quinta-feira, 21 de maio de 2026

RESUMO E ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA DA OBRA "AS MENINAS", LYGIA FAGUNDES TELLES

RESUMO DO ENREDO: "AS MENINAS", LYGIA FAGUNDES TELLES

O livro narra a história de três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e terminam por separar-se definitivamente.

Composto por DOZE CAPÍTULOS que não têm nome, mas números:

UM - Lorena Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo Schultz, que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o carro de "mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena, conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos frequentes presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (aliás, passa o livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranquilizantes que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max, traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao contrário", para dar sorte) para o "aparelho"(= grupo de resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e suas consequências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da (s) amiga (s).

DOIS - Ana Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada, apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo, 1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr. Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus - e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos (ratos, baratas) e cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos amantes. Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as joias da família e encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é difícil e complicado.

TRÊS - Lorena reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade com o texto A Máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade), como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora a chegada de Lia e Ana Clara e a "invasão" das duas à sua privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e magra, mostra certa inveja da beleza de Ana Clara, apesar da diferença cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D. Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista). Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino", enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade de Direito). Ana Clara "arrombou" a privacidade de Lorena, obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima, mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio). Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira, irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral. Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na falta de luz e subsequente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando um amor edipiano.

QUATRO - Max delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (Ana Clara) sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços - Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o saco de ouro (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa na praia, onde Ana Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar. Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo. Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve estar inquieto com o atraso.

CINCO - Lorena aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante, Beatriz), em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo. Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e as freiras, para Madre Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir (escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo"). Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias. Coloca um Noturno de Chopin e serve constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.

SEIS - Na sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia ("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano), engajamento político-social, atuação da Igreja progressista, casamento de padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre, que lhe conta sobre a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz, conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade, do presente (fases da vida!...); de Ana Clara, Max e seu envolvimento com drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se impotente e teme por seu futuro. Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que serve para a vida das duas: Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei (Gênesis).

SETE - Irmã Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema ... Quer ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais, dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em latim, enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai. Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e diz que esta é edipiana. Ambas se mostram preocupadas com a gravidez de Ana "Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira vez" (M.N. é ginecologista, um "gentleman").

OITO - Ana Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm álbum de retratos... Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar seus sumiços. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 horas da noite. Não consegue táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento. Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de boêmio - retratos na parede, vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e temível da paixão infinita e insaciável.

NOVE - Na banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo - na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto identificação, transferência de afetos. Lia quer provar que M.N. está mais para pai que para namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus, religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.

DEZ - Lia pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho, consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade. Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos, enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do psiquiatra Dr. Francis. Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo (falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum de fotos na garagem: acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por autodefesa. Ganha roupas e mala para a viagem.

ONZE - Tarde da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos e finalmente Ana Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente Lia chega para preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que Guga virá procurá-la. Não veem futuro na relação com M.N., que jamais abandonará a família, pois a dor do remorso dói mais que a dor física (Tolstói). Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: Ana Clara está morta.

DOZE - Lia corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de Ana Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela amiga, além dos "discursos". A bolsa de Ana Clara está aberta: talvez dali ela tirara a própria morte. Lorena tem ideias e age: encomenda o corpo, reza em latim, veste e pinta Ana Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas as pistas comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As duas amigas carregam Ana Clara através da noite providencialmente nebulosa e abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio. Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura hóspede, que vem do Pará.

Temos os elementos de uma equação dramática, que pode ser recompreendida da maneira seguinte:

1. No nível intersubletivo (eu x eu x eu), as meninas se dão bem, formam um destino comum e provisório no pensionato. Nós nos acostumamos a pensar nas três, a contar com as três, e querer que as três continuem juntas. Entretanto, cada uma está presa a um tipo de paixão que conspira contra a unidade. De certa forma, tão jovens, estão jogando a vida fora.

2. No plano da subletividade, os três projetos são falidos por princípio: Lia terá de se esconder da polícia. Seu amante é preso, e depois solto, em troca de um refém. Nesse espaço de tempo, teve uma relação frustrada com Pedro, jovem tímido e indeciso. Lia acredita que irá com o namorado para a Argélia (mas, ao fim do livro, não sabemos se ela foi de fato). Tranca seu curso de Ciências Sociais, envolve-se em confusões, e vive de sustos. E Ana Clara? Ana Clara quer de novo a virgindade, e pensa casar com toda a pompa, ter marido rico, dirigir um Jaguar novinho em folha, bancar a rica. Abandona a Faculdade, onde estudava Psicologia. E não quer deixar o amante. E afunda-se cada vez mais na dependência. E a veneração de Lorena (que faz Direito na USP) é por um fantasma, um homem que não dá sinal de vida. Lorena só pensa nele, e, sob esse aspecto, seu lamento gracioso lembra o das "cantigas d’amigo" medievais. Ela não pode ouvir o som do telefone, que sai correndo afobada e esperançosa. Lorena não quer nada com droga ou com política. Mantém-se virgem, para esperar seu M.N.. Lorena tivera algum namorico anterior, com o Fabrízio, e depois com o Guga. Mas tudo isso não era nada, diante da paixão que sentia agora pelo clínico misterioso.

Vê-se, portanto, que os três destinos marcham para a dispersão. Isso configura, como vimos, uma síntese entre o drama cultural e o drama pessoal. Que é, aliás, o drama da menina em sua passagem para mulher. É o drama da definição e da busca de um caminho. Um caminho que passa necessariamente pela esfera masculina. Pois é sempre o homem (esse ausente) que decide sobre as coisas.

3. O clímax do livro ocorre com a morte súbita (mas nada estranha) de Ana Clara, nos aposentos de Lorena. Lorena passa então por uma confusão mental. Que fazer? Mas Lia acaba chegando, e ela e Lorena vestem elegantemente a falecida, retiram-na silenciosamente do pensionato (para evitarem a polícia), e colocam o seu corpo furtivamente num banco de jardim de uma pequena praça, não sem algumas atrapalhações e juvenilidades que, não fosse a tristeza da hora, teriam sua graça e até comicidade. Lia e Lorena se separam. Aquela se prepara para deixar o Brasil, e se reencontrar com seu amante. Esta fica só, depois de uma inaugural experiência de coragem e desassombro, que fora essa aventura de carregar a morta pela cidade perigosa. É o fim. A impressão derradeira é de desconsolo e miséria cultural. É a dispersão dos destinos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Diversos são os elementos dessa obra de Lygia que permitem refletir sobre a representação da mulher, a começar pelo ponto de vista do enredo, que privilegia as três meninas. Junto da representação de seu cotidiano, vemos a representação de três personalidades fortes, mesmo que isso não seja tão perceptível desde o começo da obra. Lia, como já previamente mencionado, mostra-se ativa e resistente para a luta, nem que para isso seja necessário partir para um mundo totalmente novo (a Argélia, por exemplo). Sua militância de esquerda em prol de uma sociedade igualitária estende-se, também, para a causa feminista e, reiterando palavras já antes referidas, essa personagem parece representar o próprio engajamento social da autora.

