quinta-feira, 18 de agosto de 2011

INOCÊNCIA (1872), VISCONDE DE TAUNAY: O ROMANCE REGIONALISTA NO BRASIL, Romantismo

“Romeu e Julieta sertanejo.”


I – INTRODUÇÃO:

O romance “Inocência”, 1872, é reconhecido até hoje como o lugar do amor impossível entre Inocência e Cirino, o “Romeu e Julieta sertanejo”. Além disso, serviu e ainda serve como referencial literário e empírico da exuberância e do pitoresco do sertão brasileiro como representado por Taunay em suas idas ao Oeste brasileiro, por ocasião da Guerra do Paraguai e durante sua vida, como político do Império.
Revelar o Brasil para os brasileiros: esse objetivo define a proposta literária de Taunay, em “Inocência”.
Quando o romance “Inocência” foi publicado, em 1872, conquistou imediatamente o gosto do público. A história foi logo traduzida para o francês, o inglês, o espanhol, o croata, o sueco, o dinamarquês, o polonês, o flamengo e o japonês.
Das páginas dos folhetins e do livro, “Inocência” foi adaptada para o teatro, virou libreto de ópera e chegou ao cinema em três adaptações diferentes, de 1915, 1945 e 1983.
Taunay colheu material para compor muitas de suas personagens e ambientes quando estava em campanha no Mato Grosso, como conta no livro póstumo (1908), “Reminiscências”. Segue dois exemplos da base documental que utilizou para criar o romance “Inocência”.

No dia 30 de junho estávamos no vasto rancho do Sr. José Pereira, bom mineiro que nos acolheu otimamente e era o primeiro morador que encontrávamos à saída do sertão bruto de Camapuã e à entrada do de Santana do Paranaíba, um pouco mais habitado.
Acordando indisposto, bem tarde, saí do pouso, chegando, nesse dia 1 de julho, à margem do Rio Sucuriú, afluente volumoso do Pardo que leva as águas ao Paraná.
Aí vi o anãozinho mudo, mas um tanto gracioso, sobretudo ágil nos movimentos, que me serviu de tipo ao Tico do meu romance “Inocência”.
Passou-nos numa canoa com muito jeito, buscando conversar e tornar-se amável por meio de frenética e engraçada gesticulação. Dei-lhe uma molhadurazinha e pôs-se a pular como um cabrito satisfeito da vida, fazendo-nos muitos acenos de agradecimentos e adeuses com o chapéu de palha furado, que não esqueci de indicar naquele livro”.

Em outra passagem das “Reminiscências”, Taunay descreve como encontrou abrigo na casa de “um tal João Garcia”, só para descobrir, espantado, tratar-se de uma “casa de morfético”, em que os habitantes estavam contaminados com a temível lepra. Ao conversar com o dono da casa, depara-se com a inspiração para sua personagem Inocência, e, pouco tempo depois, para o seu amado Cirino.

Gritou ele para dentro: - “Ó Jacinta, traga duas xícaras”! Dali a pouco penetrava na saleta uma moça, na primeira flor dos anos, e tão formosa, tão resplandecente de beleza, que fiquei pasmado, enleado positivamente de boca aberta.
Afigurava-se-me que um ente sobrenatural havia feito sua aparição e lembrei-me da frase tão exata e expressiva do grande Goethe, quando descreve a impressão que causara a entrada de Dorotéia numa sala: “parecia que aquele ambiente acanhado se tornava imenso, e transformava-se num espaço enorme!”

Tão clara a minha admiração que o velho pôs-se a rir:

- “Então acha bonita a minha neta?
- Com efeito! Foi só o que pude responder a esta pergunta, tão singular, tão rara e digna de reparo naquelas distantes paragens.
E com olhos embelezados, segui todos os gestos daquela excepcional sertaneja, que não se mostrava lá muito acanhada.
Os seus encantos revestiam aquele quartinho de chão batido e paredes nuas de indizível e estupendo prestígio!…
- Daqui a três semanas, declarou-me o avô, casa-se com um primo. Mas o senhor quer ver desgraça? A pobrezinha da inocente já está com o mal!…”
- E, levantando-lhe um maço de esplêndidos cabelos, mostrou-me o lóbulo da orelha direita tumefato e arroxeado!
Toda essa radiosa e extraordinária formosura estava condenada a ser pasto da repugnante lepra!
(…)
Jacinta Garcia deu, pois, nascimento moral a Inocência. Não levei, porém, a exatidão e maldade a ponto de, também, desta fazer desgraçada morfética. Não! fora demais! Do avô tirei o tipo do desconsolado leproso, repelido do rancho de Pereira, o Mineiro, e conservei-lhe no romance o nome verídico.
Num pouso adiante, no José Roberto, encontrei um curandeiro que se intitulava doutor ou cirurgião, à vontade, e serviu-me para a figura do apaixonado Cirino de Campos, atenuando os modos insolentes, antipáticos daquele modelo, com quem entabulei, por curiosidade, conversação.”

Perceba-se que Taunay, tanto no caso de Inocência, de cujo modelo subtraiu a lepra, seja no de Cirino, transformado, pela imaginação ficcional, em figura menos insolente, grosseira e ignorante, tornou as personagens bem mais palatáveis ao gosto romântico do que apresentavam seus modelos na realidade.

II – AUTOR:


Alfred d’Escragnolle Taunay nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de fevereiro de 1843, e faleceu na mesma cidade, em 25 de janeiro de 1899. Seu avô, o importante pintor Nicolau Antônio Taunay, foi um dos chefes da Missão Artística francesa, que veio para o Brasil a convite de D. João VI, em 1818. Seu pai, Félix Emílio Taunay, barão de Taunay, foi um dos preceptores de D. Pedro II e durante muito tempo dirigiu a Escola Nacional de Belas Artes. Pelo lado materno, era neto do conde d’Escragnolle, emigrado da França pelas contingências da Revolução.

Nesse ambiente aristrocrático e rico em arte e cultura, Taunay logo se interessou por literatura, música e desenho. Estudou humanidades no Colégio Pedro II, onde se bacharelou em Letras em 1858. No ano seguinte ingressou no curso de Ciências Físicas e Matemáticas da Escola Militar e tornou-se bacharel em Matemáticas em 1863.
Foi promovido a segundo-tenente de artilharia em 1864 e inscreveu-se no 2o ano de Engenharia Militar. Convocado antes de terminar o curso, em 1865, no início da Guerra do Paraguai, foi incorporado à Expedição de Mato Grosso como ajudante da Comissão de Engenheiros. Esta experiência foi fundamental para a maior parte dos seus escritos, inclusive o primeiro, Cenas de Viagem (1868). Em 1869, foi convidado para ser secretário do Estado-Maior do Conde d’Eu, comandante-em-chefe das forças brasileiras em operação no Paraguai. Uma de suas tarefas era redigir o Diário do Exército, cujo conteúdo foi, em 1870, publicado em livro com o mesmo nome. Após a guerra, terminou o curso de Engenharia e se tornou professor de geologia e mineralogia da Escola Militar.
Publicou o seu primeiro romance, “Mocidade de Trajano”, em 1871, com o pseudônimo de Sílvio Dinarte, que usaria na maior parte das suas obras de ficção. Em 1872, foi publicado, em francês, “A Retirada da Laguna”, episódio em que participara na Guerra do Paraguai, e em 1874, foi publicada a sua tradução em português. Em 1872, além de “A Retirada da Laguna”, Taunay publicou o romance, “Inocência”. Ambos foram elogiados e tornaram seu autor bastante conhecido. Elegeu-se deputado geral pelo Estado de Goiás neste mesmo ano, mandato renovado em 1875. De 76 a 77 foi presidente da província de Santa Catarina.
Viajou para a Europa em 1878, depois da queda do Partido Conservador, do qual era militante. Voltou ao Brasil em 1880, e iniciou uma fase de intensa atividade em defesa de medidas como o casamento civil, a imigração, a libertação gradual dos escravos, a naturalização automática de estrangeiros. Elegeu-se deputado novamente em1881, por Santa Catarina. De 1885 a 86, foi presidente do Paraná e lá implantou a sua política imigratória. Em 86 foi eleito deputado geral por Santa Catarina e, logo a seguir, senador pela mesma província, na vaga do Barão de Laguna. Monarquista convicto, defendeu a abolição dos escravos no Senado. Em 6 de setembro de 1889 recebeu o título de Visconde. No entanto, sua carreira foi interrompida com a proclamação da República. Continuou a defender a monarquia através da imprensa, escrevendo muitos artigos louvando o imperador banido.
Taunay foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Além de romances, escreveu narrativas de guerra e viagens, descrições, recordações, depoimentos, artigos de crítica e escritos políticos. Foi também pintor, compositor e crítico de música.

III – ESTILO LITERÁRIO:

“[...] também os sábios possuem coração tangível e podem, por vezes, usar da ciência como meio de demonstrar impressões sentimentais de que muitos não os julgam suscetíveis.”

Inocência, Epílogo: Reaparece Meyer

“Inocência” com o subtítulo de “narrativa campestre” é considerado é um dos pontos altos do regionalismo romântico brasileiro (o sertão do leste-sul matogrossense, notadamente a cidade de Paranaína e frente colonizadora dos Garcia Leal). A obra retrata os costumes típicos do mundo rural e as particularidades do meio natural e, apresenta várias características evidentes desse estilo literário, como: a hospitalidade humilde do sertanejo; a defesa da tradição, da disciplina, da honra e da família; o casamento como acordo entre famílias; o analfabetismo; o comportamento vingativo; a crendice popular e a religiosidade, representados, principalmente, pelas personagens Inocência e seu pai Pereira. Além disso transferem para o sertanejo, o homem do inteiror, a responsabilidade de representar o elemento nacional que, nos romances indianistas, era simbolizado pela natureza e pelo índio. Entretanto, Taunay introduz no enredo duas personagens que fogem dos padrões específicos do romantismo, já em decadência na época em que a obra foi escrita, são eles: Cirino e Meyer, aproximando-os da estética naturalista, inserindo o homem como produto do meio, da raça e do momento.
Os leitores dos principais centros urbanos são apresentados, assim, a comportamentos típicos do interior. Evidentemente, porém, esse Brasil que surge das mãos dos escritores regionalistas é um país idealizado, construído por um olhar romântico.

IV – ESTRUTURA:

A obra “Inocência” foi publicada inicialmente na forma de folhetins, em capítulos separados nos jornais diários.
Taunay caminha para uma técnica moderna que inovou seu gênero romanesco mesclando comédia, drama e um esquema de fábula amorosa que pode ser comprovada como o casamento visto como resultado de jogo de interesses, a criação de um triângulo amoroso e um amor com empecilhos.
Os 30 capítulos de “Inocência” são introduzidos com alguma citação de algum nome clássico da literatura universal e por um epílogo. Pode-se afirmar que estas citações são de suma importância para a construção da obra de Taunay, visto que o narrador as associa ao capítulo. Alguns dos nomes citados são Goethe, Rousseau, Cervantes, Ovídio, Molière, Walter Scott, Eurípedes, até mesmo Shakespeare.
A estrutura da obra é outro aspecto cuidado pelo autor. Taunay domina com excelência a técnica do corte, a interrupção da ação, geralmente em momento de grande suspense, no final do capítulo, para prender a atenção do leitor e levá-lo a esperar ansiosamente o capítulo seguinte.

V - TEMPO:

O dia 15 de Julho de 1860 e o dia 18 de Agosto de 1863 são as únicas datas do romance. A primeira data diz respeito ao dia em que Pereira encontrou-se com Cirino, e a segunda data diz respeito ao dia em que Meyer, já no final do romance, está na Alemanha e apresenta à comunidade científica do país a descoberta da “Papilio Innocentia” (esse evento nos é noticiado pelo “Die Zeit”). Após o noticiário, nos é apresentada a "voz" do narrador, de onde poderemos concluir que os acontecimentos em “Inocência” acontecem em um período de três anos, sendo que ocorrem entre 1860 e 1861, enquanto que os dois anos que se seguiram constituem um espaço vazio.

Inocência, coitadinha... Exatamente nesse dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora entregue à terra, no imenso sertão de Sant’Ana do Paranaíba, para aí dormir o sono da eternidade”  (p. 158).

VI - ESPAÇO:

Os diferentes espaços característicos de um país tão grande começam a surgir nos romances regionalistas, ampliando suas fronteiras e configurando-se como gigantesco na extensão e arcaico nos costumes.
O quadro social que emerge das páginas de “Inocência” reflete valores e costumes de um Brasil que não foi atingido pelas transformações trazidas pela chegada da família imperial e pela Independência.
Observe como o Visconde de Taunay procurar apresentar de modo detalhado a configuração típica de uma cidade de interior.

“A vila de Sant’Ana”

Debaixo do céu há uma coisa que nunca se viu: é uma cidade pequena sem falatórios, mentiras e bisbilhotices.”

Lavergne.

“[...]
De longe é sumamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.
Ponto terminal do sertão de Mato Grosso, assenta no abaulado dorso de um outeirozinho. O que lhe dá, porém, encanto particular para quem a vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de áureos pomos, em cada folhagem verde-escura se encravam as casas e ressalta a cruz da modesta igreja matriz.
Transpondo límpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de sapé à direita e à esquerda, chega-se à rua principal, que tem por mais grandioso edifício espaçosa casa de sobrado, de construção antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta para a rua, como a querer abrigá-la da totalidade dos ardores do sol.
É aí que mora o major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo, corado.
Na sua loja de fazendas, ao rés do chão, reúne-se a melhor gente da localidade, para ouví-lo dissertar sobre política, ou narrar a guerra dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na corte do Rio de Janeiro, onde estivera pelos anos de 1838 e 1839.
De vez em quando, naquela silenciosa rua em que tão bem se estampa o tipo melancólico de uma povoação acanhada e em decadência, aparece uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e atrai às janelas rostos macilentos de mulheres, ou à porta crianças pálidas das febres do rio Paranaíba e barrigudas de comerem terra.
Também aos domingos, à hora da missa, por ali cruzam mulheres velhas, embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam capote comprido até aos pés e usam daqueles pentes andaluzes, de moda em tempos que já vão longe.”

TAUNAY, Visconde de. Inocência. 29. ed. São Paulo: Ática, 2001. p. 118. (Fragmento)

O espaço em “Inocência” é muito claro: sertão do Mato Grosso, com uma descrição da estrada que corta a região desde a Vila de Santana do Paranaíba aos campos de Camapuã e da natureza que o cerca.
O autor realiza verdadeiras “pinturas” do espaço em que se passa a ação e sua apresentação sugere uma retomada romântica do “locus amoenus” da tradição clássica: local harmonioso, pacífico, ideal. A diferença, aqui, é que esse espaço é o do sertão chamado bruto e do sertanejo que viaja constantemente por essa estrada e vive nos seus arredores.
Segundo o narrador, na região onde:

"(...) confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso", na "parte sul-oriental da vastíssima província de Mato Grosso" (p.1).

