domingo, 15 de maio de 2011

ESPUMAS FLUTUANTES: O LIRISMO AMOROSO E A POESIA SOCIAL DE CASTRO ALVES


I – AUTOR:




Antônio Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847 na cidade de Curralinho (hoje Castro Alves), na Bahia. Em 1862 seguiu para o Recife para fazer o preparatório ao curso da Faculdade de Direito do Recife, onde ingressou em 1864. Participou ativamente do movimento acadêmico e foi militante de primeira hora da campanha abolicionista que começava a ser deflagrada na capital pernambucana. Tornou-se um dos líderes do movimento ao lado de outro grande nome da época, Tobias Barreto.
Por esse tempo, apaixonou-se pela atriz portuguesa Eugênia Câmara, com quem partiu para a Bahia em 1867. Para sua amada escreveu o drama “Gonzaga ou A Revolução de Minas”, representado no Teatro de S. João, em Salvador, alcançando grande sucesso, tanto o autor quanto a intérprete.
No ano seguinte, foi para o Rio de Janeiro, com carta de apresentação para José de Alencar, que o enalteceu publicamente, apresentando-o a seguir a Machado de Assis, o qual fez uma crítica extremamente elogiosa do poeta baiano. Em março desse ano, transferiu-se para São Paulo, onde pretendia continuar seus estudos de Direito, tendo ingressado no 3°. ano do curso. Tornou-se amigo, entre outros, de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Alguns meses depois de sua chegada a São Paulo, rompeu com Eugênia Câmara, o que lhe produziu imenso sofrimento. Em São Paulo escreveu “O Navio Negreiro” e “Vozes d’África”, dois de seus mais conhecidos poemas abolicionistas.
Certo dia, durante uma caçada, um tiro acidental feriu-lhe o pé. Agravado o ferimento, foi submetido a uma operação de amputação, no Rio de Janeiro. Com a saúde debilitada, acometido de tuberculose, voltou à Bahia em 1870, onde morreu, ao lado da família aos 24 anos de idade, quando compunha “Os Escravos”.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:


A obra “Espumas Flutuantes” está inserida na terceira fase do Romantismo brasileiro, também chamada de geração condoreira ou hugoana, da qual Castro Alves é considerado o melhor representante.
Nessa época, o Brasil passava por uma fase de intensas transformações, principalmente ligadas ao enfraquecimento do regime monárquico. Nas faculdades, as ideias liberais e republicanas eram propagadas, conduzindo os jovens a um clima de revolta e rebeldia. Os estudantes das faculdades de Direito, principalmente no Recife, inconformados com a demora da República e da Abolição, protestavam nas ruas, faziam comícios e realizavam atos públicos. Soldados a cavalo invadiam praças públicas, prendendo os revoltosos. Entre estes estava um estudante baiano, que já era conhecido nos meios estudantis do Recife por seus poemas inflamados: Castro Alves, que logo passou a ser conhecido como “Poeta dos Escravos”, tamanho era o ímpeto abolicionista de seus versos.
Foi nesse clima que surgiu a terceira fase romântica, influenciada pelos textos de Victor Hugo, poeta e escritor francês. Influência esta cantada pelo próprio poeta Castro Alves em “Espumas Flutuantes”:

“Irei contigo pelo ermo – lento, / Cismando, ao pôr do sol, n’um pensamento/ Do nosso velho Hugo./ - Mestre do mundo! Sol da eternidade!...Para ter por planeta a humanidade,/ Deus n’um cerro o fixou”, assim, esses versos deixam bem claros o objetivo central da poética condoreira: o sentimento humanitário.
A essas ideias reformistas, sociais e libertárias deu-se o nome de condoreirismo.


III – TÍTULO:


“Espumas Flutuantes”, 1870, foi á única obra que teve a edição revisada pelo autor, em sua breve vida. Dela o poeta retirou todas as poesias com temática abolicionista, das quais tencionava reunir em volume próprio, obra que viria ser publicada postumamente com o título de “Os Escravos”.

O volume contém 53 poemas lírico-amorosos e poemas de caráter épico-social; e, um drama cômico “Uma Página de Escola Realista”.
O título, à primeira vista, soa estranho, até certo ponto, ininteligível e sugere transitoriedade, como se o poeta estava consciente que seu fim estava próximo.
A explicação a tal questão é encontrada no “Prólogo” da obra.
Diz o poeta que quando voltava, em 1870, para a sua querida terra natal, já desenganado:

“Volvia agora silencioso e alquebrado...trazendo por única ambição - a esperança de repouso em minha pátria”.

Lembra-se então dos amigos que deixara nas “terras do sul”:

“E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem sequer a lembrança desta alma, que convosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...”

Assaltam-lhe o espírito muitas ideias, dentre elas, a brevidade da vida, a passagem pelo mundo sem deixar marcas. Neste momento, o jovem poeta observa o mar e conclui:

“Ó espíritos errantes sobre a terra! Ó velas enfunadas sobre os mares!...Vós bem sabeis quanto sois efêmeros...- passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
E quando - comediantes do infinito - vos obumbrais nos bastidores do abismo, o que resta de vós?
- Uma esteira de espumas... - flores perdidas na vasta indiferença do oceano. - Um punhado de versos...espumas flutuantes no dorso fero da vida!”

Neste fragmento encontra-se a ânsia do autor, que pretende superar a efemeridade de todas as coisas no mundo, através do fogo eterno da arte. Morre o poeta, sobrevive sua criação. Cala-se o homem, mas sua voz continua a se fazer ouvir pelos tempos afora nos versos que deixou.
Mais de um século depois de sua morte, suas “Espumas”, flutuando no eterno mar da vida, vêm dar à nossa praia, refrescando a areia incandescente, comprazendo-nos a alma.
Assim, como espumas que flutuam no dorso das ondas que vão dar à praia, Castro Alves queria que seus versos levassem “uma lembrança de mim às vossas plagas”.

IV – TEMA:

“Espumas Flutuantes” tem, sob o ponto de vista temático, duas coordenadas básicas: a poesia épico-social, inspirada em visão libertária, paradigmas do condoreirismo do poeta e a poesia lírico-amorosa.
O poema de abertura é chamado “Dedicatória” e representa uma espécie de ode ao livro, daí seu caráter metalinguístico:

Assim meu pobre livro, as asas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...
................................................................
Vai, pois, meu livro! E como louro, agreste
Traz-me no bico um ramo de .....cipreste.

De sua poesia social, “O livro e a América”, como ele mesmo relata, cheio do “fogo de todos os entusiasmos”, Castro Alves, típico representante da burguesia liberal progressista vê com euforia o “Novo Mundo” – América, “talhado para as grandezas, p’ra crescer, criar, subir” e antevê a necessidade do incentivo à leitura no Brasil (e de Castro Alves afirmou Fausto Cunha era dotado de "um sentido divinatório que lhe insuflava soluções difíceis de esperar no seu tempo"), o poeta traz uma bênção a todos que se dedicaram a este labor.

“O livro e a América”

Ao grêmio literário

 
Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"

"Marchar! ... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...

