domingo, 25 de setembro de 2011

OLAVO BILAC: VIDA, CARACTERÍSTICAS E ANÁLISE DE POEMAS

“Ao contrário dos seus gloriosos companheiros, que tatearam com indecisão a cidadela da Forma, Bilac, ao estrear com seu volume “Poesias” aos vinte e três anos, se apresentou no maior rigor da nova escola, e, no entanto, com uma fluência na linguagem e na métrica, uma sensualidade à flor da pele, que o tornavam muito mais acessível ao grande público.”
Manuel Bandeira

I – VIDA:


Olavo Bilac (O. Braz Martins dos Guimarães B.), jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de dezembro de 1865, e faleceu, na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918.

Seu pai, um cirurgião do Exército, serviu na Guerra do Paraguai, e somente conheceu o filho quando este contava 5 anos. Aos 12 anos, quando era interno no Colégio São Francisco de Paula, Olavo Bilac começou a arriscar os primeiros versos.
Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras criou a Cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias.
Eram seus pais o Dr. Braz Martins dos Guimarães Bilac e D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac. Após os estudos primários e secundários, matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, mas desistiu no 4º ano. Tentou, a seguir, o curso de Direito em São Paulo, mas não passou do primeiro ano. Dedicou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Teve intensa participação na política e em campanhas cívicas, das quais a mais famosa foi em favor do serviço militar obrigatório. Fundou vários jornais, de vida mais ou menos efêmera, como “A Cigarra”, “O Meio”, “A Rua”. Na seção “Semana” da Gazeta de Notícias, substituiu Machado de Assis, trabalhando ali durante anos.
Republicano e nacionalista escreve, em 1889, a letra do Hino à Bandeira.
Fazendo jornalismo político nos começos da República, foi um dos perseguidos por Floriano Peixoto. Teve que se esconder em Minas Gerais, quando frequentou a casa de Afonso Arinos em Ouro Preto. No regresso ao Rio, foi preso. Em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio. Em 1898, inspetor escolar do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, pouco antes de falecer. Foi também delegado em conferências diplomáticas e, em 1907, secretário do prefeito do Distrito Federal. Em 1916, fundou a Liga de Defesa Nacional.
Sua obra poética enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, pois só em 1888 publicou “Poesias”, Olavo Bilac tornou-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.


Fundindo o Parnasianismo francês e a tradição lusitana, Olavo Bilac deu preferência às formas fixas do lirismo, especialmente ao soneto. Nas duas primeiras décadas do século XX, seus sonetos de chave de ouro eram decorados e declamados em toda parte, nos saraus e salões literários comuns na época. Nas “Poesias” encontram-se os famosos sonetos de “Via-Láctea” e a “Profissão de Fé”, na qual codificou o seu credo estético, que se distingue pelo culto do estilo, pela pureza da forma e da linguagem.

Ao lado do poeta lírico, há nele um poeta de tonalidade épica, de que é expressão o poema “O caçador de esmeraldas”, celebrando os feitos, a desilusão e morte do bandeirante Fernão Dias Pais.
Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista “Fon-Fon”, em 1907. Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro.
Obteve honrarias e cargos políticos, revelou-se um brilhante orador, participou de viagens oficiais, liderou cruzadas pela erradicação do analfabetismo e pelo serviço militar obrigatório. Foi também o autor da letra do Hino à Bandeira. Quando faleceu, foi enterrado com honras de general e, por decreto presidencial de 1966, passou a ser considerado o patrono do Serviço Militar.
Cabe ainda lembrar-se do grande amor de sua vida, Amélia Mariano de Oliveira, irmã do poeta Alberto de Oliveira. Amélia era poetisa e ele foi sua maior inspiração.
Bilac, num bilhete, diz-lhe: “Foste a única mulher que me soube fazer conhecer toda a divina delícia, toda a suave tortura do verdadeiro amor. Amei-te no primeiro dia em que te vi: amei-te em silêncio, em segredo, sem esperança de te possuir e sem refletir”.
Desde a data da morte do poeta, em 1918 até janeiro de 1945, Amélia visitou diariamente o túmulo de Bilac, cobrindo-o de flores. Ambos morreram solteiros.
No entanto, para o crítico João Adolfo Hansen, "o mestre do passado, do livro de poesia escrito longe do estéril turbilhão da rua, não será o mesmo mestre do presente, do jornal, a cronicar assuntos cotidianos do Rio, prontinho para intervenções de Agache e a erradicação da plebe rude, expulsa do centro para os morros".

II - OBRAS:

Poesias (1888), compreendendo “Panóplias”, “Via-Láctea”, “Sarças de Fogo”, “Viagens”, “Alma Inquieta” e “O Caçador de Esmeraldas”.
Poesias infantis
Crônicas e novelas (1894)
Crítica e fantasia (1904)
Conferências literárias (1906)
Dicionário de rimas (1913)
Tratado de versificação (1910)
Ironia e piedade, crônicas (1916)
Tarde (1919)
Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957)

III - CARACTERÍSTICAS DO AUTOR:

Segundo o Prof. Antônio Cândido:

“Na sua obra há uma combinação feliz da tradição clássica portuguesa com o exemplo dos parnasianos franceses, refundida por um ardente temperamento plástico e retórico. Em nossa literatura, não há muitas de tão acabada perfeição formal seja na pureza da língua, seja na habilidade da versificação. Entretanto, embora poucas vezes pareça simples malabarismo, a sua poesia é superficial como visão do homem. Isto se deve com certeza ao fato de parar na camada sensorial das cores, dos sons, das combinações plásticas, fazendo as próprias ideias e sentimentos se transformarem em meras palavras bem ordenadas. Deve-se, também, à incapacidade de concentração mental, que transforma os seus conceitos poéticos em tiradas banais.
Há nele um aspecto estritamente parnasiano, descritivo, arqueológico, que se desdobraria mais tarde na poesia patriótica de cunho épico, à maneira de “O Caçador de Esmeraldas”, ou em sonetos de pura sugestão plástica. Há um aspecto de fervor amoroso, que se bifurca no lirismo espiritualizado da “Via-Láctea” e na forte sensualidade de outros poemas, principalmente os de “Sarças de Fogo”.
Há ainda um aspecto de sugestão mágica, impressionista em certas poesias descritivas, sonhadora noutras, que procuram captar a tonalidade do momento fugaz. Finalmente, há um pesadelo lastro didático, que prejudica sobretudo os sonetos demasiado factícios do último período.”

Olavo Bilac apesar de ter escrito poemas parnasianos, na maior parte de sua produção o que se vê é o rigor formal aliado a uma sensibilidade quase em tudo romântica. Em muitos momentos ele questiona a eficiência da palavra para expressar os estados da alma. Teve influências de Bocage e, com menos frequência, de Luís de Camões.
No entanto, fora da poesia parnasiana podemos perceber manifestações de outra faceta de Bilac. As poesias em que ironiza o então ditador Floriano Peixoto são excelentes: Floriano é satirizado como “Hamleto, o príncipe das Alagoas”; as crônicas publicadas em jornais cariocas revelam o lado galhofeiro e insolente de Bilac, segundo o professor Antônio Dimas, suas crônicas são “ideologicamente irregulares e ora apontam para soluções reacionárias, identificadas com o sistema vigente, ora para sua contestação”.
Suas obras parnasianas podem ser assim caracterizadas:

• Em “Panóplias”, o poeta está voltado para a Antiguidade Clássica, basicamente para Roma. Pertencem a essa fase, entre outros, os sonetos “A sesta de Nero”, “O incêndio de Roma” e “Lendo a Ilíada”.
• Em “Via Láctea”, temos 35 sonetos marcados por forte lirismo. O lirismo e a temática desses sonetos são responsáveis pela popularidade imediata alcançada pelo poeta. Dentre eles, merece destaque o soneto XIII: “Ora (direis) ouvir estrelas...”
• Em “Sarças de fogo” permanece o lirismo, a que se acrescenta agora o sensualismo vazado num erotismo que oscila entre o explícito e o requintado; mas essa sensualidade não vulgariza o amor, que sempre aparece como sentimento nobre e transcendente.
• É famoso o soneto “Nel mezzo Del carmin...”, com seus pleonasmos e inversões.
• Em “Alma inquieta” o poeta volta-se para os temas ditos filosóficos, tão ao gosto dos parnasianos.
• Em “Viagens”, encontramos o poema épico “O caçador de esmeraldas”, que o próprio Bilac definiu como “episódio da epopéia sertanista no século XVII”, e que narra a chegada dos bandeirantes a terras mineiras, com os paulistas individualizados na figura de Fernão Dias Paes.
• Em “Tarde” mostra o poeta mais descritivo e profundamente nacionalista. É exemplo significativo do descritivismo do poeta o soneto “Crepúsculo na mata”, e bem atestam a volta ao passado nacional os sonetos “Anchieta” e “Vila Rica”. No entanto, o que mais chama a atenção do leitor em “Tarde” é a consciência do fim, a proximidade da morte: o crepúsculo do poeta.