Taunay conhecia profundamente esse ambiente e procurou descrever o espaço do romance através de seu contexto nos costumes sertanejos.
O autor descreve o ambiente em que o enredo irá se prolongar de uma forma minuciosa e detalhista, retratando a cor local:

O legítimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral, família. Enquanto moço, seu fim único é devassar terras, pisar campos onde ninguém antes pusera pé, vadear rios desconhecidos, despontar cabeceiras e furar matas, que descobridor algum até então haja varado. Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importância das viagens empreendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes caudais que transpôs, os ribeirões que batizou, as serras que transmontou e os pantanais que afoitamente cortou, quando não levou dias e dias a rodeá-los com rara paciência” (p.7).

VII – LINGUAGEM:

O romance registra, na voz das personagens, a linguagem coloquial, popular, característica da região (arcaísmos, corruptelas, provérbios, expressões típicas). Porém, o seu narrador, onisciente, utiliza-se da norma culta da língua para contar a história em terceira pessoa. Taunay destaca, através de grifos e notas explicativas, as expressões, erros gramaticais e confusões linguísticas regionalistas que as personagens fazem ao dialogar. O resultado dessa junção é uma prosa bastante viva, colorida e com acentos humorísticos na sua formulação e interpretações, como podemos notar neste trecho de conversa entre Meyer e Pereira:

“ - Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria certificar-se de coisa posta muito em dúvida, deveras o senhor anda palmeando estes sertões para fisgar anicetos?
- Pois não, respondeu Meyer com algum entusiasmo; na minha terra valem muito dinheiro para estudos, museus e coleções. Estou viajando por conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... É muito precioso!
- Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem haverá de dizer que até com isso se pode bichar? Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo atrás de vaga-lumes e voadores do mato, como menino às voltas com cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa? Se eu não tivesse família, era capaz de ir com vosmecê por esses fundões afora, porque sempre gostei de lidar com pessoas de qualidade e instrução... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe. Homem de repentes... Vem-me cá uma idéia muito estrambótica às vezes, mas embirro e acabou-se; porque, se há alguém esturrado e teimoso, é este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que tivesse de passar canseiras como ninguém... O caso era meter-se-me a tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se…Fossem buscar o remédio onde quisessem... mas duvido que o achassem.”

Outros exemplos são os registros das distorções fonéticas e das consequentes confusões criadas entre o português e outras línguas, como o alemão e o francês. Meyer chama seu assistente de Juque, no lugar de Juca, enquanto Juca o chama de Mochu, corruptela da palavra francesa monsieur. Pereira confunde o nome de Meyer, frequentemente lhe tratando por Maia e reproduz o nome do local de nascimento do alemão, a Saxônia, como saco-sonha.
Pereira chama Inocência de Nocência, o que, para o crítico Francisco Manuel Silveira, é intencional, devido à etimologia das duas palavras. Ele afirma que Taunay quer mostrar que a personagem, personificação da inocência, terá o destino de nocência, “por ser pivô de um crime passional”:

VIII – PERSONAGENS:

O sertanejo “legítimo” é descrito como um homem “que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a solidão”:

MARTINHO DOS SANTOS PEREIRA (PEREIRA): homem de aproximadamente 45 anos, gordo, cabelos brancos, rosto espressivo e franco. Personagem plana que apresenta comportamento rude, autoritário, justo, honesto, hospitaleiro, firme em seus propósitos, tradicionalista, conservador de costumes e morais das quais utiliza através de sua vida como sociedade patriarcal. Pai de Inocência.

INOCÊNCIA: moça sertaneja simples, 18 anos, carinhosa, meiga, indefesa e bela. Cabelos longos e pretos, nariz fino, olhos matadores, beleza deslumbrante e incomparável, faces mimosas, cílios sedosos, boca pequena e queixo admiravelmente torneado. Enfim, um ideal de beleza sertaneja. Seu pai exige-lhe obediência total, num regime antigo e educada longe da civilização. Está prometida a se casar com um homem escolhido pelo pai (Manecão), homem criado no sertão bruto, de índole violenta.

MANECÃO: alto, forte, pançudo e usava bigode. Negociante de gado, vaqueiro bruto do sertão. Pessoa fria que matava, se fosse preciso, em defesa de sua honra que, viajando, arrumava os papéis do seu casamento arranjado com Inocência.

CIRINO FERREIRA CAMPOS: moço de aproximadamente 25 anos, de bom caráter, presença agradável, olhos negros e bem rasgados, barbas e cabelos cortados quase à escovinha. Era inteligente, decidido e doava a própria vida em defesa do amor. Vivia caminhando pelo sertão, passava-se por médico utilizando seus conhecimentos farmacêuticos para ajudar as doenças das pessoas.

GUILHERME TEMBEL MEYER: moço alto, rosto redondo, juvenil, olhos claros, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido bigode e cabelos muito louros. Naturalista alemão que desembarcou no Brasil para conhecer novas espécies de insetos, às vezes é descrito como uma pessoa que tem grandes conhecimentos científicos, mas que pouco sabe da estreiteza moral do mundo que vive. É considerado um dos protagonistas mais cômicos da ficção brasileira do século XIX quando comete algumas trapalhadas. Pessoa de boa índole, inteligente e admirador da natureza e da beleza de Inocência. Hospedou-se na casa de Pereira porque trazia consigo uma carta de Chiquinho, desperta insegurança no anfitrião quando elogia Inocência.

TICO: figura que lembra o Quasímodo de Victor Hugo, é um anão guardião, mudo, raquítico, esperto e fiel de Inocência e relata a Pereira seu romance com Cirino.

MARIA CONGA: escrava preta, idosa e malvestida de Pereira. Usava na cabeça um pano branco de algodão.

ANTÔNIO CESÁRIO: fazendeiro do sertão e padrinho de Inocência que tenta ajudá-la em seu romance com Cirino. Homem respeitado, honrado e justo.

FRANCISCO DOS SANTOS PEREIRA (Chiquinho): irmão mais velho de Pereira que envia uma carta a ele através de Meyer.

MAJOR MARTINHO DE MELO TAQUES: juiz de paz e servia de juiz municipal. Participou da Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul. Era comerciante e gostava de contar “causos”.

JOSÉ PINHO (JUQUE): ajudante de Meyer. Era muito intrometido em conversas alheias. Pessoa boa e de confiança de seu patrão.

IX – SÍNTESE DO RESUMO:

O traço pitoresco da natureza como pintado por Taunay surge logo no primeiro capítulo, intitulado “O Sertão e o Sertanejo”:

Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui variadas se mostram as paisagens em torno.
Ora a perspectiva dos cerrados, não desses cerrados de arbustos raquíticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas Gerais, mas de garbosas e elevadas árvores que, se bem não tomem, todas, o corpo de que são capazes à beira das águas correntes ou regadas pela linfa dos córregos, contudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que as alimenta: ora são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de viridente e mimosa grama, toda salpicada de silvestres flores: ora sucessões de luxuriantes capões, tão regulares e simétricos em sua disposição que surpreendem e embelezam os olhos: ora, enfim, charnecas meio apauladas, meio secas, onde nasce o altivo buriti e o gravatá entrança o seu tapume espinhoso” (p. 8).

Essa exaltação da natureza da terra brasilis como o lugar onde o poeta expande seus estados d’alma, numa relação que parte de dentro para fora, marca uma proposição ideológica nacionalista de construção de uma identidade brasileira, por outro é referência característica do Romantismo.
É nesta estrada que a história se inicia, no dia 15 de julho de 1860.
A personagem Martinho dos Santos Pereira, homem já de alguma idade, gordo, de compleição sanguínea, rosto expressivo e franco. Trajava à mineira e parecia, como realmente era, morador daquela localidade. Sr. Pereira nasceu em Minas Gerais, casou cedo, viveu em Diamantina até sua esposa morrer. Havia vendido sua loja de ferragens e, há doze anos, morava “nestes socavões”. Percorrendo os caminhos do sertão, encontra-se com Cirino Ferreira dos Santos, jovem andarilho, conhecido por “doutor”, um caipira de São Paulo.

Quando muito vinte e cinco anos, presença agradável, olhos negros e bem rasgados, barba e cabelos cortados quase à escovinha e ar tão inteligente quanto decidido”.

Cirino vagava montado em seu cavalo, não tinha um destino certo quando enveredou pela estrada que ligava a vila de Santana do Parnaíba aos campos de Camapuã, sul da província de Mato Grosso, fronteira de Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Sua única certeza é que devia seguir “curando maleitas e feridas brabas” (p.22), em lugares esquecidos, no sertão e ganhar algum dinheiro, pois tem uma dívida de jogo para saldar.
Cirino, na verdade, não era um médico, porém, "em localidade pequena, de simples boticário a médico não há mais que um passo".
Seu pai vendia medicamentos e o mandou, aos doze anos, viver com seu padrinho em Ouro Preto. Lá estudou no Colégio do Caraça, mas quando o tio morreu, o rapaz foi excluído do Colégio.
Tinha 18 anos e foi “servir de caixeiro numa botica velha e manhosa”. Aprendeu a receitar e passou a fazer excursões pelo interior, medicando as pessoas, utilizando-se “de alguns conhecimentos de valor positivo, outros que a experiência lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição ministravam”.
O manual em que se baseava era um guia médico descritivo de doenças e de uso de medicamentos e emprego de plantas medicinais. Mas, não era um charlatão e sim uma pessoa dedicada que se desdobrava em ajudar o povo doente e oprimido.

Bem formado era o coração daquele moço, sua alma elevada e incapaz de pensamentos menos dignos; entretanto no íntimo do seu caráter se haviam insensivelmente enraizado certos hábitos de orgulho, repassado de tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insuficiência científica, como da roda em que sempre vivera.”

Eles se apresentam e como Sr. Pereira gostava de prosear, logo travaram amizade.
O mineiro tendo sua filha Inocência adoentada, sofrendo com grande febre e tomando conhecimento dos dotes medicinais de Cirino, convida-o para se hospedar em sua tapera.

Até agora era uma rapariga forçuda, sadia e rosada como um jambo: nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo (p. 17).
[...] E se o senhor visse os modos que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com eles e que os entende... Uma bicharia, em chegando ao pé de Nocência, fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco..." (p. 29-30).

Cirino era igualmente levado pelo desejo de conhecer terras novas, lugares perdidos nos mais diversos pontos do interior da província. Por isso, não hesitou em acompanhar o falante Sr. Pereira, que, seguindo o mesmo caminho, voltava para casa depois da frustrada tentativa de conseguir remédio para a filha doente.
O encontro casual com Cirino lhe trouxe não apenas um parceiro de prosa, mas também o remédio que procurava, dessa forma, aceita o convite e partem para lá.
Após descrever o cenário, Taunay, seguindo esquema dramático elementar, apresenta os principais atores do drama: Cirino e Pereira. Note-se que Inocência só irá aparecer depois. Taunay, assim, cria o suspense quanto à aparição da personagem-título, que irá deflagrar os conflitos inicialmente apenas sugeridos de forma vaga.
A casa de Pereira era dividida em duas partes: um cômodo destinado aos hóspedes, "todo fechado, com exceção da porta por onde se entrava" e, nos fundos, a casa da família, vedada "às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o compartimento da frente".
Apesar da gravidade da doença, o Sr. Pereira demorou-se em conduzir o médico até o quarto da filha. Hospitaleiro, ofereceu a Cirino comida farta e pouso. Depois, com muita hesitação, dirigiu-se ao médico em sinal de alerta:

Antes de sair da sala, deteve Pereira o hóspede com ar de quem precisava ticar em assunto de gravidade e ao mesmo tempo de difícil explicação.
Afinal começou meio hesitante:
- Sr. Cirino, eu cá sou homem muito bom de gênio, muito amigo de todos, muito acomodado e que tenho o coração perto da boca, como vosmecê deve ter visto...
- Por certo, concordou o outro.
- Pois bem, mas... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vai o doutor entrar no interior da minha casa e... deve portar-se como...
- Oh, Sr. Pereira! Atalhou Cirino com animação, mas sem grande estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da vista dos profanos os seus aposentos domésticos, posso gabar-me de ter sido recebido no seio de muita família honesta e sei proceder como devo.”

E continuou:

Nocência tem 18 anos, é muito ariscazinha de modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi criada sem mãe, e aqui nestes fundões. Vai se casar, por determinação do pai, com Manecão Doca, um homem às direitas, desempenado e trabucador como ele só... fura estes sertões todos e vem tangendo pontas de gado que metem pasmo."

Sr. Pereira acrescenta que:

"- Esta obrigação de casar as mulheres é o diacho!... Se não tomam estado, ficam jururus e fanadinhas...; se casam, podem cair nas mãos de algum marido malvado... E depois, as histórias! Hi, meu Deus, mulheres numa casa é coisa de meter medo... São redomas de vidro que tudo pode quebrar (...) O Manecão que se aguente, quando a tiver por sua... Com gente de saia não há que fiar... Cruz! botam famílias inteiras a perder, enquanto o demo esfrega um olho."

Em seguida, recomenda-lhe que a examine como um profissional e não como um homem.

“(...) Sem olhar para a mulher, este lhe responde que está acostumado a lidar com as famílias e a respeitá-las.”

É impressionante constatar que, mesmo preocupado com o estado de Inocência, Pereira hesita muito em permitir que o médico Cirino entre no quarto da filha, para não comprometer a virtude da moça.
Essa cena ilustra bem como, no Brasil do Império, em diferentes partes do país, muitos viviam e ainda vivem segundo estruturas coloniais. Nesse sentido, as obras regionalistas mostram mais retratos locais das pessoas e dos costumes do meio rural do que o quadro geral de uma época.
O narrador interfere neste ponto para condenar "a opinião injuriosa sobre as mulheres" corrente nos sertões do Brasil, porque esta acarreta, "além da rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor idade, mas sobretudo os numerosos crimes cometidos, mal se suspeita possibilidade de qualquer intriga amorosa entre pessoa da família e algum estranho".
Este comentário é um prenúncio dos acontecimentos que se seguirão e também delimita o “vilão” da história: o casamento sem amor, pré-determinado pela família e a visão da mulher como um objeto perigoso e não-confiável.
Sr. Pereira vivia só, com a filha, no mais calado sertão. Guardava a jovem dos olhos dos viajantes, pois já havia dado sua palavra que Inocência seria mulher do tropeiro Manecão, que viajava negociando gado e cuidado dos papéis para o casamento. Era grande a responsabilidade de Pereira, já que, no seu entender, as mulheres eram frágeis, inconstantes e incapazes de seguir leis da razão.

“- Eu repito, disse ele com calor, isto de mulheres, não há que fiar. Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas que nem um fuso...Uma piscadela de olho mais duvidosa, era logo pau...Contaram-me que hoje lá nas cidades...arrenego!...não há menina, por pobrezinha que seja, que não saiba ler livros de forma a garatujar no papel...que deixe de ir a fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer tafulão malcriado...[...]” (p.35).

