segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VIAGENS NA MINHA TERRA (1846), ALMEIDA GARRETT


I – INTRODUÇÃO:


A obra fundamenta-se numa viagem realmente efetuada por Garrett em 1843, a convite do político Passos Manuel, morador de Santarém. Divide-se em 49 capítulos: os dez primeiros narram as peripécias da viagem desde Lisboa até aquela cidade, de vapor, a cavalo, de carruagem. De permeio, o narrador vai tecendo comentários e divagações acerca de vários assuntos associados com o que vê e pensa durante o trajeto: a riqueza, o progresso, a literatura, a política, a modéstia, a guerra, o clero, o amor etc. Chegado a Santarém, o escritor ouve do companheiro de viagem a narração dos amores de Joaninha, “a menina dos rouxinóis”, e Carlos, entremeada de reflexões do herói da viagem.
Os jovens enamoram-se, mas Carlos vive dilacerado pelo amor que ainda julga sentir por Georgina, que ficara na Inglaterra. Envolve-se na trama Frei Dinis, que assassinara o marido da amante, tomara hábito e era o verdadeiro pai de Carlos. Com a vinda de Georgina a Santarém, dá-se o reconhecimento e o perdão, mas Joaninha morre. Finalmente, Georgina entra para o convento e torna-se abadessa, na Inglaterra; Carlos “é barão, e vai ser deputado qualquer dia”.

MOISÉS, Massaud. “Literatura portuguesa”, São Paulo: Cultrix. P. 132.

II – FOCO NARRATIVO:

Em “Viagens na minha terra”, Garrett, ao contrário da maioria dos romancistas, não lançou mão de nenhuma máscara, nenhum narrador fingido, para conduzir o livro em seu lugar. Autor, Garrett assume também o papel de narrador. Isto nos ministra informações importantes sobre sua biografia, e dá ao livro um caráter de depoimento e observação histórica. Quando Garrett usa a primeira pessoa, “eu”, espreguiçar-se em considerações cheias de humor, não longe de uma atmosfera de prosa lírica. Quando usa a terceira pessoa, “ele”, e se esquece um pouco de si, passa ao tom mais grave, mais revelador, mais dramático, que ocorre, sobretudo, quando nos conta a história dos amores de Carlos e Joaninha, ou quando fala do cenário da guerra civil em Portugal.


III – CARACTERÍSTICAS:

Segundo os críticos Antonio José Saraiva e Oscar Lopes, “neste livro – misto de diário, literatura de viagens, reportagem e ficção, o escritor português narra a história de um rapaz (Carlos) que se apaixona de um modo sucessivo e intenso por várias mulheres e se sente incapaz de estancar este constante fluir da vida amorosa, de fixar e estabilizar a sua personalidade afetiva. (...) Ninguém – continuam os críticos -, antes de Garrett, na ficção portuguesa, entrara tão sutilmente na análise do que há de convencional, fictício ou autêntico na vida sentimental, na confusão da verdade e da mentira, de vida atual e de sobrevivência que é o todo afetivo de cada indivíduo; e ninguém pôs em termos agudos o problema do desgarrar da personalidade na mudança de tudo, ligando-o, ao mesmo tempo, ao ceticismo superveniente a uma causa generosa que degenera: Carlos descrê de um amor verdadeiro, ao mesmo tempo que descrê da revolução...”

O romance “Viagens na minha terra” foi composto sob a forma de folhetim, bem ao gosto romântico da época. Sua narrativa, apesar de grande base descritiva, dos adjetivos em excesso, é saborosa, envolvente e apresenta temas essencialmente românticos como: natureza ativa e confessional; heroísmo; nacionalismo; lirismo amoroso e morte.
Há em Garrett um observador minucioso de fatos, excluindo-se o tom melodramático tornando-se um antecipador de Eça de Queirós. O autor usa um estilo extremamente vivo, com giros e expressões coloquiais – um estilo que se molda ao pensamento no seu fazer-se, apto a sugerir leves emoções, associações fugidias, estados de devaneio, os meandros duma nova sensibilidade.
Nesse romance, Garrett não está concentrado em narrar uma história, mas, ao contrário, parece estar-se afastando da história, para contá-la, supõe-se, mais tarde. Esta técnica de suspensão da narrativa, em favor de comentários e opiniões variados, sob o ritmo da emoção crítica e da fineza intelectual, denomina-se digressão.
Desse modo, relata assuntos sobre economia, geografia, política, literatura, arquitetura, justiça, filosofia, religião, história ou costumes sociais, sem, no entanto, tirar a unidade do livro. Pois eles convergem para dois tipos de emoção alternantes: a da observação terna e enlevada, e a do ceticismo cultural, tratado geralmente com humor crítico. É com ternura que Garrett se lembra de algumas paisagens de sua terra, das velhas histórias ligadas ao folclore ou que ele nos fala de poetas prediletos, como Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe e outros. Mas é com pessimismo político que ele vê as últimas gerações de portugueses, envolvidos pela mentalidade lucrativista.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crônicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal (...) Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompéia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo, de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com elas.” (CAP. XXIX)

Neste fragmento observa-se que Garrett deplora a deformação da arquitetura histórica de Portugal e critica a condição cultural portuguesa, incapaz de compreender sua tradição e sua história.
Garrett, que se embriaga com os primores estéticos da antiga arquitetura portuguesa, defende a herança do passado e se revolta contra os novos “barões”, homens que agora representam a mentalidade burguesa e insensível.
É importante ressaltar que Garrett também representa essa cultura burguesa e progressista cujos excessos ele condena. O autor foi liberal, participou da luta pela democracia, gostava do progresso e abraçava os ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), porém como homem moderno, Garrett desejava que Portugal acompanhasse os demais países da Europa e não se furtasse a evolução. Assim, como homem sensível e patriota, demonstra um apego ao passado de sua terra natal, principalmente ao patrimônio artístico e cultural, ameaçado pelo crescimento do capitalismo e da burguesia que acabou transformando os valores patrimoniais.
Outra característica importante do livro está em que o narrador nos conta duas histórias, interligadas pelas circunstâncias e pelo espaço físico. Uma história refere-se a dos amores de Carlos e Joaninha. Outra é a da própria viagem que o narrador faz de Lisboa a Santarém de comboio, com a intenção de conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e assim saudar do alto cume a mais histórica e monumental das vilas de Portugal.
Há que incluir ainda um pano-de-fundo histórico, que é a guerra civil que abalou Portugal, e que dividiu os contendores em realistas e constitucionalistas. Os primeiros, conservadores, queriam a monarquia absoluta. Os segundos, liberais, desejavam uma política nacional pautada pelos ideais da Revolução Francesa, e, com isso, uma monarquia mais branda.

IV – PERSONAGENS:

Personagens Principais: Joaninha e Carlos, protagonistas da história de amor.
Personagens Secundárias: A avó de Joaninha – D. Francisca, Frei Dinis, Georgina, Laura e Júlia.

V – AS TRÊS HISTÓRIAS ENTRELAÇADAS:

“Viagens na Minha Terra” é um livro difícil de enquadrar em gênero literário, pelo hibridismo que apresenta.

O que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros, é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão. Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo e a matéria do meu conto para o seguinte.” (CAP. X)

Garrett narra a partir do décimo capítulo, a história dos amores de Carlos e Joaninha, começados e terminados em Santarém, lugar que o narrador escolheu como destino final de sua viagem. Garrett ficou sabendo desse rumoroso caso de amor através de um companheiro de viagem. Conta, portanto, o que lhe contaram: não é testemunha direta dos acontecimentos. Mas, como alguns dos protagonistas da história ainda vivessem na cidade, Garrett, na volta, ousou entrar em contato com eles. Por outro lado, essa história ocorreu em meio a uma guerra em que irmãos lutavam contra irmãos, guerra que Garrett havia conhecido bem de perto. Cruzam-se, portanto, três histórias: a de Garrett, em sua viagem a Santarém; a de Carlos e Joaninha, e a da guerra civil, que envolveu a todos.
No momento em que Garrett resolve contar suas impressões de viagem, ou seja, quando ele se põe a escrever seu romance, todos estes acontecimentos já tinham terminado, e ele então vai evocá-los pela memória. Mas muitos comentários trazidos à baila pela lembrança são recriados, ampliados pela imaginação e pelo bom gosto do escritor.

A VIAGEM DE GARRETT:

Garrett afirma que há muito tempo sentia desejo de conhecer “as ricas várzeas desse Ribatejo”, coisa que a mexeriquice de um jornal entendeu como viagem política. Partiu em dezessete de julho de 1843. Como o tempo lhe sobra, vai fazendo também uma viagem por dentro de si mesmo, uma viagem a suas recordações, suscitadas por tudo o que está vendo.

Vê-se, portanto, que as “Viagens na minha terra” poderiam ser interpretadas como uma costura do que vai “lá fora” com o que desperta “cá dentro”. O que vai “lá fora”, e é visto com o olhar do corpo, é o panorama que se descortina Tejo acima, as vilas, as pessoas. O que vai “cá dentro”, e é visto com o olhar da memória, constituiria a viagem imaginária de Garrett. E assim, o fato de fumar a bordo lhe lembra o poeta Lord Byron; as pessoas no navio lhe inspiram um comentário sobre os portugueses, e assim a digressão vai tecendo o livro. Em seguida, passa ao argumento de que a marcha da civilização obedece a dois impulsos, o do espiritualismo, calcado em D. Quixote, e o do materialismo, em Sancho Pança. A viagem, assim, vai simbolizando ironicamente a marcha do progresso social.

