quarta-feira, 22 de junho de 2011

ARCADISMO EM PORTUGAL: BOCAGE E ANÁLISE DE SUA OBRA


Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar co sacrílego gigante:


Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:


Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:


Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE, BOCAGE, como o povo o clamava, ou MANUEL MARIA, como era conhecido pelos mais íntimos, se tornou um dos poetas mais importantes do século XVIII e, apesar de ter deixado fama de grande satírico e improvisador, sua obra o coloca como um dos melhores sonetistas líricos de toda a literatura portuguesa.
Nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a nossa Marinha, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária, que um ambiente familiar propício incentivou.

 
O contato com a poesia veio precocemente: O próprio poeta reconhece que: “Versos balbuciei com a voz da infância”.

Perdeu a mãe aos dez anos e desde cedo, mostrou-se um jovem de temperamento exaltado. Aos 14 anos, em 1779, parte para Lisboa para Lisboa onde vai completar estudos na Academia Real da Marinha. Em pouco tempo dedica-se mais à boemia do que à disciplina da Academia.
Aos 16 anos, o temperamento rebelde manifesta-se mais uma vez: foge para alistar-se como soldado; mas não consegue se adaptar à vida do quartel e resolve mudar-se para a Marinha da Guerra, dois anos depois. Em 1786, ainda na Marinha, parte em viagem para as Índias, passando pelo Rio de Janeiro, tendo vivido na Rua das Violas, no sítio da Ilha Seca. Durante algum tempo, alimentou a ideia de morar no Brasil. De sua estada na Colônia resultou na admiração que devotou ao vice-rei Luís de Vasconcelos Sousa Veiga Caminha e Faro.
Viajou por quatro anos por Goa, Macau e Cantão, revelando grande desajustamento com relação ao clima, a vaidade e a cultura local, retratados em alguns sonetos críticos demonstrando sua insatisfação à sua estada. No Oriente, duas presenças não o abandonam: Gertrúria e Camões.
Os anseios de glória e fama evocam a cada instante os versos de “Os Lusíadas”, que Bocage trazia de memória. A honra e a própria sorte levam-no à proximidade com os heróis portugueses, cujos “nomes ressoam além dos astros”.
Regressou a Portugal graças à ajuda de amigos, em 1790. Em Lisboa, frequentou os grupos intelectuais que defendiam as ideias inovadoras da Revolução Francesa contrastando com a estagnação da sociedade portuguesa.
Em seu país natal, encontra o grande amor de sua vida, a Gertrúria, a musa inspiradora de seus poemas, casada com seu irmão, Gil Francisco Du Bocage.

SONETO XXIV

Da pérfida Gertrúria o juramento
Parece-me que estou inda escutando,
E que inda ao som da voz suave e brando
Encolhe as asas, de encantado, o vento.


No vasto, infatigável pensamento
Os mimos da perjura estou notando...
Eis Amor, eis as Graças festejando
Dos ternos votos o feliz momento.

Mas, Ah!...Da minha rápida alegria
Para que acendes mais as vivas cores,
Lisonjeiro pincel da fantasia?

Basta, cega paixão, loucos amores;
Esqueçam-se os prazeres de algum dia,
Tão belos, tão duráveis como as flores.

Aqui, os temas clássicos da fugacidade do tempo, da incerteza da vida e da inconstância do amor misturam-se às antecipações românticas do sentimentalismo desenfreado.

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da Fortuna errante,
Até dos mais desprezíveis desprezado;


Da fagueira Esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.


Mas ah! Que bem maior, se contra a Sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!


Vem, pois, ó Nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!

Esse soneto apresenta claro indício pré-romântico e traduz a dolorosa consciência do fracasso.
Ainda em 1790, ingressa na “Nova Arcádia” ou Academia de Belas-Letras, que, sob a liderança do brasileiro e mulato Pe. Domingos Caldas Barbosa (“Lereno”) e José Agostinho de Macedo (“Elmiro Tagídeo”), tentava reconstituir a Arcádia Lusitana, extinta por inanição desde 1776.
Bocage adotou o pseudônimo arcádico de “Elmano Sadino” (Elmano é anagrama de Manoel e Sadino é derivado do rio Sado, que corta Setúbal, terra natal do Poeta).
As reuniões da Nova Arcádia, realizadas na casa do conde de Pombeiro, às quartas-feiras, eram denominadas “As Quartas-Feiras de Lereno”.
Bocage, inicialmente, as frequentou comportadamente, porém conflitos constantes com os membros da Arcádia o afastam rapidamente da agremiação.

UMA SESSÃO DA ACADEMIA DE BELAS-LETRAS DE LISBOA OU NOVA ARCÁDIA

Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.


Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.


Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.


Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras.

Nesse poema Bocage ao referir-se a rainha Ginga, remete a Ana de Sousa, rainha negra de Angola, que moveu guerra contra Portugal. No verso, Bocage pretende ofender o mulato Caldas Barbosa, brasileiro e “neto” de uma negra.
Em 1791, publicou o seu primeiro volume das “Rimas”, recebido com aplauso por alguns e desprezo por outros, ao qual se seguiram mais dois, respectivamente em 1798 e 1804.


Em 1797, é preso acusado de ofensas críticas à monarquia e à Igreja. Por essa época, o Poeta interessa-se pela Revolução Francesa, como se comprova nos versos a seguir:

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?


Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!


Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.


Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!

A aspiração do liberalismo, excitada pela Revolução Francesa e pela consolidação da República em 1797, é explicitada claramente por Bocage nesse soneto.
Num primeiro momento, sentindo que é chegada á hora da redenção, o sujeito poético, apostrofando a Liberdade, numa sequência de perguntas de retórica, questiona-a sobre onde se encontra, quem a impede e porque não raia já em Portugal; para em seguida, implorar à Liberdade o seu auxílio, o seu socorro e finalmente, no 2º terceto, o sujeito poético faz uma espécie de profissão de fé em relação ao caráter divino da Liberdade, proclamando-a “Mãe do gênio e prazer”.
No entanto, a causa principal de sua prisão é indicada por um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".


PAVOROSA ILUSÃO DA ETERNIDADE


Pavorosa ilusão da eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema da política opressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestável crença
Que envenenas delicias inocentes,

Tais como aquelas que no céu se fingem.
Fúrias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chama;
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror terrível quadro
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem de um Deus, quando quer, faz um tirano.

Nesse texto percebe-se a ousada crítica ao poder e a visão lúcida da íntima relação que existia entre os dogmas da Igreja e o poder absolutista dos reis. O inferno é concebido como um “freio” que os déspotas e tiranos inventaram para controlar a “boçal credulidade”. Por essa ideias, Bocage foi condenado como herege e blasfemo.
Bocage passou pelos tribunais do Santo Ofício da Inquisição e foi encarcerado no Limoeiro e por outros menos severos, acusado de ser autor de papéis sediciosos contra a segurança do Estado.
Depois de inúmeros pedidos e retratações, em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado".
Na clausura dirigida pelos oratorianos, Bocage parece ter encontra um ambiente de calma e de trabalho intelectual que facilitou a sua conversão.
Cansado, acaba por confessar suas culpas, renegar sua vida de agitador e seus antigos escritos e converte-se à religião. Naquele ano foi finalmente libertado.
Referindo-se aos “distintos talentos” do Poeta, diz o Príncipe Regente que “se espera sirva a Deus Nosso Senhor, a Sua Majestade e ao Estado, e, útil a si, consolação aos verdadeiros amigos e parentes, que o vejam entrar em si verdadeiramente, abandonando todos os vícios e prostituições em que vivia escandalosamente”.
Os anos seguintes, que precederam a sua morte, foram bem dolorosos para o infeliz poeta, agitados de terrores e ansiedades, vendo-se pobre e doente.
Nesses últimos anos, o poeta vive com sua irmã e uma sobrinha, sustentando-as com traduções de livros didáticos. Para sobreviver, inclusive, teve de valer-se de um amigo (José Pedro da Silva) que vendia, nas ruas de Lisboa, suas derradeiras composições.
É nesta fase de sua vida que ocorre a áspera polêmica como o padre José Agostinho de Macedo, o agressivo e impiedoso Pe. Lagosta, contra quem Bocage desfere o famoso poema satírico “A pena de talião”.
O motivo inicial da polêmica travada como José Agostinho de Macedo foi á tradução que o ex-padre havia feito da “Tebaida”, de Tácito, na qual Bocage apontou algumas incorreções, criticando também a opinião do tradutor, que julgava Ovídio superior a Virgílio. Macedo revida, subestimando a tradução bocagiana de “As metamorfoses”, do mesmo Ovídio.
Em 1799, Bocage publicou a segunda edição das “Rimas”, confirmando as excepcionais qualidades do poeta lírico. Contudo, a decadência física, agravada pela miséria material e pelo desequilíbrio sentimental, encaminha o Poeta para o seu fim.
Em 1804, ainda publica o terceiro volume das “Rimas”, já então definitivamente consagrado.
No ano seguinte, pouco antes de sua morte, um amigo publica o folheto “Os improvisos de Bocage na sua mui perigosa enfermidade” e, em seguida, os “Novos improvisos”, juntando os poemas que inimigos e rivais reconciliados com Bocage, escreveram em louvor do Poeta e esse mesmo amigo, José Pedro da Silva encarregou-se de vender os dois folhetos nas ruas de Lisboa, para obter recursos de que o doente necessitava.
Em 1805, com 40 anos, faleceu, vítima de um aneurisma, na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral.

“Já Bocage não sou...À cova escura!”

O mesmo Bocage que se converte no final de sua vida, pede que se lhe dê o seguinte epitáfio:


EPIFÁFIO DE BOCAGE


Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:


Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:


Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:


"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."

II – OBRAS:

  • “Rimas”, primeira série (1791), segunda série (1799), terceira série (1804), quarta e quinta séries (1813) e sexta série (1842).
  • “Improvisos” (1805).
  • “Coleção de novos improvisos” (1805).
  • “Poesias de Manuel M.B. du Bocage (1853), obra reunida por Inocêncio Francisco da Silva e composta pelos seis volumes das “Rimas”, acrescidos de inéditos e notas explicativas, além de um estudo biográfico e literário de L.A.Rebelo da Silva.
  • “Poesias eróticas, burlescas e satíricas” (1854, Bruxelas).
  • “Obras poéticas”, edição em oito volumes, organizada por Teófilo Braga (1875-1876, Porto).
  • “Parnaso bocagiano – poesias eróticas, burlescas e satíricas” (1932, Lisboa).
  • “Opera omnia – obra completa”, edição dirigida por Hernâni Cidade (1969, Lisboa).
A produção poética de Bocage abrange mais de duas mil páginas, em grande parte coligidas postumamente. É inevitável haver discrepâncias entre as edições, além de algumas dúvidas sobre a autoria de certos poemas.

III – CARACTERÍSTICAS: “Eu sou tão infeliz, que isso me basta.”


“Aí o cerne da poesia bocagiana: confissão dolorosa de uma vida que, presa às convenções, busca libertar-se projetando o “eu” para fora de si: tal conflito se manifesta, esteticamente, na revisão dos valores básicos da atitude poética: ou o autor lança mão da tradição clássica que o precede, aceitando uma concepção absolutista do mundo, ou atribui um papel todo especial ao “eu”. Significa, dessa perspectiva, adotar forma rígida para um conteúdo revolucionário.”


Álvaro Cardoso Gomes, introdução a “Os Amores”, de Bocage.




 COMO O POETA SE RETRATA E JULGA A SUA OBRA


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,


Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Esse soneto consta na edição de 1804, foi revisado pelo próprio Poeta, atenuando os versos 11 e 14. Essa tendência à inconstância traduz o individualismo romântico, que tornará Bocage cada vez mais incompatível com a disciplina doméstica e social da sociedade clássica.
Na versão original do 11° verso constava: “Inimigo de hipócritas e frades” e no verso 14°: “Num dia em que se achou cagando ao vento”.

