sábado, 4 de junho de 2011

ANÁLISE DO "SERMÃO DA SEXAGÉSIMA" OU "A PALAVRA DE DEUS", PADRE VIEIRA


Sermão mais famoso de Vieira, proferido na Capela Real a um público composto por católicos da nobreza portuguesa, no ano de 1655, em Lisboa. Esse sermão, exemplo clássico do pensamento conceptista de Vieira, é uma espécie de profissão de fé do autor sobre sua prática oratória. Através de uma organização de raciocínio, propõe-se a discutir “por que não frutifica a palavra de Deus na terra”.


Sexagésima significa, em termos de liturgia, a segunda dominga do período litúrgico que antecede a Quaresma, ou seja, o domingo que vem quinze dias antes do primeiro domingo da Quaresma e que é, aproximadamente, o sexagésimo dia antes da Páscoa. Quaresma refere-se ao espaço de quarenta dias de jejum, que vão de Quarta-Feira de Cinzas inclusive, até ao domingo de Páscoa, inclusive. E a Páscoa é, para os judeus, a principal festa religiosa e, para os cristãos, a festa da Ressurreição de Jesus Cristo.

O título deste sermão do Padre António Vieira não se refere ao assunto tratado, pelo menos aparentemente, mas à ocasião em que foi proferido e exposto. O seu tema fundamental é expor o Sermão do sermão, ou, mais precisamente, uma teoria geral e formal do sermão, que é, ela própria, um sermão, não um mero sermão, mas sim o Sermão, a partir do qual todos os outros sermões devem ser elaborados ou explicitados.
Nele predomina a função metalinguística de linguagem: um sermão que estabelece os princípios da arte de pregar, incitando os jesuítas a saírem às colônias e pregarem a palavra de Deus, ampliando a fé católica no mundo.
O sermão é um todo de 10 pequenos capítulos:
1. O autor procura se aproximar do auditório dirigindo-lhe perguntas que ele mesmo, o autor, responde;
2. O autor procurará a adesão do auditório à sua tese principal de que se não havia conversões em massa ao catolicismo na sua época era por culpa dos pregadores de então. Na época, com a Restauração portuguesa, os jesuítas não queriam mais pregar fora da metrópole; ali, na Corte e em contato com os nobres, podiam exercer as funções de conselheiros e serem bem remunerados. Deixaram, portanto, de pregar nos lugares distantes, onde a luz do Evangelho de Cristo deveria ser levada pelos membros da Companhia de Jesus;
3. A tese de adesão inicial de Vieira se baseia na parábola evangélica do semeador que saiu a semear;
4. A técnica argumentativa empregada pelo orador é da argumentação pragmática, procurando estabelecer conexões de causa e efeito.

I – INTRÓITO:

Partindo de uma passagem do “Evangelho segundo São Lucas”, a “parábola do semeador”, Vieira apresenta o seu assunto: “Semem est verbum Dei” (“a semente é a palavra de Deus”) e “Verbum est semen Dei” (“a palavra de Deus é semente no coração do homem”). Comentando essa passagem, o pregador transforma-a na principal questão de seu sermão, isto é, se a palavra de Deus é tão eficaz, por que se vê pouco fruto dela no mundo?

“Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? Não há um homem que em um sermão entre si e se resolva, não há um moço que se arrependa, não há um velho que se desengane. Que é isto? Assim como Deus não é hoje menos onipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa, do que dantes era. Pois se a palavra de Deus é tão poderosa; se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores, por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão. Quero começar pregando-me a mim. A mim será, e também a vós; a mim para aprender a pregar; a voz, para que aprendais a ouvir.”

(...)

“Vós, diz Cristo Senhor Nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, por que quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta quanto está a nossa, havendo tantos nela que tem ofício de sal , qual será ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os Ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, que lhes dão, e não querem receber; ou é porque o sal não salga, e os Pregadores dizem uma cousa e fazem outra, ou porque a terra se não deixa salgar, e os Ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem: ou é porque o sal não salga, e os Pregadores se pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os Ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.”


II – ARGUMENTAÇÃO:

Viera, tentando responder à sua questão, vai minuciosamente examinando os aspectos que poderiam explicar a ineficiência da palavra de Deus.
Apresenta três supostos culpados: DEUS, o OUVINTE ou o PREGADOR.

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus.
Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando.
Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?”

Em seguida, Vieira passa a examinar primeiramente a DEUS.


"Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou á terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três?

- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja á chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva?
- Porque o sol e a chuva são as influências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos (“Que fez nascer seu sol sobre os bons e os maus e chover sobre os justos e os injustos”). Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? (“Que devia eu ter feito à minha vida e não fiz?”) - disse o mesmo Deus por Isaías.

Dessa forma, excluindo a culpa de Deus, Vieira examina então a possibilidade de o culpado ser o OUVINTE.


“Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum.



De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E por quê?

- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto às setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra.
Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras. Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. É tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa.
E, se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.”

Excluindo também o ouvinte, Vieira conclui que a culpa da ineficiência da palavra de Deus está no PREGADOR.

“Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é.
Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? - Por culpa nossa.”

Vieira partindo do pressuposto que a culpa é do pregador, continua a sua argumentação, apresentando a temática central do texto: o papel do pregador na evangelização do mundo, buscando desvendar as causas desse insucesso.
Esse elemento é de extrema importância no sermão, pois o grande objetivo deste texto é justamente conseguir a modificação do comportamento do pregador e do ouvinte/leitor.

“Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa?
- No pregador podem considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo e a voz. A pessoa que é, a ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue, a voz com que fala. Todas estas circunstâncias temos no Evangelho. Vamo-las examinando uma por uma, e buscando esta causa.”


Vieira então expõe as qualidades que o pregador exerce em sua função:
- a pessoa que ele representa para seu público;
- o conhecimento que tem do mundo e das leis divinas;
- os sermões em si, em toda sua confecção, desde a escolha do assunto até a sua estruturação;
- o estilo utilizado;
- e a maneira como se expressa oralmente no momento em que professa o sermão.

Cada um destes elementos é examinado cuidadosamente pelo autor, assinalando sua importância e descartando aquele que não é, efetivamente, o culpado pelo fracasso da evangelização.
Primeiramente, analisa o comportamento pessoal do pregador, que deveria fazer da sua vida um exemplo para os fiéis. Mas, com base num exemplo bíblico: Jonas, cuja vida desregrada não poderia servir de exemplo a nenhuma audiência e com um único sermão conseguiu evangelizar todo um reino gentio, conclui que não é esse o fatal impedimento para a evangelização dos ouvintes.
Depois, Vieira descarta a possibilidade da falta de domínio da matéria, isto é, da falta de conhecimento de como deve ser produzido um sermão. Apesar de demarcar como deve ser um sermão e que são muitos os sermões que não seguem os procedimentos por ele apontados.
Neste momento, a metalinguagem alcança um elemento máximo na obra, pois o autor dedica-se a uma descrição minuciosa de como deve ser confeccionado o texto por seu autor. Também não é a falta de conhecimento empírico (vivenciado pessoalmente pelo pregador) a causa fatal para o problema levantado, embora a importância deste conhecimento seja ressaltada, Vieira afirma que São João Batista pregava aquilo que havia sido vivido pelo profeta Isaías, sem ter, ele mesmo, vivenciado aquelas experiências e que o mesmo ocorreu com outros grandes santos e pregadores.
Por fim, a forma de expressão oral também não é considerada a causa maior da pouca frutificação do trabalho de evangelização da época. Vieira assinala que biblicamente havia dois estilos de expressão: um exaltado, pautado no brado, no grito, e outro contido, moderado, sendo ambos igualmente eficientes.

“Há de tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de impugnar e refutar com todo a força da eloquência os argumentos contrários, e depois de dito há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar de mais alto.”

Analisando, o estilo, Vieira condena o CULTISMO e, sobretudo, o uso de antíteses nos sermões, pois esse estilo dificulta o entendimento por parte do ouvinte.

“Não fez Deus o Céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra há de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão dizer subiu. Baste que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? (...) Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto, os que o condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra. (...) É possível que somos portugueses, e não havemos de entender o que diz?”

Descartados os elementos levantados nas hipóteses (a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz), Vieira assinala agora a tese verdadeira:

“As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis, cristãos, a causa por que se faz, hoje, tão pouco fruto com tantas pregações?
- É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são as palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como dizia) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. (...) Mar, dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? – Esse é o mal. Pregam palavras de Deus. (...) As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregada no sentido que nós queremos, não são palavras de Deus, antes podem ser palavras do Demônio.”


A sutil diferença entre os elementos palavras de Deus × a palavra de Deus é desenvolvida e a tese agora toda composta (A evangelização tem pouco fruto porque os pregadores não semeiam a palavra de Deus) é finalmente explicada: os evangelizadores têm usado a palavra de Deus de acordo com as conveniências humanas, e não no “sentido em que Deus as disse“. Sendo assim e retomando-se a máxima de Lucas (A semente é a palavra de Deus) é impossível que se frutifique a fé cristã porque não é ela que está sendo lançada ao mundo.

III – PERORAÇÃO:

Assumida plenamente a tese, Vieira inicia a peroração (conclusão) do texto. Ele critica ferozmente os pregadores que assim procedem, acusando-os de transformarem a Igreja num teatro e o sermão numa comédia e de buscarem a fama e o prestígio do mundo. Em sua condenação, chega a comparar os evangelizadores a médicos: se os médicos não se preocupam se o paciente gosta ou não do remédio, conquanto esse remédio cure-lhe os males do corpo e o salve da doença, também assim deve agir o pregador, que é um médico de almas. Ele não deve se preocupar com as convenções políticas e sociais, mas sim com o seguir fielmente a doutrina tal qual ela é. Vieira arremata este raciocínio mencionando uma situação ocorrida em Portugal, quando da discussão a respeito de quem, entre dois grandes pregadores da época, seria o melhor. Sem reproduzir os nomes (provavelmente sabidos pela platéia) Vieira afirma que a questão, cujos votos estavam empatados, fora definida pela seguinte declaração de um dos debatedores de maior autoridade:

“Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.“

Como declaração final, Vieira recomenda:

“Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades. Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum (“E fez um fruto um cêntuplo.)”

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A ORATÓRIA DE PADRE VIEIRA


I – VIDA:


“Um homem dividido entre a colônia e a metrópole.”

Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, e faleceu em Salvador, em 1697. Era filho de Cristóvão Vieira Ravasco, mulato, e de D. Maria de Azevedo. Estava Portugal sob domínio espanhol. Em 1578 o rei D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, na África, onde os mouros derrotaram os portugueses. Não tendo herdeiros, o trono passou para seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que, já velho, morreu em 1580. Filipe II, rei da Espanha, por ser neto de D. Manuel o Venturoso pelo lado materno (Era filho de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano, e de Isabel de Portugal, filha de D. Manuel), assumiu o trono português. O Império Espanhol passou então a incluir Portugal e as possessões portuguesas, até a revolução que restaurou o trono português em 1640.
O pai de Antônio Vieira fora empregado em casa de D. Fernão Telles de Menezes, conde de Unhão, o qual foi tomado para seu padrinho. Em casa dos condes de Unhão havia trabalhado também o avô paterno de Vieira, Baltazar Vieira Ravasco. Esse avô era branco, natural da vila de Moura, mas, quando empregado em casa dos Condes, enamorou-se de uma serviçal mulata da mesma casa, que foi a avó paterna de Vieira. Dizem os biógrafos que o romance motivou que ambos fossem despedidos. Perguntado na Inquisição sobre seus antepassados, mais tarde, com 55 anos, Vieira disse nada saber dessa sua avó paterna.
O avô pelo lado da mãe, Dona Maria de Azevedo, era pessoa influente, Brás Fernandes de Azevedo, cristão velho. Este conseguiu para o genro nomeação para escrivão dos agravos da Relação da Bahia, logo que esse tribunal foi instituído. Isto motivou a vinda do pai de Vieira para o Brasil em 1609. Deixou em Portugal a mulher e o filho, para buscá-los três anos depois, em 1614, estando Vieira com seis anos.
Vieira teve um irmão e duas irmãs: Bernardo Vieira Ravasco, que ele declarou, quando inquirido no Tribunal da Inquisição, ser alcaide-mor da cidade de Cabo Frio do estado do Brasil, e secretário de estado e guerra do mesmo Brasil, solteiro. Nasceu e faleceu na Bahia (1617-1697), foi Comendador da Ordem de Cristo e teve vasta influência na Colônia; Dona Leonarda de Azevedo casada com o Doutor Simão Alves de Lapenha desembargador dos agravos de Sua Majestade e Cavaleiro do hábito de Cristo. Essa irmã morreu com o marido e os filhos em um naufrágio quando viajavam para Portugal, e Dona Maria de Azevedo que ele declarou solteira, mas que casou depois com Jerônimo Sodré Pereira. Esses irmãos eram brasileiros, naturais e moradores da cidade da Bahia.
Teve mais as irmãs Catarina Ravasco de Azevedo, mulher do Sargento-mor Rui Carvalho Pereira, falecida sem descendência, e Inácia de Azevedo Ravasco que foi casada com Fernão Vaz da Costa Dória
Vieira foi educado no Colégio Jesuíta da Bahia. O ensino tradicional jesuítico compreendia retórica, filosofia e teologia. Para aguçar em cada aluno o poder de argumentação os jesuítas estimulavam debates sobre temas os mais extravagantes: o que Deus fazia antes da criação do mundo, se poderia criar outros mundos mais perfeitos que o nosso, se as almas das plantas e animais são divisíveis, qual era a estatura da Virgem Maria, etc. Este tom argumentativo, dialético, permeia os sermões de Vieira como um sestro que ficou dos tempos de estudante. Seu professor de filosofia foi o Padre Paulo da Costa.
Manifestando seu desejo de entrar para a ordem jesuítica, Vieira teve a franca oposição dos pais. Fugiu de casa à noite para o colégio, onde o reitor o acolheu sem hesitação, por saber o que sua inteligência prometia. No dia seguinte, ano de 1623, iniciou seu noviciado, contando então quinze anos. Levaram-no para a aldeia do Espírito Santo onde os padres doutrinavam os indígenas, a sete léguas da cidade, para distanciá-lo da família inconformada.
Vieira ainda era um noviço quando, em 1624, ocorreu a invasão da Bahia pelos holandeses.
Em 1581 a Holanda havia proclamado sua independência, libertando-se do domínio da Espanha. Em represália, Filipe II fechou todos os portos portugueses e espanhóis aos navios holandeses. Essa medida constituiu um violento golpe na economia holandesa, que controlava o transporte, o refino e a distribuição do açúcar brasileiro na Europa. Para superarem esse obstáculo, os poderosos comerciantes holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais para a conquista dos mercados produtores, no caso o Nordeste Brasileiro (Bahia e Pernambuco).
Quando a armada da Companhia das Índias Ocidentais chegou a Salvador o povo fugiu para os matos, grande parte dos habitantes de Salvador se dispersou pelas aldeias dos índios, sob a direção dos padres jesuítas. O governador geral Diogo de Mendonça Furtado foi preso e embarcado para a Holanda. Assumiu interinamente o governo D. Marcos Teixeira, quinto bispo do Brasil, que adotou a forma de guerrilha para combater o invasor.
Essa tática terminou por dar resultado e no ano seguinte, 1625, chegou á esquadra espanhola e retomou a cidade. Os holandeses se renderam e quando, pouco depois, chegou uma esquadra holandesa para reforço, nada mais pode fazer. Todas as propriedades holandesas (navios, ouro, etc.) foram confiscadas e receberam navios e mantimentos apenas, suficientes para partirem de volta para a Holanda.
Vieira contava apenas 16 anos, e já conhecia latim tão admiravelmente que os padres o encarregaram de relatar o acontecido ao Geral da Companhia em 1626, á primeira escrita após a interrupção de dois anos ocorrida naqueles tempos anormais. Relembrando a noite da invasão, diz o jovem noviço:

"Mas quem poderá explicar os trabalhos e lástimas desta noite? Não se ouviam por entre as matas senão ais sentidos e gemidos lastimosos das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas mães, e elas pelos maridos, e todos, segundo a fortuna de cada um, lamentavam sua sorte miserável".

Encerrados os dois anos do noviciado vividos no período da invasão, Vieira fez os votos simples de pobreza, obediência e castidade e passou de imediato ao treinamento pedagógico á que os candidatos às ordens sacras estavam obrigados na Companhia de Jesus.
Em 1627 está em Olinda, lecionando retórica no colégio jesuíta. Mas logo é chamado de volta à Bahia, com certeza, pela falta sentida de seus préstimos. Somente em 1634 seria ordenado padre, e diz seu biógrafo J. Lúcio de Azevedo que nada se sabe do período que precedeu à sua ordenação.
Ordenado padre, as ocupações Vieira são o magistério no colégio e nas aldeias indígenas, e a pregação.
Seu primeiro sermão foi pronunciado na Quaresma de 1633, antes de receber as ordens. Em 1635 escreveu o seu livro "Curso Filosófico" adotado no Colégio todo o século XVIII. Cedo apareceu como erudito e como orador eloquente. Alguns de seus sermões mais enérgicos sobre a guerra holandesa e situação dos escravos foram feitos na Bahia. Em 1638 os holandeses, vindo de Pernambuco, tentaram tomar Salvador pela segunda vez, mas não conseguiram. Com o invasor às portas, em número de 3.400 soldados comandados por Maurício de Nassau, Vieira usou, para o sermão na igreja de Santo Antônio, no dia do santo, o versículo do Livro dos Reis: "Porque eu defenderei esta cidade, para salvá-la, por mim próprio por meu servo David".
O irmão de Vieira foi ferido nas lutas pela recuperação de Itaparica. Após um sítio de 40 dias que logrou impor à cidade, a tropa assaltante teve de retirar-se.
Vieira trabalhou entre os escravos índios e negros até 1641, quando foi incumbido de levar congratulações ao Rei D. João IV em sua ascensão ao trono.
D. João IV (reinou 1640-1656), nascido em 1604, era duque de Bragança. Subiu ao trono na revolução vitoriosa contra os espanhóis em 1640. Pertencia à casa de Avis que reinara antes dos 60 anos de domínio espanhol, fundando assim a dinastia dos Bragança.
O vice-rei do Brasil, tendo de enviar seu filho D. Fernando à Metrópole, a levar a adesão da Colônia a D. João IV, faz acompanhar de dois jesuítas, o Padre Vieira e outro religioso também ilustre, o padre Simão de Vasconcelos, que seria depois afamado cronista da Ordem.
A luta dos portugueses contra o domínio espanhol esclarece Lúcio de Azevedo, fora sustentada por um civismo místico, com fundamento em profecias de Bandarra, um sapateiro inspirado, que desde 1540, em um livro de trovas, consignara os destinos de Portugal. Dos solares dos fidalgos às escolas onde as crianças rudes do povo aprendiam, o Bandarra era o livro de leitura e a bíblia do patriotismo. Nada contribuiu tanto para manter viva a esperança na redenção do estrangeiro. Sua profecia de grandeza esperava-se que se concretizariam com a volta de D. Sebastião, que se supunha ainda vivo, pois ninguém o vira morrer na batalha em África. Porém, torcidas, reinterpretadas, falseadas onde foi necessário, aplicaram-se aos fatos da restauração. O Encoberto, o rei desconhecido de que falavam os vaticínios, podia muito bem ser D. João, o Duque de Bragança.
Assim se preparou o ambiente em que brotou a revolução pela restauração da monarquia portuguesa. Restaurado o trono, ao Bandarra tributaram-se grandes honras. O próprio D. João IV aceitava a designação de "O Encoberto", como sagração de sua realeza pela intenção divina.
A essa crença aderiu também Vieira. Seu companheiro de viagem, o Padre João de Vasconcelos, compunha a "Restauração de Portugal", apologia mística do rei aclamado, coligindo as maravilhas e profecias que justificavam o ato revolucionário.
Nas suas pegadas, Vieira escreveu “Quinto Império do Mundo” e “História do Futuro.”
Ao cabo de aventurosa viagem com destino a Lisboa, o jovem fidalgo e os dois religiosos foram obrigados a desembarcar em Peniche devido a uma tempestade que desarvorou a nau, e ali um mal entendido, os levou à prisão, tomados por contra-revolucionários aderentes do governo espanhol. No dia seguinte, desfeitos os equívocos, partiram para Lisboa.
Recebidos pelo Rei, no mesmo instante Vieira conquistou a simpatia do monarca que, com certeza, percebeu logo o quanto Vieira lhe poderia ser útil. Tinha Vieira não apenas conhecimento dos assuntos do Brasil, como sabia muito da psicologia do inimigo holandês.
Vieira está em Lisboa com 33 anos de idade. Sua fama no Brasil já alcançara Portugal. Começa a pregar na Igreja do seu Instituto S. Roque. Lisboa invadia a igreja para ouvi-lo. Foi convidado a pregar para o Rei, Vieira pregou pela primeira vez na Capela Real no dia do Ano Bom de 1642. O Rei tornou-se admirador da personalidade magnética e segura de Vieira e passou a olhar o jesuíta alto, magro e dinâmico como "o maior homem do mundo".
Cada vez mais íntimo da família real, estimado pela conversação inteligente e manifestamente clara compreensão dos negócios do Estado, em pouco tempo Vieira dava o voto mais autorizado e decisivo em importantes negócios de Estado. A essa ajuda na qualidade de conselheiro, juntava-se outra ainda mais preciosa. Era tão aflitiva a situação do reino que nos sermões cabia alertar o povo sobre tudo que fosse interesse da pátria, pois não havia meios de comunicação senão as prédicas e o que se noticiava de boca em boca.
Vieira pelo concurso de ouvintes e influência da sua palavra colocou-se inteiramente a serviço do rei e até a favor dos impostos chama à responsabilidade os cidadãos.
Fazia sua exortação ao patriotismo paralelamente com a exortação moral em que os negócios mais graves do Estado saiam a lume, e através de alegorias da Bíblia analisava atos do governo e a conduta dos homens públicos. Quando necessário, nem o próprio soberano, figura sagrada para o povo, escapava às admoestações e à censura.

"Sabei cristãos, sabei príncipes, sabei ministros, que se vos há de pedir estreita conta do que fizestes."

Completados os 35 anos, Vieira ainda não era jesuíta professor. Faltava-lhe fazer o quarto e último voto, o de obediência ao Papa, que, segundo Lúcio de Azevedo, professou em 26 de maio de 1644.
Entre 1646 e 1650 Vieira esteve engajado em missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, com os mais variados misteres. A mais relevante foi com certeza a do acordo entre Portugal e Holanda. A Holanda queria uma indenização por ter perdido Pernambuco, mas que intentava reconquistar. Preparou uma nova frota para ir ao Brasil a qual, para felicidade de Portugal, se desmantelou no Atlântico devido á forte tempestade. O ponto dificultoso das negociações era a fiança que haveria os holandeses de pedir pela mora, até se realizar cinco ou seis anos mais tarde o pagamento final.
Aqui se oferece a Vieira ensejo de renovar seu empenho em favor da gente hebraica. Ele havia apresentado em 1643 uma exposição de motivos ao Rei, na qual argumentava que o reino estava em estado miserável depois do domínio espanhol (que não defendera as colônias de Portugal permitindo que a Holanda se apoderasse de boa parte delas) e que era um contra-senso a perseguição aos judeus.
Dizia:

"Por estes reinos e províncias da Europa está espalhado grande número de mercadores portugueses, homens de grandíssimos cabedais, que trazem em suas mãos a maior parte do comércio e riquezas do mundo. Todos estão desejosos de poder tornar para o Reino...Se Vossa Majestade for servido de os favorecer e chamar, será Lisboa o maior império de riquezas..."

Acrescentava que todos os países viam a miséria de Portugal. Nenhum país colocara embaixada no Reino restaurado e que o desprezo era tanto que o Papa não recebeu o embaixador português.
A volta dos judeus, além de enriquecer Portugal, haveria de enfraquecer o inimigo que deles se valiam com grande vantagem, porque na Espanha, judeus portugueses estavam cuidando da administração da fazenda real e emprestando ao monarca espanhol milhões enquanto não chegavam ás frotas com o ouro da América.

"E o mesmo sucederá na Holanda, cujas companhias, que nos tem tomado quase toda a índia, África e Brasil, vivem em boa parte à custa da finança judaica portuguesa". E lembra ainda os exemplos da França e da própria Roma, "onde se permite a existência de sinagogas com seu culto".