Vemos referências à questão feminista na menina de apelido Lião (que sugere sua robustez, tanto física quanto moral), quando Lorena afirma que a amiga é leitora de Simone de Beauvoir, célebre feminista francesa, por exemplo: “Até as unhas dos pés cheguei a fazer outra noite enquanto Lião curtia Simone de Beauvoir. De Simone de Beauvoir para o sexo, foi um passo, porque o primeiro sexo, porque o terceiro sexo, porque o segundo” (TELLES, 1998, p. 114). Seu discurso é também condizente com a causa feminista, algo que se percebe no momento em que Lia trava uma discussão com o motorista de Lorena, ao falar de seus filhos:

“- A filha também lhe dá alegria?

Ele demora na resposta. Vejo sua boca entortar.

- Essa moda que vocês têm, essa de liberdade. Cismou de andar solta demais e não topo isso. Agora inventou de estudar de novo. Entrou num curso de madureza.

- E isso não é bom?

- Só sei que antes de fechar os olhos quero ver a garota casada, é só o que peço a Deus. Ver ela casada.

- Garantida, o senhor quer dizer. Mas ela pode estudar, ter uma profissão e casar também, não é mais garantido assim? Se casar errado, fica desempregada. Mais velha, com filhos, entende [...].

- A Loreninha também fala assim mas vocês são de família rica, podem ter esses luxos. Minha filha é moça pobre e lugar de moça pobre é em casa, com o marido, com os filhos. Estudar só serve pra atrapalhar a cabeça dela quando estiver lavando roupa no tanque. [...]

- E se ela casar com uma droga de homem e depois virar aí uma qualquer porque não sabe fazer outra coisa? Já pensou nisso? Me desculpe falar assim duro mas vai ter que prestar contas a Deus se começar com essa história de dizer, case depressa filhinha porque senão seu paizinho não morre contente. Se acreditar nela, aposto como ela vai querer merecer essa confiança, vai ser responsável. Se não, é porque não tem caráter, casada ou solteira ia dar mesmo em nada (TELLES, 1998, p. 220-221). “

Evidentemente, o discurso do motorista mostra-se como exemplo da postura patriarcalista, que enxerga liberdade e conhecimento como “luxos” desnecessários a uma mulher, ainda mais se ela for de classe baixa. A função dela resume-se basicamente ao trato da casa, do marido e dos filhos, e a maior aspiração que ela pode ter para a vida é o casamento. O mais interessante, porém, é que o discurso de Lia vem para questionar essa postura, enfrentando o preconceito estabelecido no pensamento do motorista e mostrando que as consequências desse comportamento machista são muito graves.

Analisando mais detalhadamente a personagem de Ana Clara, também é possível ver uma tentativa de subversão da ordem. Marcada pelos traumas de uma infância e uma adolescência desastrosas, a garota não se conforma com a ideia de continuar na mesma vida, reafirmando inúmeras vezes que logo tudo irá mudar para muito melhor. Apesar de sucumbir às drogas e ao alcoolismo – o que pode ser lido como uma válvula de escape para o seu sofrimento –, Ana mostra-se determinada a deixar para trás tudo que a maltratou até aquele momento, incluindo as más lembranças que a atormentam.

Tal bagagem de sentimentos, contudo, não lhe permite ter esperança quanto a uma melhor perspectiva para as mulheres, algo que ela constata quando em referência à Lia, defensora dessa causa:

“E Lião ainda com suas teorias de superioridade da mulher. ‘Mas onde? Papo furado. Uma cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica é o filho dependurado no peito. Pronto. Mas que guerrilha pode sair disso? Mulher tem que ser assim mesmo. Se embonecar. Vestir coisas lindas. A única vantagem que vejo é essa da gente fazer amor sem se sujar. A única. Preciso dizer isso pra Lião repetir nas reuniõezinhas dela’ (TELLES, 1998, p. 178). “

Suas palavras podem ser compreendidas pelo sofrimento e pelos constantes abusos físicos e morais de que foi vítima, junto de sua mãe, circunstâncias com as quais não teria padecido se fosse homem. Lembrando o trecho já antes citado, em que Ana fala do suicídio de sua mãe após os maus-tratos de seu companheiro e depois de ver-se obrigada a praticar mais um aborto, é claramente compreensível que a personagem quase não veja privilégios no fato de ser mulher. A saída que ela encontra para superar as desvantagens físicas é o embelezamento artificial que maquiagens e boas roupas podem oferecer, razão pela qual ela afirma, constantemente, que vai sair na capa de revistas. São palavras de Lorena sobre a amiga: “Mas então ela cruzou as belas pernas, contou as mentirinhas, ia ser capa de revista em Roma, o Conde Cicogna a convidara para jantar e etcétera etcétera” (TELLES, 1998, p. 206).

A determinação de Ana Clara, mesmo que para atitudes nem sempre boas, é prova de que estamos diante de uma mulher forte e confiante, cujas rédeas de sua vida, segundo ela, então em suas próprias mãos. Veja-se o trecho a seguir, em que Lia a censura com um olhar, vendo-a com picadas de seringa nos braços:

“Picada sim e daí. Paro com tudo quando bem entender. Vou ser capa de revista. Me casar com um milionário. Fique aí embananada porque o ano que vem. Como sou boa posso ainda ajudar você e seus piolhentos ajudo todos. Dou uma casa pra suas reuniões. Dou uma casa pra Loreninha que vai ficar sem nada com aquela mãezinha esbanjando a fortuna não tem importância não interessa. Resolvo tudo. Então fico verdadeira” (TELLES, 1998, p. 87).

A situação da mãe de Ana Clara também é merecedora de um olhar atento. Na condição de pobreza e na dependência de um companheiro, tal personagem não conseguiu subverter a ordem da dominação.

Outra mãe cujas atitudes são importantes para a nossa análise é a de Lorena. Nela, reproduz-se o estereótipo da mulher incapaz de agir segundo suas convicções – é o homem quem precisa conduzi-la. O trecho a seguir parte dos pensamentos de Lorena e mostra a falta de postura da mãe frente à decisão de alugar o quarto para a filha no pensionato das irmãs:

“Voltou para ele [o marido] a cara perplexa, nessa época o consultava até para saber se devia ou não tomar uma aspirina. ‘Dê sua opinião, querido. Não vou gastar demais? Isto está um horror’ [...]. Mieux piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar seu prestígio: ‘Vai ficar a coisa mais joia do mundo, já estou com umas ideias. Quero este banheiro todo cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para o banho’.[...] E como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda” (TELLES, 1998, p. 22).

