quarta-feira, 5 de outubro de 2011

DIEGO VELÁZQUEZ (1599-1660): “PINTOR DOS PINTORES"; RETRATISTA DA CORTE; PRECURSOR DO IMPRESSIONISMO!


“Só para ver Velázquez já vale a pena a viagem à Espanha; é o pintor dos pintores. Ele não assombra, me deixa maravilhado.”


Édouard Manet

 
Diego Rodríguez de Silva y Velázquez era filho de nobres e nasceu em junho de 1599 em Sevilha, na época a cidade mais rica da Espanha devido ao seu movimentado porto, às suas colônias no Novo Mundo, em pleno “Século de Ouro” espanhol.

Sevilha na época, não era apenas a cidade mais rica e povoada da Espanha, como também, configurava-se como um formidável centro cultural para onde confluíam as principais correntes artísticas européias e os marchands de outros países.
Foi o primeiro filho do casal Juan Rodríguez de Silva e Jerónima Velázquez, ambos naturais de Sevilha e integrantes da pequena nobreza.
Seus avós paternos eram portugueses radicados na cidade andaluza, era uma época de intensas correntes migratórias na Península Ibérica, facilitadas pela união das duas coroas.
Naquela época havia ampla liberdade para a adoção de sobrenomes, razão pela qual o pintor nunca utilizou o nome paterno Rodriguez de Silva. No decorrer da carreira, o artista assinou suas obras com três combinações: Diego Velázquez, Diego Velázquez de Silva, e Diego de Silva Velázquez nos últimos anos de vida.
Incentivado pelo pai, estudou nas melhores escolas e, começou a sua carreira artística precocemente, primeiro com Francesco de Herrera, conhecido como "el Viejo", e depois com Francisco Pacheco, uma das personalidades mais reconhecidas da cultura sevilhana da época, que viria a ser seu sogro.
À época do casamento, o mestre escreveu: "Casei-o com minha filha, movido por sua virtude e integridade, seus dotes e pelas promessas de um grande e inato talento".
Já na adolescência seus quadros apresentavam seu total domínio da técnica.
Velázquez encontrou em Pacheco um mestre excelente que soube transmitir-lhe os fundamentos teóricos e práticos do desenho e da pintura. Mas curiosamente e diferentemente das bibliotecas da época, os livros sobre religião eram escassos.
Em 1617, Velázquez se casou com Juana Pacheco, filha de seu mestre. Na época, Pacheco não apenas demonstrava orgulho pelas virtudes artísticas de seu discípulo como vislumbrava a possibilidade de o casamento garantir a continuidade de seu ateliê e do ofício familiar. No entanto, permanecer em Sevilha significava depender, fundamentalmente, das encomendas da Igreja. Velázquez pretendia também dignificar seu ofício. Embora os religiosos, os nobres e a rica burguesia mercantil solicitassem encomendas para os pintores, a atividade ainda era considerada um ofício de pouco valor.
O pintor, na verdade, sentia forte compulsão por refletir e transmitir a realidade tal como era. Para concretizar suas aspirações pictóricas, Velázquez emprestou de pintores maneiristas, como Pedro de Campaña, a observação rigorosa do natural. Enriqueceu-a com o tenebrismo, técnica que enfatiza os contrastes entre as zonas escuras e as iluminadas por um único foco.
Essa forte iluminação ressalta volumes e relevos. Ao mesmo tempo, põe em primeiro plano pessoas ou objetos que, em princípio ou pelo título do quadro, não pareciam destinados a ser protagonistas.
Ao confrontar a realidade, o pintor valorizou objetos do cotidiano. A mesma preferência era vista na reprodução de personagens populares da cidade. Velázquez não se detinha no cômico ou no grotesco das personagens, mas os mostrava respeitosamente, ressaltando sua individualidade e sua dignidade.
Exemplos de pinturas a óleo dessa fase são “A Mulata”, que mostra a imagem de uma serviçal junto a uma mesa de cozinha sobre a qual há vários objetos.

”A Mulata”, 1617-1618.


Outro exemplo de maior manifestação do período sevilhano é “O aguadeiro de Sevilha”.
A tela apresenta um homem quase na velhice, cuja dignidade contrasta com a vestimenta esfarrapada, oferecendo uma taça de água a um jovem de classe social mais alta. Entre ambos, em meio à penumbra, outro homem adulto bebe com avidez de um copo de vidro. Tudo leva a crer que o modelo tenha sido um corso, apelidado de “El Corso”, que naquela época distribuía água em Sevilha.
Nela, os retratos e os objetos que ocupam o lado esquerdo da tela recebem toda a luz que gradualmente percorre a pintura até atingir a penumbra no lado oposto.
O jogo de luzes e sombras desvenda os objetos e os rostos ao mesmo tempo em que, os unifica. Igualmente admiráveis são a perfeição do desenho e a combinação de cores.

“O aguadeiro de Sevilha”, 1620.


A cena é simples e quase fotográfica, mas adquire certa solenidade pela seriedade dos rostos e das cores terrosas, predominantes nessa fase de Velázquez.
A iluminação descreve uma linha oval que parte do cântaro e avança pelo recipiente menor sobre a mesa, pelo pescoço e pela face do menino, pelo rosto do aguadeiro e sua alvíssima manga da camisa, até se fechar sobre a asa do mesmo cântaro e a mão esquerda do homem.
A maestria do sevilhano nos “bodegóns” pode ser observada no delicado trabalho realizado sobre o cântaro e na transparência da taça, cujo fundo descansa um figo que aromatiza e refresca a água.
Há diferentes opiniões a respeito do significado da obra. Para alguns estudiosos é uma mera representação de uma cena da vida sevilhana do século XVII. Outros pesquisadores, por sua vez, sustentam que se trata de uma alegoria em torno da roda da vida e quase uma cerimônia de iniciação na qual participam as três idades do ser humano. O ancião serve uma fina taça de água (a vida ou o conhecimento) a um menino quase adolescente, enquanto o homem que, na penumbra bebe ansiosamente, representaria a vitalidade da meia-idade.
Essas composições já destacam as notáveis habilidades de Velázquez para o retrato: os traços precisos e firmes abrangiam com singular perfeição todos os detalhes do rosto do modelo. O resultado era como uma radiografia da alma praticamente capaz de revelar seu estado de ânimo e suas inquietações.
Dessa fase, chama a atenção o retrato “A madre Jerónima de la Fuente”, pintado quando a religiosa, então com 70 anos passou por Sevilha rumo às Filipinas, onde fundaria um convento.

“A madre Jerónima de la Fuente”, 1620.


Seu rosto e a forma como empunha o crucifixo mostram o peso de uma vida próxima do final, mas uma determinação de ferro.
São poucas as obras de Velázquez com temática religiosa comparadas ao montante de sua produção. Mais do que aspectos sagrados, cabe ressaltar o lado humano e social do pintor. Com um recurso desenvolvido por ele, que pode ser chamado “o quadro dentro do quadro”, o tema religioso convive com o palco real mediante um quadro, um espelho ou uma janela que encerra a cena sagrada no fundo da composição principal.
Nota-se que esse recurso já havia sido usado em “A Mulata”: no ângulo superior esquerdo, por trás da personagem principal, observa-se Cristo de frente, diante de uma mesa, acompanhado de outro comensal disposto na cabeceira.
Compartilhar o cotidiano e popular com o sacro era um modo de relegar o tema religioso a um pequeno quadro no total da composição.
Na fase sevilhana, essa técnica encontrou melhor expressão em “Cristo na casa de Marta e Maria”.

“Cristo na casa de Marta e Maria”, 1618-1620


Nessa tela, Velázquez integra na mesma cena a presença em primeiro plano de duas mulheres na cozinha e um “bodegón”. No ângulo superior direito está situado um tema do Evangelho, Cristo, Maria e Marta, visto através de uma janela ou de um espelho.
As feições das personagens e do “bodegón” contrastam com as do tema religioso, as vestimentas e os objetos do primeiro plano se opõem às formas mais imprecisas do autor e uma concepção técnica da pintura.
Ainda em Sevilha, Velázquez produziu obras religiosas ao estilo convencional. Entre ela, estão: “A adoração dos Reis Magos”, “São João em Patmos”, “Imaculada Conceição”, “São Paulo”, “São Tomás” e “A virgem impondo a casula a Santo Ildefonso”.
Embora com temática convencional, essas produções anunciavam o naturalismo na peculiaridade de cada rosto, os volumes, a forte iluminação contrastada com densas sombras e uma gama de cores quentes com zonas acinzentadas.

“A adoração dos Reis Magos”, 1619.


Neste quadro Velázquez faz uso do claro-escuro e do tratamento corpulento das vestimentas. O trabalho nos vincos confere às roupas uma aparência semelhante à das esculturas.
Velázquez compôs o quadro com um jogo de diagonais. No cruzamento das linhas estão posicionados a Virgem e o Menino, a quem se dirigem os olhares dos protagonistas da pintura. A iluminação que provém do lado esquerdo, também está focada na Mãe e no Filho, vestidos com as roupagens mais brilhantes da tela.
A luz que desliza sobre a vestimenta do personagem ajoelhado contribui para direcionar os olhos do espectador para o núcleo do quadro.
No ângulo superior esquerdo percebem-se o crepúsculo, que contorna algumas folhagens, uma colina e o fuste de uma delgada coluna junto a Baltasar, o rei negro. Esses elementos antecipam as qualidades paisagísticas do pintor.
A vocação pelo natural se manifesta no uso de modelos: é tido como certo que a Virgem é sua esposa Juana; o Menino, sua filha Francisca; o próprio Velázquez , Gaspar, que está em primeiro plano; seu sogro Pacheco é Melchior; Baltasar, seu irmão; e o pajem por trás deste, o rapaz que serviu de modelo em várias obras. Mas supõe-se que para José o pintor não usou modelo vivo, porque a qualidade da confecção de sua cabeça é inferior à de outros personagens do quadro.

Em 1622, Velázquez viajou para Madri com o objetivo de trabalhar na corte de Filipe IV. Não obteve êxito em seu propósito e retornou a Sevilha. Em sua breve estadia na capital do reino deixou um notável retrato: “O poeta dom Luís de Góngora y Argote”.

“O poeta dom Luís de Góngora y Argote”, 1622.


O mestre Francisco Pacheco, sogro do pintor, encomendou a Velázquez o busto de algum personagem famoso para incluir em seu livro “Descrição de verdadeiros retratos de ilustres e memoráveis varões”. Góngora contaria com 60 anos e encaixava-se, sem dúvida, na descrição de “um ilustre e memorável varão”. Sua poesia culteranista situava-se no apogeu da fama, apesar dos ataques e do desprezo de outros gênios da época, como Lope de Veja.
É importante notar o modo de quebrar os planos de um rosto e de formular as sobrancelhas, com pinceladas amplas, características próprias do artista.
Sobre um fundo liso e com a vestimenta negra quase sem detalhes impera o rosto austero do poeta, com olhos reveladores de traços de amargura e receio.

Em 1623, Velázquez e seu mestre viajaram para Madri, e conseguiu que o rei posasse para o pintor.
O resultado foi um retrato equestre que causou admiração ao rei pela fidelidade e perfeição, que declarou que, dali por diante, somente Velázquez pintaria seus retratos. Ocuparia a função até o fim da vida, o que lhe daria condições de viajar, trabalhar com tranquilidade e poder desenvolver livremente sua vocação pictórica.
Para compreender melhor a importância adquirida por Velázquez na corte, cabe lembrar que a Espanha, com suas possessões na América, ainda perfilava como principal potência européia.
À margem de alguns retratos encomendados por particulares durante seus primeiros tempos em Madri, a produção de Velázquez nesse período concentrou-se exclusivamente na família real e na decoração dos bens da coroa.

“Filipe IV vestido de negro”, 1624-1628.


A data de realização desse quadro encontra muitas controvérsias. Os especialistas concordam que a obra se situa nos primeiros anos de Velázquez na corte de Madri, antes de sua viagem à Itália. O catálogo do Prado, onde o quadro está exposto, indica que a execução seria anterior a 1628, ano em que o autor teria modificado a forma como o monarca se encontra em pé, bem como a vestimenta.
O catálogo sustenta que “as correções são notórias e provam, em relação à postura, que este retrato seguia inicialmente as linhas de outro pintado em 1624, atualmente no Metropolitan Museum de Nova York”.
Com essas mudanças, o pintor sevilhano procurou adequar sua obra aos ventos de austeridade que sopravam na corte, do reino.
Naquela época, o monarca havia proibido o uso excessivo de jóias e de trajes ostentosos. Nesse sentido, o retrato de Velázquez reflete uma figura singela, mas consciente de sua dignidade e posando como por obrigação.
O olhar e os grossos lábios mostram certo desdém e até ausência de emoções. Os traços grossos do corpo contrastam com a pincelada mais delicada e ligeira na cabeça e, em particular, com o cuidadoso estudo do cabelo.
A iluminação se concentra sobre a face e as mãos, enquanto o fundo neutro ressalta a vestimenta negra.
O monarca segura um papel na mão direita; a esquerda descansa sobre a empunhadura da espada. A cena se completa com a visão parcial de uma mesa, com uma toalha vermelha, sobre a qual repousa um alto chapéu negro de abas estreitas.
Para romper a verticalidade imposta por um retrato de corpo inteiro, Velázquez articulou um triângulo visual formado pelos elementos mais claros e expressivos: o rosto e as mãos.

