segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PROCURA DA POESIA, A ROSA DO POVO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo.
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.



Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à
linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não perca tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, e algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.



Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não aludes o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.



Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?



Repara
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

“Procura da poesia” é um poema fundamental na obra de Drummond e no Modernismo brasileiro. Trata-se de um metapoema, metalinguagem, eixo fundamental do questionamento do poeta sobre a própria poesia.
O poema apresenta um eu lírico que se dirige, em tom professoral, próprio de quem já refletiu muito sobre o assunto, a um hipotético interlocutor, que escreve (ou pretende escrever) poesia sem refletir sobre o “fazer poético” e sempre empregando verbos no imperativo, na segunda pessoa do singular (“não faças”, “não cantes”, “penetra”, “convive”, “espera”, “não forces”, “não colhas”, “não adules”, “repara”).
O interlocutor, no entanto, não tem voz, não contra-argumenta nem aceita.
O eu lírico defende o princípio de que a poesia deva ser impessoal, indiferente às realidades individuais e aos fatos particulares da vida, porque é universal. A poesia não deve ser feita de maneira ingênua, precipitada.
O eu lírico, assim, nos ensina que não se faz literatura apenas falando sobre acontecimentos ou resgatando subjetivamente a infância, ideias, sentimentos ou idealizando: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”, mas pode vir a ser. Para isso, é preciso penetrar “surdamente no reino das palavras”, “lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Ainda não são poemas, porque “estão paralisados”, “sós e mudos, em estado de dicionário”, logo, Drummond não está propondo uma poesia alheia aos fatos; ele apenas reitera o trabalho com a palavra, matéria-prima do poeta.
Dessa forma, as palavras em estado de dicionário, ou seja, fora de contexto, têm apenas o sentido denotativo, frio e impessoal. Se contemplarmos as palavras atentamente, de perto, perceberemos que cada uma tem mil faces secretas (conotação) sob a face neutra (denotação).
Pode-se dividir o poema em duas partes: a primeira, marcada pelos imperativos negativos, representa tudo o que não deve ser feito por quem pretende escrever poesia. A segunda, marcada pelos imperativos afirmativos, realça o trabalho com a matéria-prima do poeta: a palavra.
Num texto que exalta justamente a palavra, compete ao leitor entender o seu significado no verso e as imagens empregadas pelo poeta; buscar a sua etimologia e a compreensão de seu sentido conotativo. Pois é exatamente sobre a palavra e sua carga significativa que reflete Drummond em seu poema, como por exemplo:
- “infenso à efusão lírica”: infenso significa “adverso, contrário”; efusão significa “demonstração clara e sincera dos sentimentos íntimos”; o verso opõe corpo e sentimento.
- “bile”: é o mesmo que “bílis” líquido esverdeado e amargo segregado pelo fígado; em sentido figurado, significa “mau humor, azedume”.
- “elide”: forma do verbo “elidir”, que significa “suprimir, eliminar”; o verso afirma que a poesia elimina as relações entre sujeito e objeto.
- “Teu iate de marfim...esqueletos de família”: nesses versos, temos uma enumeração de posses (observe a força dos pronomes possessivos), numa sequência que abrange desde o objeto mais idealizado (iate de marfim) até o mais material (esqueletos de família); “mazurca” é uma dança polonesa de salão; “abusão” é o mesmo que “erro, ilusão”.
- “ermas”: abandonadas; no verso, significa que as palavras estão sem melodia e conceito.

“Procura da poesia” é uma poesia que fala de poesia. O fazer poético é penetração no remo das palavras, descoberta de suas faces secretas, que se escondem sob a face neutra, aparente, usual.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A FLOR E A NÁUSEA, ROSA DO POVO, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.



Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.



Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.



Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erra, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.



Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de l9l8 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.



Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.



Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

O poema apresenta o tema do eu-retorcido. Nele o poeta funde o tempo existencial e o tempo social. O eu lírico insere-se nos erros do mundo e acaba sendo levado à náusea, que é reflexo de sua indignação, de sua necessidade de expelir o mundo circundante que o incomoda.
Esses versos remetem ao reflexo da época dos totalitarismos de esquerda e de direita, projeção dos anseios de superação dos traumas e horrores da Segunda Grande Guerra, animado pelo sentido de resistência à Ditadura Vargas, no plano interno.
“Flor e a Náusea”, dessa forma, sartreanamente, contrapõe a consciência político-social à dolorosa percepção do amesquinhamento do homem, da crise do “homus urbanus” na década de 1940.
Nota-se no poema um eu lírico mergulhado num mundo sufocante, em que tudo é igualado á mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo. Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil, insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil, marcado por "fezes, maus poemas, alucinações".
No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial, que pode ser representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro, o poeta vislumbra uma saída. Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação, o poeta já deu sinais claros no texto de que não é capaz disso. Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança, ela de fato está para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico. É o nascimento da flor, empregado em sentido metafórico, conotativo, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o término da injustiça, no Nazifascismo, da guerra; enfim, marca o início de uma vida que se justifica plenamente, sem a náusea existencial.
Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra, acaba por explicar o seu título. Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a flor é a própria poesia que nasce contra a vontade do tempo de misérias e repressões; indica o desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta; além, de símbolo de esperança na poesia e no socialismo. A flor também é fruto da necessidade de resistência do homem diante do tempo sujo.
A expressão "do povo" pode estar ligada a uma tendência esquerdista, socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica ao universo capitalista na primeira ("Melancolias, mercadorias espreitam-me.") e terceira estrofes ("Sob a pele das palavras há cifras e códigos."). O novo mundo, portanto, teria características socialistas. Esse sentido de solidariedade, do poeta que se propõe de “mãos dadas”, o desejo e a necessidade de comunicação, de fazer da poesia arma de combate e resistência, projetam-se na construção eloquente e indignada de diversos poemas, numa espécie de “condoreirismo” moderno, exorcizado da “demagogia” pela consciência crítica e artística de Drummond.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A ROSA DO POVO, CONSIDERAÇÃO DO POEMA, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.



Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.



Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
-Há mortos? Há mercados? Há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.



Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! Esperança do mar negro.



Essa viagem é mortal, e começá-la
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.



Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.



Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.



Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel...Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

O poema é metalinguístico. O eu lírico se define como “Poeta do finito e da matéria ...”
E, exige liberdade para as palavras (ruptura do formalismo anterior ao Modernismo).
O poema todo funciona como um caminho e parece conter um movimento contínuo que se assemelha à sua própria construção. Há também função lúdica no poema. A viagem pelo poema parece mortal, porque ele joga toda a sua vida nele, mas é a única que realiza o poeta.
A segunda estrofe retoma de maneira intertextual o poema “No meio do caminho” e também homenageia poetas que Drummond admira. São exaltadas as elegias de Vinícius e a poesia visionária de Murilo Mendes. Entre os poetas de cunho social destacam-se o chileno Pablo Neruda e o russo Maiakovski, de quem o eu lírico se despede. A referência a Apollinaire indica a vocação para a linguagem revolucionária e moderna de Drummond. A opção da poesia social pode ser percebida nos dois últimos versos.
A escolha da poesia como forma de expressão do "salto participante" demonstra a crença do poeta em sua eficácia, a despeito de se impor a necessidade, para que possa servir aos propósitos da nova empresa de se "reformar" o próprio conceito da poesia. Ou melhor, o poeta aventura-se a explorar novas possibilidades no campo da expressão poética. É a passagem da "contemplação" á "ação"; a procura deliberada do "êxito" pela "utilização" da "linguagem instrumento". Esse é o conflito que aflora e persiste como mola impulsionadora, no momento da participação da palavra poética:

Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Trata-se da consciência do risco, da firme determinação de empreender a "viagem" e ser fiel aos "problemas fundamentais do indivíduo e da coletividade", como afirma nos belos versos finais do poema e definem os objetivos do projeto de participação:

......................................Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.





sábado, 23 de julho de 2011

A ROSA DO POVO (1945) CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: INTRODUÇÃO E CARACTERÍSTICAS


I – INTRODUÇÃO:


"Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã (o mundo melhor que, como todas as utopias, avança inexoravelmente), reformem o conceito de literatura. Já não é possível viver no clima das obras-primas fulgurantes e ... pobres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Reformem a própria capacidade de admirar e de imitar, inventem olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o espetáculo novo de que estão participando."

