quarta-feira, 1 de abril de 2026

CONTOS NEGREIROS, MARCELINO FREIRE, 2005.

I – AUTOR: MARCELINO FREIRE

Marcelino Juvêncio Freire (Sertânia, Pernambuco, 1967). Escritor e editor. Entre 1969 e 1975, mora em Paulo Afonso, Bahia. Depois, reside em Recife, onde tem contato com grupos de teatro e leituras de poesias. Sua primeira peça, O Reino dos Palhaços, é encenada em 1981. Dez anos depois, muda-se para São Paulo. Em 1995, edita, de forma independente, seu primeiro livro de contos, AcRústico. Cinco anos depois, lança Angu de Sangue, com prefácio do crítico João Alexandre Barbosa (1937-2006). Em 2002, a Ateliê Editorial publica o livro de aforismos EraOdito, seguido de outros volumes de contos: BaléRalé (2003), Contos Negreiros (2005) e Rasif: Mar que Arrebenta (2008). Ainda em 2002, inaugura o selo EraOdito EditOra e lança a Coleção 5 Minutinhos, reunindo narrativas curtas inéditas dos escritores Glauco Mattoso (1951) e João Gilberto Noll (1946-2017). Em 2006, recebe o prêmio Jabuti por Contos Negreiros, com uma versão em audiolivro. Nesse ano, cria a Balada Literária, evento anual que reúne escritores e artistas, com debates sobre arte contemporânea. Entre 2002 a 2010, mantém o blog EraOdito e, a partir de 2011, escreve no Ossos do Ofídio. Os dois sites funcionam como diário do escritor e veículo de divulgação de seu trabalho e de eventos literários. Também participa da cena literária nacional: organiza Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004), antologia de contos de autores contemporâneos, e atua como um dos editores da revista PS:SP, sobre literatura paulistana. Em 2013, publica o primeiro romance, Nossos Ossos, pela editora Record. Em 2014, o livro ganha o prêmio Machado de Assis de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional.

II - INTRODUÇÃO:

A sociedade brasileira, frequentemente marcada por desigualdade social, preconceito e violência contra tantas minorias, pouco concedeu ao longo da constituição de sua literatura espaço para a voz negra. A voz da enunciação sempre foi marcada pelas classes dominantes, desde os tempos de escravidão, e a voz branca e masculina sempre esteve preenchendo lugares que não eram seus e exercendo poder sobre o outro. No âmbito de nossa história, tais preconceitos étnicos resultaram em atos de extrema violência, como genocídios, a miséria humana e a marginalização forçada dos negros que viviam nos centros urbanos.

Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor de sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. E é exatamente isso que Marcelino Freire nos mostra em Contos Negreiros. São as vozes de pessoas silenciadas ao longo da história e que nunca detiveram de privilégios, mesmo que ficcionalmente. O contista rompe com a estagnação literária que por muito tempo enxergou os negros ocupando postos inferiores e subalternos em suas obras. Ademais, o autor não expressa em seus contos apenas a vontade de dar voz a esses, mas constrói um novo vínculo entre a marginalização desses sujeitos e a linguagem.

III - GÊNERO LITERÁRIO: LITERATURA CONTEMPORÂNEA

Contos Negreiros circula entre as expressões culturais e literárias das periferias, quer sejam urbanas, quer sejam regionais. Há um forte apelo às questões que envolvem as relações entre escrita e oralidade, ficção e testemunho, construídas aqui como efeito de sentido do que não está em lugar algum, do que não consegue se inscrever em apenas um tipo de expressão. Do que não tem lugar na cultura (forma literária) dominante. Como as demais obras de Marcelino Freire, Contos Negreiros sugere diversos caminhos interpretativos e oferece ao leitor a oportunidade de refletir sobre algumas questões que andam polarizando as discussões sobre a narrativa contemporânea: a questão de gêneros literários, os tipos de ponto de vista e focalização narrativa, a enunciação como atitude responsiva, a ficcionalidade, o efeito de oralidade, a relação entre ficção e testemunho, a expressão da marginalidade.

1. Sobre a questão dos gêneros literários, embora o livro seja de contos, pode ser lido como um conjunto de poemas narrativos. À lembrança do poema de Castro Alves do título, os contos lembram poemas na extensão e no trato com a linguagem, não raro criando rimas contíguas e apresentando um ritmo muito próximo da poesia.

2. A quase ausência de descrições e de estratégias narrativas de introdução de personagens faz com que os contos lembrem, também, os diálogos dramáticos.

3. A hibridização proposta problematiza tanto os universais literários conhecidos como modos (lírica, narrativa e drama) quanto os gêneros, pensados como categorias historicamente situadas e apreendidas pela prática literária, como o romance, conto, tragédia, canção etc. O que podemos pensar, com a leitura sistemática da obra de Marcelino Freire, é que ela constrói uma espécie de subgênero narrativo, na medida em que apresenta opções temáticas específicas que criam reflexos nos tipos de estratégias narrativas adotadas. Há uma modalidade de narração recorrente na obra do autor, configurando um tipo de narrador que mimetiza uma espécie de diálogo imaginário, uma fala responsiva que cria um efeito de oralidade como uma mímica a dominar toda a diegese. Há um caráter performático nos contos, que cria uma persona narrativa que responde, com braveza, dor e ironia, a uma peleja imaginária, cujo emissor seria o mundo inclemente em que vivem os desvalidos.

IV – CARACTERÍSTICAS:

1. LINGUAGEM:

Marcelino Freire apresenta 16 narrativas (contos e crônicas) que procuram aproximar-se de uma linguagem coloquial, memorial e, às vezes, musical, baseada nas influências deixadas pela oralidade das ladainhas e canções nordestinas.

A oralidade pode ser considerada como um veio ancestral da narrativa, uma característica que marca, mais que a anterioridade histórica em relação à escrita, a memória que ficou de uma prática, presa à forma como uma determinação do gênero. Há algumas formas de pensar a oralidade. A primeira a que o termo costuma aludir remonta às formas ligadas à tradição oral, oriundas de emanações da linguagem, passadas de geração a geração sem a criação singular de um poeta.

Há o uso da oralidade como mimetização da linguagem falada inscrita na linguagem escrita, servindo a determinados fins: estratégia enunciativa, no caso dos diálogos no interior da narrativa; efeito do real, que o narrador busca atingir mimetizando as marcas pessoais dos personagens; efeito regional, quando os sotaques e as expressões singulares buscam ancorar a narrativa em determinado espaço e tempo; ou efeito coloquial, prosaico, programado para caracterizar as narrativas modernistas, por exemplo, entre outros. Há a concepção da oralidade como marca de leitura em voz alta, como uma partitura musical traz a determinação do andamento, da altura, da interpretação.