Somos chegados ao triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este ano.
Um imenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos espera naquele descampado africano. É forçoso optar entre os dois martírios da caleça ou do macho. Do mal o menos...Seja este.” (CAP. II)

Chega depois a Azambuja, onde lhe servem uma horrível limonada. Daí até o vale de Santarém, a viagem se fará no lombo de uma enfezada mulinha. Já no caminho do Cartaxo, uma das povoações mais bonitas de Portugal, o autor pensa em Camões e no defeito de seu poema épico e reflete sobre os males da guerra civil:

Toda guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.”

Envolvido com estas ideias, chega à ponta de Asseca:

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra: o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos. Disto é que não tem Paris, nem França, nem terra alguma do Ocidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.” (CAP. IX)


No vale de Santarém, o autor surpreende uma habitação antiga, com janela larga e baixa. Lá, imagina “um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão – vestido de branco...”, de olhos...pretos? Uma voz – que é a voz de um companheiro de viagem – corrige para “verdes”. Dessa forma que Garrett entrou em contato pela primeira vez com a história da “menina dos rouxinóis”.

A história da “menina dos rouxinóis”, a Joaninha e seu amor por Carlos, é datada por volta de 1832, e o narrador começa a relatar efetivamente no Capítulo II.
No Capítulo III, Garrett faz insinuante observação sobre os frades, mal vistos pela apressada opinião moderna.
No Capítulo XXVII, os viajantes chegam a Santarém, passam pelo convento de S. Francisco, cujo último guardião fora Frei Dinis. Descreve-se a arquitetura do lugar e a chegada a Alcáçova lhe motiva a seguinte observação:

Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos, é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é ao pé mesmo da famosa e histórica igreja de Santa Maria de Alcáçova. Há de custar a achar em tanta confusão. (...) É impossível. A obra tinha sido danificada por constantes reparos e modificações.” (CAPS. XXVII-XXVIII)

Na mesma penúria está o palácio de Afonso Henriques.
O autor lembra a história milagrosa do século VII, a de Santa Iria, raptada e assassinada por um cavaleiro que se hospedara em sua casa. No Capítulo XXXI, novas andanças em Santarém e novas decepções. No capítulo seguinte, o narrador retoma a história de Joaninha. Sua decisão de voltar para Lisboa dá-se no fim do Capítulo XLI. Antes, porém, visita o túmulo de D. Fernando: “Ó nação de bárbaros! Ó maldito povo de iconoclastas que é este!”
É na sua volta, já no Capítulo XLIII, que o narrador se vai encontrar com os protagonistas remanescentes do drama de Carlos e Joaninha e fica sabendo dos desencontros amorosos, que abrange os últimos capítulos do romance.

A GUERRA CIVIL:

Em Portugal, na primeira metade do século XIX, houve constantes lutas entre absolutistas e constitucionalistas, intensificadas depois da morte de D. João VI.

D. Pedro I, filho deste, imperador do Brasil e herdeiro da coroa portuguesa, representando interesses liberais ingleses abdicou ao trono de Portugal em favor de sua filha, D. Maria II, e outorgou a Portugal uma constituição ainda monárquica, mas de caráter liberalizante. É a oportunidade para que voltem ao poder, vários dos constitucionalistas que se haviam exilado em Inglaterra e França, quando do golpe de estado que acabara com a constituição do Porto, de 1822. Garrett, como se sabe, é um deles. Mas o espírito conservador, influenciado pela política de Viena, ainda é muito forte à altura em que D. Pedro I outorga sua carta constitucional. Esse espírito, intolerante e violento, se inspira na figura de D. Miguel, irmão de D. Pedro, a quem D. Pedro confiara o governo e a filha em casamento. Não contente de estar no poder, D. Miguel quer ser o rei de Portugal. Apoiado por suas facções, D. Miguel é aclamado rei em maio de 1828, e promove intensa perseguição a seus inimigos políticos, os democratas, os constitucionalistas, os liberais, enfim, todos os que representavam influência de ideologia francesa ou inglesa. É natural, pois, que muitos destes se exilassem, uma boa parte pela segunda vez. Mas a resistência contra D. Miguel vai crescendo, a partir de seu próprio irmão, que, já em 1832, vai à ilha Terceira reunir-se aos revoltosos.

Iniciou-se então uma guerra civil que duraram quatro anos, e que só terminaria com as batalhas de Almoster (fevereiro 1834) e Asseiceira (maio de 1834). Vencem, finalmente, os constitucionalistas, e Garrett, como vitorioso, terá importantes tarefas de reconstrução cultural e moral de seu país.


A HISTÓRIA DE CARLOS E JOANINHA:

Já sabemos que, quando o imaginário de Garrett começava a desenhar uma moça de olhos pretos, na habitação antiga, foi no ato corrigido pela voz do companheiro de viagem, que lhe disse serem verdes os tais olhos e que lhe passa a contar á história que envolvia a moça e aquela casa.
O caso se passara alguns anos de Garrett chegado lá e o narrador vai passá-lo aos leitores interpoladamente, ou seja, espaçando os episódios através de dezenas de digressões que vai fazendo.
A primeira cena de relevo é a de uma velha cega, trabalhando à porta da casa. A linha se embaraça, e a velha chama Joaninha, sua neta.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas do mundo.” (CAP. XII)

Em seguida, insere na narrativa outra personagem: Frei Dinis.
Esse era um homem calado, que visitava a velha todas as sextas-feiras. Das falas entre Dinis e a velha, ficamos sabemos que esta tinha um parente que estava lutando do lado dos constitucionalistas, e que o frade parecia detestar: “mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno”. O frade é um homem à antiga, um conservador que vê no liberalismo a ruína de Portugal. Chamava-se Dinis de Ataíde, fora militar e homem de cultura, depois, repentinamente, meteu-se no mosteiro de São Francisco, não sem antes doar suas posses à velha. E agora é uma figura sombria, que só abre a boca para fazer a velha chorar.
Esta velha é uma senhora cega D. Francisca Joana, que além de ser a avó de Joaninha, também é avó de Carlos, o rapaz que sumira para ingressar nas tropas liberais.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão, e já órfã de pai e mãe (...) O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha”.

Carlos partira em 1830 para Inglaterra, depois de discutir com o frade, não só porque divergia dele e o achava prepotente, mas porque via nele alguma coisa terrível, ligada ao passado de sua família. A velha ficara cega de tanto chorar: não só pelo neto, mas pelo mistério familiar que aos leitores ainda não foi apresentado. E agora as perspectivas da guerra mostram que Carlos pode perfeitamente estar de volta, no Porto, fazendo parte do pequeno exército de D. Pedro. O frade finge que não gosta de Carlos. Joaninha põe uma cadeira, o frade, exausto, senta e entrega à moça uma carta de Carlos, vinda pelo cônsul da França. A carta realmente era para Joaninha. Para o velho e a velha, nenhuma palavra.

A RETIRADA DE 11 DE OUTUBRO:

Os constitucionalistas vencem. Os realistas fogem, com morte e desolação por toda parte, tendo apenas como abrigo para feridos a casa do vale:

Joaninha pensava os feridos, velava os enfermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia era tão senhora, tinha tão grave gentileza, um donaire tão nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-na ainda mais.”

Um dia, adormecida no bosque, sob o canto dos rouxinóis, Joaninha desperta sob a presença de um oficial.

É Carlos. Juram amor mútuo, mas Carlos lhe pede para nada contar em casa.

A narrativa dessa história interrompe-se no Capítulo XV e só será retomada no Capítulo XXXII. Começa a batalha final, e Carlos, ferido, é recolhido no mosteiro de São Francisco, dirigido por Frei Dinis. Uma linda mulher, de feições não lusitanas, está a tratar dele, e ele, ainda adormecido, exclama: “Oh Georgina, Georgina, I love you still!”
Georgina era a namorada inglesa de Carlos. Conseguira, com muito esforço, chegar ao front e recolher seu corpo quase morto, com a ajuda de frei Dinis. Georgina pressente que Carlos não mais lhe tem amor. E lhe diz isso claramente, coisa que o herói não aceita.
Georgina, que contara tudo ao frade, do frade ficara sabendo sobre Joaninha.

Admirável beleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor. Não, por Deus! O monstro amava-as a ambas: está tudo dito. E elas, que o sabiam; elas, que o sentiam e que o julgavam digno de mil mortes, elas rivalizavam de cuidados e de ânsia pata o salvarem.” (CAP. XXXV)

Num momento dessa conversa, Georgina lembra a Carlos a bondade e a providência de Frei Dinis, que o salvara. Carlos não resiste:

“ – Oh! Aqui anda ele, bem o vejo, aqui anda o gênio mau da minha família. Maldito sejas tu, frade!”

Frei Dinis, que estava numa alcova ao lado, resolve entrar e responder. Ainda mais que Carlos o acusava agora de ter matado seu pai, cegado sua avó, e ter ainda coberto de infâmia a família inteira.

