I – AUTOR:
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa,
em 1942, na chamada Zona de Benfica. Cursou Medicina e especializou-se em
Psiquiatria, por esta apresentar semelhanças com a Literatura (temia cursar
Letras e tornar-se um professor).
Serviu como
médico durante a Guerra Colonial em Angola (1961-1974). Ao retornar a Portugal,
passou a clinicar em vários lugares para sua sobrevivência e paralelamente,
escrevia para o seu prazer.
Sua
estréia data de 1979 com a publicação de “Memória de Elefante” e a partir de
1985, dedicou-se exclusivamente à Literatura.
Seu nome foi indicado várias vezes para o
Prêmio Nobel da Literatura e considerado um dos escritores portugueses mais
traduzidos, em especial nos países do norte da Europa.
Em 1987, conquistou o Prêmio
Franco-Português com a obra “Os cus de Judas”.
Viveu dois casamentos dos quais teve 3
filhas. Lobo Antunes vive em Lisboa, mas não dá entrevistas para a imprensa
portuguesa e seus livros são publicados em outros idiomas, exceto em português.
É em Paris, que se encontra seu editor oficial.
Considerado um autor cíclico no plano
temático, pois suas obras andam em círculos (abordam o mesmo tema), enfoca
principalmente:
-
A Guerra Colonial de Angola;
-
O caráter problemático do ser humano (seus medos, sua mediocridade,
seus desejos frustrados) geralmente por uma educação enganosa, promovida pela
sociedade portuguesa;
-
A morte, a solidão e
-
A crítica social-política.
Faleceu em 05 de março de 2026.
II – ESCOLA LITERÁRIA:
António
Lobo Antunes representa a Geração de
Abril, estilo literário que sucede os autores que vêm dos anos de 1950 e
que tem como mérito ser mentora intelectual da Revolução Portuguesa que fez do
dia 25 de abril, um marco da libertação de 46 anos de ditadura em Portugal.
III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:
-
Golpe militar que encerra a chamada Primeira República em Portugal (28
de maio de 1926);
-
Inicio da Ditadura Militar (até 1928 os militares ocuparam o poder);
-
Abril de 1928 – eleições presidenciais (Óscar Carmona apresentou-se
como único candidato);
-
Carmona tornar-se Presidente e António de Oliveira Salazar, responsável
pelas finanças;
-
Salazar exigiu o controle absoluto das despesas de todos os ministérios
(equilibrou o orçamento de Estado, estabilizou a moeda e reduziu a dívida
externa);
-
Em 1931, Salazar chega à chefia do Governo;
-
Em 1933, com a aprovação da Constituição, institucionalizou-se o Estado
Novo;
-
A autoridade de Salazar foi sempre incontestável, sendo o seu poder
sempre superior ao do Presidente da República;
-
Com características semelhantes ao Fascismo
foram criados: a União Nacional
(Partido Político Oficial), alterando o nome para Ação Nacional Popular, quando Marcelo Caetano substituiu Salazar; a
PVE (polícia política poderosa e
violenta), que em 1945 tornou-se a PIDE
(Polícia Internacional de Defesa do Estado), passando a se chamar DGS (Direção Geral de Segurança) no
governo de Marcelo Caetano;
-
No plano internacional, dominava uma política radicalmente nacionalista,
marcada pelo lema “Estamos orgulhosamente sós” e pela defesa intransigente do colonialismo
português, sob o argumento de que Portugal era “um Estado pluricontinental e
multirracial”;
-
Em 1961, sofrendo pressões internacionais para o país conceder a Independência
às suas colônias, inicia-se a Guerra
Colonial;
-
Em 1968, Salazar afasta-se do governo por motivo de doença (morre em
Lisboa, 27 de julho de 1970) e é substituído por Marcello Caetano;
-
A Primavera Marcellista prometia aos mais conservadores
a continuidade dos trabalhos e aos mais liberais, a esperança de renovação;
-
Em 25 de abril de 1974 com o fim
do Estado Novo, Marcello Caetano seguiu para o exílio no Brasil (faleceu em
1980).
GUERRA COLONIAL:
Após a II Guerra
Mundial, todos os países europeus foram concedendo a independência aos seus
territórios na Ásia e na África. Portugal insistia em manter sob seu controle o
que restava de seu antigo império: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe,
Angola, Moçambique, o chamado “Estado da Índia” (constituído por Goa, Damão e
Diu), Macau e Timor.
Portugal nunca aceitou a descolonização
(interesses econômicos e a propaganda da grandeza do país).
Em 1955, Portugal
entra para a ONU e é orientado para que libertasse suas colônias. Porém, o
regime declarou as colônias “províncias ultramarinas” e concedeu a cidadania aos
seus habitantes, causando certo descontentamento na ONU.