E porque se permitia no reino de Portugal comerciantes protestantes de várias nacionalidades e não se permitiam comerciantes judeus?
A Companhia de Jesus considerava imprudente e comprometedor o empenho de Vieira. O Rei escreveu uma carta (1644) ao Provincial da Companhia recomendando que não fosse maltratado Vieira por motivo de suas ideias.
Seu plano no negócio com a Holanda, como um desdobramento da representação antes feita, era que dos cristãos novos poderiam vir a dar a fiança necessária ao acordo.
De volta de Paris onde fora tentar o apoio do governo francês para as negociações com a Holanda, Vieira deteve-se em Ruão para consultar os cristãos novos portugueses ali residentes. Além da questão dos créditos que buscava para o reino, Vieira empenhou-se com os judeus sobre o projeto de restituí-los à pátria. Naquela cidade florescia então, com o consentimento tácito das autoridades, o judaísmo, e era ela, quase tanto como Holanda, refúgio dos hebreus portugueses.
Uma vez na Holanda entrevistou-se também com os judeus de Amsterdã e lhes fez promessas como aos de Ruão, no sentido de trabalhar para que fossem favorecidos com mercês régias os cristãos novos.
Homem preocupado com todos os assuntos que dissessem respeito a Portugal, Vieira, estava também empenhado em que Portugal reformasse os velhos galeões e adquirisse navios modernos para a sua frota. Aconselhara o rei a comprar quinze fragatas armadas, que em Holanda se ofereciam ao preço de vinte mil cruzados cada uma. Alguns desses navios foram adquiridos por intermédio do embaixador em França e ele próprio levou encargo para outros, quando no ano seguinte voltou à Holanda, para o que obteve de dois importantes negociantes cristãos novos os recursos necessários.
Sentindo o apoio firme de D. João IV, tomou Vieira a iniciativa de defender os judeus contra a Inquisição que lhes confiscava os bens antes mesmo de encontrar-lhes culpa formada.
D. João IV não podia desfazer as penas impostas ao crime de heresia pelo direito canônico, nem intervir na jurisdição do Santo Ofício. Com certeza por inspiração de Vieira, assinou um alvará que solucionava a questão, ou seja, que os cristãos novos não perdessem os seus bens quando detidos pelo Tribunal por culpas inventadas por inimigos seus. D. João se comprometia a devolver aos cristãos novos aquilo que lhes fosse confiscado, pois embora a condenação fosse feita pela Igreja, os bens confiscados destinavam-se ao Estado, deduzido pela Inquisição o necessário para sustento da sua máquina e liturgia.
O Santo Ofício protestou contra tal abolição perante o Rei e recorreu ao Papa. Os inquisidores obtiveram do Papa um breve pontifício restabelecendo o confisco. Quando apresentaram o documento a D. João IV, este argumentou que, como quem ia ficar com os bens confiscados era ele, o monarca, ele podia perfeitamente, como proprietário, devolvê-los aos seus donos. Assim conseguiu manter a resolução.
Ao mesmo tempo foi criada uma companhia portuguesa para exploração das colônias com liberdade para participação de capital judeu. Inscreveram-se os cristãos novos mais ricos. Duarte da Silva, que dera o crédito para os navios de Holanda, e que em seguida fora preso pela Inquisição, estava agora com os bens desembaraçados em virtude da nova lei, reuniu-se a muitos outros, juntando-se enorme capital.
A inquisição, como era natural, revoltou-se, e Vieira estava publicamente comprometido com a o projeto. O caso produziu escândalo em toda a parte no país. Os amigos da Inquisição, que eram os inimigos dos cristãos novos, juntos aos inimigos de Vieira, que eram muitos, não cessavam de publicar a sua indignação. Pode-se afirmar que foi nesse tempo Antônio Vieira o homem mais aborrecido em Portugal. Uns o apodavam de traidor, por que sugeriu ao rei entregar Pernambuco aos holandeses em troca da paz, quando a questão dos fiadores parecera sem solução. Outros o infamavam de herético, por tentar restabelecer as sinagogas no reino.
Ora, o quanto acabrunhado devia andar Vieira é fácil de imaginar. Afinal, era de se esperar que Holanda fosse um país amigo de Portugal, porque também havia lutado contra a Espanha para firmar sua soberania. Se havia atacado e montado um enclave no Brasil, o fizera exatamente porque era um ato hostil à Espanha, herdeira do reino e das colônias portuguesas no processo de sucessão de D. Sebastião. Valia muitíssimo á pena ter novamente Holanda por aliada contra a Espanha, garantindo assim a paz e segurança de todo o império português que se desejava restaurar e fortalecer. Que isto custasse deixar os Holandeses em paz no Pernambuco, havia parecido ao estadista, a certa altura dos acontecimentos, um preço muito razoável. Quanto aos judeus, Vieira estava tão certo que, ainda hoje, não se compreende como pôde Portugal agir com tanta insensatez, expulsado de seu território justamente aqueles que haviam desenvolvido o seu comércio e tinha feito de Lisboa, o mais importante porto comercial do Atlântico.
Os Inquisidores então passaram a reunir "denúncias" contra Vieira: uso de livros proibidos trazidos do estrangeiro; proposições como a da conveniência de consentir em Lisboa, como se consentia em Roma, o funcionamento de sinagogas, e várias repetições, pelos denunciantes, de afirmações muito conhecidas de Vieira a respeito de que se desse tratamento diferentemente a judeus e a judaizantes. Apesar de serem posturas conhecidas, ganhavam com a denúncia o caráter de novidade indispensável para criar assombro e escândalo tardio. Nada foi apurado que realmente fundamentasse um processo, mas as investigações estimularam entre os jesuítas àqueles que não compreendiam Vieira ou o hostilizavam gratuitamente.
Seus adversários em sua própria Ordem acusaram-no de hábitos mundanos, adquiridos nas missões diplomáticas, do vestuário secular que usou em lugar da batina, e de ter a seu serviço um criado que Vieira pagava para lhe facilitar a vida apertada de compromissos por toda a parte. Denúncias e queixas repetiram-se em Roma, e tantas foram que o Geral determinou fosse Vieira expulso da ordem. O Geral, porém voltou atrás, quando o Provincial em Portugal informou que o rei, determinara que nada se fizesse, pois afastaria Vieira da Corte concedendo-lhe uma diocese. Mais surpreendente ainda a resposta de Vieira ao soberano, dizendo que não trocaria sua batina de missionário nem por todas as dioceses de Portugal.
Apesar de ocupado com os negócios em que era chamado a opinar ou de que era incumbido por em marcha, Vieira não abandona o púlpito nem suas obrigações religiosas, nem deixa a morada com os companheiros jesuítas. Sem dúvida lhe custava tempo a preparação de seus apreciados sermões cujas citações a filósofos, à mitologia, etc., lhe custavam estudos. Diz Lúcio de Azevedo que ante a submissão do acusado, e a atitude de franca proteção que adotara o soberano, a sanha dos acusadores afrouxou.
A pena foi suspensa e depois definitivamente anulada.
Exausto talvez de tantos esforços em maquinar meios de garantir a sobrevivência da monarquia portuguesa, mesmo que fosse ás custas de casar o herdeiro português com a princesa espanhola, com a condição de que a capital do reino fosse Lisboa, e dentro da perspectiva de que esse casamento faria o príncipe português herdeiro dos dois tronos, decide que é o momento de voltar ao Brasil.
Não que lhe faltasse á amizade do rei e do príncipe herdeiro D. Teodósio. Recebe ainda uma missão de acompanhar à Inglaterra o novo embaixador português, porém a recusa. Na data de seu embarque para o Brasil, depois de despedir-se do Rei, este tentou sustar sua viagem mandando ordem ao capitão do navio para não admitir Vieira a bordo. Pelo que diz o seu biógrafo sobre os pormenores de seu embarque, esse gesto do Rei possivelmente o lançou em dúvida quanto á realmente seguir para o Maranhão. Mas decidiu-se de vez e embarcou na primeira oportunidade, dois meses depois. Em janeiro de 1653, desembarcou Vieira em São Luís do Maranhão como superior dos missionários jesuítas.
Na caravela em que não embarcara Vieira, haviam chegado antes dele ao Maranhão não apenas os padres dos quais ele seria o provincial, mas também um novo capitão mor que trazia carta do rei alforriando todos os índios da província. Por falta de escravos pretos, eram os índios os escravizados para os trabalhos nas fazendas e na cidade. Aguardou-se a chegada de Vieira para a publicação da lei. Quando o porteiro saiu a apregoar a determinação real ao som do tambor, o povo afluiu à Câmara em protesto. A libertação dos índios causaria a perda econômica que seria fatal para a província. Atribuíram aos jesuítas haverem conseguido aquela lei dada pelo monarca e se indignaram contra os padres, clamando expulsão e mesmo morte, para Vieira e seus companheiros.
Vieira habilmente encontrou a solução que apaziguou momentaneamente os ânimos. Propôs que aqueles índios que eram legalmente escravos fossem assim mantidos, mas aqueles mantidos ilegalmente em cativeiro fossem daí por diante pagos como trabalhadores livres. Como os colonos não tinham propósito algum de pagar, aceitaram satisfeitos a solução e voltaram com seus índios para suas fazendas onde a situação dos silvícolas continuou a mesma.
Desde a chegada desejou Vieira que as aldeias fossem, como na Bahia, entregues à direção dos missionários, e pôs logo seu cuidado em visitá-las. Tarefa penosa, pelos descômodos e fadigas que impunha as muitas picadas de mosquito dia e noite, o que, porém, ele aceitava de bom grado, pelos frutos que esperava de tantos trabalhos e privações. Seu zelo levou-o até o Pará onde, com alguns padres, navegou em canoas com extraordinário risco para avaliar a potencialidade da província a seu cargo para o ministério jesuítico.
A questão dos índios não chegava por nenhum dos lados á solução aceitável: nem os colonos desistiam do sistema de escravidão que tinham instituído; nem os jesuítas deixavam o propósito de lhes subtrair, ou pelo menos limitar, o domínio sobre os silvícolas cristianizados.
Achando-se os jesuítas acuados e limitados pelo poder dos fazendeiros, decidiu Vieira com seus companheiros que iria ele a Portugal tratar as questões com o rei.
Em breve visita a Portugal de 1654 a 1655, ele obteve decretos protegendo os índios da escravidão e um monopólio para os jesuítas na proteção dos índios.
Viagem atribulada, o barco enfrentou uma tempestade quando já próximo aos Açores, chegando a virar sobre um dos bordos, salvando-se por reconhecido milagre a tripulação e passageiros. Um pirata holandês os encontrou, confiscando a carga de açúcar que levavam, mas deixando-os em segurança no porto da Graciosa. Com o dinheiro que havia manejado esconder, Vieira comprou roupas e comestíveis para todos e meios para continuarem para Lisboa. Ficou nas ilhas por mais de dois meses até partir para Lisboa em um navio inglês.
Em Lisboa voltou a pregar na Capela Real, com outros pregadores reais. Seu tema era principalmente a corrupção dos políticos, de cujos efeitos, acabavam de sofrer no Brasil. O rei que andara doente à época da chegada de Vieira, em nada se sentiu atingido pelo cáustico moralista, e atendeu plenamente às reivindicações que lhe apresentou Vieira. Foi instituída administração conjunta do Pará e Maranhão, o que deveria minorar os problemas enfrentados pelos jesuítas e, mais ainda para satisfação de Vieira, caberia a André Vidal de Negreiros, herói pernambucano na luta pela libertação de Pernambuco, e que já estava nomeado para o governo do Maranhão, governar conjuntamente as duas províncias.
Reunidos o futuro governador, Antônio Vieira e altos funcionários, assentou-se o regime definitivo dos índios livres, em um estatuto próprio que fixava o quando deveriam receber como salário mínimo pelo seu trabalho, e outras disposições solicitadas pelos jesuítas no sentido de proteger os silvícolas. André Vidal partiu em 1654 e Antônio Vieira algum tempo mais tarde. O rei o proibiu de embarcar, mas tendo Vieira lhe proposto que ouvissem a opinião dos jesuítas sobre ficar ele em Lisboa ou retornar ao Brasil, e tendo esses decididos, por maioria, que seria melhor para a Ordem que retornasse ao Brasil, o soberano aquiesceu em autorizar sua partida.
Em janeiro de 1661, no Pará, a Câmara apresentou aos missionários, pedido com urgência para arregimentar índios no mato, para o trabalho escravo, o que rebateu Vieira.
Nessa época, surgiu novo conflito, suscitado por uma imprudência de Vieira, do qual tiraram seus opositores privilégios. Foi o caso do chefe da aldeia de Maracaná, a cargo dos jesuítas, no Pará. O índio vivia em concubinato com uma cunhada, um péssimo exemplo que os padres queriam suprimir. Vieira escreveu-lhe uma carta amável, solicitando que viesse ao colégio, chegando lá, foi desarmado e preso em ferros em uma cela, passando depois ao calabouço do forte de Gurupá.
Ao protesto dos índios seguiu-se o da câmara, associando-se a ele as ordens monásticas. O escândalo uniu os padres de outras ordens aos colonos e no inquérito a que se procedeu pelo Ouvidor Geral, em São Luís, os prelados do Carmo, S. Antônio e Mercês, que chegavam do Pará, depuseram em concordância com a representação dos índios.
Ao declarar-se a sedição no Maranhão, Antônio Vieira fazia caminho de Belém a S. Luís. Já próximo da cidade, recebeu carta do governador colocando-o a par da revolta e recomendando que não entrasse em São Luís. Pôs se de volta a Belém onde pretendia acalmar os índios para que não fugissem para os matos, assustados com as notícias que se espalhavam.
Menos de um mês passado, também no Pará rebentou a comoção contra os padres. Como em São Luiz, também em Belém o povo assaltou o colégio e pôs em custódia os jesuítas. Antônio Vieira ficou apartado dos companheiros em uma pequena igreja. Uma índia, Mariana Pinto, que depois foi irmã, conseguia passar a Vieira alguma ligeira refeição, até que entre homens armados o embarcaram para São Luís. Da canoa foi transposto para a caravela que, em 1661 levou todos os padres para a Europa. Vieira não descansava nunca; nesta viagem compôs e proferiu um dos seus mais belos sermões, o do “Rosário”, que fez ouvir, no domingo 9 de outubro, a seus companheiros na aventura marítima, gente de bordo e passageiros.
Em 1661, Vieira foi expulso para Portugal. Deteve uma situação a ele favorável na Corte, mas que depois, reverteu-se inteiramente em contrário. Falecido D. João IV em 1656, e porque falecera também D. Teodósio, primeiro na ordem da sucessão, sucedeu ao pai D. Afonso VI, com 13 anos de idade, sob regência de sua mãe, D. Luiza de Gusmão (1656-1683). A rainha regente era contrária a entregar o reino a esse filho por sua notória incapacidade para governar; era a favor de que fosse aclamado o irmão mais moço, D. Pedro.
Vieira encontra seu lugar na corte, como em épocas passadas, mais ainda quando a regente, no embate das intrigas e paixões em que a corte refervia, tanto necessitava do conselho e auxílio de homem tão experimentado como o missionário recém chegado do Maranhão. Vieira que muito bem conhecia a vida desregrada do jovem príncipe, pois que toda preparação para reinar havia sido dada a D. Teodósio, coloca-se ao lado da rainha.
Porém já no ano seguinte, em 1662, alguns nobres amigos do herdeiro se puseram a seu lado e o levaram a estabelecer seu governo em Alcântara. Diante desse golpe, não teve outra alternativa a rainha senão passar a D. Afonso os selos do Estado. Os partidários de D. Pedro foram punidos, e Vieira que foi desterrado para o Porto.
Nesse mesmo ano, a princesa Catarina de Bragança, irmã de D. Afonso, casou com Carlos II da Inglaterra. Em troca de um rico dote, e de favoritismo comercial, a Inglaterra forneceu armas e soldados para a guerra contra a Espanha. As defesas portuguesas foram então organizadas por um militar alemão, Friedrich Hermann von Schönberg.
Afonso VI era considerado débil mental, e o país governado por Luiz de Vasconcelos e Souza, conde de Castelo Melhor até 1667. Em seu reinado os portugueses, sob o comando de Shönberg, obtiveram várias vitórias contra a Espanha, que em 1668 reconheceu a independência de Portugal. Foi casado com Maria Elizabeth Francesca de Sabóia (princesa francesa) que conspirou com seu irmão Pedro para afastar Castelo Melhor e anular o casamento com Afonso VI. Ela casou com Pedro em 1668, e Afonso VI foi persuadido a passar o trono para seu irmão que poderia ter um herdeiro e foi declarado regente. Desde então o rei foi mantido prisioneiro em Sintra, onde morreu.
No Brasil Vieira havia assentado as bases do que pretendia seria sua grande obra sobre a interpretação dos profetas, que na verdade nunca chegou a publicar. No desterro do Porto retoma seu trabalho intelectual. Faz a revisão de dezesseis volumes de Sermões para dar ao prelo e continua a rascunhar o “Clavis prophetarum”. Era Vieira bem vigiado pelos partidários de D. Afonso aos quais deixá-lo no Porto pareceu inconveniente. Cogitaram de desterrá-lo para Angola, mas se concluiu por deixá-lo preso no Colégio da Companhia em Coimbra.
Por falta de amigos na corte, foi aprisionado pela Inquisição que vinha preparando um processo contra ele havia algum tempo. As investigações sobre Vieira arquivadas no Santo Ofício foram reabertas. O decreto do Conselho Geral ordenou ao Tribunal de Coimbra mandasse ir à mesa o jesuíta e o interrogasse sobre o seu escrito “As Esperanças de Portugal” em que anunciava a ressurreição de D. João IV, e por seu exagerado interesse em favor dos judeus e cristãos novos. Não pode ser ouvido porque estava doente, do impaludismo contraído no sertão amazônico, cujas crises frequentemente o prostravam. Ultimamente os incômodos se agravaram de complicações bronquiais, com hemoptises que faziam temer ao doente a tuberculose, doença vulgar na Companhia, devido às macerações e canseiras da vida missionária, e cujo contágio era facilitado pela vida em comunidade. Em maio os médicos aconselhavam a mudança de ares. Determinaram os superiores fosse o doente para residência do Canal, junto a Buarcos.
Respondeu Vieira que era certo haver feito um papel, em que anunciava a ressurreição de D. João IV, o qual mandara para ser apresentado e servir de consolo à Rainha viúva. Baseava seus dizeres no Gonsalianes Bandarra, a quem todos tinham por profeta, se não em sentido canônico, mas no sentido que era o terem se cumprido as coisas profetizadas. E esclareceu o seu interesse meramente em favor da economia do reino, na questão hebraica.
Apesar de não encontrar nele falta grave, e mesmo antes de ser julgado, determinou a Inquisição sua prisão no cárcere do Santo Ofício, onde ficou por 26 meses até a véspera do natal de 1667. Continuou preso no Colégio da companhia em Coimbra, e mais tarde, por pedido seu, foi autorizado transferir-se para o noviciado em Lisboa. Pouco depois o Provincial da companhia requereu lhe fossem as penas perdoadas, e isto foi atendido ficando em vigor unicamente a obrigação de não tratar o réu das proposições suspeitas.
Sua vida se recompôs. Do palácio lhe veio o aviso de que haveria de pregar na Capela real por ocasião do aniversário da Rainha. Não pregou dessa vez, mas fez vários sermões nos meses seguintes. Magoado, disse em um sermão na Capela Real uma frase que ficou conhecida:

"Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma; mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia?".

Vieira estava, porém decido a alcançar em Roma a revisão do seu processo na Inquisição. Pronunciou seu último sermão em Lisboa na festa de Santo Inácio, na matriz de Santo Antão, um extraordinário triunfo oratório. O povo, sabendo que ia pregar naquele dia, logo ao alvorecer e antes que se abrisse a igreja já se achava o largo fronteiro pejado de curiosos. Abertas as portas, num instante ficou lotada a igreja.
A fim de lhe facilitar instalar-se em Roma, recebeu da Companhia de Jesus o encargo de tratar assunto de interesse da Companhia, que era o de tratar da canonização de quarenta padres da companhia, trucidados por piratas calvinistas em 1570 quando iam para o Brasil.
Chegando a Roma, alguns padres foram em carros encontrá-lo no caminho, e a esta homenagem se somou a recepção que o Geral e mais padres lhe fizeram. Sua chegada, no entanto, coincidiu com o falecimento do papa Clemente IX e eleição do papa Clemente X, obrigando-o a adiar seu trabalho junto à Cúria.
Os padres da companhia insistiram com Vieira que pregasse. O Geral João Paulo Oliva manifestou seu desejo que aprendesse o italiano e se dispusesse a pregar ante os cardeais e nobreza romana, o mais culto auditório do mundo. Relutante talvez por cansaço, Vieira não teve escolha quando o Geral impôs-lhe obediência no assunto. Pregou pela primeira vez em italiano em Outubro de 1672 na festa de São Francisco de Assis. Concorreram pessoas notáveis da nobreza romana, alguns prelados e seis cardeais. Seguiram-se vários outros sempre concorridos. Tanto era o interesse em ouvi-lo que, diz Lúcio de Azevedo, tornou-se necessário colocar soldados às portas dos templos onde ia pregar, para impedir que se apossasse o público dos lugares, antes de chegarem ás dignidades eclesiásticas e pessoas de representação. Ao sermão, na igreja de S. Lourenço em Damaso, no ano seguinte de 1673, estiveram presentes dezenove cardeais.
Residia em Roma outra celebridade, a rainha Cristina da Suécia, que havia renunciado ao trono de seu país. Admirada pelo desenvolvimento industrial e comercial que promoveu, sua renúncia súbita do trono sueco causou surpresa em toda a Europa. Patronisa das artes e da ciência convidou importantes intelectuais estrangeiros para visitar seu país, inclusive René Descartes, que lhe deu lições de filosofia e morreu na sua corte, em Estocolmo. Renunciou por dois motivos: porque não desejava casar para dar um herdeiro ao reino da Suécia e também porque havia se convertido secretamente ao catolicismo, religião proibida na Suécia.
Em dezembro de 1655, fixou-se em Roma, acolhida pelo Papa Alexandre VII. Tornou-se sensação em Roma, onde comprou um palácio. Depois de ausentar-se em uma conspiração armada em Paris, em que, com a ajuda dos franceses, pretendia sair rainha do reino de Nápoles, precisou de um perdão papal para voltar a viver em Roma.
Foi amiga do cardeal Décio Azzolino, um líder político dos cardeais em Roma, de quem fez seu herdeiro. Ligou-se aos papas, recebeu uma pensão que, ajudou-a a manter-se com os recursos que recebia da produção de suas terras na Suécia. Em seu palácio em Roma tinha coleções de pintores famosos, esculturas e, o local tornou-se ponto de encontro dos intelectuais e músicos famosos da época. Sua biblioteca hoje faz parte da Biblioteca do Vaticano e seu túmulo (faleceu em 1689) está na Basílica de São Pedro.
Vieira pregou especialmente para a Rainha na quaresma do mesmo ano em que chegou a Roma, e por insistência dela junto ao Geral, que novamente exigiu de Vieira um ato de obediência, tornou- se pregador de sua corte. Estreou com uma série de sermões intitulados "As cinco pedras de David". Incluído em seu círculo, a que chamava Academia da Arcádia para filosofia e literatura, o Padre Vieira travou um debate filosófico que lhe valeu aplausos. Nessa Academia os grandes letrados discutiam os problemas mais diversos e faziam conferências para um círculo seleto da nobreza romana.
Através de farta correspondência, trocada inclusive com D. Pedro, Vieira acompanhava de Roma os acontecimentos em Lisboa. Repercutiu em Roma o novo recrudescimento da perseguição aos cristãos em Portugal, no ano de 1672.
Numa manhã de junho apareceu violado o sacrário da igreja do mosteiro de Odivelas. Crer que fosse a ação de herege, e mais particularmente hebreu, era consequência natural. Exaltaram-se os ânimos na capital e em todo o país. A 25 de agosto foi ordenada a expulsão de todos os indivíduos penitenciados pelo Santo Ofício desde o último perdão geral, isto é de 1605, pena que abrangia os filhos daqueles que, com veementes suspeitas de heresia, renegaram os filhos e netos dos que tinham confessado, portanto vários milhares de pessoas. Vieira escreve a D. Rodrigo de Meneses, seu amigo, externando sua desaprovação ao decreto de expulsão e informando que a opinião comum era também contrária em Roma e toda a Europa.
Através de cartas, Vieira instigava o príncipe regente a proceder segundo o exemplo de D. João IV que em 1649 concedera aos cristãos novos licença igual a que agora solicitavam para recorrerem ao Pontífice. Todo seu empenho era que a contenda se transferisse para Roma, onde os recorrentes tinham modo de captar os votos e ele meio de cooperar nas diligências.
Afinal, em julho, decidiu-se conceder o que, a troco de apreciáveis vantagens na formação de uma Companhia que daria apoio a Portugal na Índia, os homens de negócio pediam a licença para requerem em Roma a reforma da Inquisição. Vieira deveria escrever ao Pontífice, a recomendar a súplica, e apontando como providência complementar necessária o perdão geral.
Porém, soando então que tinha o Regente acedido ás reclamações dos hebreus, que ia haver sinagoga pública em Lisboa, e que entre os proponentes do negócio da Índia se achavam judeus declarados, vindos de Roma por comissão do Padre Antônio Vieira, os inimigos dos cristãos novos romperam em protestos ruidosos. Alegava-se nos círculos da Inquisição em Lisboa que só das confiscações de bens relativas aos réus então nos cárceres prometia 500 mil cruzados, e para o futuro quantias superiores, para que, pois a condenável transação com os hereges?
Recrudesceu em Portugal a perseguição aos cristãos novos pelo Santo Oficio. Choviam as delações e acumulavam-se os presos nos cárceres. Nos últimos dias de julho de 1672 foram recolhidos à inquisição em Lisboa alguns dos mais graduados comerciantes da cidade.
Já com 65 anos, Vieira sofria recidivas de seus achaques do tempo dos interrogatórios da Inquisição. Ausentou-se de Roma para se recuperar, em Albano, dos ferimentos sofridos em uma queda na escada de pedra da residência. O clima em Roma definitivamente o prejudicava na sua saúde.
Uma delegação portuguesa chegada a Roma para tratar assuntos da Igreja e particularmente da Inquisição deu a conhecer a Vieira que o rei D. Pedro (Regente de 1668-1683, Rei 1683-1706) desejava que retornasse a Portugal. Vieira hesita. A insistência do Rei termina por convencê-lo a partir, embora receasse o que lhe poderia acontecer com seu retorno, por parte da Inquisição portuguesa, e por achar que nada poderia ajudar mais a seu país.
Em Roma, insistiam em que ficasse. O Geral, que havia antes dissuadido Vieira de recorrer ao Papa contra a Inquisição portuguesa, por temer os estremecimentos que daí poderia resultar, agora, cioso dos perigos que correria Vieira retornando a Portugal, quando foi decidido que regressaria, cuidou de lhe alcançar a imunidade contra o tribunal português.
Em sua defesa Vieira apontava os defeitos do processo e os defeitos da sentença, esta lançada de modo a exagerar as aparências de culpa e relevar pouco o que poderia recomendar sua absolvição. Arrolou os maus tratos que padecera: treze meses de detenção; não se lhe consentir em dizer missa, o que muitas vezes ele pedira nem confessar-se e comungar, senão uma vez pela quaresma; extorquirem-lhe os papéis em que preparava a defesa, e recusarem-lhe livros inclusive a Bíblia.
Sobre as culpas que lhe apontaram os Inquisidores citou o memorial a favor dos cristãos novos de 1643; a criação, a esforços seus, da Companhia de comércio, de que resultou ser depois da morte excomungado D. João IV e todos aqueles que tomaram parte no conselho onde se resolveu a instituição, por breve obtido sub-repticiamente do Santo Padre sem a declaração das pessoas atingidas; e a defesa da Companhia de Jesus no conflito com a Inquisição ocorrido em Évora, por ter dito na ocasião que "Os inquisidores viviam da fé e os jesuítas morriam por ela".
Acrescenta que havia tomado como pretexto a carta em que afirmava a crença na ressurreição de D. João IV e nos vaticínios do Bandarra, demonstrando que a crença em Bandarra, era forte no seio da Igreja e que muitas de suas previsões tinham se confirmado, como por exemplo: o memorial oferecido pelo Bispo do Porto, Nicolau Monteiro, ao Papa Urbano VIII, no qual as profecias do Bandarra são invocadas como argumento.
Assim, em 17 de Abril de 1675, foi isento Vieira para sempre da jurisdição dos Inquisidores de Portugal e seus representantes, e sujeito unicamente à Congregação do Santo Ofício de Roma; conjuntamente absolvido de quaisquer censuras, interdito ou penas eclesiásticas em que se achasse incurso até então.
Em maio Vieira deixou a capital romana onde fora durante seis anos, admirado e prestigiado. No caminho foi hóspede do Grão Duque em Florença; de lá se passou a Gênova e embarcou para Marselha de onde seguiu por terra para Toulouse e lá embarcou pelo rio Garona até Bordéus. A rainha da Inglaterra, a portuguesa Dona Catarina, o convidara para dali seguir para Londres, mas Vieira, por cansaço ou por pressa de chegar a Portugal, não atendeu ao convite, desembarcando em Lisboa em Agosto.
