segunda-feira, 7 de maio de 2012

MANOEL DE BARROS: VIDA, OBRAS E CARACTERISTICAS


“Meu fado é de não entender quase tudo,
Sobre o nada eu tenho profundidades”.

I – VIDA:

“...um dos mais doces privilégios dos poetas:
            exercer idiotices.”

MANOEL Wenceslau Leite de BARROS, entortador de palavras, poeta que tem um abridor de amanhecer, nasceu em Cuiabá-MT, em 19 de dezembro de 1916 e mudou-se para Corumbá-MS, onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense.
Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu livremente, em uma fazenda no Pantanal. No derradeiro texto do “Livro das Ignorãças”, 1993, “Retrato falado”, Manoel confessa:

“Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
  Aves, pessoas humildes, árvores e rios.
  Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.”

Estudou num colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Aluno medíocre que descobriu o prazer pela literatura através dos textos do padre Antônio Vieira:

“A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança. [...] descobri que servia era pra aquilo: ter orgasmo com as palavras”.

Aos dezoito anos, entrou para a Juventude Comunista e escreveu o seu primeiro livro, “Nossa Senhora de minha escuridão”, que embora não fora publicado, salvou-o da prisão. Manoel havia pichado “Viva o Comunismo” numa estátua. A polícia foi buscá-lo na pensão onde morava. A dona da pensão o defendeu, afirmando que o menino era um poeta e que havia até escrito um livro. O policial pediu que provassem, em seguida, levou o rascunho de “Nossa Senhora de minha escuridão” e deixou Manoel livre.
Quando Luiz Carlos Prestes foi libertado, após dez anos de prisão, Manoel esperava uma represália do líder contra o que os jornais comunistas chamavam de “o governo assassino de Getúlio Vargas.”
No entanto, após ouvi-lo apoiando Getúlio, o mesmo Getúlio que entregou sua mulher, Olga Benário, aos nazistas, decepcionou-se profundamente com o Partido.

“(...) Não aguentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal".


Manoel ficou pouco tempo no Pantanal. A ideia de se tornar fazendeiro ou trabalhar num cartório local não o convenciam e o poeta viajou ao exterior. Passou um tempo na Bolívia e no Peru e, depois seguiu para Nova York, onde morou um ano. 




Fez curso sobre Cinema e sobre Artes Plásticas no Museu de Arte Moderna. Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçaram a sua busca de liberdade.
Entendeu então, que “uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva” e sentiu que “os delírios são reais em “Guernica”, de Picasso”.
Sua poesia sofreu, na época, influências de quadros e filmes: Chaplin por sua despreocupação com a linearidade; Fellini; Akira Kurosawa, Luis Buñuel e, entre os mais novos, o americano Jim Jarmusch.
De volta ao Brasil, conheceu a mineira Stella, no Rio de Janeiro e casaram-se em três meses.  Tiveram três filhos, Pedro, João e Marta e, até hoje Manoel a chama de “guia de cego”, pois quando a conheceu, o poeta-advogado estava totalmente desorientado.
Em 1949 retornou para o Pantanal, para tomar conta da fazenda deixada pelo pai.
Manoel de Barros, embora tenha vivido em metrópoles da América e da Europa, a matéria prima de sua obra circunscreve-se ao chão pantaneiro.

II – OBRAS:

Manoel de Barros publicou o seu primeiro livro de poemas em 1937, “Poemas concebidos sem pecado” concebido artesanalmente por vinte amigos, numa tiragem de vinte exemplares e mais um, que ficou com ele.
Depois vieram outros, entre os quais, “Compêndio para uso dos pássaros” (1961), “Gramática expositiva do chão” (1969), “Livro de pré-coisas” (1985), “O guardador de águas” (1989), “Concerto a céu aberto para solos de ave” (1991), “O livro das ignorãças” (1993), “Livro sobre nada” (1996) e “Retrato do artista quando coisa” (1998).
Pelos títulos das obras, o leitor percebe a afinidade entre o poeta e o chão, entre o poeta e a ave, entre o poeta e a natureza, entre o poeta e as coisas, enfim, entre o poeta e ...o nada.
A poesia de Manoel de Barros passou a ser amplamente conhecida a partir da década de oitenta, embora ela já tenha tido o reconhecimento de Mário de Andrade e de Guimarães Rosa desde a década de quarenta, que comparou os textos de Manoel a um “doce de coco”.
Millôr Fernandes postou as poesias de Manoel de Barros, em suas colunas nas revistas “Veja”, “Isto é” e no “Jornal do Brasil”, afirmando que a obra do poeta era “única, inaugural, apogeu do chão.” Enquanto que, o escritor João Antônio declarou que a poesia de Manoel vai além: “tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro.”
Outros fizeram o mesmo, entre eles: Fausto Wolff, Enio Silveira e Rubem Alves. Segundo Geraldo Carneiro: “Viva Manoel violer d’amores violador da última flor do Lácio inculta e bela. Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica”.
Também críticos debruçaram sobre o texto manuelino, como Berta Waldman, Lúcia Castello Branco e Renato Nésio Suttana, que escreveu uma dissertação sobre a “poética do deslimite” de Manoel.
Manoel de Barros foi também comparado a São Francisco de Assis, pelo filólogo Antônio Houaiss, “na humildade diante das coisas. (...)”
Manoel, o tímido Nequinho, se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração".
Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de “Gramática expositiva do chão.”
Manoel foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas”, em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”.
Em 1969 recebeu o “Prêmio Fundação Cultural do Distrito Federal”, pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o “Livro sobre nada” recebeu o “Prêmio Nestlé”, de âmbito nacional.
Em 1998 recebeu o “Prêmio Cecília Meireles” (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.
Hoje Manoel de Barros é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil.
O poeta afirma que o anonimato foi “por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem frequentei rodas, nem mandei um bilhete.
Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade, no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje”.
E, conclui que não perdeu o orgulho, mas a timidez parece cada vez mais diluída. Ri de si mesmo e das glórias que não teve.
“Aliás, não tenho mais nada, dei tudo para os filhos. Não sei guiar carro, vivo de mesada, sou um dependente”. [...] Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus nascimentos.”

