I – AUTORA: LYGIA FAGUNDES TELLES
Lygia
Fagundes Telles (1923-2022) é uma escritora brasileira. Romancista e contista,
é a grande representante do movimento pós-modernismo. É membro da Academia
Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências
de Lisboa. O estilo de Lygia Fagundes Telles é caracterizado por representar o
universo urbano e por explorar de forma intimista a psicologia feminina.
Lygia
Fagundes Telles (1923) nasceu em São Paulo, no dia 19 de abril de 1923. Filha
de Durval de Azevedo Fagundes, advogado, passou sua infância em várias cidades
do interior, onde seu pai era promotor. Sua mãe, Maria do Rosário Silva Jardim
de Moura era pianista. Seu interesse por literatura começou na adolescência.
Com 15 anos publicou seu primeiro livro, "Porão e Sobrado". Formou-se
em Direito e Educação Física, na Universidade de São Paulo, porém seu interesse
maior era mesmo a literatura.
Sua
estreia oficial na literatura deu-se em 1944, com o volume de contos
"Praia Viva". Casou-se com o jurista Goffredo Telles Júnior, com quem
teve um filho. Divorciada, casou-se com o ensaísta e crítico de cinema Paulo
Emílio Salles Gomes. Em 1982 foi eleita para a Academia Paulista de Letras. Em
1985, tornou-se a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras.
Em 1987, foi eleita para a Academia das Ciências de Lisboa.
Entre
os muitos prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio Afonso Arinos da Academia
Brasileira de Letras, em 1949; o Prêmio do Instituto Nacional do Livro, em
1958; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por "Verão no
Aquário", em 1965; o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras,
em 1973; o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do livro, com a obra "As
Meninas", em 1974; o Prêmio Jabuti com a obra "Invenção e
Memória", em 2001; e o Prêmio Camões recebido no dia 13 de outubro de
2005, em Porto, Portugal.
Em
2016 e aos 92 anos de idade, Lygia Fagundes Telles tornou-se a primeira mulher
brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Faleceu em 2022.
II -
CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:
“As meninas” apresenta, como
pano de fundo, um contexto de fortes repreensões. A intriga transcorre em época
aguda da vida política e cultural, no período mais violento da repressão e da
resposta armada contra os militares.
O golpe militar de 1964 se
inspirara no projeto de um Brasil moderno e capitalista, liberal, tecnológico.
Inversamente, o governo então deposto havia-se inspirado num projeto
democrático e nacionalista, escorado na participação das massas trabalhadoras e
das associações de classe.
Surgiram decretos que mudavam
as instituições do país: eram os Atos Institucionais, justificados como
“‘exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções’”.
Criou-se, durante o regime
militar, o Serviço Nacional de Informações (SNI), como forma de luta contra a
subversão interna, enquanto o Ato Institucional Número Cinco (AI-5)
configurou-se como um dos instrumentos mais importantes e repressores do
regime. Houve cassação de mandatos, perda de direitos políticos e expurgos do
funcionalismo, o que se estendeu a muitos professores universitários – estabeleceu-se
na prática a censura aos meios de comunicação; as perseguições, torturas,
exílios, mortes passaram a fazer parte integrante dos métodos do governo.
Inúmeros foram os escritores e
intelectuais que se manifestaram contra esses desmandos políticos,
principalmente a censura, inclusive Lygia Fagundes Telles. Sua natureza
engajada transparecia não só nas obras literárias, mas também em suas atitudes,
uma delas em 1976, quando, junto de um grupo de intelectuais, foi a Brasília
entregar um manifesto contra a censura, o chamado Manifesto dos Mil.
Esse clima, de medo e espera,
se estendeu pelos anos 70 e 80 e só começou a arrefecer durante o último
governo militar. De qualquer forma, tivemos, de um lado, toda uma atuação
clandestina que confluía para o terrorismo, e, do lado oposto, uma violenta repressão
por parte das autoridades. Entre esses dois polos, amordaçada, sofria a
sociedade brasileira. E, debaixo desse jogo de forças, foram crescendo e se
consolidando formas que iam minando a sociedade, como o desamparo da educação,
o tráfico de drogas, o contrabando, a corrupção das elites e a base de toda a
criminalidade urbana.
Todos esses móveis constituem
o pano de fundo de “As Meninas”. O tema do romance não é esse, mas
sem isso a obra praticamente perderia todo o seu sentido.
III - TEMA:
“As meninas” (1973), da
escritora Lygia Fagundes Telles, com o objetivo de discutir as representações
femininas que aparecem na narrativa. Publicada no auge da ditadura militar
brasileira, a obra configura-se como uma crítica à repressão perpetrada por
esse regime, ao mesmo tempo em que aborda questões pertinentes aos estudos
culturais de gênero, problematizando a tradição patriarcalista e a dominação
masculina que por longo tempo marcou (e ainda marca) as sociedades em geral.
A obra oferece-nos, de um
lado, um painel saboroso das vivências de TRÊS
MENINAS em busca de si mesmas, a que o título se refere e que são amigas: LORENA VAZ LEME, universitária do curso
de Direito, sonhadora e apaixonada por um homem casado (Marcus Nemesius, a quem
ela chama apenas de M.N.); LIA DE MELO
SCHULTZ, a “Lião”, militante da esquerda, subversiva, masculinizada,
leitora de Marx e de Simone de Beauvoir; e ANA
CLARA CONCEIÇÃO, a “Ana Turva”, apelido que se justifica graças ao seu
vício em álcool e drogas, menina fantasiosa e problemática, com passado
turbulento.
IV –
TEMPO:
Uma sequência cronológica
pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago
e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo
acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura
com algumas ações no presente.
Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais de três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias.
V – ESPAÇO:
Oprimidas pela cidade grande e
sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima,
na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no
refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de
segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo
desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os
mortos".
VI – FOCO NARRATIVO:
Ao longo de doze capítulos, a narrativa
predominantemente autodiegética, em primeira pessoa é manipulado pela autora de
forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente para o fluxo de
consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às
outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as
outras, arrastando-nos nessas frequentes invasões à privacidade das mesmas, que
se vão desnudando paulatinamente diante de nós.
Apesar do arco temporal aparentemente curto, muitas
ações significativas se desenrolam, e as personagens são apresentadas por meio
de sua própria voz, alternando-se constantemente – em certo momento, temos o
ponto de vista de Lorena, para, no instante seguinte, termos o de Lia ou de Ana
Clara, sucessivamente. Esta técnica permite ao leitor conhecer o mundo interno
de cada personagem, pois todas apresentam ao leitor suas vozes e, também, seus
pensamentos e sentimentos.
Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada uma também fala ou sobretudo pensa sobre as outras. Isso não exige que o foco passe para a terceira pessoa. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim, se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três. Logo, é um narrador onisciente (= que tudo sabe) e de terceira pessoa, que na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas, dando-nos a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos.
A
linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências
formais, porém não cai na vulgaridade, não se banaliza.
Existe
uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar
de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu
"dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o
regionalismo politicamente engajado de Lia e o pensamento confuso e truncado de
Ana "Turva".
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