quinta-feira, 22 de julho de 2010

IRACEMA – A LENDA DO CEARÁ (1865)




I – AUTOR:

JOSÉ DE ALENCAR (Mecejana-CE, 1829 – Rio de Janeiro-RJ, 1877)

José Martiniano de Alencar, filho natural de um padre, que depois se tornou senador do Império e presidente do Ceará e de uma prima em primeiro grau, Ana Josefina de Alencar. O relacionamento rendeu doze filhos, que foram reconhecidos pelo clérigo em 1853.
Vindo de uma aristocracia rural e da oligarquia provinciana, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro em 1839.
Aos 10 anos de idade, era considerado o leitor oficial da família, tornando-se um fanático voraz de Literatura.
Retornou ao Ceará apenas uma vez, aos doze anos.
Em 1843, mudou-se para São Paulo, onde cursou da Faculdade de Direito, exceto o 3º ano que cursou em Olinda. Na época mantinha-se afastado dos movimentos acadêmicos e literários da faculdade.
Em 1846, fundou uma revista semanal chamada “Ensaios Literários”. Neste período escreveu seu primeiro romance “Os Contrabandistas” ou “Os Negreiros do Rio de Janeiro”, que foram queimados por um colega de quarto.
Formado, advogou no Rio de Janeiro, mas nunca se afastou da literatura. Colaborou no “Correio Mercantil” (Ao Correr da Pena, 1854).
Em 1856, já como redator-chefe do “Diário do Rio de Janeiro”, sob o pseudônimo de Ig, escreveu uma série de críticas à obra “A Confederação dos Tamoios”, de Gonçalves de Magalhães, “poema feito por quem não era poeta e mandado publicar pelo imperador, e tanto tinha razão que, hoje, o poema tem importância apenas cronológica e só é lembrado em função da crítica de Alencar.”
Ainda neste ano, publicou “Cinco Minutos” e, em 1857, “A Viuvinha”, obras romanescas de ambientação carioca.
Em seguida, veio “O Guarani” (1857), romance histórico-indianista, seu primeiro grande sucesso literário.
Em 1865, publica “Iracema”, por conta própria, torna-se chefe da Secretaria do Ministério da Justiça e mais tarde, passa a consultor desse ministério.
Em 1860, morre seu pai e o autor entra para a vida política, elegendo-se em 1861, deputado provincial pelo Ceará, pelo Partido Conservador e em 1968, ministro da Justiça do Gabinete Itaboraí. Na ocasião assinou a lei que proibia a venda de escravos sob pregão e em exposição pública, prática muito exercida no chamado Mercado do Valongo.
Nessa época começam as discórdias entre o autor e D.Pedro II, que vetará a sua escolha para senador do Império, embora tenha sido o mais votado (Alencar comunicou a D.Pedro II seu desejo de ingressar no Senado e D.Pedro II observou que era cedo, pois o mesmo era muito moço; então, Alencar respondeu que ”Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal.”)
Desistiu da política e passou a dedicar-se exclusivamente à sua carreira literária.
Nem mesmo o sucesso de “O Guarani” tirou o autor da amargura e do isolamento.
“Atacado, negado, vilipendiado, na vida literária e na política, só no lar, bem constituído, encontrava tranqüilidade e compreensão. (...) Torna-se um velho aos 40 anos de idade e adota o pseudônimo de Sênio.”
Já doente, viaja à Europa, mas nada o anima.
Morre em 1877, envelhecido, embrutecido e solitário; preocupado com a situação financeira em que deixava os seus.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“A urbanização da cidade do Rio de Janeiro, agora transformada em corte, criando uma sociedade consumidora representada pela aristocracia rural, profissionais liberais e jovens estudantes, todos em busca de “entretenimento”; o espírito nacionalista a exigir uma “cor local” para os romances, e não a mera importação ou tradução de obras estrangeiras; o jornalismo vivendo seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins; o avanço do teatro nacional: estes são alguns dos fatos que explicam o aparecimento e o desenvolvimento do romance no Brasil.” (José de Nicola)

III – ESTILO DE ÉPOCA:

Prosa romântica no Brasil (1844-1881)

IV – ESTILO DO AUTOR:

- Indianismo alencariano:
- Criação de uma identidade cultural e nacional para o Brasil;
- A idealização heróica e a utopia do retorno ao índio;
- Revisão e o resgate dos processos de formação da nacionalidade brasileira;
- Defesa da “língua brasileira”, independente dos padrões portugueses;
- Lendas e mitos da terra selvagem e o consórcio do povo invasor com a terra conquistada.

V – TEMÁTICA:

- Ódio de duas nações adversárias (tabajaras versus pitiguaras);
-Argumento histórico de alguns personagens (Martim, Camarão, guerra holandesa);
-Tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes;
- Beleza física e moral de Iracema;
- Heroísmo, ciúmes e valor marcial;
- Valor de uma amizade sincera;
- Natureza exuberante;
- Dor, solidão e melancolia;
- Grandes façanhas guerreiras;
- Colonização e formação de uma raça;
- Religiosidade e
-Pintura dos vultos heróicos e das paixões guerreiras

VI – ESTRUTURA:

Composto de trinta e três capítulos curtos, enfeixados por um Prólogo e uma Carta final, o autor concentra-se na linguagem poética, a narração do conflito amoroso entre Iracema e Martim, representantes de duas raças.

José de Alencar acrescentou à obra notas de rodapé que aludem à história e geografia da região descrita no romance e elucidam o sentido dos vários termos tupis utilizados por ele. Com essas notas, pode-se perceber todo o trabalho de pesquisa que embasou a criação de “Iracema”. São, portanto, o apoio documental à ficção do autor.

A obra traz também o “argumento histórico” utilizado pelo autor para sua composição: “Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Paraíba, partiu como capitão-mor de descoberta, levando uma força de oitenta colonos e oitocentos índios. Chegou à foz do Jaguaribe e aí fundou o povoado que teve nome de Nova Lisboa.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
(...) No Rio Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos índios do litoral e seu irmão Poti.
(...) Como chefes dos tabajaras são mencionados Mel-Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauí. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliáveis e rancorosos dos portugueses e aliados dos franceses do Maranhão que penetraram até Ibiapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos por sua aliança firme com os portugueses.”

Como o próprio autor indica, essa nota contém o “argumento histórico” da lenda que pretende contar. Nela se dão dados da principal personagem masculina, que corresponde à figura histórica do português Martim Soares Moreno; e das figuras históricas dos índios Poti e Jacaúna, que vão ser recriadas ficcionalmente.

PRÓLOGO VERSUS EPÍLOGO:

Dirigidos ao Dr. Jaguaribe, nas condições de um amigo e representante particular de um leitor; Alencar objetiva atingir o leitor coletivo, pois tem consciência de que escreve para todo o seu público. No prólogo discorre sobre a referida obra, afirmando que “(...) o livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os múrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros.”
Em seguida acrescenta que foi escrito “por um filho ausente, para muitos estranhos”, afinal “quem não pode ilustrar a terra natal, canta as sua lendas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos.”
Alencar diz ser avesso aos prólogos, pois “roubam as primícias do sabor literário” e, completa que “(...) na última página me encontrará de novo...”
No epílogo, Alencar divaga que “(...) meio descrido das coisas, e mais dos homens; por isso buscava na literatura diversão à tristeza que me infundia o estado da pátria entorpecida pela indiferença.”
Tratava-se das “tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes.” Já havia escrito algumas cartas criticando a Confederação dos Tamoios e afirmando que “as tradições dos indígenas dão matéria para um grande poema que talvez um dia alguém apresente sem ruído nem aparato, como modesto fruto de suas vigílias”.
José de Alencar lia nessa época todas as obras de temática indígena, mas discordava da falta de originalidade de pensamentos e expressões da poesia nacional. Acreditava que “o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as idéias, embora rudes e grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e pensamentos dos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem.”
O autor após viajar em 1848 para a sua terra natal aproveitou-se de suas lendas e tradições para compor Iracema – “A lenda do Ceará”. Depois de concluído o livro, confessa que abusou de certas imagens e de comparações e adverte que caso a obra tenha segunda edição “será escoimada destes e outros defeitos que lhe descubram os entendidos.”

VI – LINGUAGEM:

- Poema em prosa ou prosa poética
“Em um desses volveres do espírito à obra começada, lembrou-me de fazer uma experiência em prosa”. Com esta frase e as que se seguem, o autor diz que, a partir do texto que concebera como um poema, decide fazer outro, na mesma linha indianista, dessa vez transferindo a poesia para a linguagem da prosa, que ele considera de expressão mais flexível.
- Estilo figurado, recursos variados de frase poética, ritmo encantatório, musical e riqueza imagética
- Fontes clássicas da língua e sabor arcaizante
- Termos indígenas
- Aliteração, símiles (comparações explícitas), dípticos (formas ampliadas dos símiles), imagens cromáticas, metáforas, prosopopéia, metonímia etc
- Profunda densidade poética: a poetização da prosa invade a ação, fundindo o mito e o cenário natural, explorando a cor local.
- As frases têm um ritmo ondulatório.
- Linguagem predominantemente conativa, sucessão de imagens que o leitor deve decodificar para aprender o significado do texto.


- Os três primeiros parágrafos possuem musicalidade, que podem ser dispostos como versos de um poema tradicional:

Verdes mares bravios (6)
de minha terra natal, (7)
onde canta a jandaia (6)
nas frondes da carnaúba; (7)

Verdes mares, que brilhais (7)
Como líquida esmeralda (7)
Aos raios do sol nascente, (7)
Perlongando as alvas praias (7)
Ensombradas de coqueiros; (7)

Serenai, verdes mares, (6)
E alisai docemente (6)
A vaga impetuosa, (6)
Para que o barco aventureiro manso (10)
Resvale à flor das águas. (6)

- As vogais e os ditongos são de timbre aberto dando musicalidade e um colorido ao texto
- Harmonia entre a natureza paradisíaca (agrestes e pitorescas), a poesia e as figuras do mito
- Estudo da língua da sociedade indiana e de suas idéias

VII – FOCO NARRATIVO:

A história é narrada em terceira pessoa, por um narrador que conhece os fatos narrados, reconstituindo-os e interpretando-os.
Com predominância do tempo verbal presente do indicativo, o autor que se supõe impessoal, intromete-se na narração e se coloca como o narrador da história (“uma história que me contaram...”) para narrar uma lenda ouvida por ele da oralidade de sua terra natal, o Ceará.

VIII – TEMPO:

A partir do capítulo II, o narrador através do recurso de flash-back, relata o nascimento, a descrição da beleza de Iracema, sua origem e o seu encontro com Martim.
Ao ler o “Argumento Histórico” perceberemos que a obra se desenrola em três anos diferentes: 1604, 1608 e 1611, mas o tempo do romance está parcialmente fora de uma sequência histórica linear

IX - PERSONAGENS:

TABAJARAS:
. Iracema – “a virgem dos lábios de mel”, representa o amor. Filha de Araquém, o Pajé da tribo; irmã de Caubi e sobrinha do ancião Andira
. Araquém – “o ministro de Tupã”, representa a sabedoria: solenidade da velhice contrastando com a beleza agreste de Iracema, um patriarca do deserto, ensinando aos moços os conselhos da prudência. Líder espiritual, conhecedor do que se passa na mente e no coração de cada um de sua tribo, principalmente durante o ritual sagrado da ingestão do licor da jurema.
. Caubi – representa o jovem guerreiro, o domínio da terra, a integração com o meio, o guia, “senhor dos segredos da natureza, da caça e dos caminhos”. Filho de Araquém
. Irapuã – chefe da tribo tabajara, representa o ciúme e o valor marcial. Possuindo posição anticolonialista defende as terras indígenas contra a invasão dos brancos, combatendo inclusive os pitiguaras, aliados aos portugueses e favoráveis à colonização.
. Andira – representa o ancião guerreiro. Irmão de Araquém.

PITIGUARAS/POTIGUARAS:
. Antônio Felipe Camarão (Poti) representa a amizade e a confiança. Amigo de Martim e irmão de Jacaúna
- Jacaúna – chefe da tribo dos pitiguaras
- Jatobá – pai de Poti e Jacaúna
- Batuireté – feiticeiro da tribo dos pitiguaras e avô de Jacaúna e Poti. Já com idade avançada e experiente, torna-se uma espécie de oráculo de guerra e passará a ser chamado de Maranguab, “o grande sabedor da guerra”.

PORTUGUÊS:
. Martim Soares Moreno (Coatiabo) – “o gavião branco”, representa o colonizador. Portador de virtudes cavalheirescas amou a pátria mais que à esposa, esse é o patrimônio que ele transmite a Moacir.

X - ENREDO:


Iracema, Séc. XIX (1881)
óleo s/ tela, José Maria de Medeiros.
Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

CAPÍTULO I

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;
Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
- Iracema!
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o
viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
- Iracema!
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite!
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.”

CAPÍTULO II

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.”

Iracema após banhar-se, repousa; enquanto a ará, sua companheira, brinca junto dela. Escuta um rumor na floresta e pensa trata-se de um espírito do mal: rápida e ágil, “a flecha embebida no arco partiu” e estancou no rosto de um estrangeiro, que “tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas”.
O guerreiro estranho assustou, pois “aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.”
Iracema sentida pelo acontecido correu para o guerreiro e com a mão estancou o sangue que escorria, “quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.”
Em seguida o estranho se dirige a Iracema na “linguagem” de seus irmãos e identifica-se, “venho das terras que teus irmãos já possuíram, e hoje têm os meus”. A virgem assusta-se pelo fato do estranho conhecer córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao bárbaro potiguara, comedor de camarão, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar à raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”

A objeção principal de Irapuã em relação aos pitiguaras, também chamados de potiguaras (comedores de camarão) pelos tabajaras como forma de desprezo, era que vencidos pelos brancos e por eles dominados, acabariam por permitir que o invasor chegasse até as terras dos tabajaras. Suas palavras demonstram sua intenção de atacar o inimigo e não se manter passivamente “como a pomba”.
Andira, irmão do Pajé, posiciona-se contra Irapuã, propondo a tática da defesa como a do melhor ataque: “Celebra, Irapuã, a vinda dos emboadas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.”
Irapuã compara o comportamento de Andira a um “velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da vítima que dorme.”

CAPÍTULO VI

Martim passeia pelos campos dos tabajaras e é surpreendido por Iracema.
“– É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro?”
Martim responde que são saudades de sua pátria. Então, Iracema pergunta:
”– Uma noiva te espera?”
“– Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos lábios de mel, nem mais formosa! murmurou o estrangeiro.
- A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n’alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura do seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seis que batiam opressos.
A virgem falou enfim:
- A alegria voltará logo à alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que ele veja antes da noite a noiva que o espera.”

