sábado, 19 de novembro de 2011

OSWALD DE ANDRADE: IRREVERENTE BURGUÊS OU VIRA-LATA DO MODERNISMO?


(São Paulo, 1890 – 1954)
   “Viajei, fique pobre, fique rico, casei, enviuvei, casei, divorciei, viajei, casei...já disse que sou conjugal, gremial e ordeiro. O que não me impediu de ter brigado diversas vezes à portuguesa e tomado parte em algumas batalhas campais. Nem ter sido preso 13 vezes. Tive três filhos e três netos e sou casado, em últimas núpcias com Maria Antonieta d’Alkimim. Sou livre docente de literatura na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.”

                                                                 Diário de Notícias, 1950

 I – AUTOR:
José OSWALD de Sousa ANDRADE nasceu em São Paulo, em 11 de janeiro de 1890, no antigo número 5 da Avenida Ipiranga, era filho único de José Oswald Nogueira de Andrade, rico proprietário de terras, que lidava com negócios imobiliários e café, além de ter exercido alguns mandatos como vereador. Sua mãe, dona Inês Henriqueta de Souza Andrade muito católica, desde cedo ensinou a seu pequeno “Nenê”, entre altares e velas, as rezas obrigatórias pela manhã e à noite e o temor a Deus.
Oswald frequentou a Escola Modelo Caetano de Campos, até a ocasião em que contou em casa que um professor afirmou em sala de aula que “Deus é a natureza”. Os pais, horrorizados com a heresia, imediatamente o transferiram para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo. Ele ia crescendo junto com a cidade, com o fluxo de bondes e motorneiros, bandas de música, lampiões de rua a gás e com a empresa canadense Light and Power, que começava a iluminar a cidade com seus pequenos “sóis” elétricos.
Na adolescência, Oswald leu Shakespeare, Dostoievski e Eugênio de Castro, entre outros.
Em 1909, ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde, logo de saída, entrou em conflito com os veteranos por causa da violência do trote, conquistando alguns desafetos.
No mesmo ano, seu pai arranjou-lhe um emprego como redator e crítico teatral do jornal “Diário Popular”, assinando a coluna Teatro e Salões.
Em 1911, com a ajuda financeira de D. Inês, funda o semanário “O Pirralho”, com sede à Rua XV de Novembro, no centro de São Paulo, tendo como colaboradores: Amadeu Amaral, Voltolino, Alexandre Marcondes, Cornélio Pires, etc.
Sua vida artística não pode ser desvinculada de sua vida amorosa.
Em 1912, Oswald viaja à Europa, a bordo do Marta Washington, o mesmo navio de João Miramar. Conhece durante a viagem a jovem dançarina Carmen Lydia, (Helena Carmen Hosbale), bailarina de cerca de onze anos que viajava com a avó para estudar dança na Europa.
Landa Kosbach, a dançarina de “flor de carne musculosa e doirada (...) que foi o primeiro sonho vivo que me ofuscou, tornou-se a estátua de sal da lenda bíblica. Olhou para o passado ...”
Visita vários países: Itália, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França, Espanha. Em Paris, conhece a ex-rainha dos estudantes de Montparnasse, Henriette Denise Boufflers, a quem logo deu o apelido de Kamiá. Aluga um apartamento em Paris e viu espetáculos de teatro, de ópera, recitais e balés e, empolga-se com o “Manifesto Futurista de Marinetti”.
Segundo Paulo Duarte, foi Oswald quem, na sua volta a São Paulo, deu início ao movimento modernista, que aboliu na poesia as exigências da métrica e da rima:
O modernismo chegava pela primeira vez no Brasil em 1912, com o regresso de Oswald de Andrade, trazendo no bolso o Manifesto futurista de Marinetti”.
 Morre no Brasil sua mãe, pouco antes de sua volta a São Paulo. Quando chegou, acompanhado de Kamiá, a notícia o fulminou, e a respeito disso disse:
  
“Estava tudo acabado. Fechava-se brutalmente o ciclo maravilhoso que, desde a primeira infância, defendiam os braços pequenos e gordos da fada de minhas noites e dias. Haviam-se fechado os olhos azuis para cuja aflita vigilância tinham-se aberto os meus”.

Passou a considerar o dia de seu regresso, 13 de setembro de 1912, como o dia do início de seu “dissídio com Deus”. Nunca se recuperou completamente dessa perda, e num de seus escritos confessou que nas sete mulheres que marcaram sua vida buscou sempre o resgate da figura materna.
Reassume sua atividade de redator de “O Pirralho” e, como jornalista, acompanhou os bailarinos Vaslav Nijinski e Ana Pavlova, em 1913, mesmo ano da gravidez de Kamiá. No ano seguinte, nasce seu primeiro filho, que herdou do pai o apelido de Nonê.
A explosão da Primeira Guerra Mundial abalou os negócios da família. Nessa época regressou ao Brasil a jovem bailarina Landa Kosbach, acompanhada de sua avó. Ambas se hospedam na casa de Oswald, que tentou promover a jovem levando-a aos órgãos de imprensa. Logo os ciúmes, fundados, de Kamiá se fizeram sentir.
Transferiu as hóspedes para o Hotel Carlton, na Rua Líbero Badaró e viaja regularmente a Santos, em companhia de Landa. 
A bailarina mudou-se para o Rio de Janeiro, no entanto, a perseguição de Oswald persistia. O escritor e a avó da moça chegaram a disputar judicialmente sua tutela, provocando um escândalo em torno do caso. Só por volta de 1917, Oswald desistiu da aproximação com a adolescente.    
Em 1916 envolveu-se com a lendária bailarina Isadora Duncan, em sua vinda ao Brasil. Ela tinha 38 anos; ele, 26. Aos amigos, o poeta fez uma promessa:

Vou beber champanhe na sapatilha de Isadora Duncan”.

Dito e feito: a americana aceitou o pedido de contradança e o modernista brasileiro lhe caiu aos pés, causando imensos escândalos esse relacionamento.


“Isadora Duncan a que encontrei, enfim, para ser toda minha, meu ciúme matou...”.

Por esse tempo, Oswald retoma os estudos de Direito e conhece Mário de Andrade. Foi nesse ano, também, que houve a polêmica exposição de Anita Malfatti, ponto de partida do movimento modernista.
Monta na Rua Líbero Badaró, 67, no 3º andar, uma “garçonière”, uma espécie de clube de intelectuais frequentado, entre outros, por Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ribeiro Couto e Di Cavalcanti.
Outra frequentadora era uma estudante do Colégio Caetano de Campos, Maria de Lourdes, 16 anos, mas preferia ser chamada de Daisy. Entretanto, ficou conhecida por Miss Cyclone. Daisy era fascinante, inteligente, misteriosa, graciosa e bonita; não falava muito sobre si. Só o fato de ir à garçonière regularmente, sendo uma adolescente e sozinha, fascinava os moços.
Pedro Rodrigues de Almeida, um dos frequentadores do “clube”, teve a ideia de deixar lá um caderno, de cerca de duzentas páginas, no qual os que por ali passavam deixavam desenhos, piadas, textos, mensagens, e “trocavam correspondências”.
O caderno, “composto” entre 30 de maio de 1918 e 12 de outubro de 1919, foi batizado como “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”.
Na década de 1980, ganhou uma edição fac-símile e, mais tarde, outra em letra de imprensa.
Miss Cyclone contraiu a gripe espanhola e esteve à morte, mas conseguiu recuperar-se e retornou à garçonière. Oswald decidido a separar-se de Kamiá e casar-se com Daisy alugou uma casa para ela morar.  A separação, ocorrida logo após a morte do pai, seu Andrade, em 1919, foi financeiramente desastrosa para Oswald. Kamiá conseguiu que um quarto da fortuna da família fosse para Nonê, com usufruto dela.

