domingo, 11 de setembro de 2011

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE: ARCÁDICO, PRÉ-ROMÂNTICO E SATÍRICO EM PORTUGAL


Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:



Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:



Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE, BOCAGE, como o povo o clamava, ou MANUEL MARIA, como era conhecido pelos mais íntimos, se tornou um dos poetas mais importantes do século XVIII e, apesar de ter deixado fama de grande satírico e improvisador, sua obra o coloca como um dos melhores sonetistas líricos de toda a literatura portuguesa.
Nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a nossa Marinha, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária, que um ambiente familiar propício incentivou.

 
O contato com a poesia veio precocemente. O próprio poeta reconhece que: “Versos balbuciei com a voz da infância”.

Perdeu a mãe aos dez anos e desde cedo, mostrou-se um jovem de temperamento exaltado. Aos 14 anos, em 1779, parte para Lisboa onde vai completar estudos na Academia Real da Marinha. Em pouco tempo dedica-se mais à boemia do que à disciplina da Academia.
Aos 16 anos, o temperamento rebelde manifesta-se mais uma vez: foge para alistar-se como soldado; mas não consegue se adaptar à vida do quartel e resolve mudar-se para a Marinha da Guerra, dois anos depois. Em 1786, ainda na Marinha, parte em viagem para as Índias, passando pelo Rio de Janeiro, tendo vivido na Rua das Violas, no sítio da Ilha Seca. Durante algum tempo, alimentou a ideia de morar no Brasil. De sua estada na Colônia resultou na admiração que devotou ao vice-rei Luís de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro.
Viajou por quatro anos por Goa, Macau e Cantão, revelando grande desajustamento com relação ao clima, a vaidade e a cultura local, retratados em alguns sonetos críticos demonstrando sua insatisfação à sua estada. No Oriente, duas presenças não o abandonam: Gertrúria e Camões.
Os anseios de glória e fama evocam a cada instante os versos de “Os Lusíadas”, que Bocage trazia de memória. A honra e a própria sorte levam-no à proximidade com os heróis portugueses, cujos “nomes ressoam além dos astros”.
Regressou a Portugal graças à ajuda de amigos, em 1790. Em Lisboa, frequentou os grupos intelectuais que defendiam as ideias inovadoras da Revolução Francesa contrastando com a estagnação da sociedade portuguesa.
Em seu país natal, encontra o grande amor de sua vida, a Gertrúria, a musa inspiradora de seus poemas, casada com seu irmão, Gil Francisco Du Bocage.

SONETO XXIV

Da pérfida Gertrúria o juramento
Parece-me que estou inda escutando,
E que inda ao som da voz suave e brando
Encolhe as asas, de encantado, o vento.

No vasto, infatigável pensamento
Os mimos da perjura estou notando...
Eis Amor, eis as Graças festejando
Dos ternos votos o feliz momento.

Mas, Ah!...Da minha rápida alegria
Para que acendes mais as vivas cores,
Lisonjeiro pincel da fantasia?

Basta, cega paixão, loucos amores;
Esqueçam-se os prazeres de algum dia,
Tão belos, tão duráveis como as flores.

Aqui, os temas clássicos da fugacidade do tempo, da incerteza da vida e da inconstância do amor misturam-se às antecipações românticas do sentimentalismo desenfreado.

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da Fortuna errante,
Até dos mais desprezíveis desprezado;



Da fagueira Esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.



Mas ah! Que bem maior, se contra a Sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!



Vem, pois, ó Nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!

Esse soneto apresenta claro indício pré-romântico e traduz a dolorosa consciência do fracasso.
Ainda em 1790, ingressa na “Nova Arcádia” ou Academia de Belas-Letras, que, sob a liderança do brasileiro e mulato Pe. Domingos Caldas Barbosa (“Lereno”) e José Agostinho de Macedo (“Elmiro Tagídeo”) tentavam reconstituir a Arcádia Lusitana, extinta por inanição desde 1776.
Bocage adotou o pseudônimo arcádico de “Elmano Sadino” (Elmano - anagrama de Manoel e Sadino derivado do rio Sado, que corta Setúbal, terra natal do Poeta).
As reuniões da Nova Arcádia, realizadas na casa do conde de Pombeiro, às quartas-feiras, eram denominadas “As Quartas-Feiras de Lereno”.
Bocage, inicialmente, as frequentou comportadamente, porém conflitos constantes com os membros da Arcádia o afastam rapidamente da agremiação.

UMA SESSÃO DA ACADEMIA DE BELAS-LETRAS DE LISBOA OU NOVA ARCÁDIA

Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.



Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.



Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.



Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras.

Nesse poema Bocage ao referir-se a rainha Ginga, remete a Ana de Sousa, rainha negra de Angola, que moveu guerra contra Portugal. No verso, Bocage pretende ofender o mulato Caldas Barbosa, brasileiro e “neto” de uma negra.
Em 1791, publicou o seu primeiro volume das “Rimas”, recebido com aplauso por alguns e desprezo por outros, ao qual se seguiram mais dois, respectivamente em 1798 e 1804.


Em 1797, é preso acusado de ofensas críticas à monarquia e à Igreja. Por essa época, o Poeta interessa-se pela Revolução Francesa, como se comprova nos versos a seguir:


Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?



Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!



Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.



Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!

A aspiração do liberalismo, excitada pela Revolução Francesa e pela consolidação da República em 1797, é explicitada claramente por Bocage nesse soneto.
Num primeiro momento, sentindo que é chegada á hora da redenção, o sujeito poético, apostrofando a Liberdade, numa sequência de perguntas de retórica, questiona-a sobre onde se encontra e quem a impede; para em seguida, implorar à Liberdade o seu auxílio, o seu socorro e finalmente, no 2º terceto, o sujeito poético faz uma espécie de profissão de fé em relação ao caráter divino da Liberdade, proclamando-a “Mãe do gênio e prazer”.
No entanto, a causa principal de sua prisão é indicada por um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".


PAVOROSA ILUSÃO DA ETERNIDADE


Pavorosa ilusão da eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema da política opressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestável crença
Que envenenas delicias inocentes,

Tais como aquelas que no céu se fingem.
Fúrias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chama;
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror terrível quadro
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem de um Deus, quando quer, faz um tirano.

Nesse texto percebe-se a ousada crítica ao poder e a visão lúcida da íntima relação que existia entre os dogmas da Igreja e o poder absolutista dos reis. O inferno é concebido como um “freio” que os déspotas e tiranos inventaram para controlar a “boçal credulidade”. Por essa ideias, Bocage foi condenado como herege e blasfemo.
Bocage passou pelos tribunais do Santo Ofício da Inquisição e foi encarcerado no Limoeiro e por outros menos severos, acusado de ser autor de papéis sediciosos contra a segurança do Estado.
Depois de inúmeros pedidos e retratações, em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado".
Na clausura dirigida pelos oratorianos, Bocage parece ter encontra um ambiente de calma e de trabalho intelectual que facilitou a sua conversão.
Cansado, acaba por confessar suas culpas, renegar sua vida de agitador e seus antigos escritos e converte-se à religião. Naquele ano foi finalmente libertado.
Referindo-se aos “distintos talentos” do Poeta, diz o Príncipe Regente que “se espera sirva a Deus Nosso Senhor, a Sua Majestade e ao Estado, e, útil a si, consolação aos verdadeiros amigos e parentes, que o vejam entrar em si verdadeiramente, abandonando todos os vícios e prostituições em que vivia escandalosamente”.
Os anos seguintes, que precederam a sua morte, foram bem dolorosos para o infeliz poeta, agitados de terrores e ansiedades, vendo-se pobre e doente.
Nesses últimos anos, o poeta vive com sua irmã e uma sobrinha, sustentando-as com traduções de livros didáticos. Para sobreviver, inclusive, teve de valer-se de um amigo (José Pedro da Silva) que vendia, nas ruas de Lisboa, suas derradeiras composições.
É nesta fase de sua vida que ocorre a áspera polêmica como o padre José Agostinho de Macedo, o agressivo e impiedoso Pe. Lagosta, contra quem Bocage desfere o famoso poema satírico “A pena de talião”.
O motivo inicial da polêmica travada como José Agostinho de Macedo foi á tradução que o ex-padre havia feito da “Tebaida”, de Tácito, na qual Bocage apontou algumas incorreções, criticando também a opinião do tradutor, que julgava Ovídio superior a Virgílio. Macedo revida, subestimando a tradução bocagiana de “As metamorfoses”, do mesmo Ovídio.
Em 1799, Bocage publicou a segunda edição das “Rimas”, confirmando as excepcionais qualidades do poeta lírico. Contudo, a decadência física, agravada pela miséria material e pelo desequilíbrio sentimental, encaminha o Poeta para o seu fim.
Em 1804, ainda publica o terceiro volume das “Rimas”, já então definitivamente consagrado.
No ano seguinte, pouco antes de sua morte, um amigo publica o folheto “Os improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade” e, em seguida, os “Novos improvisos”, juntando os poemas que inimigos e rivais reconciliados com Bocage, escreveram em louvor do Poeta e esse mesmo amigo, José Pedro da Silva encarregou-se de vender os dois folhetos nas ruas de Lisboa, para obter recursos de que o doente necessitava.
Em 1805, com 40 anos, faleceu, vítima de um aneurisma, na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral.

“Já Bocage não sou...À cova escura!”

O mesmo Bocage que se converte no final de sua vida, pede que se lhe dê o seguinte epitáfio:


EPIFÁFIO DE BOCAGE

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."

II – OBRAS:

• “Rimas”, primeira série (1791), segunda série (1799), terceira série (1804), quarta e quinta séries (1813) e sexta série (1842).
• “Improvisos” (1805).
• “Coleção de novos improvisos” (1805).
• “Poesias de Manuel M.B. du Bocage (1853), obra reunida por Inocêncio Francisco da Silva e composta pelos seis volumes das “Rimas”, acrescidos de inéditos e notas explicativas, além de um estudo biográfico e literário de L.A.Rebelo da Silva.
• “Poesias eróticas, burlescas e satíricas” (1854, Bruxelas).
• “Obras poéticas”, edição em oito volumes, organizada por Teófilo Braga (1875-1876, Porto).
• “Parnaso bocagiano – poesias eróticas, burlescas e satíricas” (1932, Lisboa).
• “Opera omnia – obra completa”, edição dirigida por Hernâni Cidade (1969, Lisboa).

A produção poética de Bocage abrange mais de duas mil páginas, em grande parte coligidas postumamente. É inevitável haver discrepâncias entre as edições, além de algumas dúvidas sobre a autoria de certos poemas.

III – CARACTERÍSTICAS:

“Eu sou tão infeliz, que isso me basta.”

“Aí o cerne da poesia bocagiana: confissão dolorosa de uma vida que, presa às convenções, busca libertar-se projetando o “eu” para fora de si; tal conflito se manifesta, esteticamente, na revisão dos valores básicos da atitude poética ou o autor lança mão da tradição clássica que o precede, aceitando uma concepção absolutista do mundo, ou atribui um papel todo especial ao “eu”. Significa, dessa perspectiva, adotar forma rígida para um conteúdo revolucionário.”

Álvaro Cardoso Gomes, introdução a “Os Amores”, de Bocage.


COMO O POETA SE RETRATA E JULGA A SUA OBRA


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;



Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;



Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,



Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Esse soneto consta na edição de 1804, foi revisado pelo próprio Poeta, atenuando os versos 11 e 14. Essa tendência à inconstância traduz o individualismo romântico, que tornará Bocage cada vez mais incompatível com a disciplina doméstica e social da sociedade clássica.
Na versão original do 11° verso constava: “Inimigo de hipócritas e frades” e no verso 14°: “Num dia em que se achou cagando ao vento”.

A – POETA ÁRCADE OU NEOCLÁSSICO:

É natural que o indivíduo, criado sob a ideias do Iluminismo, do Enciclopedismo e da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, se rebelasse contra essa disciplina, que o reduzia a figura decorativa, a apêndice inútil do mundo familiar. Esse inconformismo iluminista atirava os jovens de sensibilidade mais aguda às atitudes de revolta, ao desregramento ou ao conflito interior e com Bocage não foi diferente.
Bocage era um poeta, não um homem de ação, e a repulsa ao despotismo e o culto da liberdade convergiram com seus impulsos pessoais. Era poeta emotivo, avesso à disciplina e à coerência lógica. Daí a inclinação para a vida desregrada, para á boêmia e para a aventura, às vezes interrompidas por fortes abalos afetivos e existenciais.
Bocage, nessa época, era conhecido pela eloquência de seus improvisos. Vivendo ás custas das casas nobres, à maneira dos bobos da corte da Idade Média, ganhou popularidade e obteve alguns privilégios oficiais para si para seus amigos. Para tanto, não se recusará a seguir o modismo literário do século em que viveu.
De toda a poesia produzida por Bocage, pode-se facilmente identificar, na sua fase inicial, uma acomodação aos clichês árcades: bucolismo, pastoralismo, carpe diem, fugere urbem, aurea mediocritas dentre outros, presa à imitação servil dos modelos e motivos clássicos, revisitados pelos rígidos preceitos de Boileau e Metastásio.
Fiel às lições dos mestres gregos e latinos (Píndaro, Horácio, Ovídio, Virgílio), já traduzidos e adaptados à sensibilidade da Europa setecentista, os poemas tipicamente árcades ou neoclássicos de Bocage abusam das alegorias mitológicas: os ventos não são ventos, são Zéfiros, Éolos ou Favônios; a noite não é noite, mas a “deusa que esmalta o céu de estrelas”, a “morada de Erebo”; o dia é o “domínio de Febo”; o sonho não é sonho, mas “dom de Morfeu”. A realidade traduzida em tais termos soa estranha e artificial. Era uma poesia acadêmica, feita pelos e para os iniciados nos ambientes neoclássicos, pois só eles próprios e os nobres que o financiavam haviam estudado Latim, Grego, História Antiga, Mitologia, Retórica Clássica etc. Vocábulos raros e requintados visam revestir a poesia arcádica de um brilho clássico e de uma erudição latinizante.

TEXTO I


Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bom que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?



Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes.
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.



Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares, sussurrando, gira:



Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

O soneto está revestido de linguagem clássica: “flautas...cadentes” significa “harmoniosas”, “musicalmente concertadas”; “inocentes” quer dizer “inofensivas”; “vagas borboletas” tem o sentido de borboletas “errantes” ou “vagueantes”; “ósculos ardentes” equivale a “beijos sensuais”.
No segundo terceto, os verbos no pretérito mais que perfeito (“vira” e “causara”) correspondem, no português contemporâneo, ao imperfeito do subjuntivo (“se eu não te visse”), e ao futuro do pretérito ou condicional (“mais tristeza...me causaria”).
A tendência classicizante, já revelada pelo vocabulário e pela construção gramatical, é reforçada pelas alusões aos Zéfiros (ventos), e aos Amores (personificação pagã do amor e da sensualidade) e ao nome poético de Marília (figura convencional da pastora, também utilizada pelo poeta Tomás Antônio Gonzaga).
Observe que, dentro do espírito clássico, a adjetivação tende mais ao universal e ao genérico, do que ao individual e ao característico: as “inocentes”, as “vagas” borboletas; “alegre” campo; manhã “clara”; de “mil cores”. O mesmo ocorre com as estas alusões: “de planta em planta”, “naquele arbusto”, “ora nas folhas, ora nos ares”, ou nas enunciações desprovidas de determinação individualizante: “as flores”, “o rouxinol”, “a abelhinha”.
O soneto é constituído pela representação de um ambiente pastoril e campestre, de uma paisagem composta de elementos reais da Natureza, que as próprias personificações não diminuem, antes fazem avultar, mas que são habilmente considerados coexistentes, e selecionados e dispostos em quadro. Este passa do mais particular (plantas, Tejo, Zéfiros etc.) ao mais geral (campo, manhã), resume-se conglobalmente na palavra tudo e vai contrapor-se à ideia e sentimento final do soneto, ao serviço dos quais todo ele fora composto: importância exclusiva, para a visão e valorização da Natureza, da presença da mulher amada.
Nesse soneto encontram-se tendências madrigalescas e de sugestão petrarquista, juntamente com a sensorialidade e o paganismo erótico levemente sugerido nos versos quinto e sexto. Mas uma nota de sentimentalidade romântica se insinua, quer na breve anotação “o rouxinol suspira” e na visão do último verso.
Atente-se, por outro lado, em que a atitude descritiva do Poeta, intencionalmente valorizante do quadro campestre, bucólico e mitológico, e por isso mesmo idealizado e um tanto convencional, é servida por valores formais claramente sensíveis.
Observe-se o predomínio de verbos intransitivos, mais susceptíveis de exprimir a duração e a estabilidade das ações ou dos estados (soar, sorrir-se, brincar, suspirar, parar, girar), em oposição aos verbos transitivos dos últimos versos, que marcam a mutabilidade e a incidência das sensações e emoções. Note-se o uso da frase nominal no sétimo e oitavos versos, concisamente narrativa, e das do verso duodécimo, exclamativamente descritivas.
Observe-se ainda, que o soneto obedece às fórmulas tradicionais de composição clássica e que revela tanta segurança como variedade de feitura. Não só as expressões exclamativas são entrecortadas de uma interrogação e de frases descritivas, não só os imperativos se repetem a patentear interesse e a revelar colóquio afetivo (“Olha”, Marília...”Olha” o Tejo...”Olha”, não sentes), como também uma quase completa simetria de construção se registra nos versos 10° e 11°, a comunicar-nos duas fases paralelas e opostas da atividade das abelhas (Ora nas folhas...Ora nos ares). As próprias exclamações simultaneamente paralelas e dispostas em quiasmo do verso 12° (Que alegre campo! Que manhã tão clara!) ajudam a intensificar e transmitir melhor a emoção festiva até aí sugerida, para mais vincada e adversativamente se lhe opor a hipótese exclamativa e contrastante dos dois últimos versos.
Registre-se ainda a hábil combinação do verso heróico com o verso sáfico, utilizado este em pontos de ritmo por isso mesmo mais entrecortado, o que neste caso auxilia a expressividade do pensamento (v.2°), da narração (vv. 9° a 11°) ou do descritivo (v.12°).
Conclusão: trata-se de um soneto pictural, descritivo, de Natureza festiva e deleitosa, composta em quadro bucólico, luminoso e gracioso, de cores e contornos idealizados sobre o real, onde aflora a sensualidade amorosa e se patenteia uma sensorialidade externa requintada, cheia de elegância e de bom gosto de imaginação plástica; fecho madrigalesco e petrarquista, acrescido de sugestão direta camoniana; frases exclamativas que revelam gosto de viver e satisfação amorosa, levemente encrespada por simples hipótese de ausência. É um soneto típico do século XVIII, na sua vertente árcade, composto sobre a moldura convencional do locus amoenus (lugares aprazíveis), com aproximações do estilo rococó (amenidade, frivolidade, afetação, sensualidade e ênfase no gracioso) e uma sugestiva aproximação do romantismo temperamental da fase madura de Bocage.


O ledo passarinho, que gorjeia
D'alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:



O Sol, que o céu diáfano passeia,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da Aurora alegre e pura,
A rosa, que entre os Zéfiros ondeia;



A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glorias que consigo,
A deusa das paixões, e de Cítera:



Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
“Nada se pode comparar contigo.”

Citera: ilha do Mediterrâneo. Segundo a mitologia grega, Vênus lá teria nascido.

Nos versos acima, o eu lírico exprimi-se dentro do convencionalismo árcade: o locus amoenus bucólico; o mundo visto por meio de alegorias que personalizam as forças físicas e espirituais da Natureza, como entre os antigos poetas gregos e latinos, inclusive recorrendo à mitologia (Aurora, Zéfiro, Primavera, Citera) e as maiúsculas alegorizantes; o tema clássico como sustentação do poema (a comparação da mulher com a natureza e sua vitória). Poesia rigidamente organizada pela razão que equilibra os elementos da forma e os sentimentos.

TEXTO II

Ó tranças, de que Amor prisão me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois?... Sois de Vênus? - É mentira;
Sois de Marília, sois de meus amores.

Mais um poema que manifesta o convencionalismo, a praxe poética. A começar pela identidade das personagens, o texto afasta-se do real e do individual: tanto o Poeta como seus interlocutores, os amigos e amadas aos quais se dirigem os versos são disfarçados por pseudônimos que sugerem um “ar” pastoril e bucólico. Assim, Bocage é Elmano; suas amadas são Marílias, Nises, Gertrúrias e Eulinas; seus amigos são Sadinos, Tajanos etc.

TEXTO III


A loira Fílis, na estação das flores,
Comigo passeou por este prado
Mil vezes; por sinal, trazia ao lado
As Graças, os Prazeres e os Amores.



Quantos mimos então, quantos favores,
Que inocente afeição, que puro agrado
Me não viram gozar (oh doce estado!)
Mordendo-se de inveja, os mais pastores!



Porém, segundo o feminil costume,
Já Fílis se esqueceu do amor mais terno,
E com Jônio se ri de meu queixume.



Ah! Se nos corações fosses eterno,
Tormento abrasador, negro Ciúme,
Serias tão cruel como os do Inferno!

Observe neste soneto que a pastoralização do cenário ultrapassa a simples utilização de pseudônimos pastoris (“Fílis” e “Jônio”). Reforça-se na menção genérica a “pastores” (v.8°) e na ambiência bucólica e pastoril (“estação das flores”, “prado”).
As “Graças” são entidades mitológicas que simbolizam a Graça, a Beleza e a Alegria. No último terceto, expressões como “Tormento abrasador”, “negro ciúme” e a comparação do verso final traduzem uma intensidade e um vocabulário já denunciadores de uma índole romântica.

TEXTO VI

Se é doce no recente, ameno estio,
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;

Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio;

Se é doce mares, céus, ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados;

Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amores, melhor que a vida.

Observe que, sob a armadura neoclássica e, às vezes, imerso no gosto barroco-gongórico, pelo arranjo meio artificial das anáforas, das construções simétricas e das antíteses, esses “entraves” não impedem a intensidade comunicativa da dicção do Poeta, nem impedem que rebente o fervor emocional dum temperamento da mais explosiva veemência romântica.
As duas primeiras estrofes apresentam vários elementos que, em conjunto, delineiam uma paisagem tipicamente arcádica: é verão, o campo é florido, o rio é calmo, os pássaros voam e cantam. Também é Arcádia a sugestão pastoril da figura feminina, engrinaldada de flores. O racionalismo neoclássico fica sugerido pela construção hipotética “Se é...”, que inicia as três primeiras estrofes. Muito embora se abra com a mesma expressão racional de argumentação (“Se é doce, mares, céus...”), e continue a descrever uma paisagem tranquila e harmoniosa, o primeiro terceto começa por sugerir um paralelismo entre os sentimentos e a natureza (“desperta os corações, floreia os prados”), o que já pode ser considerada uma característica pré-romântica.
Apesar de revestido da delicadeza tradicionalmente aliada às cenas de amores pastoris, o vocabulário com que Bocage, na última estrofe, alude ao amor, recobre o amor/sentimento de traços físicos e concretos, sugerindo uma relação de intimidade entre os amantes. Reforça isto a reiteração, no verso final, da palavra morte que, neste contexto, sugere a completa e mútua satisfação amorosa.

B. O POETA PRÉ-ROMÂNTICO:

“O que o distingue melhor é a matéria psicológica que traz pela primeira vez à poesia portuguesa: o sentimento agudo da personalidade, o horror do aniquilamento na morte. Tal egotismo percebe-se ainda na maneira abstrata e retórica com que, em nome da Razão, se revolta contra a humilhação da dependência e contra o despotismo; no gosto do fúnebre e do noturno, e nos clamores não menos retóricos de ciúme, de blasfêmia ou contrição.”

Antônio José Saraiva e Óscar Lopes, “História da literatura portuguesa”

A poesia bucólica e encomiástica, destinada à louvação dos poderosos, são os dois aspectos menos interessantes da poética de Bocage. A celebração de natalícios e casamentos, a louvação fúnebre de algum morto ilustre, o elogio a algum poderoso promovido a posto importante e a bajulação dos poderosos são modos de produção literária típicos do século XVIII, quando os poetas, congregados em academias, dependiam do financiamento dos ricos e influentes, aos quais, em troca, cumpriam dedicar versos elogiosos.
Um dos eixos fundamentais da evolução poética de Bocage é o da oposição ou justaposição da atitude racionalizadora, contida e clássica, contraposta à índole do Poeta, individualista, egocêntrica, impulsiva. Essa tensão, da qual Bocage tinha nítida consciência, ofereceu-lhe inúmeras ocasiões para, através da metapoesia, refletir sobre as fronteiras desse individualismo.
É comum dividir a obra de Bocage em duas fases: a primeira dentro do convencionalismo racionalista árcade, e a segunda, sentimental e pré-romântica, como se essa trajetória tivesse sido uniforme, constante e crescente.
Esse artificialismo didático traz embutido um conhecido juízo de valor, que recrimina o Bocage maldito, satírico, anticlerical, para supervalorizar os versos de arrependimento, as apóstrofes a Deus e a poesia noturnal. Contudo, é forçoso admitir que Bocage é suficientemente grande para ser, ao mesmo tempo e com a mesma propriedade, o poeta maldito, o pastor bucólico e o romântico noturno.
Muito do Bocage romântico aflora no Bocage árcade, e muito do árcade sobrevive no romântico. Por isso, optou-se por um meio-termo: Bocage é pré-romântico. Se, de um lado, traz para a sua poesia o mundo pessoal e subjetivo da paixão amorosa, do sofrimento e da morte, por outro, sobrevive á forma clássica do soneto, com indisfarçável ressonância de Camões. Algumas vezes a rigidez da métrica e da rima e as alusões mitológicas se chocam com as paixões e ânsias.
Entre as características mais tipicamente românticas que podemos identificar nos temas de seus poemas, estão ás seguintes:
O amor em Bocage aparece como um sentimento violento e não suave, como no Arcadismo. Atravessado pela desconfiança, pelo ciúme e pela traição, o amor projeta o Poeta numa solidão insatisfeita e irrequieta, atormentada e sofrida.
O locus amoenus dos árcades é substituído pelo locus horrendus dos românticos. A natureza em fúria, tumultuada, retratando os estados tormentosos da alma do poeta, substitui a natureza convencional e ornamental dos neoclássicos.
O culto da noite frequenta a obra de Bocage. Ela é lugar de refúgio da imaginação poética e é também à hora do dia em que o homem diurno, guiado pela luz da razão, se deixa substituir pelo homem noturno, guiado pelos impulsos profundos e obscuros do desejo irracional e inconsciente.
O tédio da vida, aquilo que os ingleses chamariam de “spleen” e os franceses de “ennui”, leva o poeta à vontade de morrer, ao desejo de dissolução ou de fuga da realidade por meio do sonho, da fantasia, da embriaguez, dos excessos da vida dos sentidos e, no limite, da morte.
A poesia de Bocage realiza-se basicamente na primeira pessoa do discurso. É egoísta, sentimental e confessional.
A ironia, atitude tão fundamental da alma romântica, é um instrumento fundamental na poesia de Bocage.
A crítica às instituições sociais seria, ao lado do escapismo, e num sentido inverso ao dessa atitude, uma das respostas da atitude romântica ao mundo insatisfatório.

TEXTO I

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;
Que elas buscam piedade, e não louvores;

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores;

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Este soneto pode se analisado como uma profissão de fé, em que Bocage expõe, em posição metalinguística, suas ideias e sentimentos em relação à sua poesia. Assume uma posição de humildade diante de seus leitores. Desculpa-se pelos versos de “sentimento” e alega que os versos que aparentam alegria são fruto do Fingimento e da Dependência. Fica implícita a confissão da índole romântica do Poeta na alusão a que a obediência às convenções é uma inversão violenta da sua natural inclinação para a expressão sentimental de seus suspiros, lágrimas e amores.

TEXTO II

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mundo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, covardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.

O Poeta expressa uma autocrítica, aparentemente arrependido de sua produção satírica e obscena. A crítica moralista superestima esses versos, para negar o Poeta Maldito e realçar o Poeta Cristão, temente ao rei e a Deus.
Esses versos patenteiam o reconhecimento de que o impulso pessoal, mergulhado no sofrimento romântico, é incoercível, ainda que o Poeta reconheça nisso uma “falha”, que faz seus versos “desentoados”, “sem arte”, “sem beleza”.
Há certa autocomiseração tipicamente romântica: “um peito de gemer cansado e rouco”, desculpa articulada para confessar e justificar a subjetividade romântica, filha da “Desventura”, da “Tristeza”. Observe que o vocabulário e a ambiência são nitidamente românticos: “desesperados”, “sepultura”, “desgraçados” etc., e denotam uma impregnação tipicamente sentimental.

