Na praia de coisas brancas
Abrem-se
às ondas cativas
Conchas
brancas, coxas brancas
Águas-vivas.
Aos mergulhares do bando
Afloram
perspectivas
Redondas,
se aglutinando
Volitivas.
E as ondas de pontas roxas
Vão e
vêm, verdes e esquivas
Vagabundas
como frouxas
Entre vivas!
Em “Marinha”, Vinicius de Moraes, atinge o
caráter sublime que perpassa toda a sua produção.
O
poema, logo à primeira leitura, chama a atenção pelas imagens vagas, fluídas e
metafóricas que provocam o leitor.
O
título do poema evoca o olhar sobre o mar que se desenvolve em todo o texto
como seu alicerce. Esse olhar é elevado á captação de um instante fugaz e sua
impressão sensorial e cromática de uma paisagem marítima.
A contemplação do mundo marinho não é uma
temática recente à poesia brasileira. Ao contrário, a simbologia da água,
possui grande força expressiva, primeiramente, por existir antes da terra e,
pelo resgate do símbolo da Criação.
À
cosmogonia aquática defende a crença que ela representa a morte iniciática
simbolizada pelo batismo, mas nunca a sua extinção definitiva e sim, uma
renovação.
Este
simbolismo corresponde ao batismo e aos banhos rituais primaveris que trazem
saúde e fertilidade, adquirindo a função de “lavar os pecados”, a purificação.
Assim, a água integra todas as revelações particulares das mais variadas
hierofanias, até mesmo por sua disforme que a destaca de todos os objetos.
Desde
o século XII, a lírica trovadoresca explorava o mar em suas cantigas de amigo,
também denominadas marinhas ou barcarola, de criação galego-portuguesa.
O galego e o português foram criados à beira-mar, e talvez por isso a vida
marítima participasse do seu temário poético.
As sugestões do mar encantam e compartilham a
solidão da donzela apaixonada que desabafa junto ás ondas, pede-lhe notícias do
amado, ou ainda espera sua volta através do mar.
Outra
característica relevante no poema é a sonoridade de seus versos repletos de sinestesias (fusão de dois ou mais
sentidos); de aliterações (sequência
constante de fonemas para sugerir um som); de assonâncias (sequência constante de sons vocálicos); reiteração (repetição de palavras ou
versos inteiros) e versos curtos resultando numa aproximação entre a poesia e a
música (musicalidade).
Na
primeira estrofe, as rimas alternadas (brancas, cativas, águas-vivas) que ecoam
em todos os versos, aliadas à metrificação (3 versos de 7 e 1 de 3 sílabas),
somadas à irregularidade da acentuação, que varia desde a 1ª e 7ª até 3ª e 7ª
sílabas, o que caracteriza um movimento rítmico do poema, e à repetição do som
/n/ (brancas, ondas, conchas) remetem a leitura a um movimento construído pelo
poema: a sedução das ondas do mar.
Seduzido,
o leitor se entrega à musicalidade das ondas que se desenvolve no restante do
poema e que parte da visualidade impactante e da brancura (limpidez, pureza)
insistente da primeira estrofe. Diante das conchas e coxas que se abrem, a voz
poética percebe na claridade da praia a transparência no mar, em águas-vivas.
O eu
lírico que olha a praia num instante imediato transforma o prosaico em poesia e
adentra o mar sob uma perspectiva volumosa, como mostra a segunda estrofe: “Aos
mergulhares do bando/Afloram perspectivas”. Ao mergulhar, o verso evidencia um
movimento de descida do poema, ao fundo do mar, deixando ao olhar apenas o
oculto e obscuro sob a superfície das águas, criando uma oposição à claridade
exposta na praia e ainda marcando na memória uma última visão. Por outro lado,
o mergulho abre também a possibilidade e expectativa do surgimento, do retorno
ao olhar. Sob a mesma luz, o poema esconde no mergulho e faz aparecer no
retorno formas no mar (perspectivas, redondas). Os versos mantêm ainda o tom
aberto das conchas e coxas da primeira estrofe, contudo trazem agora, além da
musicalidade e imagens das ondas, uma sensualidade implícita no jogo
esconde/aparece que o poema desenvolve. A expectativa daquilo que pode surgir
une-se à contemplação última da cena e cria, junto com a sonoridade da
paisagem, um universo de sensualidade, evidenciado na segunda estrofe e,
sobretudo, no termo “Afloram” do segundo verso.
Aflorar
quer dizer emergir, subir à superfície. O que dá a ideia de surgimento,
aparição. Escusado dizer que o poema trata dessa questão (“Abrem-se”!) desde o
impacto visual da primeira estrofe. Surgir na superfície das águas retoma, em
um momento único ao poeta que se abre em perspectivas, a praia e a claridade do
primeiro verso. O mergulho no oculto dá forças ao afloramento que se mostra no
olhar ávido de formas (“redondas, se aglutinando”), repleto de expectativas e
vontades (“Volitivas”).