“ – Padre, padre! E quem assassinou meu pai, quem cegou minha avó, e quem cobriu de infâmia a minha...a toda a minha família?
- Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! Mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! Assim, meu Deus! Às mãos dele, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...(...)
O frade disse enfim com uma voz apenas perceptível de tímida e de fraca:
- Carlos, meu Carlos, perdoa também...oh! Perdoa à memória de tua desgraçada mãe!
O mancebo saltou convulsamente como o cadáver na pilha galvânica. Em pé, hirto, horrível, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
- Demônio! Demônio encarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem inda agora, monstro: só às minhas mãos deves morrer. E hás de!
Lançou-se a um enorme velador de pau-santo que lhe jazia ao pé, maça terrível de Hércules, e bastante a fender crânios de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! De ambas as mãos a levava no ar; e o velho estendeu para ele a cabeça como na ânsia de morrer...Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consumar-se...
Dous gritos agudíssimos, dous gritos de desespero e de terror, daqueles que só saem da boca do homem quando suspenso entre a morte e a vida – soaram repentinamente no aposento; uma velha decrépita e meio morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezesseis anos, estava diante de Carlos, e ambas cobriam com seus débeis corpos a frágil e extenuada figura da sua vítima.
- Filho, meu filho! – arrancou a velha, com estertor, do peito, - é teu pai, meu filho. Este homem é teu pai, Carlos.” (CAP. XXXV)

Como se pode observar, nesse capítulo encontra-se o clímax do drama de Carlos e, até certo ponto, de Joaninha. Esse clímax se dá com a revelação de que Frei Dinis é de fato o pai de Carlos. No início, foi revelado que a velha cega era avó de Joaninha por parte masculina: Joaninha nascera do casamento do único filho varão de D. Francisca. E Carlos era neto dela por parte feminina. Quanto a seu pai, Carlos o supunha assassinado pelo frade Dinis. Só não sabia exatamente por quê. E eis que agora tudo se esclarecerá com a revelação, de parte de D. Francisca, e confirmada pelo frade Dinis, de que Carlos era na verdade o filho deste.
Na convulsão em que se achava, ao precipitar-se para matar o frade, e na comoção ainda maior de quem percebe subitamente que ia matar seu próprio pai, Carlos perde os sentidos, depois de lhe ter estourado o ferimento no pescoço. Ao acordar, ouve da boca da avó que sua mãe havia amado aquele homem que lá estava, Dinis. Amores antigos e adulterinos. Com ele concebera um filho. Ao saber dos amores da esposa, seu marido tramou, junto com o cunhado, uma vingança definitiva contra o frade. Ambos o esperaram na escuridão para matá-lo. Saiu-se bem o frade, que, ao defender-se, matou aos dois que o assaltavam, sem saber ainda, por causa da escuridão, a quem tinha matado. Só depois ficou sabendo, e então, amaldiçoou-se. Sua amante, mãe de Carlos, não lhe perdoou esse crime, nem mesmo antes de morrer. E o frade o relatou à avó de Carlos e Joaninha, para mortificar-se mais ainda. A partir daí a velha começou a verter sem parar as lágrimas que a levariam à cegueira. Dado seu crime, e seu engano, o assassino resolve desposar a vida religiosa, mas acompanhando de perto a vida de Joaninha e Carlos, sobretudo deste último, seu filho. Durante todo esse tempo, imaginara ele que Carlos jamais saberia da verdade. Mas, exatamente por não saber, é que Carlos imagina que o frade é que havia matado seu pai, quando na verdade seu pai era o assassino do marido de sua mãe, assassino também de seu tio, pai de Joaninha. A tragédia, portanto, liga aos dois primos. O sofrimento destes, contudo, por uma razão ou por outra, era bem menos agudo que o sofrimento de D. Francisca e do frade. Estes purgavam um remorso intenso, que a religiosidade só fazia piorar.

“ – Ambos se juntaram para me assassinar, e me acometeram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite, escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida à custa da deles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti, quando pegando, um a um, nesses cadáveres para os lançar ao rio, conheci as minhas vítimas...Era inverno, a cheia ia de vale a monte: quando abateu e se acharam os corpos já meios desfeitos, ninguém conheceu a morte de que morreram; passaram por se terem afogado. Ninguém mais soube a verdade senão eu e tua infeliz mãe, a quem o disse para meu castigo; a quem vi morrer de pesar e de remorsos; que expirou nos meus braços chorando por ele, e maldiziendo-me a mim. Não seria bastante castigo, meu filho? Não foi, não. Este burel que há tantos anos me roça no corpo, estes cilícios que no desfazem; os jejuns, as vigílias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua ira não me deixa, a sua cólera vai até a sepultura sobre mim...Se me perseguirá além dela!...(...)
- Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, ó meu Deus!
Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circunstâncias daquela morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sair sangue e água pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por esta derradeira expiação. Deus não o quis. Aqui estou penitente a teus pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio...o algoz e a desonra de tua família toda. Faze de mim como for da tua vontade. Sou teu pai...
- Meu pai!...Misericórdia, meu Deus!
- Misericórdia, filho, e perdão para teu pai! (...)
Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no coração, que ou lhe quebrara o sentimento ou lho não deixava expressar. Saiu da cela fazendo sinal que vinha logo: mas esperaram-no em vão...Não tornou.
Daí a três dias, veio uma carta dele, de junto de Évora, onde estava com o exército constitucionalista.” (CAP. XXXVI)

VI - CONCLUSÃO:

Em geral, as tragédias clássicas terminam com uma solução violenta do destino e Garrett tinha muita sensibilidade para o gênero trágico, coisa que mostrou não apenas neste romance, mas também no drama “Frei Luís de Sousa”. Faz parte do decoro de uma peça trágica que seus personagens nunca mais continuem vivendo como tinham vivido. Garrett, portanto, terá de dar a seu enredo uma solução que não pareça banal, exatamente para realçar os efeitos do drama que nos acaba de contar. É preciso que os protagonistas desapareçam, ou mudem completamente de vida.
Carlos deixara uma carta para sua prima Joaninha. É uma carta de despedida definitiva, que lançará também alguma luz sobre a psicologia dessa personagem algo estranha, que devota sincero amor a duas mulheres simultaneamente, e que se afasta do pai tão logo o reconhece. Carlos, enfim, não quis recompor a vida com os seus.
Garrett acena com uma explicação cabível. É que os acontecimentos haviam rompido algo no coração de Carlos. Haviam feito que ele não apenas quisesse esquecê-lo totalmente, mas também quisesse converter sua vida em outra coisa, bem contrária ao que fora até então, por exemplo, tornar-se barão (novamente Garrett utiliza a oposição entre frades, que representam o Portugal antigo, e barões, que o representam o capitalismo moderno e sem escrúpulos).

Homem político, falar muito na Pátria com quem não me importo, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e – quem sabe – talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outra”.

Em sua longa carta à prima, em que procura justificar-se, Carlos faz uma reflexão em torno daquilo que tinha sido seu passado recente, e em nome disso quer obter o perdão da prima. Garrett queria encerrar seu romance a parecer convincente e não deixar falhas na intriga. Se Carlos dissesse que simplesmente não queria mais ver ninguém, já estaria plenamente justificado. Mas não. Carlos vai contar o que lhe ocorreu na Inglaterra, e aí é que as coisas parecem um pouco exageradas, quer em relação aos fatos, quer em relação aos meandros de seu mundo interior.
O herói conta a sua prima que conhecera na Inglaterra três formosas irmãs, a quem se afeiçoara e a quem visitava com frequência: Laura, Júlia e Georgina. E eis que Carlos se apaixona pela primeira. Paixão impossível, porque esta, contra a vontade, já estava prometida a outro. E o consolo de Júlia lhe serviu tanto e foi de tal monta que logo depois ele se apaixona por esta. Júlia, porém, cai doente e logo morre. O desespero de Carlos só poderia consolar-se com a última das irmãs, Georgina, a mesma que enfrenta todas as dificuldades da guerra para rever o amante ferido no campo de batalha. A separação entre Carlos e Georgina se dera quando da necessidade imperiosa que teve ele de partir para Portugal, engrossando as tropas liberais de D. Pedro I.
Durante sua ausência, Carlos não deixava de escrever à nova amada. Mas – dirá depois Georgina – estas cartas eram cada vez mais frias. E de fato, depois de conversar com Frei Dinis, e de saber sobre Joaninha, Georgina tem certeza de que Carlos ama na verdade a própria prima. Carlos chega, enfim, à conclusão de que ele mesmo não passa de um monstro moral, um homem que não consegue amar a apenas uma mulher. Não entende seu próprio defeito, e por isso resolve mudar de vida, para pior, e ausentar-se de vez.
Na volta para Lisboa, Garrett quis entrar em contato mais íntimo com o ambiente em que haviam ocorrido as coisas. Deixou seus companheiros de viagem partir e aproximou-se. Para sua surpresa, encontrou ainda lá o frade e a velha cega. Não mais como eram antes. O frade estava muito velho e abatido. E a velha, disse o frade, estava à morte. Garrett insinuou-se junto ao frade, e conseguiu que este lhe mostrasse a carta que Carlos havia mandado a Joaninha, a mesma em que este se tenta justificar á prima. Garrett leu-a toda. Depois, perguntou por Joaninha e por Georgina.

Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra”, respondeu o frade.

O narrador se despede, e procura reencontrar seus companheiros de viagem.
A obra “Viagens na minha terra” retrata a conexão entre a vida íntima e a vida pública do herói, entre o seu cansaço sentimental e a sua descrença política. Além de valer-se pela análise da situação política e social do país e pela simbologia que Frei Dinis e Carlos representam: no primeiro é visível o que ainda restava de positivo e negativo do Portugal velho, absolutista; o segundo representa, até certo ponto, o espírito renovador e liberal. No entanto, o fracasso de Carlos é em grande parte o fracasso do país que acabava de sair da guerra civil entre miguelistas e liberais e que dava os primeiros passos duma vivência social e política em moldes modernos.

sábado, 6 de agosto de 2011

TRINCA DOS TRAÍDOS, IACYR ANDERSON FREITAS: A LÍRICA CONTEMPORÂNEA


I – AUTOR:

IACYR ANDERSON FREITAS nasceu em Patrocínio do Muriaé-MG, em 22 de setembro de 1963. Formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora, o poeta obteve também, pela mesma instituição, o título de mestre em Teoria da Literatura. Publicou quatorze livros de poesia e três de ensaio literário, tendo recebido diversas premiações no Brasil e no exterior.