A obra toda de Marcelino Freire traduz uma opção pela oralidade em todas as acepções mencionadas acima. Como escolha e técnica enunciativa, a oralidade marca a cessão da voz narrativa, em discurso direto, aos personagens enfocados em cada conto, numa espécie de dramatização radical: a voz que narra é a mesma que sofre (em todos os sentidos) o narrado. Mesmo quando o narrador opta pela terceira pessoa, procurando um certo distanciamento do narrado, acaba por se render à focalização interna e misturar as vozes narrativas, numa clara adesão ao discurso do outro.

Os contos/resposta lembram, pelo tom encolerizado, a expressão que resulta de uma dolorida provocação. São expressões que, compostas dentro do suporte corpo, espalham indignação pelos espaços até onde a voz consegue ecoar. São passadas de boca em boca, de ouvido em ouvido, de corpo em corpo. Lembram, por isso, as expressões artísticas mais populares do Brasil como as cantorias, os repentes, os aboios, os cocos, os cordéis. 

2. A CAPA E TÍTULO:

A capa de Silvana Zandomeni e Marcelino Freire antecipa aos leitores o que virá. A foto de um homem preto, estampada na capa, lembra as fotos policiais, pela posição ereta e pelo sombreado. A posição do homem, nu, de costas, na capa da frente, e nu, de frente, na capa de trás, dá a ver a opção inicial da obra pelo avesso, pelo outro lado.

No entanto, o autor não parte do preconceito ao negro ou de sua realidade de exclusão para compor sua obra. Ela é composta pela experiência de exclusão de todos os “mortos-vivos” que perambulam pelas ruas dos grandes centros do país, independentemente da cor da pele.

3. EPÍGRAFE:

A epígrafe inicial, paródia de Ary Barroso (“Brasil do meu amor/ terra de nosso sinhô”), bem como a dedicatória (“Para Chocottone”) também evocam a imagem do negro, que será co(a)ntada em extensão e andamento em prosas poéticas repletas de ritmo e rimas.

4. DRAMATIZAÇÃO:

Este parece ser o objetivo da maioria dos contos: uma fala dramatizada que supõe a presença de um leitor “coator e coautor” do conhecimento que se cria da/na linguagem. E uma fala que se oferece à performance, quase como uma fala dramatúrgica à espera da interpretação do ator.

O tom de pergunta e resposta, presente em quase toda a obra, lembra muito as pelejas populares, o desafio que caracteriza a maior parte das formas advindas da oralidade.

A obra de Marcelino Freire guarda a memória de um desafio como molde cultural de percepção e interpretação da realidade, e o faz respondendo pelo lado do outro, não mais dominado e fraco, mas como uma personagem que argumenta e se defende, expondo a sua voz e as suas razões. Sua criação literária passa pela valorização da memória, oriunda das heranças culturais – a cultura popular nordestina – e a percepção de um tempo presente. Assim, nos contos estão presentes traços marcantes da literatura contemporânea e características da oralidade, que talvez existam pela proximidade que Freire tem com o teatro, e uma cópia perfeita e bem estudada em sua escrita do meio social do qual retrata. Tais aspectos proporcionam ao leitor não somente as emoções esperadas ao ler qualquer outro livro de nossa literatura, mas surpreendem porque põem em pauta a pura e bruta realidade de nossa sociedade. Marcelino Freire veste, no seu fazer literário, vozes que não são suas, mas que mostram a revolta, pulsação e dureza de um povo. Por isso o leitor, ao ler seus contos, sente-se como se estivesse ouvindo vozes que gritam, que têm vidas e que sofrem.

5. O FOCO NARRATIVO:

Segundo Antônio Candido (1987), o escritor de contos “agride o leitor pela violência, não apenas dos temas, mas dos recursos técnicos — fundindo ser e ato na eficácia de uma fala magistral em primeira pessoa, propondo soluções alternativas na sequência da narração, avançando as fronteiras da literatura no rumo duma espécie de notícia crua da vida”. Freire, assim, capta para o seu discurso uma voz que não é sua, mas que consegue transmitir, com menos ou mais intensidade, a violência que é sentida pelo outro. As vozes de seus contos, oriundas de outros espaços sociais, normalmente são de negros que não acreditam na liberdade que muito foi discutida após a escravidão. Também, em boa parte de seus fragmentos, as personagens, na maioria deles, a voz em primeira pessoa, não aceitam os papéis e os destinos reservados a elas pela bruta realidade.

Nos contos de Marcelino Freire, podemos notar que as narrativas são construídas a partir de um foco realista e muitas vezes absurdo se visto pelo viés moralista, mas que não deixam de estar em correspondência ao absurdo diário que os jornais muitas vezes registram. A narração em primeira pessoa na maioria dos contos deixa transparecer um tom de denúncia social que mostra nitidamente (como é o caso dos escritores que se filiam ao Movimento Marginal atual) a preocupação em dar voz às personagens indesejadas da sociedade, respeitando a oralidade da fala das personagens reais dos quais buscam inspiração.

V - TEMÁTICA:

Não é necessário um olhar minucioso para encontrar na literatura brasileira contemporânea exemplos de obras que tenham como temas a violência e a marginalidade social. Histórias ficcionais permeadas pelas diferentes formas de violência – seja a violência ética, a moral, ou a física – são numerosas e, ainda que muitas destas histórias tangenciem o absurdo, elas não perdem o contato com o que sabemos ser real e possível em uma sociedade marcada sobretudo por grande desigualdade econômica. Estas narrativas refletem a desorientação e a insegurança de nosso tempo. Parte da produção literária contemporânea, tenta expurgar estes sentimentos, ainda que, paradoxalmente, tente fazer isso pela representação da violência e do testemunho de experiência dos marginalizados. A chamada Nova Literatura Marginal toma esta tarefa com especial atenção, buscando afastar-se da estetização gratuita da violência e do excluído social.

Na obra Contos Negreiros, Marcelino Freire aborda temas delicados e polêmicos como racismo, turismo sexual, tráfico de órgãos e homossexualismo. Através da apresentação das personagens afrodescendentes na obra de Freire notamos que o passado ainda vive nos dias atuais. O Brasil Colônia e sua escravidão ainda estão presentes em nossa sociedade e contribuem veementemente para a violência e marginalização.

Com o grande aparecimento de escritores contemporâneos que surgiram para dar voz a si mesmos e aos outros os discursos periféricos têm sido reescritos para uma nova literatura que busca a todo instante desconstruir preconceitos e sensibilizar o olhar do leitor para com o outro. Percorrendo esse caminho, Freire nos mostra que toda tipificação negra carrega em si outros subtipos que também sofrem violência.

