quinta-feira, 5 de março de 2026

OS CUS DE JUDAS, ANTÓNIO LOBO ANTUNES



I – AUTOR:


   António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942, na chamada Zona de Benfica. Cursou Medicina e especializou-se em Psiquiatria, por esta apresentar semelhanças com a Literatura (temia cursar Letras e tornar-se um professor).

   Serviu como médico durante a Guerra Colonial em Angola (1961-1974). Ao retornar a Portugal, passou a clinicar em vários lugares para sua sobrevivência e paralelamente, escrevia para o seu prazer.

   Sua estréia data de 1979 com a publicação de “Memória de Elefante” e a partir de 1985, dedicou-se exclusivamente à Literatura.

   Seu nome foi indicado várias vezes para o Prêmio Nobel da Literatura e considerado um dos escritores portugueses mais traduzidos, em especial nos países do norte da Europa.

   Em 1987, conquistou o Prêmio Franco-Português com a obra “Os cus de Judas”.

   Viveu dois casamentos dos quais teve 3 filhas. Lobo Antunes vive em Lisboa, mas não dá entrevistas para a imprensa portuguesa e seus livros são publicados em outros idiomas, exceto em português. É em Paris, que se encontra seu editor oficial.

   Considerado um autor cíclico no plano temático, pois suas obras andam em círculos (abordam o mesmo tema), enfoca principalmente:

-          A Guerra Colonial de Angola;

-          O caráter problemático do ser humano (seus medos, sua mediocridade, seus desejos frustrados) geralmente por uma educação enganosa, promovida pela sociedade portuguesa;

-          A morte, a solidão e

-          A crítica social-política.

Faleceu em 05 de março de 2026.

II – ESCOLA LITERÁRIA:

António Lobo Antunes representa a Geração de Abril, estilo literário que sucede os autores que vêm dos anos de 1950 e que tem como mérito ser mentora intelectual da Revolução Portuguesa que fez do dia 25 de abril, um marco da libertação de 46 anos de ditadura em Portugal.

III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

-          Golpe militar que encerra a chamada Primeira República em Portugal (28 de maio de 1926);

-          Inicio da Ditadura Militar (até 1928 os militares ocuparam o poder);

-          Abril de 1928 – eleições presidenciais (Óscar Carmona apresentou-se como único candidato);

-          Carmona tornar-se Presidente e António de Oliveira Salazar, responsável pelas finanças;

-          Salazar exigiu o controle absoluto das despesas de todos os ministérios (equilibrou o orçamento de Estado, estabilizou a moeda e reduziu a dívida externa);

-          Em 1931, Salazar chega à chefia do Governo;

-          Em 1933, com a aprovação da Constituição, institucionalizou-se o Estado Novo;

-          A autoridade de Salazar foi sempre incontestável, sendo o seu poder sempre superior ao do Presidente da República;

-          Com características semelhantes ao Fascismo foram criados: a União Nacional (Partido Político Oficial), alterando o nome para Ação Nacional Popular, quando Marcelo Caetano substituiu Salazar; a PVE (polícia política poderosa e violenta), que em 1945 tornou-se a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), passando a se chamar DGS (Direção Geral de Segurança) no governo de Marcelo Caetano;

-          No plano internacional, dominava uma política radicalmente nacionalista, marcada pelo lema “Estamos orgulhosamente sós” e pela defesa intransigente do colonialismo português, sob o argumento de que Portugal era “um Estado pluricontinental e multirracial”;

-          Em 1961, sofrendo pressões internacionais para o país conceder a Independência às suas colônias, inicia-se a Guerra Colonial;

-          Em 1968, Salazar afasta-se do governo por motivo de doença (morre em Lisboa, 27 de julho de 1970) e é substituído por Marcello Caetano;

-          A Primavera Marcellista prometia aos mais conservadores a continuidade dos trabalhos e aos mais liberais, a esperança de renovação;

-          Em 25 de abril de 1974 com o fim do Estado Novo, Marcello Caetano seguiu para o exílio no Brasil (faleceu em 1980).


GUERRA COLONIAL:


   Após a II Guerra Mundial, todos os países europeus foram concedendo a independência aos seus territórios na Ásia e na África. Portugal insistia em manter sob seu controle o que restava de seu antigo império: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, o chamado “Estado da Índia” (constituído por Goa, Damão e Diu), Macau e Timor.


   Portugal nunca aceitou a descolonização (interesses econômicos e a propaganda da grandeza do país).

   Em 1955, Portugal entra para a ONU e é orientado para que libertasse suas colônias. Porém, o regime declarou as colônias “províncias ultramarinas” e concedeu a cidadania aos seus habitantes, causando certo descontentamento na ONU.

   Em 1961, após uma guerra, Goa, Damão e Diu são as primeiras colônias a se libertarem.

   Em 1961, o MPLA (movimento Popular pela Libertação de Angola) inicia uma rebelião em Luanda; a UPA (União das Populações de Angola), posteriormente denominada FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), inicia violentos ataques no norte da colônia e depois de alguns anos, a UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola), começa uma luta de guerrilhas.

   Salazar posicionará perante essas rebeliões com o lema: “Para Angola, imediatamente e em força”.

   A Guerra de África só terá solução após as mudanças ocorridas em 1974, por meios políticos e diplomáticos.

   Em Angola (país no qual o narrador de “Os cus de Judas” serviu ao exército português por 27 meses), a diplomacia teve problemas de ordem interna e internacional e teve que negociar com os três movimentos presentes no território angolano: MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), UNITA (União Nacional pela Independência Total de Angola) e FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola).

   A independência foi proclamada em 11 de novembro de 1975, porém seguiu-se uma guerra civil até 1995.

   O MPLA foi constituído entre os anos 50 e 60 e agrupava as principais figuras do nacionalismo angolano e com a direção de Antonio Agostinho Neto, dirigiam a luta armada contra o colonialismo português.

   Com ideologia marxista-leninista, o MPLA após a luta de libertação, iniciou uma luta interna contra as tendências da FNLA e da UNITA e governou Angola como partido único até 1991

   Em 1992 venceu as primeiras eleições, embora essa vitória não tenha sido aceita e o país tenha voltado à guerra.

   O MPLA possuía propensão entre a social democracia e o socialismo e ainda representava a maior força política em Angola.

   Desde 1997, Angola caminha para a reconciliação interna, presidido por um Governo de Unidade e Reconciliação Nacional.

   O narrador de “Os cus de Judas” tratava dos feridos que lutavam contra o MPLA.



IV – FOCO NARRATIVO:

Narrado em primeira pessoa do singular, um narrador-personagem reproduz a sua história (seu passado, seu presente) de forma fragmentada a uma interlocutora (uma mulher) silenciosa e sem qualquer participação narrativa.

V – TEMPO:

Cronológico: horas passadas no bar e no apartamento do narrador e os 27 meses em que o narrador esteve na África, narrada depois de 8 anos passados.

Psicológico: as memórias da guerra e da infância.

