradora é ela própria um símbolo dessa força vibrante. 
Como toda mulher, ela também foi obrigada a usar o véu. Andar com jaqueta jeans e tênis pelas ruas, como numa das histórias do volume 2, levou Marji a um interrogatório de uma patrulha de senhoras pró-revolução.
Mas isso é detalhe perto do que acontece no resto do país. Os pais de Marji, intelectuais liberais com alguns vínculos com o governo anterior, começam a perder amigos, que misteriosamente desaparecem. Vizinhos e parentes fogem enquanto podem (o país fecha suas fronteiras em 1981). Com o início da guerra contra o Iraque, em 1980, uma bomba pode repentinamente cair no seu bairro. O terror e a falta de perspectiva tomam conta.
Em meio a toda tristeza da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao revelar o que é ser um civil no meio de uma revolução, de uma transformação cultural violenta e de uma guerra. Mas, no clima de terror e incerteza do país, Marji e sua família ainda encontram tempo para rir. São estes momentos, de humor no meio do caos (às vezes um tanto nervoso), que tornam “Persépolis” imperdível.
O filme faz recortes da vida da protagonista; da criança curiosa e observadora até a adolescente petulante e intransigente, que ouvia discos do Iron Maiden e promovia bate-boca com professores em sala de aula. Sua conduta contestadora é apoiada pelos pais, profundo detratores do radicalismo e das leis religiosas do governo do Irã.


Na medida em que se tem a entrada da Nova República Islâmica, com seus “Guardiões da Revolução”, viver no Irã fica cada vez mais perigoso e seus pais decidem enviá-la para a Áustria. E é a partir daí que vemos Marji passar por um processo de amadurecimento, o qual vai ser marcado pela tentativa dela de encontrar seu lugar e seu papel no meio de tudo isso.
Longe de casa, lida com alguns preconceitos e decepções amorosas e sofre pela falta da avó, sua melhor amiga, e da mãe.


Na Áustria passa viver num dormitório administrado por freiras. Estas lembram os assassinos islâmicos do Hezbollah no Irã. Os seus rostos são tornados feios pelo mesmo tipo de franzido à Khomeini habitualmente usado pelos Pasdaran (Guardas Revolucionários) do regime e pela Basij (a polícia da moralidade islâmica). Em Viena, Marji sofre de solidão, nostalgia, racismo e, ao mesmo tempo, alegria do primeiro amor e da primeira decepção. 


Uma menina rebelde vinda do Irã, Marji alia-se com a maioria dos desterrados da escola, os autoproclamados anarquistas, nihilistas e outros colegas rebeldes. Algumas linhas divisórias fundamentais da sociedade são apresentadas como diferentes reações em relação a esta rapariga estrangeira e escura: o racismo, a misoginia e a igreja por um lado, e a revolta contra o poder por outro.


Com o coração desfeito, a solidão e a nostalgia, Marji decide voltar às suas raízes: o Irã de 1988, após o massacre de presos políticos pelo regime, depois da guerra com o Iraque. Quase um milhão de pessoas tinha morrido ou ficado incapacitadas. Inúmeras ruas foram rebatizadas com nomes de mortos e um passeio pela cidade era “um passeio por um cemitério”. O fracasso de Marji na Áustria, combinado com o cinzento e o peso da morte em Teerão, tiram-lhe as forças. Começa a pensar na morte. É aqui que Deus e Marx lhe aparecem e lhe dizem para ser forte. Marx salienta com um sorriso que a luta continua. Marjane decide não abandonar a esperança. Levanta-se e leva a sua decisão à prática. Faz os exames, vai para universidade e dá início a mais um episódio da sua vida. 

VI – CONSIDERAÇÕES GERAIS:

Este filme coloca importantes questões sobre a revolução. Questões a que não responde necessariamente, mas que, quando colocadas, despertam o pensamento e exigem uma análise. Numa cena, um familiar de Marjane está doente e precisa de um bypass no coração, uma operação que não era possível fazer no Irã. Para viver, precisa de autorização para deixar o país. A sua esposa dirige-se ao responsável administrativo do hospital para pedir autorização. O novo chefe tinha sido porteiro do seu prédio antes da revolução. Tornou-se num muçulmano inflexível, deixou crescer a barba, não olha para as mulheres nos olhos… e claro que recusa a autorização de saída. O destino do paciente, suspira ele, “está na vontade de deus”. A cena faz-nos sentir profundamente a impotência das pessoas face aos novos reacionários no poder e a predomínio da ignorância e da superstição contra a ciência, a lógica e os interesses das pessoas. 
Essa personagem salienta uma das questões políticas e ideológicas que todas as revoluções enfrentam. A Revolução abala as velhas relações e abre caminho à criação de novas relações. Mas quando a liderança está na mão de forças cujo interesse é preservar a velha ordem sob uma nova forma, como foi o caso do Irã em 1979, as tendências retrógradas entre as pessoas podem ser reforçadas e transformadas numa ferramenta nas mãos da nova classe dominante. Uma dessas tendências é a de usar as oportunidades oferecidas pela situação para se autopromoverem e tentarem obter posições a que antes não tinham acesso. Por vezes, essa tendência entre os estratos mais baixos está ligada a um sentimento de vingança contra os que no passado tinham posições privilegiadas; e muitas vezes essa violência não visa às classes dominantes, mas os estratos médios educados. É claro que, sem uma mudança fundamental nas relações existentes, apenas um punhado (que normalmente têm um aguçado olfato oportunista) chega a algum lugar e a grande maioria continua a ser despojada e reprimida. A República Islâmica, que usou todos os recursos ideológicos reacionários, sobretudo a religião, para estupidificar as massas e estabelecer e preservar o seu domínio tirou proveito desta tendência retrógrada para manter uma fachada populista e preservar a sua base entre um sector das massas. O resultado foi uma brutal repressão dos intelectuais e das massas. 
“Persépolis”, à sua própria maneira, expõe completamente os crimes da República Islâmica. Mas, apesar do que alguns escolham assumir, não negligencia o papel do Ocidente levar dos tiranos fantoches ao poder e na repressão das massas. Os espectadores dão-se conta do papel da Grã-Bretanha no golpe de estado que levou o pai do Xá ao poder, na pilhagem do petróleo do país, no treino dos torturadores da Savak pela CIA e na venda de armas pelos países ocidentais a ambos os lados da guerra Irã-Iraque. Tudo isso são lembranças de que o Irã não existe num vácuo, mas faz parte de um sistema que espalhou os seus tentáculos por todo o globo e que a luta que aí ocorre faz parte da luta contra esse sistema global.

 







quinta-feira, 21 de maio de 2026

RESUMO E ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA DA OBRA "AS MENINAS", LYGIA FAGUNDES TELLES

RESUMO DO ENREDO: "AS MENINAS", LYGIA FAGUNDES TELLES

O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente.

Composto por DOZE CAPÍTULOS que não têm nome, mas números:

UM - Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz, que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o carro de "mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena, conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos frequentes presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (aliás, passa o livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranquilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao contrário", para dar sorte) para o "aparelho"(= grupo de resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas consequências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da (s) amiga (s).

DOIS - Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus - e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos (ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos amantes. Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as joias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é difícil e complicado.

TRÊS - Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade com o texto A Máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade), como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora a chegada de Lia e Ana Clara e a "invasão" das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e magra, mostra certa inveja da beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino", enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara "arrombou" a privacidade de Lorena, obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima, mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na falta de luz e subsequente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor edipiano.

QUATRO - Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (Ana Clara) sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços - Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de ouro (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa na praia, onde Ana Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

CINCO - Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante, Beatriz), em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo"). Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias. Coloca um Noturno de Chopin e serve constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

SEIS - Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia ("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano), engajamento político-social, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre, que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade, do presente (fases da vida!...); de Ana Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro. Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que serve para a vida das duas: Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei (Gênesis).

SETE - Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema ... Quer ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em latim, enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas se mostram preocupadas com a gravidez de Ana "Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira vez" (M.N. é ginecologista, um "gentleman").

OITO - Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm álbum de retratos... Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar seus sumiços. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 horas da noite. Não consegue táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de boêmio - retratos na parede, vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

NOVE - Na banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo - na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto identificação, transferência de afetos. Lia quer provar que M.N. está mais para pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

DEZ - Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra Dr. Francis. Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum de fotos na garagem: acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por autodefesa. Ganha roupas e mala para a viagem.

ONZE - Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente Ana Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que Guga virá procurá-la. Não veem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois a dor do remorso dói mais que a dor física (Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: Ana Clara está morta.

DOZE - Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de Ana Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela amiga, além dos "discursos". A bolsa de Ana Clara está aberta: talvez dali ela tirara a própria morte. Lorena tem ideias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta Ana Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pistas comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As duas amigas carregam Ana Clara através da noite providencialmente nebulosa e abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

Temos os elementos de uma equação dramática, que pode ser recompreendida da maneira seguinte:

1. No nível intersubletivo (eu x eu x eu), as meninas se dão bem, formam um destino comum e provisório no pensionato. Nós nos acostumamos a pensar nas três, a contar com as três, e querer que as três continuem juntas. Entretanto, cada uma está presa a um tipo de paixão que conspira contra a unidade. De certa forma, tão jovens, estão jogando a vida fora.