Vieira permaneceu no reino por mais de cinco anos depois que, chamado pelo Príncipe, tornara a Lisboa. Em todo esse período somente uma vez pudera intervir de modo efetivo em negócios públicos, quando convocado em 1680 a participar na junta de Conselheiros do Estado e Ultramarino.
Com a idade avançada, pensa em retornar a sua província no Brasil. Recebeu ainda um chamado da rainha Cristina, encaminhado pelo Geral da companhia, para que retornasse a sua corte em Roma, que recusou, alegando idade e as doenças. Hesitava entre retornar ao Maranhão ou à Bahia. Partiu a 27 de janeiro de 1681 na companhia de outros missionários que iam para a Bahia.
Das primeiras notícias que recebeu de Portugal, chegado definitivamente ao Brasil, foi de uma troça de estudantes em Coimbra, simulando um auto de fé e que os estudantes e a ralé da cidade o queimaram em esfinge aos gritos de "Padre Vieira, vendido aos judeus".
Não parece ter sido de tédio a vida de Vieira, após retornar ao Brasil. Logo que chegou, retirou-se para quinta do Tanque, de propriedade dos Jesuítas nas vizinhanças da cidade. Seu propósito consagrar-se à ascese e à conclusão dos sermões, que ia reconstruindo de fragmentos e notas e da memória, e concluir outros trabalhos literários. Mas esse retiro não foi possível. Não podia desaparecer sem que a curiosidade o seguisse. Eram duques, marqueses, arcebispos, a solicitar aos irmãos jesuítas notícias de Vieira.
Logo está a trocar assiduamente cartas com amigos na Europa, enquanto trabalha na revisão dos seus sermões. É também involuntariamente envolvido num incidente político desagradável, relativo ao seu irmão que vivia na Bahia, Bernardo Vieira Ravasco, e um dos filhos deste, Gonçalo Ravasco. Foi o assassinato do Alcaide, tocaiado à luz do dia e morto perto do Colégio por oito mascarados que em seguida ao crime, refugiaram-se na casa dos jesuítas. Lá estava escondido também o referido sobrinho de Vieira, Gonçalo Ravasco, por uma briga que tivera com um meirinho. Vieira tinha a intenção de reunir seus sermões em 12 volumes, e já publicara 7. O trabalho exigia grande aplicação porque a maior parte das prédicas estava em rascunhos desordenados. A coleção consta de sermões pregados em diferentes épocas, remontando a antes de 1640 na Bahia.
Com as rendas de seus sermões publicados Vieira se mantinha e também a um secretário, e o restante empregava em socorrer as necessidades dos índios nas missões.
O livro que Vieira pensava seria sua grande obra, nunca saiu a lume: “De regno Christi in terris consummato”, ou por outro nome, “Clavis prophetarum”, em quatro livros. Era uma publicação aguardada com interesse. Meditada nos caminhos e rios da Amazônia, começada ao sair da Inquisição, continuada em Roma e Lisboa, era a ocupação em que mais tinha gosto. Por mais de trinta anos ele tinha burilado o texto, e continuava ainda a aprimorá-lo. Agora, perto de nonagenário, fisicamente inválido, possuía ainda clareza das ideias, a agudeza do verbo para concluí-la. Esta obra sumiu-se quase por completo, ficando apenas algumas cópias mutiladas. Supõe-se que foi roubada por ocasião de sua morte.
Tendo a rainha Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia falecido, houve grandes homenagens na Bahia. Obedecendo a determinação ao Marques das Minas, o Padre Antonio Vieira fez um sermão, apesar da "falta de dentes e de voz e todos os outros achaques da velhice...", contou ele em carga de agosto de 1684 ao marquês de Gouveia.
D. Pedro II, que ainda não tinha herdeiros, casou-se novamente, em dezembro de 1686, com Dona Maria Sofia Isabel de Neuburgo, filha do Eleitor Palatino Filipe Guilherme de Neuburgo, que lhe deu cinco filhos. Mais tarde, além dos sermões antigos, de que ia sucessivamente mandando os volumes para publicação em Lisboa, preparou Vieira entre 1691 e 1693 um tomo de sermões de São Francisco Xavier, por encargo da nova Rainha, particularmente devota do apóstolo a Índia.
Adoentado, em 1969 Vieira suspendeu sua correspondência com seus admiradores. Repetir-se-ia o acidente de 1673 em Roma: aos 85 anos, já trôpego, caiu de noite por um lance de escada de pedra. Além de ficar molestado em todos os membros, por muito tempo não pode segurar a pena.
Dois anos depois saía da imprensa o undécimo volume de sua coleção dos Sermões, oferecido à rainha Dona Catarina. O último volume, o duodécimo, foi acabado no ano de sua morte, em 1697.
A mesma nau em que viajou o manuscrito trouxe a Lisboa á nova de ter falecido o autor.

II – CARACTERÍSTICAS:



“Um homem atuante abrangendo não somente o campo literário, como o social em defesa da cidadania.”


Missionário jesuíta, orador, diplomata, mestre da prosa portuguesa clássica, teve papel importante em ambas a história portuguesa e brasileira; seus sermões, cartas e papéis oficiais constituem um valioso índice do clima das opiniões no século XVII no mundo luso-brasileiro.


A vida e obra do Padre Antônio Vieira, figura síntese de sua época, é apresentada sob os seguintes aspectos: sua formação escolástica; sua fidelidade ao absolutismo; seu envolvimento com o problema da perseguição aos judeus e cristãos novos e da escravidão tanto dos africanos, na Bahia, como dos índios, no Maranhão; sua fé romântica típica do sebastianismo; seu problema pessoal com a Inquisição, e seu pensamento filosófico cristão.

Seus conhecimentos de história e filosofia transparecem em milhares de comparações e metáforas nos seus sermões. O pensamento de Vieira é genuinamente moderno, apesar de viver na época em que, não só em Portugal como em boa parte da Europa, ainda domina o aristotelismo e a filosofia escolástica ensinada pelos jesuítas.
Valendo-se da dialética e do dualismo antitético compôs cerca de 200 sermões.
Como correspondente informativo escreveu 500 cartas, relatando seus trabalhos na evangelização dos índios, relacionando Portugal e Espanha e a situação da colônia.
Escreveu obras proféticas (“História de Portugal”, “Esperanças de Portugal” e “Clavis Prophetarum”), baseadas no “Mito do Sebastianismo” (a volta do rei D. Sebastião, D. João IV ou um dos seus filhos tornando Portugal potência).


Os sermões e as cartas escritos pelo padre Vieira revela a maestria com que utilizava a língua para cativar sua audiência. No seu estilo destaca-se a combinação de trechos marcados pelo aspecto grandioso a outros dominados pela oralidade, valendo-se, muitas vezes, de silogismos falsos, caso julgasse tal recurso necessário para demonstrar uma tese ou um argumento, marcado pelo conflito dos opostos que dilaceram os homens atormentados de seu século.

É importante ressaltar a escolha inteligente de metáforas e analogias, que traduzem para a platéia passagens mais obscuras da doutrina católica. Além disso, as passagens ilustrativas do Antigo e do Novo Testamento, que inseria nos sermões, produziam grande efeito. E como escritor, artista da palavra, Vieira começa por combater os excessos do gongorismo, defendendo, preferencialmente, o jogo de definições ou a maneira de raciocinar conceptista.

Se gosta de afetação e pompa de palavras, e do estilo que chamam culto, não leias. Quando este estilo mais florescia, nasceram as primeiras verduras do meu (que perdoarás quando as encontrares), mas valeu-me tanto sempre a clareza, que só porque me entendiam comecei a ser ouvido; e o começaram também a ser os que reconheceram o seu engano, e mal se entendiam a si mesmos.”

Apesar de se proclamar conceptista atacando o cultismo, Vieira, entretanto, muitas vezes incorreu pelo estilo que chamava de “afetado e pomposo” em seus sermões, usando antíteses, promovendo a escavação semântica das palavras.

RECURSOS MAIS COMUNS NOS SERMÕES DE VIEIRA:

- argumentação sutil, desenvolvida por meio de sofismas, silogismos, paradoxos e associações inesperadas;
- sintaxe rebuscada, valendo-se das figuras de inversão (hipérbato, anástrofe), de repetição (anáforas), de omissão (elipses);
- método parenético, pelo qual Vieira pensava todas as possibilidades que poderiam surgir no raciocínio dos ouvintes e as derrubava, antecipando-se às conclusões do auditório e desarmando as possíveis objeções;
- erudição, por meio de citações bíblicas e clássicas e do emprego de expressões latinas;
- observação constante do auditório, com que estabelecia um diálogo fictício, não raro envolvendo a mordacidade e a ironia.

 
“Ter nome de pregador ou ser pregador de nome, não importa nada.”


ESTRUTURA DOS SERMÕES DE VIEIRA:

Partindo de um versículo bíblico, em latim, o autor define as palavras principais e, através de uma argumentação cíclica, estabelece de forma apelativa um diálogo com o ouvinte ou com o leitor, remetendo-o a fatos concretos, e envolvendo-o emocionalmente com descrições realistas e tocantes.
Os sermões do Pe. Vieira, inicialmente, propõe um Mote, depois desdobra esta Proposição, mostrando a interdependência de suas partes. Em seguida, levanta uma Hipótese, demonstrando-a ou justificando-a; confirmada a hipótese, esta é transformada em Tese. Vieira ainda dá um reforço, confirmando a tese. Dessa forma, o seu Raciocínio é Circular sempre retomando ao ponto inicial, que se encadeiam, aprisionando cada vez mais o tema dentro dos limites que ele pretende.

I – TEMA:

Evocação de uma passagem bíblica que sustente a intenção do discurso e desperte o interesse do ouvinte.

II - INTRÓITO OU EXÓRDIO:

Apresentação temática do sermão.

III – INVOCAÇÃO:

O orador pede inspiração. Pe. Vieira, normalmente, dirige-se a Nossa Senhora.

IV – ARGUMENTAÇÃO OU DESENVOLVIMENTO:

Debate do tema, arguição. A sustentação, no caso, deve ser feita com passagens da Bíblia. O orador pode, ainda, recorrer a encíclicas papais e a doutores da Igreja.