Para o Sr. Pereira, todos os homens representavam um grande risco à sua doce e bela, Nocência, inclusive a leitura que para ele, corrompe o caráter feminino e transforma moças de família em “raparigas fadistas”. A própria Inocência, protagonista dessa história, é mantida analfabeta e prisioneira de acordo com a vontade do pai. Ele representa todo o poder do “pater famílias”. Homem rude e ignorante que controla a existência da filha com mão de ferro.
Cirino discorda dessa opinião de Pereira sobre as mulheres, porque "não há motivo pra tanto desconfiar delas e ter os homens em tão boa conta".
Na visão masculina de Pereira e do universo sócio-cultural que ele representa, “as mulheres não são confiáveis, porque sujeitas a sucumbir a qualquer sedução, fruto da sua falta de vivência e daquilo que é considerado a sua fraqueza interior. Por outro lado, a mulher também é uma perigosa sedutora, vinculada ao mito do pecado original”, como afirma a crítica Ilka Brunhilde Laurito. Já Cirino apresenta uma visão igualitária dos direitos femininos porque pertence a outro universo cultural.
Seus cuidados faziam-se ainda maiores porque Inocência era dotada de beleza incomum. Por isso, Pereira dividia com Tico, um anão mudo, a tarefa de guardar a filha. “- Orgulhava-se o homúnculo de ser “uma espécie de cachorro de Nocência” (p.41).
Contudo, quando Cirino entra no quarto escuro para examinar Inocência e, com a ajuda de uma vela, vê a moça, fica profundamente desconcertado. Mesmo doente, a jovem demonstrava uma beleza impressionante.

Apesar de bastante descorada e um tanto magra, era Inocência de beleza deslumbrante.
Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade, realçada pela meiguice do olhar sereno que, a custo, parecia coar por entre os cílios sedosos a franjar-lhe as pálpebras, e compridos a ponto de projetarem sombras nas mimosas faces.
Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a boca pequena, e o queixo admiravelmente torneado.
Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um nada á camisinha de crivo que vestia, deixando nu um colo de fascinadora alvura, em que ressaltava um ou outro sinal de nascença.”

Além dos cuidados excessivos de seu pai, Inocência também é protegida pelo anão Tico. O anão é praticamente mudo, como diz Pereira:

Não pode falar... isto é, sempre pode dizer uma palavra ou outra, mas muito a custo e quase a estourar de raiva e de canseira. Quando se mete a querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma gritaria dos meus pecados…” Mesmo assim, consegue se comunicar muito bem e “é uma espécie de cachorro de Nocência”.

Naquela mesma noite, chega à casa de Pereira um naturalista alemão, chamado Guilherme Tembel Meyer, que caça borboletas e tinha por objetivo descobrir espécimes novos que os envia à Alemanha para serem estudadas. José Pinho (Juque), ajudante de Dr. Meyer, explicava a função de seu patrão: procurar insetos. E isso durante quase dois anos...
O entomologista trazia uma coleção de insetos e muitas cartas de recomendação. Entre elas, uma, assinada por Francisco dos Santos Pereira, irmão esquecido do Sr. Pereira. Esse feliz acaso foi suficiente para o bom matuto perder a cabeça de alegria e se colocar totalmente à disposição do alemão. Pereira lhe dá abrigo e decide tratar o alemão como se fosse da família.

Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brasil” (p.59), diz, emocionado, o matuto. Como prova de sua satisfação, promete apresentar-lhe a filha Inocência assim que ela se recupere.
Os remédios de Cirino logo trazem a saúde de volta ao corpo de Inocência e, com ela, os traços vitais de sua beleza. O “doutor” percebe rapidamente que, à medida que cura Inocência, torna-se ele, enfermo, acometido pelo mal grave e incurável da paixão.
Um dia, após o almoço na casa de Pereira, Inocência é apresentada a Meyer. Diferentemente de Cirino, Meyer fascinado pela beleza de Inocência e ignorante dos costumes locais, não consegue se controlar e faz muitos elogios a Inocência, o que deixa Pereira furioso e preocupado.
Enquanto o alemão fala, enrolando a língua, Pereira e Cirino não conseguem disfarçar o mal-estar causado pelo discurso de Meyer. Um momento patético, que abala a todos.

Tornou-se Pereira pálido [...]; Inocência enrubesceu quem nem uma romã; Cirino sentiu um movimento impetuoso, misturado de estranheza e desespero, e, lá da sua pele de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão. “(p.65)

Desconfiava a tal ponto que o ilustre entomólogo passa a ser considerado "persona non grata".
Com medo de que Meyer ponha sua filha a perder, passa a dormir na casa de hóspedes para melhor vigiar o naturalista e gasta todo o seu tempo embrenhado na mata com o naturalista, que vai aumentando, a cada dia, sua coleção de espécies raras de insetos.
Com a desconfiança de Meyer, passa a confiar em Cirino, que aproveita a oportunidade para se aproximar de Inocência.
Num desses dias, como fosse sair muito cedo com Meyer e Juca para a mata, Pereira encarrega Cirino de medicar Inocência na hora certa. O doutor passa a manhã contando todos os segundo até a hora de poder ver a moça. Enquanto Tico vai chamar a criada para preparar café, Cirino conversa apaixonadamente com Inocência.
Em nenhum momento, Pereira percebe que o doutor está perdidamente apaixonado por sua filha, embora o ache meio abatido às vezes. Para evitar que Cirino vá embora, Pereira arranja-lhe muitos doentes. Quanto mais Cirino cura os males alheios, mais se conscientiza de seu triste destino.
Inocência também está apaixonada, mas se sente culpada e tem medo de enfrentar a fúria paterna: “Se papai aparecesse... não tinha o direito de me matar?...”
A frase demonstra o quanto Inocência se sente propriedade do pai, e tem seus valores machistas incorporados. Mas a interrogação reflete também a dúvida suscitada pela paixão a Cirino. Mais tarde, ela fala:

“(..) nestes dias tenho aprendido muita coisa. Andava neste mundo e dele não conhecia maldade alguma... A paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguém me disse nada; mas parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é mau... Sei que devo de ter medo de mecê porque pode botar-me a perder... Não formo juízo como, mas a minha honra e a de toda a minha família estão nas suas mãos...”

Amavam-se às escondidas e o laranjal era local de encontros proibidos. Pensavam que ninguém poderia desconfiar, mas Tico, o anãozinho mudo, estava atento.
Enquanto Meyer caçava borboletas, Cirino podia procurar e conquistar “a sua borboleta”.
A ira de Pereira atinge o grau máximo no dia em que Meyer, vasculhando a mata perto de seu roçado, cai em grande euforia ao descobrir uma borboleta de uma espécie totalmente desconhecida. Pulando “como um cabrito” (p.103), anuncia que dará o nome de Inocência a seu achado: “Papilio Innocentia”, em homenagem à sua beleza. Pereira recebe a notícia como uma grande ofensa: “Vejam só... o nome de Nocência numa bicharada!... Até parece mangação...” (p.104).
Depois do grande achado, Meyer, exultante e vitorioso, decide partir, deixando Pereira duvidoso quanto ao excesso de suas desconfianças:

“[...] Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá da cachola? [...] Hoje estou convencido que o tal alemão era bom e sincero... Olhou para a menina... achou-a bonitinha... e disse aquele despotismo de asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que os outros se podem fiar... Às vezes o perigo vem donde nunca se esperou...” (p.111-2).

Cirino não tem coragem de falar com Pereira sobre a jovem, já que ele sempre ameaça matar o homem que lhe “desonrar a casa”.
Sem nenhuma esperança, Inocência e Cirino se encontram mais uma vez às escondidas. No laranjal, numa noite de luar, pensam numa solução para suas vidas. Cirino propõe-lhe fuga. Inocência recusa com medo de tornar uma mulher perdida, amaldiçoada pelo pai. Diante do pranto de Cirino, Inocência lembra-se de seu padrinho Antônio Cesário. Seu pai lhe devia dinheiro e respeitava sua vontade; se Cirino conseguisse convencê-lo a falar com Pereira, talvez eles estivessem salvos. Enquanto se abraçavam felizes e esperançosos, ouvem um assobio seguido de uma gargalhada. Cirino pega Inocência nos braços e a leva para casa. Ao voltar ao laranjal, sente algo cair sobre seus pés, pensa ser assombração. Aterrorizado, ouve um tiro disparado por ordem de Pereira, que vistoriava o pomar junto com um escravo. Cirino corre de volta para seu alojamento, aonde consegue chegar antes de Pereira. Finge não saber de nada.
Nesse mesmo dia, parte em busca da ajuda de Antônio Cesário.
O padrinho mora “para lá nos terrenos Gerais”. Cirino calcula que vai levar uma semana para ir e voltar. Despede-se da amada, inventa uma desculpa para Pereira e parte em direção à fazenda de Antônio Cesário. No caminho, cruza com Manecão, que está indo à casa de Pereira com tudo pronto para a realização de seu casamento com Inocência.
Cirino, por sua vez, encontra Cesário e, com muita dificuldade, abre-lhe o coração. O fazendeiro, desconfiado, lhe faz muitas perguntas e, por fim, pede-lhe que faça um juramento.
Cirino aceita imediatamente, e Cesário, impressionado com o caráter e os sentimentos nobres do moço, que jurara sem saber o quê, promete-lhe pensar durante oito dias. Se resolvesse ajudá-los, apareceria até o final desse período; caso contrário, valeria o juramento: Cirino deveria desaparecer de suas terras e da vida de Inocência. Enquanto isso, Manecão é recebido festivamente por Pereira em sua casa. No entanto, Inocência está muito triste e parece doente. Chamada por seu pai para conversar com o noivo, ela diz que não se lembra de ter concordado com o casamento, afirma que não quer se casar e seu pai a agride.

“- Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quis pôr-se de pé, mas por instantes não pode.
- Está doida, balbuciou, está doida.
E segurando-se à mesa, ergueu-se terrível - Então, você não quer? Perguntou com os queixos a bater de raiva.
- Não, disse a moça com desespero, quero antes...
- Não pode terminar (p.138).”

Pereira acreditava ainda que Meyer fosse o causador da desgraça de sua família. Decide, então, matar o alemão.
O anão Tico, que tudo sabia, comunica a Pereira que ele está enganado, não fora o alemão o responsável, mas, sim, Cirino. Fulminado, mas não liquidado, Pereira autoriza Manecão a lavar a honra de sua casa. O tropeiro parte imediatamente.
Manecão segue Cirino durante três dias, enquanto este, sem perceber a sua presença, vai todos os dias à estrada esperar por Antônio Cesário. No final do prazo dado pelo padrinho de Inocência, Cirino estava decidido a se matar se ele não viesse ao seu encontro.
No último dia do prazo combinado, Cirino espera ansiosamente ver Cesário quando depara com Manecão que lhe dirige algumas acusações e em seguida, pega sua arma e atira impiedosamente no rival. Cirino ainda tem tempo de perdoar seu algoz e diz que ele matou também à Inocência. Ambos ouvem um cavalo se aproximando e Manecão foge.
Para completar a tragédia, quem está chegando é Antônio Cesário, que finalmente decidira intervir a favor de Inocência e Cirino. Encontra Cirino agonizando, pergunta quem fez aquilo, mas Cirino não diz o nome do assassino. Em seguida, pede a Cesário que diga a Inocência que morreu por causa dela, que pegue o dinheiro que está em seu bolso e pague sua dívida e o que sobrar deve ser distribuído aos pobres, “sobretudo aos morféticos”. Seu último pedido é para que Cesário prometa que não deixará Inocência casar com Manecão.

Cirino caiu por terra, pedindo água e sussurrando o nome de Inocência.”

A história termina na Alemanha, em 18 de agosto de 1863, com a aclamação de Meyer pela Sociedade Geral Entomológica e pela Imprensa, que elogia “os prodígios entomológicos” recolhidos por ele em “suas dilatadas peregrinações”. Principalmente, a borboleta “Papilio Innocentia”, cujo nome fora dado “em homenagem à beleza de uma donzela (Mädchen) dos desertos da Província de Mato Grosso (Brasil), criatura, segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura”.
Naquele dia, fazia exatamente dois anos que Inocência morrera, “no imenso sertão de Santana do Paranaíba”.

X – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

“Inocência”, pela igualdade de enredos, é muitas vezes associada a “Romeu e Julieta” de William Shakespeare e às vezes, conhecida como "Romeu e Julieta sertanejo", onde as duas personagens principais se amam mas possuem um amor impossível e, além de terminarem num final trágico, possuem a tentativa de ajuda de uma pessoa que deseja a realização amorosa de ambos (no caso de “Inocência” seria Antônio Cesário). Outras semelhanças encontradas pelos críticos é a situação de Inocência quando perde Cirino, que pode ser uma conexão com a personagem Teresa de “Amor de Perdição”, do português Camilo Castelo Branco.
Seu autor, Visconde de Taunay, soube unir ao seu conhecimento prático do país, adquirindo em inúmeras viagens na condição de militar, o seu agudo senso de observação da natureza e da vida social do Sertão brasileiro.
A qualidade de Inocência resulta do equilíbrio alcançado entre os aspectos ligados ao conceito de verossimilhança, que muitas vezes chegavam a comprometer a qualidade de obras regionalistas, como a tensão entre ficção e realidade, a linguagem culta e a linguagem regional e a adequação dos valores românticos à realidade bruta do nosso Sertão. Abria-se assim, para o Romantismo, o campo fecundo do romance sertanejo, que até hoje continua a fornecer matéria à nossa literatura.
Ao lado dos acontecimentos, que constituem a trama amorosa, há também o choque de valores entre Pereira e Meyer, um naturalista alemão que se hospedara na casa de Pereira à procura de borboletas e incapaz de perceber a estreiteza moral do mundo em que está metido, evidenciando as contradições entre o meio rural brasileiro e o meio urbano europeu.
A obra “Inocência” apresenta grande diversidade de temas, entretanto, o encontro inesperado, os conflitos familiares e o final trágico são seus temas claros. Muitos desses assuntos, estudados pelos críticos literários, fazem parte da estrutura de “Inocência” e muitos deles estão listados abaixo:

1. O conflito amoroso:

Inocência (do latim innocentia, ae) significa: inocuidade, candura, pureza, simplicidade, ingenuidade, qualidade do que é inocente (= inofensivo, inócuo, sem culpa, isento de malícia, simples, ingênuo, ignorante). Esta palavra, em latim, é o antônimo de nocentia, ae – o que é nocente, prejudicial, nocivo, o que causa dano e mal.

“(…) A mocinha, na ótica do pai e dos preconceituosos valores sertanejos, é Nocência, isto é, nocente, danosa, nociva, fonte do mal. (…) Bem e mal imbricam-se na i(nocência) dos atos, preconceitos e dogmas das personagens que conflitam porque os valores citadino (Cirino) e europeu (Meyer) se opõem inocentemente à simplicidade e ignorância e ingenuidade dos códigos morais sertanejos (Pereira, Manecão, até mesmo Cesário).
(…) O que representa a inocuidade, o que não é nocivo ou prejudicial para certos valores éticos, será visto como nocência, nocividade danosa, por outros códigos morais – e vice-versa.”