Importante
notar que o termo “afloram” contém em sua essência a palavra flor e que
constitui o centro do poema, tanto formal, já que o termo ocupa o sexto verso
de um poema de três quadras, quanto tematicamente. A metáfora da flor, tal como
a do mar, é largamente trabalhada na poesia brasileira e com muita intensidade
em Vinicius de Moraes. Poeta tido como lírico, Vinicius usou e abusou da
metáfora flor em seus sonetos e poemas de amor numa analogia à delicadeza e
efemeridade que representa a figura da flor (da mulher, do amor, do órgão
sexual feminino) na literatura brasileira.
Em “Marinha”,
o poeta resgata a imagem da flor como a delicadeza de um olhar iluminado pela
perspectiva do efêmero e ainda traz para o texto um novo elemento: a surpresa
no verso. Essa figura simboliza aquilo que desponta em uma haste, o que surge
do caule antes escondido na planta. Ela simboliza aquilo que toma forma dentro
de uma outra forma: a flor que surge na superfície da água, o que aflora. A
metáfora da flor, aliada à sedução sonora e imagética e à localização central,
contribui para a equação (esconde/aparece) representada. A esses elementos,
atribui-se outro, que deriva deles e, ao mesmo tempo, une todos eles: o
erotismo.
Ora, é
sabido que o erotismo é explorado clara e conscientemente por Vinicius e por
toda sua crítica. Falar do tema é iluminar o óbvio. No poema “Marinha”, é notória a relação erótica
que estabelece o leitor em um primeiro momento. Mas debruçando-se sobre o
poema, é possível retirar daí algo que retoma o lirismo clássico e que, talvez,
se diferencie da mera e gratuita indução erótica que beira a sexualidade em uma
primeira e rasa leitura.
Octavio Paz, tratando do tema, faz uma diferenciação e gradação entre o erotismo e a sexualidade, trabalhando a relação que retira daí a poesia:
“A relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda uma erótica verbal. Ambos são feitos de uma oposição complementar. A linguagem – som que emite sentido, traço material que denota idéias corpóreas – é capaz de dar nome ao mais fugaz e evanescente: a sensação; por sua vez, o erotismo não é mera sexualidade animal – é cerimônia, representação. O erotismo é sexualidade transfigurada: metáfora. A imaginação é o agente que move o ato erótico e o poético. É a potência que transfigura o sexo em cerimônia e rito e a linguagem em ritmo e metáfora. A imagem poética é abraço de realidades opostas e a rima é cópula de sons; a poesia erotiza a linguagem e o mundo porque ela própria, em seu modo de operação, já é erotismo. E da mesma forma o erotismo é uma metáfora da sexualidade animal. O que diz essa metáfora? Como todas as metáforas, designa algo que está além da realidade que lhe dá origem, algo novo e distinto dos termos que a compõem.”
Tal
relação acontece em “Marinha”. A
representação é clara: o mar contemplado sob uma perspectiva de rimas e ritmo
transforma a visão
A
relação da poesia com a linguagem é semelhante à do erotismo com a sexualidade.
Também no poema – cristalização verbal – a linguagem se desvia de seu fim
natural: a comunicação. A disposição linear é uma característica básica da
linguagem; as palavras se enlaçam umas às outras de forma que a fala pode ser
comparada a um veio de água correndo. No poema a linearidade se torce, atropela
seus próprios passos, serpenteia: a linha reta deixa de ser o arquétipo em
favor do círculo e da espiral.
A
reflexão de Paz pode colaborar para a análise do poema. Em “Marinha”, a linguagem adquire uma função
outra: não é mera apresentação de uma paisagem marinha, nem uma consideração
sobre elementos expostos na praia. É o jogo entre o eu que contempla o mar e
próprio mar que contempla a praia. As perspectivas múltiplas das metáforas na
linguagem pertencem ao jogo erótico esconde/aparece do poema. A relação da
poesia, tal como diz Paz, não se dá linearmente, mas sim nas voltas que os
versos criam entre o mar e a praia, a claridade e a escuridão, a superfície e o
fundo: o que esconde e o que aparece.
A
última quadra continua a intensificar essa relação. Se antes a perspectiva se
manteve no mergulho do mar, agora ela eleva o olhar para a superfície das
águas, para o pico das ondas (“E as ondas de pontas roxas”).
A
claridade da primeira estrofe ganha cor e movimento nas ondas verdes e esquivas
do mar. E o leitor se sente ainda mais seduzido pela lascividade das ondas que
chega a sentir, como um sopro erótico, a sensualidade do vento que movimenta o
mar, sugerido e sustentado pela repetição do som /v/. O eu lírico que observava
o mar especulando movimentos, entre a praia e o mar, entre a superfície e o
fundo se deixa levar pelas ondas, que afloram formas e perspectivas sob um
olhar desinteressado, mas perplexo da interjeição e poesia que o mar
proporciona.
O
poeta Vinicius de Moraes diante da força de libertação cavada pelo modernismo
brasileiro somada à proposta e projeto concretistas, caminhou por rios
secundários e só, a partir do fim do século XX, vem sendo retomada pela
crítica. O tom elevado de seus poemas e o lirismo de seus sonetos cede espaço
para uma poesia marcada por uma estética de ruptura ou engajamento do século
passado, afirmada pelas vanguardas.
Em “Marinha” é possível reconhecer estas
marcas líricas que caminham em direção a uma poética pura.