domingo, 16 de outubro de 2011

BOM-CRIOULO, ADOLFO CAMINHA: ESTILO, CONTEXTO, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DA OBRA

I – AUTOR:


Adolfo Ferreira Caminha nasceu em 1887, na cidade de Aracati, Ceará. Teve uma infância conturbada pela morte da mãe, enfrentou várias doenças e a seca que assolou o Nordeste, nesse mesmo ano. Fez os primeiros estudos em Fortaleza (CE) e depois seguiu para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Escola Naval (1883).

Na Marinha, sentiu o choque da instituição conservadora e monarquista, revelando-se republicano e abolicionista. Numa solenidade em 1884, com apenas 17 anos, fez um discurso na presença do imperador Pedro II, e declarou-se "contra o anacronismo da escravidão e do Império". Apesar da declaração, formou-se no ano seguinte como guarda-marinha.
Por volta de 1886 demonstrou vocação pela literatura, quando publicou os poemas "Vôos Incertos" e os livros de contos "Judite” e “Lágrimas de um Crente".
Viajou pelas Antilhas e Estados Unidos, recolhendo informações e anotações que resultaram mais tarde no livro "No País dos Ianques" (1894).
Em 1888 pediu transferência para Fortaleza. O Ceará já havia libertado seus escravos quatro anos antes e a vida literária da Capital era ativa, com vários grêmios culturais abolicionistas, republicanos e naturalistas, ideias que agradavam ao jovem escritor.
Naquela cidade, o já tenente Caminha envolveu-se num caso amoroso que lhe rendeu, inclusive, a saída da Marinha. Apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, que deixou seu marido e foi viver com o marinheiro, escandalizando a sociedade cearense. Mas ele não se rendeu, foi trabalhar na Tesouraria da Fazenda e continuou sua atividade literária. Fundou a "Revista Moderna" (1891) e, em 1892, a "Padaria Espiritual", movimento que acreditava na educação do povo para mudar o país, e publicava o jornal, "O Pão".
Voltou para o Rio de Janeiro em 1893, já com duas filhas. E para melhorar sua renda, além do emprego no Tesouro Federal, escrevia para jornais. No mesmo ano publicou o romance "A Normalista", crítica à vida na capital cearense, segundo os moldes naturalistas, que não fez eco entre os críticos. Dois anos depois, publicou "Bom-Crioulo", livro ousado, de temática homossexual dentro da Marinha. Este é considerado seu melhor livro, visto que o próximo, "Tentação" (1896), é fraco e revela o declínio do Naturalismo. Morreu de tuberculose, no ano seguinte, antes dos 30 anos de idade.


II – CARACTERÍSTICAS:


 
“Bom-Crioulo” foi publicado em 1895. Típico romance de tese, interessado em analisar personalidades fora da normalidade, é considerado por muitos a obra-prima de Adolfo Caminha e, ao lado de “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, um dos melhores romances do Naturalismo brasileiro.

É mais que sabido o quanto o Naturalismo brasileiro é devedor do Naturalismo francês. Foi nas leituras de Zola, principalmente, que nossos escritores do período se formaram e se embasaram das teorias e do estilo dessa escola.
Teoricamente, foi por meio do cientificismo reinante no período que se traçaram as principais linhas ideológicas, temáticas e estilísticas a ser seguidas: no determinismo taineano; no positivismo comteano e no evolucionismo darwiniano repousavam os preceitos ideológicos principais da escola. Tratava-se de dar um escopo de ciência exata às ciências humanas, à arte em geral e à literatura em particular.
Estilisticamente, o descritivismo deu o tom. Zola adotou e difundiu o registro direto e minucioso da realidade como prática mais eficiente e adequada às necessidades artísticas do seu tempo.
Georg Lukács viu no descritivismo uma prática estilística que nivelava o que deveria ser resultado de uma distinção e ordenação por parte do narrador (“A narração distingue e ordena, a descrição nivela todas as coisas”).
O romance naturalista, para ele, seria uma má alegoria da realidade, ao se ater à pura observação desta.
Caminha trabalhou na Marinha e pode conhecer por sua própria experiência os tipos que se movimentam por esse seu romance. A história de paixão e tragédia que anima essas páginas não é produto de uma fantasia romântica, mas baseada em fato real, que escandalizou o Rio de Janeiro do século XIX. Estimulado pelos pressupostos estéticos do Naturalismo e pelo desejo de chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava, o autor constrói a partir de um fato verídico uma ficção forte, ousada, que ainda hoje é atual.

III – FOCO NARRATIVO:

Temos um foco narrativo em terceira pessoa, com narrador onisciente. É bastante utilizado o discurso indireto livre para desvendar os pensamentos e sentimentos dos personagens, recurso que Caminha talvez tenha aprendido em Eça de Queirós, uma de suas maiores influências literárias.

IV – TEMPO:

Pelas descrições do ambiente do Rio de Janeiro, podemos afirmar que a história é contemporânea de sua publicação, isto é, acontece no final do século XIX, pouco tempo depois da proclamação da República no Brasil.
Predomina o tempo cronológico, mas não é possível precisar o intervalo em que ocorre a narrativa.
Quando Amaro vai para o couraçado, ficamos sabendo que ele e Aleixo estão juntos há cerca de um ano, mas a história prolonga-se por um tempo indefinido, até o desfecho com o assassinato do grumete.
Em alguns momentos, há o uso do flash-back, para recuperar as origens dos personagens principais ou quando Amaro, internado no hospital, se lembra dos bons tempos com Aleixo.

V – ESPAÇO:



Podemos analisar o espaço dessa obra, dividindo-a em externo e interno.

Os cenários externos principais são contrastantes: a paisagem marítima descrita com um certo Romantismo ou, quando se trata da vida de marinheiro, descrições carregadas de Impressionismo, revelando um ambiente opresso e ofegante, como no momento em que os marinheiros estão para ser castigados.
A pobreza e a sujeira das ruas suburbanas do Rio de Janeiro acentuam o contraste com as descrições românticas do mar.
Os espaços internos são o interior da corveta, em alto-mar, onde Bom-Crioulo e Amaro se conhecem, e o sobradinho da Rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro, onde vão viver em terra e, posteriormente, D. Carolina e Aleixo se amasiam.
Dentro da corveta, o ambiente é desagradável, repugnante mesmo, quando serve de cenário para os contatos mais íntimos entre Amaro e Aleixo.
É notável a competência com que Adolfo Caminha descreve o espaço do navio, pudera o autor cursou a Escola Naval e foi guarda-marinha e a passagem do Rio de Janeiro, principalmente a que se vê da orla marítima, aparecendo aqui e ali, ao longo da história.
O mesmo acontece na descrição do quarto do sobradinho em que vão viver Bom-Crioulo e Aleixo quando chegam ao Rio de Janeiro.
Essa caracterização negativa do espaço que envolve a relação “proibida e imoral” entre Bom-Crioulo e Aleixo tem um peso valorativo: funciona como uma crítica ao relacionamento homossexual, um julgamento moral: o espaço é decadente porque o que acontece entre os dois marinheiros também é decadente. Mas o mesmo não vale quando se trata de descrever o cenário dos encontros entre Aleixo e D. Carolina.
É valorizada a ação exterior, com destaque para cenas verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos corporais a que deviam ser submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não chegam a detalhes explícitos em virtude da moral social que também atinge o escritor e sua preocupação prévia com a reação do leitor.

VI – PERSONAGENS:



AMARO, o Bom-Crioulo: personagem principal, ex-escravo, tem cerca de 30 anos. De início, bom marinheiro, respeitado pela seriedade, força e valentia. Mas aos poucos vai se tornando relaxado, principalmente depois de se apaixonar pelo grumete Aleixo.


ALEIXO – adolescente, tem cerca de 15 anos, veio de família pobre de pescadores. Pele clara, olhos azuis, sua figura cativa a todos. Torna-se objeto das paixões de Amaro e D. Carolina. Morre tragicamente ao final.

D. CAROLINA – portuguesa, ex-prostituta, 38 anos. A princípio, grata a Amaro por este ter lhe salvado a vida no passado, acaba roubando do Bom-Crioulo o grumete Aleixo, que seduz com sua experiência e o resto de sensualidade que lhe sobrou.

HERCULANO – marinheiro imberbe, mórbido, solitário, é castigado ao início da narrativa por ter sido flagrado se masturbando.

SANT’ANA – marinheiro castigado por ter se envolvido em briga com Herculano. Manhoso, gago.

AGOSTINHO – guardião do navio, especialista em aplicar chibatadas, é um sádico que se aproveita do seu ofício: adora castigar.

O reduzido número de personagens significativos na narrativa e a casualidade de alguns acontecimentos soltos na trama parecem denunciar o pouco fôlego de Adolfo Caminha como escritor. Exemplos desses acontecimentos são a “coincidência” da visita de Herculano ao hospital, quando diz a Amaro do destino de Aleixo, ou a presença fantasma do açougueiro amante de D. Carolina em algumas passagens do livro.
O crítico Georg Lukács chama a atenção para a necessidade de o escritor “superar na representação a casualidade nua e crua, elevando-a no plano da necessidade”.
Ou seja: não é que fatos casuais não possam ocorrer, mas eles precisam “ser exigidos” pela narrativa.
Quanto à questão da composição dos personagens, os três últimos anteriormente citados são meros esboços de figuras naturalistas, caricaturas de homens dominados por suas fraquezas. Mesmo D. Carolina e Aleixo caem no esquematismo descritivista observado por Lukács:

“As qualidades humanas passam a existir umas ao lado das outras e vêm descritas nesta compartimentalidade, em vez de se realizarem nos acontecimentos e de manifestarem assim a unidade viva da personalidade nas diversas posições por elas assumidas, bem como nas suas ações contraditórias. À falsa vastidão dos horizontes do mundo externo corresponde, no método descritivo, um estreitamento esquemático nas caracterizações humanas. O homem aparece como um “produto” acabado de componentes sociais e naturais de várias espécies. A profunda verdade social do entrecruzamento no homem de determinantes sociais com qualidades psico-físicas acaba sempre por se perder.
Não é o caso de Amaro. Este vive integralmente suas contradições, até as últimas consequências: reconhece em Aleixo a causa de sua decadência, mas vai até o fim no seu amor; seus ciúmes no hospital estão em constante contraste com sua saudade carregada de sensualismo; sabe o quanto o álcool lhe faz mal, mas procura-o como último recurso quando já não suporta a realidade.
Sua personalidade, ao longo de todo o romance, é mesmo aquela figura enlouquecida e apaixonada que, no último capítulo, caminha com desejo e ódio ao encontro de Aleixo e de seu destino."
Como bem notou Alfredo Bosi, Amaro é “coerente na sua passionalidade que o move, pelos meandros do sadomasoquismo, à perversão e ao crime”.

VII – LINGUAGEM:

A principal marca do estilo naturalista é o descritivismo detalhista, visando à objetividade cientificista na narração, mas não se pode afirmar que Adolfo Caminha abuse desse recurso nesta obra. Pelo contrário: a influência de Eça de Queirós parece ter sido positivo no que toca ao uso parcimonioso das descrições aliado a uma exploração do mundo interior dos personagens, o Bom-Crioulo, em particular, por meio do discurso indireto livre.
Além disso, há em Caminha aquilo que Massaud Moisés chama de “lastro romântico que suportava a cosmovisão realista: veja-se a abundância de reticências que destroem a ideia de apreensão total das circunstâncias e objetos, que constituía apanágio do Realismo [Naturalismo], e chamam para o indefinido e a fantasia desatada, como algumas vezes acontece”.
Tal particularidade é perceptível nas descrições, por exemplo, no episódio da borrasca que atinge a corveta pouco antes do atracamento no Rio de Janeiro ou na cena de despedida para o primeiro embarque de Amaro.
É interessante notar, também, como o autor trabalha a linguagem para tratar do sexo. Tudo é dito objetiva e cruamente, mas nunca a própria consumação do ato sexual, o narrador esconde-se por detrás das palavras: quando do episódio da masturbação de Herculano (o Pinga) no navio (“cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”); quando da posse de Aleixo por Amaro (“E consumou-se o delito contra a natureza”); quando da polução de Amaro, no capítulo IV (“passou a mão no lugar úmido, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono”); e assim por todo o livro. Essa atitude é comum também quando se trata de expressões de baixo calão proferidas pelos personagens. Amaro nunca completa a expressão “ - ...que os pariu”. São sempre as mesmas reticências...
O crítico Antonio Candido explicou coerentemente esse aspecto nos naturalistas:

“Há, portanto, uma espécie de desgraçado do enfoque “natural” de Zola, quem sabe por causa de certo sentimento ateu do pecado, visível não apenas em Aluísio Azevedo, mas em Eça de Queirós, Abel Botelho, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, que também receberam mais ou menos a sua influência. É como se na sociedades mais atrasadas e nos países coloniais o provincianismo tornasse difícil adotar o Naturalismo com naturalidade, e as coisas do sexo acabassem por despertar inconscientemente um certo escândalo nos que se julgavam capazes de enfrentá-las com objetividade desassombrada."