Cirino é apenas o amoroso; Inocência a virgem apaixonada; Pereira, além de possuir boa índole, ama desesperadamente a filha. Portanto, também ele nos é mostrado como vítima dos costumes patriarcais. Manecão o sertanejo rude; Meyer o cientista para quem a vida se resume na sua especialidade, em suma, todas as personagens são apreciadas tão somente através do papel que devem representar no entrecho, perdendo algumas vezes por isso a veracidade.
Na obra também observamos o triângulo amoroso, onde o amor não encontra seu par, como sugere a crítica Irene Machado:

"Enquanto perdura a situação conflituosa, o amor impossível exprime uma situação de impasse que se traduz através da constituição dos triângulos amorosos: o amor não encontra seu par. Daí o desencontro. No romance de Taunay, temos vários triângulos amorosos, dependendo dos elementos que o constituem. Os elementos mudam segundo o ponto de vista em questão: do ponto de vista dos namorados: Inocência, Cirino e Manecão; e do ponto de vista de Pereira e do ponto de vista de Cirino: Inocência, Meyer, Manecão. Amor diante da razão social e, conseqüentemente, permanência do statu quo. É uma questão de honra: o pai prefere ver sua filha morta a ter seu nome desonrado. Que nome?... O importante é que a morte garante a pureza, do nome e da filha. Para Inocência, a morte é a única saída para o impasse a que sua vida foi encaminhada. É a única forma de escapar do compromisso assumido e de não se casar com Manecão; e seria também a única forma de não cair em desgraça se atendesse ao pedido de fuga de Cirino. A morte de Inocência é uma daquelas mortes românticas provocadas pelo acaso. Morte de amor: Inocência livrou-se da febre da maleita, mas não escapou da febre da paixão. A morte de Cirino é fruto de uma vingança, por isso ele se torna um herói. Morre honestamente, enfrentando seu rival. Ambas são mortes românticas, morte que ataca jovens apaixonados. É a única forma de conservar o encantamento da paixão."

2. Ultrarromântico e antecipações Realistas:
 Durante o Romantismo, a literatura vive a “apoteose do sentimento”, considera a imaginação superior à razão e à beleza, porque ela não conhece limites.
“Inocência” embora, possua um enredo ultra-romântico: o fim trágico, onde a protagonista definha em amargura, solidão e tristeza e, morre numa caracterização típica do romantismo, os enredos secundários do livro são considerados quase todos como realistas.
Alguns críticos consideram que Meyer foi o único que conseguiu a realização de seu sentimento e, portanto, é o vitorioso da história, a partir do momento que driblou os "valores autoritários" de Pereira. Os críticos vêem essa vitória como um "brinde à inteligência", a partir do momento em que o personagem Meyer é homem da cidade e pode, ao contrário de Cirino, desviar-se do comportamento rude.
Para a crítica Irene Machado, "Graças à medicina popular de Cirino, Inocência se salva da moléstia, e graças à ciência de Meyer, ela vive eternamente numa outra esfera de existência."
Essa observação da realidade regional leva alguns críticos a considerar “Inocência” uma obra de antecipação realista, já escapando aos modelos idealizantes românticos. Lúcia Miguel Pereira, entretanto, pondera que:

Não é (…) Inocência um romance realista, porque só na formação do ambiente o ousou ser Taunay; as figuras humanas ainda pertencem ao convencionalismo romântico, isto é, encarnam cada uma um tipo ideal, com todas as suas características.”

3. O paralelismo entre o destino da borboleta e de Inocência:

Segundo a crítica Ilka Laurito:

A borboleta é capturada e morta, para ser exibida na Europa: sai do seu meio ambiente através da morte. Inocência, prisioneira e vítima de seu meio, transcende-o e se liberta apenas pela morte. Ambas representam a ideia de beleza e de fragilidade. Enquanto a borboleta se eterniza e perpetua o nome de Inocência, espetada pelo cientista num estojo de colecionador, a personagem do romance é eternizada pelo romancista que, pode-se dizer, “espeta-a” nas páginas do livro.”

4. Tico: a tão estranha figura:

A primeira aparição de Tico acontece quando Cirino é levado por Pereira ao quarto da enferma:

“- Ó Tico, disse [Pereira], venha cá...
Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto sulcado de rugas, como se já fora entrado em anos, mas os olhinhos vivos e a negrejante quedelha mostravam idade pouco adiantada. Suas perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer palmípede
- Oh! exclamou Cirino ao ver entrar no círculo de luz tão estranha figura [...] “(p. 31).

Ao vislumbrar “tão estranha figura”, Cirino parece surpreso, como se enxergasse não um ser humano, um rosto humano, porém uma máscara “com dentinhos alvos e agudos”, mirando-o com “olhar inquisidor e altivo” (p. 32), com os de um monstro.
Além de um aspecto que beira a repugnância, Tico não fala, emitindo gritos, grunhidos e algumas poucas palavras, estas com dificuldade. Contudo, não é surdo. Além dele, outras personagens carregam marcas monstruosas e também do duplo em Inocência: Pereira e Manecão são espécies de vampiros, sugando a força juvenil de Inocência para a manutenção de seus poderes de macho e de seus pretensos direitos patriarcais; Cirino e Meyer representam o duplo, com o cirurgião mineiro aproveitando-se da desconfiança de Pereira sobre o botânico e seus elogios à filha para dissimular suas intenções de enamorado; Inocência é a morta-viva, uma vez que sua presença no mundo como mulher apaixonada é interditada em favor de seus papéis como filha e como futura esposa, papéis estes de subordinação ao autoritarismo masculino.
Casar Inocência com Manecão não é uma questão sucessória de patrimônio ou de manutenção financeira, uma vez que Pereira declara ter um filho varão, “trabalhando em porcadas para as bandas do Rio” (p. 27), seu herdeiro. É, sim, um reforço autoritário da visão masculina da mulher na sua face feminocida, ainda que dissimulada em palavras de cuidado com a honra familiar.
Apresentados brevemente monstros, vampiros e o duplo em Inocência, nos deteremos, neste ensaio, no monstro Tico. Jeffrey Jerome Cohen, em A cultura dos monstros: sete teses, propõe sete assertivas sobre os monstros gerados pelas culturas: “(1) O corpo do monstro é um corpo cultural; (2) O monstro sempre escapa; (3) O monstro é o arauto da crise das categorias; (4) O monstro mora nos portões da diferença; (5) O monstro policia as fronteiras do possível; (6) O medo do monstro é uma espécie de desejo; e (7) O monstro está situado no limiar... do tornar-se” (2000, p. 26-55).
Entre as proposições de Cohen, interessam-nos: o escapar do monstro; o monstro às portas da diferença; o policiamento exercido pelo monstro; e a interdição do desejo.
Tomemos, inicialmente, a expressão monstro. Do latim “monstruōsus”, reconhece o “corpo organizado, que apresenta conformação anômala em todas ou em algumas de suas partes, [...] fig. pessoa cruel, desnaturada ou horrenda” (Cunha, 2000, p. 531). Assim, se comparado ao que se conhece como o corpo “normal”, “comum”, o monstro é um lugar de diferença que em geral escapa não somente fisicamente aos grilhões e aos preconceitos que o encilham, mas também à compreensão humana de sua configuração e de sua função no mundo. Na descrição que temos de Tico (cf. p. 31), encontramos os ingredientes que lhe conferem uma aparência monstruosa. Enfim, para que serve esse ser?
Em uma nova visita de Cirino ao quarto de Inocência, o anão encontrava-se ao pé da cama, “[...] sobre uma grande pele de onça” (p. 39). Aqui revemos Tico como o cão de guarda da filha de Pereira, policiando os domínios do patriarca sertanejo, que incluem a jovem. Em outra ocasião, Cirino pede que o guardião vá à cozinha busca a mezinha/o remédio. Ele não arreda pé a não ser depois das instâncias da própria Inocência:

"Voltando-se então para o homúnculo, insistiu [a moça] com voz meiga e carinhosa:
- Vai Tico: é para mim, ouviu?
Transformou-se repentinamente a fisionomia do anão. Pairou-lhe nos lábios inefável sorriso, meneou a cabeça duas ou três vezes com a força de uma afirmação, mas, colérico, enrugou a testa e moveu olhos inquietos e duvidosos" (p. 58).

Os adjetivos colérico, inquietos e duvidosos reforçam não somente o policiamento autoritário exercido pelo monstro, mas também a sua presença como interdição ao desejo, neste caso, de Cirino por Inocência. Depois da saída de Tico, o cirurgião beija clandestinamente o braço e a mão da enferma, provocando uma reação de debilidade (ou desejo dissimulado?) que quase leva a manceba ao desmaio. É o momento em que Cirino aproveita para incitar o anão a ser seu colaborador, no que não é retribuído:

“- Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada... sua ama fica boa logo... Não é o que você quer?
Ao ouvir esta interpelação, levantou-se o anão e correspondeu ao simpático anúncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, com que a dizer:
- Não se meta comigo, que não quero graças com você, médico de arribação!” (p. 59).

Segundo Jerome Cohen (2000, p. 45),
Como veículo de proibição, o monstro frequentemente (sic) surge para impor as leis da exogamia, tanto do tabu do incesto [...] quanto os decretos contra a mistura sexual inter-racial (que limita os parâmetros daquele tráfico [do incesto] ao policiar as fronteiras da cultura, em geral a serviço de alguma ideia de “pureza” grupal).
Tico coloca-se ao lado de Inocência para “proteger” sua pureza e seu destino como futura esposa de Manecão, num policiamento que serve não à sua ama, mas a Pereira, o senhor vampírico do destino de suas terras e das pessoas que vivem sob seu teto. A fazenda, os escravos, Tico, Inocência, tudo pode ser alocado na categoria de bens materiais, bens estes que, com o matrimônio da filha com o bruto, se manteriam agregados como propriedade pertencente e protegida da mão de possíveis forasteiros. Se permitido fosse ao de fora, ao outro entrar em contacto com o que pertence a Pereira, não somente seus bens poderiam lhe escapar, mas também o poder que se concentra em suas mãos. Assim, ele opta por transferir esse poder a um semelhante, a um bruto como ele, mantendo a tal “pureza grupal” a que se refere Cohen (2000, p. 45).
Para proteger seu senhor, Tico ronda como um fantasma, o entorno de Inocência. Após a declaração de amor de Cirino à jovem (cf. p. 75-76), o cirurgião sofre o primeiro “atentado”:

Soou nesse momento, e repentinamente, ao lado do laranjal um assobio prolongado, agudíssimo, e uma pedra, arremessada por mão misteriosa e com muita força, sibilou nos ares e veio bater na parede com surda pancada, passando rente à cabeça de Cirino.
[...] o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra, resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.
Não viu ninguém “(p. 78).

O monstro escapara... Cohen afirma que “Vemos os estragos que o monstro causa, os restos materiais [...], mas [ele] em si torna-se imaterial e desaparece, para reaparecer em algum outro lugar” (2000, p. 27). No caminho entre o laranjal e a casa, Cirino dá buscas ao seu possível algoz. Nada encontra até chegar ao terreiro:

Quando lá chegou, parou atônito. O mesmo assobio, prolongado e finíssimo desta feita talvez mais estridente, feriu-lhe os ouvidos” (p.78).

É o aviso de que um regresso virá e de que “[...] o corpo do monstro é, ao mesmo tempo, corpóreo e incorpóreo; sua ameaça é sua propensão a mudar [e a regressar]” (Cohen, 2000, p. 28). O vestígio do ser monstruoso em Inocência é seu assobio, a presença volátil e constante desse ser a rondar Cirino.
Desde que se desenvolvem definições sobre o monstro, a marca comum entre elas está no fato de que esse ser encontra-se no limite entre o que se conhece, o que se defende, e o que difere disso. Julio Jeha (2007, p. 21-22) explica que monstros fornecem um negativo da nossa imagem do mundo, mostrando-nos disjunções categóricas. Dessa maneira, eles funcionam como metáforas, aquelas figuras do discurso que indicam uma semelhança entre coisas dessemelhantes, geralmente juntando elementos de diferentes elementos cognitivos. [...] A disjunção não precisa ser apenas entre níveis cognitivos; elas podem se dar entre a ideia que temos do que é próprio de uma coisa ou um ser e a coisa e o ser.
Numa leitura freudiana do monstro e sua interdição do desejo, Cohen (2000, p. 48) observa que ele corporifica aquilo que deve ser destruído, subjugado, lembrando também que o reprimido, apesar de o ser, sempre está pronto a retornar. No ensaio “Das Umheimliche”, em português, “O Estranho”, Freud, ao discutir o título eleito para seu texto, escreve que “[...] o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar” (1996, p. 238).
Freud seleciona então um conto de E. T. A. Hoffmann, “O Homem de Areia”, para deslindar o seu conceito de estranho, ao mesmo tempo o conhecido e o não (re)conhecido, chegando à proposição:

Neste ponto vou expor duas considerações que, penso eu, contêm a essência deste breve estudo. Em primeiro lugar, se a teoria psicanalítica está certa ao sustentar que todo afeto pertencente a um impulso emocional [...] transforma-se, se reprimido, em ansiedade, então, entre os exemplos de coisas assustadoras, deve haver uma categoria em que o elemento que amedronta pode mostrar-se se algo reprimido que retorna. Essa categoria de coisas assustadoras construiria então o estranho; e deve ser indiferente a questão de saber se o que estranho era, em si, originalmente assustador ou se trazia algum outro afeto. Em segundo lugar, se é essa, na verdade, a natureza secreta do estranho, pode-se compreender por que o uso linguístico estender das Heimliche [...] para o seu oposto, das Umheimliche; pois esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão” (1996, p. 258).

A ansiedade que toma conta de Cirino e de Inocência durante seus encontros é o represamento do desejo sentido por ambos. Não qualificamos como amor o que os jovens sentem: é sim o desejo da cópula, da união sexual. E Tico funciona como o ser que interdita, que tenta neutralizar o possível rompimento de uma fronteira que ameaça a já referida “pureza grupal” do meio onde vivem Pereira e seus agregados. Como monstro ele corporifica, a um só tempo, aquele que esconde algo e aquilo que está escondido, represado. A ansiedade é gerada, pois o que se esconde constantemente dá sinais da sua existência e o monstro assinala o perigo do jorro do desejo com avisos, como no caso de Inocência, em um novo “atentado” contra Cirino n’outro encontro com a enamorada:

“- Deixe-me... deixe-me, implorou ela. Adeus, estou com um medo!... Felizmente ninguém nos viu...”

Nesse momento e, como que para responder à asseveração, de dentro do pomar partiu aquele fino assobio que tanto assombrara os amantes na primeira das suas entrevistas.

