RESUMO DO ENREDO: "AS MENINAS", LYGIA FAGUNDES TELLES
O livro narra a história de
três universitárias de condição social e origens diversificadas, que se
conhecem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo, tornam-se muito
amigas, apesar das diferenças de valores e personalidades, convivem durante algum
tempo, compartilham seus dramas e sonhos, ajudam-se nos momentos difíceis e
terminam por separar-se definitivamente.
Composto por DOZE CAPÍTULOS
que não têm nome, mas números:
UM - Lorena
Vaz Leme divaga em seu quarto dourado e rosa - com cozinha, geladeira, banheira
etc - no pensionato Nossa Senhora de Fátima: pensa na amiga Lia de Melo
Schultz, que tem pretensões a escritora e é militante política; no gato
Astronauta, que cresceu e abandonou-a; em Che Guevara, que foi líder de toda
uma geração; em M.N., homem misterioso que lhe desperta desejos eróticos, em
Jesus Cristo, a quem dedica a música de Jimi Hendrix; e na morte desse roqueiro
e de Rômulo, seu irmãozinho querido. Lia aparece para pedir-lhe o carro de
"mãezinha" emprestado, e enquanto tomam o chá especial de Lorena,
conversam e divagam sobre tolices e sobres coisas sérias, concomitantemente a
greve na faculdade; a prisão de Miguel, namorado de Lia e militante político
também; na alienação da burguesia acomodada; na repressão militar, nos amigos
que estão presos e sendo torturados. Lorena lembra a morte traumática de Rômulo
e sua agonia nos braços da mãe, vitimado por um tiro acidental dado pelo outro
irmão, Remo. Da fuga deste para o exterior através da Diplomacia, dos frequentes
presentes que ele envia a ela (sinos, lenços, roupas, comida...). Mistura a
esses pensamentos a figura do médico Marcus Nemésios (o M.N.), casado e bem
mais velho, de quem ela sonha receber amor, carinho e proteção (aliás, passa o
livro todo aguardando um telefonema dele, que nunca se concretiza); evoca ainda
a figura de Ana Clara, suas origens "suspeitas", no excesso de tranquilizantes
que consome; pensa na própria adolescência, ao piano, no gostoso convívio
familiar, nos banhos de banheira, na decisão de morar no pensionato, no aluguel
e decoração do quarto por Mieux, o atual namorado da mãe. Lia fala sobre o
livro que escrevera e acabara por rasgar. Criticam Ana Clara e o namorado Max,
traficante que a viciou em drogas, e o provável e desconhecido noivo rico com
quem ela pretende se casar para "sair do buraco", após plástica
restauradora da virgindade, "bancada" por Lorena. Lia pede várias
vezes o carro emprestado, e um pouco de "oriehnid" (dinheiro "ao
contrário", para dar sorte) para o "aparelho"(= grupo de
resistência à ditadura militar). Apesar de temer envolvimentos com o grupo e
suas consequências, Lorena é incapaz de dizer "não" aos pedidos da (s)
amiga (s).
DOIS - Ana
Clara e Max drogam-se na cama e deliram. Ela sente-se travada, bloqueada,
apesar das sessões de terapia - ela odeia o analista. Acha-se bonita (modelo,
1,77 m) e carente - a mãe, prostituta, nunca lhe deu atenção. Lembra-se do Dr.
Algodãozinho, que deixava seus dentes apodrecerem para abusar sexualmente dela
e da mãe, em sua cadeira de dentista. Pensa no quanto ama Max, mas que em
janeiro casa-se com o noivo rico e resolve seus problemas. Sente ódio de Deus -
e de negros. Resgata a infância carente, repleta de ruídos (ratos, baratas) e
cheiros, nos prédios em construção, onde vivia com a mãe e os sucessivos
amantes. Também evoca detalhes da vida das amigas Lia e Lorena. Max também
delira. Reza. Teve educação esmerada (fala francês, é fino) mas empobreceu e
tornou-se traficante. Tem uma irmã que sumiu com as joias da família e
encontra-se internada em sanatório. Ana e Max se amam, mas seu relacionamento é
difícil e complicado.
TRÊS - Lorena
reflete sobre a violência do mundo; assaltos a bancos; a morte de Rômulo; a
profissão de Remo propiciando sua "fuga" para o exterior. Gostaria de
poder alienar-se da "máquina desse mundo" violento (intertextualidade
com o texto A Máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade),
como uma ostra dentro de sua concha dourada (= seu quarto - refúgio). Rememora
a chegada de Lia e Ana Clara e a "invasão" das duas à sua
privacidade, a amizade das três, apesar das personalidades opostas. Miúda e
magra, mostra certa inveja da beleza de Ana Clara, apesar da diferença
cultural... Através da visão de Lorena, conhecemos um pouco mais sobre as duas
amigas: Lia de Melo Schultz tem um "pé" baiano, da mãe Diú (D.