O barroco era o estilo predominante na época, com seus contrastes de luzes e sombras, cores escuras e carregadas. Velázquez introduziu a técnica das manchas distantes, gerando uma atmosfera que permitia a visualização total das formas de imediato.
Sua arte era mais voltada para a cor: função de decorar, construir cenários grandiosos, ilusionista e envolvente.
Desse modo, Velázquez pode ser considerado um verdadeiro revolucionário: um precursor do Impressionismo!
As cores quentes e terrosas deram lugar a uma ampla profusão de azuis, cinza, verdes e amarelos.
A obra de Velázquez se caracterizou pela fidelidade à realidade e ao visível. Seus personagens mitológicos apresentam uma humanidade tão profunda que, muitas vezes, o espectador só descobre a figura em questão com o auxílio do título do quadro.
Durante o período a serviço da corte, Velázquez quase não incursionou pela pintura religiosa, mas mergulhou na mitológica.

“O triunfo de Baco”, popularmente conhecido como “Os bêbados” é um dos quadros mais representativos de suas concepções: um jovem seminu rodeado por camponeses, numa cena irreverente que parece uma zombaria ao estilo sublime das pinturas mitológicas da época.

“O triunfo de baco” (“Os bêbados”), 1628.


O deus Baco, sobre o qual se concentra a maior iluminação do quadro, é um jovem seminu sentado num tonel, de lábios sensuais e olhar questionador. Está rodeado de várias personagens de diversas origens: de camponeses e pícaros até dois homens que revelam certa nobreza, passando por um jovem seminu recostado e com uma taça na mão e um soldado que recebe, ajoelhado, uma coroa de pâmpanos.
Em meio à cerimônia da alegria, à vitalidade e à evasão. Velázquez convoca o mito e a realidade, a representação iconográfica do mundo clássico e a perpetuação no presente do culto ao deus do vinho.
Passado e presente coincidem nos dois personagens centrais da tela. Talvez a diferença mais marcante seja a direção de seus olhares. Seus modelos dialogam diretamente com o espectador.

Em 1628 tornou-se amigo do pintor holandês Rubens, que visitava Madri. Os pintores discutiam sobre trabalhos do Renascimento italiano e mitologia, o que aumentou o desejo de Velázquez de conhecer a Itália, terra de pintores que exerceram grande influência sobre ele, como Caravaggio, Ticiano, Tintoretto e Veronese.
Em 1629 Velázquez embarcou de Barcelona para a Itália como membro da comitiva de Ambrosio de Spínola, marquês de Balbases. Até janeiro de 1631, enquanto esteve lá, Velázquez empreendeu uma verdadeira jornada de estudos por Gênova, Milã, Veneza, Ferrara, Cento, Roma e Nápoles.
Deslumbrado com os pintores venezianos, realizou cópias de vários autores, entre ela “Comunhão dos apóstolos”, de Tintoretto. No Vaticano, Velázquez teve absoluta liberdade para estudar e copiar as obras de Rafael e Michelangelo.
Durante sua estadia na Itália, Velázquez pintou “A forja de Vulcano”, “Jacó recebendo a túnica de José” e “Dona Maria da Áustria”, rainha da Hungria. As duas primeiras obras são as mais significativas.

Em “A forja de Vulcano”, Apolo comunica a Vulcano a infidelidade de sua mulher Vênus, que o trai com Marte. Impressionam as reações das personagens. O rosto de Vulcano expressa espanto e raiva, enquanto os dos obreiros refletem a tensão do momento.

”A forja de Vulcano”, 1630.


Nota-se que os tons são mais vivos do que nas pinturas anteriores, como se percebe no vermelho-alaranjado da túnica de Apolo, na chama da forja e no metal vermelho vivo que Vulcano prende sobre a bigorna. Os corpos, exibidos em sua vitalidade, adquirem uma consistência escultórica.
Novamente, Velázquez recorre à mitologia para propor seus desafios técnicos e estéticos. Aborda a questão luz e sombra por dois focos luminosos: o deus Apolo e a forja. Equilibra a composição demoninada pela certicalidade dos corpos com a tensão do jogo de olhares e preenche o meio com ações e objetos. Finalmente, desmitificou um tema mitológico e o usa pra relativizar o tempo: Vulcano, os ferreiros, as ferramentas e a armadura pertencem à atualidade de Velázquez.

“Jacó recebendo a túnica de José” reproduz um episódio bíblico do Gênesis, em que os invejosos irmãos de José o vendem como escravo e apresentam a seu pai, Jacó, a túnica ensanguentada como prova de que José teria sido vítima de uma fera selvagem.
Apesar da ironia presente nessas duas telas, própria das incursões de Velázquez na mitologia, o artista chamou a atenção pelo domínio do nu estatuário, o que demonstrava a influência positiva das inúmeras obras que contemplou durante sua passagem pela Itália.

Quanto ao retrato de “Dona Maria da Áustria”, Francisco Pacheco, relatou: “Por causa da falta que fazia, foi determinada a volta de Velázquez à Espanha. Antes de retornar, o pintor parou em Nápoles, onde pintou um lindo retrato da rainha da Hungria, para trazê-lo a Sua Majestade. Após um ano e meio de ausência, chegou a Madri no início de 1631”.

“Dona Maria da Áustria”, 1630.


Um Velázquez ainda mais influenciado pelos renascentistas e pela arte clássica retornou a Madri em 1631, iniciando sua fase de maior produtividade.
O pintor buscava na natureza os seus motivos, afastava-se do estilo clássico e de suas alegorias, pintando o mundo como aparecia a seus olhos. Optou pela moderação e pelo realismo chegando às vezes, trabalhar anos numa mesma tela. Seu talento também se estendeu à pintura de episódios históricos; religiosos e mitológicos como pessoas comuns, em poses mais naturais, evitando os exageros da tradição formal desenhadas contra um fundo neutro, cujas representações refletem seu grau de maturação artística. Mostrava e ridicularizava a figura em “postos” que não conduzia com a sua posição e apresentava uma pintura cortesã, através um vasto repertório de tolos e anões, que alegram a vida da família real. Em outras obras reproduziam cenas campestres ou de caça. Em todos os casos, o artista demonstrou sua maestria para captar a psicologia do modelo, como pode ser percebida pela evolução refletida nos quadros do estado de ânimo de Filipe IV diante de acontecimentos pessoais e políticos.

 “Filipe IV de Espanha”, 1634-35.

“Filipe IV”, 1635.


Os pesquisadores levantam dúvidas quanto à data deste quadro. As diferentes opiniões o localizam entre 1631 e 1635. De qualquer modo, não há dúvida de que a obra seja posterior à primeira viagem de Velázquez à Itália.
Chegou-se a essa conclusão por duas características presentes na tela: a influência de Rubens na forma de conferir cor e iluminação ao rosto; e por mostrar um modelo no qual já não se notam sinais da adolescência ou de juventude extrema, próprios dos retratos de Filipe IV da década de 1620.
Nesta obra, o pintor parece ter buscado inspiração em elementos barrocos, como a cortina vermelha do fundo, que brinda grandiosidade ao ambiente, e o esplêndido traje marrom do rei, sobrecarregado de bordados em cinza com reflexos dourados, nos quais o hábil pincel de Velázquez se entreteve num verdadeiro banquete de detalhes e florituras.
Na ocasião, Filipe IV posou praticamente de frente e com a expressão abstraída, ausente, ainda que os olhos pareçam vivazes. As mãos estão com luvas: a esquerda repousa sobre a empunhadura da espada, enquanto a direita sustenta um papel, seguramente uma petição do artista, no qual se lê, em três linhas: “Senhor/Diego Velázquez/Pintor de V.Mg.”
À direita do quadro se nota uma mesa sobre a qual está um luxuoso chapéu de plumas, cuja cores combinam com as do traje.
A mistura de cinza e branco da vestimenta, das mangas e das meias, embora estas não tenham o branco original, pois foram restauradas em 1936, contrasta com o negro do ângulo superior direito, o vermelho da toalha de mesa e do cortinado, bem como com os pontos de sombra gerados pela iluminação centrada no personagem.
Da longa lista de retratos destacam-se “O príncipe Baltasar Carlos com um anão” e a série de pinturas equestres da família real feita para o Salão dos Reinos do palácio do Bom Retiro e que atualmente encontra-se no Museu do Prado: “Retrato equestre de Filipe III”; “Retrato equestre da rainha Margarida da Áustria”; “Retrato equestre do príncipe Baltasar Carlos”; “Retrato equestre do conde-duque de Olivares”.

“Retrato equestre do príncipe Baltasar Carlos”, 1635.


Este retrato eqüestre do príncipe Baltasar Carlos é o mais popular dos realizados por Velázquez para o Salão dos Reinos do palácio do Bom Retiro. A obra estava posicionada sobre uma porta do salão, de tal modo que transmitia a sensação de que o cavalo e seu ginete saltavam sobre quem a cruzasse.
A parte inferior do quadro e a superior da porta estavam flanqueadas por retratos equestres dos pais de Baltasar Carlos: à esquerda, Filipe IV cavalgando para a direita; e, à direita, Isabel de Bourbon marchando em sentido contrário. Os três personagens pareciam se dirigir a um ponto central de encontro.
Retratado com seis anos, o príncipe transmite uma imprópria sensação de comodidade. Seu corpo, em particular a mão esquerda que segura ás rédeas, não parece ter a tensão necessária para lidar com um cavalo a galope e disposto a saltar. Seguramente o pequeno ginete nunca cavalgou nessa situação, e esta é uma das poucas vezes que Velázquez não se ajustou à realidade.
O peito e o ventre do animal têm aparência desproporcional em relação à largura de suas extremidades.
Cabe ressaltar, porém, que nessa época existiam na Espanha cavalos com essas características, fruto do cruzamento de equinos do norte e do sul.
Baltasar Carlos e seu cavalo estão emoldurados por uma magnífica paisagem da serra de Guadarrama, com seus picos nevados. Destaca-se a luminosidade do ambiente, seguramente matinal, mostrada com ágeis pinceladas nas quais predominam as cores verdes, azul, cinza e branco.
A posição central e elevada do príncipe se afirma sobre a grande linha diagonal e dinâmica que descreve o cavalo, em posição quase impossível, assegurando a elevação do príncipe em sua condição de futuro rei.
Com rosto seguro e altivo, o menino apresenta-se ricamente vestido, com ornamentos dourados e verdes, bordados em ouro, botas altas e um gracioso chapéu de feltro e plumas.
O peito e as costas estão cruzados por uma faixa rosa de general, com franjas douradas. A mão direita segura um bastão de comando. Ao incluir esses símbolos, Velázquez indica que o menino é o herdeiro da coroa.
O príncipe, porém, faleceu prematuramente dez anos depois, quando se preparava para se casar com a arquiduquesa Mariana da Áustria.

“Retrato equestre do conde-duque de Olivares”, 1634-1638.


Este impressionante retrato equestre apresenta Gaspar de Guzmány Pimentel, conde-duque de Olivares e valido do rei Filipe IV.
Assim como outros quadros de Velázquez, há dificuldade para estabelecer sua datação. O catálogo do Museu do Prado divulga a data aproximada de 1634. O ano pode ser deslocado para 1638 se, como supõe alguns estudiosos, a obra for uma homenagem à vitória sobre os franceses em Fuenterrabía, embora o conde-duque não tenha participado diretamente do conflito: Olivares era, sobretudo, um político que manejava os assuntos do reino, incluídos os militares, e sabia vangloriar-se pelas vitórias ainda que estivesse longe dos campos de batalha.
Velázquez não costumava assinar nem datar os quadros, consciente de sua qualidade e de que eram inconfundíveis.
Neste retrato, como em “Retrato equestre de Filipe IV”, pintou nos ângulos inferiores esquerdos espaços que parecem destinados à assinatura que nunca estampou.
Essa obra carrega conotações barrocas na apresentação do personagem e ligeiras pinceladas de um impressionista do século XIX no céu e na folhagem da árvore da direita.
Velázquez propõe uma audaz composição em que o cavalo, em curveta, e o ginete aparecem transversalmente em um terreno alto.
Diante deles abre-se uma ampla paisagem com a batalha: logo abaixo da cilha do arreio e da bota à altura das patas erguidas do cavalo, vêem-se, diminutos, outros cavalos e soldados e ao longe a fumaça provocada pela artilharia.
O cavalo e o ginete estão emoldurados pelos emoldurados pelos referidos contornos de vegetação e de céu, em uma combinação de cores composta de verde, azul, cinza, ocre e magenta. A mistura cria uma atmosfera de grande profundidade espacial, bem como de união indissolúvel entre o natural (a paisagem) e o artificial (o ginete e seu cavalo posando nesse lugar).
A figura do conde-duque é impressionante, afinada com seu poder. O cavalo em curveta o revela, pois Olivares é a única personalidade não pertencente à família real à qual Velázquez se atreveu a pintar a cavalo nessa posição.
O valido porta um grande chapéu, couraça negra e reluzente com incrustações em ouro, pomposa faixa de general, botas altas com esporas e o bastão de comando na mão direita.
O olhar desafiante e altivo se volta para o espectador.
A maestria de Velázquez também sobressai na pintura desse soberbo alazão andaluz, cujos músculos tensos e bem marcados, bem como o suor da boca e do pescoço, sugerem a tensão do combate e o domínio de seu ginete.
Além desses, também estão no Museu do Prado “Pablo de Valladolid”; “Francisco Lezcano, o menino de Vallecas”; “O bufão Calabacillas” e “Dom Sebastián de Morra”, entre outros.