"Inocência quase caiu por terra. [...]
No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, [Cirino] viu de repente certa massa informe cair-lhe quase na cabeça e no meio das folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angústia. [...]
E, como uma visão, passou-lhe por perto uma criaturinha, desaparecendo logo entre os troncos das árvores ."(p. 91-92)

Como advertimos logo no início deste ensaio, Tico não é surdo, sabendo escutar os apelos desejosos de Inocência e de Cirino. Na qualidade de receptáculo da interdição, emite os avisos de perigo, que não são ouvidos pelo casal. Assim, quando a jovem recusa-se a casar com Manecão, Tico está presente, com “[...] seu corpo raquítico [estremecendo] de impaciência e susto” (p. 110), a fim de auxiliar Pereira.
Ao anúncio de que Manecão partiria no encalço do alemão Meyer, a fim de matá-lo, Tico coloca-se entre o pai e o noivo preterido por Inocência, para “[...] apressando mais a gesticulação e por sons meios articulados, fazer ver que Pereira laborava em engano, tão-somente quanto à pessoa” (p. 111-112).
Desfeito o engano e sabedores do verdadeiro enamorado de Inocência, Pereira e Manecão engendram a vingança, perpetrada pelo bruto depois de três dias de tocaia a Cirino em sua busca por socorro nas terras do padrinho da jovem, Antônio Cesário. O não saber (ou não querer) reconhecer os avisos da interdição ao desejo, ao retorno do reprimido leva tanto Cirino quanto Inocência à morte: ele fisicamente alvejado pela garrucha do bruto (cf. p. 115) e ela vítima da ansiedade advinda do desejo represado.
Tico, por nós categorizado como monstro, não é aqui tomado como aquele que representa o mal. Ele é a configuração da coisa reprimida e as significações que essa coisa pode trazer à tona. E se os monstros não existissem, “[...] como existiríamos nós?” (Cohen, 2000, p. 54)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

“21 GRAMAS” (2003), ALEJANDRO GONZÁLES


I – INTRODUÇÃO:


O diretor do também famoso “Amores Brutos” dá continuidade, no filme “21 Gramas”, ao estilo novo mas representativo de uma forma inusitada e esteticamente definida nessa ambiência plural do mundo do cinema. Sua inclusão nesta lista se justifica pela contemporaneidade dos temas trabalhados e pela forma extremamente singular de tratar esses temas. O filme parece um entrecruzar de estruturas de contos que se fragmentam, se esfacelam e ao mesmo tempo, como se fosse por bricolagem, se remontam e se organizam de forma harmônica no conjunto da obra. A morte, a questão do transplante, a questão do aborto, a questão da droga e sobretudo a questão da carência do homem contemporâneo formam o tricô dessa obra exemplar que paira o tempo todo numa pergunta não respondida – o peso e o sentido da vida.” (www.fgvsp.com.br)

II – TÉCNICAS DE MONTAGEM:

O mexicano Alejandro Gonzáles, diretor do longa-metragem indicado ao Oscar “Amores Brutos”, está de volta à cena com o drama “21 Gramas”, filme que tece reflexões sobre a vida, a morte e a relação que os vivos têm com a morte.

O filme é falado em inglês e conta com Sean Penn, Naomi Watts e Benicio Del Toro.
O estilo quebra-cabeças faz o espectador ficar em alerta desde a cena inicial, com um misto espantoso de hiper-realismo, complexidade visual e temática poderosa. Como é de seu feitio, Alejandro Gonzáles, amarra a história inserida como um caleidoscópio, o que reforça o tempo do espírito, cheio de idas e vindas, permanências (mais nas tragédias) e abandono (mais nas epifanias).
Realizado pela mesma dupla responsável pelo excepcional, “Amores Brutos” (mesmo roteirista Guillermo Arriaga e o diretor Alejandro González), “21 Gramas” segue um estilo parecido ao daquele filme ao narrar histórias paralelas que acabam se entrecruzando em um momento-chave da trama.
O ritmo do filme é determinado pela edição, Alejandro e o diretor de fotografia Rodrigo Prieto rodaram quase o filme inteiro com a câmera segurada na mão. As cores são insaturadas, às vezes se aproximando de um quase preto e branco. O realismo intransigente do filme, assim, intensifica-se e o espectador observa um mundo transfigurado.
O diretor mexicano utilizou-se de câmeras “ocultas”, apresentando as personagens numa estrutura fictícia esquemática, gerando no espectador um estado quase meditativo. Desse modo, surge indagações que, em qualquer outro filme, poderiam soar pomposas, mas que neste caso, soam inteiramente pertinentes, tornando a atuação dos atores mais real, criando um clima denso ao filme e conseguindo extrair nesta complexa trama, interpretações sólidas e desprovidas de qualquer tipo de afetação pretensiosa, como por exemplo: Naomi Watts que só vem comprovar seu talento; Benicio Del Toro que confere dignidade a Jack Jordan, o que é fundamental para o que o espectador se envolva com seu drama, já que, de outra maneira, a natureza ambígua do sujeito poderia torná-lo antipático aos olhos do público e a Sean Penn, onde o ator se envolve em um projeto que estuda difíceis relacionamentos familiares e a dor provocada pela perda de alguém querido.
O filme avança e recua no tempo. Mas a estratégia não consiste em confundir o espectador, e sim, em cativar seu processo mental de maneiras que uma narrativa linear possivelmente não conseguiria inspirar. Pelo fato de estar tanto à frente quanto atrás da narrativa, o espectador fica mais livre para especular e contemplar a maneira como o destino atua e as vidas se interligam.
Alejandro Gonzáles “brinca” com a cronologia de suas histórias, obrigando o espectador não apenas saltar de uma narrativa para outra, como também deparar-se em momentos diferentes de cada trama e não fornecendo nenhuma pista que nos ajude a decifrar sua estrutura, obrigando-nos a trabalhar às cegas. Com isso, fatos que julgamos ter acontecido no “passado” podem se revelar, mais tarde, como ocorrências futuras. É como se o filme nos convidasse a participar de sua montagem. Por outro lado, o roteiro de “21 Gramas” acaba exagerando ao revelar detalhes importantes com muita antecedência, o que elimina parte do impacto que deveria surpreender o espectador no terceiro ato.
Conclusão: “21 Gramas” é um filme interessantíssimo, tanto pela força das interpretações, já que o ótimo elenco se entrega sem reservas aos infelizes humanos que habitam o filme, como pela sua estrutura narrativa brilhante e pela temática penetrante tanto do ponto de vista emocional quanto intelectual.

III - CONTEXTO HISTÓRICO:

“21 Gramas” é um filme contemporâneo e traz uma série de temáticas polêmicas: transplante, destino trágico, dor da perda, inseminação artificial, religiosidade, maternidade, drogas, prisão, culpa etc

IV – SÍNTESE DO ENREDO:

Ao longo da projeção somos apresentados a três famílias: Paul Rivers (Sean Penn), um professor de matemática em fase terminal de uma doença cardíaca, e sua esposa, Mary (Charlotte Gainsbourg), que está determinada a engravidar dele por meio de inseminação artificial; Cristina Peck (Naomi Watts), que deixou uma vida de drogas e farras através do casamento estável com um arquiteto (Danny Huston) e do nascimento de suas duas filhas e, Jack Jordan (Benicio Del Toro), ex-presidiário e sua esposa, Marianne (Melissa Leo).

Vivendo em realidades completamente distintas, os três protagonistas (Paul, Cristina e Jack) têm suas vidas alteradas depois que uma tragédia une seus caminhos. Um acidente matando o marido de Cristina e suas duas filhas desviam a trajetória de todas essas vidas, deixando os sobreviventes arcados sob o peso de um sentimento de culpa avassalador. A vida continua, é o que lhes dizem. Será que continua mesmo? Se sim, onde está á esperança de sobrevivência para aqueles que sofrem, mas continuam a viver?
Alejandro Gonzáles rejeita as respostas fáceis e as caracterizações óbvias – parece estar dizendo ao espectador que é ele mesmo quem deve decifrar as respostas. E, não facilita as coisas, não julga suas personagens. Ele os mostra como indivíduos confusos e contraditórios que lutam para enfrentar forças que estão além de sua compreensão.
Será que Deus os traiu? Ou eles próprios se traíram? O que devemos aos mortos? Onde vamos buscar esperança e redenção? Como ter uma vida boa? Por meio de Deus? Ou, apesar de Deus? Vinte e um gramas seria o peso que a pessoa perde quando morre, será esse o peso e a medida da alma humana?
A mortalidade é o problema com que todas as personagens se defrontam. Alguns estão perto de morrer, outros estão próximos de pessoas que morreram há pouco.
Cristina é, sem dúvida, a personagem que percorre o maior arco dramático do roteiro, já que, de mulher feliz e serena, transforma-se em um símbolo de depressão e ódio até chegar ao estado emocional no qual se encontra ao fim da história, seu desejo por vingança.
A personagem em um diálogo com seu pai, afirma que: “(...) sua vida nunca será a mesma, sempre existirá uma lacuna, nunca suprida, e que ela não compreendia como seu pai conseguia sorrir novamente após a morte de sua esposa.”
Paul é ameaçado, todos os dias, por uma morte suspensa, esperando que surja um doador para o transplante de coração. Ele vive fragilizado perante a mortalidade e a cobrança de sua esposa em ter um filho seu, representando a continuidade do amor deles. Porém, esse amor por parte de Paul já não existe, seu relacionamento é uma farsa e mesmo o milagre do transplante o faz reviver, mas não revive o amor dos dois.
Apesar da dor de Paul parecer ter predominância física, o seu vácuo não é menor. Ele quer saber tudo sobre o doador do novo coração que ele agora, leva consigo, o que o leva a conhecer Cristina. Vem mais um paradoxo: Paul pode se regozijar por sobreviver, mesmo que essa sobrevida seja um resultado de uma tragédia sem volta?
Jack luta para reconstruir sua vida depois de passar um tempo indeterminado na prisão. Lá encontrou Jesus, converteu-se e passou a viver com dignidade e propósitos. No entanto, enfrenta o preconceito da sociedade. Jack enfrentará muitas dificuldades para conseguir restabelecer-se, no entanto, sua esposa, Marianne, às vezes sente saudades do Jack antigo.
Um acidente trágico colocará Jack à frente de novas provações de fé.
O diretor explorando a existência física e emocional dessas três personagens durante um período de vários meses entrelaçará os seus destinos numa história em que os levará aos limites do amor, às profundezas da vingança e à promessa de redenção. Entretanto, para que o equilíbrio espiritual de alguns deles seja recuperado, será necessário muito sacrifícios dos outros, intercalando-os com uma dor incessante em suas trajetórias. Enfim, trágico, diga-se de passagem, é um termo que se aplica aos três protagonistas de “21 Gramas”, já que, na realidade, nenhum deles pode ser “culpado” pelo que aconteceu, nem mesmo Jack.
Jack, Paul e Cristina são apenas pessoas comuns que procuram encontrar algum sentido para suas vidas, mas que, de alguma forma, parecem “marcadas” para sofrer.

V - TEMÁTICA:


A morte:


Alejandro Gonzáles trabalha o enigma da morte de maneira humanizada e fotográfica.
A meditação sobre a morte é um ato universal e partilhado por todos os seres humanos.
A metáfora contida no título traduz muito bem o objetivado pelo diretor no decorrer da película: “diz-se que perdemos 21 gramas no momento exato da nossa morte. O peso de uma pilha de moedas, de uma barra de chocolate, de um colibri. Será ele o peso da vida ou o peso da alma?”
O contraste dessa medida ínfima é assustador comparando-se com a imensidão do fardo que deixamos para os que ficam.
O filme é uma reflexão penetrante que todos estamos destinados. A sua visão da morte é perturbadora e vai se tornando mais clara e nítida quando ela se aproxima para a coleta das almas. É desconcertante a condução que o cineasta nos leva: uma encruzilhada, onde vários caminhos se cruzam, mas não há uma saída única e positiva – a única certeza é que, o ser humano perderá um dia, 21 gramas, talvez, o peso de sua alma.

O destino trágico:

Três vidas, três destinos que se cruzam e contemplam a morte de frente.
Jack após sua regeneração e aceitação de Jesus, como seu salvador e sentindo-se protegido; é colocado á mais uma provação, levando-o a questionar a existência de um Deus bondoso, afirmando: “O inferno está aqui!”
Jack exibe em tintas mais sociais o sistema prisional massivo, igrejas frequentadas por perdedores de sonhos e uma imensa dor da alma.
Podemos constatar sua angústia espiritual, seu conflito íntimo e existencialista ao testemunharmos seu intenso remorso com relação ao acidente. Afinal, quem é esse Deus que nos mostra um caminho novo e depois, atira-nos de volta ao inferno?
Cristina após uma vida desregrada também, regenera-se, através do amor e da família, até o acidente colocar fim a todos os seus sonhos.
Paul é movido por uma culpa injustificada, já que sua participação no ocorrido (acidente e transplante) foi a de um elemento passivo. Mas, é precisamente seu esforço para corrigir algo que não pode ser reparado que o torna tão trágico.
O filme, enfim, retrata uma história de esperança e humanidade; de resistência e sobrevivência e de dor que lança suas personagens a um destino trágico.

Liberdade versus Destino:

No curso da existência é que o homem vai decidir acerca de seu próprio destino. O futuro está sempre em aberto, e ele será preenchido por um projeto, que é fruto de uma escolha e de uma decisão. O homem é livre na exata medida em que introduz o nada no mundo. E, como isso é inerente à condição humana, não há como não ser livre. Daí a célebre frase: “o homem está condenado a ser livre.”
A obrigação de ser livre gera a angústia, que deriva do sentimento de não estar predestinado, de ter de optar construindo ao mesmo tempo o fundamento da opção. É excesso de poder sobre o homem que gera o medo.
Paul, Jack e Cristina fizeram suas escolhas livremente, optaram pelo caminho da vida, da religião e da família; mas, seus destinos os surpreenderam, trazendo a dor e a experiência de que a existência “não vale á pena”. Sentindo-se fragilizados perante a força do destino e de Deus, as personagens tornam-se incapazes de seguirem sua trajetória de vida, tornando-se niilistas perante a existência humana.
O enredo do filme leva as personagens se colocarem frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico. Elas não se vêem diante de um sistema de ideias e ideologias, mas diante de fatos, mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: o destino e a finitude humana.

