sábado, 25 de abril de 2026

“AS MENINAS”, LYGIA FAGUNDES TELLES 1973

 


I – AUTORA: LYGIA FAGUNDES TELLES


Lygia Fagundes Telles (1923-2022) é uma escritora brasileira. Romancista e contista, é a grande representante do movimento pós-modernismo. É membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. O estilo de Lygia Fagundes Telles é caracterizado por representar o universo urbano e por explorar de forma intimista a psicologia feminina.

Lygia Fagundes Telles (1923) nasceu em São Paulo, no dia 19 de abril de 1923. Filha de Durval de Azevedo Fagundes, advogado, passou sua infância em várias cidades do interior, onde seu pai era promotor. Sua mãe, Maria do Rosário Silva Jardim de Moura era pianista. Seu interesse por literatura começou na adolescência. Com 15 anos publicou seu primeiro livro, "Porão e Sobrado". Formou-se em Direito e Educação Física, na Universidade de São Paulo, porém seu interesse maior era mesmo a literatura.

Sua estreia oficial na literatura deu-se em 1944, com o volume de contos "Praia Viva". Casou-se com o jurista Goffredo Telles Júnior, com quem teve um filho. Divorciada, casou-se com o ensaísta e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes. Em 1982 foi eleita para a Academia Paulista de Letras. Em 1985, tornou-se a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. Em 1987, foi eleita para a Academia das Ciências de Lisboa.

Entre os muitos prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, em 1949; o Prêmio do Instituto Nacional do Livro, em 1958; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por "Verão no Aquário", em 1965; o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras, em 1973; o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do livro, com a obra "As Meninas", em 1974; o Prêmio Jabuti com a obra "Invenção e Memória", em 2001; e o Prêmio Camões recebido no dia 13 de outubro de 2005, em Porto, Portugal.

Em 2016 e aos 92 anos de idade, Lygia Fagundes Telles tornou-se a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Faleceu em 2022.

II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“As meninas” apresenta, como pano de fundo, um contexto de fortes repreensões. A intriga transcorre em época aguda da vida política e cultural, no período mais violento da repressão e da resposta armada contra os militares.

O golpe militar de 1964 se inspirara no projeto de um Brasil moderno e capitalista, liberal, tecnológico. Inversamente, o governo então deposto havia-se inspirado num projeto democrático e nacionalista, escorado na participação das massas trabalhadoras e das associações de classe.

Surgiram decretos que mudavam as instituições do país: eram os Atos Institucionais, justificados como “‘exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções’”.

Criou-se, durante o regime militar, o Serviço Nacional de Informações (SNI), como forma de luta contra a subversão interna, enquanto o Ato Institucional Número Cinco (AI-5) configurou-se como um dos instrumentos mais importantes e repressores do regime. Houve cassação de mandatos, perda de direitos políticos e expurgos do funcionalismo, o que se estendeu a muitos professores universitários – estabeleceu-se na prática a censura aos meios de comunicação; as perseguições, torturas, exílios, mortes passaram a fazer parte integrante dos métodos do governo.

Inúmeros foram os escritores e intelectuais que se manifestaram contra esses desmandos políticos, principalmente a censura, inclusive Lygia Fagundes Telles. Sua natureza engajada transparecia não só nas obras literárias, mas também em suas atitudes, uma delas em 1976, quando, junto de um grupo de intelectuais, foi a Brasília entregar um manifesto contra a censura, o chamado Manifesto dos Mil.

Esse clima, de medo e espera, se estendeu pelos anos 70 e 80 e só começou a arrefecer durante o último governo militar. De qualquer forma, tivemos, de um lado, toda uma atuação clandestina que confluía para o terrorismo, e, do lado oposto, uma violenta repressão por parte das autoridades. Entre esses dois polos, amordaçada, sofria a sociedade brasileira. E, debaixo desse jogo de forças, foram crescendo e se consolidando formas que iam minando a sociedade, como o desamparo da educação, o tráfico de drogas, o contrabando, a corrupção das elites e a base de toda a criminalidade urbana.