“Pablo de Valladolid”, 1633.


Pablo, Pablos ou Pablillo de Valladolid chegou à corte para se integrar à legião de “homens de prazer” que entretinha a família real. Alguns acreditam que ele era bufão; outros apostam que era cômico, como eram denominados os atores na época.
O pintor apresentou a personagem vestido de negro, com gola branca e capa, como exigia a etiqueta.
O rosto emana seriedade, em uma atitude declmatória, como se estivesse representando uma obra. Desse modo, o personagem não seria um bufão que procurava provocar o riso.
Pablo aparece em pé, com o braço direito estendido e as pernas bem abertas, sobre um fundo neutro de cor clara que delimita a silhueta. Velázquez introduziu uma nova e audaz técnica no retrato de pessoas reais, reservada até então para os personagens religiosos que eram representados no céu, como flutuando no ar.
Não há indicação que permita conhecer o espaço real por onde se move o personagem. Velázquez não separa, nem sequer com uma linha horizontal, o fundo do chão, que apenas se intui pelas leves sombras a partir dos pés de Pablo.

“Francisco Lezcano, o menino de Vallecas”, 1636-1644.


Velázquez reiterou neste quadro a habilidade, a sensibilidade e a ternura com que observava anões e débeis, tal como fez desde a fase sevilhana.
Francisco Lezcano, conhecido como Vizcaíno, era um anão disforme, enfermo de “cretinismo com oligofrenia”, de acordo com parecer médico baseado na análise da pintura.
O personagem está sentado no que parece ser a entrada de uma gruta, com vista para a serra de Guadarrama. O pequeno fragmento de paisagem não apresenta a luminosidade de paisagem o pintor oferece em outros quadros com imagens dessa região de Madri. As pinceladas são grossas, com predomínio do cinza.
O ambiente estreito e limitado, similar ao mostrado pelo pintor em vários de seus personagens desse gênero, talvez seja um símbolo do escasso desenvolvimento mental do modelo.
Nota-se a deformação na perna direita esticada para a frente. Entre as mãos atarracadas, Francisco segura algo que pode ser um pincel plano e curto, um pedaço de pão, um fragmento de telha ou cartas de baralho que Velázquem teria dado para o modelo se entreter enquanto posava.
O tabardo, capote com capuz e as calças verdes indicam que Francisco participava de uma caçada, porque essa era a cor da roupa usada na época para praticar caça. As mangas são de um verde azinzentado, com reflexões rosáceos; a camisa no decote do casaco é branca.
O que prevalece e prende a atenção do espectador é a grande cabeça, ligeiramente inclinada para trás, com rosto impassível, inescrutável e indiferente a tudo o que o rodeia, ainda que pareça insinuar um sorriso.
Os olhos mal estão abertos e olham para longe, apesar de o ambiente não ser muito amplo.
As pinceladas são pastosas e refletem o domínio do claro e do escuro, neste caso, baseado na iluminação que foca o rosto de Francisco e se distribui com decrescente intensidade ao longo de seu pequeno corpo e pela gruta.

“O bufão Calabacillas”, 1636-1638.


O nome do modelo, tal como figurava nos registros oficiais, era dom Juan de Calabazas, o sobrenome seria uma alusão à suposta vacuidade de sua cabeça e possivelmente não era o real. Embora fosse um mero bufão, Juan de Calabazas gozava de significados privilégios na corte, como carruagem, mula e retribuição por cumprir suas funções.
A obra sofreu retoques que foram descobertos em 1965. A identidade de quem realizou a repintura é desconhecida. O fato é que a versão adulterada da obra ocultou o estrabismo convergente do personagem, a magreza das pernas e os dedos de um pé posicionados como se estivessem escavando o chão, o que indicaria que o modelo padecia de espinha bífida e paralisia de um ou de ambas as pernas.
Com uma técnica de pinceladas soltas que inclui sombras sutis, o pintor proporcionou ao rosto de Calabazas uma espécie de desfoque fotográfico. Com isso, ressaltou ps pequenos olhos vesgos, como se houvessem sido postos sob pressão em suas grande órbitas. O sorriso, quase impossível de interpretar, pode ser irônico, desafiante, pícaro, de submissão e até beatífico.
Velázquez o representou entre duas cabaças.

Também são notáveis dois retratos de gregos históricos: o fabulista “Esopo” e o filósofo “Menipo”.

“Esopo”, 1639-1640.


A representação do fabulista grego tem reminiscências da fase sevilhana de Velázquez: as pinceladas pastosas e o tratamento de luzes e sombras, sobretudo da roupa. Ao mesmo tempo, revela a agilidade e a maturidade do pintor, o que pode ser percebido no trabalho da notável cabeça do personagem.
O fabulista Esopo, de quem se dizia que era feio, corcunda e gago, viveu entre os séculos VII e VI a.C. Sua trajetória foi marcada por passagens penosas: fora escravo e, embora tenha obtido a liberdade, foi assassinado pelos habitantes de Delfos, ofendidos por suas brincadeiras.
Suas breves histórias com lições de moral, nas quais os protagonistas são animais que falam, foram transmitidas oralmente e começaram a ser publicadas um século depois de sua morte. Atribui-se a Velázquez a intenção de se vingar de Esopo por usar animais para descrever o comportamento dos homens.
Nesse sentido, o aspecto fleumático do rosto de Esopo representa sutilmente os traços bovinos, conforme observa Jonathan Bown. Acima de qualquer mensagem moral do retrato, Velázquez manteve-se fiel a sua postura de não incluir artifícios ou elementos agradáveis e vistosos, procedimento usado na França. Assim, o rosto reflete o ceticismo de quem possui a sabedoria do sofrimento. Porém, o olhar irônico, desdenhoso e inquisitivo não é o de um vencido, senão, pelo contrário, o de quem ostenta sua dignidade com plenitude.
A indigência revelada pela vestimenta, com uma faixa não muito branca, simbolizaria a pobreza que caracterizava muitos filósofos e artistas.
De interpretação mais difícil são os escassos utensílios localizados aos pés do personagem. Esses objetos constituem os únicos elementos capazes de situar o espaço real onde se encontra o fabulista.

“Menipo”, 1639-1640.


O filósofo grego Menipo, viveu no século III a.C., chegou a Fenícia como escravo e, posteriormente, conseguiu comprar a liberdade e a cidadania tebana.
A identificação do personagem é fornecida pelo pintor no ângulo superior esquerdo do quadro, onde se lê MOENIPPVS, versão latina do nome do filósofo.
Menipo enriqueceu com a venda de suas obras, enquadradas na escola cínica, embora seus maiores rendimentos fossem provenientes de empréstimos usurários. Mas perdeu sua fortuna e se suicidou.
Essa conduta parecia contraditória em relação a sua pregação contra a vaidade, a aparência, as diferenças sociais e a escola de Epicuro.
Velázquez mostra o filósofo com a aparência dos muitos mendigos que percorriam as estradas da Espanha, refletindo uma mistura de picardia e dignidade: uma velha e esfarrapada capa de cor escura fechada com a mão esquerda, calças maltrapilhas, botas altas e um chapéu de ampla aba que contribui para assegurar dignidade ao personagem.
O homem está em pé e de perfil com o rosto voltado para o espectador. A iluminação bifocal centra-se na face e no chão que se abre para o espectador. Uma cambaleante e baixa mesa sustenta uma jarra que, quem sabe, representa a fragilidade da vida. Um livro em branco e outro recostado sobre um rolo de papel simbolizariam o desprezo de Menipo pelos ensinamentos filosóficos de seus contemporâneos.
Em 1635, Velázquez fez uma de suas pinturas, uma obra-prima quase incomparável: “A rendição de Breda” ou “As lanças”, que representa a rendição da cidade holandesa de Breda frente às forças espanholas vencedoras, lideradas pelo general Ambrosio de Spínola.

”A rendição de Breda” (“As lanças”), 1635.


Este quadro marcou um ponto de onflexão no tratamento da pintura histórica. Pela primeira vez, um artista deixou de lado os habituais moldes usados nesses temas, que incluíam uma interpretação favorável ao vencedor, personagens solenes e grandiosos, alegorias e, muitas vezes, elementos religiosos ou mitológicos.
Neste caso o pintor se ateve ao real e provável e situou vencedores e vencidos no mesmo plano de dignidade e humanidade. As duas partes sofrem e compreendem os horrores da contenda.
Em “A rendição de Breda”, importam mais as consequências da guerra do que a batalha em si, cujo rescaldo conforma uma impressionante paisagem de fundo.
Velázquez sitou em primeiro plano a relação pessoal e até amável, entre os capitães rivais e seus principais colaboradores. Nesse sentido, oferece-se um verdadeiro estudo psicológico de todos os personagens. A nova visão de um conflito bélico causou admiração na época e se somou aos marcantes fatores artísticos que explicam a justa fama da obra.
Tudo começou em 1624, quando as tropas espanholas sob comando de Ambrosio de Spínola, general de origem genovesa, sitiaram a cidade de Breda, um dos centros da rebelião nos Países Baixos contra a dominação espanhola. As tropas holandesas estavam sob o comando de Justino de Nassau. Dez meses depois, já em alimentos, os holandeses de Breda se renderam. Spínola tratou com cavalheirismo o derrotado Nassau: não permitiu que se inclinasse nem se humilhasse ao entregar as chaves da cidade, autorizou que sua esposa deixasse a cidade em uma carruagem e não obrigou seus homens a entregar as armas.
Dez anos após a batalha, Velázquez recordou a façanha com este quadro.
Velázquez nunca esteve em Breda, mas captou elementos da paisagem local por meio de obras de Peeter Snayers sobre o cerco à cidade. O pintor tampouco conheceu Nassau, embora tenha visto imagens que o representavam. Com Spínola, viajou de Barcelona a Gênova em 1629, e especialistas garantem que o artista fez esboços da figura do general.
A composição do tema se constitui sobre um triângulo. O lado mais longo corresponde à linha horizontal que diivide o quadro e encerra os personagens. O vértice se situa no centro da metade inferior da tela. Em uma elevação à esquerda estão os holandeses: à direita, os espanhóis, em cuja retaguarda se levanta um espetacular conjunto de lanças, quase como uma grade que rompe a continuidade da paisagem, o que rendeu ao quadro a denominação “As lanças”. A disciplina militar pode ser notada pela verticalidade das armas, ainda que quatro estejam inclinadas e conferem um toque humano à cena, insinuando a fadiga depois da vitória.
No centro posicionam-se os dois líderes rivais. Por trás do braço direito de Spínola e sobre a cabaça de Nassau se vêem soldados holandeses em retirada, com lanças e uniformes de cor azul pálido.
Ao fundo, e limitando o triângulo, abre-se um impressionante campo de batalha quase deserto, com colunas de fumaça esverdeadas e acinzentadas, fogo, trincheiras, forificações e cursos de água, tudo coberto por nuvens azuladas.
Se a forma de narrar o tema, já é admirável, também o é a diversidade de técnicas pixtóricas executadas por Velázquez, utilizando as mais adequadas em cada setor do quadro. Assim, a paisagem, plenamente construída para transmitir a sensação de profundidade, mostra pincelada ágeis e leves em algumas ocasiões.
Essa técnica constitui mais uma entre tantas que o impressionismo recolheu de Velázquez mais de dois séculos depois.
O pincel, em compensação, é espesso nas roupagens, salvo na fulgurante armadura de Spínola. A pincelada torna-se longa e compacta no esplêndido cavalo espanhol à direita.
A maestria se completa com a distribuição das luzes, próprias de uma cena ao ar livre, e das sombras que geram personagens, animais e objetos (o capote do soldado holandês em primeiro plano e praticamente aquarelada na indumentária do oficial vestido de branco).
O centro da composição é a modesta chave que Justino de Nassau entrega a Ambrosio de Spínola. Com sua armadura negra e inscrustações douradas, Spínola impede que Nassau se ajoelhe e lhe dirige um sorriso afável e compreensivo. A cena é notável tanto do ponto de vista pictórico quanto pelo valor de humanidade que transmite.