2. No plano da subletividade, os três projetos são falidos por princípio: Lia terá de se esconder da polícia. Seu amante é preso, e depois solto, em troca de um refém. Nesse espaço de tempo, teve uma relação frustrada com Pedro, jovem tímido e indeciso. Lia acredita que irá com o namorado para a Argélia (mas, ao fim do livro, não sabemos se ela foi de fato). Tranca seu curso de Ciências Sociais, envolve-se em confusões, e vive de sustos. E Ana Clara? Ana Clara quer de novo a virgindade, e pensa casar com toda a pompa, ter marido rico, dirigir um Jaguar novinho em folha, bancar a rica. Abandona a Faculdade, onde estudava Psicologia. E não quer deixar o amante. E afunda-se cada vez mais na dependência. E a veneração de Lorena (que faz Direito na USP) é por um fantasma, um homem que não dá sinal de vida. Lorena só pensa nele, e, sob esse aspecto, seu lamento gracioso lembra o das "cantigas d’amigo" medievais. Ela não pode ouvir o som do telefone, que sai correndo afobada e esperançosa. Lorena não quer nada com droga ou com política. Mantém-se virgem, para esperar seu M.N.. Lorena tivera algum namorico anterior, com o Fabrízio, e depois com o Guga. Mas tudo isso não era nada, diante da paixão que sentia agora pelo clínico misterioso.

Vê-se, portanto, que os três destinos marcham para a dispersão. Isso configura, como vimos, uma síntese entre o drama cultural e o drama pessoal. Que é, aliás, o drama da menina em sua passagem para mulher. É o drama da definição e da busca de um caminho. Um caminho que passa necessariamente pela esfera masculina. Pois é sempre o homem (esse ausente) que decide sobre as coisas.

3. O clímax do livro ocorre com a morte súbita (mas nada estranha) de Ana Clara, nos aposentos de Lorena. Lorena passa então por uma confusão mental. Que fazer? Mas Lia acaba chegando, e ela e Lorena vestem elegantemente a falecida, retiram-na silenciosamente do pensionato (para evitarem a polícia), e colocam o seu corpo furtivamente num banco de jardim de uma pequena praça, não sem algumas atrapalhações e juvenilidades que, não fosse a tristeza da hora, teriam sua graça e até comicidade. Lia e Lorena se separam. Aquela se prepara para deixar o Brasil, e se reencontrar com seu amante. Esta fica só, depois de uma inaugural experiência de coragem e desassombro, que fora essa aventura de carregar a morta pela cidade perigosa. É o fim. A impressão derradeira é de desconsolo e miséria cultural. É a dispersão dos destinos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Diversos são os elementos dessa obra de Lygia que permitem refletir sobre a representação da mulher, a começar pelo ponto de vista do enredo, que privilegia as três meninas. Junto da representação de seu cotidiano, vemos a representação de três personalidades fortes, mesmo que isso não seja tão perceptível desde o começo da obra. Lia, como já previamente mencionado, mostra-se ativa e resistente para a luta, nem que para isso seja necessário partir para um mundo totalmente novo (a Argélia, por exemplo). Sua militância de esquerda em prol de uma sociedade igualitária estende-se, também, para a causa feminista e, reiterando palavras já antes referidas, essa personagem parece representar o próprio engajamento social da autora.

Vemos referências à questão feminista na menina de apelido Lião (que sugere sua robustez, tanto física quanto moral), quando Lorena afirma que a amiga é leitora de Simone de Beauvoir, célebre feminista francesa, por exemplo: “Até as unhas dos pés cheguei a fazer outra noite enquanto Lião curtia Simone de Beauvoir. De Simone de Beauvoir para o sexo, foi um passo, porque o primeiro sexo, porque o terceiro sexo, porque o segundo” (TELLES, 1998, p. 114). Seu discurso é também condizente com a causa feminista, algo que se percebe no momento em que Lia trava uma discussão com o motorista de Lorena, ao falar de seus filhos:

“- A filha também lhe dá alegria?

Ele demora na resposta. Vejo sua boca entortar.

- Essa moda que vocês têm, essa de liberdade. Cismou de andar solta demais e não topo isso. Agora inventou de estudar de novo. Entrou num curso de madureza.

- E isso não é bom?

- Só sei que antes de fechar os olhos quero ver a garota casada, é só o que peço a Deus. Ver ela casada.

- Garantida, o senhor quer dizer. Mas ela pode estudar, ter uma profissão e casar também, não é mais garantido assim? Se casar errado, fica desempregada. Mais velha, com filhos, entende [...].