IV - POEMAS ANALISADOS:

PROFISSÃO DE FÉ

Le poète est ciseleur.
Le ciseleur est poète.

VICTOR HUGO


(...)
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,
A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.

(...)

O poema inaugural da obra de Bilac, “Profissão de Fé”, expressa a adesão do poeta aos preceitos parnasianos da perfeição formal, da “arte pela arte”, do trabalho artesanal da rima, da métrica, da imagem.
A epígrafe do poema traduz-se por: “O poeta é ourives/O ourives é um poeta.” Observe já na epígrafe a aproximação da poesia aos ideais das artes plásticas (ourivesaria, pintura, escultura, arquitetura etc.)
Nesse poema, o poeta é comparado ao escultor e especialmente ao ourives, artistas que em comum têm por matéria-prima a ser transformada em Arte um material nobre e duro: pedras de alto valor, nobres tais como o mármore Carrara, o ônix, o ouro e a prata. A comparação do ato de construir o poema ao de cinzelar a pedra constitui uma alegoria do processo de criação poética, posto que possa ser decomposta em várias comparações menores associadas/articuladas entre si. Entre elas, à dureza das pedras corresponde a resistência da língua, a dificuldade em seu manuseio, especialmente o artístico, pois este deve atingir o grau máximo da Beleza, que é o da perfeição.
Bilac acentua a importância das palavras precisas, do cuidado com as frases e realça o polimento dos versos, para que o poema se torne uma espécie de objeto precioso, semelhante a uma jóia rara. O trabalho artesanal a que o poeta parnasiano atribui às palavras é para o autor semelhante ao do ourives, perseverante, delicado e cheio de dedicação e minuciosidade.
Outra comparação importante: à nobreza do material (pedras raras e preciosas) corresponde a nobreza dos temas e o tom da linguagem – daí que na poesia clássica não seja bem visto o riso e a galhofa típicos da comédia, admitindo-se apenas a sátira. Este rigor pode ser encontrado na forma, precisa, cujas estrofes, (todas quadras ou quartetos) apresentam rimas consoantes alternadas entre os versos pares e ímpares assim como apresentam metros alternados: octassílabos e tetrassílabos; o número de versos por estrofe (quatro) e metros utilizados são pares, o que se explica pelo fato da paridade conferir simetria e equilíbrio ao texto - e equilíbrio e simetria são expressões do Ideal de Beleza clássico.
O rigor apontado em "Profissão de fé" também se encontra no soneto bilaquiano “A um poeta” (mais abaixo), o qual apresenta a mesma alegoria para expressar as concepções de Arte e do fazer poético, visto que ao poeta cabe escrever seu verso, assim, como um escultor ou um ourives trabalha com suas pedras, buscando o relevo, a perfeição e servindo à Deusa Forma. A diferença é que o sujeito que agora “lima” o verso não é esse ourives, nem o escultor, mas o monge beneditino em seu claustro. Nesta alegoria, o monge personifica a perseverança e a paciência, assim como a pureza, o equilíbrio e a razão. Pureza, equilíbrio e racionalidade que se materializam na forma do tradicional soneto clássico italiano (que teve em Petrarca seu primeiro mestre) e no controle/domínio das paixões.

A UM POETA


Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Assim, o poeta, quando está escrevendo seus versos, deve encontrar um lugar tão sossegado e silencioso como um mosteiro, haja vista que o turbilhão da rua impede o ato de criação, pois é estéril. O último verso, da primeira estrofe, mostra que, para alcançar a forma perfeita, faz-se necessário trabalhar bem com o objeto da poesia, isto é, a palavra.
A ideia de moldar, perfeitamente, a forma, estende-se na segunda quadra. Todavia, o sujeito lírico adverte que o resultado final, isto é, a conclusão do poema, deve ocultar todo esforço que o poeta empregou na construção dos versos. Nesse sentido, o eu lírico compara a forma perfeita a de um templo grego. Eis, desse modo, a ligação com os clássicos, que aparece, não somente na estrutura do texto (a forma dum soneto), mas também, explicitamente, num dos versos.
O primeiro terceto traz o ato de criação, comparado a um extremo sofrimento, jamais deve, na visão do sujeito lírico, transparecer no resultado final. A forma é tudo; o edifício não pode conter marcas do andaime. Em outras palavras, a forma perfeita deve ser leve, natural, as dificuldades de sua construção não podem ser vistas.
Nos três versos finais, o belo é o sinônimo de verdade; logo a forma perfeita é, para os poetas parnasianos, a única maneira de construir uma poesia bela e verdadeira. Desviar-se do culto à forma seria, desse modo, um erro. Em suma, poder-se-ia dizer que “o último verso sintetiza de modo admirável o ideal parnasiano de perfeição formal, pois conjuga elementos clássicos de equilíbrio, de harmonia” (BASTOS, 2004, p. 72).
É importante, no entanto, salientar que a beleza de que nos fala o poeta só pode tratar-se da beleza estética que acompanha a obra de arte. Esta beleza, segundo o poeta, é “gêmea da Verdade”, logo, não pode tratar-se de uma verdade histórica, dotada de verdade.
Na concepção dos parnasianos o conceito da poesia está muito ligado visão “arte pela arte”, ou seja, a pretensão da universalidade através da utilização de uma linguagem objetiva que promove a contenção dos sentimentos e também a excessiva busca pela perfeição formal. O poeta modernista Oswald de Andrade sintetiza muito bem essa característica parnasiana quando diz que: "Só não se inventou uma máquina de fazer versos- já que havia o poeta parnasiano”.

VILA RICA

 
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro do sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

Além de várias figuras de linguagem - comparação, metáfora, metonímia, personificação, inversão etc. -, o poema é rico em sugestões sonoras, como o baladar do sino sugerido pelos fonemas nasais e pela aliteração do fonema /jê/ no 1º verso da 2ª estrofe. Além disso, há várias sugestões cromáticas relacionadas ao ouro (luz do sol e do ouro das minas) e ao negro (da noite, do passado e do próprio nome da cidade). É possível notar também as oposições existentes no poema, que reforçam o contraste entre passado e presente, riqueza e pobreza, dia e noite, o passado glorioso e o presente humilde.
No “soluçar” do verso de Dirceu, a repetição do fonema /s/ na última estrofe, ao mesmo tempo em que lembra um choro, sugere também os sofrimentos amorosos de Marília e Dirceu e dos inconfidentes mineiros, apenas sugerindo, nunca enchendo o texto de sentimentalismo e subjetivismo exacerbado. Trata-se, portanto, de um poema que consegue unir técnicas de construção a um rico conteúdo histórico - qualidades que nem sempre foram alcançadas pelos parnasianos. Assim, em Vila rica Bilac mostra a objetividade parnasiana evoluindo para uma postura mais intimista e subjetiva.

ABYSSUS

 
Bela e traidora! Beijas e assassinas...
Quem te vê não tem forças que te oponha
Ama-te, e dorme no teu seio, e sonha,
E, quando acorda, acorda feito em ruínas...

Seduzes, e convidas, e fascinas,
Como o abismo que, pérfido, a medonha
Fauce apresenta flórida e risonha,
Tapetada de rosas e boninas.

O viajor, vendo as flores, fatigado
Foge o sol, e, deixando a estrada poenta,
Avança incauto... Súbito, esbroado,

Falta-lhe o solo aos seus pés: recua e corre,
Vacila e grita, luta e se ensanguenta,
E rola, e tomba, e se espedaça, e morre...

Uma associação insólita entre beleza e traição é a base para a construção do poema “Abyssus”, abismo, em latim. O soneto é todo elaborado a partir de uma comparação que, evocada no título, é apresentada na segunda estrofe.
A mulher, descrita no primeiro verso por meio de características aparentemente incompatíveis (“bela e traidora”) e que promete o amor ao amante, é comparada ao abismo, que representa, alegoricamente, seu poder de destruição. O homem sem forças para evitar o envolvimento emocional, entrega-se e quando ele se percebe numa armadilha já se encontra totalmente destruído.
A força da traição feminina é representada pela maneira como o viajante é seduzido pela aparência “florida e risonha” da fauce, pela delicadeza das “rosas e das boninas”. Quando ele se aproxima do abismo, porém, não percebe a fragilidade do solo, que se desfaz debaixo de seus pés, levando-a a morte.
O poema sugere que a mulher e abismo têm o mesmo poder: depois de seduzir os homens, que lutam para se libertar, arrastam todos para a destruição.
A última estrofe, constituída essencialmente de verbos, apresenta a dramática luta metafórica do homem, vítima incauta da sedução feminina, contra a sua morte certeira. Ainda utilizando-se da metáfora do abismo, o homem segue em direção à mulher, mas quando percebe estar se perdendo, tenta a todo custo escapar de seus encantos, até que não há mais jeito e acaba-se por se deixar levar pela paixão.
Esse soneto é um belo exemplo de como os poetas parnasianos transformam a linguagem em expressão da arte mais pura.