Entre as obras religiosas do período, destacam-se “Cristo Crucificado”, “Santo Antônio abade e São Paulo ermita” e “A coroação da Virgem”, as três conservadas no Museu do Prado.

“Cristo crucificado”, 1632.


Este quadro caracteriza-se pela iluminação proveniente do ângulo superior esquerdo e pelas sombras apenas marcadas sobre um fundo escuro que destaca o personagem.
Nota-se a influência da viagem de Velázquez à Itália, porque mal se enxergam rastros dos claros-escuros tenebristas. Foi mantido o estilo naturalista e é indubitável que o autor usou um modelo vivo e uma cruz real para executar seu trabalho.
Alguns pesquisadores sustentam que, no primeiro esboço, o fundo era ocupado por uma paisagem e que Velázquez teria pintado algumas figuras atrás da cruz.
Diferentemente de outras obras sobre o mesmo tema, este “Cristo crucificado” transmite mais serenidade do que dor.
Seguramente Velázquez imaginou Cristo já morto, com seu sofrimento cessado.
O corpo esbelto, limpo e quase sem sangue nem escoriações não parece estar pendurado na cruz, mas aderido a ela, efeito que é reforçado pelo suporte sobre o qual os pés descansam separados, atravessados por enormes pregos.
O escasso sangue origina-se da coroa de espinhos, de uma pequena ferida do lado direito do peito e dos quatro pregos usados para prender as mãos e os pés.
Quase metade do rosto está coberta pela longa cabeleira do protagonista, representação pouco comum de Cristo na cruz.
Conta-se que, apesar de sua reconhecida fleuma, Velázquez teve um momento de exasperação durante seu trabalho e que, enfadado, arremessou os pincéis contra a tela, manchando a metade direita do rosto.
O resultado de sua ira seria a inspiração para pintar a metade do rosto oculto pelo cabelo.

“A coroação da Virgem”, 1641-1642.


Esta obra de Velázquez foi pintada para o oratório da rainha em Alcázar, de cujo incêndio em 1734 se salvou.
O quadro revela a arte do artista em distribuir diferentes técnicas pictóricas por várias zonas do quadro. Esse fato originou a crença de que se trata de um trabalho dos últimos anos, quando o pintor estava no auge de sua maturidade, e seria dedicado à rainha Mariana da Áustria.
A pincelada é espessa e pesada na ampla e abundante roupagem, mas sabiamente leve e ágil, no tratamento das cabeças e das mãos, em particular da mão direita da Virgem, que delicadamente aponta pra o próprio coração.
O quadro possui composição geométrica baseada em dois losangos sobrepostos. O menor, que encaixa a figura da Virgem, sobrepõe-se ao maior, que inclui as três figuras da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
A obra de Velázquez é natural, quase familiar, com as figuras sentadas, com um aspecto que não remete ao misticismo, mas à humanidade dos personagens, como em outros trabalhos religiosos do pintor. Até a insólita calvície do Pai reforça seu modo de interpretar o tema, absolutamente original para sua época.
O Pai e o Filho sustentam sobre a cabeça de Maria uma extraordinária coroa de minúsculas flores iluminada pela luz do Espírito Santo, representado por uma pomba.
A Virgem ascende ao céu, conduzida pelos anjos e os dois pares de querubins.
É prodigioso o desenvolvimento de combinações do ousado colorido usado por Velázquez. Nessa obra, os roxos poderiam conferir um peso extremo. Este, porém, é aliviado por vermelhos pálidos, azuis, verdes, brancos e pela luminosidade que se desprende praticamente de todo o quadro. O que em outra pintura poderia ser contraditório e discordante, nesta adquire plena harmonia.

Em plena maturidade, Velázquez empreendeu em 1649-1651, a segunda viagem à Itália.
O prestígio de Velázquez originou um pedido formal para retratar o papa Inocêncio X. Como o artista estava havia meses sem trabalhar, preferiu primeiro treinar a mão. Para isso, usou seu criado como modelo, o que resultou num belo retrato: “Juan de Pareja”.
Na sequência, superou-se a si mesmo com “Retrato de Inocêncio X”, um autêntico estudo psicológico do pontífice que revela sua complexa personalidade.

“Retrato de Inocêncio X”, 1650.


“Sinfonia em vermelho e branco”, “auge da arte do retrato” e “impressionante por seu realismo” foram alguns dos elogios a este retrato do papa Inocêncio X.
O primeiro a reconhecer a excelência do quadro foi o próprio pontífice, que, ao vê-lo, exclamou: Troppo vero! (Demasiado verdadeiro!). Por isso, a primeira reação de Inocêncio foi recusá-lo, mas finalmente recebeu-o e, como forma de gratidão, presenteou Velázquez com uma valiosa corrente de ouro.
O implacável e insubornável pincel do artista andaluz refletiu uma personalidade inteligente, mas também sinistra, colérica, cruel e desconfiada até a obsessão.
Naquela época, Inocêncio X enfrentava diversas dificuldades: luta contra a corrupção na corte romana, inimizade com o todo-poderoso cardeal Mazarino, cuja política convertia a França em principal potência européia, e a oposição às cláusulas religiosas dos tratados de Westfalia.
O personagem de rosto carnoso e rosado está sentado em um trono vermelho escuro, quase roxo, que se distingue do fundo de mesma cor pelas bordas douradas. Está vestido com sobrepeliz branca e murça e barrete vermelhos.
Com pinceladas de grande desenvoltura, o pintor obtém uma notável conjunção de matizes de vermelhos que destacam o brilho da tela através dos vincos da murça.
Os vermelhos se contrapõem sabiamente à sobrepeliz branca que cai em cascata em direção ao chão.
O papa segura em sua mão esquerda um papel no qual Velázquez pôs sua assinatura.

Esse quadro abriu as portas para outros retratos de personagens da cúria romana, ao mesmo tempo em que Velázquez recebia distinções honoríficas.
Embora alguns pesquisadores sustentem que o primeiro nu profano da pintura espanhola, “A Vênus com seu espelho”, foi pintado por Velázquez após voltar a Madri, a opinião mais aceita é que a notável obra, uma das mais importantes do pintor, teria sido pintada em 1650, durante sua estadia em Roma.

”A Vênus do espelho”, 1648-1650.


Anteriormente, Velázquez havia pintado “Psiquis e Cupido” e “Vênus e Adônis”, temas que requeriam nus; lamentavelmente, porém, ambas as peças foram destruídas no incêndio de Alcázar de 1734.
Com esta Vênus sensualmente deitada em um leito coberto por uma manta cinza-escura, oferecendo as costas ao espectador, o artista volta a demonstrar sua capacidade para transcender seu tempo e renovar as técnicas pictóricas e o modo de compreender seus temas. Basta observar o corpo da jovem para notar que, em relação aos mutantes cânones da beleza feminina, Velázquez vai ao encontro dos ideais contemporâneos e se afasta da longilínea e quase esquelética “Vênus”, de Lucas Cranach, bem como da robusta “Vênus em frente ao espelho”, de Rubens.
De modo geral, isso ocorre porque ao escolher o biotipo da mulher que lhe serviu de modelo, Velázquez foi fiel a sua concepção de humanizar os temas mitológicos e suas personagens.
Quanto à mulher retratada, alguns pesquisadores acreditam que se tratava da atriz Damiana, conhecida por seu comportamento escandaloso. Outros, por sua vez, sustentam a hipótese de que o pintor sevilhano não utilizou modelo.
O quadro mostra Vênus entretida na contemplação de sua beleza diante de um espelho suspenso pelo Cupido. As asas deste são a única referência claramente mitológica da obra; o restante é de uma naturalidade e de um realismo próprios de Velázquez, obtidos graças a sua sensibilidade e à perícia de suas pinceladas. Nesse sentido, assinalou-se que a mitologia não seria o tema central da obra, mas que ela seria revelada pelo retrato de uma pessoa qualquer. Ou seja, o mito desmitificado e voltado de costas, como sustentava José Ortega y Gasset.
A composição do quadro é de aparente simplicidade. A obra propõe uma sábia formulação do espaço. Ordena-se em planos de profundidade e focaliza o espelho, que atua como centro temático, apesar dos traços mal esboçados da imagem refletida. Assim mesmo, para o espelho não apenas convergem os olhares de Vênus e Cupido, como também o do espectador, atraído pela cena quando procura identificar o rosto refletido.
A iluminação está sob medida para apenas produzir sombras. Na obra predominam harmoniosamente os tons rosados, de vermelho, cinza, ocre e branco, além do azul da faixa no peito de Cupido.
A sábia combinação do rosa, vermelho e cinza assegura a descrição pictórica da pele dos dois personagens e confere uma excepcional naturalidade, há escassos antecedentes desse tipo de efeito naquela época. A combinação se completa com o brilhante ocre-avermelhado do cortinado.
As pinceladas são sutis e ágeis, com extraordinária delicadeza e firmeza própria de quem alcançou a plenitude artística. Isso pode ser percebido nos vincos e nas leves sombras da cortina, do lençol e do manto cinza. Ressalta ainda mais na graça, na fluidez e na habilidade com as quais o pincel forma o sedutor corpo de Vênus em seus mínimos detalhes.
O espelho que reflete a imagem de um rosto não parece corresponder à beleza do corpo de sua dona. É o mesmo recurso utilizado pelo pintor em “As meninas” para mostrar os reis. Ou seja, para oferecer ao espectador o que a disposição do quadro manteria oculto.
O peso do quadro se distribui entre Vênus, o Cupido e o espelho. Neste, a pincelada leve e a menor iluminação diluem a imagem refletida e garantem uma sensação de irrealidade. O tamanho da imagem refletida, aliás, parece não fazer jus à distância que guarda do rosto da jovem, o que alimenta especulações de que teria sido repintada ou que pertenceria a outra artista.
No cabelo de Vênus, o pintor utilizou-se de pinceladas curtas e finas, que permitem destacar os matizes dos fios castanhos da mulher. Assim, Velázquez rompe com a tradição das Vênus loiras e com longas cabeleiras soltas.
O Cupido segura o espelho com uma mão sobre a outra; entre elas se estendem fitas rosadas, enfatizadas com tons prateados, de tecido solto e, pintadas com ágeis e finas pinceladas.
Para alguns estudiosos, esse procedimento aproximou a pintura de Velázquez ao conceptismo, movimento literário que se espalhou entre os intelectuais e que o sevilhano conhecia bem. Outros especialistas, por sua vez, atribuem ao pintor intenções mais profundas e complexas.
Assim, por exemplo, Norbert Wolf afirma que “na confrontação entre a visão de costas da deusa do amor e o reflexo de seu rosto [...] Velázquez simboliza a relação entre realidade, imagem e representação. Com os instrumentos de seu ofício, reflete sobre as possibilidades da pintura em relação à realidade e à aparência; ou seja, discorre intelectual e sensorialmente sobre o quadro como meio e sobre o processo de sua elaboração”.

A exemplo de outras obras, “Vista do jardim da Vila Médicis, em Roma”, também conhecida como “A tarde”, a fim de diferenciá-la de seu par, outra tela de mesmo título e chamada “O meio-dia”, apresenta dúvidas quanto à data de confecção. Atualmente, a maior parte dos especialistas, data sua realização em 1650, ou seja, durante a segunda viagem do pintor à Itália. Essa hipótese é sustentada pela liberdade do pincel e dos traços próprios de obras dessa fase de Velázquez.
Além disso, há outra pista: o tablado situado na entrada da gruta da Vila Médicis passava por reparos durante a primeira viagem de Velázquez, conforme documentos guardados nos arquivos romanos.

“Vista do jardim da Vila Médicis, em Roma” (“A tarde”), 1649-1651.


Na época, as paisagens eram desenhadas ao natural ou apenas esboçadas para, no ateliê, serem finalizadas. Muitas vezes, decorria daí a ausência de naturalismo, a feição artificial ou os elementos imaginados das pinturas dos séculos XVII e anteriores. Velázquez abriu um novo caminho para a pintura ao fincar seu cavalete ao ar livre.
Até então, as paisagens serviam de pano de fundo para emoldurar uma história ou um argumento, e a causa e a essência das obras eram os personagens. Já nessa tela surgem quatro pessoas mal esboçadas (três figuras em pé diante da entrada da gruta, fechada por tapumes de madeira, sobre a qual há uma linha de balaústres; outra figura, talvez a de uma mulher, estende um lençol ou uma toalha de mesa), porque o que importa é o meio.
Atrás sobressaem ciprestes que deixam entrever nuvens coloridas pela luz. Particularmente interessantes são os detalhes da descascada parede com uma abóbada que abriga uma estátua.