Já que Iracema não pode se entregar fisicamente a Martim, realizará a comunhão entre os dois através do sonho.
Encaminha-o até o bosque sagrado, prepara o verde licor da jurema e oferece ao guerreiro.
Através do sono (transe), Martim revive seus melhores momentos: retorna à terra natal, reencontra a sua família e “revê mais lindo e terno anjo puro dos amores infantis.”
Porém, Iracema ao se entregar, por meio da alucinação e através de outra mulher, é a ela que Martim procura e deseja. Durante o êxtase de Martim, ele abraça Iracema e “a virgem reclinou-se ao peito do guerreiro, e ficou ali trêmula e palpitante como a tímida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.”

CAPÍTULO VII

Iracema ouve um rumor na floresta e depara-se com Irapuã.

córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao bárbaro potiguara, comedor de camarão, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar à raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”

A objeção principal de Irapuã em relação aos pitiguaras, também chamados de potiguaras (comedores de camarão) pelos tabajaras como forma de desprezo, era que vencidos pelos brancos e por eles dominados, acabariam por permitir que o invasor chegasse até as terras dos tabajaras. Suas palavras demonstram sua intenção de atacar o inimigo e não se manter passivamente “como a pomba”.
Andira, irmão do Pajé, posiciona-se contra Irapuã, propondo a tática da defesa como a do melhor ataque: “Celebra, Irapuã, a vinda dos emboadas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promete o banquete da vitória.”
Irapuã compara o comportamento de Andira a um “velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da vítima que dorme.”

CAPÍTULO VII

Iracema ouve um rumor na floresta e depara-se com Irapuã.
O guerreiro tabajara diz que seguiu Iracema, pois ouviu que a cabana de Araquém guardava um inimigo.
Iracema diz que o estrangeiro é hóspede de Araquém e quem o ofende, estará ofendendo Tupã.
A virgem ameaça Irapuã com seu arco e o chefe dos tabajaras se retrai, afinal “o golpe que deveria ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a ele próprio, o coração.”
Sedento de vingança, o chefe tabajara ameaça matar o guerreiro branco e diz:
“– A sombra de Iracema não esconderá sempre o estrangeiro à vingança de Irapuã. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher”
“Dizendo estas palavras, o chefe desapareceu entre as árvores. A virgem sempre alerta, volveu para o cristão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado.”
“(...) Desejava abrigá-lo contra todo o perigo, recolhê-lo em si como em um asilo impenetrável. Acompanhando o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.”

A chegada de Irapuã interrompeu a “entrega” dos amantes. Iracema passa a viver neste momento o medo pelas ameaças de Irapuã e suspensão do clímax amoroso.


CAPÍTULO VIII

Amanhece e “a luz da manhã dissipou os sonhos da noite”, “ficou apenas um vago sentir”. Levanta-se e desorientado (entre o sonho e a realidade), sai à procura de Iracema, encontrando-a, entristecida.

Confirmando a afirmativa do capítulo VII, a desorientação espacial e dos sonhos de Martim chocam com a dura realidade de Iracema.
A virgem anuncia a chegada de Caubi (seu irmão) e a próxima partida de Martim. Acrescenta que depois da separação será como “a juriti, quando a árvore seca, foge do ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ela vai ficar, como o tronco nu, sem ramas, nem sombras.”
O guerreiro diz que ficará para voltar ver Iracema sorrir, mas ela responde que é impossível, pois o guerreiro que a possuísse, morreria.

“– O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba, tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da açucena.”

CAPÍTULO IX

Ocorre a preparação da partida de Martim que será acompanhado por Caubi, o senhor dos caminhos. Iracema entrega-lhe o moquém da viagem, o presente da volta e oferece ao estrangeiro sua rede
de presente “quando nela dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema”
E ele responde:
“–Tua rede, virgem dos tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora, o vento frio da noite, ela guardará para o estrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.”
Araquém despede-se dizendo:
“– Bem-ido seja o hóspede, como foi bem-vindo à cabana de Araquém.”
“A boca do guerreiro pousou na boca mimosa da virgem. Ficaram ambos assim unidos como dois frutos gêmeos do araçá, que saíram do seio da mesma flor.”

Na despedida: um beijo, uma lágrima e o último sorriso de Iracema.

CAPÍTULO X

Depois da partida, Iracema emudeceu. “A ará, pousada no jirau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos tabajaras, Iracema a esqueceu.”
De repente, Araquém escutou o canto da inhuma e o grito de guerra de Caubi.
Mais rápida que a ema selvagem, Iracema atravessa a floresta e pode ver Caubi enfrentando cem guerreiros tabajaras com Irapuã à frente, ameaçando matá-lo caso não entregasse o guerreiro. Iracema posiciona-se diante de Martim, para defendê-lo.
Caubi ordena que Iracema leve Martim à cabana de Araquém, o único que poderia salvá-lo.
Martim quer enfrentá-los: “- Os guerreiros de meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquele que tu vês não foi o primeiro a provocá-lo, é porque seus pais lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.”
De repente ecoou o grito de guerra dos pitiguaras através da inúbia (trombeta de guerra. Os indígenas as tinham tão grandes que mediam muitos palmos no diâmetro da abertura) e os tabajaras preparam-se para lutar.
Ficando somente Martim com Iracema.

CAPÍTULO XI

Irapuã não encontrando o inimigo e acreditando que fosse um ardil de Iracema para salvar Martim, dirige-se à cabana de Araquém para buscá-lo.
Martim por ser um forte guerreiro (ou por fazer parte de um mundo machista) incomodava-se com a proteção da Iracema.
O chefe tabajara acusa o estrangeiro de ter roubado a virgem que guarda os sonhos da jurema. Iracema desmente e Martim acusa-o de “ser indigno de ser chefe de guerreiros valentes!”
Araquém afirma que “se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flor de seu corpo, ela morrerá; mas o hóspede de Tupã é sagrado; ninguém o ofenderá; Araquém o protege.”

Araquém ameaça-o com a fúria de Tupã e pede que ele escute a ira de Tupã através do ronco do trovão.
“Araquém proferindo essa palavra terrível, avançou até o meio da cabana; ali ergueu a grande pedra e calcou o pé com força no chão: súbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.”

Irapuã curvou-se e partiu.
Perante tal proeza, Martim fica assustado com os poderes de Araquém, “ele não podia crer que o deus dos tabajaras desse a seu sacerdote tamanho poder.”
Iracema aproxima-se delicadamente de Martim e ele dirige-se a ela com agressividade e aspereza.
A virgem pergunta-lhe porque a trata dessa forma e o estrangeiro ainda cismado pelo que vira, alega que teme a maldição de Tupã.
Embora Iracema conheça a tática de seu pai para aterrorizar os tabajaras (a voz de Tupã), também conhece a punição que lhe cairá caso ela se entregue ao branco.
Porém, como forma de defesa, Iracema acusa Martim que seu medo não é do sobrenatural, mas, sim, “é o canto da virgem loura, que te chama!”

CAPÍTULO XII

Já era noite quando o guerreiro escuta o cantar da gaivota, a atiati, a garça do mar. Iracema desconhece esse cantar, por ser virgem da serra. Trata-se do grito de guerra de Poti, amigo de Martim. Iracema temeu por seus irmãos, pois a fama do bravo Poti, irmão de Jacaúna percorria por toda a serra, mas opta por salvar o estrangeiro. Martim a tranquiliza dizendo que não deixará correr sangue nos campos dos tabajaras.
Em seguida, prepara-se para ir ao encontro de seu amigo e é impedido pela virgem: “-O hóspede de Araquém não pode sair desta cabana, porque os guerreiros de Irapuã o matarão.”
Iracema se oferece a ir ao encontro com Poti e trazer “as falas do guerreiro amigo”.
Araquém a orienta para levantar a pedra e esconder o estrangeiro no seio da terra.

Poti tendo perdido Martim durante a caçada, procura-o nos campos dos tabajaras, identificando-se com o grito da gaivota, afinal “as praias são dos pitiguaras, senhores das palmeiras”
Iracema será a mediadora entre Poti e Martim


CAPÍTULO XIII

Iracema parte para a mata em busca de Poti, que só aparece após ela ter dito o seu nome: “– Guerreiro Poti, teu irmão branco te chama pela boca de Iracema.”
Poti desconfiado de Iracema se recusa a falar de seus planos com ela. Nega o seu auxílio para conduzi-lo até Martim e desconversa quando ela lhe pergunta sobre os guerreiros que ele trazia.
Iracema explana a situação a Poti, os riscos e perigos que Martim sofre e a sua proteção na cabana de Araquém.
A virgem tabajara volta à cabana e contou o que ouviu de Poti.
Martim insiste em partir e “cingiu-lhe Iracema o colo com os lindos braços”. Ele diz que irá ao encontro de

Poti e que não teme Irapuã: “tem medo dos olhos da virgem de Tupã”.
Iracema chama-o de ingrato e acusa-o de arriscar a sua vida e de seu irmão, pois “teu rasto guiará o inimigo aonde se oculta o guerreiro do vale.”
Nesse momento, Caubi traz a notícia do próximo ataque de Irapuã. Iracema conduz o estrangeiro ao antro da terra e a voz de Tupã ecoou novamente.

Esse capítulo marca negativamente a falta de confiança de Poti pela índia tabajara, afirmando que só falará com diretamente com Martim; não aceita pisar na cabana dos inimigos “nunca filha dos tabajaras, um guerreiro pitiguara passou a soleira da cabana inimiga, se não foi como vencedor” e não lhe conta seus planos.


CAPÍTULO XIV

Irapuã e seus homens chegam à cabana de Araquém.
“Rugem vingança contra o estrangeiro audaz que afrontando suas armas, ofende o deus de seus pais, e o chefe de guerra, o primeiro varão tabajara.”
Na porta da cabana encontram Caubi bloqueando a passagem. Quando Irapuã decide enfrentar Caubi, a voz de Tupã ressoa no ar, fazendo-os temerem o seu deus.
Nas entranhas da terra, após a voz de Tupã emudecer contra os guerreiros de Irapuã, agora é a vez de Poti falar ao amigo através da voz de Tupã:
“– A mulher é fraca, o tabajara traidor, e o irmão de Jacaúna prudente.”
“Iracema suspirou e pousou a cabeça no peito do mancebo.”
Poti ordena que Martim parta antes que o Sol se levante na serra e caminhe pelas margens do ninho das garças, seguindo a estrela morta. Acrescenta que está só, pois seguira os rastos do amigo afastando-se dos guerreiros de sua taba, mas que tinha enviado seu cão fiel a Jacaúna.
Iracema sugere que esperem “a lua das flores nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pajé os sonhos alegres.”
“Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repeliu. O toque de seu corpo, doce como a açucena-do-mato, e macio como o ninho do beija-flor, magoou seu coração, porque lhe recordou as palavras terríveis do Pajé.”

CAPÍTULO XV

“Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.
Iracema recosta-se langue ao punho da rede, seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.
Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar nesse adito d’alma, o himeneu do amor.”
Araquém nesse momento soltou um gemido doloroso, como se pressentira a desgraça de sua raça.
O cristão repele o seio da virgem, fecha os olhos, pede forças a seu Deus pra livrá-lo da tentação, “ mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma onda de ardente chama. Assim quando a criança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflamadas que lhe queimam as faces” e diz: “– Virgem formosa do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na cabana de Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz.”
“– Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria?”
Martim responde que quer sentir novamente os sonhos da jurema que são doces e saborosos.
Iracema magoada afirma que o estrangeiro quer que o sonho o leve para a terra de seus irmãos e onde ele viverá à cintura da virgem branca.
Iracema entrega-lhe o licor verde e dessa forma, Martim “podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.”
“Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. (...) em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído amor.”
Martim ao acordar assusta-se e ao ver Iracema colada ao seu corpo, pensa que estava sonhando e só volta à realidade ao ouvir o alarido da taba.
Iracema escondeu no coração a sua ventura.
“Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.”

CAPÍTULO XVI

É chegado o dia do canto da lua nova. Iracema prepara a igaçaba cheia do verde licor, “Araquém decreta os sonhos a cada guerreiro e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara.”
São oferecidas as oferendas a Tupã, enquanto Araquém vela o sonho dos seus guerreiros.
Iracema afasta-se do bosque sagrado e leva Martim ao encontro com Poti. Ela os guiará até as fronteiras dos campos dos pitiguaras. Aproximando das divisas das tribos, Poti pede que Martim se despeça de Iracema.


CAPÍTULO XVII

“– Teu hóspede já não pisa os campos dos tabajaras. É o instante de separar-se dele”, diz Martim.
Iracema diz que não poderá voltar aos campos dos tabajaras; que Araquém não tem mais filha e que ela não pode mais se separar do estrangeiro, pois já é sua esposa: “a filha do Pajé traiu o segredo da jurema.”
Martim choca-se com a notícia, pois achou que tinha sonhado e não vivenciado a entrega dos amantes.
Poti acelera Martim para fugirem. O guerreiro pitiguara “pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação, fortalece o guerreiro, e tomado em excesso, abate a coragem do herói.”

À noite Iracema arma a rede para o seu esposo e senta-se longe, “na raiz de uma árvore, como a cerva solitária, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco.”
“Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d’árvore a que o vento arrancou o lindo cipó” e chamou por sua esposa.
De manhã, Poti vem avisá-los da aproximação dos tabajaras, “enquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu.”
Martim pede ao amigo que fuja e salve Iracema, mas não é atendido “Poti e seu irmão só têm uma vida”.

CAPÍTULO XVIII

Quando os tabajaras se preparam para o combate, escutam o grito de guerra dos pitiguaras que guiados pelo cão Japi, localizam os três fugitivos.
Jacaúna desafia Irapuã e Caubi avança com fúria contra Martim. Iracema pede a Martim que poupe a vida de seu irmão: “se o guerreiro Caubi tem que morrer, morra ele por esta mão, não pela tua.”
Martim pede a Jacaúna que o deixe lutar contra Irapuã, pois “o tabajara pertence ao guerreiro branco”.
Os pitiguaras vencem o combate e Iracema chora ao ver os cadáveres de seus irmãos.

CAPÍTULO XIX

Poti dá o seu cão Japi para Martim para que “mesmo de longe Poti acuda a teu chamado”.
O guerreiro pitiguara leva Martim até um jatobá para lhe mostrar o lugar que tinha nascido e conta-lhe de seu pai, o guerreiro Jatobá e sua mãe Saí, que “aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencê-lo mais vezes.”
Martim abraçou o jatobá, levou a esposa do lado do coração e o amigo do lado da força.

CAPÍTULO XX

“Três sóis havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos pitiguaras, senhores das margens do Camucim e Araracu” e isso a entristecia.
Martim decide partir: “ele era feliz aqui, mas a voz do coração o chama a outros sítios”. Poti diz que os acompanhará, pois “deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.”