O autor aborda, na grande maioria de seus contos, o tema do preconceito racial. A violência é demarcada pela perspectiva dos marginalizados em “Linha do Tiro”, “Esquece” e “Polícia e Ladrão”, sendo que o primeiro se opõe aos últimos por sua leveza e seu humor. A homossexualidade é tema de “Coração” e “Meus amigos coloridos”, sendo mais evidente no primeiro do que no segundo. Em “Totonha”, uma senhora discursa sobre os motivos de não querer aprender a escrever: não é mais moça, não tem importância alguma, não quer baixar a cabeça para imprimir seu nome em um pedaço de papel. Totonha argumenta: “O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba? ” (p.79).

VI - ESPAÇO:

A paisagem urbana é o cenário principal de seus cantos (contos). Algumas paisagens de importantes centros urbanos, como Recife e São Paulo, como as zonas de prostituição, morros, favelas e pontos turísticos, tornam-se palcos para a exposição de uma realidade complexa e miserável, vivida por prostitutas, “bichas”, negros, índios, além de abrigar traficantes de órgãos e de drogas, e turistas sexuais.

As metrópoles, desde o período moderno, surgem como centros para a formação cultural, intelectual e profissional do homem que, então, através do trabalho, gera o progresso. No entanto, elas tornaram-se também o cenário mais comum dos processos ilícitos construídos pela humanidade: tráfico, sequestro, violência, roubos. O autor abriga seus personagens dentro das zonas mais inóspitas da cidade, mas sem deixar de produzir um fascínio nos próprios personagens (e nele mesmo). O testemunho representa as experiências de um coletivo que as torna, sobretudo, comunicáveis. Algo que, embora possa virar notícia, não torna a experiência uma mensagem a ser legitimada.

VII - PERSONAGENS:

As experiências ocorridas no dia-a-dia das metrópoles brasileiras apresentam testemunhos de sujeitos que estão à margem da sociedade contemporânea. Sujeitos sem voz, sem espaços para o testemunho, vistos quase como objetos ou tratados como objetos pela mídia e por toda sociedade. A narração de uma experiência guarda algo da intensidade do vivido, seja por aqueles que narram sua própria experiência ou por aqueles narradores observadores que narram a experiência do outro.


quinta-feira, 5 de março de 2026

OS CUS DE JUDAS, ANTÓNIO LOBO ANTUNES



I – AUTOR:


   António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942, na chamada Zona de Benfica. Cursou Medicina e especializou-se em Psiquiatria, por esta apresentar semelhanças com a Literatura (temia cursar Letras e tornar-se um professor).

   Serviu como médico durante a Guerra Colonial em Angola (1961-1974). Ao retornar a Portugal, passou a clinicar em vários lugares para sua sobrevivência e paralelamente, escrevia para o seu prazer.

   Sua estréia data de 1979 com a publicação de “Memória de Elefante” e a partir de 1985, dedicou-se exclusivamente à Literatura.

   Seu nome foi indicado várias vezes para o Prêmio Nobel da Literatura e considerado um dos escritores portugueses mais traduzidos, em especial nos países do norte da Europa.

   Em 1987, conquistou o Prêmio Franco-Português com a obra “Os cus de Judas”.

   Viveu dois casamentos dos quais teve 3 filhas. Lobo Antunes vive em Lisboa, mas não dá entrevistas para a imprensa portuguesa e seus livros são publicados em outros idiomas, exceto em português. É em Paris, que se encontra seu editor oficial.

   Considerado um autor cíclico no plano temático, pois suas obras andam em círculos (abordam o mesmo tema), enfoca principalmente:

-          A Guerra Colonial de Angola;

-          O caráter problemático do ser humano (seus medos, sua mediocridade, seus desejos frustrados) geralmente por uma educação enganosa, promovida pela sociedade portuguesa;

-          A morte, a solidão e

-          A crítica social-política.

Faleceu em 05 de março de 2026.

II – ESCOLA LITERÁRIA:

António Lobo Antunes representa a Geração de Abril, estilo literário que sucede os autores que vêm dos anos de 1950 e que tem como mérito ser mentora intelectual da Revolução Portuguesa que fez do dia 25 de abril, um marco da libertação de 46 anos de ditadura em Portugal.

III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

-          Golpe militar que encerra a chamada Primeira República em Portugal (28 de maio de 1926);

-          Inicio da Ditadura Militar (até 1928 os militares ocuparam o poder);

-          Abril de 1928 – eleições presidenciais (Óscar Carmona apresentou-se como único candidato);

-          Carmona tornar-se Presidente e António de Oliveira Salazar, responsável pelas finanças;

-          Salazar exigiu o controle absoluto das despesas de todos os ministérios (equilibrou o orçamento de Estado, estabilizou a moeda e reduziu a dívida externa);

-          Em 1931, Salazar chega à chefia do Governo;

-          Em 1933, com a aprovação da Constituição, institucionalizou-se o Estado Novo;

-          A autoridade de Salazar foi sempre incontestável, sendo o seu poder sempre superior ao do Presidente da República;

-          Com características semelhantes ao Fascismo foram criados: a União Nacional (Partido Político Oficial), alterando o nome para Ação Nacional Popular, quando Marcelo Caetano substituiu Salazar; a PVE (polícia política poderosa e violenta), que em 1945 tornou-se a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), passando a se chamar DGS (Direção Geral de Segurança) no governo de Marcelo Caetano;

-          No plano internacional, dominava uma política radicalmente nacionalista, marcada pelo lema “Estamos orgulhosamente sós” e pela defesa intransigente do colonialismo português, sob o argumento de que Portugal era “um Estado pluricontinental e multirracial”;

-          Em 1961, sofrendo pressões internacionais para o país conceder a Independência às suas colônias, inicia-se a Guerra Colonial;

-          Em 1968, Salazar afasta-se do governo por motivo de doença (morre em Lisboa, 27 de julho de 1970) e é substituído por Marcello Caetano;

-          A Primavera Marcellista prometia aos mais conservadores a continuidade dos trabalhos e aos mais liberais, a esperança de renovação;

-          Em 25 de abril de 1974 com o fim do Estado Novo, Marcello Caetano seguiu para o exílio no Brasil (faleceu em 1980).


GUERRA COLONIAL:


   Após a II Guerra Mundial, todos os países europeus foram concedendo a independência aos seus territórios na Ásia e na África. Portugal insistia em manter sob seu controle o que restava de seu antigo império: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, o chamado “Estado da Índia” (constituído por Goa, Damão e Diu), Macau e Timor.


   Portugal nunca aceitou a descolonização (interesses econômicos e a propaganda da grandeza do país).

   Em 1955, Portugal entra para a ONU e é orientado para que libertasse suas colônias. Porém, o regime declarou as colônias “províncias ultramarinas” e concedeu a cidadania aos seus habitantes, causando certo descontentamento na ONU.