"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar,

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

A poesia social de Castro Alves é caracterizada pelo discurso retórico; uso exagerado de hipérboles e antíteses; acúmulo sucessivo de metáforas; movimento, com o objetivo de demonstrar concretamente o ritmo da luta da humanidade em busca da liberdade; e impressionante capacidade de comunicação. A poesia, portanto, perde terreno para a propaganda política. Pragmático, o poeta usa a poesia para levar o leitor à ação, para transformar e não só para deleitar. Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando a ênfase oratória e a eloquência.
De teor metalinguístico, declamativo e pendor social, um de seus símbolos mais frequente é a imagem do condor dos Andes, pássaro que representa a liberdade da América.
O poeta "condoreiro" tem um papel messiânico e afinado com o seu momento histórico, para tanto, a poética deve se identificar profundamente com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade por liberdade.
Castro Alves defende o mundo moderno, o “trem de ferro”, rejeitando o paganismo, a violência e a tirania: “Filhos do séc’lo das luzes”, para as quais a grande arma é o saber – o livro que ilumina os homens, mostrando-lhes o caminho da verdade e da justiça.
Seus olhos estão voltados para a multidão, para as relações livres de trabalho, onde não havia mais lugar para a cultura ultrapassada e a escravidão - “caboclos nus”.
Nesse poema, o poeta exalta não apenas a Colombo, o descobridor do Novo Mundo; mas, também, a Guttenberg, o descobridor da cultura que segundo o poeta, criou o papel civilizador do progresso, da imprensa, do saber, à qual cabe construir o futuro e clama aos iluminados para iluminá-la.
Nesse poema, o autor exalta Cristóvão Colombo, navegador e explorador europeu, direcionado por Jeová (Deus no Antigo Testamento), responsável por liderar a frota que alcançou o continente americano em 12 de outubro de 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, no chamado descobrimento da América.
Deus ordena ao novo mundo que marche, mas como se perguntasse mais a si próprio do que ao Senhor, ele se questiona como deve marchar: como a Grécia, construindo muitos templos de mármores a muitos deuses; como Roma, guerreando e dominando, ou como a Alemanha, tiranicamente?
E em resposta, obtêm que no lugar de armas; o livro, que conquistará o mundo inteiro. Além de sugerir que pode ser significativa á coincidência da descoberta da América (Colombo) ter acontecido no mesmo século da invenção da imprensa (Guttenberg), aponta a América, “ninho entre os palmares” como a pátria da imprensa, o lar do livro.

“Ode ao dous de julho”

(Recitada no Teatro de São Paulo)

Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito ...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?! ...

Debruçados do céu. . . a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia!
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos os que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A liberdade — em frente à escravidão.
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão! ...

No entanto a luta recrescia indômita
As bandeiras - corno águias eriçadas —
"Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!
......................................................
......................................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina.
Eras tu — liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do Sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avôs mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!. ..

(S. Paulo, junho de 1868)

O poeta, amante da liberdade, não podia deixar de exaltar a independência de sua terra, em 1822, na qual lutara o avô, a que dedica o belíssimo “Ode ao dous de julho”.
Como era de seu feitio, hiperboliza a luta contra os portugueses, descrevendo-a como uma “pugna imensa” que assombra o mundo:

“O mundo perguntava erguendo um grito:/Qual dos gigantes morto rolará?/...”Era o porvir - em frente do passado,/A Liberdade - em frente à Escravidão”.

Ode origina do grego odé e do latim õde (ou õda), e desde Homero, trata-se de um poema destinado a ser cantado. Os seus vários significados abarcavam também o canto de louvor , o canto fúnebre, canto religioso, canto mágico, canto de guerra ou hino e pressupunha o acompanhamento de instrumentos musicais. O sentido da palavra modificou-se, todavia, passando a significar uma poesia rimada de assunto elevado, normalmente escrita em forma dedicatória de acordo com um estilo e sentimentos nobres.
Os portugueses, mesmo após da Independência do Brasil, continuaram dominando o país. O confronto estava nas ruas, principalmente, do Nordeste, ocupado pelo governador militar português, Inácio José Madeira de Mello,o Madeira Podre, como os baianos o chamavam. Salvador estava cercada por tropas leais ao Reino e o exército brasileiro, pobre, desarmado e faminto, teve que se valer de mercenários, que lutavam por dinheiro e da população humilde e destreinada que lutava por amor e convicção.
Depois que as tropas de Madeira invadiram o Convento da Lapa, matando o Capelão e a Madre Abadessa Joana Angélica, os ânimos acirraram-se mais ainda e o cerco aos portugueses se intensificou. A luta espalhou-se pelo Recôncavo, rica região açucareira e fumageira, banhada pelo Rio Paraguassú, encabeçada por Cachoeira,”A Heróica”, elevada a capital oficiosa da Bahia; de lá, partia a resistência.
Castro Alves, em “Ode ao dous de julho”, ”o mundo perguntava, erguendo um grito, qual dos gigantes mortos, rolará?” Vindos do interior, pessoas simples, como os vaqueiros conhecidos como ”Encourados do Pedrão”, os sertanejos que formavam o batalhão do Príncipe, ou Batalhão dos Periquitos, por causa do verde amarelo das fardas, batalhão criado pelo avô do poeta Castro Alves, José Antonio da Silva Castro e que teve um papel preponderante na vitória baiana. Homens como Pedro Labatut, Almirante inglês Lord Cochrane, Barros Falcão concretizaram a Independência da Bahia expulsando os lusos que eram cerca de 60000 homens contra apenas 2500 brasileiros, mal armados e mal alimentados, mas, cheios de um fogo que não se apagava, um amor pela pátria nascente e o desejo de liberdade. Desse cadinho de raças surgiu a fantástica figura de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, mulher, analfabeta, filha de português, que alistou-se no exército vestida de homem e, com seu pequeno grupo aprisionou Trinta Diabos, um capitão de Madeira, temido por todos pela violência e maldade, numa refrega na Ilha de Itaparica.
Dessa forma, em “Ode ao dous de julho” é um canto entusiástico e patriótico àqueles que lutaram em 1822, para emancipar definitivamente o Brasil. Escrito em versos decassílabos, divididos em oitavas (estrofes de oito versos), emprega esquema de rimas ABBCDEEC. Nesse poema, encontra-se a força das imagens na poesia de Castro Alves, cuja índole oratória encontra nas metáforas a força maior de sua expressividade e traduzida num hino ao futuro, construído sob o signo da liberdade com o sol que desponta no céu, a anunciar um novo dia – um novo tempo.
Trata-se de uma poesia nacionalista, reveladora do estilo hiperbólico: observe-se o frequente emprego de imagens indicadoras de grandiosidade: imensa/vasta/largo/extenso/infinito/gigantes, etc
A luta se caracteriza pelo desenrolar de antíteses, que serem de alicerce para a 3ª estrofe: passado X porvir; liberdade X escravidão; águia X abutre etc.
Outra vertente de “Espumas Flutuantes” é o lirismo amoroso, cujo arco vai desde a ânsia de amar até a exaltação do amor carnal.
Às vezes, o eu lírico mostra-se como alma sonhadora, em que o amor existe, sobretudo, através de imagens que passam diante de seus olhos:

Meu coração desmaia pensativo,
(...)
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu...teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem...seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...

Esses versos não estão ainda muito distantes dos de Álvares de Azevedo: a mulher idealizada ora como casta e angelical (virgem), ora como a que lhe desperta a libido (seminua); enfim, trata-se de amor que fica só no plano da aspiração, do desejo febril sem a devida materialização.

Boa-noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.
Boa-noite!...E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Exaltação do amor carnal, distanciando-se dos primeiros românticos e prenunciando já o realismo. Nesses versos, há uma carga de sensualidade e erotismo.

III - ASPECTOS ESTILÍSCOS:

Deus, ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?

Observação: apóstrofes

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!...
Há dois mil anos...eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus!Senhor, meu Deus!!...

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...