Esse prefácio, escrito em agosto de 1943, depois da batalha de Stalingrado e da queda de Mussolini e definido pelo autor como "exame da conduta literária diante da vida", vale como um verdadeiro manifesto da necessidade de participação do artista no "formidável período histórico em que lhe é dado viver": "Já não tenho medo de escravizar-me à vida", diz o poeta.
A coragem de se situar em face dos acontecimentos implica, portanto, renunciar à "obra-prima fulgurante" e reformar o "conceito de literatura".
“A Rosa do Povo” reúne 55 poemas escritos exatamente entre 1943 e 1945, o que parece ser bastante significativo para quem diz, nesse mesmo prefácio, que "a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvidas aos mais densos e importantes da existência".
Os poemas do livro são os seguintes:
1. Consideração do Poema
2. Procura da Poesia
3. A Flor e a Náusea
4. Carrego Comigo
5. O Medo
6. Anoitecer
7. Nosso Tempo
8. Passagem do Ano
9. Passagem da Noite
10. Uma Hora e mais Outra
11. Nos Áureos Tempos
12. Rola Mundo
13. Áporo
14. Ontem
15. Fragilidade
16. O Poeta Escolhe seu Túmulo
17. Vida Menor
18. Campo, Chinês e Sono
19. Episódio
20. Nova Canção do Exílio
21. Economia dos Mares Terrestres
22. Equívoco
23. Movimento da Espada
24. Assalto
25. Anúncio da Rosa
26. Edifício São Borja
27. O Mito
28. Resíduo
29. O Caso do Vestido
30. O Elefante
31. Morte do Leiteiro
32. Noite na Repartição
33. Morte no Avião
34. Desfile
35. Consolo na Praia
36. Retrato de Família
37. Como um Presente
38. Interpretação de Dezembro
39. Rua da Madrugada
40. Idade Madura
41. Versos à Boca da Noite
42. No País dos Andrades
43. Notícias
44. América
45. Cidade Prevista
46. Carta a Stalingrado
47. Telegrama de Moscou
48. Mas Viveremos
49. Visão 1944
50. Com o Russo em Berlim
51. Indicações
52. Onde Há Pouco Falamos
53. Os Últimos Dias
54. Mário de Andrade Desce aos Infernos
55. Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin

“A Rosa do Povo” é o livro mais longo de Drummond. É o primeiro fruto maduro de sua obra e a maior expressão do lirismo social drummondiano e modernista.

II – TEMÁTICA:

Os temas de “A Rosa do Povo” se entrelaçam, porém nunca se distanciam do realismo social participante.

O questionamento da própria poesia e do fazer poético encaminha-se para sua formulação mais densa: a "ars poética" de "Procura da Poesia", que define os contornos de toda sua obra posterior e baliza as direções da lírica moderna, que o poeta exerceu em seu sentido mais amplo.
Entre as diversas vertentes da obra, encontra-se o poeta de ação, a lírica social e o metalirismo, alternando a solidariedade da palavra poética para com o homem do povo, seu fechamento e a consciência da "crise da poesia".
Entre eles, encontram-se:
- O Choque Social, o engajamento "na praça dos convites": os poemas 5, 7, 25, 30, 31, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49 e 50, num total de 13 poemas.
- O Indivíduo, o "eu todo retorcido": os poemas 3, 6, 8, 9, 10, 12, 23, 28, 33, 40, 41, 51 e 53, num total de 13 poemas.
- Fechamento do discurso, levando em conta certas afinidades formais, o poema geralmente curto, anti-retórico, marcado por certa negatividade, e pela frequente tematização do tempo: os poemas 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22 e 26, num total de 11 poemas.
- Memória, reunindo o que, na demarcação do poeta, corresponde á terra natal ("Uma província: esta") e a família ("A família que me dei"): os poemas 11, 24, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 42 e 52, num total de 10 poemas.
- A Própria Poesia, "poesia contemplada", o questionamento da poesia, o metalirismo: os poemas 1, 2 e 4.
- Amigos, "cantar de amigos", a poesia de homenagem e reconhecimento: os poemas 54 e 55.
- Amor, "amar-amaro", o conhecimento amoroso: os poemas 27 e 29.
- Dramático, a cena poético-teatral, o "ato": o poema 32.

Nas várias vertentes do livro, a operação metalinguistica percorre toda obra contrastando a autonomia versus comunicação que atualiza e ilustra a oposição fundamental do signo poético, e inscreve o poeta na vanguarda mais permanente da modernidade. Num levantamento preliminar das áreas temáticas principais, e valendo-nos da demarcação que o próprio poeta fez de sua poesia, constatamos que, ainda que a lírica social permeie todo o livro, há grande variabilidade temática.

III – CARACTERÍSTICAS:

A leitura dos poemas de “A rosa do Povo” permite verificar a afirmação explícita da crença na possibilidade de atuação da palavra poética sobre a "vida".


"O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme."

(Nosso Tempo)

"Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra."

(Mas Viveremos)


"Muitos de mim saíram pelo mar.
Em mim o que é melhor está lutando.
Possa também chegar, recompensado,
com o russo em Berlim."

(Com o Russo em Berlim)

"Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos."

(A Flor e a Náusea)


"no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo."

(Passagem da Noite)


"Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs
na noite,"

(Anúncio da Rosa)


".............................................Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço."

(Versos à Boca da Noite)


"Posso, sem armas, revoltar-me?"

(A Flor e a Náusea)

"Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?"

(Nosso Tempo)


"E de que adianta a lâmpada?
E de que adianta a voz?"

(Passagem da Noite)


"Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la?
[Quantos fogos terá?"

(América)


"Como lutar, sem armas, penetrando com o russo em Berlim?"

(Com o Russo em Berlim)


O poeta de “A Rosa do Povo” não é exclusivamente o poeta engajado. O lirismo social e político não é uma etapa definitiva de sua criação: o "fracasso" o fascina, mesmo nos momentos em que se afirma a crença, ou em que se realiza a participação. Observe-se, por exemplo, o conflito que percorre estes versos:

"Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando."

(Onde Há Pouco Falávamos)


"Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número
[de casa,
e ganho."

(Idade Madura)

"As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,"

(Versos à Boca da Noite)

terça-feira, 19 de julho de 2011

RECADO DO MORRO (1956), GUIMARÃES ROSA

"Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbadora e rebelde a qualquer lógica, que é chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o absurdo que o óbvio, que o frouxo. Toda a lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade".


Guimarães Rosa

 
I – INTRODUÇÃO:

“Recado do Morro” foi publicado originalmente, dentro da coletânea “Corpo de Baile”. O livro, lançado no mesmo ano do romance “Grande Sertão: veredas”, marca a maturidade do autor, situando-o como um dos maiores escritores da literatura brasileira pela originalidade, profundidade e força criadora (CANDIDO, s/d: 31). A partir da terceira edição, em 1964, “Corpo de Baile” passou a ser editado em três livros separados: “Manuelzão e Miguilim”, “No Urubuquaquá no Pinhém”, onde se encontra atualmente “O recado do morro” e “Noites do Sertão”. Trata-se do bloco central de sua obra, que confirma de modo triunfal a literatura nova que despontava com “Sagarana”.

II – ESTILO DE ÉPOCA:

Guimarães Rosa está inserido na chamada terceira fase do Modernismo brasileiro, também conhecida como “Geração de 45”, ainda que esta delimitação seja meramente acadêmica e pouco flexível, como salienta Candido (CANDIDO, s/d: 30). Trata-se de uma época hermética da literatura brasileira, marcada pela intelectualização e diversificação da produção literária, com o avanço da crítica, da crônica e do teatro, não numericamente, mas em valores qualitativos.
A prosa da Geração de 1945 verificou-se uma continuação do Neo-Realismo, quer na vertente urbana quer na regionalista. Enquanto autores da Geração de 30 concentravam-se em uma temática nordestina; em 45, a preocupação passa a ser Universal.
As inovações linguísticas; a redescoberta da linguagem, como elemento de comunicação e como elemento que instaura o real; a atração pelo trans-real; a preocupação com o Homem; a prosa intimista, de investigação psicológica; o realismo fantástico são algumas das características temáticas que vieram renovar a literatura dos anos 45 a 60.
Há um retrocesso em relação às conquistas de 22, uma volta ao passado com a revalorização do vocabulário erudito e das referências mitológicas.
A terceira fase modernista pode ser considerada uma síntese do experimentalismo da fase heróica, acrescentando a maturidade artística da segunda fase alcançando o universalismo e servindo de alicerce aos poetas contemporâneos.
As décadas de 40 e 50 presenciaram o crescimento da prosa, depois de dois decênios de predominância da poesia. Neste âmbito, os dois grandes nomes foram Clarice Lispector e Guimarães Rosa, responsáveis pela reinvenção da linguagem e por um novo fôlego ao romance.
Alfredo Bosi caracteriza a produção literária a partir da década de 30 através do “grau crescente de tensão entre o “herói” e o seu mundo” (BOSI, 1995: 441), fugindo do esquema tradicional que divide as obras entre o romance psicológico e regionalista. De acordo com Bosi, tanto Clarice quanto Guimarães se enquadram no grau máximo de tensão, em que o herói ultrapassa o conflito através da transformação mítica ou metafísica da realidade (idem, 442). Tal definição se encaixa perfeitamente em O recado do morro, já que o conto prima justamente pelo transcendental e mítico para sua narrativa.

III – CARACTERÍSTICAS ROSEANAS:

UNIVERSALIZAÇÃO: renovação da tendência regionalista assumindo de experiência estética universal.
MITOPOÉTICO: fusão entre o real e o mágico, numa tentativa de justificar a existência humana, apresentando o homem dividido entre Bem X Mal, o Sagrado X Profano, aproximando-o do estilo Barroco.
INSTRUMENTALISTA: a palavra como instrumento que provém de suas experiências com outras línguas estrangeiras (no mínimo 18), acrescida do domínio da linguagem arcaica, do português contemporâneo, do erudito e de suas anotações do falar do povo brasileiro, como:
Neologismos; aliterações e assonâncias; onomatopéias; rimas internas; metáforas, anáforas, metonímias; musicalidade; melopéia; repetições binárias ou ternárias; prosopopéias; antíteses e paradoxos; trocadilhos; provérbios; excesso de pontuação; aglutinação de palavras; derivação imprópria; estrangeirismo entre outros.

