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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

FERNAND LÉGER


(1881-1955)



De origem modesta, de família de camponeses normandos, desde cedo se interessou pelo desenho, o que o leva a Caen, capital da Alta Normandia, França, aos dezesseis anos, onde trabalhou como aprendiz de arquiteto.
Em 1900 rumou para Paris, ingressou na Escola de Artes Decorativas e após uma tentativa frustrada de ingressar na Escola das Belas-Artes e na Academia Julien, frequentou vários ateliês, aproximando-se dos cubistas e entrando em contato com a arte de Cézanne que chamava a atenção para a geometria contida nos objetos naturais e passou a pintá-los não como se fossem cubos, mas como cilindros e cones.

A partir do ano de 1911, conheceu Pablo Picasso e Georges Braque, os quais lhe transmitiram influências cubistas, nas quais se aplicou e trabalhou durante a maior parte da sua carreira artística.
Destaca-se nessa fase a tela, "Nus na floresta" iniciada em 1909 e apresentada na exposição de 1911, no Salão dos Independentes.


Convocado em 1914, Léger reconhece na Primeira Guerra Mundial a experiência máxima de sua vida. A descoberta, como afirmou sobre o "povo francês" tem sobre o pintor profunda influência, o que bastou para fazê-lo esquecer a arte abstrata de 1912-1913. A partir dessa experiência, Léger se destaca por uma integração homem-máquina que o distingue de qualquer outro pintor. Inventa uma vida plástica e colorida, partindo da precisão das máquinas e fazendo abstração do espaço. Sinais ferroviários, bielas e trilhos alternam em telas imensas com palhaços, bailarinas e operários.

“Acrobatas do circo”, 1918.

Léger se preocupa mais com o aspecto sensorial do tema do que com a rigorosa análise cubista da relação espaço-objeto. Liga os objetos tubulares, geometricamente cortados, a elementos naturalistas do ambiente, através de formas ligeiramente arredondadas e amplas, cujas cores contrastantes lhes revelam o dinamismo.


Travessia Ferroviária, 1919

A partir de 1920, predomina em sua obra a figura humana enquadrada por elementos industriais. Ainda na segunda década do século, numa nova fase da sua vida, produz e dirige o filme O ballet mecânico.
Uma mulher se balança em um jardim e do balançar brotam delírios caleidoscópicos intensificados pela alucinante música de Antheil. O filme usa técnicas inovadoras de filmagem como o loop-printing, uma técnica que só veio a tornar comum no cinema experimental dos anos 60!


“O ballet mecânico”, 1920.






“Natureza morta com uma caneca de cerveja”, 1921.


“A Compoteira de Peras”, 1923.



“A Banhista”, 1932.


“Os acrobatas”, 1933.


"Os acrobatas" (1933) é uma das obras mais conhecidas do pintor cubista Fernand Léger. Nela, quatro acrobatas foram capturados em plena atuação: a personagem no centro da composição parece balançar-se nos ombros da que se encontra por baixo, enquanto a mulher à esquerda faz piruetas atrás de seu parceiro, que parece impassível. Ao fundo, encontram-se as cordas e as escadas necessárias ao número de equilibrismo.
Léger viu a pintura como um terreno aberto à pesquisa formal e cromática, onde os temas, recorrentes se manifestavam, ora submissos ora destacados do ambiente envolvente da composição. As formas geométricas e planas das figuras, combinadas com cores fortes e uniformes, e os densos contornos negros são características de sua obra.


Composição, 1936.

Em seguida, o artista aproxima-se de Le Corbusier e desenvolve a pintura mural. Durante a Segunda Guerra Mundial Léger vive nos EUA, descobrindo "a intensidade norte-americana". Algumas de suas obras mais importantes datam desse período.


“A planta”, 1945.


“O Vaso Azul”, 1948.



“Os Construtores”, 1950.


LÉGER criou, a partir do Cubismo Sintético, uma linguagem pictórica que, segundo ele esperava, levaria a arte ao mundo do trabalho e do lazer do proletariado.
Formas vigorosas e claramente definidas, sugerindo máquinas, são apresentadas em cores enérgicas que dão uma nota de alegria e otimismo a um mundo mais habitualmente associado à fumaça e graxas. Assim, LÉGER não representa as misérias da classe trabalhadora, mas usa sua arte para celebrar o mundo do trabalho viril e vigoroso.
Para ele, os objetos simbólico-emblemáticos da civilização moderna são as engrenagens, as tubagens, as máquinas, os operários da fábrica: sua finalidade é decorar, isto é, qualificar figurativamente o ambiente da vida com os símbolos do trabalho da mesma maneira que, antigamente, decorava-se a igreja com os símbolos da fé.


”Vitrais-Universidade Central da Venezuela”,1950


“As três irmãs”, 1952.



Um ano antes de morrer, o pintor completa "A grande parada" (1954), considerada a síntese de sua arte, monocromia cortada por faixas fortemente coloridas, ligando estranhas e poéticas figuras humanas.


A grande parada, de 1954


“Os trapezistas”, 1954.

O trabalho de Léger exerceu uma influência importante no construtivismo soviético. Os modernos pôsteres comerciais, e outros tipos de arte aplicada, também se vieram influenciar por seus desenhos. Em seus últimos trabalhos, realizou uma separação entre a cor e o desenho, de tal maneira que suas figuras mantêm seus formulários robóticos definidos por linhas pretas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

GEORGES BRAQUE


(1882-1963)


“Amo a regra que corrige a emoção. Amo a emoção que corrige a regra.”