INANIA VERBA

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
— Ardes, sangras, pregada à tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.

Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!

O título do poema, “Inania Verba”, cujo idioma é o latim, significa “palavras inúteis”, explica a dificuldade encontrada pelo eu lírico em traduzir os sentimentos através de palavras. As palavras não os contêm, pois são “vazias”, “frívolas”, “pesadas”.
Nos versos iniciais, o eu lírico resume a angústia de conter em uma forma perfeita e fria as ideias arrebatadoras. Assim, o poeta dirige-se à sua própria alma como uma entidade impotente e escrava das formas que não conseguem traduzir os seus sentimentos. Isso gera para ele uma sensação de dor que é equiparada à mesma que Cristo sofreu quando foi pregado na cruz (vide o verso 3 do primeiro quarteto).
O último verso da primeira quadra complementa o pensamento de impotência, visto que o ideal do sujeito-lírico transforma-se em lodo, isto é, as ideias do movimento parnasianista que tanto o deslumbravam, agora, estão degradados.
No segundo quarteto valendo-se de uma metáfora, diz que “O Pensamento” é um “turbilhão de lava”, uma ideia leve,/que, perfuma e clarão, refulgia e voava”. A Forma é um “sepulcro de neve”, “fria e espessa”, “palavra pesada”.
As imagens mostram que a forma é uma espécie de prisão do pensamento; este fervilha, carregado de emoções, enquanto a Forma esfria-o e sepulta-o. Por meio das antíteses (turbilhão de lava/sepulcro de neve, palavra pesada/ideia leve), o poeta torna mais evidente a angústia da criação, a dificuldade de encontrar as palavras exatas para expressar sentimentos e emoções que costumam ser indescritíveis.
Interessante notar que o contraponto que o poeta faz nesse quarteto, vale-se do fogo e da água, essa última em seu estado sólido enterra a capacidade criativa do poeta. No terceiro verso da aludida quadra, fala da impossibilidade da palavra traduzir as ideias, a primeira é pesada e a segunda é leve. Isso evidencia, por exemplo, a incapacidade de traduzir, com perfeição formal, os pensamentos em palavras.
O primeiro terceto abre-se com uma indagação: “Quem o molde achará para a expressão de tudo?” E no seguinte, há um lamento, dado que é achar uma expressão para tudo é impossível. Esse aspecto ganha força no decorrer do primeiro e do segundo terceto.
A poesia patriótica tem em Bilac, alguns momentos expressivos. Apoiado na tradição ufanista assumiu conscientemente o papel de poeta cívico, exaltando a pátria, sua língua, seus símbolos e heróis engajando-se nas causas cívicas de seu tempo.
O amor pela língua seria coroado com o famoso soneto “Língua portuguesa”:

LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Nesse soneto, Olavo Bilac faz uma abordagem sobre o histórico da língua portuguesa, tema já tratado por Camões. Partindo para uma análise semântica do texto literário, observa-se que o poeta, com a metáfora “Última flor do Lácio, inculta e bela”, refere-se ao fato de que a língua portuguesa ter sido a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar – falado pelos soldados da região italiana do Lácio.
No segundo verso, há um paradoxo: “És a um tempo, esplendor e sepultura”. “Esplendor”, porque uma nova língua estava ascendendo, dando continuidade ao latim. “Sepultura” porque, a partir do momento em que a língua portuguesa vai sendo usada e se expandindo, o latim vai caindo em desuso, “morrendo”.
No terceiro e quarto verso, “Ouro nativo, que na ganga impura / A bruta mina entre os cascalhos vela”, o poeta exalta a língua que ainda não foi lapidada pela fala, em comparação às outras também formadas a partir do latim.
O poeta enfatiza a beleza da língua em suas diversas expressões: oratórias, canções de ninar, emoções, orações e louvores: “Amo-te assim, desconhecida e obscura,/ Tuba de alto clangor, lira singela”. Ao fazer uso da expressão “O teu aroma/ de virgens cegas e oceano largo”, o autor aponta a relação subjetiva entre o idioma novo, recém-criado, e o “cheiro agradável das virgens selvas”, caracterizando as florestas brasileiras ainda não exploradas pelo homem branco. Ele manifesta a maneira pela qual a língua foi trazida ao Brasil – através do oceano, numa longa viagem de caravela – quando encerra o segundo verso do terceto.
Ainda expressando o seu amor pelo idioma, agora através de um vocativo, “Amo-te, ó rude e doloroso idioma”, Olavo Bilac alude ao fato de que o idioma ainda precisava ser moldado e, impor essa língua a outros povos não era um tarefa fácil, pois implicou em destruir a cultura de outros povos.
No último terceto, para finalizar, quando o autor diz: “Em que da voz materna ouvi: “meu filho!/ E em que Camões chorou, no exílio amargo/ O gênio sem ventura e o amor sem brilho”, ele utiliza uma expressão fora da norma (“meu filho”) e refere-se a Camões, quem consolidou a língua portuguesa no seu célebre livro “Os Lusíadas”, uma epopéia que conta os feitos grandiosos dos portugueses durante as “grandes navegações”, produzida quando esteve exilado, aos 17 anos, nas colônias portuguesas da África e da Ásia. Desce exílio, nasceu “Os Lusíadas”, uma das oitavas epopéias do mundo.
Os momentos melhor realizados da lírica amorosa de Bilac são os que marcam certo distanciamento do formalismo parnasiano e do tecnicismo intensivo. Quando Bilac se afasta do sensualismo retórico e declamatório, consegue uma poesia altamente comunicativa, eivada de matizes românticos. É exatamente esse resíduo romântico que aproxima o poeta do gosto do brasileiro médio, por meio dos “ganchos” emocionais que vão capturando a sensibilidade do leitor.
Especialmente em “Via-Láctea”, o tom lamentoso das coisas do amor, misto de certo donjuanismo e de alguma sensibilidade confessional, Bilac assume uma postura nitidamente neo-romântica, superando a atitude intelectualizante do Parnasianismo. “Alma Inquieta” e “Tarde” são desdobramentos dessa vertente mais espiritualizada e sóbria do poeta, menos preocupada com as rimas raras e com as lantejoulas vocabulares.

VIA LÁCTEA


Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas"

Nesse poema, Bilac defende a importância de expressar os sentimentos. No segundo quarteto, o poeta compara a nebulosa a que pertence o nosso sistema (“Via-Láctea”) à cobertura dos santos em procissão (“pélio”), como se o céu protegesse o poeta. Dessa forma, fica enfatizada a proximidade entre ele e as estrelas.
Os belos versos finais que arrematam de modo inesquecível o soneto trazem o segredo para ouvir as estrelas, simplesmente amar.

NEL MEZZO DEL CAMAIN...


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo

O título “Nel Mezzo Del Camin...” (“no meio do caminho”) dialoga com “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, através da intertextualidade do primeiro verso desta obra, que fala dos trinta e cinco anos do poeta italiano, da “metade do caminho da vida”, da incompletude metaforizada pela “selva escura”.

Nel mezzo del camin de nostra vita
mi retrovai por una selva oscura:
ché la viritta via era smarrita

A meio caminho de nossa vida
fui me encontrar em uma selva escura:
estava a reta a minha via perdida.

A sua interpretação pode ser (entre outras) a de obstáculo a ser transposto na viagem rumo à revelação da Verdade Divina ou rumo ao destino, momento de encontro do poeta caminhante (protagonista do poema épico, posto ser uma narrativa da sua aventura na travessia dos círculos do Inferno) consigo mesmo - viagem ao interior de si cujo movimento subjetivo de mergulho no Ser é da ordem do lírico. Aliás, especialmente lírico é o final, momento do clímax, onde temos o encontro do poeta com seu amor, Beatriz, que lhe aparece envolta em luz, num estado de beatitude.
O soneto “Nel Mezzo Del Camin...” se desdobra em três segmentos muito bem caracterizados: o encontro amoroso; a intensidade da vivência amorosa e a separação sugerida pela recordação das mãos unidas em tempo passado e agora afastadas. Dessa forma, o tema se desenvolve entre amor e dor, entrega e separação.
O texto segue a forma fixa do soneto, com rimas externas (cruzadas e alternadas) e versos decassílabos.
Observa-se, também o quiasmo (figura de estilo de repetições invertidas de termos que se cruzam), retratando o dualismo existencial (encontro X separação) e o paralelismo na primeira estrofe.
Na segunda estrofe, nota-se a sonoridade do primeiro verso e o enjambement ao fim de cada verso criando um relaxamento da tensão, que vinha crescendo desde o primeiro verso até o momento da parada súbita.
No primeiro terceto é interessante observar a cesura após "novo" (no primeiro verso), o enjambement entre esse verso e o seguinte, e o fato de que o sujeito lírico deixa de falar sobre ele e a amada (eu + ela = nós) e passa a falar exclusivamente dela.
Note-se a "dureza" da pessoa que parte, que não demonstra sofrer (aos olhos do sujeito lírico) a dor da separação na medida em que não chora nem demonstra se comover com a despedida.
No terceto final, o eco do som da sílaba [ter] pode ser interpretado como um registro sonoro do tremor da voz do sujeito-lírico, que possivelmente está quase a soluçar, após a partida da amada. Ainda é interessante observar outro aspecto no nível fônico desta estrofe final: a aliteração do fonema [k] (letras q e c) parece representar o som forte das passadas da mulher que se afasta friamente, aparentemente impassível frente á dor do sujeito-lírico.
Em “Tercetos”, Bilac lançou mão da Terça Rima, isto é, criou estrofes de três versos onde o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo, por sua vez, rimará com o primeiro e o último da estrofe seguinte.
Os versos decassílabos trazem as súplicas de um eu lírico que insiste em não abandonar o quarto da amada.
O ensaísta francês Rolland Barthes, numa página firme e aguda, mostra que o verdadeiro espírito erótico está no esconder-se para melhor excitar. A nudez, descarnada, a apologia direta do sexo, com esquemas mecânicos de solicitação e repulsa, é produto de uma certa inabilidade de Bilac, que, aliás, lhe deu a imerecida fama de poeta “erótico”.
Na verdade, ele fantasia uma pequena comédia sexual que só não chega ao vulgar porque o poeta utiliza um vocabulário excessivamente nobilitante e formalista para causar o impacto de “Eros”.