 

“A francesa que trouxe de Paris veio buscar o dinheiro para outro homem...”
Ainda em 1919, Oswald finalmente bacharelou-se em Direito e foi escolhido o primeiro orador do Centro Acadêmico XI de Agosto. Publica três capítulos de “Memórias Sentimentais de João Miramar”.
O caráter arredio de Daisy fez com que Oswald suspeitasse dela. Um dia ele a seguiu e a viu entrar numa casa: tratava-se de uma pensão para rapazes. Poucos meses depois ela afirmou estar grávida. Oswald, ciumento e desconfiado, preferiu o aborto, e ela concordou. Daisy não resistiu ao aborto, teve uma hemorragia, agravada por um quadro de tuberculose. Oswald casa-se in extremis com Dasy (Maria de Lourdes Pontes de Andrade).

“Sinto-me só, perdido numa imensa noite de orfandade. A amada que me deu a vida partiu sem me dizer adeus”.
Esses relacionamentos amorosos apareceram no primeiro romance do autor, “Os Condenados”.



“Estou só e a vida vai custar a reflorir. Estou só.”
 Em 1921, Oswald leu os originais da obra “Paulicéia Desvairada”, de Mário de Andrade, e, impressionado com o novo poeta, escreveu um artigo elogioso que logo se transformou em polêmica, sob o título: “O Meu Poeta Futurista”.
No Brasil, o futurismo era associado á perspectiva artística da política; para ele “futurista” era igual a “fascista”.  Claro que Oswald, ao escrever o artigo, pensou apenas na primeira perspectiva, mas a reação pública foi forte e Mário de Andrade, que vivia de aulas de piano, sofreu uma diminuição no seu quadro de alunos, viu-se obrigado a responder ao artigo, esclarecendo que não era futurista, mas moderno.
Em fevereiro de 1922, eclodiu a Semana de Arte Moderna que participa ativamente.
Em fins de junho do mesmo ano, a pintora Tarsila do Amaral, recém-chegada de longa temporada na França, integrou-se ao grupo dos modernistas, passando a formar, com Oswald, que se apaixonou por ela, Mário, Anita e Menotti, o: “Grupo dos Cinco”. Juntos viajaram para vários países.


No período entre fins de 1923 e janeiro de 1925, Tarsila alugou um estúdio em Paris, frequentado por intelectuais que fizeram a história do Modernismo europeu e por muitos intelectuais brasileiros que moravam na cidade ou a visitavam.
Nesse período, Oswald continuou escrevendo o romance “Memórias Sentimentais de João Miramar”, publicado em 1924, que iniciara nos tempos de “O Pirralho” e tivera fragmentos publicados em periódicos. A obra mereceu, no Brasil, um artigo entusiasmadíssimo de Mário de Andrade, que escrevia periodicamente ao casal, manifestando sempre grande carinho por Tarsila.
Em 1924, Oswald lançou no jornal O Correio da Manhã o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. 

 Em 1926, Oswald conseguiu uma audiência com o Papa, a fim de anular o primeiro casamento de Tarsila e casar-se com ela. Eram tão parecidos e complementares que Mário batizou o casal de “Tarsiwald”: o casal mais intelectual, mais elegante, mais polêmico, mais revolucionário de São Paulo. Casa-se com Tarsila do Amaral, em 30 de outubro de 1926, em cerimônia paraninfada pelo Presidente Washington Luis e passam a residir na Rua Barão de Piracicaba, 44. Em sua bela residência, o casal promovia reuniões etílica-gastronômica e culturais e, recebia celebridades como Blaise Cendrars e Léger.
Nesse ano, começaram as dissidências entre os intelectuais que fizeram a Semana de 22 e surgiu o movimento VERDE-AMARELO, de índole integralista, formado por Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Menotti del Picchia, entre outros.
Em fins de 1927, Oswald e Tarsila foram, acompanhados de amigos, para o bairro Santana, a fim de comer rã. Enquanto esperavam, imaginavam teorias acerca da rã, e alguém disse, em tom jocoso, que a história da evolução humana passava pela rã. Quando o prato chegou, Tarsila comentou que eles, naquele momento, poderiam ser uns “quase-antropófagos”. O assunto ainda reverberou como brincadeira, em várias rodas de conversação, até que, no aniversário de Oswald, Tarsila o presenteou com o quadro: “o homem plantado na terra”. Consultaram o dicionário de tupi-guarani de Montoya, e chegaram a um nome para a tela: “Abaporu” – Aba: homem; poru: que come. Nascia o movimento da ANTROPOFAGIA, radicalmente primitivista.


Os esforços libertários da nossa cultura, segundo ele, não poderiam dispensar as ideias e expressões artísticas produzidas por outros povos. Porém precisavam assumir em face das produções estrangeiras uma atitude resolutamente “antropofágica” (em vez de imitá-las ou copiá-las, deveríamos “devorá-las”, como os índios fizeram com o bispo Sardinha, que naufragou no litoral da Bahia).



“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.
O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.
Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.
Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.
Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
O instinto Caraíba.
Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.
Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?
Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.
A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.
Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.
Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.
O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.
A alegria é a prova dos nove.
No matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove.
A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.
Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.
A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.
Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.”

Oswald, nessa época, divulga em “Terra Roxa e Outras Terras” a "Carta Oceânica", prefácio ao livro “Pathé Baby”, de Antônio de Alcântara Machado e um trecho do “Serafim Ponte Grande”; “A Estrela de Absinto”, pela Editora Helios, com capa de Brecheret; “Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade”, ilustrado pelo autor, com capa de Tarsila e disputa o prêmio romance, patrocinado pela Academia Brasileira de Letras, com “A Estrela de Absinto”, que obteve menção honrosa.
Ainda em 1927, a normalista Patrícia Galvão, jovem de 18 anos, olhos verdes e cabelos castanhos, com talento para a literatura e a caricatura; entrou na vida de Tarsila e de Oswald, que a levavam a todas as festas e reuniões.


Nesse período agravaram-se as divergências entre Oswald e Mário de Andrade.
Oswald criou novos conflitos e acabou afastando-se de Mário, Alcântara Machado e de outros, inclusive de Menotti Del Picchia.


”Sempre enfezei em ser eu mesmo. Mau mas eu.”

No final de 1929, a grande crise mundial surpreendeu Oswald, sobretudo com a queda do preço do café e atingiu a base da prosperidade da família do escritor, que perderá sua fortuna, tornando-se “vira-latas do modernismo”.  
O mais anarquista do modernismo, sentia-se um “palhaço da burguesia”.

“Quando, depois de uma fase brilhante em que realizei os salões do modernismo e mantive contato com a Paris de Cocteau e de Picasso, quando num só dia da débâcle do café, em 29, perdi tudo – os que se sentavam à minha mesa iniciaram uma tenaz campanha de desmoralização contra meus dias. Fecharam então num cochicho beiçudo o diz-que-diz que havia de isolar minha perseguida pobreza nas prisões e nas fugas. Criou-se então a fábula de que eu só fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil e a prosa renovada de 22.”