- A Loreninha também fala assim mas vocês são de família rica, podem ter esses luxos. Minha filha é moça pobre e lugar de moça pobre é em casa, com o marido, com os filhos. Estudar só serve pra atrapalhar a cabeça dela quando estiver lavando roupa no tanque. [...]

- E se ela casar com uma droga de homem e depois virar aí uma qualquer porque não sabe fazer outra coisa? Já pensou nisso? Me desculpe falar assim duro mas vai ter que prestar contas a Deus se começar com essa história de dizer, case depressa filhinha porque senão seu paizinho não morre contente. Se acreditar nela, aposto como ela vai querer merecer essa confiança, vai ser responsável. Se não, é porque não tem caráter, casada ou solteira ia dar mesmo em nada (TELLES, 1998, p. 220-221). “

Evidentemente, o discurso do motorista mostra-se como exemplo da postura patriarcalista, que enxerga liberdade e conhecimento como “luxos” desnecessários a uma mulher, ainda mais se ela for de classe baixa. A função dela resume-se basicamente ao trato da casa, do marido e dos filhos, e a maior aspiração que ela pode ter para a vida é o casamento. O mais interessante, porém, é que o discurso de Lia vem para questionar essa postura, enfrentando o preconceito estabelecido no pensamento do motorista e mostrando que as consequências desse comportamento machista são muito graves.

Analisando mais detalhadamente a personagem de Ana Clara, também é possível ver uma tentativa de subversão da ordem. Marcada pelos traumas de uma infância e uma adolescência desastrosas, a garota não se conforma com a ideia de continuar na mesma vida, reafirmando inúmeras vezes que logo tudo irá mudar para muito melhor. Apesar de sucumbir às drogas e ao alcoolismo – o que pode ser lido como uma válvula de escape para o seu sofrimento –, Ana mostra-se determinada a deixar para trás tudo que a maltratou até aquele momento, incluindo as más lembranças que a atormentam.

Tal bagagem de sentimentos, contudo, não lhe permite ter esperança quanto a uma melhor perspectiva para as mulheres, algo que ela constata quando em referência à Lia, defensora dessa causa:

“E Lião ainda com suas teorias de superioridade da mulher. ‘Mas onde? Papo furado. Uma cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica é o filho dependurado no peito. Pronto. Mas que guerrilha pode sair disso? Mulher tem que ser assim mesmo. Se embonecar. Vestir coisas lindas. A única vantagem que vejo é essa da gente fazer amor sem se sujar. A única. Preciso dizer isso pra Lião repetir nas reuniõezinhas dela’ (TELLES, 1998, p. 178). “

Suas palavras podem ser compreendidas pelo sofrimento e pelos constantes abusos físicos e morais de que foi vítima, junto de sua mãe, circunstâncias com as quais não teria padecido se fosse homem. Lembrando o trecho já antes citado, em que Ana fala do suicídio de sua mãe após os maus-tratos de seu companheiro e depois de ver-se obrigada a praticar mais um aborto, é claramente compreensível que a personagem quase não veja privilégios no fato de ser mulher. A saída que ela encontra para superar as desvantagens físicas é o embelezamento artificial que maquiagens e boas roupas podem oferecer, razão pela qual ela afirma, constantemente, que vai sair na capa de revistas. São palavras de Lorena sobre a amiga: “Mas então ela cruzou as belas pernas, contou as mentirinhas, ia ser capa de revista em Roma, o Conde Cicogna a convidara para jantar e etcétera etcétera” (TELLES, 1998, p. 206).

A determinação de Ana Clara, mesmo que para atitudes nem sempre boas, é prova de que estamos diante de uma mulher forte e confiante, cujas rédeas de sua vida, segundo ela, então em suas próprias mãos. Veja-se o trecho a seguir, em que Lia a censura com um olhar, vendo-a com picadas de seringa nos braços:

“Picada sim e daí. Paro com tudo quando bem entender. Vou ser capa de revista. Me casar com um milionário. Fique aí embananada porque o ano que vem. Como sou boa posso ainda ajudar você e seus piolhentos ajudo todos. Dou uma casa pra suas reuniões. Dou uma casa pra Loreninha que vai ficar sem nada com aquela mãezinha esbanjando a fortuna não tem importância não interessa. Resolvo tudo. Então fico verdadeira” (TELLES, 1998, p. 87).

A situação da mãe de Ana Clara também é merecedora de um olhar atento. Na condição de pobreza e na dependência de um companheiro, tal personagem não conseguiu subverter a ordem da dominação.