Em 1961, após uma
guerra, Goa, Damão e Diu são as primeiras colônias a se libertarem.
Em 1961, o MPLA
(movimento Popular pela Libertação de Angola) inicia uma rebelião em Luanda; a
UPA (União das Populações de Angola), posteriormente denominada FNLA (Frente
Nacional de Libertação de Angola), inicia violentos ataques no norte da colônia
e depois de alguns anos, a UNITA (União Nacional pela Independência Total de
Angola), começa uma luta de guerrilhas.
Salazar
posicionará perante essas rebeliões com o lema: “Para Angola, imediatamente e em força”.
A Guerra de África só terá solução após as
mudanças ocorridas em 1974, por meios políticos e diplomáticos.
Em Angola (país no qual o narrador de “Os cus de Judas” serviu ao exército
português por 27 meses), a diplomacia teve problemas de ordem interna e
internacional e teve que negociar com os três movimentos presentes no
território angolano: MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), UNITA
(União Nacional pela Independência Total de Angola) e FNLA (Frente Nacional de
Libertação de Angola).
A independência
foi proclamada em 11 de novembro de 1975, porém seguiu-se uma guerra civil até
1995.
O MPLA foi
constituído entre os anos 50 e 60 e agrupava as principais figuras do
nacionalismo angolano e com a direção de Antonio Agostinho Neto, dirigiam a
luta armada contra o colonialismo português.
Com ideologia
marxista-leninista, o MPLA após a luta de libertação, iniciou uma luta interna
contra as tendências da FNLA e da UNITA e governou Angola como partido único
até 1991
Em 1992 venceu as
primeiras eleições, embora essa vitória não tenha sido aceita e o país tenha
voltado à guerra.
O MPLA possuía
propensão entre a social democracia e o socialismo e ainda representava a maior
força política em Angola.
Desde 1997,
Angola caminha para a reconciliação interna, presidido por um Governo de
Unidade e Reconciliação Nacional.
O narrador de “Os cus de Judas” tratava dos feridos que
lutavam contra o MPLA.
IV – FOCO
NARRATIVO:
Narrado em primeira pessoa do singular, um
narrador-personagem reproduz a sua história (seu passado, seu presente) de
forma fragmentada a uma interlocutora (uma mulher) silenciosa e sem qualquer
participação narrativa.
V – TEMPO:
Cronológico: horas passadas no bar e no apartamento do
narrador e os 27 meses em que o narrador esteve na África, narrada depois de 8
anos passados.
Psicológico: as memórias da guerra e da infância.
VI – ESPAÇO:
Angola, na África e as várias cidades, vilas e regiões
mencionadas pelo narrador e retratadas e, Lisboa, Portugal, no apartamento do
narrador. São citados vários lugares de Portugal, bairros e ruas de Lisboa.
VII – LINGUAGEM:
-
Ironia, caricatura e humor negro;
-
Introspectiva;
-
Estrangeirismos (barbarismos);
-
Imagens surrealistas;
-
Figuras de linguagem em excesso;
-
Termos de baixo calão;
-
Períodos longos;
-
Rebuscamento estilístico
- Experimentalismo.
VIII – PERSONAGENS:
-
NARRADOR-PERSONAGEM:
- Homem por volta dos quarenta anos de idade que no momento
da narração servia no exército português como alferes-médico. Quando
adolescente vivia perseguido por conflitos íntimos e traumas, que sempre vinha
à tona em suas lembranças marcantes do passado (tias, fotografias de velhas
senhoras, de generais, bombeiros, o Jardim Zoológico) e, principalmente, quando
se apresentou à tropa para “tornar-se homem” - recomendação de suas tias.
Casado e pai de mais de uma
filha (referência no plural durante a narrativa), teve sua formação
interrompida depois de ter passado 27 anos em Angola,
A guerra causou-lhe desequilíbrio
emocional, transformando-o num indivíduo fragilizado, desorientado, viciado e
inadaptado.
O narrador perde sua família,
sente-se um estrangeiro nos tempos de guerra e em seu próprio país. Seus únicos
consolos para fugir dos “cheiros da guerra” são o álcool e os encontros
passageiros com mulheres.
A história do narrador confunde-se com a do próprio autor, dando um caráter confessional e autobiográfico na obra.
-
INTERLOCUTORA:
Pouco se sabe sobre a mulher que o acompanha no bar e
depois em seu apartamento. Sempre calada, sua “fala” não se concretiza,
manifestando-se apenas implicitamente. Não é jovem, tem cabelos encaracolados,
magra e belos seios.
-
TIAS:
Senhoras idosas, moradoras em casas que cheiram a fechado,
com mobília antiga, incentivaram o narrador a se tornar homem através da guerra
e depois concluíram que nem a guerra o corrigiu.