Dionísia) e outro berlinense, do pai seu Pô (Herr Paul, ex-oficial nazista).
Herdou do pai o vigor germânico; da mãe, as "proporções gloriosas e a
cabeleira de sol negro" e o açúcar da voz. É uma "mulher-hino",
enquanto Lorena vê-se como uma civilizada, requintada "balada
medieval" (ou "Magnólia desmaiada", para os colegas da Faculdade
de Direito). Ana Clara "arrombou" a privacidade de Lorena,
obrigando-a a verdadeiros exercícios de caridade cristã: mexe em tudo, nos
livros, nos objetos pessoais. Tem olhos verdes, é modelo, linda, mas "de
cuca embrulhada", deprimida e deprimente, juntadíssima, afetadíssima,
mentirosíssima - "ni ange ni bête" - (nem anjo, nem demônio).
Envolvida com sexo e drogas. Enquanto lancha ao sol, Lorena recorda o aborto de
Aninha, resgatando a fábula da formiga e da cigarra (inconsciente, bagunceira,
irresponsável), com quem compara a amiga. Recebe carta de Remo e pensa na morte
de Rômulo. Filosofa sobre o lado omisso das relações humanas. Sonha em casar-se
com M.N., pois sente-se frágil, insegura, precisando de um homem em tempo integral.
Ao voltar para o quarto, pensa no colega Fabrízio, na noite chuvosa em que ele
veio estudar mas preferiu envolvê-la nos braços, ameaçando sua virgindade; na
falta de luz e subsequente chegada de Lia, estragando o momento mágico com suas
alpargatas molhadas e suas pesquisas sobre a vida das prostitutas, sua obsessão
por Miguel. Lia sai, mas chega Ana Clara, e "se instala". Fim da
noite para Fabrízio e Lorena. No dia seguinte, conheceu o Dr. M.N. na sua
Faculdade e ganhou carona. Passa a viver aguardando seu telefonema, fantasiando
um amor edipiano.
QUATRO - Max
delira na cama. Gosta de Chopin, de Renoir. Conversa com a Coelha (Ana Clara)
sobre a riqueza passada, as viagens. Ana compara os diferentes níveis de
artistas abstratos e reclama de estar lúcida - teria tomado aspirina? Lembra o
passado de miséria e sonha com o futuro promissor como psicóloga de ricaços
- Nessa cidade as pessoas não se preocupam mais com nome, mas com o
saco de ouro (de que adianta o nome Vaz Leme de Lorena, descendente de
bandeirantes?). Quer esquecer a mãe, os amantes, Jorge, Aldo, Sérgio... e o
suicídio com formicida. Lembra-se da amiga Adriana, feia e vesga, mas com casa
na praia, onde Ana Clara tentou lavar a memória do passado num banho de mar.
Max desperta e os dois deliram juntos. Ela está grávida e quer abortar. Ele deseja
o filho, cuja voz diz ter ouvido. Vão ficar ricos e fazer cruzeiros pelo mundo.
Ela é a gata borralheira, que tem encontro marcado com o noivo, que já deve
estar inquieto com o atraso.
CINCO - Lorena
aguarda o telefonema de M.N., como sempre. Pensa em arte, em literatura (Dante,
Beatriz), em música (jazz), em cheiros (incenso); em morte (Rômulo); na mãe e
no carro (teme que Lia seja metralhada dentro dele). Gostaria de poder sair de
moto com Fabrízio, um cinema, um jantar... mas acha que ele deve estar na
faculdade, incitando a greve e namorando uma poetazinha que resolveu seduzi-lo.
Recebe a visita da irmã Bula e desconfia que esta é a autora das cartas
anônimas, que falam coisas horríveis sobre as meninas e as freiras, para Madre
Alix, a superiora. Enquanto serve licor e biscoito para a freira, relembra a
morte de Rômulo, as manchetes nos jornais; pensa em Lia, em Simone de Beauvoir
(escritora francesa), em segundo e terceiro sexos, em M.N., em Che Guevara, em
morrer e renascer (segundo S. Marcos, "é necessário nascer de novo").
Recupera a teoria da amiga "terrorista" sobre a perda de pureza do
baiano e do índio, e cita Gonçalves Dias. Coloca um Noturno de Chopin e serve
constantemente vinho à freirinha. Quando tampa a garrafa, pensa na ferida de
Rômulo, na fuga de Remo. Despede-se da Irmã Bula e de sua velhice sem sentido.