A – POETA ÁRCADE OU NEOCLÁSSICO:

É natural que o indivíduo, criado sob a ideias do Iluminismo, do Enciclopedismo e da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, se rebelasse contra essa disciplina, que o reduzia a figura decorativa, a apêndice inútil do mundo familiar. Esse inconformismo iluminista atirava os jovens de sensibilidade mais aguda às atitudes de revolta, ao desregramento ou ao conflito interior e com Bocage não foi diferente.
Bocage era um poeta, não um homem de ação, e a repulsa ao despotismo e o culto da liberdade convergiram com seus impulsos pessoais. Era poeta emotivo, avesso à disciplina e à coerência lógica. Daí a inclinação para a vida desregrada, para á boêmia e para a aventura, às vezes interrompidas por fortes abalos afetivos e existenciais.
Bocage, nessa época, era conhecido pela eloquência de seus improvisos. Vivendo ás custas das casas nobres, à maneira dos bobos da corte da Idade Média, ganhou popularidade e obteve alguns privilégios oficiais para si para seus amigos. Para tanto, não se recusará a seguir o modismo literário do século em que viveu.
De toda a poesia produzida por Bocage, pode-se facilmente identificar, na sua fase inicial, uma acomodação aos clichês árcades: bucolismo, pastoralismo, carpe diem, fugere urbem, aurea mediocritas dentre outros, presa à imitação servil dos modelos e motivos clássicos, revisitados pelos rígidos preceitos de Boileau e Metastásio.
Fiel às lições dos mestres gregos e latinos (Píndaro, Horácio, Ovídio, Virgílio), já traduzidos e adaptados à sensibilidade da Europa setecentista, os poemas tipicamente árcades ou neoclássicos de Bocage abusam das alegorias mitológicas: os ventos não são ventos, são Zéfiros, Éolos ou Favônios; a noite não é noite, mas a “deusa que esmalta o céu de estrelas”, a “morada de Erebo”; o dia é o “domínio de Febo”; o sonho não é sonho, mas “dom de Morfeu”. A realidade traduzida em tais termos soa estranha e artificial. Era uma poesia acadêmica, feita pelos e para os iniciados nos ambientes neoclássicos, pois só eles próprios e os nobres que o financiavam haviam estudado Latim, Grego, História Antiga, Mitologia, Retórica Clássica etc. Vocábulos raros e requintados visam revestir a poesia arcádica de um brilho clássico e de uma erudição latinizante.

TEXTO I

Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bom que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?


Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes.
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.


Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares, sussurrando, gira:


Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

O soneto está revestido de linguagem clássica: “flautas...cadentes” significa “harmoniosas”, “musicalmente concertadas”; “inocentes” quer dizer “inofensivas”; “vagas borboletas” tem o sentido de borboletas “errantes” ou “vagueantes”; “ósculos ardentes” equivale a “beijos sensuais”.
No segundo terceto, os verbos no pretérito mais que perfeito (“vira” e “causara”) correspondem, no português contemporâneo, ao imperfeito do subjuntivo (“se eu não te visse”), e ao futuro do pretérito ou condicional (“mais tristeza...me causaria”).
A tendência classicizante, já revelada pelo vocabulário e pela construção gramatical, é reforçada pelas alusões aos Zéfiros (ventos), e aos Amores (personificação pagã do amor e da sensualidade) e ao nome poético de Marília (figura convencional da pastora, também utilizada pelo poeta Tomás Antônio Gonzaga).
Observe que, dentro do espírito clássico, a adjetivação tende mais ao universal e ao genérico, do que ao individual e ao característico: as “inocentes”, as “vagas” borboletas; “alegre” campo; manhã “clara”; de “mil cores”. O mesmo ocorre com as estas alusões: “de planta em planta”, “naquele arbusto”, “ora nas folhas, ora nos ares”, ou nas enunciações desprovidas de determinação individualizante: “as flores”, “o rouxinol”, “a abelhinha”.
O soneto é constituído pela representação de um ambiente pastoril e campestre, de uma paisagem composta de elementos reais da Natureza, que as próprias personificações não diminuem, antes fazem avultar, mas que são habilmente considerados coexistentes, e selecionados e dispostos em quadro. Este passa do mais particular (plantas, Tejo, Zéfiros etc.) ao mais geral (campo, manhã), resume-se conglobalmente na palavra tudo e vai contrapor-se à ideia e sentimento final do soneto, ao serviço dos quais todo ele fora composto: importância exclusiva, para a visão e valorização da Natureza, da presença da mulher amada.
Nesse soneto encontram-se tendências madrigalescas e de sugestão petrarquista, juntamente com a sensorialidade e o paganismo erótico levemente sugerido nos versos quinto e sexto. Mas uma nota de sentimentalidade romântica se insinua, quer na breve anotação “o rouxinol suspira” e na visão do último verso.
Atente-se, por outro lado, em que a atitude descritiva do Poeta, intencionalmente valorizante do quadro campestre, bucólico e mitológico, e por isso mesmo idealizado e um tanto convencional, é servida por valores formais claramente sensíveis.
Observe-se o predomínio de verbos intransitivos, mais susceptíveis de exprimir a duração e a estabilidade das ações ou dos estados (soar, sorrir-se, brincar, suspirar, parar, girar), em oposição aos verbos transitivos dos últimos versos, que marcam a mutabilidade e a incidência das sensações e emoções. Note-se o uso da frase nominal no sétimo e oitavos versos, concisamente narrativa, e das do verso duodécimo, exclamativamente descritivas.
Observe-se ainda, que o soneto obedece às fórmulas tradicionais de composição clássica e que revela tanta segurança como variedade de feitura. Não só as expressões exclamativas são entrecortadas de uma interrogação e de frases descritivas, não só os imperativos se repetem a patentear interesse e a revelar colóquio afetivo (“Olha”, Marília...”Olha” o Tejo...”Olha”, não sentes), como também uma quase completa simetria de construção se registra nos versos 10° e 11°, a comunicar-nos duas fases paralelas e opostas da atividade das abelhas (Ora nas folhas...Ora nos ares). As próprias exclamações simultaneamente paralelas e dispostas em quiasmo do verso 12° (Que alegre campo! Que manhã tão clara!) ajudam a intensificar e transmitir melhor a emoção festiva até aí sugerida, para mais vincada e adversativamente se lhe opor a hipótese exclamativa e contrastante dos dois últimos versos.
Registre-se ainda a hábil combinação do verso heróico com o verso sáfico, utilizado este em pontos de ritmo por isso mesmo mais entrecortado, o que neste caso auxilia a expressividade do pensamento (v.2°), da narração (vv. 9° a 11°) ou do descritivo (v.12°).
Conclusão: trata-se de um soneto pictural, descritivo, de Natureza festiva e deleitosa, composta em quadro bucólico, luminoso e gracioso, de cores e contornos idealizados sobre o real, onde aflora a sensualidade amorosa e se patenteia uma sensorialidade externa requintada, cheia de elegância e de bom gosto de imaginação plástica; fecho madrigalesco e petrarquista, acrescido de sugestão direta camoniana; frases exclamativas que revelam gosto de viver e satisfação amorosa, levemente encrespada por simples hipótese de ausência. É um soneto típico do século XVIII, na sua vertente árcade, composto sobre a moldura convencional do locus amoenus (lugares aprazíveis), com aproximações do estilo rococó (amenidade, frivolidade, afetação, sensualidade e ênfase no gracioso) e uma sugestiva aproximação do romantismo temperamental da fase madura de Bocage.


O ledo passarinho, que gorjeia
D'alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:


O Sol, que o céu diáfano passeia,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da Aurora alegre e pura,
A rosa, que entre os Zéfiros ondeia;


A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glorias que consigo,
A deusa das paixões, e de Cítera:


Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
“Nada se pode comparar contigo.”

Citera: ilha do Mediterrâneo. Segundo a mitologia grega, Vênus lá teria nascido.

Nos versos acima, o eu lírico exprimi-se dentro do convencionalismo árcade: o locus amoenus bucólico; o mundo visto por meio de alegorias que personalizam as forças físicas e espirituais da Natureza, como entre os antigos poetas gregos e latinos, inclusive recorrendo à mitologia (Aurora, Zéfiro, Primavera, Citera) e as maiúsculas alegorizantes; o tema clássico como sustentação do poema (a comparação da mulher com a natureza e sua vitória). Poesia rigidamente organizada pela razão que equilibra os elementos da forma e os sentimentos.

TEXTO II

Ó tranças, de que Amor prisão me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!


Ó ledos olhos, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!


Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!


Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois?... Sois de Vênus? - É mentira;
Sois de Marília, sois de meus amores.

Mais um poema que manifesta o convencionalismo, a praxe poética. A começar pela identidade das personagens, o texto afasta-se do real e do individual: tanto o Poeta como seus interlocutores, os amigos e amadas aos quais se dirigem os versos, são disfarçados por pseudônimos que sugerem um “ar” pastoril e bucólico. Assim, Bocage é Elmano; suas amadas são Marílias, Nises, Gertrúrias e Eulinas; seus amigos são Sadinos, Tajanos etc.

TEXTO III


 A loira Fílis, na estação das flores,
Comigo passeou por este prado
Mil vezes; por sinal, trazia ao lado
As Graças, os Prazeres e os Amores.


Quantos mimos então, quantos favores,
Que inocente afeição, que puro agrado
Me não viram gozar (oh doce estado!)
Mordendo-se de inveja, os mais pastores!


Porém, segundo o feminil costume,
Já Fílis se esqueceu do amor mais terno,
E com Jônio se ri de meu queixume.


Ah! Se nos corações fosses eterno,
Tormento abrasador, negro Ciúme,
Serias tão cruel como os do Inferno!

Observe neste soneto que a pastoralização do cenário ultrapassa a simples utilização de pseudônimos pastoris (“Fílis” e “Jônio”). Reforça-se na menção genérica a “pastores” (v.8°) e na ambiência bucólica e pastoril (“estação das flores”, “prado”).
As “Graças” são entidades mitológicas que simbolizam a Graça, a Beleza e a Alegria. No último terceto, expressões como “Tormento abrasador”, “negro ciúme” e a comparação do verso final traduzem uma intensidade e um vocabulário já denunciadores de uma índole romântica.

TEXTO VI

Se é doce no recente, ameno estio,
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;


Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
Dentre os aromas de pomar sombrio;


Se é doce mares, céus, ver anilados
Pela quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados;


Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amores, melhor que a vida.

Observe que, sob a armadura neoclássica e, às vezes, imerso no gosto barroco-gongórico, pelo arranjo meio artificial das anáforas, das construções simétricas e das antíteses, esses “entraves” não impedem a intensidade comunicativa da dicção do Poeta, nem impedem que rebente o fervor emocional dum temperamento da mais explosiva veemência romântica.
As duas primeiras estrofes apresentam vários elementos que, em conjunto, delineiam uma paisagem tipicamente arcádica: é verão, o campo é florido, o rio é calmo, os pássaros voam e cantam. Também é Arcádia a sugestão pastoril da figura feminina, engrinaldada de flores. O racionalismo neoclássico fica sugerido pela construção hipotética “Se é...”, que inicia as três primeiras estrofes. Muito embora se abra com a mesma expressão racional de argumentação (“Se é doce, mares, céus...”), e continue a descrever uma paisagem tranquila e harmoniosa, o primeiro terceto começa por sugerir um paralelismo entre os sentimentos e a natureza (“desperta os corações, floreia os prados”), o que já pode ser considerada uma característica pré-romântica.
Apesar de revestido da delicadeza tradicionalmente aliada às cenas de amores pastoris, o vocabulário com que Bocage, na última estrofe, alude ao amor, recobre o amor/sentimento de traços físicos e concretos, sugerindo uma relação de intimidade entre os amantes. Reforça isto a reiteração, no verso final, da palavra morte que, neste contexto, sugere a completa e mútua satisfação amorosa.

B. O POETA PRÉ-ROMÂNTICO:

“O que o distingue melhor é a matéria psicológica que traz pela primeira vez à poesia portuguesa: o sentimento agudo da personalidade, o horror do aniquilamento na morte. Tal egotismo percebe-se ainda na maneira abstrata e retórica com que, em nome da Razão, se revolta contra a humilhação da dependência e contra o despotismo; no gosto do fúnebre e do noturno, e nos clamores não menos retóricos de ciúme, de blasfêmia ou contrição.”