Bisavô do narrador-personagem. Responsável por abrir a
trilha na qual o bisneto passará. Apresentado por uma fotografia ameaçadora
representa o tradicionalismo e o conservadorismo português.
-
TENENTE:
Companheiro de guerra do narrador-personagem confidenciava-lhe
sobre o caso que mantinha com a criada em Lisboa.
Ficou abatido quando recebeu uma carta de sua esposa,
comunicando a dispensa da criada. Vivia pedindo ao médico que lhe arranjasse
uma doença para livrá-lo da guerra.
Personagem de palavras de baixo calão auxiliava o médico,
porém tinha horror a sangue.
-
EX-MULHER E AS
FILHAS:
Conheceu-a em Tomar e casou-se quatro meses antes de
partir para a guerra. Não acompanhou o nascimento da primeira filha e agora,
separado de sua esposa, vê quinzenalmente as filhas com as quais tem um
relacionamento frívolo.
-
SOBA:
Um dos líderes do povo angolano. Representa a destruição
da guerra. De líder, foi rebaixado a costureiro da tropa e quando a máquina
chegou, sentia-se um inútil.
- SOFIA:
Jovem lavadeira angolana que o narrador se relacionou. Foi
levada pela PIDE, depois de ter sido estuprada pela tropa.
- ISABEL:
Jovem amante do narrador-personagem e de personalidade
forte e determinada serviu-lhe de ponto de apoio e abandonou-o por não aguentar
o seu mau humor.
IX – TEMÁTICA:
-
Violência e o sem sentido da guerra;
-
Medo e solidão;
-
Neurose de guerra;
-
Sexo;
-
Alcoolismo;
-
Influência familiar;
-
Perda dos sonhos e do idealismo;
-
Dificuldade de relacionamento.
X – RESUMO DA OBRA:
CAPÍTULO A
Através de um monólogo e tendo em companhia uma
interlocutora não identificada, o narrador-personagem, em primeira pessoa,
inicia o seu relato rememorando retrospectivamente, os passeios de domingos ao
zoológico com os irmãos e o pai, quando criança.
Ele descreve as impressões e sensações através de um ritmo fluente, linguagem metafórica e sugestões surrealistas a estranheza que os bichos e os frequentadores do zoológico lhe causavam. Lembra-se, em seguida, de sua família: a casa em que cresceu; a asma do pai; a mulher dos amendoins que morava debaixo da varanda da casa dos pais e desabafava com sua avó as bebedeiras de seu marido; a cama da mãe; o retrato de um tio bombeiro; a janela do quarto dos irmãos e as tias, senhoras idosas “se movendo em arrancos pelo chão coberto de tapetes dos apartamentos cheirando a fechado, a gripe e a biscoito”.
Recorda-se das
reuniões familiares e das tias que “diziam-me
que era muito magro, apontavam velhas fotografias de generais furibundos nas
paredes e profetizavam pela infância e adolescência afora dos sobrinhos: felizmente
que a tropa há de torná-lo um homem”, enquanto que os tios beliscavam as
nádegas da criada.
A descrição do
seu cotidiano revela uma hipocrisia, onde família, religião e governo são as
bases de sustentação para a educação e o “bom viver” dentro de uma sociedade.
O
narrador-personagem misturando cenas carregadas de expressionismo passa, então,
narrar o seu embarque para Angola com as tropas portuguesas, defendendo a
política de Salazar, contra o Socialismo e a Democracia; sentindo-se um
idiota-patriota, mas, que para o povo, era um herói (um homem!) como médico
militar e a família presente na despedida, felizes e acreditando que, o Governo
finalmente, o faria homem.
“Vivíamos todos sob as bênçãos de Salazar, da
PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, com a função de reprimir e
precaver a criminalidade. Porém, semelhando ao fascismo, repreendia, censurava
e torturava) e da Igreja”
O protagonista
relembra-se de um quadro “representando
os uivos do povo diante de uma guilhotina” e relaciona-o como visse a sua
própria morte.
CAPÍTULO B
O narrador-personagem relata a preparação para sua partida
e contato com o ambiente militar (masturbação, horários, farda, cabelos
raspados) e “a metamorfose da larva civil
a caminho do guerreiro perfeito”. Em seguida, critica a presença das
senhoras do “Movimento Nacional Feminino”, senhoras oriundas de famílias
tradicionalistas que entregavam “santinhos” de Nossa Senhora de Fátima e
porta-chaves com o retrato de Salazar, ameaçando as pessoas com a lembrança da
PIDE, do Inferno, rezando Padre-Nossos nacionalistas, distribuindo cigarros e
apertos de mãos com grande entusiasmo na partida dos soldados.