VI – ESPAÇO:

Angola, na África e as várias cidades, vilas e regiões mencionadas pelo narrador e retratadas e, Lisboa, Portugal, no apartamento do narrador. São citados vários lugares de Portugal, bairros e ruas de Lisboa.

VII – LINGUAGEM:

-          Ironia, caricatura e humor negro;

-          Introspectiva;

-          Estrangeirismos (barbarismos);

-          Imagens surrealistas;

-          Figuras de linguagem em excesso;

-          Termos de baixo calão;

-          Períodos longos;

-          Rebuscamento estilístico

-          Experimentalismo.

VIII – PERSONAGENS:

-          NARRADOR-PERSONAGEM:

-        Homem por volta dos quarenta anos de idade que no momento da narração servia no exército português como alferes-médico. Quando adolescente vivia perseguido por conflitos íntimos e traumas, que sempre vinha à tona em suas lembranças marcantes do passado (tias, fotografias de velhas senhoras, de generais, bombeiros, o Jardim Zoológico) e, principalmente, quando se apresentou à tropa para “tornar-se homem” - recomendação de suas tias.

Casado e pai de mais de uma filha (referência no plural durante a narrativa), teve sua formação interrompida depois de ter passado 27 anos em Angola, em plena Guerra Colonial.

A guerra causou-lhe desequilíbrio emocional, transformando-o num indivíduo fragilizado, desorientado, viciado e inadaptado.

O narrador perde sua família, sente-se um estrangeiro nos tempos de guerra e em seu próprio país. Seus únicos consolos para fugir dos “cheiros da guerra” são o álcool e os encontros passageiros com mulheres.

A história do narrador confunde-se com a do próprio autor, dando um caráter confessional e autobiográfico na obra.

-          INTERLOCUTORA:

Pouco se sabe sobre a mulher que o acompanha no bar e depois em seu apartamento. Sempre calada, sua “fala” não se concretiza, manifestando-se apenas implicitamente. Não é jovem, tem cabelos encaracolados, magra e belos seios.

-          TIAS:

Senhoras idosas, moradoras em casas que cheiram a fechado, com mobília antiga, incentivaram o narrador a se tornar homem através da guerra e depois concluíram que nem a guerra o corrigiu.

 -          GENERAL MACHADO:

Bisavô do narrador-personagem. Responsável por abrir a trilha na qual o bisneto passará. Apresentado por uma fotografia ameaçadora representa o tradicionalismo e o conservadorismo português.

-          TENENTE:

Companheiro de guerra do narrador-personagem confidenciava-lhe sobre o caso que mantinha com a criada em Lisboa.

Ficou abatido quando recebeu uma carta de sua esposa, comunicando a dispensa da criada. Vivia pedindo ao médico que lhe arranjasse uma doença para livrá-lo da guerra.

 -          ENFERMEIRO:

Personagem de palavras de baixo calão auxiliava o médico, porém tinha horror a sangue.

-          EX-MULHER E AS FILHAS:

Conheceu-a em Tomar e casou-se quatro meses antes de partir para a guerra. Não acompanhou o nascimento da primeira filha e agora, separado de sua esposa, vê quinzenalmente as filhas com as quais tem um relacionamento frívolo.

-          SOBA:

Um dos líderes do povo angolano. Representa a destruição da guerra. De líder, foi rebaixado a costureiro da tropa e quando a máquina chegou, sentia-se um inútil.

-    SOFIA:

Jovem lavadeira angolana que o narrador se relacionou. Foi levada pela PIDE, depois de ter sido estuprada pela tropa.

-          ISABEL:

Jovem amante do narrador-personagem e de personalidade forte e determinada serviu-lhe de ponto de apoio e abandonou-o por não aguentar o seu mau humor.

 HOSPEDEIRA (entregava o bilhete de vôo de retorno a Lisboa e teve uma noite de sexo frustrado com o narrador-personagem); FURRIEL (soldado que pede para ser abandonado em plena mata, representa o cansaço e o desânimo dos que lutavam); AGENTE DE PIDE (o narrador-personagem o costurou sem anestesia quando se rasgou no vaso sanitário); SOLDADO DE MANGANDO (suicidou-se dando um tiro na garganta); JONATÃO (enfermeiro negro da delegação de saúde nominal), entre outros.

IX – TEMÁTICA:

-          Violência e o sem sentido da guerra;

-          Medo e solidão;

-          Neurose de guerra;

-          Sexo;

-          Alcoolismo;

-          Influência familiar;

-          Perda dos sonhos e do idealismo;

-          Dificuldade de relacionamento.

X – RESUMO DA OBRA:

CAPÍTULO A

Através de um monólogo e tendo em companhia uma interlocutora não identificada, o narrador-personagem, em primeira pessoa, inicia o seu relato rememorando retrospectivamente, os passeios de domingos ao zoológico com os irmãos e o pai, quando criança.

 O que mais lembro da infância é o Jardim Zoológico: o rinque de patinação e o professor preto rodeado de alunas, que eu avistava maravilhado do restaurante do Jardim.”

Ele descreve as impressões e sensações através de um ritmo fluente, linguagem metafórica e sugestões surrealistas a estranheza que os bichos e os frequentadores do zoológico lhe causavam. Lembra-se, em seguida, de sua família: a casa em que cresceu; a asma do pai; a mulher dos amendoins que morava debaixo da varanda da casa dos pais e desabafava com sua avó as bebedeiras de seu marido; a cama da mãe; o retrato de um tio bombeiro; a janela do quarto dos irmãos e as tias, senhoras idosas “se movendo em arrancos pelo chão coberto de tapetes dos apartamentos cheirando a fechado, a gripe e a biscoito”.

   Recorda-se das reuniões familiares e das tias que “diziam-me que era muito magro, apontavam velhas fotografias de generais furibundos nas paredes e profetizavam pela infância e adolescência afora dos sobrinhos: felizmente que a tropa há de torná-lo um homem”, enquanto que os tios beliscavam as nádegas da criada.

   A descrição do seu cotidiano revela uma hipocrisia, onde família, religião e governo são as bases de sustentação para a educação e o “bom viver” dentro de uma sociedade.

   O narrador-personagem misturando cenas carregadas de expressionismo passa, então, narrar o seu embarque para Angola com as tropas portuguesas, defendendo a política de Salazar, contra o Socialismo e a Democracia; sentindo-se um idiota-patriota, mas, que para o povo, era um herói (um homem!) como médico militar e a família presente na despedida, felizes e acreditando que, o Governo finalmente, o faria homem.

 


   “Vivíamos todos sob as bênçãos de Salazar, da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, com a função de reprimir e precaver a criminalidade. Porém, semelhando ao fascismo, repreendia, censurava e torturava) e da Igreja

   O protagonista relembra-se de um quadro “representando os uivos do povo diante de uma guilhotina” e relaciona-o como visse a sua própria morte.