TEXTO III

Olhos suaves, que em suaves dias
Vi nos meus tantas vezes empregados;
Vista, que sobre esta alma despedias
Deleitosos farpões, no céu forjados;

Santuários de Amor, luzes sombrias,
Olhos, olhos da cor de meus cuidados,
Que podeis inflamar as pedras frias,
Animar cadáveres mirrados;

Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,
Cuja verde arrogância as nuvens toca,
Cuja horrísona voz perturba os ares;

Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;
Troquei-vos pelos ais, pelos pesares:
Oh Câmbio triste! Oh deplorável troca!

Uma análise meticulosa do soneto mostra que o tema amoroso é revestido de uma intensidade afetiva que se revela, na linguagem, pela expressão declamatória, evidenciada nas apóstrofes, hipérboles, repetições, e pelo fecho exclamativo. Observe alguns meios ou processos expressivos: a interpelação apostrófica dos olhos da mulher amada; a hipérbole sobre o poder amoroso dos olhos; a repetição anafórica de construções; a exclamação final dupla, de sentido paralelo; os adjetivos, substantivos e verbos de natureza psicológica e afetiva.


TEXTO IV

Ó retrato da Morte! Ó noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

A partir dos vocativos deste primeiro verso, o poema instaura um clima tétrico, lúgubre, noturno, que caracteriza cabalmente o locus horrendus romântico, em tudo oposto ao locus amoenus neoclássico. Essa ambiência fúnebre emoldura os sentimentos mórbidos do Poeta. A seleção vocabular é genuinamente romântica e a natureza noturnal: Morte, noite amiga, escuridão, suspiro, pranto, desgostos, cruel, delirar, escuridade, fantasmas vagos, mochos piadores, medonha, coração, horrores.

TEXTO V

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!

Nesses versos, o Poeta apresenta uma atitude introspectiva e reconhece, nos dois quartetos, uma vida de ultraje a Deus no passado. Os tercetos dão lugar à confissão do arrependimento, com o apelo à mocidade, que corria atrás da sua poesia, para que rasgue seus versos e acredite na eternidade. O Poeta compara-se a Aretino, poeta italiano do século XVI, célebre por suas obras libertinas e obscenas.

C. O POETA MALDITO:

Dessa forma, há um Bocage arcádico e pré-romântico e outro, popular a quem a fama de boêmio e a tradição da poesia erótica só fazem comprometer sua obra. A proibição pela censura portuguesa deste Bocage libertino e erótico é paralela à tradição crítica, que considera sua obra satírica inferior à lírica. Essa mesma discriminação se manifesta ainda na biografia oficial do Poeta, que o apresenta como um pecador arrependido, contrito e confesso no final da vida, reconciliado com Deus e com os homens, submisso à Igreja e à Monarquia.
Dessa visão biográfica e crítica “oficial” e moralista acaba por emergir um poeta desbotado e enfraquecido, só redimido pelas antecipações românticas que se lêem em sua obra, pelos versos de autocrítica e arrependimento.
No entanto, a poesia erótica de Bocage é extremamente forte, nos dois sentidos que esse adjetivo comporta: por sua linguagem grosseira, vulgar e aludir a situações escabrosas e atos obscenos; mas forte também no sentido poético, pela extraordinária carga de humanidade, que se comunica imediatamente com os leitores, além de não perder as qualidades superiores do ritmo, da rima e da métrica perfeitas, dentro dos parâmetros clássicos.
É esse fascínio que ela exerce sobre o público que a faz “perigosa” aos olhos do moralismo anacrônico e a mantém, censurada e clandestina até hoje.
Os seus alvos preferidos eram os poderosos, mas também não poupou seus colegas de Academia. Mas sua produção satírica foi marcada principalmente, pela temática sexual.

TEXTO I - A MINHA AMADA

Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:

Na sua boca Vênus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:

Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"

Vocabulário:

Rubicundo – vermelho, corado.
Lascívia – luxúria, libidinagem, sensualidade. Observe que o emprego da inicial maiúscula (maiúscula alegorizante) confere à palavra uma conotação mais ampla, universalizante, transformando-a, alegoricamente, numa “divindade”, como Vênus e Cupido.
Pagode – templo oriental.
Cono – vulva.

TEXTO II

Fiado no fervor da mocidade,
Que me acenava com tesões chibantes,
Consumia da vida os meus instantes
Fodendo como um bode, ou como um frade:

Quantas pediram, mas em vão, piedade
Encavadas por mim balbuciantes!
Fincado a gordos sessos alvejantes
Que hemorróidas não fiz nesta cidade!

À força de brigar fiquei mamado:
Vista ao caralho meu, que de gaiteiro
Está sobre os colhões apatetado:

Oh Númen tutelar do mijadeiro!
Levar-te-ei, se tornar ao teso estado,
Por oferenda espetado um parrameiro.

Vocabulário:

Chibantes – valentes, brigões, altivos
Sessos – traseiros, nádegas
Mamado – desapontado, desiludido

O soneto é exemplar da poesia fescenina, e alude com palavras chulas à impotência fictícia ou real do Poeta.

TEXTO III

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carualho ser falta-lhe um U;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.


TEXTO IV


Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta),
Entre mil porras expirou vaidosa.

Todas no mundo dão a sua greta;
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa,
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Neste soneto Nise, a pastora bucólica da lírica convencional, é retratada como uma prostituta, consolada pelo Poeta com os exemplos de rainhas e cortesãs famosas.
O poeta cita Dido, víuva de Siquem, que se refugiou em Cartago, onde se apaixona por Enéias. O amor entre os dois é tratado pelo poeta latino Virgílio, no poema épico “Eneida”.
Ao referir-se a Cleóprata, rainha do Egito, remete a sedução que a mesma utilizou-se para consolidar às vantagens políticas, seduzindo, sucessivamente, César, Marco Antônio e Otávio, lóderes do Império Romano. Além de aludir a Catarina, a Grande, imperatriz da Rússia.
Um dos mais conhecidos poemas de Bocage, no gênero erótico-obsceno, é o “A Manteigui, poema em um só canto”, que tem por alvo a amante do governador português de Goa, a Manteigui. Esse poema, ao qual se atibui a expulsão de Bocage da Índia, é composto em dezenove oitavas, antecedidas de um “Argumento”. Mostra que, mesmo na vertente obscena, Bocage tem fôlego poético para composição longa e meticulosa, lavrada na oitava rima camoniana.

TEXTO V - A MANTEIGUI, POEMA EM UM SÓ CANTO

ARGUMENTO:

Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinência;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornígero esposo a paciência;
Como, à força de tanta caralhada,
Perdendo o negro a rígida potência,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica.

I
Canto a Beleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil como profano;
Corpo que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martelos de Vulcano;
Corpo vil, que trabalha mais num dia
Do que Martinho trabalhou num ano,
E que atura as chumbadas e pelouros
De cafres, brancos, maratás e mouros.

II
Vênus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva também que todas elas,
Tu, que vinhas de Tróia às soledades
Dar a Anquises as mamas e as canelas,
Que gramaste do pai das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez a crica a sede,
Foste pilhada na vulcânica rede:

III
Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jaques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lira,
Para livrar-me do mortal quebranto.
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa,
Sobre qual é mais bela, ou qual mais puta.

IV
No cambaico Damão, que, escangalhado,
Mamenta a decadência portuguesa,
Este novo Ganós foi, procriado,
Peste d'Ásia em luxúria e gentileza.
Que ermitão de cilícios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra tesa?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?

V
Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tesões acendem:
As mamas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véus, os véus ofendem
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ela ardendo,
As pissas pelas mãos lhes vão metendo.

VI
Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aqueles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metais brilhantes.
As níveas plantas, quando move os passos,
Vão pisando os tesões dos circunstantes,
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.

VII
Mas para castigar-lhes a vil cobiça,
O vingativo Amor, como agravado,
Fogo infernal do coração lhe atiça
Por sórdido cafre asselvajado:
Tendo-lhe visto a tórrida linguiça
Mais extensa que os canos dum telhado,
Louca de comichões, a indigna dama
Salta nele, convida-o para a cama.

VIII
Eis o bruto se coça de contente:
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
De erguer-lhe as fraldas, e provar-lhe o bolo
Estira-a sobre o leito, e, de repente,
Quer do pano sacar o atroz mampolo,
Porém não necessita arrear cabos:
Lá vai o langotim com mil diabos.

IX
Levanta a tromba o ríspido elefante,
A tromba, costumada a tais batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas
Ela enganchando as pernas delirante,
"Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não há porra melhor em todo o mundo!
Mete mais, mete mais, que não tem fundo.

X
 Ah! Se eu soubera (continua o couro
Em torrentes de sémen já nadando)
Se eu soubera que havia este tesouro,
Há que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavara o cu, lavara o passarinho,
Mas só para foder co'o meu negrinho.

XI
 Mete mais, mete mais... Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não viverás um perpétuo engano,
Pois vir-me-ia também quando te vinhas.
Mete mais, meu negrinho; anda, magano.
Chupa-me a língua, mexe nas maminhas...
Morro de amor, desfaço-me em langonha...
Anda, não tenhas susto, nem vergonha...

XII
"Há quem fuja da carne, há quem não morra
por tão belo e dulcíssimo trabalho?
Há quem tenha outra ideia, há quem discorra
Em cousa que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converta em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho;
Porra e mais porra, no Verão e no Inverno,
Porra até nas profundas do Inferno!...

XIII
"Mete mais, mete mais" (ia dizendo
A marafona ao bruto, que suava,
E convulso, fazia estrondo horrendo
Pelo rústico som com que fungava):
"Mete mais, mete mais, que eu estou morrendo!..."
"Mim não tem mais!" O negro lhe tornava;
E triste exclama a bêbada fodida:
"Não há gosto perfeito nesta vida!"

XIV
Neste comenos, o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela câmara atrevido,
Como se entrasse num lugar profano;
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sai logo, dizendo: "Arre, magano!
Na minha cama! Estou como uma brasa!
Mas, bagatela! tudo fica em casa."

XV
A foda começada ao meio-dia,
Teve limite pelas seis da tarde;
Veio saltando a ninfa da alegria,
E da sórdida ação fazendo alarde.
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: "Estás corada! O Céu te guarde;
Bem boa alpiste ao pássaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?"

XVI
"Cale-se, tolo" (a puta descarada
Grita num tom raivoso e lhe resinga).
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os ombros encolhe, e não respinga;
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que ele, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama e foge de repente.

XVII
Deserta por temor de esfalfamento,
Deserta por temer que o couro o mate;
Ela então de suspiros enche o vento,
E faz alvorotar todo o Surrate.
Vão procurá-lo de cipais um cento;
Trouxeram-lhe a cavalo o tal saguate:
Ela o vai receber, e grão Nababo
Pasmou disto, e quis ver este diabo.

XVIII
Pouco tempo aturou de novo em casa
O cão, querendo logo a pele forra,
Pois a puta co'a crica toda em brasa,
Nem queria comer, só qu'ria porra.
Voou-lhe, qual falcão batendo a asa,
E o courão, sem achar quem a socorra,
Em lágrimas banhadas, acesa em fúria,
Suspira de saudade e de luxúria.

XIX
Courões das quatro partes do Universo,
De gálico voraz envenenados!
Se deste canto meu, deste acre verso
Ouvirdes por ventura os duros brados,
Em brando marcial, coro perverso,
Vinde ver um cação dos mais pescados,
Vinde cingir-lhe os louros, e, devotos,
Beijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.

TEXTO VI - SONETO DO MEMBRO MONSTRUOSO

Esse disforme, e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para trás:

A espada do membrudo Ferrabrás
De certo não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodais recreações
Não te hão de a rija máquina sofrer
Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vênus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.

TEXTO VII - SONETO (DES)PEJADO

Num capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe foi (oh céus) metendo
O meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia;
E eu solapado os beijos remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:

Entra a vir-se a menina... Ah! Que vergonha!
"Que tens?" — lhe diz a mãe sobressaltada:
Não pode ela encobrir na mão langonha:

Sufocada ficou, a mãe corada:
Finda a partida, e mais do que medonha
A noite começou da bofetada.

IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A obra de Bocage ocupa mais de duas mil páginas, e sem a inclusão dos poemas marginais. Tendo vivido apenas 40 anos, pode-se, assim, dizer que o rigor, a contenção, a mão temperada não faziam parte de suas características. Criou em quase todas as modalidades poéticas possíveis: o soneto, a ode, a canção, a elegia, o epicédio, o idílio, a cantata, a epístola, a sátira, a ode, a quadra, o apólogo, a adivinhação, sem falar nas traduções e nos poemas, vamos dizer, obscenos ou pornográficos.

Segundo Bilac, Bocage era um grande metrificador e isto pode ser facilmente notado, principalmente no decassílabo que era a sua chave-mestra. Sabia musicar através das sílabas, mas, em especial, era um forjador de imagens insólitas. Não era um poeta conceitual, voltado para grandes pensamentos, porém, por ironia, é na logopéia da sátira onde melhor se encaixa.
Ridicularizou inúmeras pessoas, usando seu verbo afiado e, então, um senso de medida que não está presente noutros gêneros.
Bocage foi uma espécie de pré-romântico português, com a sua “Sturm und Drang” muito peculiar: dissoluto e revolucionário, lírico e erótico, lamentoso e satírico, irreverente e bajulador.
Concluindo, apesar das contradições geradas pela quantidade, a obra de Bocage traduz um marco na literatura de Portugal. E poucos poetas foram tão “personagens” como ele – na vida e na arte. A primeira gerava a segunda que lhe devolvia renovada seiva através de aplausos, escândalos, polêmicas, prisão e inquérito.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, MACHADO DE ASSIS: ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA

Volume dedicado pelo próprio autor à Fundação Biblioteca Nacional


De acordo com Lúcia Miguel Pereira:

"Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo, o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana, as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção do predomínio do amor sobre todas as outras paixões; afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro sem recorrer à natureza, desdenhou-se a cor local, colocou-se o autor pela primeira vez dentro das personagens. [...] A independência literária, que tanto se buscara, só com este livro foi selada. Independência que não significa, nem poderia significar, auto-suficiência, e sim o estado de maturidade intelectual e social que permite a liberdade de concepção e expressão. Criando personagens e ambientes brasileiros, bem brasileiros. Machado não se julgou obrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque a consciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia de elementos decorativos. [...] e por isso pode entre nós ser universal sem deixar de ser brasileiro."