Georges Braque era filho e neto de pintores. Foi criado em Le Havre e, ali, estudou na École des Beaux-Arts de 1897 a 1899. Mudou-se para Paris e estudou com um mestre decorador em 1901. A aprendizagem técnica lhe fez entrar adulto na escola de Belas Artes do Havre e posteriormente no ateliê do pintor Lécin Bonnat, um bom retratista de personagens famosos. Contudo, a influência decisiva que Paris exerceu sobre ele foi através das salas do Louvre dedicadas à escultura egípcia e grega primitiva.


Seu estilo inicial era impressionista. Entre 1902 e 1904, foi aluno da Academie Humbert, também em Paris. Lá, fez amizade com Marie Laurencin e Francis Picabia. Em 1907, depois de alguns meses em Antuérpia, participou de uma exposição do Salão dos Independentes (Paris), atraído por Matisse e por seu movimento, se uniu ao Fauvismo durante dois anos (1905/7), no entanto, ele mostrou interesse em solidez arquitetônica de composição e de uma forte ênfase em volumes definidos ao invés de cores e pinceladas.

“Large nude”, 1908.


Porto na Normandia, 1909.


De 1910 a 1912, realizou as obras que hoje são conhecidas como cubismo analítico. Um exemplo desse estilo é “Violino e jarro” (1910).



Violino e castiçal”, 1910.


“Natureza morta”, 1911.

A “Natureza morta” não se compõe apenas de vegetais, objetos ou animais, como geralmente ocorre com as naturezas-mortas. Com características do Cubismo Sintético, a pintura insere-se na linguagem inicial dos “pappiers collés”.
Ao pintar letras que depois serão coladas, que remetem a caracteres jornalísticos, junto a elementos naturais tradicionais, sua natureza morta ganha um outro, comum ao cotidiano do homem moderno: o jornal - que traz, na velocidade da era industrial, os últimos acontecimentos. Por outro lado, não deixa de conter em si o orgânico - a celulose -, que faz com que se incorpore ao quadro sem entrar em conflito com os outros itens, mas como um dado novo que a eles se soma. O preto, o acinzentado, os marrons, ocres, os tons amarelados remetem, desse modo, à terra: o vaso provém da cerâmica - o barro -, assim como o papel da madeira - a árvore - e, assim, os frutos e folhas. Todos se mesclam: as linhas se interseccionam levando à fusão dos elementos. O que se vê são dados, sugestões do que eles são. Ao se fundirem, confundem-se, lembrando sua mesma origem. São corpos independentes que, em sua coesão, revelam-se como sendo um só. E por serem independentes, ao mesmo tempo em que se completam, esses elementos aparecem como fragmento, recorte do real, peças de um mosaico no qual o que se vê são também sugestões do que são, agora sob uma outra óptica.


“O Português”, 1911.



Um notável exemplo do Cubismo Analítico, mostrando o efeito característico de revelo aberto nesse gênero de pintura e sua tendência para a monocromia; embora, BRAQUE, no que talvez seja um estilo peculiarmente francês, inclua matizes delicadamente variados em sua limitada gama de cores, assim como a pincelada muito agradável.
A introdução de letras em vários lugares aumenta a ambigüidade espacial do quadro, ao mesmo tempo acentua também a qualidade ilusória de tudo, salvo as letras.


“Fruitdish e Glass”, 1912.


“Mulher com guitarra”, 1913.

As pinturas deste período são todos executados em verdes suaves, cinzas, ocres e marrons.
Os objetos são fragmentadas, como se viu a partir de múltiplos pontos de vista.
Essa multiplicidade introduziu o elemento de tempo para a visão.
Esses fragmentos, ou cubos, estão organizados em uma grade, criando uma estrutura compacta pictórica.
Em 1912, Braque e Picasso começaram a incorporar em suas pinturas a técnica da colagem com papel, jornais e aglomerado de madeira. Realizou igualmente esculturas cubistas e obras de cerâmica, além de se dedicar à ilustração de livros e a trabalhos de decoração.
A parceria duraria até 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial e Braque foi convocado e ferido em combate.
Em 1922, expôs no Salão de Outono (Paris), o que lhe rendeu fama. Fez ainda a cenografia para dois balés de Sergei Diaghilev.
Cerca de 1930-1931 Braque mudou-se para a costa da Normandia, na França. Como resultado, ele mudou os temas de suas pinturas; banhistas, cenas de praia, e agora marinhas foram seus temas prediletos.
Em seguida, elaborou as primeiras gravuras e começou a utilizar motivos mitológicos. Sua pintura tornou-se então mais lírica.


Durante a Segunda Guerra Mundial, recolheu-se a Varengeville e trabalhou com litogravura, gravura em metal e escultura.
A partir do fim da década de 1940, sua arte foi elaborada com temas melancólicos e passou pintar pássaros, paisagens e marinhas.
As telas de Braque feitas durante a década de 1950 mostram um retorno às cores brilhantes do período de Fauve.
Em 1953, o Museu do Louvre, em cujo teto Braque pintara um afresco (Sala Etrusca), expôs sua obra, sendo a primeira vez que um artista vivo expunha no museu parisiense.
Em 1954, desenhou os vitrais da igreja de Varengeville e, em 1958, participou da Bienal de Veneza, que lhe dedicou uma sala especial.
Ativo até o final de sua vida, mesmo com problemas de saúde, Braque dedicou-se à escultura, gráficos, ilustrações de livros, joalheria e artes decorativas.