SEIS - Na
sala imunda e mal iluminada onde montaram o "aparelho", Lia
("Rosa de Luxemburgo") e Pedro começam a separar material para o
jornal. Conversam sobre experiências homossexuais; Jango; o nazismo; conceito
de santidade; sobre Che Guevara; Martin Luther King (líder negro americano),
engajamento político-social, atuação da Igreja progressista, casamento de
padres, amor... Sai para uma operação noturna com o Bugre, que lhe conta sobre
a próxima deportação de Miguel para a Argélia. De volta ao pensionato, feliz,
conversa com Madre Alix: fala de seu amor pela família, do passado com saudade,
do presente (fases da vida!...); de Ana Clara, Max e seu envolvimento com
drogas; na sua pretensa vocação para escritora; na desilusão com Miguel (muito
cerebral) e Lorena (muito sofisticada). Madre Alix quer ajudá-las, mas sente-se
impotente e teme por seu futuro. Sugere uma epígrafe para o livro de Lia e que
serve para a vida das duas: Sai da tua terra e da tua parentela e da
casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei (Gênesis).
SETE - Irmã
Clotilde leva frutas para Lorena, que se exercita na bicicleta. Falam sobre as
duas Santas Teresas; sobre Tolstói; sobre homossexualismo (comenta-se no
pensionato que I. Clotilde é lésbica); sobre beleza, ideais, filosofias de
vida. A freira vai lavar as mãos e volta criticando a cor, a saúde e a
alimentação das três amigas. Lorena anseia por beleza e um telefonema ... Quer
ficar só, mas a freira se demora na visita e no exame do quarto, dos animais,
dos livros da moça. Esta lê um pedaço de um livro de Direito, cita frases em
latim, enquanto pensa sobre o lado oculto das pessoas: a vida é um jogo de
espelhos, e Lorena tem sede de autenticidade... Lia chega, a freira se vai.
Devolve a chave do carro, conta sobre a viagem à Argélia, brinca de entrevistar
Lorena (os assuntos de sempre: virgindade, casamento, M.N., Fabrízio, Pedro) e
diz que esta é edipiana. Ambas se mostram preocupadas com a gravidez de Ana
"Turva" e sua dependência. Divertem-se no jardim e despedem-se no
portão. Lia pede roupas para os "revolucionários". Lorena fica
pensando na iniciação sexual das amigas e imagina como será sua "primeira
vez" (M.N. é ginecologista, um "gentleman").
OITO - Ana
Clara e Max acordam e conversam: ele e Lorena são "aristocratas", têm
álbum de retratos... Os de Lorena estão na garagem do pensionato. Criticam o
amante jovem de "mãezinha", Mieux. Max vai até a geladeira, come e
volta a dormir. Ana pensa na desculpa que vai inventar para o noivo aceitar
seus sumiços. Arruma-se e sai. Chove. São quase 11 horas da noite. Não consegue
táxi e aceita carona de um industrial em um Mercedes. Foge dele e refugia-se em
um bar, onde encontra um velhote estranho que a convida para seu apartamento.
Confundindo-o com "um pai" que nunca teve, segue-o. Apartamento de
boêmio - retratos na parede, vitrola de corda, discos de tangos. Ana deita-se
na cama e dorme, enquanto ele lê para ela textos sobre Napoleão, Rodolfo
Valentino e tem orgasmo. Diz que o platonismo amoroso é a forma mais sutil e
temível da paixão infinita e insaciável.
NOVE - Na
banheira, Lorena filosofa sobre "ser" ou "estar" no mundo -
na desintegração do ser humano na cidade grande, no papel do filósofo, do
advogado, do médico, do psiquiatra. Sente todos os sintomas de todas as doenças
mentais, apesar de charmosa e inteligente. Lembra-se da fazenda, das procissões
em que se vestia de anjo. Rememora o primeiro encontro com M.N. e imagina as
reações de mãezinha quando lhe contar sobre ele. Sai do banho emocionada e
veste um robe. Chega o colega Guga, que lhe conta ter abandonado a família, a
escola e estar vivendo em um porão, numa comunidade. Escandalizada com sua
sujeira, Lorena corta-lhe as unhas, alerta-o sobre promiscuidade e lê para ele
uma carta de M.N. Guga se excita e tenta amá-la. Ela quase cede, mas reage e ele
se vai. Chega Lia. Conversam sobre filosofia, Lacan, auto identificação,
transferência de afetos. Lia quer provar que M.N. está mais para pai que para
namorado, mas Lorena não admite. Falam sobre o telefonema de Herr Pô e da
promessa de ajuda em dinheiro para a viagem. Lorena entrega a Lia um cheque em
branco e pede-lhe para usar uma cruz na corrente, enquanto filosofa sobre Deus,
religião, fé. Lia sai rindo. Lorena faz caretas.
DEZ - Lia
pega carona com o motorista de mãezinha de Lorena e vai visitá-la. No caminho,
consegue fundir a cabeça do senhor com seu discurso sobre família e liberdade.