TERCETOS

I

Noite ainda, quando ela me pedia
Entre dois beijos que me fosse embora,
Eu, como os olhos em lágrimas, dizia:

“Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho…
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
Casando a treva e o frio de meu peito
Ao frio e à treva que há pelo caminho?

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade…
Espera! até que o dia resplandeça,
Aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava…
Espera um pouco! deixa que amanheça!”

— E ela abria-me os braços. E eu ficava.

II

E, já amanhã quando ela me pedia
Que de seu claro corpo me afastasse,
Eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

“Não pode ser! não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta…
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!…
Que pensariam, vendo-me, apressado,
Tão cedo assim, saindo a tua porta.

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
E todo pelo aroma de teu beijo
Escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo…
Espera! até que o sol desapareça,
Beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
Repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! deixa que anoiteça!”

— E ela abria-me os braços. E eu ficava.

Observe o relato das experiências carnais, extravagante e excessivo, para uma poesia que se pretendia fiel aos fatos. Depois, a intimidade, no amor transfigurado em poesia, precisa de um certo halo de censura para vibrar mais sincera e contagiantemente.
A boa poesia de pulsões eróticas aproveita poucas coisas do mundo exterior aos amantes, pois nela o fundamental é o sentimento e a sobriedade. Depois, o poeta divulga seus prazeres como se quisesse auto afirmar-se ou despertar inveja, o que não condiz com a ética amorosa do galanteador, nem com sua estratégia.
O discurso amoroso apoiado em apelos exteriores ao universo dos amantes, desprovido do intimismo, perde a força.
O pior, neste poema, não é o vocabulário, nem a sintaxe, nem o ritmo e nem o tema. O pior é a concepção subliminarmente narcisista e coisificada do amor, principalmente, no verso “Beija-me a boca! mata-me o desejo!”, que o poeta instrumentaliza a amada, quando esta é que deveria ser o sujeito atuante de toda irradiação erótica, não o objeto inerte através do qual o poeta dá um show de desvairismo exibicionista.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PARNASIANISMO: a poesia “sem um defeito”


“O Parnasianismo foi outra vítima da Inteligência do século XIX. Foi essa Inteligência que construiu a prisão onde quis encarcerar o poeta. Preso, o poeta era obrigado a esmagar seus sentimentos sublimes, a deformar suas ideias, a cortar, diminuir, fazer o que não queria, porque à porta vigiavam carcereiros terríveis com pencas de chave de ouro à cintura.

Coitado de quem dizia o que queria, e como queria! Era preciso medir as ideias como se medem fazendas nas lojas de turco.”

Rubens Borba de Morais, em 1922, comentando a literatura do fim do século XIX.

I – INTRODUÇÃO:


O Parnasianismo é a manifestação poética que se desenvolveu no Brasil concomitantemente a prosa realista e naturalista, embora ideologicamente se distancie das mesmas.

O Parnasianismo surgiu na França, a partir de 1866, com uma antologia de poetas de tendências diversas, com o título de “Le Parnasse Contemporain”, no entanto, na maioria, desejosos de reagir contra o sentimentalismo piegas e à frouxidão dos versos dos últimos românticos e tinha, entre os seus participes e teorizadores, entre outros, os poetas:
THÉOPHILE GAUTHIER, defensor dos princípios da perfeição formal, da palavra como objeto a ser trabalhado com esmero, e da negação do automatismo da inspiração. Daí nasceu á teoria da “ARTE PELA ARTE” que tem como princípio que a missão da arte é ser bela.
LECONTE DE LISLE preconizava a objetividade na descrição do mundo, com pormenorização de objetos e cenas; a renovação dos temas, com preferência pela história antiga e pelos povos orientais; a primazia dos efeitos plásticos e sonoros, capazes de impressionar os sentidos e a utilização de vocabulário raro e preciso.
CHARLES BAUDELAIRE, poeta de extrema complexidade, antecipador de várias conquistas simbolistas e modernas.
A denominação “Le Parnasse Contemporain” remete-nos à Antiguidade Clássica: o Parnaso era um monte na Grécia Antiga, consagrado a Apolo, deus Greco-romano da Poesia, das Artes, da Medicina, dos rebanhos, do Dia e do Sol; e às nove musas: Clio, que presidia à História; Euterpe, à Música; Tália, à Comédia; Melpómene, à Tragédia; Terpsicore, à Dança; Érato, à elegia; Polímnia, à Poesia Lírica; Urânia, à Astronomia; e Calíope, à Poesia Épica e à eloquência. Com essa escolha, os poetas franceses procuravam resgatar a visão de arte como beleza formal alcançada por meio do trabalho cuidadoso e detalhista.

“A arte não existe para a humanidade, para a sociedade ou para a moral, mas para si mesma.”


II – DADOS CRONOLÓGICOS:


O movimento parnasiano foi predominantemente poético. Além da França, só no Brasil a estética encontrou boa repercussão.
A nova tendência toma corpo a partir de 1878, quando nas colunas do Diário do Rio de Janeiro, divulgou uma polêmica entre os novos autores e os românticos, que ficou conhecida como a “Batalha do Parnaso”, alastrando-se até as primeiras décadas do século XX, época em que os neoparnasianos duelavam com os neo-simbolistas, num cenário em que, enfim, prevaleceriam os modernistas.
Entretanto, segundo a crítica literária, o marco inicial desse movimento no Brasil ocorreu somente, em 1882, com a publicação da obra “Fanfarras”, de Teófilo Dias.

III – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:


Os anos que antecederam a I Guerra Mundial chamados de “anos loucos”, encontraram em Paris o centro cultural da Europa. Tendências artísticas diversificadas de vários países desembocavam na bela capital e irradiavam para o mundo ocidental.

A segunda metade do século XIX é a fase de ouro da burguesia, enriquecida com a Revolução Industrial, transformada pelas descobertas da ciência, pela revolução das máquinas e pelo conforto moderno e do progresso.
No final do Século XIX, a História da Arte passava por profundas inovações. A herança Renascentista italiana passa a ser questionada e artistas assistindo as transformações sociais, econômicas, políticas e filosóficas do mundo, além do desenvolvimento dos meios de comunicação, buscam novas expressões artísticas.
A máquina; a eletricidade; o automóvel; a música (o gospel, o jazz, o soul, o fox-trot e o samba que desceu dos morros brasileiros e chegou nos bailes da burguesia); a emancipação feminina; o cinema de Hollywood; o humor de Charles Chaplin; as saias curtas; as maquiagens faciais; o wisky; o tênis; o “crack” da Bolsa de Valores; a Ku-Klux-Kan; a guerra; Hiroshima e Nagasaki....
O fim do século XIX e o início do XX (1890 a 1914) foram marcados por uma onda de ostentação e rebuscamento conhecida como “belle époque”. O gosto pelo luxo e a vaidade das elites apareciam nas roupas enfeitadas, que eram usadas em ambientes ricamente iluminados e ornamentados.
No Rio de Janeiro e principalmente na “Confeitaria Colombo” desfilava mulheres elegantemente vestidas, com suas cinturas espartilhadas, mangas bufantes, chapéus coloridos e enfeitados com plumas. Os homens também primavam pela elegância, portando cartolas e usando bengalas ricamente ornamentadas.
Grandes acontecimentos históricos marcaram a geração dos parnasianos brasileiros. A abolição da escravatura (1888) coincide com a estréia literária de Olavo Bilac. No ano seguinte houve a queda do regime imperial com a Proclamação da República. A transição do século XIX para o século XX representou para o Brasil: um período de consolidação das novas instituições republicanas; fim do regime militar e desenvolvimento dos governos civis; restauração das finanças; impulso ao progresso material. Depois das agitações do início da República, o Brasil atravessou um período de paz política e de prosperidade econômica.
Desde o início do Romantismo, a circulação dos textos literários era feita principalmente por folhetins.
A publicação dos poemas também era feita nos jornais, no entanto, adquiria outra forma de divulgação: a memória dos leitores, que eram decorados e declamados na primeira oportunidade.
Alguns estudiosos da época relatam que, quando Olavo Bilac passava pela Rua do Ouvidor, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro, podiam-se ouvir alguns passantes recordando versos como: “Quando uma virgem morre uma estrela aparece” ou, os mais conhecidos e preferidos, “Pois só quem ama pode ter ouvido/Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
Segundo Nestor Vitor, em 1902, Olavo Bilac correspondia aos ideais da sociedade para a qual escrevia. Representava o brasileiro médio, “lendo livros quase sempre ligeiros, revistas leves, fazendo crônicas para ganhar algum dinheiro e, no mais flanando com alguns amigos, frequentando cafés e teatros, deitando-se tarde, levantando-se tarde igualmente”.