VIII – RESUMO DO ENREDO:

CAPÍTULO I

Um narrador impessoal, valendo-se do foco narrativo em terceira pessoa, abre o primeiro capítulo do romance descrevendo, minuciosamente, uma corveta. Essa técnica é comum na estética realista-naturalista que visa criar meios para o leitor visualizar o cenário em que vai transcorrer a ação. Informa que o navio, um dia novo e bonito, agora está velho, com o casco negro e as velas encardidas, parecendo mais um esquife agourento.
Após montar o cenário, o narrador põe as personagens em movimento.

“A velha corveta enfrenta a calmaria em alto-mar. Às onze horas, em plena indolência, o tenente ordena toque de reunir no convés. Oficiais e marinheiros preparam-se para a cerimônia de punição dos rebeldes. O guardião Agostinho, companheiro respeitado e temido, mestre na chibata, aplicaria as penas, aquilo lhe dava um prazer especial.”

Entre eles, Herculano, com seu rosto imberbe de adolescente. “As unhas metiam náuseas, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.” (p.14)

A razão do castigo é que o grumete fora flagrado por um mulatinho esperto, quando se masturbava:

“Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados”. (p.16)

O mulato chamou o Sant’ana que veio e deu o flagrante. Herculano e Sant’ana brigaram. Por isso, ambos foram a castigo.
Herculano sofreu o seu sem reclamar, mas o Sant’ana tentou justificar-se, desculpar-se, mas de nada adiantou: vinte e cinco chibatadas para cada.

“- Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical.
- Hei de corrigi-los: corja!
Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto.” (p.18)

O terceiro preso a ser castigado é exatamente o protagonista, Amaro, mais conhecido entre os marujos por Bom-Crioulo. Trata-se de um negro, muito robusto e seguro. Calmo quando sóbrio torna-se agressivo quando embriagado.

“Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom-Crioulo ás volta com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha...uma coisa indescritível!” (p. 19)

O motivo de sua prisão agora, no alto-mar, a bordo da corveta, era outro:

“Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe, porque este ousara, sem o seu consentimento, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheiro de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se coisas.” (p.19)

O narrador traduz o sentimento interior de satisfação que toma conta de Amaro, que, se por um lado reconhece que agira mal, por outro está contente porque acredita que vai conquistar o grumete “como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro”.
O guardião Agostinho desfere cento e cinquenta chicotadas sem que o hercúleo Amaro solte um gemido de fraqueza.
Estava terminado o castigo. A população voltava à faina.

CAPÍTULO II

O narrador faz uma retrospectiva, um flash-back, revelando a história de Amaro: aparecera no Rio de Janeiro vindo não se sabe de onde. Negro fugido, fora recrutado pela Marinha e apaixonara-se logo pela vida de bordo. Era uma liberdade tão grande para quem passara toda a vida na fazenda, preso ao cabo da enxada! Ganhou logo a afeição dos oficiais; nunca dava trabalho e aprendia rápido. Isso lhe valeu o apelido de Bom-Crioulo.

“Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga. – E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia de amanhã!” (p. 22)

Durante o período de aprendizado, sonhava com poder embarcar definitivamente. Quando isso aconteceu, rapidamente ganhou a amizade e o respeito dos companheiros do cruzador de alto-mar, pela sua seriedade e força bruta.
Depois, sonhou em embarcar no navio do Almirante Albuquerque, que diziam recompensar bem seus bons marinheiros.
Quando embarcara na corveta, já tinha trinta anos, era marinheiro de segunda classe.
Com o passar do tempo seu comportamento começa a mudar. Descuidava-se da qualidade de seus serviços. Torna-se lento no cumprimento das obrigações: lerdava no mastro e mostrava-se aborrecido com as tarefas.
Diziam uns que a cachaça estava a perder o negro; outro, porém, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, desde que Aleixo, o menino que embarcara como grumete no Sul.

“O certo é que o garoto de quinze anos abalara a alma de Amaro, dominando-a, como a força de um imã. (...) Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.” (p. 26)

“Bom-Crioulo não se importava com os comentários, desde que não lhe viessem dizer na cara, senão veriam!”

Nota-se no fragmento transcrito uma das mais importantes características do Naturalismo. O narrador, como um cientista, friamente, tecnicamente, procura falar do assunto racionalmente, demonstrando uma visão de mundo materialista em que predomina a preocupação com o aspecto fisiológico, próprio do clínico-geral.
Aleixo era filho de uma família pobre de pescadores. A princípio, Bom-Crioulo o assustara, mas foi se acostumando aos carinhos e à solicitude de Amaro.
Amaro, para mostrar ao grumete de olhos azuis o seu poder sobre os outros e também sua afeição, esmurra o segunda-classe, que ousou maltratá-lo.
Ao regressar do Sul, comenta o narrador, Amaro está mais forte, mais viçoso, mais homem. Já não revela mais tanta obediência, tanto respeito no tocante à disciplina.
Tornou-se um tipo comum, como a maioria dos marinheiros, já fala mal dos oficiais na ausência deles, trata-os com desdém. Após ser castigado por um comandante, de nome Varela, por ter agredido outro marinheiro, Amaro torna-se preguiçoso, insubmisso, ressentido e deixa de se importar com seus deveres, passava um mês no hospital, outro a bordo, outro de licença em terra, resmungando:

“Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse quer não trabalhasse. -...que os pariu!” (p. 28)

O fato do texto estar entre aspas (além disso, no original, está depois do travessão) caracteriza a fala da personagem em discurso direto. Então deveria estar “Tolo é quem se mata...”, mas o escritor colocou os verbos no passado, como se o narrador estivesse reproduzindo a fala da personagem em discurso indireto. Temos então uma contaminação do discurso do narrador pelo da personagem.

CAPÍTULO III

A narrativa retorna ao tempo presente, isto é, ao momento final do primeiro capítulo, logo após o castigo dos três marinheiros. Todos na corveta regozijam-se com a esperança de chegar em breve à baía da Guanabara. Todos não, há um que preferia passar a vida toda no mar: Amaro. “Como haveria de ser a vida em terra depois de ter conhecido o grumete?

“Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno desta única ideia – o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... – Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas, enfim, ia-se vivendo...E agora! Agora...hum, hum!...agora não havia remédio: era deixar o pau correr...” (p. 29)

Neste fragmento, a exclamação indica que houve mudança abrupta, marcada por um travessão, mas no meio da frase, sem abrir outro parágrafo e sem qualquer verbo de elocução. Quem está se expressando é Amaro.
No trecho final, tanto as hesitações, os pensamentos incompletos, a interjeição “hum, hum” que indica dúvida e impaciência do próprio protagonista.
Não entendia o que estava acontecendo. Nas duas únicas vezes que se metera com mulheres na vida, foram fracassadas.
Amaro passa o dia todo torturado por um incontrolável “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo”.
Aleixo, por sua vez, ia satisfeito com a vida de grumete. Era o preferido dos oficiais, sempre muito asseado e composto.
Bom-Crioulo era o responsável por aquela transformação; ele ensinara o menino a se vestir, a conquistar simpatias.
Dera a ele um espelhinho, ensinara-o a dar laço na gravata, a usar o boné de lado, a camisa um bocadinho aberta.
Um belo domingo, o rapaz aparece tão lindo em seu uniforme branco que Amaro “ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo”. (p. 31)
Nesse mesmo dia, depois de terminada a leitura do Regulamento e feita á revista, Bom-Crioulo chama Aleixo à proa e entram numa longa conversa em que o negro propõe ao rapaz para morarem juntos, quando voltarem a terra.
Propôs protegê-lo e ensiná-lo a viver no Rio de Janeiro. Aleixo deixava-se levar pelos planos do amigo e fantasiava a vida na capital: morariam juntos em um quarto da Rua da Misericórdia. Conversavam e assistiam à passagem de um transatlântico carregado de imigrantes quando, de repente, o tempo mudou; uma montanha de nuvens se aproximava, viria uma tempestade. O navio agitava-se, preparando-se para a luta contra a natureza.
Durou uma hora e meia o aguaceiro, até que o sol iluminou de novo o horizonte, só o vento persistia.
Depois, os marinheiros aproveitaram o luar e a noite para festejar. Menos o Bom-Crioulo, que cansado do extenuante trabalho, desceu as escadas em busca de abrigo e descanso. Ele e Aleixo, bem próximos, conversaram sobre a tempestade e trocaram histórias até o anoitecer.
O ambiente era frio, úmido. A coberta era nauseabunda, um cheiro acre de suor, urina e alcatrão misturados empesteava o ambiente. Naquela noite, queria resolver logo aquilo, não podia esperar mais. Esgueirava-se entre as macas, procurando Aleixo.
Não se viam, apenas adivinhavam-se por baixo dos cobertores.

“Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer coisa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo; o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios...; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse – uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
- Ande logo!Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.” (p. 37/8)

CAPÍTULO IV

O dia seguinte amanhece luminoso. Chegam ao Rio de Janeiro e Amaro sentia um misto de alegria e preocupação. Depois de mais de seis meses de escravidão no mar, isso que chamavam “servir à pátria”, enfim chegava à terra firme. No entanto, em vinte e quatro horas pode ver-se separado de seu grumete por ordens superiores. Por outro lado, alegra-se com a prova de amor que recebera:

“Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurava nas mulheres”. (p. 40)

O narrador reproduz seu monólogo interior, em que procura justificar seu desvio, tomando como exemplo o comportamento de outros, como o de um oficial.

“Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...” (p. 40)

Vem a tarde, mas recebem ordem para não desembarcar. Amaro dorme pesado, pois está cansado. Ao acordar, irrita-se pois tivera um verdadeiro esgotamento de líquido seminal. Irrita-o mais ainda o fato de não ter sentido gozo. Levanta-se, arruma suas coisas e sai resmungando, ameaçando quem cruzasse com ele. Só o encontro com Aleixo animou-o.

“Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doido.” (p. 41)

Enfim puderam descer. Passaram pelo decadente Largo do Paço, beberam alguma coisa e foram andando para a Rua da Misericórdia. Pararam defronte de um sobradinho, próximo ao Arsenal de Guerra. Em baixo, moravam uns pretos de Angola. Em cima, a D. Carolina, uma senhora redonda e meio idosa, que abraçou com alegria o Bom-Crioulo. Era uma portuguesa que alugava quartos. Não discriminava os fregueses.
O narrador faz uma retrospectiva, revelando que a portuguesa quando moça, já tivera seu bom período de aparência, uma casa na Rua da Lampadosa, chamavam-na Carola Bunda, tivera dinheiro ganho na prostituição, tivera homens, mas também adoecera e conhecera infortúnios.
Depois tropeçara pela vida, foi para Portugal, retornou ao Brasil, e agora vivia da renda dos aluguéis e da ajuda de uma amante, um açougueiro, senhor Brás, que aparecia às vezes e contribuía com cento e cinquenta mil réis “para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente”. Contava, então, com o dinheiro dos aluguéis para segurar sua velhice.
Estimava o Bom-Crioulo desde o dia em que ele a salvara, na rua, de dois pilantras que a assaltavam e podiam até matá-la. Tornaram-se íntimos e, desde então, Amaro só se hospedava na Rua da Misericórdia.
Enquanto Bom-Crioulo contava a D. Carolina seu caso com o grumete, Aleixo reparava na decoração da sala de jantar. Tudo cheirando a sebo e cânfora, velho, poento e incolor.
Os marinheiros foram arranjados no comodozinho de cima, onde podiam ficar mais a sós.