CAPÍTULO B

O narrador-personagem relata a preparação para sua partida e contato com o ambiente militar (masturbação, horários, farda, cabelos raspados) e “a metamorfose da larva civil a caminho do guerreiro perfeito”. Em seguida, critica a presença das senhoras do “Movimento Nacional Feminino”, senhoras oriundas de famílias tradicionalistas que entregavam “santinhos” de Nossa Senhora de Fátima e porta-chaves com o retrato de Salazar, ameaçando as pessoas com a lembrança da PIDE, do Inferno, rezando Padre-Nossos nacionalistas, distribuindo cigarros e apertos de mãos com grande entusiasmo na partida dos soldados.

   “No navio, senti Lisboa afastar-se de mim, o sem-sentido daquilo tudo e o peso da solidão”.

Os boleros para os oficiais e o cheiro de vômito que vinha dos porões, onde estavam os soldados, faz lembrar seus vômitos de menino acompanhado pelo coro familiar de “Papagaio Loiro”, que cantavam para fazê-lo comer. No dia seguinte, chegam à Madeira – Alenquer, trocando o inverno de Lisboa pelo verão do Equador.

CAPÍTULO C


   Chegam á Luanda, capital de Angola, ilha de pobreza (esgotos ao pé da cidade, cães vomitando lixo, latas vazias de conservas, água com aspecto de creme solar turvo), prostitutas e calor.

   A descrição de Luanda com sua miséria, crianças famintas leva o narrador o refletir sobre a condição humana e buscar na bebida e no sexo barato uma forma de evasão, além da ironia que, “de fato, e consoante as profecias da família, tornara-me um homem.”

O narrador-personagem, então, sugere que deviam erguer um monumento ao escarro.

O navio vinha cheio de caixões de defunto e a distração era adivinhar quem os ocuparia primeiro.

O narrador-personagem convida a interlocutora a continuarem a beber, chama o garçom, dá-lhe uma gorjeta magra e de uma forma animalesca, convida-a fazerem amor mais tarde.

O navio que o trouxera até Luanda estava de partida e a certeza que Lisboa ficara para trás, causava medo e desejo intenso de viver.

CAPÍTULO D

   O narrador confessa ser terno, ter medo do ridículo, ser simpatizante da classe trabalhadora e contra a burguesia. Afirma que no período em que esteve em Angola tinha muito cabelo, embora aparado militarmente e agora, gostaria de esconder sua calvície em um chapéu tirolês.

   Narra sua viagem de Luanda a Nova Lisboa, deixando para trás o cotidiano que já não lhe pertencia e acrescenta que jantava em restaurantes mantendo a espingarda entre os joelhos e sendo vigiado por olhares de negros de óculos escuros.

   Volta a fazer digressões sobre sua infância, sua educação e dos limites a ele impostos (censura do canto nono de “Os Lusíadas”).

    Seguem de trem para um vilarejo chamado Luso, e lá, recorda-se de seu bisavô, o General Machado, impondo sua valentia e heroísmo. Ele ajudara construir aquela estrada de ferro, por onde agora passava e, no entanto, ninguém o conhecia, mas sua família fazia questão de exaltar suas façanhas como uma epopéia.

   No Luso, veria pela última vez resquícios de seu mundo e o desespero tomava conta de todos.

   “Seis anos atrás, eu descia do Luso para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilômetros de Luanda (...) inicie a dolorosa aprendizagem da agonia.”

CAPÍTULO E

   Gago Coutinho ficava a 300 quilômetros ao sul de Luso e junto à fronteira com a Zâmbia.  O narrador afirma que o local era “terra vermelha poeirenta entre duas chanas (planícies savânicas das regiões orientais e centrais de Angola) podres, um quartel, quimbos (pequenas povoações rurais) chefiados por sobas (chefes de tribos africanas), o posto da PIDE, a administração, o café do Mete Lenha e a aldeia dos leprosos...”

   Uma vez por semana, o narrador com a ajuda de um enfermeiro negro, o Jonatão, distribuía remédios aos doentes e feridos, que pareciam desenterrados vivos, mesmo sabendo que esses medicamentos eram inúteis para evitar-lhes a morte. Os doentes são descritos de forma caricatural e expressionista.

   Mete Lenha, proprietário do café local, o refúgio das tardes de domingo, era casado com uma mulher muito gorda, de “nádegas atlânticas”. Lá, o tenente confessou ao narrador seu relacionamento amoroso com sua criada e a necessidade de fazer sexo constante com ela para que adquirisse amor pela casa.

   Descreve em seguida, o hospital civil: local sinistro e sem recursos.

Os negros doentes, sem terra, sobrevivendo de esmolas e aterrorizados pela PIDE, fugiam para á mata, eram mortos ou ajuntavam-se ao MPLA, “o inimigo invisível que estraçalhava os nossos soldados”.

   Em pleno desespero, o narrador questiona-se: “são os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia...”   

À noite, enquanto os oficiais praticavam sexo barato (cartuchos de hortelã, pimenta), ouvia-se na viola uma cantiga: “o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo”.

Às vezes, apareciam algumas visitas: oficiais do Estado-Maior, senhoras quinquagenárias sul-africanas, duas atrizes de revista. O narrador comenta que ficou sabendo que na Baixa do Cassanje os negros eram obrigados a cavar um buraco na mata, deitar-se nele e esperar o tiro na cabeça.

O narrador elogia o silêncio e a imobilidade da interlocutora.

CAPÍTULO F

  O narrador elogia os efeitos do álcool que “confunde os tempos, abole as distâncias e nos permite ser qualquer um”, depois cita artistas famosos que tiveram experiências negativas com o álcool (Fernando Pessoa; Ava Gardener, atriz americana; Scott Fitzgerald, escritor americano; Malcom Lowry, escritor inglês) e compara a liturgia da bebida com a da igreja.

   Volta ao passado em Angola, “(...) e agora nos Cus de Judas – o médico competente e responsável que desejavam que eu fosse consertando a linha e agulha os heróicos defensores do império.”

   Em seguida, lembra-se de sua família em Lisboa: o pai se barbeando no espelho e sua esposa esperando um filho que ele não veria nascer. Lamenta-se não ter demonstrado carinho por eles e de não ter sido a pessoa idealizada pela sua família para servir de exemplo aos netos indiferentes. 

CAPÍTULO G


Em Ninda, os alojamentos eram precários; havia falta de alimentos; a água estava contaminada; doentes arrastavam e a atmosfera lembrava a um hospital psiquiátrico de Lisboa.

O narrador relata que em pleno combate, protegeu-se num buraco, viu a morte chegar e pensou em sua esposa. Ela, que ele amara em Tomar e que hoje envelhecida, continuava ter a mesma beleza que quando a conhecera; sofreu pelo filho que estava por nascer e nos romances que tinha para escrever.

À noite, jogava xadrez com o capitão e falavam sobre líderes socialistas, que com certeza, deixariam chocados seus familiares. Depois, refletiam sobre o que restará deles quando a guerra terminar e como se adaptaram à vida civilizada. Questiona, em seguida, como a interlocutora dormia: será como uma artista decadente do cinema americano, com venda negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas?

