quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O CRIME DO PE. AMARO (1875), EÇA DE QUEIRÓS: CRÍTICA AO CELIBATO CLERICAL; A HIPOCRISIA RELIGIOSA E AO PROVINCIANISMO

"Você classificou admiravelmente o meu trabalho, filiando-o nos romances de realismo psicológico.

Balzac, com efeito, é o meu mestre... ele é com Dickens, certamente o maior criador na arte moderna: mas é necessário não ser ingrato para com as influências que tem no realismo Gustavo Flaubert - o seu estilo, a sua profunda ciência dos temperamentos tem feito na ata contemporânea uma revolução importante. Eu procuro filiar-me nestes dois grandes artistas: Balzac e Flaubert... Isto bastará para fazer compreender as minhas intenções e a minha estética."

Carta de Eça de Queirós a Silva Pinto - 1871 - agradecendo a crítica que este fizera do "Crime do Padre Amaro".

Eça de Queirós - Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, (1846-1905)


I – INTRODUÇÃO:

“ (...) Realismo é a negação da arte pela arte; é a proscrição do convencional, do enfático e do piegas; é a abolição da retórica considerada como arte de promover a comoção, usando da inchação do período, da epilepsia da palavra, da congestão dos tropos. É a análise com o fito na verdade absoluta.
Por outro lado, o realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento; o realismo é a anatomia do carácter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos para condenar o que houve de mau na nossa sociedade."

Excerto da 4ª Conferência do Casino, de Eça de Queirós, 1871

O romance “O crime do padre Amaro”, publicado pela primeira vez em 1875, pertence à segunda fase de Eça de Queirós, marcada pelo Realismo-Naturalismo, caracterizada por uma ironia corrosiva, crítica, por uma mordacidade penetrante. O olhar devastador que ele lança sobre a vida provinciana, sobre o clero corrupto, que manipulam a população em favor da elite e a questão do celibato clerical é impiedoso.
Essa obra tornou-se o marco do Realismo-Naturalismo na Literatura Portuguesa e, defende a ideia de que o homem é fruto do meio em que vive, da origem hereditária que carrega e do momento histórico em que vive. Esse determinismo é responsável pelo amoldamento do caráter do homem e é nesse contexto que se insere o protagonista Amaro Vieira, filho de criada e que após a morte dos pais foi adotado pela rica marquesa de Alegros. Tem sua educação voltada para o sacerdócio, embora não apresentasse vocação alguma para exercê-lo. Após ordenado, é nomeado pároco da pequena vila de Leiria e lá encontra Amélia, filha de Sá Joaneira, concubina do cônego Dias. Convivendo em um ambiente amoral, entre carolas e padres corrompidos, Amélia facilmente se deixa seduzir pelo padre Amaro.

II – NARRADOR:

A narrativa é em terceira pessoa e o narrador tem onisciência, ou seja, conta a história com conhecimento dos pensamentos e das ações dos personagens. Isso facilita o processo de distanciamento entre o autor e a obra. Apesar disso, é possível perceber a antipatia que Eça sente por vários dos tipos retratados, em especial os padres e as beatas, por causa da ironia e dos adjetivos rudes, muitas vezes grosseiros, que utiliza em suas descrições. Isso é revelador de uma postura anticlerical, comum entre os escritores realistas.

III - TEMPO E ESPAÇO:

Leiria, vista da Sé. Final do século XIX


A maior parte da narrativa concentra-se em uma província chamada Leiria, interior de Portugal, sede do bispado para onde o padre Amaro consegue transferência. Assume papel muito importante o ambiente da igreja, da sacristia, a casa das beatas e a casa do sineiro.
O tempo compreende os anos de 1860 a 1870, aproximadamente, e se desenvolve de forma cronológica, linear, com eventuais flash-back ou retrospectiva, quando o autor, após apresentar alguns dos personagens, conta a história de Amaro e de como ele se tornou padre.

IV – PERSONAGENS:

Não há personagens livres da crítica ferina de Eça de Queirós, tanto no meio eclesiástico quanto no círculo de "amizades" e "devotas" que rodeia os padres. Quase todas as personagens são apresentadas de forma sarcástica, irônica e crítica, sendo raras as exceções.

AMARO: o protagonista do romance, “Frei Apolo”. Trata-se de um padre jovem, bonito, embora um pouco curvado, de olhos negros, ambicioso. Tornou-se sacerdote por falta de opção e ao ver exemplo degenerado de outros sacerdotes, deixou de lado seus escrúpulos iniciais de noviço e passou a agir como muitos de seus colegas. Vale-se do discurso religioso para justificar suas faltas não só perante Amélia, mas perante sua própria consciência.

AMÉLIA: filha da Sra. Augusta Caminha, era uma jovem muito bonita, de pele muito branca e olhos muitos negros e vinte e três anos de idade.

JOÃO EDUARDO: é um sujeito alto, bigode que cai aos cantos da boca e que costuma mordiscar. É escrevente e mantém por Amélia uma paixão sem limites que nada elimina, mantendo-se fiel a ela até a morte da moça. Detesta os padres e não aprova o modo de ser das beatas.

S. JOANEIRA: mãe de Amélia e amante do cônego Dias.

CÔNEGO DIAS: ex-professor do Pe. Amaro, velho obeso e representa a hipocrisia religiosa.

JOSEFA: irmã do cônego Dias, mulher mirrada, voz sibilante, pele engelhada e cor de cidra, irritadiça, nervosa, temida, “toda saturada de fel”. Foi apelidada de “estação central das intrigas de Leiria” pelo maligno doutor Godinho.

D. MARIA DA CONCEIÇÃO: viúva rica, “sofria dum catarro crônico” e “tinha no queixo um grande sinal cabeludo”, ao rir mostrava “seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas”.

AS SENHORAS GANSOSOS: dupla de irmãs, constituída por Joaquina e Ana. Dona Joaquina era a mais velha, seca, olhinhos vivos, testa larga, nariz arrebitado, boca exprimida, tem o hábito de falar mal dos homens. Ana era extremamente surda. Nunca falava, e com os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar os polegares. Usava um vestido preto de riscas amarelas e um rolo de arminho ao pescoço. De vez em quando suspirava, diziam que era uma paixão funesta pelo recebedor do correio. Tinha grande habilidade em recortar papéis para caixas de doce.

OUTRAS PERSONAGENS SECUNDÁRIAS: José Migueis; Marquesa de Alegros e suas filhas “educadas no receio do céu e nas preocupações da moda”; Artur Couceiro, o cantador romântico; Nunes, o tabelião; Pe. Brito; Pe. Natário; Libaninho; Maria Vicência; Dionísia; Escolástica; Agostinho; Dr. Gouveia; tio Esguelhas; Antonio, a Totó; abade Ferrão entre outros.

V – RESUMO DO ENREDO:

CAPÍTULO I

O narrador inicia o relato revelando que:
Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada de uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica, que o detestava, costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
- Lá vai a jibóia a esmoer. Um dia estoura!
Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe – à hora em que defronte, na casa do dr. Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.” (p.13)
O Pe. José Miguéis era miguelista, não querido dos devotos, arrotava nos confessionários e não compreendia certas sentimentalidades das moças.
O seu único amigo o chambre Valadares, que governava o bispado, chamava-o de “Frei Hércules – Hércules pela força, explicava sorrindo – Frei pela gula.”
O Padre vivia em companhia de seu cão e uma criada.
Dias depois, a criada dá entrada com sezões no hospital e o cão ficou a vagar faminto pelas ruas, acompanhando todos que usavam batina, até morrer.
Para preencher a vaga deixada por José Miguéis, dois meses depois, foi nomeado pároco de Leiria o Pe. Amaro.
Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cônego Dias, que fora nos primeiros anos de seminário seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia o cônego, o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...” (p.14)
O Pe. Amaro Vieira era um homem jovem, tinha pouca experiência e foi indicado por influências políticas.
O chambre, dessa vez, comentou: “Depois de Frei Hércules – Frei Apolo.”
O cônego Dias vivia com uma irmã velha, a D. Josefa Dias e uma criada. Ele passava por ser rico e frequentava a casa da Sra. Augusta Caminha, a S. Joaneira, por ser natural de São João da Foz. S. Joaneira morava na rua da Misericórdia, tinha uma filha, Amélia, 23 anos, bonita e muito desejada.
Em uma tarde de agosto, o cônego Dias mostra ao coadjutor da Sé uma carta de Amaro, solicitando-lhe a providência de um lugar para que ele pudesse se hospedar com economia e relativa comodidade.
O cônego resolve instalá-lo na casa de “sua amiga” S. Joaneira, cuja casa era como se fosse uma hospedaria, tendo tido antes outros hóspedes. O coadjutor alerta o cônego para o problema da jovem filha, Amélia, e para os comentários que podem surgir, com a presença de um padre jovem. Nada, no entanto, demove o cônego, que já vislumbra o dinheiro do aluguel a ajudar sua amiga, sobre quem faz comentários muito elogiosos.
Além de roupas limpas, comida, criada, ele estaria ajudando-a. Afinal, era uma pessoa de bem, a casa estava vazia, a fazenda que tinha era pequena e para ele seria um alívio...
Nota-se claramente a insinuação do narrador de que tal escolha foi motivada principalmente pela economia que o cônego antevê. Ele auxilia economicamente sua “amiga” Augustinha, mas pretende diminuir essa contribuição com a entrada do dinheiro de Amaro.

CAPÍTULO II

Uma semana depois, soube-se que o novo pároco devia chegar pela diligência de Chão de Maçãs, que traz o correio à tarde; e desde as seis horas o cônego Dias e o coadjutor passeavam no largo do Chafariz, à espera de Amaro.” (p.17)

Era então nos fins de Agosto. A diligência chegou à noite, e Amaro foi recebido pelo cônego que o levou direto à casa de sua hospedeira, que já tinha preparado uma cela para ele, convidando também o cônego:

“- Pode subir, senhor cônego! Está o caldo na mesa!
- Ora vá, cá, que você deve estar a cair de fome, Amaro! – disse o cônego, erguendo-se muito pesado.
E detendo um momento o pároco, pela manga do casaco:
- Vai você ver o que é um caldo de galinha feito cá pela senhora! Da gente se babar!...(p.19)
O cônego o acompanha e durante a refeição relembram cenas, fatos e pessoas do passado comum. A empregada, a quem chamam Ruça, desperta a atenção pela tosse frequente. Quando o cônego está se retirando, chega á moça Amélia e é admoestada carinhosamente por ele: Então isto são horas, sua brejeira?”
O cônego sai e Amaro se recolhe ao quarto.
Amaro abriu o seu Breviário, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o teto, através das orações rituais que maquinalmente ia lendo, começou a sentir o tique-tique das botinas de Amélia e o ruído das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.” (p.22)

CAPÍTULO III

Num flashback, o narrador onisciente apresenta o passado de Amaro. Nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa de Alegros. Seus pais eram criados dela e sua mãe era muito querida pela marquesa.
O pai morreu de apoplexia e sua mãe, Joana, de tísica de laringe. Amaro tinha seis anos então. Embora tivesse parentes que pudessem cuidar dele, ficou ali mesmo, porque a marquesa afeiçoara-se a ele, cuidando de sua educação. A marquesa era viúva, muito bondosa e beata. Tinha duas filhas, “educadas no receio do céu e nas preocupações da moda, pensam todos os dias na toalette com que hão de entrar no paraíso.”
A marquesa decidiu desde cedo fazer o menino entrar na vida eclesiástica.
O garoto era “uma mosquinha morta” como diziam os criados.
Nunca brincava, nunca pulava ao sol”. Era medroso e dormia com lamparina acesa ao pé de uma ama velha.
As criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e ele rolava por entre as saias, em contato com os corpos, com gritinhos de contentamento. Às vezes, quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos lânguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, além disso, utilizavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era Amaro o que fazia as queixas. Tornou-se enredador, muito mentiroso.” (p.23)
Aos onze anos, Amaro ajudava à missa e aos sábados limpava a capela e com o tempo, as criadas o chamavam de padreco.
Um dia, faleceu a marquesa deixando em testamento um legado para que Amaro entrasse aos quinze anos no seminário e se ordenasse. Inicialmente, o menino vai para a casa de um seu tio, “merceeiro abastado do bairro da Estrela.” (p.22)
Nesta época ele tinha doze anos.
Na casa do tio só encontrou dissabores.
O tio o colocou para trabalhar, a tia não reparava nele e o chamava de cebola. Amaro sofria, chorava e emagrecia.
Sabia já que aos quinze anos devia entrar no seminário. O tio todos os dias lhe lembrava:
- Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro. Em tendo quinze anos, é para o seminário. Não tenho obrigação de carregar contigo! Besta na argola, não está nos meus princípios!
E o rapaz desejava o seminário, como um libertamento.” (p.24)
O narrador comenta que nunca alguém o consultara se queria ser padre e ele, por sua vez, aceitava isso assim como aceitaria qualquer outra coisa.
Um ano antes de entrar para o seminário, o tio o matriculou em uma escola de latim, e durante o caminho, observava a cidade, as mulheres, os cafés, os teatros que lhe davam excitação e melancolia.
Entrou no seminário. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um pouco úmidos, as lâmpadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as batinas negras, o silêncio regulamentado, o toque das sinetas – deram-lhe uma tristeza lúgubre, aterrada.” (p.25)
Mas achou logo amizades. Todos reclamavam a falta de liberdade e lembravam com saudades de seus lugares. A maioria queria deixar o seminário e ganhar dinheiro, comer bem e conhecer as mulheres. Amaro não desejava nada, mas ardia de desejo sexual.
Em sua cela havia uma imagem da Virgem, que Amaro amava-a, despia-a, erguia a sua túnica azul para supor formas, no entanto, ocultava seus desejos mundanos no confessionário, pois aprendera em teologia que a mulher era amaldiçoada, tida como filha da mentira e porta do inferno.
Aos poucos acabou entrando lentamente na regra do seminário como uma ovelha indolente: devorava os compêndios, cumpria com os serviços eclesiásticos e, calado, curvava-se diante dos lentes, chegando a ter boas notas.
Ao se ordenar, recebeu uma carta do padre Liset, encarregado pela marquesa de cuidar dele e do legado, comunicando-o dos atuais acontecimentos: seu tio havia morrido; sua tia caíra na vida e perdera a pureza e as posses; sua irmã casara-se com um certo Trigoso e o dinheiro deixado por sua protetora já tinha se esgotado. Devia agora, ele mesmo, portanto, cuidar da sua vida. Dois meses depois, Amaro foi nomeado pároco de Feirão, na Gralheira, serra da Beira Alta, uma paróquia pobre de pastores, que naquela época ficava quase desabitada.
Este ali desde outubro até o fim das neves. Como o lugar era pobre e sem futuro, Amaro foi a Lisboa cavar uma nova e melhor posição.
Nessa época, ele não sofria mais de excitações sexuais, pois uma pastora grossa do Feirão tinha acalmado suas necessidades.
Ao chegar á cidade, não encontrou o padre Liset, mas conseguiu a proteção da filha mais nova da marquesa de Alegros, a sra. D. Luísa, casada com o conde de Ribamar, que era conselheiro de Estado. Ambos falam com o ministro da Justiça que consegue a nomeação de Amaro para Leiria, cidade sede de bispado.
Na ocasião dessa segunda visita à condessa, Amaro teve oportunidade de presenciar um debate sobre o papel da Igreja na sociedade, em que o ministro defendeu enfaticamente a manipulação do povo pelo clero para manter a “estabilidade política e social”.
Amaro não esqueceu aquela manhã na casa do conde onde conheceu Tereza, sonhava um dia confessá-la e roçar sua batina em seu vestido, na intimidade do confessionário.
Da mesma forma, pode reparar na artificialidade do sentimento religioso dos frequentadores da casa, gente da nobreza, que via nas celebrações espirituais uma ocasião de divertimento para a alta sociedade.