IV – FOCO NARRATIVO:

O foco narrativo utilizado é de terceira pessoa, a partir do ponto de vista de um narrador heterodiegético, uma entidade exterior à história, que atua sob uma focalização onisciente, revelando o íntimo de algumas personagens; descrições físicas aparentes e traços psicológicos. Mas, outras vezes, evita comunicar algo, preferindo informar ao leitor através da opinião de uma das personagens. Outra característica a ser observada considerando a presença de um narrador heterodiegético e onisciente é a carga de subjetividade expressa no texto a partir do mecanismo da intrusão do narrador. No exemplo que se segue, depois de descrever a aparência de Catraz, o narrador tece um comentário a respeito da personagem:

Desde isso, porém, veio chegando, saco bem mal-cheio às costas e roupinha brim amarelo de paletó e calça, um camarada muito comprido, magrelo, com cara de sandeu – custoso mesmo se acertar alguma ideia de donde, que calcanhar-do-judas, um sujeito sambanga assim pudesse ter sido produzido.”

Desta forma, fica evidente que o narrador de “O recado do morro” se posta num ângulo privilegiado para a observação da história e controla o fluxo de informações ao leitor, aproveitando-se do fato de ser o focalizador e de sua posição exterior à diegese.
O narrador faz uso dos três tipos de discurso:

1. Discurso direto, que destaca a presença do dialogismo e procura proporcionar credibilidade àquilo que foi dito por conta da inserção da voz da própria personagem no texto.

Falou, mesmo, voz irada, logo ecfônico:
- Eu?! Não! Não consigo! Nenhum filho de nenhum...Não tou somando!”(p.20)

2. Discurso indireto, que transcreve a fala do narrador intercedendo pelas personagens.

“...que perguntassem ao outro se na terra dele as moças eram bonitas...” (p.16)

3. Discurso indireto-livre, em que as vozes do narrador e da personagem se misturam.

O violão do Laudelim já desestremecia, ah pinho assum na mão, prosa que é um reinado. E podiam entrar, também, caso quisessem. Queriam não, dali de fora mesmo, da janela, estavam em cômodo de escutar e ver, a demora deles era apoucada.”(p.65)

V – TEMPO:

Em “O recado do morro”, a realidade social na qual se insere o relato é a do sertão de Minas Gerais, porém a presença dos mitos faz seu tempo singularizar-se em um tempo mítico. Por quase toda a narrativa, é usado o recurso de pausas descritivas em que se narra as paisagens, inclusive pelas anotações do local por seo Alquiste. A diegese é de uma viagem de ida e volta com duração de quase um mês entre julho e agosto:

“(...) na segunda-feira era que ia lá, por fim de ter andado fora pouco faltava para um mês.” (ROSA, 2001: 51)

“(...) teve princípio e fim, num julho-agosto (...).” (ROSA, 2001: 27)

No entanto, a narrativa inicia-se no meio da viagem, a caminho da fazenda de Jove, em que são ocupadas em torno de vinte páginas, das setenta e sete existentes. Dentre essas primeiras páginas, há uma analepse que indica o ponto de partida dos viajantes, a passagem pela fazenda de seo Saturnino, em seguida há um sumário de um parágrafo em que se relata a escalada pelo morro, onde “(...) o caminho esfola em espiral de laranja (...).” (ROSA, 2001: 37)
Depois de Jove, continuam a viagem de ida até Apolinário, que é noticiada por uma elipse: “Adiante, houve dias e dias, dado o resumo. A onde queriam chegar, até lá chegaram, a comitiva, em fins.” (ROSA, 2001: 52)
Há uma aceleração quando é narrada á volta pelas quatro primeiras fazendas: Apolinário, Marciano, Nhá Selena e Nhô Hermes; já em dona Vininha, em que o recado é repassado por Catraz e Joãozezim, a narrativa ocupa quase cinco páginas. Assim, o tempo da narrativa é mais lento nas passagens em que se dão os recados, sobretudo nas últimas vinte e cinco páginas do conto, quando há a aparição de Nominedômine no arraial e a festa, em que Laudelim recria o recado por meio de uma canção, que Pedro Orósio enfim compreenderá.
O tempo guarda uma relação intrínseca com o espaço, característica do tempo mítico, isto é, um tempo que remonta as origens:

Aí temos os dias da semana, correspondendo perfeitamente a cada uma das fazendas, a seus deuses patronos na mitologia clássica, aos astros do sistema planetário da Antiguidade.” (MACHADO, 1976: 102)

As correspondências derivadas do calendário romano, cujos resquícios ainda podem ser encontrados nos nomes dados aos dias da semana em línguas neolatinas e às suas associações na linguagem astrológica:
Apolinário (Apolo ou Sol) – domingo: é relacionado à vitalidade, ao senso de individualidade, aos valores essenciais e ao otimismo – Hélio Dias Nemes.
Nhá Selena (Diana, deusa da caça representada pela Lua) - segunda-feira: se relaciona com o inconsciente, com as emoções e com os cultos – João Lualino.
Marciano (Marte) – terça-feira: se associa à ação, à energia física, à agressividade e ao impulso auto-afirmativo- Martinho.
Nhô Hermes (Mercúrio) – quarta-feira: associado à comunicação, à inteligência, aos negócios, ao comércio e dos viajantes – Zé Azougue.
Jove (Júpiter, deus supremo) – quinta-feira: associado à expansão, à graça, à fé e à confiança – Jovelino.
Dona Vininha (Vênus) – sexta-feira: associada ao recebimento de afetos, à partilha, ao prazer, à socialização, ao amor e ao namoro- Veneriano.
Juca Saturnino (Saturno, anéis do tempo) – sábado: está associado à reserva, à severidade, às responsabilidades e ao trabalho – Ivo Crônico.

VI – ESPAÇO:

O espaço físico em “O recado do morro” como em grande parte da obra de Guimarães Rosa é predominantemente aberto, o sertão de Minas Gerais.
O grupo viajante passa por sete fazendas. É possível perceber que há uma grande simbologia nas fazendas pelas quais os viajantes passam durante sua jornada. Cada uma delas representa um local de “(...) repouso para o movimento efetuado, constitui um ponto a que corresponde uma fala e uma escrita marcadas pela intertextualidade das reminiscências e das alusões.” (CAMPOS, 2000: 203, grifo do autor)
O que se conclui, então, é que “(...) as fazendas não se reduzem à manifestação do empírico mais imediato, mas ganham, num nível mediato, graças à força explicativa da metalinguagem, o conceito de planetas” (CAMPOS, 2000, p. 203, grifo do autor). O próprio nome de cada uma das fazendas remete à ideia de corpos celestes, evidenciando assim o papel da linguagem na composição de detalhes aparentemente, até certo ponto, implícitos na obra. A Terra é, portanto, um corpo imóvel em torno do qual estão dispostos os outros planetas.
O que se tem, então, é um espaço físico de paisagens naturais, cercado por tipos pobres, que representa, nas mãos de Rosa, um espaço simbólico de grande riqueza, em que tudo assume um papel de maior importância do que à primeira vista possa parecer exercer.

VII - PERSONAGENS:

As personagens da novela “O recado do morro” podem ser divididas em dois grupos: aquelas que atuam de maneira positiva em relação ao protagonista Pedro Orósio e os antagonistas deste, que conspiram contra ele.