Retoma a refletir sobre a sua vida: suas filhas cresciam em casas que não recordaria e nas mulheres que encontrou e abandonou ou foi abandonado por elas e concluiu que, é “um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera...” 

Reflete sobre o “que fizeram do meu povo, o que fizeram de nós” e “em que a guerra o transformou?

CAPÍTULO H

O narrador-personagem pede à interlocutora a mesma atenção que os soldados ouviam os apelos do rádio e narra-lhe o seu primeiro morto que presenciou.

Ele tinha esperança que o ferido ainda respirasse. Embrulhou-o num cobertor, colocou-o em seu próprio quarto e recomendou-lhe que dormisse bem a sesta. O morto, depois, foi levado por um helicóptero a Gago Coutinho.

A verdadeira intenção era esconder o lixo vergonhoso da guerra, enquanto que, no rádio anunciava:

   ”Morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África”.

   Era abril de 1971, em Ninda. Os feridos gemiam e eram acompanhados pelos dizeres do enfermeiro: caralho, a única palavra que vinha à sua boca diante do ódio e do desespero em relação à guerra.

   O narrador lembra-se que, em 1961, era estudante revolucionário e fugiu da polícia e da PIDE, que perseguia os movimentos estudantis nas faculdades. E, que em 06 de janeiro de 1971, ao embarcar para Angola, chorou no banheiro.

   Os fatos vão se misturando na mente do narrador e de forma não linear, narra a ditadura de Portugal, os mortos da guerra, o momento que o Hospital Militar de Tomar lhe deu a notícia do seu recrutamento, a companhia da ouvinte, do capitão, a perda da perna de um soldado, as coxas do outro...

CAPÍTULO I

    O narrador desabafa com a interlocutora que gostaria de acreditar que tudo o que passou fosse só um romance de mau gosto; que a história que está contando, era só para comovê-la e convencê-la a dormirem juntos, ou melhor, passarem a noite juntos, pois dormir a muito tempo não conseguia.

   Narra-lhe que em 22 de junho de 1971, no Chiúme, o último dos cus de Judas do Leste, foi encaminhado a uma sala cheia de fotos de mulheres nuas que servia para a masturbação da sesta, e lá, recebeu a notícia do nascimento de sua filha.

   Ele havia casado quatro meses antes de embarcar e essa filha era a esperança da redimissão dos seus erros.

   No entanto, encontrava-se no Chiúme; enquanto que as senhoras do Movimento Feminino pensavam nos soldados, embaixo dos secadores de cabelo; os patriotas da União Nacional compravam roupas íntimas para as secretárias; a Mocidade Portuguesa preparava heróis que os substituam; os homens de negócios fabricavam material de guerra a preço módico, o Governo, pagava pensões miseráveis às mulheres dos soldados e eles, mal-agradecidos morrendo!

    “No Chiúme só a mão do alferes Eleutério pousada sem palavras sobre o meu ombro fazia-me sentir acompanhado.”

 CAPÍTULO J

Três horas da manhã, o narrador propõe pagar a conta, para representar o jovem tecnocrata ideal português e depois, volta às suas lembranças da guerra. Explica sobre o oficial catanguês,  antiga província da República do Congo, hóspedes de luxo trazidos pela PIDE com a missão de aterrorizar os guerrilheiros. Era a tropa mais indisciplinada e violenta da guerra. Usavam as mulheres do soba com a mesma naturalidade que usava a escova de dentes do narrador. Conta que o tenente foi reprimido por esses oficiais e chegou a implorar que o narrador lhe diagnostica-se uma doença qualquer, para ir para a reserva; pois, não aguentava mais àquela situação, principalmente, agora, que recebera uma carta de sua esposa, contando-lhe a demissão da sua criada.

Depois de 11 meses, sem conforto; sem um corpo, sem amor, só masturbação, sem conhecer sua filha e já se esquecendo da fisionomia de seus amigos; partiu para Luanda.

Em Luanda é assediado por uma hospedeira. A seguir, toma o avião com destino a Lisboa, de férias.

CAPÍTULO L

   O narrador divaga com a interlocutora sobre como seria envelhecerem juntos, “eu, você e a televisão, a santíssima trindade do lar.

    Fala sobre a sua chegada em Portugal e a revista de um funcionário da alfândega que desconfiado, fiscaliza sua bagagem à procura de metralhadoras.

 

 “(...) Trago um feto de 8 meses.”

 “– Vocês vêm de Angola convencidos que são uns grandes homens, mas isto aqui não é o mato, sua tropa”.

 “– Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.”

 

    Depois, segue a curiosidade do burocrata idoso, perguntando-lhe se o feto estava num frasco; a piedade de uma senhora comentando que todos voltavam assim da África e a indiscrição dos olhares, como se olhassem os aleijados que rastejam de muletas nas cercanias do Hospital Militar, fabricados pelo Estado Novo.

   No táxi tenta reconhecer sua cidade:

“– Merda de país de merda!”

   Ao chegar ao seu lar depara-se com “uma mulher na cama e uma criança no berço e ele parado ecoando os sons da guerra. Ao tocar em sua esposa, ouvia as frases do tenente:

- Pôr selo na patroa!

E no Luso, sentia fazer amor por todos: os capitães, os sargentos, o Ferreira sem perna...”

   Volta a falar com a ouvinte, dizendo que um dia lhe mostraria a foto de sua filha, “àquela que não vi inchar na barriga da mãe”.

   Estava de licença por apenas alguns dias. Então, de novo a partida e imagem da esposa calada encostada a uma coluna.

CAPÍTULO M

   O narrador diz-lhe que vive sozinho e que recebe quinzenalmente a visita de suas filhas. Há, também, uma cabo-verdiana que ele se comunica através de bilhetes e que cuida da arrumação da casa e da roupa. Acrescenta que o próprio varal de sua casa, só ostentando roupas masculinas, denuncia a sua solidão.

   Referindo-se aos “seus amores”, explica-lhe que são encontros passageiros, “que sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que já conheço de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidê, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna.”

   Depois da higiene feita às pressas num bidê, resta um beijo sem batom e a trocas de telefones que ficaram esquecidos.

    O narrador, em seguida, questiona como é o cotidiano da ouvinte e de maneira fria, diz que prefere ir para a sua casa, por não gostar de cheiro de incenso, que provavelmente deva ter na casa dela.

   Continua o relato do seu retorno à Luanda e completa dizendo que, depois de jantar sozinho num restaurante, foi procurar a hospedeira que conheceu antes de sua partida.

   A casa cheirava roupa para lavar e comida enlatada de animais. O sorriso da moça era carnívoro, o cão não parava de arranhar a porta da cozinha e por mais que a hospedeira tentou excitá-lo, ele não teve reação, “rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar”.