Mieux, o companheiro, não perde a chance de dar sua opinião e mostrar suas ideias, sendo incisivo em suas sugestões: “Quero este banheiro todo cor-de-rosa...”. Tampouco perde a oportunidade de assediar a enteada, em uma atitude que, seguramente, configura-se em abuso. A dominação que ele exerce sobre a esposa é visível em outros tantos momentos, como na época em que a obrigava a sair constantemente, mesmo que ela não desejasse. Ao mesmo tempo, como, para ele, pouco parecia importar que ela não fosse (o que a mulher não desejava), ela acabava por concordar com tudo, sabendo que ele agia ciente de que a estava maltratando:

“- Me obrigava a sair quase todas as noites, festas, festas, Você não quer ir? Então vou sozinho. Eu não queria ir mas ia, mais vestidos, mais cabeleireiros, desde cedo me enfiava no cabeleireiro, andava com o couro cabeludo ardendo de tanta tintura, tanto penteado, descansei um pouco quando comprei cinco perucas, era mudar a peruca, pintar a cara e sair correndo atrás dele, boates, jantares, coquetéis, vernissages, cismou de investir em quadros, nunca teve a menor cultura mas se achava o máximo, esteve a ponto de abrir uma galeria [...] (TELLES, 1998, p. 238). Em certo ponto da narrativa, fica claro que o interesse de Mieux com relação à esposa tinha por base o seu dinheiro, tendo em vista que ela herdara considerável fortuna do marido já falecido. Assim, ele podia aproveitar as festas e mudar de profissão quantas vezes desejasse, visto que ela sustentaria tudo. Essa mulher também revela insegurança com relação ao seu corpo, por ser mais velha que o companheiro, o que a leva a considerar várias fases de sua vida como diferentes “juventudes”. Lorena afirma que a mãe “teve primeira, segunda e até quarta juventude. Que fúria quando num dia de mau humor Mieux lhe disse aos urros que a juventude é uma só. Coitadinha” (TELLES, 1998, p. 71). Consequentemente, o medo de envelhecer e, portanto, já não agradar Mieux também a acompanha: “fiz plástica, mas chorando como tenho chorado devo ter estragado tudo. Minha irmã Luci descobriu um creme escandinavo feito com óleo de tartaruga, deve ser ótimo, as tartarugas se conservam séculos [...]” (TELLES, 1998, p. 244).

Ao fim da história, a personagem quase vai à loucura com a morte de seu médico, o Dr. Francis, que “tratava de seus nervos”, junto do abandono de Mieux. Não tendo mais o apoio psicológico que aquele podia lhe oferecer, ela afirma ter voltado à estaca zero, deixando claro não ser capaz de manter o equilíbrio sozinha. A mãe de Lorena também afirma que, não fosse pelo médico, possivelmente já teria cometido suicídio, em mais uma prova de que não consegue enfrentar dificuldades sem recorrer ao desespero.

O mais interessante desse contexto é o fato de a personagem reconhecer que seu marido só a fez sofrer e “chorar lágrimas de sangue” (TELLES, 1998, p. 231), ao mesmo tempo em que conclui que “mulher sem homem acaba tão complexada, tão infeliz” (TELLES, 1998, p. 240). Esta postura irônica da autora leva-nos a reforçar sua crítica com relação à ideia de que o casamento deve ser encarado como uma obrigação e, mais que isso, como objetivo maior da vida de uma mulher.

Não menos importante, por fim, é falar da personagem Lorena. Moça inteligente e sensível, sua inocência a leva a esperar que o amado M.N. a procure, mesmo sabendo que se trata de um homem casado e, mais ainda, com cinco filhos. Em nenhum momento ele parece ter demonstrado interesse por ela, que ignora a rejeição e tenta justificar a atitude dele com o fato de ela ser pálida, franzina, “sem carnes” ou outros atrativos. Todo o enredo leva a crer que Lorena traz consigo o rótulo de menina meiga e tola que é enganada pelo homem amado.

Contudo, a atitude derradeira da personagem não condiz com a ideia do “sexo fraco”, pois é ela quem surpreende tomando a dianteira perante uma situação tão difícil como foi a morte de Ana Clara. Depois de afirmar que a amiga simplesmente não pode morrer no pensionato das freiras, Lorena mostra-se firme diante da amedrontada Lia: “[...] estou fazendo tudo como Aninha gostaria que fosse feito. Deus me inspirou, pedi inspiração e Ele me deu, depois que tive essa ideia cheguei a sentir uma certa paz. Posso mudar, querida. Se a morte não tem remédio, posso ao menos salvar as circunstâncias!” (TELLES, 1998, p. 276).

Há que se recordar, também, de toda a complexa situação de sua mãe, cujo marido a explorava e chegou a assediar Lorena, sem que ela, contudo, se mostrasse abalada. Além disso, um acontecimento ainda não mencionado é o trauma que sofrera com relação à perda de um irmão, morto acidentalmente pelo gêmeo em uma brincadeira. Esta última situação é lembrada pela menina em diversos momentos, como se a cena martelasse constantemente em sua memória. Sem dúvida, isso a marcou profundamente, mas, mesmo assim, mostra-se forte para consolar a mãe e cuidar das amigas quando necessitam, agindo como se todas as circunstâncias fossem naturais, comprovando que, definitivamente, não pertence ao sexo frágil.

CONCLUSÃO:

Três meninas, três histórias que se entrecruzam, três destinos. Em todos eles, vemos a coragem e a intensidade de mulheres que tentam subverter a tradição patriarcal que por tanto tempo as dominou. Mesmo que a sociedade representada na obra apresente marcas visíveis do discurso da dominação masculina, inclusive na fala e nas atitudes de certas personagens, a maior parte das mulheres que protagonizam a história enfrenta essa dificuldade, mesmo que à sua maneira, tentando viver de uma forma mais digna. É nesse sentido que a obra de Lygia Fagundes Telles se mostra relevante para a reflexão sobre uma causa que vence, a cada dia, uma nova batalha.

Ao trazer à tona problemas que merecem ser discutidos, questionando e levando, igualmente, o leitor ao questionamento, a literatura tem um papel de suma importância no que se refere à temática feminina. Dessa forma, as narrativas que versam sobre a identidade e a sexualidade femininas, por exemplo, colocam em xeque os mecanismos de poder desiguais. Esse questionamento, por sua vez, é fruto de reivindicações de igualdade, e não de supostas “inversões de papéis”. Assim, torna-se crucial reconhecer o papel da literatura enquanto veículo para essa problematização, já que ela possibilita a discussão sobre o tema e, ainda, tem o poder de sugerir novas percepções.

A crítica suscitada por um enredo tão denso perpassa a repressão da ditadura, em uma época delicada da história do Brasil, mas não deixa de fora a causa feminista, atentando para a importância da igualdade de gênero e para o extermínio da ideia de que a mulher não é capaz de ocupar a mesma posição que o homem ou de que a fraqueza é sua qualidade maior. Finalmente, essa obra reforça a acepção que nossa sociedade não pode ignorar: a de que toda a mulher tem o direito de conquistar o seu lugar e o respeito que merece, pois a ela, da mesma forma que o homem, sempre deve ser permitida a possibilidade de escolher o seu destino – tal como as meninas aqui descritas, de uma forma ou de outra, o fizeram.

Perpassando momentos do cotidiano dessas três jovens, a obra “As meninas” explora a fundo suas almas e sentimentos. Lorena passa as horas em seu quarto, entretida entre fazer seus exercícios, ouvir música, tomar banhos e ler livros. Lia, sempre preocupada com a situação de Miguel, descobre a possibilidade de fugir com seu amado para a Argélia e lá começar uma vida nova, deixando-se levar pelo impulso ativista, que não se conforma com as injustiças do mundo e quer lutar por mudanças. E Ana Clara sucumbe à dor: ao final da narrativa, a jovem vai ao encontro de Lorena, mais uma vez embriagada e drogada, em uma condição deprimente. Novamente, ela percebe a presença dos espinhos em seu coração e, em delírio, uma barata o atinge com um florete. Depreende-se daí que Ana Clara já se encontrava fortemente debilitada, o que a levava a sentir dores no peito. Devido, principalmente, ao uso de drogas e às alucinações, ela talvez nem compreendesse o que se passava consigo. Contudo, o trecho a seguir, momento em que a personagem sofre com a overdose, deixa claro que não se tratava de um acontecimento sobrenatural: “quis respirar e o sangue jorrou do coração coroado de espinhos, espirrando em sua boca com tamanha violência que se engasgou nele. Dobrou-se na tosse” (TELLES, 1998, p. 245).