Antônio José Saraiva e Óscar Lopes, “História da literatura portuguesa”

A poesia bucólica e encomiástica, destinada à louvação dos poderosos, são os dois aspectos menos interessantes da poética de Bocage. A celebração de natalícios e casamentos, a louvação fúnebre de algum morto ilustre, o elogio a algum poderoso promovido a posto importante e a bajulação dos poderosos são modos de produção literária típicos do século XVIII, quando os poetas, congregados em academias, dependiam do financiamento dos ricos e influentes, aos quais, em troca, cumpriam dedicar versos elogiosos.
Um dos eixos fundamentais da evolução poética de Bocage é o da oposição ou justaposição da atitude racionalizadora, contida e clássica, contraposta à índole do Poeta, individualista, egocêntrica, impulsiva. Essa tensão, da qual Bocage tinha nítida consciência, ofereceu-lhe inúmeras ocasiões para, através da metapoesia, refletir sobre as fronteiras desse individualismo.
É comum dividir a obra de Bocage em duas fases: a primeira dentro do convencionalismo racionalista árcade, e a segunda, sentimental e pré-romântica, como se essa trajetória tivesse sido uniforme, constante e crescente. Esse artificialismo didático traz embutido um conhecido juízo de valor, que recrimina o Bocage maldito, satírico, anticlerical, para supervalorizar os versos de arrependimento, as apóstrofes a Deus e a poesia noturnal. Contudo, é forçoso admitir que Bocage é suficientemente grande para ser, ao mesmo tempo e com a mesma propriedade, o poeta maldito, o pastor bucólico e o romântico noturno. Muito do Bocage romântico aflora no Bocage árcade, e muito do árcade sobrevive no romântico. Por isso, optou-se por um meio-termo: Bocage é pré-romântico. Se, de um lado, traz para a sua poesia o mundo pessoal e subjetivo da paixão amorosa, do sofrimento e da morte, por outro, sobrevive á forma clássica do soneto, com indisfarçável ressonância de Camões. Algumas vezes a rigidez da métrica e da rima e as alusões mitológicas se chocam com as paixões e ânsias.
Entre as características mais tipicamente românticas que podemos identificar nos temas de seus poemas, estão as seguintes:

  • O amor em Bocage aparece como um sentimento violento e não suave, como no Arcadismo. Atravessado pela desconfiança, pelo ciúme e pela traição, o amor projeta o Poeta numa solidão insatisfeita e irrequieta, atormentada e sofrida.
  • O locus amoenus dos árcades é substituído pelo locus horrendus dos românticos. A natureza em fúria, tumultuada, retratando os estados tormentosos da alma do poeta, substitui a natureza convencional e ornamental dos neoclássicos.
  • O culto da noite frequenta a obra de Bocage. Ela é lugar de refúgio da imaginação poética e é também a hora do dia em que o homem diurno, guiado pela luz da razão, se deixa substituir pelo homem noturno, guiado pelos impulsos profundos e obscuros do desejo irracional e inconsciente.
  • O tédio da vida, aquilo que os ingleses chamariam de “spleen” e os franceses de “ennui”, derivado da vida insatisfatória e cheia de sofrimento, leva o poeta à vontade de morrer, ao desejo de dissolução ou de fuga da realidade por meio do sonho, da fantasia, da embriaguez, dos excessos da vida dos sentidos e, no limite, da morte.
  • A poesia de Bocage realiza-se basicamente na primeira pessoa do discurso. É egotista, sentimental e confessional.
  • A ironia, atitude tão fundamental da alma romântica, é um instrumento fundamental na poesia de Bocage.
  • A crítica às instituições sociais seria, ao lado do escapismo, e num sentido inverso ao dessa atitude, uma das respostas da atitude romântica ao mundo insatisfatório.
TEXTO I

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores;
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade;
Que elas buscam piedade, e não louvores;
Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração dos seus favores;
E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Este soneto pode se analisado como uma profissão de fé, em que Bocage expõe, em posição metalinguística, suas ideias e sentimentos em relação à sua poesia. Assume uma posição de humildade diante de seus leitores. Desculpa-se pelos versos de “sentimento” e alega que os versos que aparentam alegria são fruto do Fingimento e da Dependência.

Fica implícita a confissão da índole romântica do Poeta na alusão a que a obediência às convenções é uma inversão violenta da sua natural inclinação para a expressão sentimental de seus suspiros, lágrimas e amores.

TEXTO II

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza, e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:
Vede a luz, não busqueis, desesperados,
No mundo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:
Não vos inspire, ó versos, covardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:
Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.

O Poeta expressa uma autocrítica, aparentemente arrependido de sua produção satírica e obscena. A crítica moralista superestima esses versos, para negar o Poeta Maldito e realçar o Poeta Cristão, temente ao rei e a Deus.

Esses versos patenteiam o reconhecimento de que o impulso pessoal, mergulhado no sofrimento romântico, é incoercível, ainda que o Poeta reconheça nisso uma “falha”, que faz seus versos “desentoados”, “sem arte”, “sem beleza”.

Há certa autocomiseração tipicamente romântica: “um peito de gemer cansado e rouco”, desculpa articulada para confessar e justificar a subjetividade romântica, filha da “Desventura”, da “Tristeza”. Observe que o vocabulário e a ambiência são nitidamente românticos: “desesperados”, “sepultura”, “desgraçados” etc., e denotam uma impregnação tipicamente sentimental.


TEXTO III


Olhos suaves, que em suaves dias
Vi nos meus tantas vezes empregados;
Vista, que sobre esta alma despedias
Deleitosos farpões, no céu forjados;
 Santuários de Amor, luzes sombrias,
Olhos, olhos da cor de meus cuidados,
Que podeis inflamar as pedras frias,
Animar cadáveres mirrados;
Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,
Cuja verde arrogância as nuvens toca,
Cuja horrísona voz perturba os ares;
Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;
Troquei-vos pelos ais, pelos pesares:
Oh Câmbio triste! Oh deplorável troca!

Uma análise meticulosa do soneto mostra que o tema amoroso é revestido de uma intensidade afetiva que se revela, na linguagem, pela expressão declamatória, evidenciada nas apóstrofes, hipérboles, repetições, e pelo fecho exclamativo. Observe alguns meios ou processos expressivos: a interpelação apostrófica dos olhos da mulher amada; a hipérbole sobre o poder amoroso dos olhos; a repetição anafórica de construções; a exclamação final dupla, de sentido paralelo; os adjetivos, substantivos e verbos de natureza psicológica e afetiva.



 TEXTO IV


Ó retrato da Morte! Ó noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!



Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

A partir dos vocativos deste primeiro verso, o poema instaura um clima tétrico, lúgubre, noturno, que caracteriza cabalmente o locus horrendus romântico, em tudo oposto ao locus amoenus neoclássico. Essa ambiência fúnebre emoldura os sentimentos mórbidos do Poeta. A seleção vocabular é genuinamente romântica e a natureza noturnal: Morte, noite amiga, escuridão, suspiro, pranto, desgostos, cruel, delirar, escuridade, fantasmas vagos, mochos piadores, medonha, coração, horrores.

TEXTO V

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.



Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!... Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!



Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:



Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!


Nesses versos, o Poeta apresenta uma atitude introspectiva e reconhece, nos dois quartetos, uma vida de ultraje a Deus no passado. Os tercetos dão lugar à confissão do arrependimento, com o apelo à mocidade, que corria atrás da sua poesia, para que rasgue seus versos e acredite na eternidade. O Poeta compara-se a Aretino, poeta italiano do século XVI, célebre por suas obras libertinas e obscenas.

C. O POETA MALDITO:

Dessa forma, há um Bocage arcádico e pré-romântico e outro, popular a quem a fama de boêmio e a tradição da poesia erótica só fazem comprometer sua obra. A proibição pela censura portuguesa deste Bocage libertino e erótico é paralela à tradição crítica, que considera sua obra satírica inferior à lírica. Essa mesma discriminação se manifesta ainda na biografia oficial do Poeta, que o apresenta como um pecador arrependido, contrito e confesso no final da vida, reconciliado com Deus e com os homens, submisso à Igreja e à Monarquia.
Dessa visão biográfica e crítica “oficial” e moralista acaba por emergir um poeta desbotado e enfraquecido, só redimido pelas antecipações românticas que se lêem em sua obra, pelos versos de autocrítica e arrependimento.
No entanto, a poesia erótica de Bocage é extremamente forte, nos dois sentidos que esse adjetivo comporta: por sua linguagem grosseira, vulgar e aludir a situações escabrosas e atos obscenos; mas forte também no sentido poético, pela extraordinária carga de humanidade, que se comunica imediatamente com os leitores, além de não perder as qualidades superiores do ritmo, da rima e da métrica perfeitas, dentro dos parâmetros clássicos.
É esse fascínio que ela exerce sobre o público que a faz “perigosa” aos olhos do moralismo anacrônico e a mantém, censurada e clandestina até hoje.
Os seus alvos preferidos eram os poderosos, mas também não poupou seus colegas de Academia. Mas sua produção satírica foi marcada principalmente, pela temática sexual.

TEXTO I - A MINHA AMADA

Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:



Na sua boca Vênus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:



Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!



Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"

Vocabulário:
Rubicundo – vermelho, corado.
Lascívia – luxúria, libidinagem, sensualidade. Observe que o emprego da inicial maiúscula (maiúscula alegorizante) confere à palavra uma conotação mais ampla, universalizante, transformando-a, alegoricamente, numa “divindade”, como Vênus e Cupido.
Pagode – templo oriental.
Cono – vulva.

TEXTO II

Fiado no fervor da mocidade,
Que me acenava com tesões chibantes,
Consumia da vida os meus instantes
Fodendo como um bode, ou como um frade:



Quantas pediram, mas em vão, piedade
Encavadas por mim balbuciantes!
Fincado a gordos sessos alvejantes
Que hemorróidas não fiz nesta cidade!



À força de brigar fiquei mamado:
Vista ao caralho meu, que de gaiteiro
Está sobre os colhões apatetado:



Oh Númen tutelar do mijadeiro!
Levar-te-ei, se tornar ao teso estado,
Por oferenda espetado um parrameiro.

Vocabulário:
Chibantes – valentes, brigões, altivos
Sessos – traseiros, nádegas
Mamado – desapontado, desiludido

O soneto é exemplar da poesia fescenina, e alude com palavras chulas à impotência fictícia ou real do Poeta.

TEXTO III

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:



Verga, e não quebra, como zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:



À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!



Para carualho ser falta-lhe um U;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.

TEXTO IV


Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:



Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a coroa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado;



Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta),
Entre mil porras expirou vaidosa.

Todas no mundo dão a sua greta;
Não fiques, pois, oh Nise, duvidosa,
Que isto de virgo e honra é tudo peta.

Neste soneto Nise, a pastora bucólica da lírica convencional, é retratada como uma prostituta, consolada pelo Poeta com os exemplos de rainhas e cortesãs famosas.
O poeta cita Dido, víuva de Siquem, que se refugiou em Cartago, onde se apaixona por Enéias. O amor entre os dois é tratado pelo poeta latino Virgílio, no poema épico “Eneida”.
Ao referir-se a Cleóprata, rainha do Egito, remete a sedução que a mesma utilizou-se para consolidar às vantagens políticas, seduzindo, sucessivamente, César, Marco Antônio e Otávio, lóderes do Império Romano. Além de aludir a Catarina, a Grande, imperatriz da Rússia.
Um dos mais conhecidos poemas de Bocage, no gênero erótico-obsceno, é o “A Manteigui, poema em um só canto”, que tem por alvo a amante do governador português de Goa, a Manteigui. Esse poema, ao qual se atibui a expulsão de Bocage da Índia, é composto em dezenove oitavas, antecedidas de um “Argumento”. Mostra que, mesmo na vertente obscena, Bocage tem fôlego poético para composição longa e meticulosa, lavrada na oitava rima camoniana.

TEXTO V - A MANTEIGUI, POEMA EM UM SÓ CANTO

ARGUMENTO:

Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinência;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornígero esposo a paciência;
Como, à força de tanta caralhada,
Perdendo o negro a rígida potência,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica.



I



Canto a Beleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil como profano;
Corpo que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martelos de Vulcano;
Corpo vil, que trabalha mais num dia
Do que Martinho trabalhou num ano,
E que atura as chumbadas e pelouros
De cafres, brancos, maratás e mouros.



II



Vênus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva também que todas elas,
Tu, que vinhas de Tróia às soledades
Dar a Anquises as mamas e as canelas,
Que gramaste do pai das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez a crica a sede,
Foste pilhada na vulcânica rede:



III



Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jaques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lira,
Para livrar-me do mortal quebranto.
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa,
Sobre qual é mais bela, ou qual mais puta.



IV



No cambaico Damão, que, escangalhado,
Mamenta a decadência portuguesa,
Este novo Ganós foi, procriado,
Peste d'Ásia em luxúria e gentileza.
Que ermitão de cilícios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra tesa?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?



V



Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tesões acendem:
As mamas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véus, os véus ofendem
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ela ardendo,
As pissas pelas mãos lhes vão metendo.



VI



Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aqueles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metais brilhantes.
As níveas plantas, quando move os passos,
Vão pisando os tesões dos circunstantes,
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.



VII



Mas para castigar-lhes a vil cobiça,
O vingativo Amor, como agravado,
Fogo infernal do coração lhe atiça
Por sórdido cafre asselvajado:
Tendo-lhe visto a tórrida linguiça
Mais extensa que os canos dum telhado,
Louca de comichões, a indigna dama
Salta nele, convida-o para a cama.



VIII



Eis o bruto se coça de contente:
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
De erguer-lhe as fraldas, e provar-lhe o bolo
Estira-a sobre o leito, e, de repente,
Quer do pano sacar o atroz mampolo,
Porém não necessita arrear cabos:
Lá vai o langotim com mil diabos.



IX



Levanta a tromba o ríspido elefante,
A tromba, costumada a tais batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas
Ela enganchando as pernas delirante,
"Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não há porra melhor em todo o mundo!
Mete mais, mete mais, que não tem fundo.



X



"Ah! Se eu soubera (continua o couro
Em torrentes de sémen já nadando)
Se eu soubera que havia este tesouro,
Há que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavara o cu, lavara o passarinho,
Mas só para foder co'o meu negrinho.



XI



"Mete mais, mete mais... Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não viverás um perpétuo engano,
Pois vir-me-ia também quando te vinhas.
Mete mais, meu negrinho; anda, magano.
Chupa-me a língua, mexe nas maminhas...
Morro de amor, desfaço-me em langonha...
Anda, não tenhas susto, nem vergonha...



XII



"Há quem fuja da carne, há quem não morra
por tão belo e dulcíssimo trabalho?
Há quem tenha outra ideia, há quem discorra
Em cousa que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converta em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho;
Porra e mais porra, no Verão e no Inverno,
Porra até nas profundas do Inferno!...