CAPÍTULO IV

Ao outro dia, na cidade, falava-se da chegada do pároco novo, e todos sabiam já que tinha trazido um baú de lata, que era magro e alto, e que chamava Padre Mestre ao cônego Dias.” (p.36)
As beatas e beatos ao à casa de S. Joaneira e, esta lhes mostra os objetos do padre e convida-os a voltarem à noite para conhecê-lo em pessoa. Amaro não se encontra porque tinha ido visitar o chantre com o conde Dias e entregou uma carta de recomendação do conde de Ribamar.
Eram oito horas quando recolheram a (sic) casa da S. Joaneira. As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candeeiro de petróleo, Amélia costurava.” (p.38)
S. Joaneira apresenta ao padre suas amigas: dona Josefa, irmã do cônego Dias, mulher mirrada; dona Maria da Conceição, viúva rica, “sofria dum catarro crônico”; e as irmãs Gansosos: Joaquina e Ana.
Todas procuram falar ao padre e indagam sua opinião sobre os lugares por onde andou naquele dia. Amélia participa da conversa e o pároco repara nela:
Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito; o pescoço branco e cheio saía dum colarinho voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes brilhava; e pareceu ao pároco que um buçozinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra sutil e doce.” (p.38/39)
Entra na conversa um rapaz que ficava a um canto, chama-se João Eduardo, é um sujeito alto, todo vestido de preto, bigode que cai aos cantos da boca e que costuma mordiscar. Ele é criticado pelas mulheres porque não acredita nos milagres da Santa de Arregaça. Amaro pergunta quem é essa santa. Informam ao pároco que “é uma mulher que aqui há numa freguesia perto, que está há vinte anos na cama...” (p.39) e que sabe rezas para tudo, faz milagres e chega a levitar quando comunga.
João Eduardo declara seu ceticismo quanto à Santa e insiste que só repetiu o que ouviu dos médicos, trata-se de uma velha doente e entrevada: “que aquilo é uma doença nervosa”.
Essa irreverência escandalizou as velhas beatas.
Interrompe o debate um rapaz muito alto e amarelo que entra com uma guitarra na mão. Têm as faces cavadas, um bigode à d. Quixote, sem um dente inteiro sequer, olhos encovados e piegas. Já chega queixando-se de dores no peito, de tosse, da doença de dois dos seus quatro filhos e também da criada que está de cama. D. Joaquina Gançoso comenta que este homem, Artur Couceiro, é muito engraçado e tem boa voz para cantar modinhas.

Depois do chá, Amélia vai ao piano e Artur, atendendo aos pedidos, canta uma canção: “Era uma canção dos tempos românticos de 51, o “Adeus”! Dizia uma suprema despedida, num bosque, por uma tarde pálida de Outono; depois, o homem solitário e precito, que inspira um amor funesto, ia errar desgrenhado à beira do mar; havia uma sepultura esquecida num vale distante, brancas virgens vinham chorar à claridade do luar!” (p.41)
Após o canto, vem a hora da Loto. Amélia guarda um lugar para Amaro ao seu lado e o convida a jogar. Ele hesita, fica vermelho, mas acaba aceitando, ao ver que todos abrem caminho para lhe dar passagem. Durante o jogo fica distraído, esquece-se de marcar, e é Amélia que o alerta sempre. Quando sai o número 36, Amélia grita “quinamos” e, toda vermelha, exibe triunfante o seu cartão e o do pároco. Quem parece não gostar é o João Eduardo, pois ao se despedir dela, disse:
“- Muitos parabéns por ter quinado com o senhor pároco. Que entusiasmo!
- E como ela ia responder:
- Boa noite! Disse ele secamente, embrulhando-se no seu xale-manta com despeito.” (p.43)
Todos se retiram. Amaro vai para seu quarto e tenta rezar, mas se distrai, recordando das pessoas que conhecera há pouco e de Amélia, com suas mãos pequenas, os dedos um pouco trigueiros e seu buçozinho gracioso. Sente sede, mas não encontra água no quarto, por isso sai em busca de água.
Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o e recuou com um ah! Vira num relance Amélia, em saia branca, a desfazer o atacador do colete: estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam ver os seus braços brancos, o seio delicioso. Ela deu um pequeno grito, correu para o quarto.” (p.43)
Ela informa onde ele pode pegar água e ele volta com um copo cheio, a mão tremendo e a água escorrendo pelos dedos.
Deitou-se sem rezar. Alta noite Amélia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.” (p.43)

CAPÍTULO V

Amélia, em cima, também não conseguia dormir, pondo-se a recordar seu passado: seu irmãozinho que já morrera; a sua mãe falando de seu falecido pai que fora militar, morrera jovem e ela não o conhecera. Recordou-se de sua primeira mestra contando histórias de convento. Lembrava-se bem da história “de uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando: - Augusto! Augusto!” (p.44)
Lembrou-se ainda de como sua casa era sempre muito frequentada por padres e beatas, conversavam, roçavam, mas às 9 horas ela ia deitar-se...
Mas seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de música.” Seu mestre, a quem chamava pelo apelido, tio Cegonha, era velho, doente e passava fome, também contou uma história amorosa envolvendo um frade e uma freira. No dia em que ouviu tal relato, Amélia teve febre. Veio o médico e tranquilizou a mãe, dizendo que aquilo não era nada: “...são os quinze anos da rapariga. Hão-de-lhe vir amanhã as vertigens e os enjôos...Depois acabou-se. Temo-la mulher.” (p.47)
Amélia se lembrou quando o chantre que frequentava sua casa morrera e sua mãe ficara muito abalada. D. Maria da Assunção, então as convida para passarem uns dias em sua casa de praia de Vieira. Lá, Amélia, conheceu Agostinho Brito, um grande galanteador, que chegou a fazer uns versos para a morena de Leiria e a beijou. Prometeram escrever, mais tarde ficou sabendo que ele estava de casamento marcado com outra.
Amélia ficou tão desolada que se refugiou na religião.
Amava Agostinho e não podia esquecer aqueles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria.” (p.51)
Nesta época, Amélia e sua mãe conheceram o cônego Dias que passou a frequentar sua casa.
A casa de S. Joaneira tornou-se um centro eclesiástico. Logo em seguida, surgiram comentários sobre a amizade íntima entre o cônego e a anfitriã e, os padres se afastaram dessas reuniões.
Assim foi até completar 23 anos, “quando conheceu João Eduardo no dia da procissão de Corpus Christis...” (p.52), na casa do tabelião Nunes Ferral, onde ele era escrevente. O segundo encontro foi no teatro, ele ofereceu o braço para acompanhá-la e confessou-lhe seu amor.
No início do relacionamento foi um fogacho, mas ao conhecê-lo melhor, viu que era um bom moço e poderia ser um bom marido, mas não o amava. Amélia cada vez distancia-se mais de João Eduardo. Às vezes, fazia-lhe um agrado só para não descontentá-lo, e demonstrar certo interesse. Ele chegou a pedi-la em casamento.
Assim vivera Amélia até a chegada de Amaro: e, durante a noite, estas recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o Sol ia alto; e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a Ruça na sala de jantar:
- É o senhor pároco que vai sair com o senhor cônego; vão à Sé.” (p.54)
Amélia saltou da cama, correu à janela e ainda pode ver o padre Amaro saindo, “assoava-se ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina de pano fino.” (p.54)

CAPÍTULO VI

Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em comodidades, Amaro sentiu-se feliz.” S. Joaneira cuidava bem dele.

Amélia tinha com ele uma familiaridade picante.” Amaro vive tranquilo pela primeira vez “com boa mesa, colchões macios e a convivência meiga de mulheres.” (p.54)
Pela manhã, ia celebrar a missa. Diante do Santíssimo, dobrava o joelho rapidamente, só para cumprir o dever. Rezava mecanicamente as orações da missa, engrolava a leitura do Evangelho, e só ficava alegre ao dar a bênção final, pensando no almoço, nas torradas e em Amélia com sua “pele fresca” e “um bom cheiro de sabão de amêndoas.” (p.55)
O narrador mostra várias cenas reveladoras da intimidade que Amélia e o padre vão tomando. Às vezes, quando os dois ficavam às sós, “não falavam, mas os seus olhos tinham um longo diálogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente.” (p.56)
Junto da moça, Amaro esquecia-se de que era padre “e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.” (p.56) Após o jantar, depois do segundo copo, dizia gracinhas e até “tocava fugitivamente o pé de Amélia debaixo da mesa.” (p.57)
Amaro vivia a espiar o quarto de Amélia na esperança de encontrar alguma peça que desvendasse sua nudez. Às vezes, revoltava-se contra estes desfalecimentos, afirmando que era necessário ter juízo, ser homem!
Já se havia tornado costume, logo após o jantar, ao café, aparecer o cônego Dias. Servido o café, todos visitavam a entrevada tia Gertrudes. Ao voltarem dessa visita, Amélia cantava ao piano, deixando o pároco envolto num sentimentalismo agradável.
Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a ler os “Cânticos a Jesus”, tradução do francês publicada pela sociedade das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equívoco, quase torpe – que dá à oração a linguagem da luxúria...” (p.58)
Amaro excitava-se com as palavras gozo, delírio, êxtase da referida oração, levando-o desejar Amélia brutalmente. Os seus piores momentos eram as segundas e quartas-feiras, quando João Eduardo vinha passar a noite com a família. Amélia ficava casmurra nessas ocasiões e Amaro irritado.
Um dia, voltando da casa da D. Maria da Assunção, Amaro encontrou o portão aberto. Entrou com cuidado casa adentro, ouviu uma tosse grossa no quarto da S. Joaneira, afastou levemente o reposteiro de chita e viu a dona da casa em saia branca, atando o colete e, o cônego Dias em mangas de camisa, arfando, sentado à beira da cama.
Amaro conclui que se o cônego que já era velho, sem os ímpetos do sangue novo, agia daquela forma, imagina os jovens, bem que diziam no seminário “todos são do mesmo barro.”
Então as duas mulheres eram sustentadas pelo cônego: Não eram honestas? Recebiam hóspedes? Viviam de concubinagem? Amélia saía sozinha, será que tinha um amante? Então, ele seria amante da rapariga, como o cônego, o mestre da Moral, era amante da mãe. Já via Amélia descer em seu quarto e já não sentia por ela o amor sentimental. Chegando a casa, procura marcas no pescoço de S.Joaneira e a presença de João Eduardo ao lado de Amélia, deixa-o embaraçado. Sentiu odiou de não ter direito de amar. João Eduardo podia dar a Amélia, nome, casa, filhos e ele, somente, sensações criminosas, depois os terrores do pecado e claro que ela queria casar-se.
Queria que ela fosse uma prostituta, se arrepende disso e começa a pensar se fosse homem livre, com certeza, seria um marido bom! Amaria o seu filho! Amaldiçoou a marquesa que o fizera padre.