Sua obra se encontra bastante divulgada em outras línguas e países (Colômbia, Espanha, Argentina, Estados Unidos, França, Chile, Malta, Itália e Portugal). Além de colaborar intensamente na imprensa brasileira, já publicou poemas e textos críticos em “Sertã” (Espanha), Saudade (Portugal), “Private” (Itália), “Comum Presencia” (Colômbia), “Punto di vista” (Itália), “O comércio do Porto” (Portugal), “Los rollos del mal muerto” (Argentina), “Internacional Poetry Reiew” (USA), “Ricerca research recherche” (Itália), “Fokus” (Malta) e “Rimbaud Revue” (França), entre outros.

II – CARACTERÍSTICAS:

De acordo com Luiz Ruffato:

Do poeta Iacyr Anderson Freitas, sabemos o que aguardar. Uma longa estrada, pavimentada por importantes prêmios nacionais e internacionais, já foi percorrida, e sua obra, que alcança uma dezena e meia de títulos, expõe uma das vozes mais originais e fecundas da lírica contemporânea.
Surpresa, no entanto, é defrontarmo-nos com o ficcionista Iacyr Anderson Freitas, que se mostra por inteiro nesse volume de contos, “Trinca dos traídos”.
Consciente do imenso abismo que separa os gêneros, o autor assume como prosador uma faceta nova, como se outra mão se nos apresentasse para guiar, outra voz se elevasse a clamar contra o absurdo da vida.
O poeta não abandona o ficcionista, mas deixa-o livre para erigir universos próprios, onde a condição humana, matéria-prima de todas as suas preocupações, seja mais uma vez interpelada, agora sob outras formas.
É curioso que, num momento em que apela, uma certa linhagem de prosadores, para a linguagem neonaturalista, quase jornalística, ou até mesmo mimética, pseudo-realista, Iacyr venha se apresentar vestido numa roupagem clássica, em tudo estranha e em tudo próxima.
Uma escolha na qual se percebe sua urgência em transcender o instante e buscar o que realmente interessa, a essência da arte literária.
O autor não esconde a linhagem a que pertence: basta observarmos as epígrafes de cada um dos contos – particularmente os prosadores, Franz Kafka, Osman Lins, Machado de Assis, Albert Camus, Clarice Lispector, Jorge Luís Borges.
O desconforto do homem, náufrago na inautenticidade, é o tema; a linguagem poética, a tentativa de traduzir esses estados de alma.”

Iacyr constitui um dos principais representantes da lírica brasileira, assumindo um lugar de destaque entre os revoltosos contra o vanguardismo teórico do concretismo e do neoconcretismo. Sem desprezar as conquistas estéticas do passado, o poeta é moderno em seu permanente diálogo com os grandes poetas da língua portuguesa.
Dividido em três partes ou três naipes: oito de copas, oito de ouros e oito de espadas, o livro é composto por vinte e quatro contos, envolvendo relatos confessionais, intimistas e cotidianos, ao mesmo tempo, que, nos remete a uma reflexão introspectiva dos mistérios que soldam a alma humana.
Os vinte quatro capítulos apresentam estrutura bem elaborada, acompanhados de epígrafes de renomados escritores, afastando-se da irreverência de novos experimentalismos estéticos e apoiando-se no preciosismo da arte clássica.
Os contos apresentam uma interdependência entre si, mas são amarrados por um fio condutor que leva o leitor a repensar a condição humana, a inquietação espiritual, conduzindo-o a uma revelação, resultando em muitas vezes a uma dolorosa sensação da fragilidade diante da realidade.

Iacyr é o ficcionista do estranhamento humano, das atmosferas opressivas e enigmáticas, das confissões veladas, dos mistérios que rondam a condição humana”, afirma Lúcio Cardoso.

Da mesma forma, o também crítico Wilson Martins, no caderno Prosa & Verso de O Globo destacou que “O realismo de Iacyr Anderson Freitas não rejeita as regiões turvas da realidade”.

Um dos grandes representantes da lírica brasileira”, segundo a avaliação do escritor Alexei Bueno, Iacyr tem agora a rara oportunidade de ver seu livro de contos figurar numa restrita lista de onze obras obrigatórias para o vestibular de 2007 da FGV-EDESP (...).

De acordo com o programa divulgado recentemente, o livro de Iacyr assume a condição de representante da contemporaneidade literária no Brasil, dentro do rol então elaborado pela FGV:

Buscando na contemporaneidade uma obra que a representasse, elegemos “Trinca dos traídos” pelas peculiaridades estéticas que apresenta e, consequentemente, por sua originalidade literária. Nessa época pós-moderna em que os gêneros tangenciam-se nos limites até mesmo do improvável, esse livro consegue produzir efeitos de sentido graças a procedimentos narrativos inovadores sem que se mostre uma intenção de ser revolucionário. O autor, que antes de ser narrador é poeta (treze livros de poesia) e ensaísta, opta por pequenas tomadas narrativas com essenciais lampejos da existência.”

Em “Trinca dos traídos” há uma proposta de jogo cujas regras terão de ser pensadas e decifradas pelo leitor, pois nada está claro e ostensivo para cada jogada ou cada lance.
“Trinca dos traídos” retrata “pequenas traições” que nos consome diariamente.

III – SÍNTESE DO ENREDO:

OITO DE COPAS

NO DORSO DOS DOMINGOS

Muitas coisas tinham ocorrido até chegarem a esse viver suspenso sobre o vazio do dia seguinte.”

Fernando Namora


O narrador em primeira pessoa e de maneira introspectiva traz à tona um acontecimento marcante de sua infância.


Qual a importância desse fato agora? Nenhuma, eu me dizia. Mas por quê, apesar de todos os esforços, não conseguira jamais me libertar do ocorrido?”

O menino de nove anos de idade estava no alto de uma mangueira de sua velha casa, observando a tarde cair, quando notou que sua mãe e seu tio (o irmão mais novo de seu pai), saíram pela porta dos fundos, cochichando, aparentando afobações e adentraram no quintal.
Nessa época, por uma fatalidade do destino seu pai havia sofrido um acidente e ficado paraplégico, sofrendo as limitações impostas em sua vida, trocando a agitação de seu dia a dia, por uma passividade dependente de uma cadeira de rodas.
As pessoas queridas nunca o abandonaram e revezavam-se a entretê-lo de todas as formas, a fim de que não se sentisse inútil e caísse em depressão.
A mãe preocupada com uma atitude suicida de seu esposo tomou todas as precauções possíveis e imaginárias, escondendo o revólver, os remédios, os inseticidas etc
O seu cunhado na ocasião portava-se totalmente solícito, prestando-lhe toda à dedicação necessária; além de muito atencioso, principalmente com o seu “sobrinho predileto”.
O prestativo tio e sua mãe sem perceberem a presença do menino no alto da mangueira, esconderam-se atrás da folhagem e se beijaram.

Essa era a imagem que ficara para sempre em mim, como um crime: minha mãe e meu tio se beijando.”

O menino perante a cena ficou imóvel, sentindo-se um miserável, sem ter e nem poder ter reação nenhuma. Calou-se, mas nunca mais se esqueceu, principalmente, quando em seguida, ouviu a voz de seu pai. “Aquele rosário de sílabas sem brilho, sempre sem brilho algum, que tomara sua voz após o acidente.”
Dois meses depois, “por coincidência”, no aniversário de seu tio, seu pai suicida-se com um tiro na cabeça.

Por que se matara exatamente naquele dia? Das mil derivações que assombravam o beijo que eu colhera, quanto de fato chegara a seu conhecimento? Como ele conseguira ter a seu alcance, apesar dos esforços da família, um revólver carregado?”

Todas essas indagações fervilhavam na mente do menino e a única certeza que ele tinha era que “Ali os amantes deveriam arder, deveriam arder sem termo e sem perdão, pois tudo para mim estava consumado.”
O menino guardou esse rancor em seu coração e esse ódio foi transformando-o numa pessoa arredia e casmurra.
Outro agravante veio após a morte de seu pai: a questão financeira, que após o acidente havia piorado.
O tio alegando problemas profissionais afastou-se da cidade e o narrador, mudou-se para dedicar-se aos estudos.
Passado algum tempo, ingressou na universidade e alegando falta de tempo, evitava visitar a sua mãe e àquele lugar que lhe marcara com lembranças que tentava esquecer.

Por mera opção, as férias de meu trabalho nunca coincidiam com as férias da universidade e, assim, eu não tinha mesmo como viajar.”

Era como uma vingança. “Minha mãe não me perdoava á ausência (...) eu também não lhe perdoava o ocorrido.”
Tudo se misturava em sua mente: a imagem do beijo; a voz rouca de seu pai; o estrondo do tiro e seu silêncio rancoroso.
Terminado a graduação, fez o mestrado e o doutorado, como quisesse se ocupar e não pensar em sua infância e fugir do enfrentamento do desconforto que trazia em seu coração.

Esse distanciamento tornou-se, com os anos, insuportável. Pesava-me sobremaneira, pois não me seria difícil compreender então o quanto aquela pobre mulher padecera.”

Refletia sobre todos os dissabores que a vida reservara àquela mulher: o acidente de seu marido, a luta contra a depressão dele, as dificuldades financeiras, os afazeres domésticos, as crianças para criar, a necessidade de complementar o orçamento doméstico...

Por fim, em decorrência de tudo isso, a anulação de sua própria existência.”