A gratidão de Filipe IV a Velázquez pelas aquisições realizadas na Itália para decorar o Alcázar foi traduzida em 1652 com sua nomeação para o mais honroso dos cargos a que um pintor poderia chegar: "Aposentador Mor", ou tesoureiro do rei.
No entanto, sua ambição por ascensão social e honrarias, sintetizada pela aspiração de pertencer à nobreza, concretizou-se em 1659, quando recebeu seu maior título de Cavaleiro da Ordem de Santiago. Antes de receber a nomeação, Velázquez teve de contar com o auxílio do rei para se livrar do inquérito sobre sua ascendência. O monarca obteve a exoneração de provas negativas como não ter sangue impuro, ou seja, não ser descendente de judeus. O rei Filipe IV teve que obter uma permissão especial do papa Alexandre VII para conceder a honraria ao artista.
Em seus últimos anos, pintou algumas de suas principais obras. Nelas tornam-se patentes a maturidade do artista e a transposição para a tela de uma inquietude pictórica peculiar daquela fase do pintor: capturar ambientes, cores, movimentos e formas em um momento fugaz de iluminação, como num reflexo que se esgota instantaneamente. Esses trabalhos explicam por que o artista sevilhano é considerado precursor da pintura impressionista.
Velázquez continuou a oferecer seu notável dote de retratista em diversos quadros para personagens da corte.
Durante mais de um quarto de século, Velázquez registrou com notável fidelidade a evolução física e psicológica de Filipe IV.
São autênticas obras-primas as representações do rei, que refletiria não apenas o passar dos anos, mas o peso de um reinado cujo saldo era a perda de territórios e uma profunda crise econômica e social.

“Busto Filipe IV”, 1655.


Neste quadro, Filipe IV encontrava-se acossado pelas crises na península, na Europa e na América e impotente para frear a decadência e a ruína do imenso império legado por seus antepassados.
Velázquez evitou transmitir totalmente essa frustração, exibindo o monarca com altivez e dignidade.
Existem diversas versões do busto de Filipe IV, algumas realizadas por Velázquez e seus ajudantes; outras foram obras do ateliê. A comparação entre esses retratos faz supor que o quadro aqui apresentado é anterior ao exposto em Londres. Na obra da National Gallery, igualmente atribuída a Velázquez, Filipe IV é apresentado com a papada mais pronunciada, o rosto mais gordo, cachos iluminados que anunciam os fios brancos, olheiras pronunciadas, olhos mais apagados e sutis toques de pincel que insinuam a aparição das rugas da velhice.
A análise das diferenças entre os dois retratos aponta que o soberano goza de maior vitalidade na tela do Prado aqui reproduzida.
Do ponto de vista pictórico, o retrato do museu madrilenho reflete melhor as dificuldades que afligiam o estado de espírito do monarca. Ao empregar uma pincelada leve, Velázquez outorgou maior palidez ao rosto do monarca.
No quadro da National Gallery, o traje do rei ostenta botões e bordados dourados nas mangas, e uma corrente de ouro. Já na pintura do Prado, Filipe IV pode ser um homem comum: roupa negra, de seda por seus brilhos, mas sem carregar elementos que o identifiquem como um rei.

O ápice da carreira de Velázquez, porém é “A família de Filipe IV”, de acordo com seu nome original, ou “As meninas”, como é reconhecida mundialmente.
Uma das obras mais elogiadas de toda a história da arte pictórica, a pintura datada de 1656 está exposta no Museu do Prado. Trata-se de um trabalho de extrema complexidade e grandes dimensões.
Em uma tela na qual o próprio artista se mostrou, estão presentes técnicas e recursos utilizados ao longo de sua vida, como refletir imagens através de um espelho e retratar outros quadros. Tudo captado num instante fugaz.
Em síntese, um quadro que é uma mostra completa da formidável genialidade do pintor e que explica por que o artista sevilhano é um dos maiores pintores de todos os tempos.

“As meninas” (“A família de Filipe IV”), 1656.


A pintura mostra uma cena cotidiana e factível na corte do século XVII. A aparência singela, no entanto, revela uma série de perplexidades.
A cena induz o espectador a imaginar que Velázquez começava a pintar os reis Filipe IV e Mariana, quando a infanta Margarida, aos cinco anos irrompeu no ateliê do artista acompanhada de suas damas.
Os críticos especulam que Velázquez estava brincando com a ideia da ambiguidade de imagens, ao incluir muitas versões da arte no retrato, até mesmo seu autorretrato, à esquerda, pintando o rei Felipe IV e sua esposa Mariana, da Áustria, no ato de reproduzir a própria cena no espelho.
Embora ausentes do quadro, os reis têm suas imagens refletidas espelho do fundo, numa larga moldura escura que delimita o espelho no qual aparece o casal real sob uma cortina vermelha recolhida. As figuras estão enevoadas e imprecisas pela sombra desse setor do salão. Ao mesmo tempo, o espelho reflete a iluminação, natural ou artificial, para que Velázquez possa retratá-las. É como se ambos estivessem de costas para o observador e de frente para o pintor, que os observa atentamente, simultaneamente espectadores e protagonistas da cena, imaginando-se a sua presença “do lado de cá” do quadro, ou seja, junto de nós.
O próprio Velázquez ao autoretratar-se enquanto pinta o quadro com o par real, Velázquez propõe o tema do quadro dentro do próprio quadro e é atraído para o interior de um jogo labiríntico entre os espaços interior e exterior. Estes, que são retratados na grande tela que o pintor tem à sua frente, encontram-se exatamente no mesmo lugar de quem contempla a obra, fato que cria a sensação de um ambiente não pintado, mas real e palpável, no qual o observador poderia entrar.
Alegoria da representação. A tela de pintura à esquerda retrata Velásquez pintado (autorretrato). Ele está se olhando para o espelho, talvez o quadro que nós estamos vendo.
As damas de honra são Maria Agustina Sarmiento, que ajoelhada, oferece uma jarra vermelha de barro colocada sobre uma bandeja prateada, e Isabel de Velasco, levemente inclinada, rendendo homenagem à princesa, as meninas.
Na parte direita estão Maribárbola, uma anã alemã que olha para frente, e o anão italiano Nicolas Pertusato, que apóia o pé nas costas do cão tranquilo, formando um grupo em primeiro plano, sob luz mais intensa, próximo de uma janela aberta, mas, reunindo diversos retratos adicionais.
O fato indica a sua familiaridade e despreocupação em relação a tudo o que o rodeia, como se no palácio fosse normal assistir às sessões de pintura de Velázquez apontando para o tema: “Visitantes no estúdio do artista”.
Os retratos dos bobos da corte formam um núcleo importante na produção retratística do pintor e serão muito admirados por Goya e Manet.
Atrás deles, na penumbra, aparecem Marcela de Ulloa, encarregada das damas de honra, e um cavaleiro que não se pode identificar. Na esquerda se encontra a figura de Velázquez com seus instrumentos de trabalho em frente de um grande painel que ocupa todo o ângulo do quadro.
À direita do espelho e ao fundo, uma intensa luz originada de um ambiente contíguo aprofunda a perspectiva e revela uma porta aberta e uma escada de onde o aposentador da rainha, José Nieto Velázquez (talvez parente do pintor), contempla a cena.
Na mesma parede, sobre o espelho, há duas cópias de “Minerva e Aracne”, de Rubens, e “Apolo e Pan”, de Jacob Jordaens, realizadas por Juan Bautista Del Mazo, genro de Velázquez.
A Cruz de Santiago no colete do pintor foi agregada três anos após a conclusão da pintura, quando Velázquez foi nomeado cavaleiro dessa ordem. Uma lenda, porém, conta que a cruz teria sido pintada pelo próprio Filipe IV, ou a mando deste, quando o artista estava no leito da morte.
Atualmente, os especialistas concordam que Velázquez não apenas quis congelar em “As meninas” um instante da vida de palácio, como propôs um enigmático jogo intelectual. Entre suas intenções, estaria hierarquizar sua profissão, então não muito estimada. O posterior acréscimo da Cruz da Ordem de Santiago sobre o hábito do pintor confirmaria, portanto, esse notório anseio do pintor.
Com notável sensação de profundidade, o quadro apresenta perfeita composição, distribuída em espaços bem ordenados que, em seu conjunto, conferem ao grande salão uma atmosfera plena de realismo e proximidade.
Embora as figuras pareçam agrupadas informalmente, na verdade a composição consiste numa série equilibrada de triângulos superpostos. Note a impressão de profundidade obtida pela distribuição dos objetos, das pessoas e do cachorro.
O pintor usou apenas a metade de baixo da tela para os retratos e encheu o espaço acima com uma gama de luz e sombra para produzir a ilusão de espaço.
Verticais e horizontais firmes evitam que o olhar do espectador se perca na sala.
O artista criou formas através de cores e luz, e não com linhas, obtendo imagens inesperadamente reais da figura humana e criar o ambiente.
Destaca-se a distribuição da luz, intensa no primeiro plano, difusa no fundo e forte na porta aberta e no espelha, o que indicaria que os reis estavam iluminados porque posavam.
Note a postura de saudação do grupo das meninas diante do casal real, como também, as pessoas que olham para os reis e os saúdam parecem olhar e cumprimentar também quem as observa.
Tal era sua técnica que todas as imagens parecem igualmente convincentes, tanto as indiretas (reflexos no espelho e quadros dentro do quadro) como as “diretas”.
O artista captou o instante em que quase todo o conjunto de personagens parece estar em ação: um instante antes ou depois a imagem seria substancialmente diferente. É um dos motivos pelos quais “As meninas” é considerado, um antecedente do impressionismo, assim como outras de suas obras.
Essa evolução artística é confirmada pelas seguras e breves pinceladas, em particular no colorido dos rostos e dos cabelos da menina, das jovens e dos anões e nos detalhes de suas vestimentas.
O cromatismo é discreto, embora com ampla variação que se harmoniza com perfeição e na qual se destacam: o branco, cinza e negro dos trajes, com detalhes em vermelho; o bege da tela pintada por Velázquez; e os tons escuros, à menina que a iluminação decanta.
Sem demasiada ênfase, diz-se que este quadro pode ser considerado a obra-prima de toda a história da pintura européia. O seu fascínio provém, em parte, da absoluta verossimilhança e autenticidade visual da cena em cada um dos seus detalhes: desde os cabelos louros da infanta Margarida aos vestidos suntuosos, passando pela densa pelagem do cão em primeiro plano e pela luz que invade o conjunto proveniente da janela à direita.
A obra "As Meninas" teve 44 versões feitas por Pablo Picasso. Já o pintor Goya, também espanhol, homenageou Velázquez colocando-se na obra "A Família de Carlos IV" (1800), e na mesma posição: também à esquerda, pintando um quadro. O pintor Francis Bacon, na década de 1950, fez várias versões a partir do quadro "Retrato do Papa Inocêncio X".

“As fiandeiras” também conhecida como “A lenda de Aracne” admite diversas interpretações.

”As fiandeiras”, 1657.


De início, acreditava-se que a tela mostrava apenas uma oficina de fiação em primeiro plano, atrás da qual havia uma habitação com uma grande tapeçaria ao fundo e três damas a contemplá-la. Investigações demonstraram, porém, que a suposta tapeçaria retrata um tema mitológico, posicionado no último plano e com uma cena real à frente, baseado na lenda de Atena (ou Minerva), e Aracne, uma hábil tecelã.
A deusa castigou a artesã por tecer uma tapeçaria que representava Júpiter, convertido em touro, raptando Europa. Minerva, com capacete, está a ponto de transformar Aracne numa aranha. Se os dois personagens pertencem ou não à tapeçaria é tema de discussão.
A parte inferior do vestido de Aracne indica que não, o que torna a interpretação ainda mais complexa.
É notável o efeito de profundidade estabelecido pelos diversos espaços, a ordenação das figuras e o jogo de luz.

Muito interessante é “A infanta Margarida da Áustria”, a última pintura na qual trabalhou o artista antes de morrer, e que foi finalizada por seu genro e discípulo, Juan Bautista Martínez Del Mazo.

“A infanta Margarida da Áustria”, 1660.


Ao discípulo são atribuídas as mãos e a cabeça. Os especialistas não hesitam em afirmar que o rosto também não foi pintado por Velázquez, porque demonstra uma técnica mais pobre do que a do sevilhano. Do mesmo modo, o cortinado do fundo deve ter sido pintado por Del Mazo, tanto por suas formas como pelas variações cromáticas. Em compensação, pertence a Velázquez a maravilhosa vestimenta da menina, na qual predominam as tonalidades prata e rosa, com numerosos reflexos.
O catálogo do Prado descreve o traje como “valona ajustada ao rosto, caso sem gola com grandes faldas e saia-balão rosa com tecido em prata”.
Velázquez demonstra sua maturidade ao pintar o vestido, os encaixes das mangas, o ramalhete de rosas e violetas da mão esquerda e o lenço de extraordinária transparência pendurado na mão esquerda.
A vestimenta da princesa, ainda que exagerada para os olhos contemporâneos adquire realidade incontestável graças a um pincel solto e leve.