CAPÍTULO V

“O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente.” (p. 47)

O leito era uma cama dobrável muito usada, sobre a qual Amaro de manhã cobria com um grosso cobertor encarnado para esconder as nódoas.
Durante meses viveram ali uma vida tranquila. Bom-Crioulo enfeitou o quartinho com bugigangas. Cumpriam seus deveres a bordo e vinham á terra duas vezes por semana.
O grumete levava uma vida de felicidades. Era estimado por D. Carolina e como era comportado e asseado, tornou-se protegido dos oficiais.
Uma coisa apenas o incomodava: os caprichos libertinos de Amaro, pois este não se contentava só em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, “queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”, como quando exigiu que o rapaz se mostrasse para ele nuzinho em pêlo. Apesar da vergonha, Aleixo cedeu, revelando um corpo muito alvo, as formas “roliças de calipígio” (belas nádegas).

“Bom-Crioulo” ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles...Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...”(p. 48/9)

Os desejos de Bom-Crioulo eram de touro! D. Carolina chamava o rapazinho de olhos azuis de “Bonitinho” e desdobrava-se em carinhos para ele.
Certo dia a corveta entrou para os diques.

“Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.” (p. 50)

Com a embarcação parada para reparos, os marinheiros ficam à solta. Amaro torna-se trabalhador de novo, obtendo concessões de imediato e, assim, multiplica os passeios à terra. Já faz quase um ano que está nessa vida. Começa a sentir-se magro e tem uma fraqueza e uma sonolência profunda, mas isso não chega a preocupá-lo, pois vive em paz de espírito vendo crescer a seu lado o Aleixo.

“Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelos de amante apaixonado.” (p. 51)

D. Carolina, vendo a permanência dessa ligação, brinca com eles:

“Vocês acabam tendo filhos”.

Mas, certo dia, a corveta saiu do dique e Amaro se viu surpreendido, nomeado para outro navio, um grande navio de guerra. Ficou furioso por ter de se separar do seu amigo. Ameaçou-se, caso se engraçasse com algum oficial. E foi-se, triste, servir na sua nova casa no mar.

CAPÍTULO VI

No dia seguinte, Aleixo não encontrou o Bom-Crioulo no quarto. Adormeceu, esperando pelo negro. Quando acordou, ele não havia aparecido. Não importava, afinal não era impossível viver sem Amaro. Na verdade, nos últimos tempos, pensava mesmo em arranjar alguém melhor, de posição.
Seus pensamentos são interrompidos pela presença da portuguesa. D. Carolina, aproveitando-se da ausência do negro, inicia um processo de sedução do rapaz.
Conversaram enquanto ele se arrumava para uma volta no Passeio Público. Ela queria lhe falar quando voltasse.
Ele saiu, ela se perdeu em seus pensamentos: há dias metera na cabeça conquistar Aleixo. Tinha 38 anos, não estava tão acabada assim, e cansara dos marmanjos.

“Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, o bonitinho, tomá-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga – dando-lhe tudo enfim.” (p. 55)

A portuguesa torna-se muito meiga com o rapaz, guarda-lhe doces; passa ela mesma a ferro os lenços dele. Fingindo-se distraída, vai revelando-lhe pernas, braços, seios.
Um dia, Aleixo passa pelo corredor e dá com a porta aberta dos aposentos da mulher, que, na cama dormia com as pernas de fora, metida numa camisa curta. Ele excita-se, mas nem sonha que ela possa dar atenção a ele, ainda imberbe.
Quando ele voltou do Passeio, a portuguesa levou-o para o seu quarto com uma larga cama de casal. Elogiou-o, disse que estava apaixonada e passando das palavras à ação.

“Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar aí assim, torpemente, como um animal.
- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha...Anda, que eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar as ideias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.
Ela de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar!
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina – valia a pena decerto uma noite como aquela!” (p. 58/9)

Combinaram se encontrar quando Bom-Crioulo não viesse á terra.
No outro dia, Aleixo sai de casa, pálido, com grandes olheiras, pensando:

“Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais com aquele negro, ah! Que felicidade!”

E a figura da mulher dançava em sua imaginação como um sonho diabólico.

CAPÍTULO VII

O narrador dirige o foco da narrativa para o Bom-Crioulo que sofre insatisfeito a vida dura no couraçado para o qual foi transferido. Enchia-se de ódio contra os superiores. Revoltava-se contra o quartel-general que o mandara da corveta para o couraçado. Fantasia desertar e fugir com o pequeno:

“Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...” (p. 60)

A vigilância acontecia porque já no primeiro dia o crioulo fora recomendado ao imediato em bilhete especial.

“Muita cautela com o Amaro. É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos”.

Por isso os oficiais precaveram-se contra ele e não queriam deixá-lo desembarcar. Ficou assentado que ele teria folga só uma vez por mês. Amaro suportou três dias, mas no quarto, um sábado, pediu permissão para desembarcar. Como lhe recusaram, no dia seguinte, pela manhã, ofereceu-se para remar no escaler que ia às compras. Ao atracar, pediu permissão para “fazer uma necessidade” e fugiu direto para o seu quartinho, mas não encontrou Aleixo.

“Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando...O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa de água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.
- Eu faço ideia!...murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual! Eu faço ideia...” (p. 61)

Depois disso, acendeu um cigarro e deitou-se, só acordando ao meio-dia, quando foi chamado por D. Carolina. Conversaram e Amaro indaga sobre seu amante, mas a portuguesa mente, dizendo que o rapaz viera só um dia, na quinta-feira.
Amaro sai para comer alguma coisa e vai ruminado:

“Precisava tomar uma resolução, abandonar Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranquilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...” (p. 63)

Um amontoado de gente atrai Amaro, que se espanta de ver dois guardas tentarem inutilmente levantar um homem “acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensanguentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas”. (p. 64)

Amaro salta no meio e levanta o homem com as duas mãos, transportando-o assim até a Santa Casa de Misericórdia, como se pegasse uma criança, assombrando o povo com sua força. Depois toma um gole de cachaça e só com isso fica alterado. Resolve ir direto para bordo: “Vou porque quero, porque sou livre”.
Eram duas horas da tarde dominical e quase todo o comércio já estava fechado.
Desceu cambaleando para o Largo do Paço, com a mente turva, e os cachorros da rua começaram a provocá-lo.
No cais, grita para os marinheiros de um escaler, que fingem-se de distraídos, fazendo rir a um português que assistia à cena. Amaro descarrega no português a sua raiva. Brigam durante longo tempo e atraem a atenção dos curiosos, que formam um ajuntamento. O crioulo puxa uma navalha e o português foge.
Aproximam-se policiais e Amaro, que já estava de navalha em punho, enfrenta-os.
Aparece um primeiro-tenente da marinha, com mais seis marinheiros, prendendo Amaro como se fosse um animal feroz.

“Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...” (p. 68)

CAPÍTULO VIII

“O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, falavam-se coisas...” (p. 68)
Amaro sente por ele uma repugnância instintiva:
“Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente”.

Essa noite dorme Amaro em uma jaula de ferro estreita e sem luz, onde mal cabe um homem. Trancado ali, imóvel, com pés e mãos presos, só conseguiu adormecer de manhã, quando os outros já acordavam. Durante o sono, teve pesadelo com o português da briga. Iam se pegar de novo, mas Aleixo interferia impedindo o confronto. Eram onze horas, quando Amaro, ainda em jejum, foi retirado para o castigo.

“- Não se iluda a guarnição deste navio! Perorou o comandante. Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se iludam...” (p. 70)

Como da outra vez, Amaro recebeu as chibatadas sem um grito de dor. Quando terminou, o negro rodou e caiu sobre o convés, porejando sangue. Todo seu couro estava cortado pela chibata. Caiu quando já não restava qualquer energia no organismo e a dor sobrepujara a vontade. Vem o médico, aplica-lhe água com éter. Depois, Amaro é levado em um escaler para o hospital em terra.
Aleixo, naquele dia, estava de folga e aproveitou para visitar a portuguesa. Vai com medo de encontrar Bom-Crioulo e de ter de enfrentar os seus caprichos. Após descobrir o sexo heterossexual com a portuguesa, o rapaz “ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar”. Sente que nunca o estimara.
Por sorte, encontrou D. Carolina a lavar roupa, conversam sobre o negro, rindo-se dele. Em seguida, ficou admirando a beleza do corpo da portuguesa, sua pele alva, enquanto ela terminava o serviço.
Sentiam uma atração irresistível.
D. Carolina ao ver o rapaz sente desejo de tomarem banho juntos, ali mesmo. Aquele amante moço fazia D. Carolina remoçar, como se fosse um milagroso afrodisíaco.

“Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos, Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo tinha formas de mulher.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente – o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.” (p. 73)

Aleixo se comprazia naquele relacionamento com uma mulher mais experiente, sentia “um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-la, de cheirá-la, de palpá-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável”. (p. 74)

Aleixo mesmo naqueles momentos com a portuguesa, não podia esquecer de todo seu antigo amante. A figura do negro acompanhava-o com uma insistência de remorso. Tinha medo do gênio rancoroso e vingativo do outro. Isso fazia com que suas expansões com a portuguesa fossem incompletas.
A mulher, no entanto, não parecia preocupar-se muito com isso.

Toda a noite foi um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...” (p. 75)

CAPÍTULO IX

Enquanto isso, no hospital, Bom-Crioulo sofria longe de seu amado, ouvindo gemidos aborrecedores e alimentando-se parcamente.
A lembrança de Aleixo não lhe saía da cabeça. Sonhava com a liberdade e com o amor do grumete.
O negro evitava a todos com seu olhar ameaçador e seu jeito carrancudo.
À noite, sozinho, sentia uma mistura de tristeza, desgosto e ódio: o companheiro não o procuraria? Teria arrumado outro?
Não conseguia apagar do espírito o mau pensamento de ver seu garoto nos braços de outro homem. Torturava-o o terrível ciúme.
Na enfermaria, nem a bela paisagem que se via da janela o animava.
Seu consolo era um retrato do Aleixo, uma fotografia barata tirada na Rua do Hospício, quando ele e o rapaz moravam juntos na corveta. Ao deitar-se beijava com carinho aquele retrato.
Angustiado, Amaro lembra-se de pedir a um empregado do hospital para escrever um bilhete ao Aleixo. Dita suas queixas e faz um pedido ao rapaz para que venha fazer-lhe uma visita no dia seguinte, que era um domingo.
Enviou o bilhete ao amigo e ficou esperando, sôfrego e apreensivo, uma resposta que não veio.
Aquele desprezo o encheu de cólera.

“Passou á hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! Nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! – Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Veio á noite e a madrugada, mas nada do Bom-Crioulo dormir ou afastar do espírito a imagem importuna do ingrato namorado. Essa imagem o torturava, borboleta importuna a voejar em torno do desprezado.” (p. 79)

Nos dias seguintes, tentou esquecer, em vão, aquele vício, aquela paixão, aquela loucura que ele, tão forte, não conseguia dominar. Começou a pensar numa maneira de fugir do hospital.
Os dias passavam e a existência tornava-se cada vez mais insuportável. Uma noite foi preso quanto tentava escalar o muro do hospital...

CAPÍTULO X

D. Carolina e Aleixo viviam felizes, agora que a figura do negro desaparecera de suas vidas.
Aleixo encorpara, estava virando homem. O sotãozinho estava abandonado; viviam juntos no quarto dela. Aleixo, com ciúmes, quis que ela abandonasse o Manoel, que lhe ajudava a sustentar a casa. Ela disse que sim, mas às escondidas, encontrava-se com o amante para poder equilibrar o orçamento.
A vida era uma embarcação em mar de rosas. Até que chegou às mãos da portuguesa o bilhete do Bom-Crioulo.
D. Carolina rasgou-o em pedacinhos, mas depois ficou pensando, inquieta: tinha medo do que poderia acontecer se Amaro descobrisse tudo, cenas de sangue vinham-lhe à cabeça. Naquela noite, quase não conseguiu dormir.
No dia seguinte, Aleixo estranhou encontrar a porta da rua fechada, assim como os carinhos tantos que ela lhe dispensava naquela tarde. Entregava-se a ele quase maternalmente, para dissipar os temores do bilhete.
Como não dissesse nada, o rapaz amuou. O jantar foi de cara amarrada. Enfim, ele resolveu contar-lhe tudo. Aleixo surpreendeu-se: então Bom-Crioulo ainda pensava nele! Discutiram o assunto e resolveram esquecê-lo. Decidiram sair ao Passeio Público, para aproveitar a noite e espairecer.