OBRAS:
1937 — Poemas concebidos sem pecado
1942 — Face imóvel
1956 — Poesias
1960 — Compêndio para uso dos pássaros
1966 — Gramática expositiva do chão
1974 — Matéria de poesia
1982 — Arranjos para assobio
1985 — Livro de pré-coisas (Ilustração da capa: Martha Barros)
1989 — O guardador das águas
1990 — Poesia quase toda
1991 — Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 — O livro das ignorãças
1996 — Livro sobre nada (Ilustrações de Wega Nery)
1998 — Retrato do artista quando coisa (Ilustrações de Millôr Fernandes)
1999 — Exercícios de ser criança
2000 — Ensaios fotográficos
2001 — O fazedor de amanhecer
2001 — Poeminhas pescados numa fala de João
2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Memórias inventadas - A infância (Ilustrações de Martha Barros)
2003 — Cantigas para um passarinho à toa
2004 — Poemas rupestres (Ilustrações de Martha Barros)


III - CARACTERISTICAS:


Numa entrevista concedida a José Castello, do jornal “O Estado de São Paulo”, em agosto de 1996, ao ser perguntado sobre qual sua rotina de poeta, respondeu:

“Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo “lugar de ser inútil”. Exploro há sessenta anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc.
Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler “Vozes da Origem”.
Gosto de coisas que começam assim: “Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem”. Está no livro “Vozes da Origem”, da antropóloga Betty Midlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais.
Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.”




Manoel de Barros conta com uma consistente fortuna crítica, mas o melhor comentário sobre sua poesia é fornecido por “ele próprio”, seja em entrevistas, seja nos versos que escreveu – metapoéticos, “desexplicando” o próprio trabalho literário.
Segundo ele, “ao poeta faz bem desexplicar”, ou melhor, o entendimento de sua poesia não passa pelo crivo cerebral, pois “ não é por fazimentos cerebrais que se chega ao milagre estético senão que por instinto linguístico”. E, num “despoemamento”, sintetiza sua concepção de uma pedagogia para o entendimento poético:

Para entender nós temos dois caminhos: o da sensibilidade que é o entendimento
Do corpo;
E o da inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender, mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser uma árvore.

A matéria prima da obra de Manoel de Barros é a “desarrumação”. No “Livro sobre nada”, ele escreve:

“A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto
  Que ela expresse nossos mais fundos desejos.”

Assim como o espaço do Pantanal é semovente, primitivo, fluído, em permanente decomposição e renovação, a poética de Manoel de Barros é uma decomposição lírica, estruturada por uma escritura fervilhante, vital, em que morte e vida pulsam, pululam, ululam e silenciam elementos do mundo vegetal, animal e mineral, como se lê no “Livro das Ignorãças”:

Para entrar em estado de árvore é preciso
Partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer
Em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
O mato sair na voz

Hoje eu desenho o cheiro das árvores. (I-IX)

Adoecer de nós a Natureza
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin). (I-XI)

Renato Nésio Suttana, analisando a obra do poeta, estabelece que, em sua “desarrumação”, ocorrem as noções entrelaçadas de repouso e mobilidade, promiscuidade e fecundidade, intransitividade e gratuidade.
Seus poemas são realizados através da técnica da colagem, “que impede que o texto se organize de modo discursivo, desestabilizando conexões do tipo lógico”. Assim, termos como “desvio”, “desarranjo”, “erro”, associados a elementos da semântica do “ínfimo”, do “restolho”, do “insignificante”, facilitam a inserção do leitor no mundo poético manoelino, com suas personagens fantásticas, como Felisdônio, Ignácio Rayzama, Rogaciano, Apuleio, Bernardo e Andaleço, bugres que andam em desvios, como o poeta escreve, desviando da trilha do senso comum.

Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
Estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
E os araticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma. (III-VI)

Mário de Andrade já dizia que “só pode errar quem conhece o certo”. Manoel de Barros, grande conhecedor da língua portuguesa, entende que a poesia mora nas transgressões semânticas e sintáticas:

1. Usa símiles surpreendentes.

Meu ser se abre como um lábio para moscas. (II-1.7)

2. Recorre a paradoxos.

Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios. (I-1)

3. Propõe conceitos poéticos em que o tempo se alucina na relação entre flora e fauna.

No Tratado das Grandezas do ínfimo estava
Escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
E quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
E quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras. (I-IV)

4. Intertextualidade com gênios da pintura, divinizando natureza e arte.

Um girassol se apropriou de Deus foi em
Van Gogh. (I-VIII)

5. A metalinguagem será um expediente constante, relacionando “criança”, “poeta” e “delírio”.

A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
Verbo, ele delira. (I-VII)

6. A metapoesia convoca lírios para as figuras de linguagem.

Dobravam-se lírios para os meus tropos. (III-XIII)

7. A poética do defeito relaciona vegetal e animal.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode
Modificar os seus gorjeios. (I-XII)

8. A concretização do abstrato bem como a proximidade entre o “sublime” e o “grotesco” lembram o Barroco.

Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o
Abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de
Um primal deixe um termo erudito. Aplique na
Aridez intumescências. Encoste um cago ao
Sublime. E no solene um pênis sujo. (I-XV)

9. A “volúpia” com a palavra, com as imagens, erotiza a poética manoelina.

Entra um chamejamento de luxúria em mim:
Ela há de se deitar sobre meu corpo em toda
A espessura de sua boca! (I-XVI)

(...) Sonhava-se muito com pererecas e com mulheres. (III-X)

10. A arte de “desnomear” cria inesperados efeitos semânticos.

Rede era vasilha de dormir. (III-III)

Me mantimento de ventos. (II-3.5)

11. A enumeração caótica reúne objetos díspares, de configuração surrealista. Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade.
Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo.

Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
1 abridor de amanhecer
1 prego que farfalha
1 encolhedor de rios – e
1 esticador de horizontes. (III-XI)

Extremamente sensorialista, os sentidos estão sempre convocados, muitas vezes misturados.

Conheço de palma os dementes de rio. (III-II)

(...) Era uma voz pequena e azul. (III-IV)

Diviso ao longe um ombro de barranco. (II-3.6)

Um perfume vermelho me pensou. (II-3.5)

  


domingo, 22 de abril de 2012

O ALIENISTA, PAPÉIS AVULSOS, MACHADO DE ASSIS



I – CONTO, CRÔNICA OU NOVELA:

“O Alienista” é o primeiro conto de “Papéis Avulsos”, 1882, livro que abre a fase madura “realista” do conto machadiano.
A classificação quanto ao gênero ficcional não é pacífica e o descompromisso de Machado com a rigidez dos gêneros estéticos, seu apego à livre invenção, dificultam a caracterização rigorosa de muitas de suas obras nos estreitos limites das categorias preestabelecidas.
“O Alienista” poderá parecer ao leitor muito extenso para ser considerado um conto, além de estar subdividido em capítulos, o que não é muito peculiar ao conto.
A estas duas objeções pode-se responder que o que determina a maior ou menor extensão de uma narrativa é, quase sempre, um elemento interno: a unidade ou a multiplicidade de células dramáticas ou conflitos. O romance e a novela desenvolvem várias ações, vários conflitos, o conto está centrado na ação única. Sob esse aspecto, apesar do grande número de personagens e situações, “O Alienista” aproxima-se mais da estrutura do conto, pois a ação é unitária, um espaço restrito O Hospício da Casa Verde e a Vila de Itaguaí. Quanto à subdivisão em capítulos (em princípio, indicativa da novela curta, ou do romance) é procedimento comum nos contos machadianos, desde os “Contos Fluminenses” e as “Histórias da Meia-Noite”. Esse procedimento era ditado pelo fato de que os contos de Machado eram, antes de editados em livros, publicados em capítulos, nos jornais e revistas do Rio de Janeiro.
Mas Machado relativiza tudo, relativiza também os gêneros literários. Qualquer tentativa de classificação rígida esbarra na liberdade com que Machado tratou os gêneros ficcionais. Antônio Cândido classifica “O Alienista” como conto. Alfredo Bosi fala em novela curta, com ar divertido de uma “comédie d’erreur” (comédia de enganos). José Guilherme Merquior classifica a história de Simão Bacamarte como “conto filosófico”, como “uma fábula com ar de novela histórica”. Por aí se vê a originalidade de Machado de Assis e a liberdade com que militou no campo aberto da livre invenção.
O tema da loucura faz Machado basear-se em teorias científicas de seu tempo. Assim a crença cega, na verdade dos modelos científicos e a adesão incondicional à verdade das estatísticas são dois outros alvos da ironia machadiana, na história de Simão Bacamarte. O materialismo da época da Segunda Revolução Industrial, o entusiasmo provocado pelos avanços científicos e os tecnológicos foram á estufa de inúmeras teorias que, opondo-se à metafísica e à realidade, viam na matéria, naquilo que se pudesse qualificar e quantificar cientificamente, o único alvo de interesse do cientista, do filósofo e do artista. O Positivismo, de Comte; o Evolucionismo, de Darwin e de Spencer; o Determinismo, de Taine; o Experimentalismo, de Claude Bernard; o Materialismo Psicológico, de Wundt; a Feenologia, de Lombroso; o Criticismo anticlerical, de Feuerback e Straus; a Dialética, de Hegel e o Materialismo Histórico, de Marx e Engels são algumas das correntes do pensamento que refletiram e, em alguns casos, superaram a ideologia burguesa, fortalecida no poder, em função do triunfo definitivo do capital industrial, da implementação do capitalismo avançado e da sua expansão as áreas periféricas da América, da Ásia e da África.
O ímpeto revolucionário e contestatório, a exaltação da rebeldia e da liberdade individual, que tinham as tônicas do movimento romântico, são substituídos por novas palavras de ordem: a CIÊNCIA, o PROGRESSO e a RAZÃO. Agora, assentada no poder, a burguesia pretende estabilizar suas conquistas, maximizar a produção industrial. Para isso é fundamental a manutenção da ORDEM. O lema ORDEM E PROGRESSO, impresso em nossa bandeira pelos primeiros republicanos, foi extraído de Augusto Comte e sintetiza a proposta positivista.
É o apego extremado aos seus modelos científicos e à ordem instituída que leva Simão Bacamarte à irrisão. É a noção de que a anormalidade é uma questão estatística que leva o médico de Itaguaí a tomar por verdadeiras, em momentos sucessivos, duas teorias diametralmente opostas.


II - FOCO NARRATIVO:

A narrativa é em 3º pessoa.  Dois narradores se alternam no desenvolvimento da narrativa: o narrador-cronista e o narrador onisciente. Para que se manifeste o narrador-cronista é preciso que se respeite a ideia documental, revestida de uma credibilidade incontestável com relação aos fatos do passado. Para que se manifeste o narrador-onisciente, dentro dos propósitos realistas machadianos, é preciso que a onisciência seja integral, analisando o comportamento humano e descortinando a “alma” das personagens.

III - TEMPO E ESPAÇO:

Envolvido por um tom documental de crônica, a história se passa no passado, recorrendo o uso do flash back.
“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que, em tempos remotos, vivera ali um certo médico...”

Há certa intemporalidade no tema em discussão: a tênue divisão entre razão e loucura, porém podem remontar à primeira metade do século XVII. É importante ressaltar o caráter alegórico, que a narrativa assume.
Quanto ao espaço, á ação se passa em Itaguaí, uma cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro, comarca de Iguaçu. Entretanto, pode-se deduzir que Itaguaí representa um “microcosmo” de qualquer região ou mesmo país.

IV - LINGUAGEM:

A elegância; a ironia sutil; o humor; certa contenção ao escrever; as rápidas pinceladas na composição da personagem; as frases curtas; a linguagem correta; o clima de ambiguidade acentuada em tudo o que escreve; são alguns traços característicos da linguagem machadiana nesse conto e em todas as suas obras.

V - CARACTERÍSTICAS:

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, o que o situa, pela qualidade do que escreveu, entre os melhores contistas mundiais. A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto:
- é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor;
- deve ter um só conflito e este tem de ser muito interessante;
- deve conduzir o leitor para um único efeito, provocando-lhe tensão na leitura;
- deve manter um perfeito equilíbrio narrativo;
- trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo, em pequenos espaços.

Nesse sentido, Machado de Assis foi um contista extraordinário, pois soube manejar as regras do conto como ninguém.
Em “O Alienista”, Machado de Assis revela uma visão satírica, irônica e amarga que enfatiza aspectos negativos denunciadores da frustração humana. O autor utiliza o humor para desmascarar a hipocrisia humana, provocada por um sistema social regido pela falta de valores. Pode-se notar uma semelhança entre o autor e o protagonista, Simão Bacamarte, pois, como alienista, está preocupado em fazer uma análise psicossocial dos habitantes da cidade de Itaguaí e região. No entanto, por trás dos atos aparentemente dedicados à ciência, a verdadeira intenção de Bacamarte é atingir status e fama através das anomalias patológicas. Machado de Assis, assim critica o cientificismo da época.
A crítica sócio-política desse conto é alegorizada pela personagem Porfírio que busca benefícios pessoais através da política e pelo povo submisso de Itaguaí, facilmente manipulados.