Ana Clara falece na companhia das amigas e, Lorena, a menina frágil e delicada, surpreende com sua atitude ao final do enredo: ela decide vestir a amiga morta com roupas de festa, tendo o cuidado até de maquiá-la. Lia, a moça robusta e corajosa, é quem se mostra amedrontada, principalmente com relação à polícia (já que a atitude mais sensata seria acioná-la). Contudo, é Lorena quem toma a dianteira da situação e, depois de arrumar Ana Clara, decide que seu corpo deve ser deixado no banco de uma praça, para que somente lá ela seja encontrada. Na opinião da amiga, “Ana Clara não pode morrer drogada num quarto do Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Não pode” (TELLES, 1998, p. 276). A atitude de Lorena, portanto, acaba por ser uma surpresa para o leitor, já que a coragem e a força para lidar com uma situação tão delicada partem de quem menos se espera.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

“AS MENINAS”, LYGIA FAGUNDES TELLES

 PERSONAGENS:

 

As protagonistas (Lorena, Lia e Ana Clara) oriundas de classes sociais diferentes, procuram exprimir suas individualidades e adequar o meio em que transitam aos seus anseios. Utilizando a reflexão e o diálogo, as personagens se analisam, exprimem seus desejos e acabam sendo derrotadas por ligações ao passado, pela incapacidade de superar a inércia, pelo status quo

As meninas” é a história do fracasso de três tentativas de libertação das imposições sociais.

Uma interessante maneira de iniciar a descrição das personagens se dá pelas palavras de Madre Alix, a madre superiora do pensionato em que as jovens se encontram e que desabafa para Lia:

“Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que não telefona? Ana Clara, aí está. Ana Clara. Como me procura e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como vou separar a realidade da invenção? (TELLES, 1998, p. 141-142). ”

Em LORENA VAZ LEME, vemos a imagem da menina inocente e ainda virgem, que vive em seu quarto muito limpo e organizado, e que, sempre que possível, manifesta seu instinto cuidador com relação às amigas – empresta-lhe seus objetos, seu dinheiro, penteia seus cabelos, oferece sua banheira para que tomem banhos demorados, etc. Sua paixão por um homem casado e, pelo que se constata, desinteressado dela, leva-a a passar toda a narrativa esperando por um telefonema que não chega.

Filha de fazendeiros, culta, fina, aristocrática, descende de bandeirantes. É aluna na Faculdade de Direito e bastante estudiosa: cita com frequência passagens da Bíblia, frases em latim, em francês, em espanhol, de filósofos variados, escritores e músicos. Demonstra cultura e educação esmerada, onde se fundem harmoniosamente o erudito e o popular. Assistiu impotente à derrocada da própria família e evoca frequentemente esse passado, onde contrapõe os momentos felizes da infância, na fazenda, à morte acidental do irmão e a subsequente desagregação do núcleo familiar - a fazenda vendida, o pai internado em sanatório, o irmão traumatizado pela culpa, a mãe vivendo de fantasias, terapias e falsas ilusões. Lorena vive num quarto que chama minha concha. Meu delicado mundo que amo tanto (230), e que anteriormente foi um quarto de chofer. Naturalmente Lorena tapeçou o quarto com papel dourado, e o banheiro com azulejos cor-de-rosa: Lá fora as coisas podem estar pretas, mas aqui tudo é rosa e ouro (51). Ela se descreve como sendo do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim (15); Sou da família dos delicados, dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na vidraça (49). Didática na propagação de seus valores, gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo, mas sem entrar nele, é lógico (50). Lorena tenta equilibrar-se fechando-se em um mundo somente seu dentro do pensionato de freiras, onde pratica ginástica, faz chá, recebe cartas e presentes do irmão, visitas frequentes de colegas, e de onde ajuda as amigas. Toma sol, lê, filosofa, mas pouco age. Segundo Lia, trata-se de uma burguesa alienada, apesar da bondade e do carinho com que recebe e ajuda a todos. Mas o mundo insiste em invadir sua privacidade - as amigas, as freiras, Fabrízio, Guga, o amor impossível pelo médico mais velho coloca-a em frequente conflito com o mundo exterior. Procurando viver de sonhos, perde várias oportunidades de realizar-se afetivamente e ser feliz. No entanto, diante da morte de Ana Clara, consegue definir-se e agir positivamente, encontrando, por um lado, solução para o problema imediato; e, de outro, um possível desfecho para sua alienação: voltará para a casa da mãe, acabará por perceber a impossibilidade de um compromisso com M.N. e se abrirá para o amor de Guga, enquanto se resolve a enfrentar o mundo e a deixar sua "concha" definitivamente.

No início do romance, Lorena afirma: “Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato” (TELLES, 1998, p. 14) – ameaça repetida muitas vezes, mas que logo se percebe que não tem fundo de verdade. Sobre a menina cujo apelido na faculdade é MAGNÓLIA DESMAIADA (o que parece sugerir a falta de energia e vibração de uma pessoa frágil), conhecemos mais um pouco de sua personalidade pela voz de Lia:

“Morre de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que rasguei tudo [o romance que escrevia]. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa menina (TELLES, 1998, p. 27).”

Uma descrição oposta, com Lorena falando de Lia, vemos no trecho a seguir, em que se conhecem a origem de Lia, sua mudança para o local onde se encontra no momento e um pouco de seu caráter militante:

Lembrava-se de LIA chegando com as duas malonas estourando de coisas. E “O Capital” debaixo do braço, metido num papel de pão que mais mostrava do que escondia. ‘A mãe é morena da Bahia casada com holandês’, pensou assim que a viu. Era baiana com alemão, Herr Paul, ex-nazista que virou Seu Pô, um tranquilo comerciante apaixonado por música e por Dona Dionísia, para os íntimos, Diú [...] Deu Lião. Loucura, imagine, um nazista de águia no peito, entende, vir parar em Salvador e lá então, não sei explicar mas se apaixona pela moça Diú e a soma é Lia de Melo Schultz que faz seu necessaire e vem terminar o curso no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Um pé baiano, o outro berlinense. Alpargata Conga (TELLES, 1998, p. 58). ”

É também Lorena quem atenta para a herança que Lia traz do pai, revelada por sua força e vigor germânicos, e “andejo capaz de fome, inverno e tortura com travessia em rio coalhado de jacaré” (TELLES, 1998, p. 59). Da mãe baiana, notam-se tanto as “proporções gloriosas” e a “cabeleira de sol negro desferindo os raios por todos os lados”, que fivela nenhuma consegue prender, quanto o “açúcar da voz quando está nostálgica” (TELLES, 1998, p. 59).

LIA DE MELO SCHULTZ serve como contraponto à "finesse" de Lorena: veste-se mal, usa alpargatas, não gosta muito de banho, não cuida da aparência.