Outra mãe cujas atitudes são importantes para a nossa análise é a de Lorena. Nela, reproduz-se o estereótipo da mulher incapaz de agir segundo suas convicções – é o homem quem precisa conduzi-la. O trecho a seguir parte dos pensamentos de Lorena e mostra a falta de postura da mãe frente à decisão de alugar o quarto para a filha no pensionato das irmãs:

“Voltou para ele [o marido] a cara perplexa, nessa época o consultava até para saber se devia ou não tomar uma aspirina. ‘Dê sua opinião, querido. Não vou gastar demais? Isto está um horror’ [...]. Mieux piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar seu prestígio: ‘Vai ficar a coisa mais joia do mundo, já estou com umas ideias. Quero este banheiro todo cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para o banho’.[...] E como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda” (TELLES, 1998, p. 22).

Mieux, o companheiro, não perde a chance de dar sua opinião e mostrar suas ideias, sendo incisivo em suas sugestões: “Quero este banheiro todo cor-de-rosa...”. Tampouco perde a oportunidade de assediar a enteada, em uma atitude que, seguramente, configura-se em abuso. A dominação que ele exerce sobre a esposa é visível em outros tantos momentos, como na época em que a obrigava a sair constantemente, mesmo que ela não desejasse. Ao mesmo tempo, como, para ele, pouco parecia importar que ela não fosse (o que a mulher não desejava), ela acabava por concordar com tudo, sabendo que ele agia ciente de que a estava maltratando:

“- Me obrigava a sair quase todas as noites, festas, festas, Você não quer ir? Então vou sozinho. Eu não queria ir mas ia, mais vestidos, mais cabeleireiros, desde cedo me enfiava no cabeleireiro, andava com o couro cabeludo ardendo de tanta tintura, tanto penteado, descansei um pouco quando comprei cinco perucas, era mudar a peruca, pintar a cara e sair correndo atrás dele, boates, jantares, coquetéis, vernissages, cismou de investir em quadros, nunca teve a menor cultura mas se achava o máximo, esteve a ponto de abrir uma galeria [...] (TELLES, 1998, p. 238). Em certo ponto da narrativa, fica claro que o interesse de Mieux com relação à esposa tinha por base o seu dinheiro, tendo em vista que ela herdara considerável fortuna do marido já falecido. Assim, ele podia aproveitar as festas e mudar de profissão quantas vezes desejasse, visto que ela sustentaria tudo. Essa mulher também revela insegurança com relação ao seu corpo, por ser mais velha que o companheiro, o que a leva a considerar várias fases de sua vida como diferentes “juventudes”. Lorena afirma que a mãe “teve primeira, segunda e até quarta juventude. Que fúria quando num dia de mau humor Mieux lhe disse aos urros que a juventude é uma só. Coitadinha” (TELLES, 1998, p. 71). Consequentemente, o medo de envelhecer e, portanto, já não agradar Mieux também a acompanha: “fiz plástica, mas chorando como tenho chorado devo ter estragado tudo. Minha irmã Luci descobriu um creme escandinavo feito com óleo de tartaruga, deve ser ótimo, as tartarugas se conservam séculos [...]” (TELLES, 1998, p. 244).

Ao fim da história, a personagem quase vai à loucura com a morte de seu médico, o Dr. Francis, que “tratava de seus nervos”, junto do abandono de Mieux. Não tendo mais o apoio psicológico que aquele podia lhe oferecer, ela afirma ter voltado à estaca zero, deixando claro não ser capaz de manter o equilíbrio sozinha. A mãe de Lorena também afirma que, não fosse pelo médico, possivelmente já teria cometido suicídio, em mais uma prova de que não consegue enfrentar dificuldades sem recorrer ao desespero.

O mais interessante desse contexto é o fato de a personagem reconhecer que seu marido só a fez sofrer e “chorar lágrimas de sangue” (TELLES, 1998, p. 231), ao mesmo tempo em que conclui que “mulher sem homem acaba tão complexada, tão infeliz” (TELLES, 1998, p. 240). Esta postura irônica da autora leva-nos a reforçar sua crítica com relação à ideia de que o casamento deve ser encarado como uma obrigação e, mais que isso, como objetivo maior da vida de uma mulher.

Não menos importante, por fim, é falar da personagem Lorena. Moça inteligente e sensível, sua inocência a leva a esperar que o amado M.N. a procure, mesmo sabendo que se trata de um homem casado e, mais ainda, com cinco filhos. Em nenhum momento ele parece ter demonstrado interesse por ela, que ignora a rejeição e tenta justificar a atitude dele com o fato de ela ser pálida, franzina, “sem carnes” ou outros atrativos. Todo o enredo leva a crer que Lorena traz consigo o rótulo de menina meiga e tola que é enganada pelo homem amado.