V – PERORAÇÃO OU EPÍLOGO:

Conclusão; momento em que o orador afirma as verdades morais pregadas ao longo daquele sermão e o convencimento dos fiéis a seguirem as suas teses.

domingo, 29 de maio de 2011

O NOVIÇO, MARTINS PENA - O RETRATO DA SOCIEDADE CARIOCA DO SÉCULO XIX


I - AUTOR:


Luís Carlos Martins Pena nasceu em 18l5, no Rio de Janeiro, onde passou a maior parte de sua vida. Estudante da Academia de Belas-Artes dedicou-se à atividade literária, tendo publicado folhetins no Jornal do Comércio.

Foi entre nós, o fundador do Teatro de Costumes, onde a sátira tem como personagem a sociedade brasileira de então, suas convenções ultrapassadas, hipocrisias e corrupções. Foi decisivo o seu passo na evolução do teatro brasileiro, assim como foi patente a contribuição histórico-sociológica, além da linguística; e sobre aquela já afirmava Silvio Romero que, se todos os documentos e fontes históricas nos faltassem seria possível reconstruir a vida da sociedade brasileira tão somente através das comédias de Martins Pena.
Alcançou muito sucesso junto ao público, uma vez que a linguagem e o ambiente de suas peças são predominantemente populares e retratam de forma viva e pitoresca a sociedade da época.
Escrevendo farsas alegres, trazem um pré-realismo de sabor popular. Ora em cenário de ambiente rural, resgata os valores do homem do campo, sua cultura tradicionalista, seu moralismo; ora, de ambientação urbana, traça um painel da sociedade de seu tempo, denunciando-a.
O aspecto cômico chega por vezes tornar-se caricatural apresentando em suas peças elementos “típicos”, “caricaturais” da comédia pastelão.
Martins Pena escreveu vinte e duas comédias e seis dramas. Morreu em 1848, Lisboa, vítima de tuberculose. É patrono da cadeira 29 da ABL.

II – ESTILO LITERÁRIO:

Comédia romântica em três atos, encenada pela primeira vez em 1845, no Teatro de São Pedro, Rio de Janeiro.
A peça toda lembra as comédias pastelões dos anos 10, com personagens caricatos, situações mirabolantes, perseguições e violência gratuita.
As características românticas de “O Noviço” são o maniqueísmo, o "happy end", a temática da liberdade e a presença da cor local. Mas existem alguns elementos nesta peça que não se ajustam ao romantismo, como por exemplo, a denúncia social que se dá por meio do humor, da sátira e das caricaturas, e o comportamento pouco convencional, em termos de heroísmo romântico, de seu herói: Carlos utiliza-se de meios moralmente pouco recomendáveis para atingir o que pretende, aproximando-se deste ponto de vista do vilão, Ambrósio. Além disso, a união dos fracos e enganados (Florência e Rosa) contra a força (Ambrósio), transformando em capacidade de luta a submissão e em esperteza a ingenuidade, constitui recurso pouco frequente nos textos tradicionalmente românticos.

III - CARACTERÍSTICAS:

A peça “O Noviço” mostra-se como um todo harmônico e bem constituído, no que se refere à solidez das personagens, bem como na sua função de denúncia, sem moralismos, do comportamento social da sociedade carioca do século XIX. A espontaneidade dos diálogos é outro ponto alto na obra, conduzindo a uma visão realista dos fatos sociais. A ação apresenta uma simplicidade e um caráter puramente cômico que agrada o público, despertando seu profundo interesse e seu humor de forma quase imediata.
Talvez o grande mérito de Martins Pena tenha sido a espontaneidade com que fotografou o seu meio, uma facilidade quase orgânica e inconsciente, transmitindo ao leitor uma ação simples e sólida, mas que atinge sua meta: fazer rir.
- Efeito cômico imediato;
- Superficialidade psicológica das personagens;
- Utilização de recursos cênicos primários (o efeito do humor dependendo mais da ação que do diálogo);
- Linguagem coloquial;
- Cotidiano;
- Expressões típicas nacionais;
- Sátira à linguagem culta (preciosismo);
- Ação dinâmica.

IV - PERSONAGENS:

As personagens são reflexos nítidos de uma realidade brasileira, capaz mesmo dar testemunho dos caracteres sociais do século XIX, e pretender a transformação do fictício em fato.
As personagens da peça não possuem densidade psicológica, já que são constituídas por meio de estereótipos e de recursos caricaturais que as transformam em "tipos", sem identidade definida. Assim, temos a capacidade inconsciente de contribuir para os costumes viciosos e ridículos através da repetição de nossos erros, transformando-nos algumas vezes em personagens de comédias e farsas.

Ambrósio - marido de Florência, velhaco, esperto, falso e ganancioso
Florência - viúva rica, casada em segunda vez com Ambrósio, mãe de dois filhos, ingênua, submissa, personalidade fraca e iludida.
Carlos - sobrinho de Florência, apaixonado pela prima Emília, é o noviço, rebelde. Herói da peça, mas não típico romântico, uma vez que os meios de que se utiliza para atingir seus objetivos aproximam-se daqueles usados por Ambrósio.
Emília - filha de Florência, símbolo de obediência e resignação.
Juca - filho de Florência, garoto de nove anos, “comprado” com presentes para obedecer aos planos do padrasto e mãe submissa.
Rosa - Primeira esposa de Ambrósio, provinciana e ingênua.
Padre-Mestre - responsável pelos noviços na ordem de São Bento, é ridicularizado por ser sempre ludibriado pelo noviço.
José - criado da casa e cúmplice de Ambrósio.
Jorge – vizinho e dono de uma loja.

V - TEMPO E ESPAÇO:

A ação se passa no Rio de Janeiro.
O tempo é cronológico e se passa na primeira metade do Século XIX,o que pode ser comprovado pelos hábitos da sociedade carioca focalizada no enredo.

VI – ESTRUTURA DA OBRA:

É dividido em três atos, em vez de possuir apenas um, como a maioria dos outros trabalhos, podendo, assim, desenvolver melhor tanto a trama quanto os tipos.
O primeiro ato apresenta 16 cenas; o segundo, 9 cenas; e o terceiro, 19 cenas. Cada cena é marcada pela entrada ou saída de uma das personagens.
No primeiro ato apresentam-se o hipócrita e interesseiro Ambrósio, que casou com a crédula Florência; o noviço Carlos que com mais vocação para militar fugiu do convento para casar-se com Emília (filha de Florência e sua prima). Aparece também Rosa, primeira esposa de Ambrósio (não havia divórcio na época), que foi abandonada por ele após ter seus bens roubados. Carlos encontra Rosa e esta fornece-lhe meios para chantagear Ambrósio e permitir-lhe sair corretamente do convento, retirar Emília e Juca (irmão mais novo de Emília) da vida religiosa que Ambrósio planejava para eles e casar com Emília.
A chantagem ocorre no segundo ato, junto com a revelação a Florência de que o marido é bígamo; Ambrósio foge.
No terceiro ato, após muita confusão, Ambrósio é preso, Carlos liberto de ir ao convento ou ser preso (ele atacara um frade na fuga) e o casal fica livre para casar.

VII - ENREDO:

ATO I

Sala ricamente adornada: mesas, consolos, mangas de vidro, jarra com flores, cortinas, etc. No fundo, porta de saída e uma janela.
Ambrósio, não totalmente vestido, só, de calça preta e chambre e medita sobre a fortuna.

“No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la. Pintam-na cega...Que simplicidade! Cego é aquele que não tem inteligência para vê-la e a alcançar. Todo o homem pode ser rico, se atinar com o verdadeiro caminho da fortuna. Vontade forte, perseverança e pertinácia são poderosos auxiliares. Qual o homem que, resolvido a empregar todos os meios, não consegue enriquecer-se? Em mim se vê o exemplo. Há oito anos, era eu pobre e miserável, e hoje sou rico, e mais ainda serei. O como não importa; no bom resultado está o mérito...Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu? Se em algum tempo tiver de responder pelos meus atos, o outro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres...”

Percebe-se nele a ganância e a falsidade, além de sua pretensão de alcançar status e riqueza, sem se importar com os meios e sim, com o fim, expressando certa influência de Maquiavel. Certo que se um dia tiver que responder na justiça, nada aconteceria a ele; pois, as “leis se fazem somente aos pobres”.
Entra Florência vestida de preto, arrumada para ir com a família ao ofício de Ramos e apressa o marido que ainda não está pronto. Ele argumenta que ainda é cedo. São nove horas e o ofício começará às onze e meia.
Ambrósio pergunta-lhe sobre o que Emília, filha de Florência, achava sobre o plano de colocá-la num convento. Florência responde que Emília tende ao projeto da mãe.

“O que pensa não sei eu, nem disso se me dá; quero eu – e basta. E é seu dever obedecer.”

Ambrósio começa a elogiar Florência e também, ao falecido seu ex-marido, que fora um homem prudente, morrendo e deixando-lhe uma grande fortuna.
Completa se inocentando, dizendo que quando a conheceu foi atraído por seus atrativos e não por sua herança, mas ao público confessa a verdade. E que agora casado com ela, mesmo sem interesses, era seu dever zelar por sua fortuna.
Florência acha ótimo isso e Ambrósio acha-a uma tola. Florência parece indicar que está cega de paixão e não mede as consequências de seus atos.
Ambrósio planeja confinar Emília, uma das herdeiras, num convento, insinuando sobre os perigos do casamento e do marido exigir a legítima da sua mulher.

“AMBRÓSIO: Tua filha está moça e em estado de casar-se. Casar-se-á, e terás um genro que exigirá a legítima de sua mulher, e desse dia principiarão as amofinações para ti, e intermináveis demandas. Bem sabes que ainda não fizestes inventário.”

Ambrósio insistia para Florência fazer o inventário, acrescentando que Juca, seu filho menor, Juca, depois de crescido, poderia querer casar-se e, teriam novas demandas...
Ambrósio, então, sugere colocar os dois filhos num convento. Alegava que esse mundo era um pélago de enganos e traições, enquanto o convento, a paz e a tranquilidade. Acrescentava que hoje, Emília, sofreria com a ideia, mas, futuramente ela só teria em agradecer. E quanto ao filho, Juca, já era bom que ele se acostumasse com a ideia de ser frade.
Ambrósio quer habituar Juca, filho mais novo de Florência, à vida religiosa, tendo pedido a Florência que comprasse um hábito de frade para o menino de apenas nove anos.
Enquanto isso, Ambrósio diz à platéia: ”a legítima fica em casa”.
Nesse momento, entra Juca de hábito dizendo que não gosta daquela roupa, que atrapalhar suas brincadeiras e que não quer ser frade.
Ambrósio tenta coagir o menino a tornar-se frade, dizendo que se ele não obedecesse não ganharia o carrinho bordado de prata com cavalos de ouro e arreios todos enfeitados de fitas de veludos.
Juca quer saber onde está o carrinho. Ambrósio diz que já encomendou e que é muito bonito.

“JUCA: Os cavalos são de ouro?
AMBRÓSIO: Pois não, de ouro com os olhos de brilhantes.
JUCA: E andam sozinho?
AMBRÓSIO: Se andam! De marcha e passo.
JUCA: Andam, mamãe.
FLORÊNCIA: Correm, filhinho.
JUCA (saltando de contente): Como é bonito! E o carrinho tem rosas, capim para os cavalos, uma moça bem enfeita?
AMBRÓSIO: Não lhe falta nada.
JUCA: E quando vem?
AMBRÓSIO: Assim que estiver pronto.
JUCA: Eu quero ser frade, eu quero ser frade...”

Juca, “comprado” sai feliz e convencido que quer tornar-se frade.
Florência sugere que Ambrósio compre para Juca um carrinho. Ambrósio, rindo, quer saber se com cavalos de ouro. Florência responde que basta uma caixinha com soldados de chumbo.
Ambrósio diz à Florência que assim que se faz: “de pequenino se torce o pepino”, mas a sua preocupação era com Carlos, sobrinho de Florência, e sua tutora, que há seis meses entrou para o convento como noviço. Florência tem medo que ele fuja.
A ambição de Ambrósio, assim, não tem limites. Suas intenções não se restringem apenas aos filhos de Florência, estendem-se também a Carlos.
Ambrósio sai e Florência reflete como foi feliz na escolha de seu segundo casamento.

“FLORÊNCIA: Se não fosse este homem com quem casei-me segunda vez, não teria agora quem zelasse com tanto desinteresse a minha fortuna. É uma bela pessoa...Rodeia-me de cuidados e carinhos. Ora, digam lá que uma mulher não deve casar-se segunda vez...Se eu soubesse que havia de ser sempre tão feliz, casar-me-ia cinquenta.”