“No navio, senti Lisboa afastar-se de mim, o
sem-sentido daquilo tudo e o peso da solidão”.
Os boleros para
os oficiais e o cheiro de vômito que vinha dos porões, onde estavam os
soldados, faz lembrar seus vômitos de menino acompanhado pelo coro familiar de
“Papagaio Loiro”, que cantavam para fazê-lo comer. No dia seguinte, chegam à
Madeira – Alenquer, trocando o inverno de Lisboa pelo verão do Equador.
CAPÍTULO C
Chegam á Luanda, capital de Angola, ilha
de pobreza (esgotos ao pé da cidade, cães vomitando lixo, latas vazias de
conservas, água com aspecto de creme solar turvo), prostitutas e calor.
A descrição de
Luanda com sua miséria, crianças famintas leva o narrador o refletir sobre a
condição humana e buscar na bebida e no sexo barato uma forma de evasão, além
da ironia que, “de fato, e consoante as
profecias da família, tornara-me um homem.”
O narrador-personagem, então, sugere que deviam erguer um monumento ao escarro.
O navio vinha cheio de caixões de defunto e a distração era adivinhar quem os ocuparia primeiro.
O
narrador-personagem convida a interlocutora a continuarem a beber, chama o
garçom, dá-lhe uma gorjeta magra e de uma forma animalesca, convida-a fazerem
amor mais tarde.
O navio que o
trouxera até Luanda estava de partida e a certeza que Lisboa ficara para trás,
causava medo e desejo intenso de viver.
CAPÍTULO D
O narrador
confessa ser terno, ter medo do ridículo, ser simpatizante da classe
trabalhadora e contra a burguesia. Afirma que no período em que esteve em
Angola tinha muito cabelo, embora aparado militarmente e agora, gostaria de
esconder sua calvície em um chapéu tirolês.
Narra sua viagem
de Luanda a Nova Lisboa, deixando para trás o cotidiano que já não lhe
pertencia e acrescenta que jantava em restaurantes mantendo a espingarda entre
os joelhos e sendo vigiado por olhares de negros de óculos escuros.
Volta a fazer
digressões sobre sua infância, sua educação e dos limites a ele impostos
(censura do canto nono de “Os Lusíadas”).
Seguem de trem
para um vilarejo chamado Luso, e lá, recorda-se de seu bisavô, o General
Machado, impondo sua valentia e heroísmo. Ele ajudara construir aquela estrada
de ferro, por onde agora passava e, no entanto, ninguém o conhecia, mas sua
família fazia questão de exaltar suas façanhas como uma epopéia.
No Luso, veria
pela última vez resquícios de seu mundo e o desespero tomava conta de todos.
“Seis anos atrás, eu descia do Luso para as
Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilômetros de Luanda (...) inicie a
dolorosa aprendizagem da agonia.”
CAPÍTULO E
Gago Coutinho
ficava a
Uma vez por
semana, o narrador com a ajuda de um enfermeiro negro, o Jonatão, distribuía
remédios aos doentes e feridos, que pareciam desenterrados vivos, mesmo sabendo
que esses medicamentos eram inúteis para evitar-lhes a morte. Os doentes são
descritos de forma caricatural e expressionista.
Mete Lenha,
proprietário do café local, o refúgio das tardes de domingo, era casado com uma
mulher muito gorda, de “nádegas
atlânticas”. Lá, o tenente confessou ao narrador seu relacionamento amoroso
com sua criada e a necessidade de fazer sexo constante com ela para que
adquirisse amor pela casa.
Descreve em seguida, o hospital civil: local sinistro e sem recursos.
Os negros doentes, sem terra, sobrevivendo de esmolas e
aterrorizados pela PIDE, fugiam para á mata, eram mortos ou ajuntavam-se ao
MPLA, “o inimigo invisível que
estraçalhava os nossos soldados”.
Em pleno desespero, o narrador questiona-se: “são os guerrilheiros ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, os Americanos, os Russos, os Chineses, o caralho da puta que os pariu combinados para nos foderem os cornos em nome de interesses que me escapam, quem me enfiou sem aviso neste cu de Judas de pó vermelho e de areia...”
À noite, enquanto os oficiais praticavam sexo barato (cartuchos de hortelã, pimenta), ouvia-se na viola uma cantiga: “o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo”.
Às vezes, apareciam algumas visitas: oficiais do Estado-Maior, senhoras quinquagenárias sul-africanas, duas atrizes de revista. O narrador comenta que ficou sabendo que na Baixa do Cassanje os negros eram obrigados a cavar um buraco na mata, deitar-se nele e esperar o tiro na cabeça.
O narrador elogia o silêncio e a imobilidade da interlocutora.