Veio da Bahia para fugir da mãe super protetora e do pai com um passado misterioso de ex-oficial nazista. Matricula-se no curso de Ciências Sociais (foco de agitações estudantis na década de 60), onde se envolve com um grupo militante da esquerda e apaixona-se por Miguel, que acaba preso e que, junto dele e de mais um grupo de amigos, ela luta pela liberdade em um cenário político nada propício para tal.

Pela voz de Lia, é possível enxergar a crítica de Lygia Fagundes Telles com relação aos horrores da ditadura e à repressão que ela impunha, visto que a personagem vivencia o medo constante das autoridades, mas, mesmo assim, acredita em sua causa e em dias melhores, não deixando, portanto, de lutar.

Interessa comentar, ainda, que Lia mostra-se desinteressada de qualquer cuidado com a aparência e com nenhuma vaidade. Novamente, é Lorena quem fala da amiga: “quando levantou o braço (usava uma camiseta sem mangas) me levantei e fui correndo buscar a gilete, pelo amor de Deus, Lião, passa a gilete nessa axila! Ela obedeceu e fez sua distinção: ‘Axila é quando está raspado, entende. Sovaco é quando não se raspou’ [...]” (TELLES, 1998, p. 278).

Lia também chega a revelar que sua primeira experiência sexual ocorreu com uma mulher e que, depois desta, nenhuma outra foi igual, o que sugere uma tendência à homossexualidade, apesar de seu namoro com Miguel.

Pela própria voz da personagem, tomamos conhecimento da força que a impele em favor de sua causa:

“Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos – repito e meus olhos estão nadando em lágrimas (TELLES, 1998, p. 164). “

O sentimento da personagem Lia é motivado pela força e pelo desejo de modificar um cenário, de agir em favor de um objetivo e de ter sua voz ouvida. A intensidade da ânsia de Lia é tão forte que lágrimas lhe vêm aos olhos; e ela também resiste, assim como o pedregulho.

Sua preocupação consiste em angariar dinheiro e roupas para o "aparelho", e está sempre discursando contra a alienação da burguesia, das amigas, e a pobreza do Nordeste. Seu equilíbrio repousa sobre dois referenciais: em seu engajamento político (doação de amor aos amigos e à liberdade da Pátria) e na segurança que encontra no amor de Miguel e no apoio da família, que, mesmo à distância, protege-a e dispõe-se a ajudá-la em sua fuga para o exterior. Escolhe seu próprio caminho e resolve-se bem.

ANA CLARA CONCEIÇÃO, por sua vez, é a mais obscura das meninas. Apresenta o temperamento mais problemático e a personalidade mais inconsistente das três, apesar do fascínio que a força de suas evocações exerce sobre o leitor, as amigas e Madre Alix, principalmente.

Filha de pai desconhecido, amargou uma infância carente, junto a uma mãe prostituída, de quem tem vergonha e constantemente machucada pelos sucessivos companheiros, um dos quais a induz ao suicídio pela ingestão de formicida.

Ana foi seduzida por um dentista, que abusava sexualmente da mãe e da filha. Traumatizada, não consegue encontrar prazer nos seus relacionamentos amorosos. Permanece quase o livro todo na cama com o namorado Max, traficante que a viciou em drogas e, embora conversem muito, seu discurso aparece truncado - amam-se, mas não conseguem ser felizes.

Dividida entre um casamento com um milionário e seu amor, Max, “Ana Turva” sofre com sua decadência no mundo das drogas: “acendeu a luz do banheiro mas recuou diante do espelho. Bateu as pálpebras, aturdida. Desviou da própria imagem o olhar enfurecido. Afundou as mãos na cabeleira” (TELLES, 1998, p. 100).

Seu possível casamento com o referido milionário, que as amigas, sempre tentando livrá-la das drogas e do álcool, chegam a duvidar que realmente exista – seria a válvula de escape para ver-se livre da pobreza e de seu passado, deixando para trás a violência física, sexual e moral da qual ela e sua mãe foram vítimas. O trecho a seguir revela um pouco do cruel cenário que rodeava sua infância:

“Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e agora estava deitada e encolhida gemendo aí meu Jesus aí meu Jesus meu Jesusinho. Mas o Jesusinho queria era distância da gente. Então catei a primeira barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de chorar, chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores ideias nasceram do ódio. [...] Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha de tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber, nesse tempo era o Sérgio. ‘Não quero nem saber’, ele disse dando-lhe um bom pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu mais encolhidinha do que uma formiga, nunca pensei que ela fosse assim pequena. Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou [...] Não chorei nem nada mas por que havia? Não senti nada (TELLES, 1998, p. 83).“

Em boa parte da narrativa, Ana Clara encontra-se embriagada e afetada pelo consumo de drogas, fato que se nota também em suas falas e pensamentos, que se mostram confusos e embaralhados sob efeito de narcóticos. Em uma dessas falas, Ana Clara revela à Madre Alix que sente Jesus em seu coração, com sua coroa de espinhos, e que Ele a escolheu apesar de tudo que já lhe aconteceu: “se ele me escolheu é porque eu mereço e Ele viu tanta humilhação tanto sofrimento lembra o que sofri com todos aqueles sacanas que. Eu era criança e os sacanas. Nem podia me defender nem nada, eu era criança” (TELLES, 1998, p. 187).

Faz-se necessário ressaltar, aqui, dois pontos importantes. Primeiramente, surge a dúvida sobre o que realmente significa essa “presença” que a jovem sente: se se trata, de fato, de um acontecimento sobrenatural; se esse é apenas mais um de seus delírios fantasiosos; ou, ainda, se a referência à coroa de espinhos seria uma alusão a algum tipo de dor resultante de seu significativo consumo de álcool e drogas. O segundo ponto a ressaltar é a violência sexual que fica implícita em sua fala, quando a jovem se refere aos “sacanas que”, quando ainda era criança. A sentença inacabada pode se justificar pelo efeito das substâncias ingeridas, mas, também, pela dor e humilhação que tais acontecimentos lhe causaram. Todo o sofrimento do passado, como se vê, continua latente na personagem, cuja ânsia maior é livrar-se da situação em que vive, para livrar-se, também, dos fantasmas que a cercam.

Sob o efeito das drogas, suas evocações são basicamente sinestésicas: ruídos (o roque-roque dos ratos e o barulho das baratas, nas construções), cheiros (do consultório do dentista, da bebida, do mar, do corpo de Max...), sensações variadas de frio e de calor entrecruzam-se enquanto ela desnuda seus traumas sem qualquer pudor e, fugindo à realidade, adia todas as soluções para "o ano que vem". Só que o peso da memória é mais forte: nem a aspirina; nem a ilusão de um noivo rico; nem a probabilidade da plástica restauradora da virgindade; nem a perspectiva de ascensão social através da Faculdade de Psicologia, da carreira de modelo, do dinheiro que conseguirá na clínica para a burguesia; nem o amor e os conselhos de Madre Alix e das amigas conseguem salvá-la. Seu fim é trágico: morre de overdose no quarto de Lorena, e, vestida e enfeitada, cumpre seu destino num banco de praça, sem prejudicar aquelas pessoas que conseguiram dar-lhe um pouco de afeto, mas não a paz de que tanto necessitava.

sábado, 25 de abril de 2026

“AS MENINAS”, LYGIA FAGUNDES TELLES 1973

 


I – AUTORA: LYGIA FAGUNDES TELLES


Lygia Fagundes Telles (1923-2022) é uma escritora brasileira. Romancista e contista, é a grande representante do movimento pós-modernismo. É membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. O estilo de Lygia Fagundes Telles é caracterizado por representar o universo urbano e por explorar de forma intimista a psicologia feminina.