No início do capítulo temos o tempo cronológico indicando que haviam transcorrido três dias, cada um deles medido pelo nascer e morrer do sol.

CAPÍTULO XXI

Passaram por Meruoca, Uruburetama, Mundaí, Soipé, Mocoripe; viajando sem destino e apreciando as belezas naturais da região.
Sua intenção era afastar-se cada vez para “arrancar a tristeza do coração de Iracema.”
Decide fixar-se e o guerreiro branco escolheu um lugar para levantar a cabana.

CAPÍTULO XXII

Poti saudou o amigo e falou assim:
“– Antes que o pai de Jacaúna e Poti, o valente guerreiro Jatobá, mandasse sobre todos os guerreiros pitiguaras, o grande tacape da nação estava na destra de Batuireté, o maior chefe, pai de Jatobá.”
Mas, “quando suas estrelas eram muitas, e tantas que seu camucim já não cabia as castanhas que marcavam o número, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do Ubiratã que não verga; a luz dos olhos escureceu.”
Então, Batuireté passou a sua liderança a Jatobá.
“Tomou o bordão de sua velhice e caminho”, pronunciando com tristeza: “- Ah! Meus tempos passados!”
Desde então, àqueles que ali passavam, repetiam suas palavras e o lugar passou a chamar-se Quixeramobim.
Até hoje, os grandes guerreiros pitiguaras procuram Batuireté para se aconselharem como combater.
”Assim as tribos não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.”
Poti vai visitar o avô e Martim irá acompanhá-lo. Maranguab ao ver Martim disse:
“– Tupã quis que estes olhos vissem antes de se apagarem, o gavião branco junto da narceja.”
Depois de proferir essas palavras fechou os olhos e nunca mais abriu. Morrera de velhice e aquela serra passou se a chamar Maranguape.

CAPÍTULO XXIII

“Quatro luas tinham alumiado o céu depois que Iracema deixara os campos do Ipu; e três depois que ela habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.”
A felicidade pairava na cabana dos amantes e do amigo. Martim e Poti caçavam, enquanto Iracema banhava-se na lagoa Porangaba, onde as mães iam mergulhar suas filhas, para “dar formosura às virgens e fazê-las amadas pelos guerreiros”.
Certo dia, quando os amigos voltavam da caça, Iracema vai de encontrá-los, “por cima da carioba trazia uma cintura das flores da maniva, que era o símbolo da fecundidade. Colar das mesmas cingia-lhe o colo e ornava os rijos seios palpitantes e anuncia que:
”– Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ela será mãe de teu filho.”
Martim sente-se completo em sua felicidade e compara-se a uma árvore: “O guerreiro sem a esposa, é como a árvore sem folhas nem flores; nunca ela verá o fruto. O guerreiro sem amigo, é como a árvore solitária que o vento açouta no meio do campo: o fruto dela nunca amadurece.”
A partir desse acontecimento, Martim quer se integrar totalmente à pátria de seu filho e de seu coração.

CAPÍTULO XXIV
cabeças em um só corpo e Iracema como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta.

CAPÍTULO XXV

“A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amanhecer.”
“O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão, até que volta no outro ano à lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro também satura-se de felicidade e carece de sono e repouso.”
Os carinhos da esposa, a amizade de Poti e as caças já não saciavam mais o coração de Coatibo. O seu olhar volta-se para a imensidade dos mares e quando via uma igara flutuando, pensava nos seus e a saudade doía.
Um dia Poti avistou uma igara do branco tapuia que ia para as margens do Mearim, onde viviam os aliados dos tupinambás. Iracema percebe a melancolia de Martim e cala-se tristonha.
Chega a cabana um mensageiro dos pitiguaras comunicando que o tapuitinga havia feito aliança com os tabajaras e que Jacaúna precisava de Poti para defender os seus campos.
Coatibo decide partir com Poti.

CAPÍTULO XXVI

Coatiabo preocupa-se em partir sem avisar Iracema e teme que ela possa abandonar a cabana. Poti diz: “– As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro...” e, assim, Coatiabo resolve partir sem se despedir.
Poti vendo a aflição do amigo flechou um goiamum e fincou a flecha de penas vermelhas no chão, com a presa atravessada e explicou ao amigo que, Iracema entenderá o aviso e obedecerá. Martim completou colocando um ramo do maracujá, a flor da lembrança entrelaçando-o na haste da seta e partiu.
Quando Iracema voltou à cabana, entendeu que Martim “manda que ela ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flor todo o tempo até morrer”.
Todos os dias, Iracema sentava-se junto à flecha e esperava por amado.
Os guerreiros que viram Iracema feliz banhando-se na lagoa Porangaba, agora “encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na margem do rio, chamavam aquele sítio da Mecejana, que significa a abandonada.”
Um dia Iracema ouviu chamar pelo seu nome: era a jandaia, sua companheira, que ela abandonara nos campos dos tabajaras e sentiu saudades de sua pátria e de seu pai; mas não se arrependeu de tê-los abandonado.
A partir desse dia a jandaia nunca mais a abandonou.

CAPÍTULO XXVII

Poti e Martim regressam vitoriosos à cabana e a felicidade voltou habitar a alma de Iracema.
“O cristão amou a filha do sertão, como nos primeiros dias, quando parece que o tempo nunca poderá estancar o coração. Mas breves sóis bastaram para murchar aquelas flores de uma alma exilada da pátria.”
“O amigo e a esposa não bastavam mais à sua existência, cheia de grandes desejos e nobres ambições.”
Às vezes, Martim pensava em partir e levar Iracema, “ mas ele sabia que Iracema o acompanharia; e essa lembrança lhe remordeu o coração. Cada passo mais que afastasse dos campos nativos a filha dos tabajaras, agora que ela não tinha o ninho de seu coração para abrigar-se, era uma porção da vida que lhe roubava.”

CAPÍTULO XXVIII

Uma vez Martim ouviu Iracema chorar e perguntou-lhe o que a afligia. Iracema responde que perdeu a felicidade, depois que perdeu o seu amado; que Martim não a amava mais e sim, ansiava retornar a sua terra e reencontrar a virgem branca.
Martim nega. Então Iracema insiste afirmando: “Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca.”
Iracema diz que quando seu filho nascer, ela morrerá e nada mais o prenderá nessa terra.

CAPÍTULO XXIX

Martim vê uma grande igara passando com guerreiros brancos inimigos de sua raça, que ameaçavam invadir as praias pertencentes aos pitiguaras. Pede para Poti comunicar-se com Jacaúna e pedir reforço para o combate
À noite quando os pitiguaras comemoravam a derrota dos guaraciabas, nascia o filho de Iracema e Martim.

CAPÍTULO XXX

Iracema após dar à luz, banhou a criança no rio e depois o amamentou.
“– Tu é Moacir, o nascido de meu sofrimento.”
A ará amiga repetiu o nome e desde então unia o nome do Iracema com o de Moacir.
Iracema amparou a criança e buscou o rasto de Moacir, que há três sóis partira. Notou que ele e Poti seguiram ao longo da praia e adivinhou que tinham partido para a guerra.
No dia seguinte Iracema viu entrar em sua cabana um vulto: era Caubi que vinha não por vingança, mas por saudades de Iracema.
Caubi contempla a criança e diz:” – Ele chupou tua alma”
Iracema pergunta sobre seu pai. Caubi responde que Araquém nunca mais ergueu sua cabeça depois que Iracema partiu.
O guerreiro tabajara quer dar o abraço de amizade em Martim. Iracema chora e Caubi assusta-se, pois acreditava que Iracema havia deixado a tristeza nos campos dos tabajaras.

CAPÍTULO XXXI

Iracema pede que Caubi parta.
O leite de Iracema estava secando. A jovem mãe partiu para a mata e ofereceu seus seios a uns cachorrinhos famintos para sugá-los.
“Iracema curte dor, como nunca sentiu; parece que lhe exaurem a vida: mas os seios vão-se
partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.”
“A jandaia cantava ainda no olho do coqueiro, mas não repetia já o mavioso nome de Iracema.
Tudo passa sobre a terra.”



1. O autor elaborou uma narrativa nos anos oitocentos com elementos do século XVI, retratando o encontro entre brancos e indígenas, cultura e natureza, amparando em argumentos históricos para celebrar a fundação do povo brasileiro.
2. Iracema é o padrão ideal da esposa e mãe do século XVII. Pelo amor ao marido, Iracema deixa a família, a pátria tabajara e seus campos nativos; abjura a religião e o “segredo da jurema”. Pelo filho, sofre até a tortura de aleitar seu filho à custa do seu próprio sangue (morte da cultura indígena) e sofre solitariamente e sem revolta o desprezo do esposo.
3. Moacir deve crescer à imagem e semelhança do pai, Martim (vitória da colonização), deixando-nos uma reflexão sobre o destino da raça brasileira e principalmente sobre o mestiço. Interessante notar que Moacir não é descrito fisicamente.
4. A história de amor entre Iracema e Martim foi tragada pelo tempo: “Tudo passa sobre a terra”, deixando espaço para a questão social – a nacionalidade.
5. Em “Iracema” já está presente a existência de “dois brasis”: o litoral, habitado pelos pitiguaras e dominado pelos brancos e o sertão, habitado pelos tabajaras, vencidos pelos seus inimigos e defensores da cultura primitiva.
6. Martim é o herói civilizado, sem deixarem de serem igualmente amigos, há em cada um deles um traço característico que corresponde à origem de ambos: a afeição de Poti tem a expressão ingênua, franca, decidida; Martim não sabe ter aquela simplicidade selvagem e às vezes, cala-se perante o amigo.
8. Em “Iracema” há um pouco de Ana Josefina, moça de coragem, que, naqueles recuados tempos, teve
civilizado, sem deixarem de serem igualmente amigos, há em cada um deles um traço característico que corresponde à origem de ambos: a afeição de Poti tem a expressão ingênua, franca, decidida; Martim não sabe ter aquela simplicidade selvagem e às vezes, cala-se perante o amigo.
8. Em “Iracema” há um pouco de Ana Josefina, moça de coragem, que, naqueles recuados tempos, teve ânimo de enfrentar, por amor, os preconceitos da ética social e os cânones da religião e coragem para suportar a humilhação de ler na certidão de batismo dos seus meninos a nota de “filho natural”. Assim como Iracema, sacerdotisa do ritual da jurema, voltada à virgindade, tudo abandona e esquece por amor de Martim.
9. Iracema pode ser associada, sob certo aspecto, a personagem da mitologia clássica, pois são frequentes as referências a sacerdotisas consagradas a rituais sagrados e cujo voto de castidade não pode ser rompido.
10. Iracema é frequentemente associada à personagem de Chateaubriand, “Átala et René” , publicado em 1801 e, que muitos estudiosos consideram uma das fontes de Alencar. A obra reporta-se ao início da extinção dos índios natchez, da Luisiana, região da América Francesa, no vale baixo do Mississipi. Conta à história de dois amantes, Chacta e Átala, vítimas dos inevitáveis conflitos entre as civilizações européias e indígenas.
Segundo Antônio Soares Amora traça um paralelo entre Iracema e Átala, “é o pungente drama amoroso de duas jovens, virgens, em estado de pureza edênica, que vêm a ser vítimas do que a sociedade civilizada concebera como ditames do sentimento e da moral. Átala suicida-se movida cegamente por erradas razões religiosas e, Iracema sucumbe, vítima do abandono a que a relegara Martim, preso a compromissos morais incompatíveis com a dedicação devida ao amor conjugal e à maternidade da infeliz esposa.”
Os pontos comuns entre “Átala et René” e “Iracema” são, entre outros: o tema da felicidade primitiva vivida pelos selvagens que começam a se corromper diante da aproximação do civilizado; o ideal rousseauniano do homem natural, do bom selvagem; o amor de uma índia por um estrangeiro; a morte das duas heroínas; o exótico da paisagem americana; a oposição entre o Novo Mundo da América e o Velho Mundo da Europa e a poetização da prosa.
11. Iracema poderia de alguma forma, também, ser associada à Eva bíblica: virgem que vivia num paraíso e é responsável pela “queda” de Martim, ou seja, é ela que o tenta e o seduz, levando-o a cometer o que se poderia chamar de “pecado original”. Tendo pecado, os amantes expulsam a si mesmos desse “paraíso”, que é perdido. Numa leitura livre, os sofrimentos de Iracema podem incluir até a maldição bíblica de que a mulher deve parir com dor, como castigo.
12. A preocupação do autor em “Iracema” não é cantar lutas heróicas, mesmo relatando alguns episódios guerreiros (Irapuã e Poti), a obra volta-se para a história lírica de uma virgem indiana, dos seus amores e dos seus infortúnios.
13. Alencar estudou profundamente a língua e os costumes selvagens, entendia ele, que era preciso prevenir-se contra um anacronismo moral, que consiste em dar ideias modernas e civilizadas aos filhos incultos da floresta. Tudo ali parece primitivo: a
ingenuidade dos sentimentos e o pitoresco da linguagem.
14. Apesar do valor histórico de alguns personagens, como Martim e Poti (o célebre Camarão, da guerra holandesa), o resto é obra de imaginação e a maior soma de interesses concentra-se na filha de Araquém.
15. Na obra, primeiramente é descrita a beleza física de Iracema; a beleza moral vem depois: a vestal indígena é um complexo de graças e de paixão, de beleza e de sensibilidade, de casta reserva e de amorosa dedicação. Realça-lhe a beleza nativa a poderosa paixão do amor selvagem.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

“CALABAR – O ELOGIO DA TRAIÇÃO”, CHICO BUARQUE E RUY GUERRA (1973)


I - AUTORES:

Chico Buarque é um nome de grande representatividade no cenário cultural brasileiro, desde o ano de 1966, quando conquistou o primeiro lugar no II Festival de Música Popular com “A Banda”. Sua consagração foi em 1968, no Festival Internacional da Canção, quando junto com Tom Jobim obteve o primeiro lugar com “Sabiá”.
Sua participação no cenário teatral, enquanto autor ocorreu ao musicar o poema de João Cabral de Mello Neto “Morte e Vida Severina”, sendo premiado em Nancy (França) num festival universitário. Logo depois, Chico foi para a Itália, e durante quinze meses teve uma intensa vida artística: gravou discos, fez shows e excursões.
Ruy Guerra é moçambicano, e foi em Moçambique que realizou seus primeiros curtas-metragens. Aprimorou-se em Paris, de 1952 a 1954, e lá ficou até 1968, quando se radicou no Brasil. Em 1960 realizou “Os cafajestes” um dos marcos do cinema novo.
Ruy compôs também letras e melodias em parceria com Edu Lobo, Baden Powell, Milton Nascimento e Sérgio Ricardo, participando de um momento áureo da MPB.
A partir de 1972 Chico em parceria com o cineasta Ruy Guerra e dirigida por Fernando Peixoto iniciaram um trabalho em conjunto, traduzindo as letras do musical “O homem de la Mancha”, e a partir daí surgiu a idéia de realizar “Calabar”, uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de trinta mil dólares e empregava mais de oitenta pessoas. Dentre as músicas que compõem o repertório da obra, algumas são sucessos, como "Não existe pecado ao sul do Equador" (cantada por Ney Matogrosso); "Cala a boca, Bárbara", e outras.
A censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio à espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome Calabar do título e, como se não bastasse, ainda proibiu que a proibição fosse divulgada.
Vistos como os próprios “traidores da pátria”, os autores não conseguiram passar pelo crivo dos censores. O encerramento das atividades ligadas a Calabar provocou um sentimento de frustração que marcaria para sempre o teatro nacional e a carreira profissional de todos que, diretamente ou indiretamente estiveram envolvidos no projeto. A liberação para encenação da peça só seria concedida na década de 80.