   Em 1961, após uma guerra, Goa, Damão e Diu são as primeiras colônias a se libertarem.

   Em 1961, o MPLA (movimento Popular pela Libertação de Angola) inicia uma rebelião em Luanda; a UPA (União das Populações de Angola), posteriormente denominada FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), inicia violentos ataques no norte da colônia e depois de alguns anos, a UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola), começa uma luta de guerrilhas.

   Salazar posicionará perante essas rebeliões com o lema: “Para Angola, imediatamente e em força”.

   A Guerra de África só terá solução após as mudanças ocorridas em 1974, por meios políticos e diplomáticos.

   Em Angola (país no qual o narrador de “Os cus de Judas” serviu ao exército português por 27 meses), a diplomacia teve problemas de ordem interna e internacional e teve que negociar com os três movimentos presentes no território angolano: MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola) e FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola).

   A independência foi proclamada em 11 de novembro de 1975, porém seguiu-se uma guerra civil até 1995.

   O MPLA foi constituído entre os anos 50 e 60 e agrupava as principais figuras do nacionalismo angolano e com a direção de Antonio Agostinho Neto, dirigiam a luta armada contra o colonialismo português.

   Com ideologia marxista-leninista, o MPLA após a luta de libertação, iniciou uma luta interna contra as tendências da FNLA e da UNITA e governou Angola como partido único até 1991

   Em 1992 venceu as primeiras eleições, embora essa vitória não tenha sido aceita e o país tenha voltado à guerra.

   O MPLA possuía propensão entre a social democracia e o socialismo e ainda representava a maior força política em Angola.

   Desde 1997, Angola caminha para a reconciliação interna, presidido por um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional.

   O narrador de “Os cus de Judas” tratava dos feridos que lutavam contra o MPLA.



IV – FOCO NARRATIVO:

Narrado em primeira pessoa do singular, um narrador-personagem reproduz a sua história (seu passado, seu presente) de forma fragmentada a uma interlocutora (uma mulher) silenciosa e sem qualquer participação narrativa.

V – TEMPO:

Cronológico: horas passadas no bar e no apartamento do narrador e os 27 meses em que o narrador esteve na África, narrada depois de 8 anos passados.

Psicológico: as memórias da guerra e da infância.

VI – ESPAÇO:

Angola, na África e as várias cidades, vilas e regiões mencionadas pelo narrador e retratadas e, Lisboa, Portugal, no apartamento do narrador. São citados vários lugares de Portugal, bairros e ruas de Lisboa.

VII – LINGUAGEM:

-          Ironia, caricatura e humor negro;

-          Introspectiva;

-          Estrangeirismos (barbarismos);

-          Imagens surrealistas;

-          Figuras de linguagem em excesso;

-          Termos de baixo calão;

-          Períodos longos;

-          Rebuscamento estilístico

-          Experimentalismo.

VIII – PERSONAGENS:

-          NARRADOR-PERSONAGEM:

-        Homem por volta dos quarenta anos de idade que no momento da narração servia no exército português como alferes-médico. Quando adolescente vivia perseguido por conflitos íntimos e traumas, que sempre vinha à tona em suas lembranças marcantes do passado (tias, fotografias de velhas senhoras, de generais, bombeiros, o Jardim Zoológico) e, principalmente, quando se apresentou à tropa para “tornar-se homem” - recomendação de suas tias.

Casado e pai de mais de uma filha (referência no plural durante a narrativa), teve sua formação interrompida depois de ter passado 27 anos em Angola, em plena Guerra Colonial.

A guerra causou-lhe desequilíbrio emocional, transformando-o num indivíduo fragilizado, desorientado, viciado e inadaptado.

O narrador perde sua família, sente-se um estrangeiro nos tempos de guerra e em seu próprio país. Seus únicos consolos para fugir dos “cheiros da guerra” são o álcool e os encontros passageiros com mulheres.

A história do narrador confunde-se com a do próprio autor, dando um caráter confessional e autobiográfico na obra.

-          INTERLOCUTORA:

Pouco se sabe sobre a mulher que o acompanha no bar e depois em seu apartamento. Sempre calada, sua “fala” não se concretiza, manifestando-se apenas implicitamente. Não é jovem, tem cabelos encaracolados, magra e belos seios.

-          TIAS:

Senhoras idosas, moradoras em casas que cheiram a fechado, com mobília antiga, incentivaram o narrador a se tornar homem através da guerra e depois concluíram que nem a guerra o corrigiu.

 -          GENERAL MACHADO:

Bisavô do narrador-personagem. Responsável por abrir a trilha na qual o bisneto passará. Apresentado por uma fotografia ameaçadora representa o tradicionalismo e o conservadorismo português.

-          TENENTE:

Companheiro de guerra do narrador-personagem confidenciava-lhe sobre o caso que mantinha com a criada em Lisboa.

Ficou abatido quando recebeu uma carta de sua esposa, comunicando a dispensa da criada. Vivia pedindo ao médico que lhe arranjasse uma doença para livrá-lo da guerra.

 -          ENFERMEIRO:

Personagem de palavras de baixo calão auxiliava o médico, porém tinha horror a sangue.

-          EX-MULHER E AS FILHAS:

Conheceu-a em Tomar e casou-se quatro meses antes de partir para a guerra. Não acompanhou o nascimento da primeira filha e agora, separado de sua esposa, vê quinzenalmente as filhas com as quais tem um relacionamento frívolo.

-          SOBA:

Um dos líderes do povo angolano. Representa a destruição da guerra. De líder, foi rebaixado a costureiro da tropa e quando a máquina chegou, sentia-se um inútil.

-    SOFIA:

Jovem lavadeira angolana que o narrador se relacionou. Foi levada pela PIDE, depois de ter sido estuprada pela tropa.

-          ISABEL:

Jovem amante do narrador-personagem e de personalidade forte e determinada serviu-lhe de ponto de apoio e abandonou-o por não aguentar o seu mau humor.

 HOSPEDEIRA (entregava o bilhete de vôo de retorno a Lisboa e teve uma noite de sexo frustrado com o narrador-personagem); FURRIEL (soldado que pede para ser abandonado em plena mata, representa o cansaço e o desânimo dos que lutavam); AGENTE DE PIDE (o narrador-personagem o costurou sem anestesia quando se rasgou no vaso sanitário); SOLDADO DE MANGANDO (suicidou-se dando um tiro na garganta); JONATÃO (enfermeiro negro da delegação de saúde nominal), entre outros.

IX – TEMÁTICA:

-          Violência e o sem sentido da guerra;

-          Medo e solidão;

-          Neurose de guerra;

-          Sexo;

-          Alcoolismo;

-          Influência familiar;

-          Perda dos sonhos e do idealismo;

-          Dificuldade de relacionamento.