PEDRO ORÓSIO, PEDRO CHÃBERGO ou PÊ-BOI: é o guia da viagem. O único que ia a pé, por não ter cansaço e nem ter animal que lhe aguentasse o peso. Um simplório, ingênuo e muito namorador, em virtude de seu porte físico e beleza, muitas mocinhas se “derretem” por ele, causando dessa forma intrigas entre os rapazes do lugar. Sonha em casar-se, ter uma terra para plantar e voltar para seu lugar no norte dos gerais. Sente atração por mulheres brancas, cabelo amarelo e olho azul, comparado como um Sansão e bom para soldado por Sr. Alquiste.
Ele faz parte do lado direito da narrativa, que representa a ordem e, como tal é ele quem conduz o grupo. No entanto, é a ele que se destina o recado. Segundo Machado (1976), Pedro Orósio é Pedro (terra) e Orósio é oros (montanha) e ósio (escolhido). O morro quer falar àquele que lhe é semelhante. Pedro Orósio é, portanto, pedra e é, também, montanha. Mas ele é, ainda, o oposto do morro. Semelhante a Mercúrio, é o guia, quem inicia o movimento e conhece os caminhos. Semelhante á terra, vai a pé experimentando o mundo físico, por isso é Pê-boi. Demora a entender as coisas, as rumina primeiro, análogo ao signo de touro, que possui percepção profunda da matéria, pois a experimenta com os pés postos no chão. E, como o boi, é grande e apegado à solidez da terra.
As pessoas favoráveis a Pedro Orósio são as responsáveis pela propagação do recado, isto é, são as transmissoras da mensagem emitida pelo Morro da Garça, a qual permitirá que Pedro saiba antecipadamente da traição. E não é por acaso que estas personagens são pessoas desligadas do plano racional, entes dotados de uma crença ilimitada, sem barreiras lógicas. Somente seres isentos dessa noção do real poderiam crer num morro que envia recados.
O ciclo tem início com Malaquias, homônimo do profeta bíblico cujo nome significa “mensageiro de Deus”, também chamado de Gorgulho em referência ao seu orgulho, às pedrinhas e cascalhos que recebem esse nome e também a caruncho, que vive dentro dos grãos. Malaquias vive numa “lapa, entre barrancos e grotas – uma urubuquara – casa dos urubus, uns lugares com pedreiras.” (ROSA, 2001: 37) sendo, portanto, um ser estreitamente ligado à natureza, que fugiu do convívio com a sociedade para isolar-se completamente. Vemos que o ermitão Gorgulho é tipo muito propício para portador inicial da mensagem devido a essa sua identificação com o mundo natural, já que se aparenta a ele e, mesmo surdo, é o único capaz de ouvir “o recado da grande pedra-pirâmide-esfinge” (MACHADO, 1976: 99).
Zacarias, outro ermitão, escuta as palavras do irmão Malaquias quando ele vai visitá-lo. Malaquias possui outros nomes: Catraz (cá traz) ou ainda Qualhacôco, “que transmite a mensagem ao efetuar em sua mente (popularmente, côco) uma nova aglomeração de partículas dispersas (qualha) do recado, (...)”. (MACHADO, 1976: 99). Seu nome também remete à Bíblia, Malaquias e Zacarias foram os dois últimos profetas do Velho Testamento. Por essa razão, temos a atitude radical destas personagens que se apartam do mundo humano para melhor conceber as revelações de Deus.
Catraz conta a profecia ao menino Joãozézim, que por sua vez a transmite ao garoto de recados Guégue, nome que claramente se refere às dificuldades de dicção da personagem. Ele é apresentado pelo narrador da seguinte maneira: “O Guégue era o bobo da Fazenda. Retaco, grosso, mais para idoso, e papudo – um papo em três bolas meando emendas, um tanto de lado.” (ROSA, 2001: 60)
É pelo bobo Guegué que o recado chega até o louco beato Nominedômine (nome do homem) ou Jubileu, ou ainda Santos Óleos, outro misantropo com características de profeta que vem para revelar algo aos homens. Neste ponto, o conteúdo da mensagem adquire um caráter delirante junto do som dos sinos, para em seguida tomar uma forma menos confusa:
A colheita só poderia ser feita pelo Coletor que era “outro que não regulava bem” (ROSA, 2001: 80) e cuja “doideira (...) era uma só: imaginava de ser rico, milionário de riquíssimo, e o tempo todo passava revendo a contagem de suas posses.” (ROSA, 2001: 84)
A predominância nesse grupo de personagens é a demência caracterizando personagens isentas de senso, vistas como excêntricas, imbecis ou sonhadoras, dotadas de um misticismo exacerbado e fé cega nas palavras do morro, qualidade vital para a narrativa uma vez que permitiu que o recado chegasse até seu destino.
No entanto, é somente por meio do poeta Laudelim que o recado transformado em cantiga adquire significado. É ele quem dá unidade à estória, ou seja, a consagração vem pela palavra do poeta. Álias, podemos ver que “Laudelim” apresenta semelhança com o verbo latino laudare: louvar, além de ser espécie de onomatopéia do barulho de sinos tocando (Laudlin). Aqui o ciclo se fecha “pela fé, pela loucura, pela inocência, pela poesia, em uma sucessão de videntes privilegiados porque carentes, o recado atinge enfim sua forma estruturada e definitiva (...).” (MACHADO, 1976: 102)
Assim o recado alcança Pedro Orósio após tê-lo “perseguido” durante toda a trajetória. Pedro é, pois, a personagem central da narrativa, o motivo pelo qual o recado foi emitido e construído. É ele quem serve de guia da expedição, missão que aceita unicamente pelo fato de que passaria perto dos seus Gerais. Pedro é enxadeiro e boiadeiro, sendo que é da terra que retira seu sustento e sua força, é o contato com ela que lhe traz a sensação de liberdade, daí aparecer constantemente descalço ou incomodado por usar sapatos. Ele é dono de uma força descomunal que remete ao seu nome Pedro = pedra, representando dureza, simplicidade e constância. A sua semelhança com a pedra pressupõe também uma ligação com o próprio Morro da Garça.
O outro grupo que destacamos neste estudo são os antagonistas de Pedro Orósio, isto é, aqueles que planejam a morte deste, impulsionados pela inveja. O que interessa ressaltar aqui é a analogia que Guimarães Rosa faz dessas personagens com relação aos planetas do sistema solar e, portanto, com deuses da mitologia greco-romana. Como líder dos traidores, encontramos Ivo Crônico, presente desde o início da novela como integrante do grupo que acompanha Pedro Orósio. Primeiramente, é chamado “(...) um Ivo, Ivo de tal, Ivo da tia Merência.” (ROSA, 2001: 28). Neste ponto da narrativa, Ivo aparece descaracterizado, indeterminado (note-se o artigo indefinido diante de seu nome), não-atuante, trabalha como cavalariço. É um tipo estranho, silencioso e falso. Inveja os dotes físicos e morais de Pedro Orósio. Mais tarde, quando suas intenções começam por se tornar mais claras, passa a ser chamado Crônico, ou Cronos, o deus que atua sobre o tempo.

"E esse Ivo era um sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um dia fazer. Por isso, o apelido dele, que tinha, era: Crônico - (do qual não gostava)." (ROSA, 2001a, p.55)

As outras personagens deste núcleo têm o nome e o comportamento determinados também pelos planetas, lembrando ainda que podem ser associados aos pontos de paragem, fazendas nas quais os viajantes descansam.
O sentido cristão pode ser atribuído à narrativa na medida em que observamos a religiosidade exacerbada característica dos profetas – pessoas encarregadas de servir como ponte entre Deus e Homem – encontrada nos loucos que repassam o recado. Assim, temos num plano simbólico um embate entre racionalismo, a astrologia e a própria cultura clássica, e o misticismo ilógico dos cristãos.
Além dessas, ainda temos as personagens a quem Pedro Orósio serve de guia, que são figuras alegóricas, assim como os traidores.

SEO ALQUISTE OU OLQUISTE: naturalista alemão, pesquisador da fauna, flora e topografia do sertão dos gerais. Ele é quem observa, nota, cataloga, classifica e capta o mundo através da percepção aguda e a objetividade da câmara. Ele carrega a máquina consigo o tempo todo para segurar momentaneamente o tempo, imobilizar o instante que passa, captar, fixar e revelar o que está por trás de tudo, inclusive do imediatamente visível. O nome Alquiste/Alquist evoca a sua condição de naturalista ou cientista interessado nas ciências naturais, por meio de uma alusão (em alemão) aos ramos do olmo.

Ao dito, seo Alquiste estacava, sem jeito, a cavalo não se governava bem. Tomava nota, escrevia na caderneta; a caso, tirava retratos. (...) Outra-mão, ele desenhava, desenhava: de tudo tirava traço e figura leal.” (ROSA, 2001a, p.31)

Tinha “raro cabelim, barba-de-milho, cara de barata descascada, óculos de lentes grossas, olhos de aguado azul, terno e inocente”. Gostaria de casar-se com uma mulata brasileira preta de tão roxa.

FREI SINFRÃO: louro, sandália sem meia, túnica marrom, do convento de Pirapora e Cordisburgo, sobre o hábito, guarda-pó creme, chapéu branco, de pano mole, fumava charuto, servia de tradutor ao estrangeiro, lia e relia o breviário todo momento.
Frei Sinfrão representa, na narrativa, o pensamento que venera o desconhecido, o invisível que está fora da área dos sentidos e que é recebido como revelação.

Ou o frade frei Sinfrão, sempre rezando, em hora de folga, com o terço ou missalzinho; mas rezava enormes quantidades, e assim atarefado e alegre, como se no lucrativo de um trabalho, produzindo, e não do jeito que as pessoas comuns podem rezar: a curto e com distração, ou então no por-socorro de uma tristeza ansiada, em momentos de aperto.” (ROSA, 2001a, p.34)

JUJUCA DO AÇUDE: filho de fazendeiro Sr. Juca Vieira, da fazenda do Açude, para lá do Saco do Sãjoão. É fazendeiro de gado, servia de cicerone na viagem e tinha interesses de fazer negócios. Ele representa o pensamento prático que calcula e planeja a vida para o futuro.

Mesmo Seo Jujuca do Açude, rapaz moço e daqui, mas com seus estudos da lida certa de todo o plantio de cultura, e das doenças e remédios para o gado, para os animais. Pois Seo Jujuca trazia a espingarda, caçava e pescava; mas, no mais do tempo, a tenção dele estava no comparara as terras do arredor, lavoura e campos de pastagens, saber de tudo avaliado por onde pegava a pena comprar, barganhar, arrendar - negociar alqueires e novilhos, madeiras e safras; seo Jujuca era um moço atilado e ambicioneiro.” (ROSA, 2001a, p.34)

Os três juntos, Alquiste, Sinfrão e Jujuca, são os homens pensantes. Eles representam, segundo Machado (1976), o lado Direito/racional da narrativa.

VIII - ENREDO:

“O recado do morro” é a estória de uma canção a formar-se.
 