IV – CARACTERÍSTICAS:

“Sempre haverá uma poesia popular sem arte, e poetas sem apuro gramatical e métrico, versejando com o falar da gente rústica. Acredito que é esta a verdadeira poesia, sentimento instintivo e pensamento espontâneo da terra e dos homens, nascendo do coração do povo, como o canto sai da garganta dos pássaros e o aroma da corola das flores. Esta será a legítima poesia, anônima e rude; e talvez seja esta a que mais dure...mas ao lado desta, inspirando-se dela, e dela aproveitando a seiva e o encanto, uma outra sempre haverá, culta é difícil; e sempre haverá, entre os bardos sem técnica, os artífices do estro literário. [...] É justo que, entre tantos latoeiros e funileiros, vivam alguns ourives!
Admitida esta necessidade, não admitamos confusões entre os que se resignam ao poetar espontâneo e os que ambicionam o sacerdócio do poetar artístico. Não tragam os aprendizes para a oficina da joalheria um material indigno, vocação errada, incapacidade, pechisbeque e miçangas, em vez de ouro e pérolas, preguiça em vez de paciência, neglicência em vez de vontade e gosto. Não entrem no verso culto o calão e o solecismo, a sintaxe truncada, o metro cambaio, a indigência das imagens e do vocabulário, a vulgaridade do pensar e do dizer. Não seja a arte fancaria e biscate: seja tarefa difícil, consciente, asseada, em que haja sacrifício e orgulho! Só assim será bela e simples a obra.”

Fragmento de uma conferência proferida por Olavo Bilac em homenagem ao poeta Alberto de Oliveira, referindo-se ao estilo parnasiano.

1. CONTENÇÃO LÍRICA:

Para desidentificar-se da antiquíssima síntese entre eu e mundo, para introduzir um hiato entre essas duas instâncias unitárias do real, o lírico parnasiano procura transformar a poesia em puro trabalho, artefato, construção. Transformada em produto do trabalho, a poesia mostrará sua independência em relação àquele que o produziu.
Insinua-se a metáfora do ourives, que pacientemente modela sua jóia, sem confundir-se com ela. O parnasiano não percebe que a ourivesaria tem a vantagem do requinte e da raridade, mas a tremenda desvantagem de ser supérflua relativamente àquilo que é fundamental à existência do homem. Isto também traduz uma obsessão pelo adorno (esteticismo) e um esquecimento das verdadeiras essências históricas. É uma arte para a eleite, revelando acentuado desprezo pela plebe, pelas aspirações populares, pelo cotidiano.
O parnasiano não capta a história naquilo que ela tem de revelador e inédito, mas em seus fogos-de-artifícios; não penetra naquilo que é interno e verdadeiro no processo da vida, mas naquilo que é logro e ostentação sob a máscara da beleza e do prestígio. Havia uma recusa frontal aos temas “vulgares” e os poetas encerram-se em suas torres de marfim, impedindo que sua poesia se faça permeável às grandes causas de seu tempo.

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre e sua!

“Foi na prisão sem ar que morreu o Parnasianismo. Não há prisioneiro encarcerado, convicto, arrastando correntes, que não queira romper as cadeias, fugir, bradando um grito de liberdade...Esse grito foi o verso livre.”

Rubens Borba de Morais

2. MITO DA OBJECTUALIDADE:

Os novos poetas querem apreender descritivamente o real, sem perceber que confundem a realidade, que é complexa, sutil, movediça com o mecânico e estático das coisas.
Os objetos, as cenas históricas e os fenômenos naturais (o anoitecer, a primavera, o amanhecer) são descritos por meio de impressões sensoriais, nítidas, especialmente as imagens visuais, que se convertem em verdadeiros cromos, tal a intensidade das cores e do brilho.
Este cromatismo intenso é particularmente visível nas cenas da natureza e na descrição de objetos de arte, especialmente aquilo que desfrute de algum prestígio na hierarquia médio-burguesa do “bom gosto”: vasos gregos, recantos aprazíveis, “naturezas-mortas”, monumentos, medalhas, velhos alfarrábios, besouros esvoaçantes, dedos deslizantes sobre o teclado, histórias de mandarins, orgias gregas, bacanais latinos, rubis engastados no firmamento...
Nos últimos decênios do século XIX, o estreitamento dos contatos com o Oriente (China, Índia, Japão) e as descobertas arqueológicas na Grécia e Roma revelaram uma arte particularmente requintada.
É o gosto do exótico, do diferente, pelo prazer da raridade. A obsessão do diferente nada mais é do que a tentativa de esconder ou preencher o vazio criativo.
Alberto de Oliveira especializou-se nessa temática: “O Vaso Grego”, “O Vaso Chinês”, “O Leque”, “A Estátua” entre outros.

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Observe o rebuscamento da sintaxe, com inversões bruscas (hipérbatos e sínquises); veja como este mesmo poema ficaria em prosa na ordem direta:

“Esta brilhante copa de áureos relevos, trabalhada de divas mãos, um dia, vinda do Olimpo, como já cansada de servir aos deuses, servia a um novo deus.”

3. SEPARAÇÃO DE FORMA E INFORMAÇÃO:

Diz Ezra Pound que a grande poesia consiste “na linguagem carregada de significação no mais alto grau possível”. Noutros termos, ele afirma que a boa poesia deve pelo menos ter a qualidade de dizer bastante, mas com o mínimo suficiente de palavras. O parnasianismo, que cultiva a apologia da linguagem (e realmente os parnasianos eram exímios conhecedores da língua), esquece que a informação do sentido (informação semântica) deve ser tão rica e nova quanto á organização léxica e gramatical do discurso poético.
Centrados no puro fazer poético, os parnasianos instauram o materialismo da forma.
A literatura como “ofício” leva o parnasiano a encarar essa arte como um trabalho, sobretudo, formal, cuja matéria-prima, a palavra, deve ser cultivada com requintes técnicos: lapidada, burilada, cinzelada, beirando o preciosismo.
A poesia deve ser fruto do esforço intelectual da elaboração. Por isso, os parnasianos, exímios conhecedores da língua, são “poetas de dicionário”, obcecados pela correção gramatical, pela pureza da linguagem, pela vernaculidade, pela seleção vocabular.
Outro aspecto desse formalismo é a valorização de alguns procedimentos, como:

3.1. RIMAS: VOCABULÁRIO OU QUALIDADE

As rimas, identidade ou semelhança de sons no final ou no interior dos versos, são de grandes importâncias. Pode-se afirmar que não há poesia parnasiana sem rima: os versos brancos são raríssimos. E não é só isso: as rimas eram selecionadas, havia uma preferência pelas rimas RICAS E RARAS.

3.1.1. Rimas Pobres: as palavras que rimam pertencem à mesma classe gramatical.

Entre as ruínas de um convento
De uma coluna quebrada
Sobre os destroços, ao vento
Vive uma flor isolada.

Alberto de Oliveira

3.1.2. Rimas Ricas: as palavras que rimam pertencem a classes gramaticais diferentes.

O coração que bate neste peito
E que bate por ti unicamente,
O coração, outrora independente,
Hoje humilde, cativo e satisfeito.

Luís Guimarães Jr.

3.1.3. Rimas Raras: as palavras possuem terminações incomuns, em relação à correspondência sonora usual dos versos.

Gênios mansos da tarde, escutai a minha prece,
Sinto-vos deslizar por estes ares...Pondes
Um véu de seda azul no ombro nu da colina.
Entre as moitas o rio, em silêncio, adormece
E sobre, lento e lento, entre os cimos e as frondes.

Amadeu Amaral

3.1.4. Rimas Heterofônicas: quando o timbre das vogais tônicas é diferente.

Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela.