De temperamento suave, Veslázquez levou uma vida sem grandes reviravoltas e de produção artística relativamente pequena: menos de 150 telas suas chegaram aos nossos dias. Calcula-se, porém, que tenha pintado não mais que 200 quadros ao longo da vida, dado seu ritmo compassado.
Morreu em 1660, em Madri, aos 61 anos de idade. Exatamente uma semana depois morria Juana, a filha de seu mestre Pacheco, com quem se casara aos 19 anos.
Seu corpo foi sepultado na cripta do conde de Fuensalida, amigo do pintor, na igreja de San Juan Bautista. A paróquia real de Madri, porém, foi destruída pelas tropas napoleônicas em 1811 e, desde então, ignora-se o paradeiro dos restos mortais do artista.

domingo, 2 de outubro de 2011

SIMBOLISMO COMO ESTÉTICA LITERÁRIA: CONTEXTO HISTÓRICO E CARACTERÍSTICAS


“Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que consiste em ir adivinhando pouco a pouco: sugerir, eis o sonho. É a perfeita utilização desse mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou inversamente, escolher um objeto e extrair dele um estado de alma, através de uma série de adivinhas.”


Stéphane Mallarmé, poeta simbolista francês

I – DADOS CRONOLÓGICOS:

Na França, a necessidade de apresentar uma reação à literatura romântica será o ponto de partida para a produção de poemas que proponham novos modos de olhar para o mundo.
A partir da publicação de “As flores do mal”, de Baudelaire, em 1857, a Europa testemunha o nascimento de uma literatura de traços pessimistas, que exalta a estética do feio, tematiza a decomposição dos corpos e o caráter ilusório do real.


Esses traços farão com que os novos poetas sejam denominados “decadentistas”. A reação é imediata: o poeta é processado pelo Estado por “ultraje à moral pública”. Todos os exemplares da obra são recolhidos. Condenado, Baudelaire será obrigado a pagar uma multa de 300 francos e eliminar de seu livro seis poemas considerados obscenos. Mesmo assim, “As flores do mal” causaram um profundo impacto no meio literário, levando o poeta Verlaine a afirmar que Baudelaire foi o “primeiro visionário, rei do poetas, um verdadeiro deus”.


A UMA PASSANTE


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.



Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.



Que luz...e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?



Longe daqui! Tarde demais! Nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.p.345.

O poema retrata a agitação de uma rua que parece incomodar o eu lírico. É um ruído cansativo, algo sem forma ou definição, frenético, que o envolve.
É importante ressaltar que a presença da mulher causa um impacto no eu lírico. Até o momento em que ela aparece, ele está envolvido pela confusão da rua (o “frenético alarido”), pelas pessoas sem rostos, sem identidade que passam a seu redor.
A mulher se destaca para ele pela sutileza e majestade com que carrega o que ele supõe ser a dor por uma morte, já que ela está “toda de luto”. Sua dor é descrita como “majestosa”, no sentido de que não se manifesta em emoções arrebatadas; o gesto de erguer a barra da saia, para evitar que se suje na rua, é visto como um sinal de pompa (“mão suntuosa”). O eu lírico olha para as pernas da mulher e depois para os olhos. O movimento da saia captura o olhar do eu lírico, revelando as pernas em primeiro lugar.
Interessante, sobretudo, que outras mulheres estavam passando pelo eu lírico, mas que ele nem as notava.
A “passante” brilha em meio à multidão, como se tivesse luz própria. Ela é o único elemento vivo que ele identifica em meio ao “frenético alarido”. Faz com que ele nasça novamente, dá à luz. No momento em que a mulher passa, porém, e ele não pode ver seus olhos, chega a “noite”, trazendo consigo a escuridão, a perda do brilho que dava vida.
O eu lírico se refere a ela como “efêmera beldade”, por ela ser bela e passageira, ou seja, ela passa por ele e segue adiante, deixando-o para trás em meio à multidão. A ação sugere que o encontro foi casual e que não tornará a acontecer antes da eternidade, da morte.
É, porém, a colaboração de autores como Baudelaire, Verlaine e Mallarmé para o primeiro número da antologia de poemas “O parnaso contemporâneo”, em 1866, na França, que dá realmente impulso a essa nova literatura e de lá, difundiu-se internacionalmente, abrangendo vários ramos artísticos, principalmente a poesia.
O termo Simbolista, porém, foi usado pela primeira vez por Jean Moréas, em 1886, em seu manifesto literário no “Fígaro Littéraire”, quando afirmou:

“Inimiga do ensinamento, da declamação, da falsa sensibilidade, da descrição objetiva, a poesia simbolista procura vestir a Ideia duma forma sensível.”

Na Europa haviam germinado ideias científico-filosóficas e materialistas que procuravam analisar racionalmente a realidade e assim apreender as novas transformações; essas ideias, principalmente as do positivismo, influenciaram movimentos literários como o Realismo e o Naturalismo, na prosa, e o Parnasianismo, na poesia. No entanto, nas duas últimas décadas do século XIX, percebe-se uma postura de desilusão e pessimismo, em consequência das infrutíferas tentativas de transformar a sociedade burguesa industrial.
O crítico Alfredo Bosi sintetiza esse clima:

“Do âmago da inteligência européia surge uma oposição vigorosa ao triunfo da coisa e do fato sobre o sujeito – aquele sujeito a quem o otimismo do século prometera o paraíso mas não dera um purgatório de contrastes e frustrações.”

O Simbolismo em Portugal teve início em 1890 com a publicação de “Oaristos”, de Eugênio de Castro. Entretanto, os poetas mais importantes são Antônio Nobre e Camilo Pessanha.
Na Europa, a acolhida à literatura parnasiana é fria e contida, enquanto os textos simbolistas têm uma recepção mais calorosa, já que parecem captar a insatisfação do momento. No Brasil, poetas parnasianos como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira são admirados e lidos com fervor.
O Simbolismo chega aqui alguns anos após o Parnasianismo, mas não causa o mesmo impacto. As indagações místicas dos simbolistas mostram-se complexas para uma sociedade que ainda dava passos incertos no terreno da produção literária. Para o Brasil, é o momento de definições, de objetividade, de desenvolvimento. O Simbolismo opõe frontalmente a isso: é a estética que questiona esse desenvolvimento e isso faz com que entre em rota de colisão com os valores mais importantes para a elite da época, encantada com a possibilidade de progresso trazida pela industrialização. Por esse motivo, a circulação de textos simbolistas entre nós é bem mais tímida do que em todos os outros países em que essa estética se manifestou.
A oposição aos simbolistas era tão pronunciada, que logo foram chamados de nefelibatas, ou seja, pessoas que vivem nas nuvens, que fogem da realidade. Quando, em 1896, Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras para reunir os mais prestigiados escritores e intelectuais do momento, não havia entre os primeiros membros um único representante do Simbolismo.
Durante o Segundo Império, duas editoras se destacam no mercado brasileiro: a Irmãos Granier e a Lammert. No início dos anos 1890, foi criada a Magalhães e Companhia. Como os autores conhecidos já estavam contratados, a Magalhães teve de buscar autores inéditos, cujo lançamento pudesse ajudar a dar visibilidade à nova editora. Foi assim que o desconhecido Cruz e Sousa conseguiu lançar dois livros no ano de 1893: “Missal” (prosa) e “Broquéis” (poesia).
Os editores da Magalhães e Companhia imaginaram que o apelo comercial do lançamento de duas obras de um autor negro cinco anos após a abolição da escravatura no Brasil seria muito grande. Infelizmente, tanto a crítica quanto o público receberam os dois livros com estranhamento, quando não claramente negativa.
O início do Simbolismo não pode, no entanto, ser identificado com o término da escola antecedente. Na realidade, no final do século XIX e início do século XX quatro tendências caminhavam paralelas: o Realismo e suas manifestações (romance realista e romance naturalista); o Parnasianismo; o Simbolismo, situado à margem da literatura acadêmica da época; e o Pré-Modernismo, com o aparecimento de alguns autores preocupados em denunciar a realidade brasileira.
Só mesmo um movimento com a amplitude da Semana de Arte Moderna poderia neutralizar todas essas estéticas e traçar novos e definitivos rumos para a nossa literatura.
O Brasil nesta época também sofreu transformações importantes: de país com mão de obra escravocrata passou a ter mão de obra livre, de Monarquia para República com várias mudanças nas formas de viver o dia a dia de sua população. Pouco a pouco, passou-se a contar com reflexos da modernização: a presença de cinematógrafos, iluminação nas ruas, vacinas para garantir vida mais saudável às populações urbanas e a incorporação, através das novidades divulgadas pela imprensa, dos grandes feitos científicos europeus.


II - CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

“A literatura simbolista dos dois últimos decênios do século XIX prezou tudo o que era langor, cansaço de viver, isolamento de um público que ela queria manter afastado de seus arcanos, oposição à civilização tecnológica acusada de materialista.”


Henri Peyre, “A literatura simbolista”.


 
O Simbolismo reflete um momento histórico extremamente complexo, que marcaria a transição para o século XX e a definição de um novo mundo, o qual se consolidaria a partir da segunda década deste século; basta lembrar que as últimas manifestações simbolistas e as primeiras produções modernistas são contemporâneas da I Guerra Mundial e da Revolução Russa.