O apoio oficial dos governantes de Itaguaí, na criação de um hospício, leva alguns críticos defenderem que o referido conto, trata-se de uma crítica mais política que essencialmente psicológica.

VI - PERSONAGENS:  

Dr. Simão Bacamarte - é o protagonista da estória. A ciência era o seu universo – o seu "emprego único", como diz. "Homem de Ciência, e só de Ciência, nada o consternava fora da Ciência" (p. 189). Representa bem a caricatura do despotismo cientificista do século XIX (como está no próprio sobrenome). Acabou se tornando vítima de suas próprias idéias, recolhendo-se à Casa Verde por se considerar o único cérebro bem organizado de Itaguaí. 

D. Evarista - é a eleita do Dr. Bacamarte para consorte de suas glórias científicas. Embora não fosse "bonita nem simpática", o doutor a escolheu para esposa porque ela "reuni condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem", estando apta para dar-lhes filhos robustos, são e inteligentes". Chegou a ser recolhida à Casa Verde, certa vez, por manifestar algum desequilíbrio mental. 

Crispim Soares - era o boticário. Muito amigo do Dr. Bacamarte e grande admirador de sua obra humanitária. Também passou pela Casa Verde, pois não soube "ser prudente em tempos de revolução", aderindo, momentaneamente, à causa do barbeiro. 

Padre Lopes - era o vigário local. Homem de muitas virtudes, foi recolhido também à Casa Verde por isso mesmo. Depois foi posto em liberdade porque sua reverendíssima se saiu muito bem numa tradução de grego e hebraico, embora não soubesse nada dessas línguas. Foi considerado normal apesar da aureola de santo. 

Porfírio, o barbeiro - sua participação no conto é das mais importantes, posto que representa a caricatura política na satírica machadiana. Representa bem a ambição de poder, quando lidera a rebelião que depôs o governo legal. Foi preso na Casa Verde duas vezes; primeiro, por Ter liderado a rebelião; segundo, porque se negou a participar de uma Segunda revolução: "preso por Ter cão, preso por não Ter cão" (pág 229). 

Outros figurantes aparecem no conto. Cada um representando anomalias e possíveis virtudes do ser humano. Há loucos de todos os tipos no livro. Daí a presença de tanta gente...

VII - ESTRUTURA:

“O Alienista” foi publicado inicialmente em “A Estação”, no Rio de Janeiro, no período de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. A primeira edição em livro da obra é de 1882, em “Papéis Avulsos”.
Dividido em treze capítulos, os títulos de cada capítulo, ora são resumitivos de seus conteúdos e transparentes ora são apenas sugestivos, aguçando a curiosidade do leitor.

CAPÍTULO I – “De como Itaguaí ganhou uma casa de Orates” (casa de loucos, manicômio)


“As crônicas de vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. (...)
- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único, Itaguaí é o meu universo.”

Assim, é apresentado Simão Bacamarte, que depois de títulos e feitos conquistados na Europa, estabeleceu-se em Itaguaí. O protagonista foi aceito pelos governantes locais para dedicar-se totalmente ao estudo e a prática da medicina. Sua especificação era pesquisar os limites entre razão e loucura.

 “A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua.”

Dr. Bacamarte, perante esse fato, encaminhou à câmara a licença de criar um lugar onde pudesse colocar todos os loucos, enfim, um hospício. Essa ideia de “meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum” trouxe-lhe muitas discórdias e incompreensões. No entanto, Dr. Bacamarte defendeu-a com tanta “eloquência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doudos pobres.”
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas; Itaguaí tinha finalmente uma casa de Orates, denominada por Casa Verde por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí.    

CAPÍTULO II – “Torrente de loucos”

Apenas quatro meses após sua fundação, a Casa Verde está lotada. Aos primeiros cubículos foram anexados mais trinta e sete.
Os primeiros internados no hospício foram casos notórios e aceitos pela sociedade local.
O Pe. Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doudos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos.
Dr. Bacamarte dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. O médico analisava individualmente a origem, vida, comportamento, hábitos de cada paciente.

CAPÍTULO III – “Deus sabe o que faz!”

Simão não tinha mais tempo e dedicação com sua esposa e a ilustre dama, “no fim de dous meses, achou-se a mais desgraçada das mulheres; caiu em profunda melancolia”.
Um dia, ao jantar, D. Evarista critica a atividade do marido, após constatar o alto rendimento que davam os loucos. Simão Bacamarte, então, despacha a esposa para o Rio de Janeiro, para não ser desviado por ela de seu trabalho. A esposa com muita resignação disse:
“– Deus sabe o que faz!”

CAPÍTULO IV – “Um teoria nova”

Simão Bacamarte comunica ao boticário Crispim Soares e ao vigário Pe. Lopes, seus amigos, haver descoberto uma experiência científica.