Machado de Assis

3.1.5. Rimas Imperfeitas: quando a sílaba final tônica apresenta vogais ou consoantes diferentes.

Mandou-me sua alma louca
Que a dor da ausência consome,
Saber se em sonhos o seu nome
Brilha agora em tua boca!

Olavo Bilac

3.2. QUANTO À DISPOSIÇÃO

3.2.1. Emparelhadas ou Paralelas: AABB

Pode em redor de ti, tudo se aniquilar:
- Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a vida perpétua arde em tuas entranhas.

Olavo Bilac

3.2.2. Opostas, Intercaladas ou Interpoladas: ABBA

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo sacudia
A branca espuma para o céu sereno.

Casimiro de Abreu

3.2.3. Alternadas ou Cruzadas: ABAB

Filhos do Novo Mundo! Ergamos nós um grito
Que abafe dos canhões o horríssomo rugir,
Em frente do oceano! Em frente do infinito!
Em nome do progresso! Em nome do porvir.

Castro Alves

OBSERVAÇÃO: Quando as rimas não seguem esquema regular, denominam-se Misturadas ou Deslocadas.

3.3. RIMAS INTERNAS:

3.3.1. Encadeadas: ocorrem no final de um verso com o interior do verso seguinte.

Cajueiro desgraçado,
A que fado te entregaste,
Pois brotaste em terra dura,
Sem cultura e sem senhor.

Silva Alvarenga

3.3.2. Aliterantes: sucessão de fonemas consonantais idênticos ou semelhantes no início das palavras.

Forte, fiel, façanhudo,
Fazendo feitos famosos
Florescente, frutuoso,
Fama, fé, fortalecendo,
Famosamente floresce,
Fidalguias favorece,
Francas franquezas firmando.

Garcia de Resende

3.3.3. Coroadas ou Iteradas: verificam-se dentro do mesmo verso.

Donzela bela, que me inspira a lira
Um canto santo de fervente amor,
Ao bardo o cardo da tremenda senda
Estanca, arranca-lhe a terrível dor.

Eugênio de Castro

3.4. EM RELAÇÃO À EXTENSÃO OU AO SOM:

3.4.1. Consoantes ou Puras: a partir da última tônica do verso, há identidade de sons.

Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Tereis notado que outras cousas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.

Olavo Bilac

3.4.2. Toantes ou Assoantes: quando há correspondência de sons apenas entre as sílabas tônicas das palavras.

E nas mãos magras e longas
Os dedos punha a contar:
Uma sombra, duas sombras...
Mas passaram sem parar.

Olegário Mariano

3.5. A MÉTRICA RIGOROSA:

Os parnasianos preferiam os versos longos, especialmente os Alexandrinos e os Decassílabos.
O verso alexandrino mais comum, entre nós divide-se em dois segmentos de 6 sílabas cada, denominados hemistíquios. A sexta sílaba é sempre tônica, e sobre ela recai a cesura (pausa ou corte no interior do verso).

3.6. A PREFERÊNCIA PELAS FORMAS FIXAS:

Os parnasianos reabilitaram as formas clássicas da poesia. O soneto, quase abandona no Romantismo, foi a forma eleita pelos poetas da época. Também o terceto, a sextina, a balada, o rondó são cultivados.

3.7. ENJAMBEMENTS:

O emprego de “enjambements” como meio de quebrar a monotonia rítmica, corresponde ao prolongamento sintático e semântico de um verso no verso seguinte, com supressão da pausa característica do final do verso.

4. O RETORNO Á TRADIÇÃO CLÁSSICA:

O Parnasianismo foi a recuperação dos ideais do Classicismo; representou um retorno aos temas e formas da poesia greco-romana, renascentista e arcádica. Tem com elas, em comum, o predomínio da razão, o antropocentrismo, os ideais da arte voltada para o belo, para o bem, para a verdade e para a perfeição; a submissão rigorosa às regras e modelos preestabelecidos; a objetividade e a obediência ao princípio aristotélico de que a arte deve ser a cópia da natureza, “Mímesis”.
Revivem no Parnasianismo os temas extraídos da História e da Mitologia greco-romanas: “O Incêndio de Roma”; “A Sesta de Nero”; “O triunfo de Afrodite”; “O Julgamento de Frinéia”, “A Tentação de Xenócrates” são títulos de algumas composições antológicas de Olavo Bilac, que nos remetem à Grécia e à Roma antigas.

5. A TRAMA DO KITSCH:

Diz-se que um artista pratica o kitsch quando mistura formas e truques com o fito de impressionar o apreciador. O kitsch e suas astúcias são uma das bases ideológicas da indústria cultural. O contrário do kitsch é o trabalho espontâneo e legitimamente criativo, que nasce de uma intuição original do artista. Isto não impede que ele imite. É impossível a originalidade absoluta. A história da arte é profundamente genealógica: ela retoma e refunde as formas do passado. Mas o kitsch revela inconsciência do valor humano e modelador da arte. Seu objetivo é ostentar, provocar admiração, através de certos efeitos previamente estudados. Buscando o raro e o requintado, o parnasiano cai, muitas vezes, na superficialidade, na obsessão pelo adorno, esquecido da essência.
O mesmo ocorreu com a exibição erótica. O erotismo tem sua unidade no próprio ato de vivê-lo. A essência do erotismo está no esconder-se. O parnasiano Bilac, principalmente faz um show de Laíses desnudas, seios que fazem sofrer, preâmbulos sacanas, orgias báquicas e tudo isso no Rio de Janeiro e em São Paulo, tímidas províncias que nada tinham da Hélade.

6. AUTORES:


O apego mais rigoroso aos princípios estéticos do Parnasianismo encontrou no Brasil alguns seguidores entusiasmados. Os mais destacados foram os poetas Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.







terça-feira, 20 de setembro de 2011

LISBELA E O PRISIONEIRO (2003): HISTÓRICO E ANÁLISE CRÍTICA

Dirigido por Guel Arraes

Roteiro de Guel Arraes, Jorge Furtado e Pedro Cardoso
Com Débora Falabella, Selton Mello, Virgínia Cavendish, Marco Nanini, Bruno Garcia, André Mattos e Tadeu Mello

“O filme marca, segundo Arraes, o início do “CPB” (Cinema Popular Brasileiro), que ele diz se tratar de um novo ciclo dentro da história do cinema nacional.”

I - HISTÓRICO:

Em 1960, o escritor pernambucano Osman Lins, escreveu “Lisbela e o prisioneiro” para o teatro. A peça foi encenada pela primeira vez em 1961, no Rio de Janeiro. Em 1964 foi publicada em livro por Osman Lins e reeditada pela Editora Planeta. Quarenta anos depois, a história que fascinou o público e entreteve os leitores, atingiu sucesso no cinema com o diretor, Guel Arraes.
Guel Arraes, parte especialmente do núcleo mais criativo da TV Globo, desenvolvendo uma linguagem narrativa própria das telinhas tupiniquins. Arraes dirigiu a TV Pirata, Armação Ilimitada e a novela “Guerra dos Sexos”, além de produções televisivas adaptadas para o cinema (“O Auto da Compadecida” e “Caramuru”) e em seguida dirigiu esta fábula nordestina.
O roteiro leva a assinatura da figura carismática e experiente de Arraes, com o talento do cineasta gaúcho, Jorge Furtado (“O homem que copiava”) mestre em construir roteiros com interação com o espectador e histórias fragmentadas, entrecortadas e sobrepostas, que se unem convincentemente e forma um todo muito divertido e, Pedro Cardoso, fechando o roteiro democrático de “Lisbela e o Prisioneiro”.
Guel Arraes já havia trabalhado o texto em uma adaptação televisiva para um especial em 1993, no entanto, em “Lisbela e o Prisioneiro” foi o seu primeiro trabalho diretamente voltado para o cinema.
Quando dirigiu a primeira adaptação do texto para a televisão, Guel já tinha quinze anos de experiência profissional e nunca havia trabalhado numa história nordestina, apesar de ser pernambucano.
O filme “Lisbela e o Prisioneiro” é um marco porque o remeteu novamente às suas origens, como ele próprio afirma: “Trabalhar com a prosódia, o humor e temas nordestinos teve para mim um gosto particular. E o especial de TV baseado em Osman Lins me deu coragem e estímulo para filmar o “Auto da Compadecida”, adaptado da obra de Ariano Suassuna. Costumo dizer que, com esses dois trabalhos, virei pernambucano de novo.”
As cem páginas da obra de Osman Lins visavam o equilíbrio do regionalismo e da tradição oral nordestina, desde o sotaque até os ditados populares; e Guel não eliminou esse equilíbrio, mesmo com a condensação das situações da peça em um número menor de personagens, explorando a riqueza dos diálogos e mantendo as melhores falas do texto, dando matéria-prima às boas atuações das personagens.
O ritmo frenético inundado de cortes segue a tendência do diretor, acostumado com o sistema televisivo, em que é preciso do máximo, prender a atenção.
O filme chegou aos cinemas com aparência “blockbuster” norte-americana, com testes de audiência, assessoria de imprensa, trilha sonora bem elaborada e lançada em CD, e, inflexíveis datas de estréias.
“Lisbela e o Prisioneiro” custou R$4,5 mi, o que deve ser muito pouco para os produtores de Hollywood, porém para um filme nacional era um montante considerável e Paula Lavigne e Virgínia Cavendish, capricharam no cenário dando um charme todo especial ao que é chamado pelos realizadores de pop.
A intenção de Arraes com o filme era desenvolver um projeto que chamou por Cinema Popular Brasileiro. A denominação engloba projetos que tenham apelo a diversas camadas sociais do Brasil, país que tem verdadeira paixão pela televisão e pelas novelas. Contudo, o diretor não acredita que o CPB deva seguir fórmulas de sucesso - algo comumente empregado em produções de Hollywood -, mas sim, apresentar um produto final popular, que deve instigar o público e ser cultural. Divertir não significa adormecer, comentou Arraes, que também acredita que o CPB é necessário para que possam surgir projetos mais criativos e autorais.
Ele comentou também que a adaptação do romance de Osman Lins para o cinema teve cerca de 30% do livro mantido no filme. O restante são ideias novas ou situações testadas na peça de teatro “Lisbela e o prisioneiro”, enorme sucesso nos palcos e verdadeira paixão em Pernambuco, ou no especial de televisão produzido em 1993, para a TV Globo. Ao adaptar, você acaba escolhendo aquilo que se adequa melhor ao seu universo, disse. Bastante atenção também foi dada a um teste de audiência, a primeira pesquisa de público realizada para um filme no Brasil. A prática é utilizada pelos grandes mercados cinematográficos para verificar a aceitação do produto em diversas classes. Entretanto, lá fora, tais pesquisas freqüentemente prejudicam as produções, massificando-as. No entanto, Guel Arraes deixou claro que no caso de “Lisbela e o prisioneiro”, os testes serviram apenas para tirar dúvidas de determinadas cenas - incluindo a inicial, espécie de editorial do filme - e que a edição da fita não foi determinada pelo resultado da pesquisa. Mesmo assim, o teste orientou a campanha e os trailers e foi uma experiência bacana para o cinema nacional, comentou a produtora Paula Lavigne. A aceitação do filme pelos espectadores foi de 80%.
É evidente que boa parte do êxito do filme está ligado à marca Globo Filmes, mas o filme conquista pelos mesmos motivos que o texto de Osman Lins foram tão bem recebidos pelos leitores.