CAPÍTULO XI

Ódio, amor e ciúme confundiam-se nos sentimentos de Bom-Crioulo. No hospital, durante o dia, ainda tentava se esquecer de Aleixo, mas à noite era tomado por um desespero incrível, agravado por feridas que haviam brotado por todo o seu corpo e não o deixavam dormir, tal a coceira provocada pela sarna.
Era um sábado, feriado, quando Bom-Crioulo reconheceu entre os marinheiros visitantes do hospital o Herculano, o Pinga da corveta! Foi ele quem lhe disse que Aleixo reinava na embarcação, muito íntimo dos oficiais, e que parecia amigado de uma rapariga em terra.
Bom-Crioulo ouviu aquilo engolindo uma onda de cólera. À noite, fugiu. Queria vingar-se; queria agora gozar o grumete maltratando-o, fazendo-o sofrer!
Planejou a fuga com cuidado; foi para as praias da ilha e ficou esperando o amanhecer, o descortinar-se dos Órgãos, de Niterói, da Barra, do Pão de Açúcar.
Conseguiu que um velho galego o levasse ao continente em um bote. Estava um dia lindo, um dia de galas e de liberdades!

CAPÍTULO XII

Bom-Crioulo chegou cedo à Rua da Misericórdia.

“É bem cedo e há pouco movimento na Rua da Misericórdia. Homens mal vestidos, operários e ganhadores, descem a rua numa lentidão arrastada. A vaca de leite, com as grandes tetas pesadas, passa no seu giro cotidiano, dócil, a baba a escorrer-lhe do focinho em fios de espuma. A carroça do lixo anda na sua faina matinal, parando aqui e ali. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração.” (p. 97)

Aqui temos algumas marcas típicas do gosto naturalista. Ao contrário do escritor romântico que dirigia o foco de suas lentes para aspectos bonitos e agradáveis da realidade, como que fazendo um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro, o naturalista registra o feio, o desagradável com objetividade.
Abrem-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, e, assim como a luz, o movimento de transeuntes vai aumentando. Daqui e dali, surgem caras estranhas e amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço. A vida recomeça. E é nesse quadro que se recorta a figura de Amaro, seguindo em direção ao sobrado. Quando o vê, diminui o passo. Vem-lhe uma saudade! Foi ali que ele viveu o melhor de sua vida. Ali tinha aprendido a amar, a querer bem. Recorda toda sua aventura com o medido bonito. Mas quanto mais lembrava o passado, mais o ódio tomava conta dele. Não conseguia fixar seu olhar em nada.

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma coisa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue...” (p. 99)

Ao chegar, Amaro depara com a porta do sobrado fechada. Dá meia-volta e vai andando rua acima, meio sem rumo. De repente, dá com a padaria que fica quase defronte da portuguesa. Entra e puxa conversa com o funcionário, perguntando sobre a portuguesa e Aleixo. O que ouve deixa-o estarrecido:

Acordam tarde. Ultimamente a porte vive fechada. Costumam sair juntos à noite...” (p. 99)

Amaro não quer acreditar e pede mais informações e o outro não se faz de rogado>

“Foram ao teatro, ontem, à “Tomada da Bastilha”. Conheço muito a D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...” (p. 100)

No exato momento em que estão conversando, o funcionário mostra a Amaro que o rapaz está saindo do sobrado. Bom-Crioulo salta até Aleixo e inicia-se uma discussão de amante desprezado e enciumado, atraindo muita gente.
Forma-se um grande círculo em volta dos dois marinheiros, invisíveis agora. Começou um tumulto, um alvoroço, guardas aparecem.
De repente o povo recuou abrindo caminho, a portuguesa apareceu na janela e gritou: “Jesus!” Viu, no meio de duas fileiras de curiosos, o corpo ensanguentado do grumete.

“Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, os olhos imóveis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a calça branca tinham grandes nódoas vermelhas. O pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caíam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.” (p. 101)

“Ninguém se importava com o outro, com o negro, que lá ia, rua abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos porém, todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, até caiu tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.” (p. 102)

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Massaud Moisés vê no “Bom-Crioulo” um romance que “focaliza o problema da escravidão, segundo um prisma abolicionista e republicano”. No entanto, a história do “negro fugido” Amaro não nos parece ter como eixo central o problema da escravidão.
Sem dúvida que esse problema aparece no romance e que a posição do autor é abolicionista e republicano.

“A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença. (...) Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa. (...) Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias – o mesmo serviço, a mesma folga.”


É importante observar que o retrato do imperador D. Pedro II, no quarto de Amaro, tão bem visto por este no capítulo VII do livro, poderia ir contra esta ideia e dar a entender que o livro é anti-republicano. Pelo contrário, o retrato do imperador reinando em um ambiente tão promíscuo e decadente como o quarto do sobradinho, não seria mais que alegórico de Sua Majestade a reinar em um país decadente, enfeitado por “móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor muita vez trazidas de bordo...”

Outra temática importante a analisar é a negritude de Amaro. Se a posição do autor é francamente favorável a ele nesse aspecto em alguns momentos do romance (“...o drama do cativo parece avultar na medida de suas qualidades pessoais...”, bem notou Massaud Moisés), se algumas vezes surge sua figura como heróica (o mais forte marinheiro, o episódio de socorro a D. Carolina ou ao transeunte com gota), nem por isso o autor deixa de descrever o Bom-Crioulo com todos os preconceitos de sua época e das teorias deterministas de Taine. Como exemplo disso, vejam-se algumas expressões retiradas de certas passagens do livro, referentes a Amaro: “não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue”, “desejo de posse animal”, “se os brancos faziam, quanto mais os negros!”, “momentos há em que os próprios animais caem extenuados”, “cousas do caráter africano”, “ignorante e grosseiro”, “desespero hidrofóbico”, “orgulho selvagem de animal ferido”, etc.

Segundo Antonio Candido:

A orientação científica se apresenta como interpretação objetiva do comportamento das personagens, mas adquire logo matizes valorativos, na medida em que naquele tempo esta modalidade de interpretação tinha uma função desmistificadora, sendo ruptura com o idealismo e esforço para enxergar a vida na sua totalidade (...)”

A questão da negritude, porém, é secundária. “Bom-Crioulo” filia-se, sem dúvida nenhuma, à corrente naturalista que se preocupava com “temas singulares, extraordinários, frequentemente patológicos” (Erich Auerbach).

O tema central do romance é o homossexualismo, a pederastia.
Caminha tenta ser o mais imparcial possível, atendo-se à observação pura e simples, como bom naturalista. Afinal, “ninguém está livre de um vício”. Mas esta mesma palavra – “vício” – já denota uma postura negativa em relação ao assunto. E o que se lê sempre, nas linhas e entrelinhas, é não só o homossexualismo, mas o sexo em geral, tratado como desvio, forma animalesca de estar no mundo.

Nessa obra a linguagem, a construção dos personagens e do espaço são perpassados pela ideia de que o homossexualismo leva a uma degeneração do ser humano. Apenas para corroborar essa ideia, veja-se o comentário a seguir, em que se analisa a decadência do Bom-Crioulo a partir do momento em que passa a ter uma relação estável com Aleixo no sobradinho de Carolina; decadência que só irá se prolongar, física e mentalmente, até o final do romance:

Ultimamente [Amaro] começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longes de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos...Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia (...)”

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

"OS SERTÕES", EUCLIDES DA CUNHA

I – BIOGRAFIA:



Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. Foiescritor, professor, sociólogo, repórter jornalístico e engenheiro, tendo se tornado famoso internacionalmente por sua obra-prima, “Os Sertões”, que retrata a Guerra dos Canudos.


Cronologia:

1866 – Nasce no dia 20 de janeiro, na Fazenda Saudade, em Cantagalo, região serrana no vale do rio Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro, onde vive até os três anos, quando falece sua mãe. O autor e sua irmã, Adélia, passam a viver, em 1869, com seus tios maternos, Rosinda e Urbano, em Teresópolis (RJ).

1871 - Com a morte da tia, Rosinda, vão morar com os tios maternos, Laura e Cândido, em São Fidélis (RJ).

1874 - Inicia os estudos no Instituto Colegial Fidelense.

1875 - Seu pai, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, tem o poema “À morte de Castro Alves” publicado na segunda edição de “Espumas flutuantes”, do poeta baiano, prematuramente falecido.

1877 - Estuda no Colégio Bahia, em Salvador (BA), durante um breve período em que morou naquela cidade, na casa de sua avó paterna.


Euclides da Cunha aos 10 anos


1879 - Muda-se para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), e estuda no Colégio Anglo-Americano.

1883 - Estuda no Colégio Aquino, e escreve seus primeiros poemas em um caderno, ao qual dá o título de “Ondas”.

1884 - Publica em “O Democrata”, jornal dos alunos do Colégio Aquino, seu primeiro artigo.

1885 - Ingressa na Escola Politécnica para cursar Engenharia. Frequenta somente por um ano, pois é obrigado a desistir por motivos financeiros.

1886 - Matricula-se na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, no curso de Estado-maior e Engenharia Militar da Escola Militar, medida adotada porque a Escola pagava soldo e fornecia alojamento e comida. Tinha, entre seus colegas, Cândido Rondon, Lauro Müller, Alberto Rangel e Tasso Fragoso.

1887 - Passa, por três vezes, pela enfermaria da escola. Pede licença de dois meses para tratar da saúde.

1888 - Sua matrícula na Escola Militar da Praia Vermelha é trancada, face ao ato de protesto durante uma visita do Ministro da Guerra, conselheiro Tomas Coelho, do último gabinete conservador da monarquia. Os alunos em forma, numa revista de mostra, "fuzis perfilados em continência nos ombros", com sabre engatado na espingarda, saudavam a autoridade monárquica. Ao passar diante do ardoroso jovem republicano, Euclides da Cunha, este atirou a arma aos pés do ministro (ou o sabre?). O fato é conhecido como "episódio do sabre". O ato de indisciplina levou o cadete à prisão, transferido, logo depois, para o Hospital Militar do Castelo, em respeito ao laudo médico que atestava esgotamento nervoso por excesso de estudo. Diante dos juízes, o destemido Euclides confirmou sua fé republicana, sendo então transferido para a Fortaleza de São João, aguardando conselho de guerra, cujo julgamento não se realizou, pela intervenção de muitos. D. Pedro II lhe perdoou. Em 11 de dezembro, foi cancelada sua matrícula.
No final de 1888, o jovem Euclides estava em São Paulo. Dia 22 de dezembro, iniciou sua colaboração no jornal "A Província de S. Paulo", escrevendo sob o pseudônimo de Proudhon (escritor francês [1809 - 1865], um dos teóricos do Socialismo que proclamou ser a propriedade privada um roubo, pregando uma revolução que igualaria os indivíduos). Colaborou até maio.

1889 - Retorna à Escola Militar da Praia Vermelha, graças ao apoio de seu futuro sogro, o major Sólon Ribeiro e de seus colegas da Escola, que pedem sua reintegração.

1890 - Casa-se com Ana Emília Ribeiro. Conheceu-a na sua casa durante encontros republicanos com seu pai. Numa das visitas deixou a ela um bilhete: "Entrei aqui com a imagem da República e parto com a sua imagem."

1891 - Tira um mês de licença para tratamento de saúde. Viaja com a esposa para a Fazenda Trindade, de seu pai, localizada em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (atual Descalvado), no interior de São Paulo. Morre sua filha Eudóxia, recém-nascida.

1892 - Concluiu o Curso da Escola Superior de Guerra, "de onde saiu com o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais." É promovido a tenente, seu último posto na carreira. Cumpre estágio na Estrada de Ferro Central do Brasil — trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de Caçapava, por designação do marechal Floriano Peixoto. É nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar do Rio. Nasce seu filho Solon Ribeiro da Cunha.