O século XIX, também conhecido como o século da Razão, vai de 1801 até 1900. Foi o século das grandes invenções, das profundas transformações político-sociais e econômicas que influenciariam as gerações seguintes. Todas estas transformações foram fortemente apoiadas nas ideias renovadoras da Filosofia e Ciências divulgadas pelos enciclopedistas, tais como Voltaire, Mostesquieu, Rousseau, D´Alembert, Diderot e Quesnay, entre outros, no século XVIII - também conhecido como Século das Luzes.
Foi justamente neste século (XIX) que o professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail codificou a Doutrina Espírita adotando o nome de Allan Kardec.
Nesta época, a sociedade francesa era constituída de três grupos sociais básicos: Primeiro Estado formado pelo clero (2%), Segundo Estado formado pela nobreza (2,5%) e o Terceiro Estado formado pela burguesia; artesãos; proletariado industrial e os camponeses (95%).
A burguesia tinha poder econômico devido as suas atividades industriais e financeiras, mas não tinha participação política. Foi esta a razão da Revolução Francesa de 14 de julho de 1789 (Século XVIII).
Vários foram os benefícios sociais da Revolução Francesa, dentre os quais podemos citar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Entre o final do século XVIII e início do século XIX, Napoleão Bonaparte promove uma nova constituição, reestrutura o aparelho burocrático, cria o ensino público, separa o Estado da religião, garante a liberdade individual, igualdade perante à lei, o direito à propriedade privada, o divórcio e adota o primeiro código comercial.
Após Napoleão, a França passa por um período de transformações político sociais.
No entanto, os triunfos materialistas e científicos da segunda metade do século XIX, não mais respondiam às exigências de uma nova realidade e, também, não eram compartilhados ou aceitos por muitos estratos sociais, que haviam ficado ao largo da prosperidade burguesa, característica da chamada "belle époque"; pelo contrário, esses grupos alertavam para o mal-estar espiritual trazido pelo capitalismo. A prosperidade econômica e o desenvolvimento científico, assim, cederam lugar a uma profunda crise, chamada de “Grande Depressão” (1873-1896).
Dessa forma, as atividades artísticas do final do século XIX revelaram os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade associados às manifestações românticas, que afetaram a sociedade mundial e transformaram as formas de agir e produzir, além de influir na vida cultural.
No campo da filosofia observa-se que a mesma passa a não tolerar os dogmas da Igreja e, longe de exemplificar aquela fraternidade do Divino Mestre, recolhe-se no seu negativismo transcendente, aplicando às suas manifestações os mesmos princípios da ciência racional e materialista. Tais ideias conduzem aos exageros do cientificismo em que a fé na ciência se torna a verdadeira fé. Na Inglaterra do século XVIII, William Godwin desenvolve o pensamento anárquico, de onde surgem, no século XIX, duas correntes principais. A primeira, encabeçada por Pierre-Joseph Proudhon afirma que a sociedade deve estruturar sua produção em pequenas associações baseadas no auxílio mútuo entre as pessoas, sendo as mudanças feitas com base na fraternidade. A segunda, encabeçada por Mikhail Bakunin, defende a utilização de meios violentos nos processos de transformação da sociedade. Os movimentos políticos confrontam as práticas religiosas da Igreja, desviada dos princípios morais e aproximada das necessidades da nobreza reinante. A fragilidade da Igreja Católica abre espaço para a expansão das doutrinas divulgadas pelas Igrejas reformadas. Os questionamentos levam a um reexame dos textos bíblicos e até a um estudo da razão de ser do cristianismo.
É importante assinalar uma revolução diferente ocorrida nesta época: a revolução moral proposta pelo Espiritismo. As lições sagradas do espiritismo iam ser ouvidas pela humanidade sofredora. Jesus, na sua magnanimidade, repartiria o pão sagrado da esperança e da crença com todos os corações. Allan Kardec na sua missão de esclarecimento e consolação fazia-se acompanhar de uma plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se manifestaria tão somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os departamentos da atividade intelectual do século XIX.
Dois filósofos marcaram esse período: Schopenhauer e Nietzsche.
Para Schopenhauer, a vontade é irracional e essência de todas as coisas; é a origem do mal e da dor. A consciência descobre a vontade como mal, mas é graças a essa descoberta que ela nos liberta. Essa libertação assume várias formas, incluindo a própria rejeição consciente da vida. Schopenhauer considera a música como a suprema manifestação do espírito; é a forma de libertar o homem das forças más da vontade.
Nietzsche afirmava que Platão tinha cometido um “erro dogmático duradouro” ao considerar a existência do bem e da perfeição como algo além da vida material humana; segundo Nietzsche, essa concepção é antinatural, atenta contra a vida. O filósofo declara que “Deus morreu”, formalizando o niilismo, produto do caos que seguiu à derrocada de todos os valores vigentes. É a ausência de sentido, a negação total de tudo.
Na pintura, o Impressionismo será o caminho encontrado para uma manifestação mais pessoal, que se afasta das preocupações sociais realistas. Para o impressionista, o primordial não é o objeto a ser focalizado pela arte, mas a impressão, os efeitos que ele produz na sensibilidade do artista. Mestres com Claude Monet, Auguste Renoir, Edgar Degas, Édouard Manet, Paul Cézanne e Vincent van Gogh criam quadros em que os contornos são menos nítidos e o uso das cores (exploração dos jogos de luz e de sombra) ajuda a capturar o momento, o elemento fugaz, ocasional, que é a preocupação do artista da civilização do fim de século.
Como manifestação estética, o Impressionismo é muito importante, porque marca o afastamento definitivo da arte acadêmica e o início da abstração característica da arte contemporânea.
O Brasil nesse período foi também, palco de estabelecimento de novas estruturas comerciais e financeiras que mudaram as características de cidades brasileiras, sobretudo o Rio de Janeiro, capital do Império e depois Capital Federal, na República, que sofreu grandes modificações urbanas, como as reformas do Prefeito Pereira Passos, que desejava transformá-la em uma moderna capital, nos moldes europeus.
É comum afirmar-se que o Brasil não teve um momento simbolista típico, sendo essa escola literária, no confronto com as demais, a mais européia dentre as que contaram com seguidores em nossa terra, e por isso mesmo chamada de “produto de importação”.
O advento da República e a abolição da escravatura modificaram as estruturas políticas e econômicas que haviam sustentado a agrária e aristocrática sociedade brasileira do Império. Os primeiros anos do regime republicano, de grande instabilidade política, foram marcados pela entrada em massa de imigrantes no país, pela urbanização dos grandes centros, principalmente de São Paulo, que começou a crescer em ritmo acelerado, e pelo incremento da indústria nacional.
Nas cidades, a classe média se expandiu, enquanto a operária começou a tornar-se numerosa. No campo, aumentaram as pequenas propriedades produtivas e o colonato. A jovem república federativa, que ainda definia os limites de seu território, conheceu a riqueza efêmera da borracha na Amazônia e a prosperidade trazida pela diversificação da produção agrícola no Rio Grande do Sul. Mas era o café produzido no Centro-Sul a força motriz da economia brasileira, e de seus lucros alimentou-se a poderosa burguesia que determinava o destino de grande parte dos projetos políticos, financeiros e culturais do país.
No Brasil ainda sustentado pela agricultura e dependente de importações de produtos manufaturados, máquinas e equipamentos, a indústria editorial engatinhava.
O público leitor era reduzido, já que a maior parte da população era analfabeta. As poucas editoras existentes concentravam-se no Rio de Janeiro e lançavam autores de preferência já conhecidos do público, em tiragens pequenas, impressas em Portugal ou na França, e mal distribuídas.
Os simbolistas contribuíram muito para a evolução do mercado de periódicos, pois lançaram grande número de revistas, em vários estados brasileiros, onde se debatiam os novos movimentos estéticos que agitavam os meios artísticos.
Ainda que os títulos durassem, na maioria das vezes, apenas alguns números, o que é também indicativo da fragilidade do mercado editorial e da cena literária, representaram grande avanço no setor. As inovações formais e tipográficas praticadas pelos simbolistas, como os poemas figurativos, as páginas coloridas, os livros-estojo exigiam grande requinte técnico e, por consequência, terminaram por ajudar a melhorar a qualidade da indústria gráfica no país.
Dentre os periódicos simbolistas destacam-se as cariocas “Rio-Revista” e “Rosa-Cruz”, as paranaenses “Clube Curitibano” e “O Cenáculo”, as mineiras “Horus” e “A Época”, a cearense “A Padaria Espiritual”, a baiana “Nova Cruzada”, entre muitas outras. No começo do século XX, foram publicadas revistas que ficariam famosas pela qualidade editorial e gráfica, como “Kosmos” e “Fon-Fon”. Além dos periódicos, as conferências literárias eram outra fonte de renda e de divulgação para os autores brasileiros, que também costumavam frequentar salões artísticos promovidos por membros da elite, como a Vila Kyrial de José de Freitas Vale, senador, mecenas e autor de versos simbolistas que posteriormente patroneou autores modernistas.
No entanto, foi por meio do jornal carioca “Folha Popular” que se formou o grupo simbolista liderado por Cruz e Souza, provavelmente o mais importante a divulgar a nova estética no país.

III – CARACTERÍSTICAS:

“Os malefícios advindos da Revolução Industrial (o inchamento das grandes cidades, os bairros de lata, a obsessão com as moedas), somados à dúvida quanto à eficácia dos métodos científicos para compreender o real, instauraram de vez a crise que estava latente no ar.
O homem que acreditava ter acesso aos segredos do universo, via razão e via progresso, vê de repente que tudo não passa de ilusão, que o universo é regido por forças incontroláveis que ele desconhece completamente. Esse sentimento leva-o à descrença, ao desalento e faz com que adote uma postura de desprezo em relação a tudo que lembra o mundo burguês da luta, da operosidade, da conquista.
Refletindo o pessimismo do período, surge nessa época um tipo de homem que volta ás costas à sociedade materialista e que procura cultivar dentro de si as sensações mais refinadas. Esse homem, conhecido como decadente, fecha-se em sua torre de marfim e só na orgulhosa solidão parece encontrar conforto para o sofrimento proveniente do desconforto com o mundo grosseiro e hostil.”

Álvaro Cardoso Gomes

A nova estética rejeita o cientificismo, o materialismo, o racionalismo, valorizando, em contrapartida, as manifestações metafísicas e espirituais, o que equivale a dizer que ela corresponde à negação do Realismo, Naturalismo e do Parnasianismo.
A realidade objetiva não interessa mais; o homem volta-se para o universo interior e os aspectos não racionais e não lógicos da vida, como o sonho, o misticismo, o transcendental.
Os simbolistas propunham o exercício da subjetividade contra a objetividade, retomando um aspecto abandonado, de modo diferente, o individualismo romântico. O “eu” passa a ser o universo, mas não o “eu” superficial, sentimentalista e piegas do Romantismo e, sim, buscam a essência do ser humano, daquilo que ele tem de mais profundo e universal: a alma. Daí a sublimação, tão procurada pelos simbolistas: a oposição entre matéria e espírito, a purificação, por meio da qual o espírito atinge as regiões etéreas, o espaço infinito.
Em consequência desse subjetivismo, dessa valorização do inconsciente e do subconsciente, dos estados d’alma, da busca do vago, do diáfano, do sonho e da loucura, o Simbolismo desenvolve uma linguagem carregada de símbolos, o “tropos”, isto é, o “desvio”, a mudança de significado de uma palavra ou expressão, em clara oposição a uma linguagem mais seca e impessoal.
É preciso diferenciar, todavia, poesia simbolista de poesia simbólica. Como afirma o crítico Afrânio Coutinho, "nem toda literatura que usa o símbolo é simbolista. A poesia universal é toda ela na essência simbólica".
O Simbolismo, para Coutinho, "posto não constituísse uma unidade de métodos, antes de ideais, procurou instalar um credo estético baseado no subjetivo, no pessoal, na sugestão e no vago, no misterioso e ilógico, na expressão indireta e simbólica. Como pregava Mallarmé, não se devia dar nome ao objeto, nem mostrá-lo diretamente, mas sugeri-lo, evocá-lo pouco a pouco, processo encantatório que caracteriza o símbolo."
Assim, enquanto os parnasianos procuravam descrever os objetos, os simbolistas queriam sugeri-los por meio de um estado de espírito ou extrair dos objetos a sugestão de um estado de espírito.
Privilegiando a sugestão, a poesia simbolista utiliza com sutileza a sonoridade das palavras. Se os parnasianos valorizavam as artes plásticas, os simbolistas agora prezam a musicalidade do poema como elemento significativo, não mais decorativo.
Daí a linguagem simbólica e o grande cuidado no emprego de aliterações (repetição de fonemas para sugerir um som. Difere da onomatopéia na medida em que esta imita o som; a aliteração é sugestão), de assonâncias (repetição de sons vocálicos), de reiteração (repetição de palavras ou versos inteiros) e de inovações rítmicas. Ligada também à sugestão esta a predileção simbolista pela sinestesia (relação subjetiva que se estabelece espontaneamente entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente).
Contemporâneo e até mesmo precursor das grandes descobertas da psicanálise, o grande interesse dos simbolistas pelo mundo inconsciente aproxima realidades físicas e metafísicas, expressando certo misticismo, presente mesmo nos poetas menos religiosos. É frequente, por isso, um vocabulário litúrgico, isto é, referente a rituais religiosos.
Criando uma atmosfera de vaguidade e mistério, os autores do Simbolismo apelam para a carga simbólica das notações cromáticas (o uso sugestivo da cor) bem como para arcaísmos e palavras raras; buscando as realidades essenciais; utilizam maiúsculas alegorizantes e imagens noturnas.
É importante lembrar que as correntes simbolistas e parnasianas coexistiram e se influenciaram mutuamente; assim, há na obra de adeptos do Simbolismo traços da estética parnasiana e, do mesmo modo, impregnações simbolistas na obra de poetas ligados ao Parnasianismo, como Francisca Júlia.
Entre as inovações formais que caracterizam o Simbolismo estão a prática do verso livre, em oposição ao rigor do verso parnasiano, e o uso de "uma linguagem ornada, colorida, exótica, poética, em que as palavras são escolhidas pela sonoridade, ritmo, colorido, fazendo-se arranjos artificiais de parte ou detalhes para criar impressões sensíveis, sugerindo antes que descrevendo e explicando", de acordo com Afrânio Coutinho.
Ainda com relação à forma, o soneto também foi cultivado pelos simbolistas, mas não com a predileção manifestada pelos parnasianos, nem com sua paixão descritiva.
O célebre poema “Correspondências”, de Baudelaire, ilustra o interesse simbolista pelas correlações que, uma vez decifradas, abrem as portas da percepção humana para o mundo das essências.

CORRESPONDÊNCIAS


A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam escapar, às vezes, confusas palavras;
O homem ali passa por entre florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.



Como longos ecos que ao longe se confundem
Em uma tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.



Há perfumes frescos como carnes de crianças,
Doces como oboés, verdes como as pradarias,
- E outros, corrompidos, ricos e triunfantes,



Tendo a expansão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.

BAUDELAIRE, Charles. In:GOMES, Álvaro Cardoso. A estética simbolista. Tradução de Eliane Fittipaldi Pereira. São Paulo:Cultrix, 1985.p.33.

O cenário no qual as correspondências se mostram para as pessoas é a Natureza. A visão platônica do eu lírico é revelada pela referência ao “olhar familiar” dos símbolos para os seres humanos. A ideia, aqui, é a de que todos nós já existimos no plano das essências e, em função das falhas humanas, decaímos para o plano da realidade sensível. Agora o ser humano precisa decodificar os símbolos para novamente partilhar do mundo das essências.
Na visão Simbolista, a percepção das correlações é a chave para a decodificação dos símbolos. Nessa estrofe, o eu lírico começa a apresentar imagens que “demonstram”, de modo mais concreto, o sentido das correspondências entre perfumes, cores e sons. As comparações ajudam o leitor a perceber o sentido do que é dito.
Os símbolos são apresentados por metáforas que apelam para diferentes sentidos humanos. Os perfumes (que estimulam o olfato) são frescos (tato), doces (paladar) e verdes (visão).
Na última estrofe, o projeto simbolista é declarado pelo eu lírico transportar os espíritos e os sentidos. Para fazer isso, associa a ideia abstrata a formas concretas (o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso). O estímulo sensorial é experimentado pelo indivíduo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

RAIMUNDO da Mota Azevedo CORREIA: VIDA, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DE POEMAS


“Quanto à sua consumada arte do verso e à profundidade da emoção de Raimundo Correia, não há discussão; surgiram dúvidas, porém, quanto à sua originalidade.”