X – RESUMO DA OBRA:

CAPÍTULO A

Através de um monólogo e tendo em companhia uma interlocutora não identificada, o narrador-personagem, em primeira pessoa, inicia o seu relato rememorando retrospectivamente, os passeios de domingos ao zoológico com os irmãos e o pai, quando criança.

 O que mais lembro da infância é o Jardim Zoológico: o rinque de patinação e o professor preto rodeado de alunas, que eu avistava maravilhado do restaurante do Jardim.”

Ele descreve as impressões e sensações através de um ritmo fluente, linguagem metafórica e sugestões surrealistas a estranheza que os bichos e os frequentadores do zoológico lhe causavam. Lembra-se, em seguida, de sua família: a casa em que cresceu; a asma do pai; a mulher dos amendoins que morava debaixo da varanda da casa dos pais e desabafava com sua avó as bebedeiras de seu marido; a cama da mãe; o retrato de um tio bombeiro; a janela do quarto dos irmãos e as tias, senhoras idosas “se movendo em arrancos pelo chão coberto de tapetes dos apartamentos cheirando a fechado, a gripe e a biscoito”.

   Recorda-se das reuniões familiares e das tias que “diziam-me que era muito magro, apontavam velhas fotografias de generais furibundos nas paredes e profetizavam pela infância e adolescência afora dos sobrinhos: felizmente que a tropa há de torná-lo um homem”, enquanto que os tios beliscavam as nádegas da criada.

   A descrição do seu cotidiano revela uma hipocrisia, onde família, religião e governo são as bases de sustentação para a educação e o “bom viver” dentro de uma sociedade.

   O narrador-personagem misturando cenas carregadas de expressionismo passa, então, narrar o seu embarque para Angola com as tropas portuguesas, defendendo a política de Salazar, contra o Socialismo e a Democracia; sentindo-se um idiota-patriota, mas, que para o povo, era um herói (um homem!) como médico militar e a família presente na despedida, felizes e acreditando que, o Governo finalmente, o faria homem.

 


   “Vivíamos todos sob as bênçãos de Salazar, da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, com a função de reprimir e precaver a criminalidade. Porém, semelhando ao fascismo, repreendia, censurava e torturava) e da Igreja

   O protagonista relembra-se de um quadro “representando os uivos do povo diante de uma guilhotina” e relaciona-o como visse a sua própria morte.

CAPÍTULO B

O narrador-personagem relata a preparação para sua partida e contato com o ambiente militar (masturbação, horários, farda, cabelos raspados) e “a metamorfose da larva civil a caminho do guerreiro perfeito”. Em seguida, critica a presença das senhoras do “Movimento Nacional Feminino”, senhoras oriundas de famílias tradicionalistas que entregavam “santinhos” de Nossa Senhora de Fátima e porta-chaves com o retrato de Salazar, ameaçando as pessoas com a lembrança da PIDE, do Inferno, rezando Padre-Nossos nacionalistas, distribuindo cigarros e apertos de mãos com grande entusiasmo na partida dos soldados.

   “No navio, senti Lisboa afastar-se de mim, o sem-sentido daquilo tudo e o peso da solidão”.

Os boleros para os oficiais e o cheiro de vômito que vinha dos porões, onde estavam os soldados, faz lembrar seus vômitos de menino acompanhado pelo coro familiar de “Papagaio Loiro”, que cantavam para fazê-lo comer. No dia seguinte, chegam à Madeira – Alenquer, trocando o inverno de Lisboa pelo verão do Equador.

CAPÍTULO C


   Chegam á Luanda, capital de Angola, ilha de pobreza (esgotos ao pé da cidade, cães vomitando lixo, latas vazias de conservas, água com aspecto de creme solar turvo), prostitutas e calor.

   A descrição de Luanda com sua miséria, crianças famintas leva o narrador o refletir sobre a condição humana e buscar na bebida e no sexo barato uma forma de evasão, além da ironia que, “de fato, e consoante as profecias da família, tornara-me um homem.”

O narrador-personagem, então, sugere que deviam erguer um monumento ao escarro.

O navio vinha cheio de caixões de defunto e a distração era adivinhar quem os ocuparia primeiro.

O narrador-personagem convida a interlocutora a continuarem a beber, chama o garçom, dá-lhe uma gorjeta magra e de uma forma animalesca, convida-a fazerem amor mais tarde.

O navio que o trouxera até Luanda estava de partida e a certeza que Lisboa ficara para trás, causava medo e desejo intenso de viver.

CAPÍTULO D

   O narrador confessa ser terno, ter medo do ridículo, ser simpatizante da classe trabalhadora e contra a burguesia. Afirma que no período em que esteve em Angola tinha muito cabelo, embora aparado militarmente e agora, gostaria de esconder sua calvície em um chapéu tirolês.

   Narra sua viagem de Luanda a Nova Lisboa, deixando para trás o cotidiano que já não lhe pertencia e acrescenta que jantava em restaurantes mantendo a espingarda entre os joelhos e sendo vigiado por olhares de negros de óculos escuros.

   Volta a fazer digressões sobre sua infância, sua educação e dos limites a ele impostos (censura do canto nono de “Os Lusíadas”).

    Seguem de trem para um vilarejo chamado Luso, e lá, recorda-se de seu bisavô, o General Machado, impondo sua valentia e heroísmo. Ele ajudara construir aquela estrada de ferro, por onde agora passava e, no entanto, ninguém o conhecia, mas sua família fazia questão de exaltar suas façanhas como uma epopéia.

   No Luso, veria pela última vez resquícios de seu mundo e o desespero tomava conta de todos.

   “Seis anos atrás, eu descia do Luso para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilômetros de Luanda (...) inicie a dolorosa aprendizagem da agonia.”

CAPÍTULO E

   Gago Coutinho ficava a 300 quilômetros ao sul de Luso e junto à fronteira com a Zâmbia.  O narrador afirma que o local era “terra vermelha poeirenta entre duas chanas (planícies savânicas das regiões orientais e centrais de Angola) podres, um quartel, quimbos (pequenas povoações rurais) chefiados por sobas (chefes de tribos africanas), o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos...”

   Uma vez por semana, o narrador com a ajuda de um enfermeiro negro, o Jonatão, distribuía remédios aos doentes e feridos, que pareciam desenterrados vivos, mesmo sabendo que esses medicamentos eram inúteis para evitar-lhes a morte. Os doentes são descritos de forma caricatural e expressionista.

   Mete Lenha, proprietário do café local, o refúgio das tardes de domingo, era casado com uma mulher muito gorda, de “nádegas atlânticas”. Lá, o tenente confessou ao narrador seu relacionamento amoroso com sua criada e a necessidade de fazer sexo constante com ela para que adquirisse amor pela casa.