O menino de nove anos de idade, com certeza, era impossibilitado de perceber as necessidades humanas e através de sua limitação, a única cena marcante era o beijo adúltero e o sofrimento de seu pai.

A esse menino, cegando-o a furto, o horizonte inquisitorial. A condenação a tudo o que o transcendia em sangue e sêmen. A palmatória que escondia, por dentro, trevas duríssimas de ignorância. Por que compreendemos sempre a posteriori? Por que condenamos tanto o que tão-somente nos ultrapassa?”

Perdoar, para ele, no entanto, era uma missão super-humana. Por mais que o narrador tivesse compreendido todo aquele desconforto do passado, ao mesmo tempo, não conseguia aceitá-lo, nem perdoar o erro de sua mãe e seu tio.
Por mais que se esforçasse, tudo parecia falso e dissimulado.

De uma forma avessa e definitiva, essa máscara tomou de mim a face antiga e não havia mais como retroceder: eu estava condenado a ser o homem distante e frio que eu não era.”

Agora, passado tantos anos de distanciamento e de culpas, o narrador encontra-se na sala de sua antiga casa, remoendo o seu passado, tendo o retrato de seu pai à sua frente e, desejando que aquele “casmurro” de hoje, retorne-se àquele menino puro de nove anos que passava horas na mangueira, observando o canto das cigarras e o entardecer.
O narrador olha para sua mãe já envelhecida, solitária e doente e reflete sobre a barreira que ele criou.

Olho-a sem pressa, desfiando o sisal do silêncio que nos cabe. Sua infelicidade talvez me torture, talvez me redima. De quando em quando, uma exclamação fortuita ou, se muito, um comentário sem nexo. Pouco nos falamos, essa é a verdade. E temo que tenha sido assim a vida inteira. Ah, que o destino não nos reserve jamais outra chance no mundo.”

A comida chocha que é servida não traz o tempero insuperável de sua mãe, que parece definhar na cama entre muitas dores, esperando á hora de sua partida.

Ontem a vi discutindo com seus dois irmãos, há muito falecidos. Hoje não parece estar para conversas. Fica me olhando, com uma altivez um tanto descorada, como se eu fosse um estranho. As poucas palavras escapam dos umbrais, na noite, sem resposta.
Falamos para nós mesmos, em confidência. E assim, afastados, nos compreendemos.”

TORNAR-SE ANDARILHO

Com o maior prazer eu faria – por que não? – uma excursão em companhia de absolutamente ninguém. É claro que para as montanhas, onde mais?”

Franz Kafka

Narrado em terceira pessoa, a narrativa apresenta-nos o protagonista: homem casado, pai de três filhos, funcionário público, morador em um apartamento.

Durante uma viagem, o protagonista para em um restaurante da serra e enquanto a família termina de fazer a refeição ele, caminha para a varanda, a fim de tomar uma brisa e observar a paisagem local.
De repente “(...) como um comboio alucinado dentro do seu peito de homem, tão fortemente ecoava. Então, olhou, através do vidro embaçado, a família que ainda não se levantara da mesa. Naquele instante, como num passe de mágica, ele não mais a reconhecia.”
Avaliou o filho perguntador, como se “o próprio ato de viver fosse explicável. Como se fosse possível a algum vivente visitar cada um dos cômodos de sua própria morte”; depois, reparou na filha mais velha, “que tanto se parecia com ele, que tanto a ele se agarrava para tentar compreender o que jamais teria resposta”, depois vislumbrou a imagem de sua avó e em sua filha caçula.
Em seguida, observou sua esposa: “Vulto que se apoiava nele para enfrentar os filhos, para respirar além dos limites do pequeno apartamento em que viviam. Para existir, ostentando a custo uma insuportável dignidade.”
Passou, então, a refletir sobre sua família. Ele fazia parte dela, mas não a escolhera, não a pedira e tão pouco a conhecia, como também, não optara ser o que era. Afastando o seu olhar da vidraça e mirando a paisagem, tomou o seu primeiro passo: a liberdade de escolha e partiu em direção a uma das margens da estrada, seguindo o seu caminho. Aquele que escolhera, deixando para traz o passado que não lhe pertencia. Um passado pré-estabelecido pelas normas de uma sociedade que ele se negava a corresponder. Livrou-se de seus pertences, agora inúteis para a sua nova vida e seguiu uma trilha, afundando-se na mata fechada.

Desceu sem pressa. Sim, agora ele deveria escolher. Esta era a sua mais íntima grandeza. Um pouco antes do primeiro desvio, lembrou-se também de afrouxar os sapatos e jogar fora os papéis que, nos bolsos, como num último esforço, ainda insistiam inutilmente em chamá-lo pelo nome.”

APENAS VOLTAR

L’attesa è lunga, il mio sogno di te non è finito.”

Eugenio Montale

Consumi trinta e três anos de minha vida na estrada, pernoitando aqui e ali, conhecendo todos os tipos de gente, todas as pousadas e pensões familiares das pequenas cidades.”


Outro conto narrado em primeira pessoa, o narrador-personagem através de um retrocesso rápido recorda-se dos sonhos de adolescência, sua maturidade tornando-se um homem responsável e trabalhador e, a sua longa trajetória de trinta e três anos, sendo um caixeiro-viajante.
O protagonista, embora, tivera uma vida difícil, sem paradas e no anonimato; sua motivação consistia em um único plano: regressar à sua terra natal; local onde nasceu, cresceu, estudou e nunca mais retornou.
Na verdade, ele já havia retornado algumas vezes à sua cidade, porém em caráter de férias e essas visitas esporádicas, aguçavam mais ainda seu plano de poder voltar definitivamente para lá.
Assim que se aposentou, concretizou seu tão esperado sonho.

Consegui alugar um sobrado não muito distante da rua em que nasci e cresci. Sobrado amplo, com boa varanda e, de quebra, com um quintal formidável. Decorridos alguns meses, já me encontrava inscrito em todos os carteados da região.”

Um dia voltando de um passeio foi surpreendido por uma forte chuva que o obrigou esconder-se sob a marquise de uma pequena loja de ferragens. Enquanto aguardava o temporal passar, pôs-se a observar a fachada da escola que estudou durante oito anos e que foi a responsável por sua formação de caráter. Notou um velho desenho de um livro aberto com algumas figuras estranhas e uma frase em latim, que nunca havia reparado. Começou a reparar ao seu redor e a cidade lhe parecia desconhecida.

Da chuva vi surgir uma cidade estranha, inimiga.”

Uma grande melancolia tomou conta de seu coração e ele percebeu o quanto estava enganado. Ali não era o seu lugar, mas, sim, um sonho que ele cultivou durante todos esses anos.

Não buscara aqueles espaços, mas o passado que em cada coisa se entranhara. Como se fosse possível compensar a perda desse passado com a proximidade de seus entulhos.”

Concluiu, assim, que “a aventura ainda não terminara. Que era preciso, embora velho, prosseguir. Escavar o limo. Tudo para que eu não passasse o resto de meus dias assim. Desamparado. Procurando.”

O FEL DOS FATOS

O difícil não é encontrar a verdade: é organizá-la.”

Murilo Mendes

ELA

Utilizando-se de um eu lírico feminino, em primeira pessoa, a narradora expõe suas dúvidas sobre um possível adultério ocorrido entre seu marido e sua amiga.

De início não acreditava, mas depois de cultivar várias provas, concluiu que era verdade.

Há sempre um rol de certezas que vamos cultivando, cultivando devagarinho, cozinhando em fogo brando, e que ganha força com as diversas leituras que o mundo vai unhando na alma da gente. Leitura de um gesto, de uma troca tonta de olhares, assim por acaso, na rua ou na igreja. Isso fui colhendo, metódica, com a dor de quem ajunta os cacos de seu vaso preferido. E que não prestará deveras depois de colado.”

A narradora de forma introspectiva e não linear, vai tecendo comentários que corriam pelas redondezas.

Contaram-me da tristeza da outra. Da sua mal parida viuvez. Acredito? Sim e não. Talvez doa mais esse abandono na concubina que na esposa. (...) Posso até desconfiar da tristeza da outra, isso bem que me engrandece, só não acredito inteiramente na existência do caso.”

Em seguida, passa a criticar a passividade do marido da adúltera perante as acusações e chega afirmar que um homem assim merecia uma boa ripada na moleira:

Como pode existir um homem assim, meu Deus? Sei de gente que chegou mesmo a interpelá-lo, com escárnio, acerca do assunto. E ele bem que se fez de desentendido, ostentando com orgulho o seu jeito de tonto.”

Passa, então, a refletir se ele não sofria como ela, a respeito da incerteza da traição.
Alguns comentavam que o marido traído agia dessa forma, pois temia a valentia do amante de sua esposa.

Com fama de brigador, meu marido é um sujeito por demais calado. Calado e sem muitos amigos. De certa forma, esse seu silêncio, que tanto me incomodava, foi crescendo com o tempo.”

Sentindo-se abandonada, a narradora foi tirar satisfações com o marido da obra. Este se comportou indiferente à situação. Respondeu-lhe com um sorriso vago, triste e com um gesto vago nos ombros, sem admitir ou negar qualquer suposição.
A narradora cansada de solidão e da frieza do seu marido, decide traí-lo.

Foi uma vez somente, e ninguém pode imaginar o quanto esse deslize me custou. (...) Isto aconteceu na primeira semana de dezembro. Na semana seguinte, numa manhã de sábado, meu marido saiu para pescar e não voltou mais.”

Sem nenhuma explicação, seu marido partiu sem bagagem, sem deixar pistas, bilhetes, nem despedidas.
O que mais a corrói é que ela nunca teve certeza da traição de seu marido, mas carregará para sempre em seu coração, a culpa por sua traição.