Nesse ano, aconteceu um romance entre Oswald e Patrícia, apelidada Pagu, vinte anos mais jovem que ele. A normalista engravidou de Oswald, que tramou um casamento de aparências entre Pagu e um primo de Tarsila, Waldemar Belisário do Amaral. Tarsila e Oswald foram os padrinhos da farsa.
Depois do casamento, ele foi se encontrar com a amante em Santos, de onde embarcaram para a lua-de-mel. O relacionamento de Oswald e Pagu veio à tona e em decorrência desse escândalo, muitos amigos se afastaram dele e ficaram ao lado de Tarsila.
Pagu perdeu o bebê, o que não impediu Oswald de assumir o relacionamento com ela no ano seguinte. Em setembro, nasceu Rudá, o primeiro filho do casal, cujo nome significa, em tupi, o “deus do amor”.
Começou o poder totalitário do Estado Novo de Vargas.
Em 1931, Oswald e Pagu foram a Montevidéu e, de acordo com seu relato, passou três noites conversando com Luís Carlos Prestes, ouvindo o “Cavaleiro da Esperança” discorrer sobre a doutrina do comunismo, que, por assim dizer, acabara de adotar.
De volta a São Paulo, o casal se filiou ao Partido Comunista Brasileiro, tornando-se ardorosos militantes.
Oswald declarou o fim de sua fase modernista e o início de outra de caráter público. Mergulhados na política, Oswald e Pagu lançaram o jornal “O Homem do Povo”, pasquim humorístico-planfletário, que foi empastelado por estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
O Homem do Povo” embora de vida curta (apenas oito edições), se notabilizou pela criatividade, pela audácia, pela contundência de seus ataques ao conservadorismo, ao  capitalismo e a moral burguesa.  
Oswald era ferino, devastador, em suas críticas. Chamava Getúlio Vargas de “anão subversivo”; Lindolfo Collor, em vez de ser ministro do Trabalho, era o “sinistro do Trabalho”. Referia-se aos cafeicultores e à Faculdade de Direito como “dois cancros de São Paulo”. A causa do comunismo, a que tinha aderido num movimento de “conversão” (e com a exaltação dos “convertidos”), fortalecia-o na convicção da legitimidade de seus rompantes mais destrutivos: se a sociedade comunista era possível, em nome da revolução capaz de criá-la os golpes mais truculentos podiam ser considerados justos.


Após oito números o jornal acabou sendo fechado depois de um violento ataque dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que se sentiam provocados e insultados, nas páginas do periódico. A polícia apoiou veladamente a invasão, e alguns órgãos da imprensa chegaram a achar justa a atitude dos estudantes.
Em função da militância, Oswald e Pagu foram presos várias vezes.
Oswald e Pagu se separam por volta de 1932.
Em 1933, Pagu publicou seu romance proletário “Parque Industrial”, sob o pseudônimo de Mara Lobo, por ordem do Partido Comunista; Oswald finalmente publicou “Serafim Ponte Grande”, iniciado quase dez anos antes.
No prefácio que escreveu em 1933 para o romance “Serafim Ponte Grande” fez um balanço do caminho que havia percorrido e afirmou que na “bosta mental sul-americana” o contrário do burguês não era o proletário, mas o boêmio:
“Ignorando o Manifesto comunista e não querendo ser burguês, passei naturalmente a ser boêmio”.
Admitiu que a burguesia não tinha sido realmente ameaçada por sua boemia, porém se alegrou com a ideia de que não se deixara convencer pelos valores da classe dominante:
“Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo. Servi à burguesia sem nela crer”. E concluiu se declarando “enojado de tudo. E possuído de uma única vontade. Ser, pelo menos, casaca de ferro na Revolução Proletária”.
Em 1933, Oswald teve uma ligação e conturbada com a pianista Pilar Ferrer.
Logo, em seguida, casou-se com a professora primária, escritora e estudante de Ciências Sociais Na USP, Julieta Bárbara Guerrini, tendo como padrinho o jornalista Cásper Líbero, o pintor Portinari e uma irmã da noiva, Clotilde.


Escreve para o “Jornal da Manhã” uma série de reportagens sobre personalidades importantes da vida política, econômica e social de São Paulo. Passa uma temporada em São Pedro-SP, em tratamento de saúde.
Colaborou ainda, em várias publicações, como a revista “Movimento” e o jornal “A Platéia”.
Mas a década de 1930 foi de produção de peças de teatro: “O Rei da Vela(escrita em 1933); “O Homem e o Cavalo(publicada em 1934).
O teatro oswaldiano manifestava sua paixão comunista e só ganharia encenações a partir de 1967, quando José Celso Martinez Corrêa encenou “O Rei da Vela”.


Nesta história satírica, os eternos amantes medievais, Abelardo e Heloísa, são retomados para compor um irônico painel da hipocrisia burguesa e dos vícios da classe rural decadente. Abelardo I é sarcasticamente conhecido como o “Rei da Vela” por ser produtor e comerciante de velas.
Ele é um símbolo dos arrivistas sociais que se aproveitam de crises, como a da Bolsa de Valores de Nova Iorque, de 1929, quando os produtores de café perderam tudo, para ascender na hierarquia socialmente imposta. Especulador, o novo empresário explora a pobreza alheia e as crendices do povo. Através deste personagem bizarro, o autor revela a crescente entrada do capital exterior no Brasil. Não poderia ser mais clara a alegoria: os devedores trancados em jaulas.
Ela é a representante da classe rural em queda livre. Seu sobrenome, Lesbos, indica suas inclinações homossexuais. O pai, antigo fazendeiro, viu sua fortuna desaparecer, num contexto marcado por atos de depravação. A moça se casa por conveniência, mas o marido tem plena consciência disso e também tira lucros desta falsa união, que representa a junção de duas classes permeadas pela cobiça capitalista.
Para retratar este ambiente socialmente hipócrita, a peça mescla revista, circo, ópera e farsa. Na mão de cada morto, a vela simboliza o abuso da boa-fé popular e a conquista da fortuna pelo protagonista, que futuramente conhecerá a ruína e a morte, não sem antes garantir a preservação do sistema, o qual parece estar fadado a sobreviver eternamente.
Oswald critica sem trégua as interações que nascem do ventre do Capitalismo, o qual a tudo corrompe e destrói. Não faltam também, na história, as figuras do intelectual, encarnado pelo personagem Pinote, que mantém uma dúbia relação com o poder, e do capitalista americano, Mr. Jones, que submete o reino ao seu domínio.
O personagem Abelardo I, de “O Rei da Vela, fala da ofensiva fascista:

Há um momento em que a burguesia abandona a sua velha máscara liberal. Declara-se cansada de carregar nos ombros os ideais de justiça da humanidade, as conquistas da civilização e outras besteiras! Organiza-se como classe. Policialmente”.
O escritor se servia de Abelardo I, burguês cínico, para expressar sua convicção de que o comunismo era a única reação enérgica possível ao fascismo.
Em “O Homem e o Cavalo” se ouvia a voz de Stálin anunciando os êxitos da industrialização na União Soviética. São Pedro, interrogado por um tribunal revolucionário, reconhecia que o céu era “uma tapeação de classe” e declarava:
“Eu sou materialista. Nunca acreditei em Deus, nem quando andei com ele pela Terra Santa”.
Uma das cenas da peça mostrava duas crianças educadas no sistema comunista explicando a uma terceira que os proprietários eram seres que obrigavam os outros a trabalharem para eles e, para iludir os explorados e manter o sistema da exploração, contavam com a ajuda de “piratas que se chamavam sacerdotes”, que “inventavam que havia um ser supremo e terrível”. Mas “a teoria de Marx penetrou nas massas e se tornou força social. Os ricos e politiqueiros que ficaram vivos e não quiseram trabalhar conosco envelhecem hoje, honradamente, esmolando nas portas das usinas socialistas”.
Oswald se servia da “teoria de Marx” para assustar a burguesia, dando continuidade a uma ação contestadora que se iniciara bem antes da sua “conversão” ao comunismo. De certo modo, apesar da ênfase com que se refere a Marx, há indícios de que não se aprofundou no estudo das obras do pensador revolucionário alemão. No segundo volume do romance “Marco zero” (intitulado “Chão”), o autor narra o que se passa na cabeça do personagem Rioja e diz:
“Voltava-lhe à cabeça uma frase de Karl Marx que anotara numa edição espanhola do “Capital” – A ideologia [...] a propaganda [...] não se lembrava mais como era [...] quando penetra na massa se torna força social”.
A hesitação da personagem na reprodução da frase contrasta com a precisão da informação dada pelo narrador, segundo a qual o texto se encontrava “numa edição espanhola do Capital”. No entanto, Oswald se equivocava: a frase que é citada mais de uma vez em sua obra, não está no “O capital”, mas na “Introdução à crítica da filosofia do direito da Hegel” (um ensaio da juventude de Marx).
A década de 30 foi um período duro: Oswald vivia de agiota em agiota, tomando emprestado de um para pagar ao outro. Penhorou e hipotecou bens, sofreu protestos, assinou duplicatas. Mudou-se com a esposa para um casarão que seu Andrada, seu pai, havia deixado para Nonê, casado com a irmã mais nova de Julieta Bárbara. A casa foi ponto de encontro de artistas e intelectuais.
Em 1940, Oswald concorreu pela segunda vez a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, mas o vencedor foi Manuel Bandeira.
Durante anos, Mário de Andrade foi alvo dos ataques jornalísticos de Oswald, que, ao contrário do que apresentava, queria uma reaproximação com o amigo, que jamais quis retornar a antiga amizade.
O casamento com Julieta terminou em 1942.
Na sequência, Oswald conheceu Maria Antonieta d’Alkimim, que seria sua última mulher, casaram-se em 1943, quando o autor tinha 53 anos. Oswald costumava dizer que estava casado em “últimas núpcias”, com aquela que foi o reencontro materno.
Publicou “Cântico dos Cânticos, para Flauta e Violão”, colaborou no “Correio da Manhã”, na “Folha de São Paulo” e no “O Estado de São Paulo”.
Combateu ferozmente o Estado Novo. Seus contatos intelectuais intensificaram-se, e ele conheceu Antonio Cândido, jovem professor da Universidade de São Paulo.
Em 1944, o novo amigo escreveu um longo ensaio sobre ele. Ainda nesse ano, Oswald foi aprovado no concurso de Literatura da Universidade, defendendo a tese “A Arcádia e a Inconfidência”. Nunca chegou a dar aulas, mas pertenceu aos quadros daquela instituição.
Nasceu sua única filha, Antonieta Marília de Oswald de Andrade, e três anos depois, o filho Paulo Marcos.