1893 - Escreve artigo com críticas ao governo do marechal Floriano, cuja publicação foi negada pelo jornal “O Estado de São Paulo”.
O presidente, marechal Floriano Peixoto, mandou chamar Euclides, oferecendo-lhe cargos e posições. Euclides apresentou-se com a farda de primeiro-tenente. "Veio em ar de guerra...não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados." - disse-lhe o marechal, declarando que Euclides tinha direito a escolher qualquer posição. "Ingenuamente", o primeiro-tenente, com 27 anos, respondeu-lhe que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil!
Com a Revolta da Armada, que teve início em 06/09, seu sogro é preso. Sua mulher, Ana, refugia-se, com o filho Solon, na fazenda do sogro, em Descalvado (SP). O escritor é designado para servir na Diretoria de Obras Militares.

1894 - É punido com transferência para a cidade de Campanha (MG), por ter protestado, em cartas á “Gazeta de Notícias”, do Rio, contra a execução sumária dos prisioneiros políticos, pedida pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará. Nasce seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho.

1895 - Obtém licença do Exército, por ser considerado incapaz para o serviço militar devido à tuberculose. Vai para a fazenda do pai e se dedica às atividades agrícolas. Cansado, poucos meses após tornar-se lavrador, vai trabalhar como engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras Públicas em São Paulo.

1896 - Desencantado com a República e seus líderes, abandonou a carreira militar. Foi reformado como primeiro-tenente. Em 18 de setembro, foi efetivado na Superintendência de Obras Públicas do Estado de São Paulo, como engenheiro-ajudante de 1ª classe.

1897 - Volta a colaborar no jornal “O Estado de São Paulo”. Júlio de Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", convidou-o a seguir como repórter de guerra para Canudos, no sertão da Bahia (área limitada pelo rio São Francisco, ao Norte e Ocidente, e pelo Itapicuru, ao Sul). Tirou licença na Superintendência para "tratar de interesses", em 1º de agosto. Chegou a Canudos a 16 de setembro, um vilarejo iniciado em 1893, no sertão da Bahia, numa curva do rio Vaza Barris, hoje submerso, coberto pelas águas da represa de Cocorobó. Viu a luta desigual, a morte de amigos, a bravura dos jagunços. Canudos não era um foco monarquista, como dizia Artur Oscar: "Antônio Conselheiro era um monarquista por fanatismo. Seu monarquismo era meramente religioso, sem aderências à política." Euclides viu o final da guerra encerrada aos 5 de outubro. Voltou abalado, fazendo uma promessa: vingar o extermínio de Canudos. “Os Sertões”, seu livro vingador, começava a nascer. Em janeiro de 1902, de Lorena, escreveu a Francisco de Escobar: "(...) Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida - o de advogado dos pobres sertanejos assassinados por uma sociedade pulha e sanguinária."

1898 - Reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Publica em “O Estado”, o “Excerto de um livro inédito”, trechos de “Os sertões”, em que defende a tese de que o sertanejo é um forte, cuja energia contrasta com a debilidade dos “mestiços” do litoral. A ponte recém-inaugurada, construída em São José do Rio Pardo (SP), em parte sob a fiscalização do escritor, desaba, levando o biografado àquela cidade para acompanhar o desmonte. A demora nos trabalhos faz com que o escritor mude-se com sua família para aquela cidade, onde fica até 1901. Profere palestra no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre a “Climatologia dos sertões da Bahia”, e propõe a construção de açudes para resolver o problema das secas no Nordeste. Grande parte de “Os sertões” é escrita em São José, com a colaboração do prefeito da cidade, Francisco Escobar, que se tornara amigo do escritor.

Ponte de São José do Rio Pardo-SP.


Diziam, na cidade, que Ana Emília foi muito falada. Ela abominou a cidade e não perdeu oportunidades para diminuí-la, declarando aos jornais, sem argumentos, que “Os Sertões” não foi escrito em Rio Pardo. Mais tarde, criticou o Grêmio Euclides da Cunha, que lhe enviava, com regularidade, os convites das festas euclidianas. Sua filha, Judith, nascida do casamento com Dilermando de Assis, autora do livro “Anna de Assis - História de um Trágico Amor”, escreveu:

"Enquanto a mulher do fim do século se escondia na cozinha, (...) Anna de Assis foi para a sala de visitas palestrar com um Machado de Assis, um Barão do Rio Branco (...). Mulher audaz, independente, morando numa cidadezinha pequena e provinciana como São José do Rio Pardo, teria seus momentos ímpares confundidos pela mente pequena e bitolada daqueles que não enxergavam o horizonte (...). Ali naquela cidadezinha, Anna de Assis deixou a imagem de uma mulher fútil e namoradeira. Conclusão chegada porque se postava à janela e alegre e moderna, não se escondia dos homens. (...)".

1900 - Falece, em Belém, o General Solon Ribeiro, sogro do biografado. Finaliza, em maio, a primeira versão de “Os sertões”.

1901 - É nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas, com sede em São Carlos do Pinhal (SP), onde conclui “Os sertões”. Nasce seu filho, Manuel Afonso Ribeiro da Cunha. Assina contrato com a editora Laemmert, do Rio, a publicação de 1.200 exemplares de “Os sertões”, assumindo o compromisso de pagar a metade dos custos de edição, 1conto e quinhentos mil réis, quase o dobro de seu salário de engenheiro.

1902 - Em outubro, na Editora Laemmert, no Rio de Janeiro, Euclides encontrou erros no seu livro. Preocupado e perfeccionista, corrigiu, com paciência monacal, com canivete e tinta nanquim, 80 erros em cada um dos mil e duzentos livros da 1ª edição. “Os sertões (Campanha de Canudos)” chega às livrarias em dezembro, sendo recebido com aplausos e restrições pela crítica.

1903 - A primeira edição do livro se esgota em pouco mais de dois meses. Começa a tomar notas para a “História da revolta”, livro sobre a rebelião da Marinha, que combateu no Rio, como oficial do Exército, de 1893 a 1894. Elege-se para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Castro Alves, e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Face à possibilidade de participar de expedição ao Purus, suspende a redação do livro. Vende os direitos da segunda tiragem de “Os sertões” para o editor Massow. Demite-se da Superintendência de Obras Públicas.

1904 - Participa, através de artigos publicados em jornais, do debate sobre os conflitos para demarcar os limites entre Brasil e o Peru, no Acre. Condena o envio de tropas brasileiras para o Alto Purus e defende uma solução diplomática que permita incorporar o território do Acre. Propõe uma “guerra dos cem anos” contra as secas do Nordeste, que inclua a exploração científica da região, a construção de açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São Francisco para as regiões afetadas pela estiagem. Após trabalhar alguns meses na Comissão de Saneamento de Santos, desentende-se com a diretoria e pede demissão. Sem emprego, volta a escrever no jornal “O Estado de São Paulo” e, também, em “O País”, do Rio. Dificuldades financeiras fazem-no transferir, por uma bagatela, os direitos de “Os sertões” para a editora Laemmert. É nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Parte rumo a Manaus (AM) no dia 13/12.
Ficaria um ano fora. Anna Emília e o caçula Manoel mudaram-se para a Pensão Monat, de madame Monat, à Rua Senador Vergueiro, 14. Solon e Quidinho estavam em colégios internos.

1905 - Anna Emília, com 30 anos, conheceu, na pensão, o belo rapaz loiro, olhos claros, alto, de 17 anos, Dilermando de Assis, cadete da Escola Militar. Apaixonaram-se. A diferença de idades não foi empecilho para o nascer daquele trágico amor. Dilermando era, apenas, quatro anos mais velho do que seu amigo Solon, o primogênito do casal Cunha. Ainda em 1905, Anna, os filhos e o jovem amante mudaram-se para a casa da Rua Humaitá, 67. Nessa época a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.

1906 - Com a saúde debilitada pela malária, no dia 1º de janeiro de 1906, Euclides desembarcou no Rio. Voltava para "as suas quatro e enormes saudades". Anna estava grávida. Dilermando transferiu-se para a Escola Militar do Rio Grande do Sul.
Euclides trabalha como adido do barão do Rio Branco. Trabalha no preparo de documentação necessária à construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. A Imprensa Nacional publica “Notas complementares do comissário brasileiro” sobre a história e a geografia do Purus, incluído no “Relatório da comissão mista Brasileiro-Peruana de reconhecimento do Alto Purus”. Recusa indicação para fiscalizar a construção da ferrovia Madeira-Mamoré.
Euclides não poderia ter mais dúvidas da traição da esposa. Foram muitas as cartas trocadas pelos amantes. As de Dilermando iniciavam-se, sempre, com frases de carinho e ternura: "Minha nunca esquecida e queridinha S’Anninha"; "Minha adorada e sempre idolatrada esposinha"; "Adorada e saudosa esposinha"; " Perene lembrança de meu coração"; "Minh’alma que tanto adoro"... Nasceu Mauro, em julho de 1906, registrado como filho do engenheiro-escritor, que falece de debilidade congênita uma semana após seu nascimento. Tempos depois, afirmará ter tomado remédios abortivos tentando interromper a gravidez e que fora também impedida pelo marido a amamentar a criança, filha de Dilermando. O “Jornal do Commércio” publica “Peru versus Bolívia”. Começa a escrever “Um paraíso perdido”, livro sobre a Amazônia, que não é terminado face à morte do autor. Os originais se perderam. Toma posse, finalmente, na Academia Brasileira de Letras.

1907 - No início de 1907, Dilermando voltou de férias ao Rio. Euclides publica “Contrastes e confrontos”, pela editora Livraria Chardron, do Porto (Portugal). Nasce Luís Ribeiro da Cunha, registrado como seu filho. Os cabelos claros e olhos azuis, que contrastavam com as características físicas de seus outros filhos. Mais tarde, Luís irá adotar já adulto, o sobrenome Assis, de seu pai biológico Dilermando. Profere, com grande sucesso, no Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência “Castro Alves e seu tempo”.

1908 - Escreve o prefácio do livro “Poemas e canções”, de Vicente de Carvalho. Em “Antes dos versos”, expõe sua concepção da poesia moderna. Publica no “Jornal do Commércio”, a crônica “A última visita”, sobre a inesperada homenagem de um anônimo estudante a Machado de Assis em seu leito de morte. O biografado ocupa, por breve período, com o falecimento de Machado, a presidência da Academia Brasileira de Letras. Passa o cargo para Rui Barbosa. Inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio.
Dilermando terminou o curso no Rio Grande do Sul, foi promovido a tenente, voltou ao Rio em 1908, indo morar com o irmão Dinorah, guarda-marinha, aluno da Escola Naval, atleta, jogador de futebol do Botafogo de Futebol e Regatas, no bairro de Piedade, subúrbio carioca.

1909 - Obtém a segunda colocação no concurso. Graças à interferência junto ao presidente da República, Nilo Peçanha, do barão do Rio Branco e do escritor e deputado Coelho Neto, é nomeado para a vaga. Entrega aos editores, Lello & Irmão, as provas de “À margem da História”.
As desavenças entre Anna e Euclides cresciam num relacionamento insustentável. Dia 14 de agosto de 1909, ela abandonou o lar, hospedando-se na casa de Dilermando.
No dia seguinte, Euclides batia palmas no portão da casa 214, da Estrada Real de Santa Cruz, em Piedade, sendo recebido por Dinorah. Anna e os filhos Luiz e Solon esconderam-se na despensa. Euclides entrou. Dilermando ficou num quarto. Armado, Euclides atirou. Dinorah ficou ferido: a segunda bala se alojou na sua nuca. (O atleta, jogador de futebol, gradativamente, foi perdendo seus movimentos. Aleijado, morreu à míngua, como mendigo, suicidando-se no porto, em Porto Alegre). Dilermando recebeu tiros na virilha e no peito. Campeão de tiro ao alvo tentou desarmar o marido traído e desequilibrá-lo, com tiros no pulso e na clavícula. Euclides dera seis tiros. A sétima bala ficou travada. Saindo da casa, o famoso homem que honrou o Brasil com seu livro e seu saber, foi atingido nas costas. Caiu. Levaram-no para dentro. Ao filho Solon, que estava naquela casa, talvez tentando convencer a mãe a voltar ao lar desfeito, o pai moribundo disse: "Perdôo-te". Ao desafeto, "Odeio-te". À mulher: "Honra... Perdôo-te".
Dilermando foi absolvido em 5 de maio de 1911, casando-se com Anna sete dias depois. Abandonou-a em 1926, com cinco filhos. Ela estava com 50 anos, ele, com 36.