XIII



"Mete mais, mete mais" (ia dizendo
A marafona ao bruto, que suava,
E convulso, fazia estrondo horrendo
Pelo rústico som com que fungava):
"Mete mais, mete mais, que eu estou morrendo!..."
"Mim não tem mais!" O negro lhe tornava;
E triste exclama a bêbada fodida:
"Não há gosto perfeito nesta vida!"



XIV



Neste comenos, o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela câmara atrevido,
Como se entrasse num lugar profano;
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sai logo, dizendo: "Arre, magano!
Na minha cama! Estou como uma brasa!
Mas, bagatela! tudo fica em casa."



XV



A foda começada ao meio-dia,
Teve limite pelas seis da tarde;
Veio saltando a ninfa da alegria,
E da sórdida ação fazendo alarde.
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: "Estás corada! O Céu te guarde;
Bem boa alpiste ao pássaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?"



XVI



"Cale-se, tolo" (a puta descarada
Grita num tom raivoso e lhe resinga).
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os ombros encolhe, e não respinga;
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que ele, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama e foge de repente.



XVII



Deserta por temor de esfalfamento,
Deserta por temer que o couro o mate;
Ela então de suspiros enche o vento,
E faz alvorotar todo o Surrate.
Vão procurá-lo de cipais um cento;
Trouxeram-lhe a cavalo o tal saguate:
Ela o vai receber, e grão Nababo
Pasmou disto, e quis ver este diabo.



XVIII



Pouco tempo aturou de novo em casa
O cão, querendo logo a pele forra,
Pois a puta co'a crica toda em brasa,
Nem queria comer, só qu'ria porra.
Voou-lhe, qual falcão batendo a asa,
E o courão, sem achar quem a socorra,
Em lágrimas banhadas, acesa em fúria,
Suspira de saudade e de luxúria.



XIX



Courões das quatro partes do Universo,
De gálico voraz envenenados!
Se deste canto meu, deste acre verso
Ouvirdes por ventura os duros brados,
Em brando marcial, coro perverso,
Vinde ver um cação dos mais pescados,
Vinde cingir-lhe os louros, e, devotos,
Beijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.


TEXTO VI - SONETO DO MEMBRO MONSTRUOSO

Esse disforme, e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d'espanto, e de terror
Dar mais de cinco passos para trás:



A espada do membrudo Ferrabrás
De certo não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz.



Creio que nas fodais recreações
Não te hão de a rija máquina sofrer
Os mais corridos, sórdidos cações:



De Vênus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções,
É porra de mostrar, não de foder.


TEXTO VII - SONETO (DES)PEJADO

Num capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe foi (oh céus) metendo
O meu caralho, que de amor fervia:



Entre o susto, entre o pejo a moça ardia;
E eu solapado os beijos remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:



Entra a vir-se a menina... Ah! Que vergonha!
"Que tens?" — lhe diz a mãe sobressaltada:
Não pode ela encobrir na mão langonha:



Sufocada ficou, a mãe corada:
Finda a partida, e mais do que medonha
A noite começou da bofetada.

IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A obra de Bocage ocupa mais de duas mil páginas, e sem a inclusão dos poemas marginais. Tendo vivido apenas 40 anos, pode-se, assim, dizer que o rigor, a contenção, a mão temperada não faziam parte de suas características. Criou em quase todas as modalidades poéticas possíveis: o soneto, a ode, a canção, a elegia, o epicédio, o idílio, a cantata, a epístola, a sátira, a ode, a quadra, o apólogo, a adivinhação, sem falar nas traduções e nos poemas, vamos dizer, obscenos ou pornográficos.

Segundo Bilac, Bocage era um grande metrificador e isto pode ser facilmente notado, principalmente no decassílabo que era a sua chave-mestra. Sabia musicar através das sílabas, mas, em especial, era um forjador de imagens insólitas. Não era um poeta conceitual, voltado para grandes pensamentos, porém, por ironia, é na logopéia da sátira onde melhor se encaixa.
Ridicularizou inúmeras pessoas, usando seu verbo afiado e, então, um senso de medida que não está presente noutros gêneros.
Bocage foi uma espécie de pré-romântico português, com a sua “Sturm und Drang” muito peculiar: dissoluto e revolucionário, lírico e erótico, lamentoso e satírico, irreverente e bajulador.
Concluindo, apesar das contradições geradas pela quantidade, a obra de Bocage traduz um marco na literatura de Portugal. E poucos poetas foram tão “personagens” como ele – na vida e na arte. A primeira gerava a segunda que lhe devolvia renovada seiva através de aplausos, escândalos, polêmicas, prisão e inquérito.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

POESIA ÁRCADE NO BRASIL


“Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!”


Cecília Meireles

I – LOCALIZAÇÃO:

O marco inicial do Arcadismo no Brasil foi á publicação em 1768, de “Obras poéticas”, do escritor mineiro Cláudio Manuel da Costa.
Ocupando praticamente a segunda metade do século XVIII, o Arcadismo estenderá oficialmente até 1836, quando o escritor Gonçalves de Magalhães publicará a obra “Suspiros poéticos e saudades”, que dará início, no Brasil, ao Romantismo.
O Arcadismo no Brasil tem seu surgimento marcado por dois aspectos centrais. De um lado, o dualismo dos escritores brasileiros do século XVIII, que, ao mesmo tempo, seguiam os modelos culturais europeus e se interessavam pela natureza e pelos problemas específicos da colônia brasileira; de outro, a influência das ideias iluministas sobre nossos escritores e intelectuais, que acarretou o movimento da Inconfidência Mineira e suas trágicas implicações: prisão, morte, exílio, enforcamento.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

 
O Arcadismo brasileiro originou-se e concentrou-se principalmente em Vila Rico-MG. (hoje Ouro Preto), e seu aparecimento teve relação direta com grande crescimento urbano verificado nas cidades mineiras do século XVIII, cuja base econômica era a extração de ouro.

Se os diamantes e o ouro das Minas e as reformas do Marquês de Pombal financiaram o aburguesa mento da sociedade portuguesa, eles não deixaram de produzir também no Brasil os seus frutos. O controle da produção das minas exigiu da metrópole a criação de uma estrutura burocrática que permitiu certa civilização do ambiente rústico das Minas Gerais, no século XVIII: Vila Rica, atual Ouro Preto; Mariana; São João Del Rei e tantas outras cidades mineiras, de repente, viram-se tomadas não só por milhões de escravos e rudes garimpeiros, mas também por bacharéis que vinham para cá dar conta do serviço burocrático da Coroa. Esses bacharéis eram, normalmente, brasileiros ou filhos de portugueses que tinham negócios no Brasil.
O crescimento espantoso dessas cidades favorecia tanto a divulgação de jovens brasileiros que providos das camadas privilegiadas daquela sociedade, foram estudar em Coimbra, já que a Colônia não lhes oferecia cursos superiores, e, ao retornarem de Portugal, traziam consigo as ideias iluministas que faziam fermentar a vida cultural portuguesa à época das inovações políticas e culturais.
Essas ideias em Vila Rica levaram vários intelectuais e escritores a sonharem com Inconfidência do Brasil, principalmente após a repercussão da Independência dos EUA (1776). Chegados de Coimbra com ideias enciclopedistas não apenas engrossaram as fileiras dos revoltos contra erário régio, que confiscavam a maior parte do ouro extraído na Colônia, mais também divulgaram os sonhos de um país independente e contribuíram para a organização do grupo inconfidente. Na condição de grandes proprietários e intelectuais de elite, membros influentes na sociedade passaram a propagandear a conspiração, que chegou a repercutir no Rio de Janeiro.
Entre os mais importantes inconfidentes estavam: o tenente coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, José Álvaro Maciel, Padre Carlos Toledo e Melo, Padre José da Silva Rolim, Inácio de Alvarenga Peixoto (um dos principais intelectuais do grupo, poeta e músico), Cláudio Manuel da Costa (advogado, escritor e poeta), Tomás Antônio Gonzaga (poeta e escritor), Domingos Vidal Barbosa, José Resende da Costa, José Aires. João Dias da Mota, Luís Vaz de Toledo Piza, Domingos de Abreu Vieira, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
No entanto, antes do dia marcado, um dos conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis traiu o grupo, levando ao conhecimento do governador Luís da Cunha Menezes o levante.
Com a traição de Joaquim Silvério dos Reis, que devia vultosas somas ao governo português, a reação do governo foi imediata, a Devassa foi completa.
Mas a ideia de um país livre e independente de Portugal estava lançada.

Cláudio Manuel da Costa, 60 anos, segundo versão oficial, suicidou-se na prisão, nos porões da Casa dos Contos, em Ouro Preto, em 4 de julho de 1789, antes do julgamento. Segundo alguns, o poeta não teria revestido ao sentimento de culpa, uma vez que havia delatado, sob tortura, os participantes da conjuração. Com tudo, essa versão vem sendo contestada. Até hoje, em Ouro Preto, se fala que várias igrejas badalaram os sinos quando da morte do poeta. Por tradição, a igreja nunca toca os sinos a suicidas, o que pode ser indicio de assassinato e não suicídio.

Tomás Antônio e outros foram condenados ao exílio temporário ou perpétuo e todos perderam bens, cargos e foram condenados ao degredo ou à prisão.


Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro, permanecendo incomunicável numa masmorra escura por quase três anos. Durante o processo de investigação, denominado Devassa, foi ouvido quatro vezes e confrontado com seus denunciadores e co-réus. A princípio negou tudo, mas diante de outros depoimentos assumiu a responsabilidade do levante, inocentando os demais conspiradores.


No dia 20 de abril de 1792, foi comutada a pena de todos participantes, excluindo Tiradentes, enforcado no dia seguinte, campo da Lampadosa (hoje Praça Tiradentes), no Rio de Janeiro. Além de enforcado, Tiradentes foi decapitado e esquartejado, sua cabeça exposta em Vila Rica e os quatro quartos do corpo dependurados em postes ao longo do Caminho Novo, que ele tantas vezes percorreu. Seus bens foram confiscados, sua família, amaldiçoada por quatro gerações; sua memória declarada infame e o chão de sua casa foi salgado para que dele nada mais brotasse.


Mesmo após a Independência do Brasil, em 1822, Tiradentes não seria reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira. Somente em 1867 é que se ergueu em Ouro Preto um monumento em sua memória, por iniciativa do presidente da província Joaquim Saldanha Marinho. Mais tarde, no período republicano, o dia 21 de abril se tornou feriado nacional, e, pela lei 4.867, de 9 de dezembro de 1965, Tiradentes foi proclamado patrono cívico da nação brasileira.



III – POETAS ÁRCADES:



1. CLÁUDIO MANUEL DA COSTA: POETA DE TRANSIÇÃO

 
Cláudio Manuel da Costa nasceu em Ribeirão do Carmo, atual Mariana no sitio da Vargem do Itacolomi, a 6 de julho de 1729, filho de pai português que se dedicava a mineração.

Após seus primeiros estudos com os jesuítas no Brasil, em 1749 vai para Coimbra estudar Direito. Por essa época tomou contato com as renovações da cultura portuguesa compreendida por Pombal e Verney, e absorve o clima das primeiras manifestações do Arcadismo.
Retorna ao Brasil em 1754 e monta banca de advogado em Vila Rica e Mariana entre 1754 e 1758. Por duas vezes foi Secretário do Governo da capitania em MG, nomeado pelo Conde Borbadela, em 1752. Posteriormente foi nomeado Juiz das Demarcações de sesmarias do termo de Vila Rica.
Em 1768 cercado pelo prestígio oficial e pela admiração de seus confrades foi o fundador da Arcádia Ultramarina.
Sua carreira de escritor teve início com a publicação de “Obras Poéticas”, em 1768.
Respeitado por sua cultura era um liberal, que se deixava influenciar pelos filósofos do iluminismo, pelas teorias econômicas inglesas. Era também adepto da política reformista do Marquês de Pombal.
Foi Cláudio o primeiro a escrever sobre a ciência de economia política que apresentara à Europa o célebre escocês, Adam Smith. Comentou Cláudio o “Tratado da Origem das Riquezas das Nações”, publicado em Edimburgo e escreveu, além disso, outras tantas obras que mereceram elogiosas criticas de toda parte.
Patrono da cadeira n° 2 da academia Brasileira de Letras, criada por Alberto de Oliveira, Cláudio é um dos poetas mais ilustres que produziu o solo americano.

1.2. OBRAS:

“OBRAS POÉTICAS” (1768) – Reúne a produção LÍRICA do poeta (sonetos, éclogas, epicédios, cantatas e outras modalidades).


“VILA RICA” – Poema ÉPICO clássico, derivação imitativa de “Os Lusíadas” de Camões, obedecendo à estrutura tradicional. A substância heróica e histórica é a descoberta das minas e a fundação de Vila Rica. O herói central é o governador Antônio de Albuquerque Coelho.