No final da década de 1940, Oswald conheceu os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, jovens poetas que liderariam o movimento da poesia concreta.
A respeito de sua poesia, Haroldo de Campos afirmou:

"Oswald recorreu a uma sensibilidade primitiva (como fizeram os cubistas, inspirando-se nas geometrias elementares da arte negra) e a uma poética da concretude ('Somos concretistas', lê-se no 'Manifesto Antropófago') para comensurar a literatura brasileira às novas necessidades de comunicação engendradas pela civilização técnica."

O entusiasmo pelo comunismo durou até 1945. O Estado Novo estava chegando ao fim, Oswald escreveu a Prestes e foi visitar o líder comunista na prisão. Quando Prestes saiu da cadeia, Oswald pretendeu saudá-lo no grande comício do Pacaembu (15-7-1945) em nome dos intelectuais, porém quem foi designado pela direção do partido para falar foi Jorge Amado. Cada vez mais decepcionado com a agremiação, Oswald passou a preconizar sua autodissolução, propondo que os comunistas se integrassem a uma frente progressista hegemonizada pelas “forças avançadas da burguesia”.
Estava convencido de que “o eixo da revolução se achava na burguesia progressista e não no proletariado amortecido pelas leis sociais” (entrevista ao Diário de São Paulo, 11-11-45, reproduzida no volume “Os dentes do dragão”).
Nessa época, estava fascinado pelas ideias de Earl Browder, um marxista norte-americano que tinha proposto nos Estados Unidos a transformação do PC em elemento impulsionador de um novo movimento democrático, mais amplo, no interior do qual os comunistas atuariam em perfeita simbiose com outras correntes.
O Partido Comunista do Brasil não seguiu o caminho que o escritor lhe recomendava e Oswald convenceu-se de que a organização voava para um desastre: “atirei-me de pára-quedas de um avião sinistrado, deixando a tempo o Partido Comunista”.
O afastamento, entretanto, não se deu sem um travo de amargura. Oswald de Andrade concentrou sua irritação em Jorge Amado, a quem chamou de “Münchausen da linha justa”, acusando-o de, no Jornal Meio Dia (onde ambos tinham trabalhado juntos), ter mantido ligações com alemães nazistas nos meses em que prevaleceu o Pacto Ribbentrop-Molotov, antes de Hitler ordenar a invasão da União Soviética.
 “Em 1940, Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas desse gênero do mesmo alemão” (Os dentes de dragão).
A ruptura com o PC obrigou Oswald a repensar suas posições teóricas e sua relação com o marxismo. Referiu-se ao “caráter odioso de revelação que tomou o marxismo na militância”, num desabafo feito a Paulo Mendes Campos (em 12-10-47). Resolveu retomar sua reflexão sobre a antropofagia como “visão do mundo”:
Só depois da minha ruptura com os comunistas em 45 é que estou estudando profundamente o assunto, pois somente a partir dessa data me foi possível uma recuperação intelectual que eu aconselharia ao Sr. Caio Prado Júnior”, declarou a um jornalista da revista Trópico (2-5-50).
Na verdade, sentia-se confuso, meio perdido. Numa das crônicas reunidas por Vera Chalmers no volume Telefonema, dizia:
Somos todos mais ou menos personagens de “O processo” de Kafka” (02-12-49).
 Em 1948 teve um curto período de enternecimento diante de Getúlio Vargas, político que sempre abominara (e que em seguida voltou a abominar). Meteu-se numa aventura eleitoral, candidatando-se a deputado federal pelo partido de Hugo Borghi em 1950 (foi derrotado).
As mudanças de endereço prosseguiram; a esposa cuidou dele com desvelo, ajudando-o na tarefa de organizar seus escritos, cartas, cartões. Por esse tempo, Oswald recebeu um convite para dar um curso de Estudos Brasileiros na Universidade de Upsala e na Escola Superior de Estocolmo, mas sua saúde cada vez mais precária não permitiu aceitar.
Chegou a fazer uma aparição na TV Record, participando do programa de Radhá Abramo, “Por um Mundo Melhor”, com vinte minutos de duração, cujo tema foi o pós-guerra e a Guerra Fria. Ele que tinha lutado tanto pela liberdade, fosse ela moral, política ou artística, no final do programa pôs-se a declamar comovidamente versos de sua autoria.
Todos se comoveram e o diretor da emissora, Paulo Machado de Carvalho, ordenou que o programa se estendesse enquanto Oswald quisesse.
A repercussão do episódio foi grande e Carlos Lacerda o chamou a dar um depoimento, publicado nos dias 24 e 25 de setembro de 1954. A entrevista foi feita pelo mesmo Radhá Abramo, âncora do programa da Record.
Publicou, em 1954, o livro de memórias “Um Homem Sem Profissão”.
Nos últimos anos de vida, cuidado pela mulher (Maria Antonieta), diabético, sentia a aproximação do fim: “os pés inchados me impossibilitaram de andar”. Mas continuava a empunhar a metralhadora giratória, lançado farpas contra José Lins do Rego, contra “os livros analfabetos do teatrólogo Nelson Rodrigues”, contra Sérgio Milliet, contra Guilherme de Almeida, “o pior poeta paulista”, contra Augusto Frederico Schmidt, “o pior poeta brasileiro” e muitos outros. Dava tiros à esquerda e à direita. Numa entrevista a Frederico Branco, aliás, afirmou:

Direita e esquerda são termos que não representam mais nada” (Correio Paulistano, 7-6-53).