Em 1916, o segundo-tenente Dilermando de Assis, que havia sido absolvido da morte do biografado (legítima defesa), mata em um cartório de órfãos no centro do Rio, o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, que tentou vingar a morte do pai. Dilermando é novamente absolvido, pelo mesmo veredicto.
Solon, seu filho mais velho, delegado no Acre, foi assassinado numa tocaia, na floresta, anos depois.

II - BIBLIOGRAFIA:

1902 – “Os Sertões”
1907 – “Contrastes e Confrontos”
1907 – “Peru versos Bolívia”
1909 – “À margem da história” (póstumo)
1939 – “Canudos” (diário de uma expedição) (póstumo) — Reeditado em 1967, sob o título “Canudos e inéditos”.
1960 – “O rio Purus” (póstumo)
1966 – “Obra completa” (póstumo)
1975 – “Caderneta de campo” (póstumo)
1976 – “Um paraíso perdido” (póstumo)
1992 – “Canudos e outros temas” (póstumo)
1997 – “Correspondência de Euclides da Cunha” (póstumo)
2000 – “Diário de uma expedição” (póstumo)

“Os sertões” foi publicado nos seguintes idiomas: alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco.

Reedições mais importantes:

- Quinta edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914.
- Décima segunda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1933
- Vigésima sétima. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963
- Edição crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985; Ática, 1998.
- Edição comentada. São Paulo: Ateliê/Imprensa Oficial do Estado/Arquivo do Estado, 2002.

III – “OS SERTÕES”:



“Aquela campanha foi um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”



A. CARACTERÍSTICAS:

“Os Sertões”, livro posto entre a literatura, um ensaio científico e a sociologia assinala o fim do imperialismo literário e o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira: as desigualdades econômicas, culturais e sociais dos dois brasis – o Brasil litoral e o Brasil sertão.
É a primeira obra a denunciar a miséria e o subdesenvolvimento, fazendo-nos sair do desvanecimento ufanista para a amargura crítica.
O livro é fruto direto de uma série de reportagens escritas para o jornal “O Estado de S. Paulo” no término da Campanha de Canudos-BA, 1897.
A lucidez de análise de Euclides da Cunha está em relatar o conflito com o olhar de um republicano apresentando as causas aparentes e a causa verdadeira desta Revolta, fornecendo ao leitor a real dimensão da história.
Suas razões aparentes foram o fanatismo religioso, o messianismo e o sebastianismo dos sertanejos. Suas razões profundas foram ás mazelas do latifúndio, a servidão, o isolamento cultural, a dureza do meio, o abandono social, a subnutrição, o coronelismo e a ignorância das autoridades.

Segundo Alfredo Bosi:

“Um pensamento curvado sob o peso de todos os determinismos, mas um olhar dirigido para a técnica e o progresso; uma linguagem de estilismo febril, mas sempre em função de realidades bem concretas, muitas das quais nada perderam de sua atualidade.”

Misto de escritor e cientista, Euclides une a paixão pela palavra rebuscada ao rigor científico e à preocupação social. Seu estilo é caracterizado como “Barroco Científico” pelo jogo de antíteses e pelos sinônimos raros. Embora a linguagem tenda para o rebuscamento, mas sem perder a seriedade que o aproxima dos autores modernos, ela consegue ser funcional enquanto registro dos conflitos sociais, dos desvarios psíquicos e do heroísmo anônimo das populações sertanejas.

Dante Moreira Leite analisa como tal experiência repercutiu em uma linguagem muito mais realista e vibrante:

“(...) o estilo de Euclides, capaz de transmitir ao leitor a vibração de revolta diante dos acontecimentos de Canudos; além disso, como o livro pretende ser estritamente realista e, mais ainda, um livro de ciência, a sua prosa dramática adquire, talvez por estar contida nos limites da realidade histórica, uma intensidade que não teria na ficção.” (LEITE, 1983:222)

Na obra de Euclides da Cunha podemos perceber a influência de várias teorias que estavam em voga na época e, por isso, temos que entender como ele entrou em contato com elas. O regulamento implantado em 1874 na Escola Militar da Praia Vermelha, onde Euclides da Cunha realizou seus estudos de engenharia, foi implantado num "ambiente intelectual já permeável às doutrinas cientificistas, de cunho positivista, evolucionista ou determinista." (SANTANA: 35)

O autor era um grande admirador da obra de Victor Hugo, mas buscava outros autores como referência científica para a interpretação da realidade. Taine, Darwin, Comte, Spencer e Carlyle são alguns deles. Entre os pensadores sociais, o autor era leitor fiel de Karl Marx e de Émile Durkheim e do biólogo Ernest Mach.
O contato com as correntes cientificistas e filosóficas não se davam exclusivamente via sala de aula, mas "incorporadas ao cotidiano dos alunos através de revista e sessões de sociedades estudantis, onde se poderiam acompanhar os debates das teorias cientificistas mais modernas, como as de Spencer, Haeckel e Darwin." (SANTANA: 35)

B. ESTRUTURA DA OBRA:

A divisão interna da obra é fruto da influência sofrida por Euclides do historiador francês Taine, o qual formulou no seu livro “Histoire de la Littérature Anglaise(1863)”, a concepção naturalista da história – teoria que defendia que a história é determinada por três fatores: meio, raça e momento.
Tal concepção naturalista foi seguida pelo autor ao dividir “Os Sertões” em três partes correspondentes aos fatores de Taine:
1. “A Terra” (descreve o cenário em que se desenrolará a ação);
2. “O Homem” (completando a descrição do cenário com a narrativa das origens de Canudos, estuda a gênese do jagunço e, principalmente, a de seu líder carismático, Antônio Conselheiro);
3. “A Luta”, dividida em seis subtítulos: “Preliminares”, “Travessia do Cambaio”, “Expedição Moreira César”, “Quarta Expedição”, “Nova fase da lua” e “Últimos dias”, completa por sua vez, o elenco dos personagens esboçado na segunda parte, que estudando-os em conjunto, como no trecho “Psicologia do Soldado”, que em closes particularizantes, como no retrato físico e psicológico do coronel Antônio Moreira César.

Essa divisão geral, contudo, não obedece a critérios tão rígidos quanto os títulos e subtítulos parecem dar a entender. Apontado como uma das causas geradoras do drama que constitui a razão de ser do livro, como o motivo do isolamento ou insulamento, como prefere Euclides, que distanciou, mais no tempo do que no espaço, o homem do sertão de seu irmão do litoral, o cenário transforma-se frequentemente em personagem da própria ação que sobre ele se desenrola.
Sobrepõe-se então, por vezes, à luta, ou integra-se nela, alterando-lhe até os rumos, como uma milícia fantástica que, aliada ao jagunço, com quem se entende, investe contra o invasor que fatalmente irá transformá-lo em deserto.
É também do historiador francês a citação que consta na nota preliminar do livro a qual traz a ideia que o “narrador sincero” deveria ser capaz de se sentir um bárbaro entre os bárbaros, com um antigo entre os antigos. A “Nota Preliminar” da obra mostra, de uma maneira resumida, qual é o instrumental teórico do autor. Quando Euclides usa termos como “sub-raça sertaneja”, ele admite ser adepto tanto do determinismo biológico quanto do darwinismo social. A marcha da civilização avançaria inexoravelmente sobre o sertão “no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes” (GALVÃO, 1998: 14), porém, a Campanha de Canudos constituía em um retrocesso, um crime. Este é o primeiro grande contraste de uma obra cheia deles: os homens desenvolvidos do sul e do litoral que deveriam civilizar a sub-raça que vivia isolada na “terra ignota” do interior, leva na verdade a morte para homens, mulheres, velhos e crianças.

PRELIMINARES

“O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando o consideravelmente para o interior.
De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a princípio o traço contínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias; depois, no segmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando-se em baias, repartindo se em ilhas, e desagregando se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...(...)”


Observe que Euclides da Cunha dá tratamento literário a uma descrição em princípio, eminentemente científica. É o que ocorre na caracterização do litoral “revolto”, “riçado de cumeados e corroído de angras”. Há termos científicos mesclados com termos literários.

B.1. PARTES:

1. A TERRA:


As características de topógrafo, engenheiro e geógrafo, colocam em destaque a riqueza técnica e a sensibilidade do autor na descrição das regiões que medeiam entre o Rio Grande do Norte e o Sul de Minas Gerais, de modo particular a bacia do Rio São Francisco. Apresenta, com grande abundância de pormenores, a descrição geográfica das regiões sertanejas de Monte Santo (Canudos), que abrangem os rios Vasa-Barris e Itapicurus.

O clima, o solo, os ventos, as chuvas, a temperatura, os animais e o homem, tudo é descrito não só apenas por um observador atento, mas por um cientista natural.
Um exemplo dos conhecimentos técnicos é quando o mesmo explica a sazonalidade e a previsibilidade das secas do nordeste. Nesta parte fica demonstrado que o autor não só descreve como problematiza as questões climáticas porque tem conhecimento de causa.
Nos sertões do Norte, discorrendo sobre a seca, fala das causas desta, dando relevo especial ao papel do homem, “agente geológico de destruição” que, praticando desde os mais remotos tempos uma agricultura primitiva baseada nas queimadas, arrasou as florestas.
O sertão é tão inóspito que até a natureza se contorce para ali viver. E como a natureza também o homem se modifica e se adapta a ela. Antes de se transformar no retirante estropiado que abandona a região, o sertanejo encara de frente a fatalidade e reage, numa luta indescritível. Nesse momento ele não é mais indolente ou o impulsivo violento, mas o herói que tem os sertões para todo o sempre perdido em tragédias espantosas. No princípio, a seca parece ao sertanejo uma maldição, ele se sente abandonado numa terra barbaramente estéril e maravilhosamente exuberante. O autor verifica de forma estarrecida á transformação daquele deserto medonho nos poucos dias de chuva, quando as matas se cobrem de verde, o mandacaru floresce. O homem fechado em sua terra transfigura-se em risos e comemorações.

“Como quer que seja, o penoso regime dos estados do Norte está em função de agentes desordenados e fugitivos, sem leis ainda definidas, sujeita às perturbações locais, derivadas da natureza da terra. Daí as correntes aéreas que o desequilibram. (...) Um dos motivos da seca repousa, assim, na disposição topográfica.” (GALVÃO, 1998: 43)

2. O HOMEM:

Euclides da Cunha, nesta segunda parte, pretende apresentar, num estudo genérico, os elementos étnicos do meio brasileiro, as tradições, danças, desafios, a religiosidade, os caracteres de sua índole e a sua distribuição pelo território nacional. Fala de raças (índio, português, negro), e de sub-raças, que indica com o nome de “mestiço”.

“(...) não temos unidade de raça”.

Euclides, de acordo com a doutrina do Evolucionismo, que ele segue, julga, em tese, prejudicial á mistura das raças, porque “o mestiço” (mulato, mameluco e cafuzo), menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos antecedentes selvagens, sem a intensidade intelectual dos ancestrais superiores.
Se o mestiço vive em meio aos elementos étnicos tidos por superiores, desequilibra-se, atrofia-se, degrada-se. O mesmo, porém, não se dá com o mestiço que convive com os elementos inferiores. É o caso dos nossos mestiços do litoral e os do sertão (sertanejos).
É importante ressaltar que não só Euclides foi criticado por erros como os que se seguem: os males do cruzamento, os esmagamento total das raças fracas… Outros autores o foram. Euclides se baseava na teoria racial do final do século XIX, que afirmava ser a raça branca sinônimo de progresso, condenando a miscigenação…
O autor aponta que todos os reveses sertanejos estão ligados a terra, desde a opressão semifeudal do latifúndio até a ignorância e o isolamento a que esta parte do Brasil sempre esteve condenada. Nela se formou isolada geograficamente um povo mestiço que se diferenciou dos mestiços litorâneos, em razão do próprio isolamento no qual se mantiveram.