CAPÍTULO VII

Dias depois o padre Amaro e o cônego Dias tinham ido jantar com o abade de Cortegassa” que fazia aniversário. Além dos dois, participaram também o padre Natário, o Pe. Brito, e o Libaninho. O Abade cozinhava muito bem e era tão apaixonado pela sua arte culinária “que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fiéis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho.” (p.63)
Durante a farta refeição, falaram da miséria e da pobreza, execraram os miseráveis e os pobres, condenando a libidinagem que os levava a procriar como coelhos, enquanto se bebiam e comiam com fartura. Enquanto isso, um mendigo bateu à porta pedindo comida. O Pe. Natário chama-o mariola e vagabundo.
O abade tenta sensibilizá-lo pela pobreza de algumas famílias, que só comiam ervas, mas o cônego retruca, afirmando que, se queriam que comessem peru. O abade, então, diz que na freguesia tem doze mulheres grávidas, outro diz que o pior, eram as mulheres casadas que perderam o escrúpulo.
Alguns padres contaram como usavam a confissão para interesses mundanos, controlar a vida dos fiéis e até mesmo para angariar votos. Falaram também da luxúria de certas raparigas que se reuniam num palheiro “e passavam lá á noite com um bando de marmanjos.” (p.64)
Pe. Natário aproveitou para dizer que às vezes o exemplo vem de cima. E falou sobre comentários de um possível relacionamento do Pe. Brito com a mulher do regedor. Todos brincaram com o Pe. Brito que violentamente negou tudo, com veemência e indignação: “É mentira! berrou ele.” (p. 65)
Amaro indignava-se com tais atitudes.
Depois da farta refeição, saíram a um passeio para espairecer. No caminho, o padre Natário esbarrou num pobre velhinho, agredindo-o verbalmente, afirmando que ele estava atrapalhando a passagem. Amaro resolveu não mais os acompanhar até a fazenda e voltou sozinho para sua casa. No entanto, no caminho, encontrou Amélia que o convidou a conhecer a propriedade dela. Como a cancela estava fechada ela sugeriu que passassem pelo valado. Ele pulou e ela também:
Saltou, foi cair-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se – sentindo entre os braços o corpo dela, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.
Amélia desprendeu-se, ficou diante dele, sufocada, com a face em brasa, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos trêmulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:
- Ameliazinha!
Mas ela de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do valado.” (p.70)
Ela fugiu até chegar junto a D. Maria da Assunção. “Sentou-se ao pé da velha; e ficou imóvel, com as mãos caídas no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos numa abstração. Todo o seu ser se abismava numa só sensação:
- Gosta de mim! Gosta de mim!” (p.71)
O narrador revela então ao leitor que Amélia já estava gostando do padre havia muito tempo, desesperando-se muitas vezes por não saber se Amaro percebia seu amor.
Ao voltar para casa, à noite, Amélia só pensava em Amaro, chegando a pedir proteção à Virgem Maria:
Oh, Nossa Senhora das Dores, minha Madrinha, faz que ele goste de mim!” (p.72)

CAPÍTULO VIII

O padre Amaro voltara para casa aterrado.” (p.72) Atormentava-se com o que poderia acontecer. Pensava contar tudo ao cônego. Foi vê-lo, mas não conseguiu coragem e, apenas pediu para mudar de casa. O cônego gostou da ideia, porque ao trazer Amaro pensava apenas economizar a mesada que antes dava a mãe de Amélia. Só que após a chegada do pároco, ele não pode mais encontrar-se com a sua Augustinha tanto quanto antes, nem com o mesmo sossego. Agora precisava sempre esperar pelas saídas de Amaro, que se tornou uma presença inconveniente a ponto do cônego preferir voltar a pagar a mesada do que tê-lo por ali. Por isso, no mesmo dia conseguiu uma casa para alugar e transferiu Amaro, que ficou aborrecido com a rapidez, porque no fundo já estava arrependido de sua decisão.
E continuando a arrumar a sua roupa, o pároco desesperava-se agora contra a resolução que tomara. A pequena evidentemente não tinha aberto o bico!” (p.76)
Quando comunicam às mulheres a decisão do padre mudar-se, ambas ficam aborrecidas. O jantar foi triste, as mulheres da casa não se conformavam com a partida do padre. Após a refeição. Amélia foi ao piano e canta:
Ai! Adeus! Acabaram-se os dias / que ditoso vivi a teu lado / Soa a hora, o momento fadado. / É forçoso deixar-te e partir!” (p.76)
O padre Amaro vai à janela e chora disfarçadamente.
Tudo estava preparado para sua mudança, inclusive a contratação de Maria Vicência, irmã de Dionísia, uma cafetina, para ser sua criada.
S. Joaneira chamou-o de ingrato, que já o como filho...
Na sua nova residência, na primeira noite, Amaro acusava Amélia por tudo que estava passando: solidão, a falta de mobília, as despesas extras...Queria desprezá-la como uma cadela, humilhá-la, dar entender que sua mãe era uma prostituta, dizer-lhe que ele seria famoso e chegaria a bispo...Refletia que qualquer um podia possuí-la, menos ele, que por ter perdido para sempre os privilégios, o excluía da participação nos prazeres humanos e sociais, então, refugiava-se, na ideia da compensação de uma superioridade espiritual, que tinha sobre os homens. Depois, ficava a imaginar o que Amélia estaria fazendo àquela hora. Eram dez horas. “O que ele gostava daquela maldita!”
Como ele gostaria de “beijar, sob a proteção da Igreja e do Estado, aqueles braços e aquele peito!” (p.78)
Amaro, agora, no entanto, vivia mal, Vicência era porca e o tédio batia naquela casa. Deitava sem rezar, acreditando que o fato de ter renunciado Amélia, já era um sacrifício.
Amélia, por sua vez, toda vez que ouvia soar a campainha, estremecia pensando ser Amaro.
Um dia Amélia encontra uma antiga amiga, a Joaninha Gomes, que havia sido amante de um padre e abandonada com um filho e agora, passava fome. Esse encontro faz com que ela pense em acelerar seu casamento com João Eduardo, mas Amaro não saía de sua cabeça. Por que não via? Não amava? Queria se atirar em seus braços, beijá-lo e depois podia até morrer.
Amélia chegou até ficar doente e João Eduardo chorava no cartório onde trabalhava, por não ser enfermeiro e poder cuidar de sua noiva.

CAPÍTULO IX

A vida de Amaro tornou-se monótona.” Estava no mês de março, frio e úmido. Jantava ás três horas e se lembrava de Amélia lhe passando a sopa. O coadjutor vinha de vê em quando visitá-lo, mas o cônego jamais. Amaro passou a evita Amélia. Não foi mais a casa dela e até trocou de horário de missa para não se encontrar com ela. Ela sofria com isso e vivia a espera de uma visita dele. Impacientava-se com o amor de João Eduardo e “idealizava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lúbricos; de dia vivia numa inquietação de ciúmes, com melancolias lúgubres, que a tornavam, como dizia a mãe, “uma mona, que até enraivece”! (p.81) Andava doente, amarela e um dia chegou a ficar com febre.
O médico veio vê-la e aconselhou a mãe que a casasse logo. Amélia afinal melhorou para grande alegria de João Eduardo que vivera em grande aflição enquanto ela estivera doente.
No domingo seguinte, Amélia e sua mãe foram à missa. Ao vê-las, Amaro não consegue segurar direito o cálice, enquanto Amélia via-o como um deus. Na saída S. Joaneira e Amélia reclamam à ausência de Amaro em sua casa, afirmando que já havia até surgido comentários a esse respeito. Amaro, então, compromete-se visitá-las na mesma noite.
“ – Vá tenho estado tão triste, peço-lhe eu!”, disse-lhe Amélia.
Amaro ficou tão feliz, que quase saiu a correr pelas ruas com tanta alegria. Mal pode jantar. Arrumou-se, rezou o breviário e foi.
Ao chegar á rua da Misericórdia, seu coração batia tão forte que teve de parar, sufocado. Até o pio das corujas pareceu-lhe melodioso.
Na casa de S. Joaneira, Amaro foi recebido por todos com entusiasmo. O processo de recíproca sedução reinicia-se com intensidade. Amaro volta a frequentar a casa com regularidade. Durante o jogo de cartas o braço de Amélia “roçava o ombro do pároco: Amaro sentia o cheiro de água de colônia que ela usava com exagero.” (p.83) Amaro saía de lá cada vez mais apaixonado por Amélia e gostava de pensar nela, nu, às escuras, “tão boa, coitadinha!” Pensava em marcar um encontro, possuí-la e diante disso, retomava as lamentações de não ser livre e poder possuí-la sem pecado, depois se voltava contra o celibato e a Igreja. Quem pode imaginar que um velho bispo diz: “- Serás casto e o seu sangue vai esfriar-se? A carne é fraca.”
Pensava nos três inimigos da alma: “mundo, diabo e carne – mulher, riquezas e uma figura negra de olho de brasa – parecia o conde de Ribamar.”
Enfim, queria Amélia e se o bispo ou o papa a vissem, também a quereriam.
Já não dormia mais direito. João Eduardo, que também passara a sofrer de insônia com o retorno do padre, perambulava solitário às noites e, constantemente via pela janela de Amaro, uma luz amortecida. João Eduardo, enciumado com a exagerada atenção de Amélia, advertiu-a. E esse sentimento juntava-se a aflição pela honra e a sua dor. A moça prometeu não ficar mais ao pé do padre, procurando disfarçar sua emoção toda vez que Amaro entrava, mas muitas vezes perdia o controle quando os olhos negros de Amaro pousavam nela, provocando-lhe estremeções nos nervos. João Eduardo voltou a reclamar, sendo mais explícito e Amélia pediu ao padre Amaro para ser mais discreto. Numa noite de inquietação, João Eduardo perambulou sem rumo e acabou dirigindo-se à redação da “Voz do Distrito”.

CAPÍTULO X

E, tinha um amigo jornalista, o Agostinho que trabalhava no jornal do Dr. Godinho.”
Agostinho era um sujeito sujo, cheio de vícios, enfezado, ético, e “a sua carita de fêmea, amarela, de olhos depravados, revelava vícios antigos, muito torpes”. (p.89) O grupo da Maia, criador do jornal, era hostil ao Governador Civil. O doutor Godinho era o chefe do Grupo da Maia e do jornal. Agostinho e João Eduardo detestavam os padres. Numa conversa, Agostinho incitou João a escrever um artigo atacando o clero. Enraivecido pelo ciúme, Eduardo escreveu um artigo tão direito e violento que o doutor Godinho só permitiu que saísse como um “comunicado” feito por “um liberal”, proibindo que saísse como artigo da redação.
Amaro escreveu um bilhete pedindo a Amélia que marcasse um encontro para que se vissem a sós, mas não obteve resposta. Saiu o artigo no jornal, mas ele nem tomou conhecimento, pois naquela manhã concentrou-se numa longa carta dirigida a Amélia, queixando-se do seu silêncio, insistindo em seu amor puro, mas, ao mesmo tempo, dizendo a ela: “Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos!” (p. 93)
Ao chegar a casa dela, à noite, nem entregou a carta, pois foi surpreendido pela leitura do artigo, feita pelo cônego, na presença de Natário, Brito e outros frequentadores assíduos. O Comunicado, depois de fazer a apologia de Cristo libertador e a condenação dos fariseus, voltava-se para Leiria: em tom satírico, denunciava os amores do padre Brito com a mulher do regedor (o que provocou um ataque de cólera no sacerdote), a personalidade traiçoeira e intrigante do padre Natário, as imoralidades do cônego Dias em por fim, as investidas de Amaro sobre Amélia. Amaro sente-se esmagado por ver ali, bem clara a denúncia de seu envolvimento com Amélia, Libaninho, que estava presente, disse ao término da leitura:
“ – Ai, filhos, eu não é nada comigo, mas só de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...” (p.96)
O padre Natário é designado para falar com a autoridade para que tome uma medida contra o jornal. Natário vai procurar o secretário-geral, Sr. Gouveia Ledesma que “estava então dirigindo o distrito na ausência do Governador Civil.” Disse ao secretário que o dever do Estado era proteger a Igreja e Gouveia Ledesma alegou nada poder fazer porque a imprensa era livre: “Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãe!” (p.98)
Natário responde que, quando chegasse ás eleições não deveriam contar com o clero. Enquanto isso, o jornal foi bem recebido e vendeu oitenta números avulsos. Ao contrário dos padres, João Eduardo exultou ao ver o artigo tão comentado e, muito mais, quando encontrou o doutor Godinho que lhe deu os parabéns e prometeu conseguir seu desejado emprego no governo civil em um mês. Correu o rapaz à casa de S. Joaneira para contar-lhe isso e já pedir Amélia em casamento. Quando Amélia chega em casa a mãe conta-lhe tudo e diz: “Eu bem sei que tu não morres por ele. Bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...” (p. 101)
O narrador retrocede um pouco o tempo, revelando ao leitor que Amélia vivia atordoada desde o domingo em que saiu o artigo sobre os padres. Ficava ainda mais irritada com a ausência do pároco, atribuindo-a á covardia. Culpava-o e pensava que “também ela se via diminuída na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor.”
Desejava violentamente apertá-lo ao coração – e esbofeteá-lo.” (p. 103)
Pensou em fugir e viver longe com ele. Ela costuraria para fora e ele poderia ensinar latim. Por isso, ao saber do pedido de João Eduardo, viu nele uma forma de se vingar da fuga do padre Amaro. Pensava com satisfação no seu desespero ao ficar sabendo do seu noivado. Pensou também no rendimento do marido e na sua responsabilidade de senhora casada. Imaginou ainda ter um filho, chamar-se-ia Carlos e teria os olhos negros como os do pároco. Nos seus sonhos futuros despontou o desejo de, apesar de casada, ser amante do padre. Sentiu horror por tal pensamento, tentou afastar a ideia, mas veio-lhe um desejo dos beijos de Amaro.
Depois de pensar um pouco, Amélia conversou com a mãe sobre o noivo e, aconselhada por ela, mandou-lhe uma carta aceitando o pedido. À noite, deitou-se e sonho que estava em sua casa, com o marido, jogando cartas com suas amigas, sentada nos joelhos do senhor pároco.
Amaro encontra Natário na rua e é informado do noivado de Amélia. O pároco leva um choque. Estava só esperando esfriar o assunto para voltar à rua da Misericórdia. Tinha planejado conseguir que Amélia deixasse o padre Silvério e se confessasse com ele, pois assim poderiam sem despertar suspeitas. Após a dor inicial, acabou concluindo que assim era melhor, “cada um entrava no seu destino legítimo e sensato.” (p.107)
Na segunda-feira seguinte voltou à Rua da Misericórdia. Amaro e Amélia se agitaram interiormente, mas fingiram tão bem, que Amélia pensou que o padre a estava evitando. Na mesma noite veio o padre Natário e informou Amaro e o cônego que o padre Brito fora transferido e o senhor chantre pretendia agir seriamente com relação aos padres para moralizar o clero. O cônego mandou servir o chá, aparentemente controlado. Depois, os três padres saem calados e, o cônego, confessa que está preocupado, evitando demonstrar para não alarmar, S. Joaneira.