“Digo experiência, porque não me atrevo a as segurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra cousa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”  

O boticário aplaude, o vigário mostra reservas.

CAPÍTULO V – “O terror”

Quatro dias depois, Costa, um dos cidadãos mais queridos de Itaguaí foi recolhido à Casa Verde. O seu diagnóstico baseou-se por ter perdido sua herança em empréstimos que se tornaram fundo perdido, além de sua reação envergonhada de cobrar seus devedores, passando a ser até maltratado por estes.

 “Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de estima e compaixão, mas acrescentava que a ciência era a ciência, que ele não podia deixar na rua um mentecapto.”

Uma pobre senhora, prima de Costa partiu em defesa de seu parente e também, foi internada na Casa Verde.

“Ninguém queria acabar de crer que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz.”

Esses atos envolvem a cidade em grande terror.
Em seguida, é internado Mateus sob a alegação de que “o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte descobrira e estudava desde algum tempo.”
Albardeiro é o profissional que faz albardas, ou seja, selas para bestas de carga. É uma profissão bastante humilde, tanto que a palavra albarda também significa “humilhação”. Há, portanto, uma carga negativa associada a essa profissão. Ter isso em mente ajuda na interpretação do episódio, que se deliciava em ficar horas admirando o luxo de sua enorme casa, ainda mais quando notava que estava sendo observado.
Dias depois, em um jantar em homenagem à D. Evarista, Martim Brito, um jovem com eloquência linguística, faz um elogio pomposo à grande senhora. Logo, foi recolhido à Casa Verde.  
E muitos outros, José Borges do Couto Leme, Chico das Cambraias, o escrivão Fabrício, Gil Bernardes, o Coelho etc.
D. Evarista, a tia, a esposa do Crispim e toda a comitiva retornam do Rio de Janeiro e são recebidos de maneira festiva. As pessoas esperavam ansiosas por esse retorno, acreditando que ela poderia conter o terror constante da cidade e refreasse o ânimo de Dr. Bacamarte.
D. Evarista era extremamente apaixonada por Simão. Ele, no entanto, frio, calculista, uniu-se a ela, somente pensando em sua capacidade para reprodução e, até agradecia por ela não ser bonita, pois era um problema a menos.
A internação de pessoas que nunca tinham sido tomadas por loucas, e de outras portadoras de admiráveis virtudes, gera pânico em Itaguaí.

“A ideia de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfírio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação.”  


CAPÍTULO VI - “A rebelião”

O terror tomou conta da população. E, o barbeiro Porfírio, aproveitando-se dessa situação, que há muito queria fazer parte da estrutura de poder, mas sempre tinha sido rejeitado, envia um requerimento que foi negado pela Câmara de Vereadores, solicitando a captura e a deportação do alienista. Porfírio une-se a vários outros revoltosos, arma um protesto que gerou na revolta dos Canjicas (seu apelido) e decidem que destruiriam a Casa Verde, “essa Bastilha da razão humana”.
“– Nada tenho que ver com a ciência; mas se tantos homens em quem supomos juízo são reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado não é o alienista?”
Há um abatimento quando se descobre que Simão havia rejeitado receber pelos doentes da Casa Verde. Configura-se a ideia de que as inúmeras reclusões não eram movidas por corruptos interesses econômicos. E pelas ruas de Itaguaí, trezentas vozes pediam a morte do Dr. Bacamarte.
D. Evarista desesperada chama o marido que estava totalmente concentrado em seus estudos.
O alienista caminhou para a varanda, sorriu e disse:

“– Meus senhores, a ciência é cousa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem rebeldes.”

Após ouvirem o alienista, tranquilo e superior, e quando os ânimos novamente se exaltaram, foram surpreendidos com a chegada de um corpo de dragões (polícia da época), com o objetivo de evitar o confronto.

CAPÍTULO VII – “O inesperado”

Os Canjicas não queriam crer que a força pública fosse mandada contra eles e o barbeiro os desafiou.  Quando tudo indicava a derrota dos revoltosos, os soldados fiéis não tiveram coragem de atacar os seus próprios camaradas e aderem aos Canjicas. Povo e tropa fraternizavam, davam vivas a El-rei, ao vice-rei, a Itaguaí, ao “ilustre Porfírio”.

“O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na ação do governo. O barbeiro fez expedir um ato declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com o vigário para a celebração de um Te-Deum, tão conveniente era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.”

A cidade confia no Protetor e festeja sua vitória, que ia enfim, libertar Itaguaí da Casa Verde e do terrível Simão Bacamarte.


CAPÍTULO VIII – “As angústias do boticário”

Crispim Soares, por suas ligações de amizade com o alienista, apavora-se com a vitória dos revoltosos. Finge-se doente para não visitar o amigo. Mais tarde, resolve levar a Porfírio sua adesão, no momento que pensava que Simão havia caído.