CAPÍTULO N

Na volta ao Chiúme, o narrador comenta que ninguém estranhou a sua volta, sequer o notaram.     Todos treinados para morrerem sem protestos, serem cobertos com a Bandeira Nacional e enviados para a Europa nos porões dos navios com suas medalhas. Jogados numa guerra, com discursos heróicos, vigiados pela PIDE e condenados a ler nos jornais somente louvores ao Estado Novo, enquanto o MPLA deixava mensagens: “Deserta, mas para onde se só havia areia em volta. Lutávamos contra nós mesmos.”

   Os coronéis exigiam resultados, gritando que “ganharíamos a guerra”.

   As viaturas eram poucas, de modo que os homens iam à frente procurando minas a fim de poupar o veículo:

   “Um filho faz-se em cinco minutos e de graça...uma viatura demora semanas ou meses...”

   “Mas, porque os filhos dos seus ministros não estão aqui como a gente?”

   Na volta de um combate sentem a falta de um dos homens: era o furriel. Ele estava sentado a um canto e dizia: “estou farto desta guerra que nem a tiro vou sair daqui.”

   “Prezado Salazar se você estivesse vivo e aqui, enfiava-lhe uma granada sem cavilha pela peida acima...”

    E, mandávamos cartas dizendo que estávamos bem, vivos e que até havíamos engordado.

CAPÍTULO O

   O narrador relata o final de seu casamento: “numa paz feita de alívio, despedindo-se no elevador como dois estranhos e trocando um último beijo”. Depois, passou vagando por um ano de cama em cama, procurando companhia e frequentando o cinema solitário de madrugada.

   Lembra-se do natal de 1971, em Chiúme: estava só, sem ninguém da família e recorda-se da casa do avô. Começa a delirar, confunde-se com o ferido que volta de uma operação na mata e sente que está aplicando a seringa de adrenalina por ele mesmo no seu próprio coração.

CAPÍTULO P  

“Não bebi demais, mas engano-me sempre na chave, talvez por dificuldade em aceitar que é este prédio...”

   Ele desabafa à ouvinte que se sentia como se nunca estivesse exatamente onde parecia estar; fala sobre seus medos e que às vezes, ao entrar em sua casa teme ter outra família em seu lugar.

Revela que um dia recebeu um telefonema por engano e teve a sensação que ele era um estranho em sua própria casa.

   Lembra-se de que à medida que os filhos partiam, sua mãe transformava seus quartos em salas.

   Retorna a falar sobre Angola e diz que “o batalhão se deslocou ao norte, às Terras do Fim do Mundo, onde havia extrema miséria, governadas por chefes de postos alcoólicos...reinando sobre um povo conformado, sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.”

   O narrador apresenta o seu apartamento à interlocutora, cheio de pias batismais, poucos móveis e sem vista para o mar, “estou a salvo de partir naquelas aventuras interiores para a Índia de um sonho”.

   Oferece um brinde ao futuro e pelo coma.

   Recorda-se que os soldados tiraram retrato com a coxa amputada de um guerrilheiro do MPLA, como se fosse um troféu de guerra.

   Seguiram, em seguida, em direção a Malanje e ao chegarem à base portuguesa, foram proibidos de dormir na cidade, para que não expusessem suas doenças aos oficiais ali instalados.

CAPÍTULO Q

   O apartamento do narrador era praticamente sem mobílias dando espaço aos sonhos e causando à sensação de provisório, “que me permite adiar indefinidamente o presente”.

   Das janelas observa operários que trabalham arduamente desde cedo e chega a sentir inveja dos seus horários e de sua vida. Ele, ao contrário deles, só sairá de seu apartamento à noite em busca de bares.

   Essa vida, embora, parece ser fácil possui desvantagens: os amigos afastam-se, a família recua, os colegas de profissão comentam sobre sua incompetência e os pacientes desconfiam de suas olheiras e seu cheiro de álcool.

   Durante um ano, o narrador afirma que morreu diariamente não a morte da guerra, mas a agonia da espera de voltar para a família, o hospital, cinema, amigos...e hoje, às vezes acorda com uma mulher que conheceu há algumas horas antes, num bar.

   Conta que viveu durante um ano em Marimba, onde prisioneiros eram trazidos pelos jipes da PIDE para cavar sua própria sepultura.

   O narrador confessa que um dia pode vingar-se do oficial responsável por essa barbárie, costurando sua nádega rasgada num vaso sanitário, sem anestesia.

    Passado algum tempo, substituíam os líderes mais respeitados pelos mais obedientes e o soba, na senzala, ridicularizado por se dobrar àquele governo, vagava com um doente mental.

CAPÍTULO R

   O narrador enquanto espera a manhã chegar, propõe fazerem amor.

   “Essa espécie de ginástica pagã que nos deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no desastre dos lençóis.”

   Diz-lhe que já viveram demais e não correm o risco de se apaixonar; mesmo porque, seria uma maçada: ciúmes, saudades, dividir o mesmo lençol...

   Retorna a descrever a guerra e das ocasiões em que entrava nas senzalas a distribuir remédios e era recebido com os insultos dos negros expulsando-o de lá e alegando que “não precisamos de vocês para nada, porque não era a eles que eu tratava, era à mão-de-obra barata para os fazendeiros brancos.”

CAPÍTULO S


   Diante do espelho, o narrador lembra-se de Sofia. Era uma negra lavadeira que vinha ao arame entregar a roupa engomada dos soldados. O narrador a conheceu em Gago Coutinho.

“Falta-me o teu sorriso, as tuas mãos no meu corpo, as cócegas dos teus pés nos meus pés. (...) A gargalhada de prisioneira livre tocou-me como um gesto de irreprimível ternura.”

   “Sua casa cheirava a vivo, algo tão raro naquele fim de mundo, onde tudo era morte.”

   Uma noite, porém, ela não estava a esperá-lo. Uma velha de cachimbo, provavelmente sua mãe ou avó, contou-lhe que a PIDE a levara.

   O narrador, no dia seguinte, dirigiu-se ao quartel da PIDE em busca de notícias de Sofia, àquela única pessoa que conseguia fazê-lo sentir-se vivo. No quartel foi informado pelo chefe da brigada que a estupraram e a mataram. Ao sair do quartel da PIDE, a única reação do narrador foi dar uma gargalhada

    O narrador retorna à sala e continua narrando fragmentos da guerra de oito anos atrás e os efeitos dela sobre sua pessoa e sua personalidade.

CAPÍTULO T

   “Deixe-me desapertar-lhe o soutien”.

   O narrador acaricia a ouvinte, faz-lhe declarações poéticas, mas as imagens do soldado de Mangando que se suicidou com um tiro no pescoço, fazendo com que a metade inferior de seu rosto desaparecesse, voltam a perturbá-lo.

    O soldado padecia e o narrador tinha vontade de fugir dali e de estar ao lado de sua filha, fazer revoluções nos cafés de Paris, doutorar-se em Londres, falando mal do seu país.

   “Seria capaz de dar o cu para estar longe dali”.

   A relação sexual será interrompida pelos gritos que o narrador escuta dos mortos da guerra que não conseguiu salvar.