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Por volta de 1400, o modo metafísico de pensar começa a ser seriamente questionado pela mesma consciência racional que até então se dedicara a ele! Uma série de razões de ordem econômica, política e cultural está à base desse questionamento. É que a explicação metafísica tornara-se insatisfatória para a consciência filosófica que vai emergindo no início da era moderna.
A realidade, a cultura ocidental, em decorrência de todo o desenvolvimento econômico e social da Europa, coloca à disposição dos homens outros instrumentos e recursos que lhes permitem ir além das conclusões metafísicas.
Tudo começa com a insatisfação de novos pensadores com as explicações trazidas pela metafísica, a essa altura ainda compromissada com a teologia cristã!
Começa a se questionar a tutela que a teologia exercia sobre a filosofia e a ideia de que a razão natural dos homens ficava na dependência da graça divina e devia ser orientada e corrigida pela fé.
Já na Idade Moderna, quando o homem passa a ocupar o centro do universo, achando-se então mais autônomo em relação a Deus, sentia-se menos temeroso em relação ao mundo que passava a considerar como uma realidade meramente natural. Essa “independência” em relação à figura de Deus tinha lá suas vantagens, mas também suas desvantagens: de um lado, o homem passava a se valorizar mais, a dominar a natureza e a enfrentar os seus problemas com mais objetividade e menos fantasias, por exemplo, o desenvolvimento da técnica e da medicina (transplante, aborto e inseminação artificial). Na cosmovisão cristã medieval nem o mundo material nem o corpo humano podiam ser manipulados porque eles eram considerados como receptáculos de Deus, merecendo assim absoluto respeito. As desvantagens vinham no plano da própria consciência (a culpa pela morte das duas meninas e do senhor). Iluminada pela fé, a razão medieval tinha muita segurança e tranquilidade, pois estava certa de que poderia sempre conhecer a verdade, uma vez que tinha sempre à sua disposição o auxílio esclarecedor da revelação divina, mediada pelos textos bíblicos e pelo magistério da Igreja.
Além disso, o homem moderno descobre sua subjetividade. Enquanto o pensamento antigo e medieval parte da realidade inquestionada do objeto e da capacidade do homem de conhecer, surge na Idade Moderna a preocupação com a “consciência da consciência”. O problema central é o problema do sujeito que conhece não mais do objeto conhecido. Antes se perguntava: “Existe alguma coisa?”, “Isto que existe, o que é?”. Agora o problema não é saber se as coisas são, mas se nós podemos eventualmente conhecer qualquer coisa.
Outros temas apresentados no filme são: a dor e a doença; amor e perda e o ato responsável.




domingo, 14 de agosto de 2011

PRIMEIROS CANTOS (1846), GONÇALVES DIAS: O ABRASILEIRAMENTO DA LITERATURA BRASILEIRA

Embora a obra de Gonçalves Dias inclua teatro, historiografia e tentativa de romance, é como poeta que ele vai realizar a melhor e maior parte de seu trabalho. Já nos “Primeiros Cantos” estão presentes as linhas temáticas que marcam a produção gonçalvina: saudosismo, indianismo e lirismo amoroso. É nessa obra, também que a sensibilidade lírica do poeta, inteiramente sintonizada com a sensibilidade do público da época, encontra na liberdade de formas e no virtuosismo rítmico, a medida exata entre à expressão e a construção. Esse, o motivo do imediato e retumbante sucesso, que o crítico Antônio Cândido resume da seguinte maneira: “...o que era tema – saudade, melancolia, natureza, índio – tornou-se algo novo e fascinante, graças à superioridade da inspiração e dos recursos formais”.


I – AUTOR:

Gonçalves Dias (Antônio G. D.), poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864.

Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando faleceu seu pai. Com a ajuda da madrasta pode viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em Coimbra, ligou-se ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a “Canção do exílio”, um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.
Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia composto o drama “Leonor de Mendonça”, que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram os “Primeiros Cantos”, com as “Poesias Americanas”, que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os “Segundos Cantos” e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os historiadores, escreveu as “Sextilhas de frei Antão”, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um “ensaio filológico”, num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre. Em 51, publicou os “Últimos Cantos”, encerrando a fase mais importante de sua poesia.
A melhor parte da lírica dos “Cantos” inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas, sobretudo, de seu caráter e temperamento. Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do poeta ocorreu depois da publicação dos “Últimos Cantos”. Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência, origem de grandes desventuras para o poeta, devidas ao gênio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira infância.
Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o livreiro-editor Brockhaus editou os “Cantos”, os primeiros quatro cantos de “Os Timbiras”, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e 62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades européias. Em 25 de outubro de 63, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de “A noiva de Messina”, de Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.
Todas as suas obras literárias, compreendendo os “Cantos”, as “Sextilhas”, a “Meditação” e as peças de teatro (“Patkul”, “Beatriz Cenci” e “Leonor de Mendonça”), foram escritas até 1854, de maneira que, seguindo Sílvio Romero, se tivesse desaparecido naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”.
O período final, em que dominam os pendores eruditos favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreendem o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopéia “Os Timbiras”, cujos trechos iniciais, que são os melhores, datam do período anterior.

II – CARACTERÍSTICAS DO AUTOR:

Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal, marcando assim a nossa independência em relação a Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do “Indianismo”, que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.
Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo.

III – OBRAS:

“Primeiros cantos”, poesia (1846); “Leonor de Mendonça”, teatro (1847); “Segundos cantos” e “Sextilhas de Frei Antão”, poesia (1848); “Últimos cantos” (1851); “Cantos”, poesia (1857); “Os Timbiras”, poesia (1857); “Dicionário da língua tupi” (1858); “Obras póstumas, poesia e teatro” (1868-69); “Obras poéticas”, org. de Manuel Bandeira (1944); “Poesias completas e prosa escolhida”, org. de Antonio Houaiss (1959); “Teatro completo” (1979).

IV – “PRIMEIROS CANTOS”:

A obra “Primeiros Cantos” foi recebida com entusiasmo pela crítica e fez grande sucesso junto ao público ledor de poesia. Alexandre Herculano renomado e recatado escritor romântico de Portugal e o imperador D. Pedro II registram rasgados elogios ao livro e tecem palavras de simpatia e incentivo ao poeta maranhense.

"Os primeiros cantos são um belo livro; são inspirações de um grande poeta. A terra de Santa Cruz, que já conta outros no seu seio, pode abençoar mais um ilustre filho. O autor, não o conhecemos; mas deve ser muito jovem. Tem os defeitos do escritos ainda pouco amestrado pela experiência: imperfeições de língua, de metrificação, de estilo. Que importa? O tempo apagará essas máculas, e ficarão as nobres inspirações estampadas nas páginas deste formoso livro.”

Alexandre Herculano

Gonçalves Dias foi o primeiro poeta autenticamente brasileiro, na sensibilidade e na temática, e das mais altas vozes de nosso lirismo. Embora haja, em “Primeiros Cantos”, alguns poemas episódicos, em que existe uma narrativa, predomina no livro o gênero lírico – um lirismo fácil e espontâneo, perpassando das emoções do poeta. Ao contrário do lirismo racional dos clássicos nascido da inteligência, o de Gonçalves Dias brota do coração e expressa bem o sentimentalismo romântico.
Alguns dos poemas dos “Primeiros Cantos”, porventura os melhores, repunham em nossa poesia o índio nela primeiro introduzido por Basílio da Gama e Santa Rita Durão. No entanto, nos poemas desses poetas não entrava o índio senão como elemento da ação ou de episódios, sem lhes interessar mais do que o pediam o assunto ou as condições do gênero. Nos “Cantos” de Gonçalves Dias, ao contrário, é ele de fato a personagem principal, o herói e a ele vão claramente as simpatias do poeta, transformando-o em uma imagem poética, representativa das tradições brasileiras.
As notas predominantes de sua poesia são o nacionalismo e o indianismo. Sua obra poética apresenta três aspectos: o lírico, o indianista e o clássico.
A sua poesia lírica traduz um amor infeliz e insatisfeito. Sua produção dramática tem fundo histórico e emotividade. Enfim, dada a espontaneidade de seus versos e a sua inspiração natural, tornou-se um dos nossos maiores poetas.

V - ESTILO DA ÉPOCA:

Como se vê no “Prólogo aos Primeiros Cantos”, o próprio Gonçalves Dias, traça o perfil da sua poesia, que é bem a concepção romântica de poetar, na qual se destaca a liberdade formal, a imaginação criadora e valorização do indivíduo, de suas contradições e das emoções particulares e circunstanciais.

Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.
Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir.
Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu diverso – e sob a influência de expressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez – no Doiro e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América (...)
Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as ideias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o sentimento – o coração com o entendimento – a ideia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.
O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só merecimento deste volume. O Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.”

Rio de Janeiro, julho de 1846.

Como se pode ver, no “Prólogo” de Gonçalves Dias, não só se revela a sua postura em face do fazer poético como também nele sobressaem as principais características do ideário romântico:

• o culto e exaltação da natureza, vista quase sempre como reflexo de Deus;
• a tendência para a solidão, em contato com a natureza, longe da sociedade;
• o derramamento lírico, em que o poeta extravasa as emoções e sentimentos de forma livre e espontânea;
• a necessidade de perpassar a produção poética do sentimento cristão e religioso;
• a metrificação variada e livre, sem o rigor formalista da poesia clássica.

Em “Primeiros Cantos”, obra concebida inteiramente ao gosto do figurino romântico, além desses aspectos alistados, destaca-se ainda como característica do Romantismo:

• o nacionalismo expresso por meio da temática indianista e também do sentimento da pátria;
• a concepção amorosa a partir de sentimentos puros e castos e como paixão avassaladora na linha do “amor e morte”;
• o uso frequente de reticências e interjeições como recurso que expressa bem os estados da alma.

Como se vê, surgido na esteira do liberalismo da Revolução Francesa, o Romantismo faz uma verdade revolução na literatura rompendo com a concepção clássica de fazer poesia e libertando o coração da tirania do reinado da razão.

VI – RECURSOS POÉTICOS:

Na época, a concepção artística do Romantismo ainda não tinha evoluído no verdadeiro sentido da técnica. Entretanto, em Gonçalves Dias, nota-se uma consciência maior. Como vimos, os “Primeiros Cantos” vêm prefaciado pelo autor que se autodetermina a menosprezar "regras de mera convenção", a adotar "todos os ritmos da metrificação portuguesa", usando deles "como me pareceram quadrar com o que eu pretendia exprimir", de tal modo que compreende a Poesia como o casamento do "pensamento" com o "sentimento". Portanto, não se pode negar o alto grau de conscientização artística que existia em Gonçalves Dias.
Destacam-se, em “Primeiros Cantos”, alguns aspectos de métrica e linguagem que configuram bem o estilo de Gonçalves Dias:

1. “Menosprezando regras de mera convenção”, o poeta sempre procura ajustar a métrica, sem a obsessão de rimas ao assunto, numa sintonia perfeita entre forma e conteúdo. Na sua poesia, destaca-se a musicalidade, como se vê, por exemplo, no ritmo leve e saltitante de “Seus olhos”, que se associa bem à ideia de inocência e pureza:

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir.
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.”

Por outro lado, nos “hinos” à natureza, como se vê, por exemplo, em “A tarde” e “O Mar”, usa um verso mais lento caudaloso, o que confere a essas poesias um tom solene e grandioso que combina bem com o caráter reflexivo e o sentimento da divindade que os perpassa, na descrição dos movimentos da natureza magistralmente captados enquanto cores, sons, perfumes, a passagem para a ideia de Deus.

“Oh tarde, oh bela tarde, oh meus amores,
Mãe da meditação, meu doce encanto!
Os rogos da minha alma enfim ouviste,
E grato refrigério vens trazer-lhe
No teu remansear prenhe de enlevos!”



“Ó mar, o teu rugido é um eco incerto
Da criadora voz, de que surgiste:
Seja, disse; e tu foste, e contra as rochas
As vagas compeliste.”



2. À primeira vista, destaca-se a feição acadêmica de sua linguagem, bem ao gosto lusitano, com construções tipicamente portuguesas, como a colação opossinclítica do pronome átono e inversões sintáticas que lembram os estilos clássicos:

“Enquanto a morte me não rouba a vida”.

“Da morte o passo glorioso afronta”.


3. Outro aspecto que chama a atenção é o uso de palavras de sabor arcaico, que ocorrem com alguma frequência: soidão (solidão); i (aí); al (algo); imigo (inimigo); pego (pélago), mi (mim), frauta (flauta), imo (íntimo), o que se explica, quase sempre, pela necessidade métrica.

“A corda do prazer que ainda inteira
Que virgem de emoção inda conservo.”

4. Com alguma frequência igualmente ocorre a síncope, que é um recurso métrico para reduzir a sílaba, e a ectlipse (fusão de com + a):

“Suspenderei minha harpa dalgum tronco
Em of'renda à fortuna; - ali sozinha,
Tangida pelo sopro só do vento,
Há de mistérios conversar co’a noite.”

5. Constante também, como expressivo recurso estilístico, é a repetição de palavras que reforça a ideia que se quer transmitir:

“Gentil, engraçado infante
Nos teus jogos inconstante,
Que tens tão belo semblante,
Que vives sempre a brincar,
- Dos teus brinquedos te esqueces
À noitinha, - e te entristeces...
Como a bonina, - e adormeces,
Adormeces a sonhar!”


6. Outro aspecto que se destaca na linguagem de Gonçalves Dias é o gosto por imagens expressas por meio de comparação, como nesta passagem de “Quadras da minha vida”:

“Minha alma é como a flor que pende murcha;
É qual profundo abismo; - embala estrelas
Brilham no azul dos céus, embalde a noite
Estende sobre a terra o negro manto:
Não pode a luz chegar ao fundo abismo,
Nem pode a noite enegrecer-lhe a face;
Não pode a luz à flor prestar maior brilho,
Nem viço e nem frescor prestar-lhe a noite!”

7. O emprego frequente de epígrafes (citação no início da maioria dos poemas do livro) é outra marca de Gonçalves Dias, embora outros autores também façam uso desse modismo.
Conforme se pode ver, a epígrafe (expressa em francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, latim e também português), além de revelar a espantosa cultura do poeta e suas influências literárias está sempre relacionada com o tema dominante no poema, como introduz “Canção do Exílio”, expressa em alemão e traduzido assim por Manuel Bandeira:

“Conhecer o país onde florescem as laranjeiras?
Ardem na escura fronde os frutos de ouro...
Conhecê-lo? – Para lá quisera eu ir!”

VII - ESTRUTURA:

Os poemas de “Primeiros Cantos” estão reunidos em três partes: “Poesias Americanas”, “Poesias Diversas” e “Hinos”.
A primeira parte da obra, intitulada “Poesias Americanas”, abre-se com a “Canção do Exílio” e, além de outros poemas sem grande significado, reúne quatro cantos fundamentais para a compreensão do indianismo na literatura brasileira e, especialmente, na poesia de Gonçalves Dias:
“O Canto do Guerreiro”; “O Canto do Piaga”; “O Canto do Índio” e “Deprecação”.
As primeiras poesias indianistas têm um enredo muito simples, ritmos bem acentuados e imagens originais.
No “Canto do Guerreiro”, um índio canta orgulhoso, sua força, sua destreza e sua autoridade nas artes da caça, da pesca e da guerra.
No “Canto do Piaga”, o pajé da tribo relata a seus guerreiros a visão que tivera em sua caverna, identificando, profeticamente, os brancos a fantasmas que viriam destruir sua gente.
No “Canto do Índio”, um recurso novo: um prisioneiro canta a desventura de ter visto uma virgem loura, despida, a banhar-se, que desperta sua paixão e o faz aceitar a condição de escravo do branco em troca de seu amor.
Em “Deprecação”, os filhos de Tupã reclamam contra a vingança que esse deus lhes impingiu, deixando-os entregues à violência do branco.
O que se nota nesses poemas, e que está presente também no restante das “Poesias Americanas”, incluídas em “Últimos Cantos”, é que o poeta procura dar uma visão do índio integrado na tribo, nos costumes e, principalmente, adequado a um sentimento de honra tipicamente ocidental, cultuado pelos românticos. Se os europeus podiam encontrar na Idade Média as origens da nacionalidade, o mesmo não acontecia com os brasileiros. Provavelmente por essa razão, a volta ao passado, mesclada ao culto do “bom selvagem”, encontra na figura do indígena o símbolo exato e adequado para a realização da pesquisa lírica e heróica do passado.
O índio, reduzido aos padrões da cavalaria, acaba sendo um recurso estético e ideológico, parente muito próximo do medievismo coimbrão, que ele cultivou principalmente nas “Sextilhas”, embora sua recriação poética dê ideia da redescoberta de uma raça, que estava adormecida pela tradição e que foi revivida pelo poeta.
O idealismo, a etnografia fantasiada, as situações desenvolvidas como episódios da grande gesta heróica e trágica da civilização indígena brasileira, a qual sofre a degradação do branco conquistador e colonizador, têm na sua forma e na sua concepção reflexos da epopéia, da tragédia clássica e dos romances de gesta da Idade Média.