CAPÍTULO F
Volta ao passado
em Angola, “(...) e agora nos Cus de
Judas – o médico competente e responsável que desejavam que eu fosse
consertando a linha e agulha os heróicos defensores do império.”
Em seguida,
lembra-se de sua família em Lisboa: o pai se barbeando no espelho e sua esposa
esperando um filho que ele não veria nascer. Lamenta-se não ter demonstrado
carinho por eles e de não ter sido a pessoa idealizada pela sua família para
servir de exemplo aos netos indiferentes.
CAPÍTULO G
Em Ninda, os alojamentos eram precários; havia falta de
alimentos; a água estava contaminada; doentes arrastavam e a atmosfera lembrava
a um hospital psiquiátrico de Lisboa.
O narrador relata que em pleno combate, protegeu-se num buraco, viu a morte chegar e pensou em sua esposa. Ela, que ele amara em Tomar e que hoje envelhecida, continuava ter a mesma beleza que quando a conhecera; sofreu pelo filho que estava por nascer e nos romances que tinha para escrever.
À noite, jogava xadrez com o capitão e falavam sobre líderes socialistas, que com certeza, deixariam chocados seus familiares. Depois, refletiam sobre o que restará deles quando a guerra terminar e como se adaptaram à vida civilizada. Questiona, em seguida, como a interlocutora dormia: será como uma artista decadente do cinema americano, com venda negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas?
Retoma a refletir sobre a sua vida: suas filhas cresciam em casas que não recordaria e nas mulheres que encontrou e abandonou ou foi abandonado por elas e concluiu que, é “um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera...”
Reflete sobre o “que fizeram do meu povo, o que fizeram de nós” e “em que a guerra o transformou?”
CAPÍTULO H
O narrador-personagem pede à interlocutora a mesma atenção
que os soldados ouviam os apelos do rádio e narra-lhe o seu primeiro morto que
presenciou.
Ele tinha
esperança que o ferido ainda respirasse. Embrulhou-o num cobertor, colocou-o em
seu próprio quarto e recomendou-lhe que dormisse bem a sesta. O morto, depois, foi
levado por um helicóptero a Gago Coutinho.
A verdadeira intenção era esconder o lixo vergonhoso da
guerra, enquanto que, no rádio anunciava:
”Morre-se mais nas estradas de Portugal do que na guerra de África”.
Era abril de
1971,
O narrador
lembra-se que, em 1961, era estudante revolucionário e fugiu da polícia e da
PIDE, que perseguia os movimentos estudantis nas faculdades. E, que em 06 de
janeiro de 1971, ao embarcar para Angola, chorou no banheiro.
Os fatos vão se
misturando na mente do narrador e de forma não linear, narra a ditadura de
Portugal, os mortos da guerra, o momento que o Hospital Militar de Tomar lhe
deu a notícia do seu recrutamento, a companhia da ouvinte, do capitão, a perda
da perna de um soldado, as coxas do outro...
CAPÍTULO I
Narra-lhe que em
22 de junho de 1971, no Chiúme, o último dos cus de Judas do Leste, foi
encaminhado a uma sala cheia de fotos de mulheres nuas que servia para a
masturbação da sesta, e lá, recebeu a notícia do nascimento de sua filha.
Ele havia casado
quatro meses antes de embarcar e essa filha era a esperança da redimissão dos
seus erros.
No entanto, encontrava-se
no Chiúme; enquanto que as senhoras do Movimento Feminino pensavam nos
soldados, embaixo dos secadores de cabelo; os patriotas da União Nacional
compravam roupas íntimas para as secretárias; a Mocidade Portuguesa preparava
heróis que os substituam; os homens de negócios fabricavam material de guerra a
preço módico, o Governo, pagava pensões miseráveis às mulheres dos soldados e
eles, mal-agradecidos morrendo!
“No Chiúme só a mão do alferes Eleutério
pousada sem palavras sobre o meu ombro fazia-me sentir acompanhado.”
Três horas da manhã, o narrador propõe pagar a conta, para
representar o jovem tecnocrata ideal português e depois, volta às suas
lembranças da guerra. Explica sobre o oficial catanguês, antiga província da República do Congo, hóspedes
de luxo trazidos pela PIDE com a missão de aterrorizar os guerrilheiros. Era a
tropa mais indisciplinada e violenta da guerra. Usavam as mulheres do soba com
a mesma naturalidade que usava a escova de dentes do narrador. Conta que o
tenente foi reprimido por esses oficiais e chegou a implorar que o narrador lhe
diagnostica-se uma doença qualquer, para ir para a reserva; pois, não aguentava
mais àquela situação, principalmente, agora, que recebera uma carta de sua
esposa, contando-lhe a demissão da sua criada.
Depois de 11
meses, sem conforto; sem um corpo, sem amor, só masturbação, sem conhecer sua
filha e já se esquecendo da fisionomia de seus amigos; partiu para Luanda.