I – INTRODUÇÃO:

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um romance escrito a princípio “aos pedaços”, como escreve o próprio Machado de Assis, desenvolvido em folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, para, no ano seguinte, ser publicado como livro, pela então Tipografia Nacional.
De acordo com o próprio Machado, à época da 4ª edição do livro, o volume publicado não recebeu grandes modificações ou retificações. Os fragmentos publicados na Revista Brasileira foram corrigidos em vários lugares pelo autor. Quando teve que o rever para a terceira edição, "emendei alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composto, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público", escreveu ele. As modificações mais significativas que ocorreram da passagem de folhetim para livro publicado tenham sido somente a introdução de um preâmbulo, assinado por Brás Cubas e denominado "Ao Leitor", e substituição de uma epígrafe retirada de uma comédia de Shakespeare pela dedicatória ao “primeiro verme que roeu as frias carnes do meu cadáver”. Também acredita-se que o principal trabalho de revisão de Machado de Assis foi focar-se no início e no final do livro, as duas partes onde notam-se "recursos criativos destinados a abalar várias das convenções vigentes na prosa de ficção da época."
O primeiro país estrangeiro a publicá-lo foi a França, em 1911, traduzido por Adrien Delpec, por conta do contrato de Machado com o editor Baptiste Louis Garnier, dono da Livraria Garnier, que publicava seus livros tanto no Rio de Janeiro quanto em Paris.
A obra já teve três versões cinematográficas. A primeira, rodada em modo completamente experimental, dirigida por Fernando Cony Campos em 1967, chamava-se “Viagem ao Fim do Mundo”. A segunda, em 1985, já apresenta um caráter estético mais ousado e foi filmada por Julio Bressane, com Luiz Fernando Guimarães no papel de Brás Cubas. E em 2001, surgiu uma nova produção, embora tivesse sido filmada nos anos 90: essa terceira versão, “Memórias Póstumas”, foi mais fiel à obra, tendo sido dirigida por André Klotzel, com Reginaldo Faria atuando como Brás Cubas após os 60 anos até ser defunto e Petrônio Gontijo sendo Brás Cubas na sua juventude.
O livro também recebeu uma versão em paródia, “Memórias Desmortas de Brás Cubas”, de Pedro Vieira, no qual o emplastro transforma Brás Cubas em um zumbi.
Em agosto de 2010, para integrar a série Grandes Clássicos em Graphic Novel da Editora Desiderata, do grupo Ediouro, “Memórias Póstumas” foi adaptada pelo desenhista João Batista Melado e o roteirista Wellington Srbek para o formato de HQ, cujo prefácio foi assinado por Moacyr Scliar.

II – ESTILO MACHADIANO:

“A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas."

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira,1972.

O livro marca um tom cáustico e novo estilo na obra de Machado de Assis, bem como audácia e inovação temática no cenário literário nacional, que o fez receber, à época, resenhas estranhadas. Confessando adotar a "forma livre" de Laurence Sterne em seu “Tristram Shandy” (1759-67), ou de Xavier de Maistre, o autor, com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, rompe com a narração linear e objetivista de autores proeminentes da época como Flaubert e Zola para retratar o Rio de Janeiro e sua época em geral com pessimismo, humor reflexivo, ironia e indiferença, inaugurando o que a história literária passou a consignar como fase realista da ficção machadiana, e dando início ao período realista da Literatura Brasileira.
O estilo de Machado de Assis assume uma originalidade despreocupada com as modas literárias dominantes de seu tempo. Mesmo suas obras iniciais que eram pertencentes ao Romantismo (ou ao convencionalismo), possuem uma ainda tímida análise psicológica das personagens e do homem diante da sociedade, que ele virá mais amplamente desenvolver em suas obras do Realismo. Os acadêmicos notam cinco fundamentais enquadramentos em seus textos:

• "elementos clássicos" (equilíbrio, concisão, contenção lírica e expressional);
• "resíduos românticos" (narrativas convencionais ao enredo: paixões e amores de Brás Cubas, ainda que o sonho de relações e casamentos perfeitos e a tensão bem x mal, herói x vilão não exista e as personagens ajam calculadamente por interesse na obtenção de "status", na ascensão social através do casamento);
• "aproximações realistas" (atitude crítica, objetividade, temas contemporâneos);
• "procedimentos impressionistas" (ruptura com a narrativa linear e recriação do passado através da memória);
• "antecipações modernas" (a estrutura fragmentária não linear; o gosto pelo elíptico e a postura metalinguística);
• “o realismo mágico ou narrativa fantástica” (a fantasia encontrada em duas situações: Brás Cubas, mesmo morto e enterrado, ainda assim escreve sua autobiografia e, no Capítulo VII, tem um delírio em que viaja montado num hipopótamo e encontra-se com Pandora, que é interpretado como uma forma de mostrar que o ser humano nada mais é do que um verme diante da Natureza).
• Ao contrário dos realistas, que eram muito dependentes de um certo esquematismo determinista Machado não procura causas muito explícitas ou claras para a explicação das personagens e situações.
• A frase machadiana é simples, sem enfeites. Os períodos em geral são curtos, as palavras muito bem escolhidas e não há vocabulário difícil, embora hoje certas palavras caíram em desuso. Mas com esses recursos limitados Machado consegue um estilo de extraordinária expressividade, com um fraseado de agilidade incomparável. A linguagem machadiana faz referências constantes aos estilos de outros grandes autores do Ocidente. Na maioria dos casos, essas referências são implícitas, só podem ser percebidas por leitores familiarizados com as grandes obras da literatura. Esse é um dos motivos de se poder dizer que o estilo de Machado é um estilo "culto" (pois ele faz uso da cultura e sua compreensão aprofundada exige cultura da parte do leitor).
• A descrição dos objetos se limita ao que neles é funcional, ou seja, àquilo que tenha que ver com a história que está sendo contada. O espaço é singelo, reduzido, e as coisas descritas parecem participar intimamente do espírito da narrativa.
• Uma das maiores características da prosa de Machado de Assis é a forma contraditória de apreensão do mundo. Machado em geral apanha o fato em suas versões antagônicas, e isso lhe dá um caráter dilemático. É também uma forma superior e mais completa de ver as coisas. Machado tem os olhos voltados para as contradições do mundo.
• O estilo machadiano focaliza as personagens de fora para dentro, vai descascando as pessoas, aparência atrás de aparência. Por isso, Machado é considerado grande "analista da alma humana". Sua atenção desvia-se comumente do coletivo para ir à mente e à alma do ser humano — fator denominado "microrrealismo".
• Sua mensagem artística se dá por meio de uma interrupção na narrativa para dialogar com o escritor sobre a própria escritura do romance, ou sobre o caráter de determinado personagem ou sobre qualquer outro tema universal, numa organização metalinguística que constituía seu principal interesse como autor.
• Machado de Assis pratica a interpolação de episódios, recordações, ou reflexões que se afastam da linha central da narrativa. Essas "intromissões" de elementos que aparentemente se desviam do tema central do livro correspondem a procedimentos chamados digressões. O importante não é o que narrar, mas narrar como se narra, levando à auto-reflexão crítica, como pode ser observado em: “(...) Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.”
• Uso de arquétipo. Termo usado por C.J. Jung para se referir aos modelos inatos presentes no inconsciente coletivo que servem de base para o desenvolvimento da psique humana. Estes modelos nascem da constante repetição de certa experiência, durante muitas gerações, portanto, os arquétipos não se desenvolveriam individualmente, mas seriam herdados, podendo se manifestar de maneira diferente de uma geração para outra. Os arquétipos funcionariam como “imagens primordiais”, símbolos universais, presentes em todas as culturas, que tendem a produzir, em cada geração, a repetição e a elaboração dessas mesmas experiências. Nas obras machadianas, personagens comumente são baseados em arquétipos, na medida em que podem ser interpretados como símbolos que representam uma ideia universal do homem. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, surge Pandora, a primeira mulher mandada à Terra para vingar-se dos homens com sua famosa caixa, que dialoga com o narrador-personagem Brás Cubas e diz que ele pode chamá-la também de Natureza.
• Machado de Assis, enfim, estava acima das escolas. Sempre irônico e sem deixar passar nada, faz comentários críticos sobre essa necessidade de enquadramento em estilos de época, na própria obra. Vale ressaltar que esses comentários são sutis, quase que despercebidos, pois são feitos no meio da trama, como pode ser observado no seguinte fragmento do capítulo XIV, das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que Brás Cubas narra o seu primeiro beijo, criticando o Romantismo e o Realismo: “(...) Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes e, por compaixão, o transportou para os seus livros.”
• Logo ao abrir o livro, o leitor se depara com uma página reservada especialmente a ele, de nome AO LEITOR. Nessa página, Machado se apropria do próprio personagem principal – Brás Cubas – para dar a sua palavra inicial à crítica literária. Machado já previa a severa tentativa que a crítica teria ao tentar estabelecer o gênero do livro, se era romance ou não era.
• “(...) Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angarias as simpatias da opinião (...).”
• Acontece que há uma ruptura com todos os gêneros tradicionais, como busca da criação do próprio gênero – gênero sui generis - comprovando mais uma vez a intenção proposital do autor de não seguir o cânon. Segundo ele, a obra de arte deveria seguir as suas próprias regras, mostrando que o escritor é um ser autônomo. Ele mostra sua irreverência, não querendo saber se o livro vai ter menos de cinco leitores, se vão falar da forma de sua narrativa, se vão especular sobre seu gênero, e muito menos se vão gostar do livro:
• “(...) A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote e, adeus.”

III – FOCO NARRATIVO:

O narrador machadiano representa-se dramaticamente revestido de múltiplas máscaras, simbolizando a manifestação do que é simultaneamente presente e ausente, apresentando as unidades duais que permeiam o drama universal. Nas “Memórias Póstumas”, a morte acossa a vida durante toda a narrativa. O próprio escritor surge no ato da morte: se Brás Cubas não tivesse morrido, o "defunto autor" não existiria e, consequentemente, não haveria estas “Memórias”.
O próprio título do livro já gera uma duplicidade entre a vida e a morte. Só quem é vivo é que possui memórias, mas aquilo que é póstumo pertence à morte. O que está entre essa interação é o verme, representado pela passagem do vivo para o morto, e a quem Brás Cubas dedica este livro: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico, como saudosa lembrança, estas Memórias Póstumas”.
Machado de Assis escolheu a situação fantástica e autobiográfica de Brás Cubas, um narrador-personagem (1º pessoa) que, depois de morto, conta sua vida e assume uma posição transtemporal, de quem vê a própria existência já de fora dela, “desse outro lado do mistério”, de modo onisciente, descontínuo e sem a pressa dos vivos. O narrador procura mais "parecer" do que "ser", isto é, dá-nos a impressão que se trata de um relato caracterizado pela isenção, pela imparciabilidade de que já não tem necessidade de mentir, pois deixou o mundo e todas as suas ilusões. Essa é uma das famosas armadilhas machadeanas, pois na verdade, Brás mente, ilude e distorce os fatos, escondendo suas misérias para que sejam vistas como superioridades, exteriorizando uma visão cínica, irônica e desencantada de si mesmo e dos outros.
Pode, ainda, atuar no duplo domínio do vivo e do morto, vendo a morte do ponto de vista da vida, e a vida do ponto de vista da morte; e transita entre o entrar e sair da pele do personagem, podendo falar do ponto de vista do ator e do espectador.
Assim, o aspecto fundamental na análise da narrativa é que a própria possui uma perspectiva dual, através de dois "eus", que são um e o mesmo: o eu-narrante (narrador) e o eu-narrado (protagonista) e que, por sua vez, são os desdobramentos do próprio defunto autor.
O narrador é o espectador crítico, ironicamente distanciado dos eventos; enquanto o protagonista é o ator que se deixa levar emocionalmente pelos acontecimentos narrados. Isso mostra a utilização simultânea dos pontos-de-vista do narrador, que é espectador e eu-narrante, constitui o eu de agora, representado pela consciência; e o do protagonista, que é ator e eu-narrado, constitui o eu de outrora, representado pela experiência. Assim, enquanto o eu de outrora admite um mundo maniqueísta, o eu de agora é regido pelo princípio geral da reversibilidade dos contrários.
O narrador tem o privilégio de interromper o ritmo das ações para comentar, generalizar, contar algo que ele tenha se lembrado, etc. Assim, ele pode lançar a história para frente, para trás, como quiser, fazendo um movimento progri-regri-digressivo, criando dificuldade aos leitores que tem pressa de chegar ao final.

IV – TEMPO:

A obra é apoiada em dois tempos. Um é o tempo psicológico, do autor além-túmulo, que, desse modo, pode contar sua vida de maneira arbitrária, com digressões e manipulando os fatos à revelia, sem seguir uma ordem temporal linear. A morte, por exemplo, é contada antes do nascimento e dos fatos da vida.
Há que se distinguir, além das incursões no tempo da memória, o tempo da escrita, o tempo da enunciação. Se o tempo dos vivos, na narrativa, transcorre desordenadamente, sob o fluxo da memória do narrador, o tempo da escrita denota intransitoriedade, pois, apesar de estar marcado pela voz do autor das memórias, está perdido no infinito, uma vez que a morte não envelhece, não sofre as oscilações temporais.
No tempo cronológico, os acontecimentos obedecem a uma ordem lógica: infância, adolescência, ida para Coimbra, volta ao Brasil e morte. A estranheza da obra começa pelo título, que sugere as memórias narradas por um defunto.

“Essa recusa de usar a linha reta se dá porque ela é sinônima de tédio, monotonia, e falta de imaginação. É a adoração de leitores superficiais e preguiçosos, que querem chegar logo ao final da história para saber o que acontece, ao invés de repararem as minúcias da obra, dissecando-a. Logo, nessa obra há a preferência pelo círculo, pela diagonal, pela espiral, mas nunca pela linha reta. O narrador pode até perder o fio da meada: (...) Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que...Já me não lembra onde estava....Ah! nas estradas escusas” (cap. LVII).