Contudo, a atitude derradeira da personagem não condiz com a ideia do “sexo fraco”, pois é ela quem surpreende tomando a dianteira perante uma situação tão difícil como foi a morte de Ana Clara. Depois de afirmar que a amiga simplesmente não pode morrer no pensionato das freiras, Lorena mostra-se firme diante da amedrontada Lia: “[...] estou fazendo tudo como Aninha gostaria que fosse feito. Deus me inspirou, pedi inspiração e Ele me deu, depois que tive essa ideia cheguei a sentir uma certa paz. Posso mudar, querida. Se a morte não tem remédio, posso ao menos salvar as circunstâncias!” (TELLES, 1998, p. 276).

Há que se recordar, também, de toda a complexa situação de sua mãe, cujo marido a explorava e chegou a assediar Lorena, sem que ela, contudo, se mostrasse abalada. Além disso, um acontecimento ainda não mencionado é o trauma que sofrera com relação à perda de um irmão, morto acidentalmente pelo gêmeo em uma brincadeira. Esta última situação é lembrada pela menina em diversos momentos, como se a cena martelasse constantemente em sua memória. Sem dúvida, isso a marcou profundamente, mas, mesmo assim, mostra-se forte para consolar a mãe e cuidar das amigas quando necessitam, agindo como se todas as circunstâncias fossem naturais, comprovando que, definitivamente, não pertence ao sexo frágil.

CONCLUSÃO:

Três meninas, três histórias que se entrecruzam, três destinos. Em todos eles, vemos a coragem e a intensidade de mulheres que tentam subverter a tradição patriarcal que por tanto tempo as dominou. Mesmo que a sociedade representada na obra apresente marcas visíveis do discurso da dominação masculina, inclusive na fala e nas atitudes de certas personagens, a maior parte das mulheres que protagonizam a história enfrenta essa dificuldade, mesmo que à sua maneira, tentando viver de uma forma mais digna. É nesse sentido que a obra de Lygia Fagundes Telles se mostra relevante para a reflexão sobre uma causa que vence, a cada dia, uma nova batalha.

Ao trazer à tona problemas que merecem ser discutidos, questionando e levando, igualmente, o leitor ao questionamento, a literatura tem um papel de suma importância no que se refere à temática feminina. Dessa forma, as narrativas que versam sobre a identidade e a sexualidade femininas, por exemplo, colocam em xeque os mecanismos de poder desiguais. Esse questionamento, por sua vez, é fruto de reivindicações de igualdade, e não de supostas “inversões de papéis”. Assim, torna-se crucial reconhecer o papel da literatura enquanto veículo para essa problematização, já que ela possibilita a discussão sobre o tema e, ainda, tem o poder de sugerir novas percepções.

A crítica suscitada por um enredo tão denso perpassa a repressão da ditadura, em uma época delicada da história do Brasil, mas não deixa de fora a causa feminista, atentando para a importância da igualdade de gênero e para o extermínio da ideia de que a mulher não é capaz de ocupar a mesma posição que o homem ou de que a fraqueza é sua qualidade maior. Finalmente, essa obra reforça a acepção que nossa sociedade não pode ignorar: a de que toda a mulher tem o direito de conquistar o seu lugar e o respeito que merece, pois a ela, da mesma forma que o homem, sempre deve ser permitida a possibilidade de escolher o seu destino – tal como as meninas aqui descritas, de uma forma ou de outra, o fizeram.

Perpassando momentos do cotidiano dessas três jovens, a obra “As meninas” explora a fundo suas almas e sentimentos. Lorena passa as horas em seu quarto, entretida entre fazer seus exercícios, ouvir música, tomar banhos e ler livros. Lia, sempre preocupada com a situação de Miguel, descobre a possibilidade de fugir com seu amado para a Argélia e lá começar uma vida nova, deixando-se levar pelo impulso ativista, que não se conforma com as injustiças do mundo e quer lutar por mudanças. E Ana Clara sucumbe à dor: ao final da narrativa, a jovem vai ao encontro de Lorena, mais uma vez embriagada e drogada, em uma condição deprimente. Novamente, ela percebe a presença dos espinhos em seu coração e, em delírio, uma barata o atinge com um florete. Depreende-se daí que Ana Clara já se encontrava fortemente debilitada, o que a levava a sentir dores no peito. Devido, principalmente, ao uso de drogas e às alucinações, ela talvez nem compreendesse o que se passava consigo. Contudo, o trecho a seguir, momento em que a personagem sofre com a overdose, deixa claro que não se tratava de um acontecimento sobrenatural: “quis respirar e o sangue jorrou do coração coroado de espinhos, espirrando em sua boca com tamanha violência que se engasgou nele. Dobrou-se na tosse” (TELLES, 1998, p. 245).