Recebida no hall pelo mordomo, fuma, examina os objetos e tapetes luxuosos,
enquanto imagina sua viagem, a desunião da esquerda; vê-se na Argélia
escrevendo seu diário e exaltando a Pátria. Mãezinha chora, na cama, a morte do
psiquiatra Dr. Francis. Desajeitada, Lia tenta consolá-la e ouve suas lamúrias
sobre a diferença de idade entre ela e Mieux, a impossibilidade de acompanhá-lo
em seus programas, a dificuldade em aceitar a velhice e a morte. Lia lembra-se
de sua família (tão equilibrada!) com saudade e amor. Mãezinha pergunta sobre
os namoros de Lorena e Lia (acha-a masculinizada) e quer trazer a filha de
volta à casa. Conta uma versão totalmente diferente sobre a morte de Rômulo
(falência cardíaca, ainda bebê). Lia sente-se nauseada e pensa em ver o álbum
de fotos na garagem: acha que mãezinha está escamoteando a tragédia por autodefesa.
Ganha roupas e mala para a viagem.
ONZE - Tarde
da noite. Ana Clara chega transtornada ao quarto de Lorena, que está estudando
para a prova no dia seguinte (a greve terminara). Entra arrastada, gritando de
dor no peito e imunda. Lorena coloca-a na banheira - seu corpo está cheio de
nódoas roxas e sofre alucinações com formigas, baratas, Deus e Max. Pede uísque
e a bolsa. Delira. Lorena pensa no abismo entre o ser e o estar, num futuro
feliz no campo, fora de sua casca. As novelas da vizinhança encobrem os ruídos
e finalmente Ana Clara adormece. Lorena toma chá. Finalmente Lia chega para
preparar as malas (a viagem será na manhã seguinte) e Lorena vai até seu
quarto. Conversam muito - sabem que estão se despedindo - e Lia conta-lhe que
Guga virá procurá-la. Não veem futuro na relação com M.N., que jamais
abandonará a família, pois a dor do remorso dói mais que a dor física (Tolstói).
Ao voltar para o quarto, Lorena tem um choque: Ana Clara está morta.
DOZE - Lia
corre aos acenos da amiga. Ao entrar, encontra Lorena massageando o peito de
Ana Clara, tentando revivê-la, enquanto reza. Lia pensa em chamar o
pronto-socorro, em acordar todo mundo, em que poderia ter feito mais pela
amiga, além dos "discursos". A bolsa de Ana Clara está aberta: talvez
dali ela tirara a própria morte. Lorena tem ideias e age: encomenda o corpo,
reza em latim, veste e pinta Ana Clara como se esta fosse a uma festa. Elimina todas
as pistas comprometedoras para Aninha e Max, além das freiras do pensionato. As
duas amigas carregam Ana Clara através da noite providencialmente nebulosa e
abandonam o corpo em um banco em uma linda praça do bairro. Voltam para o
pensionato e separam-se: cada uma vai viver a própria vida. Lia no exílio.
Lorena de volta para a casa de mãezinha, deixando sua concha para a futura
hóspede, que vem do Pará.
Temos
os elementos de uma equação dramática, que pode ser recompreendida da maneira
seguinte:
1.
No nível intersubletivo (eu x eu x eu), as meninas se dão bem, formam um
destino comum e provisório no pensionato. Nós nos acostumamos a pensar nas
três, a contar com as três, e querer que as três continuem juntas. Entretanto,
cada uma está presa a um tipo de paixão que conspira contra a unidade. De certa
forma, tão jovens, estão jogando a vida fora.
2.
No plano da subletividade, os três projetos são falidos por princípio: Lia
terá de se esconder da polícia. Seu amante é preso, e depois solto, em troca de
um refém. Nesse espaço de tempo, teve uma relação frustrada com Pedro, jovem
tímido e indeciso. Lia acredita que irá com o namorado para a Argélia (mas, ao
fim do livro, não sabemos se ela foi de fato). Tranca seu curso de Ciências
Sociais, envolve-se em confusões, e vive de sustos. E Ana Clara? Ana Clara quer
de novo a virgindade, e pensa casar com toda a pompa, ter marido rico, dirigir
um Jaguar novinho em folha, bancar a rica. Abandona a Faculdade, onde estudava
Psicologia. E não quer deixar o amante. E afunda-se cada vez mais na
dependência. E a veneração de Lorena (que faz Direito na USP) é por um
fantasma, um homem que não dá sinal de vida. Lorena só pensa nele, e, sob esse
aspecto, seu lamento gracioso lembra o das "cantigas d’amigo"
medievais. Ela não pode ouvir o som do telefone, que sai correndo afobada e
esperançosa. Lorena não quer nada com droga ou com política. Mantém-se virgem,
para esperar seu M.N.. Lorena tivera algum namorico anterior, com o Fabrízio, e
depois com o Guga. Mas tudo isso não era nada, diante da paixão que sentia
agora pelo clínico misterioso.