CAPÍTULO XI

Pe. Natário reconciliou-se com o Pe. Silvério com quem tinha brigado feio há tempos, em busca de informações sobre o Liberal. Todos comentaram maliciosamente essa reconciliação, dizendo que era porque Silvério era confessor da mulher do doutor Godinho.
Natário procurou Amaro e contou que tinha descoberto o autor do artigo, era João Eduardo. Disse ter vistos os originais. Então, ambos decidiram vingar-se do escrevente estragando-lhe o sonhado casamento. Natário queria mais, pretendia impedir que ele conseguisse o emprego civil e, pior, queria cortar o seu emprego de escrevente para ver o moço a pedir esmolas. Amaro ficou chocado e não aprovou, dizendo que era uma atitude imprópria de cristão.
Decidiram que o cônego Dias contaria a S. Joaneira; Amaro a Amélia, e, ele cuidaria da demissão do rapaz.
Em casa, Amaro procurou justificar sua vingança contra o rapaz, impedindo seu casamento: “E aquilo, Jesus! Não era uma intriga para arrancar ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito retos, muito puros, aquilo era um trabalho santo para a arrancar ao inferno; ele não a queria para si, queria-a para Deus!...Casualmente, sim, os seus interesses de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. Mas se ela fosse vesga e feia e tola, ele iria igualmente à Rua da Misericórdia, em serviço do Céu, desmascarar o Sr. João Eduardo, difamador e ateu!” (p.116)
Amaro dormiu e teve um sonho, em que amava Amélia e era denunciado pelo diabo que tinha a cara de João Eduardo. Deus mandou prender Amaro e atirá-lo no abismo número sete. Amaro acordou banhado em suor.
A entrevada tia de Amélia foi desenganada pelo médico e a S. Joaneira pediu os sacramentos. Amaro veio dar a extrema-unção, prometendo voltar à noite para acompanhar as senhoras naquele transe difícil. Veio João Eduardo, mas precisou sair acompanhando d. Maria da Assunção que se sentiu mal. O cônego também se queixou de não estar bem e se retirou. Assim, quando Amaro voltou, pode ficar a sós com Amélia. Contou-lhe tudo sobre o escrevente e aproveitando-se da situação: “Passou-lhe o braço sobre o ombro, atraindo-a docemente. Ela tinha as mãos abandonadas no regaço; sem se mover voltou devagar para ele os olhos resplandecentes sob uma névoa de lágrimas; e entreabriu devagar os lábios, pálida, toda desfalecida. Ele estendeu os beiços a tremer – e ficaram imóveis, colados num só beijo, muito longo, profundo, os dentes contra os dentes.” (p.122)
Foram interrompidos pela Ruça. A entrevada estava na agonia. Após a morte da velha, João Eduardo apareceu, mas Amaro nem o deixou entrar, dizendo que as senhoras não precisavam dele e que iriam descansar. Amaro ficou velando a defunta, o que deu grande desgosto ao escrevente. Amaro tomou um cálice de vinho do Porto e acendeu um cigarro, ficando a fumar, enquanto passos anônimos ecoavam lá fora. Era João Eduardo furioso que rondava a casa.

CAPÍTULO XII

No dia seguinte, Amaro foi procurar d. Josefa Duas, pedindo-lhe para insistir com Amélia para romper com o herege e insinuou também que ela deveria mudar de confessor, que o padre Silvério não tinha pulso. Segundo ele, a menina precisava de “um confessor que a governe com uma vara de ferro.” (p.124)
Disse que já a tinha aconselhado, mas não se sentia bem, falando com gente à volta e completou: “Só se está à vontade no confessionário. E é o que me falta, são as ocasiões de lhe falar só.” (p.125)
Dois dias após o enterro, d. Josefa levou Amélia à Sé. Deixou-a confessando-se com o padre Amaro e aproveitou para ir ao Carlos da farmácia e sua esposa Amparo, contar sobre a descoberta do autor do Comunicado e a sem-vergonhice dos cidadãos de Leiria.

CAPÍTULO XIII

João Eduardo, à noitinha, ia sair para a Rua da Misericórdia” (p.130) quando recebeu da Ruça uma carta de Amélia Caminha, rompendo o noivado, por causa do “comunicado”. O escrevente correu à “Voz do Distrito” e acusou furiosamente o corcunda Agostinho de o ter traído. Agostinho disse que era inocente e alegou que só se o doutor Godinho tivesse contado ao padre Natário.
João Eduardo voltou para casa e chorou até adormecer.
No outro dia, tentou inutilmente justificar-se com Amélia. Ela não lhe quis falar. Depois o escrevente foi procurar o doutor Godinho, que se irritou com ele, confessando ter contado a autoria do comunicado somente a sua esposa. Pediu o escrevente ao doutor que lhe permitisse então publicar mais artigos desancando os padres. Godinho recusou e lhe disse: “O senhor está ébrio.” (p.134)
O rapaz saiu acabrunhado e teve a lembrança de procurar a ajuda do Dr. Gouveia, o único ateu de Leiria e ouviu dele entre outras coisas o seguinte: “Vejo o que é. Tu e o padre, disse ele, quereis ambos a rapariga. Como ele é o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a ele. É lei natural: o mais forte despoja, elimina o mais fraco; a fêmea e a presa pertencem-lhe.” (p.137)
O médico explica-lhe que nem a moral da Igreja, nem a moral social podiam deter a natureza. Eles eram homem e mulher e se amavam. A causa da queda de João Eduardo fora ele estar no meio do caminho de um poder maior, encarnado em Amaro: o poder da religião, que assustava tantas pessoas, mas, no caso, encantava Amélia.
João não se conforma com sua perda e reclama que o problema é a difamação, disseram dele que é um arruaceiro, um boêmio: “Eu compreenderia, disse, se fosse um homem de maus costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me bem. Eu não faço senão trabalhar. Eu não frequento tabernas, nem troças. Eu não bebo, eu não jogo. As minhas noites passo-as na Rua Misericórdia, ou em casa a fazer serão para o cartório...” (p.138)
O médico, frio e tranquilamente, não parece se incomodar com a dor do escrevente, justificando a atitude do padre e da moça. Despede-se, dando-lhe um conselho quanto à sua paixão: “Ah! Fez o doutor, é uma bela e grande coisa a paixão! O amor é uma das grandes forças da civilização. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer a revolução moral... – E mudando de tom: - Mas escuta. Olha que isso às vezes não é paixão, não está no coração...O coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decência, para designar outro órgão. É precisamente esse órgão o único que está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E nesses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!” (p.140)

CAPÍTULO XIV

"João Eduardo vai pela rua, desolado, preocupado com seu atraso no serviço. Encontra o tipógrafo Gustavo, jovem de ideias revolucionárias, que o convida a almoçar. Bebem, conversam e João Eduardo conta-lhe todos seus dissabores. Juntos pensam uma forma de vingança contra os padres e decidem que um folheto ou panfleto difamatório seria o ideal, mas não têm dinheiro para comprar o papel necessário.
Após o almoço, com o cérebro excitado pela bebida, João Eduardo encontra o padre Amaro na rua e o ataca com um murro, acertando no ombro de raspão. É preso, mas Amaro intercede pelo agressor, pedindo a sua libertação evitando um processo e um escândalo que podia ser prejudicial também a si próprio. O Nunes, no entanto, não perdoa o escrevente, demitindo-o. Na casa de Amélia, todos bajulam Amaro, que posa quase de santo.
As beatas, num assomo de indignação fanática ateiam fogo aos pertences de João Eduardo, em um ritual de êxtase místico e inquisitorial. Enquanto isso, ele, em seu quarto soluçava em lágrimas, sentindo-se esmagado pelo mundo, justo ele que passara a vida a trabalhar, a cumprir as leis, a respeitar os homens. Pensa em Amélia e no seu futuro incerto “perguntando em vão a si mesmo por que o tratavam assim, ele que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguém, e que a adorava tanto, a ela.” (p.160)

CAPÍTULO XV

No domingo seguinte a esse acontecimento, quando Amélia e S. Joaneira dirigiam-se para a Igreja, veio-lhes ao encontro o Libaninho. Além de fazer comentários sobre os fatos passados, disse que tinha visitado Amaro, visto-lhe o ombro de pele branca e fina e ficara sabendo que sua criada estava doente, no hospital.
Sugere então a S. Joaneira que acolha de novo o padre em sua casa. Na casa de dona Maria de Assunção, a senhora se mostrou da mesma opinião. Lá, admiraram a santaria que a velha rica conservava e colecionava: uma profusão de nossas senhoras, santos e crucifixos, relíquias de todo tipo. Tudo cuidadosamente amontoado e limpo.
Naquele dia, Amélia gozou como nunca a missa de Amaro. À noite, Amélia é convidada para jantar na casa do cônego, em companhia do padre Amaro. Ela fica muito calada, mas por baixo da mesa, seu pezinho não parava de roçar, de pisar o do padre Amaro, enquanto os dois padres travavam animadas discussões religiosas, para o delírio de dona Josefa. A mãe de Amélia não pode buscá-la, como havia prometido. O cônego é acometido de forte dor de estômago, não podendo também fazê-lo. Amaro encarrega-se de levá-la. Vão ambos debaixo de chuva acompanhados de Dionísia, irmã de Vicência, a criada do padre. Aproveitando a desculpa da chuva, Amaro procura abrigo em sua casa, pedindo a Dionísia que se ausente, pois precisa ouvir a moça em confissão. Finalmente, consuma-se a sedução. Quando Dionísia volta e se retiram, já não chovia e até havia estrelas no céu.

CAPÍTULO XVI

Amaro acorda alegre e sem sombra de culpa no dia seguinte. Recorda de outra manhã semelhante, quando no início da carreira mantivera relação sexual com uma mulher e acordara cheio de remorsos e arrependimentos. Agora, porém, já consciente de que os outros padres agem da mesma maneira e de que São Miguel não desceu do céu para castigar ninguém até hoje, preocupa-se mais com a criada Dionísia do que com os castigos do céu. A criada, descaradamente, aconselha-o a ser prudente. Recomenda a casa do sineiro para os próximos encontros, pois ele pode ir para lá diretamente da sacristia, sem que o vejam, enquanto Amélia entra, do outro lado, pela rua, como quem fosse levar um recado ao tio Esguelhas, o sineiro. Amaro dá-lhe dinheiro pela cumplicidade.
Após a missa, Amaro tem uma conversa particular com o sineiro, dizendo que precisa de um lugar secreto para preparar uma jovem que deseja ser freira. Tio Esguelhas diz que o melhor lugar seria o seu quarto, que fica acima do de sua filha. O sineiro tem uma filha paralítica, chamada Antônia, mas tratada mais pelo apelido, Totó. Amaro, ao recordar da paralítica, diz que isso cria um inconveniente. O sineiro insiste que não, pois a filha não se mexia da cama.
O senhor pároco entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...” (p. 174)
À noite, na casa de S. Joaneira, o padre Amaro diz às beatas que alguém precisa dedicar parte de seu tempo para catequizar a Totó. Amélia é escolhida para essa tarefa. Dessa maneira, Amélia e Amaro encontram-se uma ou duas vezes por semana. Amélia ensina a paralítica o ABC e alguma oração, depois dá-lhe um livro com estampas de santos e sobe, dizendo a ela que vai rezar com o padre pela sua saúde. Quando saem, o padre nem olha para a Totó. Amélia, antes de sair, pergunta se Totó gostou das estampas. Algumas vezes, encontra a paralítica com a cabeça enfiada sob os cobertores. Outras vezes, Totó examina-a com uma curiosidade viciosa, aproximando-se muito, com as narinas dilatadas como se a estivesse cheirando.

