terça-feira, 19 de abril de 2011

GUSTAVE COURBET (1819-1877) E O REALISMO FRANCÊS

"O Desespero" (1845), autoretrato de Courbet

Quando lhe pediram que pintasse anjos, respondeu: “Nunca vi anjos. Se me mostrarem um, eu pinto.”


COURBET é considerado o criador do realismo social na pintura e o autor do seu termo.
Homem de grande pragmatismo veio de uma família aristocrática, o pai proletarizou os servos e doou terras ao Estado, enquanto que Courbet era socialista.
Revolucionário por natureza, ardente defensor dos pobres, participou da guerra franco-prussiana e, por causa de suas ideias liberais, chegou a ser exilado na Suíça.
Sua pintura é dotada de um sentimento de vitalidade natural ao abordar cenas do cotidiano, principalmente das classes populares. Sua obra manifesta especial simpatia pelos trabalhadores e membros mais pobres da sociedade.
Foi preso por seis meses por danificar um monumento napoleônico.
Detestava a teatralidade da arte acadêmica, bem como suas figuras monótonas ocupadas em tarefas cotidianas.

A pintura é essencialmente uma arte concreta e tem de ser aplicada às coisas reais e existentes”, disse ele e acrescentava que “tudo o que não aparece na retina está fora do domínio da pintura.”

Estudante extremamente dedicado, em 1944 Courbet já tinha elaborado um estilo próprio caracterizado pela grande vitalidade ao retratar cenas da natureza, e já isento do intelectualismo neoclássico e do sentimentalismo romântico. A seguir, ele abandona o pincel, inaugura uma nova técnica de pintura utilizando uma espátula de aço, com a qual generosamente empasta a tinta sobre a tela. Esta é mais uma das características que fazem de Courbet, um dos heróicos precursores da pintura moderna, qualidade que despertará intensa admiração de Cézanne.
Por essa época, Courbet já havia definido um método de criação próprio, instintivo e aberto a todo tipo de modificações. Quando começava um trabalho, não sabia ao certo como iria terminar.

O quadro se portará por si próprio”, dizia ele.

O artista considerava que tema, cor e composição nasciam espontaneamente durante o processo criativo. Courbet afirmava que “um pintor deve estar sempre preparado para reproduzir sua melhor tela a qualquer momento”.
Esse seu estilo, uma espécie de realismo primitivo, causava grande indignação entre os românticos, pois estes alegavam que seus quadros, com mulheres solidamente construídas e repletas de densidade, não eram passíveis de inspirar um poeta nem transformá-las em poema.
Suas telas não contavam uma história. Ao contrário, elas preocupavam-se somente em revelar um momento único, transitório, completo em si mesmo e auto-explicativo.
O ano de 1847 é essencial para sua formação como artista. Um momento decisivo não só pra ele, mas também para toda sua geração: é o ano da instauração da República, e Courbet participa ativamente das lutas nas barricadas. Sua melhor pintura nunca teria existido sem esse acontecimento político.
A Revolução de 1848 fez com que Courbet tomasse a decisão definitiva de sua arte em termos de participação ativa na realidade. Nessa época, o romantismo já não conseguia esconder seu aspecto conformista. Devido às suas contraditórias concepções políticas, e uma origem tipicamente pequeno-burguesa, desvinculada da realidade social do país, acabaram por não entender o que havia ocorrido em 1848, e ao testemunharem o despertar daquelas gigantescas massas operárias, e sua poderosa força social, os românticos sentiram-se acuados e tornaram-se abertamente conservadores.
Courbet ganhou a antipatia do público artístico do seu tempo com um realismo que ultrapassou de longe os limites das boas maneiras.
Seu antiintelectualismo; anticlericalismo; seu enfoque antisentimental; o não privilégio da figura feminina; sua paixão pela presença física, principalmente pelas classes trabalhadoras e sua convicção de que tudo o mais era uma evasão, uma fuga à verdade, converteram o pintor no mais atacado artista de seu tempo. Enquanto isso se reunia para compartilhar opiniões com seus amigos, entre eles o pintor e notável teórico anarquista Proudhon, o escritor Baudelaire e o irônico caricaturista Daumier.
De fato, os homens de seus quadros não expressam nenhuma emoção e mais parecem parte de uma paisagem do que seus personagens, retratados com uma profusão de pretos, ocres e marrons, banhados por uma pátina cinza.