   Descreve em seguida, o hospital civil: local sinistro e sem recursos.

Os negros doentes, sem terra, sobrevivendo de esmolas e aterrorizados pela PIDE, fugiam para á mata, eram mortos ou ajuntavam-se ao MPLA, “o inimigo invisível que estraçalhava os nossos soldados”.

   Em pleno desespero, o narrador questiona-se: “são os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia...”   

À noite, enquanto os oficiais praticavam sexo barato (cartuchos de hortelã, pimenta), ouvia-se na viola uma cantiga: “o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo”.

Às vezes, apareciam algumas visitas: oficiais do Estado-Maior, senhoras quinquagenárias sul-africanas, duas atrizes de revista. O narrador comenta que ficou sabendo que na Baixa do Cassanje os negros eram obrigados a cavar um buraco na mata, deitar-se nele e esperar o tiro na cabeça.

O narrador elogia o silêncio e a imobilidade da interlocutora.

CAPÍTULO F

  O narrador elogia os efeitos do álcool que “confunde os tempos, abole as distâncias e nos permite ser qualquer um”, depois cita artistas famosos que tiveram experiências negativas com o álcool (Fernando Pessoa; Ava Gardener, atriz americana; Scott Fitzgerald, escritor americano; Malcom Lowry, escritor inglês) e compara a liturgia da bebida com a da igreja.

   Volta ao passado em Angola, “(...) e agora nos Cus de Judas – o médico competente e responsável que desejavam que eu fosse consertando a linha e agulha os heróicos defensores do império.”

   Em seguida, lembra-se de sua família em Lisboa: o pai se barbeando no espelho e sua esposa esperando um filho que ele não veria nascer. Lamenta-se não ter demonstrado carinho por eles e de não ter sido a pessoa idealizada pela sua família para servir de exemplo aos netos indiferentes. 

CAPÍTULO G


Em Ninda, os alojamentos eram precários; havia falta de alimentos; a água estava contaminada; doentes arrastavam e a atmosfera lembrava a um hospital psiquiátrico de Lisboa.

O narrador relata que em pleno combate, protegeu-se num buraco, viu a morte chegar e pensou em sua esposa. Ela, que ele amara em Tomar e que hoje envelhecida, continuava ter a mesma beleza que quando a conhecera; sofreu pelo filho que estava por nascer e nos romances que tinha para escrever.

À noite, jogava xadrez com o capitão e falavam sobre líderes socialistas, que com certeza, deixariam chocados seus familiares. Depois, refletiam sobre o que restará deles quando a guerra terminar e como se adaptaram à vida civilizada. Questiona, em seguida, como a interlocutora dormia: será como uma artista decadente do cinema americano, com venda negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas?

Retoma a refletir sobre a sua vida: suas filhas cresciam em casas que não recordaria e nas mulheres que encontrou e abandonou ou foi abandonado por elas e concluiu que, é “um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera...” 

Reflete sobre o “que fizeram do meu povo, o que fizeram de nós” e “em que a guerra o transformou?

CAPÍTULO H

O narrador-personagem pede à interlocutora a mesma atenção que os soldados ouviam os apelos do rádio e narra-lhe o seu primeiro morto que presenciou.

Ele tinha esperança que o ferido ainda respirasse. Embrulhou-o num cobertor, colocou-o em seu próprio quarto e recomendou-lhe que dormisse bem a sesta. O morto, depois, foi levado por um helicóptero a Gago Coutinho.

A verdadeira intenção era esconder o lixo vergonhoso da guerra, enquanto que, no rádio anunciava:

   ”Morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África”.

   Era abril de 1971, em Ninda. Os feridos gemiam e eram acompanhados pelos dizeres do enfermeiro: caralho, a única palavra que vinha à sua boca diante do ódio e do desespero em relação à guerra.

   O narrador lembra-se que, em 1961, era estudante revolucionário e fugiu da polícia e da PIDE, que perseguia os movimentos estudantis nas faculdades. E, que em 06 de janeiro de 1971, ao embarcar para Angola, chorou no banheiro.

   Os fatos vão se misturando na mente do narrador e de forma não linear, narra a ditadura de Portugal, os mortos da guerra, o momento que o Hospital Militar de Tomar lhe deu a notícia do seu recrutamento, a companhia da ouvinte, do capitão, a perda da perna de um soldado, as coxas do outro...

CAPÍTULO I

    O narrador desabafa com a interlocutora que gostaria de acreditar que tudo o que passou fosse só um romance de mau gosto; que a história que está contando, era só para comovê-la e convencê-la a dormirem juntos, ou melhor, passarem a noite juntos, pois dormir a muito tempo não conseguia.

   Narra-lhe que em 22 de junho de 1971, no Chiúme, o último dos cus de Judas do Leste, foi encaminhado a uma sala cheia de fotos de mulheres nuas que servia para a masturbação da sesta, e lá, recebeu a notícia do nascimento de sua filha.

   Ele havia casado quatro meses antes de embarcar e essa filha era a esperança da redimissão dos seus erros.

   No entanto, encontrava-se no Chiúme; enquanto que as senhoras do Movimento Feminino pensavam nos soldados, embaixo dos secadores de cabelo; os patriotas da União Nacional compravam roupas íntimas para as secretárias; a Mocidade Portuguesa preparava heróis que os substituam; os homens de negócios fabricavam material de guerra a preço módico, o Governo, pagava pensões miseráveis às mulheres dos soldados e eles, mal-agradecidos morrendo!

    “No Chiúme só a mão do alferes Eleutério pousada sem palavras sobre o meu ombro fazia-me sentir acompanhado.”

 CAPÍTULO J

Três horas da manhã, o narrador propõe pagar a conta, para representar o jovem tecnocrata ideal português e depois, volta às suas lembranças da guerra. Explica sobre o oficial catanguês,  antiga província da República do Congo, hóspedes de luxo trazidos pela PIDE com a missão de aterrorizar os guerrilheiros. Era a tropa mais indisciplinada e violenta da guerra. Usavam as mulheres do soba com a mesma naturalidade que usava a escova de dentes do narrador. Conta que o tenente foi reprimido por esses oficiais e chegou a implorar que o narrador lhe diagnostica-se uma doença qualquer, para ir para a reserva; pois, não aguentava mais àquela situação, principalmente, agora, que recebera uma carta de sua esposa, contando-lhe a demissão da sua criada.

Depois de 11 meses, sem conforto; sem um corpo, sem amor, só masturbação, sem conhecer sua filha e já se esquecendo da fisionomia de seus amigos; partiu para Luanda.