“Porque ali ficaram, inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo, murados a leste pela Serra Geral, tolhidos no ocidente pelos amplos campos gerais, que se desatam para o Piauí e que ainda hoje o sertanejo acredita sem fins. O meio atraía-o e guardava-os.” (GALVÃO, 1998: 190)

Historicamente, os cruzamentos entre portugueses e negros se realizaram no litoral, porque o negro vinha para o trabalho escravo nos canaviais da costa brasileira. Entre portugueses e índios, realizaram-se no sertão, pois os gentios se refugiavam no agreste do interior, avessos ao trabalho por razões culturais.
As comparações entre o sul e o norte mostram que desde o início da obra Euclides tem como objetivo mostrar como que, através do determinismo geográfico, se formou uma sub-raça mestiça no sertão. O sul seria a terra que atraí o homem e o norte a que expulsa, como podemos ver nos trechos abaixo:

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. A sua aparência, entretanto, (…) revela o contrário. (…) É desengonçado, torto. (…) Reflete a preguiça invencível, (…). Basta o aparecimento de qualquer incidente (…) transfigura-se. (…) reponta (…) um titã acobreado e potente (…) de força e agilidade extraordinárias.”

Veste-se de couro, protegendo-se dos espinhos da caatinga. É vaqueiro. Sua cultura respeita antiquíssimas tradições. Torna-se um retirante, impulso pela seca cíclica, mas retorna sempre ao sertão.
Eis, então, outro grande contraste que permeia toda a obra de Euclides da Cunha. Mas antes de mais nada, o autor reforça que toda “a mestiçagem extremada é um retrocesso”, o que vai de encontro com as teorias vigentes. Ora, estas largas divisões, apenas esboçadas, mostram já uma essencial entre o Sul e o Norte, absolutamente distintos pelo regime meteorológico, pela disposição da terra e pela transição variável entre o sertão e a costa.
Em “O Homem” a linguagem é tratada mais acentuada ao nível da poética e torna-se escultural, jogando com antíteses e paradoxos, caracterizando o sertanejo como “Hércules – Quasimodo”, qualificando sua figura ao mesmo tempo forte e débil, atlética e aleijada: Hércules (semideus latino, encarnação de força e valentia), Quasimodo (sinônimo de monstrengo, de pessoa disforme, personagem de “Nossa Senhora de Paris”, romance de Victor Hugo).
Sua religião, como ele, é mestiça. O catolicismo atrasado se mistura aos candomblés do índio e do negro e se enche de superstições, crendices e temores medievais, conservados pelo isolamento, desde a colonização. Ele é crédulo, supersticioso, e esse, deixa-se influenciar por padres, pastores e falsos profetas…
Preparando o ambiente para os episódios de Canudos, Euclides expõe a genealogia de Antônio Conselheiro, suas pregações e a fixação dos sertanejos no arraial de Canudos.

O CONSELHEIRO, Antônio Vicente Mendes Maciel, nasceu em Quixeramobim, no Ceará. Filho do comerciante Vicente Mendes Maciel e de Maria Joaquina de Jesus ficou órfão da mãe aos seis anos.
Estudou aritmética, português, geografia, francês e latim. Entre suas leituras preferidas estavam ás aventuras do imperador Carlos Magno e dos 12 pares de França, adaptações de lendas populares da Idade Média, arraigadas no folclore nordestino.
Aos 27 anos, perdeu o pai e começou a cuidar da loja da família, com a qual sustentava as quatro irmãs. Ficou dois anos à frente do negócio e, depois, passou a dar aulas numa escola de fazenda. Graças aos seus estudos e esforço pessoal, tornou-se escrivão de cartório, solicitador (encarregado de encaminhar petições ao poder Judiciário) e rábula (advogado sem diploma). Estaria encaminhado profissionalmente, caso um problema pessoal não viesse mudar radicalmente sua vida.
Depois de casado, Antônio Maciel foi traído pela mulher que fugiu com soldado.
Transtornado pela humilhação, começou a perambular sem destino certo pelo interior do Ceará e de outros Estados do Nordeste, talvez à procura dos fugitivos.
Antônio Maciel reapareceu dez anos depois, nos sertões de Pernambuco e em Itabaiana (SE), em l874, impressionando os sertanejos: alto, magro, barba e cabelos desgrenhados e longos, túnica de brim americano azul, com uma corda na cintura, sandálias, alforje e chapéu de couro.
Ele pregava nos povoados uma doutrina confusa, que se misturava às rezas de dois catecismos que carregava: “Missão Abreviada” e “Horas Marianas”. Maciel ouvia os problemas das pessoas e procurava consolá-las com mensagens religiosas. Devido aos conselhos, tornou-se conhecido como Antônio Conselheiro. Pregava o fim do mundo, a preparação para a morte, a penitência… A multidão o seguia, sem que ele a convocasse. Fazia prédicas e profecias; casamentos; batizados; restaurava e construía capelas, igrejas e cemitérios.

 
O clero o tolerava e procurava, deixando-o pregar, até mesmo contra a República, que interveio em áreas regidas pela tradição e reservadas à religião. Como aumentasse seu ataque, a Igreja tentou interrompê-lo. Para sobreviver, trabalhou como pedreiro e construtor, ofício aprendido com o pai.

À medida que a simpatia dos pobres por ele aumentava, surgiam também os inimigos, que se sentiam prejudicados. Por um lado, os padres, que viam seu prestígio diminuir diante das pregações de um leigo. Por outro, os latifundiários, que viam muitos empregados de suas fazendas abandonarem tudo para seguir o beato.
Em Bom Conselho, reuniu o povo num dia de feira e queimou as tábuas dos impostos, discordando das leis republicanas do governo de Satanás. O acontecimento repercutiu e a polícia reagiu. Perseguido, o Conselheiro tomou a estrada de Monte Santo, defrontando-se com a tropa em Maceté. Os trinta soldados armados atacaram. Os jagunços os desbarataram.
Em 1874, o Conselheiro e seus seguidores se fixaram perto da vila de Itapicuru de Cima, no sertão da Bahia, onde fundaram o arraial do Bom Jesus. Dois anos depois, acusado de ter assassinado a esposa, Antônio Conselheiro foi preso e mandado para o Ceará, onde o julgamento comprovou sua inocência.
Entretanto, seu fervor religioso aumentou durante a temporada na prisão. Da mesma maneira, aumentou seu prestígio entre os pobres, que passaram a vê-lo como um mártir. Mais gente se reuniu a sua volta e o acompanhou sertão afora, por andanças que duraram 17 anos. Em 1893, ele se estabeleceu definitivamente numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza-Barris, numa afastada região do norte da Bahia, conhecida como Canudos.
Ali, fundou um povoado, que chamou de Belo Monte. Rapidamente, o vilarejo se transformou numa cidade cuja população é estimada entre 15 mil e 25 mil habitantes (há controvérsia entre os historiadores).


“Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde não penetraria a ação do governo maldito”(…)O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas”, sem ordem, sem ruas: um verdadeiro labirinto, com casa de pau-a-pique, habitadas por um população multiforme, de sertanejos simples, beatas, ricos proprietários que abandonavam tudo em busca da salvação e por bandidos ali protegidos, que respeitavam as regras: rezar e fazer sacrifícios para alcançar a vida eterna. A igreja, uma fortaleza, a mais importante obra do Conselheiro, estava diante da praça.

Euclides descreveu a lei mantida por facínoras, as rezas, os sermões, as danças, o dia-a-dia do aglomerado e os tipos fascinantes dos heróis: João Abade, Pajeú, João Grande, Vila Nova, Chico Taramela, Macambira, Beatinho…"
Antônio Conselheiro pregava contra a República, contra o governo do Anti-Cristo e da lei do cão. “Mas não traduzia o mais pálido intento político”. Os jagunços, “rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa”, não conseguiam diferenciar a República da Monarquia.
Algumas mudanças da nova ordem respingavam no sertão: separação Igreja-Estado, obrigatoriedade do casamento civil, cobrança de impostos pelos Estados… coisas incompreensíveis pelos sertanejos.
E o povo versejava e cantava:

“Casamento vão fazendo/ Só pro povo iludir/ Vão casar o povo todo/ No casamento civil”.
“Visita nos vem fazer/ Nosso rei D. Sebastião/ Coitado daquele pobre/ Que estiver na lei do cão”.
“Eram realmente, fragílimos, aqueles pobres rebelados…”
“Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta.”
“Entretanto enviamos-lhes (…) a bala”.

Canudos prosperou e se tornou incômoda para as autoridades políticas e religiosas locais, que procuravam um pretexto para acabar com ela.
Um problema comercial acerca de uma compra de madeira na cidade de Juazeiro deu motivo para que uma tropa de soldados da polícia baiana investisse contra os seguidores do Conselheiro em novembro de 1896.
A derrota dos policiais deu início a um conflito que ficou conhecido como Guerra de Canudos, que assumiu enormes proporções.

3. A LUTA:


É a parte mais importante, constituída da narrativa das quatro expedições do Exército enviadas para sufocar a rebelião de Canudos, que reunia os “bandidos do sertão”; os jagunços das regiões do rio São Francisco e os cangaceiros (denominação no Norte e Nordeste). Havia cerca de 25.000 habitantes no arraial, na maioria, ex-trabalhadores dos latifúndios da região.
Entre as previsões de Antônio Conselheiro figuravam:

“Que o mundo ia acabar em 1900; que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão (o que de certa forma aconteceu com a construção da Barragem de Sobradinho); “que D. Sebastião ia ressurgir das ondas com seu exército para cortar a cabeça do dragão da maldade; que a República destronou Pedro II, o que havia acabado com a escravidão; que a República instituiu o pecado na forma do casamento civil, separando a Igreja do Estado.”

INÍCIO DA LUTA:

As autoridades de Juazeiro se recusam a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a igreja de Canudos; os jagunços, então, pretendiam tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de banditismo.

A PRIMEIRA EXPEDIÇÃO:

Cem homens, comandados pelo tenente Pires Ferreira, são surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

“Apavorara-o a própria vitória, se tal nome cabe ao sucedido, pois as suas consequências o desanimavam. O médico da força enlouquecera... Desvairara-o o aspecto da peleja. Quedava-se inútil, antes os feridos, alguns graves.” (“Os Sertões”, “Primeiro Combate”)

Neste episódio, destaca Euclides a resistência e o apego com que os seguidores de Antônio Conselheiro seguravam o estandarte com a bandeira do divino, e de como com tal símbolo se atiravam loucamente diante das armas dos soldados:

“E a turba fanatizada, entre vivas ao “Bom Jesus” e ao “Conselheiro”, e silvos estridentes de apitos de taquara, desdobrada, ondulante, a bandeira do Divino, erguidos para os ares os santos e as armas, seguindo empós o curiboca audaz que levava meio inclinada em aríete a grande cruz de madeira - atravessou o largo arrebatadamente...” (“Os Sertões”, “Primeiro Combate”)

A SEGUNDA EXPEDIÇÃO:

A segunda expedição tem um espaço maior na obra, Euclides conta em detalhes as batalhas e as estratégias de ambos os lados, destacando a ferocidade e a valentia beirando à loucura de todos os envolvidos.
Quinhentos homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças, são emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos. Destacam-se os “bandidos” João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides verdadeiro gênio militar. Reduzidos a cem homens, as tropas do governo decidem voltar.
A derrota da expedição dirigida por Febrônio de Brito é destacada, ao contrário da inválida vitória superficial de Pires Ferreira:

“Ora, a retirada do major Febrônio se, pelo restrito do campo em que se operou, não se equipara a outros feitos memoráveis, pelas circunstâncias que a enquadraram é um dos episódios mais emocionantes de nossa história militar. Os soldados batiam-se ia para dois dias, sem alimento algum, entre os quais mediava o armistício enganador de uma noite de alarmas; cerca de setenta feridos enfraqueciam as fileiras; grande número de estropiados mal carregavam as armas; os mais robustos deixavam a linha de fogo para arrastarem os canhões ou arcavam sob feixes de espingardas, ou, ainda, em padiolas, transportavam malferidos e agonizantes - e, na frente desta multidão revolta, se estendia uma estrada de cem quilômetros, em sertão maninho, inçado de tocaias...” (Os Sertões, “Retirada”)

Euclides, nesse momento, valoriza a bravura da tropa que busca enfrentar não apenas o opositor fanático e audaz, mas também o cenário duro e inóspito oferecido pela natureza concretizado na estrada de cem quilômetros que se avultava diante da tropa em fuga, assim, ficar e enfrentar o inimigo não é esforço maior do que a própria retirada.