Entra Emília, vestida de preto e triste. Florência que saber o motivo da tristeza da filha.
Emília diz que não tem inclinação para o convento, mas fará a vontade da mãe. Mesmo assim não pode deixar de estar triste.
A mãe retruca seu procedimento dizendo que estava fazendo o melhor a ela, tirando-a das garras de um “qualquer”, frequentador de bailes ou jogador de cartas. Tenta repetir as palavras de Ambrósio sobre o mundo; mas perde-se, gagueja e não consegue se lembrar das palavras do marido.
Emília fica só e diz:

“EMÍLIA: É minha mãe, devo-lhe obediência, mas este homem, meu padrasto, como o detesto! Estou certa que foi ele quem persuadiu a minha mãe que me metesse no convento. Ser freira? Oh, não, não! E Carlos, que tanto amo? Pobre Carlos, também te perseguem! E por que nos perseguem assim? Não sei. Como tudo mudou nesta casa, depois que minha mãe casou-se com este homem! Então não pensou ela na felicidade de seus filhos. Ai, ai!”

Dessa maneira, através de seus pensamentos, ficamos sabendo que, ela odeia o padrasto e sobre seu amor por seu primo, Carlos.
Na outra cena, aparece Carlos vestido de hábito.
Emília assusta-se com a presença de Carlos, que fugiu do convento porque jejuava há sete dias e que naquele dia, ele tinha discutido com o D. Abade e batido nele (“cabeçadas, que o atirei por esses ares”).
Emília compadece-se com a situação do primo. Foram seis meses de martírio para Carlos.
Carlos falava que não tinha inclinações para frade, e nem para jejuar; que tinha fome três vezes ao dia e sentia atração pela carreira militar. Também, gostava de teatro, mas, no convento, somente o Frei Maurício frequentava-o, ainda por cima disfarçado.
Carlos acha um absurdo o disparate entre as inclinações e as profissões das pessoas. Emília concorda.

“CARLOS: O tempo acostumar! Eis aí porque vemos entre nós tantos absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina...Excelente médico! Aquele tem inclinação para cômico: pois não senhor, será político...Ora, ainda isso vá. Estoutro só tem jeito para caiador ou borrador: nada, é ofício que não presta...Seja diplomata, que borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz: seja tesoureiro de repartição, fiscal, e lá se vão os cofres da nação à garra...Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião empregado público, comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue ordenado da nação.”


Não criticava o convento, mas lá era bom só para quem tivesse vocação, mas era mentira essa história de se acostumar; pois, só seriam pessoas frustradas.
Para Carlos há uma tendência para a morte da inteligência e “fazem do homem pensante máquina estúpida”. Um poeta ou um escritor que não pode seguir sua carreira, pois não é valorizado no Brasil, morre de fome, obriga-o tornar-se escriturário de uma repartição pública para poder se manter, matando dessa forma, sua imaginação e criação.
Carlos revoltado põe-se a marchar.
Emília chega a desconhecer o primo, que se defende afirmando que é devido às contradições que está vivendo. Ela tenta acalmá-lo dizendo que a mãe quer fazê-la freira. Carlos perante essa declaração, conclui que Ambrósio era um velhaco interesseiro.
Antes viviam tão felizes, mas agora tudo parecia um tormento.
Carlos fala que Ambrósio persuadiu a tia, pois Florência era tutora dele e sabia do seu amor por Emília e agora se submete às imposições do marido.
O único motivo era para ele roubar impunemente a herança toda.

“CARLOS: Um frade não põe demandas...”

Na cena seguinte, entra Juca, vestido de hábito e diz que a mãe pergunta por Emília.
Carlos conclui que ele estava totalmente certo em suas suspeitas. Emília e Juca saem de cena e Carlos fica a matutar planos para desmascarar Ambrósio, até que batem à porta.

“CARLOS: Hei-de descobrir algum meio...Oh, se hei-de! Hei-de ensinar a este patife, que casou-se com minha tia para comer não só a sua fortuna, como a de seus filhos. Que belo padrasto!...Mas por ora tratemos de mim; sem dúvida no convento anda tudo em polvorosa...Foi boa cabeçada! O D. Abade deu um salto de trampolim...(Batem à porta).
Batem? Mau? Serão eles? (Batem) Espreitemos pelo buraco da fechadura (Cai espreitar).
É uma mulher... (Abre a porta).”

Era Rosa, moça simples, provinciana que confunde Carlos com um padre, justamente pelos seus trajes.
Esta conta que veio do Ceará, no vapor Paquete do Norte. Lugar triste, onde em apenas um mês assistiu a vinte e cinco mortes, procurava Sr. Ambrósio Nunes, seu marido, casados há oitos anos.
Carlos empalidece, interroga-a e Rosa conta a sua verdade.

“ROSA: Quando tinha 15 anos, Ambrósio, vindo do Maranhão, foi morar em sua vizinhança, viam-se todos os dias, a vizinhança comentava, enamoraram-se e casaram.”

Rosa explica que há seis anos Ambrósio havia tomado conta dos seus bens, após a morte de sua mãe, vendera tudo e partira para Montevidéu para empregar o capital num negócio que, segundo ele, traria muitos lucros e nunca mais apareceu.
Rosa escreveu-lhe, mas não obteve resposta.
Ela confidencia tudo a Carlos, acreditando que ele fosse um confiável frade.
Carlos pede que ela continue e pergunta se tem documentos que comprovam seu casamento.
Ela tirou duas cópias da certidão de casamento, constando testemunhas. A esposa abandonava já estava descrente de encontrá-lo, até que um dia, um sujeito do Rio de Janeiro, em passagem por lá, contou-lhe que Ambrósio estava morando no Rio e casado. Então, ela veio pessoalmente resolver o caso.
Carlos pede-lhe que confie nele e lhe entregue uma das certidões.
Essa descoberta cria as condições propícias para colocar sua vingança em prática. Essa vingança representará o eixo do enredo da comédia.
Escutam a voz de Ambrósio, vindo de lá de dentro, apressando a família. Carlos esconde Rosa em um quarto e vai até a sala.
Quando Ambrósio entra na sala, acompanhado por Florência e Emília, encontram-se com Carlos e levam um grande choque.
Há uma discussão entre eles por sua “fuga” do convento. Carlos insinua-se ao tio, Florência e Emília assustam-se com esse procedimento.

“AMBRÓSIO: Como é lá isso?
CARLOS: Não é da sua conta.
FLORÊNCIA: Que modos são esses?
CARLOS: Que modos são? São os meus.
EMÍLIA (à parte): Ele se perde!
FLORÊNCIA: Está doudo!
CARLOS: Doudo estava alguém quando...Não me faça falar...
FLORÊNCIA: Hem?
AMBRÓSIO: Deixe-o comigo. (para Carlos) Por que saíste do convento?
CARLOS: Porque quis. Então não tenho vontade?
AMBRÓSIO: Isso veremos. Já para o convento!”


Carlos diverte-se com Ambrósio, fala indiretamente de casamento e Florência intercede a favor do marido contra a falta de educação do sobrinho. Ele, em seguida, encaminha o tio até o quarto em que Rosa estava escondida.
Carlos rindo, insulta Ambrósio por sua safadeza e também, sua tia por ser assanhada e casar-se novamente nessa idade.
Rosa sem entender nada e confiando em Carlos, quando escuta vozes de mulheres e vê seu marido, desmaia.
Ambrósio desesperado ao ver Rosa, volta-se para Florência e Emília, e, toma-as pelo braço, levando-as embora rapidamente, sem tempo de apanhar o chapéu.
Carlos pergunta: “Então, senhor meu tio? Já não quer que eu vá para o convento? (Depois que ele sai.) Senhor meu tio, senhor meu tio? (Vai à porta, gritando.)”
Carlos pede ajuda a Juca que lhe traz um galheteiro para tentar reanimá-la.
Nesse momento, escutam-se rumores na rua. Eram o Mestre de Noviços e os meirinhos que procuravam o noviço fugitivo.
Carlos assusta-se e cria um plano para se salvar: fala que são soldados e o meirinho que vieram para prender Rosa por ordem de Ambrósio. Promete salvá-la, mas para isso deveriam trocar de roupas, para confundi-los.
Carlos acha que seu plano funcionará, já que o Mestre dos Noviços catacego não perceberá a diferença. Juca ajuda-os e, quando entram em casa, Carlos imita voz de mulher.
Carlos apresenta-se como a tia de Carlos. Conta que será preciso surpreendê-lo para levá-lo de volta. Instrui a todos que esperem o sobrinho sair. Devem lançar-se de improviso sobre ele e levá-lo à força, não se importando com o que ele disser ou gritar.
Carlos chama Rosa e assim que ela entra na sala, o Mestre dos Noviços dá voz de prisão e os meirinhos lançam-se sobre ela e levam-na. Ela grita por socorro.
Carlos os estimula a levarem e toca um assobia que está sobre a mesa.

ATO II

Carlos, ainda vestido de mulher, está sentado e Juca à janela. Ele pede a Juca que avise, caso aviste o padrasto no fim da rua.

“CARLOS: No que dará tudo isto? Qual será a sorte de minha tia? Que lição! Desanda tudo em muita pancadaria. E a outra, que foi para o convento?...Ah, ah, ah, agora é que me lembro dessa! Que confusão entre os frades, quando ela se der a conhecer! (...) Ah, que festa perco eu! Enquanto eu lá estive ninguém lembrou-se de dar-me semelhante divertimento. Estúpidos! Mas, o fim de tudo isto? O fim?...”

Ambrósio abandona a esposa e a enteada na igreja e volta para casa encontrando Carlos com a roupa de Rosa, confundindo-o e a ameaça.

“AMBRÓSIO: Senhora, muito bem conheço as vossas intenções; porém, previno-vos que muito vos enganastes.
CARLOS (suspirando): Ai, ai!
AMBRÓSIO: Há seis anos que vos deixei; tive para isso motivos muito poderosos...
CARLOS (à parte): Que tratante!
AMBRÓSIO: E o meu silêncio depois desse tempo, devia ter-vos feito conhecer que nada mais existe de comum entre nós.
CARLOS (fingindo que chora): Hi, hi, hi...
AMBRÓSIO: O pranto não me comove. Jamais poderemos viver juntos...Fomos casados, é verdade, mas que importa?”


Carlos finge chorar e Ambrósio torna-se persistente. Carlos tira o disfarce rindo.
Ambrósio desespera-se e quer ver Rosa.

“CARLOS: Procure bem. Deixa estar, meu espertalhão, que agora te hei-de eu apertar a corda na garganta. Estais em meu poder; queres roubar-nos...(Gritando:) Procure bem; talvez esteja dentro das gavetinhas do espelho. Então? Não acha?”

Agora é a vez de Carlos ameaçá-lo exibindo a cópia da Certidão de Casamento.
Diz que Ambrósio ainda não está perdido, porque pode salvá-lo, debaixo de certas condições. Pretende casar-se com Emília e exige sua legítima. Dá a palavra de honra que Rosa não voltará. Ambrósio ajoelha-se aos pés de Carlos. Pede o papel e promete tudo que ele quiser.
Nesse momento, entram Florência e Emília, que preocupadas com a ausência de Ambrósio foram procurá-lo e surpreende-os nessa posição.
Florência não reconhece Carlos vestido de mulher. Fica irada e acusa Ambrósio de patife e a mulher de desgraçada pensando ter pegado um flagrante do esposo adúltero.
Ao reparar melhor, Florência reconhece o sobrinho e fica por não entender nada.

“FLORÊNCIA: Ah, é uma desgraçada...Seduzindo um homem casado! Não sabe que...(Carlos que encara com ela, que rapidamente tem suspendido a palavra e, como assombrada, principia a olhar para ele, que ri-se.) Carlos! Meu sobrinho!”

Carlos arruma uma saída, disfarçando estarem ensaiando uma comédia para sábado de Aleluia e que queriam fazer surpresas a todos.

“AMBRÓSIO: Sim, era uma comédia, um divertimento, uma surpresa. Eu e o sobrinho arranjávamos isso...Bagatela, não é assim. Carlinho? Mas então você não ouviram o ofício até o fim? Quem pregou?”

Florência desconfia que estão escondendo algo. No entanto, Carlos diz que basta que saiba que é uma comédia.
Informa que antes do ensaio, Ambrósio havia concordado que o convento não era a melhor opção para Carlos e Emília e, sim, o casamento deles, visto que agora tinha percebido que os dois se amavam.

“AMBRÓSIO: Quando se fecham as portas de um convento sobre um homem, ou sobre uma mulher que leva dentro do peito uma paixão como ressentem estes dois inocentes, torna-se o convento abismo incomensurável de acerbos males, fonte perene de horríssonas desgraças, perdição do corpo e da alma; e o mundo, se nele ficassem, jardim ameno, suave encanto da vida, tranquila paz da inocência, paraíso terrestre. E assim, sendo, mulher, quererias tua que sacrificasse tua filha e teu sobrinho?
FLORÊNCIA: Oh, não, não.
CARLOS (a parte): Que grande patife!”