Lygia Fagundes Telles (1923) nasceu em São Paulo, no dia 19 de abril de 1923. Filha de Durval de Azevedo Fagundes, advogado, passou sua infância em várias cidades do interior, onde seu pai era promotor. Sua mãe, Maria do Rosário Silva Jardim de Moura era pianista. Seu interesse por literatura começou na adolescência. Com 15 anos publicou seu primeiro livro, "Porão e Sobrado". Formou-se em Direito e Educação Física, na Universidade de São Paulo, porém seu interesse maior era mesmo a literatura.

Sua estreia oficial na literatura deu-se em 1944, com o volume de contos "Praia Viva". Casou-se com o jurista Goffredo Telles Júnior, com quem teve um filho. Divorciada, casou-se com o ensaísta e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes. Em 1982 foi eleita para a Academia Paulista de Letras. Em 1985, tornou-se a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. Em 1987, foi eleita para a Academia das Ciências de Lisboa.

Entre os muitos prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, em 1949; o Prêmio do Instituto Nacional do Livro, em 1958; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por "Verão no Aquário", em 1965; o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras, em 1973; o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do livro, com a obra "As Meninas", em 1974; o Prêmio Jabuti com a obra "Invenção e Memória", em 2001; e o Prêmio Camões recebido no dia 13 de outubro de 2005, em Porto, Portugal.

Em 2016 e aos 92 anos de idade, Lygia Fagundes Telles tornou-se a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Faleceu em 2022.

II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“As meninas” apresenta, como pano de fundo, um contexto de fortes repreensões. A intriga transcorre em época aguda da vida política e cultural, no período mais violento da repressão e da resposta armada contra os militares.

O golpe militar de 1964 se inspirara no projeto de um Brasil moderno e capitalista, liberal, tecnológico. Inversamente, o governo então deposto havia-se inspirado num projeto democrático e nacionalista, escorado na participação das massas trabalhadoras e das associações de classe.

Surgiram decretos que mudavam as instituições do país: eram os Atos Institucionais, justificados como “‘exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções’”.

Criou-se, durante o regime militar, o Serviço Nacional de Informações (SNI), como forma de luta contra a subversão interna, enquanto o Ato Institucional Número Cinco (AI-5) configurou-se como um dos instrumentos mais importantes e repressores do regime. Houve cassação de mandatos, perda de direitos políticos e expurgos do funcionalismo, o que se estendeu a muitos professores universitários – estabeleceu-se na prática a censura aos meios de comunicação; as perseguições, torturas, exílios, mortes passaram a fazer parte integrante dos métodos do governo.

Inúmeros foram os escritores e intelectuais que se manifestaram contra esses desmandos políticos, principalmente a censura, inclusive Lygia Fagundes Telles. Sua natureza engajada transparecia não só nas obras literárias, mas também em suas atitudes, uma delas em 1976, quando, junto de um grupo de intelectuais, foi a Brasília entregar um manifesto contra a censura, o chamado Manifesto dos Mil.

Esse clima, de medo e espera, se estendeu pelos anos 70 e 80 e só começou a arrefecer durante o último governo militar. De qualquer forma, tivemos, de um lado, toda uma atuação clandestina que confluía para o terrorismo, e, do lado oposto, uma violenta repressão por parte das autoridades. Entre esses dois polos, amordaçada, sofria a sociedade brasileira. E, debaixo desse jogo de forças, foram crescendo e se consolidando formas que iam minando a sociedade, como o desamparo da educação, o tráfico de drogas, o contrabando, a corrupção das elites e a base de toda a criminalidade urbana.

Todos esses móveis constituem o pano de fundo de “As Meninas”. O tema do romance não é esse, mas sem isso a obra praticamente perderia todo o seu sentido.

III - TEMA:

“As meninas” (1973), da escritora Lygia Fagundes Telles, com o objetivo de discutir as representações femininas que aparecem na narrativa. Publicada no auge da ditadura militar brasileira, a obra configura-se como uma crítica à repressão perpetrada por esse regime, ao mesmo tempo em que aborda questões pertinentes aos estudos culturais de gênero, problematizando a tradição patriarcalista e a dominação masculina que por longo tempo marcou (e ainda marca) as sociedades em geral.

A obra oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de TRÊS MENINAS em busca de si mesmas, a que o título se refere e que são amigas: LORENA VAZ LEME, universitária do curso de Direito, sonhadora e apaixonada por um homem casado (Marcus Nemesius, a quem ela chama apenas de M.N.); LIA DE MELO SCHULTZ, a “Lião”, militante da esquerda, subversiva, masculinizada, leitora de Marx e de Simone de Beauvoir; e ANA CLARA CONCEIÇÃO, a “Ana Turva”, apelido que se justifica graças ao seu vício em álcool e drogas, menina fantasiosa e problemática, com passado turbulento.

IV – TEMPO:

Uma sequência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente.

Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais de três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias. 

V – ESPAÇO:

Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os mortos".

VI – FOCO NARRATIVO:

Ao longo de doze capítulos, a narrativa predominantemente autodiegética, em primeira pessoa é manipulado pela autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-nos nessas frequentes invasões à privacidade das mesmas, que se vão desnudando paulatinamente diante de nós.

Apesar do arco temporal aparentemente curto, muitas ações significativas se desenrolam, e as personagens são apresentadas por meio de sua própria voz, alternando-se constantemente – em certo momento, temos o ponto de vista de Lorena, para, no instante seguinte, termos o de Lia ou de Ana Clara, sucessivamente. Esta técnica permite ao leitor conhecer o mundo interno de cada personagem, pois todas apresentam ao leitor suas vozes e, também, seus pensamentos e sentimentos.

Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada uma também fala ou sobretudo pensa sobre as outras. Isso não exige que o foco passe para a terceira pessoa. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim, se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três. Logo, é um narrador onisciente (= que tudo sabe) e de terceira pessoa, que na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas, dando-nos a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos.

 VII - LINGUAGEM:

A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais, porém não cai na vulgaridade, não se banaliza.

Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lia e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva".


quarta-feira, 1 de abril de 2026

CONTOS NEGREIROS, MARCELINO FREIRE, 2005.