Menos de um mês depois, a 22 de outubro, Oswald de Andrade faleceu, aos 64 anos, em sua residência da Rua Marquês de Caravelas, 214.
Poucos compareceram ao seu enterro; estavam presentes Tarsila, Pagu e alguns dos ex-amigos que ele atacara em suas matérias jornalísticas.
Marília conta que Oswald era pai amoroso e se ressentia de não ser lido. Curiosamente, apesar dos estudos que Cândido lhe dedicou em tantas ocasiões, depois de sua morte é que sua literatura seria resgatada, primeiro pelos concretistas, como Haroldo de Campos, e sobretudo, depois por Zé Celso, que encenou sua peça “O Rei da Vela” no ano rebelde de 1968 e influenciou o tropicalismo (Caetano Veloso, por exemplo, musicou o poema pílula “Pão de Açúcar”).
Oswald chamava intelectuais acadêmicos como Candido de “chato-boys” e certamente ficaria feliz de ter inspirado a versão brasileira da contracultura.

II - OBRAS:

Romance:                   Os Condenados

                                   Memórias Sentimentais de João Miramar

                                   Serafim Ponte Grande
                                   Marco Zero

Poesia:                        Pau-Brasil
                                   Primeiro Caderno de Poesia do aluno Oswald de Andrade
                                   Poesias Reunidas

Manifestos e teses:     Manifesto Pau-Brasil
                                   Manifesto Antropófago
                                   A Arcádia e a Inconfidência
                                   Ponta de Lança
                                   A crise da Filosofia Messiânica

                                   A Marcha das Utopias


Teatro:                        O Homem e o Cavalo
                                   O rei da vela
                                   A Morta
                                   O rei Floquinhos

Memórias:                   Um homem sem profissão
Crônicas:                    Telefonemas

III - CARACTERÍSTICAS:
Muita lenda e anedota têm corrido sobre a figura humana e as características literárias do escritor Oswald de Andrade.
As fissuras realizadas pela sua obra no quadro acadêmico da vida cultural brasileira são vistas, geralmente, como lances imprevistos e momentâneos de uma intuição privilegiada.
Daí a necessidade de se chamar atenção, por exemplo, para a lista das obras fundamentais do pensamento e da literatura ocidentais lidas e anotadas pelo escritor; para as suas pacientes e renovadas tentativas de reescrever seus livros. Antes pretende divulgar ângulos e facetas desconhecidas ou pouco exploradas deste escritor ao longo da história do Modernismo: o criador atento a melhor estruturação do seu texto; o homem de negócios planejando lucros e administrando à sua maneira seus bens; o pai carinhoso; o político engajado no partido que lhe pareceu no momento atender aos anseios de reestruturação social, etc.
Mais do que a de outros escritores, sua vida é irmã gêmea de sua obra, como afirma seu filho Rudá em carta ao crítico Antonio Cândido:
Creio que a obra de Oswald teve um verdadeiro divisor de águas, o ano de 1929, quando, fazendeiro de café, vai à falência; segundo, criou-se em torno dele a imagem de um “palhaço da burguesia”, o que ofuscou em muito o brilho de sua obra e amargurou o escritor nos últimos anos de sua vida.
·         Homem dividido entre o patriarcalismo agrário de sua infância e a tecnologia urbana de sua adolescência;
·         Linguagem enxuta e coloquial;
·         Cotidiano;
·         Brasilidade;
·         Versos livres e brancos;
·         Telegrafismo, o simultaneísmo, as ordens do subconsciente;
·         Capítulos-relâmpagos, capítulos-sensações;
·         Poemas-pílulas;
·         Ausência de pontuação.


                                               “Escapulário”

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia.


                                               “Relicário”

No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Sururí
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É comê bebê pitá e caí.


                                               “Vício na fala”

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.


                                               “Pronominais”

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.


IV - ENTREVISTAS:

“Não foi difícil achar Oswald de Andrade; pelo telefone mesmo, disse-lhe do motivo pelo qual pretendia avistá-lo. Trazia uma recomendação de Paulo Mendes Campos e gostaria de fazer uma entrevista. Ponderei-lhe que não tomaria muito de seu tempo. Já tinha as perguntas formuladas e, além do mais (isso não lhe disse), ia com as ideias imbuídas em um tópico do jornal Última Hora, publicado com certo destaque semanas antes de minha visita a São Paulo, em que li: “Deu cupim na cabeça do velhinho”. O velhinho era Oswald de Andrade. Entrei no apartamento de Oswald (agora já o chamo assim), e encontrei-o bonachão em meio a alguns papéis escritos, esparramado em uma poltrona. “Sente-se e não me dê recomendação alguma; os jovens não precisam de recomendação para falar comigo”, disse-me ele, deixando-me logo à vontade. Conversamos longamente sobre coisas boas e ruins, e logo percebi que havia dado cupim era na cabeça de quem havia redigido a nota de Última Hora, pois o “irreverente” Oswald de Andrade era aquele mesmo homem inteligente e espirituoso de quem tantas vezes ouvi falar na casa – saudosa casa – de Álvaro Moreyra.
Falou-me da desesperança literária que o assaltou um dia.

Durante algum tempo no Brasil”, contava-me, “a ausência de valores tornou-se de uma maneira tal, que quase suicidei-me literariamente. Mais tarde melhorou”, prosseguiu, “surgiram elementos realmente de valor, apareceu a poesia de Vinicius de Moraes, surgiu Paulo Mendes Campos. Sérgio Milliet continuava a ser o maior informante do Brasil, produto de seus esforços como estudioso de tudo e de todos, e também fez versos muito bons por sinal. Havia ainda Cassiano Ricardo, Rachel de Queiroz e tantos outros que me ressuscitaram para a literatura, pois continuavam a produzir coisas boas”, disse ele, desta vez já afastado de seu trabalho e com todas as atenções para o que me dizia.

Não me refiz totalmente, porque o número de ‘picaretas’ na imprensa e na literatura era tão grande, que seu analfabetismo fazia-me esquecer esses que, ainda, achava bons. Um grande número de mulheres invadiu a literatura nacional, na sua maioria ‘semianalfabetas’ fazendo movimento estéril. Depois sim, melhorou e muito. Até mesmo nos menores setores, surgiram e continuam surgindo valores positivos.”

E aí desandou a citar nomes. Falou demoradamente e com grande entusiasmo de Millôr Fernandes, o Vão Gogo, dizendo da sua capacidade de criar coisas novas, e todas boas. Comentou Uma mulher em três atos, peça teatral de autoria de Millôr, onde diz ter encontrado finalmente quem não escrevesse “bobagens”. Demorou-se também falando sobre Tiago de Mello, em quem vê um bom poeta, que, apesar da bagagem literária que já possui, tem ainda capacidade de escrever muito mais, com tendências a melhorar. Falou sobre Geir Campos – “um grande estudioso”, e deteve-se para dizer da grande importância de Paulo Mendes Campos.

Paulinho faz tudo direito. Crônica, verso, ensaio, tradução e, se derem cinema para ele, garanto que vai fazer melhor que muito italiano idiota que anda por aí.”
Quanto a vocês”, dizia isso referindo-se a mim, “vocês todos que iniciaram há pouco tempo a escrever, têm uma responsabilidade muito grande. No meu tempo, eu escrevia para um país de analfabetos, mas hoje todo mundo lê, todos se interessam pelo que se escreve por aí, em suma, o público está muito mais esclarecido, e há um número muito maior de pessoas escrevendo bem. Acredito que muitos vençam, muitos dessa novíssima geração.”

E citou Darwin Brandão e Carlos de Oliveira como repórteres. Maria Karam como pintora e Millôr Fernandes (qualquer setor). Às seis horas da tarde – tinha um compromisso para jantar em Santos – entreguei-lhe as perguntas, que foram respondidas prontamente, e surgiu o clássico cafezinho acompanhado de uma verdadeira bateria de remédios que, por mais amargos que fossem, deviam saber-lhe doces, dado o carinho de quem os trouxera, esse monstro de simpatia que é a Sra. Oswald de Andrade. Um a um, ele foi tomando-os e comentou com um sorriso:

Tem gente à beça torcendo para que eu morra, mas os médicos estão de safadeza com eles. Cada dia eles inventam um negócio novo e, hoje em dia, eu estou quase perfeito”.