Vê-se,
portanto, que os três destinos marcham para a dispersão. Isso configura, como
vimos, uma síntese entre o drama cultural e o drama pessoal. Que é, aliás, o
drama da menina em sua passagem para mulher. É o drama da definição e da busca
de um caminho. Um caminho que passa necessariamente pela esfera masculina. Pois
é sempre o homem (esse ausente) que decide sobre as coisas.
3. O
clímax do livro ocorre com a morte súbita (mas nada estranha) de Ana
Clara, nos aposentos de Lorena. Lorena passa então por uma confusão mental. Que
fazer? Mas Lia acaba chegando, e ela e Lorena vestem elegantemente a falecida,
retiram-na silenciosamente do pensionato (para evitarem a polícia), e colocam o
seu corpo furtivamente num banco de jardim de uma pequena praça, não sem
algumas atrapalhações e juvenilidades que, não fosse a tristeza da hora, teriam
sua graça e até comicidade. Lia e Lorena se separam. Aquela se prepara para
deixar o Brasil, e se reencontrar com seu amante. Esta fica só, depois de uma
inaugural experiência de coragem e desassombro, que fora essa aventura de
carregar a morta pela cidade perigosa. É o fim. A impressão derradeira é de
desconsolo e miséria cultural. É a dispersão dos destinos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Diversos
são os elementos dessa obra de Lygia que permitem refletir sobre a
representação da mulher, a começar pelo ponto de vista do enredo, que
privilegia as três meninas. Junto da representação de seu cotidiano, vemos a
representação de três personalidades fortes, mesmo que isso não seja tão
perceptível desde o começo da obra. Lia, como já previamente mencionado,
mostra-se ativa e resistente para a luta, nem que para isso seja necessário
partir para um mundo totalmente novo (a Argélia, por exemplo). Sua militância
de esquerda em prol de uma sociedade igualitária estende-se, também, para a
causa feminista e, reiterando palavras já antes referidas, essa personagem
parece representar o próprio engajamento social da autora.
Vemos
referências à questão feminista na menina de apelido Lião (que sugere sua
robustez, tanto física quanto moral), quando Lorena afirma que a amiga é
leitora de Simone de Beauvoir, célebre feminista francesa, por exemplo: “Até as
unhas dos pés cheguei a fazer outra noite enquanto Lião curtia Simone de
Beauvoir. De Simone de Beauvoir para o sexo, foi um passo, porque o primeiro
sexo, porque o terceiro sexo, porque o segundo” (TELLES, 1998, p. 114). Seu
discurso é também condizente com a causa feminista, algo que se percebe no
momento em que Lia trava uma discussão com o motorista de Lorena, ao falar de
seus filhos:
“- A filha também lhe dá alegria?
Ele demora na resposta. Vejo sua boca entortar.
- Essa moda que vocês têm, essa de liberdade. Cismou
de andar solta demais e não topo isso. Agora inventou de estudar de novo.
Entrou num curso de madureza.
- E isso não é bom?
- Só sei que antes de fechar os olhos quero ver a
garota casada, é só o que peço a Deus. Ver ela casada.
- Garantida, o senhor quer dizer. Mas ela pode
estudar, ter uma profissão e casar também, não é mais garantido assim? Se casar
errado, fica desempregada. Mais velha, com filhos, entende [...].
- A Loreninha também fala assim mas vocês são de
família rica, podem ter esses luxos. Minha filha é moça pobre e lugar de moça
pobre é em casa, com o marido, com os filhos. Estudar só serve pra atrapalhar a
cabeça dela quando estiver lavando roupa no tanque. [...]
- E se ela casar com uma droga de homem e depois
virar aí uma qualquer porque não sabe fazer outra coisa? Já pensou nisso? Me
desculpe falar assim duro mas vai ter que prestar contas a Deus se começar com
essa história de dizer, case depressa filhinha porque senão seu paizinho não
morre contente. Se acreditar nela, aposto como ela vai querer merecer essa
confiança, vai ser responsável. Se não, é porque não tem caráter, casada ou
solteira ia dar mesmo em nada (TELLES,
1998, p. 220-221). “
Evidentemente,
o discurso do motorista mostra-se como exemplo da postura patriarcalista, que
enxerga liberdade e conhecimento como “luxos” desnecessários a uma mulher,
ainda mais se ela for de classe baixa. A função dela resume-se basicamente ao
trato da casa, do marido e dos filhos, e a maior aspiração que ela pode ter
para a vida é o casamento. O mais interessante, porém, é que o discurso de Lia
vem para questionar essa postura, enfrentando o preconceito estabelecido no
pensamento do motorista e mostrando que as consequências desse comportamento
machista são muito graves.