“Ah! Que eu não morra sem provar ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!”

(Gonçalves Dias)

“Na poesia indianista o poeta soube manejar com habilidade numerosos ritmos, vários tipos de versos e diversas formas de composição. Já no lirismo sentimental conseguiu não apenas descrever com eloquência os encantos da mulher amada, mas também particularizar um modo de ver a natureza em profundidade, tratar os dissabores da vida, dos sofrimentos e da morte, bem como traduzir o gosto e o sentimento da solidão. O aspecto novo deste lirismo não pode ser buscado nos temas, todos eles muito explorados pela tradição literária. O novo está em, ao manter a disciplina clássica do manejo e do domínio da linguagem e ao assimilar as influências dos românticos europeus, poetizar uma visão particular da realidade.
A natureza, presente nos poemas indianistas, na poesia de cunho reflexivo e também na produção lírica, é um exemplo de sensibilidade que difere o estilo gonçalvino do de outros poetas românticos menores. Registro do ambiente, ponto de partida para a reflexão, projeção de sentimentos, recurso imagético e, principalmente, retratação de um mundo visível que leva a imaginação a criar e a refletir a respeito de uma realidade oculta, inacessível aos sentidos, a natureza assume nos versos de Gonçalves Dias um tom poético raramente encontrado no Romantismo brasileiro.
(...) É preciso notar ainda que, modelada nas canções, baladas, hinos, elegias, cantos, sátiras, motes glosados e outras formas exploradas pelo poeta em toda sua obra, a linguagem gonçalvina consegue conferir aos temas românticos um tom bem distante do lamento choroso e exagerado dos poetas conhecidos como ultra-românticos. Comedido no uso de adjetivos, cuidadoso no uso de imagens, disciplinado na busca da expressão exata para a tradução de realidades exteriores e interiores, Gonçalves Dias coloca em xeque a ideia de que os românticos eram movidos unicamente pela inspiração. Seus textos revelam o aproveitamento da disciplina clássica, que ele não chegou a abandonar inteiramente, somada a uma concepção romântica do mundo; dois pólos perfeitamente combinados por um tratamento hábil e personificado da linguagem.
Se alguns leitores insistem em ver nesse maranhense apenas o idealizado de um paraíso cheio de palmeiras, amores frustrados e índios meio-irmãos de Tarzan, é porque não prestaram muita atenção à magia que atravessa o tempo e permanece instalada em alguns de seus poemas.”

Beth Brait, in “Literatura Comentada”

VIII - “POESIAS AMERICANAS”:

Em “Poesias Americanas”, o autor valoriza a terra e o índio locais.

“Canção do Exílio”

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,
Kennst du es wohl? - Dahin, dahin!
Möcht ich... ziehn.

Goethe


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.



Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.



Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;



Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;



Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra - Julho 1843.

“A Canção do Exílio” é o poema que abre o livro “Primeiros Cantos”, e o mais conhecido de nossa literatura. Há dezenas de outras canções do exílio; algumas são recriações da de Gonçalves Dias, outras são paródias satíricas, especialmente modernistas. Dotado de um ritmo envolvente e interiorizando-se fundo no imaginário popular brasileiro, o poema inaugurou um modo particular de representação da natureza tropical, contribuindo decisivamente para transformá-la numa espécie de metáfora nacional.
O poema pode ser visto como elemento essencial no processo de idealização da imagem do nosso país, de tal modo que Machado de Assis, ao discursar na inauguração do busto de Gonçalves Dias no Rio de Janeiro, em junho de 1901, não teve dúvidas ao afirmar que a “Canção está em todos nós”.
A epígrafe retirada do romance de formação, “Os anos de aprendizagem de Wilhem Meister, de Goethe, acomoda-se perfeitamente ao espírito de “Canção do Exílio”. Ao escolher o fragmento da “Balada de Mignon” e traduzido por Manuel Bandeira:

“Tu conheces a terra onde as limoeiras florescem? Laranjas douradas brilham no verde-escuro da folhagem? (...) Conheces bem? Nesse lugar eu desejava estar.”

Gonçalves Dias retira do poema original a expressão de um desejo de voltar à Pátria. A figura de Mignon e de seu melancólico desejo transparecem algumas vezes no contexto do romance de Goethe: por exemplo, no final do livro, observa-se a moça agonizando e o seu médico, vendo a sós com Wilhem, afirma a este que existem duas coisas que fazem a menina viver: “ A natureza estranha dessa boa criança, de quem falamos agora, consiste exclusivamente numa profunda nostalgia: o desejo louco de rever sua pátria (...) Predominam, assim, no poema gonçalvino, ou seja, a incômoda sensação do sentir-se fora de lugar e a conseqüente melancolia que reveste a consciência do distanciamento da terra natal.”
Representante máximo do ufanismo brasileiro, o poema é composto por 24 versos distribuídos ao longo de suas cinco estrofes. Estas, por sua vez, são divididas em três quadras e duas sextilhas com cada verso possuindo sete sílabas poéticas, redondilhas maiores ou heptassílabo, metro ligado à tradição medieval-trovadoresca. Essa preferência talvez se explique pelo fato de que tanto a redondilha quanto a canção tenham as suas raízes na cultura popular e, enquanto, preceito romântico, havia por parte dos autores a preocupação generalizada com o resgate de formas e motivos populares, como elementos da nacionalidade, em oposição aos motivos clássicos.
Em relação ao aspecto rímico da “Canção do Exílio”, pode-se afirmar que este é construído de modo a realçar, através da sucessão obsessiva, a predominância da rima aguda (oxítona) em “a” (Sabiá, lá e cá). É curioso notar que existe uma visível articulação entre elas que provoca, também no nível rímico, uma valorização da terra natal em detrimento do exílio. Como facilmente se constata, as rimas agudas se reduzem a três e comutam de lugar de estrofe para estrofe: na 1ª e na 3ª, Sabiá e lá, na 4ª e na 5ª , as duas anteriores e o cá. Observa-se que duas das rimas – cá e lá – constituem um par antitético clássico e se opõem diretamente nas duas últimas estrofes. Entretanto, o terceiro elemento rímico – Sabiá que é algo particular à terra natal – provoca um desequilíbrio natural na tensão instalada entre as duas anteriores, acentuando sonoramente, no nível rímico, a predominância de elementos ligados à terra natal. Além disso, há nas duas últimas estrofes o aparecimento de uma rima muito sutil, e observada inicialmente por Manuel Bandeira, entre as palavras “primores” e “palmeiras”, com a primeira letra de cada sílaba coincidindo entre si.
A estrutura rítmica da “Canção do Exílio” apresenta, atrás da simplicidade do heptassílabo, alguns diálogos importantes.
Como se sabe, o ritmo clássico da redondilha maior é o ritmo alternante, ou seja, aquele em que os versos se apresentam com acentuações na 1ª, 3º, 5º e 7º sílabas.
Vejam-se estes dois exemplos:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá

Entretanto, no poema de Gonçalves Dias, cinco versos (3, 14, 21, 22 e 23) não tem um comportamento uniforme, ao que parece propositais, na acentuação de alguns versos e, consequentemente, produzindo modificações importantes no andamento melódico do poema e podem ser divididos em dois grupos distintos: o primeiro, formado pelos versos 3, 14 e 22, com acentuação recaindo na 2ª sílaba; e o segundo, formados pelos versos 21 e 23, com a acentuação recaindo na 4ª sílaba.
De acordo com Adélia B. de Menezes, a referência explícita do poeta à terra alheia suscita a construção de um ritmo diferente. Ou seja, ao se aludir diretamente ao exílio, e denotando com isso uma intencionalidade em si, o poeta provoca uma mudança significativa no ritmo da canção.
Inicialmente, a interpretação do poema será feita através da montagem de um esquema comparativo que é possível inferir a partir de características levantadas junto às duas primeiras estrofes e que estabelecem um confronto direto entre um cá menosprezado e um lá altamente valorizado.
Nas três estrofes seguintes, a “Canção” é marcada pela reiteração obsessiva dos termos exclusivos ao lá. A estes, associa-se a solidão, que é assimilada aqui como um meio através do qual o eu-lírico se apóia para reafirmar, a todo instante, a superioridade de sua terra em contraponto ao exílio. Essa reafirmação é embalada por um componente imprescindível da cisma romântica: a saudade, sentimento motriz que reveste o poema de uma dor nostálgica contida e, por isso, mais pungente.
Se, inicialmente, a preocupação era a de identificar e nomear os campos de atributos, agora, esta se desloca no sentido de se ater mais demoradamente na análise de cada um.
No campo de atributos exclusivos existem apenas dois elementos restritos ao lá: palmeira e sabiá. Tanto o primeiro com o segundo aparecem do ponto de vista numérico, quatro vezes no poema, confirmando a também mencionada reiteração obsessiva. Além da igualdade numérica, os dois termos se equivalem somente no plano físico e enquanto elementos exóticos e exclusivos à natureza do lá. Uma vez que o termo Sabiá não se restringe apenas à representação física da ave, ele a transcende. Grafado na “Canção do Exílio” em maiúscula, e por isso colocado, no contexto do poema, no mesmo plano de Deus, o Sabiá transita do espaço físico para o simbólico e vice-versa, de maneira a representar a ave em si, aproximando-se de palmeiras, ora a voz superior da natureza brasileira, imagem simbólica da individuação nacional.
O uso simbólico da figura do Sabiá, por parte de Gonçalves Dias, não era propriamente uma novidade na literatura brasileira. Mas foi com seu poema que a ave ganhou uma significação especial, assumindo, enquanto dado poético, uma posição semelhante à ocupada pelo rouxinol na literatura européia. Entretanto, no caso brasileiro, o sabiá tornou-se marca de brasilidade.
No campo dos atributos comuns instaura-se um esquema comparativo, marcado pela presença do “mais”, entre elementos comuns tanto ao cá quanto ao lá. No entanto, os atributos da terra natal do eu-lírico: estrelas, flores, bosques etc. são apresentados de forma diferenciada, justificada apenas por sua localização espacial. O simples fato de pertencerem ao “lá” lhes dá um caráter aurático que encontra a sua justa representação em primores. Além da própria significação etimológica de primores – o que ocupa o primeiro lugar. Partindo da perspectiva em que os atributos comuns se abrigam sob a sombra sintética de primores, chega-se à articulação derradeira, cujo ponto decisivo consiste no desvendamento da intensa relação que existe entre primores e palmeiras. Há, aí, uma correspondência velada que ofusca a completa idealidade do lá. No limite das significações, ocorre a fusão simbólica entre os dois termos, transformando, dessa feita, os atributos, sintetizados em primores, e que pareciam comuns ao “cá”, em atributos idealizados e exclusivos ao “lá”.
Configurando-se a intensidade que envolve a ligação entre primores e palmeiras, pode-se se reafirmar que, no limite, todos os atributos do lá são não somente exclusivos como também idealizados, remete a “Canção” e a sua celebração do Brasil ao mito do paraíso terrestre.
É importante ressaltar que apesar de poeticamente muito sugestivo (a palmeira simbolizando a imponência e o Sabiá, a graça), o verso é ecologicamente falso. Ocorre que o sabiá, que tem por habitat a palmeira (sabiapioca), não canta. Vale lembrar que os românticos não tinham compromisso com a verdade, mas com a imaginação, com a fantasia.
A imagem da natureza edênica ganha com o poema uma significação maior na medida em que o poeta lança mão da sua condição de exilado para melhor conhecer o país. O distanciamento da terra permite ao poeta se colocar num lugar privilegiado que facilita a escolha de parâmetros de comparação, já que este pode, para melhor representá-la, lançar de fora, um olhar idealizado sobre sua terra natal. É constante a atitude panteísta, de contemplação da natureza como manifestação de Deus. A natureza é também refúgio e confidente do poeta, nos momentos de saudade, solidão e desalento.
“Canção do exílio” ao também se apoiar em sentimentos universais como a dor do exílio, não somente se tornou um referencial paradigmático de louvor à brasilidade através da perpetuação da imagem da natureza edênica, mas, sobretudo, fundou por si uma tradição na literatura brasileira que, ainda hoje, encontra ecos.

Em sequência, encontram-se quatro poemas que destacam a temática indianista: “O canto do guerreiro”, em que se exaltam as qualidades do índio; “O canto do Piaga” e “Deprecação”, nos quais paira sobre as tribos a ameaça do invasor branco, que chegava, como agente de Anhangá (deus do mal), para dizimá-los em busca de riquezas; e “O canto do índio”, em que um guerreiro aprisionado se deixa cativar por uma virgem loura:

“O Canto do Guerreiro”


I



"Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estime a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros.
— Ouvi meu cantar.



II



Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem há, como eu sou?



III



Quem guia nos ares
A flecha implumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada,
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meu cantar.



IV



Quem tanto imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como dou?
— Guerreiros, ouvi-me.
— Quem há, como eu sou?



V



Na caça ou na lide,
Quem há que me afronte?!
A onça raivosa
Meus passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céu.
— Quem há mais valente,
— Mais destro do que eu?



VI



Se as matas estrujo
Co’ os sons do Boré.
Mil arcos se encurvam,
Mil setas lá voam,
Mil gritos reboam,
Mil homens de pé
Eis surgem, respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?



VII



Lá vão pelas matas;
Não fazem ruído:
O vento gemendo
E as matas tremendo
E o triste carpido
Duma ave a cantar
São eles — guerreiros,
Que faço avançar.



VIII



E ao Piaga se ruge
No seu Maracá,
A morte lá paira
Nos ares frechados,
Os campos juncados
De mortos são já:
Mil homens viveram
Mil homens são lá.



IX



E então se de novo
Eu toco o Boré;
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal eles se escoam
Aos sons do Boré,
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?"

"O Canto do Guerreiro", primeiro poema indianista de “Primeiros Cantos”, é composto por nove estrofes, com métrica regular de cinco sílabas, redondilhas menores. A narração é conduzida pelo índio, cujos versos afirmam uma concepção de valor da condição indígena que irá distinguir o traço determinante da personalidade desses povos e se constituir em marca de toda a representação do índio na poesia de Gonçalves Dias: a dignidade da condição de homem livre, que só se desfaz com a destruição e a morte:
O índio se deixa enganar, mas não escravizar, resiste. Sua resposta à tentativa de escravização é a luta, ainda que esta lhe custe á destruição e a morte. A luta é condição maior, fator de dignidade e justificativa da existência da nação indígena. Portanto, a vida é uma epopéia constante, na qual só há lugar para os fortes, única condição de sobrevivência das nações indígenas. O uso da forma épica, adaptada às novas condições, revela a grande preocupação de Gonçalves Dias: não deixar que se percam no esquecimento as grandes tradições dos nossos índios, as raízes nativas da pátria. O objetivo central da epopéia é perpetuar na memória das gerações futuras a imagem do passado heróico nacional, no qual (como nos mostra Mikhail Bakhtin) estão os ancestrais, os pais, os fundadores, os primeiros, os melhores. E, isto só é possível, por meio da atualização daquelas imagens elevadas na memória do presente, e como tais imagens se construíram na vida-combate, na luta, impõe-se enaltecê-la, pois o combate só exalta os bravos, expandindo sua imagem e perpetuando-a na memória das gerações futuras.
Eis a estratégia do poeta: perpetuar na lembrança da nação, na voz do porvir, aqueles feitos que, elevados, têm qualidade épica, porque corresponde a continuidade do código de valores dos ancestrais e fundadores de uma nação.