Outro tempo é o tom de desdém, de ironia, de sarcasmo, de melancolia, de humor, de morbidez que está na fala desse que se conta. É o tempo que se reconhece pela linguagem, representação que marca a trajetória de Brás nessa história que quer desdenhar dos vivos e dos tempos amargos de uma sociedade, cuja marca oscila em vantagens sociais, figuração política, arbítrio escravista e clientelista, truncamento de direitos individuais, tudo isso em benefício pessoal instalado no processo social.

V – ESTRUTURA DA OBRA:

A estrutura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” tem uma lógica narrativa surpreendente e inovadora. A sequência do livro não é determinada pela cronologia dos fatos, mas pelo encadeamento das reflexões do personagem. É uma narrativa dialogicamente estruturada, em que o leitor é fundamental, pois há um intenso processo de comunicação com ele, como se ele desempenhasse um papel no texto. Assim, o autor compartilha com o leitor a tarefa de narrar. Vejamos o capítulo IX, que trata da Transição, em que Machado chama de maneira nada modesta a atenção do leitor para a maneira coerente de sua narrativa:

“E vejam com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a atenção pausada do leitor: nada. De modo que o livro fica assim com todas as vantagens do método, sem a rigidez do método.”

Organizados em blocos curtos, os 160 capítulos de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” fluem segundo o ritmo do pensamento do narrador. A aparente falta de coerência da narrativa, permeada por longas digressões, dissimula uma forte coerência interna, oferecendo ao leitor todas as informações para conhecer a visão de mundo de um homem que passou pela vida sem realização nenhuma, apenas ao sabor de seus desejos.
Logo nas primeiras páginas, o escritor brinca com a expectativa do leitor de chegar logo às ações do romance. Machado de Assis, por intermédio do seu narrador, se dirige diretamente ao leitor, metalinguisticamente, para comentar o livro. Diz Brás Cubas:

“Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem”.

Nos nove primeiros capítulos, Brás Cubas descreve a sua morte (cap.1); o emplasto (uma ideia fixa que teve, ao final da vida, de inventar um “medicamento anti-hipocondríaco”, isto é, que curasse a mania de doença das pessoas); sua origem (cap.3); a ideia fixa do emplasto (cap.4); sua doença (cap.5); a visita de Virgília (cap.6); o delírio (pesadelo que teve antes de morrer em que lhe aparece Natureza ou Pandora, dona dos bens e dos males humanos, dentre os quais, o maior de todos é a esperança, (cap.7); razão contra a sandice (em que a razão expulsa a sandice, cap.8) e transição (cap.9), em que o narrador faz uma reflexão metalinguística e retoma o fio narrativo, cronológico de sua vida, a partir de seu nascimento em 1805). A partir do cap.10, a vida de Brás Cubas é contada de forma sucessiva: nascimento, batizado, infância, juventude.

VI – PERSONAGENS:

As personagens que circulam pelo romance são o suporte necessário para que Brás Cubas tenha realidade. Se está clara a intenção de sintetizar um tipo representativo da classe dominante brasileira, as personagens que vão dar vida ao protagonista resumem, de certa forma, a sociedade nacional: os ricos e os pobres. As ligações sociais que especificam a figura de Brás surgem ao acaso dos episódios.
Visto assim, a enredo procura ancorar-se na história nacional. Alguns episódios políticos emergem da narrativa como a Independência, a Abdicação de D. Pedro I, a Maioridade, a Lei do Ventre Livre, a Abolição e a República e se mesclam às peripécias ficcionais, não como simples localizações no tempo, mas como composição de uma alegoria nacional. É como se Brás fosse o Brasil e a cronologia das “Memórias” um emaranhado de práticas sociais que não reconhecem a norma e os costumes.

BRÁS CUBAS: em primeiro plano, é o defunto-autor (diferente de autor-defunto) que se propõe contar sua vida sob a ótica do além. Em segundo plano, Brás é a personagem protagonista do romance e se apresenta em vários perfis, o que confere verossimilhança ao moço de boa família enquanto tipo representativo de uma sociedade marcadamente burguesa.
Assim, no tocante aos escravos de que judia, Brás aparece como menino diabo. Uma agregada velha, que não tem onde cair morta, encontrará nele o protetor, cheio de pensamentos escarninhos. A moça pobre, filha ilegítima, corresponde o rapaz bem nascido e aproveitador. Um cunhado negocista, ex-traficante de escravos, tem nele o parente compreensivo, capaz de justificá-lo e até de intermediar fornecimentos à Marinha. Para a menina casadoura, cujo pai é uma influência política, Brás representa numa só pessoa o noivo escolhido pela família e o futuro deputado.

VIRGÍLIA: aparece pela primeira vez nos instantes finais de Brás, já uma senhora em decadência. Caracteriza-se pela duplicidade: a Virgília exuberante da juventude e a Virgília corroída pela velhice. Personagem movida pelo desejo de ascensão social, inescrupulosa, oscilante, deixa-se envolver pela ambivalência das convenções. Pertence à galeria de criaturas fantasiosas e inconsequentes que perdem a distinção entre o bem e o mal.
É fria e calculista, sem conflitos de consciência: convive tranquilamente com o marido e o amante. Viveu impune toda uma situação de adultério e pecado, mantendo a respeitável a honra de dama da sociedade fluminense.

MARCELA: foi o primeiro amor do Brás jovem. Traiçoeira e vulgar, vive um amor ardente e interesseiro com o rapaz. O destino da “dama espanhola” é flagrado em um hospital, onde morre roída de bexigas.

DONA PLÁCIDA: alcoviteira do casal de amantes na casinha da Gamboa, ofício que a princípio rejeita, mas ao qual acaba por habituar-se. Tudo por cinco contos de réis, aqueles que Brás tinha achado na praia e destinado a uma doação caridosa. Passou a vida trabalhando para cuidar da família, costurando e cosendo, até acabar na miséria, que, segundo o narrador, era o seu destino.

DONA EUSÉBIA E VILAÇA: casal flagrado pelo menino Brás atrás da moita. Mais tarde, Brás encontra Dona Eusébia na Tijuca, e fica conhecendo a filha bastarda do casal, Eugênia.

EUGÊNIA: a “flor da moita”. Jovem casadoura, coxa de nascença, com quem Brás teve um breve romance. Possuía alguns predicados importantes: bonita, altiva, orgulhosa de sua dignidade, mas não suficientes para suplantar suas deficiências (pobre, bastarda e coxa) aos olhos de Brás bem nascido e aproveitador. Aparece no final da narrativa em plena miséria, sem contudo, perder o orgulho.

LOBO NEVES: marido de Virgília e amigo de Brás, de quem arrebatou a noiva e a candidatura. Desejoso de glórias e respeitador da opinião pública, passa por cima do adultério da esposa, com “a mesma ignorância de outrora”, incapaz de assumir atitudes drásticas.

SABINA: irmã de Brás. Está sempre plena de interesses: a herança do pai e o celibato do irmão.

COTRIM: cunhado de Brás.

EULÁLIA: conhecida por Nhã-Loló. É a moça que Sabina pretende ter por cunhada. Tem breve romance com Brás, interrompido pela morte precoce da moça.

QUINCAS BORBA: amigo de Brás, idealizador do Humanitismo. Aparece em três momentos no romance: o colega de Brás nas aulas do professor Ludgero Barata; o mendigo, que ao reencontrar o velho amigo lhe rouba o relógio; e o filósofo, que volta à casa de Brás recomposto da miséria e pleno da sabedoria Humanitas. Enlouquece e morre tragicamente consciente, não apenas da sua loucura, podemos dizer, mas da loucura que tudo governa.

PRUDÊNCIO: moleque da casa do menino Brás, que servia de cavalo nas brincadeiras. Mais tarde, em liberdade, aparece vergalhando outro negro, cena que deixa Brás espantado.

VII – TEMÁTICAS:

1. ESCRAVIDÃO:

Os romances machadianos tratam frequentemente da escravidão sob o ponto de vista cínico do senhor de escravos, sempre criticando-o de forma oblíqua. Sobre a escravidão, Machado de Assis já havia tido uma experiência familiar, quer por seus avós paternos terem sido escravos, quer porque lia os jornais com anúncios de escravos fugitivos. Em seu tempo, a literatura que denunciava crenças etnocêntricas que posicionavam os negros no último grau da escala social era distorcida ou tolhida, de modo que este tema encontra uma grande expressividade na obra do autor. A começar, as “Memórias Póstumas de Brás Cubas” narra o que seria uma das páginas de ficção mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia do escravismo: o negro liberto compra seu próprio escravo para tirar sua desforra.
Castro Alves escrevia sobre a violência explícita a que os escravos estavam expostos, enquanto Machado de Assis escrevia as violências implícitas, como a dissimulação e a falsa camaradagem na relação senhor e escravo.

2. MUNDIVIDÊNCIA TRAGICÔMICA:

Três fatos fatos fazem Brás Cubas aprender a condição da mundividência tragicômica, são eles: o delírio com o Mito de Pandora; a filosofia do Humanitismo e a Lei da Equivalência das Janelas.

2.1. O MITO DE PANDORA:

“Pandora”, por Jules Joseph Lefebvre, 1882.


Personagem mitológico, Pandora foi criada por Zeus para castigar Prometeu, deus da estirpe dos titãs, que roubara o fogo dos céus e o entregara aos mortais. A versão mais conhecida da lenda de Pandora é a relatada no século VIII a.C. pelo poeta Hesíodo, na “Teogonia”. Zeus decidiu vingar-se e ordenou a Vulcano, deus do fogo, que plasmasse com terra uma mulher de extrema beleza, à qual os deuses do Olimpo concederam presentes e qualidades excepcionais. Atena ensinou-lhe as artes femininas e Afrodite os encantos da beleza. Hermes concedeu-lhe o dom da palavra insinuante e as Graças cobriram-na de jóias raras. Por isso foi chamada de Pandora, que em grego significa "portadora de todos os dons".
Zeus encarregou-a então de entregar a Prometeu, em grego "o previdente", uma caixa fechada, mas este resistiu aos encantos de Pandora e recusou-se a abrir o presente. Apesar das advertências de Prometeu, Epimeteu, seu irmão, ficou fascinado com a beleza de Pandora e tomou-a por esposa. Depois, pediu-lhe que abrisse a caixa, da qual escaparam todos os males e desventuras que desde então afligem os humanos. Arrependido, Epimeteu, cujo nome em grego significa "o que reflete tardiamente", tentou fechar a caixa, mas conseguiu apenas nela encerrar a esperança, que seria o consolo da humanidade. Zeus não perdoou Prometeu por ter escapado à armadilha e o acorrentou ao Cáucaso, para que um abutre eternamente lhe devorasse o fígado. A expressão "caixa de Pandora" passou a ser empregada como sinônimo de tudo que, sob aparência de encanto, é fonte de males e desgraças.
Pandora, ou Natureza aparece no delírio Brás Cubas, dizendo ser mãe e inimiga; aquela que dá e aquela que tira a vida, ou seja, faz da vida um flagelo e traz o rosto indiferente como o sepulcro. Brás Cubas percebe, então, que Pandora é vida e morte, e que o seu delírio, por si só, já é um movimento rumo ao caos, uma excursão às avessas. Ela ensina a Brás Cubas que a vida e a morte não se contradizem e que o mundo é um jogo de sentimentos desencontrados, como:

“(...) flagelos e delícias, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancólica, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo (cap. VII).

2.2. O HUMANITISMO:

Humanitismo é nome da filosofia fictícia criada por Joaquim Borba dos Santos, o Quincas Borba, um dos mais célebres personagens de Machado de Assis, que é exposta fundamentalmente no romance “Quincas Borba” e de forma secundária em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.
A seguir o trecho do livro em que o mesmo explica sua filosofia ao personagem Rubião:
"- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
- Mas a opinião do exterminado?
- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias."

“Quincas Borba”, Capítulo VI

O "Humanitismo" do filósofo Quincas Borba expõe as dúvidas e perguntas do discípulo e as respostas rápidas e prontas do mestre, em oposição à maiêutica socrática. Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo 157 de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, recebendo um adendo no Capítulo 141, para comentar uma briga de cães. A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro. A exposição é retomada, para um novo interlocutor e de forma mais explícita, no Capítulo 6 de “Quincas Borba”. Rubião, este novo interlocutor, ao contrário de Cubas, que era adepto da filosofia e sempre procurava questioná-la, não compreendia suas concepções e considerava Borbas um doido—passando a entender a fórmula "ao vencedor, as batatas" só depois de derrotado por Sofia e Cristiano.

"A Origem das Espécies", 1859, de Charles Darwin: o "Humanitismo" de Machado de Assis ironiza a "lei do mais forte" de Darwin.


Para os críticos, o "Humanitismo" constitui-se da ideia "do império da lei do mais forte, do mais rico e do mais esperto". Antonio Candido escreveu que a essência do pensamento machadiano é "a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual." Os críticos notam que o "Humanitismo" de Machado não passa de uma sátira ao positivismo de Auguste Comte e ao cientificismo do século XIX e à teoria de Charles Darwin acerca da seleção natural. Desta forma, a teoria do "ao vencedor, as batatas" seria uma paródia da ciência da época de Machado e sua divulgação, uma forma de desnudar ironicamente o caráter desumano e anti-ético da "lei do mais forte".
A filosofia de Quincas Borba afirma que a substância da qual emanam e para qual convergem todas as coisas é Humanitas, e que a inveja não passa do "nobre sentimento" de contemplação, nos outros, das qualidades de Humanitas. O "Humanitismo", tal qual a seleção natural de Darwin, enxerga a guerra como forma da seleção dos mais aptos. Humanitas se projeta por meio de quatro fases: a estática, anterior à criação; a expansiva, início das coisas; a dispersiva, surgimento do homem, e a contrativa, absorção do homem na substância original. A filosofia exclui o sexo e o sofrimento, considerando o Cristianismo uma "moral de fracos" (clara intertextualidade às teorias de Nietzsche), a mulher um ser inferior, e tudo no mundo como algo bom, sendo a única coisa ruim o não nascer. No Capítulo 157 de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o "Humanitismo" se proclama "a única verdade", negando a verdade essencial do Budismo, Bramanismo, Islamismo, Cristianismo e de todos os sistemas e crenças da história da humanidade.