"O Retorno da Feira de Flagey”, 1848, quadro que inaugura o realismo francês.


Suas mais belas obras são as paisagens, mas seu âmbito era vasto e incluiu natureza morta; nus; representação retratista monumental como em “Enterro em Ornans” (1850); cenas da vida rural apresentada com a grandiloquência e uma quantidade de grandes quadros celebrando a grandeza e a humanidade.

O “O Atelier do Artista” (1855) sintetiza seus interesses.

“Interior do meu ateliê – Uma Alegoria real resumindo sete anos de minha vida de artista” (1854-55).


Courbet, nessa tela, retrata as duas esferas de influência que afetaram sua arte: à esquerda estão às pessoas comuns, camponeses, caçadores furtivos e mendigos que são seus temas, a sua própria realidade e, à direita, representantes do mundo artístico - Zolà de barba e Baudelaire lendo.
No centro, encontra-se uma criança admirada e uma modelo nua.
É importante notar que a modelo nua não está sendo retratada no quadro que o artista está trabalhando e cuja presença no estúdio repleto de gente, era uma afronta à decência. O próprio pintor está sentado concluindo uma paisagem com belos gestos líricos.
O ponto local é um autorretrato do artista produzindo outro quadro. Sua posição pivô em meio aos dois mundos implica que o artista é algo como que um intermediário, ligando o mundo real ao mundo da arte.

 
Courbet concluiu que a pintura tinha exigências próprias. O pintor nunca gostou dos arranjos convencionais com figuras cuidadosamente inseridas numa disposição ilusória. Unindo seus conhecimentos de equilíbrio e unidade total da tela, o artista conseguiu criar uma composição inovadora utilizando-se de sua habilidade no tratamento da luz e da sombra, além de um apurado estudo estrutural para unificar um aparentemente acidental e irrefletido agrupamento de pessoas.

Este sem dúvida foi o quadro mais ambicioso de Courbet e sua declaração de independência e seu maior testamento.
Trata-se de uma pintura processual (quando mostra o seu ateliê, ele não deveria se mostrar, mas, está trabalhando lá, com outra pintura e não olha para o espectador).
Há também a presença de um gato e o ambiente é opressivo remetendo a uma crítica ao Salão.
Quando um júri de arte recusou-se a exibir essa obra do pintor, Courbet construiu um barracão (dessa forma, indiretamente, inaugurou o mercado de arte, as galerias) particular, chamado “Pavilhão do Realismo de Courbet”, cobrou ingresso e foi o primeiro espetáculo solo que já houve.

“Enterro em Ornans”, 1849.


Trata-se de uma tela de 6,6 m de comprimento por 2,00 m de altura. O artista retrata um funeral de uma pessoa comum, na província de Ornans, cidade natal do artista, em tons terrosos frios. Nunca uma pintura realista realizada em escala histórica pelo tamanho, representou a realidade proletária, reservada somente para obras históricas grandiosas. Os críticos criticaram afirmando que era tristemente vulgar.
A pintura não apresenta perspectiva, técnica para representar o espaço e objetos tridimensionais numa superfície plana; a profundidade é gerada pelas montanhas e ao mesmo tempo, quebrada pela cruz e não se encontra num plano espacional.
As pessoas retratadas perdem a sua individualidade, são massificadas, uniformizadas, iguais, como representantes de um coletivo: a camada social a que pertencem.
O cachorro é a primeira imagem que chama a atenção. Ele não tem raça, é um viralata, um cachorro “qualquer” como as pessoas retratadas, remetendo a um mundo de pobreza e banalidade.
O tamanho da cova é diminuto como se o defunto fosse insignificante e só é notado, com o auxílio do título da tela, caso contrário passaria despercebida.
Com a paleta suja, sem plano e pouca cor (o que não é preto é castanho, exceto a cor das batinas dos religiosos), Courbet provou que para mostrar a realidade não podia utilizar-se de técnicas conservadoras-tradicionais, tinha que ser inovador e revolucionário; pois, a forma é compatível com o conteúdo.
Na época, Courbet foi perseguido por uma série de calúnias ao seu respeito e a reputação de “pintor de vulgaridades” o acompanhou por toda a vida.
Contam-se histórias de que em alguns cafés parisienses frequentados por artistas, eram exibidos cartazes que proibiam que discutissem as pinturas de Courbet, ou que em uma exposição num Salão de Outono, Luis Napoleão, em fúria, chicoteou um de seus quadros taxando-o de imoral.