CAPÍTULO XVII

Foi aquele o período mais feliz da vida de Amaro.” Não houvera, nos últimos dois meses, nem atritos nem dificuldades no serviço da paróquia.
D. Josefa Dias arranjara para ele uma cozinheira excelente e barata, a Escolástica. Os encontros aconteciam com perfeição. Amélia mesmo propusera um dia a Amaro “dizer às amigas que o senhor pároco às vezes vinha assistir à prática piedosa que ela fazia a Totó...”
Ele não admitiu, dizendo que não havia necessidade, pois Deus os estava protegendo. Ela concordou, em seguida, abandonara-se ao padre absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento. Dera-se de uma só vez desde que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma; agora era como uma dependência inerte da sua pessoa. E não o ocultava; gozava em se humilhar, em ser toda escrava, numa obediência animal, tendo só que curvar-se, quando ele falava e, despir-se quando chegava o momento.
Amaro gozava prodigiosamente esta dominação, pois assim se desforrava de todo um passado só de obediência ao bispo, à câmara eclesiástica, aos cânones, à Regra. Tinha ali, aos seus pés aquele ser vivo sobre quem reinava com despotismo. E, a ele, agradava aquela entrega absoluta, aquele fascínio dominador.
Era ele também o Deus de uma criatura que lhe dava uma devoção pontual.
Deu de ficar ciumento. Quando ela manifestou certo dia o desejo de ir a um baile, ele explodiu: “Mas mato-te! Percebes? Mato-te! Exclamou agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar aceso.” (p.183) Por isso, Amaro passara a odiar o religioso, com todas suas atividades mundanas e, em contrapartida, enaltecia perante Amélia a condição do sacerdote. Ela imaginava-se protegida de Deus, porque servia a um padre e já se via carregada por dois lindos anjos quando morresse.

CAPÍTULO XVIII

Uma circunstância inesperada veio estragar aquelas manhãs em casa do sineiro. Foi a extravagância da Totó. Como disse o padre Amaro, a rapariga saía-lhes um monstro!
Tinha agora por Amélia uma aversão desabrida. Apenas ela se aproximava da cama, atirava a cabeça para debaixo dos cobertores, torcendo-se com frenesi...” (p.185)
Amaro quis repreendê-la, mas a paralítica rompeu num choro histérico, ficando depois imóvel, com os olhos esbugalhados e uma espuma branca na boca, dando-lhe grande susto. Amélia nada mais ensinou, deixando “a fera em paz.”
Nos dias seguintes, só olhavam a paralítica da porta do quarto. Mais tarde, nem isso faziam, subiam direto para o quarto, procurando passar despercebidos, mas o assoalho sempre rangia e a doente fez-se ouvir pela primeira vez e todos os encontros seguintes ouviam suas imprecações:
“ - Passa fora, cão! Passa fora, cão!
- Lá vão os cães! Lá ao os cães!
- Estão a pegar-se os cães! Estão a pegar-se os cães!”(p.186)
Amélia perde o gosto do prazer, o padre procura acalmá-la, mas ela percebe que ele lhe mente. Começa a sentir que está em pecado. Quer tomar a decisão de não voltar naquele lugar, mas se o coração pede isso, seu desejo a obriga a voltar com “o coração tremendo da voz da Totó que ia ouvir, as entranhas abrasando-se no desejo do homem que a ia atirar para cima da enxerga.” (p.187)
Finalmente, um dia, quando se encontraram na sacristia, para de lá ir diretamente à casa do sineiro, Amaro fez Amélia vestir uma linda capa azul de Nossa Senhora, que acabara de chegar, presente de uma beata. Depois, excitado, começara a beijá-la, a apalpá-la, deixando-a mole de desejo. Repentinamente, porém, Amélia se sobressalta: “Oh! Amaro, que horror, que pecado!...” Apesar dos protestos e desculpas do padre, ela recusa-se a transar com ele nesse dia e volta para casa, tendo à noite um terrível pesadelo. Nossa Senhora a sufocava com o pé em seu pescoço e a Totó queimava em chamas. Adoece. S. Joaneira fica preocupada e chama o cônego, pedindo-lhe uma investigação sobre a paralítica, pois tudo só pode estar ligado àquela endemoninhada. Às vezes, tinha até medo de olhar para a filha que vinha de lá com o olhar tão esquisito! Explica: “..quando vinha da casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cair de fraqueza.” (p.189)
Contrariado, o cônego promete ir verificar o que acontece e é recompensado “com uma beijoca sonora”.
No outro dia, conforme prometera, o cônego ficou à espreita e acompanhou Amélia à casa do sineiro. Amélia ficou muito preocupada, mas Amaro ainda não havia chegado e os dois foram ver a paralítica, que, surpresa por ver um velho padre desconhecido em vez do jovem Amaro, mudou seu comportamento de agressivo para surpreso e curioso. Quando Amélia foi à cozinha, deixando-os a sós, Totó falou com o cônego:
“ – E o outro?
O cônego não compreendeu. Que falasse alto! Que era?
- O outro, o que vem com ela! O cônego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
- Que outro?
- O bonito. O que vai com ela para o quarto. O que a belisca...”(p.192)
Amélia volta, interrompendo as denúncias da paralítica, mas o cônego há havia entendido o suficiente e vai procurar Amaro para repreendê-lo.
Dias saiu da casa, afogueado, esperou a saída de Amélia e retornou. Interrogou a Totó que lhe contou tudo, citando mesmo Amaro como o amante de Amélia: “São como cães!”, disse.
O cônego saiu dali colérico e dirigiu-se à Igreja. Entrou furiosamente na sacristia, imprecando contra Amaro, que, de início, se assustou com a descoberta de Dias, mas logo se recompôs.
Amaro pressiona o cônego, revelando que sabe de seu caso com a mãe de Amélia e sentenciou: “O padre-mestre que já tem idade agarra-se à velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena.”
Acuado, acabam entendendo-se e prometendo recíproco silêncio. Dias torna-se muito amável e paternal com Amélia. Esta, porém, anda muito nervosa e dorme mal.
A tranquilidade, então, voltou a reinar. Para melhorar as coisas, a Totó ficou doente e o médico diagnosticou uma tísica galopante que em pouco tempo mataria a menina, que muito alegrou Amaro.
Amaro é que anda muito bem, pois conta com a proteção do cônego, dispõe de dinheiro fornecido por uma beata rica e generosa, podendo comprar boas roupas, bons cigarros e alguns presentinhos para sua amada, que “extasiava-se com aquelas provas da afeição do senhor pároco; e era então no quarto escuro um delírio de amor, enquanto embaixo a tísica, sobre a Totó, ia fazendo “trás...trás...” (p. 199), como se fosse a morte com uma foice ceifando rapidamente as vidas dos enfermos, logo levaria a paralítica.
Mas o coração de Amélia ia negro como a noite. Cada dia mais o sentimento do pecado roia-a por dentro, refletindo em sua aparência, o que fazia as senhoras todas da Rua da Misericórdia e a mãe repararem nela.

CAPÍTULO XIX

Amaro entra apressado e descontrolado certo dia no escritório do cônego Dias. Conta-lhe que Amélia está grávida de um mês.
O cônego assusta-se. Ambos, preocupados, conversam procurando uma solução para o caso. Finalmente, concluem que o melhor é casar a moça. Para isso, precisam localizar o escrevente João Eduardo, que anda desaparecido. Colocam a criada Dionísia em seu encalço. A mulher procura por todos os cantos e não consegue notícia que valha. Quando Amaro expõe o plano a Amélia, a moça se revolta.
O quê? Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e passá-la a outro? Era ela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fora de casa o homem, havia de humilhar-se, chamá-lo e cair-lhe nos braços?...Ah, não! Também ela tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brasil!” (p.201)
Com o tempo, acostuma-se à ideia e pergunta sempre pelos resultados das pesquisas de Dionísia, demonstrando impaciência. Isso causa ciúmes em Amaro. No dia em que Dionísia aparecera com a notícia de que vira Gustavo e com certeza teria logo notícias de João Eduardo, “foi uma hora amargurada para Amaro. Aquele casamento, por que ansiara no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catástrofe da sua vida.” (p. 205)
O ciúme de Amaro leva-o a discutir com Amélia e dar-lhe uma bofetada. Ela grita: “Não me mates!” “É o teu filho!” Amaro fica aturdido. “Ele ficou diante dela, enleado e trêmulo: àquela palavra, àquela ideia do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu ser; e arremessando-se sobre ela, num abraço que a esmagava, como querendo sepultá-la no peito, absorvê-la toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabelos: Perdoa, murmurava, perdoa, minha Ameliazinha! Perdoa, que estou doido!” (p.206)
Amaro estava desesperado, fez que ela jurasse fidelidade a ele e naquela manhã, no quarto do tio Esguelhas, foi emocionante como as primeiras e, Amaro consegue ainda de Amélia a promessa que tudo continuaria igual, mesmo depois de casada com o escrevente.
Para desespero de Amaro, no entanto, Dionísia volta com uma resposta negativa. Nada de João Eduardo. A última notícia que Gustavo tivera era de que o escrevente iria para o Brasil.

CAPÍTULO XX

Amélia chora ao receber a desagradável notícia. Os encontros com Amaro ficam mais espaçados e mesmo assim, não são agradáveis, pois ela vive a chorar. Foi então que um acontecimento inesperado veio quebrar aquela ansiedade. Uma noite veio o criado do cônego, avisar que D. Josefa estava à morte. Amélia e a mãe vão cuidar da enferma. Amélia sente-se aliviada porque ninguém repara mais nela. Torna-se uma enfermeira atenciosa, contando abrandar o coração da Virgem Maria com aquela caridade pela doente. Felizmente, D. Josefa melhora, mas o médico desaconselha os banhos de mar em Vieira, para onde vai a cada dois anos com o cônego. Este, fica desolado, mas Amaro encontra uma solução que também lhe é útil. Sugere que o Dias vá para os banhos, levando a S. Joaneira, enquanto a D. Josefa vai para a quinta da Ricoça, nos Poiais, sendo acompanhada pela Amélia que lhe servirá de enfermeira. Lá, a moça poderia ter o filho longe dos olhares curiosos de todos!
Vão ambas sós! E lá na Ricoça, naquele buraco onde não vai viva alma, naquele casarão onde pode uma pessoa viver sem que ninguém em roda suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hem, que lhe parece?” (p. 211)
O cônego adora a ideia, só teme que Amaro não consiga convencer sua irmã a ser cúmplice do plano. Amaro inventa uma história de que Amélia engravidara de um homem casado, e que era dever de madrinha proteger a afilhada do escândalo maior.
Amaro é feliz na tarefa e tudo é organizado para tristeza de Amélia que chora por perder os banhos e ficar enfiada meses, naquele fim de mundo. Daí a dias partiram Amélia e D. Josefa para a Ricoça e no final da mesma semana, o cônego e S. Joaneira partem para os banhos. Quanto ao bebê, o padre não sabia ao certo o que fazer, provavelmente arranjaria alguém de uma freguesia longe para adotá-lo.
Nesse tempo, Amaro recebeu um recado dizendo que tio Esguelhas andava a procurá-lo desesperadamente, para ministrar a extrema-unção à Totó, que morria. O padre foi até a casa do sineiro e lá encontrou Natário, que contou da morte da paralítica. Passou á tarde lá, consolando o tio Esguelhas.

CAPÍTULO XXI

O cônego Dias pedira muito a Amato que não fosse a Ricoça ao menos nas primeiras semanas para não despertar suspeitas em D. Josefa e na criada. Amaro fica triste e solitário. Todos seus conhecidos estavam fora de Leiria. Só o coadjutor, por quem alimentava antipatia, vinha novamente visitá-lo depois de tanto tempo.
Algumas vezes, farto de solidão, Amaro saía para visitar o Silvério, mas chateava-se com a mania do gordo em colecionar receitas e contar as mesmas anedotas havia quarenta anos. Outras vezes, visitava o Natário, que ainda estava preso à cama, vítima de uma fratura mal tratada. O irritado padre escarrava no chão, coberto de pontas de cigarro. Sua doença levava-o a odiar a saúde dos outros. Amaro tenta distraí-lo contando novidades que tivera dos amigos que estão fora, mas “Natário não se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a conveniência e a amizade; interessavam-no só os seus inimigos, com quem tinha ligações de ódio. Queria saber do escrevente, se já tinha estourado de fome...”(p. 217)
Algumas vezes, ainda, vai Amaro ao cemitério, onde encontra tio Esguelhas a rezar pela Totó. Outras vezes, tenta escrever versos, mas não sai de duas quadras, compensando sua insatisfação com um apetite tremendo.
Enquanto isso, lá na Ricoça a pobre Ameliazita amaldiçoava a sua vida. A velha beata não lhe permitia familiaridades ou sossego, tratando-a com azedume e censura. Amélia sente ódio pelo fruto que carrega no ventre e pelo padre que o fizera.
O santo abade local, Pe. Ferrão passa a visitá-las e vendo seu modo mais maduro e inteligente, Amélia demonstra seus sofrimentos. Aquele era um padre diferente: vivia ali, na sua freguesia distante e pobre de Leiria, apartado das rodas de padres da cidade, preocupado com suas ovelhas, a igreja aberta sempre. Os seus sermões falavam de amor e perdão, e não de pecado, culpa e castigo.
D. Josefa antipatizou com ele, que não sabia como lidar com seus estremecimentos de beata, de alma torturada por terrores tão pequenos e sem sentido. Mas, Amélia, aos poucos, foi sentindo nele uma alma mais santa do que a dos padres que conhecera.
O padre recomenda-lhe confessar-se com ele para aliviar esse desgosto. No dia seguinte, bem cedo, Amélia procura-o e fica duas horas “prostrada diante do pequeno confessionário de pinho.”