2.3. A LEI DA EQUIVALÊNCIA DAS JANELAS:

Há, ainda, a Lei da Equivalência das Janelas, em que Brás Cubas admite que um mesmo acontecimento, pode provocar duas reações contrárias, dependendo do valor envolvido. Essa lei estabelece que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.
Ao encontrar uma moeda, ele resolve devolvê-la ao verdadeiro dono, porém, ao encontrar um embrulho com cinco contos de réis, embolsa-o. Assim, há uma desconstrução com o discurso moralista, mais uma vez, mostrando que o ser humano é tensionado pelo impacto dúbio da consciência cindida em polêmica consigo mesma, empuxada por forças simétricas e opostas.

3. CETICISMO:

Os críticos notam que na segunda metade do século XIX os intelectuais brasileiros interessavam-se com o "surgimento de novas ideias" como o já citado positivismo de Comte e o evolucionismo social de Spencer. Ao que tudo indica, Machado não compartilhava deste interesse e escreveu seus romances com ceticismo a estas escolas filosóficas e políticas. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, por exemplo, um importante aspecto do pessimismo de Brás Cubas é sua visão de que os valores são arbitrários. O autor cético desafia o critério social que discrimina o que é relevante na vida e aquilo que não é (e, desta forma, o que deve ser incluído ou não em uma autobiografia).

4. IRONIA:

A ironia fundamental de todo o livro realiza-se em relação á não-compreensão da posição ambígua e contraditória do homem: a tradição dicotômica do pensamento ocidental, o puritanismo filosófico e o maniqueísmo religioso não se compatibilizam com a natureza dual do homem, desfigurando a realidade da condição humana. Logo, Machado possui uma compreensão irônica da existência, ou seja, o homem é bom e mau ao mesmo tempo, de acordo com o princípio da reversibilidade dos contrários.
Essa dualidade do ser humano, expressa ricamente através da ironia, pode ser exemplificada com as diferentes atitudes de Brás Cubas, em relação à moeda e ao embrulho de dinheiro encontrado, como já foi expresso anteriormente na lei da equivalência das janelas. A mudança na postura do personagem é evidente, mostrando que as pessoas são assim mesmo: fazem o que convém, de acordo com seus interesses pessoais, até sendo hipócritas consigo mesmas.
Essa mudança brusca de comportamento, realizada pela dualidade dos contrários, também é presente em outras personagens da obra, como, por exemplo, Virgília, que traiu o marido, mas chorou a sua morte com sinceridade; Marcela, que parecia amar Brás Cubas, mas o interesse era no dinheiro dele; Dona Plácida, que condenava Brás Cubas e Virgília por serem amantes, mas diante de cinco contos de réis, não falou mais nada; e Prudêncio, que sofreu os castigos de escravo, mas quando recebeu sua alforria, arrumou um escravo para castigar.

VIII - ANÁLISE DO ENREDO:

1. PRÓLOGO AO LEITOR:

“AO LEITOR

QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual, ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”

Assinado por Brás Cubas, o “Prólogo Ao Leitor” de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” apresenta as memórias de um finado, escritas “com pena da galhofa e a tinta da melancolia...”, um misto de sarcástico e de pessimismo. Assim, logo de início somos informados à maneira que irá narrar os acontecimentos sobre a sua vida:

PENA +TINTA = ESCRITA.

Dessa forma, o contexto da obra é a própria fusão de antíteses que vão caracterizar o comportamento das personagens numa busca de síntese da essência humana.
A princípio, fica estabelecido que a obra apresenta-se em duas faces: a própria história que Brás narra através de sua memória e outra, a que Brás está querendo nos contar sobre o pretexto de sua história. Além da condição de morto, esse narrador possui outra característica própria: vai interromper a ação para conversar com o leitor inúmeras vezes. Essa interpelação é uma atitude metalinguística, uma linguagem CPM que se procura interpretar e explicar outra linguagem. O narrador, através desse recurso, vai estar sempre a induzir-nos ao ato da enunciação, momento em que discorre sobre suas reflexões acerca do agente motivador de suas memórias: a condição humana. Esse recurso distancia o narrador do que está sendo narrado e cria uma situação ideal para que o leitor perceba o jogo de ficção que se desenrola aos seus olhos.
Ao leitor foi sugerido que pulasse o capítulo, caso ele queira apenas um deleite da história.

“Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração.”

Outra chamada ao leitor segue adiante:

“Mas, com a breca! Quem me explicará a razão desta diferença? Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?”

Não apenas a atitude metalinguística distancia o narrador de sua narrativa, essa é uma técnica comum, como o próprio Brás afirma ao trazer ao texto referências intertextuais a Sterne e Xavier de Maistre, como afirma:

“Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.”

E nós percebemos, enquanto leitores, não apenas algumas “rabugens de pessimismo”, mas uma grande ironia, fio que tece toda a narrativa, ao considerar as gentes leitoras, “graves” ou “frívolas”, que estão a esperar sempre por um romance, por uma história.
Nesse fragmento está presente uma crítica ao leitor ou crítico cujas expectativas são sempre voltadas para o palpável que o estilo propõe, quer seja romântico, quer realista.
O espevitamento da abertura do romance deixa claro que a situação de “defunto autor”, diferente de “autor defunto”, sendo paradoxal, não pretende desmanchar a verossimilhança realista, e, sim, desrespeitá-la enquanto categoria. Não se trata, portanto, de, buscar a verdade ou coerência, mas de admirar o descaramento e a insolência com que a voz, distante e fria, trata de detalhar e descrever um contexto, com promessas de quem não quer enganar, nem ocultar nada.
A todo instante, Brás exige o tipo do gentleman moderno, para desmerecê-lo em seguida, e tornar a adotá-lo, configurando uma inconsequência que o curso do romance acaba por ter como norma. É como se a postura bem comportada fosse a credencial tanto de respeito como de escárnio, um verniz de respeitabilidade que permite ao narrador assumir seus contrastes sem prévia licença. As feições que ele veste e desveste tornam-se sempre um elemento de provocação e cabe ao leitor orientar-se como pode, tendo como única referência as palavras do autor narrador, forçando-o a estar sempre em estado de alerta, o que é próprio à grande literatura.
Ainda nesse capítulo, é narrado a visita de Virgília e seu filho Nhonhô, que aos cinco anos fora cúmplice do rompimento dos amores adúlteros de Virgília e Brás e agora, já bacharel, estava como que satisfeito diante da figura mortificada de Brás.
Em seguida, o narrador incita o leitor a se defrontar com as imagens oníricas de seu delírio, pré-morte: as relações entre “um barbeiro chinês” e um mandarim, a “Summa Theológica”, de São Tomás, e um hipopótamo que serve de guia do narrador.
O que se verá nesse delírio é uma crítica à ciência evolucionista da época, com referências, inclusive, às sensações de vida na morte. O destino da viagem a que o narrador é arrebatado pelo hipopótamo aponta para a origem dos séculos, em que Brás entrevê a redução do tempo e o desfilar da humanidade.
Ao fim da jornada, Brás depara com um vulto sem contornos definidos, Natureza ou Pandora. A ele, pede mais uns anos de vida e Natureza o leva ao cume de uma montanha para lhe mostrar a inutilidade desse desejo já que o que o espera é a “voluptuosidade do nada”.
Sob o ângulo do delírio, é possível ver a história do homem como um ininterrupto passar de “flagelos e delícias”, em que nem a ciência nem a imaginação podem atuar como determinantes. O delírio vem a ser a condensação, a busca da síntese das teorias da criação.

2. ÓBITO DO AUTOR:

“ALGUM TEMPO hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa ideia no discurso que proferiu á beira de minha cova: "Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado."

A abertura desse capítulo é afrontosa, pois o impossível está dito em primeira pessoa. Essa postura diante da narrativa que se segue nos diz Brás Cubas pretende fazer um ajuste de contas com a própria existência, pois menos que deflagrar outro mundo, o narrador quer mesmo é evidenciar o nosso, numa postura de destrato e impertinência.
Em seguida, somos informados sobre o dia, local, horário, idade, estado civil e condição física do defunto-autor e no lugar de uma narração desencarnada nos vemos diante de uma personagem com contornos visíveis. Logo a seguir, a descrição se modifica em despeito, pois onze amigos é um número pequeno. O tom torna-se amargo, mas a intenção é irônica. Percebemos, dessa forma, que o defunto narrador se apresenta ora mórbido, ora indiferente, alternando o texto com um ritmo sempre inusitado. Isso reafirma a questão da dualidade que percorre toda leitura, num ritmo binário, marcado por alternativas, antíteses, paralelismos, simetrias e disparidades.

Ilustração de Brás Cubas no cemitério por Portinari, 1943.


Brás acaba morrendo de uma pneumonia, mas nos revela que a verdadeira causa de sua morte foi nada menos que uma útil ideia e se propõe a contá-la ao leitor. Por ser um defunto autor, e estar afastado da vulnerabilidade da vida, o morto se considera, também, afastado do compromisso de justificar suas atitudes e posturas. Delega essa função ao leitor e, dessa forma, transfere ao leitor a cumplicidade ideal para a realização de sua proposta literária: “Julgue-o por si mesmo.”

3. O EMPLASTO:

“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”

Ao estabelecer para seu cérebro a figura de um trapézio, Brás não só remete o leitor ao Positivismo, doutrina criada por Augusto Comte, mas também marca a postura de grande ironizador das correntes determinantes do comportamento da época.
Brás Cubas faz de seu trapézio o espaço para malabarismos e inventa um “emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade”.
Voltando à questão da síntese (pena/tinta/escrita), podemos alegar que o emplasto de Brás se destina a ser a síntese das soluções para a cura da humanidade das dores do mundo.
Em seguida, o emplasto é apresentado sucessivamente como: ideia grandiosa e útil; ideia fixa; objeto de uma petição de privilégio dirigida ao governo, com alegação filantrópica e propósitos lucrativos.
As referências são respectivamente: o ideário liberal-burguês; a filosofia do inconsciente, em transposição cômica; o contraste entre a cura antiga e a medicina moderna; o patrocínio governamental; a finalidade cristã; a finalidade capitalista e a síntese na mania de anúncio.

“Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: - amor da glória.

[...] Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua genuína feição.”

A questão da glória é, portanto, uma questão relativa e, a decisão entre o cônego e o militar fica por conta do leitor.

4. A BIOGRAFIA:

Do ponto de vista da narratividade, é possível dizer que a intriga começa no capítulo 10, com o nascimento do protagonista e culmina no capítulo 160, com o balanço final de sua existência.
Embora muito solta, a forma do romance é biográfica, entremeada de incursões pela memória e alegorias aos costumes. Passam diante de nós as estações da vida de um brasileiro rico e desocupado: nascimento; o ambiente da primeira infância; estudos de Direito em Coimbra; amores de diferentes tipos; pretensões literárias, políticas, filosóficas, científicas; e por fim a morte.

5. O NASCIMENTO:

“Da árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor.” Vale aqui a referência que Brás faz à genealogia da família Cubas e em toda a ostentação e falsidade sobre a honra do nome da família.
Bem, naquele dia nasceu um Cubas, pelas mãos da parteira Pascoela que, por elogios ao novo fidalgo ou por hábito da recompensa, foi gratificada com duas meias dobras. Com ar de Bonaparte para uns e de cônego para outros, o herói seria o que Deus quisesse, na voz do pai, que via no filho o reflexo de sua inteligência e beleza.
Muitas visitas se fizeram presentes em tão solene evento. Idem para o batizado. Todos honravam o novo varão que, ao que tudo indica, resplandecia em berço de ouro.
Brás cresceu naturalmente, assim como os gatos e as magnólias, num misto de esperteza e beleza. Suas peraltices sempre atentam para a esperteza e, até, da malvadeza, visto que em idade ainda pouca já havia quebrado a cabeça de uma escrava, já preparava armadilhas para presenciar os castigos dos empregados, já se fazia senhor de escravos, mesmo que nas brincadeiras com Prudêncio.
Entre o acobertamento do pai e a fraqueza da mãe, Brás foi sendo educado, segundo ele, de forma viciosa, incompleta e negativa. Mas, na família de Brás, outros elementos exerciam suas influências sobre o garoto. Havia os tios. Um deles ligado a obscenidades, outro religioso. Havia a tia Emerenciana, a quem Brás respeitava muito, mas que durou pouco. Outros agregados, de menor importância, circularam pela vida de Brás que, contrariamente ao costume da época, tinha uma família pouco numerosa (Brás só tinha uma única irmã, Sabina).
A última reinação de que se lembra nas “Memórias” é o flagrante que deu em D. Eusébia beijando o Vilaça, em 1814, numa pequena moita da chácara.
Do moleque brejeiro, Brás passa a contar da vida escolar, da palmatória, dos ensinamentos enfadonhos, do professor Ludgero Barata e de seu colega Quincas Borba.
A referência ao professor Ludgero é muito mais para colocar em evidência o triste descaso para com a figura do professor do que enaltecer o herói que, através da memória, tenta recompor sua negligência estudantil.
Depois, recorda-se do amigo de escola, Quincas Borba. “Recordo porque ele, vai retornar à narrativa” e dele decorre a grande chave filosófica ou filosofante, de “Memórias”.
Sobre as relações familiares, retomamos o fio em Sabina, a irmã que aparece muito pouco na infância de Brás, mas que toma corpo na hora da disputa pela herança e no momento em que revela preocupação com o celibato do irmão. Lembra-se da inimizade dos dois por causa de uma prataria. E da reconciliação por uma causa muito justa, um pretenso matrimônio com Nhã-Loló.

6. A UNIVERSIDADE:

“A Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, - principalmente de saudades. Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz descontrolado, mas sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os outros, de influir, de gozar, de viver, - de prolongar a Universidade pela vida adiante...”

Após o seu desenlace de seus amores furtivos de adolescente, o nosso herói parte para Coimbra, onde foi impelido pelo pai e terá uma vida acadêmica medíocre, dando continuidade ao menino Brás.

7. AMORES:

A performance amorosa de Brás, uma das temáticas preciosas da obra, tem força e complexidade, ainda que sob o prisma romântico pareça lamentável. O curso biográfico do romance deixa entrever um moço bem ao estilo burguês, síntese de um tipo representativo da classe dominante brasileira, que alimenta sua vida amorosa com as mesmas bases como se entusiasma pela glória dos estudos: um ímpeto que não será levado adiante.

7.1. MARCELA:

A primeira aventura amorosa de Brás aconteceu aos dezessete anos.

“Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma...uma...não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas, vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo.”