Em Luanda é
assediado por uma hospedeira. A seguir, toma o avião com destino a Lisboa, de
férias.
CAPÍTULO L
O narrador divaga com a interlocutora
sobre como seria envelhecerem juntos, “eu,
você e a televisão, a santíssima trindade do lar.”
Fala sobre a sua
chegada em Portugal e a revista de um funcionário da alfândega que desconfiado,
fiscaliza sua bagagem à procura de metralhadoras.
“(...) Trago um feto de 8 meses.”
“– Vocês vêm de Angola convencidos que são uns
grandes homens, mas isto aqui não é o mato, sua tropa”.
“– Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.”
Depois, segue a curiosidade do burocrata
idoso, perguntando-lhe se o feto estava num frasco; a piedade de uma senhora
comentando que todos voltavam assim da África e a indiscrição dos olhares, como
se olhassem os aleijados que rastejam de muletas nas cercanias do Hospital
Militar, fabricados pelo Estado Novo.
No táxi tenta
reconhecer sua cidade:
“– Merda de país de
merda!”
Ao chegar ao seu
lar depara-se com “uma mulher na cama e
uma criança no berço e ele parado ecoando os sons da guerra. Ao tocar em sua
esposa, ouvia as frases do tenente:
- Pôr selo na
patroa!
E no Luso, sentia
fazer amor por todos: os capitães, os sargentos, o Ferreira sem perna...”
Volta a falar com
a ouvinte, dizendo que um dia lhe mostraria a foto de sua filha, “àquela que não vi inchar na barriga da mãe”.
Estava de licença
por apenas alguns dias. Então, de novo a partida e imagem da esposa calada
encostada a uma coluna.
CAPÍTULO M
O narrador
diz-lhe que vive sozinho e que recebe quinzenalmente a visita de suas filhas.
Há, também, uma cabo-verdiana que ele se comunica através de bilhetes e que
cuida da arrumação da casa e da roupa. Acrescenta que o próprio varal de sua
casa, só ostentando roupas masculinas, denuncia a sua solidão.
Referindo-se aos
“seus amores”, explica-lhe que são encontros passageiros, “que sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do
deslumbramento e da ternura de que já conheço de cor os mínimos detalhes, desde
o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo
para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidê, onde as grandes
efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna.”
Depois da higiene
feita às pressas num bidê, resta um beijo sem batom e a trocas de telefones que
ficaram esquecidos.
O narrador, em seguida, questiona como é o
cotidiano da ouvinte e de maneira fria, diz que prefere ir para a sua casa, por
não gostar de cheiro de incenso, que provavelmente deva ter na casa dela.
Continua o relato
do seu retorno à Luanda e completa dizendo que, depois de jantar sozinho num
restaurante, foi procurar a hospedeira que conheceu antes de sua partida.
A casa cheirava
roupa para lavar e comida enlatada de animais. O sorriso da moça era carnívoro,
o cão não parava de arranhar a porta da cozinha e por mais que a hospedeira
tentou excitá-lo, ele não teve reação, “rodei
até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar”.
CAPÍTULO N
Na volta ao Chiúme, o narrador comenta que ninguém estranhou
a sua volta, sequer o notaram. Todos
treinados para morrerem sem protestos, serem cobertos com a Bandeira Nacional e
enviados para a Europa nos porões dos navios com suas medalhas. Jogados numa
guerra, com discursos heróicos, vigiados pela PIDE e condenados a ler nos
jornais somente louvores ao Estado Novo, enquanto o MPLA deixava mensagens: “Deserta, mas para onde se só havia areia
Os coronéis
exigiam resultados, gritando que “ganharíamos
a guerra”.
As viaturas eram
poucas, de modo que os homens iam à frente procurando minas a fim de poupar o
veículo:
“Um
filho faz-se em cinco minutos e de graça...uma viatura demora semanas ou
meses...”
“Mas, porque os filhos dos seus ministros
não estão aqui como a gente?”
Na volta de um
combate sentem a falta de um dos homens: era o furriel. Ele estava sentado a um
canto e dizia: “estou farto desta guerra
que nem a tiro vou sair daqui.”
“Prezado Salazar se você estivesse vivo e
aqui, enfiava-lhe uma granada sem cavilha pela peida acima...”
E, mandávamos cartas dizendo que estávamos bem, vivos e que até havíamos engordado.
CAPÍTULO O
O narrador relata
o final de seu casamento: “numa paz feita
de alívio, despedindo-se no elevador como dois estranhos e trocando um último
beijo”. Depois, passou vagando por um ano de cama em cama, procurando companhia
e frequentando o cinema solitário de madrugada.