Uma revelação, captada não pelo interessado e destinatário, mas por um marginal da razão, e veiculada e aumentada por outros seres não reflexivos, não-escravos ainda do intelecto: um menino, dois fracos de mente, dois alucinados – e, enfim, por um artista; que, na síntese artística, plasma-a em canção, do mesmo modo perfazendo, plena, a revelação inicial.” (ROSA, 1984)

A narrativa inicia com o comentário do narrador que:

Sem que bem se saiba, conseguiu-se rastrear pelo avesso um caso de vida e de morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio (Pedrão Chãbergo ou Pê-Boi), e teve aparente princípio e fim, num julho-agosto, nos fundos do município onde ele residia; em sua raia noroesteã, para dizer com rigor.” (ROSA, 2001a, p.27)

É importante ressaltar que já na abertura do conto, o narrador refere-se ao seu lado “avesso”, ou seja, contraditório, ilógico do conto. Em seguida, apresenta as cinco personagens que guiadas por Pedro Orósio "... iam, serra acima, cinco homens, pelo espigão divisor. Dia a muito menos de meio, solene sol, as sombras deles davam para o lado esquerdo (...)." (ROSA, 2001a, p. 27)

São eles: Pedro Orósio, o alemão Seo Alquiste, o frade Frei Sinfrão, o fazendeiro Seo Jujuca do Açude e, por último, atrás de todos, um camarada de Pedro, o Ivo Crônico, "a cavalo esse, e tangendo os burros cargueiros." (ROSA, 2001a, p.28)

"Seguindo-o á cavalo, três patrões, entrajados e de limpo aspecto, gente de pessoa." (ROSA, 2001a, p.28)

A partir desse ponto, deve-se observar o dualismo entre o pensamento racional do Direito e, de outro, o pensamento irracional do Esquerdo, seguindo a imagem dos representantes da ordem na narrativa: o corpo que guia (Pedro Orósio) e o pensamento/alma (Alquiste, Sinfrão, Jujuca) humano que viaja no tempo (Ivo).
Nessa viagem de vida e de morte/transformação anunciada pelo morro, Pedro Orósio se dirige ao passado, à infância e ao país de origem. Além disso, Pedro se dirige para o futuro que o levará para o seu destino, para as transformações que ele lhe reserva.
Além de acompanhar a viagem em seu plano externo, ou seja, viagem real, cronológica e natural versus a viagem interior, intimista e psicológica, remetendo ao passado de Pedro Orósio.

E assim seguiam de um ponto a um ponto por brancas estradas calcáreas, como por linha vã, uma linha geodésica. Mais ou menos como a gente vive. Lugares. Ali, o caminho esfola em espiral uma laranja: ou é a trilha escalando contornadamente o morro, como um laço jogado em animal.” (ROSA, 2001: 37)

A viagem corria lentamente, pois tudo o que via seo Alquiste queria tocar, registrar, fotografar ou desenhar. Não se contentando somente em examinar e perguntar, seo Alquiste faz anotações numa caderneta, “de tudo tirava traço e figura leal.”
São descritas as belezas naturais do lugar, com suas serras, montes, morros e calcários que desenhavam colunas, alpendres, chaminés, guaritas, vultos. São avistados cavernas e animais nativos. O Seo Alquiste quer saber mais sobre Pedro Orósio e pergunta ao frei sobre o passado do guia.
O frade traduz em língua da terra a pergunta. Pedro Orósio responde que era de lugar mais afastado, do sertão dos campos-gerais. Por isso mesmo está na comitiva, pois como vão para o norte, ele espera rever o chapadão chato com vaqueiros de chapéu-de-couro. Quando seo Alquiste quer saber se ele é casado ou solteiro, frei Sinfrão responde que Pedro é teimoso solteiro e muito namorador, sendo, por isso, odiado por muitos rapazes. Até o Ivo, que segue na mesma comitiva, anda estremecido com ele por causa de uma mocinha chamada Maria Melissa. Outro que ali em Cordisburgo alimenta também sua raiva é o Dias Nemes, “virado contra ele no vil frio de uma inimizade, capaz de tudo.” Como para confirmar o que diz o padre, Pedro, com frequência, tira do bolso um espelhinho que se mira.
Seo Alquiste bate uma foto do grandalhão, que pergunta pelas moças de fora, porque ele gostaria de casar com uma assim, “de cara rosada, cabelo amarelo e olho azul”. O alemão cita um ditado de sua terra que diz “que um quer salada fina e outro quer batata com a casca”, porque ele próprio, o que gostaria era de casar com uma mulata dessas bem roxas, quase pretas.
O narrador penetra nos pensamentos e sentimentos de Pedro, revelando que ele fica feliz quando Ivo fala com ele, esquecendo-se de sua raiva, porque naquele grupo Ivo é o único de sua igualha, não eram patrões. Os outros integrantes, mesmo sendo simpáticos e gentis, são outra gente, de outros modos e com outros interesses. Além do assunto de gente estudada é diferente.
Chegando a Cordisburgo, lugar famoso devido ao ar e o céu (antigamente chamado de Vista Alegre) e encontraram a Gruta do Maquiné, com sete salões encobertos. Ivo negou-se a entrar, afirmando que estava cansado de conhecer a Lapa.
Pedro acha que “daquilo, daquela, ninguém não podia se cansar”.
Seguem viagem e Pedro Orósio canta uma toada que ouviu de seu amigo Laudelim, apelidado Pulgapé. Sujeito que jamais trabalha e vive de cantoria, sempre com seu violão.

Fazia tempo que Pedro Orósio não o via. Mas era, quem sabe, o único amigo seguro que lhe restasse, agora que quase todos os companheiros estavam de volta com ele e lhe franziam a cara, por meia bobagem de ciúmes.”

Lembra-se Pedro, que na véspera, na Fazenda do Saco-dos-Cochos, de seo Juca Saturnino, vira o Ivo falar muito com o primo dele, Maral, sujeito feioso, focinhudo como um quati.
Pedro acredita que não tinha culpa das mocinhas quererem namorá-lo, reflete sobre a brevidade da vida, por que tantas dificuldades e agradece estar de pazes novamente com Ivo.
Segue cantando o grandalhão, com sua camisa rasgada, sua garrucha na cinta e um facão. Seo Alquiste, admirando-o, exclama “Sansão...”
No caminho encontram um “homenzinho terém-terém, ponderadinho no andar, todo arcaico”. Era o Gorgulho, um velho esquisito, “que morava sozinho dentro de uma lapa, entre barrancos e grotas – uma urubuquara - casa dos urubus, uns lugares com pedreiras.”
O seu verdadeiro nome era Malaquias, vestia-se com vaidade e fazia questão em estar bem composto, segurando sua bengala de alecrim. Sem perceber a presença dos outros caminhantes, o velhinho falava coisas sem nexo, dirigindo-se a ninguém:

Eu?! Não! Não comigo! Nenhum filho de nenhum...Não tou somando!” e “Não me venha com loxias! Conselho que não entendo, não me praz: é agouro!” e ainda “Oi, judengo! Tu, antão, vai p’r’as profundas!...”

Pedro se aproxima, cumprimenta, apresenta todos do grupo e pergunta o que havia lhe deixado tão enfurecido. Malaquias contém a sua agitação a custo e explica:

H’ hum...Que é que o morro não tem preceito de estar gritando...Avisando de coisas...”

O velho aponta nervoso o Morro da Garça, solitário, escuro, feito uma pirâmide. Todos olham e nada vêem, nada ouvem. Comenta-se que o velho é meio surdo e deve ter tido uma alucinação ou então, ele tivesse ouvido um descarregamento subterrâneo das camadas de calcário que sempre ocorria em época de lua cheia.
Seo Alquiste fica admirado com aquela figura exótica, chama-o de “Troglodyt” e convida-o a viajar juntos, embora o velho demonstre querer viajar sozinho.
Gorgulho só aceitou o convite porque conhecia e gostava de Pedro Orósio.
Segue o grupo seu caminho. Frei Sinfrão recomenda que o Seo Alquiste deixe de anotar na caderneta. Gorgulho ainda olha o morro e se benze. Ele mora há mais de trinta anos na caverna, no ponto mais feio da serra, sozinho, nunca sentira vontade de casar-se e o motivo de sua viagem era visitar o seu irmão, morador de outra Lapa. Gorgulho ficou sabendo que o irmão tencionava se casar e vai até lá para aconselhar, “tivesse juízo, considerasse, as paciências, não estava mais em era de pensar em mulher.”
Ele saía somente uma vez ao ano de sua caverna, onde justamente visita o irmão.
Seo Alquiste quer saber como é a gruta em que mora Gorgulho, e de que vive.
Descreve a gruta composta por três cômodos, o último sempre escuro com um buraco no meio tão fundo que se atirasse uma pedra não escutava o seu cair, a boca da entrada era estreita com feixe de capim para fechar por causa dos bichos, tinha um banco, um toco de árvores, um caixote e uma barrica de bacalhau, dormia numa esteira.
Gorgulho antes abria valas que dividiam as terras, mas agora todos colocam cerca de arame e o velho teve de mudar de vida. Isolou-se, planta seu de comer: “A gente planta milho, arroz, feijão, bananeira, abobra, mandioca, mendobi, batata doce, melancia...”
Param para comer. Pedro acende um fogo, faz café. Gorgulho recusa tudo que lhe oferecem dizendo:

A Deus sejam dadas! E a melhor sustância para Vossências...Nos matulamos inda agorinha...”

Perguntam-lhe pelos urubus e o velho afirma em que sua gruta não entravam nunca, mas que por perto havia muitos. Explica que não têm ninhos, botando nas pedras e quando os filhotes nasciam, fediam muito, eram brancos, depois ficavam lilás e vomitavam o tempo inteiro.

Quando viam a gente, gomitavam. Arubu pequeno rumita o tempo todo, toda a vida...”

Perguntaram se ele não tinha medo dos urubus. Gorgulho responde que eles tinham suas regras e uns castigavam os outros se as desobedecerem. Ele nunca vira um urubu morto.
No meio das explicações dos motivos da sua viagem o velho diz de novo enigmático:

Vou indo de forasta, tendo minhas obrigações, e daí, aquele Morro ainda vem gritar recado?! Quer falar: não escuto. Tenho minhas amarguras...”