1.3. CARACTERÍSTICAS LÍRICAS:


A produção lírica de Cláudio Manoel da Costa faz-se, em parte, como um regresso aos modelos camonianos e, em parte, como um compromisso entre Barroco e Arcadismo, do que resulta tendências para o sublime e os desejos de um estilo simples e pastoril.

Sua poesia é sóbria, expressando reflexões morais das contradições da vida tão ao gosto dos poetas quinhentistas, percebendo-se neles uma marcante influência camoniana.
Conhecedor da técnica do verso, homem de boa biblioteca e extensa leitura, um intelectual, talvez até mentor de Tomás Antônio Gonzaga em assuntos intelectuais e jurídicos, e, sobretudo um grande sonetista.
Como árcade lírico, Cláudio Manuel da Costa adotou o pseudônimo de Glauceste Satúrnio e destacou o tema de desilusão amorosa por uma musa inspiradora, Nise. Ou, então, lastima-se por se encontrar num lugar de grande beleza natural, mas não estar acompanhado pela mulher amada.
Nise é uma mulher personagem fictícia, incorpórea, presente apenas pela situação nominal. Não se manifesta na relação amorosa, não é descrita fisicamente, nem dá qualquer mostra de corresponder alguém de verdade. Apenas representa o ideal da mulher amada inatingível, nítido traço de reaproveitamento do neoplatonismo renascentista.

Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?



Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.



Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:



Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.

O soneto transcrito mostra, ainda, fortes resíduos do Barroco Cultista. O sentimento do poeta é expresso por meio de imagens, que remetem o leitor ao paralelo entre a intensidade do amor e do sofrimento e a intensidade crescente da tempestade. Assim, o sentimento do poeta se diz por meio de metáforas e hipérboles. “O vento”, “o raio”, “a tormenta”, “a tempestade” que o poeta descreve são seus conflitos íntimos.
A profunda tensão que marca a poesia de Cláudio Manuel da Costa, e se manifesta quase sempre sob o tema da impossibilidade amorosa, é de fato consequência de um conflito mais amplo, em que se reflete o lugar ambíguo de onde fala o poeta.
O que se sente em Cláudio é um dilaceramento, real e não apenas poético. Colono nascido nas asperezas das terras mineiras, terra modesta e inculta, foi educado nas artes, letras e leis da douta e famosa Coimbra.
A saudade o mantém preso à sua pátria de cultura, mas as suas raízes continuam fincadas na pátria de nascença, chão de pedra, ferro e ouro. E, assim o poeta se sente desajustado na própria terra inculta, tão distante da Universidade onde se formou.
Solicitado pela temática arcádica, o poeta tenta em vão atualizar no contexto local seus rios cristalinos, as bucólicas choupanas de seus pastores, os prados verdejantes onde guardam seus rebanhos e cantam delicados amores, à sombra de álamos sombrios e frondosas faias.

Já rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.



Que alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora!



Só minha alma em fatal melancolia,
Por te não poder ver, Nise adorada,
Não sabe inda, que coisa é alegria;



E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite mais lhe agrada.

No entanto, a face brutal e ávida dos garimpos excede e deforma as máscaras idealizadas de pastores e ninfas, sob as quais o mundo aristocrático europeu encena seu fim e assinala, sob a forma mítica da Arcádia, o surgimento de uma nova ideologia. Atribuindo a dificuldade em aplicar a retórica árcade ao ofuscamento dos bens simbólicos pela materialidade excessiva do ouro, o poeta se desconsola: “não são essas as venturosas praias da Arcádia, onde o som das águas inspirava a harmonia dos versos.”
Busca, então, outra solução: não sendo possível transplantar a paisagem arcádica para a aspereza das minas, alude ao Ribeirão do Carmo, rio que corta a região; às águas turvas e barrentas do pátrio rio; os vaqueiros, em lugar de pastores gregos; as montanhas e os vales e as constantes referencias às pedras, que sugerem o ambiente agreste e rústico de Minas Gerais, o estatuto de objeto literário, inventando-lhe uma origem mítica.

Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!



Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.



Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;



Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.


Mas também essa tentativa se frustra: a apropriação de padrões estéticos europeus revela-se um roubo inútil, inoperante no espaço físico e mental da Colônia, e demonstra a inaptidão da retórica clássica para representar esteticamente uma natureza selvagem, não prevista nos códigos literários existentes. Então, passa a exaltar Lisboa, lamentando-se o destino ingrato que o afastou de Portugal.

Competir não pretendo
Contigo, ó cristalino
Tejo, que mansamente vais correndo:
Meu ingrato destino
Me nega a prateada majestade,
Que os muros banha da maior cidade.

Se, por um lado, protesta contra a ambição portuguesa, contra a exploração do colono, antecipando o sentimento de rebelião nativista, antecipando o sentimento de rebelião nativista.

A margem desse rio povoada
Vejo da portuguesa gente amada,
Toda entregue á solicita porfia
Com que o rico metal da terra fria
Vai buscar a ambição.



(...)



O vasto empório das douradas Minas
Por mim o falará: quanto mais finas
Se derramam as lágrimas no imposto
De uma capitação, clama o desgosto
De um país decadente.

Por outro lado, patenteia atitude inequivocamente colonialista.

Correi de leite e mel, ó Pátrios rios,
E abri dos seios o metal guardado;
Os borbotões de prata, e de ouro os fios
Saíam de Luso a enriquecer o estado.

1.4. CARACTERÍSTICAS ÉPICAS:


A impossibilidade de implantar o cenário da Arcádia nas Minas sem passado, onde o presente apenas começa a ser extraído da terra, abre à poesia de Cláudio Manuel uma dimensão iluminista, manifesta, sobretudo, no poema épico “Vila Rica”, inspirado nas européias clássicas, que narra a história da cidade desde sua fundação exaltando a atuação dos bandeirantes na descoberta das minas.


Segundo José Veríssimo, em “História da Literatura Brasileira”:

"O poema épico Vila Rica, que festeja a fundação da cidade, se nada acrescenta em termos qualitativos aos sonetos, diz do desejo do poeta de conhecer e expressar a realidade mineira do ciclo do ouro. Mas é um poema laudatório, conforme atesta o poeta no Prólogo e na Carta Dedicatória. (...) Subentende-se a defesa do déspota esclarecido e a identificação do poeta com a classe dirigente. Tal atitude, aqui apontada, será aquela que norteará as relações da intelectualidade brasileira com o poder oficial ao longo dos séculos."

Cláudio Manoel da Costa parece haver no poema uma constante preocupação com as normas da tradição clássica. Composto por 10 cantos, em versos decassílabos, apresenta as seguintes partes: Preposição, Inovação, dedicatória, narração e epílogo.

Canto I: Apresentação do tema e invocação às ninfas do Ribeirão do Carmo, dedicatória ao Conde de Bobadela. Figuras míticas: O Itamonte e o Gênio da Terra. In Medias Res: D. Rodrigo (aventureiro, ministro do rei, vítima na floresta) aparece em sonho a Albuquerque.

Canto II: Neágoa, mãe de Aurora. Albuquerque expõe seu plano a mando de D João V: fundar Vila Rica. Itacolumi, o monstro vigia o ouro.

Canto III: Borba Gato chega ao acampamento e narra como foi á morte de D. Rodrigo.
Argasso explica o motivo do aprisionamento de Aurora no acampamento dos portugueses.

Canto IV: Os homens cavando a terra à procura de ouro, casualmente encontram a sepultura de D. Rodrigo. Argasso aparece no acampamento e explica ser rival de Garcia pelo amor de Aurora. Garcia entrega a mãe Neágoa e a filha Aurora. Albuquerque crê que o gesto de Garcia trará os índios para o seu lado. Borba Gato guia todos às minas de ouro.

Canto V: Fala-se do templo do Interesse, e de como essa figura personifica pretende tentar impedir o sucesso de Albuquerque. Surge o Gênio da Terra, metamorfoseado em velho índio, diante de Albuquerque, numa gruta, revela seu nome, Filiponte. Filiponte narra á história da conquista das Minas Gerais e, inclusive, se vê nas paredes da gruta o retrato de Albuquerque ao lado do Ribeirão do Carmo.

Canto VI: Filiponte descreve a geografia de Minas. Recorda como Arzão achou primeiro as pepitas de ouro no rio Casca. Fala de como a descoberta do ouro criou uma guerra entre os exploradores.
Morte de Aurora e Argasso.

Canto VII: Uma ninfa de um rio encanta Garcia e leva-lhe para o fundo desaparecendo o personagem.
Albuquerque consegue evitar uma disputa de interesses entre paulistas e forasteiros, mostra-se como um pacificador. O Gênio da Terra fez aparecer figuras monstruosas nos troncos das árvores que assustam os revoltosos que juram prestar obediência a Albuquerque.

Canto VIII: Itamonte surge no fundo das águas a Garcia, conta-lhe dos sucessos de Albquerque. A ninfa conta a Garcia a história do Itamonte e os ciúmes de Apolo.

Canto IX: Eulina, a ninfa que levou Garcia, explica a Garcia o futuro das Minas Gerais e fala de seus governadores. Albuquerque encontra o sítio onde construíra Vila Rica. Narra-se a lenda de Blásimo. Albuquerque repreende os revoltosos: Manuel Nunes Viana e Frei Fco. de Menezes.

Canto X: Albuquerque convence o gigante Itamonte de suas virtudes. Descreve-se a construção da cidade de Vila Rica (igrejas, fontes, cadeia).

O poema de Cláudio tem um enredo que foge aos padrões clássicos exatamente por ter uma estrutura de rapsódia, onde três principais focos narrativos se cruzam. Primeiro, o drama de Garcia, em segundo, a missão pacificadora e organizadora de Albuquerque e o terceiro foco narrativo, a luta dos revoltosos. Esse cruzamento de focos narrativos é que compõe o labirinto do poema. Observa Hélio Lopes como a estrutura do poema parece confusa a uma leitura menos atenta do poema:

“A construção literária de Vila Rica desnorteia. Os cortes violentos dos episódios, justificados no desenrolar da ação, depois as retomadas do fio partido ocasionam natural perplexidade e causam no leitor a imagem de um texto caótico. Os acontecimentos caminham entre paradas súbitas e recuperam a linearidade sem aparente justificativa. Cria-se o desequilíbrio. A visível instabilidade do texto deixa, evidentemente, o leitor por sua vez jogado de um a outro ponto."

(LOPES, Hélio. Introdução ao Poema Vila Rica. p.162)

2. TOMÁS ANTONIO GONZAGA:

 
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Miragaia, freguesia da cidade portuguesa do Porto, em 11 de agosto de 1744. Era filho de mãe portuguesa e pai brasileiro. Órfão de mãe no primeiro ano de vida, mudou-se com o pai, magistrado brasileiro para Pernambuco em 1751, onde estudou no Colégio dos Jesuítas, em Recife. Com a expulsão da Companhia dos Jesuítas , em 1759, terminará seus estudos com aulas particulares.

Em 1761, voltou a Portugal para cursar Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se bacharel em Leis em 1768.
Desejoso de seguir carreira universitária, permanecerá mais nove anos em Portugal; escreverá a tese “Tratado de Direito Natural”, dedicado ao Marquês de Pombal, mas, com a queda deste, em 1777, logo trata de se mostrar de bem com a nova ordem e escreve um poema de congratulações à nova regente, Dona Maria I.
Exerceu o cargo de Juiz de Fora na cidade de Beja, em Portugal. Quando voltou ao Brasil, em 1782, foi nomeado Ouvidor dos Defuntos e Ausentes da comarca de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, e terá oportunidade de reencontrar Inácio José de Alvarenga e muitos outros amigos de faculdade, além de rapidamente familiarizar-se com o grupo de homens instruídos e interessados em literatura. Torna-se amigo de Cláudio Manoel da Costa, a quem considera um mestre.
A vida passava em reuniões literária, um bom emprego, muito amigos. No entanto, em 1783, chega a Vila Rica, para governar a Capitania; o capitão-general Luís da Cunha Meneses. O novo governador revela-se um tirano, preocupado mais com seus próprios interesses do que com os problemas do povo da terra, além de contrariar em muitos pontos o ouvidor Tomás Antônio Gonzaga.
Os dois entrarão em conflito diversas vezes durante cinco anos (quando se muda o governador), o resultado das brigas será uma série de panfletos em verso escritos pelo poeta-ouvidor contra o governador, intitulados “Cartas Chilenas”, poema satírico em forma de epístolas, uma violenta crítica ao governo colonial.
Nessa época, além de seus dissabores nos negócios, Gonzaga, aos seus 40 anos, mantinha uma paixão secreta por uma adolescente de apenas dezesseis anos, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão. De família rica, a conquista da amada e o consentimento dos familiares no casamento exigirão do poeta muitos esforços e poemas.
Envolvido na Inconfidência Mineira, é acusado de conspiração e preso, em 23 de maio de 1789. Interrogado diversas vezes, negou sempre, e com muita habilidade, sua participação no movimento, mas não conseguiu escapar da incriminação.
Permaneceu em reclusão por três anos, na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro tendo seus bens confiscados, durante os quais, teria escrito a maior parte das liras atribuídas a ele, pois não há registros de assinatura em qualquer uma de suas poesias. Em 1792, a sua pena, que seria a forca, foi comutada em dez anos de exílio em Moçambique, na África.
No mesmo ano é lançada em Lisboa a primeira parte de “Marília de Dirceu”, com 33 liras (nota-se que não houve participação, portanto, do poeta na edição desse conjunto de liras, e até hoje não se sabe quem teria feito, provavelmente irmãos de maçonaria). No país africano trabalha como advogado e hospeda-se em casa de abastado comerciante de escravos, vindo a se casar em 1793 com a filha dele, Juliana de Sousa Mascarenhas ("pessoa de muitos dotes e poucas letras"), com quem teve dois filhos.
Em 1799, é publicada a segunda parte de “Marília de Dirceu”, com mais 65 liras. No desterro, ocupou os cargos de procurador da Coroa e Fazenda, e o de juiz de Alfândega de Moçambique, cargo que exercia quando morreu.
Morrerá em 1810, rico, de bem com a Coroa portuguesa, esquecido do talento que o elevou a um dos mais importantes autores da nossa história literária.
É patrono da cadeira de número 37 da Academia Brasileira de Letras.