Ana Clara falece na companhia das amigas e, Lorena, a menina frágil e delicada, surpreende com sua atitude ao final do enredo: ela decide vestir a amiga morta com roupas de festa, tendo o cuidado até de maquiá-la. Lia, a moça robusta e corajosa, é quem se mostra amedrontada, principalmente com relação à polícia (já que a atitude mais sensata seria acioná-la). Contudo, é Lorena quem toma a dianteira da situação e, depois de arrumar Ana Clara, decide que seu corpo deve ser deixado no banco de uma praça, para que somente lá ela seja encontrada. Na opinião da amiga, “Ana Clara não pode morrer drogada num quarto do Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Não pode” (TELLES, 1998, p. 276). A atitude de Lorena, portanto, acaba por ser uma surpresa para o leitor, já que a coragem e a força para lidar com uma situação tão delicada partem de quem menos se espera.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

“AS MENINAS”, LYGIA FAGUNDES TELLES

 PERSONAGENS:

 

As protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes, procuram exprimir suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos seus anseios. Utilizando a reflexão e o diálogo, as personagens se analisam, exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao passado, pela incapacidade de superar a inércia, pelo status quo

As meninas” é a história do fracasso de três tentativas de libertação das imposições sociais.

Uma interessante maneira de iniciar a descrição das personagens se dá pelas palavras de Madre Alix, a madre superiora do pensionato em que as jovens se encontram e que desabafa para Lia:

“Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que não telefona? Ana Clara, aí está. Ana Clara. Como me procura e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como vou separar a realidade da invenção? (TELLES, 1998, p. 141-142). ”

Em LORENA VAZ LEME, vemos a imagem da menina inocente e ainda virgem, que vive em seu quarto muito limpo e organizado, e que, sempre que possível, manifesta seu instinto cuidador com relação às amigas – empresta-lhe seus objetos, seu dinheiro, penteia seus cabelos, oferece sua banheira para que tomem banhos demorados, etc. Sua paixão por um homem casado e, pelo que se constata, desinteressado dela, leva-a a passar toda a narrativa esperando por um telefonema que não chega.

Filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com frequência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca frequentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subsequente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha concha. Meu delicado mundo que amo tanto (230), e que anteriormente foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou o quarto com papel dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro (51). Ela se descreve como sendo do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim (15); Sou da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na vidraça (49). Didática na propagação de seus valores, gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico (50). Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas frequentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho coloca-a em frequente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

No início do romance, Lorena afirma: “Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato” (TELLES, 1998, p. 14) – ameaça repetida muitas vezes, mas que logo se percebe que não tem fundo de verdade. Sobre a menina cujo apelido na faculdade é MAGNÓLIA DESMAIADA (o que parece sugerir a falta de energia e vibração de uma pessoa frágil), conhecemos mais um pouco de sua personalidade pela voz de Lia:

“Morre de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que rasguei tudo [o romance que escrevia]. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa menina (TELLES, 1998, p. 27).”

Uma descrição oposta, com Lorena falando de Lia, vemos no trecho a seguir, em que se conhecem a origem de Lia, sua mudança para o local onde se encontra no momento e um pouco de seu caráter militante:

Lembrava-se de LIA chegando com as duas malonas estourando de coisas. E “O Capital” debaixo do braço, metido num papel de pão que mais mostrava do que escondia. ‘A mãe é morena da Bahia casada com holandês’, pensou assim que a viu. Era baiana com alemão, Herr Paul, ex-nazista que virou Seu Pô, um tranquilo comerciante apaixonado por música e por Dona Dionísia, para os íntimos, Diú [...] Deu Lião. Loucura, imagine, um nazista de águia no peito, entende, vir parar em Salvador e lá então, não sei explicar mas se apaixona pela moça Diú e a soma é Lia de Melo Schultz que faz seu necessaire e vem terminar o curso no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Um pé baiano, o outro berlinense. Alpargata Conga (TELLES, 1998, p. 58). ”

É também Lorena quem atenta para a herança que Lia traz do pai, revelada por sua força e vigor germânicos, e “andejo capaz de fome, inverno e tortura com travessia em rio coalhado de jacaré” (TELLES, 1998, p. 59). Da mãe baiana, notam-se tanto as “proporções gloriosas” e a “cabeleira de sol negro desferindo os raios por todos os lados”, que fivela nenhuma consegue prender, quanto o “açúcar da voz quando está nostálgica” (TELLES, 1998, p. 59).

LIA DE MELO SCHULTZ serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.

Veio da Bahia para fugir da mãe super protetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso e que, junto dele e de mais um grupo de amigos, ela luta pela liberdade em um cenário político nada propício para tal.