I – AUTOR: MARCELINO FREIRE

Marcelino Juvêncio Freire (Sertânia, Pernambuco, 1967). Escritor e editor. Entre 1969 e 1975, mora em Paulo Afonso, Bahia. Depois, reside em Recife, onde tem contato com grupos de teatro e leituras de poesias. Sua primeira peça, O Reino dos Palhaços, é encenada em 1981. Dez anos depois, muda-se para São Paulo. Em 1995, edita, de forma independente, seu primeiro livro de contos, AcRústico. Cinco anos depois, lança Angu de Sangue, com prefácio do crítico João Alexandre Barbosa (1937-2006). Em 2002, a Ateliê Editorial publica o livro de aforismos EraOdito, seguido de outros volumes de contos: BaléRalé (2003), Contos Negreiros (2005) e Rasif: Mar que Arrebenta (2008). Ainda em 2002, inaugura o selo EraOdito EditOra e lança a Coleção 5 Minutinhos, reunindo narrativas curtas inéditas dos escritores Glauco Mattoso (1951) e João Gilberto Noll (1946-2017). Em 2006, recebe o prêmio Jabuti por Contos Negreiros, com uma versão em audiolivro. Nesse ano, cria a Balada Literária, evento anual que reúne escritores e artistas, com debates sobre arte contemporânea. Entre 2002 a 2010, mantém o blog EraOdito e, a partir de 2011, escreve no Ossos do Ofídio. Os dois sites funcionam como diário do escritor e veículo de divulgação de seu trabalho e de eventos literários. Também participa da cena literária nacional: organiza Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004), antologia de contos de autores contemporâneos, e atua como um dos editores da revista PS:SP, sobre literatura paulistana. Em 2013, publica o primeiro romance, Nossos Ossos, pela editora Record. Em 2014, o livro ganha o prêmio Machado de Assis de Melhor Romance pela Biblioteca Nacional.

II - INTRODUÇÃO:

A sociedade brasileira, frequentemente marcada por desigualdade social, preconceito e violência contra tantas minorias, pouco concedeu ao longo da constituição de sua literatura espaço para a voz negra. A voz da enunciação sempre foi marcada pelas classes dominantes, desde os tempos de escravidão, e a voz branca e masculina sempre esteve preenchendo lugares que não eram seus e exercendo poder sobre o outro. No âmbito de nossa história, tais preconceitos étnicos resultaram em atos de extrema violência, como genocídios, a miséria humana e a marginalização forçada dos negros que viviam nos centros urbanos.

Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor de sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada. E é exatamente isso que Marcelino Freire nos mostra em Contos Negreiros. São as vozes de pessoas silenciadas ao longo da história e que nunca detiveram de privilégios, mesmo que ficcionalmente. O contista rompe com a estagnação literária que por muito tempo enxergou os negros ocupando postos inferiores e subalternos em suas obras. Ademais, o autor não expressa em seus contos apenas a vontade de dar voz a esses, mas constrói um novo vínculo entre a marginalização desses sujeitos e a linguagem.

III - GÊNERO LITERÁRIO: LITERATURA CONTEMPORÂNEA

Contos Negreiros circula entre as expressões culturais e literárias das periferias, quer sejam urbanas, quer sejam regionais. Há um forte apelo às questões que envolvem as relações entre escrita e oralidade, ficção e testemunho, construídas aqui como efeito de sentido do que não está em lugar algum, do que não consegue se inscrever em apenas um tipo de expressão. Do que não tem lugar na cultura (forma literária) dominante. Como as demais obras de Marcelino Freire, Contos Negreiros sugere diversos caminhos interpretativos e oferece ao leitor a oportunidade de refletir sobre algumas questões que andam polarizando as discussões sobre a narrativa contemporânea: a questão de gêneros literários, os tipos de ponto de vista e focalização narrativa, a enunciação como atitude responsiva, a ficcionalidade, o efeito de oralidade, a relação entre ficção e testemunho, a expressão da marginalidade.

1. Sobre a questão dos gêneros literários, embora o livro seja de contos, pode ser lido como um conjunto de poemas narrativos. À lembrança do poema de Castro Alves do título, os contos lembram poemas na extensão e no trato com a linguagem, não raro criando rimas contíguas e apresentando um ritmo muito próximo da poesia.

2. A quase ausência de descrições e de estratégias narrativas de introdução de personagens faz com que os contos lembrem, também, os diálogos dramáticos.

3. A hibridização proposta problematiza tanto os universais literários conhecidos como modos (lírica, narrativa e drama) quanto os gêneros, pensados como categorias historicamente situadas e apreendidas pela prática literária, como o romance, conto, tragédia, canção etc. O que podemos pensar, com a leitura sistemática da obra de Marcelino Freire, é que ela constrói uma espécie de subgênero narrativo, na medida em que apresenta opções temáticas específicas que criam reflexos nos tipos de estratégias narrativas adotadas. Há uma modalidade de narração recorrente na obra do autor, configurando um tipo de narrador que mimetiza uma espécie de diálogo imaginário, uma fala responsiva que cria um efeito de oralidade como uma mímica a dominar toda a diegese. Há um caráter performático nos contos, que cria uma persona narrativa que responde, com braveza, dor e ironia, a uma peleja imaginária, cujo emissor seria o mundo inclemente em que vivem os desvalidos.

IV – CARACTERÍSTICAS:

1. LINGUAGEM:

Marcelino Freire apresenta 16 narrativas (contos e crônicas) que procuram aproximar-se de uma linguagem coloquial, memorial e, às vezes, musical, baseada nas influências deixadas pela oralidade das ladainhas e canções nordestinas.

A oralidade pode ser considerada como um veio ancestral da narrativa, uma característica que marca, mais que a anterioridade histórica em relação à escrita, a memória que ficou de uma prática, presa à forma como uma determinação do gênero. Há algumas formas de pensar a oralidade. A primeira a que o termo costuma aludir remonta às formas ligadas à tradição oral, oriundas de emanações da linguagem, passadas de geração a geração sem a criação singular de um poeta.

Há o uso da oralidade como mimetização da linguagem falada inscrita na linguagem escrita, servindo a determinados fins: estratégia enunciativa, no caso dos diálogos no interior da narrativa; efeito do real, que o narrador busca atingir mimetizando as marcas pessoais dos personagens; efeito regional, quando os sotaques e as expressões singulares buscam ancorar a narrativa em determinado espaço e tempo; ou efeito coloquial, prosaico, programado para caracterizar as narrativas modernistas, por exemplo, entre outros. Há a concepção da oralidade como marca de leitura em voz alta, como uma partitura musical traz a determinação do andamento, da altura, da interpretação.

A obra toda de Marcelino Freire traduz uma opção pela oralidade em todas as acepções mencionadas acima. Como escolha e técnica enunciativa, a oralidade marca a cessão da voz narrativa, em discurso direto, aos personagens enfocados em cada conto, numa espécie de dramatização radical: a voz que narra é a mesma que sofre (em todos os sentidos) o narrado. Mesmo quando o narrador opta pela terceira pessoa, procurando um certo distanciamento do narrado, acaba por se render à focalização interna e misturar as vozes narrativas, numa clara adesão ao discurso do outro.

Os contos/resposta lembram, pelo tom encolerizado, a expressão que resulta de uma dolorida provocação. São expressões que, compostas dentro do suporte corpo, espalham indignação pelos espaços até onde a voz consegue ecoar. São passadas de boca em boca, de ouvido em ouvido, de corpo em corpo. Lembram, por isso, as expressões artísticas mais populares do Brasil como as cantorias, os repentes, os aboios, os cocos, os cordéis. 

2. A CAPA E TÍTULO:

A capa de Silvana Zandomeni e Marcelino Freire antecipa aos leitores o que virá. A foto de um homem preto, estampada na capa, lembra as fotos policiais, pela posição ereta e pelo sombreado. A posição do homem, nu, de costas, na capa da frente, e nu, de frente, na capa de trás, dá a ver a opção inicial da obra pelo avesso, pelo outro lado.

No entanto, o autor não parte do preconceito ao negro ou de sua realidade de exclusão para compor sua obra. Ela é composta pela experiência de exclusão de todos os “mortos-vivos” que perambulam pelas ruas dos grandes centros do país, independentemente da cor da pele.