“Os pássaros”, 1960.


Braque acreditava que um artista experimentava a beleza "... em termos de volume, linha, massa, peso, e através da beleza que ele interpretava como uma impressão subjetiva..." (...) " objetos despedaçados em fragmentos... como uma maneira de obter de perto o objeto... A fragmentação ajudou-me a estabelecer espaço e o movimento no espaço...". Adaptou também uma paleta de cor monocromática e neutral na qual ele acreditava que podia trabalhar simultaneamente com a forma, interferindo com a visão de concepção de espaço; e focando, na distração, a observação da matéria do quadro.
Embora, com o emergir do Surrealismo, Braque começa-se a incorporar os elementos surrealistas nos seus trabalhos finais, tais como a exploração do uso da cor e menos objetos abstratos, mas continuou um forte devoto da sua ideologia cubista da perspectiva simultânea e da fragmentação.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

JUAN GRIS

(1887-1927)

JUAN GRIS, pseudônimo de Juan José Victoriano González, foi um dos mais famosos e versáteis pintores e escultores cubistas espanhoís. O artista representa o expoente máximo do cubismo sintético.
Estudou desenho mecânico em Madrid (1902-1904), período em que também contribuiu com ilustrações para periódicos locais.
No período de 1904-1905 passou a se dedicar à arte da pintura estudando com o pintor e professor acadêmico José Maria Carbonero.
Mudou-se para Paris (1906) onde tomou parte das primeiras manifestações do cubismo, que praticou com austeridade. Fez ilustrações para jornais e acompanhou a evolução do novo movimento artístico sugerido pelo pintor neoimpressionista francês Paul Cézanne (1839-1906).
Em 1911, apresentou suas primeiras obras cubistas, que, pela geometrização das formas patenteada, pela multiplicação dos pontos de vista e pela incorporação de elementos tipográficos, se distanciaram tanto do estilo de Picasso como do de Braque.
GRIS era um homem muito objetivo em cuja arte o fator racionalizante tinha grande peso. Por essa razão, não conseguiu entregar-se totalmente à liberdade inventiva de outros cubistas, mantendo sua arte presa a uma composição formal muitas vezes rígida e fria.
Não obstante, dá uma contribuição importante ao introduzir no cubismo uma visão nova do espaço como espaço-tempo e combinação de espaços interiores com espaços exteriores ao decompor o objeto no plano, buscando exprimir as várias etapas de sua apreensão no tempo.
Pintou seu primeiro quadro no novo estilo, “Homenagem a Picasso” (1912), e passou uma breve temporada em Céret, próximo aos Pireneus, onde pintou paisagens.


“Homenagem a Picasso” (1912)


Nesse quadro de seus primeiros tempos, empregou um tipo arbitrário, mas fixo, de luz e sombra contraditórias para desdobrar e coordenar aspectos do tema.
GRIS evita algumas das falhas desse estilo através de sua dedicação à espécie de articulação rigorosamente controlada de toda a área pictórica do quadro.
Conjugou elementos que aprendeu com Picasso e Braque, como seja a representação de objetos a partir de ângulos diferentes, com a utilização de cores vivas.
Em sua paleta predominam os azuis, os verdes e os violetas. A partir de 1912, Gris interessou-se pela técnica da colagem, que lhe permitiu criar um jogo de ambiguidades entre o que é real e o que é pintado e, desse modo, entre o verdadeiro e o falso.


Vista da Baía, Juan Gris, 1912, Museu Nacional de Arte Moderna, Paris

O ano de 1913 marca a sua conversão ao cubismo sintético, uma abordagem cubista em que o objeto não estava mais facetada em partes menores, mas foi recombinado com outros objetos ou partes de objetos para formar uma nova estética totalidade


“Violino e guitarra” (1913)

Ao contrário de Picasso e Braque, cujas obras cubistas foram monocromáticos, Gris pintados com cores brilhantes e harmoniosas em ousadia, com uso extensivo de papier collé.



“O Violão” (1914)


“Homem no café” (1914)

Em 1914 Gris passou um tempo com Henri Matisse em Collioure. Gris retornou a Paris em 1915, e sofreu desolado da pobreza durante a Primeira Guerra Mundial I. No final de 1916 sua pintura se tornou mais imponente e arquitetônico, e as formas se tornaram maiores e mais planas como múltiplos pontos de vista foram de tal forma abandonados, como no Violino (1916).



“Violino” (1916)


“Arlequim com guitarra” (1919)


A este período criativo pertencem naturezas-mortas como Copos e Jornal (1914), O Pequeno-Almoço (1915), Jarra e Copo (1916), A Garrafa de Vinho (1918) e Garrafa e Fruteira (1919). É evidente sua tendência à simplificação, tanto no número de objetos representados como nos aspectos envolvidos. Em sua evolução, o artista escolheu partir cada vez mais das formas geométricas mais simples para construir os objetos que pintaria, numa procura das estruturas mais elementares, enquanto seu cromatismo manteve uma luminosidade abstrata. O Livro de Música, 1922, e A Guitarra Frente ao Mar, 1925, são dois de seus últimos trabalhos mais destacados.