II - O TEXTO TEATRAL E O CONTEXTO HISTÓRICO CULTURAL:



Segundo o crítico teatral Yan MICHALSKI (1985) até a década de 30 assistia-se a um profundo “imobilismo” do teatro nacional, pois este, longe de promover-se como uma força atuante na sociedade, tinha como objetivo primeiro descontrair o público, restrito ainda a uma pequena minoria da população: a elite local.
Assim permaneceria até 1943, quando um estilo de teatro bem mais estruturado dramaticamente substituiria a tradicional narrativa existente até então. A peça “Vestido de noiva”, Nelson Rodrigues, estreada em 28 de dezembro de 1943 foi considerada marco inicial do “novo” e “moderno” teatro brasileiro.
A fundação do TBC – Teatro Brasileiro de Comédia - em São Paulo, no final da década de 40, imporia um novo padrão de teatro a ser desenvolvido no país, misturando um repertório clássico com autores modernos, como Arthur Miller e J.P. Sartre.
Além da repercussão positiva junto ao público, o novo estilo ganhou também o apoio da imprensa nacional, que passou a comentar e a divulgar diariamente o que era levado aos palcos.
Embora responsável pela profissionalização do teatro, o TBC não tinha por objetivo desenvolver um estilo de dramaturgia que fosse voltado a uma identificação com as causas nacionais.
Porém, a partir da década de 50, não foi mais possível permanecer alheio à realidade política, econômica e social do país. A euforia do governo Juscelino Kubitschek mobilizou inúmeros segmentos da sociedade, e, desde então, o palco passou a ser mais um espaço de discussões sobre os seus problemas, as suas manifestações e reivindicações.
O Teatro de Arena, fundado em São Paulo em 1953, tinha como uma de suas principais propostas: alertar a sociedade para um posicionamento político frente às mazelas nacionais. O diretor José Renato e o fundador Augusto Boal, recém chegado da Europa, destacaram-se à frente dessas discussões.
No início dos anos 60, diante do “imobilismo” das esquerdas e das transformações político-econômicas e sociais vivenciadas, um estilo de teatro mais atuante começou a manifestar-se.
Atores como Oduvaldo Viana Filho, Flávio Migliaccio, Augusto Boal, dentre outros, estiveram engajados nesses projetos. No Rio de Janeiro, o CPC - Centro Popular de Cultura da UNE utilizava o teatro como arma na conscientização social. Porém, no dia 1º de abril de 1964 o prédio da UNE foi incendiado, destruindo o que seria o futuro teatro do CPC. Este era o cenário que se esboçava no momento de instauração do golpe pelos militares.
Para além da cultura, o Brasil estava mergulhado em um caos econômico, político e social, que se aflorou ainda mais no governo João Goulart (1961-1964). Naquele período foram intensas as manifestações de descontentamento das esquerdas e de outros setores da população que eram contrários à sua política reformista, prejudicada ainda mais pela instabilidade econômica do país, com inflação e custo de vida alto.
As pressões vinham, ao mesmo tempo, tanto das forças internas quanto das externas, revelando a incapacidade do governo de conciliar os interesses e contornar a situação.
Nos discursos proferidos pelos militares era preciso conter a onda de crise que tomou conta do Brasil. Em nome da “segurança e soberania nacional”, tomariam para si a responsabilidade de restabelecer a ordem, argumentando que seriam intolerantes a quaisquer manifestações contrárias a esses objetivos.
A política da ordem a qualquer preço, posta em prática pós-golpe militar, visava silenciar não só as ações das esquerdas oposicionistas ao regime como também as atitudes consideradas rebeldes e/ou “subversivas” de inúmeros profissionais ligados à cultura, à imprensa nacional e de intelectuais, que foram obrigados a reavaliarem seus papéis tanto sociais quanto profissionais e também, a refletir sobre os caminhos a serem trilhados a partir dali.
É extensa a bibliografia que trata das condições sócio-econômicas e políticas do Brasil nas décadas que antecederam ao golpe de 1964. Os autores analisam as contradições advindas da era Vargas e que se acirraram nos governos de Juscelino Kubitschek e J. Goulart. As medidas adotadas no Plano de Metas resultaram num aumento considerável da dívida externa. Estudantes politicamente ativos e professores universitários estiveram intimamente ligados ao movimento de resistência, e tornaram-se alvos constantes da repressão.
Destacam que “a própria natureza do ofício das pessoas, e as condições em que eram exercidas tendiam a expor seus praticantes à tentação do oposicionismo e a determinar o tipo de oposição praticada. Em alguns casos, trabalho e política praticamente coabitavam: na advocacia, na produção artística e cultural e no jornalismo”. (ALMEIDA & WEIS, 1998:338)
Desta forma, ser de oposição incluía desde assinar manifestos, participar de assembléias, até escrever artigos ou músicas que, de um modo ou de outro, estivessem relacionados à política daquele momento, e isso significava enfrentar riscos e/ou mudanças profundas, tanto no aspecto profissional quanto no convívio familiar.
“Passado o surto inicial de repressão às lideranças civis e militares identificados com o governo deposto e a feroz perseguição aos sindicalistas urbanos e rurais, os dois primeiros presidentes militares concederam razoável liberdade de movimento às oposições.” (ALMEIDA& WEIS, 1998: 328).
Assim, os anos 60/70 representaram, para a classe artística brasileira, um período marcado por tumultuados conflitos em nome da liberdade de expressão e contra o poder intolerante e arbitrário da ditadura militar, instaurada no país em 1964. O golpe e os acontecimentos sucessivos a ele obrigaram artistas e intelectuais a repensarem suas posições e a delimitarem o seu campo de ação em nome da sobrevivência de suas atividades.
Esse argumento foi reforçado também por Chico Buarque, que declarou à revista Caros Amigos: “entre 64 e 68 já vivíamos sob a ditadura militar, mas a censura em si não incomodava as artes. A chamada música de protesto e o teatro de resistência só floresceram entre 64 e 68. A censura institucionalizada só passou a existir a partir do final de 68 com o AI-5”.
Ao que acrescenta: “... até então havia espaço para se produzir arte, e este tornou-se supervalorizado devido à carência de discussão política onde ela deveria acontecer, ou seja, no Congresso, nas universidades e nos sindicatos.” (BUARQUE, 2000)
Esse teatro de resistência abordado por Chico teve representatividade em diversos espetáculos.
A peça Calabar – o elogio da traição (Chico Buarque e Ruy Guerra) é apenas um entre os diversos trabalhos “castrados” pela censura. Os vinte anos de ditadura caracterizaram-se, na história do Brasil, não só como um período de insegurança, mas também de luta pela democracia.
As atenções estiveram voltadas para o longo processo de interdição enfrentado pela equipe de produção.
Marcada a data para a estréia e convocada para o ensaio geral, a Censura informou que não compareceria porque “o texto havia sido avocado por instâncias superiores para reexame”. (PACHECO,1979-1980:96).
A imprensa foi proibida de noticiar o fato e de publicar, até mesmo, o título da peça. Os longos meses de luta pela liberação representaram um acúmulo de dívidas que resultaram num grande prejuízo para os produtores, Fernando Torres e Fernanda Montenegro, mergulhando-os numa crise econômica.
Os investimentos naquele projeto haviam exigido uma intensa dedicação na escolha dos atores, na trilha sonora, em ensaios, enfim, na organização do espetáculo. Após inúmeros testes foi definido o elenco, composto por artistas conhecidos, como Tetê Medina, Betty Faria, Hélio Ari, Antônio Ganzarolli e Lutero Luís, para os papéis principais, e um grande número de pessoas, que comporiam as personagens secundárias e a chamada figuração.
A trilha sonora ficou a cargo de Danilo e Dori Caymmi, João Palma, Maurício Mendonça e Tenório Jr.
Fernando Peixoto à frente da direção tinha a assistência de Mário Masetti e Zdenek Hampl e os cenários, figurinos e orquestração estiveram sob a responsabilidade de Hélio Eichbauer, Rosa Magalhães e Edu Lobo, respectivamente.
A peça foi vetada pelos censores e até mesmo os discos Chico Canta
Calabar, que já estavam liberados para venda, foram recolhidos para mudança no título impresso na capa. Nela, viu-se apenas Chico Canta.
Os autores declararam que enfrentaram problemas técnicos e também na resolução das cenas, a iluminação e os figurinos não chegaram a ser concluídos, além de dificuldades de entrosamento entre os próprios atores e a equipe de produção. Avaliaram que não só os limites de recursos econômicos interferiram no bom andamento do trabalho, mas também o desgaste físico e psicológico da equipe. Foram prejudicados devido ao atropelo dos ensaios para conclusão do espetáculo, que tinha data marcada para estréia. Desta forma, algumas cenas não puderam ser trabalhadas da forma como gostariam e tal como exigia o texto. A sensação de ter tido o espetáculo abortado provocou-lhes um enorme vazio. Um vazio pela não comunicação com o público, porque não houve público. Argumentaram que um tempo maior livre das pressões e das dificuldades econômicas, e ainda, um maior envolvimento dos atores e da equipe de produção garantiriam resultados mais satisfatórios.

III - CARACTERÍSTICAS:

CALABAR ultrapassa a relação entre o texto e o leitor.

“Os autores desenvolveram a trama resgatando fatos e personagens históricos do século XVII, quando Holanda e Portugal lutavam entre si pela colonização do Brasil, para refletirem sobre o presente dos anos 70. Propunham uma reavaliação crítica do processo histórico nacional em seus diversos aspectos, e também, objetivavam despertar o público para reflexões acerca de conceitos como traição, nacionalidade e pátria, presentes nos discursos militares pós 1964 e que foram cristalizados pela história oficial, conforme declarações do próprio Ruy Guerra.” (AZEVEDO,1973:84 )

Calabar, num primeiro nível de interpretação, é uma obra ficcional apesar de que o seu estatuto literário advém da intenção de se recriar fatos históricos através da imaginação, e no assentamento às convenções do discurso dramático.
Os fatos históricos por si estão distribuídos, fragmentados nas falas de várias personagens, sendo que, cada uma interpreta a história conforme sua orientação ideológica.
A multiplicidade de argumentos e cenas caracteriza o texto teatral como polifônico, o que confirma sua profundidade e abertura de significações: o que vai exigir do leitor/espectador um maior envolvimento em relação ao conteúdo intelectual e afetivo.
Em Calabar mesclam-se elementos cômicos, trágicos, situações musicais, além de fundir personagens históricas com uma personagem idealizada: Anna de Amsterdã.
As implicações do mercado e da censura foram expressas por Fernando Peixoto ao demarcar os limites de criação e de desenvolvimento de sua equipe no projeto Calabar.

“Existe uma unidade que se manifesta juntamente na descontinuidade quase cinematográfica do relato. Cada cena se exprime livremente, independentemente das demais, em termos de estrutura.”

Peixoto lamenta a circunstância na qual Calabar foi produzida. Questiona se não seria possível dar a um espetáculo como aquele um significado mais profundo como uma reflexão sobre o momento histórico da peça e sua relação dialética com o momento histórico em que viviam.
Vivia o Brasil sob a opressão do regime ditatorial militar, e era comum o uso das metáforas nas produções artísticas a fim de, por um lado, burlar a censura rigorosa do sistema (sendo popular a figura de Armando Falcão, militar encarregado dessa tarefa canhestra) e, por outro, denunciar a situação atual.
Chico Buarque foi um mestre no uso dessas figurações: e o episódio histórico do traidor Calabar, comum em todos os livros didáticos como um dos maiores exemplos de perfídia - serviu de mote para justamente questionar a chamava versão oficial.
São significativas as reflexões e o posicionamento de Peixoto acerca de tais questões, pois, quando a peça foi liberada na década de 80 as perspectivas de debate e o público eram outros, assim como o contexto histórico do país. Diante da nova realidade seria necessário fazer uma releitura sobre o espetáculo a ser encenado.

“O texto é popular, na medida em que a história é revista segundo uma perspectiva transformadora, desmistificadora, e se resolve cenicamente em termos de comédia e de teatro musical, apesar dos momentos em que o texto deliberadamente mergulha na análise dos movimentos mais íntimos e escondidos da alma das personagens.”

De acordo com considerações do diretor Fernando Peixoto, não se trata de reabilitar a personagem histórica de Calabar. O objetivo principal é a desmistificação da figura do herói e a relativização de conceitos cristalizados pela história oficial. Segundo ele, a reinterpretação dos fatos é imprescindível para o tipo de análise proposta na peça.
As problemáticas postas por Peixoto são instigantes à medida que nos fazem refletir sobre a representatividade do teatro na sociedade atual e os limites impostos à criatividade artística durante as últimas décadas. Portanto, concordar que hoje é real a despolitização da classe teatral nos meios em que atua é considerar que os artifícios utilizados pelo regime militar e pelas empresas culturais foram eficazes e seus danos irreparáveis. Significa desacreditar em um processo de luta de inúmeros profissionais que se dedicaram exaustivamente na luta pela sobrevivência de suas atividades, especialmente do teatro, e que procuram, ainda hoje, um espaço para atuarem.
É imprescindível que tenhamos clareza de que, os problemas enfrentados pela classe artística hoje, são outros, como o momento histórico também o é. Faz-se necessário acreditar que, em qualquer circunstância, é possível atuar politicamente, reivindicando direitos que são de todos os profissionais.
Calabar trata-se de uma recriação, reinvenção dos fatos, como confirma o próprio Chico Buarque:

“O texto não pretende ser uma peça histórica, ou seja, reconstituição minuciosa de uma época, suas motivações, contradições, etc (...) Na peça, os fatos históricos servem apenas de ponto de partida para uma criação livre, espontânea, criativa e pessoal”.