Era o porvir - em frente do passado,
A Liberdade - em frente à Escravidão,
Era a luta das águias - e do abutre,
A revolta do pulso - contra os ferros,
O pugilato da razão - com os erros,
O duelo da treva - e do clarão!...

Observação: metáforas, imagens superlativas e símbolos condoreiros

Adeus! Ó choça do monte!...
Adeus! Palmeiras da fonte!
Adeus! Amores...adeus!...

Observação: anáforas

Tu que, da liberdade após a guerra.
Foste hasteado dos heróis na lança.

Observação: anástrofe (inversão menos violenta que o hipérbato, geralmente consistindo na troca de posição entre o termo regente e o termo regido).

Co’a mão vazia - viu a terra cheia.

Observação: antítese

Senhor Deus dos desgraçados!

Observação: apóstrofe

Silêncio, Musa...chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Observação: hipérbole

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu

Observação: metáfora

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
Para não zangá-la...sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Observação: prosopopéia, personificação ou animismo.

Ó flor!Tu és virgem das campinas!
Virgem! - tu és a flor da minha vida!...

Observação: quiasmo (cruzamento de palavras ou sintagmas paralelos, de modo que um termo do primeiro verso se repete no segundo, em posição contrária).

IV – ANÁLISE DE POEMAS:

“Hebréia”

Flos campi et lilium convallium.

(Cântico dos Cânticos)


 
Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!

Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...

Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infinitas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

(...)

Sim, fora belo na revosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho

Depois nas águas de cheiroso banho
- Como Susana a estremecer de frio -
Fitar-se, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...

(...)

Não vês?...Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

(...)

Na epígrafe do poema, “Flos campi et lilium convallium”, em latim, (“Flor dos campos e lírio do vale”) e no subtítulo “Cântico dos Cânticos”, o poeta traça um paralelo com o Antigo Testamento e a Salomão.
Esse poema foi originalmente escrito e dedicado às irmãs judias Mari, Simi e Ester Amzalak, vizinhas do poeta em Salvador. Nele o poeta recria liricamente o amor, traçando a trajetória mística do povo judeu.
O poema apresenta duas coordenadas: de um lado, o “exílio” do judeu que sonha com a pátria distante, tomado de imensa saudade; de outro, o eu lírico que sonha com o amor de sua amada, tudo se fundindo numa só paixão, como se evidencia na passagem: “Sim, fora belo na revosa alfombra”.
O poeta cita personagens bíblicos para ressaltar o platonismo amoroso e a fidelidade de Jacó à Raquel, mulher que se lhe afigura como ideal; Susana, mulher judia, célebre pela sua beleza e castidade e, localiza Cédron, corrente de água, muito famosa na Bíblia, que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras e deságua no Mar Morto.
O poeta transporta-se para o papel dos patriarcas do povo judeu e dá à sua amada o papel idealizado de suas esposas ou mulheres. A mulher amada é vista como guia do poeta, que se transfigura no final num pastor errante. O poema apresenta versos decassílabos divididos em quadras.

“O laço de fita”

 
Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita

(...)

Poema lírico-amoroso, brejeiro em que o eu se mostra “prisioneiro” dos encantos da formosa donzela, encantos que o poeta simboliza em um laço de fita. O laço de fita metaforiza na ordem material o que o encanto representa na ordem sentimental.


“Ahasverus e o Gênio”

Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior


Sabes quem foi Ahasverus?... - o precito,
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadoura voz!

(...)

D’Ásia as florestas - lhe negaram sombra
A savana sem fim - negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!...
Tabas, serralhos, tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.

(...)

Ahasverus alegoriza o povo judeu, condenado a errar longe de sua terra. Segundo reza a tradição, Jesus, quando caminhava vergado ao peso da cruz, desejou descansar um momento diante da porta do judeu Ahasverus, que brutalmente o repeliu. Para castigar, Cristo disse-lhe: “Serás errante sobre a terra até que eu venha” e logo o judeu se pôs em marcha sem nunca achar um lugar para repousar.
Castro Alves compara-se a Ahasverus, incapaz de adequar-se ao mundo estreito e medíocre que o cerca, e por esta razão, condenado a procurar, solitário, sem nunca achar.
Ahasverus, além de símbolo de luta eterna da humanidade em busca de redenção e justiça, é também símbolo do gênio, projeção dos dramas do eu sobre o mundo, refletindo as tendências messiânicas do romantismo.
A figura de Ahasverus representa aqui a imortalidade desejada pelo poeta, mas carregada de uma solidão terrível e amaldiçoada.

“Mocidade e Morte”

E perto avisto o porto
Imenso, nebuloso, e sempre noite
Chamado - Eternidade -
Laurindo


Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: — impossível!
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n'alma

E o eco ao longe me repete — avante! —
o futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bênçãos dorme a glória!
Após — um nome do universo n'alma,
Um nome escrito no Panteon da história.

(...)

Morrer — é ver extinto dentre as névoas
O fanal, que nos guia na tormenta:
Condenado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta —
Ai! morrer — é trocar astros por círios,
Leito macio por esquife imundo,
Trocar os beijos da mulher — no visco
Da larva errante no sepulcro fundo.

(...)

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi no fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida — novo Tântalo —
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda Hebraica,
O 'stilete de Deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! morrer! soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! amor! anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar! fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro — a terra,
Por glória — nada, por amor — a campa.

Adeus! arrasta-me uma voz sombria
Já me foge a razão na noite fria!...

Ao contrário do sonho da geração romântica anterior de encontrar-se prematuramente com a morte, principalmente na poesia de Álvares de Azevedo, encontra-se em Castro Alves, o desejo da vida, sempre representada na possibilidade do amor e da genialidade.
O poema combina versos decassílabos e hexassílabos, divididos em oitavas e sextilhas. O esquema de rimas não é fixo.
A luta contra á morte e o desejo da vida eterna são evidentes projeções pessoais do poeta que, tuberculoso e com uma perna amputada por causa da gangrena, via sua vida desfazer-se em plena juventude.

“O gondoleiro do amor”

BARCAROLA

DAMA-NEGRA


 
Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

(...)

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

(...)

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa!Canto!Sombra!Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Poema lírico-amoroso, em versos redondilhos maiores divididos em quadras que sugere o balanço da gôndola.
Como o próprio subtítulo classificatório indica, é uma barcarola, ou seja, poema lírico de origem ou influência italiana que faz referência a caminhos por água. É interessante notar que o poeta recria a canção dos gondoleiros de Veneza, geralmente uma composição sentimental que fala de um amor que se espera alcançar, ou ainda exalta uma dama em razão de sua beleza.
A dama-negra, provavelmente, Eugênia Câmara é idealizada: “Tua voz é cavatina”, ária de uma ópera; “Dos palácios de Sorrento”, cidade da Itália, célebre pela beleza, situada no Golfo de Nápoles.

“O “adeus” de Teresa”

 
A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos...E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite...entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu...Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus.”

Passaram tempos...séc’los de delírio
Prazeres divinais...gozos do Empíreo...
...Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - “Voltarei!...descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei...era o palácio em festa!...
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!...Ela me olhou branca...surpresa!
Foi á última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Poema amoroso, marcado por certo erotismo, construído em versos decassílabos. Nesse poema, o eu lírico canta o amor por Teresa, interrompido quando ele voltou para sua casa. Mesmo a promessa de que voltaria, não impediu a amada de casar-se com outro.
O poema pode ser dividido em dois momentos, marcados ambos pela despedida. No primeiro momento, o clima é de alegria e paixão, marcado no final, por um adeus provisório; no segundo, o clima é de tristeza e o adeus é definitivo.
O tema da mulher infiel ou do amor que não se mantém, talvez, por não ser verdadeiro é refletido nas antíteses cromáticas: no amor, ela cora; na traição, ela fica branca.