“Guitarra e Partitura” (1926-27)



Guitare et compotier, Juan Gris,1926-27, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona



“ Le Chanteuse” (1926)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

PICASSO (1881-1973)


“Deus é, sobretudo, um artista. Ele inventou a girafa, o elefante, a formiga. Na verdade, Ele nunca procurou seguir um estilo – simplesmente foi fazendo tudo aquilo que tinha vontade de fazer”.


“a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade.”

Nasceu em Málaga (Andaluzia) e recebeu o nome completo de Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santíssima Trinidad Ruiz Picasso, filho de María Picasso y López e José Ruiz Blasco.
Em torno do seu nascimento surgiram várias lendas, algumas das quais Picasso se esforçou a promover. Segundo uma delas, Picasso nasceu morto e a parteira dedicou a sua atenção à mãe acamada. Só o médico, Don Salvador, o salvou de uma morte por asfixia soprando-lhe fumo de um charuto na face. O fumo fez com que Picasso começasse a chorar. O seu nascimento no dia 25 de outubro de 1881, às onze e um quatro da noite, seria assim descrito por Picasso aos seus biógrafos, que a publicavam de boa vontade.
Roland Penrose, um dos mais conhecidos biógrafos de Picasso, procurou nas suas origens a razão da sua genialidade e da sua abertura à arte, algo natural na compreensão de um gênio. Na geração dos seus pais são vários os vestígios. O seu pai era pintor e desenhista, de bem medíocre talento. Don José, dedicava-se a pintar os pombos que pousavam nos plátanos da Plaza de la Merced, perto da sua casa. Ocasionalmente, pedia ao filho para lhe acabar os quadros. A linhagem paterna possibilitou-se estudar até ao ano de 1841. Da descendência materna pesquisada, Dona María contava entre os antepassados com dois pintores. As feições de Picasso são também semelhantes às da mãe.
Os primeiros dez anos de vida de Pablo são passados em Málaga. O salário pequeno do pai como conservador de museu e professor de desenho na Escuela de San Telmo, a custo assegurava o sustento da família. Quando lhe ofereceram uma colocação com melhor remuneração no Instituto Eusébio da Guarda no norte do país, à hesitação sobrepôs-se a necessidade, e junto com a família, don José parte para a Corunha, capital de província à beira do Oceano Atlântico.
Os desenhos de infância de Picasso representavam cenas de touradas. Sua primeira obra, preservada, era um óleo sobre madeira, pintada aos oito anos, é chamada O Toureiro. Picasso conservou esse trabalho toda a sua vida, levando-o consigo sempre que mudava de casa. Anos mais tarde pintou outro quadro semelhante, A morte da mulher destacada e fútil. Picasso está zangado e rebelde. Este quadro é claramente uma expressão injuriosa da sua relação com a mulher.
A preocupação principal do pai com o pequeno Pablo era o seu aproveitamento escolar, mas nem por isso dispensou a oportunidade de fomentar o talento do filho. Desenhar foi desde cedo a forma mais adequada de Picasso se exprimir e, talvez por isso, secundário.
Recusa claramente o ensino usual, e encarrega-se ele próprio da sua formação artística. Com treze anos, e seguindo o modelo do pai, Picasso atingira já a perícia do progenitor (que também não era de grande refinamento). Ao contrário do que apontam algumas listas, Picasso era destro, como se pode ver no célebre documentário The Mystery of Picasso.
A família transferiu-se novamente, desta vez a Barcelona, na Primavera de 1895, e a prova de admissão na escola de arte La Lonja é feita com sucesso. Os trabalhos que deveria apresentar ao fim do mês, Pablo apresentava-os ao fim de poucos dias, ao cabo que o seu trabalho se destacava, inclusive, do dos finalistas. Com quatorze anos, Picasso conseguia superar as exigências de uma conceituada academia de arte. Trabalhos acadêmicos, que segundo o próprio, ao cabo de vários anos o assustavam. Os trabalhos que fazia colocavam-no na série de conceituados pintores de Barcelona, como Santiago Rusiñol e Isidro Nonell, e o seu quadro A Primeira Comunhão é exposto na célebre exposição da época na cidade. Apesar de ter optado por uma temática religiosa, este não deixa de ser um acontecimento privado, do plano familiar. Apesar de realista e de satisfazer as exigências acadêmicas, por outro lado a obra acaba por ser uma tentativa de combate ao convencionalismo.
Depois de uma estadia em Málaga, em 1897 instala-se em Madrid.
Em Madrid, instalado num novo atelier, inscreve-se na mais próspera e conceituada academia de artes espanhola, a Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Constantemente, visita o Museu do Prado, onde copiava os grandes mestres, captava-lhes o estilo e tentava imitá-lo, o que se revelou, por um lado, um avanço, pois desenvolvia capacidade efêmeras, e por outro lado, uma estagnação de um gênio criativo limitado à cópia do trabalho dos históricos, cujas obras também vieram a ser alvo de uma revisitação e reinterpretação de Picasso em fases mais avançadas.
Porém, a sua estadia em Madrid é interrompida. No início de Julho daquele ano, Picasso adoece com escarlatina e a recuperação obriga-o a retornar a Barcelona, recolhendo-se logo a seguir com Manuel Pallarés, seu amigo, para a aldeia Horta de Ebro nos Pirinéus. O recolhimento ajudou-o a restabelecer novos e ambiciosos projetos que levou a cabo assim que regressou a Barcelona. Afastara-se da academia e do lar paterno, e procurava abrir-se às inovações da arte espanhola, mantendo-se em contato com os seus representantes mais célebres. O espaço de culta da vanguarda espanhola era o café Els Quatr Gats. Ali conheceu os modernistas e rivalizou com a arte destes, influenciada pela Arte Nova francesa e pelas vanguardas britâncias.
Em 1900, nas instalações do mesmo estabelecimento, abre ao público a sua primeira exposição. Entretanto, o desejo de conhecer Paris aumentava ainda mais.