Analisando
mais detalhadamente a personagem de Ana Clara, também é possível ver uma
tentativa de subversão da ordem. Marcada pelos traumas de uma infância e uma
adolescência desastrosas, a garota não se conforma com a ideia de continuar na
mesma vida, reafirmando inúmeras vezes que logo tudo irá mudar para muito
melhor. Apesar de sucumbir às drogas e ao alcoolismo – o que pode ser lido como
uma válvula de escape para o seu sofrimento –, Ana mostra-se determinada a
deixar para trás tudo que a maltratou até aquele momento, incluindo as más
lembranças que a atormentam.
Tal
bagagem de sentimentos, contudo, não lhe permite ter esperança quanto a uma
melhor perspectiva para as mulheres, algo que ela constata quando em referência
à Lia, defensora dessa causa:
“E Lião ainda com suas teorias de superioridade da
mulher. ‘Mas onde? Papo furado. Uma cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica
é o filho dependurado no peito. Pronto. Mas que guerrilha pode sair disso?
Mulher tem que ser assim mesmo. Se embonecar. Vestir coisas lindas. A única
vantagem que vejo é essa da gente fazer amor sem se sujar. A única. Preciso
dizer isso pra Lião repetir nas reuniõezinhas dela’ (TELLES, 1998, p. 178). “
Suas
palavras podem ser compreendidas pelo sofrimento e pelos constantes abusos
físicos e morais de que foi vítima, junto de sua mãe, circunstâncias com as
quais não teria padecido se fosse homem. Lembrando o trecho já antes citado, em
que Ana fala do suicídio de sua mãe após os maus-tratos de seu companheiro e
depois de ver-se obrigada a praticar mais um aborto, é claramente compreensível
que a personagem quase não veja privilégios no fato de ser mulher. A saída que
ela encontra para superar as desvantagens físicas é o embelezamento artificial
que maquiagens e boas roupas podem oferecer, razão pela qual ela afirma,
constantemente, que vai sair na capa de revistas. São palavras de Lorena sobre
a amiga: “Mas então ela cruzou as belas
pernas, contou as mentirinhas, ia ser capa de revista em Roma, o Conde Cicogna
a convidara para jantar e etcétera etcétera” (TELLES, 1998, p. 206).
A
determinação de Ana Clara, mesmo que para atitudes nem sempre boas, é prova de
que estamos diante de uma mulher forte e confiante, cujas rédeas de sua vida,
segundo ela, então em suas próprias mãos. Veja-se o trecho a seguir, em que Lia
a censura com um olhar, vendo-a com picadas de seringa nos braços:
“Picada sim e daí. Paro com tudo quando bem
entender. Vou ser capa de revista. Me casar com um milionário. Fique aí
embananada porque o ano que vem. Como sou boa posso ainda ajudar você e seus
piolhentos ajudo todos. Dou uma casa pra suas reuniões. Dou uma casa pra
Loreninha que vai ficar sem nada com aquela mãezinha esbanjando a fortuna não
tem importância não interessa. Resolvo tudo. Então fico verdadeira” (TELLES, 1998, p. 87).
A
situação da mãe de Ana Clara também é merecedora de um olhar atento. Na
condição de pobreza e na dependência de um companheiro, tal personagem não
conseguiu subverter a ordem da dominação.
Outra
mãe cujas atitudes são importantes para a nossa análise é a de Lorena. Nela,
reproduz-se o estereótipo da mulher incapaz de agir segundo suas convicções – é
o homem quem precisa conduzi-la. O trecho a seguir parte dos pensamentos de
Lorena e mostra a falta de postura da mãe frente à decisão de alugar o quarto
para a filha no pensionato das irmãs:
“Voltou para ele [o marido] a cara perplexa, nessa
época o consultava até para saber se devia ou não tomar uma aspirina. ‘Dê sua
opinião, querido. Não vou gastar demais? Isto está um horror’ [...]. Mieux
piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar seu prestígio: ‘Vai
ficar a coisa mais joia do mundo, já estou com umas ideias. Quero este banheiro
todo cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para
o banho’.[...] E como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em
fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda” (TELLES, 1998, p. 22).