“Boa-Noite”


Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde...é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!...E tu dizes - Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
- Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve...a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?...pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d’alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d’alvorada:
“É noite ainda em teu cabelo preto...”

É noite ainda! Brilha na cambraia
- Desmanchando o roupão, a espádua nua -
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trecalar das flores
Fechemos sobre nós estas cortinas...
- São as asas do arcanjo dos amores.

(...)

Ai! Canta a cavatina do delírio.
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion!Marion!...É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!..

Como um negro e sombrio firmamento
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
- Boa-noite!-, formosa Consuelo!...

Poema marcado por intenso lirismo amoroso. Composto por dez quadras com decassílabos, atesta a relativa liberdade de forma existente no romantismo. Basta observar que a exigência de rima em todos os versos não é respeitada: o poeta rima 2°/4°, mas deixa sem rima o 1°/3º. Nele o poeta reconstrói a figura da mulher amada trazendo de volta personagens de importantes obras da literatura. Nota-se ainda a presença de forte erotismo tanto na construção do cenário amoroso quanto do vocabulário, prenunciando o que viria a acontecer na poesia parnasiana, notadamente em Olavo Bilac.
Ao sexualizar a mulher, Castro Alves, faz aflorar a sensualidade e o erotismo. Constata-se que o texto dialoga com a história erótica do ocidente, na figura de Marion, bem como, em um processo de intertextualidade com a literatura shakespeariana, na figura de Julieta. Ou seja, o poeta vai associando a sua amada/amante com outras amantes famosas, quer da história, quer da literatura, sugerindo que ela é tão maravilhosa e amada quanto ás mulheres mencionadas.


“É tarde”


É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! Não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!

Treda noite! E minh’alma era o sacrário,
A lâmpada do amor velava entanto,
Virgem flor enfeitava a borda virgem
Do vaso sacrossanto.

Quando ela veio - a negra feiticeira -
A libertina, lúgubre bacante,
Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
A roupa gotejante

(...)

Ai! Não queiras os restos do banquete!
Não queirais esse leito conspurcado!
Sabes? Meu beijo te manchara os lábios
Num beijo profano.

(...)

Ciúme! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula
Um uivo de agonia!...

(...)

Mas não...!Somente as vagas do sepulcro
Hão de apagar o fofo que em mim arde...
Perdoa-me, Senhora!...Eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...

O poeta desenvolve o tema romântico da paixão destruidora que, como “fogo-santo”, também chamado de fogo sagrado, chama votiva conservada sempre acesa nos templos de várias religiões, resseca e aniquila o coração. Associadas ao tema aparecem a “vestal”, mulher pura, casta, sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo dos romanos e as ideias de gozo efêmero e ilusão amorosa.
Metaforicamente, o eu lírico descreve-se como um templo ermo e sem luz, para caracterizar o estado de destruição em que se encontra. Dessa maneira, opõe Mal X Bem, aquele representado pela “negra feiticeira – a libertina, lúgubre bacante” que o conduziu ao abismo; este, pela Vestal, visão do céu.
Castro Alves, nesse poema, apresenta o conflito entre o amor de perdição versus o amor de salvação, no entanto salvação tardia, pois o amante destruído há de encontrar a paz na morte.


“Quando eu morrer”


Quando eu morrer...não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro - o cemitério...
Que o povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos - errantes - por santelmo,
Tem por velame - os panos do sudário...
Por mastro - o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas - o mocho funerário

(...)

Oh! Perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá “Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito.”

Tal como no poema “Mocidade e Morte”, o poeta reafirma, nesse poema, seu imenso amor à vida em clara ruptura com o pessimismo e negativismo da geração precedente. A primeira estrofe é, de certo modo, uma “resposta” a “Lembrança de morrer”, de Álvares de Azevedo, onde se lê o seguinte:

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida
Sombras do vale, noites da montanha
Protegei o meu corpo abandonado.


“Adormecida”


Uma noite, eu me lembro...Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço de horizonte.
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados
Indiscretos entravam pela sala.
E de leve oscilando ao tom das auras.
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!...A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava ...a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe...a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P’ra não zangá-la...sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
“Virgem! tu és a flor da minha vida!...”

Nesse poema intensamente erótico, o eu lírico contrapõe a pureza da donzela em seu sono à simbologia erótico-masculina do galho que invade a janela para tocar na jovem. Sem dúvida, o galho representa falicamente o próprio poeta. É interessante notar que o ato sexual não se completa, já que a jovem permanece virgem, como pode comprovar o penúltimo verso do poema. Mais uma vez há o emprego dos decassílabos em quartetos.





sexta-feira, 13 de maio de 2011

QUINHENTISMO NO BRASIL: LITERATURA DE INFORMAÇÃO E JESUÍTICA

1500-1601

I - INTRODUÇÃO:


A era colonial da Literatura Brasileira abrange os três primeiros séculos de existência do país, sob a condição de colônia de Portugal. A subordinação política e econômica à Metrópole condiciona a dependência cultural e a imitação dos modelos artísticos portugueses. Assim, não se pode falar numa literatura propriamente brasileira antes da Independência política (1822) e do Romantismo (1836). O que se escreveu até o século XVIII tem caráter híbrido, pelo que a era colonial e, com justeza, designada como “Era Luso-Brasileira”.
Esta primeira Era não é absolutamente uniforme; à medida que a Colônia ganha fisionomia própria, as suas especificidades vão-se refletindo na produção literária, pelo que é usual o reconhecimento de três períodos distintos:

I – QUINHENTISMO – Séc. XVI (1500 – 1601)
Literatura SOBRE o Brasil, de caráter principalmente informativo.

II – SEISCENTISMO – BARROCO – Séc. XVII (1601-1768)
Literatura NO Brasil. Há produção propriamente literária, ainda que constituída da simples transposição dos modelos ibéricos.

III – SETECENTISMO – ARCADISMO – Séc. XVIII (1768-1836)
Literatura DO Brasil. Começa a haver ressonância da sociedade colonial na produção literária, amparando os primeiros movimentos de rebelião contra os estatutos da Metrópole (Inconfidência Mineira, Revolução dos Alfaiates etc.)

II – QUINHENTISMO:

A expansão ultramarina européia teve como desdobramento literário, o aparecimento de inúmeros viajantes às terras recém-descobertas ou exploradas da Ásia, da África e da América, cuja missão era a de produzir relatórios, com informações sobre essas terras, detalhando os recursos minerais, a fauna, a flora e os aspectos exóticos e pitorescos de seus habitantes.
Esses relatórios, denominados “CRÔNICAS DE VIAGEM”, pertencem mais ao âmbito da História do que ao da Literatura, posto que nos remetem a uma linguagem puramente referencial ou denotativa. Assim, é usual excluir-se a literatura informativa do século XVI da periodização da Literatura Brasileira, já que são textos em que a preocupação central está concentrada no fornecimento de informações à metrópole sobre o homem e a terra recém-encontrados. Tendo em vista que são textos documentais, não são literatura, mas documentos históricos.
No entanto, pode-se dizer que tais textos possuem uma grande carga estética, além de serem alvos de paródia até os dias atuais.
A produção literária quinhentista está dividida em três modalidades: a Literatura de Informação; a Literatura de Viagens e a Literatura Catequética ou Jesuítica.