O que me ofende é pensar que, talvez, sob as inexplicáveis malhas do meu desamparo atual, esteja o conhecimento do que fiz. Estejam os olhos de meu marido, aqueles olhos que nunca perdoaram o que quer que seja, queimando feito brasa viva os lençóis da minha infidelidade.”

Passados algum tempo, os boatos surgem e uma vizinha vem contar-lhe que alguém tinha visto seu marido numa cidade próxima, pegando um ônibus.
A esperança reacende no coração da narradora que passa esperá-lo dormindo ao lado da porta da entrada.

Se ele errou com aquela comborça – e este erro tanto me justifica – sejamos, pois, mutuamente perdoados.”

ELE

O conto “Ele” é iniciado de forma abrupta. O narrador, através de comentários “maldosos”, fica sabendo do relacionamento adúltero de sua esposa.

Então sou eu o tonto. Admito. E que os argutos da cidade continuem o milagre da multiplicação. Da multiplicação do meu nome de tonto, por todos os becos e vielas e bares sujos deste bairro.”

Diziam tratar-se de um homem calado, seco de gestos e linguagem, e ostentando a fama de valentão, “todos se sentiam no direito de, sem muitos freios, cobrirem de esterco a minha honra.”
O marido traído seguiu sua esposa, falou-lhe sobre os boatos e ela negou tudo.

“(...) disse-me que faziam isso comigo porque eu não exigia o devido respeito. Porque os outros pensavam que eu fosse um frouxo, um borra-botas.”

Os boatos, no entanto, prosseguiram, e ele resolveu tomar uma providência mais severa. “Talvez um crime. Competia-me desagradá-los, pensei, e não lhes oferecer jamais o que buscavam. De mão beijada, jamais.”

Preparou um plano ardiloso: separou uma corda, um facão e os sacos de aniagem e, levou-os para debaixo de uma ponte desativada. Recolheu umas pedras que serviriam para esconder o material; vigiou o valentão e certificou-se que, aos sábados ele pescava sozinho e curvo na beira daquele rio. Num sábado de dezembro o seguiu.
Tentando aparentar naturalidade e para conseguir um álibi, o narrador fez compras, conversou com algumas pessoas, foi à igreja e depois de “concluída a encenação, parti sem demora para o local.”
Lá, avistou o pescador solitário e calado. Aproximou-se e deferiu o primeiro golpe: “(...) pegando-lhe em cheio na cabeça, parecia ter sido o bastante. Por segurança, desferi outros mais. Peguei então o material escondido sob a ponte. Num local protegido pelas folhagens e arbustos, tratei de retalhar bem o corpo e colocar as suas partes em sacos repletos de pedras. Feito o serviço, aquela densa fusão mineral de carne e osso, usei mais alguns sacos de aniagem para limpar as manchas de sangue. Foi um alívio ver sumir, na água barrenta e funda do melhor ponto do rio, o receio que me torturava. A minha terrível humilhação.”

O narrador trocou de roupa e retornou á sua rotina como nada tivesse acontecido. À noite, choveu forte, cooperando com a limpeza de alguns vestígios restantes.
No entanto, não consegue desvincular-se da imagem surpresa e amedrontada do morto. Aquele ato que o libertara para sempre dos rótulos adquiridos, transportava-o agora, para suas entranhas recônditas de sua infância.

Assustado e só, como sempre estivera em toda a vida. Se antes havia em mim muitas dúvidas acerca da infidelidade de minha mulher, depois do acontecido essas dúvidas não poderiam mais existir. Sumiram de vez naquelas águas turvas. Para justificar o trejeito infantil daquele rosto tomado de sangue e surpresa, subia do meu estômago uma certeza desesperada, última. Eu precisava odiá-lo, com todas as forças.”

O crime, assim, adquirira outra importância: ele provara ao mundo de que era capaz o “perfeito idiota”.
Por muito tempo, investigaram o sumiço desse indivíduo e sem encontrar nenhuma informação, foi taxado como desaparecido. Por muito tempo, diziam que a esposa do desaparecido esperava-o para recebê-lo de braços abertos.
Às vezes, alguém comentava que o vira em algum ônibus ou numa cidade próxima, sozinho ou acompanhado por alguma amante.

E ninguém suspeita que o tonto aqui está sorrindo. Falam ainda que minha mulher anda triste. Talvez ande. Certas tardes a vejo olhando lá para as bandas do rio e o meu coração se contraí. Tenho vontade de lhe dizer que o tal valentão ainda vai voltar, que nenhuma pescaria é para sempre. Afinal, não há mais nada a fazer. Só nos resta mesmo esperar que ele traga bons peixes.”

DE BAR EM BAR

“Mas eu salvei do meu naufrágio
Os elementos mais cotidianos.”

Manuel Bandeira

O que pode fazer um homem solitário, numa noite de sexta-feira, sob um calor de trinta e cinco graus?”


O conto inicia-se com a reflexão de um narrador-personagem sentindo-se aprisionado em seu apartamento, quando a vida acontecia lá fora.
Os livros, o som e a televisão não correspondiam aos seus anseios e a alternativa era buscar na correria noturna, diversão e companhia que o tirassem do seu tédio.
Caminhando pelas ruas em busca de um rosto conhecido, escolhe um bar para relaxar e tomar uma cerveja. Com seu jeito tímido e tendo poucos amigos, a possibilidade de encontrar algum conhecido era limitada. Repara num canto do bar em um “sujeito de aparência estranha e aspecto triste, também sem companhia, estava plantado duas mesas adiante. De minuto em minuto, ele me espiava, tentando em vão disfarçar seu desconforto.”
Terminado a cerveja decide caminhar e por acaso, depara-se com o mesmo sujeito, trocam olhares e seguem. Ainda insistindo encontrar algum divertimento, encontra-se novamente com o sujeito e tem a sensação que não era por acaso, “ele iria me segurar pelo braço. Talvez proferisse algo. Nada ocorreu, no entanto.”
O narrador continua seu passeio, mas opta pela direção seu apartamento.
Se tudo permanecesse do mesmo jeito, sem possibilidade de sucesso à vista, eu estaria próximo de casa.”
Parou numa lanchonete, comeu um lanche e certificou-se que à noite, embora agitada, nada prometia a ele, decide voltar para o seu lar.
Já perto de sua casa, aguardando o sinal abrir, o estranho “se volta para mim: Você também, não é?”
As palavras não saem e com um gesto vago, balança a cabeça.

O sinal se abre e nós ainda nos olhamos, sem mais palavra.”

HOLOCAUSTO

Mas a vida muito tranquila é assim mesmo, uma chatice.”

Rubem Fonseca

Primeiro escolho os alunos da oitava série. Apenas um por sala. Não há ciência alguma nesse processo de seleção, somente uma obscura inclinação pessoal. Em seguida, começa o jogo. (...) Depois lanço meus veredictos: esse carece ser mais trabalhado, está verde demais para o holocausto, aquele ali me serve ou não me serve, etc.”

A narradora-personagem faz uma análise psicológica sobre seu comportamento diante de seu discurso de encerramento do ano letivo, no colégio em que leciona.
O primeiro passo foi buscar nos olhares de alguns alunos a cumplicidade para sua fala.
Em seguida, “provoca-os (...) o prazer que sinto ao humilhá-los, e que eles percebem em meus olhos, como um carinho extinto.”
A professora sempre foi escolhida para seus eventos escolares. “Nada mais natural. Falo apenas o que sinto. Quando disser, por exemplo, que toda educação deve ser posta a serviço de nossa felicidade – e não do mercado de trabalho ou da mera satisfação curricular -, buscarei no auditório de pais e alunos os meus escolhidos. Eles saberão melhor, na carne, a força do que estarei dizendo.”
Em seguida, virão os aplausos e a execução do hino nacional.

LIMIAR

O pai não se enganara, aquele era um momento único, ela cruzava um limite: quando se afastasse, os últimos gestos da infância estariam mortos.”

Osman Lins

Neste conto, o narrador relata a trajetória de amadurecimento de seu filho percebida durante uma festa de aniversário infantil. O pai ao chegar à festa, depois de justificar a ausência da esposa e entrosar o filho entre as crianças, senta-se na companhia de seus amigos de trabalho.
Durante a festa, o narrador percebe a mudança de comportamento e de disposição de seu filho. Para não perdê-lo de vista, o pai preocupado, disfarça algumas idas ao banheiro ao jardim.

Ao voltar de uma dessas escapadelas, percebi que a sua alegria inicial se esvaíra de todo, sem nenhum motivo aparente.”

Em um momento, nota-o em uma fila para receber os saquinhos de surpresa, espécie de brindes da festa e pôs-se a observá-lo de longe.
Lembrou-se, então, da conversa da noite anterior: o filho havia questionado se teria que parar de brincar um dia, pois no colégio alguns garotos haviam ridicularizado-o por levar brinquedos no recreio.
Tranquilamente, o pai (narrador) explicou-lhe que esse dia chegaria naturalmente. Acreditando ter encerrado o assunto, o pai não percebera que o problema latejava dentro de seu filho. Mas, enquanto a fila dos brindes caminhava, o pai presenciou a saída de seu filho, com a desculpa de buscar um refrigerante, para não mais voltar ao seu lugar; sem antes, de soltar o elástico que prendia uma máscara de papel.

Doravante não precisaria mais dela. Uma outra, muito mais instigante, acabara de lhe ser confiada.”

TRINCA DOS TRAÍDOS

No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.”