Mieux,
o companheiro, não perde a chance de dar sua opinião e mostrar suas ideias,
sendo incisivo em suas sugestões: “Quero
este banheiro todo cor-de-rosa...”. Tampouco perde a oportunidade de
assediar a enteada, em uma atitude que, seguramente, configura-se em abuso. A
dominação que ele exerce sobre a esposa é visível em outros tantos momentos,
como na época em que a obrigava a sair constantemente, mesmo que ela não
desejasse. Ao mesmo tempo, como, para ele, pouco parecia importar que ela não
fosse (o que a mulher não desejava), ela acabava por concordar com tudo,
sabendo que ele agia ciente de que a estava maltratando:
“- Me obrigava a sair quase todas as noites, festas,
festas, Você não quer ir? Então vou sozinho. Eu não queria ir mas ia, mais
vestidos, mais cabeleireiros, desde cedo me enfiava no cabeleireiro, andava com
o couro cabeludo ardendo de tanta tintura, tanto penteado, descansei um pouco
quando comprei cinco perucas, era mudar a peruca, pintar a cara e sair correndo
atrás dele, boates, jantares, coquetéis, vernissages, cismou de investir em
quadros, nunca teve a menor cultura mas se achava o máximo, esteve a ponto de
abrir uma galeria [...] (TELLES, 1998, p. 238). Em certo ponto da narrativa,
fica claro que o interesse de Mieux com relação à esposa tinha por base o seu
dinheiro, tendo em vista que ela herdara considerável fortuna do marido já
falecido. Assim, ele podia aproveitar as festas e mudar de profissão quantas
vezes desejasse, visto que ela sustentaria tudo. Essa mulher também revela
insegurança com relação ao seu corpo, por ser mais velha que o companheiro, o
que a leva a considerar várias fases de sua vida como diferentes “juventudes”.
Lorena afirma que a mãe “teve primeira, segunda e até quarta juventude. Que
fúria quando num dia de mau humor Mieux lhe disse aos urros que a juventude é
uma só. Coitadinha” (TELLES, 1998, p.
71). Consequentemente, o medo de envelhecer e, portanto, já não agradar Mieux
também a acompanha: “fiz plástica, mas
chorando como tenho chorado devo ter estragado tudo. Minha irmã Luci descobriu
um creme escandinavo feito com óleo de tartaruga, deve ser ótimo, as tartarugas
se conservam séculos [...]” (TELLES, 1998, p. 244).
Ao
fim da história, a personagem quase vai à loucura com a morte de seu médico, o
Dr. Francis, que “tratava de seus
nervos”, junto do abandono de Mieux. Não tendo mais o apoio psicológico que
aquele podia lhe oferecer, ela afirma ter voltado à estaca zero, deixando claro
não ser capaz de manter o equilíbrio sozinha. A mãe de Lorena também afirma
que, não fosse pelo médico, possivelmente já teria cometido suicídio, em mais
uma prova de que não consegue enfrentar dificuldades sem recorrer ao desespero.
O
mais interessante desse contexto é o fato de a personagem reconhecer que seu
marido só a fez sofrer e “chorar lágrimas
de sangue” (TELLES, 1998, p. 231), ao mesmo tempo em que conclui que “mulher sem homem acaba tão complexada, tão
infeliz” (TELLES, 1998, p. 240). Esta postura irônica da autora leva-nos a
reforçar sua crítica com relação à ideia de que o casamento deve ser encarado
como uma obrigação e, mais que isso, como objetivo maior da vida de uma mulher.
Não
menos importante, por fim, é falar da personagem Lorena. Moça inteligente e
sensível, sua inocência a leva a esperar que o amado M.N. a procure, mesmo
sabendo que se trata de um homem casado e, mais ainda, com cinco filhos. Em
nenhum momento ele parece ter demonstrado interesse por ela, que ignora a
rejeição e tenta justificar a atitude dele com o fato de ela ser pálida,
franzina, “sem carnes” ou outros atrativos. Todo o enredo leva a crer que
Lorena traz consigo o rótulo de menina meiga e tola que é enganada pelo homem
amado.
Contudo,
a atitude derradeira da personagem não condiz com a ideia do “sexo fraco”, pois
é ela quem surpreende tomando a dianteira perante uma situação tão difícil como
foi a morte de Ana Clara. Depois de afirmar que a amiga simplesmente não pode
morrer no pensionato das freiras, Lorena mostra-se firme diante da amedrontada
Lia: “[...] estou fazendo tudo como
Aninha gostaria que fosse feito. Deus me inspirou, pedi inspiração e Ele me
deu, depois que tive essa ideia cheguei a sentir uma certa paz. Posso mudar,
querida. Se a morte não tem remédio, posso ao menos salvar as circunstâncias!”
(TELLES, 1998, p. 276).
Há
que se recordar, também, de toda a complexa situação de sua mãe, cujo marido a
explorava e chegou a assediar Lorena, sem que ela, contudo, se mostrasse
abalada. Além disso, um acontecimento ainda não mencionado é o trauma que
sofrera com relação à perda de um irmão, morto acidentalmente pelo gêmeo em uma
brincadeira. Esta última situação é lembrada pela menina em diversos momentos,
como se a cena martelasse constantemente em sua memória. Sem dúvida, isso a
marcou profundamente, mas, mesmo assim, mostra-se forte para consolar a mãe e
cuidar das amigas quando necessitam, agindo como se todas as circunstâncias
fossem naturais, comprovando que, definitivamente, não pertence ao sexo frágil.