Durante a conversa, Pedro Orósio sonha, imagina chegar a sua terra, casar com moça bonita e ficar por lá, não voltando mais. Nisso, seo Alquiste dá mais atenção à conversa de Gorgulho que retoma a loucura do morro:

Destino, quem marca é Deus, seus Apóstolos! E que toque de caixa? É festa? Só se for morte de alguém...Morte à traição, foi que ele Morro disse. Com a caveira, de noite, feito História Sagrada, del-rei, del-rei....”

Seo Alquiste se levanta e diz: “Hom’ êst’ diz xôiz’ imm’ portant!”
Frei Sinfrão explica que Gorgulho não era uma pessoa importante e Seo Jujuca acrescenta que ele era louco.
Gorgulho despede-se do pessoal, após receber uma nota, “não-se-de-quantos mil-réis”, de seo Alquiste e segue seu caminho ao encontro do irmão Zaquias.
Frei Sinfrão aconselha Pedro a fazer uma confissão, mas Pê-Boi, negou-se.
O grupo, após uma sesta, retoma viagem e chega ao entardecer na fazenda do Jove fazenda grande e de fartura. Aí pernoitam.
Após chegarem onde pretendiam, retornam viagem e fazem o mesmo caminho passando pelas mesmas casas que, na ida, pernoitaram ou comeram. Faz-se o levantamento delas:

“...a do Jove, entre o Ribeirão Maquine e o Rio das Pedras – fazenda com espaço de casarão sobrefartura; a dona Vininha aprazível, fazenda do Bõamor ao pé da Serra do boiadeiro - aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do Córrego da Capivara - onde acharam notícias do mundo, por meio de jornais antigos e seu Jujuca fechou compra de cinquenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita – onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de umas dúzias de pessoas; o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando da cabeceira do Córrego da Onça para a do Córrego do Medo - lá Pedro quase teve de aceitar malajuizada briga com um campeiro morro-vermelheano; e, assaz, passado o são Francisco, o Apolinário, na vertente do Formoso – ali já eram os campos-gerais, dentro do sol.”

Pedro desanima de sua terra por causa da seca. Se chovesse, talvez ele tivesse ficado. Entretanto, estava feliz por ter atado novamente com o Ivo, este prometia que assim que voltassem, reuniria os amigos: Jovelino, Zé do Açouge, Veneriano, Martinho, Hélio Nemes, João Lualino e festariam as pazes.
Ambos bebem cachaça num copo só e se dão a mão num toque simbolizador de definitiva reconciliação. Isto aconteceu no Hermes. À noite chegaram à Vininha. A moça que Pedro tinha namorado já tinha partido com o pai e era comprometida, estando o noivo dela, José Antonio, na prisão de Curvelo, purgando por crime. Nisso chega à fazenda, um homem falador com cara de sandeu.
Joãozezim, menino esperto que ali vivia, apresenta-o ao grupo.

“ – É o Catraz! – omenino Joãozezim logo disse. – Apelido dele é Qualhacoco. Mas, fala não, que ele dá ódio...Ele cursa aqui. É bocó.”

Qualhacoco veio trocar seu milho por fubá. Dá outra vez que aí estivera, gostara de uma mocinha da folhinha. Deram para ele o calendário e em pouco tempo seu irmão ficara sabendo de terceiros que ele pretendia casar. Teve de prometer ao irmão que não casaria antes de dez anos.
Pedro Orósio chama sua comitiva para conhecer o irmão do Gorgulho. Nhôto, marido de dona Vininha, comenta que Catraz é bom carpinteiro. Tinha feito um carro de madeira. Comenta o aluado que só na descida funcionava e acrescenta que ainda imagina fazer um aeroplano, que poderia voar com ajuda dos urubus. Todos voltam a seus afazeres enquanto o Catraz conta que irmão ficara três dias e falava coisas de religião, que um morro gritou que tinha uns seis ou sete homens, falou de del-rei, de tremer peles, que destino é Deus, seu Apóstolos que marca, toque de caixa da morte, coisa de festa, morte, traição, feito História Sagrada, nisso só Joãozezim ouvia.
Partem os integrantes da comitiva após o almoço e no caminho, encontram outro companheiro, o Guégue, o bobo da fazenda, idoso e papudo.
Dona Vininha e seu marido o mantinham como empregado para serviços leves e fáceis, como levar almoço aos roceiros, recados, doces, objetos de empréstimo e entregar os bilhetes de Dona Vininha e sua filha Lirina, que casara e fora morar no pântano. Guégue gostava tanto dessa viagem que depois de entregar os bilhetes, tinham que destruí-los, senão ele entregava novamente os mesmos, causando assim, grande confusão.

Ah, era um especialmente, o Guégue! - D. Vininha e seu Nhôto contavam, ara de rir. Tratava dos porcos de ceva, levava a comida dos camaradas na roça, e cuidava a contento de todo o serviço do terreiro, prestava muito zelo.” (ROSA, 2001a, p.61)

Guégue acompanha a comitiva, pois o caminho era o mesmo. Levava doce de limão em calda. Ninguém lhe dá muita atenção, a não ser o menino Joãozezim. E este reconta ao bobo a história que ouviu do Catraz.

O recado foi este, você escute certo: que era o rei...Você sabe o que é rei? O que tem espada na mão, um facão comprido e fino, chama espada. Repete. A bom...O rei tremia as peles, não queria ser favoroso...Disse que a sorte quem marca é Deus, seus Apóstolos. E a Morte, tocando caixa, naquela festa. A Morte com a caveira, de noite, na festa. E matou à traição...”

É importante notar que embora os caminhantes fossem cinco, quando encontraram o Gorgulho falando com o morro, os comentadores do fato ao recontá-lo só falam em sete pessoas, em vez de seis.

“...e apontava para o morro, e mostrava sete dedos pelos sete homens...”

Enquanto voltam, o Ivo convida Pedro para uma festa com os companheiros quando chegassem. O Guégue por gostar de andar em companhia, deu várias voltas desnecessárias e foram parar na Vargem-do-Morro. O pessoal resolve, então, ver um salto-d’agua, ficando Pedro e Guégue a vigiar os cavalos. Nisso os dois assustam ao ouvir uma voz cavernosa dizer:

Bendito! que evém em nome d’homem..” e deparam com homem muito magro, sujo, deitado debaixo duma paineira, sentado sobre estrume de animais. Ele estava todo nu, só tapado as parte sexuais com um pano de tanga, na mão uma cruz de varas amarradas a cipó. Perguntou se eram inimigos, diabólicos ou cristãos. Pedia que fizessem o sinal da cruz. Dizia que estava para completar nove dias de jejum e, em seguida, "depôs a cruz do lado do corpo, fechou os olhos, as mãos no peito, feito gente morta. A gente podia admirar e achar – que as delícias é que estavam com ele.”
Pedro Orósio se afastou do estranho e o estranho pede silêncio ao Guégue afirmando que escutava a morte. O Guégue indaga ao fanático se a história do recado do morro é coisa de fim do mundo, ao que o outro lhe diz que não:

É o começo dele, é o começo – alvorada de toda a Glória! Um arcanjo sabe o poder de palavras que acaba de sair de tua boca...Ajoelha, às graças, ajoelha, já!”

Em seguida, convida o Guégue a seguir com ele em penitência, mas o bobo recusa, alegando que precisa levar o boião de doce conforme tinha prometido a dona Vininha.
Parte o fanático para um lado e a comitiva para outro. Chegam ao Jove, de tardinha, e o velho Torontonho ou Torontõe explicou que o fanático chamava-se Nomindome e tinha cursado o Seminário de Diamantina.

Reportou que ele era doido varrido, conhecido por apelido de Jubileu, ou Santos-Óleos. Acresce o informante Torontõe que o fanático há dez anos prenuncia o fim do mundo para dai três meses, e brinca, humoradamente: Bom, desse jeito, assim, não é vantagem: algum dia ele acerta...”

Na sexta-feira a comitiva chegou ao arraial findando a viagem.
Pedro e Ivo recebem suas merecidas gratificações e o frei separa-se da comitiva.
Pedro encaminha-se para a venda do Seo Tolendal, paga o que devia e pede para ele guardar o resto de seu dinheiro.
Todos tomam conhecimento que a festa do Rosário realizar-se-ia no próximo domingo. Ivo promete trazer todos os amigos para se reconciliarem com Pedro. No sábado que antecede a festa do Rosário, bem cedinho, ocorre grande alvoroço na cidade: o fanático Jubileu agora enrolado nuns panos faz a sua profecia de final do mundo e recomenda que todos se convertam.
Logo, em seguida, o sino da igreja do Rosário começa a soar, Pedro correu na frente para segurar o Jubileu.
Ao entrar na Igreja, Pedro dá um encontrão no Coletor, outra forma de louco do lugar. Este ficava com uma pilha de papéis e jornais, e com as algibeiras cheias de tocos de lápis, fazendo contas de números nas beiradas brancas dos jornais.
Jubileu, sem que o possam impedir, faz um sermão anunciando o fim do mundo, repetindo, para comprovar, a cantilena do recado do morro que ouviu do bobo Guégue, a quem chama de anjo papudo.