3. EPÍGRAFE:

A epígrafe inicial, paródia de Ary Barroso (“Brasil do meu amor/ terra de nosso sinhô”), bem como a dedicatória (“Para Chocottone”) também evocam a imagem do negro, que será co(a)ntada em extensão e andamento em prosas poéticas repletas de ritmo e rimas.

4. DRAMATIZAÇÃO:

Este parece ser o objetivo da maioria dos contos: uma fala dramatizada que supõe a presença de um leitor “coator e coautor” do conhecimento que se cria da/na linguagem. E uma fala que se oferece à performance, quase como uma fala dramatúrgica à espera da interpretação do ator.

O tom de pergunta e resposta, presente em quase toda a obra, lembra muito as pelejas populares, o desafio que caracteriza a maior parte das formas advindas da oralidade.

A obra de Marcelino Freire guarda a memória de um desafio como molde cultural de percepção e interpretação da realidade, e o faz respondendo pelo lado do outro, não mais dominado e fraco, mas como uma personagem que argumenta e se defende, expondo a sua voz e as suas razões. Sua criação literária passa pela valorização da memória, oriunda das heranças culturais – a cultura popular nordestina – e a percepção de um tempo presente. Assim, nos contos estão presentes traços marcantes da literatura contemporânea e características da oralidade, que talvez existam pela proximidade que Freire tem com o teatro, e uma cópia perfeita e bem estudada em sua escrita do meio social do qual retrata. Tais aspectos proporcionam ao leitor não somente as emoções esperadas ao ler qualquer outro livro de nossa literatura, mas surpreendem porque põem em pauta a pura e bruta realidade de nossa sociedade. Marcelino Freire veste, no seu fazer literário, vozes que não são suas, mas que mostram a revolta, pulsação e dureza de um povo. Por isso o leitor, ao ler seus contos, sente-se como se estivesse ouvindo vozes que gritam, que têm vidas e que sofrem.

5. O FOCO NARRATIVO:

Segundo Antônio Candido (1987), o escritor de contos “agride o leitor pela violência, não apenas dos temas, mas dos recursos técnicos — fundindo ser e ato na eficácia de uma fala magistral em primeira pessoa, propondo soluções alternativas na sequência da narração, avançando as fronteiras da literatura no rumo duma espécie de notícia crua da vida”. Freire, assim, capta para o seu discurso uma voz que não é sua, mas que consegue transmitir, com menos ou mais intensidade, a violência que é sentida pelo outro. As vozes de seus contos, oriundas de outros espaços sociais, normalmente são de negros que não acreditam na liberdade que muito foi discutida após a escravidão. Também, em boa parte de seus fragmentos, as personagens, na maioria deles, a voz em primeira pessoa, não aceitam os papéis e os destinos reservados a elas pela bruta realidade.

Nos contos de Marcelino Freire, podemos notar que as narrativas são construídas a partir de um foco realista e muitas vezes absurdo se visto pelo viés moralista, mas que não deixam de estar em correspondência ao absurdo diário que os jornais muitas vezes registram. A narração em primeira pessoa na maioria dos contos deixa transparecer um tom de denúncia social que mostra nitidamente (como é o caso dos escritores que se filiam ao Movimento Marginal atual) a preocupação em dar voz às personagens indesejadas da sociedade, respeitando a oralidade da fala das personagens reais dos quais buscam inspiração.

V - TEMÁTICA:

Não é necessário um olhar minucioso para encontrar na literatura brasileira contemporânea exemplos de obras que tenham como temas a violência e a marginalidade social. Histórias ficcionais permeadas pelas diferentes formas de violência – seja a violência ética, a moral, ou a física – são numerosas e, ainda que muitas destas histórias tangenciem o absurdo, elas não perdem o contato com o que sabemos ser real e possível em uma sociedade marcada sobretudo por grande desigualdade econômica. Estas narrativas refletem a desorientação e a insegurança de nosso tempo. Parte da produção literária contemporânea, tenta expurgar estes sentimentos, ainda que, paradoxalmente, tente fazer isso pela representação da violência e do testemunho de experiência dos marginalizados. A chamada Nova Literatura Marginal toma esta tarefa com especial atenção, buscando afastar-se da estetização gratuita da violência e do excluído social.

Na obra Contos Negreiros, Marcelino Freire aborda temas delicados e polêmicos como racismo, turismo sexual, tráfico de órgãos e homossexualismo. Através da apresentação das personagens afrodescendentes na obra de Freire notamos que o passado ainda vive nos dias atuais. O Brasil Colônia e sua escravidão ainda estão presentes em nossa sociedade e contribuem veementemente para a violência e marginalização.

Com o grande aparecimento de escritores contemporâneos que surgiram para dar voz a si mesmos e aos outros os discursos periféricos têm sido reescritos para uma nova literatura que busca a todo instante desconstruir preconceitos e sensibilizar o olhar do leitor para com o outro. Percorrendo esse caminho, Freire nos mostra que toda tipificação negra carrega em si outros subtipos que também sofrem violência.

O autor aborda, na grande maioria de seus contos, o tema do preconceito racial. A violência é demarcada pela perspectiva dos marginalizados em “Linha do Tiro”, “Esquece” e “Polícia e Ladrão”, sendo que o primeiro se opõe aos últimos por sua leveza e seu humor. A homossexualidade é tema de “Coração” e “Meus amigos coloridos”, sendo mais evidente no primeiro do que no segundo. Em “Totonha”, uma senhora discursa sobre os motivos de não querer aprender a escrever: não é mais moça, não tem importância alguma, não quer baixar a cabeça para imprimir seu nome em um pedaço de papel. Totonha argumenta: “O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba? ” (p.79).

VI - ESPAÇO:

A paisagem urbana é o cenário principal de seus cantos (contos). Algumas paisagens de importantes centros urbanos, como Recife e São Paulo, como as zonas de prostituição, morros, favelas e pontos turísticos, tornam-se palcos para a exposição de uma realidade complexa e miserável, vivida por prostitutas, “bichas”, negros, índios, além de abrigar traficantes de órgãos e de drogas, e turistas sexuais.

As metrópoles, desde o período moderno, surgem como centros para a formação cultural, intelectual e profissional do homem que, então, através do trabalho, gera o progresso. No entanto, elas tornaram-se também o cenário mais comum dos processos ilícitos construídos pela humanidade: tráfico, sequestro, violência, roubos. O autor abriga seus personagens dentro das zonas mais inóspitas da cidade, mas sem deixar de produzir um fascínio nos próprios personagens (e nele mesmo). O testemunho representa as experiências de um coletivo que as torna, sobretudo, comunicáveis. Algo que, embora possa virar notícia, não torna a experiência uma mensagem a ser legitimada.

VII - PERSONAGENS:

As experiências ocorridas no dia-a-dia das metrópoles brasileiras apresentam testemunhos de sujeitos que estão à margem da sociedade contemporânea. Sujeitos sem voz, sem espaços para o testemunho, vistos quase como objetos ou tratados como objetos pela mídia e por toda sociedade. A narração de uma experiência guarda algo da intensidade do vivido, seja por aqueles que narram sua própria experiência ou por aqueles narradores observadores que narram a experiência do outro.