Carlos Drummond de Andrade

Casado há trinta e cinco anos – e muito bem casado, como gostava de repetir para os filhos no almoço de todos os domingos. Quis o destino, no entanto, que outra mulher, trinta anos mais nova, fosse lhe retirando, dia após dia, a ênfase do jargão e do lugar-comum.”


O narrador através da técnica do “flashback” relata suas angústias pós-casamento e o que o levou a ter um relacionamento extraconjugal, após anos felizes que passou fielmente junto à sua esposa.

Agora, aos cinquenta e oito anos de idade: tinha uma amante!”

De início, o caso não passava de uma aventura até que ele se viu apaixonado e sentiu a necessidade de desabafar com alguém de confiança.

Decidiu então colocar o assunto em pratos limpos. Afinal de contas, não seria surpresa alguma. Sua esposa já devia imaginar o que sucedia. Apesar das aparências, desde muito o casamento se acabara.”

Ele estava mais alegre, mais vaidoso, mais jovial; com certeza, sua esposa teria notado essas mudanças.
Era a primeira vez que ele revelava-se totalmente, seus anseios, suas decepções e as torturas que levaram o seu casamento. E, a pessoa de maior confiança para esses assuntos era a amante, então, tomou coragem e desabafou.
Contou-lhe sobre o seu casamento: ela com apenas dezessete anos de idade e cheia de graça e vida; ele, um homem apaixonado e com bons propósitos. A vida parecia-lhe um mar de rosa até a primeira gravidez de sua esposa e o excesso de peso que ela adquiriu e nunca mais conseguiu perder.
Aquela jovem linda e sensual transformou-se numa senhora resignada. Quando faziam sexo, ele tinha que buscar em sua memória a menina de dezessete anos que conheceu e amou, pois àquela com quem estava casado, portava-se como uma morta.
Dessa forma, o relacionamento sexual tornou-se cada vez mais dificultoso e em pouco tempo, acabou-se de vez.
O narrador descortinando sua intimidade relata que se saciava sozinho como antes do casamento entre os azulejos frios do banheiro, e quando terminava, sobravam-lhe somente um vazio e um asco.
A amante trouxera-o novamente ao mundo, sentia-se vivo e, embora, tenha passado muito tempo feliz ao lado de sua esposa, sentia-se no dever de contar-lhe toda a verdade.

Foi através dela (a amante) – de seu modo sempre diverso de ser mulher e criança ao mesmo tempo – que ele acabou se libertando da fixação pelo passado de sua esposa. Através dela calcara novamente os pés no mundo.”

Em um quarto de motel, sentia-se aliviado de confiar-lhe esses segredos íntimos e, esperava dela a cumplicidade, o companheirismo e o apoio.

Chegou a juntar uma pequena série de reticências e pontos de interrogação. E viu a fala da amante recuar na noite que surgia. Ele estava só. O que ela lhe dissera aumentava mais e mais, a cada desesperada tentativa de compreensão, a sua orfandade.”

No entanto, a amante retruca afirmando tratar-se apenas de uma aventura, acrescenta que ele havia levado muito a sério. Ela apenas o via como um pai, seu equilíbrio e o companheiro para todas as horas e, concluiu que seria melhor terminarem “essa aventura” e tornarem-se bons amigos.

Por que tornara-se um pai quando tentara, com todas as forças, ser apenas um homem?
Então percebeu o engano. Ou os enganos. Percebeu que, na verdade, a amante nunca o viu do modo como ele realmente era, assim como, durante todos os anos em comum, ele também não chegou a conhecer de fato a mulher com quem se casara.”

Desolado e arrasado, retornou à sua casa, sentou-se em uma sala escura e quando acreditou estar sozinho no mundo, sentiu a aproximação de sua esposa que parecia entender toda a sua aflição e com o companheirismo que sempre demonstrou ter, ofereceu-lhe uma xícara de café.

Ele levantou a cabeça e voltou a se deparar com o erro. Compreendeu que estavam todos cegos, cegos e condenados, que seria muito difícil, para qualquer vivente, atravessar aquele oceano de esquecimentos e encontrar do lado oposto, o consolo de outras pessoas. Viu que não conseguira apenas trair sua mulher. Não: eram três os traídos. Antes de tudo, enganara a si mesmo. Poderia haver amor diante de tamanho equívoco?
Foi quando, esboçando afinal um leve sorriso, decidiu tomar o café bem forte.”

OITO DE OUROS

GENERAL
Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo.”

Machado de Assis

Um operário é premiado pela quinta vez consecutiva como funcionário modelo. A solenidade contou com um discurso caloroso do diretor-superintendente, entrega do troféu e da “fitinha em torno do pescoço, pedindo-lhe que, doravante, com o intuito de distingui-lo ainda mais, não deixasse de portar, assim bem reluzente em seu uniforme de torneiro mecânico, uma reprodução estilizada, em serigrafia, de todas as cinco medalhas conquistadas.”
A partir daí, passaram a chamá-lo por General. E, o pacato torneiro mecânico, sentia-se um General, como se o condecorado uniforme tivesse grudado em sua pele e tornara-o outra pessoa. Mesmo nos dias de folga, estando à paisana, “via seu reflexo e não se reconhecia. Contemplava mais e mais, e a cada instante o estranhamento crescia. Aos poucos, a imagem refletida ia formando, como num quebra-cabeça, outra pessoa.”
Para evitar a desintegração da sua identidade, decidiu não tirar mais o uniforme, somente dessa forma, sentiria um General.

O SACRIFÍCIO

“São os que matam.

Por encomenda
Ou acerto de contas.
Também educam
No seu carinho.

No seu carinho
Que não tocamos.
O lado quente
Da morte.”

Edimilson de Almeida Pereira


O narrador-personagem descreve o seu estado de embriaguez, enquanto pensa no sacrifício “da mulher que dorme a meu lado. Sem o saber, dorme a sua penúltima noite. Amanhã terá saído desta para melhor.”
Essa mulher trata-se de uma ex-prostituta, “a tirou da vida e que agora, sem perdão, irá lhe tirar a própria.”
O narrador confessa que a companheira é lindíssima, mas, talvez, por acreditar que seus dotes físicos já são suficientes para o erotismo, não desempenha relativamente bem a sua função de extremosa amante.
Quando a conheci, ele usava umas roupas extravagantes, dizia que estudava à noite e já era, garota de programa. Agora é modelo profissional e não mora mais com os pais. É claro que eu banco o apartamento e seguro boa parte das despesas, mas tudo na maior surdina, pois não posso ficar com o rabo preso.”
No dia seguinte, a mulher embarcará e quando retornar trará “o dinheiro prometido”. O narrador irá encontrá-la, almoçaram juntos e durante o caminho do apartamento, “os outros farão o resto por mim”.
Enquanto a observa, lembra-se da promessa novamente esquecida feita à sua filha: acordarem cedo para verem o amanhecer.
Levanta-se e não conseguindo segurar o seu vômito, corre para o banheiro e aceita o sacrifício.

UM VELHO

“Olhamos mais que entendemos.”

Sá de Miranda


Aparentemente tudo corria na normalidade, até que no “arco de uma tarde que deveria ser esquecida, sob a mesma chuva fina de cinquenta anos atrás – percebi a presença de um velho, encostado à porta principal da repartição”.

O fato repetiu-se diariamente por muito tempo: “por volta das três da tarde. E sempre sem nenhum motivo aparente. Amiúde fixava as retinas no balcão de atendimento e media devagar cada objeto, cada pasta, procurando ler ou encontrar alguma coisa perdida.”
Aquela figura estranha causava um mal-estar ao narrador, “um desconsolo, uma orfandade sem par e sem princípio.”
Decidiu que no dia seguinte o procuraria, conversaria com ele e tentaria extrair “dessa conversa algum motivo para o abandono que eu sentia.”
No entanto, o velho nunca mais apareceu, causando certo alívio ao narrador. Até que depois de mais de meio século, novamente deparou-se com o velho.

E esse inesperado encontro fará com que, doravante, eu nunca mais me olhe verdadeiramente no espelho.”

PROBATÓRIO

Chega sempre um instante em que já olhamos demais para uma paisagem, do mesmo modo que é preciso muito tempo para que a vejamos o bastante.”

Albert Camus

Hoje seria difícil descrever minha emoção, o que senti no dia em que fui chamado para assumir as funções de auxiliar de administração na empresa onde agora ocupo o cargo de supervisor de área. (...) O chefe do setor de pessoal levou-me até uma sala ampla, tomada de janelas muito altas. Ali, sem muita cerimônia (...) fez uma breve apresentação dos colegas e me encaminhou até a mesa de trabalho. De acordo com as suas orientações, eu deveria encadernar e numerar os processos, levando a bom termo uma tarefa imprescindível para o funcionamento dos demais setores.”

O narrador-personagem relata sua experiência em seu primeiro emprego. Ele desempenha as suas funções com competência, mas um fato o instigava: o modo como seus colegas de trabalho o tratavam.

Eles me observavam o tempo todo. Raramente me dirigiam a palavra. De uma forma um tanto infantil, também buscavam não dar mostras de que me seguiam por toda a parte.”

Tentando encontrar uma explicação para o tal prosseguimento e nada conseguindo, distanciou-se deles e continuou a executar a sua função com eficiência.

Passaram-se cerca de dois anos e, numa bela manhã, eis que vejo entrar na sala o chefe do setor de pessoal, trazendo a tiracolo um rapaz ainda muito assustado. Fez as apresentações de praxe – o mesmo discurso que embalou também o meu primeiro dia de trabalho na empresa – e arrastou o aprendiz até uma mesa contígua à minha.”

De início, o novo funcionário portava-se timidamente, até que foi adaptando-se e com certa naturalidade, tentou se integrar ao grupo.