IV - LINGUAGEM:

Com uma prática poética, Chico Buarque consegue criar canções-poemas que nos levam a identificar uma (inter) relação com vários discursos, principalmente o social, o poético e o histórico-cultural. Em uma parte de sua obra, conseguimos identificar a construção de perfis femininos que são cantados e decantados. Chico consegue tematizar a figura feminina usando o eu lírico feminino, e em alguns casos, usando a voz masculina. Ao se colocar com um pensamento de mulher, consegue revelar os desejos e insatisfações da condição feminina; e quando utiliza como recurso a voz masculina, consegue moldar as personagens a um discurso masculinizado, fazendo com o universo feminino seja restrito a idéias patriarcais.
Para exemplificar a importância do discurso poético e de sua relação com outros discursos, lei a canção a seguir: “Tira as mãos de mim”.

Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco
Éramos nós
Estreitos nós
Enquanto tu
És laço frouxo
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se a febre dele
Guardada em mim
Te contagia um pouco.


Analisando de forma superficial esta letra, tem-se a idéia de que uma mulher fala com um homem sobre outro homem que não é ele (o ouvinte). Assim, temos a 1ª, 2ª e 3ª pessoa do discurso. Tem uma voz do discurso que tece a história, uma voz feminina.
O texto é construído com antíteses: “Tira/Põe”, “Mil/Nenhum”, com metáforas, que se apóiam em uma semelhança ou comparação conotativa: “Éramos nós, estreitos nós”. Desta forma temos a idéia de que a pessoa do discurso que fala e de quem se fala (nós) estavam sempre juntas, excluindo a pessoa com quem se fala (tu). O 1º ‘nós’, (ele e eu), é um pronome pessoal do caso reto, é metáfora de ‘nós’ substantivo, ou seja, o 2º ‘nós’, que é plural de nó (substantivo). Ao fazer esta relação com palavras semelhantes na escrita, mas com sentidos diferentes e classes gramaticais diferentes, percebemos que o autor joga com as palavras, e temos a oportunidade de perceber os diferentes significados que ela vai adquirindo, comprovando o que foi falado anteriormente a respeito do discurso poético. Chico então construiu uma figura de linguagem chamada: Antanaclase.
O discurso social trabalha com as dificuldades e diferenças sociais que podem gerar conflitos e tentam manipular o pensamento do homem. Deste modo, o discurso social entra em choque com discursos da história e da própria poética, muitas vezes, o discurso social trapaceia a própria realidade. Embora o discurso poético siga o caminho de rupturas e contestações, muitas vezes ele se apresenta preso ao sistema de domínio da própria sociedade.
Tomando como princípio o texto de José Luiz Meurer, temos a idéia de que o indivíduo tem a capacidade de “produzir, reproduzir ou desafiar a realidade social na qual vive” (Uma dimensão crítica do estudo de gêneros textuais. Pág.18), uma grande contribuição que o texto poético também nos oferece. A partir da Análise Crítica do Discurso, (1) produz e reproduz conhecimentos e crenças por meio de diferentes modos de representar a realidade; (2) estabelece relações sociais; e (3) cria, reforça ou reconstitui identidades. Temos, através da idéia tríplice, a informação de que através desta canção, Chico Buarque reproduziu conhecimentos a respeito da história de Calabar e do período de colonização, da linguística, da linguagem e sua estruturação textual, e da literatura, utilizando o jogo de palavras e a literariedade. Usando a tríplice, ele estabeleceu relações sociais e apresentou ou criou identidades, principalmente a identidade feminina, na pessoa de Bárbara.

V – ESPAÇO E TEMPO:

Esta peça transporta-nos para a capitania de Pernambuco, no ano de 1635, quando a Holanda disputava com Portugal o domínio e exploração do cultivo da cana-de-açúcar naquela região. A história de Calabar é parte integrante do primeiro período da ocupação holandesa, a da resistência ibérica contra os conquistadores recém-chegados.
Um primeiro registro para a interpretação da obra é o próprio título dado à mesma, que corresponde a uma obscura personagem da História do Brasil – período colonial – que é reintroduzida à mesa de discussões, numa tentativa de reabitá-la ou não da condição de traidor pela coroa portuguesa.
Nove anos após a expulsão dos franceses, o território colonial brasileiro sofreu uma invasão holandesa, em 1624. Os motivos que traziam os holandeses ao Brasil eram muito diferentes.
Para compreendê-los, é necessário fazer algumas considerações sobre o período em que Portugal (União Ibérica) esteve sob o domínio espanhol, bem como sobre as relações internacionais da Espanha.
A história de Calabar se desenvolveu inteiramente no contexto do Brasil ibérico, quando, por algum tempo, não havia previsão de mudanças políticas. De lá não vinha ouro nessa época, e sim grandes caixas do apreciado açúcar, branco e mascavo.
Domingos Fernandes Calabar deve ter nascido durante a primeira década do século XVII, no atual Estado de Alagoas, na região de Porto Calvo, sendo filho de pai português e de mãe indígena, de nome Ângela Álvares. Era, assim, um mameluco, e foi batizado numa igreja da paróquia de Porto Calvo.
O menino foi educado numa escola dos padres jesuítas e, homem feito, ainda antes da invasão batava, possuía três engenhos de açúcar naquela região. Então, em 1630, a segunda onda de invasores holandeses alcançou à costa do Nordeste.
Portugal e a Holanda geralmente gozavam de um bom relacionamento, inclusive por causa do seu inimigo comum, a Espanha. Na época do Reino Unido Ibérico (1580-1640), a invasão flamenga fazia parte da guerra dos oitenta anos que a Holanda travava contra o domínio espanhol sobre os sofridos Países Baixos (1568-1648).
A Holanda procurava “estancar as veias do rei da Espanha,” pelas quais fluía tanta riqueza, e muitos holandeses apoiaram de coração os esforços da Companhia das Índias Ocidentais no sentido de causar “prejuízo ao inimigo comum.”
O florescimento da colônia holandesa coincidiu com a presença do Conde João Maurício de Nassau-Siegen como governador do Brasil holandês, e deveu-se em grande parte à sua pessoa.
Olinda, a capital da capitania de Pernambuco, caiu nas mãos dos holandeses em fevereiro de 1630. Envolvidos na guerra contra Madri, todos se alegraram quando os “espanhóis” se retiraram. Essa luta contra a Espanha tinha implicações profundamente religiosas. Embora a instrução do almirante Lonck estipulasse que todos os padres jesuítas e outros religiosos teriam de abandonar o país, ela reafirmava a “liberdade de consciência, tanto para os cristãos como para os judeus, desde que prestassem juramento de lealdade..., assegurando-lhes que (a Holanda) não molestaria ou investigaria as suas consciências, mas que a religião reformada seria publicamente pregada nos templos...” Foi instituído um governo civil; um dos membros desse Alto Conselho era o médico Servaes Carpentier. O exército ficou sob o comando do coronel Diederick van Waerdenburch, o governador, presbítero da Igreja Reformada, homem estimado pelas tropas.
Em 1631, foi conquistada a Ilha de Itamaracá e construído o Forte de Orange sob a supervisão do capitão protestante Chrestofle Arciszewski, um nobre polonês. Todavia, a expansão foi lenta, e outras tentativas de ampliar a conquista vieram a fracassar por causa da resistência dos luso-brasileiros, que eram grandes conhecedores da região e de tática de guerrilhas (“capitanias de emboscada”), o que deixou os holandeses praticamente encurralados. O próprio almirante Lonck quase caiu numa emboscada no istmo entre o Recife e Olinda, e o pastor Jacobus Martini foi morto no mesmo trecho. O centro da resistência portuguesa estava localizado a uns seis quilômetros do litoral, em um terreno alagadiço no lugar denominado Arraial do Bom Jesus. A Ibéria enviou uma armada de mais de 50 navios para recapturar Pernambuco, sendo que a maior parte da contribuição dada por Lisboa veio de empréstimos compulsórios de “cristãos novos” (judeus convertidos compulsoriamente ao catolicismo romano).
Em setembro de 1631, a batalha naval de Abrolhos, no litoral pernambucano, ficou sem vencedor. Em seguida, as tropas espanholas, sob o comando do conde napolitano Bagnuolo, desembarcaram em Barra Grande, no sul de Pernambuco, a cerca de cinco léguas do maior povoado da região, Porto Calvo, às margens do Rio das Pedras. Entre eles estava Duarte de Albuquerque Coelho, o novo donatário de Pernambuco, autor das famosas Memórias Diárias sobre os primeiros oito anos dessa guerra colonial. Por ora a situação era de empate, os holandeses dominando o mar, os portugueses as praias.
Essa situação continuou até 22 de abril de 1632 quando um soldado de nome Calabar, homem muito forte e audaz, deixou o campo português e passou para o lado dos holandeses.
Foi apenas por um breve período, pouco mais de três anos, mas teve consequências para toda a época flamenga. Calabar não foi o único a passar para o outro lado, mas sem dúvida foi o mais importante entre eles. Era um homem inteligente e grande conhecedor da região, que já tinha se distinguido e ficado ferido na defesa do Arraial sob a liderança do nobre general Matias de Albuquerque.
Inicialmente, os holandeses não confiaram muito nele. No entanto, dez dias depois Calabar provou pela primeira vez o que podia fazer, levando as tropas do coronel Van Waerdenburch a saquear Igaraçu, a segunda cidade de Pernambuco, local onde uma parte das riquezas de Olinda tinha sido transportada. Durante os meses seguintes, muitas campanhas foram feitas pelas colunas volantes batavas sob a orientação de Calabar, que se tornou amigo do coronel alemão Sigismund von Schoppe. Por outro lado, o general Matias tentou “por todos os meios possíveis (reduzir Calabar), assegurando-lhe não só o perdão, mas ainda mercês, se voltasse ao serviço de el-rei; e esta diligência repetiu por muitas vezes, no que se gastou algum tempo; mas vendo que nada bastava para convencê-lo, tratou de outros meios.”
Em 1633, com a ajuda de Calabar, foi conquistado o litoral norte, desde Itamaracá até a fortaleza dos Reis Magos, e com isso o Rio Grande do Norte, o que levou a contatos amigos com os tapuias, indígenas antropófagos daquela região. Na parte sul, foi tomado o valioso ancoradouro do Cabo Santo Agostinho, o que privou os portugueses do porto mais próximo do Arraial, dificultando o recebimento de reforços de Lisboa e o envio de açúcar para Portugal. Nessa altura, o coronel Sigismund, como o mais velho dos oficiais, assumiu o comando das tropas terrestres. No mar, o almirante Jan Cornelis Lichthart, que falava português, tornou-se amigo de Calabar, que lhe ensinava as entradas dos rios.
Do outro lado, os portugueses prosseguiam com suas tentativas de destruir Calabar. Assim, em março de 1634, o general Matias prometeu a Antônio Fernandes, um primo irmão com quem Calabar fora criado, “que lhe faria mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque.” Antônio aceitou a comissão, mas foi morto na tentativa.
Enquanto isso, Calabar se adaptava mais e mais à sociedade dos invasores e tornou-se um indivíduo estimado e respeitado, inclusive na “igreja católica reformada.” Prova disto é que, quando nasceu um filhinho do casal, foi batizado na Igreja Reformada do Recife. O menino foi, então, batizado “Domingo Fernandus, pais: Domingo Fernandus Calabara e Barbara Cardoza.” Como testemunhas, ali estavam o alto conselheiro Servatius Carpentier, o coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz Lichthart e uma senhora da alta sociedade. O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel Schagen.
No final de 1634, a Paraíba também havia se rendido aos invasores. Alguns sacerdotes (exceto os jesuítas) inclusive tiveram a permissão de assistir aos ofícios religiosos. Houve até um padre, Manuel de Morais, S.J., que passou para o lado invasor. Dessa forma, os holandeses ocuparam a faixa litorânea desde o Cabo Santo Agostinho até o Rio Grande do Norte. A Espanha não podia fazer muito devido aos grandes problemas que enfrentava na Alemanha (com o avanço do exército sueco para ajudar a Reforma contra as tropas do imperador), a perda de uma frota carregada de prata do México (devido a um furacão), problemas no Ceilão, vários anos de seca em Portugal, etc.
Novamente orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o sul e, em março de 1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal do próprio Calabar. Os defensores, liderados por Bagnuolo, fugiram para o sul, e com a ajuda de frei Manuel Calado do Salvador os moradores da região submeteram-se aos holandeses. Dessa forma, o Arraial ficou isolado e, depois de três meses, em junho, Arciszewski conquistou aquela fortificação lusa, os religiosos recebendo permissão para levarem as suas imagens. A única estrada da região pantanosa de Alagoas que podia ser usada por carros de boi passava por Porto Calvo, e nessa altura estava em poder do major Picard e de Calabar. Matias viu-se forçado a atacar a praça, que teve de pedir condições de entrega. Picard tentou salvar a vida de Calabar e finalmente foi combinado que ele ficaria “à mercê d’el-rei.” Porém, como disse o historiador De Laet, a proteção concedida foi “à espanhola” e um tribunal militar o condenou a ser enforcado e esquartejado como traidor. O frei Manuel o assistiu nas últimas horas e ao anoitecer do dia 22 de julho de 1635 a sentença foi executada. Foi também enforcado um judeu, Manuel de Castro, “homem de nação,” que estava ali a serviço dos holandeses. Poucas horas depois, os portugueses continuavam a sua retirada em direção à Bahia, levando consigo cerca de 300 prisioneiros holandeses. Nenhum dos moradores cuidou de enterrar o soldado executado. Dois dias depois, chegaram a Porto Calvo as forças combinadas dos coronéis Sigismund e Arciszweski, que ficaram enfurecidos ao achar os restos mortais do seu amigo e compadre Calabar. Foram colocados num caixão e sepultados com honras militares.

VI - PERSONAGENS:

As personagens, embora histórica, no contexto teatral, dramatiza o texto teatral em dois atos, quando ora emerge a voz dominadora, ora emerge a voz dominada, para enfim, se tornarem um coro único.

– “E pensar que um mulato pernóstico mudou o curso da História.”


M. Albuquerque


DOMINGOS FERNANDES CALABAR – O fato de Calabar nortear a ação e consciência de todas as outras personagens é o que o faz protagonista da trama, embora não tenha falas explícitas. Trata-se de uma personagem virtual, ou seja, sua presença não é física, mas traduz-se na ação e reação, memória e falas de todo elenco de forma profunda. Personagem histórica em torno da qual se desenvolve a ação dramática, é tratado pela historiografia tradicional como traidor da pátria por ter desertado em favor dos holandeses durante a colonização do Brasil. Nativo e grande conhecedor da região em disputa, o nordeste, Calabar esteve à frente da luta empreendida pelos portugueses para “libertar” o país do invasor holandês até reconhecer que a opção escolhida não representava ganhos para sua gente e para sua terra. Decidiu então, passar para o outro lado, acreditando que os holandeses pudessem trazer ao país um governo mais humano e menos opressivo do que o trazido por Portugal.
Ao longo da peça e dentro dela, Calabar assume a categoria de mito, pois, “é capaz de revelar o pensamento de uma sociedade, a sua concepção de sua existência e das relações que os homens devem manter entre si e com o mundo que os cerca.”
Sua atitude representou uma grande perda e também um grande risco às ambições portuguesas, por isso foi encarada como um ato de traição. Calabar foi delatado por um, até então, amigo seu, Sebastião do Souto, que auxiliou pessoalmente a Coroa na sua captura. Preso, foi enforcado e esquartejado, a fim de servir de exemplo àqueles que tencionassem desobedecer às ordens vindas da metrópole.
A origem do homem Calabar também orienta uma reflexão sobre a perspectiva sócio-política e ideológica que norteia o drama.
Existe uma controvérsia em relação à origem racial de Calabar. Para alguns historiadores ele era um mulato (negro + branco), para outros, mameluco (índio + branco) e esta questão é discutida pelas próprias personagens:

MATHIAS – (...) Era um mulato alto, pelo ruivo, sarará. Guerreiro como ele não sei mais se haverá. Onde punha o olho, punha a bola.
(...) Era um mameluco louco, pêlo brabo, pixaim, com dois olhos claros de assustar.