“O canto do Piaga”



I


Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite — era a lua já morta —
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro — ossos, carnes — tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

II

Porque dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Porque dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem – vergar-se a gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

III

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente
– Brenha espessa de vário cipó –
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; e só!

Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando – lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... – o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade —
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos,
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupã!

Gonçalves Dias foi muito influenciado, assim como grande parte dos escritores românticos, pelas ideias de Montaigne e daqueles que as desenvolveram, como Rousseau, Chateaubriand (na França) e Fenimore Cooper, nos Estados Unidos.
“O canto do Piaga” exalta o índio heróico, virtuoso, morador de um paraíso que seria destruído pelos invasores europeus.
O protagonista do poema, o Piaga - que quer dizer pajé - é representado nesse poema como herói incompreendido, que prega resistência e luta contra os europeus invasores, já que pressente a dominação que virá. Na fala do Piaga o homem branco é o "monstro" que vem roubar terras, violar mulheres e profanar sua religião. Mas de nada adiantam suas previsões, nem o incitamento à luta.
O poema é composto por 80 versos divididos em 3 partes e 20 quartetos. Na intenção de fugir da tradição clássica, ele mistura versos octossílabos, decassílabos e, principalmente, os incomuns nonassílabos. Inicialmente, deixa uma ideia de que a sua rima será alternada, mas, logo na segunda estrofe, já manifesta o seu descompromisso com tal ordem e constrói, com liberdade, o ritmo e a musicalidade do poema.
Tal sonoridade atrai até o leitor menos interessado em versificação, contudo, não é ela o motivo principal do brilhantismo do texto, pois este está realmente é no “Canto do Piaga”, que traduz a visão épica do mundo, através do indianismo heróico, idealizado, fruto da imaginação do autor.
Há uma preocupação com seres sobrenaturais, fantasmas, seres capazes de arruinar a vida do índio, capazes, inclusive, de lhe tirar o bem maior, "a liberdade". Piaga, o pajé, o líder, conclama os seus guerreiros a ficarem alertas, pois ele prevê a aproximação do perigo. Na 4ª estrofe, percebe-se que o índio teme a cobra, que é traiçoeira e inimiga deles. A forma apresentada aos fantasmas é de uma cobra.
Em meio ao canto, percebe-se a pergunta do índio: "Esse monstro... - o que vem cá buscar?" ao que responde: "Vem matar nossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher!". Há de se notar, também, que todas essas desgraças só ocorrem quando “Manitôs já fugiram da Taba!”, ou seja, estão em perigo porque com os seus guardiões ausentes, a presença do mal (Anhangá) é facilitada, mal este, que por diversas vezes, já foi interpretada como a invasão dos portugueses.
Nesse caso, deve-se entender a sua poesia indianista como antevisão lírica e épica das nossas origens, revigorando as intenções nacionalistas do romantismo.

Em “Primeiros Cantos” encontram-se ainda, os poemas “Caxias”, homenagem à terra natal, e o drama amoroso “O soldado espanhol”, poema longo em sete partes, que tem seu assunto tirado dos romances de cavalaria: o cavaleiro despede-se da esposa, parte para a guerra e volta depois de muitos anos. Durante sua ausência, um fidalgo namora a esposa e, exatamente no dia do casamento, o guerreiro volta e assassina o amante e a mulher.

“Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a tiritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.”

Abordando um tema bem ao gosto romântico – amor e morte, o poema é bem o retrato da alma fragilizada do poeta, na sua busca frustrada do amor: o amor puro e casto como uma flor:

“Careço de ti, me anjo,
Careço do teu amor
Como da gota d’orvalho
Carece no prado a flor.”

II – “POESIAS DIVERSAS”:

“Abstenho-me de outras citações, que ocupariam demasiado espaço, não posso resistir à tentação de transcrever das “Poesias Diversas” uma das mais mimosas composições líricas que tenho lido na minha vida. (Aqui vinha transcrita a poesia “Seus Olhos”.) Se estas poucas linhas, escritas de abundância de coração, passarem, os mares, receba o autor dos “Primeiros Cantos” testemunho sincero de simpatia, que não costuma nem dirigir aos outros elogios encomendados nem pedi-los para si."


ALENCAR, José de, "Futuro Literário de Portugal e do Brasil" em Revista Universal Lisbonense, t.7, pág. 7 ano de 1847-1848.

No poema “Minha musa”, de linha programática, Gonçalves Dias dá o tom que predomina nesta segunda parte, já entrevisto em “O soldado espanhol”: lirismo amoroso e derramado, marcado pelo sentimentalismo lamuriante e lacrimoso, como se vê nestas estrofes:

“É triste a minha Musa, como é triste
O sincero verter d’amargo pranto
D’orfã singela
É triste como o som que a brisa espalha,
Que cicia nas folhas do arvoredo
Por noite bela.”



“Ela ama a solidão, ama o silêncio,
Ama o prado florido, a selva umbrosa
E da rola o carpir.
Ela ama a viração da tarde amena,
O sussurro das águas, os acentos
De profundo sentir.”

Embora esteja presente também a ideia de desventura amorosa, em “A leviana”; “Seus olhos”, “Inocência” e em outros, vazados num ritmo leve e suave, sobressai o amor idílico, puro e casto:

“Tu és vária e melindrosa
Qual formosa
Borboleta num jardim,
Que as flores todas afaga,
E divaga
Em devaneio sem fim.”



(“A leviana”)

“Hoje ainda és tu donzela
Pura e bela
Cheia de meigo pudor;
Amanhã menos ardente
De repente
Talvez sintas meu amor.”

(“Inocência”)

Não obstante, predomina, nesta parte, o desejo de amar, que não se concretiza, infelicidade, desengano, solidão, sempre entrelaçados com a ideia de morte, como se vê nas passagens abaixo:

“Podes ir, que é desfeito o nosso laço,
Podes ir, que o teu nome nos meus lábios
Nunca mais soará!
Sim, vai; - mas este amor que me atormenta
Que tão grato me foi, que me é tão duro,
Comigo morrerá!”

(“O desengano”)

“Amar-me! – Eu que sou?
Meus olhos enxergam, enquanto duvida
Minha alma sem crença, de força exaurida,
Já farta da vida,
Que amor não doirou.”

(“Minha vida e meus amores”)


“Meu Deus, foi bom assim! No imenso pego
Mais uma gota d’amargor que importa?
Que importa o fel na taça do absinto,
Ou uma dor de mais onde outras reinam?”



(“Tristeza”)

Entretanto, a presença da morte é mais marcante em “Epicédio”, “Visões”, “À morte prematura” e “Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra”, como se vê nas passagens abaixo:

“Seu rosto pálido e belo
Já não tem vida nem cor!
Sobre ele a morte descansa,
Envolta em baço palor.”

(“Epicédio”)

“E ela morreu no viço de seus anos!...
E a lajem fria e muda dos sepulcros
Se fechou sobre o ente esmorecido
Ao despontar de vida
Tão rica de esperanças e tão cheia
De formosura e graças!...”



(“À morte prematura”)

Embora apareçam, nos poemas, lampejos de felicidade e algum entusiasmo, prevalecem neles a ideia de que a vida é um “vale de lágrimas”, que culmina com a morte infalível, como se vê em “Sofrimento”, “O pirata” e outros:

“Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo
Que não seja sofrer?
O homem nasce, e vive um só instante,
E sofre até morrer!”

(“Sofrimento”)

Em meio a tudo, está sempre presente o sentimento religioso, que impregna os poemas da presença de Deus. É o que se vê sobretudo em “O vate”, além de “O cometa”, “O oiro” e “A vila maldita, cidade de Deus”:

"E hoje...em nosso exílio erramos tristes,
Mimosa esp’rança ao infeliz legando,
Maldizendo a soberba, o crime, os vícios;
E o infeliz se consola, e o grande treme.
Damos ao infante aqui do pão que temos,
E o manto além ao mísero raquítico;
Somos hoje Cristãos.”



(“O vate”)


“Então do meu Senhor me calam n’alma
D’amor ardente enlevos indizíveis;
Se tendo às gentes redizer seu nome,
Queimadoras palavras se atropelam
Nos meus lábios; - profética harmonia
Meu peito anseia, e em borbotões se expande.
Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes
Teus prodígios, teu poder imenso:
O pai ao filho o diz, um séc’lo a outro,
A terra ao céu, o tempo à eternidade!”



(“O oiro”)

Presente em muitos poemas, a natureza é a tônica em “Quadras da minha vida”, como se vê logo no início do poema:

“Houve tempo em que os meus olhos
Gostavam do sol brilhante,
E do negro véu da noite,
E da aurora cintilante.



Gostavam da branca nuvem
Em céu de azul espraiada.
Do terno gemer da fonte
Sobre pedras despenhada.



Gostavam das vivas cores
De bela flor vicejante,
E da voz imensa e forte
Do verde bosque ondeante.”

Como já se viu em “Soldado espanhol” e mesmo em “O trovador”, o romântico gosta de abordar temas que comovem verdadeiros apelos ao coração. Nesse sentido, estão “O desterro de um pobre velho” e “A um menino”, poemas em que sobressaem o mito da pureza infantil e o respeito ao idoso, aspectos que também estão presentes em “Quadras da minha vida”, como se vê nesta passagem:

“Houve tempo em que os meus olhos
Gostavam de lindo infante,
Com a candura e sorriso
Que adorna infantil semblante.



Gostavam do grave aspecto
De majestoso ancião,
Tendo nos lábios conselhos,
Tendo amor no coração.



Um representa a inocência,
Outro a verdade sem véu;
Ambos tão puros, tão graves,
Ambos tão perto do céu!



Infante e velho! Princípio e fim da vida! –
Um entra neste mundo, outro sai dele,
Gozando ambos da aurora; - um sobre a terra,
E o outro lá nos céus. – Ó Deus, que é grande,
Do pobre velho compensando as dores,
O chama para si; o Deus clemente
Sobre a inocência de contínuo vela.”

Ainda nessa linha de apelo ao coração, em “A mendiga”, o poeta aborda timidamente as diferenças sociais, tema que será frequente no Realismo, e o problema da escravidão, em “A escrava”, poema em que se contrapõe a vida livre no Congo distante à dura realidade do cativeiro:

“Do ríspido Senhor a voz irada,
Rábida soa,
Sem o pranto enxugar a triste escrava
Pávida voa.



Mas era em mora por cismar na terra,
Onde nascera,
Onde vivera tão ditosa, e onde
Morrer devera!



Sofreu tormentos, porque tinha um peito,
Qu’inda sentia;
Mísera escrava! No sofrer cruento,
Congo! dizia.”

Presença marcante nos poemas e responsável direto pelo lirismo amoroso do poeta, a mulher, de acordo com a concepção romântica, está sempre numa dimensão inatingível, constituindo uma “etérea visão”, que se confunde com os “anjos”, como se vê em “O delírio” e outros. É de se vê, a esse propósito, que a “impossibilidade da realização amorosa encontra no sonho um artifício para contrastar os aspectos físicos e idealizados do amor”:

“Á noite quando durmo, esclarecendo
As trevas do meu sono,
Uma etérea visão vem assentar-se
Junto ao meu leito aflito!
Anjo ou mulher? Não sei. – Ah! Se não fosse
Um qual véu transparente,
Como que a alma pura ali se pinta
Ao través do semblante,
Eu a crera mulher...- E tentas, louco,
Recordar o passado,
Transformando o prazer, que desfrutaste,
Em lentas agonias?!”

(“O delírio”)

III – “HINOS”:


Integram esta parte os poemas “O mar”, “A tarde”, “Ideia de Deus”, “O romper d’alva”, “O tempo”, “Te Deum” e “Adeus aos meus amigos do Maranhão”. Marcados por um ritmo que bem combina com o tom reflexivo que deles emana, sobressai nesses poemas, o tema da natureza, que se funde com a ideia de Deus, como se vê sobretudo em “O mar” e “O romper d’alva”, nos quais se destaca a visão panteísta, em que tudo evoca Deus:

“Por entre as ramas ocultas,
Docemente a gorjear,
Acordam trinando as aves,
Alegres, no seu trinar.

O arvoredo nessa língua
Que diz, porque assim sussurra?
Que diz o cantar das aves?
Que diz o mar que murmura?



- Dizem um nome sublime,
O nome do que é Senhor,
Um nome que os anjos dizem,
O nome do Criador.



Também eu, Senhor, direi
Teu nome – do coração.
E ajuntarei o meu hino
Ao hino da criação.”

(“O romper d’alva”)

Além desse aspecto, em “A tarde”, a natureza também sobressai como confidente, mãe, companheira de solidão, consolo e refrigério para a alma triste do poeta:

“Homem que sente dor folga contigo,
Homem que tem prazer folga de ver-te!
Contigo simpatizam, porque é bela,
Qu’és mãe de merencórios pensamentos,
Entre os céus e a terra êxtases doce,
Entre dor e prazer celeste arroubo.”


Evocados pelos próprios títulos, a divindade é uma presença marcante em “Ideia de Deus”, “Te Deum” e “O templo”:

“Oh! Como é grande o Senhor Deus, que rege
A máquina estrelada,
Que ao triste dá prazer; descanso e vida
Á mente atribulada!”

(“Ideia de Deus”)


“Estou só neste mudo santuário,
Eu só, com minha dor, com minhas penas!
E o pranto nos meus olhos represado,
Que nunca viu correr humana vista,
Livremente o derramo aos pés de Cristo,
Que também suspirou, gemeu sozinho,
Que também padeceu sem ter conforto,
Com eu padeço, e sofro, e gemo, e choro.”

(“O templo”)

“Senhor Deus Sabaó, três vezes santo,
Imenso é o teu poder, tua força imensa,
Teus prodígios sem conta; - e os céus e a terra
Teu ser e nome e glória preconizam.”

(“Te Deum”)

Redimido das agruras terrenas e em paz com Deus, o poeta, certo de que a morte chega para arrebatá-lo, despede-se dos amigos, fechando o livro de uma forma bem romântica:

“Meus Amigos, Adeus! Já no horizonte
O fulgor da manhã se empurpurece:
É puro e branco o céu, - as ondas mansas,
- Favorável a brisa; - irei de novo
Sorver o ar puríssimo das ondas,
E na vasta amplidão dos céus e mares
De vago imaginar embriagar-me.”

Como se sabe, entretanto, embora tenha morrido jovem, isso só vai acontecer muito tempo depois, em 1864.