CAPÍTULO XXII


Pe. Amaro acabara de jantar e olhava o teto para não ficar vendo o carão chupado do coadjutor que ali estava, imóvel, há meia hora. Chegou Dionísia e o surpreendeu com a notícia de que tinha descoberto João Eduardo. O rapaz estava vivendo perto da Ricoça, como mestre dos filhos do Morgadinho dos Poiais, um furioso anticlerical que tinha terras por ali e ficara sabendo, em Lisboa, da desgraça do rapaz. Resolveu contratá-lo como mestre dos seus filhos, para irritar a padraria.
Amaro foi ver Amélia, com a desculpa de visitar D. Josefa. Chegou á casa amarela com o coração aos saltos. A porta abriu-se. Amélia apareceu muito vermelha, apertando-lhe a mão gravemente. Ficaram calados, como se estivessem separados por um deserto.
Amaro nota que a velha não trata Amélia muito bem e adverte-a, dizendo que tais maneiras não eram agradáveis a Deus. Amaro fica sabendo, e se aborrece das visitas do abade Ferrão. Interrogou Amélia, que confessou haver se confessado com o abade.
Ao despedir-se, tenta beijar Amélia que o evita:
Não, senhor pároco, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que pecamos...Quero morrer na graça de Deus...Que nunca mais se fale em semelhante coisa!...Foi uma desgraça...Acabou-se...Agora o que quero é o sossego de minha alma...” (p. 229)
Parte o padre enraivecido, mas não antes de avisá-la que João Eduardo está por perto e que deve evitar ficar à janela.
Num flash-back, o narrador revela os infortúnios passados de João Eduardo e como ele foi admitido pelo Morgadinho dos Poiais, que costumava ser visitado pelo abade Ferrão. Ambos, o Morgado e o abade Ferrão tomaram afeição a João Eduardo. O abade conclui que seria bom que o escrevente cassasse com Amélia e passa a falar dele à moça com simpatia, defendendo-o sempre. Com tato, procura desmitificar o relacionamento dela com o Amaro. Chegara a demonstrar-lhe que no amor de Amaro havia brutalidade e furor bestial, com explosões momentâneas de desejo comprimido. Ao lado dela, relendo as últimas cartas que Amaro remetera, vai mostrando o quanto há nelas de hipocrisia, de egoísmo, de retórica e de desejo torpe. Aos poucos, a rapariga foi sendo convencida. A ideia de reatar com João Eduardo não lhe parecia má, e dedicava-se a esquecer Amaro.
A princípio, Amaro se irritou com o afastamento de Amélia. Voltou várias vezes à Ricoça, sob o pretexto de confessar D. Josefa, que não se acertava com o abade Ferrão.
Certa vez, enfrentou-o; o abade, no calor da conversa, insinuou que sabia de tudo, e Amaro acuou-o: estaria o abade revelando um segredo de confissão? Ferrão teve de ceder.
Amaro insistiu com Amélia, escreveu-lhe cartas, mas de nada adiantavam seus esforços.
Amaro, sentindo a frieza da moça, muda de técnica, passa a fingir desatenção, indiferença. Afastou-se dela e foi passear uns dias em Vieira, com o cônego Dias.
Tenta mortificá-la com isso, obedecendo a um plano, a um estratagema que pode ser resumido na frase que ouvira do brilhante Pinheiro, premiado em direito e glória de Alcobaça: “Digo como Lamartine: a mulher é igual à sombra: se correis atrás dela, foge-vos; se fugis dela, corre atrás de vós!” (p. 241)
Por esse tempo, o doutor Gouveia passou a frequentar a Ricoça para cuidar de D. Josefa, acabou descobrindo a gravidez de Amélia que já era impossível de disfarçar e prontificou-se para o parto. Mas quem estaria a postos seria Dionísia, que lá aparecia de vez em quando. Por meio dela, Amélia soube da viagem de Amaro e ficou enciumada.
O abade Ferrão caiu doente, de reumatismo, o que deixou o caminho livre para Amaro quando voltou da praia, todo moreno e bem vestido. Fingiu desinteresse por Amélia e o resultado foi positivo - Amélia rende-se de novo aos seus abraços.
Quando o abade se restabeleceu de sua convalescença, voltou elogiando muito a dedicação de João Eduardo a ele durante a doença, mas a moça já demonstrava indecisão quanto ao reatamento com o antigo noivo.

CAPÍTULO XXIII

Amaro recebeu uma carta do cônego, dizendo que a S. Joaneira insistia em voltar para Leiria e perguntando se Amaro já decidira o destino que daria ao fruto. O padre recorreu à Dionísia, que indicou duas mulheres para criar o fruto: uma muito boa, Joana Carreira, mas que morava justamente nos Poiais, ao pé da Ricoça. Outra, a Carlota, morava longe, na Barrosa, mas era tecedeira de anjos: todas as crianças sob sua responsabilidade morriam misteriosamente.
Amaro vai visitar tal mulher, convencendo-se interiormente de que é por mera curiosidade. Fala com Carlota e seu marido, um feio e repugnante anão, que uma parente vai ter uma criança e que talvez eles possam adotá-la.
Amaro continua visitando Amélia, no período da manhã, que é para não encontrar o abade Ferrão. Amélia quer ter o filho e não quer que seja um enjeitado. Chega a propor ao abade Ferrão que aceita o casamento com o escrevente, mas João Eduardo deveria assumir que adotaria o filho, que receberia o nome de Carlos.
Dias depois, Amélia já acha que não deveria trair Amaro, porque “era o papá do seu Carlinhos”. Já sabendo de sua estada ali, João Eduardo passeia por ali, com seus pupilos, montado em uma bela égua. Ela se deixa ver á janela. Amaro se dilacera na indecisão quanto à escolha da ama. Não sabe se a entrega a uma boa ama que a Dionísia conhecia ou se a levava para Carlota, a tecedeira de anjos. Tinha medo de que, crescendo, o menino se parecesse com ele e descobrissem o caso.
O Libaninho vem contar que o chantre tem informações sobre um escândalo com um senhor eclesiástico, decide procurar Carlota, pois elimina de vez problemas futuros. Para ele, o aviso do Libaninho poderia ser traduzido por essa frase: “Não deixes viver quem pode trazer o escândalo! Olha que já se suspeita de ti!” (p. 251) Interiormente, Amaro passa a desejar que a criança nasça morta e que Amélia também pereça, porque, assim, ele “ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranquilo, ocupado da sua igreja, duma vida limpa e lavada como uma página branca!” (p. 252)
A criança nasceu e Dionísia entregou-a, no quintal, a Amaro que, com a criança nos braços, enterneceu-se e hesitou entregá-la à Carlota, mas não havia outro remédio. Amaro sente ternura pelo filho e pede a Carlota que cuide bem dele, que não o deixe morrer.
Amélia pede para ver o filho. Dionísia comunica ao Dr. Gouveia, que pede para ela mentir e distrair a moça. Amélia insiste e passa mal, sente um peso na cabeça e diz que passam faíscas diante de seus olhos. Dr. Gouveia tenta tudo, até sangria. Alguns momentos depois o abade Ferrão foi chamado para ministrar o último sacramente e Amélia sucumbe.

CAPÍTULO XXIV

Ao outro dia desde as sete da manhã, o Pe. Amaro esperava a Dionísia em casa, postado à janela, com os olhos cravados na esquina da rua, sem reparar na chuva miudinha que lhe fustigava a face.” (p. 260) Mas como ele não aparecia, foi para a Sé, batizar o filho do Guedes. Ao voltar, ouviu de Dionísia a notícia da morte de Amélia.
Amaro tombou para os pés da cama como morto também.”
Desesperado, corre à casa de Carlota para tentar salvar a criança. Lá chegando, ouve da mulher: “Nem me fale nisso, que me tem dado um desgosto...Ontem mesmo, duas horas depois de ter chegado...O pobre anjinho começa a fazer-se roxo, e ali me morreu debaixo dos olhos...(...) Na cidade, depois de apear à porta do Cruz, não entrou em casa. Foi direto ao paço do bispo. Tinha agora uma ideia só: era deixar aquela cidade maldita, não ver mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da Sé...” (p. 263) Assim, na tarde do mesmo dia, partiu Amaro para Lisboa, deixando uma carta para o cônego Dias. Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amélia saiu da Ricoça.
João Eduardo “que estava esperando debaixo duma árvore sob seu guarda-chuva, veio juntar-se silenciosamente ao enterro”. (p. 266)

CAPÍTULO XXV

Nos fins de Maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa.” Naquele dia quente de começo de verão, podiam-se ouvir naquele vozerio da multidão palavras como “Comunistas! Versalhes! Petroleiros! Thiers! Crime! Internacional!” (p. 267)
Os termos referem-se ao massacre da Comuna de Paris, ordenado por Adolphe Thiers, chefe do governo francês. Nesse massacre, foram mortos cerca de 25 mil operários em uma semana.

É no meio de tal agitação que se encontram na rua por acaso o cônego Dias e o padre Amaro. Aquele viera a Lisboa por causa de uma demanda por terras; este para conseguir, por meio do conde de Ribamar; uma transferência de Santo Tirso para Vila Franca.

Abraçam-se afetuosamente e falam das últimas de Leiria sem demonstrar qualquer remorso ou constrangimento pelos fatos passados: a S. Joaneira andava adoentada; pilharam o Libaninho fazendo indecências com um sargento; João Eduardo estava tísico; Dionísia abrira uma casa de prostituição e os demais iam todos na mesma.
Durante um instante, recordaram-se com saudade dos bons momentos que haviam vivido juntos em Leiria. Amaro contou ao cônego que chegou a pensar que não conseguiria resistir aos acontecimentos, mas que o tempo tudo curara.
Passaram duas senhoras que atraíram a atenção dos padres. Mais adiante, toparam com o conde de Ribamar e começaram a comentar as notícias dos acontecimentos na França. O conde era da opinião que, sufocada a rebelião, restaurar-se-ia o império na França. Perguntaram-lhe então se Portugal não corria o risco de enfrentar uma revolta daquelas, eivada de ideias de materialismo e República.

O conde riu; (...) caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões: (...).

Tinha-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:
- A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos...E o que vou a dizer não é para lisonjear a Vossas Senhorias; mas enquanto neste país houver sacerdotes respeitáveis como Vossas Senhorias, Portugal há de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a Fé, meus senhores, é a base da ordem!
- Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida – disseram com força os dois sacerdotes.
- Senão, vejam Vossas Senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
- E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas todas, era como o símbolo de agricultura atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas...E todo esse mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a loteria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades; e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
- Vejam – ia dizendo o conde -, vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento...Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta essa certeza gloriosa do seu país – ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopéia sobre o coração, a espada firma, cercado de cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida!”

VI - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O tema principal é a crítica ao celibato clerical: “Ela simpatizava talvez com ele, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural!” (p.61) “E espantado quase daquelas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente em si, pôs-se a pensar com saudade – que se fosse um homem livre seria um marido tão bom! Amorável, delicado, dengueiro, sempre de joelhos, todo de adorações! Como amaria o seu filho, muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! A ideia daquelas felicidades inacessíveis, os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas. Amaldiçoou, num desespero, “a pega da marquesa que o fizera padre”, e o bispo que o confirmara!” (p. 62)
Paralelamente ao tema central, outros temas percorrem a obra como a denúncia da contradição entre o que pregam e o que fazem os padres: “E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escola e para o sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquilo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se à velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos é fazer costas!” (p.195)
Outra denúncia que se faz, de ordem sócio-política é a contraposição da pobreza à vida regalada dos padres: “– Então que diabo querias tu que eles comessem? Exclamou o cônego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão. Querias que comessem peru? Cada um como quem é!” (p. 64)
Outros temas que se fazem presente são:
- A maledicência e a bisbilhotice da vida alheia;
- A futilidade e superficialidade no relacionamento social;
- O vazio das pessoas do interior, levando-as a vigiar, fiscalizar e comentar a vida dos outros;
- O desejo de poder, de força controladora através da religião, etc.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

VIAGENS NA MINHA TERRA (1846), ALMEIDA GARRETT


I – INTRODUÇÃO:


A obra fundamenta-se numa viagem realmente efetuada por Garrett em 1843, a convite do político Passos Manuel, morador de Santarém. Divide-se em 49 capítulos: os dez primeiros narram as peripécias da viagem desde Lisboa até aquela cidade, de vapor, a cavalo, de carruagem. De permeio, o narrador vai tecendo comentários e divagações acerca de vários assuntos associados com o que vê e pensa durante o trajeto: a riqueza, o progresso, a literatura, a política, a modéstia, a guerra, o clero, o amor etc. Chegado a Santarém, o escritor ouve do companheiro de viagem a narração dos amores de Joaninha, “a menina dos rouxinóis”, e Carlos, entremeada de reflexões do herói da viagem.
Os jovens enamoram-se, mas Carlos vive dilacerado pelo amor que ainda julga sentir por Georgina, que ficara na Inglaterra. Envolve-se na trama Frei Dinis, que assassinara o marido da amante, tomara hábito e era o verdadeiro pai de Carlos. Com a vinda de Georgina a Santarém, dá-se o reconhecimento e o perdão, mas Joaninha morre. Finalmente, Georgina entra para o convento e torna-se abadessa, na Inglaterra; Carlos “é barão, e vai ser deputado qualquer dia”.

MOISÉS, Massaud. “Literatura portuguesa”, São Paulo: Cultrix. P. 132.

II – FOCO NARRATIVO:

Em “Viagens na minha terra”, Garrett, ao contrário da maioria dos romancistas, não lançou mão de nenhuma máscara, nenhum narrador fingido, para conduzir o livro em seu lugar. Autor, Garrett assume também o papel de narrador. Isto nos ministra informações importantes sobre sua biografia, e dá ao livro um caráter de depoimento e observação histórica. Quando Garrett usa a primeira pessoa, “eu”, espreguiçar-se em considerações cheias de humor, não longe de uma atmosfera de prosa lírica. Quando usa a terceira pessoa, “ele”, e se esquece um pouco de si, passa ao tom mais grave, mais revelador, mais dramático, que ocorre, sobretudo, quando nos conta a história dos amores de Carlos e Joaninha, ou quando fala do cenário da guerra civil em Portugal.