FREI – Nesse tempo estava metido com os holandeses um mestiço mui atrevido e perigoso chamado Calabar (...).

Segundo o historiador Pedro Calmon na sua História do Brasil, “o nome africano Calabar, indica-nos que o desertor era negro ou mulato, embora Frei Rafael de Jesus lhe chame de mameluco.


BÁRBARA – Mulher de Calabar. Participou de seus ideais e é a voz que procura mantê-lo vivo e discute com as outras personagens sobre a representatividade política do marido. É através dela que ocorre a função metalinguística na peça. No início e fim do texto ela lança um enigma aos espectadores.

“Se os senhores quiserem saber por que me apresento assim, de maneira tão extravagante, vão ficar sabendo em seguida, se tiverem a gentileza de me prestar atenção. Não a atenção que costumam prestar aos sábios, aos oradores, aos governantes. Mas a que se presta aos charlatões, aos intrujões e aos bobos de rua.”

A partir desse momento, “emerge, através dela, a consciência popular”, que dita uma verdade não oficial, provocando uma inversão de valores em relação à interpretação do fato histórico: “ela inaugura a versão do oprimido.”

“(...) Esquartejaram Calabar e espalharam por aí seus pedaços. Mas Calabar não é um monte de sebo, não. Eu sei que Calabar deixou uma idéia derramada na terra. A gente da terra sabe dessa ideia, colhe essa ideia e gosta dela, mesmo que ande com ela escondida, bem guardada, feito um mingau esquentando por dentro. A ideia é dessa gente. (...)”

Neste trecho exemplificamos a interpretação de Calabar como um mito, pois sua bravura e esperteza são comentadas até pelos próprios inimigos, que justamente por este motivo, o condenaram a morte. Mas a morte física de Calabar dá origem a toda uma discussão sobre suas atitudes e permanência de seus ideais na consciência popular.
Mas aos poucos, Bárbara vai sendo calada por uma força que ela mal identifica, e acaba por aderir a estas vozes que lhe pedem:

Cala a boca,
Olha a noite,
Cala a boca,
Olha o frio.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.

O enigma que ela lança propicia a leitura da história como um caleidoscópio, conforme o contador e uma (s) razão (es) que se manifesta.

“Esperais um epílogo do que foi dito até agora? (...) A história é uma colcha de retalhos. Que importa o que Mathias contou, o que Brás arrotou, o que Nassau improvisou, o que Anna debochou, o que Bárbara esbravejou, o que Souto pentelho...(...) odeio o ouvinte de memória fiel demais.”


MATHIAS DE ALBUQUERQUE – Governador de Pernambuco. Representante da Coroa Portuguesa no Brasil. Em princípio Calabar lutava em favor dos portugueses, sob seu comando, depois o deixa em favor dos holandeses. Mathias divide sua ação em perseguir Calabar, realizar acordos e falcatruas junto com os holandeses e, mais particularmente, lamentar sua condição de explorador de um povo e uma terra que ele aprendeu a amar.

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo, além da sífilis é claro. Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, enganar, trucidar, meu coração fecha os olhos e, sinceramente, chora.”

Mathias é um homem dividido entre duas pátrias: a pátria política, Portugal e a pátria do coração, Brasil. Tanto que ora argumenta como português explorador, insano, seiscentista, como revela o próprio Chico:

“Agora mesmo no texto da peça Calabar, eu fiz um soneto que procura ser seiscentista, porque é recitado por um português no meio de um fado. Tinha que ser uma forma antiga”. Confira essa divisão de pátria no soneto antitético:

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito.
Desencontrando, um mesmo me contesto.

(...)

E, se a sentença se anuncia, bruta,
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa.

Mathias de Albuquerque, em outras vezes, retrata-se como:

“E nesses devaneios minha terra não suporta mais as trevas e a opressão de Espanha e Portugal. A terra pulsa, blasfema e se debate dentro do meu peito. E para sua redenção qualquer caminho é legítimo (...)”.

O ponto de partida na trama desenvolvida por Chico e Ruy Guerra é um aviso de advertência de Mathias de Albuquerque a Calabar, nomeado major pelos holandeses. Mathias reconhecia o quanto dependiam da sabedoria e esperteza de Calabar para o empreendimento da conquista. Por isso não se conformava com a traição, mas prometia perdoá-lo se voltasse a defender os interesses da Coroa.
O discurso abaixo deixa claro o seu posicionamento frente à situação:

Por que é que ele foi para lá?
Era um mulato bonito, pêlo ruivo, sarará.
Guerreiro como ele não sei mais se haverá.
Onde punha o olho punha a bala.
Onde o mangue atola, o pé firmava.
Bom de briga, de mosquete e de pistola,
Lia nas estrelas e no vento.
Tendo a mata no peito e o peito atento,
Sabia dos caminhos escondidos,
Só sabidos dos bichos desta terra
De nome esquisito de falar.
Eu lhe dei minha confiança
Em matéria de navios e de guerra.
E ainda me pergunto,
Sem resposta pra me dar,
Por que é que ele foi para lá?
Era um mameluco, louco, pêlo brabo, pixaim.
Pra que falar dos seus dois metros de alto,
De seus olhos claros de assustar,
Capitão aqui, major passou no salto.
Levou o seu saber para os flamengos.
E nem sei se cobrou o que era de cobrar.
Eu lhe ofereci perdão em engenhos e
patente
Se quisesse voltar.

E afoito o rebelde, em língua de serpente,
Mandou-me recusar,
Como um bicho esquisito destas terras
Que pensa dum jeito impossível de pensar.
Por que é que ele foi para lá?
(BUARQUE & GUERRA, 1973:10-11).

A existência de tal personagem nos desperta para a reflexão e provoca dúvidas sobre o que significava “trair” naquele momento.

ANNA DE AMSTERDÃ – É a única personagem fictícia da peça. Cabe refletir sobre o seu papel o porquê da sua criação num contexto onde todas as outras personagens são historicamente reais. Era amante de Calabar. A função social dele é ser prostituta: metáfora do corpo violado, explorado e passivo.

Sou Anna dos diques e das docas.
Da compra, das vendas, das trocas, das pernas,
Dos braços da bocas, do lixo, dos bichos, das fichas.
Sou Anna das loucas.
Até amanhã
Sou Anna.

Anna representa o espírito colonizador na terra brasileira, também explorada na sua intimidade, também calada.

Vence na vida quem diz sim,
Vence na vida quem diz sim.
Se te dói o corpo,
Diz que sim.
Torcem mais um pouco.
Diz que sim
Se te dão um soco,
Diz que sim
Se te deixam louco,
Diz que sim.

SEBASTIÃO DE SOUTO – É um brasiliano que luta, ora a favor dos portugueses, ora dos holandeses. Souto representa a inconsciência histórica e política. Não luta por um ideal político ou social, mas por motivos fúteis ou por dinheiro. Leia a seguir o diálogo entre Bárbara e Souto:

BÁRBARA – Tem que haver um motivo muito forte. Mais que uma recompensa, uma honra ao mérito, uma ambição.

SOUTO – Motivo forte? Eu? Eu não tenho um motivo sequer para estar nesta guerra. Quando eu me dei por gente, já era uma praça do exército holandês combatendo na Paraíba. Porque holandês? Não sei. Vai ver que gostei do colorido (...) E continuo achando normal que qualquer que seja o resultado de todas as guerras, no eixo destas guerras sobrem escravos e miseráveis, gente sem juízo e sem princípios, subalternos desleais, como eu, e visionários como ele, na forca.

Por isso Bárbara desabafa durante uma conversa com Souto:

Pobre Sebastião, você não sabe o
que é trair. Você não passa de um delator.
Um alcaguete. Sebastião, tira as botas.
Põe os pés no chão. As mãos no chão, põe,
Sebastião, e lambe a terra. O que é que
você sente? Calabar sabia o gosto da terra
e a terra de Calabar vai ter sempre o
mesmo sabor. Quanto a você, você está
engolindo o estrume do rei de passagem.
Se você tivesse a dignidade de vomitar, aí
sim, talvez eu lhe beijasse a boca. Calabar
vomitou o que lhe enfiaram pela goela. Foi
essa a sua traição. A terra e não as sobras
do rei. A terra, e não a bandeira. Em vez
de coroa, a terra. (BUARQUE & GUERRA, 1973: 96).


MAURÍCIO DE NASSAU – Maurício de Nassau chegou ao Brasil em 1637, quando a Holanda triunfava sobre os portugueses. Nassau trazia consigo a missão de transformar o Brasil em sua Nova Holanda, para isso, trouxe consigo arquitetos, artistas, cientistas, e realizou obras que primeiro fundaram no Brasil um reflexo do universo humanista europeu.

“Eu Maurício de Nassau – Siegen, conde holandês da mui nobre casa dos Orange, que tantos reis e guerreiros tem dado ao meu país, embarco nesse ano de 1637 a caminho de Pernambuco, em terras do Brasil, como Governador Geral. Político hábil e diplomata, logo que aqui chegou, embora fosse calvinista, fez acordo com a igreja jesuítica.
Ora, Frei...Por quem sois...(Para o consultor) É o novo homem...(Para o Frei) Pelo menos venha a morar dentro das fortificações. Vou mandar construir-lhe uma casa vizinha ao palácio...(...).”

Nassau promoveu a liberdade de culto no Brasil, e com isso conquistou de vez a simpatia do Frei, que se tornou seu aliado. Em relação à arquitetura, mandou construir fortes, o forte Maurícia, que resguardava Pernambuco dos ataques das forças portuguesas; mandou construir também a Ponte Maurícia, que foi motivo de pilhéria e chacota por parte do povo, pois o local não comportava tal empreendimento.

Frei: (contendo o riso) Perdões, alteza, é brincadeira do povo. Eles não têm muita fé nessa ponte...Dizem que é mais fácil um boi voar...

A resposta de Nassau é típica de um megalomaníaco, tal qual ele se apresenta:

Nassau: Ali, sim? Um boi voar? Há, há, há! Pois terão as duas coisas: a Ponte e o Boi! Viva Dom João Quarto, rei de Portugal!

Sendo governador geral da cidade Maurícia, Nassau ignora o conselho dos seus assessores e tenta transplantar para a Capitania de Pernambuco seus ideais de grande político e conquistador. Nem mesmo os obstáculos políticos ou de ordem natural são capazes de suplantá-lo. Embora seja adepto da política da “boa vizinhança”, em alguns momentos a fala de Nassau denuncia as suas verdadeiras intenções.

Nassau: (...) Agora é preciso também controlar a produção...Colonizar! É preciso colonizar...(...)

Nassau é uma personagem síntese, pois carrega consigo o discurso do colonizador repressivo e violento; idealista também, pois, chega a gastar quantias exorbitantes para realizar projetos megalomaníacos, confrontando as ordens da Companhia das Índias; populista, com atitudes extremamente simpáticas para com o povo, conquistando assim sua confiança e confirmação; além do humor, não são poucas as situações em que suas atitudes e ideais fazem romper o riso, pelo absurdo e patético delas. Mas Nassau considera-se um predestinado e isso justifica suas atitudes, até o momento em que se instala a lucidez e a amargura.

“Alguma vez você já sentiu que o seu destino é tão grandioso, tão maior que o dos outros homens, tão independente dos seus atos que chega a assustar, ao mesmo tempo que te dá uma imensa sensação de prazer? Alguma vez? E depois se repetem e no seu cotidiano você passa a acreditar nesse destino até que um dia tudo fica amargadamente claro e você descobre que nada estava escrito a não ser nas tuas próprias ilusões.” (...)

A ação de maior representatividade dessa personagem é a traição. Ele acompanhava Calabar, sabia de suas estratégias e caminhos, e por isso mesmo torna-se o agente de traição ideal para os portugueses e holandeses. A contradição entre História e ficção neste momento é nítida:

“Na peça de Chico Buarque e Ruy Guerra, Sebastião do Souto morreu baleado enquanto conversava com Bárbara, a mulher de Calabar. Historicamente, contudo, Sebastião Souto morreu de espada em punho, três anos depois da morte de Calabar, quando Nassau atacou a Bahia, em 1638.” (JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO)

Souto aproxima-se de Bárbara, reconhecendo o seu papel vil e tentando reabilitar-se, reconstruindo e dando seguimento à trajetória de Calabar. Mas é Bárbara quem novamente chama sua atenção para o idealismo de Calabar contra a inconsciência política dos atos dele.

Bárbara: “Mas eu não reconheço em você o cheiro de Calabar.”

Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim.

(...)

NEGRO HENRIQUE DIAS E O ÍNDIO FELIPE CAMARÃO - Ambos operam suas forças e conhecimentos da terra em favor dos dominadores. Ignoram suas origens e perseguem os de sua(s) origem(s).

CAMARÃO: E quem é que me obriga a falar feito índio? Eu também posso pensar em português, como cristão que sou. Por que é que eu vou para a guerra de azagaia, se posso arranjar um mosquete? E quando for pra morrer, pra que é que eu vou querer virar lua, pedra, cachoeira, bicho, raio de luz, se posso arranjar uma alma e ficar de conversa com Jesus Cristo até o fim dos dias?

FREI MANOEL DO SALVADOR, que serve ora a um, ora a outro colonizador, e que mantém acesa a discussão acerca do jogo de interesses e da traição imputada apenas a Calabar.

VII- ESTRUTURA:

O drama não parte de uma única opção que se desenvolve ao longo dos diálogos, ele se apresenta numa série de pequenos quadros ou intrigas, aparentemente simultâneas, que vão se agrupar no final, quando num lance carnavalesco, onde há uma simultaneidade de ação, destino e falas, todo o elenco canta o “Elogio da Traição”, sugerindo a vitória das falcatruas, da violência, dos interesses escusos e das forças opressoras, que até a contemporaneidade atuam sobre as terras brasileiras.