A Sra. Andrade retirou-se sorrindo, e afirmando: “Esteja tranquilo Oswald, você não morrerá nunca”. No que, indubitavelmente, tem razão.

Nota de Sibila: Oswald morreu em 22 de outubro de 1954 e essa foi uma de suas últimas entrevistas.

Entrevista de Oswald de Andrade a Flávio Porto

Quais os livros essenciais à humanidade?
Não são nem a Bíblia, nem o Alcorão, nem Margarida La Rocque.

Onde gostaria de morar?
Em Paris.

São Paulo é uma grande coisa?
Mezzo a mezzo.

O que você acha de sua poesia? Seus romances? Suas ideias?
Não posso dizer, porque você não publica.

Acha "O cangaceiro" um bom filme?
É, sem dúvida. Quanto a Lima Barreto, há um engano. Não se trata de nenhum superego e sim, de uma superégua.

O que acha do Museu de Arte Moderna do Rio e de São Paulo?
Prefiro o do Rio.

O que o mundo deve fazer entre os Estados Unidos e a Rússia?
Ficar com os dois.

Conheceu Stephen Spender? Que achou?
Muito crescido.

De quem foi a ideia da Semana de Arte Moderna?
Do grande Di Cavalcanti.

Você procurou fazer as pazes com Mário de Andrade?
Não.

Qual o maior sociólogo brasileiro?
Eu.

Quais os melhores e os piores romancistas brasileiros?
Os piores são: o búfalo do Nordeste, José Lins do Rego, e o bem-te-vi do Sul, Erico Verissimo. Mas pior poeta há um só – Augusto Frederico Schmidt.

Você se acha um homem justo?
Perfeitamente.

Quais são os mais requintados imbecis do Brasil?
Pedro Calmon, Pedro Bloch e Nelson Rodrigues.

Você acha que a Bienal vai ser um sucesso?

Não. O Sr. Ciccillo Matarazzo já começou a fazer compadrismo, aquele incansável compadrismo que já fez do plagiário Di Preti um pintor conhecido.

Que acha do Plínio Salgado?
Uma vaca.

Getúlio é homem inteligente?
É.

Qual o maior defeito da política brasileira?
Existir.

Por que o Brasil perde os campeonatos de futebol?
Por causa do José Lins do Rego.

Que escritores jovens você deportaria do Brasil?

Mandava o poeta Loanda voltar para Loanda. Ledo Ivo ia para a Oceania, de onde veio. O José Condé ficava porque não é jovem nem escritor.

Que ministro você poria no Governo?
Josué de Castro, Gilberto Freyre e Cassiano Ricardo.

É capaz de definir a UDN em poucas palavras?
Não.

– Quais mulheres você acha que escrevem bem no Brasil?

Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lúcia M. e Adalgisa Nery.

Qual seria sua atitude se Getúlio desse um golpe?
Aderia.

Acha que o samba melhorou?
Piorou.

Alguma coisa melhorou no Brasil depois de 1930?
O salário e o custo de vida.

Que acha dos auxiliares de Getúlio?

Quais?

O baile de Coberville é um sinal de decomposição de nossas elites?

Não. Foi uma das raras coisas boas que fez o senador Chatobrioso.

O texto e a entrevista foram feitos por Flávio Porto, em 1954, para a revista paulista “Sombra”.



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terça-feira, 15 de novembro de 2011

ROY LICHTENSTEIN (1923-1997) E A BANDA DESENHADA.




Era difícil fazer um quadro suficientemente desprezível, a ponto de ninguém querer pendurá-lo. Todo mundo pendurava tudo. Até pendurar um trapo gotejante era aceitável. Mas, a única coisa que todo mundo odiava era a arte comercial. Ao que parece, não a odiavam tanto assim também.”
  
Roy Lichtenstein, escultor e pintor americano, filho de um próspero corretor de imóveis de origem judaico-alemã, nasceu em 27 de outubro de 1923, Nova Iorque. Era uma criança quieta, introspectiva e teve uma infância pacata.
Começou a desenhar e pintar na adolescência influenciado pelo período azul e rosa do grande pintor Picasso. Interessou-se primeiro por arte e design como hobby, ao mesmo tempo era um apaixonado pelo Jazz. Muitas vezes o artista desenhou os músicos e assistiu a shows no Harlen (centro cultural e comercial dos afro-americanos).
Acabou decidindo-se pelo curso de artes plásticas, que cursou na Universidade Estadual de Ohio, mas teve que interrompê-lo para servir na Segunda Guerra Mundial, entre 1941-1943.
Nunca combateu, sua missão consistia em desenhar os mapas do front de batalha.
Ao retornar, terminou o curso e instalou-se em Nova York.
Em 1949, já formado em Artes, realizou sua primeira exposição.
Lichtenstein foi fortemente influenciado por dois professores: Hoyt L. Sherman, que insistiu na “abstração”; e, Allan Kaprow, que reacendeu no aluno o interesse em imagens Neo-Dadaistas, ou Protopop.
Vivenciou vários estilos da arte como o Abstracionismo, Expressionismo e Cubismo.
Roy Lichtenstein fez suas primeiras obras semi-abstratas.
Na década de 1950 começou a se apropriar de imagens da cultura americana, desde personagens animados a índios e caubóis, "embora em estilo expressionista".
No entanto, foi na POP ART que revelou grande talento e brilhantismo com sua originalidade, poder analítico e irônico do estilo convencional.
Sua primeira exposição individual foi em 1951, na Carlebach Gallery, em Nova York.
Até 1957, trabalhou como designer, fez cartazes para vitrines de lojas e oscilou entre o Impressionismo abstrato e as histórias em quadrinhos e cartoons, até que nos anos 60, num procedimento aparentemente inocente, se decidiu pelo uso dos elementos típicos da propaganda em seus desenhos e pinturas. 



Roy Lichtenstein foi o mestre do estereotipo e o mais sofisticado dos artistas pop, quer pela capacidade de análise visual, quer pela ironia da exploração dos estilos passados. Impossível olhar para alguma BD (Banda desenhada, forma de arte que conjuga texto e imagens com o objetivo de narrar histórias dos mais variados gêneros e estilos, e não ser assolado imediatamente pelo trabalho de Lichtenstein).
Ao lado de muitos artistas fundadores do movimento e participantes do “Independent Group”, que seguiam  na contramão da arte moderna, Roy se destaca por aplicar nas artes um cuidado sem igual com a estética das pinturas e esculturas, apesar de utilizar uma linguagem já conhecida  para fazer arte.
O seu primeiro trabalho Pop foi um “look” do Mickey Mouse. Curiosamente, a proposta para o trabalho veio de um de seus filhos, que desafiou o artista a pintar uma imagem tão boa quanto á do famoso ratinho de Walt Disney.

Nos seus quadros a óleo e tinta acrílica, ampliou as características dos quadrinhos e dos anúncios comerciais, e reproduziu à mão, com fidelidade, os procedimentos gráficos. Empregou, inicialmente, uma técnica denominada “Ben-Day dots”, um processo de impressão de pontos que, através do sombreamento, cria uma textura tonal.
A técnica se assemelha ao pontilhismo, com cores brilhantes, planas e limitadas, delineadas por um traço negro, que contribuíam para o intenso impacto visual.