III – CARACTERÍSTICAS:

Segundo os críticos Antonio José Saraiva e Oscar Lopes, “neste livro – misto de diário, literatura de viagens, reportagem e ficção, o escritor português narra a história de um rapaz (Carlos) que se apaixona de um modo sucessivo e intenso por várias mulheres e se sente incapaz de estancar este constante fluir da vida amorosa, de fixar e estabilizar a sua personalidade afetiva. (...) Ninguém – continuam os críticos -, antes de Garrett, na ficção portuguesa, entrara tão sutilmente na análise do que há de convencional, fictício ou autêntico na vida sentimental, na confusão da verdade e da mentira, de vida atual e de sobrevivência que é o todo afetivo de cada indivíduo; e ninguém pôs em termos agudos o problema do desgarrar da personalidade na mudança de tudo, ligando-o, ao mesmo tempo, ao ceticismo superveniente a uma causa generosa que degenera: Carlos descrê de um amor verdadeiro, ao mesmo tempo que descrê da revolução...”

O romance “Viagens na minha terra” foi composto sob a forma de folhetim, bem ao gosto romântico da época. Sua narrativa, apesar de grande base descritiva, dos adjetivos em excesso, é saborosa, envolvente e apresenta temas essencialmente românticos como: natureza ativa e confessional; heroísmo; nacionalismo; lirismo amoroso e morte.
Há em Garrett um observador minucioso de fatos, excluindo-se o tom melodramático tornando-se um antecipador de Eça de Queirós. O autor usa um estilo extremamente vivo, com giros e expressões coloquiais – um estilo que se molda ao pensamento no seu fazer-se, apto a sugerir leves emoções, associações fugidias, estados de devaneio, os meandros duma nova sensibilidade.
Nesse romance, Garrett não está concentrado em narrar uma história, mas, ao contrário, parece estar-se afastando da história, para contá-la, supõe-se, mais tarde. Esta técnica de suspensão da narrativa, em favor de comentários e opiniões variados, sob o ritmo da emoção crítica e da fineza intelectual, denomina-se digressão.
Desse modo, relata assuntos sobre economia, geografia, política, literatura, arquitetura, justiça, filosofia, religião, história ou costumes sociais, sem, no entanto, tirar a unidade do livro. Pois eles convergem para dois tipos de emoção alternantes: a da observação terna e enlevada, e a do ceticismo cultural, tratado geralmente com humor crítico. É com ternura que Garrett se lembra de algumas paisagens de sua terra, das velhas histórias ligadas ao folclore ou que ele nos fala de poetas prediletos, como Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe e outros. Mas é com pessimismo político que ele vê as últimas gerações de portugueses, envolvidos pela mentalidade lucrativista.

Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crônicas está escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais precioso de Portugal (...) Mas esta Nínive não foi destruída, esta Pompéia não foi submergida por nenhuma catástrofe grandiosa. O povo, de cuja história ela é o livro, ainda existe; mas esse povo caiu em infância, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com elas.” (CAP. XXIX)

Neste fragmento observa-se que Garrett deplora a deformação da arquitetura histórica de Portugal e critica a condição cultural portuguesa, incapaz de compreender sua tradição e sua história.
Garrett, que se embriaga com os primores estéticos da antiga arquitetura portuguesa, defende a herança do passado e se revolta contra os novos “barões”, homens que agora representam a mentalidade burguesa e insensível.
É importante ressaltar que Garrett também representa essa cultura burguesa e progressista cujos excessos ele condena. O autor foi liberal, participou da luta pela democracia, gostava do progresso e abraçava os ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), porém como homem moderno, Garrett desejava que Portugal acompanhasse os demais países da Europa e não se furtasse a evolução. Assim, como homem sensível e patriota, demonstra um apego ao passado de sua terra natal, principalmente ao patrimônio artístico e cultural, ameaçado pelo crescimento do capitalismo e da burguesia que acabou transformando os valores patrimoniais.
Outra característica importante do livro está em que o narrador nos conta duas histórias, interligadas pelas circunstâncias e pelo espaço físico. Uma história refere-se a dos amores de Carlos e Joaninha. Outra é a da própria viagem que o narrador faz de Lisboa a Santarém de comboio, com a intenção de conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e assim saudar do alto cume a mais histórica e monumental das vilas de Portugal.
Há que incluir ainda um pano-de-fundo histórico, que é a guerra civil que abalou Portugal, e que dividiu os contendores em realistas e constitucionalistas. Os primeiros, conservadores, queriam a monarquia absoluta. Os segundos, liberais, desejavam uma política nacional pautada pelos ideais da Revolução Francesa, e, com isso, uma monarquia mais branda.

IV – PERSONAGENS:

Personagens Principais: Joaninha e Carlos, protagonistas da história de amor.
Personagens Secundárias: A avó de Joaninha – D. Francisca, Frei Dinis, Georgina, Laura e Júlia.

V – AS TRÊS HISTÓRIAS ENTRELAÇADAS:

“Viagens na Minha Terra” é um livro difícil de enquadrar em gênero literário, pelo hibridismo que apresenta.

O que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros, é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão. Acabemos aqui o capítulo em forma de prólogo e a matéria do meu conto para o seguinte.” (CAP. X)

Garrett narra a partir do décimo capítulo, a história dos amores de Carlos e Joaninha, começados e terminados em Santarém, lugar que o narrador escolheu como destino final de sua viagem. Garrett ficou sabendo desse rumoroso caso de amor através de um companheiro de viagem. Conta, portanto, o que lhe contaram: não é testemunha direta dos acontecimentos. Mas, como alguns dos protagonistas da história ainda vivessem na cidade, Garrett, na volta, ousou entrar em contato com eles. Por outro lado, essa história ocorreu em meio a uma guerra em que irmãos lutavam contra irmãos, guerra que Garrett havia conhecido bem de perto. Cruzam-se, portanto, três histórias: a de Garrett, em sua viagem a Santarém; a de Carlos e Joaninha, e a da guerra civil, que envolveu a todos.
No momento em que Garrett resolve contar suas impressões de viagem, ou seja, quando ele se põe a escrever seu romance, todos estes acontecimentos já tinham terminado, e ele então vai evocá-los pela memória. Mas muitos comentários trazidos à baila pela lembrança são recriados, ampliados pela imaginação e pelo bom gosto do escritor.

A VIAGEM DE GARRETT:

Garrett afirma que há muito tempo sentia desejo de conhecer “as ricas várzeas desse Ribatejo”, coisa que a mexeriquice de um jornal entendeu como viagem política. Partiu em dezessete de julho de 1843. Como o tempo lhe sobra, vai fazendo também uma viagem por dentro de si mesmo, uma viagem a suas recordações, suscitadas por tudo o que está vendo.

Vê-se, portanto, que as “Viagens na minha terra” poderiam ser interpretadas como uma costura do que vai “lá fora” com o que desperta “cá dentro”. O que vai “lá fora”, e é visto com o olhar do corpo, é o panorama que se descortina Tejo acima, as vilas, as pessoas. O que vai “cá dentro”, e é visto com o olhar da memória, constituiria a viagem imaginária de Garrett. E assim, o fato de fumar a bordo lhe lembra o poeta Lord Byron; as pessoas no navio lhe inspiram um comentário sobre os portugueses, e assim a digressão vai tecendo o livro. Em seguida, passa ao argumento de que a marcha da civilização obedece a dois impulsos, o do espiritualismo, calcado em D. Quixote, e o do materialismo, em Sancho Pança. A viagem, assim, vai simbolizando ironicamente a marcha do progresso social.

Somos chegados ao triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés. O sol arde como ainda não ardeu este ano.
Um imenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos espera naquele descampado africano. É forçoso optar entre os dois martírios da caleça ou do macho. Do mal o menos...Seja este.” (CAP. II)

Chega depois a Azambuja, onde lhe servem uma horrível limonada. Daí até o vale de Santarém, a viagem se fará no lombo de uma enfezada mulinha. Já no caminho do Cartaxo, uma das povoações mais bonitas de Portugal, o autor pensa em Camões e no defeito de seu poema épico e reflete sobre os males da guerra civil:

Toda guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.”

Envolvido com estas ideias, chega à ponta de Asseca:

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra: o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos. Disto é que não tem Paris, nem França, nem terra alguma do Ocidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.” (CAP. IX)


No vale de Santarém, o autor surpreende uma habitação antiga, com janela larga e baixa. Lá, imagina “um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão – vestido de branco...”, de olhos...pretos? Uma voz – que é a voz de um companheiro de viagem – corrige para “verdes”. Dessa forma que Garrett entrou em contato pela primeira vez com a história da “menina dos rouxinóis”.

A história da “menina dos rouxinóis”, a Joaninha e seu amor por Carlos, é datada por volta de 1832, e o narrador começa a relatar efetivamente no Capítulo II.
No Capítulo III, Garrett faz insinuante observação sobre os frades, mal vistos pela apressada opinião moderna.
No Capítulo XXVII, os viajantes chegam a Santarém, passam pelo convento de S. Francisco, cujo último guardião fora Frei Dinis. Descreve-se a arquitetura do lugar e a chegada a Alcáçova lhe motiva a seguinte observação:

Que espantosa e desgraciosa confusão de entulhos, de pedras, de montes de terra e caliça! Não há ruas, não há caminhos, é um labirinto de ruínas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é ao pé mesmo da famosa e histórica igreja de Santa Maria de Alcáçova. Há de custar a achar em tanta confusão. (...) É impossível. A obra tinha sido danificada por constantes reparos e modificações.” (CAPS. XXVII-XXVIII)

Na mesma penúria está o palácio de Afonso Henriques.
O autor lembra a história milagrosa do século VII, a de Santa Iria, raptada e assassinada por um cavaleiro que se hospedara em sua casa. No Capítulo XXXI, novas andanças em Santarém e novas decepções. No capítulo seguinte, o narrador retoma a história de Joaninha. Sua decisão de voltar para Lisboa dá-se no fim do Capítulo XLI. Antes, porém, visita o túmulo de D. Fernando: “Ó nação de bárbaros! Ó maldito povo de iconoclastas que é este!”
É na sua volta, já no Capítulo XLIII, que o narrador se vai encontrar com os protagonistas remanescentes do drama de Carlos e Joaninha e fica sabendo dos desencontros amorosos, que abrange os últimos capítulos do romance.

A GUERRA CIVIL:

Em Portugal, na primeira metade do século XIX, houve constantes lutas entre absolutistas e constitucionalistas, intensificadas depois da morte de D. João VI.

D. Pedro I, filho deste, imperador do Brasil e herdeiro da coroa portuguesa, representando interesses liberais ingleses abdicou ao trono de Portugal em favor de sua filha, D. Maria II, e outorgou a Portugal uma constituição ainda monárquica, mas de caráter liberalizante. É a oportunidade para que voltem ao poder, vários dos constitucionalistas que se haviam exilado em Inglaterra e França, quando do golpe de estado que acabara com a constituição do Porto, de 1822. Garrett, como se sabe, é um deles. Mas o espírito conservador, influenciado pela política de Viena, ainda é muito forte à altura em que D. Pedro I outorga sua carta constitucional. Esse espírito, intolerante e violento, se inspira na figura de D. Miguel, irmão de D. Pedro, a quem D. Pedro confiara o governo e a filha em casamento. Não contente de estar no poder, D. Miguel quer ser o rei de Portugal. Apoiado por suas facções, D. Miguel é aclamado rei em maio de 1828, e promove intensa perseguição a seus inimigos políticos, os democratas, os constitucionalistas, os liberais, enfim, todos os que representavam influência de ideologia francesa ou inglesa. É natural, pois, que muitos destes se exilassem, uma boa parte pela segunda vez. Mas a resistência contra D. Miguel vai crescendo, a partir de seu próprio irmão, que, já em 1832, vai à ilha Terceira reunir-se aos revoltosos.

Iniciou-se então uma guerra civil que duraram quatro anos, e que só terminaria com as batalhas de Almoster (fevereiro 1834) e Asseiceira (maio de 1834). Vencem, finalmente, os constitucionalistas, e Garrett, como vitorioso, terá importantes tarefas de reconstrução cultural e moral de seu país.


A HISTÓRIA DE CARLOS E JOANINHA:

Já sabemos que, quando o imaginário de Garrett começava a desenhar uma moça de olhos pretos, na habitação antiga, foi no ato corrigido pela voz do companheiro de viagem, que lhe disse serem verdes os tais olhos e que lhe passa a contar á história que envolvia a moça e aquela casa.
O caso se passara alguns anos de Garrett chegado lá e o narrador vai passá-lo aos leitores interpoladamente, ou seja, espaçando os episódios através de dezenas de digressões que vai fazendo.
A primeira cena de relevo é a de uma velha cega, trabalhando à porta da casa. A linha se embaraça, e a velha chama Joaninha, sua neta.