 CAPÍTULO U

Acabado o ato sexual, o narrador pergunta se ela gostou, pede-lhe desculpas por não estar em forma e comenta que irá se inscrever nos cursos que transformam os homens em Hércules eficazes.

   Volta a narrar o seu desespero a beira de uma natureza exótica do Rio Cambo, “seus crocodilos e suas jibóias, rio de onde nasciam as trovoadas cheias de raios na época das chuvas, de onde se chamavam tristes deuses de pau com vozes guturais, onde as lavadeiras trabalhavam enquanto eram espiadas pelos soldados a se masturbar.”

    Fala sobre o negro que perdeu a perna, devorada pelos jacarés do rio Cambo; sobre os camaradas mortos na mata onde a passagem fora interrompida por uma árvore inesperada; sobre a partida dos últimos companheiros mortos, estendidos no chão ao lado dos alimentos e da inveja que despertavam por voltarem primeiro para Lisboa.

 Já está amanhecendo e o narrador conclui que o único lugar que não foi contaminado pela guerra foi à casa da tia Teresa, negra gorda, maternal e sábia.

CAPÍTULO V

   “Conhece Malanje?”

   O narrador inicia sua narração descrevendo a cidade de Malanje. Era a cidade dos diamantes onde todos traficavam, cercada de casas de putas, de eucaliptos e de uma luz miraculosa.

   Lá, ele viu um oficial estuprando no banheiro uma prisioneira e sentiu vontade de urinar sobre eles.

    O narrador pede para que a ouvinte fique com ele até que ele adormeça, ou até que chegue a próxima noite. E termina, dizendo que sente como quem flutua entre dois continentes que o repelem.

CAPÍTULO X

   O narrador revela sua solidão, seu cansaço e sua tediosa vida. Confessa que gostaria de voltar ao seu ponto de partida: família, os irmãos, os amigos, as filhas e Isabel.

   “Quando penso em Isabel não tenho receio do escuro.”

   Ela sempre foi o seu ponto de apoio e não mediu esforços para auxiliá-lo a reconstruir sua vida, mas, perante tantos conflitos, acabou por desistir.

   Fala à ouvinte sobre a incerteza e impossibilidade de um novo encontro, mas queria registrar que gostou dela e chegou a imaginar uma vida ao seu lado. Completa, afirmando que quando ela se for, baterá a porta, como bateu a porta da África ao regressar a Lisboa.

   Conta-lhe a humilhação que passou ao desembarcar em Portugal e ter sido examinado por um médico homossexual o “seu mijo, a merda, o sangue, para que não infectasse Portugal”. 

CAPÍTULO Z


   Amanheceu e o narrador ainda sobre o efeito do álcool, levanta-se para acompanhar sua ouvinte até a porta.

  Agora tudo é real, a ouvinte seguirá seu caminho como se nada houvesse acontecido e tudo o que viveu não passou de um grande pesadelo.

 “A guerra não é real, nunca existiu...e que passaram 27 meses de angústia e de morte juntos...e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de mão...”

   Na despedida, fala sobre sua reação ao retornar a Lisboa. A cidade parecia-lhe estranha e ele não a reconheceu, passadas algumas semanas visitou suas tias que depois de uma longa inspeção das mesmas, concluíram que estava magro:

   “Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mas contigo não há nada a fazer

   O narrador explica o caminho para a ouvinte e diz que ficará por mais um tempo por lá, limpará os cinzeiros, lavará os copos, arrumará a sala e “talvez volte para a cama desfeita, puxe os lençóis para cima e feche os olhos. Nunca se sabe, não é? mas pode bem acontecer que a tia Teresa me visite.”

sábado, 21 de fevereiro de 2026

“A MORATÓRIA”, JORGE ANDRADE

ANÁLISE-CRÍTICA LITERÁRIA SOBRE A OBRA:A MA

1. A obra narra uma sociedade em vias de transição de extremamente agrária, para urbana. Qualidades e defeitos de toda uma classe são retratados, pela obra, em igual peso. Sentimentos de exaltação da dignidade via trabalho, confiança nos negócios, solidariedade familiar fazem parte de uma vida antes da crise. Preconceitos, orgulho, raiva dos familiares ricos, teimosia baseada nos hábitos antigos, incapacidade de educar filhos e de aceitar a nova ordem social pertencem ao mundo pós crise do café e falência do capitalismo.

As mulheres são mais dadas ao trabalho como forma realista de perceber a gravidade da situação e não fugirem à tentação romântica do sonho. Lucília, por exemplo, costura o tempo todo a fim de que não falte o mínimo para sobrevivência da família. Ela chega a abrir mão do casamento para viver a realidade dura de sua vida.

Os homens, no entanto, são mais afeitos ao sonho do passado. Quim, por exemplo, acha que receberá o café que vendeu fiado e pensa em reaver a fazenda. Seu filho, Marcelo, é um perdulário, beberrão e preguiçoso. Não foi educado para o trabalho e vive mole, sem contribuir em nada para que a família supere os tempos de crise.

A resignação de Helena, por exemplo, não pode ser considerada felicidade, tampouco a alternativa de trabalho encontrada por Lucília. O trabalho, para ela, não é uma opção, é um sacrifício, a ponto de pensarmos que a moça está presa àquela casa, aos pais.

No entanto, é em Quim que a percepção de que “tudo acabou” apresenta-se de maneira mais decisiva. Na cena final, quando descobre que nada mais há para fazer.

O resto de sua vida ele será um morto-vivo; o que é, de certa forma, um cadáver exposto.

“Joaquim: Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha filha. Não precisa ter medo. Eu... eu...‟

Poderíamos acrescentar: estou morto!

Em nenhum desses casos há o sentimento do romantismo. É como se a falência também secasse a emoção e a obra se tornasse dura, pesada. É como se a obra tivesse duas palavras que a sintetizasse cada uma em sua época. No passado, ESPERANÇA e no presente, DESESPERO.

2. A Moratória não aponta qualquer solução para o momento histórico que retrata. O objetivo primeiro, nessa peça, não é falar sobre a sociedade, mas mostrar um drama familiar que se desenvolve em um contexto social específico. E assim, Quim e sua família vivem seu drama como metonímia do drama dessa época.

3. Além da temática pessimista, em que passado e futuro tomam o lugar do presente, alijando a dramaturgia rigorosa do teatro clássico, Jorge Andrade não se atém as leis unitaristas de ação, tempo e espaço, ou tampouco a organização que vai da harmonia à desarmonia, adensando-se sua tensão.

Outra questão comum da tragédia é a destruição do herói, na qual uma nova forma e distribuição de forças ocorre com a morte.

Não há uma morte efetiva em A moratória, porém, percebemos que os personagens experimentam uma morte social, por um lado, e existencial por outro. Sobretudo o protagonista Joaquim, que vai se reduzindo a um fiapo humano, como bem representado metaforicamente na peça em sua mania de desfiar panos. Apesar de este personagem apresentar um otimismo e afirmar-se verbalmente com sua esperança durante toda a peça, a ação que ele mostra de fato não é algo sendo remediado, mas desfiado até desaparecer.