Otto Maria Carpeaux

I – VIDA:

Raimundo Correia: magistrado; professor; diplomata e poeta, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.
Quando o poeta publicou “Primeiros Sonhos” em 1879, estava em plena efervescência a “Batalha do Parnaso”, versão brasileira da portuguesa “Questão Coimbrã”: uma acesa polêmica entre poetas esteticamente vinculados ao Romantismo e os adeptos da “poesia nova”, científica, progressista, que se propunha exterminar a choradeira romântica. Sendo assim, criticaram a indecisão de Raimundo Correia que, neste livro de estréia, embora professasse a “ideia nova” – o Progresso – mostrava também fortes índices de anacronismo estético ao insistir na criação das imagens femininas, ainda relacionadas ao desgastado conceito romântico da “mulher-anjo”. A indefinição do autor é tão evidente que ele se desculpa duas vezes pela mediocridade do volume: na introdução e no encerramento. É o livro que vai indicar a agonia do Romantismo.
Nesse tempo, o poeta fazia a Faculdade de Direito no Largo de São Francisco e, juntamente com Augusto de Lima, Alexandre Coelho participa da “Revista de Ciências e Letras”, São Paulo, 1880.
Esta revista teve muita importância, dada a qualidade excepcional de seus colaboradores e pela tendência nacionalizante que ela imprimiu no meio intelectual da época. Foi um dos nossos primeiros órgãos a defender e divulgar a cultura e a arte realistas.
A efervescência da vida acadêmica faz nascer em Raimundo Correia um ardente sentimento de liberalismo, que o levava a declamar em público os poemas socialistas de Antero de Quental, uma de suas maiores influências. É do entusiasmo pelas novas ideias que nasce “Sinfonias” (1883), onde se encontra um dos mais conhecidos sonetos da língua portuguesa, “As pombas”. Este poema valeu a Raimundo Correia o epíteto de “o Poeta das pombas”, que ele, em vida, tanto detestou. Comparado ao teor do livro, o título é paradoxalmente irônico, pois os poemas, principalmente os de direção reflexivo-moralístico, apresentam um tom soturno, sombrio, schoppenhauriano.
Machado de Assis, comentando esta obra, diz da sua surpresa, elogiando a auto contenção e a ausência de derramamento mostradas pelo autor. Serão as qualidades apontadas por Machado de Assis que amainarão as críticas lançadas contra Raimundo Correia, acusando-o de plágio, principalmente nos poemas “As Pombas” (emprestado do poeta parnasiano francês Theóphile Gauthier), “Mal Secreto” (tomado de Metastásio, pseudônimo árcade do poeta italiano Lugi Arnaldo Vassalo) e “Carnaval” (transposto do poeta francês Jean Richepin).
Formado, o poeta ingressa na magistratura, indo servir em São João da Barra (1883), em Vassouras (1884-1888), onde se casa e funda com o amigo Lucindo Filho o jornal “O Vassourense”.
É no período passado nesta cidade fluminense que o poeta escreve e publica “Versos e Versões” (1887). Aqui, desaparece a poesia social e o autor concentra-se cada vez mais na poesia reflexiva, revelando uma visão de mundo que beira ao ceticismo, à descrença numa incoercível mostra de pessimismo.
Evitando sistematicamente a 1ª pessoa, o poeta expressa-se num tom áspero e circunspecto, aquele que os modernistas chamarão de “carpideiras intelectuais”. Em nenhum momento, o poeta se apresenta descontraído; é sempre uma atitude reflexiva, em que manifesta desespero e inquietação. É este posicionamento que vai mostrar no poeta, uma ânsia de pureza, de transcendência de superação.
Após ter sido nomeado secretário da Presidência da Província do Rio de Janeiro em 1889, Raimundo Correia exerce esta função até a Proclamação da República. Aí, retorna à carreira de magistrado, trabalhando como juiz de Direito em São Gonçalo do Sapucaí e Santa Isabel, no estado de Minas Gerais. É o tempo de publicar “Aleluias” (1891), obra em que o poeta, certo da mediocridade e da limitação humanas, pinta sua poesia com tons levemente religiosos e metafísicos. Mostrando necessidade de transcender o concreto, revela-se paradoxalmente angustiado e sarcástico.
Num humor que é sempre corrosivo, propõe-se a desmistificar a Igreja, desenvolvendo poemas que superam o Parnasianismo e antecipam o Simbolismo, pelo vocabulário e pelas constantes onomatopéias musicais.
Mudando-se para Ouro Preto, o poeta ingressa na máquina burocrática do governo da Província de Minas Gerais, ocupando o cargo de secretário das Finanças da antiga capital da província. É aí também que acontece a curta experiência de Raimundo Correia no magistério superior, lecionando na Faculdade de Direito até 1896.
No ano seguinte, encontramos Raimundo Correia morando no Rio de Janeiro, onde participa da fundação da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 5. Ingressa na carreira diplomática, como segundo secretário da Legação do Brasil em Lisboa, sendo depois removido para Paris.
Quando ainda estava em Lisboa, publicou “Poesias” (1898) que confirmam as tendências para o noturno e para a transcendência, as curiosas experiências sinestésicas, a ousadia do artesanato poético, com o autor invertendo estruturalmente o soneto ao começar e terminar com quartetos, deslocando os tercetos para uma posição intermediária.
Com a saúde abalada por profunda neurastenia, viaja para a Europa, a fim de realizar um rigoroso tratamento de saúde.
Falece em Paris a 13 de setembro de 1911, com a Academia Brasileira de Letras providenciando a trasladação de seu corpo para o Brasil em 1920.

II - OBRAS:

Primeiros sonhos (1879);
Sinfonias (1883);
Versos e versões (1887);
Aleluias (1891);
Poesias (1898, 1906, 1910, 1916);
Poesias completas, 2 vols., org. de Múcio Leão (1948);
Poesia completa e prosa, org. de Valdir Ribeiro do Val (1961).

III - CARACTERÍSTICAS:

Raimundo Correia soube driblar a impessoalidade proposta pelo Parnasianismo e atingir o universalismo, desenvolvendo temas sociais e, sobretudo, filosóficos: a busca de uma verdade essencial e imorredoura, os conflitos da condição humana etc.
Seus poemas têm uma suavidade e uma melancolia acalentadas pela influência de Schopenhauer, pensador alemão que acreditava que “o desejo, que é a expressão consciente do querer-viver, é vivido como carência e gera o sofrimento, única coisa positiva – enquanto o prazer, nascido da satisfação de uma necessidade, reduz-se a uma simples transição entre dois sofrimentos (a carência e a saciedade). [...] A salvação para o homem consiste em se libertar do querer-viver e portanto, da dor que é a sua expressão. A solução pode ser encontrada na arte, que transforma em espetáculo o objeto de desejo”.
Assim, a única salvação residiria em superarmos a vontade de existir, de viver, sublimando os desejos pelo exercício da vontade, e assumindo uma atitude contemplativa diante do Universo (é visível a aproximação com a filosofia oriental). Este “budismo” filosófico é aparentado com a atitude parnasiana de distanciamento da vida, da impassibilidade, de uma poesia voltada para si própria, reforçando o ideal de uma “arte pura”.
Claro está que, de acordo com essa perspectiva, a arte é a sublimação da dor, e o sofrimento é inerente à condição humana.
Raimundo Correia foi também um poeta lunar, com tendência para o noturno, para o negativismo. O gosto pelas paisagens lunares, a obsessão pela lua, pela sua sedução e encantamento, escondem, por vezes, algo alucinatório ou sonambúlico, antecipando uma vertente poética muito cara aos simbolistas.
No soneto a seguir, o antológico “Mal Secreto”, o negativismo, o pendor filosofante e a intenção de moralizar descambam no sentencioso e no declamatório da “chave-de-ouro”.

MAL SECRETO


Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Em “Mal secreto”, Raimundo Correia utiliza-se de rima do tipo ABAB nas duas primeiras estrofes, e do tipo CCD nas duas últimas estrofes. A forma utilizada pelo poeta foi a de Soneto, largamente utilizada pelos parnasianos e pela tríade. Em relação à métrica, Raimundo Correia opta por versos decassílabos, também muito utilizados pelos poetas parnasianos.
Raimundo Correia utiliza-se também de recursos sonoros e visuais. O ritmo marcado pela sonoridade, especialmente nas palavras tônicas, e nas rimas a marca do tom consistente e forte. Através desses recursos, o poeta consegue transmitir sua oposição semântica fundamental dentro do poema, entre o íntimo do ser humano e sua aparência, com as máscaras que muitas vezes escondem a realidade.

AS POMBAS


Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada…

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais…

Poema de crítica à espécie humana, apontando a vida, como sinônimo da perda de ilusões. O tema foi aproveitado do romance “Mademoiselle de Maupin” e do poema “Les Colombes”, ambos do parnasiano francês Théophile de Gauthier.
O poema “As Pombas” ilustra uma boa alegoria, pois cada elemento dos dois primeiros quartetos será pontilhado pela imagem correspondente dos dois últimos tercetos. Como se trata de um conjunto de metáforas, logicamente concatenadas, dá-se a alegoria.
No texto, a revoada das aves é apresentada como uma cena do amanhecer. Na terceira estrofe, porém, o conteúdo do poema ganha densidade com a analogia entre pombas e sonhos: as primeiras partem, mas retornam sempre ao cair da tarde, enquanto os sonhos, que deixam os corações, perdem-se pelo vasto mundo.
A excelência dos versos de Raimundo Correia está intimamente ligada a sua capacidade de pintar a natureza em tons fortes, criando imagens sugestivas de grande carga poética.
Sobre um dos poemas publicados, afirmou Manuel Bandeira, em “Raimundo Correia e o seu sortilégio verbal”:
“Foi a propósito de “Plenilúnio” que Lêdo Ivo criou o neologismo “lunaridade” para denominar aquela encantação vocabular que faz da poesia outro idioma dentro de cada idioma. Realmente, não conheço em língua nenhuma, viva ou morta, exemplo mais cabal de lunaridade que esse poema, que exalta até as raias da loucura o sentimento de vigília noturna. Desde a terceira estrofe atinge ele as supremas paragens da visionária demência.”

PLENILÚNIO


Além nos ares, tremulante,

Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol de demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
A tudo em roda desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...

Em “Plenilúnio”, Raimundo Correia cria uma imagem impressionista da lua, já vista no próprio título. Utiliza-se de descrições vagas e subjetivas, como “balão aceso” (5º verso), “golfão de cismas” (9º verso), “sol da demência” (10º verso). No poema, o poeta vai se expondo à lua, da qual fala no texto, e sua luz fria, e á medida que, vai se expondo, essa mesma luz começa a enlouquecê-lo, até o momento em que os dois se encontram em um só.
É interessante perceber que “Plenilúnio” pode ser dividido em duas partes. A primeira abarca as quatro estrofes iniciais, em que o poeta esboça uma paisagem impressionista em que a lua é o tema principal. Nesse primeiro momento, o foco é a pintura de um quadro, a descrição de uma cena, e a maioria dos versos constitui-se de frases nominais, sendo a ação praticamente excluída dessas estrofes, que se apresentam como um grande painel estático e descritivo, embora a descrição não se faça objetiva e clara como era costume na estética parnasiana.
A segunda parte, por sua vez, inicia-se na quinta estrofe e vai até a décima segunda. Aqui, todas as frases são verbais, constituindo-se essas orações de verbos de ação, que imprimem maior movimento ao poema. Essa nova dinâmica, unida à subjetividade, acompanha o progressivo enlouquecimento do poeta, que se deixa embriagar pelos raios e pela luz do luar. O estado de embriaguez e de perda de consciência é refletido pela estrutura aparente do poema. O ritmo é criado por versos eneassílabos. Outro aspecto importante é a pontuação, pois dos cinquenta e quatro versos, oito terminam em exclamação e outros oito em reticências, e isso reflete as grandes oscilações emocionais promovidas por um estado de loucura e embriaguez e a falta de conclusão de um raciocínio objetivo. Sobretudo as reticências mantêm o caráter vago das imagens do poema.
A outra figura largamente utilizada por Raimundo Correia e por outros parnasianos é a sinestesia. A embriaguez promovida pelos banhos de lua que o poeta se dá mobiliza todos os seus sentidos e faz com que eles misturem as sensações percebidas pelo sujeito. À visão, que seria o primeiro sentido mobilizado pelo ato de contemplar a lua, une-se o paladar na terceira estrofe, em que alguns indivíduos bebem a refulgência do luar.
Na estrofe seguinte há uma mistura da visão com a audição: os alucinados que se deixam ir no fluxo da lua ouvem cantos de sereia. A quinta e a oitava estrofes ficam por conta de mobilizar o tato. Finalmente, na nona estrofe, há uma participação do olfato nas sensações provocadas pelo plenilúnio.