II -TÉCNICA E MONTAGEM:

“O filme vai ficar um tom mais baixo do que a peça, menos farsesco – contou Guel. O triângulo amoroso entre Inaura, Leléu e Lisbela cresceu. E os encontros de Inaura e Frederico Fernando estão mais melodramáticos.”

Quanto ao cenário, as quinquilharias de plástico colorido compõem o visual. No set de filmagem no Largo de Santa Cruz, centro de Recife, onde a maioria das externas do filme foi feita, vê-se que a direção de arte de Cláudio do Amaral Peixoto segue à risca a orientação de Guel. Lojas cenográficas vendem todo tipo de quinquilharia colorida. As araras com roupas de cores berrantes completam o visual Nordeste pop sugerido pelo diretor, inspirado nas suas incursões ao Mercado de São José, na capital pernambucana.

“- É uma mistura de artesanato e indústria típica do universo nordestino suburbano que se vê em Pernambuco, em Madureira ou na periferia de São Paulo” – disse Guel, referindo-se às flores e às inúmeras vasilhas de plásticos nos seus cenários.

Guel sempre bem-humorado dá instruções ao elenco e evita repetir cenas, afirmando que “sou considerado lento na televisão. No cinema sou rápido”, fato importante para as produtoras do filme, Paula Lavigne e Virgínia Cavendish, onde num filme nacional o orçamento é bem limitado.
O elenco do filme foi extraído dos atores que encenaram a peça de teatro homônima. Assim, o fato de ser uma peça, adaptada para TV e depois para um longa-metragem, fez com que os atores ficassem profundamente entrosados com seus papéis. Alguns foram remanejados de papéis, como a entrada de Débora e o papel de Leléu para o Douglas.
Bruno Garcia era o nome mais gritado pelos fãs durante a filmagem:

“- Muitas pessoas sabem que eu sou daqui e tenho um certo orgulho disso – contou Bruno, apontando as mudanças do novo personagem na versão para o cinema. Na peça, o Douglas era mais manipulável. Agora ele é uma ameaça real para Leléu.”

A trilha sonora de João Falcão e do músico André Moraes não poderia ser melhor, trazendo canções que misturam modernidade e o clássico em sincronia com o tema e seus personagens.
João Falcão trabalhou ao lado de Arraes, havendo uma experiência interessantíssima de direção conjunta em cada uma das canções escolhidas.
Segundo eles, a ideia era fugir das sonoridades convencionais ou dos regionalismos. Para tanto, buscaram músicas com a cara de cada uma das personagens. E o resultado foi uma miscelânea!
As músicas selecionadas formam o perfeito retrato do brasileiro típico: Caetano Veloso, interpretando a balada dramática e sangrenta “Você não me ensinou a te esquecer”, de Fernando Mendes; Elza Soares no forró como se fosse flamenco em “Espumas ao Vento”; Zé Ramalho com participação do “Sepultura” com seu heavy metal “A Dança das borboletas”, tema do matador, composição sua com parceria de Alceu Valença; Los Hermanos, com “Lisbela” e Lirinha, vocalista do ex-Cordel do Fogo Encantado, que canta “O Amor é filme”, música que encerra a película.
No entanto, a fotografia de Uli Burtin deixou a desejar, não explorou o universo colorido que uma história com tons farsescos como esta, poderia ter.
Esta é a terceira adaptação de “Lisbela e o prisioneiro”, de Guel Arraes (ele havia dirigido um especial para TV e também uma encenação da peça de Osman Lins) e em todas as três, ele optou por modificar a estrutura do original. Toda a peça se desenrola na cadeia da cidade. Tudo o que acontece do lado de fora, o leitor/público fica sabendo pelo “leva-e-traz” dos personagens.
Mas os recursos do cinema permitem ao público assistir ao que se passa fora do xadrez, e, por isso, a trajetória de Lisbela e Leléu se torna mais rica, reproduzindo a estrutura dos filmes de mocinho e bandido. Esses recursos permitem também que a participação de Lisbela seja maior no filme que no texto, em que as peripécias do prisioneiro têm maior espaço.
O enredo trata-se, assim, de uma história com personagens cativantes, interpretações impecáveis, diálogos ágeis, texto inteligente, edição criativa e uma direção de arte bem apurada.

III - PERSONAGENS E LINGUAGEM:

O elenco está impecável. Mesmo as personagens mais caricatas, como o Cabo Citonho, vivido por Tadeu Mello, funciona com todos os seus trejeitos sem forçar a barra para ser engraçado. De modo geral, a escolha foi acertada: Selton Mello tem a mistura certa da doçura com a malandragem; Débora Falabella transborda alegre, pureza e beleza; Bruno Garcia passa do popular ao irritante; Virgínia Cavendish, linda, sensual e provocante; André Mattos extremamente carismático; e Marco Nanini, um perfeito vilão cruel de olhos vermelhos e cabelos crespos, dá o equilíbrio que a história exige.

LISBELA – A personagem Lisbela de Guel Arraes tem a mesma ternura e vivacidade da Lisbela de Osman Lins, mas, para o deleite do público, no cinema ela é mais atuante, mais heroína que mocinha.


Lisbela alegoriza uma mocinha de cabelos e vestido engomados e apaixonada por seriados de Cinema (um formato popular entre as décadas de 10 e 50, quando o sucesso da televisão estava em decadência). No filme, ela comenta as sessões que assiste (ficaria estranho se ela analisasse as cenas só na saída), antecipando, em vários instantes, fatos que estão para ocorrer em sua própria história, o que não deixa de ser divertido.


LELÉU – Compõe o personagem como um sujeito capaz de oscilar entre a confiança e a covardia com a mesma facilidade. È um malandro que pula de cidade em cidade aplicando os mais diversos golpes e namoras todas as garotas bonitas que conseguir.


DOUGLAS – Noivo de Lisbela, playboy do Nordeste e metido a carioca.
 
 
TENENTE GUEDES – É o delegado da cidade: viúvo e pai de Lisbela.


FREDERICO EVANDRO – marido de Inaura e matador de aluguel.



PAULA LAVIGNE – A produtora do filme, faz uma ponta como a Mulher-Gorila.


FILHO DE CAETANO VELOSO E PAULA LAVIGNE – aparece num flashback que mostra a infância de Leléu.