Desde o início, percebe-se que Lucília dispara um ditado popular: “[...]. O que não tem remédio, remediado está. ” (ANDRADE, 1993, p. 30).

Mais pragmática, ela costura para remediar/remendar seu destino, não sem dor ou amargura. Entretanto, para Joaquim, nada se remenda/remedia, e sim, se desfia.

O foco da peça é a perda que domina toda a família, e todas as falas da peça indicam esse estado amorfo em que se encontram. Em um momento negam, em outro omitem a verdade dos fatos, mas no fundo todos já sabem, com maior (Lucília) ou menor clareza (Joaquim), do destino trágico deles. Não existe volta possível à fazenda, tampouco à vida antiga. E a peça atenta para um estado de paralisia que provém da recusa dos personagens a aceitar um destino que se impõe, ao mesmo tempo em que se vivencia essa perda.

Cada personagem do núcleo familiar tem uma forma de experienciar seu destino. Joaquim, “cego” de esperança, só no fim sucumbe. Helena, sua mulher, é tolerante; embora tenha clareza do caráter irreversível da situação, reza para que a família volte a se estabilizar, pois esta é a única forma na qual consegue viver. Ela tem como certo que as recordações não podem ser apagadas. Marcelo não tem esperança; devaneia, bebe, não aceitando seu destino. Embora diga em um diálogo com o pai: “O que importa é aceitar ou não o presente. Esquecer, saber esquecer. (Pausa) [...]” (ANDRADE, 1993, p. 119), como se problematizasse seu destino, ensaia uma mudança, tenta trabalhar, mas não consegue verdadeiramente esquecer; é fraco, não tendo força para heroicamente mudar seu destino. Lucília, embora relute e também se desespere, tem a lucidez mais aguçada a ponto de perceber o caráter irremediável da situação em que vivem. Em um diálogo no segundo ato com Olímpio – com o qual viveu um namoro, no momento suspenso –, ao recusar o noivado com o rapaz, explicita como vê seu destino:

É muito mais grave do que parece. Você está pensando na situação financeira em que vamos ficar e eu não. Sinto que todos nós vamos ser envolvidos e, depois, não poderemos mais ser os mesmos. Não é só a fazenda que estamos ameaçados a perder. (ANDRADE, 1993, p. 106).

Todos lamentam, ninguém de fato aceita os fatos concretos, e Joaquim experimenta a morte em vida, sucumbindo a seu destino trágico.

A cena final compõe o quadro do desespero familiar que essa tomada de consciência produz. Lucília cai sentada na máquina soluçando fortemente (depois é retirada por Olímpio da sala e da cena), Helena caminha lentamente e se posiciona atrás da cadeira onde está sentado Joaquim, pondo a mão em seus ombros, e Marcelo senta-se no banco. E a peça termina com as falas dos três em murmúrios desconexos, cada qual dentro de seu próprio mundo, remoendo suas perdas.

Essa cena pode ser pensada como uma foto de família que retrata, para a posteridade, não a potência de uma unidade familiar, mas o desarranjo trágico de seus personagens dentro dessa unidade. Os pais ainda mantêm a pose de foto de família, mas em alheamento mórbido, e os filhos ou deixam a cena (Lucília) ou estão “desfocados” (Marcelo, sem lugar, sentado no banco no mesmo espaço onde estão os pais, mas não junto deles).

 

4. Ainda que Joaquim saia da fazenda carregando uma esperança de retorno, compreendemos de imediato que essa consiste apenas num escudo para protegê-lo da realidade. Enquanto ouvimos os sons dos machados a destruir as cerejeiras, vemos Joaquim aflito perante o destino do seu amado jabuticabal. As árvores simbolizam um mundo de belezas sendo engolido pela praticidade da nova ordem, que não admite o desperdício, já que elas não têm função econômica dentro das fazendas.

 

5. Em Jorge Andrade, não há a ideia de cidade como "promoção social", mas, ao contrário, a família de Joaquim é vista pela perspectiva da perda da propriedade, do espaço, dos referenciais de vida. Ao situar a tradição de Joaquim, o dramaturgo informa o leitor acerca da existência de um passado distante, no qual as relações eram permeadas por outros valores. Suas reminiscências atualizam um passado saudoso, que mais lembra uma "idade do ouro perdida", na qual o espaço familiar norteava as relações pessoais e inclusive as mercantis. Na evocação de Joaquim, um passado fundador é recuperado, a memória individual vai chamando as experiências esquecidas e desvelando os conflitos do presente em face das inúmeras mudanças, dentre elas: a passagem para a cidade e a fugacidade do tempo.

Os personagens de Jorge Andrade representam, portanto, homens que caminham no limite dessas transformações. Trazem permanências de tempos que se transformam, mas convivem com a emergência de novos valores e novas formas de produção da vida.

 

6. É a ação de Joaquim, ao olhar o quadro na parede, que anuncia para o espectador a existência de um outro plano de acontecimentos. Assim, o plano rural (1929) é revelado com a entrada de Helena – esposa de Joaquim – em cena.

Nas suas falas, o leitor/espectador começa a ser informado acerca de uma possível crise financeira de Joaquim. As dificuldades são decorrentes da falta de chuva, mas, aos poucos, vai se percebendo que a situação do fazendeiro se origina também de problemas financeiros adquiridos com o plantio e mercantilização do café.

No prosseguimento da narrativa há a volta ao plano urbano (1932). É significativo perceber no texto os sutis mecanismos que Jorge Andrade vai utilizando para oscilar entre um plano e outro e, assim, construir duas histórias em tempos distintos, conseguindo, dessa forma, não confundir o espectador.

 

7. A procura pela formação superior como uma das vias de ascensão social é um fato que remonta ao início do século XIX. Seja no campo ou na cidade, o dinheiro e a instrução foram importantes determinadores das relações de poder. O personagem Olímpio, no século XX, é uma exemplar representação da capacidade de permanência dessa figura:

(...) O diploma universitário tornava-se para muitos a promessa suprema da ascensão social e a entrada nas universidades era bem mais procurada por causa desta esperança, do que com o fim de adquirir algum saber ou alguma eficiência.

Torna-se difícil dissociar as falas de Olímpio do meio do qual ele é originário, o que permite desvelar as suas intenções como personagem. Olímpio aparenta ter consciência das verdadeiras causas da crise da família de Joaquim. Mas, ainda assim, no seu consolo a Lucília, diz haver sempre uma solução. A ambiguidade aqui se apresenta, pois o que se vê é a tentativa de Olímpio em salvar a união com Lucília, mas, ao mesmo tempo, suas falas deixam transparecer que não há nenhum outro caminho para a decadência dos fazendeiros. O posicionamento de Joaquim diante das circunstâncias fica claro na seguinte passagem:

Olímpio: (Pausa) Sei o que sente. Acha humilhante depender de mim, o filho do inimigo político de seu pai. Como se casamento fosse só isto: combinação de fortunas ou de partidos políticos. Nunca aprovei esta mentalidade e espero que isto acabe de uma vez. Sempre achei vergonhoso o que meu pai fez ao seu e o que o seu fez a muita gente. Esse coronelismo que não reconhece razão a ninguém, que destrói tudo, que é cego!