Em Luanda é assediado por uma hospedeira. A seguir, toma o avião com destino a Lisboa, de férias.

CAPÍTULO L

   O narrador divaga com a interlocutora sobre como seria envelhecerem juntos, “eu, você e a televisão, a santíssima trindade do lar.

    Fala sobre a sua chegada em Portugal e a revista de um funcionário da alfândega que desconfiado, fiscaliza sua bagagem à procura de metralhadoras.

 

 “(...) Trago um feto de 8 meses.”

 “– Vocês vêm de Angola convencidos que são uns grandes homens, mas isto aqui não é o mato, sua tropa”.

 “– Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.”

 

    Depois, segue a curiosidade do burocrata idoso, perguntando-lhe se o feto estava num frasco; a piedade de uma senhora comentando que todos voltavam assim da África e a indiscrição dos olhares, como se olhassem os aleijados que rastejam de muletas nas cercanias do Hospital Militar, fabricados pelo Estado Novo.

   No táxi tenta reconhecer sua cidade:

“– Merda de país de merda!”

   Ao chegar ao seu lar depara-se com “uma mulher na cama e uma criança no berço e ele parado ecoando os sons da guerra. Ao tocar em sua esposa, ouvia as frases do tenente:

- Pôr selo na patroa!

E no Luso, sentia fazer amor por todos: os capitães, os sargentos, o Ferreira sem perna...”

   Volta a falar com a ouvinte, dizendo que um dia lhe mostraria a foto de sua filha, “àquela que não vi inchar na barriga da mãe”.

   Estava de licença por apenas alguns dias. Então, de novo a partida e imagem da esposa calada encostada a uma coluna.

CAPÍTULO M

   O narrador diz-lhe que vive sozinho e que recebe quinzenalmente a visita de suas filhas. Há, também, uma cabo-verdiana que ele se comunica através de bilhetes e que cuida da arrumação da casa e da roupa. Acrescenta que o próprio varal de sua casa, só ostentando roupas masculinas, denuncia a sua solidão.

   Referindo-se aos “seus amores”, explica-lhe que são encontros passageiros, “que sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que já conheço de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidê, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna.”

   Depois da higiene feita às pressas num bidê, resta um beijo sem batom e a trocas de telefones que ficaram esquecidos.

    O narrador, em seguida, questiona como é o cotidiano da ouvinte e de maneira fria, diz que prefere ir para a sua casa, por não gostar de cheiro de incenso, que provavelmente deva ter na casa dela.

   Continua o relato do seu retorno à Luanda e completa dizendo que, depois de jantar sozinho num restaurante, foi procurar a hospedeira que conheceu antes de sua partida.

   A casa cheirava roupa para lavar e comida enlatada de animais. O sorriso da moça era carnívoro, o cão não parava de arranhar a porta da cozinha e por mais que a hospedeira tentou excitá-lo, ele não teve reação, “rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar”.

CAPÍTULO N

Na volta ao Chiúme, o narrador comenta que ninguém estranhou a sua volta, sequer o notaram.     Todos treinados para morrerem sem protestos, serem cobertos com a Bandeira Nacional e enviados para a Europa nos porões dos navios com suas medalhas. Jogados numa guerra, com discursos heróicos, vigiados pela PIDE e condenados a ler nos jornais somente louvores ao Estado Novo, enquanto o MPLA deixava mensagens: “Deserta, mas para onde se só havia areia em volta. Lutávamos contra nós mesmos.”

   Os coronéis exigiam resultados, gritando que “ganharíamos a guerra”.

   As viaturas eram poucas, de modo que os homens iam à frente procurando minas a fim de poupar o veículo:

   “Um filho faz-se em cinco minutos e de graça...uma viatura demora semanas ou meses...”

   “Mas, porque os filhos dos seus ministros não estão aqui como a gente?”

   Na volta de um combate sentem a falta de um dos homens: era o furriel. Ele estava sentado a um canto e dizia: “estou farto desta guerra que nem a tiro vou sair daqui.”

   “Prezado Salazar se você estivesse vivo e aqui, enfiava-lhe uma granada sem cavilha pela peida acima...”

    E, mandávamos cartas dizendo que estávamos bem, vivos e que até havíamos engordado.

CAPÍTULO O

   O narrador relata o final de seu casamento: “numa paz feita de alívio, despedindo-se no elevador como dois estranhos e trocando um último beijo”. Depois, passou vagando por um ano de cama em cama, procurando companhia e frequentando o cinema solitário de madrugada.

   Lembra-se do natal de 1971, em Chiúme: estava só, sem ninguém da família e recorda-se da casa do avô. Começa a delirar, confunde-se com o ferido que volta de uma operação na mata e sente que está aplicando a seringa de adrenalina por ele mesmo no seu próprio coração.

CAPÍTULO P  

“Não bebi demais, mas engano-me sempre na chave, talvez por dificuldade em aceitar que é este prédio...”

   Ele desabafa à ouvinte que se sentia como se nunca estivesse exatamente onde parecia estar; fala sobre seus medos e que às vezes, ao entrar em sua casa teme ter outra família em seu lugar.

Revela que um dia recebeu um telefonema por engano e teve a sensação que ele era um estranho em sua própria casa.

   Lembra-se de que à medida que os filhos partiam, sua mãe transformava seus quartos em salas.

   Retorna a falar sobre Angola e diz que “o batalhão se deslocou ao norte, às Terras do Fim do Mundo, onde havia extrema miséria, governadas por chefes de postos alcoólicos...reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.”

   O narrador apresenta o seu apartamento à interlocutora, cheio de pias batismais, poucos móveis e sem vista para o mar, “estou a salvo de partir naquelas aventuras interiores para a Índia de um sonho”.

   Oferece um brinde ao futuro e pelo coma.

   Recorda-se que os soldados tiraram retrato com a coxa amputada de um guerrilheiro do MPLA, como se fosse um troféu de guerra.

   Seguiram, em seguida, em direção a Malanje e ao chegarem à base portuguesa, foram proibidos de dormir na cidade, para que não expusessem suas doenças aos oficiais ali instalados.

CAPÍTULO Q

   O apartamento do narrador era praticamente sem mobílias dando espaço aos sonhos e causando à sensação de provisório, “que me permite adiar indefinidamente o presente”.

   Das janelas observa operários que trabalham arduamente desde cedo e chega a sentir inveja dos seus horários e de sua vida. Ele, ao contrário deles, só sairá de seu apartamento à noite em busca de bares.

   Essa vida, embora, parece ser fácil possui desvantagens: os amigos afastam-se, a família recua, os colegas de profissão comentam sobre sua incompetência e os pacientes desconfiam de suas olheiras e seu cheiro de álcool.