Após iniciar como estudante de arte em Madrid, Picasso fez sua primeira viagem a Paris (1900), a capital artística da Europa. Foi um período de extrema pobreza, frio e desespero. Muitos de seus desenhos tiveram que ser utilizados como material combustível para o aquecimento do quarto.


FASES DE PICASSO:

Na FASE AZUL (1901 a 1905), Picasso pintou a solidão, a morte e o abandono.


“Arlequim sentado”, 1901.


Família de Saltimbancos
Pablo Picasso, 1905
National Gallery of Art
Washington, Estados Unidos


“La vie”,1903. O óleo sobre tela está no Museu de Arte de Cleveland – Estados Unidos.

A obra é considerada parte do Período Azul. O homem retratado na pintura trata-se de Carlos Casagemas, amigo do artista, que se suicidou em 1901. Sua morte é retratada em diversas obras do artista, como em “La mort de Casagemas” (A morte de Casagemas) de 1901 – óleo sobre madeira que está no Museu Picasso, em Paris.
Repleto de simbolismos, este quadro foi interpretado como uma alegria do amor sagrado e do amor profano (a tela confronta um jovem casal seminu e a uma mãe vestida com um bebê em seus braços), do ciclo da vida e da carreira do pintor moderno. Talvez mescle tudo isso, e o dedo o rapaz, como nas imagens de São João Batista, indique a mudança que será registrada na trajetória artística de Picasso.


TRANSIÇÃO DA FASE AZUL PARA A ROSA:


Quando se apaixonou por Fernande Olivier, suas pinturas mudaram de AZUL PARA A ROSA (1905-1906). Trabalhava durante a noite até o amanhecer. Em Paris, Picasso conheceu um seleto grupo de amigos célebres nos bairros de Montmartre e Montparnasse: André Breton, Guillaume Apollinaire e a escritora Gertrude Stein.


“Nu sentado” é uma das pinturas de Pablo Picasso que marca o fim da Fase Azul que durou quase três anos e o início da Fase Rosa que durou de 1905 até 1906. A menos rígida, maior agilidade nas linhas e sutis deformações, nova beleza, terna e delicada, caracterizavam os quadros dessa época, onde o volume corpóreo das figuras ganha maior importância. Em “Nu sentado”, o olhar do modelo continua tristonho (marca da Fase Azul) enquanto o corpo já flutua num suave campo alaranjado...

FASE ROSA:

Na FASE ROSA há abundância de tons de rosa e vermelho, caracterizada pela presença de acrobatas, dançarinos, arlequins, artistas de circo, o mundo do circo.


“Arlequim com copo na mão”, 1905.


“Nu em pé”, 1907

No século 19, os artistas que seguiam os cânones do Romantismo não eram valorizados, eram desrespeitados e não conseguiam sair do ostracismo. Eram até considerados mártires do refinamento, como se fossem uns atrasados que não quisessem andar com os tempos. Picasso voltava sempre a esse tema em sua Fase Rosa. Os contemporâneos do pintor espanhol se referiam a esse período como o Período Arlequim de Picasso.
O artista de circo simbolizava o artista em geral, e sua vida sofrida em particular, e esses artistas, escarnecidos e marginalizados, ao entrar no picadeiro, interpretavam com orgulho, punham a alma na dedicação à sua arte. E Picasso valorizava isso e fez dos artistas circenses o motivo mais presente em seus primeiros anos parisienses.
Para os adeptos do Romantismo, como Picasso, não havia diferença fundamental entre um artista de circo e um artista de teatro, ambos passavam pelo mesmo martírio artístico. O fato é que essa ligação afetiva entre os românticos e os artistas de circo acabou sendo a primeira oportunidade comercial real para Pablo Picasso. Um galerista, palhaço aposentado, chamado Clovis Savigot, resolveu expor os quadros do pintor que tanto defendia e retratava os personagens do circo. E foi através da galeria de Savigot que Picasso conheceu Gertrude Stein e seu irmão Leo, que se tornariam importantes colecionadores de Arte Moderna, incentivadores dos pintores e poetas e grandes amigos de Picasso.
A imagem de hoje é duplamente interessante. O arlequim com copo na mão está num dos cafés mais célebres de Paris – o “Lapin Agile”, fundado em meados do século 19. Por sua localização, pleno Montmartre, e por ser bem popular, o "Lapin Agile" era ponto de encontro de pintores, escritores e poetas no início de suas carreiras (o café ainda está lá...). Mas o mais interessante é que o arlequim retratado é ninguém menos que o próprio Picasso, com a roupa que passou a significar tanto para ele e sua carreira.
No verão de 1906, durante uma estada em Andorra, sua obra entrou em uma nova fase marcada pela influência das artes gregas, ibérica e africana, era o protocubismo, o antecedente do cubismo. O célebre retrato de “Gertrude Stein” (1905-1906) revela um tratamento do rosto em forma de máscara.


“Gertrude Stein” (1905-1906)


“Auto-Retrato” (1907)

Utilizando-se de poucos traços; linhas retas; sugerindo rapidez, o artista apresenta seu auto-retrato de maneira tosca, rústica, nariz achatado, olhos grandes, remetendo-nos à origem africana.