Lembra-se do
natal de 1971, em Chiúme: estava só, sem ninguém da família e recorda-se da
casa do avô. Começa a delirar, confunde-se com o ferido que volta de uma
operação na mata e sente que está aplicando a seringa de adrenalina por ele
mesmo no seu próprio coração.
“Não bebi demais,
mas engano-me sempre na chave, talvez por dificuldade em aceitar que é este
prédio...”
Ele desabafa à
ouvinte que se sentia como se nunca estivesse exatamente onde parecia estar;
fala sobre seus medos e que às vezes, ao entrar em sua casa teme ter outra
família em seu lugar.
Revela que um dia recebeu um telefonema por engano e teve
a sensação que ele era um estranho em sua própria casa.
Lembra-se de que
à medida que os filhos partiam, sua mãe transformava seus quartos em salas.
Retorna a falar
sobre Angola e diz que “o batalhão se
deslocou ao norte, às Terras do Fim do Mundo, onde havia extrema miséria,
governadas por chefes de postos alcoólicos...reinando sobre um povo conformado,
sentado à porta das cubatas numa indiferença vegetal.”
O narrador
apresenta o seu apartamento à interlocutora, cheio de pias batismais, poucos
móveis e sem vista para o mar, “estou a
salvo de partir naquelas aventuras interiores para a Índia de um sonho”.
Oferece um brinde
ao futuro e pelo coma.
Recorda-se que os
soldados tiraram retrato com a coxa amputada de um guerrilheiro do MPLA, como
se fosse um troféu de guerra.
Seguiram, em
seguida, em direção a Malanje e ao chegarem à base portuguesa, foram proibidos
de dormir na cidade, para que não expusessem suas doenças aos oficiais ali
instalados.
CAPÍTULO Q
O apartamento do narrador era praticamente sem mobílias
dando espaço aos sonhos e causando à sensação de provisório, “que me permite adiar indefinidamente o
presente”.
Das janelas
observa operários que trabalham arduamente desde cedo e chega a sentir inveja dos
seus horários e de sua vida. Ele, ao contrário deles, só sairá de seu
apartamento à noite em busca de bares.
Essa vida,
embora, parece ser fácil possui desvantagens: os amigos afastam-se, a família
recua, os colegas de profissão comentam sobre sua incompetência e os pacientes
desconfiam de suas olheiras e seu cheiro de álcool.
Durante um ano, o
narrador afirma que morreu diariamente não a morte da guerra, mas a agonia da
espera de voltar para a família, o hospital, cinema, amigos...e hoje, às vezes
acorda com uma mulher que conheceu há algumas horas antes, num bar.
Conta que viveu
durante um ano em Marimba, onde prisioneiros eram trazidos pelos jipes da PIDE
para cavar sua própria sepultura.
O narrador
confessa que um dia pode vingar-se do oficial responsável por essa barbárie,
costurando sua nádega rasgada num vaso sanitário, sem anestesia.
Passado algum tempo, substituíam os líderes
mais respeitados pelos mais obedientes e o soba, na senzala, ridicularizado por
se dobrar àquele governo, vagava com um doente mental.
CAPÍTULO R
O narrador
enquanto espera a manhã chegar, propõe fazerem amor.
“Essa espécie de ginástica pagã que nos
deixa no corpo, depois de acabado o exercício, um gosto suado de tristeza no
desastre dos lençóis.”
Diz-lhe que já
viveram demais e não correm o risco de se apaixonar; mesmo porque, seria uma
maçada: ciúmes, saudades, dividir o mesmo lençol...
Retorna a
descrever a guerra e das ocasiões em que entrava nas senzalas a distribuir
remédios e era recebido com os insultos dos negros expulsando-o de lá e
alegando que “não precisamos de vocês
para nada, porque não era a eles que eu tratava, era à mão-de-obra barata para
os fazendeiros brancos.”
CAPÍTULO S
Diante do
espelho, o narrador lembra-se de Sofia. Era uma negra lavadeira que vinha ao
arame entregar a roupa engomada dos soldados. O narrador a conheceu
“Falta-me o teu
sorriso, as tuas mãos no meu corpo, as cócegas dos teus pés nos meus pés. (...)
A gargalhada de prisioneira livre tocou-me como um gesto de irreprimível
ternura.”
“Sua casa cheirava a vivo, algo tão raro
naquele fim de mundo, onde tudo era morte.”
Uma noite, porém, ela não estava a
esperá-lo. Uma velha de cachimbo, provavelmente sua mãe ou avó, contou-lhe que
a PIDE a levara.