   Durante um ano, o narrador afirma que morreu diariamente não a morte da guerra, mas a agonia da espera de voltar para a família, o hospital, cinema, amigos...e hoje, às vezes acorda com uma mulher que conheceu há algumas horas antes, num bar.

   Conta que viveu durante um ano em Marimba, onde prisioneiros eram trazidos pelos jipes da PIDE para cavar sua própria sepultura.

   O narrador confessa que um dia pode vingar-se do oficial responsável por essa barbárie, costurando sua nádega rasgada num vaso sanitário, sem anestesia.

    Passado algum tempo, substituíam os líderes mais respeitados pelos mais obedientes e o soba, na senzala, ridicularizado por se dobrar àquele governo, vagava com um doente mental.

CAPÍTULO R

   O narrador enquanto espera a manhã chegar, propõe fazerem amor.

   “Essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis.”

   Diz-lhe que já viveram demais e não correm o risco de se apaixonar; mesmo porque, seria uma maçada: ciúmes, saudades, dividir o mesmo lençol...

   Retorna a descrever a guerra e das ocasiões em que entrava nas senzalas a distribuir remédios e era recebido com os insultos dos negros expulsando-o de lá e alegando que “não precisamos de vocês para nada, porque não era a eles que eu tratava, era à mão-de-obra barata para os fazendeiros brancos.”

CAPÍTULO S


   Diante do espelho, o narrador lembra-se de Sofia. Era uma negra lavadeira que vinha ao arame entregar a roupa engomada dos soldados. O narrador a conheceu em Gago Coutinho.

“Falta-me o teu sorriso, as tuas mãos no meu corpo, as cócegas dos teus pés nos meus pés. (...) A gargalhada de prisioneira livre tocou-me como um gesto de irreprimível ternura.”

   “Sua casa cheirava a vivo, algo tão raro naquele fim de mundo, onde tudo era morte.”

   Uma noite, porém, ela não estava a esperá-lo. Uma velha de cachimbo, provavelmente sua mãe ou avó, contou-lhe que a PIDE a levara.

   O narrador, no dia seguinte, dirigiu-se ao quartel da PIDE em busca de notícias de Sofia, àquela única pessoa que conseguia fazê-lo sentir-se vivo. No quartel foi informado pelo chefe da brigada que a estupraram e a mataram. Ao sair do quartel da PIDE, a única reação do narrador foi dar uma gargalhada

    O narrador retorna à sala e continua narrando fragmentos da guerra de oito anos atrás e os efeitos dela sobre sua pessoa e sua personalidade.

CAPÍTULO T

   “Deixe-me desapertar-lhe o soutien”.

   O narrador acaricia a ouvinte, faz-lhe declarações poéticas, mas as imagens do soldado de Mangando que se suicidou com um tiro no pescoço, fazendo com que a metade inferior de seu rosto desaparecesse, voltam a perturbá-lo.

    O soldado padecia e o narrador tinha vontade de fugir dali e de estar ao lado de sua filha, fazer revoluções nos cafés de Paris, doutorar-se em Londres, falando mal do seu país.

   “Seria capaz de dar o cu para estar longe dali”.

   A relação sexual será interrompida pelos gritos que o narrador escuta dos mortos da guerra que não conseguiu salvar.

 CAPÍTULO U

Acabado o ato sexual, o narrador pergunta se ela gostou, pede-lhe desculpas por não estar em forma e comenta que irá se inscrever nos cursos que transformam os homens em Hércules eficazes.

   Volta a narrar o seu desespero a beira de uma natureza exótica do Rio Cambo, “seus crocodilos e suas jibóias, rio de onde nasciam as trovoadas cheias de raios na época das chuvas, de onde se chamavam tristes deuses de pau com vozes guturais, onde as lavadeiras trabalhavam enquanto eram espiadas pelos soldados a se masturbar.”

    Fala sobre o negro que perdeu a perna, devorada pelos jacarés do rio Cambo; sobre os camaradas mortos na mata onde a passagem fora interrompida por uma árvore inesperada; sobre a partida dos últimos companheiros mortos, estendidos no chão ao lado dos alimentos e da inveja que despertavam por voltarem primeiro para Lisboa.

 Já está amanhecendo e o narrador conclui que o único lugar que não foi contaminado pela guerra foi à casa da tia Teresa, negra gorda, maternal e sábia.

CAPÍTULO V

   “Conhece Malanje?”

   O narrador inicia sua narração descrevendo a cidade de Malanje. Era a cidade dos diamantes onde todos traficavam, cercada de casas de putas, de eucaliptos e de uma luz miraculosa.

   Lá, ele viu um oficial estuprando no banheiro uma prisioneira e sentiu vontade de urinar sobre eles.

    O narrador pede para que a ouvinte fique com ele até que ele adormeça, ou até que chegue a próxima noite. E termina, dizendo que sente como quem flutua entre dois continentes que o repelem.

CAPÍTULO X

   O narrador revela sua solidão, seu cansaço e sua tediosa vida. Confessa que gostaria de voltar ao seu ponto de partida: família, os irmãos, os amigos, as filhas e Isabel.

   “Quando penso em Isabel não tenho receio do escuro.”

   Ela sempre foi o seu ponto de apoio e não mediu esforços para auxiliá-lo a reconstruir sua vida, mas, perante tantos conflitos, acabou por desistir.

   Fala à ouvinte sobre a incerteza e impossibilidade de um novo encontro, mas queria registrar que gostou dela e chegou a imaginar uma vida ao seu lado. Completa, afirmando que quando ela se for, baterá a porta, como bateu a porta da África ao regressar a Lisboa.

   Conta-lhe a humilhação que passou ao desembarcar em Portugal e ter sido examinado por um médico homossexual o “seu mijo, a merda, o sangue, para que não infectasse Portugal”. 

CAPÍTULO Z


   Amanheceu e o narrador ainda sobre o efeito do álcool, levanta-se para acompanhar sua ouvinte até a porta.

  Agora tudo é real, a ouvinte seguirá seu caminho como se nada houvesse acontecido e tudo o que viveu não passou de um grande pesadelo.

 “A guerra não é real, nunca existiu...e que passaram 27 meses de angústia e de morte juntos...e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão...”

   Na despedida, fala sobre sua reação ao retornar a Lisboa. A cidade parecia-lhe estranha e ele não a reconheceu, passadas algumas semanas visitou suas tias que depois de uma longa inspeção das mesmas, concluíram que estava magro:

   “Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mas contigo não há nada a fazer

   O narrador explica o caminho para a ouvinte e diz que ficará por mais um tempo por lá, limpará os cinzeiros, lavará os copos, arrumará a sala e “talvez volte para a cama desfeita, puxe os lençóis para cima e feche os olhos. Nunca se sabe, não é? mas pode bem acontecer que a tia Teresa me visite.”