As senhoristas de Avinhão, (1907), Pablo Picasso

“Les demoiselles d’Avignon” (As senhoritas de Avinhão) é um dos mais famosos quadros do pintor espanhol Pablo Picasso. Pintado em 1907, óleo sobre tela, este quadro encontra-se exposto no MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (www.moma.org), nos Estados Unidos. É um quadro pré-cubista, que evidência o impacto da arte africana.
Seu trabalho mais revolucionário.
Considerada a primeira obra cubista, em sua fase azul.
Na época em que pintou, Picasso tinha completa noção que este era o quadro mais importante que havia pintado até então. Para a obra definitiva, Picasso passou meses a fazer esboços e, durante o trabalho, fez inúmeras modificações. Quando concluiu a obra, havia concebido a maior tela que alguma vez pintou.
Esta obra representa, para além de uma obra-prima do cubismo mundial, a violação de todas as tradições e convenções visuais naturalistas ocidentais, ao apresentar cinco aleivosas (prostitutas), representadas de forma cubista, como se nota na mulher nua sentada à direita, vista simultaneamente de frente e de costas. Os rostos das personagens refletem o início do Período Negro, na obra de Picasso, assemelhando-se a máscaras e esculturas africanas. A estética geométrica e visual delimitou contornos quanto ao futuro do cubismo.
Retrata cinco mulheres (senhoritas prostitutas) de um bordel francês, Avinhão (cidade dos papas) de formas geometrizadas e deformadas. Os rostos das figuras em poses sensuais clássicas, com exceção à sentada com pernas abertas, fazem referências à pintura acadêmica, braços levantados realçando as formas do busto; contendo duas mulheres centrais com expressões de andaluzas (sul da Espanha, terra natal do pintor) e três com feições que lembram máscaras africanas. Releva-se que a partes “realmente” cubista do quadro são os dois nus femininos da metade à direita, que contrastam com os que se situam na metade à esquerda, além da mulher sentada à direita, possibilitando seu corpo ser visto de costas, mas seu rosto de frente.
Suas mulheres nuas e esquálidas possuem olhos enormes e com olheiras sob o espanto da degradação.
Ao repararmos na moça da esquerda, não podemos distinguir se há uma porta atrás e, no centro podemos observar algumas frutas.
As figuras são planas e o cenário avança em nossa direção (inversão dos volumes).
Os traços brancos e azuis dão corporiedade à obra.
De formato inusitado, quase quadrado (243,9 X 233,7 cm) e de tema provocativo, faz referência à arte africana (máscaras negras), à escultura ibérica com suas violentas transformações do rosto (Picasso possuía duas estatuetas dessas em seu ateliê) e à oriental.
Cézanne denominaria esse quadro por “O Banho de Diana” ou “Vênus” se tivesse sido pintado no século XVIII, como forma de justificar o nu artístico.
A obra marca na carreira do artista a transição para o cubismo. O nome desse quadro, o mais famosos de Picasso juntamente com “Guernica”, não foi dado por seu autor, foi batizado mais tarde pelo escritor francês André Salmon, amigo de Picasso, numa alusão maliciosa a uma rua mal-afamada de Barcelona, rua de Avinyó.
O quadro inaugura uma visão pictórica radicalmente nova: a decomposição das formas; sua reorganização no plano; as imagens que abandonam a semelhança realista para se tornarem símbolos e a destruição da velha imagem do homem, herdada de séculos de civilização, para tentar construir a nova face da modernidade.
Toda a ilusão de profundidade foi eliminada e os elementos de cena são trazidos para frente, como que empilhados.


“O retrato de Ambroise Vollard” (1910)

“Não sei se sou um grande pintor”, disse Picasso, “mas sou um grande rascunhador”. Embora soubesse captar a semelhança com tanta perfeição quanto Ingres, ele preferiu inventar novas formas a perpetuar as antigas.
No quadro cubista analítico de Vollard, Picasso quebra o modelo numa estrutura cristalina de facetas interligadas em tonalidades baixas.
Foi marchand de Picasso e Cézanne. Trata-se de uma pintura quadrimensional (espaço e tempo).


COLAGEM:

Em 1912, Picasso realizou sua primeira colagem, colou nas telas pedaços de jornais, papéis, tecidos, embalagens de cigarros.


“Copo e Garrafa de Suze” (Paris, 1912)


“Mesa com Garrafa,
Copo de Vinho e Jornal” (Paris, 1912)


“Natureza morta” (1912)

Madeira, fragmentos da realidade (acrescentar pedaços da própria realidade) e técnica da colagem.


CUBISMO SINTÉTICO:


Em seus trabalhos do Cubismo Sintético, PICASSO abandonou os aspectos picturais e ilusionistas do Cubismo Analítico e tratou a tela ou painel em que trabalhava como uma base sobre a qual construía imagens. Usou frequentemente fragmentos de papel e outros materiais que envolviam certo grau de projeção, a partir dessa base.
Um prolongamento lógico de tal processo foi o relevo construído. PICASSO produziu uma série desses relevos em 1913-14, que inspiraram o desenvolvimento da escultura construtivista na Rússia.