CONCLUSÃO:
Três
meninas, três histórias que se entrecruzam, três destinos. Em todos eles, vemos
a coragem e a intensidade de mulheres que tentam subverter a tradição
patriarcal que por tanto tempo as dominou. Mesmo que a sociedade representada
na obra apresente marcas visíveis do discurso da dominação masculina, inclusive
na fala e nas atitudes de certas personagens, a maior parte das mulheres que
protagonizam a história enfrenta essa dificuldade, mesmo que à sua maneira,
tentando viver de uma forma mais digna. É nesse sentido que a obra de Lygia
Fagundes Telles se mostra relevante para a reflexão sobre uma causa que vence,
a cada dia, uma nova batalha.
Ao
trazer à tona problemas que merecem ser discutidos, questionando e levando,
igualmente, o leitor ao questionamento, a literatura tem um papel de suma
importância no que se refere à temática feminina. Dessa forma, as narrativas
que versam sobre a identidade e a sexualidade femininas, por exemplo, colocam
em xeque os mecanismos de poder desiguais. Esse questionamento, por sua vez, é
fruto de reivindicações de igualdade, e não de supostas “inversões de papéis”.
Assim, torna-se crucial reconhecer o papel da literatura enquanto veículo para
essa problematização, já que ela possibilita a discussão sobre o tema e, ainda,
tem o poder de sugerir novas percepções.
A
crítica suscitada por um enredo tão denso perpassa a repressão da ditadura, em
uma época delicada da história do Brasil, mas não deixa de fora a causa
feminista, atentando para a importância da igualdade de gênero e para o
extermínio da ideia de que a mulher não é capaz de ocupar a mesma posição que o
homem ou de que a fraqueza é sua qualidade maior. Finalmente, essa obra reforça
a acepção que nossa sociedade não pode ignorar: a de que toda a mulher tem o
direito de conquistar o seu lugar e o respeito que merece, pois a ela, da mesma
forma que o homem, sempre deve ser permitida a possibilidade de escolher o seu
destino – tal como as meninas aqui descritas, de uma forma ou de outra, o
fizeram.
Perpassando
momentos do cotidiano dessas três jovens, a obra “As meninas” explora a fundo
suas almas e sentimentos. Lorena passa as horas em seu quarto, entretida entre
fazer seus exercícios, ouvir música, tomar banhos e ler livros. Lia, sempre
preocupada com a situação de Miguel, descobre a possibilidade de fugir com seu
amado para a Argélia e lá começar uma vida nova, deixando-se levar pelo impulso
ativista, que não se conforma com as injustiças do mundo e quer lutar por
mudanças. E Ana Clara sucumbe à dor: ao final da narrativa, a jovem vai ao
encontro de Lorena, mais uma vez embriagada e drogada, em uma condição
deprimente. Novamente, ela percebe a presença dos espinhos em seu coração e, em
delírio, uma barata o atinge com um florete. Depreende-se daí que Ana Clara já
se encontrava fortemente debilitada, o que a levava a sentir dores no peito.
Devido, principalmente, ao uso de drogas e às alucinações, ela talvez nem
compreendesse o que se passava consigo. Contudo, o trecho a seguir, momento em
que a personagem sofre com a overdose, deixa claro que não se tratava de um
acontecimento sobrenatural: “quis respirar e o sangue jorrou do coração coroado
de espinhos, espirrando em sua boca com tamanha violência que se engasgou nele.
Dobrou-se na tosse” (TELLES, 1998, p. 245).
Ana
Clara falece na companhia das amigas e, Lorena, a menina frágil e delicada,
surpreende com sua atitude ao final do enredo: ela decide vestir a amiga morta
com roupas de festa, tendo o cuidado até de maquiá-la. Lia, a moça robusta e
corajosa, é quem se mostra amedrontada, principalmente com relação à polícia
(já que a atitude mais sensata seria acioná-la). Contudo, é Lorena quem toma a
dianteira da situação e, depois de arrumar Ana Clara, decide que seu corpo deve
ser deixado no banco de uma praça, para que somente lá ela seja encontrada. Na
opinião da amiga, “Ana Clara não pode morrer drogada num quarto do Pensionato
Nossa Senhora de Fátima. Não pode” (TELLES, 1998, p. 276). A atitude de Lorena,
portanto, acaba por ser uma surpresa para o leitor, já que a coragem e a força
para lidar com uma situação tão delicada partem de quem menos se espera.
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