A volúvel Marcela dedicou seu amor a Brás enquanto este a alimentava com jóias e outros luxos, advindos, certamente, da generosidade do pai, mãe, e de obrigações assinadas sobre a pretensa herança.
Marcela dissimulava-se em candura ao mostrar-se ofendida com os espécimes, mas logo se recompunha, sempre com juras de amor eterno.

“Assim foi um dia, como eu lhe não pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples gracejo, que o nosso amor não precisava de tão vulgar estímulo.
- Não lhe perdôo, se você fizer de mim essa triste ideia, concluiu ameaçando-me com o dedo.
E logo, súbita como um passarinho, espalmou as mãos, cingiu-me com elas o rosto, puxou-me a si e fez um trejeito gracioso, um momo de criança. Depois, reclinada na marquesa, continuou a falar daquilo, com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que lhe comprassem afetos.
(...)
No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.
(...)
Marcela teve primeiro um silêncio indignado; depois fez um gesto magnífico: tentou atirar o colar à rua. Eu retive-lhe o braço; pedi-lhe muito que não me fizesse tal desfeita, que ficasse com a jóia. Sorriu e ficou.”

O amor de Marcela durou “quinze meses e onze contos de réis; nada menos”. O pai, ao tomar conhecimento dos onze contos, impõe a Brás a universidade.

“Vais para a Europa.”

Brás tenta persuadir Marcela a acompanhá-lo. Em vão foram os presentes e as juras de uma vida magnífica, o amor havia acabado, por força das ordens do pai, a bordo de um navio. Bem mais tarde, Brás reencontra Marcela ao acaso, ao entrar em uma relojoaria. Marcada pela bexiga e pela pobreza, Marcela desperta em Brás, mais uma vez, a lei da compensação.

“(...) Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das lágrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência. Verdade é que tinha a alma decrépita.
(...)
Não era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia uma terça parte dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto me dizia que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobiça. Os meus é que não souberam ver-lhe; eram olhos da primeira edição.”

A aventura com Marcela, que inicia sob o influxo do Romantismo, explicitamente assim afirmado pelo narrador, imediatamente se contrasta com o Realismo, de tal modo que a passagem para o capítulo seguinte representa uma intensificação no sentido da degradação capitalista dos amores entre o jovem ingênuo e a mulher experiente.
“Ao cabo, era lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar no castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.”

E, logo no início do capítulo 15, a transformação das imagens antecipa a mudança nas relações entre os dois.

“Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso.”

Entre o corcel e o asno, cria-se o espaço para que seja possível iniciar o capítulo 16 com a frase que representa o ápice da degradação do amor com que se tinham iniciado as relações entre Brás e Marcela.

“...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.”

O reencontro com a Marcela marcada pelas bexigas e pelo tempo deixa em Brás uma sensação de mal-estar. Na verdade, o que se apreende nesse flagrante é a transitoriedade e o definhamento das paixões, destino amargo, mas infalível.

7.2. EUGÊNIA:

O romance de Brás e Eugênia é muito breve. Acontece na Tijuca, onde Brás está em retiro após a morte da mãe. Vizinha à propriedade dos Cubas mora D. Eusébia, a quem o rapaz faz uma visita de cortesia.

“Nisto recordei-me do episódio de 1814, ela, o Vilaça, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a recordá-lo, ouço um ranger de porta, um farfalhar de saias e esta palavra:
- Mamãe...mamãe...
(...)
Eugênia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da mãe. A mãe arranjou-lhe uma das tranças do cabelo, cuja ponta se desmanchara.
- Ah! Travessa! Dizia. Não imagina, doutor, o que isto é...E beijou-a com tão expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me minha mãe, e, - direi tudo, - tive cócegas de ser pai.”

A flor da moita entra na vida de Brás sem artifícios e sem linhagem. Ela, filha natural de D. Eusébia, ele, o Vilaça, moço abastado e família que já conhecemos. As circunstâncias, os protagonistas e a barreira social criam a expectativa para um romance denso e complicado, mas o que se verá é um desfecho outro, de caráter mais para o mórbido que para o idílico.
Eugênia marca, de princípio, o abismo material que envolve o casal ao apresentar-se desvestida dos adornos costumeiros da época: broches, anéis, brincos, pulseiras. A ideia é romântica, pois despojar-se das quinquilharias pressupõe valorizar-se de essência.
Brás Cubas aprecia a dignidade da menina, superior ao nascimento irregular e à situação precária, e corre o risco de “amar deveras”.
Observe que o idílio transcorre sob o signo das borboletas. A primeira é a imaginação negligente do rapaz que anuncia:

“Depressa nos familiarizamos; a mãe fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de boa sombra, e ela sorria, com os olhos fúlgidos, como se lá dentro do cérebro lhe estivesse a voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...”

A segunda, uma borboleta grande e preta, entra na varanda e bate as asas em volta de D. Eusébia. Mãe e filha ficam assustadas, o que dá ao rapaz à oportunidade de filosofar, enquanto espanta o bicho intrometido.

“- Não tenha medo, disse eu. (...) D. Eusébia sentou-se outra vez ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pálida de medo, dissimulava a impressão com muita força de vontade. Apertei-lhe a mão e sai a rir comigo da superstição das duas mulheres, um rir filosófico, desinteressado, superior.”

O capítulo culmina com a passagem de Eugênia em seu cavalo seguida de um pajem.
Ela cumprimenta Brás com a ponta do chicote e ele se sente lisonjeado com a ideia de que ela, mais adiante se voltaria para olhá-lo, coisa que não acontece.
Não se pode deixar de notar a decepção estampada no rosto do rapaz, mesclada a uma certa irritação, o que vai preparar o contexto em que se compreende a próxima borboleta.
Grande e preta como a outra, ela entra no quarto de Brás e o que faz recordar-se da cena na varanda de D. Eusébia: o susto das senhoras e o papel superior que tocara a ele.
Depois, pela insistência em permanecer batendo as asas, a borboleta o aborrece, pois agora representa a persistência da mocinha em sua lembrança, principalmente pelo gesto de insubordinação que aquele cumprimento com o chicote revelou. Brás sente um “repelão nos nervos” e com uma toalhada acaba de vez com a borboleta.
Entre em cena a derradeira borboleta, não mais em forma de inseto, mas de reflexão.

“Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida: não era assim impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas...Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

A cena que extingue para sempre a borboleta pode ser vista como uma alegoria do capítulo seguinte, “Coxa de Nascença”. Nele, Brás descobre a deformidade de Eugênia.

“Tratei de apagar os vestígios de meu desazo: - não me foi difícil, porque a mãe era segundo confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversar comigo. Vimos toda a chácara, árvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de coisas, que ela me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu, de soslaio, perscrutava os olhos de Eugênia...
Palavra que o olhar de Eugênia não era coxo, mas direito, perfeitamente são: vinha de uns olhos pretos e tranquilos...”

O destino da borboleta preta, mesmo se ela fosse azul, foi fatal. Se deslocarmos essa fatalidade para as relações entre Brás e Eugênia, podemos perceber nela uma grande metáfora social: o destino de Eugênia (além de bastarda, sem posses e coxa) já estava traçado quando Brás abate a borboleta, uma espécie de abate em efígie, pois a dignidade da moça pobre já o havia incomodado. Um momento marcado pela inferioridade social que a imperfeição natural não vai atenuar. Observe o desplante da falta de caridade com que Brás argumenta e desrespeita Eugênia.

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!

Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes, um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma festa do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo.

(...) Pobre Eugênia! Se tu soubesses que ideias me vagavam pela mente fora naquela ocasião! Tu, trêmula de comoção, com os braços aos meus ombros, a contemplar em mim o teu bem-vindo, e eu com os olhos em 1814, na moita, no Vilaça, e a suspeitar que não podias mentir ao teu sangue, à tua origem...”

Após esse desfile de cinismo, nós, leitores, ainda temos de aguentar uma afronta: somos nós os cínicos porque nos apiedamos de Eugênia, a “Vênus Manca”.

“Retira, pois, a expressão, a alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, - que isso é dos óculos, - e acabemos de uma vez com esta flor da moita.”

Nesse festival de maldades, que tem como referências a deformidade de Eugênia, desfila o carro alegórico da sociedade brasileira. Brás, vestido de generoso, dá a pretensa volta por cima na estrutura social ao encantar pela moça pobre. “Por que bonita, se coxa”, “porque coxa, se bonita?” Em outras palavras, se houvesse uma ordem universal razoável, “moças coxas” (pobres) não seriam bonitas, e “moças bonitas” não seriam coxas (pobres). Trata-se de um discurso em que predomina a voz da dominação de classe.

“Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política...que a constituição...que a minha noiva...que o meu cavalo...”

O destino de Eugênia não foi diferente do de Marcela. Párias da sociedade, vagaram pelo mundo dos pobres até quando Brás nos dá notícia:

“Não acabarei, porém, o capítulo, sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?...a linda Marcela; e via-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortiço, para distribuir esmolas, achei...Agora é que não são capazes de adivinhar...Achei a flor da moita, Eugênia, a filha de Dona Eusébia e do Vilaça, tão coxa como a deixara, e ainda mais triste.
Esta, ao reconhecer-me, ficou pálida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que não receberia esmolas da minha algibeira, e estendi-lhe a mão, como faria à esposa de um capitalista. Cortejou-me e fechou-se no cubículo. Nunca mais a vi; não soube de nada da vida dela, nem se a mãe era morta, nem que desastre a trouxera a tamanha miséria. Sei que continuava coxa e triste. Foi com esta impressão profunda que cheguei ao hospital, onde Marcela entrara na véspera, e onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrépita...”

7.3. VIRGÍLIA:

Virgília foi o amor que mais reforçou o caráter do protagonista. Primeiro, e por isso mesmo, porque fazia parte dos bem nascidos e sabia viver a vida seguindo a mesma nomenclatura de Brás: dinheiro e poder. Segundo, porque contracena com ele a maior parte do romance, apesar de em fases diferentes: solteira e jovem, quando há o projeto de um casamento perfeito; casada quando empreende a incrível marcha do triângulo amoroso; e no final da vida de Brás.
O primeiro momento está marcado pelo rompimento; quando está tudo acertado, casamento e ministério. Lobo Neves a arrebata de Brás com a promessa de torná-la marquesa.

“Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo passeia-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir a curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso, ora apático, entre a ambição e o desânimo.
(...)
Quando me lembrava do Lobo Neves, que já era deputado, e de Virgília, futura marquesa, perguntava-me a mim mesmo por que não seria melhor deputado e melhor marquês do que o Lobo Neves, - eu, que valia mais, muito mais do que ele, e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...”

Assim passou Brás Cubas por esse intermédio de tempo a olhar para a ponta de seu nariz. Em seguida, ficamos sabendo do regresso de Virgília para o Rio de Janeiro e para Brás.
O novo romance entre Virgília e Brás principia nos passos rodopiantes de uma valsa e estimula o ego do moço.

“ – É minha! Disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante o resto da noite, foi-me a ideia entranhando no espírito, não à força de martelo, mas de verruma, que é mais insinuativa.”

A ideia de ser o dono de Virgília está-se vendo que não é absurda para Brás, mesmo sabendo-se que o “dono” legítimo é Lobo Neves.
Ficando sabendo, no curso da narrativa, que Brás tem ímpetos de tomar a mulher ao marido, mas que rapidamente se acomoda no adultério, apesar do mexerico alheio.
Mesmo assim, a situação é de transgressão às normas sociais. Brás, no entanto, substitui o escrúpulo pela lei da compensação, e, dessa forma, passa por alto a questão moral do adultério.

“- É minha! Dizia eu ao chegar à porta da casa.

Mas aí, como se o destino ou o acaso ou que quer que fosse, se lembrasse de dar algum pasto aos meus arroubos possessórios, luziu-me ao chão uma coisa redonda e amarela. Abaixei-me: era uma moeda de ouro, uma meia dobra.

- É minha! Repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.”

Brás tem a jubilosa ideia de devolver a moeda a quem quer que fosse o dono. Faz isso por intermédio da polícia, o que legitima sua austeridade para com a coisa alheia e lavar os vestígios de culpa desse apossar-se do alheio o enquadra em uma circunstância mais escrupulosa.
Dessa forma, com a consciência mais limpa, Brás reflete sobre a lei da equivalência das janelas.

“Assim, eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.”

Em outras palavras, satisfazendo um escrúpulo secundário, o valsista acalma o escrúpulo principal. A devolução da moeda, seguida da correspondente estima pública, permite à personagem passar por alto a questão do adultério. (...) Dispensa comentário a funcionalidade social deste esquema no caso brasileiro.
Estando o adultério instalado no dia a dia tanto de Brás como de Virgília, as relações amorosas do casal amante são evidenciadas em delícias, temores, remorsos, prazeres, dores, aflições, enfim, um desfilar de “hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio...”

As delícias estão nos beijos roubados e os temores, em certas tomadas de consciência sobre a situação adúltera. O “velho diálogo de Adão e Eva” e os remorsos representam a face hipócrita da situação:

“ – Amo-te, é a vontade do céu.”

Prazeres, “que rematavam em dor”, aflições, “que desabrochavam em alegria”, vemos circular por toda narrativa, em situações sempre pretensamente escondidas, mas escancaradas aos nossos olhos, já que é a própria trama do enredo.
Essas situações se concretizam na “casinha”, em D. Plácida, no filho que não chega a seu destino, na carreira política que não se efetiva, nas fofocas maledicentes, no convívio de Brás e Lobo Neves “contentes um do outro”.

“Não a vi partir; mas à hora marcada senti alguma coisa que não era dor nem prazer, uma coisa mista, alívio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. Não se irrite o leitor com esta confissão. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um grande desespero, derramar algumas lágrimas, e não almoçar. Seria romanesco; mas não seria biográfico.”

O reencontro se dá quando da morte de Brás. Virgília era uma das senhoras presentes ao pé da cabeceira da cama do moribundo.

7.4. EULÁLIA:

Algum tempo após a separação com Virgília, Brás se deixa persuadir pelo bom senso de Sabina e aceita a ideia de um casamento com Nhã-Loló, a flor do pântano. O romance durou o tempo da vida de Eulália, muito pouco. Com a morte da moça, aacabam-se as aventuras amorosas de Brás.