Entre as características marcantes de sua obra, o efeito degradê obtido com bolinhas e o uso de cores fortes: cabelos azuis e amarelos, rosto magenta, lábios vermelhões e traços pretos de expressão bem largos, inspirados pela linguagem dos quadrinhos; o uso de fita adesiva e fita crepe para criar listras diagonais; onomatopeias e gírias inspiradas por cartuns como Dick Tracy, além, dos socos, tiros, lágrimas pelo amor perdido, com frases e textos de apoio.
Com certa ironia deu a esta fase o nome de “Grande Pintura”.
De baixo da couraça muscular de super-heróis e das lágrimas de suas beldades louras, Lichtenstein retrata um tecido poroso, feito a partir de milhares de bolinhas, as células da indústria gráfica. Quem já viu um cartaz outdoor de perto não se esquece desse artificialismo. Foi assim, cientificamente, que o pintor, que antes fora publicitário e vitrinista, satirizou a banalização e a superficialidade a que a mídia submeteu a cultura contemporânea.
Para o crítico italiano Giulio Carlo Argan, ao usar as histórias em quadrinhos, Lichtenstein produziu uma obra que:

 "[...] permite que milhões de pessoas leiam ao mesmo tempo a mesma narrativa, interpretem-na do mesmo modo, sintam a mesma emoção momentânea e, um segundo depois, esqueçam-na".


Como nos anos 60 já usava o tema da ironia, que marcou os 90, Roy é considerado pioneiro, mestre e uma figura proeminente da arte americana. 

I can see the whole room, and there's nobody in it!”, 1961 (“Posso ver o quarto inteiro, e não há ninguém nele”).

Nessa obra, retrata um homem que olha através de um buraco em uma parede e pronuncia a frase que dá nome à obra. A tela trata-se de um contra-ataque ao que faziam na época os expressionistas abstratos.
Uma das melhores definições do movimento veio do próprio Roy:

“O que marca o pop é antes de mais nada, o uso que é dado ao que é desprezado”.

Lichtenstein criou uma obra ambígua, paródica e sedutora, que pretendia oferecer uma reflexão sobre a linguagem e as formas artísticas.


Ele mesmo descreveu o Pop Art como:

 "Não é uma pintura “american”' mas na verdade uma pintura industrial".

Sua intenção era que suas imagens parecessem, tanto quanto possível, feitas por uma máquina, desvinculadas do contexto de uma história, como imagens frias, intelectuais, símbolos ambíguos do mundo moderno. Ampliando os painéis da revista para o tamanho de cartazes, o artista agride o espectador com sua trivialidade.    
Os trabalhos de Lichtenstein não traziam uma crítica à cultura consumista, mas dela fazia uma paródia. O resultado é a combinação de arte comercial e abstração.

 “Em suas cópias e cartuns, ele retomou gêneros tradicionais como paisagem, natureza-morta e figura, reanimando e revivendo estes temas acadêmicos tradicionais no vocabulário moderno”, explica Lisa Phillips.

Ele transformou a linguagem do fazer imagens, o tema de sua arte, em algo análogo às suas fontes populares, contestando com humor e ironia o próprio conceito da arte na era da reprodução em massa.
Mais do que o contorno a preto das figuras e a escolha limitada a cores industriais, os pontos de Benday pareciam fora do lugar na pintura. Embora imagens isoladas de banda desenhada tivessem sido há muito integradas nas belas artes, ninguém tinha encontrado uma forma de aumentar a sua expressão para além da utilização de uma colagem ou de um motivo pintado. Ao usar referências da técnica de impressão, como os pontos de Benday, o conceito de fonte impressa permaneceu intacto. Os críticos e artistas comerciais que reprovaram Lichtenstein por não se distanciar suficientemente da sua fonte, obviamente não compreenderam que não só o conteúdo da pintura, mas também o conteúdo do estilo era importante.


Moça com bola”, 1961.

Nesta obra de LICHTENSTEIN baseada em um anúncio publicado no jornal “The New York Times”, o artista que apreciava as imagens publicitárias, destacou a moça e a bola com a qual ela se diverte.
O artista construiu a cena com poucos traços e poucas cores: a mesma cor escura do maiô é usada nos cabelos da moça; o mesmo vermelho da bola aparece em seus lábios, dando um ar de sensualidade; o mesmo branco da bola foi empregado em seus dentes; nos reflexos de luz em seus cabelos e no detalhe do maiô.
Para realçar sua figura, ele empregou um tom forte de amarelo. Com poucas cores e poucos traços, ele conseguiu criar a imagem de uma jovem saudável, alegre e em pleno movimento.

 “É uma maneira de descrever meus pensamentos o mais rápido possível”, dizia ele sobre seus desenhos. 

In The Car”, 1963.
"Meu trabalho expressa paixão e violenta emoção num estilo mecânico", reconhecia o pintor.

Em 1963 foi chamado de “o pior artista da América” por Brian O’Doherty, do The New York Times. Mas, graças a seu empenho e à retaguarda mercadológica do marchand Leo Castelli, triunfou. 


“Whaam!”, 1963.

Depois de sua fase inicial de histórias em quadrinhos, LICHTENSTEIN ampliou seu repertório de imagens, sempre pintadas graficamente, de paisagens gregas a homenagens aos grandes nomes da pintura, como Picasso e Matisse. Assim, ele próprio, que antes fizera a "autópsia gráfica" da turma do Pato Donald, agora submetia os modernos ao mesmo método.
Em 1965, acusado por vários críticos de cópias de painéis originalmente desenhados por outros artistas, como Kirby, Russ Heath, Abruzzo Tony, Irv Novick e Grandenetti Jerry, que trabalhavam diretamente com a mídia, Lichtenstein praticamente abandonou seus trabalhos com quadrinhos. Outra crítica que o artista sofre, refere-se à ausência de qualquer crédito aos desenhistas originais. Há quem diga que:

 “Lichtenstein não fez pelos quadrinhos nada mais, nada menos, que Andy Wharol fez para a sopa Campbells”.

Lichtenstein tinha algumas facetas não muito conhecidas pelo grande público: as esculturas do período 1967-1968, como a que enfeita a Praça em Barcelona. 


Os quadrinhos, no entanto, retornaram à vida e obra do artista nos anos 70. Desta época, novo “look” do Mickey (1973), que incorpora outros trabalhos anteriores, é dos notáveis exemplos. É também deste período “Pow Wow” (1979).


Afora seus quadros dos anos 60, sua obra mais eloquente é um auto-retrato de 1978. Nele, o pintor vê-se como uma montagem de objetos: uma camiseta imaculadamente branca no lugar do corpo de um espelho vazio, sem refletir nada, no lugar da cabeça.
Em 1977, Lichtenstein participou da terceira etapa do “BMW ART CAR PROJECT”, quando pintou cinco versões do carro de corrida BMW 320.
Fez parte do grupo do galerista Leo Castelli. Recebeu a National Medal of the Arts, Washington, o Kyoto Prize da Inanori Foudation, Japão e o American Academy of Arts and Letters, Nova York. Honorary Doctorates da George Washington University, da California Institute of Fine Arts, da Ohio University, da Bard College e do Royal College of Art, Londres.
A “Roy Lichtenstein Foudation” foi criada de acordo com os desejos do artista e da sua família com intuito de conservar e divulgar a sua obra e de outros artistas contemporâneas.
Suas obras mais conhecidas mundialmente são “Takka, Takka” (1962), “Whaam” (1963), “O Beijo” (1963), “Quando Abri Fogo” (1964) e “M-maybe” (1965).
Foi com assepsia e indiferença que ele espelhou o nosso tempo. Lichtenstein morreu no dia 29 de setembro de 1997, aos 73 anos, vítima de pneumonia, em Nova York.


 “M-maybe”, 1965.

“Eu sei... Brad”, 1963.

Takka Takka”, 1962.
The Kiss”, 1962.

Nessa pintura foi utilizado como enquadramento o plano de close-up, provavelmente para enquadrar a expressão da mulher, que está chorando de felicidade nos ombros de seu amado. Roy faz nesse quadro contrastes de tom utilizando as seguintes cores, o azul (da roupa do homem), o vermelho (do lábio da mulher) e o amarelo (do cabelo da mulher, que é loiro). Isso cria um movimento circular dos olhos, que para apreender a imagem, passa constantemente por esses lugares, transmitindo-nos sensação de felicidade.