CAPÍTULO IX – “Dois lindos casos”

Porfírio esquece a Casa Verde e se dirige à Câmara dos Vereadores para destituí-la. No dia seguinte, encontra-se com o alienista, não depõe contra a Casa Verde e sim, fortalece-a, afirmando que não vai interferir em seu trabalho científico e oferece-lhe apoio em seu trabalho, pois o considera de grande utilidade para seu governo.
Configura-se aqui a sugestão que muitas revoluções não são movidas por interesses coletivos, mas manipulações que servem de pretexto a alçarem poderes individuais.
O novo chefe do governo recomenda apenas a soltura dos enfermos quase curados e dos maníacos de pouca monta para, sem muito risco, mostrarem alguma tolerância e benignidade. Na duplicidade das atitudes do barbeiro e na ingenuidade de seus seguidores (considerando o saldo de onze mortos e vinte e cinco feridos), o alienista identifica dois lindos casos de doença mental. Enquanto o alienista faz seu diagnóstico, Porfírio é aclamado.

CAPÍTULO X – “A restauração”

Em cinco dias, cinquenta dos participantes da revolta foram internados na Casa Verde.
O povo indignou-se. João Pina, outro barbeiro, dizia pelas ruas que o Porfírio estava “vendido ao ouro de Simão Bacamarte”.
Na realidade, João Pina não estava interessado em lutas sociais, mas tinha uma desavença pessoal com Porfírio.
O barbeiro preocupado em perder o seu cargo, “expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista.”
No entanto, duas horas depois caía Porfírio e assumia o governo, João Pina. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir, só alterando os nomes. Porém, João de Pina foi rispidamente deposto pela intervenção militar ordenada pelo vice-rei. Restituiu-se o poder da Câmara e Simão Bacamarte voltou a agir livre e desenfreadamente. As prisões se multiplicam, atingindo o presidente da Câmara e, para espanto geral, até mesmo D. Evarista foi recolhida ao hospício. A prisão de sua própria esposa isentou Bacamarte de qualquer suspeita. Aos olhos do povo era prova cabal de sua abnegação, de sua fidelidade à ciência, uma vez que era voz corrente que o alienista amava devotamente D. Evarista.

CAPÍTULO XI – “O assombro de Itaguaí”
Através de ofício, em seis parágrafos, o alienista comunicou à Câmara que todos os loucos seriam soltos, pois chegara à conclusão de que sua teoria sobre as moléstias era falha, graças a uma observação estatística: quatro quintos da população de Itaguaí encontravam-se na Casa Verde. Correta haveria de ser a doutrina oposta, devendo, pois serem recolhidos aqueles que apresentassem perfeito equilíbrio. Assombrou-se a cidade, festejou-se o retorno dos que foram soltos, mas ninguém advertia na frase final do parágrafo 4º (o aviso das próximas prisões – dos equilibrados).

CAPÍTULO XII – “O final do parágrafo 4º”

Depois de terminadas as comemorações, tudo parecia voltar à normalidade: a câmara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o próprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus lugares.

“Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. [...] Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte, com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relação ao final do parágrafo 4º, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada, sem debate, uma postura, autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica, podendo a câmara, antes mesmo daquele prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública.”

Entretanto, reiniciaram-se as prisões, agora com pleno consentimento da Câmara. São antecedidas de minucioso estudo: em cinco meses são recolhidos à Casa Verde apenas dezoito pessoas, que revelaram perfeito equilíbrio. Entre elas: o juiz de fora, o vigário, a mulher do boticário, um servidor da Casa Verde que se demonstrou leal e eficiente. Os desequilíbrios, as incoerências e os desvios de caráter eram agora considerados pelo médico como sinais de normalidade. Faz-se uma nova classificação dos loucos, incluindo: os modestos, os tolerantes, os verídicos, os leais, os sagazes, etc.

CAPÍTULO XIII – “Plus ultra” (“Mais além!” – latim)


A nova terapia adotada pela Casa Verde passa a ser a corrupção da virtude dominante. Em apenas cinco meses estavam, todos curados.

“Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! Era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.
[...]
- Mas deveras estariam eles doudos, e foram curados por mim, - ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?
E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.
Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade: - não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?”

O sábio, contudo, passa a duvidar da eficácia do próprio trabalho. O desequilíbrio mental induzido em seus pacientes não era mérito da terapia adotada pelo alienista, já que os pacientes já trariam em si mesmos esse desequilíbrio, em estado latente.

Dessa forma, “Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.”

Simão Bacamarte acaba por descobrir em si próprio o verdadeiro equilíbrio, o único ser perfeito em Itaguaí, o que é confirmado por seus amigos. A partir daí, fechou-se, só, na Casa Verde e entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo.  Ali morreu, dezessete meses depois, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.

“Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade




sexta-feira, 20 de abril de 2012

MACHADO DE ASSIS CONTISTA



“O itinerário das dúvidas em Machado de Assis está marcado por alguns contos escritos depois das “Memórias póstumas de Brás Cubas”: “O alienista”, quase novela pela sua longa sequência de sucessos, é um ponto de interrogação acerca das fronteiras entre a normalidade e a loucura e resulta em crítica interna ao cientificismo do século; “O espelho” leva a corrosão da suspeita ao âmago da pessoa, mostrando exemplarmente como o papel social e os seus símbolos materiais (uma farda de alferes, por exemplo) valem tanto para o eu quanto a clássica teoria da unidade da alma; “A sereníssima República”, alegoria política em torno dos modos de resolver ou de não resolver o problema da distância entre o poder e o povo; “O segredo do bonzo”, apologia da ilusão como único bem a que aspiram as gentes. E haveria outros contos a citar, obras-primas de desenho psicológico (“Dona Benedita”; “A causa secreta”; “Trio em lá menor”) e de sugestão de atmosferas (“Missa do galo”, “Entre santos”).”
                        Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira.     

O nível artístico do contista Machado de Assis, para muito, supera o romancista. Coube a ele dar ao conto densidade e excelência em nossa literatura, fundando esse gênero, e abrindo caminhos, pelos quais, mais tarde, iriam trilhar Mário de Andrade, Clarice Lispector, para ficarmos em apenas dois machadianos modernos. Apresentando estilo semelhante ao dos romances, seus contos focalizam, porém, temas pontuais e episódicos, inadequados à narrativa longa, não porque não tenham profundidade, mas porque lá não teriam devido destaque. Na verdade, a linguagem contística de Machado parece conferir um caráter anedótico a temas importantes, como o despontar da sexualidade ou a busca da perfeição estética. Menos questionador, o narrador dos contos machadianos age como quem conta histórias, colocando o leitor diante da surpresa de certas situações.
Ao contrário dos outros escritores, o contista Machado de Assis procura, nas palavras do crítico Mário Matos, “analisar os sentimentos sutis dos personagens, decompor as almas. Os outros fazem os personagens atuar. Machado fá-los pensar. (...) Conduzido pelo dom, pela vocação de contador de histórias, sabe encarar a vida diretamente e dar à narrativa a feição de oralidade, de modo a transmitir ao leitor a sensação de que está, não lendo, mas ouvindo contar. É importante isto. Em verdade, uma história não se deve ler, deve-se escutar. Aí está a graça da especialidade. Machado, no conto, não descreve, mostra, fala. Quando os personagens têm que se caracterizar, conversam uns com os outros, e eis por que vemos, continuamente, muito diálogos nos contos. Diálogos de significativa naturalidade”.
Distinguem-se duas fases: a primeira, dita “Romântica”, com os livros: “Contos Fluminenses” e “Histórias de Meia-Noite”. A segunda, Realista, inclui os melhores contos: “Papéis Avulsos”, “Histórias sem Datas”, “Várias Histórias” e “Relíquias da Casa Velha”.
Na fase romântica, a angústia, oculta ou patente das personagens é determinada pela necessidade de obtenção de “status”, quer pela aquisição de patrimônio, quer pela consecução de um matrimônio com parceiro mais abonado. “Segredo de Augusta” e “Miss Dollar” antecipam a temática de “A mão e a luva”, o dinheiro como móvel do casamento. O tema da traição (suposta ou real), antes de aparecer em “Dom Casmurro”, já estava nos contos “A Mulher de Preto” e “Confissões de uma viúva moça”.
Nessa primeira fase, a mentira é punida ou desmascarada. Há nisso um laivo de moralismo romântico, na pregação de casos exemplares. Mas essa linha será, a seguir, superada, ainda na fase romântica. Em “A parasita azul”, o enganador triunfa pela primeira vez. O cálculo frio, o cinismo, a máscara e o jogo de interesses constituem o cerne desse realismo utilitário, para o qual pendem especialmente as personagens femininas, capazes de sufocar a paixão, o amor em nome da “fria eleição do espírito”, da “segunda natureza, tão imperiosa como a primeira”. A segunda natureza do corpo é o “status”, a sociedade que se incrusta na vida.
A partir dos contos de “Papéis Avulsos”, Machado começa a cunhar a fórmula mais permanente de seus contos: a contradição entre parecer e ser, entre a máscara e o desejo, entre a vida pública e os impulsos escuros da vida interior, desembocando sempre na fatal capitulação do sujeito à aparência dominante.
Machado procura roer a substância do eu e do fato moral considerados em mesmos; mas deixa nua a relação de dependência do mundo interior em face da conveniência do mais forte. É dessa relação que se ocupa, enquanto narrador.
É a móvel combinação de desejo, interesse e valor social que fundamenta as estranhas teorias do comportamento expressas nos contos: “O Alienista”, “Teoria do Medalhão”, “O Segredo do Bonzo”, “A Sereníssima República”, “O Espelho”, “A Causa Secreta”, “Conto Alexandrino”, “A Igreja do Diabo”...