Todos esses móveis constituem o pano de fundo de “As Meninas”. O tema do romance não é esse, mas sem isso a obra praticamente perderia todo o seu sentido.

III - TEMA:

“As meninas” (1973), da escritora Lygia Fagundes Telles, com o objetivo de discutir as representações femininas que aparecem na narrativa. Publicada no auge da ditadura militar brasileira, a obra configura-se como uma crítica à repressão perpetrada por esse regime, ao mesmo tempo em que aborda questões pertinentes aos estudos culturais de gênero, problematizando a tradição patriarcalista e a dominação masculina que por longo tempo marcou (e ainda marca) as sociedades em geral.

A obra oferece-nos, de um lado, um painel saboroso das vivências de TRÊS MENINAS em busca de si mesmas, a que o título se refere e que são amigas: LORENA VAZ LEME, universitária do curso de Direito, sonhadora e apaixonada por um homem casado (Marcus Nemesius, a quem ela chama apenas de M.N.); LIA DE MELO SCHULTZ, a “Lião”, militante da esquerda, subversiva, masculinizada, leitora de Marx e de Simone de Beauvoir; e ANA CLARA CONCEIÇÃO, a “Ana Turva”, apelido que se justifica graças ao seu vício em álcool e drogas, menina fantasiosa e problemática, com passado turbulento.

IV – TEMPO:

Uma sequência cronológica pouco marcada de alguns dias ou poucas semanas: o tempo é voluntariamente vago e difícil de precisar. O que prevalece é o tempo psicológico, pois tudo acontece através do entrecruzar da memória, da evocação do passado, da mistura com algumas ações no presente.

Alguns fatos permitem a localização da obra no final dos anos 60, pois evocam as agitações sociais, as greves universitárias, a prisão e a tortura de militantes políticos sob o enrijecimento da ditadura militar, o crescimento agressivo da megalópole que tritura o jovem e esmaga sua individualidade, alienando-o, censurando-o e dificultando-lhe a busca de caminhos. Passado e presente fundem-se de modo inextricável, e nos traumas da memória encontram-se as explicações para os problemas existenciais de três meninas - símbolos de toda uma geração massacrada e alienada por forças do passado e das circunstâncias. 

V – ESPAÇO:

Oprimidas pela cidade grande e sua violência, as três meninas refugiam-se no Pensionato N. Senhora de Fátima, na região central de São Paulo. O quarto-concha de Lorena constitui-se no refúgio para onde as pessoas convergem em busca de conforto, de carinho, de segurança, de afeto e compreensão - um tipo de oásis dentro de um mundo desorganizado, caótico e extremamente ameaçador, onde "Deus vomita os mortos".

VI – FOCO NARRATIVO:

Ao longo de doze capítulos, a narrativa predominantemente autodiegética, em primeira pessoa é manipulado pela autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-nos nessas frequentes invasões à privacidade das mesmas, que se vão desnudando paulatinamente diante de nós.

Apesar do arco temporal aparentemente curto, muitas ações significativas se desenrolam, e as personagens são apresentadas por meio de sua própria voz, alternando-se constantemente – em certo momento, temos o ponto de vista de Lorena, para, no instante seguinte, termos o de Lia ou de Ana Clara, sucessivamente. Esta técnica permite ao leitor conhecer o mundo interno de cada personagem, pois todas apresentam ao leitor suas vozes e, também, seus pensamentos e sentimentos.

Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada uma também fala ou sobretudo pensa sobre as outras. Isso não exige que o foco passe para a terceira pessoa. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim, se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três. Logo, é um narrador onisciente (= que tudo sabe) e de terceira pessoa, que na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas, dando-nos a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos.

 VII - LINGUAGEM:

A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais, porém não cai na vulgaridade, não se banaliza.

Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lia e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva".


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