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia por dom natural e por uma admirável simetria de proporções toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas do mundo.” (CAP. XII)

Em seguida, insere na narrativa outra personagem: Frei Dinis.
Esse era um homem calado, que visitava a velha todas as sextas-feiras. Das falas entre Dinis e a velha, ficamos sabemos que esta tinha um parente que estava lutando do lado dos constitucionalistas, e que o frade parecia detestar: “mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno”. O frade é um homem à antiga, um conservador que vê no liberalismo a ruína de Portugal. Chamava-se Dinis de Ataíde, fora militar e homem de cultura, depois, repentinamente, meteu-se no mosteiro de São Francisco, não sem antes doar suas posses à velha. E agora é uma figura sombria, que só abre a boca para fazer a velha chorar.
Esta velha é uma senhora cega D. Francisca Joana, que além de ser a avó de Joaninha, também é avó de Carlos, o rapaz que sumira para ingressar nas tropas liberais.

A neta era Joaninha, filha única de seu único filho varão, e já órfã de pai e mãe (...) O neto, órfão também, nascera póstumo, e custara a vida a sua mãe, filha querida e predileta da velha”.

Carlos partira em 1830 para Inglaterra, depois de discutir com o frade, não só porque divergia dele e o achava prepotente, mas porque via nele alguma coisa terrível, ligada ao passado de sua família. A velha ficara cega de tanto chorar: não só pelo neto, mas pelo mistério familiar que aos leitores ainda não foi apresentado. E agora as perspectivas da guerra mostram que Carlos pode perfeitamente estar de volta, no Porto, fazendo parte do pequeno exército de D. Pedro. O frade finge que não gosta de Carlos. Joaninha põe uma cadeira, o frade, exausto, senta e entrega à moça uma carta de Carlos, vinda pelo cônsul da França. A carta realmente era para Joaninha. Para o velho e a velha, nenhuma palavra.

A RETIRADA DE 11 DE OUTUBRO:

Os constitucionalistas vencem. Os realistas fogem, com morte e desolação por toda parte, tendo apenas como abrigo para feridos a casa do vale:

Joaninha pensava os feridos, velava os enfermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia era tão senhora, tinha tão grave gentileza, um donaire tão nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-na ainda mais.”

Um dia, adormecida no bosque, sob o canto dos rouxinóis, Joaninha desperta sob a presença de um oficial.

É Carlos. Juram amor mútuo, mas Carlos lhe pede para nada contar em casa.

A narrativa dessa história interrompe-se no Capítulo XV e só será retomada no Capítulo XXXII. Começa a batalha final, e Carlos, ferido, é recolhido no mosteiro de São Francisco, dirigido por Frei Dinis. Uma linda mulher, de feições não lusitanas, está a tratar dele, e ele, ainda adormecido, exclama: “Oh Georgina, Georgina, I love you still!”
Georgina era a namorada inglesa de Carlos. Conseguira, com muito esforço, chegar ao front e recolher seu corpo quase morto, com a ajuda de frei Dinis. Georgina pressente que Carlos não mais lhe tem amor. E lhe diz isso claramente, coisa que o herói não aceita.
Georgina, que contara tudo ao frade, do frade ficara sabendo sobre Joaninha.

Admirável beleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor. Não, por Deus! O monstro amava-as a ambas: está tudo dito. E elas, que o sabiam; elas, que o sentiam e que o julgavam digno de mil mortes, elas rivalizavam de cuidados e de ânsia pata o salvarem.” (CAP. XXXV)

Num momento dessa conversa, Georgina lembra a Carlos a bondade e a providência de Frei Dinis, que o salvara. Carlos não resiste:

“ – Oh! Aqui anda ele, bem o vejo, aqui anda o gênio mau da minha família. Maldito sejas tu, frade!”

Frei Dinis, que estava numa alcova ao lado, resolve entrar e responder. Ainda mais que Carlos o acusava agora de ter matado seu pai, cegado sua avó, e ter ainda coberto de infâmia a família inteira.

“ – Padre, padre! E quem assassinou meu pai, quem cegou minha avó, e quem cobriu de infâmia a minha...a toda a minha família?
- Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! Mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! Assim, meu Deus! Às mãos dele, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...(...)
O frade disse enfim com uma voz apenas perceptível de tímida e de fraca:
- Carlos, meu Carlos, perdoa também...oh! Perdoa à memória de tua desgraçada mãe!
O mancebo saltou convulsamente como o cadáver na pilha galvânica. Em pé, hirto, horrível, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
- Demônio! Demônio encarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem inda agora, monstro: só às minhas mãos deves morrer. E hás de!
Lançou-se a um enorme velador de pau-santo que lhe jazia ao pé, maça terrível de Hércules, e bastante a fender crânios de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! De ambas as mãos a levava no ar; e o velho estendeu para ele a cabeça como na ânsia de morrer...Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consumar-se...
Dous gritos agudíssimos, dous gritos de desespero e de terror, daqueles que só saem da boca do homem quando suspenso entre a morte e a vida – soaram repentinamente no aposento; uma velha decrépita e meio morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezesseis anos, estava diante de Carlos, e ambas cobriam com seus débeis corpos a frágil e extenuada figura da sua vítima.
- Filho, meu filho! – arrancou a velha, com estertor, do peito, - é teu pai, meu filho. Este homem é teu pai, Carlos.” (CAP. XXXV)

Como se pode observar, nesse capítulo encontra-se o clímax do drama de Carlos e, até certo ponto, de Joaninha. Esse clímax se dá com a revelação de que Frei Dinis é de fato o pai de Carlos. No início, foi revelado que a velha cega era avó de Joaninha por parte masculina: Joaninha nascera do casamento do único filho varão de D. Francisca. E Carlos era neto dela por parte feminina. Quanto a seu pai, Carlos o supunha assassinado pelo frade Dinis. Só não sabia exatamente por quê. E eis que agora tudo se esclarecerá com a revelação, de parte de D. Francisca, e confirmada pelo frade Dinis, de que Carlos era na verdade o filho deste.
Na convulsão em que se achava, ao precipitar-se para matar o frade, e na comoção ainda maior de quem percebe subitamente que ia matar seu próprio pai, Carlos perde os sentidos, depois de lhe ter estourado o ferimento no pescoço. Ao acordar, ouve da boca da avó que sua mãe havia amado aquele homem que lá estava, Dinis. Amores antigos e adulterinos. Com ele concebera um filho. Ao saber dos amores da esposa, seu marido tramou, junto com o cunhado, uma vingança definitiva contra o frade. Ambos o esperaram na escuridão para matá-lo. Saiu-se bem o frade, que, ao defender-se, matou aos dois que o assaltavam, sem saber ainda, por causa da escuridão, a quem tinha matado. Só depois ficou sabendo, e então, amaldiçoou-se. Sua amante, mãe de Carlos, não lhe perdoou esse crime, nem mesmo antes de morrer. E o frade o relatou à avó de Carlos e Joaninha, para mortificar-se mais ainda. A partir daí a velha começou a verter sem parar as lágrimas que a levariam à cegueira. Dado seu crime, e seu engano, o assassino resolve desposar a vida religiosa, mas acompanhando de perto a vida de Joaninha e Carlos, sobretudo deste último, seu filho. Durante todo esse tempo, imaginara ele que Carlos jamais saberia da verdade. Mas, exatamente por não saber, é que Carlos imagina que o frade é que havia matado seu pai, quando na verdade seu pai era o assassino do marido de sua mãe, assassino também de seu tio, pai de Joaninha. A tragédia, portanto, liga aos dois primos. O sofrimento destes, contudo, por uma razão ou por outra, era bem menos agudo que o sofrimento de D. Francisca e do frade. Estes purgavam um remorso intenso, que a religiosidade só fazia piorar.

“ – Ambos se juntaram para me assassinar, e me acometeram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite, escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida à custa da deles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti, quando pegando, um a um, nesses cadáveres para os lançar ao rio, conheci as minhas vítimas...Era inverno, a cheia ia de vale a monte: quando abateu e se acharam os corpos já meios desfeitos, ninguém conheceu a morte de que morreram; passaram por se terem afogado. Ninguém mais soube a verdade senão eu e tua infeliz mãe, a quem o disse para meu castigo; a quem vi morrer de pesar e de remorsos; que expirou nos meus braços chorando por ele, e maldiziendo-me a mim. Não seria bastante castigo, meu filho? Não foi, não. Este burel que há tantos anos me roça no corpo, estes cilícios que no desfazem; os jejuns, as vigílias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua ira não me deixa, a sua cólera vai até a sepultura sobre mim...Se me perseguirá além dela!...(...)
- Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, ó meu Deus!
Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circunstâncias daquela morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sair sangue e água pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por esta derradeira expiação. Deus não o quis. Aqui estou penitente a teus pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio...o algoz e a desonra de tua família toda. Faze de mim como for da tua vontade. Sou teu pai...
- Meu pai!...Misericórdia, meu Deus!
- Misericórdia, filho, e perdão para teu pai! (...)
Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no coração, que ou lhe quebrara o sentimento ou lho não deixava expressar. Saiu da cela fazendo sinal que vinha logo: mas esperaram-no em vão...Não tornou.
Daí a três dias, veio uma carta dele, de junto de Évora, onde estava com o exército constitucionalista.” (CAP. XXXVI)

VI - CONCLUSÃO:

Em geral, as tragédias clássicas terminam com uma solução violenta do destino e Garrett tinha muita sensibilidade para o gênero trágico, coisa que mostrou não apenas neste romance, mas também no drama “Frei Luís de Sousa”. Faz parte do decoro de uma peça trágica que seus personagens nunca mais continuem vivendo como tinham vivido. Garrett, portanto, terá de dar a seu enredo uma solução que não pareça banal, exatamente para realçar os efeitos do drama que nos acaba de contar. É preciso que os protagonistas desapareçam, ou mudem completamente de vida.
Carlos deixara uma carta para sua prima Joaninha. É uma carta de despedida definitiva, que lançará também alguma luz sobre a psicologia dessa personagem algo estranha, que devota sincero amor a duas mulheres simultaneamente, e que se afasta do pai tão logo o reconhece. Carlos, enfim, não quis recompor a vida com os seus.
Garrett acena com uma explicação cabível. É que os acontecimentos haviam rompido algo no coração de Carlos. Haviam feito que ele não apenas quisesse esquecê-lo totalmente, mas também quisesse converter sua vida em outra coisa, bem contrária ao que fora até então, por exemplo, tornar-se barão (novamente Garrett utiliza a oposição entre frades, que representam o Portugal antigo, e barões, que o representam o capitalismo moderno e sem escrúpulos).

Homem político, falar muito na Pátria com quem não me importo, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e – quem sabe – talvez darei por fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outra”.

Em sua longa carta à prima, em que procura justificar-se, Carlos faz uma reflexão em torno daquilo que tinha sido seu passado recente, e em nome disso quer obter o perdão da prima. Garrett queria encerrar seu romance a parecer convincente e não deixar falhas na intriga. Se Carlos dissesse que simplesmente não queria mais ver ninguém, já estaria plenamente justificado. Mas não. Carlos vai contar o que lhe ocorreu na Inglaterra, e aí é que as coisas parecem um pouco exageradas, quer em relação aos fatos, quer em relação aos meandros de seu mundo interior.
O herói conta a sua prima que conhecera na Inglaterra três formosas irmãs, a quem se afeiçoara e a quem visitava com frequência: Laura, Júlia e Georgina. E eis que Carlos se apaixona pela primeira. Paixão impossível, porque esta, contra a vontade, já estava prometida a outro. E o consolo de Júlia lhe serviu tanto e foi de tal monta que logo depois ele se apaixona por esta. Júlia, porém, cai doente e logo morre. O desespero de Carlos só poderia consolar-se com a última das irmãs, Georgina, a mesma que enfrenta todas as dificuldades da guerra para rever o amante ferido no campo de batalha. A separação entre Carlos e Georgina se dera quando da necessidade imperiosa que teve ele de partir para Portugal, engrossando as tropas liberais de D. Pedro I.
Durante sua ausência, Carlos não deixava de escrever à nova amada. Mas – dirá depois Georgina – estas cartas eram cada vez mais frias. E de fato, depois de conversar com Frei Dinis, e de saber sobre Joaninha, Georgina tem certeza de que Carlos ama na verdade a própria prima. Carlos chega, enfim, à conclusão de que ele mesmo não passa de um monstro moral, um homem que não consegue amar a apenas uma mulher. Não entende seu próprio defeito, e por isso resolve mudar de vida, para pior, e ausentar-se de vez.
Na volta para Lisboa, Garrett quis entrar em contato mais íntimo com o ambiente em que haviam ocorrido as coisas. Deixou seus companheiros de viagem partir e aproximou-se. Para sua surpresa, encontrou ainda lá o frade e a velha cega. Não mais como eram antes. O frade estava muito velho e abatido. E a velha, disse o frade, estava à morte. Garrett insinuou-se junto ao frade, e conseguiu que este lhe mostrasse a carta que Carlos havia mandado a Joaninha, a mesma em que este se tenta justificar á prima. Garrett leu-a toda. Depois, perguntou por Joaninha e por Georgina.

Joaninha enlouqueceu e morreu. Georgina é abadessa de um convento em Inglaterra”, respondeu o frade.

O narrador se despede, e procura reencontrar seus companheiros de viagem.
A obra “Viagens na minha terra” retrata a conexão entre a vida íntima e a vida pública do herói, entre o seu cansaço sentimental e a sua descrença política. Além de valer-se pela análise da situação política e social do país e pela simbologia que Frei Dinis e Carlos representam: no primeiro é visível o que ainda restava de positivo e negativo do Portugal velho, absolutista; o segundo representa, até certo ponto, o espírito renovador e liberal. No entanto, o fracasso de Carlos é em grande parte o fracasso do país que acabava de sair da guerra civil entre miguelistas e liberais e que dava os primeiros passos duma vivência social e política em moldes modernos.