“O que é bom pra Alemanha é bom para o Brasil
O que é bom para o Japão é bom para o Brasil
O que é bom para o Gabão é bom para o Brasil.”

“Calabar “é uma obra complexa, tanto no que se refere à sua estrutura quanto à (s) temática (s) abordada (s) nela (s). Sua ação de maior audácia é reler a História do Brasil, dando voz aos que foram relegados à condição de vencidos, ora sob o tom trágico, ora sob o cômico burlesco, que prepondera.
Embora a formalização do texto promova um alerta para o contínuo processo da colonização que sofreu e sofre o Brasil o que não é uma perspectiva positiva, não são raros os momentos de humor, numa clara intenção de através do riso, tornar menos trágica a nossa história e mais político o colonizador.
Fatos históricos tomada de Pernambuco pelos holandeses, enforcamento de Calabar, o governo megalomaníaco de Maurício de Nassau, queda da Dinastia de Castela dos Felipes, reis de Espanha que governaram Portugal, trégua entre Portugal e Holanda assinada por D. João IV, além de situações puramente subjetivas, que revelam o drama íntimo das personagens, que particularizados revelam dúvidas, conflitos e preocupações humanas, independentemente da nação, do tempo a que pertençam como a traição e a morte.
Por tudo isso, Calabar é uma obra polifônica, por essa multiplicidade de vozes e perspectivas ideológicas que transformam a história numa imensa colcha de retalhos, e que dentre tantas traições que denuncia, a última é em relação ao espectador/leitor, que não encontra no final uma mensagem otimista, mas um motivo de alerta para os dias de hoje:

“O que é bom pra (...) é bom pro Brasil!”
E cai o pano!

A peça é dividida em dois atos:

1º ATO – CALABAR VIVO:


FREI MANOEL – Abre a peça com o discurso sobre as delícias do Brasil.

MATHIAS DE ALBUQUERQUE – tenta reconquistar a simpatia de Calabar.

BÁRBARA – inaugura a fala de resistência do colonizado.

FREI MANOEL E HOLANDÊS – adesão da igreja aos propósitos de exploração comercial da Holanda via Companhia das Índias.

MATHIAS E HOLANDÊS - pacto para prisão e morte de Calabar.

DIAS, CAMARÃO, SOUTO E ANNA DE AMSTERDÃ – a traição étnica, política e histórica.

- Prisão, condenação e morte de Calabar.


2º ATO – CALABAR MORTO – ENFORCADO:


MAURÍCIO DE NASSAU – a invasão ideológica, realização de obras arquitetônicas.

SOUTO E BÁRBARA – Souto reconhece a bravura e os princípios libertários de Calabar, e busca a adesão de Bárbara aos seus propósitos.

FREI E NASSAU – Nassau faz discurso sobre ação colonizadora da Holanda e faz acordo de interesse ideológico e econômico entre ambos: Igreja e Estado.

BÁRBARA E SOUTO – Bárbara discute com Souto e vê nele um possível espelhamento dos ideais de Calabar. Souto morre nas mãos dos holandeses.

BÁRBARA E ANNA – Bárbara se prostitui e faz discurso sobre o cansaço da resistência ante a invasão política, religiosa e ideológica dos colonizadores.

A cena une todas as personagens que desfilam e cantam juntas, num destino comum: a condição de exploradas.
A alternância de quadros e pluralidade de vozes (Polifonia) se manifesta num duplo movimento: a fala dos dominadores e exploradores:

HOLANDÊS – A cana, por exemplo, sem a qual não há razão para nenhum de nós estarmos aqui.

FREI MANOEL – Calabar é um assunto encerrado (...) e quem disser o contrário atenta contra a segurança do Estado (...)

MAURÍCIO DE NASSAU - ...Os tempos mudaram. Já não se pode apenas chegar, comprar, transportar e revender...Agora é preciso também controlar a produção. Colonizar! É preciso colonizar...

A fala dos dominados e explorados:

BÁRBARA – Com o tempo, a gente vai sendo acostumada a ter vergonha de muita coisa. Vergonha de acreditar que vale a pena lutar por uma coisa que preste.

ANNA – Pois eu não sei pra que uma morte há de ser necessária...Essa gente vai morrendo aí aos montes, faz um barulho danado e ninguém toma conhecimento...

DIAS – Eu sei qual é o meu lugar. Sei a quem devo as armas que manejo, os coturnos que calço e tudo que sou...

CAMARÃO – A luta contra o tempo. Minha raça começou a morrer no dia em que o primeiro civilizado botou o pé nas Américas.


VIII - TEMÁTICA:

TRAIÇÃO

Ao longo da peça, é recorrente o tema da traição. As personagens de Calabar quando não estão se acusando ou a outros de traição, estão traindo explicitamente.
A cada instante, em cada momento, as personagens traem. Traem alguma coisa, alguém, alguma ideia, se traem a si mesmos.
A traição é assim legitimada e torna-se, paradoxalmente, o fio que une e afasta afetiva, política e historicamente as personagens. E, antes de ser um fato histórico, ou seja, uma prática que atinge o destino de um povo é particular, humana. E conforme a perspectiva de quem a julga, é um ato de patriotismo ou de perversão. Por exemplo:

- Calabar trai aos portugueses quando se alia aos holandeses (traição ideológica).

- Sebastião do Souto trai Calabar, ajudando aos holandeses a localizá-lo e entregá-lo aos portugueses.

- A traição está estampada na personagem do Frei Manoel do Salvador. Até mesmo Mathias de Albuquerque admite ter tido dúvidas quanto a quem deveria obedecer, e também se deveria condenar Calabar quando diz:

Sim, padre, tenho sofrido esta
tentação. Ás vezes tenho hesitado em
deixar meu país à sua sorte, o que não é
sorte sua... Padre, às vezes, peco em
pensamento, e as palavras quase me
traem. E eu quase me surpreendo a
contestar as ordens que me chegam não
sei de onde ou em nome de quem...”. Ao
que acrescenta: “Oh, pecado infame, a
infame traição de colocar o amor à terra
em que nasci acima dos interesses do rei!
(BUARQUE & GUERRA, 1973:50-51).

- Bárbara durante todo o drama tenha reabilitar a imagem de Calabar, denunciar a violência de sua condenação, propagar suas idéias, mas não há quem a ouça. A personagem Anna de Amsterdã faz contracanto com ela, pois a todo momento, tenta dissuadi-la de sua intenção. E Bárbara acaba por se sentir vencida, contrariada, voz sem ouvidos para ouvi-la.

“(...) Mas tenho medo, Anna. A verdade é que eu não sou mais nada, me sugaram tudo, eu não quero mais essas mortes tão perto de mim...Me dá outro gole...É horrível dizer isso, Anna, mas eu quero viver...”

A traição é uma situação recorrente na história da humanidade, mas algumas vezes (des) orientou profundamente o curso de um povo em relação à sua filosofia, política e cultura.
Uma dessas situações foi intertextualizada por Chico Buarque e Ruy Guerra em Calabar. Trata-se da traição bíblica quando Judas trai a Cristo por trinta moedas de ouro, o que poderíamos relacionar a Sebastião Souto, e, ainda mais, a Pedro, discípulo que, logo após a crucificação de Cristo, negou tê-lo conhecido ou participado de suas ideias.
Considerando a hipótese de que todos traíram, a outros ou a si mesmos, por que somente um deles, Calabar, foi condenado pela História? Afinal, quem ele traiu? Portugal? Espanha? Brasil? E os outros? Por que não foram condenados?
Para discutir questões tão complexas, os autores lançaram mão de um estilo de linguagem que tentava dificultar a ação dos censores. A metáfora, usada em diversas situações, servia como arma para “provocar a dúvida” e como escudo para criticar a ação “terrorista” do regime. A ironia e o deboche presentes nos discursos das personagens traduziam o inconformismo da classe artística frente à insensatez do regime. Um trecho cantado por Anna de Amsterdam, juntamente com a introdução do coro, traz evidências da utilização desse recurso de linguagem:

Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo,
Diz que sim.
Torcem mais um pouco,
Diz que sim.
Se te dão um soco,
Diz que sim.
Se te deixam louco,
Diz que sim.
Se te babam no cangote,
Mordem o decote,
Se te alisam com o chicote,
Olha bem pra mim.
Vence na vida quem diz sim,
Vence na vida quem diz sim.
Se te jogam na lama,
Diz que sim.
Pra que tanto drama,
Diz que sim.
Se te criam fama,
Diz que sim.
Se te chamam vagabunda,
Montam na cacunda,
Se te largam moribunda,
Olha bem pra mim.
Vence na vida quem diz sim.
Vence na vida quem diz sim.
Se te cobrem de ouro,
Diz que sim.
Se te mandam embora,
Diz que sim.
Se te puxam o saco,
Diz que sim.
Se te xingam a raça,
Diz que sim.
Se te incham a barriga
De feto e lombriga,
Nem por isso compra a briga,
Olha bem pra mim.
Vence na vida quem diz sim,
Vence na vida quem diz sim.
(BUARQUE & GUERRA, 1973:120)

Por outro lado, o texto desperta o público para a esperança de um futuro melhor. Um futuro onde o país estaria livre dos interesses e das pressões externas, e, o povo poderia exercer a sua liberdade. Isso só seria possível graças à existência de muitas pessoas como Calabar, de muitos “traidores” como ele.
De comerciante que visava o lucro e que, por isto, traíra os portugueses e colonos brasileiros - para um quase herói, que tinha por objetivo não o ganho pessoal, mas o melhor para o povo brasileiro (na verdade um conceito ainda inexistente, no século XVIII), conforme argumenta Bárbara nesta passagem do texto:

Um dia este país há de ser
independente. Dos holandeses, dos
espanhóis, dos portugueses... Um dia todos
os países poderão ser independentes, seja
do que for. Mas isso requer muito traidor.
Muito Calabar. E não basta enforcar,
retalhar, picar... Calabar não morre.
Calabar é cobra-de-vidro. E o povo jura
que cobra-de-vidro é uma espécie de
lagarto que quando se corta em dois, três,
mil pedaços, facilmente se refaz.
(BUARQUE & GUERRA, 1973:133)


NACIONALISMO

Calabar trata do problema do nacionalismo, preocupa-se com a emergência de uma identidade nacional em perspectiva histórica. Desta forma, o que é Pátria? Ao passar para o lado dos holandeses a personagem estaria traindo a Pátria? Trata-se de um dilema que envolve não só Calabar, mas também Mathias de Albuquerque, que tem dúvidas quanto a quem deveria servir. A dúvida é característica constante em diversos discursos ao longo do texto.

Um diálogo entre Souto e Bárbara instiga esse tipo de reflexão, quando ele diz:

... queria que as coisas fossem
mais imediatas. Queria saber do certo e do
errado. Queria não ter dúvidas.
(MENEZES, 1982: 177-178)

Calabar tornou-se um novo paradigma para a releitura da história do Brasil, que se viu contado na perspectiva do oprimido, do homem da terra, como salienta Chico Buarque: “o que se debate em Calabar, não explicitamente, mas obrigatoriamente, é o conceito de pátria.”

BÁRBARA – E Calabar?

FREI – (Para Bárbara) Calabar é um assunto encerrado. Apenas um nome. Um verbete. E quem disser o contrário atenta contra a segurança do Estado e contra as suas razões. Por isso o Estado deve usar do seu poder para o calar. Porque o que importa não é a verdade intrínseca das coisas, mas a maneira como elas vão ser contadas ao povo.

Calabar teria escrito ao governador Waerdenburch, dizendo: “Passei para essa causa sem querer recompensa, e vim para melhorar minha terra, que não tem liberdade de espécie alguma.” Waerdenburch teria confirmado à Holanda que “Calabar só se colocou ao nosso lado por convicção, pois recusou as recompensas que vossas senhorias lhe haviam mandado. Diz estar certo de que a sua pátria irá melhor do que com os espanhóis e os portugueses.”
E quando, depois, o general Matias acenou com anistia total na tentativa de trazê-lo de volta, Calabar teria respondido: “Tomo Deus por testemunha de que meu procedimento é o indicado pela minha consciência de verdadeiro patriota, não como traidor, mas como patriota.” E no fim, em Porto Calvo, antes de entregar-se, teria escrito ao governo holandês no Recife: “Serei um brasileiro que morre pela liberdade da pátria.”
Na verdade, à pergunta “Por que Calabar passou para o outro lado?” temos de responder por enquanto com um “non liquet”, não sabemos o real motivo, pois nem do lado holandês, nem o meticuloso cronista De Laet (1644) e nem o panegirista Barlaeus (1647) mencionam motivo algum. De Laet registra somente que “para os nossos passou um mulato, de nome Domingo Fernandes Calabar” e Barlaeus observa que esse “português abandonou o partido do rei (da Espanha) pelo nosso,” mencionando a sua terrível morte por causa da sua infidelidade. Talvez seja pessimista demais a conclusão de Capistrano de Abreu: “nunca se saberá.”

POSICIONAMENTO POLÍTICO

Ainda sobre Calabar, avalia que “ali se projeta, inequivocamente o problema das omissões do intelectual, dos impasses do sujeito no agir histórico, dos dilemas de sua atuação e do silêncio imposto.” E, ainda, que a luta armada na qual Calabar foi atuante servia como analogia a um problema posto à esquerda no momento do golpe: o de optar ou não pelo enfrentamento com a ditadura.
Esse tipo de dúvida Calabar não tinha, e a personagem Bárbara, que o apoiou oferecendo-lhe seu amor, demonstra também não ter quando canta:

Ele sabe dos caminhos
Dessa minha terra
No meu corpo se escondeu,
Minhas matas percorreu,
Os meus rios,
Os meus braços,
Ele é meu guerreiro
Nos colchões de terra.
Nas bandeiras, bons lençóis,
Nas trincheiras, quantos ais, aí...
Cala a boca,
Olha o fogo,
Cala a boca,
Olha a relva,
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Ele sabe dos segredos
Que ninguém ensina:
Onde eu guardo o meu prazer,
Em que pântanos beber,
As vazantes,
As correntes.
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro,
Nas companhias, nos currais,
Nas entranhas, quantos ais, ai.
Cala a boca,
Olha a noite,
Cala a boca,
Olha o frio.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
Cala a boca, Bárbara.
(BUARQUE & GUERRA, 1973: 12)


CONQUISTADORES VERSUS CONQUISTADOS

A promessa de fama, riquezas e bem-aventurança parece-nos ser o que justifica a venda dos portugueses para o Brasil, e, logo depois deles, os holandeses, os franceses, os ingleses...Além desta situação percebemos, ao longo da história de Calabar outras motivações e consequências, que são: um universo de revolta e traição; negação dos valores do ouro (índio, negro, brasileiro) e novas terras (espelhamento do mundo europeu).
A disputa histórica que se seguiu entre Portugal, Espanha e Holanda pela exploração do açúcar nas terras brasileiras, uma terra antes vista como um paraíso pelo colorido natural, mas que logo se transformou numa terra sem lei, alvo da cobiça, vítima de toda sorte de horrores e violências.