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Uma das tônicas da personalidade de Brás é a volubilidade. Ser volúvel significa ser inconstante, variável, instável e a trajetória do protagonista nos dá mostras dessa inconstância. Além de alternar sua rotina com pretensa política e literatura, sua “ideologia” passeia pelo campo filosófico, sem falar de seu júbilo científico, causa, aliás, de sua morte.
Sua pincelada filosófica, da qual não é o autor, revela princípio único de todas as coisas, residindo igualmente nas partes vencida e vencedora, no condenado e no algoz, de sorte que não há perda alguma onde parecia haver uma desgraça. Daí que a dor não existe nem tem cabimento. Estamos falando do Humanitismo, teoria que inclui um elogio à sociedade de hierarquias.
O pressuposto teórico é de Quincas Borba e traz um tom de comicidade à obra quando se liga a doutrina ao ambiente social que ela encontra no país. O ar de disparate passa pela escravidão, na obra representada por Prudêncio, o negro que fora do cativeiro espanca outro negro. Passa também pelo clientelismo de Cotrim: bom pai de família, membro de várias irmandades, e patriota, além de contrabandeador de escravos e negociante de armas da Marinha. Passa pelo modo burguês de uma sociedade pretensamente moderna, cuja representação, com toda hierarquia apesar de falsificada, está sublimada em Brás Cubas.
Outra pretensão de Brás está no emplasto anti-hipocondríaco: uma solução científica, correspondente a solução filosófica de Quincas. Ambas atestam à relatividade das coisas, traço que o romance insiste em manter vivo por toda narrativa.
A teoria filosófica, Quincas queima num gesto de insanidade. Pretende ser o exemplo vivo de Humanitas, mas morre a seguir. A solução científica, bem, essa morre com Brás Cubas.
Na verdade, o movimento de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é marcado pela liquidação. Morre Brás e fica o defunto para refazer sua história do ponto de vista do além, de onde tece a intriga e desfaz das relações sociais. Morre Lobo Neves, morre D. Plácida, morre Marcela, morre Quincas Borba, morre Eulália. Com eles, morrem as teorias, os pressupostos, as “ideias fixas”.

“Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas feitas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.
Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginara que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas:
- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A VERTENTE COLORISTA RENASCENTISTA I: VENEZA E TOLEDO




I – DADOS CRONOLÓGICOS:


O primeiro monumento fundamental da arte veneziana do século XVI foi à decoração, por GIORGIONE e TICIANO, do Fondaco dos mercadores alemães, em 1507-8.

II – LOCALIZAÇÃO:

Veneza e Toledo.

III – CARACTERÍSTICAS:

Enquanto os artistas de Roma e Florença se concentravam em formas esculturais e temas épicos, os venezianos estavam fascinados pela cor, textura e clima, evidenciando uma sensibilidade quase típica do Gótico tardio em relação às belezas do mundo natural.
Os mais belos efeitos de cor desses artistas se dão quando o contraste entre a intensidade da luz e da sombra atinge o auge. Os pintores venezianos vieram a preferir a hora do dia mais adequada à produção destas condições. Assim, muitas cenas se situaram nas horas mais evocativas do dia, por ocasião do crepúsculo e da aurora, quando a intensa luz do sol é obscurecida por sombras profundas.
Deram preferência às pinturas religiosas ou profanas e de episódios históricos.

GIOVANNI BELLINI (1430-1516)


Giovanni Bellini ou Giambellino como conhecido em sua terra natal, foi o mais famoso pintor de uma família de artistas. Cunhado e amigo de Mantegna foi mentor de Giorgione e Ticiano, seus aprendizes.

Iniciou seu trabalho artístico assistindo seu pai, Jacopo, durante quase trinta anos.
Foi o primeiro mestre italiano da técnica de pintura a óleo, pois a maioria dos artistas só usava têmpera ou pintura a guache (pigmento misturado com água com cola ou leite, gema de ovo ou ovo inteiro, usada em afrescos ou painéis de madeira com gesso, proporcionando cores brilhantes e translúcidas).
Bellini é considerado como o renovador da pintura da escola veneziana, movendo-a para um estilo mais sensual e policromático. Pelo uso de cores claras de lenta secagem, Bellini criou sombras detalhadas, profundidade e ricos coloridos. Suas fluentes e coloridas paisagens tiveram um grande efeito no seu tempo.
Em sua fase inicial, Giovanni sofreu influência da escola de Pádua, especialmente de Mantegna, havendo muitas vezes, controvérsias sobre a autoria, como se pode notar nas obras a seguir.

“Apresentação de Jesus no Templo”, Bellini.


É este o episódio que Giovanni Bellini (1430-1516) retrata na “Apresentação de Jesus no Templo”, obra cuja datação continua tema de controvérsia, oscilando entre 1453 e 1480, segundo os vários estudiosos da obra do mestre veneziano. Inicialmente atribuída a Andrea Mantegna (1431-1506), seu cunhado, muito por culpa de uma inscrição na tábua, provavelmente setecentista, em que figura o nome de Mantegna, viria a confirmar-se mais tarde, através de exame radiográfico, a indiscutível autoria de Giovanni Bellini, tanto pela sua assinatura como pelo magnífico desenho subjacente.

“Apresentação de Jesus no Templo”, 1465-66, Andrea Mantegna.


Tudo aponta para que o trabalho de Mantegna seja anterior ao de Bellini e como tal este lhe seja devedor. Sabemos como ambos os artistas comunhavam idênticas preocupações no âmbito da pintura. Todavia, embora próximos, não se pode deixar de reconhecer uma característica muito particular a cada um dos artistas nas respectivas obras. Tome-se como exemplo, as duas pinturas executadas em datas que, acredita-se ser não muito distantes, sobre um mesmo tema religioso. A questão iconográfica parece-nos um excelente ponto de partida, uma vez que se apresenta como uma “citação” do Evangelho segundo São Lucas, mais concretamente a “Apresentação de Jesus no Templo” (2:22-24) e “Simeão e Ana” (2:25-38). Tal como se refere acima, o texto bíblico identifica cinco personagens, divididos em dois núcleos específicos: o primeiro, constituído por Maria, Jesus e José (a Sagrada Família); e o segundo, por Simeão (o justo) e Ana (a velha profetiza). Na tela de Mantegna encontramos a Sagrada Família, sendo que Maria, o pequeno Jesus enfaixado, segundo a tradição judaica, e Simeão, ocupam o primeiro plano da composição e José – em posição central - ocupa o segundo. Registra-se ainda um terceiro plano, em que uma personagem feminina e outra masculina ocupam, respectivamente, os extremos, esquerdo e direito do quadro. No esquerdo, a personagem feminina poderá seguramente tratar-se de Ana, embora a sua juventude não esteja de acordo como texto bíblico; enquanto no direito, subsistem dúvidas quanto à entidade da personagem, que muitos pensam tratar-se do próprio Mantegna, que atendendo à datação da tela, teria por essa altura aproximadamente de 25-26 anos. Atente-se ainda à composição: existe uma espécie de triangulação criada pelo grupo Maria / Menino num dos vértices, frente a Simeão, estando José no terceiro, em fundo. A articulação dos olhares entre estes personagens, todos aureolados, estabelece uma tensão e um dramatismo acentuados pela expressão grave, sobretudo de José. Os dois personagens dos extremos olham no sentido da esquerda, como que alheios ao episódio narrado, que se pode interpretar como uma antevisão de acontecimentos futuros. Analisemos agora a tábua de Bellini, decerto de feitura posterior: a organização dos personagens é idêntica à de Mantegna, embora com variantes: Maria com o Menino e Simeão em primeiro plano. É extraordinária a semelhança de Maria e o diálogo que estabelece como Simeão. Registra-se uma maior simplicidade da indumentária, em que o brocado de seda das vestes das personagens de Mantegna, tão ao gosto veneziano, dá lugar a um tratamento mais despojado por parte de Bellini, sobretudo na representação de Maria. Claramente, em segundo plano, o pintor veneziano coloca também nos extremos da composição duas personagens: à direita a figura feminina que pensamos tratar-se de Ana, e à esquerda uma figura masculina, que nos olha impiedosamente. Em terceiro plano, ao centro, encontra-se a figura de José, de expressão benigna, atento a Simeão. Entrevemos ainda de cada lado de José, em plano ligeiramente mais recuado, à direita, uma figura feminina jovem, cujo olhar se dirige para o exterior do quadro, enquanto do outro lado, um homem ainda jovem parece olhar na direção de José. Também aqui temos uma triangulação entre os personagens “principais” da narrativa segundo o texto bíblico: Maria e Simeão entreolham-se tendo em fundo José. O efeito dessa triangulação em ambas as pinturas é ligeiramente destabilizado pela presença do Jesus Menino, acentuando o caráter dramático deste episódio bíblico. O fundo negro nas duas pinturas acentua o recorte das personagens, contribuindo igualmente para intensificar a luminosidade do espaço pictórico, de maior intensidade, na tábua de Bellini, que o tampo de mármore atravessando todo o plano inferior do quadro, pretende atenuar.
A mudança de estilo pode ser facilmente observada em “Madona e Menino”, 1465, pelo emprego e tratamento da luz.

“Madona e Menino”, 1465.


O colorido é todo executado em têmpera antiga, diluindo a tragédia da cena com um novo e belo efeito suave, combinando diferentes tons de vermelho que transmitem grande delicadeza.
Bellini equilibra a severidade do desenho e a rigidez complexa do drapeado da escola de Pádua com sua própria sensibilidade, sentimento religioso e condição humana.
A pintura do Menino é concisa e linear e as dobras do planejamento duras e nítidas.
Nota-se que o fundo é vedado por uma cortina, a fim de se poder controlar a luz.
Já, em “Madona Willys” ou “A Virgem com o Menino de pé abraçando a mãe”, 1480-1490, a primeira vista, vemos a representação de Maria e o menino Jesus.


É difícil notar, em primeira instância, a representação da obra por completo. Essa é, apenas, uma de muitas obras do período Renascentista que tem um valor semântico inesgotável.
Vemos, em um dos lados ao fundo, a representação da paisagem nebulosa, árida e escura e, do outro lado, a claridade do verde. O menino Jesus é colocado como o eixo de diferenciação de um mundo sem seu caráter divino (escuro e cinza) e um mundo após seu nascimento (claro e verde).
A obra traz a tona à questão de vida e morte. Com Jesus, há vida eterna e, sem Ele, trevas. Partindo deste pressuposto, o artista, menciona também, o Renascimento, que trouxe o resgate do clássico e do “belo”, e que a luz voltasse a Europa, outrora afogada na escuridão do período Gótico.
Em "A Agonia no Horto", Bellini combina a severidade e a rigidez da escola de Pádua; a “modernidade” própria do Renascimento, através da introdução no espaço pictórico de figuras alheias à narrativa religiosa, mas que com ela comungam de forma a reforçar o pathos que tão laboriosamente o pintor procura veicular; opta por novos efeitos de cores e luminosidade (o belo brilho rosado da alvorada no horizonte); recorre à técnica da perspectiva, além de expressar sua própria sensibilidade criativa.

“A agonia no Horto”, 1465.


A temática é a agonia de Cristo na noite anterior à crucificação.
Bellini foi também, o primeiro a integrar figura e paisagem.
Na década de 1470, Bellini fez uma "Transfiguração", de estilo veneziano, e "A Coroação da Virgem" para o altar da igreja de Pesaro. Não muito depois, pintou um quadro para um altar da capela da igreja de São Pedro e São Paulo, destruído por um incêndio em 1867.

“Transfiguração”, 1470.


Outra pintura narrativa de teor religioso. Retrata o episódio misterioso da Transfiguração de Jesus, descrita no Evangelho segundo Mateus, 17, 1-9, quando em um monte elevado, o Tabor, diante de três testemunhas escolhidas por ele: Pedro, Tiago e João, Jesus se transfigurou diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Eis que lhes aparecem Moisés e Elias e falam com Jesus.
É importante reparar no drapeado das vestes, a expressão quase psicológica das personagens, dando um caráter dramático à pintura.
Em 1480, Giovanni dedicou-se como conservador das pinturas do grande salão do Palácio Ducal, mediante um alto pagamento e a concessão de privilégios comerciais.
Enquanto reparava obras de seus antecessores, recebeu a encomenda para seis ou sete trabalhos, ilustrações das vitórias de Veneza nas guerras entre Frederico Barbarossa e o papado. Esses trabalhos não sobreviveram a outro incêndio, em 1577.
Muitas outras obras para igrejas felizmente foram preservadas. Elas mostram a incorporação de novas estéticas e técnicas pelo artista, muitas aprendidas com Antonello de Messina, que trouxe novidades de Flandres.
Em “São Francisco em êxtase”, 1485, algo surpreende o olhar do espectador: o tamanho do santo em relação à atmosfera calma e meditativa.

“São Francisco em êxtase”, 1485.


O mestre do Quattrocento veneziano permanece sempre fiel ao seu alto conceito de grandeza humana, pelo que, nas suas criações, a figura humana reina sempre sobre a paisagem.
Um intervalo de poucos anos separa as pinturas para o altar-mor de Frari e a Virgem do Doge Barbariga, em Murano, das obras da igreja de São Zacarias, em Veneza, de 1505. Outra obra para altar-mor, para a igreja de São Francisco em Veneza, é de 1507.

”Pieta”, 1505.


Os últimos dez anos da vida do mestre são repletos de encomendas. Até a marquesa Isabella Gonzaga de Mântova tinha dificuldade em obter de Bellini algumas obras.
Seu irmão Gentile morreu em 1507 e Giovanni completou o quadro "Prece de São Marcos", que ele deixara inacabado. Em 1513, era o único mestre do salão do palácio, empregando seu pupilo Ticiano como ajudante na conservação das obras.
Sua última obra foi "O banquete dos deuses", para o duque Afonso de Ferrara, mas o pintor morreu antes de terminá-la, tarefa legada a seus pupilos. Tanto artisticamente como pessoalmente, a carreira de Giovanni Bellini foi próspera e ele viveu o suficiente para ver sua própria escola brilhar.

“O banquete dos deuses”, 1514.


O conceito de uma pintura cujo escopo máximo fosse á expressão de tranquilidade harmoniosa dominou a obra tardia de Bellini. A obra “Mulher nova ao espelho” é um belo da transfiguração por ele atingida nas obras da velhice. A figura humana eleva-se a uma grandeza estática. A mulher representada aparece liberta de qualquer tensão, de qualquer paixão interior. À paz de espírito corresponde a da paisagem, que resplende na luz da tarde. Também nos seus últimos anos o pintor não renunciou a aproximar-se do mundo ideal dos mestres mais jovens.

“Mulher nova ao espelho”