Se Olímpio é a representação do profissional liberal em ascensão, Joaquim não deixa de simbolizar uma variação do típico "coronel". O dramaturgo, em A Moratória, localiza essas duas figuras, seus enfrentamentos e suas alianças em 1929.

 

8. Ao ler um jornal, Joaquim menciona palavras como: 'ditadura' e 'PRP', o que imediatamente remete o leitor ao processo histórico pelo qual o país passou por volta de 1930, exatamente o momento de contextualização da unidade de tempo e ação da peça de Jorge Andrade.

Ao deixar o jornal, Joaquim volta-se para Lucília, quando então começam a falar de crises política e familiar, discussão que os leva a revelar, nos seus subtextos, as dificuldades que cada um sofreu em decorrência da crise cafeeira de 1930. As inúmeras perdas são verbalizadas: Joaquim, a fazenda; Lucília, o matrimônio. Nesse movimento, incluem-se Marcelo e Helena: o filho foi privado da liberdade anterior, já Helena não mais sente a tranquilidade da estrutura familiar, calcada em valores construídos no âmbito da aristocracia rural.

O dramaturgo reforça a insatisfação dos personagens quando nota o nivelamento social a que foi relegada a família do fazendeiro, dentre eles, a preocupação com as aparências, com a manutenção de certa pompa já perdida.

 

No terceiro ato surge uma das mais belas e sensíveis cenas escritas por Jorge Andrade. Nela estão Helena e Joaquim na situação de despedida das terras. Mas, para construir o estado de solidão e abandono do casal, o dramaturgo recorre a vários momentos curtos e marcantes: a relação afetiva de Joaquim com a casa de fazenda, com as coisas que no dia a dia o cercam: balaústre, porta, forro do quarto, a plantação de café e o cheiro de terra molhada que entra pela noite com a chuva. Joaquim volta a recordar o hábito de sempre levantar cedo, o tempo em que namorou e depois se casou com Helena, o estilo de vida de seus antepassados, a vida na cidade e, enfim, o medo de deixar as terras. São elementos que vão expondo o apego às coisas e ao passado e, ao mesmo tempo, vão expondo a fragilidade de Joaquim. O dramaturgo vai minando, corroendo as certezas do personagem, elevando-o a um estado patético.

As formigas roendo as madeiras da casa – uma bela metáfora desse estado de passagem do tempo que Joaquim está sofrendo. É interessante perceber a relação de Joaquim com o relógio de parede; sendo um presente de seus antepassados, figura como um elemento central nas peças de Jorge Andrade.

Sobre os laços com seus antepassados, suas heranças e a relação com o tempo, que não perdoa a quem se esquece de notá-lo, Joaquim fala:

Joaquim: O pessoal de hoje é muito "perrengue". Só sabe ficar na cidade, fazendo o que não deve! (Pausa) Quero morrer como meu avô: caçando. (...) Meu avô comeu a matula e sentou-se encostado ao tronco de uma árvore. Quando os outros caçadores chegaram já estava morto. Um dos cachorros estava deitado em sua perna... e ele parecia dormir! (...) [o relógio]... foi presente de casamento de meu avô ao meu pai. Sabe? Meu avô tinha um propósito. Os antigos não davam nada assim sem mais nem menos. Sabiam sempre o que era mais útil. Junto com o presente veio a recomendação: "Meu filho! Não deixe nunca o sol pegar você na cama e saiba dividir o seu tempo, que tudo..." Disto ninguém poderá me acusar, Helena, em toda a minha vida, só aquela vez quando tive maleita não vi o sol nascer.

Essa atmosfera provocada pelo personagem Joaquim é uma visão mítica de sensibilidade, na qual a natureza opõe-se aos avanços do mundo urbano industrializante, pois (...) as virtudes são encaradas como coisas claramente passadas, pertencentes a uma época anterior, perdida, da vida rural. 

 

Na segunda cena deste último ato, o que se encontra é a insuportável sensação de Lucília ao ter que falar com sua tia sobre o seu vestido. Ajoelhada aos pés de Elvira, é visível a humilhação de ter que fazer a barra do vestido da tia e, ainda por cima, ouvi-la falar que não suporta mais ajudar "asilos". Nesta cena, o leitor/espectador fica sabendo das relações de Elvira com a família de Joaquim. Sabe-se, desta forma, que após a perda da fazenda ela sofre uma crise de consciência, passando a ajudar o velho "Quim", mas ainda assim fica relatando a Lucília, com desdém, os favores prestados.

Revoltada com as acusações da tia, Lucília comenta:

Lucília: Isso mostra bem o que a senhora é. A verdade é que deixou a nossa fazenda ir à praça e ser arrematada por gente que não tinha o menor amor às nossas terras.

Ao se despedirem da casa da fazenda, Joaquim consola Helena e, como lembrança, leva um galho de jabuticabeira. Em momento algum falam que estão deixando ou perdendo suas ligações com aquele espaço, mas procuram maquiar sua dor assumindo ser apenas uma viagem. De forma alguma aceitam ser uma viagem sem volta.

 

Mais uma vez, o dramaturgo antecipará a última cena para cruzá-la com a terceira; contrasta assim a despedida da casa rural com os fatos do plano urbano, quando Helena aguarda a chegada de Joaquim para anunciar-lhe a recusa da nulidade do processo judicial e que, tampouco, houve alguma moratória por parte do governo. Nesse sentido, o dramaturgo coloca em cena, simultaneamente, as perdas de Joaquim em distintos tempos: tanto em 1929 quanto em 1932. O que marca a vida de Joaquim é a "derrota" que o segmento social, do qual faz parte, sofre com o decorrer dos fatos.

No encerramento do texto, percebe-se uma certa apreensão por parte de Helena e Lucília, que, na dúvida, não sabem o que fazer e nem qual informação dar a Joaquim sobre a perda do processo. Acreditam até que a mentira seja a melhor verdade para o velho "Quim". A chegada do ex-fazendeiro é marcada pela angústia. Sentado e desfiando um trapo de pano, recolhe-se na sua dor. A reação de Lucília é surpreendente: no seu desespero, solidariza-se com a melancolia do pai, pois, como Joaquim, acreditou no retorno às terras.

Lucília e Olímpio saem "abraçados". Marcelo, sentado num canto, pouco interfere no triste e angustiante diálogo final entre Helena e Joaquim:

Joaquim: Abril! (Pausa) O café está sendo arruado! (As luzes vão abaixando lentamente)
Marcelo: Já não se houve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!
(As vozes se transformam num murmúrio e as luzes se apagam definitivamente).