FREI: Era o Brasil, antes da chegada dos holandeses, a mais deliciosa, próspera, abundante, e não sei se me adiantarei muito se disser a mais rica de quantas ultramarinhas o Reino de Portugal tem debaixo de sua coroa e cetro. (...) o ouro e a prata era sem número e quase não se estimava; o açúcar, tanto que não havia embarcações para carregar...(...) e não parecia esta terra senão um retrato de terreal paraíso.

O Frei termina sua fala, que apresenta a peça. Imitando um narrador.

FREI: Com os flamengos, entrou nesta terra de Pernambuco o pecado. Os moradores dela foram-se esquecendo de Deus e deram entrada aos vícios, e sucedeu-lhes o mesmo que aos que viveram o tempo de Noé, que os afogaram as águas do universal dilúvio, e como Sodoma e Gomorra, que foram abrasadas com o fogo dos céus.

A fala do Frei é confirmada pela de Anna de Amsterdã, quando ela canta e contagia com o seu frevo “Não existe pecado ao Sul do Equador”.

“Não existe pecado do lado debaixo do Equador. Vamos fazer um pecado safado debaixo do meu cobertor/Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho/Um riacho de amor. (...)”

A moral cristã que antes era o norte dos habitantes da terra e dos estrangeiros portugueses é ignorada a partir da chegada dos holandeses. O que se percebe daí em diante é uma amoralidade, tanto que o próprio Frei revela sua prática sexual sem qualquer constrangimento, traindo seus princípios religiosos de castidade.

FREI: Convém que eu viva fora de sua casa, onde todos notem meu modo de proceder e sejam todos fiscais de minha vida e costumes, porque ainda que eu ande a comer meninos...

Ou a paixão e fascínio de Anna de Amsterdã por Bárbara:

ANNA: Você não tem jeito, Bárbara, você...(segura o rosto dela e fica séria)...Mesmo assim você está linda. E eu te quero muito, mulher!

Obviamente, que a sedução de Anna em relação à Bárbara pode ser lida como uma metáfora: a prostituta holandesa busca dissuadir Bárbara, física moral e intelectualmente de seus projetos libertários.


QUESTÃO ETNOCÊNTRICA

“Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossa definição do que é a existência.” (Everardo P.Rocha)
A questão etnocêntrica acaba por obrigar a uma reflexão sobre a tentativa do europeu de espelhar no Novo Mundo, principalmente o Brasil, sua terra, seus valores culturais, econômicos e religiosos.
Maurício de Nassau é a personagem que melhor ilustra esta situação com seus sonhos e delírios. Contradizendo ordens da Companhia das índias executa aqui, no Brasil, uma arquitetura material, cultural e política européia nas relações com os brasileiros, quando tenta transformar a capitania de Pernambuco num simulacro, anulando qualquer traço original.

NASSAU: Vamos ampliar a cidade do Recife e ladrilhar suas ruas (...) ergueremos uma nova cidade projetada conforme os mais modernos conceitos de urbanismos, de loteamento ao traçado racional de suas avenidas, desde o embelezamento de seus parques até o escoamento de seus esgotos. E a essa nova e suntuosa cidade, permito-me dar o nome de Cidade Maurícia.

E ainda mais, Mathias de Albuquerque, que revela seu sonho de ver o Brasil essencialmente português.

Ah! Essa terra ainda vai cumprir seu ideal.
Ainda vai torna-se um imenso Portugal.

NEGAÇÃO DOS VALORES DO OUTRO

Os princípios europeus que nortearam a conquista da América – expansão do império e propagação da fé – foram motivos de reflexão para vários estudiosos, entre eles salienta Silviano Santiago:

“A colonização pela propagação da Fé e o do Império é a negação dos valores do Outro (...) A tripla negação do Outro para ser mais preciso; primeiro do ponto de vista social já que o indígena perde a liberdade, passando a ser súdito de uma coroa européia. Segundo, o indígena é obrigado a abandonar o seu sistema religioso (e tudo o que ele implica de econômico, social e político) transformando-se pela força de catequese – em mera cópia do europeu. Terceiro: perde sua identidade linguística, passando gradativamente a se expressar por uma língua que não é a sua.”

A fala/situação de duas personagens em Calabar, ilustram perfeitamente esta questão: Henrique Dias, governador dos Pretos, Crioulos e Mulatos de Pernambuco; Antônio Felipe Camarão, governador e capitão-mor de todo os índios da costa do Brasil.

CAMARÃO: Minha graça é Camarão
Em Tupi, Poti me chamo.
Mas do novo Deus Cristão
Fiz minha rede e meu amo
Bebo, espirro, mato, esfolo
No ramerrão desta guerra
E seu eu morrer não me amolo.
Que um índio bom nunca berra.

Estas situações que Santiago revela sobre o índio, são perfeitamente cabíveis ao negro, escolhido desde o princípio como mão de obra ideal, por vários motivos.

“Em primeiro lugar, o tráfego negreiro da fonte de vultosos lucros para Portugal. A compra de escravos, por sua vez, representava o adiantamento à Metrópole, de parte considerável da renda a ser gerada na colônia.” (V.L.A. Ferlini)

A Europa, mais especificamente Portugal e Holanda, colocaram-se na posição de um Eu, que é superior, o representante da cultura, por excelência, o detentor do saber e progresso: e a América – o Brasil – o Outro, espaço primitivo, vazio, a ser preenchido pelo Eu.
Este comportamento etnocêntrico europeu pode ser considerado como primeiro gesto de violência em gesto em relação ao Novo Mundo e, talvez, mais cruel que os castigos físicos infligidos aos índios, negros e brasilianos, pois sua nação não se esgota num indivíduo, mas na história de um povo.

ESTERIÓTIPO FEMININO

Voltando-se para Bárbara, mulher de Calabar, teve o poder de despertar o desejo em um amigo de Calabar, Sebastião Souto, que foi quem entregou o seu “amigo” para os portugueses. Cometeu este ato, com o simples desejo de possuir Bárbara.

Ele era mil (Calabar)
Tu és nenhum (Souto)
Na guerra és vil (Souto)
Na cama és mocho (Souto)
Tira as mãos de mim (Bárbara)
Põe as mãos em mim (Bárbara)
E vê se o fogo dele (Calabar)
Guardado em mim (Bárbara)
Te incendeia um pouco (Souto)
Éramos nós (Bárbara e Calabar)
Estreitos nós (Bárbara e Calabar)
Enquanto tu (Souto)
És laço frouxo (Souto)
Tira as mãos de mim (Bárbara)
Põe as mãos em mim (Bárbara)
E vê se a febre dele (Calabar)
Guardada em mim (Bárbara)
Te contagia um pouco. (Souto)

Neste texto, temos um estereótipo feminino não muito comum. Uma mulher que usa de pressão psicológica para atingir o homem que entregou o seu marido. Ela se entrega a ele, vive com ele, e o martiriza fazendo comparações com a pessoa que ele traiu. Ela, Bárbara, é a narradora, e as ações narradas por ela têm uma idéia natural, comum. Através da atitude da narradora, temos a percepção de diferentes concepções a respeito da vida social, de valores e ações humanas. A relação discursiva se mostra através do poder que Bárbara exerce sobre Souto, ela se mostra autoritária pelo simples fato de saber da traição de Sebastião e saber do sentimento que o mesmo nutre por ela. Ela utiliza o discurso direto: “Tira as mãos de mim, põe as mãos de mim”, temos a idéia de poder através do verbo no modo imperativo: “Tira/Põe”. Uma idéia de aceite por parte de Sebastião é vista, que ouve tudo calado e não contesta.
As principais identidades são Bárbara (a narradora), Calabar (o marido) e Sebastião Souto (o traidor). A relação social neste discurso se apresenta através da omissão de Souto que não questiona, não contesta o comportamento severo de Bárbara, que tem como característica, uma mulher esclarecida, ciente de seu desejo de vingança e de seu poder de persuasão, desta forma, ocorre um equilíbrio entre poder e se submeter.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O subtítulo da obra que Ruy Guerra e Chico Buarque nos apresentam, “O Elogio da Traição”, é um forte indicativo da importância desta situação na obra.
Num primeiro plano é uma intertextualidade com a obra do filósofo Erasmo de Roterdã renascentista “O Elogio da Loucura”, uma interpretação profunda e inteligente das questões políticas da sua época.
A traição, nesta obra, muitas vezes se confunde com um mal disfarçado ato senão de loucura, ao menos de delírio: fato que cada personagem exemplifica.
A descrição intuitiva de João Felício dos Santos talvez possa estar perto da resposta que se esconde na névoa da história. Para Felício, esse amor à terra natal era patente em todas as fases da vida do soldado, quem sabe um desejo de realmente ver “ordem e progresso” no Brasil (talvez o sonho de servir, não a si mesmo, mas à comunidade, com justiça e paz). Como menino, o romancista faz Calabar estudar em um colégio de jesuítas onde se ensinava uma obediência incondicional à coroa católica romana de Castela, mas faz o menino responder que somente devia obediência à sua mãe e à terra brasileira. Como jovem, ele teria percebido que os holandeses amavam o Brasil pela construção e limpeza do Recife (e podia ter acrescentado: por planos de melhorias como o ensino primário generalizado, limpeza dos limpos, proibição do corte do pau-brasil e do cajueiro, etc.). Finalmente, Felício faz Calabar adulto dizer ao frei Calado, seu confessor, defendendo-se do epíteto de traidor: “São partidários dos flamengos todos os que querem esta terra farta e acarinhada, sejam eles de que nação forem.”
Em seu livro panegírico “O valeroso Lucideno” em louvor ao líder João Fernandes Vieira, Calado afirmou que Calabar era um contrabandista, que inclusive teria cometido grandes furtos e vários crimes atrozes na paróquia de Porto Calvo e, temendo a justiça, fugiu com Bárbara para o campo do inimigo. Mas, sendo fugitivo do lado português, teria realmente segurança se passasse para o outro lado? Talvez, sim. Mas, pela última vez em Porto Calvo, com soldados relutantes, restando pouca água e munições, com lenha amontoada pelos sitiantes debaixo da casa forte para queimá-los, e depois de “mais de meio-dia no ajuste dos artigos de rendição, porque o inimigo insistia em levar consigo Domingos Fernandes Calabar,” o próprio soldado Calabar sabia que era impossível escapar e, querendo poupar as vidas dos seus amigos e subordinados, “disse com grande ânimo estas palavras ao governador Picard: “Não deixeis, senhor, de concordar no que se vos exige pelo que me diz respeito, pois não quero perder a hora que Deus quis dar-me para salvar-me, como espero de sua imensa bondade e infinita misericórdia’. Por outro lado, o próprio major Alexandre Picard deve ter ficado arrasado com o triste fim do colega, e nós o encontramos depois na Holanda recuperando-se na casa do seu irmão pastor em Coevorden.
Flávio Guerra em seus escritos rejeita a idéia de fuga por roubo e outras razões dessa natureza. Ele argumenta: a) Calabar era um homem de posses que não aceitou dinheiro dos holandeses; b) ele não poderia ter defraudado bens do estado no Arraial; c) não há documento nenhum que fale em fraude; d) essa alegação surgiu somente alguns anos depois da morte de Calabar.
Revendo esses poucos exemplos, poderíamos então postular que a interpretação mais simples para o caso de Calabar seria econômica. Talvez Calabar, como grande conhecedor da região e dos acessos pelos rios, já fosse contrabandista antes e depois da invasão, e teria passado para os invasores em busca de dinheiro. Embora tudo indique que ele não precisava disto, pois já tinha adquirido propriedades e gado em Alagoas, um bom dinheiro sempre teria sido bem-vindo.
Outra interpretação é a questão de honra; talvez de glória, mas muito mais de reconhecimento, respeito, bom nome, dignidade. Vivendo no século XVII, por ser mestiço e não português “de sangue puro,” Calabar, apesar das suas qualidades, de certa forma era um inferior por causa da cor da sua pele, ainda que atualmente algumas pessoas tenham dificuldade em admitir esse fato histórico. Anos depois, o próprio governador de Pernambuco (1661-1664) escreveu que Calabar buscara entre os inimigos “a esperança que lhe impedia entre os nossos a vileza do nascimento.” Por outro lado, Calabar, o mameluco, deve ter observado como os holandeses tratavam melhor os seus escravos, e os índios até mesmo com respeito, chamando-os de “brasilianos” por serem os primeiros moradores do vasto Brasil. E quem sabe Calabar também fosse um tanto ambicioso e pensasse que poderia fazer carreira do outro lado, o que num certo sentido aconteceu, como Coelho lembra ao afirmar que “logo o fizeram capitão.” Não foi tão logo, mas de fato aconteceu.
Será que houve algum motivo religioso na traição de Calabar? De fato, houve uma escolha religiosa voluntária por parte de Calabar, o que não era possível na direção oposta. Ele podia ter passado para o lado holandês sem filiação à “igreja do estado” e Bárbara podia ter procurado um padre católico romano para o batismo do seu filho. A entrada da família Calabar na igreja reformada foi voluntária e o batismo do seu filho na igreja reformada do Recife em 1634 aponta para isto. Finalmente, dez meses depois, no dia da sua execução, Calabar reconheceu mais claramente os seus pecados e se mostrou tão arrependido que os religiosos que o assistiram acharam que “Deus por meio de tal pena o quis salvar, dando-lha no próprio lugar de seu nascimento e onde tanto o havia ofendido.”


A Ponte Maurício de Nassau,
em Recife, Pernambuco, Brasil.

É a ponte mais antiga da América Latina, datada de 1643. Liga o bairro do Recife ao bairro de Santo Antônio. Foi a primeira ponte construída sobre o rio Capibaribe, ainda quando o conde holandês Maurício de Nassau habitava nossa terras. Inaugurada em 1644, a ponte inicial era de madeira. Sofreu reformas em 1683 e 1742 e mudou de nome duas vezes. Em 1917 voltou a se chamar Maurício de Nassau e foi reinaugurada em concreto armado. Hoje, é uma beleza que faz parte do dia-a-dia de milhares de pessoas que trabalham no Centro do Recife e a utilizam para locomoção.


Em sua frente você visualiza o Palácio do Governo de Pernambuco, na Praça da República, construído em 1840. Nesse local existiu o Palácio das Torres, o de Friburgo, encomendado por Maurício de Nassau, durante o domínio holandês (1630-1654), demolido depois de 1770.
Para a história restou o busto (de costas) desse governante holandês, que gostava de Recife e construiu belas obras pela cidade. Pena que muita coisa foi incendiada (principalmente em Olinda, cidade vizinha) quando da expulsão dos holandeses do Brasil.