A TERCEIRA EXPEDIÇÃO:

A terceira expedição tem uma quantidade maior ainda de detalhes, todas as etapas da preparação, as informações biográficas acerca do comandante Moreira César, sua influência no governo de Floriano Peixoto, tudo cria uma introdução dramática para os combates que se desenvolveriam.
1300 homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp, recém-importados da Alemanha, sem planos definidos, partiram em fevereiro de 1897, atacando de frente, do Morro da Favela, o arraial de Canudos.
Falando do comandante, destaca sua carreira, as vitórias conseguidas em outras campanhas, mas não deixa aqui e ali, de em fazendo a descrição física, mostrar como era possível perceber numa falsa aparência de herói destemido e vitorioso os índices de um fracasso por vir:

“Tinha o temperamento desigual e bizarro de um epiléptico provado, encobrindo a instabilidade nervosa de doente grave em placidez enganadora. Entretanto, não raro, a sua serenidade partia-se rota pelos movimentos impulsivos da moléstia que somente mais tarde, mercê de comoções violentas, se desvendou inteiramente nas manifestações físicas dos ataques.” (“Os Sertões”, “Moreira César”)

Na descrição dos fracassos e insucessos que se seguem na grandiosa e desastrosa expedição de Moreira César, Euclides narra o momento em que o comandante é ferido na batalha e passa o comando ao Coronel Tamarindo, que não tem outra preocupação àquela altura do que salvar seu próprio batalhão. Moreira César, ferido duas vezes, agoniza alguns dias, até que morrendo, o comando passa definitivamente ao Coronel Tamarindo. A retirada que se faz, ao contrário da retirada de Febrônio de Brito é marcada pelo fracasso, o modo como os canhões foram cair nas mãos dos fanáticos seguidores de Antônio Conselheiro, ganha cores de tragédia:

“Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamentos, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali afora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada - vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se sobre ela.
Era o desfecho. O capitão Salomão tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiam-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara.
Consumara-se a catástrofe...” ("Os Sertões", “Salomão da Rocha”)

A QUARTA EXPEDIÇÃO:

5.000 homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget, são enviados pelo Sul. As tropas dividem-se em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da Favela e tem que se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, havia mudado de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões. As duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados mal resistem à fome e à sede.


“O general Artur Oscar avaliou, então, com segurança, o estado das coisas. Pediu um corpo auxiliar de cinco mil homens e curou de dispositivos para garantir a força que triunfara de maneira singular, a pique de uma derrota. Estava, depois de mais um triunfo, na conjuntura torturante de não poder arriscar nem um passo à frente, nem um passo atrás. Oficialmente, as ordens do dia decretavam o começo do sítio. Mas, de fato, como sempre sucedera desde 27 de junho, a expedição é que estava sitiada. Tolhia-o o arraial a oeste. Ao sul, os altos da Favela fechavam-se-lhe atravancados de feridos e doentes. Para o norte e o nascente, se desenrolava o deserto impenetrável. A área de sua ação aparentemente aumentara. Dois acampamentos distintos pareciam denotar mais larga movimentação, liberta da constrição de trincheiras envolventes. Esta ilusão, porém, extingui-se no próprio dia do assalto. Os cerros, varridos de cargas de baionetas poucas horas antes, figuravam-se de novo guarnecidos. As comunicações com a Favela tornaram-se logo dificílimas. Tombavam, novamente baleados, os feridos que para lá se arrastavam; e um médico, o Dr. Tolentino, que na tarde do combate dali descera, caíra, gravemente ferido, na ribanceira do rio. A travessia no campo conquistado fez-se problema sério aos conquistadores.” (“Os Sertões”, “Nos flancos de Canudos”)

A quarta expedição, aquela que finalmente vencerá a bravura religiosa dos seguidores do Conselheiro, também narrará momentos de pura ferocidade, mas também, o modo desumano, tão ou mais do que os fanáticos aplicaram às expedições em fuga. É como se a guerra apresentada fosse marcada pela inconsequência de todas as ações, por uma atmosfera de insensatez que permeasse cada ato aparentemente racionalizado.

Em agosto de 1897, 8.000 homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio Ministro da Guerra, o Marechal Carlos Bittencourt.
São cortadas as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido. Um tiro de canhão atinge a torre da Igreja. Estóicos, esperando a salvação eterna, os sertanejos não se renderam, e muitos foram degolados após o assalto final. Perpetrou-se dessa forma o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que a tudo acompanhou do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal “O Estado de S. Paulo”.

“Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão.
Um golpe único, entrando pelo baixo-ventre. Um destripamento rápido...
Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitadamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades.” (“Os Sertões”, “A degola”)

O assalto ao povoado de Canudos também envolve atrocidades descritas por Euclides da Cunha. Mulheres, velhos e crianças não escaparam da mortandade, e muitas suicidaram-se com seus filhos antes de encontrarem a tropa de soldados:

“Ademais, não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhidos na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante - e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história?” ("Os Sertões", “Canudos não se rendeu”)

TEXTO:

“Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.
Forremo-nos à tarefa de descrever os seus últimos momentos. Nem poderíamos fazê-lo. Esta página, imaginamo-la sempre profundamente emocionante e trágica; mas cerramo-la vacilante e sem brilhos.
Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...
Ademais não desafiaria a incredulidade do futuro a narrativa de pormenores em que se amostrassem mulheres precipitando-se nas fogueiras dos próprios lares, abraçadas aos filhos pequeninos?...
(...)
Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5200, cuidadosamente contadas.
Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.
Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro” agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefacto e esquálido, os olhos fundos cheios de terra – mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
Desenterraram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! - faziam-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta de tecidos decompostos.
Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal extinto, aquele terribilíssimo antagonista.
Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita – e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores.
Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”

Com ironia Euclides apresenta o troféu dos vencedores, a cabeça de um fanático já em estado de decomposição, morto que fora não por tiros ou golpes de baioneta, mas provavelmente por diarréia. A cabeça fora depois enviada ao médico Dr. Raimundo Nina Rodrigues, afamado discípulo das teses evolucionistas e deterministas. Buscando nas medidas do crânio informações que confirmassem a tese de que os males psicológicos poderiam ser encontrados por índices físicos de anormalidades do crânio, teve que ao afinal atestar, que em contradição às expectativas, o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava sinais de loucura.
O livro de Euclides termina com um capítulo de somente “duas linhas” (aliás, este é o título), concisão que se contrapõe ao conjunto de extensos períodos que caracterizava toda a narrativa:

DUAS LINHAS

“É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades...”

Nesse fragmento, Euclides refere-se a Henry Maudsley, médico cientista defendia a ideia de monomanias de caráter instintivas e as de caráter raciocinantes, estas também conhecidas como “loucura moral”, expressão bem ao gosto comtiano.
Assim, ironicamente, Euclides conclui que falta um tipo de conhecimento que supera a previsibilidade física proposta pelas teses científicas deterministas. Spencer não poderia ser esse “Maudsley”, pois ele via a sociedade análoga ao modo como via um animal vivo em processo evolutivo. Faltava às teses conhecidas por Euclides um modo de compreender como a “ordem” e o “progresso” de que o estado deveria ser representante tornaram-se de fato, naquele cenário da guerra insana, em loucura generalizada: “Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo das circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...”
Desse modo, a “ordem” é substituída pela desordem, pelo caos, ao progresso se sobrepõe a casualidade e o despropósito. Resta para Euclides intuir na existência de alguma coisa vindoura que pudesse reorganizar o caos da sociedade, embora já na nota inicial do romance, confirme sua fé nas ideias de um Gumplowicz (“A civilização avancará nos sertões impelida por essa implacável força motriz da História"), o fato é que o modo como se horroriza com os desdobramentos dos combates, com a insanidade de vencedores e vencidos acaba por demonstrar em Euclides a intuição de que existe uma outra ordem com uma outra noção de progresso a que ainda não tem elementos concretos para entender: “O sertão é o homizio. Quem lhe rompe as trilhas ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa.” (“Os Sertões”, “Um grito de protesto”).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Com esta obra o Brasil ganhava uma das suas mais importantes reflexões sobre a identidade nacional. O escritor do início da obra, positivista que acreditava na república, é o mesmo que denuncia a dor, a fome e a barbárie. Canudos foi um crime cometido para e pela reiteração da República. O cancro monarquista nunca existiu naquela terra esquecida pelos seus governantes e o Estado só chegara tão longe para trazer a injustiça e a morte. Essa não era a república reclamada pelo autor.
Como identidade nacional, podemos tirar desta obra a seguinte frase: “A nação brasileira é o resultado de uma angústia racial”. Euclides sofre essa angústia da qual as “leis” européias não dão conta. O Brasil é um país sem seu tipo antropológico definido e ele, Euclides da Cunha, é o primeiro que se propões a fazer um estudo a fundo das “raças” brasileiras.
O professor Alfredo Bosi propõe a divisão da obra em dois grandes planos: o plano histórico corresponde á parte final do livro: “A Luta”, sendo que este é seguido pelo plano interpretativo que, por sua vez, corresponde às duas divisões iniciais do mesmo (“A Terra” e “O Homem”).
O momento histórico se reflete na obra tanto na estrutura determinista, que defende que os estudos devem partir dos aspectos geológicos, passando para detecção das variações climáticas para finalmente chegar ao último elo da cadeia que é o homem. Obedecendo à sequência, Euclides procurou traçar, nas duas partes iniciais de “Os Sertões”, o quadro evolutivo do Brasil sertanejo que, começando pelo reconhecimento da estrutura do solo e do clima, alcançasse a psicologia de Antônio Conselheiro e dos seus seguidores.
O movimento de Canudos (1896-1897) teria sido um desses movimentos que trazia à tona o abandono em que vivia uma parte significativa da população brasileira. A vigência de uma ordem desigual e excludente era posta às claras. A reação dos governantes e dos habitantes das maiores cidades, de modo geral, foi de uma ira incomensurável no sentido de exigir a exterminação total e absoluta da luta desencadeada por Antônio Conselheiro e de seus seguidores nos sertões da Bahia.
Massaud Moisés comentando acerca do significado geral de “Os Sertões” para a História da Literatura Brasileira, afirma ser esta obra euclidiana um divisor de águas, o limite entre a idealização da pátria e a análise social do retrato brasileiro, o marco final das ilusões românticas diante da rudeza e crueza do cenário concreto da nossa sociedade:

“Seja como for, “Os Sertões” anunciavam o término do ciclo romântico de nossa visão idílica da história pátria. Iniciava-se a hora da verdade, com a derrocada “de um falso idealismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza”. Na sua visão do mundo, o Brasil nacionalizava-se ao tomar consciência do seu ego dividido, e ao exprimir-se “pela linguagem mais épica que ainda se escreveu em prosa portuguesa”, indicava a superação, ainda que parcial, dos vínculos com a Literatura Portuguesa. Vazado “em estilo brasileiro, com a ênfase, a truculência, o excesso, a exuberância, o brilho, o arremesso, a prodigalidade, a magnificência, que nos autorizavam e talvez nos singularizem no mundo”, preludiava, na sua denúncia, o romance social dos anos 30: a revolução literária de 1922, inaugurando a modernidade, começa em 1902, com Os Sertões.” (MOISÉS: 1984, p. 572)

Adilson Citelli nos apresentando um bem organizado “Roteiro de Leitura” de “Os Sertões”, conclui, comentando acerca da situação limite que se colocava para Euclides da Cunha em relação à validade das teses científicas deterministas e positivistas de seu tempo, que:

“Foi graças a esta tensão teórica e ideológica que Euclides da Cunha pode, progressivamente, em “Os Sertões” afastar-se da crença na existência de um complô político anti-republicano em Canudos, assim como redefinir seu ponto de vista sobre os sertanejos. No solo recrestado, no meio dos difusos sonhos igualitários e messiânicos de Antônio Conselheiro, entre cactos e espinhos, Euclides mostrou ao país que as razões civilizatórias e do Estado ao investirem contra Canudos aclararam, no sentido integral do termo, as linhas da loucura e dos crimes que foram capazes de cometer em nome da construção da nacionalidade.”
(CITELLI: 1999, P. 117)