III – CONTEXTO HISTÓRICO:

1415 - Expedição portuguesa liderada pelo rei D. João I, conquista a cidade de Ceuta no norte da África, em 21 de agosto de 1415.
1420/3 - Os navegantes João Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira descobrem a ilha da Madeira.
1424 - D. Fernando de Castro comanda expedição contra as ilhas Canárias.
1425 - Colonização da ilha da Madeira.
1432 - Gonçalo Velho viaja para a ilha dos Açores.
1434 - Gil Eanes passa o Cabo Bojador abrindo a rota para o sul da África.
1437 - Fracassa conquista do Marrocos. Portugueses derrotados na batalha de Tanger.
1441 - Nuno Tristão descobre o Cabo Branco.
1443 - O Infante D. Henrique recebe o Promontório de Sagres como Vila de Sagres, tornando o local, a partir de 1450, centro impulsionador das expedições navais lusitanas. D. Henrique morre ali em 1460.
1444 - Dinis Dias descobre o Cabo Verde.
1445 - Gomes Pires, Laçarote e outros chegam ao Senegal.
1456 - Descoberta das ilhas do Cabo Verde.
1484 - Diogo Cão navega até a embocadura do Rio Zaire no Congo. Colombo oferece ao rei português os planos da viagem para chegar à Índia navegando pelo ocidente. Foi rejeitado.
1488 - Bartolomeu Dias descortina o cabo das Tormentas, na África do Sul, rebatizado pelo rei João II de Cabo da Boa Esperança, abertura para os mares da Índia.
1498 - Vasco da Gama chega ao porto de Calicute na Índia.
1500 - Pedro Álvares Cabral desembarca no litoral do Brasil.

IV – LITERATURA DE INFORMAÇÃO: CARTA DE CAMINHA:


“Num domingo, dia 8 de março de 1500, Lisboa estava em festa. A Armada comandada por Pedro Álvares Cabral, desferrava-se, partiria para as Índias. Ancorada no Restelo, depois chamado de Belém, nas margens do Rio Tejo, zarpava em busca das almejadas especiarias de Calicute e de outros logradouros orientais. Compunha-se de 13 barcos, com 1200 a 1500 soldados, dotados de bom armamento e de poderosa artilharia.”


Cada embarcação era imprescindível ter um “relator”, um “escrivão”, um “narrador da aventura”, enfim um “cronista de viagem” que gozava de grande prestígio perante a corte.

A carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, iniciada em 26 de abril e concluída no dia 1º de maio de 1500, é composta por 27 folhas de texto e uma de endereços e anotações, foi enviada imediatamente para o rei D. Manuel, o Venturoso, por intermédio de Gaspar de Lemos, anunciando a boa nova da descoberta de terras.


Desconhece-se a biografia de Caminha. O escrivão faleceu em Calecute, em dezembro de 1500, onde se encontrava a serviço da corte.

Ela tornou-se a “Certidão de Nascimento” do Brasil, como a chamou Capistrano de Abreu. O documento, no entanto, só se tornou público em 1790, sendo a carta publicada a primeira vez no Brasil em 1817, pelo geógrafo Manoel Ayres do Casal, no primeiro volume da “Corographia Basílica”, porém não em sua íntegra, excluindo-lhe trechos que considerava inoportunos.


 
Além do comandante-mor Pedro Álvares Cabral estavam a bordo Bartolomeu Dias que primeiro cruzara o cabo da Boa Esperança no sul da África, o “Capitão do Fim” como o chamou Fernando Pessoa; Nicolau Coelho que acompanhara a expedição de Vasco da Gama à Índia dois anos antes; Duarte Pacheco, descobridor de terras na África e na América, e o franciscano D. Henrique, futuro inquisidor, que trazia consigo, mais sete outros frades e seria quem oficiaria a 1ª Missa no Brasil. O substituo oficial de Cabral, seu vice-comandante, era um fidalgo espanhol, refugiado na corte de D. Manoel, chamado Sancho de Tovar.

O relato mostra que não houve surpresa por parte da tripulação ou dos comandantes com o “achamento”. Indicam isso, sim, que eles tinham certeza que encontrariam terra em algum ponto do mar longo, que se pode entender como o mar que separa a costa africana da brasileira.
A franja de litoral que lhes coube desembarcar estava, como verificou-se posteriormente, dentro dos limites estabelecidos aos lusos pelo Tratado de Tordesilhas, que a partir das 370 léguas das ilhas de Cabo Verde, dividiu o mundo a ser desbravado entre os dois reinos Iberos, acertado pelo Papa Alexandre VI em 1494.


“Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que - para o bem contar e falar - o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.”

Na Carta em questão, Pero Vaz de Caminha promete fazer jus à sua honestidade (cf. “não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu”), contudo reconhece a sua incapacidade e ignorância (cf. “para o bem contar e falar - o saiba fazer pior que todos”), para dar conta a “Vossa Alteza” da “terra nova”.
Um dos pontos mais importantes a notar, ao longo da Carta, é a precisão ideológica de Caminha. Em primeiro lugar, esclarece bem o fato de não narrar acerca “da marinhagem e singraduras do caminho” (navegação diária por navio à vela), à semelhança d' Os Lusíadas, de Luís de Camões.
Relativamente à viagem, a Carta informa sobre às circunstâncias situacional e temporal da partida de uma grande armada, treze naus, tendo como capitão-mor Pedro Álvares Cabral. A partida de Belém com destino à Índia teve lugar dia 9 de Março de 1500. Antes de partir, os perigos de uma viagem como esta eram de todos conhecidos. A viagem de Cabral, segundo os registros, foi sem grandes sobressaltos. Entretanto, a nau comandada por Vasco de Ataíde simplesmente desapareceu e apesar das diligências feitas para encontrá-la, durante dois dias de infrutíferas buscas, nunca mais se soube de seu paradeiro. Cento e cinquenta homens tinham sido “comidos pelo mar”. Nessa tormenta, naufragaram as naus de Aires Gomes, Simão de Pina e Luís Pires, além da caravela de Bartolomeu Dias, o descobridor desse “Cabo das Tormentas”. Foi, então, neste cenário de horrores que povoou uma viagem, que viria a ser promissora para portugueses e brasileiros.
Ao longo da Carta, existem breves referências sobre os locais onde passou a armada de Pedro Álvares Cabral, com os respectivos dias de tais ocorrências, sendo esta uma das preocupações maiores de Caminha, ou seja, o rigor do pormenor é uma marca que acompanha toda a sua narrativa.
De acordo com a opinião de Duarte Leite:

“Se a Carta nos relata da vida vegetal e animal na terra nova é interessante, muito mais o são os informes etnográficos, que permitem classificar com segurança o homem novo como duma tribo tupi-guarani, tal a precisão dos detalhes e a acuidade das observações, servidas pela ingenuidade primesautière das apreciações, qualidades que conferem inestimável valor a esta magnífica peça.”

“E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha - segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas - os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!”