O narrador, no
dia seguinte, dirigiu-se ao quartel da PIDE em busca de notícias de Sofia,
àquela única pessoa que conseguia fazê-lo sentir-se vivo. No quartel foi
informado pelo chefe da brigada que a estupraram e a mataram. Ao sair do
quartel da PIDE, a única reação do narrador foi dar uma gargalhada
O narrador
retorna à sala e continua narrando fragmentos da guerra de oito anos atrás e os
efeitos dela sobre sua pessoa e sua personalidade.
CAPÍTULO T
“Deixe-me desapertar-lhe o soutien”.
O narrador
acaricia a ouvinte, faz-lhe declarações poéticas, mas as imagens do soldado de
Mangando que se suicidou com um tiro no pescoço, fazendo com que a metade
inferior de seu rosto desaparecesse, voltam a perturbá-lo.
O soldado
padecia e o narrador tinha vontade de fugir dali e de estar ao lado de sua
filha, fazer revoluções nos cafés de Paris, doutorar-se em Londres, falando mal
do seu país.
“Seria capaz de dar o cu para estar longe
dali”.
A relação sexual
será interrompida pelos gritos que o narrador escuta dos mortos da guerra que
não conseguiu salvar.
Acabado o ato sexual, o narrador pergunta se ela gostou,
pede-lhe desculpas por não estar em forma e comenta que irá se inscrever nos
cursos que transformam os homens em Hércules eficazes.
Volta a narrar o
seu desespero a beira de uma natureza exótica do Rio Cambo, “seus crocodilos e suas jibóias, rio de onde
nasciam as trovoadas cheias de raios na época das chuvas, de onde se chamavam
tristes deuses de pau com vozes guturais, onde as lavadeiras trabalhavam
enquanto eram espiadas pelos soldados a se masturbar.”
Fala sobre o
negro que perdeu a perna, devorada pelos jacarés do rio Cambo; sobre os
camaradas mortos na mata onde a passagem fora interrompida por uma árvore
inesperada; sobre a partida dos últimos companheiros mortos, estendidos no chão
ao lado dos alimentos e da inveja que despertavam por voltarem primeiro para
Lisboa.
Já está amanhecendo
e o narrador conclui que o único lugar que não foi contaminado pela guerra foi
à casa da tia Teresa, negra gorda, maternal e sábia.
CAPÍTULO V
“Conhece Malanje?”
O narrador inicia
sua narração descrevendo a cidade de Malanje. Era a cidade dos diamantes onde
todos traficavam, cercada de casas de putas, de eucaliptos e de uma luz
miraculosa.
Lá, ele viu um
oficial estuprando no banheiro uma prisioneira e sentiu vontade de urinar sobre
eles.
O narrador pede
para que a ouvinte fique com ele até que ele adormeça, ou até que chegue a
próxima noite. E termina, dizendo que sente como quem flutua entre dois
continentes que o repelem.
CAPÍTULO X
O narrador revela sua solidão, seu cansaço e sua tediosa
vida. Confessa que gostaria de voltar ao seu ponto de partida: família, os
irmãos, os amigos, as filhas e Isabel.
“Quando penso em Isabel não tenho receio do
escuro.”
Ela sempre foi o
seu ponto de apoio e não mediu esforços para auxiliá-lo a reconstruir sua vida,
mas, perante tantos conflitos, acabou por desistir.
Fala à ouvinte
sobre a incerteza e impossibilidade de um novo encontro, mas queria registrar que
gostou dela e chegou a imaginar uma vida ao seu lado. Completa, afirmando que
quando ela se for, baterá a porta, como bateu a porta da África ao regressar a
Lisboa.
Conta-lhe a
humilhação que passou ao desembarcar em Portugal e ter sido examinado por um
médico homossexual o “seu mijo, a merda,
o sangue, para que não infectasse Portugal”.
CAPÍTULO Z
Amanheceu e o
narrador ainda sobre o efeito do álcool, levanta-se para acompanhar sua ouvinte
até a porta.
Agora tudo é real,
a ouvinte seguirá seu caminho como se nada houvesse acontecido e tudo o que
viveu não passou de um grande pesadelo.
“A guerra não é real, nunca existiu...e que
passaram 27 meses de angústia e de morte juntos...e separamo-nos em cinco
minutos, um aperto de mão...”
Na despedida, fala sobre sua reação ao
retornar a Lisboa. A cidade parecia-lhe estranha e ele não a reconheceu,
passadas algumas semanas visitou suas tias que depois de uma longa inspeção das
mesmas, concluíram que estava magro:
“Sempre esperei que a tropa te tornasse um
homem, mas contigo não há nada a fazer”
O narrador
explica o caminho para a ouvinte e diz que ficará por mais um tempo por lá,
limpará os cinzeiros, lavará os copos, arrumará a sala e “talvez volte para a cama desfeita, puxe os lençóis para cima e feche
os olhos. Nunca se sabe, não é? mas pode bem acontecer que a tia Teresa me
visite.”