I Love Liberty”, 1962.
"Girl at Piano", 1963.








sábado, 12 de novembro de 2011

ANTÔNIO ALCÂNTARA MACHADO E O "PORTUGUÊS MACARRÔNICO"




   "Antônio de Alcântara Machado era tão filho e neto de mestres das Arcadas quanto entusiasta da primeira hora dos desvairistas e primitivistas: foi, assim, uma inclinação liberal e literária pelo “pitoresco” e pelo “anedótico” que o fez tomar por matéria dos seus contos a vida difícil do imigrante ou a sua embaraçosa ascensão. Creio que esses dados de base ajudem a entender os limites do realismo do escritor, visíveis mesmo nos contos melhores, onde o sentimental ou o cômico fácil, mimético, acabam por empanar uma visão mais profunda e dinâmica das relações humanas que pretendem configurar."
Bosi, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 1984, p. 422.
  
I – AUTOR:
ANTÔNIO Castilho de ALCÂNTARA MACHADO d'Oliveira nasceu em São Paulo, a 25 de maio de 1901, filho de ilustre e tradicional família paulistana (descendentes de veteranos das campanhas do Império, senadores, juristas), formou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco e optou pela carreira literária e de historiador. Durante os dez anos que exerceu a atividade de escritor e jornalista, viveu o período preparatório da Revolução de 1930, a fase inicial de sua implantação e o chamado movimento constitucionalista, desde da Revolução Paulista (1932) até a elaboração da primeira constituição da República Nova em 1934.


Apesar de colaborar periodicamente com artigos sobre cultura no Jornal do Comércio, só tomou contato direto com os modernistas de São Paulo a partir de 1925.
O gosto da caricatura era indissociável do espírito de 22 e Alcântara Machado o cultivou regularmente nos seus contos, nas crônicas de viagem à Europa, em 1925, de “Pathé-Baby” (1926) com prefácio de Oswald de Andrade e nos artigos de jornal postumamente reunidos em “Cavaquinho e Saxofone” (1940), que abrange quase dez anos do jornalismo literário do escritor praticado em diversos veículos, entre eles o “Jornal do Comércio de São Paulo”, o “Diário de São Paulo” e as revistas “Terra Roxa e Outras Terras”, “Revista de Antropofagia” e “Revista Nova”, divulgadoras das ideias modernistas e que ele ajudou a fundar.


 
A consagração literária de Alcântara Machado se dá com a publicação de “Brás, Bexiga e Barra Funda” (1927), contos que retratam a imigração italiana, o cotidiano desses italianos e de seus descendentes, nas décadas de 20 e 30, como um retrato vivo da sociedade paulistana. 


E, “Laranja da China” (1928), o mesmo traço caricatural, cujos personagens nada têm de ítalo-paulistas, mas ostentam sobrenomes lidimamente portugueses.


O autor escreveu também, relatos de viagens, crítica de teatro, contos, crônica política, pesquisa histórica e deixou obras inacabadas, entre elas o romance, “Mana Maria”.  



A obra de Alcântara Machado, hoje reunida sob o título de “Novelas Paulistanas”, foi interrompida, pela morte prematura, mas deixou momentos notáveis como o “Apólogo Brasileiro sem véu de alegoria”.
A estória se passa no trenzinho de Maguari para Belém. Acaba a energia e todos ficam no escuro. Um cego, no entanto, se revolta e incita os demais ao motim. O delegado de Belém prende um dos rebeldes porque, incitado a esclarecimento, afirmou que o responsável pela desordem era um cego:

“Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.”

O Prof. Antônio Cândido aponta Alcântara Machado como o mais vivo ensaísta e divulgador das atitudes iconoclastas do primeiro tempo modernista.

“A meninada moderna surgiu que nem capoeira em festa de subúrbio. Distribuindo pés de arraia. Prodigalizando cocadas. Arrumando pés de ouvido. O que não prestava virou logo de pernas para o ar. Houve muito nariz esborrachado. Muita costela quebrada. As nove musas tiveram nove chilinques cada uma. Osório quis se enforcar nos bigodes de Alberto. Os bigodes não quiseram. Fontes secaram. Felinto resolveu espalhar os pés. Mas não pode com o peso deles. Coelho virou onça, Lima azedou. Nas igrejolas literárias do interior sinos passadistas tocavam a rebate. Do viaduto de sua mediocridade muita gente se atirou desgostosa da vida. Tiros. Bengaladas. Mortes.
Um homenzinho de dedo espetado gritando: “eu sou o último heleno!” Vivórios. Morras. Salva de vinte e um tiros. Foguetes. Bofetadas. Ódios. E o enterro das vítimas: o comendador Alexandrino, o Dr. Soneto, e a Srª. Hélade Sagrada, o conselheiro Parnasianismo.”

                                   “Cavaquinho e Saxofone”   

Morreu em 14 de abril de 1935, em São Paulo, aos 34 anos de idade, em consequência de uma operação de apendicite.

II - CARACTERÍSTICAS:

Como prosador, trilhou por caminhos experimentais traçados anteriormente por Mário e Oswald de Andrade, aproximando-se da linguagem leve, espontânea, elíptica, alusiva,   telegráfica, e cinematográfica, cheia de flashes e cortes surpreendentes, o que possibilitou uma comunicação fácil e direta com o público, resultado possível graças à sua atuação como jornalista.
Antônio Alcântara despojou-se dos efeitos meramente ornamentais, dando o nome exato às coisas ou usando a palavra direta.
O texto a seguir mostra, de maneira irônica, a ruptura que o autor propõe para acabar com o estilo rebuscado que até então marcava a literatura da época:

O literato nunca chamava a coisa pelo nome. Nunca. Arranjava sempre um meio de se exprimir indiretamente. Com circunlóquios, imagens poéticas, figuras de retórica, metalepses, metáforas e outras bobagens complicadíssimas. Abusando. Ninguém morria: partia para os páramos ignotos. Mulher não era mulher. Qual o quê. Era flor, passarinho, anjo da guarda, doçura desta vida, bálsamo de bondade, fada, e, diabo. Mulher é que não. Depois a mania do sinônimo difícil. A própria coisa não se reconhecia nele. Nem mesmo a palavra. Palavra. Tudo fora da vida, do momento, do ambiente. A preocupação de embelezar, de esconder, de colorir. Nada de pão, queijo queijo. Não Senhor. Escrever assim não é vantagem. Mas pão epílogo tostado dos trigais dourados, queijo acompanhamento vacum da goiabada dulcífica, sim. E bonito. Disfarça bem a vulgaridade das coisas. Canta nos ouvidos. E é asnático, absolutamente asnático. Tem sobretudo esta qualidade. (...)O literato não se contentava em exclamar: “como cheiram as magnólias!”Não. As magnólias eram capazes de se ofender com tanta secura. E ele então acrescentava poeticamente: “Flores de carne, seios de virgem.” Pronto. As magnólias já não tinham direito de se queixar“.

É interessante observar no texto acima a maneira divertida e irônica de se referir ao estilo do tempo, ao relatar o presente, ano de 1927, como se fosse coisa morta e definitivamente enterrada. Os artifícios linguísticos empregados neste trecho evidenciam a completa identificação do autor com o movimento modernista.
“Mana Maria”, “Contos Avulsos” e “Brás, Bexiga e Barra Funda” buscam uma expressão brasileira da Língua Portuguesa, reduzindo o mais possível a distância entre a linguagem falada e a escrita.
O “português-macarrônico”, a “salada da ítalo-paulistana” das costureiras, verdureiros, tripeiros, de alguns milionários e bacharéis, lembram o Juó Bananére de “La Divina Increnca”, não só pela italianização da língua nacional e vice-versa, como também pela sátira ao convencionalismo, ao rotineiro estandartizado, aos chavões da literatura e da imprensa.