“Ma Jolie” (1914)

No plano privado, 1911 é o ano do rompimento com Fernande Olivier e da entrada na vida de Picasso de Eva Gouel, que aparecerá em sua obra sob o nome de Ma Jolie [Minha formosa]. "Houve uma época em sua vida, de 1912 a 1914, na qual era impossível, dado o que ele ambicionava, fazer um retrato. Mas mesmo nessa época Picasso quis manifestar seu amor nos quadros. Tenho uma carta em que ele diz mais ou menos o seguinte: 'Eu amo Eva... e escreverei isso em meus quadros”. De fato, há quadros dessa época em que ele escreveu, sobre um pão de mel pintado em forma de coração, “Eu amo Eva”... Há outros quadros da mesma época em que aparece Ma Jolie. Ma Jolie era o nome de uma canção que ouvíamos nas boates de Montmartre quando ele cortejava Eva. Era também a ela que se referia quando colocava Ma Jolie nas pinturas."
Eva inspira-lhe também uma de suas mais belas obras cubistas, Femme en chemise dans un fauteuil [Mulher de camisola numa poltrona] (1913, coleção particular). Sua morte prematura em 1915, quando o casal vivia um amor tranquilo, deixa-o totalmente arrasado.

Em seguida, Picasso apaixonou-se por Olga Koklova, uma bailarina. Casaram-se em 12 de julho de 1918. Neste período o artista já se tornara conhecido e era um artista da sociedade. Quando Olga engravidou, criou uma série de pinturas de mães com filhos.


“Cabeça de mulher”, 1922.


“Bandolim, Fruteira e Braço de Gesso”, 1925.


“O estúdio” (1928-29)

Grande exemplo do Cubismo Sintético. Emprega cores fortes e formas decorativas. À esquerda, o pintor segura um pincel, indicado por uma pequena linha diagonal no final de um “braço” horizontal. A “cabeça” oval contém três olhos verticais, sugerindo talvez a visão superior do pintor. Um círculo flutuante é só o que resta da paleta do artista.
“Foto como elemento da composição. Como posso analisar, posso sintetizar..”



“A Sonhadora”, 1932.


“Guernica” (1937)

“O que vocês pensam que seja um artista? Um imbecil feito só de olhos, se é pintor, ou de ouvidos, se é músico, ou de coração em forma de lira, se é poeta, ou mesmo feito só de músculos, se trata de um pugilista? Muito ao contrário, ele é ao mesmo tempo um ser político, sempre alerta aos acontecimentos tristes, alegres, violentos, aos quais reage de todas as maneiras. Não; a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra para operações de defesa e ataque contra o inimigo”.

GUERNICA cumpre dois papéis: de representar um acontecimento histórico e o de ser um acontecimento histórico (intervenção da cultura na luta política).
Nesse enorme quadro (3,50 m X 7,82 m) Picasso utilizou apenas o preto, o branco e alguns tons de cinza, criando detalhes que impressionam o observador e para enfatizar o desespero.
Nesta obra é nítida a indignação do artista frente ao bombardeio da cidade espanhola de Guernica por aviões alemães sobre a capital basca de mesmo nome, responsáveis pela morte de grande parte da população civil, durante a Guerra Espanhola.
A obra mostra sua visão particular da angústia do ataque, com a sobreposição, a fragmentação de figuras e a distorção para transmitir a violência.
As linhas quebradas e os planos fragmentados do Cubismo denotam terror e confusão, enquanto o formato em pirâmide segura, a unidade da composição.
O que mais se destaca no quadro é o seu pensamento sintético, a falta de uma narrativa, a ausência de cores ou de relevos, características primordiais com as quais percebemos a natureza. Não perceber a natureza é cortar as relações que se tem com ela e com a vida. Com isso só resta à morte.
Outra característica da obra é uma crise na forma, que é a representação máxima de uma civilização. A forma que reconhecemos e admiramos é produto da cultura de nossa civilização; quando esta entra em crise, representa uma crise na própria civilização.
Estas características mostram como o autor entende a sociedade em que vive e suas transformações em seus aspectos mais gerais.
O painel encontra-se dominado no alto pela luz de um olho-lâmpada - símbolo da mortífera tecnologia - seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo morrendo com o corpo contorcido parecendo relinchar, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A direita dele, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja símbolo da Espanha em guerra civil, impotente perante a destruição que a envolvia. Logo abaixo do touro, encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Ela olha para cima como quem procurando identificar de onde vêm as bombas e clamando aos céus por uma intervenção. Trata-se da moderna Pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. À direita, uma mulher grávida com seios expostos voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida.
Não vemos as bombas; apenas um clarão ao fundo. Mas reconhecemos a violência da cena: um bombardeio sobre uma cidade desprotegida.
Alguns símbolos de Picasso, como o guerreiro morto com a espada quebrada, implicando derrota, não são difíceis de decifrar. A única explicação de Picasso para outros símbolos era: “O touro não é o fascismo, mas a brutalidade e a escuridão...O cavalo representa o povo”.