“...Escutem minha voz, que é a do Anjo dito, o papudo: o que foi revelado. Foi o Rei, o Rei-Menino, com a espada da mão! Tremam, todos! Traço o sino de Salomão...Tremia as peles – este é o destino de todos: o fim de morte vem à traição, em hora incerta, é de noite...Ninguém queria ser favoroso! Chegou a Morte – aconforme um que cá traz, um dessa banda do norte, eu ouvi – batendo tambor de guerra! Santo, santo, Deus dos Exércitos...A Morte: a caveira, de dia e de noite, festa na floresta, assombrando. A sorte do destino, Deus tinha marcado, ele com seus Doze! E o Rei, com os setes homens-guerreiros da História Sagrada, pelos caminhos, pelos ermos, morros a fora...Todos tremeram em si, viam o poder da caveira: era o fim do mundo. Ninguém tem tempo de se salvar, de chegar até a Lapinha de Belém, pé de manjedoura...Aceitem meu conselho, venham em minha companhia...Deus baixou as ordens, temos só de obedecer. É rico, é o pobre, o fidalgo, o vaqueiro e o soldado...Seja Caifás, seja Malaquias! E o fim é à traição. Olhem os prazos!”

Chega, frei Florduardo, acompanhado de frei Sinfrão, e põe fim ao sermão de Jubileu, que se ajoelha, recebe a bênção do frei e parte lançando mais alguns avisos da porta da Igreja. Depois, segue pela estrada, virando um ponto preto na linha do horizonte e desaparecendo.
Pedro vagava à toa, namorava uma moça aqui outra lá, só pensava na segunda-feira e retornar a sua casinha, sua lavoura. Já tinha encontrado com muitas pessoas conhecidas e perguntado sobre sua gente. Então, avista Laudelim Pulgapé que iria tocar no hotel do Sival para um estrangeiro, depois descansaria para a festa do Rosário.
Laudelim andava com uma tristeza vaga. O cantador convida o enxadeiro para irem ao cemitério em busca de inspiração. No caminho ao lado da matriz, encontram o Coletor, fazendo seus cálculos. Dizia que estava muito rico, era dono de fazendas, ouros, casas, boiadas. Era tudo mentira, mas o Coletor acreditava em sua própria mentira, acrescenta que precisava de um contador (guarda-livros) de confiança e logo agora vinha o Jubileu falar em fim de mundo!

Uma tana! Mistifo do homem...Por meu seguro...Onde é que já se viu?! O rei-menino...Bom, isso tem, na Festa: um rei menino, uma rainha menina, mais o Rei Congo e a Rainha Conga, que são os de próprio valor...O rei-menino, com a espada na mão! E o cinco-salmão: ara, só se vê disso, hoje em dia, é na bandeira do Divino, bordado rebordado...Baboseira! Morrer à traição, hora incerta, de tremer as peles...Doze é dúzia – isso é modo de falar? O que vale a gente é as leis...Quero ver, meu ouro. Não sou favoroso? Mais novecentos mil e novecentos e noventa e nove mil milhões, de milhões...A Morte – esconjuro, credo, vote vai, cã! Carece de prender esse Santos-Óleos, mandar guardar em hospícios...”

Pedro não deu qualquer atenção especial ao que dizia mais esse louco, Laudelim, no entanto, já dali quis voltar sem pensar mais em cemitério. Deu sinais de que o que buscaria lá tinha encontrado ali, inspiração para uma cantiga. Neste dia, Pedro almoçou no Ji Antonho. O compadre tinha duas filhas: Nelzi e Nilzi. Nelzi era a mais bonita, um dia que tivesse de se casar seria com ela. Nelzi pergunta se Pedro gosta de figurar, ele responde que não tinha graça, por seu tamanho. Então, Nelzi diz que gosta de pessoa alta, assenta bem em um homem...
Mais de três vezes, Pedro encontrou-se com Ivo, como se o estivesse vigiando.
As pessoas já estavam quase prontas para a festa. Haviam coroado a Maria-da-Fé para a rainha conga e o preto Zabelino, rei congo. A festa era de pretos e brancos, mais dos pretos; já que eram os donos da santa.
Pedro jantou no Tolendal, Florião estava lá, tinha chego de caminhão e comenta que encontrou com o Nomindome no caminho.
Era a hora da reza, o sino tinha repicado quando aparece Ivo dizendo que estava na hora deles rumarem para a festa e que os outros estavam esperando no beco do Saturnino. Pedro ia, mas sem vontade. Ivo faz com que beba um “acende-goela” de uma garrafa que está com ele e quando passam pelo Hotel do Sinval, escutam a viola de Laudelim.

O violão do Laudelim já desestremecia, ah, pinho assim na mão, prosa que é um reinado. E podiam entrar, também, caso quisessem. Queriam não, dali de fora mesmo, da janela, estavam em cômodo de escutar e ver, a demora deles era apoucada.”

Lá dentro estava o seo Alquiste que tomava cerveja e colocava no copo de Laudelim. Quando o estrangeiro avistou Ivo e Pedro, convidou-os entrar e servindo-lhes cerveja. Laudelim tocava o lundu da Laranjinha, Seo Alquiste anotava tudo na cadernetinha, após a tradução de Seo Jujuca. Em seguida, Laudelim pediu licença para tocar uma composição de sua autoria.

Era assim:


Quando o Rei era menino
já tinha espada na mão
e a bandeira do Divino
com o signo-de-salomão.
Mas Deus marcou seu destino:
de passar por traição.

Doze guerreiros somaram
pra servirem suas leis
- ganharam prendas de ouro
usaram nomes de reis.
Sete deles mais valiam:
dos doze eram um mais seis...

Mas, um dia, veio a Morte
vestida de Embaixador:
chegou da banda do norte
e com toque de tambor.
Disse ao Rei: - A tua sorte
pode mais que o teu valor?

- Essa caveira que eu vi
não possui nenhum poder!
- Grande Rei, nenhum de nós
escutou tambor bater...
Mas é só baixar as ordens
que havemos de obedecer.

- Meus soldados, minha gente,
esperem por mim aqui.
Vou à Lapa de Belém
pra saber que foi que ouvi.
E qual a sorte que é minha
desde a hora em que eu nasci...

- Não convém, oh Grande Rei,
juntar a noite como dia ...
- Não pedi vosso conselho,
peço a vossa companhia!
Meus sete bons cavaleiros
flor da minha fidalguia...

Um falou para os outros seis
e os sete com um pensamento:
- A sina do Rei é a morte,
temos de tomar assento...
Beijaram suas sete espadas,
produziram juramento.

A viagem foi de noite
por ser tempo de luar.
Os sete nada diziam
porque o Rei iam matar.
Mas o rei estava alegre
e começou a cantar...

- Escuta, Rei favoroso
nosso humilde parecer...

O restante da toada, o cantador narra em prosa.
Em síntese, o Rei acaba sendo atacado traiçoeiramente, defende-se, vencendo até o último traidor, e, em seguida, morre, sem antes de ver escrito a sua velha sina, nos altos do céu.
Todos se emocionam com a cantiga e aplaudiam freneticamente, inclusive Ivo.
Seo Alquist queria que traduzissem tudo para ele anotar, falava em inglês, francês, pouco de português, ajuntando termos em grego ou latim:

“Digno, como na saga de Hrolf filho de Helgi, Hrolf o Liberal, ainda menino quando Helgi morreu, ele subiu ao trono da Dinamarca...e nesse ardor, quando Pedro retorna a sala, Alquist exclama: kalòs kágathós (belo e bom)...O sertão tivesse mais uns assim. Brindaram e dizia: Escola!”

Laudelim recomeça a tocar e Ivo convida Pedro para saírem. Ivo continua a oferecer bebida a Pedro e quando o mesmo encontra um conhecido, Ivo pede para não convidar ninguém.
Na saída do vilarejo, na última casa sozinha, no Saco-dos-Cochos estavam presentes os companheiros: Jovelino, Martinho, João Lualino, Zé Azougue, Veneriano e o Hélio Dias Nemes. Seguem para a casa de luzinha no campo e pareciam afetuosos para com Pedro.

Entremente, ia cantando. Mal a mal, tinha aprendido uns pés-de-verso, aquela cantiga do Rei não saía do raso de sua ideia. Canta que canta, até o Ivo também, de falsete. E o Veneriano, que tinha bom ouvido, acompanhava, segundando. Era bonito, era bom. Pulgapé devia de ter vindo. Ao que se podia arejar, cabeça e o corpo ganhando em levezas. Gostava daquela música. Gostava de viver.”

Ivo insiste que Pedro entregue a sua garrucha, pois bebeu muito, para evitar distração. Pedro recusa e continuam a caminhar, cantando trechos da cantiga. De repente, Pedro começa a notar certos trechos especiais daquela cantiga.

“Vieram todos de parelha...O Rei...E em eles tremeram peles...A sina do Rei é avessa...O Rei dava, que estrambelhava – à espada: dava de gume, cota e prancha...Remeteram com a fortaleza...Aí então os Sete matavam o Rei, à traição...Traição...Caifás...Parecia coisa que tinha estado escutando aquilo a vida toda! Palpitava o errado. Traição? Ah, estava entendendo. Num pingo dum instante. Olhou aqueles, em redor. Sete? Pois não eram sete?! Estarreceu, no lugar. Soprou. – Doido, Pê? Que foi? Traição, de morte, o dano dos cachorros!
- Pois toma, Crônico! E puxou no Ivo um bofetão, com muito açoite.
Estavam na ponte do Ribeirão da Onça.
- E que foi, gente? Que foi?
Ele cresceu. Ouviu o que o Nemes e os outros gritavam:
- Pega, mata logo, gente, o bruto já desconfiou! Melhor matar logo...
- Aperra! Atira!
- Agarra!”