Numa “terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de Abril” avistaram-se os primeiros sinais de terra. Na quarta-feira seguinte tiveram o primeiro contacto com a mesma, à qual o Capitão pôs o nome de Terra de Vera Cruz. Os contactos entre a “gente de Luso” e os povos daquela “terra nova” não demoraram a estabelecer-se, ainda que, fosse difícil a junção daquelas duas culturas completamente distintas, contudo os portugueses registraram as primeiras aparências.
Na reunião feita a bordo do navio capitania, ancorada na boca do Rio Frade, no estado da Bahia de hoje, decidiu-se enviar para a praia a Nicolau Coelho, um veterano que seguira Vasco da Gama. Na sua companhia foi um tradutor, um judeu de nome Gaspar da Gama, por dominar alguma coisa de árabe e outros idiomas exóticos, pois os chegados pensavam ser costa indiana.
Mal o batel encalhou na praia, foi recebido pacificamente por 18 homens, que descreveu-os o escrivão Pero Vaz de Caminha, como “ pardos, maneira de avermelhados, nus, sem nenhuma cobertura,....muito rígidos, armados de arco e flechas”.
Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. Imediatamente, recorrendo a sinais, trocaram presentes. Os lusos deram-lhes “um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto”, “e um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.”
É importante perceber que não há receio ou surpresa por parte dos portugueses diante da presença dos nativos. Aventureiros, acostumados ao contato com povos desconhecidos pelas viagens já realizadas até a costa africana.

“Na sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. [...] Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados á terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos.
Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes são feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.”


Aliás, os Brancos encontraram no Brasil grupos indígenas numerosos, do tipo físico dos que habitavam o litoral da Baía e a mais antiga e fiel descrição foi-nos deixada pelo cronista Caminha. Todavia, não foram estas linhas culturais que construíram as possíveis barreiras de contacto, que poderiam vir a existir entre portugueses e índios, porque, efetivamente, não se registraram obstáculos para que o seu relacionamento fosse impedido, como dará conta, com toda a minúcia, Pero Vaz de Caminha a D. Manuel.

A visão que os europeus têm dos nativos é bastante interessante. Note que os parâmetros para avaliar a “nova gente” são sempre os da civilização européia, nada adequados, portanto, à observação de povos indígenas.
Com precisão minuciosa, a Carta de Pero Vaz de Caminha evidencia a atitude cordial dos índios e dos portugueses. Apesar de ser uma Carta onde transparece uma visão romântica da vida indígena, que posteriormente influenciou Rousseau com a teoria do “Bom Selvagem”, a Carta é a única fonte que nos resta do relato dos primeiros contactos com os nativos.


“O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção á terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.”

[...]

“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
[...] E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.”

Observe que outro aspecto importante da Carta além da descrição dos índios é a visão otimista em relação às possibilidades econômicas das novas terras. Deste modo, a chegada ao Brasil teria interesse para os portugueses não só pela sede de conhecer novas culturas e, por isso, novas formas de vida, mas também pela ânsia das riquezas materiais que poderiam ser abundantes por aquelas paragens e que não estavam fora das intenções do povo lusitano, pois o fato de apontarem para o colar do Capitão e de seguida para a terra, bem como o castiçal de prata, foi o suficiente para que os portugueses se apercebessem das relíquias do Brasil.
Para que o contacto entre estes povos se estabelecesse, de forma mais nítida, e para melhor conhecer o “seu viver e maneiras”, o Capitão mandou para terra Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias com dois homens para que esse contacto se tornasse verdadeira realidade. “Um mancebo”, Afonso Ribeiro, foi para junto daquela gente para conhecer os seus hábitos, no fundo, a sua cultura. Este foi também o papel de Pero Vaz de Caminha, na companhia de Nicolau Coelho.


“Ao Domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o Capitão de vir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias - duas ou três que lá tinham - as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.
Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção á terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.”


Se encontrar riquezas minerais era o desejo “oculto” dos portugueses, o objetivo revelado era outro, muito mais “nobre”. Como já dizia Camões na proposição de “Os lusíadas”, as navegações portuguesas tinham por função dilatar o Império e a Fé. A Igreja precisava de novos fiéis, pois seu rebanho estava encolhendo na Europa e os gentios eram vistos como alvo ideal para a catequização, como almas que precisavam ser salvas pela fé cristã.

À cerimônia assistiram, tanto portugueses como índios. Seguiu-se á hora da refeição, recheada de mariscos, e foi assim que por vontade unânime todos concordaram «em mandar a nova do achamento desta terra» a Sua Alteza ElRei D. Manuel. “A nova do achamento desta terra” incluía um pedido que consistia num «intercâmbio», ou seja, dois índios ficariam com os portugueses e dois dos nossos homens ficariam no Brasil. Entendeu-se que este seria o modo mais fácil de cada um dar conta das vivências das culturas em causa, já que “tantos dos nossos, (e) andavam assim misturados com eles”, apesar de os índios andarem mais «seguros entre nós” do que “nós entre eles”.
A expedição fez-se novamente ao mar no dia 2 de maio de 1500, retomando a viagem para a Índia. Não ficaram mais de dez dias na Terra dos Papagaios, como foi popularmente chamada. Além de dois degredados que aqui foram deixados aos prantos, dois grumetes fugiram de bordo e nunca mais foram vistos. Eram, esses anônimos, os primeiros brasileiros.
A partida começava a aproximar-se para anunciar ao Rei a «terra nova», da qual os portugueses eram, agora, testemunhos da existência de tais vivências.
Os indígenas pareciam de tal modo inocentes (cf. “esta gente é boa e de boa simplicidade”), que facilmente seria fácil convertê-los em Cristãos, basta notar o fato de os dois homens se ajoelharem e beijarem a Cruz, uma realidade que agradaria, de certeza, a Sua Alteza, que lutava para acrescentar a sua santa fé católica. Aqui, será também de notar, a missa final, à qual só uma mulher assistiu e a simplicidade e inocência das suas atitudes. Foi-lhe dado um pano para que ela se cobrisse quando se sentava, mas acabou por não lhe dar utilidade porque a sua ingenuidade não a deixava ver o mal que isso poderia ter, era a sua maneira natural de estar. Por isso, Caminha depreendeu que quem é tão inocente converter-se-á, facilmente, à fé católica. De fato, aquela gente era simples, por isso, o contacto entre as duas comunidades tornou-se simples (cf. ”dançaram e bailaram sempre com os nossos”)!
A terra recém achada foi considerada como uma dádiva divina colocada ao alcance de D. Manuel. A cerimônia religiosa, oficiada por D. Henrique de Coimbra, consagrou-a como espaço a ser convertido e integrado à Cristandade.
Ao contrário da África, onde Portugal deixava seus padrões de pedra (sinal de sua posse), aqui ele deixou a Cruz com as insígnias reais.
A partida era no dia seguinte, dia 2 de Maio de 1500, e Pero Vaz de Caminha fazia a retrospectiva daquelas paragens, onde não tivera visto ouro nem prata, mas afirma que á terra “é de muitos bons ares”, semelhantes aos de Entre Douro e Minho. As águas? Essas são “infindas” e as terras são férteis, todavia, para Pero Vaz de Caminha afirma que o “melhor fruto” a colher por aquelas paragens seria a salvação daquela gente, devia ser, a semente que El Rei D. Manuel podia lançar naquelas terras de boa gente. (cf. “Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar, parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”).
Caminha faz a ElRei as recomendações finais, elevam-se estandartes e bandeiras, retinem e silvam trombetas, atabaques, flautas e rufam tambores.
Por fim, é preciso ressaltar que já no primeiro documento acerca do Brasil começou a ser formada uma imagem desta terra como algo paradisíaco, incomparavelmente belo, e o sentimento de ufanismo ou nativismo, que consiste na exaltação, por vezes exagerada, das virtudes da terra e da gente, fecundará toda a literatura brasileira a partir do Romantismo.

“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos - terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha."

Em conclusão à sua Carta, Pero Vaz de Caminha pede perdão a Sua Alteza El Rei D. Manuel por se ter demorado a contar tudo «pelo miúdo» e aproveita para deixar um pedido, ou seja, solicita a libertação do seu genro, Jorge Osório, degredado em São Tomé, por ordem de D. Manuel.


V - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


O “achamento” do Brasil pela frota de Pedro Álvares Cabral não teve efeitos imediatos, nem para os lusos nem para os nativos. Somente meio século depois, com a instalação de um governo-geral na Bahia em 1549, é que pode dizer-se que seu descobrimento começou a gerar proveitos. A razão disso é que a Coroa Manuelina estava mais interessada no comércio com as Índias, devotando suas energias para a instalação de uma atividade regular com Calicute e outras feitorias, bem como não terem encontrado os portugueses nenhum metal precioso no território recém conhecido. Assim, o Brasil foi considerado em seus princípios apenas como uma paradouro, eventualmente a recorrer-se, na “carreira para as Índias”.
Quanto ao descobrimento ter sido causal ou não, como colocou em dúvida o escritor brasileiro Joaquim Norberto, parece-nos hoje uma discussão ociosa, bem como aquelas outras afirmações de ter sido o litoral brasileiro desbravado antes por outros navegadores, tais como Jean Cousin, Martim Behaim ou Vicente Pinzón.
As características mais marcantes da Carta são: o espírito de observação, a serviço da descrição das novas realidades; a ingenuidade, no sentido de uma anotação realista sem segundas intenções e no sentido de uma dificuldade de entender a nova realidade e a clara ideologia mercantilista disfarçada de preocupação missionária.
Segundo a posição de Manuel Simões: “A Carta cumpre uma precisa função ideológica, toda centrada no programa de catequese e da conversão religiosa do “outro”. Neste aspecto, e como lhe parece que “não têm, nem entendem em nenhuma crença”, Caminha assume-se como intérprete da vontade divina, o que põe em causa as teses da intencionalidade da descoberta: “E logo Nosso Senhor [...] por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa”.
O texto, porém, não deixa de revelar preocupações de ordem econômica e de maneira bastante explícita. Logo no primeiro contacto com os índios, a atenção dos portugueses concentra-se na tentativa de decifrar a linguagem gestual, seguindo a interpretação que mais interessava os reais objetivos da viagem. A ambiguidade do gesto resolvia-se assim em função do que mais se esperava encontrar na “nova terra”, não sendo surpreendente que “ouro” e “prata” apareçam como signos obstinados, ainda que seja para constatar a sua ausência no espaço controlado pela frota. Não conhecendo a real extensão da terra, Caminha opta pela generalização e é certamente este mecanismo a reconduzi-lo, na última parte da Carta, ao programa ideológico do “acrescentamento de nossa santa fé”, que obsessivamente apresenta ao rei como um projeto a realizar com a futura colonização.


VI – A LITERATURA DE CATEQUESE: PADRE ANCHIETA



“E, se um Nóbrega exprime em cartas incisivas e no Diálogo o traço pragmático do administrador; ou, se um Fernão Cardim lembra Gândavo e Gabriel Soares pela cópia de informes que sabe recolher nas capitanias que percorre, só em José de Anchieta é que acharemos exemplos daquele veio místico que toda obra religiosa, em última análise, deve pressupor.”


Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira.

A história das primeiras décadas do Brasil Colônia é também a história dos missionários que aqui aportaram para promover o “acrescentamento da fé”, como dizia Camões.
Durante quase todo o período colonial, a educação foi atribuição exclusiva das ordens religiosas, especialmente da Companhia de Jesus.
A Companhia de Jesus foi criada, em 1534, com a missão específica de propagar a fé, nos mais distantes territórios, converter os gentios das terras recém-descobertas e, se possível, também os infiéis mulçumanos. Por isso iremos encontrar jesuítas em todas as colônias fundadas por portugueses e espanhóis. Durante sua permanência no Brasil, os missionários produziram o que se convencionou chamar de “literatura de catequese”, porque escreviam peças de teatro com o objetivo de converter os nativos à religião católica. Cenas bíblicas, passagens do Novo e do Velho Testamento, vidas dos santos, eram todas gramatizadas, muitas vezes em tupi, para divulgar ensinamentos religiosos e morais entre os índios.
Com efeito, os jesuítas, agentes da Contra-Reforma, instalaram no Brasil sua obra missionária, desde as primeiras décadas de nossa história.
Os jesuítas foram fator fundamental na destribalização do índio e na sua absorção pelo mundo “civilizado”. Imbuídos dessa intenção pedagógica e moralizante, os textos que produziram revestem-se de caráter mais didático que artístico.
Há, contudo, uma figura que transcende às limitações do puramente informativo e didático para incluir-se no plano literário, o Pe. José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, fundador do colégio de Piratininga, núcleo da cidade de São Paulo, exemplo de zelo religioso, sensibilidade e vida espiritual particularmente heróica, nas condições adversas em que se exerceu.
Anchieta deixou cartas, informações, fragmentos históricos, sermões, teatro e poesia, destacando-se estes dois últimos aspectos como os mais relevantes literariamente.

A POESIA DE ANCHIETA:


Sua poesia expressa á motivação mística e catequética do autor, impregnado de profunda devoção mariana. Traduz uma visão ainda medieval, teocêntrica do universo.

A estrutura é também medieval, com versos curtos, na “medida velha”, ou seja, o emprego de redondilhas maiores e menores.
Muitas vezes os poemas que escrevia deixavam transparecer a visão medieval de que todas as coisas do mundo dependem de Deus.
A mortificação do humano e o distanciamento dos prazeres terrenos encontram consolação no amor divino, que contrapõe ao desengano da vida os valores positivos da esperança e da alegria, também presentes na poesia de Anchieta.
Dentro da mais pura tradição medieval, Anchieta vai buscar no cotidiano, na dicção popular, boa parte das imagens que povoam sua obra.

Em Deus, meu Criador

Não há cousa segura.
Tudo quanto se vê
Se vai passando.
A vida não tem dura.
O bem se vai gastando.
Toda criatura
Passa voando.



...............................



Contente assim, minh’alma,
Do doce amor de Deus
Toda ferida,
O mundo deixa em calma,
Buscando a outra vida,
Na qual deseja ser
Absorvida.

Nesses versos pode-se ver o tema do “desengano” do mundo, constante no “Cancioneiro geral” de Garcia de Resende e em Gil Vicente, no Camões maneirista e na futura poesia barroca, estes dois autores divididos entre os valores medievais agonizantes e os valores modernos emergentes.
Mas a grande característica de Anchieta, conforme observa Alfredo Bosi, são os valores positivos de esperança e alegria, especialmente a ideia da consolação pelo amor divino.
No poema “A Santa Inês”, percebe-se que o símbolo do sacrifício é, antes de tudo, símbolo da união com Deus, associada a imagens de luz, calor, comida, enfim, de conforto físico e espiritual.

A Santa Inês

Cordeirinha linda,
Como folga o povo
Porque vossa vinda
Lhe dá lume novo!

Santa padeirinha,
Morta com cutelo
Sem nenhum farelo
É vossa farinha.

Ela é mezinha
Com que sara o povo,
Que com vossa vinda
Terá trigo novo.



O pão que amassastes
Dentro em vosso peito
É o amor perfeito
Com que a Deus amastes.