2.1. OBRAS:

Suas principais obras são:

LÍRICA:Liras de Marília de Dirceu” (coleção de poesias líricas, publicadas em três partes, em 1792, 1799 e 1812, hoje sabe-se que a terceira parte não foi escrita pelo poeta);

SATÍRICA:Cartas Chilenas” (impressas em conjunto em 1863);

JURÍDICA:Tratado de Direito Natural”.

2.2. CARACTERÍSTICAS LÍRICAS:


Tomás Antônio Gonzaga, ao lado de Basílio da Gama, foi o poeta mais equilibradamente neoclássico da nossa poesia.

O poeta alcançou sucesso imediato com a publicação de “Liras de Marília de Dirceu”, e é, até hoje, lembrado e celebrado por isso.
Escritas segundo os preceitos árcades, as “Liras” que compõem essa obra reconstituem a vida emotiva do Gonzaga, que aparece sob o pseudônimo de “Dirceu”, pela jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas e que seria cantada com o pseudônimo de “Marília” em seus versos, apesar de ser muito discutível essa versão, tendo em vista as regras retórico-poéticas que prevaleciam no século XVIII, época em que o poema fora escrito.
O convívio com o Iluminismo põe em seu estilo a preocupação em atenuar as tensões e racionalizar os conflitos. Entretanto, Gonzaga infunde dois elementos não-convencionais à sua lírica:

A – A imitação direta da natureza de Minas, e não a natureza repoduzida do bucolismo greco-romano ou Renascentista;


I - Lira I


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d'expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!



Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!



Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q'um rebanho, e mais q'um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

(...)

B – O lirismo como expressão própria, construído em torno da projeção artística de seu modo de ser e pensar, inspirado na estilização de sua alegria ou seu drama, decalcado no alicerce biográfico. Esta vertende subjetiva é mais visível na segunda parte das “Liras”, escrita no cárcere.

Lira XX

Se me viras com teus olhos
Nesta masmorra metido,
De mil ideias funestas,
E cuidados combatido,
Qual seria, ó minha Bela,
Qual seria o teu pesar?
À força da dor cedera,
E nem estaria vivo,
Se o menino Deus vendado,
Extremoso, e compassivo,
 Com o nome de Marília
Não me viesse animar.
Deixo a cama ao romper d'alva;
O meio-dia tem dado,
E o cabelo ainda flutua
Pelas costas desgrenhado.
Não tenho valor, não tenho,
Nem par de mim cuidar.
Diz-me Cupido: "E Marília
"Não estima este cabelo?
"Se o deixas perder de todo,
"Não se há de enfadar ao vê-lo?"
Suspiro, pego no pente,
Vou logo o cabelo atar.
Vem um tabuleiro entrando
De vários manjares cheio;
Põe-se na mesa a toalha,
E eu pensativo passeio:
De todo o comer esfria,
Sem nele poder tocar.
"Eu entendo que a matar-te,
"Diz amor, te tens proposto;
"Fazes bem: terá Marília
"Desgosto sobre desgosto."
Qual enfermo c'o remédio,
Me aflijo, mas vou jantar.
Chegam as horas, Marília,
Em que o Sol já se tem posto;
Vem-me à memória que nelas
Vi à janela teu rosto:
Reclino na mão a face,
E entro de novo a chorar.
Diz-me Cupido: "Já basta,
"Já basta, Dirceu, de pranto;
"Em obséquio de Marília
"Vai tecer teu doce canto."
Pendem as fontes dos olhos,
Mas em sempre vou cantar.
Vem o Forçado acender-me
A velha, suja candeia;
Fica, Marília, a masmorra
Inda mais triste, e mais feia.
Nem mais canto, nem mais posso
Uma só palavra dar.
Diz-me Cupido: "São horas
"De escrever-se o que está feito."
Do azeite, e da fumaça
Uma nova tinta ajeito;
Tomo o pau, que pena finge,
Vou as Liras copiar.
Sem que chegue o leve sono,
Canta o Galo a vez terceira;
Eu digo a Amor, que fico
Sem deitar-me a noite inteira;
Faço mimos, e promessas
Para ele me acompanhar.
Ele diz, que em dormir cuide,
Que hei de ver Marília em sonho,
Não respondo uma palavra,
A dura cama componho,
Apago a triste candeia,
E vou-me logo deitar.
Como pode a tais cuidados
Resistir, ó minha Bela,
Quem não tem de Amor a graça;
Se eu, que vivo à sombra dela,
Inda vivo desta sorte,
Sempre triste a suspirar?

O “páthos” romântico (melancolia, tédio, depressão) é, contudo, expresso num estilo clássico, contido pela harmonização dos elementos racionais e afetivos e, por um leve toque de sensualismo.
Segundo Alfredo Bosi, Gonzaga está acima de tudo preocupado em "achar a versão literária mais justa dos seus cuidados".

2.3. CARACTERÍSTICAS SATÍRICAS:

 
É uma obra satírica, constituindo poema truncado e inacabado (13 cartas das quais a 7ª e a 13ª em estado de fragmento), na qual um morador de Vila Rica ataca os desmandos morais e administrativos do Governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Menezes.

Onde se deveria ler Portugal, Lisboa, Coimbra, Minas e Vila Rica, lê-se Espanha, Madrid, Salamanca, Chile e Santiago. Os nomes aparecem quase sempre deformados: Menezes é Minésio. Há apelidos e topônimos inalterados, como: Macedo, a ermida do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, a igreja do Pilar.
O autor se dá o nome de Critilo e chama o destinatário de Doroteu. Finalmente, os fatos aludidos são facilmente identificados pelos leitores contemporâneos.
A matéria é toda referente à tirania e ao abuso de poder do Governador Fanfarrão Minésio, versando a sua falta de decoro, venalidade, prepotência e, sobretudo, desrespeito à lei. Afirmam alguns que o poema circulava largamente em Vila Rica em cópias manuscritas.
Critilo (Tomás Antônio Gonzaga) aplica-se de tal modo na sátira, que a beleza mal o preocupa. Os versos decassílabos brancos concentram-se no ataque. Sente-se um poeta capaz de escrever no tom familiar que caracteriza o realismo dos neoclássicos, com certa inclinação para a pintura da vida doméstica.
Para Critilo, o arbitrário Governador constituía, de certo modo, atentado ao equilíbrio natural da sociedade. Entretanto, não se nota nas “Cartas” nenhuma rebeldia contra os alicerces do sistema colonial, nem mesmo uma revolta contra o colonizador; apenas se critica a má administração do Governdor Cunha Menezes. Seu significado político, todavia, permanece. Literariamente, é a obra satírica mais importante do século XVIII brasileiro e continua sendo o índice de uma época.
Sendo o poema anônimo e tendo permanecido inédito até 1845, houve dúvida quanto à sua autoria, até que o estudioso Rodrigues Lapa concluiu que o autor era mesmo Tomás Antônio Gonzaga, exceto por uma carta introdutória e alguns trechos que seriam de autoria de Cláudio Manoel da Costa.
As “Cartas” são um grande documento histórico da vida em Vila Rica naquela época, escritas em uma linguagem bastante agressiva, mas cujo objetivo maior, como o de toda sátira, não era simplesmente difamar os adversários de Gonzaga ou torná-los ridículos à opinião pública, mas sim expor os abusos de poder do Governador Meneses e os problemas da sociedade da época, com a intenção de moralizar minimamente a administração dos bens da Coroa portuguesa no Brasil e os hábitos da população, ou utilizando uma expressão adequada: “ridendo castigat mores” – rindo, castigam-se os costumes.

Carta 1ª

Em que se descreve a entrada que fez Fanfarrão em Chile.

Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.
Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
Ergue a cabeça da engomada fronha
Acorda, se ouvir queres coisas raras.
"Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes
Contar que valham tanto, quanto vale
- Dormir a noite fria em mole cama,
Quando salta a saraiva nos telhados
E quando o sudoeste e outros ventos
Movem dos troncos os frondosos ramos?
É doce esse descanso, não te nego.
- Também, prezado amigo, também gosto
De estar amadornado, mal ouvindo
Das águas despenhadas brando estrondo,
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,
Que então me pintam os ligeiros sonhos.
- Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;
Não falta tempo em que do sono gozes:
Então verás leões com pés de pato,
Verás voarem tigres e camelos,
Verás parirem homens e nadarem
- Os roliços penedos sobre as ondas.
Porém que têm que ver estes delírios
Co'os sucessos reais, que vou contar-te?
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama.
- Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na ideia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos
- Não és tu, Doroteu, aquele mesmo
Que pedes que te diga se e verdade
O que se conta dos barbados monos
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber se há grandes peixes,
- Que abraçando os navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrinzados panos?
Não queres que te informe dos costumes.
- Dos incultos gentios? Não perguntas
Se entre eles há nações, que os beiços furam?
E outras que matam, com piedade falsa,
Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas
- Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno chefe.
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, amigo, que podia
- Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!

3. MANUEL INÁCIO DA SILVA ALVARENGA

Manuel Inácio da SILVA ALVARENGA nasceu em Vila Rica, capitania de Minas Gerais. Mestiço e pobre, filho bastardo do músico Inácio da Silva Alvarenga, transmitiu em sua arte poética um sentimento que o distinguiu dos demais árcades mineiros: uma obra poética que guarda uma variedade de gêneros admirável de odes encomiásticas a idílios, de composições bucólicas a poemas satíricos.
Com a ajuda de amigos, aos dezenove anos foi estudar Humanidades no Rio de Janeiro, e depois de dois anos ingressou na Universidade de Coimbra (1771).
Lá conheceu e fez amizades com intelectuais como Basílio da Gama e Alvarenga Peixoto. Filiou-se à Arcádia Ultramarina, com o nome de “Alcindo Palmireno” e publicou em 1774, o poema “O Desertor das Letras”, poema caracterizado pelo entusiástico apoio dado ao Marquês de Pombal pela civilização do ensino, revolucionária reforma educacional feita na Universidade portuguesa que destituiu os jesuítas das funções de administração e magistério até então exercidas.
Trata-se de um poema herói-cômico onde a personagem Gonçalo, estudante da instituição, decide abandoná-la por ver sua vida tranquila ameaçada pelas mudanças.

A composição seria a porta de entrada do estudante ultramarino para o rol de escritores e artistas protegidos pelo Marquês de Pombal. Ainda em Portugal, antes de retornar ao Brasil, Silva Alvarenga participou, com três composições, dos festejos de inauguração da estátua eqüestre de D. José I ocorridos na Praça do Comércio em junho de 1775.

Concluiu seu curso (1776), publicou “O templo de Nepturno” (1777), escrito em honra da aclamação de D. Maria I, e regressou ao Rio de Janeiro (1777). Começou a exercer a advocacia no Brasil e abriu um curso de Retórica e de Poética (1782) e foi nomeado professor régio por Luís de Vasconcelos e Sousa, vice-rei. Sob o governo do Marquês do Lavradio, protetor das ciências e das artes, tornou-se membro da Sociedade Científica do Rio de Janeiro. Ainda patrocinado por Vasconcelos e Sousa, abriu a Sociedade Literária do Rio de Janeiro (1786), que logo se transformou em clube de ideias democráticas. Acusado de cultuarem as ideias revolucionárias francesas e de subversão contra a Coroa portuguesa, por denúncia do frei Raimundo e do rábula José Bernardo da Silveira Frade, foi preso a mando do Conde de Resende, então vice-rei, que determinou o fechamento da Sociedade Literária do Rio de Janeiro e o encarceramento dos seus sócios.
Permaneceu no cárcere dois anos e oito meses, sujeito a rigorosa e humilhante devassa, confiada ao juiz Antônio Diniz da Cruz e Silva, que já servira na devassa da Inconfidência Mineira. Posto em liberdade (1797) por ordem de D. Maria I, ante a falta de provas concludentes para a sua condenação, publicou a primeira edição de “Glaura”: “Poemas eróticos”, na Oficina Nunesiana, Lisboa (1799). Voltou a ensinar e colaborou (1813), juntamente com o seu companheiro da Sociedade Literária do Rio de Janeiro, Mariano José Pereira da Fonseca, futuro marquês de Maricá, em O Patriota (1813-1814). Com a fundação de O Patriota, tornou-se um dos primeiros jornalistas brasileiros.
Composta por 1456 volumes, a biblioteca de Silva Alvarenga, segundo Borba de Moraes, foi uma das mais importantes do período colonial. Repousavam nas prateleiras do poeta desde compêndios de direito e textos eclesiásticos até romances franceses cuja leitura era controlada pela censura lusitana.
Com o falecimento do poeta em 1º de novembro de 1814, no Rio de Janeiro, o acervo passaria às mãos de “preta Joaquina”, sua “herdeira e testamenteira.”
No ano seguinte à sua morte, seus livros seriam adquiridos pela Real Biblioteca.