Carlos diz que em reconhecimento de tanta bondade, desistirá da metade de seus bens e passa-lhe a cópia da Certidão de Casamento, simulando ser uma escritura.
Ambrósio pega a Certidão e abraça-o e, para mostrar seu desinteresse, rasga a falsa escritura.
Florência abraça o marido convencida de sua honestidade e de seu amor. Faz-lhe elogios, deixando-o envergonhado e Carlos por sua vez, diz-lhe indiretas sutis.
Ambrósio compromete-se ir pessoalmente ao convento tratar sobre a liberação de Carlos o mais rápido possível.

“AMBRÓSIO: (...) dir-lhe-ei que temos mudado de resolução a teu respeito. E de hoje a quinze dias, senhora, espero ver esta sala brilhantemente iluminada e cheia de alegres convidados para celebrarem o casamento de nosso sobrinho Carlos com minha cara enteada. (Aqui entra pelo fundo o mestre dos noviços.)”


Emília aceita a felicidade proposta e dá sua mão a Carlos. Este diz a Emília que ninguém será capaz de arrancá-lo de seus braços. Entretanto, quando parece que tudo estava resolvido, aparece o Padre-Mestre com ordem de prisão a Carlos. Mesmo a família tentando impedir a prisão de Carlos, o Padre-Mestre disse que teria que cumprir ordens, pois agora o que o noviço havia aprontado era demais.

“PADRE-MESTRE: Não tomara sobre mim tal trabalho, se não fora por expressa ordem do D. Abade, a quem devemos todos obediência. Vá ouvindo como esse moço zombou de seu mestre. Disse-me a tal senhora, pois tal a supunha eu...Ora fácil foi enganar-me...Além de ter má vista, tenho muito pouca prática de senhoras...”

Conta aos familiares que Carlos além de fugir do convento, bater do D. Abade, passou-se pela tia e tinha enganado a todos enviando em seu lugar uma mulher no dia em que foi detido, causando dessa forma o maior tumulto no convento.
Ambrósio impacienta-se em querer saber sobre a tal mulher, aonde ela se encontrava agora, se tinha sido liberada e Florência percebe a sua aflição.
O Mestre diz que para ele, particularmente seria uma alívio que Carlos nunca mais voltasse para o convento, pois em doze anos de Mestre de Noviços, nunca tinha conhecido alguém tão endiabrado como Carlos, mas ordens eram ordens e ele ia cumpri-las.
Florência comunica ao Mestre sua decisão de tirar Carlos do convento. O Mestre pede que ela se entenda com o Abade.
Florência explica a falta de inclinação do rapaz, então, o Mestre pergunta á ela qual foi o motivo de o enviarem ao convento, já que sabiam que ele não tinha vocações. Ela responde que foi gosto do marido. Os olhares procuram os de Ambrósio e ele se defende dizendo que queria agradar a Deus, enviando-lhe uma representante na terra. O Mestre repreende-o dizendo que, Deus não se compraz com sacrifícios alheios e Ambrósio cinicamente pede-lhe perdão.
Mesmo assim, Carlos é levado para o convento a fim de que não dê maus exemplos aos outros noviços.
Florência pede para fica a sós com o marido e interroga-o sobre a mulher que estava escondida no quarto.
Sem saída, Ambrósio confessa-lhe que a conhecia: foi no passado, antes mesmo dele conhecer Florência e se apaixonar por ela. Na época, acreditou que fosse sua estrela, mas, depois de conhecer Florência convence-se que só amou a estrela por que não conhecia a lua. Diz à esposa que ele, Ambrósio será sempre o seu satélite.
Ambrósio para ser mais convincente, apela para frases ensaiadas:

“AMBRÓSIO: Estes raios brilhantes e aveludados de teus olhos ofuscam o seu olhar acanhado e esgateado. Estes negros e finos cabelos varrem da minha ideias as suas emaranhadas melenas cor de fogo. Esta mãozinha torneada (pega-lhe na mão), este colo gentil, esta cintura flexível e delicada fazem-me esquecer os grosseiros encantos dessa mulher que...”
(Nesse momento dá com os olhos em Rosa; vai recuando pouco a pouco.)
FLORÊNCIA: O que tens? De que te espantas?
ROSA (adiantando-se): Senhora, este homem pertence-me.”

Rosa conta a sua história, confirmando-a com a cópia da Certidão de Casamento.
Ambrósio vendo-se perdido tenta fugir pela porta dos fundos, mas é detido pelos meirinhos que acompanhavam Rosa.

“AMBRÓSIO: Ao! (Corre por toda a casa, etc. Enquanto isto se passa, Florência tem lido a Certidão.)
FLORÊNCIA: Desgraçada de mim, estou traída! Quem me socorre? (Vai para sair, encontra-se com Rosa.) Ah, para longe, para longe de mim! (Recuando.)
ROSA: Senhora, a quem pertencerá ele? (Execução.)”


ATO III

Quarto em casa de Florência: mesa, cadeiras, uma armário, uma cama grande com cortinados, uma mesa pequena com um castiçal com vela acesa. É noite.
Florência está acamada, devido ao choque que sofreu. Emilia consolá-la e pede que tenha paciência e resignação. Ela chora e lamenta-se do acontecido. Não se conforma de ter sido enganada por Ambrósio e de ter acreditado em suas promessas de amor.
Ela está totalmente arrependida de ter lhe dado ouvidos e providencia a soltura definitiva de seu sobrinho. Pede a Emília que chame José, o criado, para que ele leve uma carta ao D. Abade e acrescenta que em seguida, Emília providencie a demissão desse empregado, pois não confiava nele, visto que fora indicado por Ambrósio.
Florência está muito decepcionada e pede para a filha deixar-lhe sozinha. Precisa recuperar-se para vingar-se de Ambrósio. Ela havia mudado de quarto e estava no quarto que fora de Carlos, pois todos os “objetos” de seu quarto lembravam o mau caráter de Ambrósio e a faziam sofrer mais. Reflete sobre Rosa e conclui que ela não tinha culpa, ao contrário, tinha sido mais uma vítima de Ambrósio.
Os homens são perversos, mas Ambrósio ficará detido por seis anos na cadeia para pagar a sua bigamia. Depois de mais alguns lamentos, dorme.
Carlos foge novamente do convento e entra escondido pelos fundos. Ainda trajando hábito, encaminha-se até o seu antigo quarto. Lá, depara-se com sua tia dormindo. Nada entende, pois desde o momento que foi levado pelo Padre-Mestre, esteve incomunicável, a pão e água e não soubera dos acontecimentos da família.
Escuta palmas e não tem dúvida tratar-se dos frades que estariam em sua perseguição, principalmente agora por ter assassinado um frade para poder fugir. Temendo nova prisão, esconde-se debaixo da cama que a tia dormia.
Florência pede que vejam quem está batendo. Acordou sobressaltada. Estava sonhando que seu primeiro marido enforcava o segundo.
Florência diz que era o Padre-Mestre á procura do noviço, que fugira novamente. A tia confessa que não tem notícias de seu sobrinho desde a sua prisão anterior, mas sabendo que o sobrinho tinha aprontado poderiam ficar tranquilos, caso ele aparecesse o denunciaria. Acredita que Carlos precise mesmo de um pouco de disciplina para acalmar o seu gênio.
Carlos embaixo da casa ouve tudo e aproveita que sua prima estava perto, puxa-lhe o pé. Emília se assusta, em seguida o reconhece, mas guarda segredo de seu paradeiro.
Chega José, o empregado acompanhado por um padre enviando pelo D. Abade.
Mas, na verdade era Ambrósio disfarçado de padre. Florência o recebe dizendo que tinha enviando uma carta para o D. Abade para tratar assuntos do sobrinho, mas que agora já estava tudo encaminhado. Ambrósio aproveita para dar uma boa gorjeta para José que sai sorrindo.
Florência não queria incomodá-lo, mas já que ele estava ali, gostaria de confessar-se. Florência desabafa com o padre, na verdade, o falso padre, fala da mágoa que estava sentindo, acusa Ambrósio e diz que deseja que ele pague por sua safadeza.
Ambrósio responde com um “hum, hum”. Florência pergunta se está constipado. Ele responde que sim, disfarçando a voz.
Carlos, escondido, nota que não conhece a voz daquele padre.
Ambrósio tira o capuz e apresenta o verdadeiro cafajeste que é, exigindo dinheiro, jóias para poder fugir, chegando até a ameaçá-la de morte.
Carlos embaixo da cama assiste a tudo. A luz se apaga e Florência aproveita-se do escuro e se joga no chão cobrindo-se com uma colcha. Carlos sai de seu esconderijo e dá uma bofetada em Ambrósio que fica perdido sem saber de onde vem o soco.
Entram pelo fundo quatro homens armados acompanhados por Jorge, um vizinho, dono de uma loja, que ouvira os gritos de socorro e viera em socorro.
Florência corre por toda a casa gritando. Carlos vai saindo e ouve gritos que pedem para Florência abrir a porta. Florência encolhe-se num canto.
Ambrósio procura por ela, mas acaba pegando Carlos, que lhe dá uma bofetada e volta para baixo da cama. Ambrósio esconde-se num armário.
Florência diz que era um ladrão e que estava vestido de hábito, mas que tinha fugido.
Jorge e seus companheiros procuram pelo ladrão. Jorge acredita que ele não teve tempo de sair.
Emília corrige a mãe dizendo que ela estava enganada, pois quem estava de frade era o Carlos. Florência diz que ela tem certeza que era Ambrósio que estava de frade. Os homens saem á captura do dito ladrão de hábito. Vasculhando o quarto, encontram Carlos escondido debaixo da cama. Carlos tenta fugir, mete-se atrás do armário e acaba derrubando-o. Carlos é perseguido a bordoadas.

“FLORÊNCIA: Pagou-me!
EMÍLIA (chorando.): Então, minha mãe, não lhe disse que Ra o primo Carlos?
FLORÊNCIA: E continua a teimar?
EMÍLIA: Se eu o vi atrás da cama!
FLORÊNCIA: Ai, pior, era teu padrasto.
EMÍLIA: Se eu o vi!
FLORÊNCIA: Se eu lhe falei!...É boa teima!”

Enquanto as duas discutem, entre Juca e diz que “a mulher do papa” quer falar com Florência.
Florência resolve que Rosa não tem culpas e decide recebê-la.
As mulheres queixam-se da traição e depois reconhecem que de nada adianta odiarem-se, ambas eram vítimas e decidem se unir para perseguirem o traidor.
Rosa diz que apesar de provinciana é decidida e trazia consigo um mandado de prisão para o marido.
Florência conta que Ambrósio esteve ali,, mas não conseguiram pegá-lo. Levou uma caçada de pau. Rosa quer saber por onde ele estará agora.
Enquanto conversavam, Ambrósio que estava escondido dentro do armário sente-se sufocado e arrebenta uma tábua do mesmo, para melhor respirar. Pede que levantem o armário.
Florência e Rosa o surpreendem e aproveitam-se do momento para suas vinganças, tendo em vista, Ambrósio estar preso entre o assoalho e o armário.
Ambrósio luta através de palavras doces e falsas promessas para livrar-se do armário, tentando iludir ora uma, ora outra.
Pegam de um cabo de vassoura e começam a dar pauladas em sua cabeça. Florência pede que ele bote a cabeça para fora e diz que ele pode gritar à vontade que ela já chorou muito.
As duas vingam-se. Florência pede que parem, pois chamarão os oficiais de justiça. Rosa quer continuar, mas Florência afirma que já estão vingadas e que agora é problema da justiça. Fingem sair, mas espreitam junto ao armário.
Ambrósio, achando que estava só tenta fugir. Mas Florência e Rosa batem nele e riem da situação.
Entram Emília, Jorge, os meirinhos e Carlos que tinha sido capturado. Esclarece-se o engano. Carlos é libertado pelos meirinhos e quando os soldados iam se retirar, Rosa apresenta o mandado de prisão lavrado contra um homem que se ocultava dentro do armário.
Todos ficam surpresos ao verem Ambrósio de hábito e preso entre as tábuas.
Ambrósio declara que fora tolo, pois devia se lembrar antes de se casar com duas mulheres, que basta de uma para fazer o homem desgraçado.

“AMBRÓSIO: Um momento. Estou preso, vou passar seis anos na cadeia. Exultai, senhoras. Eu me deveria lembrar antes de me casar com duas mulheres, que basta só uma para fazer o homem desgraçado. O que diremos de duas? Reduzem-no ao estado em que me vejo. Mas não sairei daqui sem aos menos vingar-me em alguém. (Para os meirinhos:) Senhores, aquele moço fugiu do convento depois de assassinar um frade.”


Nesse momento, entra o Mestre dos Noviços para prender Carlos; mas, na mesma hora chega o Padre-Mestre dando liberdade ao noviço, pois o Abade julgou ser mais prudente que Carlos não voltasse para lá.
Termina a cena com o Padre-Mestre, desejando justiça às senhoras, felicidades ao casal (Carlos e Emília) e ao público: indulgências.
Ambrósio é levado, falando: - mulheres, mulheres....