O TEATRO DE ANCHIETA:

As peças de teatro escritas por Anchieta têm menor valor artístico por estarem vinculadas as suas intenções educativas e missionárias.
Pe. Anchieta inspirava-se, quanto ao aspecto construtivo, no teatro medieval ibérico, nos mistérios e moralidades. Seus autos eram destinados à edificação do índio e o branco, em certas cerimônias litúrgicas, como na “Na festa de São Lourenço”, na “Visitação de Santa Isabel etc. e envolviam personagens tomadas como alegorias do Bem e do Mal, da Virtude e do Vício, personificados em anjos e demônios, entre os quais oscilaria o cristão; daí o seu realismo.
Apoiavam-se no canto e na dança, como elementos motivadores para a presença do índio, e isso faz de Anchieta o primeiro pesquisador da cultura tupi-guarani, bem como um dos primeiros a usar o idioma tupi, ao lado do português, do espanhol e do latim.
A paradoxal modernidade desses autos rudimentares está na ativa participação da platéia, apenas masculina, no espetáculo, por meio do canto e da dança. Este teatro de revista indígena não oferece, de fato, unidade de ação ou de tempo.
Dos oito autos que se costumam atribuir a Anchieta o mais importante é “Na festa de São Lourenço”, representado pela primeira vez em Niterói, em 1583. Consta de quatro atos e uma dança cantada em procissão final. A maior parte dos versos está redigida em tupi, e o restante em espanhol e português.

VII – A LITERATURA DE VIAGENS:

 
“A crônica histórica e informativa que se intensifica em Portugal no momento das grandes navegações, conquistas e descobertas ultramarinas, testemunhando a aventura geográfica dos portugueses, os seus ideais de expansão da cristandade, assume um sentido épico e humanístico que se estende ao Brasil e logo adquire entre nós algumas características peculiares. À curiosidade geográfica e humana e ao desejo de conquista e domínio correspondem, inicialmente, o deslumbramento diante da paisagem exótica e exuberante, testemunhado pelos cronistas portugueses que escreveram sobre o Brasil – Pero Vaz de Caminha, Pero de Magalhães Gândavo, Gabriel Soares de Sousa (...). Certamente, a atitude desses cronistas, acompanhando o processo de identificação do colonizador europeu com a paisagem americana, é o germe da nossa historiografia, na sua maneira informativa e descritiva, a partir do testemunho pessoal, da observação direta e da informação de terceiros até o fundamento indispensável da documentação. É também, com louvor da terra, o germe nativista, como ponto de partida, embora remoto, da formação da consciência nacional.”


Antonio Candido & José Aderaldo Castelo. Presença da literatura brasileira.

Descoberta a terra, era necessário ocupá-la antes que representantes de outros reis e nações o fizesse. De certa forma, os viajantes, que para cá vieram ao longo do século XVI, tinham como missão não apenas descrever e catalogar a terra e o povo que nela habitava, mas principalmente divulgar, para os portugueses, as benesses que aqui poderiam encontrar, caso decidissem transferir-se para a nova colônia. Esses textos funcionavam, em parte, como propaganda.
Os textos dos viajantes constituem o que se costuma denominar literatura de viagens ou de informação. São textos de viagens feitas por europeus às terras brasileiras em que a objetivo principal é informar sobre as características físicas, geográficas e humanas à Metrópole da terra recém-descoberta.
Dentre os vários textos escritos por portugueses sobre o Brasil, merecem destaque os de:

PERO DE MAGALHÃES GÂNDAVO:


É autor do “Tratado da Terra do Brasil” e da “História da Província de Santa Cruz”, a que vulgarmente chamamos Brasil. A motivação básica dos dois livros é atrair os portugueses para a obra colonizadora, estimulando a imigração, “especialmente daqueles que vivem na pobreza”, por meio da exaltação da riqueza e do clima da colônia.

É o primeiro cronista a aludir à importância do escravo na economia colonial:

“E a primeira coisa que (os moradores) pretendem adquirir são escravos para lhes fazerem suas fazendas, e se uma pessoa chega na terra a alcançar dous pares, ou meia dúzia deles (ainda que outra coisa não tenha de seu), logo tem remédio para poder honradamente sustentar sua família; [...]”

A visão paradisíaca ou edênica da nossa natureza, de que Gândavo estava imbuído, leva-o a comparações inauditas ou cômicas, como nesta descrição da banana:

“Esta planta é mui tenra e não mui alta, não tem ramos senão umas folhas que serão seis ou sete palmos de comprido. A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepinos e criam-se em cachos. [...] Esta fruta é mui saborosa, e das boas, que há na terra: têm uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora quando a querem comer; mas faz dano à saúde e causa fevre a quem se desmanda nela.”

GABRIEL SOARES DE SOUSA:


É autor do “Tratado Descritivo do Brasil”, obra escrita já no período de dominação espanhola; procura, no mesmo sentido nativista de Caminha e Gândavo, motivar a corte filipina a investir na Colônia:


“Em reparo e acrescentamento estará bem empregado todo o cuidado que sua Majestade mandar deste novo reino; pois está capaz para se edificar nele um grande império, o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão soberano, que seja um dos estados do mundo, porque terá de costa mais de mil léguas (...), cuja terra é quase toda muito fértil, mui sadia, fresca e lavada de bons ares e regada de frescas e frias águas.” [...]


AMBRÓSIO FERNANDES BRANDÃO:

 
“Diálogos das Grandezas do Brasil”, obra composta em 1618, ainda é expressão da literatura informativa, mas agora partindo do colonizador plenamente integrado á terra, revestindo-se de apreciável espírito crítico, revelando particular interesse pelas nossas coisas, pela nossa situação e pelo nosso destino. A forma de composição escolhida é o diálogo entre dois personagens, Brandônio (colono experiente) e Alviano (reinol recém-chegado ao Brasil). Por meio do diálogo, são veiculadas por Brandônio as informações essenciais sobre a colônia, em estilo vivo e colorido, como se observa no fragmento transcrito do Diálogo Quinto:


“BRANDÔNIO: (...) piranha é pescado pouco maior de palmo, mas de tão grande ânimo que excedem em ser carniceiros aos tubarões, dos quais, com haver muitas desta parte, não são arriscados como estas piranhas, que devem de ter uma inclinação leonina, e não se acham senão em rios d’água doce: têm sete ordens de dentes, tão agudos e cortadores, que pode mui bem cada um deles fazer ofício de navalha e lanceta, e tanto que estes peixes sentem qualquer pessoa dentro n’água: se enviam a ela, como fera brava, e a parte aonde a ferram levam na boca sem resistência, com deixarem o osso descoberto de carne, e por onde mais frequentam de aferrar é pelos testículos, que logo os cortam, e levam juntamente com a natura, e muitos índios se acham por este respeito faltos de semelhantes membros.


ALVIANO: Dou-vos minha palavra que não haverá já coisa na vida que me faça meter nos rios desta terra; porque ainda que não tenham mais de um palmo d’água, imaginarei que já são essas piranhas comigo, e que me desarmam da coisa que mais estimo.”


Citam-se, ainda, entre os cronistas portugueses: Pero Lopes de Sousa (“O Diário de Navegação”), Pe. Fernão Cardim (“Narrativa Epistolar” e “Tratados da Terra e da Gente do Brasil”), além de missionários jesuítas que produziram inúmeras Cartas informativas, dirigidas aos superiores da ordem religiosa no Brasil e na Espanha, sobre assuntos pertinentes à catequese.
Há, também, viajantes “estrangeiros” (não portugueses) que aportaram no Brasil quinhentista, à caça de informações sobre o “eldorado”, o “éden”, formas com que a imaginação européia pintava a terra recém-descoberta: Hans Staden; Jean de Léry; Andrè de Thevet, Antonil e Américo Vespucci incluem-se nessa categoria.