3.1. OBRAS:

Desertor das Letras”, 1774;
A gruta americana”, 1779;
Às artes”, 1788;
Glaura” (primeira edição), 1799;
Poemas eróticos”, 1801.

3.2. CARACTERÍSTICAS:

Silva Alvarenga não gozou do mesmo reconhecimento que tiveram seus colegas da chamada plêiade mineira aos quais seria ligado, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. Contudo, em seus poemas residem traços marcantes para a história literária colonial. Igualmente relevante foi sua atuação como homem de letras que procurou promover a circulação de saberes na colônia, observadas as condições específicas de atuação dentro do espaço luso-americano.
Com “Glaura”, torna-se o exemplo perfeito do estilo rococó em nossa literatura. Com seus rondós e madrigais, cultiva uma lírica de inspiração galante, envolvidos por intensa musicalidade.

 
O poeta apresenta uma “natureza decorativa, onde as pombas e borboletas se cruzam, o mar, o musgo, a areia, as flores e as matas constituem linda moldura carioca para os requintes arcádicos”, onde Alcindo Palmireno, pseudônimo pastoril de Silva Alvarenga, louva a pastora Glaura, que a princípio parece se esquivar desse canto amoroso. O sofrimento de Alcindo acabará sendo recompensado pela retribuição do afeto, porém Glaura morrerá em seguida, deixando o pastor imerso em depressão.

Segundo outros, a dicção sentimental revelaria traços pré-românticos, enquanto não cultua excessivamente as belezas postiças greco-romanas do repertório árcade.
O certo é que, apesar do encanto melodioso de alguns rondós, Silva Alvarenga é um poeta de superfície:

Carinhosa e doce, ó Glaura,
Vem esta aura lisonjeira,
E a mangueira já florida
Nos convida a respirar.
Sobre a relva o sol doirado
Bebe as lágrimas da Aurora,
E suave os dons de Flora
Neste prado vê brotar.

*Rondó: composição poética com estribilho constante.
*Madrigal: composição poética galante e musical.

4. INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO:


Inácio José ALVARENGA PEIXOTO, poeta fluminense (Rio de Janeiro 1744 – Ambaca, Angola 1793), estudou no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janeiro, assim como na Universidade de Coimbra, em Portugal, onde conheceu o poeta Basílio da Gama de quem se tornou um grande amigo.

Exerceu o cargo de Juiz de Fora da Vila de Sintra em Portugal, bem como a de Senador pela cidade mineira de São João Del-Rei. Também exerceu o cargo de Ouvidor da comarca de Rio das Mortes. Alvarenga, por esse tempo, se dedicou à agricultura e à mineração. O poeta tinha um caráter entusiasta e generoso, mas, ao mesmo tempo era ambicioso e perdulário. Com isso conquistou amigos, inimigos e muitas dívidas. Foi amigo dos poderosos da época e partilhava com os demais intelectuais de seu tempo ideias libertárias advindas do Iluminismo.
A imagem de mulher ideal construída sob os moldes do Iluminismo aliava a inteligência e a sensibilidade à beleza.
Em São João del-Rei, Alvarenga Peixoto encontra em Bárbara Eliodora os atributos correspondentes a esse perfil e se apaixona pela jovem de 20 anos, que passa a ter grande ascendência sobre o poeta. Por fim, pressionado pelas dívidas e pelos altos impostos, acabou se envolvendo na Inconfidência Mineira.
Denunciado como participante da trama foi deportado para Angola. Faleceu em 1793.

4.2. CARACTERÍSTICAS:


Alvarenga Peixoto possui pequena obra irregular e convencional, atrelada aos clichês árcades, ambientada na realidade mineira e caracterizada pelo sentimento nativista.

Fez poesia encomiástica e laudatória, enaltecendo o despotismo ilustrado do Marquês de Pombal e, por vezes, assumindo uma posição crítica diante da política colonialista portuguesa.
É considerado o poeta mais inexpressivo do século XVIII no Brasil, destacando-se, em sua produção lírica amorosa, a lira “Bárbara Heliodora”, sua esposa, e o soneto “Estela e Nize”.
Em seus poemas é fácil perceber uma postura crítica quanto à sociedade da época e atribui-se ao poeta o lema da bandeira da Inconfidência, extraída de um verso de Virgílio: “LIBERTAS, QUAE SERA TAMEN” (“Liberdade, ainda que tardia).
Sua diminuta obra foi recolhida por Rodrigues Lapa, porém a maior parte perdeu-se.

À D. BÁRBARA HELIODORA



Bárbara bela, do Norte estrela,
Que o meu destino sabes guiar,
De ti ausente triste somente
As horas passo a suspirar.



Por entre as penhas de incultas brenhas
Cansa-me a vista de te buscar;
Porém não vejo mais que o desejo,
Sem esperança de te encontrar.



Eu bem queria a noite e o dia
Sempre contigo poder passar;
Mas orgulhosa sorte invejosa,
Desta fortuna me quer privar.



Tu, entre os braços, ternos abraços
Da filha amada podes gozar;
Priva-me a estrela de ti e dela,
Busca dous modos De me matar!

(Poema dedicado à sua esposa, remetido do cárcere da Ilha das Cobras)

À MARIA IFIGÊNIA

Em 1786, quando completava sete anos.

Amada filha, é já chegado o dia,
Em que a luz da razão, qual tocha acesa,
Vem conduzir a simples natureza:
— É hoje que teu mundo principia.

A mão que te gerou, teus passos guia;
Despreza ofertas de uma vã beleza,
E sacrifica as honras e a riqueza
Às santas leis do Filho de Maria.



Estampa na tu' alma a Caridade,
Que amar a Deus, amar aos semelhantes,
São eternos preceitos de verdade;

Tudo o mais são ideias delirantes;
Procura ser feliz na Eternidade,
Que o mundo são brevíssimos instantes.

DE AÇUCENAS E ROSAS MISTURADAS

De açucenas e rosas misturadas
não se adornam as vossas faces belas,
nem as formosas tranças são daquelas
que dos raios do sol foram forjadas.



As meninas dos olhos delicadas,
verde, preto ou azul não brilha nelas;
mas o autor soberano das estrelas
nenhumas fez a elas comparadas.



Ah, Jônia, as açucenas e as rosas,
a cor dos olhos e as tranças d'oiro
podem fazer mil Ninfas melindrosas;



Porém quanto é caduco esse tesoiro:
vós, sobre a sorte toda das formosas,
inda ostentais na sábia frente o loiro!

4.3. BÁRBARA HELIODORA

Bárbara Heliodora, em gravura de Carlos Ayres, inspirado em traços históricos e figuras femininas das suas descendentes.


Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais, em 1759. Primeira poetisa brasileira, culta e revolucionária, Bárbara foi uma mulher que, em toda sua vida, agiu com coragem e fibra.
Aos 20 anos se apaixonou pelo poeta Alvarenga Peixoto. De seus amores nada convencionais nasceu uma filha, Maria Efigênia. Pode-se imaginar o escândalo que envolveu o fato, uma vez que não houve por parte do ouvidor nem do pai da noiva o mínimo empenho em legitimar a união, que só aconteceu dois anos após o nascimento da criança, provavelmente por interferência do bispo de Mariana.
A ligação entre os dois foi marcada pela harmonia e companheirismo. O casal teria, ainda, outros três filhos. Bárbara e Alvarenga Peixoto participaram da organização da Inconfidência do país.
Segundo Aureliano Leite, no livro "A Vida Heróica de Barbara Heliodora", a presença de Bárbara foi fundamental na vida de Alvarenga Peixoto: "...Ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalentou o seu sonho da Inconfidência do Brasil…quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade fez com que a posteridade lhe desse tratamento de Harmonia da Inconfidência’’.
O casamento durou 10 anos, período da produção poética de Eliodora. Em 1789, época da Conjugação, Alvarenga Peixoto foi preso e arrastado de São João Del Rei ao Rio de Janeiro, sendo levado para a fortaleza da Ilhas das Cobras e, depois, ele seria mandado para África, onde morreria.
No cárcere, escreveu "Bárbara Bela", onde exaltava a dor da distância da mulher:

Bárbara Bela
Do norte estrela
Que o meu destino
Sabe guiar
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar
Pôr entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar
Porém não vejo
Mais te desejo,
Sem esperança
De te encontrar



Eu também queria
À noite e o dia
Contigo pode passar
Mas orgulhosa
Sorte invejosa,
D’esta fortuna
Me quer privar
Tu, entre os braços,
Temos abraços
Da filha amada
Pode gozar,
Priva-me da estrela
De ti e D’ela
Busca dou modos
De me matar!

Após a prisão de Alvarenga Peixoto, Barbara Eliodora não mais escreveu, teve a metade dos seus bens confiscados e passou a ser discriminada por toda a sociedade da época. Depois de viúva, passou a se dedicar à educação dos quatro filhos e à administração dos bens restantes. Em 1795 ela sofreu outra perda, Maria Ifigênia, em decorrência de uma queda de cavalo. Figura de expressão na Inconfidência Mineira, Bárbara foi muito tempo, retratada, em livros de história inclusive como demente louca, como que andava esfarrapada pelas ruas de São João Del Rei falando bobagens e loucuras. Neste século alguns escritores como Aureliano Leite, lutaram para resgatar a verdade de sua vida. Em "A Vida Heróica de Bárbara Eliodora", Leite afirmava que Bárbara viveu seus últimos vinte e tantos anos em perfeito juízo, nesse período cuidou dos negócios da família, foi admitida da ordem Terceira do Carmo, de São João Del Rei e morreu em São Gonçalo do Sapucaí, aos 60 anos, vitima de tuberculose: "A uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa".
Para Aureliano Leite, houve uma criação em torno da figura de Eliodora. Lendas que escondem dos brasileiros a verdade e que são desmentidas em palavras como a do escritor Uruguaio Rodrigues Fabregat (ver baixo), que qualifica Bárbara Eliodora de Mulher do Novo Mundo, colocando-a entre as mães da epopéia do Novo Mundo:

"…e esta outra, também de sua carne vem, grande e profética: que traz em seus lábios de Mulher, gladiadora ardente, clamores de despertar; que traz em suas mãos uma bandeira nova e alça sobre multidões estremecidas; que traz em sua mensagem um desejo de liberdade, um credo republicano que, com ele sobe até a cúpula de seu calvário e da história: que junto às minas de ouro das rapinas imperiais, fala com voz de brasileira, gente a proclamar direitos e conquistá-los; esta, de Vila Rica, em Minas Gerais companheira da inconfidência revolucionaria na saga heróica de VGRT e na morte mártir, esta mulher do novo mundo - oh, mãe epopéia do Novo Mundo!- cravada em seu madeiro de sacrifício com quatro escravos ardentes de Cruzeiro do Sul… Bárbara Eliodora!"

Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.

A mão, que te gerou, teus passos guia;
despreza ofertas de uma vá beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.



Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da Verdade.



Tudo o mais são ideias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.

Numa época em que poucas mulheres eram letradas, Bárbara Heliodora transmite valores humanos de grande sabedoria, ensina virtudes e recomenda atitudes prudentes e sensatas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ARCADISMO, SETECENTISMO OU NEOCLASSICISMO LITERÁRIO

Jean-Antoine Watteau, “Festas venezianas”.


“O verdadeiro é o natural, o natural é o racional. [...] A literatura seria, consequentemente, expressão racional da natureza, para assim manifestar a verdade, buscando á luz do espírito moderno uma íntima encarnação da mímesis aristotélica”.