O filme beira o exercício repentista, quase um cinema de cordel.
O regionalismo de “Lisbela e o prisioneiro”, fundado no aproveitamento de incidentes testemunhados por amigos, por familiares e por Osman Lins bem como apoiado na transposição de ditados, expressões populares e dísticos encontrados em pára-choques de caminhões, é transfigurado sob a pena de seu autor. Matéria e linguagem re-elaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços.
Os diálogos são rápidos e exagerados. O único personagem mais calado é o Frederico Evandro, que ironicamente em um dos poucos diálogos que participa sua esposa lhe diz em sotaque nordestino:
“– Tu só qué sabê di conversá”.
Ao longo dos 106 minutos de projeção, é impossível encontrar três segundo nos quais haja silêncio; contendo um número de diálogos mais apropriado para uma peça de teatro, o filme traz personagens que não parecem sequer pensar antes de dizer algo; durantes as conversas, simplesmente não há pausa entre os diálogos, como se as respostas estivessem engatilhadas antes mesmo da formulação das perguntas.

IV – ESPAÇO:

O pernambucano Bruno Vargas, que interpretava Leléu na peça e no filme vive o divertidíssimo Douglas, disse ter ficado bastante contente com a escolha do ambiente. O filme retrata a Zona da Mata e não o sertão sofrido da seca como todo mundo está acostumado. A opção valorizou a estética da produção, caracterizada como um nordeste pop, no qual foram explorados os camelôs, as frases de caminhão, os parques de diversão e os botecos, entre outros ambientes característicos.
O resultado, segundo o diretor, é uma vulgaridade bacana, que não tem a intenção de denegrir estilos, mas sim quebrar preconceitos existentes sobre o “brega” e o “kitsh”.

V - SÍNTESE DO ENREDO:

“A história é uma comédia romântica apimentada com molho regionalista nordestino-pop.”

“O que faz o filme especial não é o que acontece, portanto, mas como acontece e quando acontece”, palavras de Lisbela logo na introdução do filme, durante uma sessão de cinema, ao descrever uma comédia-romântica com pitadas de aventura norte-americana.
Narra á história de Lisbela (Débora Falabella), moça sonhadora, moradora em uma cidadezinha da Zona da Mata, no interior pernambucano. Apesar da história se passar no nordeste brasileiro, os dramas destas personagens, suas aflições e sonhos são universais. Não se trata, portanto, de um filme regionalista, embora se utilize com inteligência dos recursos interessantes que uma história nordestina pode trazer como o colorido das paisagens, o sotaque alegre e algumas tradições regionais.
Para essa romântica mocinha, a vida só acontece nas telinhas do cinema. Naqueles filmes em preto-e-branco, exibidos nas salas de cinema em capítulos semanais, onde os heróis são os atores norte-americanos. Toda semana, Lisbela espera com ansiedade a sequência do mesmo modo que se acompanhasse uma novela.
A graça da edição fica por conta da paixão de Lisbela pelo cinema, misturando assim a história do filme a que assistimos com as histórias dos filmes aos quais Lisbela assiste.
Lisbela sonha com um amor perfeito, idealizado, idílico, eterno, que são retratados nos filmes românticos.
Ela está noiva de Douglas (Bruno Garcia), uma espécie de “playboy” de província, que depois de ter passado um mês no Rio de Janeiro, volta cheio de arrogância, inferioriza seus conterrâneos e apropria-se de um sotaque “carioquês”, para esnobar sua posição.
Douglas é artificial, preocupado com ostentações e aparências: vive a pentear os cabelos e tentar “aproveitar-se” de Lisbela antes do casamento. Acompanha Lisbela no cinema com outras intenções, mas ela insiste em prestar atenção ao filme.
A rotina de Lisbela tomará outro rumo quando conhece Leléu (Selton Mello): “um malandro mambembe que vaga pelas cidades interioranas, inventando personagens, performances, vendendo elixires duvidosos, encenando a peça Paixão de Cristo” e artimanhas para faturar algum dinheiro e; conquistar mocinhas indefesas e mulheres alheias.
Feito marinheiro, Leléu vai destroçando corações e arrumando encrencas. A última foi á conquista da provocante Inaura (Virgínia Cavendish), que para seu azar, é esposa do grande matador de aluguel Frederico Evandro (Marco Nanini).

 
Quase flagrado Leléu na sua cama, Frederico lhe jura vingança e sai à sua captura pelas estradas do Brasil.

Até que os destinos de Frederico, Leléu, Lisbela e Inaura cruzam-se na mesma cidade, onde o pai de Lisbela é o chefe de polícia, o tenente Guedes.
Lisbela e Leléu se apaixonam e é exatamente como ela sempre sonhou e assistia nos filmes, mas, para que possam viver juntos, ele tem que tirá-la daquele mundo de luzes e sombras e levá-la para o mundo real, para longe daquela cidadezinha, para a vida das feiras, das estradas.
A dupla ainda tem que enfrentar os ciúmes de Douglas e Inaura e a fúria sanguinária de Evandro
Lisbela sonha deixar seu passado para trás e se entregar a uma vida itinerante, redescobrindo os clichês perdidos do amor romântico.

domingo, 18 de setembro de 2011

JEAN-FRANÇOIS MILLET (1814-75): A DIGNIDADE DO HOMEM DO CAMPO


Nascido de uma família camponesa, que apoiou a revolução de 1848, disse uma vez que desejava “fazer com que o trivial servisse para explicar o sublime”.

Millet foi um dos fundadores do movimento da Escola de Barbizon que abandonará definitivamente em 1849, para se dedicar à sua proposta estética, onde a ênfase social domina e se sobrepõe ao mimetismo naturalista radicalizado por esse movimento.
O artista voltou-se principalmente para a realidade do trabalhador rural, moralizante, exaltando os princípios de caráter desses excluídos. Mas, não as pintou de fora e sim, como um camponês identificado com os demais. Antes disso, os camponeses eram retratados como estúpidos.
O artista pintou a tristeza, a miséria, a falta de esperança do trabalho e da vida do campo e, incorporou o elemento humano na paisagem, não como um mero figurante circunstancial, mas como protagonista de um todo que está profundamente ligado, dando-lhes uma dignidade resoluta.
Suas paisagens bucólicas retratam um clima de introspecção.
Millet, embora, tenha procurado dar uma abordagem realista em suas obras, suas telas foram consideradas sentimentais para alguns e exageradamente piegas para outros.
Em alguns de seus temas não conseguiu escapar à sua forte herança romântica, deixando, por essa razão, transparecer uma poética que se consolida na figura do trabalhador rural como herói moral: o camponês ligado a terra, aos modos de trabalho e de vida tradicionais: à moral, à família e à religião, impregnados de um sentimento de dignidade, mas resignados à sua condição, enfim, uma réstia do bom selvagem romântico. Mas a verdade, é que suas obras em nenhum momento suscitaram indiferença.
É nesta fase que as suas obras mais paradigmáticas são produzidas: "As Respigadoras" (1857), "Angelus" (1859), "A Pastora" (1864), etc.
Na tepidez de seus ocres e marrons, no lirismo de sua luz, na magnificência e dignidade de suas figuras humanas, o pintor manifestava a integração do homem com a natureza.
O olhar de Millet é paradoxal, retrata a fadiga e a humildade, atribuindo-lhes uma condição, não de revolta, mas de aceitação quase mística como se observa no quadro "Angelus".



Suas camponesas em nada se assemelham às camponesas dengosas do Rococó e do Barroco. A camponesa de MILLET é uma mulher de vestido grosseiro, informe, ressequida, cansada, transformada pela rotina e pelo amesquinhamento na espectral, estereótipo de uma criatura humana que a burguesia não queria ver.

Estudos com raios X revelaram que nesse quadro, Millet havia pintado, originalmente, o filho morto do casal de camponeses. O pintor, entretanto, achou muito chocante a cena e retocou o quadro para a forma atual, apagando a figura da criança.
Apresentam os camponeses como pessoas piedosas que interrompem o trabalho na hora da Virgem Maria para orarem demonstrando religiosidade sentimental.


Um dos primeiros quadros que Millet pintou em Barbizon foi "O Semeador", datado de 1850.

A tela sintetiza grande parte das preocupações estéticas e culturais de Millet e constituiu o precursor do conjunto pictórico de temática paisagística e de cenas da vida rural, lida a partir de um posicionamento crítico de análise social, que caracterizarão a sua obra futura.
Nessa tela, Millet representou o homem simples como uma figura grandiosa de intensa dignidade, contra a vastidão do campo.
Esta solução compositiva que procurava o contraste entre figuras monumentais em grande plano com um fundo imenso surge em muitas outras obras de Millet, tais como "As Respigadeiras", de 1857.
O quadro apresenta de forma flagrantemente realista três camponesas recolhendo os restos da colheita, envoltas numa atmosfera dourada. Aqui a vida rural assumiu uma rara nobreza na síntese perfeita entre cultura e ordem natural.


Para além da pintura, Millet abordou outras expressões pictóricas como o desenho, notáveis pela qualidade compositiva e pela simplificação e monumentalização das formas.


“Os Lenhadores” (1850-52)