Valendo-se de seu enorme tamanho e incrível força, Pedro derrota os adversários, como o rei da cantiga, fora os que conseguem fugir. Jovelino geme debaixo dos pés do gigante e Ivo fica suspenso no ar, seguro pelas garras de Pedro.

Mas o Ivo agora arregalava os olhos, e tanto tremia, mole e sujo, que nem uma coisa, bichinho, um papa-coco ou um mocó. Com asco, então o depositou, o depôs, menino, no centro do chão.
Daí, com medo de crime, esquipou, mesmo com a noite, abriu grandes pernas. Mediu o mundo. Por tantas serras, pulando de estrela em estrela, até aos seus Gerais.”

A festa parece ter feito a sagração da morte e da vida em meio aos afazeres cotidianos, da viagem. Durante a festa, o Recado do Morro finalmente foi percebido, ao mesmo tempo em que se cumpria. No final do conto, Ivo Crônico muda a cronologia. Transfere a festa de Domingo para sábado, que é seu dia:

Essa mudança na data da festa, ou seja, na cronologia, é bastante significativa, uma vez que o sábado, dia regido por Saturno, é o dia de Ivo, da execução dos seus planos de morte e traição. Pedro Orósio vai ter que se haver com os seus aspectos negativos, que trazem os seus companheiros na forma de traição e morte por ciúmes. Isso vai exigir de Pedro Orósio uma contração dele próprio e do recado destinado a ele, uma vez que é nesse dia, que todas as mensagens dispersas do recado vão ser sintetizadas, contraídas em forma de música, possibilitando que o venusiano Pê-Boi a entenda. Além disso, a briga vai ocorrer no Beco do Saturnino.”

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A epígrafe usada está em “Corpo de Baile” (colocada, na edição do livro que tem três volumes, naquele que contém “O Recado do Morro”), trata-se de um trecho de Plotino que cita Platão referindo-se à criação e ordenação do cosmos. Segundo a narrativa do “Timeu”, diálogo de Platão que dá conta da formação do cosmos (PLATÃO, 2001), este é tirado do caos pré-existente, transformado, o cosmos seria uma cópia a partir do modelo da eternidade - a ideia do bem. O cosmos, para Platão, é cópia da eternidade e sendo cópia não é a própria eternidade. Está no tempo, dividido entre dois círculos básicos, que se articulam e que possuem movimentos diferentes: o movimento do “Mesmo” e o movimento do “Outro”. O primeiro é movimento em torno de si mesmo, sobre si mesmo e no mesmo lugar. O segundo sai de si e volta a si em movimento circular, divido em sete esferas: do Sol, da Lua, de Marte, de Vênus, de Júpiter, de Mercúrio e de Saturno. O movimento do “Mesmo” é o que mais próximo está do modelo e é captado somente pelo pensamento; é aquele das estrelas fixas. O movimento do “Outro” é sensível, captado pelos sentidos do corpo: é aquele dos planetas, dos "viajantes". Com a criação do céu, isto é, das estrelas fixas e dos planetas está criado o tempo, constituído por esses dois movimentos. Ao completar a viagem, os períodos, os oito círculos de movimentos desencontrados encontram-se no choque da consciência da morte /transformação, na consciência de si. Com isto o corpo e a alma integram-se e a totalidade animada, imaginada, pensada, liberta-se e regressa ao modelo de onde saiu. Regressa à origem - à sua estrela-, saltando pelas estrelas fixas, que são a imagem mais aproximada do Modelo eterno.
Fica evidente a correspondência desses períodos em vários contextos da narrativa. Um deles é a imagem fixa das sete fazendas cujos nomes são planetários (as fazendas não se movem; pode-se entender que são estrelas fixas), e outro é a imagem dos sete viajantes, amigos de Pedro Orósio, que também possuem nomes planetários e que se movem em torno das fazendas.
Pedro, que se inclinava para a terra, salta, no final da narrativa, para o espírito, para a contemplação do Modelo: "Daí com medo de crime, esquipou, mesmo com a noite, abriu grandes pernas. Mediu o mundo. Por tantas serras, pulando de estrela em estrela, até os seus Gerais." (ROSA, 2001a, p.105)
São sete as personagens envolvidas com a transmissão do recado emitido pelo morro. O número sete representa a união do céu com a terra, pois é a somatória de 4, que representa o humano, com 3, que representa o divino.
No final da narrativa, embora não se prove que o morro falou, verifica-se que o recado estava certo: havia uma ameaça de traição, que pode ser evitada, porque Pedro ligou os elementos do recado, através da letra da cantiga aos do momento da cilada.
É importante notar que o conto retrata o desdobramento de uma história, contada e recontada sete vezes por pessoas consideradas loucas, misteriosas ou de esquerdas ao longo de uma semana (7 dias) por sete etapas: inicialmente pelo Gorgulho, que ouviu o recado do morro; depois seu irmão Catraz que conta para o menino Joãozezim; em seguida o menino para o Guégue que ninguém deu importância; para depois ser transmitida para o Jubileu, Santos-Óleos ou Nominedomine e, finalmente para o Coletor que inspira o cantor Laudelim, para que assim, através de sua composição, alerta Pedro Orósio do perigo de traição.
No conto "O recado do morro", é visível a imagem de centro e circunferência, ligada ao movimento dos planetas. Neste conto, temos a representação da terra como o centro e os seus viajantes/dançarinos como a circunferência que se move.
Pedro com pedra, Orósio como oros (montanha), também conhecido como Pê-boi, pé na terra. O que acontece em cada fazenda tem a ver com cada deus dominante (beleza, festa, guerra, comércio / mensagem, poder e fartura, amor, tempo). Mas a terra escapa. O recado é decifrado por Pedrão Chãbergo (chão e berg, rocha em alemão).

Aos quais, sol a sol e val a val, mapeados por modos e caminhos tortuosos, nas principais tinham sido, rol: a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras - fazenda com espaço de casarão e sobrefartura: a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro - aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do córrego da capivara - onde acharam compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita - onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de dúzia de pessoas: o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando na cabeceira do Córrego da Onça para a do Córrego do Medo - lá o Pedro Orósio quase teve de aceitar ajuizada briga com um campeiro morro-vermelhano; e, assaz, passado o São Francisco, o Apolinário na vertente do Formoso - ali já eram os campos - gerais, dentro do Sol.” (ROSA, 2001a, p. 53)

A linguagem astrológica se manifesta através de um código que evoca símbolos e, como símbolo, representa qualidades complexas. Essas qualidades podem ser positivas ou negativas. Na maioria das vezes, trazem essas duas qualidades compreendidas num todo, como se tivesse que existir o mal para o fortalecimento do bem. É aí que entram os companheiros de Pedro Orósio evocando essa imagem negativa do código. Na verdade, através deles, Pedro Orósio toma consciência do negativo numa inspiração súbita (Mercúrio) que antes foi bastante ruminada (Touro). Seus companheiros querem matá-lo por ciúmes, pois ele rouba todas as moças. É importante observar que, de acordo com Victoria (2000), Mercúrio, no seu aspecto negativo, é associado aos ladrões, aos ladinos. Então, é através deles que Pedro Orósio entra em contato com o seu lado negativo. Segundo Calvino (1990):
Mercúrio, de pés alados, leve e aéreo, hábil, e ágil, flexível e desenvolto “(...) Na sabedoria antiga, na qual microcosmo e macrocosmo se refletem nas correspondências entre psicologia e astrologia, entre humores, temperamentos, planetas, constelações, as leis que regem mercúrio são as mais instáveis e oscilantes. Mas segundo a opinião mais difundida, o temperamento influenciado por Mercúrio (de inclinação para as trocas, o comércio e a destreza) contrapõe-se ao temperamento influenciado por Saturno (tendente ao melancólico, ao solitário, ao contemplativo).” (CALVINO, 1990, p. 64)

Pedro Orósio, de certa forma, se contrapõe ao Ivo Crônico que na narrativa é quem representa o tempo e é quem dá os limites, uma vez que é ele que fica atrás da comitiva cerceando os bois, enquanto que Pedro Orósio é quem inicia o movimento e abre os caminhos.
No entanto, Pedro Orósio é um homem bom. Na verdade, ele tem tanto de bem quanto de mal; os seus companheiros fazem com que ele tenha de se haver com o seu lado negativo. A partir disso, Pedro então se transforma. Nessa viagem para o interior, entra em contato consigo mesmo em todos os seus aspectos; o direito e o esquerdo. Era sábado de lua cheia e Pedro Orósio estava no Beco na saída para o Saco-dos-Cochos (fazenda de Seo Saturnino). O beco evoca a imagem de contração e limites, usada na linguagem astrológica. Pedro, por mais magnânimo belo e forte que seja, tem de se haver com os seus próprios limites, tem de os vencer através do esforço e da aceitação. Sábado corresponde também a Saturno, aliás, no conto existe a correspondência entre os dias da semana, os planetas e os acontecimentos que se dão análogos às características desses. Em português não existe quase essa correspondência entre os planetas e os dias da semana, mas em outras línguas, como o francês e o italiano, essa correspondência ainda pode ser vista: Sábato em italiano e Samedi em francês se correspondem com Sábado em português, que é dia de Saturno.