I – LOCALIZAÇÃO:

Arcadismo, Neoclassicismo ou Setecentismo (anos 1700) são as denominações que recebe o movimento artístico do século XVIII.
Desenvolve-se uma reação contra o barroquismo dos seiscentos, expressa num amplo movimento de restauração classicizante, em que o espírito clássico ressurge sob a forma de neoclassicismo.
É o Século das Luzes, do Iluminismo, da Ilustração superando os conflitos espirituais da fé e religião da época anterior.
O Arcadismo se define na literatura ocidental pela influência do Classicismo francês (Neoclassicismo), que ao contrário dos principais países da Europa em que a estética clássica atingiu o seu apogeu no século XVI, na França o Classicismo atingiu o seu clímax no século XVIII. Como esta era um centro político, econômico e cultural do continente, a sua influência sobre os outros países será enorme e ocorrerá sobretudo pela divulgação das obras dos principais autores franceses por toda a Europa: as tragédias de Racine; as comédias de Molière; as fábulas de La Fontaine; a estética de Boileau, etc.
No final do séc. XVII fixou residência em Roma, a jovem ex-rainha Cristina da Suécia, que renunciara ao trono e ao luteranismo, convertendo-se ao catolicismo.
Mulher inteligente e culta, desde a Suécia habituara-se a cercar-se de sábios e artistas, para discussão e leitura de trabalhos literários. Em Roma, atraiu para essas reuniões a fina flor da inteligência local, formando um cenáculo intelectual que, após sua morte, se transformaria na Arcádia (1690).
Nasceu, assim, com regulamentos e programas, a nova academia, composta de 16 membros. Tinha o objetivo de reconduzir à fonte da natureza, à simplicidade de sentimento e de estilo, a poesia e, em geral, a literatura, que, na opinião dos seus componentes, estavam desviadas pelos “cattivo gusto”, herança do barroco.
O nome de Arcádia era dado na Grécia antiga à região do Peloponeso, morada do deus Pan, e onde a tradição imaginava residirem todos os pastores com seus míticos e plácidos costumes, em contato com a natureza, onde residiam a beleza, pureza e espiritualidade. Procuravam adoçar a dureza do viver mercê de uma disposição para o canto e a dança, as canções de amor e as pugnas poéticas, caracterizadas pela espontaneidade e simplicidade.

François Boucher, “A fonte do amor”


As reuniões eram realizadas em parques e jardins.
Em pouco tempo, as “Arcádias” alastrou-se pela Europa. É por isso que, ao contrário da França, tanto em Portugal como no Brasil esse período literário é conhecido por Arcadismo.
O movimento artístico em Portugal teve início em 1756, com a fundação da “Arcádia Lusitana” (1756-1774), ou “Ulissiponense” reunindo escritores de renome: Antônio Dinis da Cruz e Silva, Gomes de Carvalho, Manoel de Figueiredo, Cândido Lusitano, Domingos dos Reis Quita, Correia Garção, José Caetano de Mesquita. Houve, ainda, a “Nova Arcádia”, no final do século XVIII, de que foram membros Bocage e José Agostinho de Macedo e irá estender-se até 1825, dando início à estética romântica.

 
Os membros da “Nova Arcádia” chamavam-se “pastores”, cada um adotando um nome pastoril, grego ou latino, sendo o presidente eleito e designado “guardião geral”.

O marco inicial do movimento árcade no Brasil data de 1768, com a publicação de “Obras” de Cláudio Manoel da Costa.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

O jesuitismo contra-reformista perde a relevância, e, politicamente, os reis não mais se apóiam no poder eclesiástico e na teoria do Direito Divino dos Reis, mas nos princípios racionais do Despotismo Esclarecido, cujo fermento ideológico baseava-se nas teorias de Montesquieu e Voltaire. Por outro lado, a burguesia está em plena ascensão, depois de anos de trabalhos forçados, é o momento do emprego da energia a vapor na indústria têxtil.
Mas, com declínio da aristocracia e com ascensão da burguesia, sente-se a tendência para uma renovação do gosto literário e do credo estético, com o esgotamento da literatura cortês do barroco.
Mudanças generalizadas provinham da França e irradiavam por todo o continente, obrigando os reis a uma reforma administrativa, fazendo com que se descentralizassem os seus interesses e se preocupassem com a vida dos seus súditos.
A ciência proporcionará o desenvolvimento tecnológico e intelectual, substituindo o atraso cultural teocêntrico do Século das Trevas.
Personalidades importantes surgem: Newton na Física, Lavoisier na Química, Lineu e Bueton na Biologia, Locke e outros.
A nova estrutura social traduz-se em críticas à ordem social vigente, implícitas ou explícitas no Iluminismo, Rousseau, em “O Contrato Social” e “Emílio”, nega as desigualdades entre os homens, firmando as teorias do Homem Natural e do Bom Selvagem, com desdobramentos que se estendem até meados do século seguinte.
Montesquieu, com “O Espírito das leis”, fundamenta a noção de que a sociedade deve ser racionalmente reformada, propondo a divisão tripartida do poder: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Voltaire, com as “Cartas Filosóficas”, ataca, com sua proverbial ironia, as instituições do clero e da monarquia de direito divino. É um momento de transferência da liderança histórica da aristocracia para a classe média.

 
III – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL EM PORTUGAL:


Portugal vivia, no século XVII, um cenário de grande prosperidade, gerada pelo afluxo do ouro do Brasil e de reformas administrativas e educacionais pela assimilação dos ideais do Iluminismo.
Marquês de Pombal, ministro do reinado de D. José I (1750-1777), é, politicamente, um completo déspota esclarecido.
Expulsa os jesuítas do Brasil; reforma o currículo escolar, incluindo na grade as disciplinas: de teatro, música, dança e esporte; estimula a divulgação das ideias científicas da época e decreta a laicização do ensino (criação do ensino não religioso, estatal ou particular).

IV – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL NO BRASIL:

 
 
Ainda que não se possa falar em uma Literatura Nacional, começa a haver no Arcadismo a integração orgânica entre a população da Colônia, os autores e as obras; vale dizer, só a partir da segunda metade do século XVIII, há autores brasileiros em cujas obras, ocorrem a ressonância da vida da Colônia e seus anseios.

O nativismo e o ufanismo não se exaurem na descrição laudatória da fauna e da flora, ou dos aspectos exóticos e pitorescos; mas, há já um caráter reivindicatório exteriorizado, ao nível da sociedade brasileira, pelas rebeliões coloniais contra a metrópole portuguesa dando início a trajetória que levaria, mais tarde, à emancipação política e literária do Brasil.
A descoberta do ouro em Minas Gerais teve profundos reflexos na vida nacional. Dela decorreram:
1. O deslocamento do centro econômico da Colônia do Nordeste (Pernambuco e Bahia) para o Sul (Minas Gerais e Rio de Janeiro), este último escoadouro natural da produção aurífera mineira;
2. O surgimento de uma sociedade urbana, complexa, nas cidades mineiras, com maior mobilidade social;
3. O recrudescimento da fiscalização sobre a arrecadação dos tributos devidos a Portugal e o aumento da carga tributária, o que provocou reações, como a Rebelião de Vila Rica e a Inconfidência Mineira;
4. A estabilização de uma sociedade culta, constituída de funcionários da Coroa, magistrados, mineradores e comerciantes, que estudaram na Europa, assimilando os ideais iluministas;
5. O aparecimento de associações de homens cultos, as Academias e Arcádias, que transpunham para a Colônia os modismos artísticos e intelectuais da Europa.

V – CARACTERÍSTICAS ESTILÍSTICAS DO ARCADISMO:

 
“Casa no campo”

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza dos amigos do peito e nada mais.
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais.

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No me jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
E o filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal.

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal
Pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais.

Zé Rodrix e Tavito, 1972.

1. A reação ao Barroco e a volta do Equilíbrio:
O movimento árcade veio iluminar as ideias obscuras do barroco, substituindo o medo, a insegurança e o pessimismo, por uma atitude otimista, de harmonia, equilíbrio e naturalidade; restabelecendo a poética antiga, a forma clássica, o “buono stile”, a “naturalezza del dire”, cantando o amor, a natureza, a vida simples e bucólica.

2. Racionalismo e Universalidade:
O progresso científico foi uma característica do século XVIII e com ele veio á crença nas infinitas possibilidades do intelecto humano alicerçado na razão. Intelectualismo e racionalismo serão, então, os guias do homem na busca da verdade que pode ser entendida por ciência. E o objetivo da ciência é compreender o mundo natural, é estabelecer regras universais e intemporais que existem na natureza.
Os aspectos subjetivos e dualísticos da existência são evitados. A arte ganha finalidade didática, objetiva, política, ideológica como expressão artística da burguesia veiculada aos ideais do iluminismo. O poeta árcade é um pintor de situações, não de emoções. Embora não seja a preocupação central da maioria dos poetas árcades, ideias de liberdade, justiça e igualdade social estão presentes em alguns textos da época.
Boileau em “Arte poética” defende a importância da razão sobre a emoção.

“Antes, pois, de escrever, aprendei a pensar.”

3. “Inutilia Truncat”:
Do ponto de vista formal, o tema era a célebre expressão latina “Inutilia Truncat”, cortar as inutilidades da escola anterior, desde a linguagem rebuscada, a ordem indireta e os excessos de figuras de linguagem, para uma simplicidade de estilo, ordem direta da frase, clareza, verso branco, fazendo com que a poesia, muitas vezes, se aproxime da prosa.

4. “Mímesis”:
Os clássicos, inspirados na teoria aristotélica da arte, propunham a ideia de que a fonte da poesia deveria ser a imitação direta, a cópia da natureza. Os poetas árcades, assim, deveriam buscar os ensinamentos dos antigos considerados o alicerce da perfeição, do belo, do bem e da verdade, e recriá-los. Deveria obedecer às convenções estabelecidas, retomar os motivos clássicos greco-romanos, respeitada sempre a verossimilhança. Dessa forma, o poeta árcade não é um criador, para ele, é mais relevante a cópia do modelo e esta atitude é o que se denomina Mímesis.
Na poesia árcade, as situações são artificiais; não é o próprio poeta quem fala de si e de seus reais sentimentos. No plano amoroso, por exemplo, quase sempre é um pastor que confessa seu amor por uma pastora e a convida para aproveitar a vida juntos à natureza. Isso ocorre devido ao convencionalismo amoroso, que impede a livre expressão dos sentimentos, levando o poeta a racionaliza, além de manter-se o distanciamento entre os amantes, que já se verificava na poesia clássica.
Por exemplo:

Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.


Cláudio Manuel da Costa

Faz a imaginação de um bem amado,
Que nele se transforma o peito amante,
Daqui vem, que a minha alma delirante
Se não distingue já do meu cuidado.

5. Natureza bucólica e pastoril:


Riachos cristalinos, campinas verdejantes, alamedas floridas, campos agrestes, pastores e ovelhas constituem a moldura obrigatória de quase toda poesia árcade.

Essa natureza convencional é sempre o cenário que emoldura a vida serena dos pastores e de suas musas, os suaves idílios campestres e, às vezes, é testemunha impassível dos lamentos e desenganos do poeta. A felicidade e a beleza só são possíveis com o retorno à singeleza do campo. Esta postura pode-se explicar, de um lado, pela reabilitação da poesia bucólica de Ovídio, Horácio e Virgílio, modelos obrigatórios da época; por outro lado, o processo de concentração urbana e a saturação das cidades levam o poeta a buscar no campo a pureza e a felicidade perdidas.

Aquele adore as roupas de alto preço,
Um siga a ostentação, outro a vaidade;
Todos se enganam com igual excesso.

Eu não chamo a isto já felicidade:
Ao campo me recolho, e reconheço,
Que não há maior bem, que a soledade.

Cláudio Manoel da Costa

6. Herança greco-latina:


François Boucher, “Vênus consola o Amor”, 1751.


A necessidade de fugir da cidade (Fugere Urbem) e buscar na vida simples do campo (Bucolismo) a tranquilidade e o ideal de paz, rodeado de um cenário perfeito, maravilhoso e ameno (Locus Amoenus), valorizando a vida serena dos pastores (Pastoralismo) e de suas amadas, levam os poetas a refletirem sobre efemeridade de tudo, a fugacidade do tempo, impulsionando-os a aproveitar o dia (Carpe Diem), expressão da postura hedonista, voltada para o gozo dos prazeres.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde, já vêm frias,
E podem, enfim, mudar-se a nossa estrela.
Ah! Não minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças,
E ao semblante a graça!

Tal princípio era reforçado pelo pensamento do filósofo francês Jean Jacques Rousseau, segundo o qual a civilização corrompe os costumes dos homens, que nasce naturalmente bom. Porém, tratava-se de puro fingimento, pois essa perfeição de cenário era fruto de uma criação racional, moldada nos padrões da Antiguidade.
Outro traço presente advindo da poesia horaciana é a vida medíocre materialmente, mas rica em realizações espirituais, Aurea mediocritas (mediania ou equilíbrio de ouro), idealização de uma vida pobre e feliz no campo, em oposição à vida luxuosa e infeliz na cidade e, exaltação do herói simples, humilde, honrado.

Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, com as enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.

7. Pré-Romantismo:
O surgimento de poetas que não conseguindo se adaptar às rígidas normas da teoria árcade acabaram, na prática, por ser destacar da maioria da produção poética do período e recorreram ao individualismo, à sinceridade na expressão dos sentimentos. Esses poetas, presos ainda às fórmulas da estética do Arcadismo para expressar seus sentimentos, mas expressando-os de maneira bastante distante do ideal da escola, são classificados de pré-românticos, pois anteciparam muitas das características do Romantismo que dominaria todo o inicio do século XIX.