Fiquei observando o novato. Via nele todo o meu desajuste de outrora. Então reparei que, de um modo coordenado, extraordinário até, eu tinha deixado de ser o centro das atenções. Os meus companheiros de jornada não olhavam mais para mim. Todos, inclusive eu mesmo, estávamos fixados no novo funcionário. (...) Pertencia a mim, a partir daquele dia, o feito de ser o mais novo integrante da empresa.”

WORKSHOP, OU PONTO DE FUGA

Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica – como andar de costas.”

Manoel de Barros

O narrador faz críticas severas sobre á ida a um workshop. A frieza, a artificialidade e a indiferença dos frequentadores.

É preciso passar ao largo de tudo isso, inclusive do que está sendo falado pelo consultor da corporação, na abertura do encontro, para se concentrar apenas, por exemplo, no ponto luminoso que escapa ao aparelho de reprodução de vídeo.”

Além do artificialismo do ambiente do workshop, os discursos são repetitivos e vazios.

O problema, aliás, é que a palestra é a mesma, sem tirar nem pôr, não mudou nadica em dez anos, sequer as piadinhas se alteraram, o que nos leva a acreditar que, se o mercado fosse sério, esse profissional da repetição já deveria estar na rua, devidamente desempregado.”

Cada um de nós deverá encontrar a maneira mais adequada de ser vendido. (...) Ser comparado á mercadoria, Deus meu, era crime.”

E num lance de memória, você recorda daquele chefe do departamento de contabilidade que demitia os funcionários e que um dia chegou a sua vez. Desempregado teve de transferir os filhos da escola particular para uma pública, cancelou os cursos extras, os planos de saúde etc.

Depois de lutar alguns anos contra as dificuldades financeiras, contra a depressão da mulher e o desconsolo das crianças, nosso Carrasco abandonou o comando da família e saltou da janela do apartamento.”





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PROCURA DA POESIA, A ROSA DO POVO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo.
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.



Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à
linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não perca tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, e algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.



Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não aludes o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.



Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?



Repara
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

“Procura da poesia” é um poema fundamental na obra de Drummond e no Modernismo brasileiro. Trata-se de um metapoema, metalinguagem, eixo fundamental do questionamento do poeta sobre a própria poesia.
O poema apresenta um eu lírico que se dirige, em tom professoral, próprio de quem já refletiu muito sobre o assunto, a um hipotético interlocutor, que escreve (ou pretende escrever) poesia sem refletir sobre o “fazer poético” e sempre empregando verbos no imperativo, na segunda pessoa do singular (“não faças”, “não cantes”, “penetra”, “convive”, “espera”, “não forces”, “não colhas”, “não adules”, “repara”).
O interlocutor, no entanto, não tem voz, não contra-argumenta nem aceita.
O eu lírico defende o princípio de que a poesia deva ser impessoal, indiferente às realidades individuais e aos fatos particulares da vida, porque é universal. A poesia não deve ser feita de maneira ingênua, precipitada.
O eu lírico, assim, nos ensina que não se faz literatura apenas falando sobre acontecimentos ou resgatando subjetivamente a infância, ideias, sentimentos ou idealizando: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, mas pode vir a ser. Para isso, é preciso penetrar “surdamente no reino das palavras”, “lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Ainda não são poemas, porque “estão paralisados”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, logo, Drummond não está propondo uma poesia alheia aos fatos; ele apenas reitera o trabalho com a palavra, matéria-prima do poeta.
Dessa forma, as palavras em estado de dicionário, ou seja, fora de contexto, têm apenas o sentido denotativo, frio e impessoal. Se contemplarmos as palavras atentamente, de perto, perceberemos que cada uma tem mil faces secretas (conotação) sob a face neutra (denotação).
Pode-se dividir o poema em duas partes: a primeira, marcada pelos imperativos negativos, representa tudo o que não deve ser feito por quem pretende escrever poesia. A segunda, marcada pelos imperativos afirmativos, realça o trabalho com a matéria-prima do poeta: a palavra.
Num texto que exalta justamente a palavra, compete ao leitor entender o seu significado no verso e as imagens empregadas pelo poeta; buscar a sua etimologia e a compreensão de seu sentido conotativo. Pois é exatamente sobre a palavra e sua carga significativa que reflete Drummond em seu poema, como por exemplo:
- “infenso à efusão lírica”: infenso significa “adverso, contrário”; efusão significa “demonstração clara e sincera dos sentimentos íntimos”; o verso opõe corpo e sentimento.
- “bile”: é o mesmo que “bílis” líquido esverdeado e amargo segregado pelo fígado; em sentido figurado, significa “mau humor, azedume”.
- “elide”: forma do verbo “elidir”, que significa “suprimir, eliminar”; o verso afirma que a poesia elimina as relações entre sujeito e objeto.
- “Teu iate de marfim...esqueletos de família”: nesses versos, temos uma enumeração de posses (observe a força dos pronomes possessivos), numa sequência que abrange desde o objeto mais idealizado (iate de marfim) até o mais material (esqueletos de família); “mazurca” é uma dança polonesa de salão; “abusão” é o mesmo que “erro, ilusão”.
- “ermas”: abandonadas; no verso, significa que as palavras estão sem melodia e conceito.

“Procura da poesia” é uma poesia que fala de poesia. O fazer poético é penetração no remo das palavras, descoberta de suas faces secretas, que se escondem sob a face neutra, aparente, usual.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A FLOR E A NÁUSEA, ROSA DO POVO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.



Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.



Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.



Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erra, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.



Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de l9l8 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.



Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.



Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

O poema apresenta o tema do eu-retorcido. Nele o poeta funde o tempo existencial e o tempo social. O eu lírico insere-se nos erros do mundo e acaba sendo levado à náusea, que é reflexo de sua indignação, de sua necessidade de expelir o mundo circundante que o incomoda.
Esses versos remetem ao reflexo da época dos totalitarismos de esquerda e de direita, projeção dos anseios de superação dos traumas e horrores da Segunda Grande Guerra, animado pelo sentido de resistência à Ditadura Vargas, no plano interno.
“Flor e a Náusea”, dessa forma, sartreanamente, contrapõe a consciência político-social à dolorosa percepção do amesquinhamento do homem, da crise do “homus urbanus” na década de 1940.
Nota-se no poema um eu lírico mergulhado num mundo sufocante, em que tudo é igualado á mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo. Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil, insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil, marcado por "fezes, maus poemas, alucinações".
No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial, que pode ser representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro, o poeta vislumbra uma saída. Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação, o poeta já deu sinais claros no texto de que não é capaz disso. Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança, ela de fato está para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da flor, empregado em sentido metafórico, conotativo, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o término da injustiça, no Nazifascismo, da guerra; enfim, marca o início de uma vida que se justifica plenamente, sem a náusea existencial.
Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra, acaba por explicar o seu título. Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a flor é a própria poesia que nasce contra a vontade do tempo de misérias e repressões; indica o desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta; além, de símbolo de esperança na poesia e no socialismo. A flor também é fruto da necessidade de resistência do homem diante do tempo sujo.
A expressão "do povo" pode estar ligada a uma tendência esquerdista, socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica ao universo capitalista na primeira ("Melancolias, mercadorias espreitam-me.") e terceira estrofes ("Sob a pele das palavras há cifras e códigos."). O novo mundo, portanto, teria características socialistas. Esse sentido de solidariedade, do poeta que se propõe de “mãos dadas”, o desejo e a necessidade de comunicação, de fazer da poesia arma de combate e resistência, projetam-se na construção eloquente e indignada de diversos poemas, numa espécie de “condoreirismo” moderno, exorcizado da “demagogia” pela consciência crítica e artística de Drummond.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A ROSA DO POVO, CONSIDERAÇÃO DO POEMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.



Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.



Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
-Há mortos? Há mercados? Há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.



Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! Esperança do mar negro.



Essa viagem é mortal, e começá-la
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.



Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.



Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.



Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel...Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

O poema é metalinguístico. O eu lírico se define como “Poeta do finito e da matéria ...”
E, exige liberdade para as palavras (ruptura do formalismo anterior ao Modernismo).
O poema todo funciona como um caminho e parece conter um movimento contínuo que se assemelha à sua própria construção. Há também função lúdica no poema. A viagem pelo poema parece mortal, porque ele joga toda a sua vida nele, mas é a única que realiza o poeta.
A segunda estrofe retoma de maneira intertextual o poema “No meio do caminho” e também homenageia poetas que Drummond admira. São exaltadas as elegias de Vinícius e a poesia visionária de Murilo Mendes. Entre os poetas de cunho social destacam-se o chileno Pablo Neruda e o russo Maiakovski, de quem o eu lírico se despede. A referência a Apollinaire indica a vocação para a linguagem revolucionária e moderna de Drummond. A opção da poesia social pode ser percebida nos dois últimos versos.
A escolha da poesia como forma de expressão do "salto participante" demonstra a crença do poeta em sua eficácia, a despeito de se impor a necessidade, para que possa servir aos propósitos da nova empresa de se "reformar" o próprio conceito da poesia. Ou melhor, o poeta aventura-se a explorar novas possibilidades no campo da expressão poética. É a passagem da "contemplação" á "ação"; a procura deliberada do "êxito" pela "utilização" da "linguagem instrumento". Esse é o conflito que aflora e persiste como mola impulsionadora, no momento da participação da palavra poética:

Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Trata-se da consciência do risco, da firme determinação de empreender a "viagem" e ser fiel aos "problemas fundamentais do indivíduo e da coletividade", como afirma nos belos versos finais do poema e definem os objetivos do projeto de participação:

......................................Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.