Pela voz de Lia, é possível enxergar a crítica de Lygia Fagundes Telles com relação aos horrores da ditadura e à repressão que ela impunha, visto que a personagem vivencia o medo constante das autoridades, mas, mesmo assim, acredita em sua causa e em dias melhores, não deixando, portanto, de lutar.

Interessa comentar, ainda, que Lia mostra-se desinteressada de qualquer cuidado com a aparência e com nenhuma vaidade. Novamente, é Lorena quem fala da amiga: “quando levantou o braço (usava uma camiseta sem mangas) me levantei e fui correndo buscar a gilete, pelo amor de Deus, Lião, passa a gilete nessa axila! Ela obedeceu e fez sua distinção: ‘Axila é quando está raspado, entende. Sovaco é quando não se raspou’ [...]” (TELLES, 1998, p. 278).

Lia também chega a revelar que sua primeira experiência sexual ocorreu com uma mulher e que, depois desta, nenhuma outra foi igual, o que sugere uma tendência à homossexualidade, apesar de seu namoro com Miguel.

Pela própria voz da personagem, tomamos conhecimento da força que a impele em favor de sua causa:

“Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos – repito e meus olhos estão nadando em lágrimas (TELLES, 1998, p. 164). “

O sentimento da personagem Lia é motivado pela força e pelo desejo de modificar um cenário, de agir em favor de um objetivo e de ter sua voz ouvida. A intensidade da ânsia de Lia é tão forte que lágrimas lhe vêm aos olhos; e ela também resiste, assim como o pedregulho.

Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

ANA CLARA CONCEIÇÃO, por sua vez, é a mais obscura das meninas. Apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente.

Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída, de quem tem vergonha e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida.

Ana foi seduzida por um dentista, que abusava sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes.

Dividida entre um casamento com um milionário e seu amor, Max, “Ana Turva” sofre com sua decadência no mundo das drogas: “acendeu a luz do banheiro mas recuou diante do espelho. Bateu as pálpebras, aturdida. Desviou da própria imagem o olhar enfurecido. Afundou as mãos na cabeleira” (TELLES, 1998, p. 100).

Seu possível casamento com o referido milionário, que as amigas, sempre tentando livrá-la das drogas e do álcool, chegam a duvidar que realmente exista – seria a válvula de escape para ver-se livre da pobreza e de seu passado, deixando para trás a violência física, sexual e moral da qual ela e sua mãe foram vítimas. O trecho a seguir revela um pouco do cruel cenário que rodeava sua infância:

“Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e agora estava deitada e encolhida gemendo aí meu Jesus aí meu Jesus meu Jesusinho. Mas o Jesusinho queria era distância da gente. Então catei a primeira barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de chorar, chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores ideias nasceram do ódio. [...] Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha de tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber, nesse tempo era o Sérgio. ‘Não quero nem saber’, ele disse dando-lhe um bom pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu mais encolhidinha do que uma formiga, nunca pensei que ela fosse assim pequena. Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou [...] Não chorei nem nada mas por que havia? Não senti nada (TELLES, 1998, p. 83).“

Em boa parte da narrativa, Ana Clara encontra-se embriagada e afetada pelo consumo de drogas, fato que se nota também em suas falas e pensamentos, que se mostram confusos e embaralhados sob efeito de narcóticos. Em uma dessas falas, Ana Clara revela à Madre Alix que sente Jesus em seu coração, com sua coroa de espinhos, e que Ele a escolheu apesar de tudo que já lhe aconteceu: “se ele me escolheu é porque eu mereço e Ele viu tanta humilhação tanto sofrimento lembra o que sofri com todos aqueles sacanas que. Eu era criança e os sacanas. Nem podia me defender nem nada, eu era criança” (TELLES, 1998, p. 187).

Faz-se necessário ressaltar, aqui, dois pontos importantes. Primeiramente, surge a dúvida sobre o que realmente significa essa “presença” que a jovem sente: se se trata, de fato, de um acontecimento sobrenatural; se esse é apenas mais um de seus delírios fantasiosos; ou, ainda, se a referência à coroa de espinhos seria uma alusão a algum tipo de dor resultante de seu significativo consumo de álcool e drogas. O segundo ponto a ressaltar é a violência sexual que fica implícita em sua fala, quando a jovem se refere aos “sacanas que”, quando ainda era criança. A sentença inacabada pode se justificar pelo efeito das substâncias ingeridas, mas, também, pela dor e humilhação que tais acontecimentos lhe causaram. Todo o sofrimento do passado, como se vê, continua latente na personagem, cuja ânsia maior é livrar-se da situação em que vive, para livrar-se, também, dos fantasmas que a cercam.

Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.