Guernica, em 26 de abril de 1927, tinha sido severamente bombardeada por aviões alemães, postos à disposição de Franco, ditador líder do governo espanhol, aliado de Hitler. Dos sete mil habitantes da cidade, 1.654 morreram e 889 ficaram feridos.
O massacre teve como objetivos a submissão do Pis Basco e a demonstração da nova técnica bélica alemã, o bombardeamento de saturação, que seria depois usado em larga escala na Segunda Guerra Mundial. Este consistia em usar técnicas modernas e científicas para maximizar os danos e o número de vítimas nos bombardeios e para facilitar o avanço das unidades de infantaria.
Os motivos do bombardeio eram claros: serviriam de exemplo para os bascos e para todos aqueles que se opusessem aos alemães e a seus aliados.
Picasso assume uma posição ofensiva. Por meio da pintura, não pretende apenas mostrar os horrores da guerra, mas, com uma nova estética, obrigar a humanidade a sentir-se co-responsável, se não por participação direta ou por submissão pela carnificina realizada contra o povo basco.
Foi uma das grandes premonições histórico-estéticas do século. Dois anos depois teria o início o martírio das populações de Varsóvia, de Londres, de Berlim, de Hamburgo, de Leningrado, de Dresden, de Hiroxima e de Nagasaki, que padeceriam, devido aos bombardeamentos em massa, dos mesmos tormentos das imagens dilaceradas do quadro de Picasso. Exatamente por não ter nenhum signo específico de agressão, nenhuma suástica ou distintivo franquista ou falangista, a composição transcendeu os acontecimentos da infausta Guerra Civil espanhola tornando-se um manifesto estético dos horrores provocados por uma tecnologia a serviço da desumanização. Picasso pintou a obra-prima do século, onde se misturam as contradições da nossa época: progresso e violência, catástrofe e prosperidade.

Um pouco da história...

Era uma 2ª feira, dia de feira-livre na pequena cidade da Biscaia. Das redondezas chegavam as suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, no país dos bascos, trazendo seus produtos para o grande encontro semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram os seus badalos. Tratava-se de mais uma incursão aérea. Até aquele dia fatídico - 26 de abril de 1937 - Guernica só havia visto os aviões nazistas da Legião Condor passarem sobre ela em direção a alvos mais importantes, situados mais além, em Bilbao. Mas aquela 2ª feira foi diferente. A primeira leva de Heinkels-11 despejou suas bombas sobre a cidadezinha precisamente às 16:45 horas. Durante as 2 horas e 45 minutos seguintes os moradores viram o inferno desabar sobre eles. Estonteados e desesperados saíram para aos arredores do lugarejo onde mortíferas rajadas de metralhadora disparada pelos caças os mataram aos magotes. No fim da jornada contaram-se 1.654 mortos e 889 feridos, numa população não superior a 7 mil habitantes. Quase 40% haviam sido mortos ou atingidos. A repercussão negativa foi tão grande que os nacionalistas espanhóis trataram logo de atribuí-la aos "vermelhos".
A escolha da pequena Guernica deveu-se a vários motivos. A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, além de não ter uma população numerosa. Além disso, abrigava um velho carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas espanhóis ou seus legados, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos, bem como as decisões da batzarraks (o conselho basco). Como o levante de Franco foi também contra a autonomia regional, a destruição de Guernica serviria como uma lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada. Assim, quando a notícia da dizimação provocada pelo bombardeamento "científico" chegou aos jornais provocou um frêmito de horror em todos os cantos do mundo. Quase todos os habitantes de cidades, em qualquer lugar do planeta, sentiram instintivamente que estavam sendo apresentados a outro tipo de guerra, à guerra total, e que, doravante, por vezes, seria mais seguro estar-se numa trincheira no fronte, do que vivendo numa grande capital.


Mulher chorando com lenço (1937)

Na tela “Mulher chorando com lenço”, também de 1937, Picasso retoma parte dos esboços feitos para Guernica, ampliando os traços (feitos à margem inferior esquerda) de uma mãe que carrega seu filho morto nos braços. Envolta em luto e dor, a mulher agora está sozinha.
O rosto fragmentado, distorcido e atormentado é realçado pelas cores berrantes. “As cores estão para um pintor assim como os conceitos estão para os filósofos“, diria Guilles Deleuze.
Curioso (se olharmos mais atentamente) é que os dedos da mulher tornam-se o próprio lenço, sendo mordido desesperadamente pela mãe, numa simbiose que representa (segundo uma das interpretações possíveis) a tristeza, a dor da perda de um ente querido em um mundo atroz e cruel.


“Dora Maar no braço da cadeira”, 1939.

Entre o começo e o fim da 2ª Guerra Mundial (1939-1945), dedica-se também à escultura, gravação e cerâmica. Como gravador, domina as diversas técnicas: água-forte, água-tinta, ponta-seca, litogravura e gravura sobre linóleo colorido. Além disso, sua dedicação à arte escultórica era esporádica. Cabeça de Búfalo, Metamorfose é um grande exemplo de seu trabalho com esse meio. É considerado um dos pioneiros em realizar esculturas a partir de junção de diferentes materiais.


Mulher no jardim”, 1932.

Em 1943, Picasso conhece a pintora Françoise Gilot e tem dois filhos, Claude e Paloma e encontrou um pouco de paz e pintou “Alegria de Viver”.
Em 1968, aos 87 anos, produziu em sete meses uma série de 347 gravuras recuperando os temas da juventude: o circo, as touradas, o teatro, as situações eróticas. Anos mais tarde, uma operação da próstata e da vesícula, além da visão deficiente, põe fim às suas atividades. Como uma honra especial a ele, no seu 90ª aniversário, são comemorados com exposição na grande galeria do Museu do Louvre. Torna-se assim o primeiro artista vivo a expor os seus trabalhos no famoso museu francês.



Pablo Picasso morreu a 8 de abril de 1973 em Mougins, França com 91 anos de idade. Diz-se que levou toda a sua vida a saber pintar como uma criança.