"Os Britadores de Pedra”, 1850.


A primeira tela que exprime plenamente o seu realismo pragmático, "Os Britadores de Pedra", foi ironicamente destruída em 1945, quando dos bombardeamentos aliados à cidade de Dresden.
Sobre a obra diz-se que Courbet encontrou dois trabalhadores numa estrada e pediu-lhes que posassem no seu atelier. Pintou-os de tamanho natural, de forma objetiva e desafetada.
O rosto do rapaz está voltado, não permitindo ver suas feições, enquanto a do velho permanece meio oculta pelo chapéu. Ambos agem no movimento resultante da sua atividade, dando assim, uma sensação de movimento suave e cansado. Todavia a escolha das personagens não pode ter sido feita de um modo aleatório: o contraste de idades é significativo - um demasiado velho para a tarefa e, o outro, demasiado jovem. Pode-se até induzir certo determinismo dramático - o futuro reservado ao jovem é retratado em seu velho companheiro.
No entanto, estas interpretações são exteriores à obra, isto é, subjetivas, pois que não partem do artista, mas sim do observador. O que esta obra retrata são duas figuras desempenhando a sua atividade, isentas de uma especial dignidade ou susceptíveis de compaixão. É este o Realismo puro e cru, que encerra a proposta de Courbet e, ainda hoje tão mal entendido, fortemente criticado pela trivialidade e falta de conteúdo espiritual.

“Moças peneirando trigo” (1853-1854).


As personagens desse quadro são representadas de maneira quase fotográfica, como se o pintor flagrasse um instantâneo. Elas estão absortas em suas tarefas; não olham para frente; demonstram cansaço e rotina e, misturam-se com a matéria prima.
A cena retratada é prosaica, reflete sobre a exploração da mão de obra e como o trabalho desgasta as pessoas.
Por volta de 1860-1870, o realismo de Courbet foi se distanciando e deu lugar a uma pintura de formas voluptuosas e conteúdo erótico, de figuras femininas no estilo de Ingres, mas mais descarnadas.

"Indolência e Sensualidade", ou "Mulheres Dormindo" (1866).
 
"Mulher Entre as Ondas", 1867.


Na obra “Mulher entre as ondas” via-se uma camponesa robusta que emergia nua de um lago. A polêmica estaria no fato da jovem ser uma figura popular, suada, retirada da realidade e sem o menor vestígio de embelezamento idealizante. Uma visão diferenciada dos padrões de pintura erótica da época, onde se retratava musas encobertas por um véu de exotismo. A mulher entre as ondas não era uma escrava romana, nem uma dançarina árabe e muito menos uma ninfa grega. Este é justamente o ponto central da polêmica em torno da obra de Courbet. Sua adesão a um realismo brutal, disposto a não fazer concessões ao retrato fiel da realidade escandalizou a burguesia de sua época e causou horror entre o público acostumado aos padrões estéticos românticos.
É nesta mesma época que realiza a polêmica obra “A Origem do Mundo”, pintura executada a pedido de um diplomata turco que colecionava imagens eróticas. O quadro ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher abalou profundamente o meio artístico da época.
O quadro foi pendurado no apartamento dele em Paris, escondido atrás de uma cortina para não constranger seus convidados. A pintura, apesar de ter sido vista por poucas pessoas, se tornou um dos quadros mais célebres do século XIX devido ao seu escandaloso tema central, sem precedentes na história da arte, tendo uma vulva no centro da composição, e desprezando-se completamente qualquer outro elemento no quadro.
“A Origem do Mundo” foi então comprada por um antiquário, passando de mão em mão até ao seu último dono, o célebre psicanalista francês Jacques Lacan. Após a sua morte, a família doou-o ao Museu d'Orsay, onde se encontra presentemente.
O quadro causa constrangimento ao observador, pois à época do academicismo, o nu era retratado de forma indireta, idealizada ou mistificada.
Courbet, dessa forma, desafia o conservadorismo artístico e liberta a arte à modernidade.
Courbet durante muito tempo acreditou que o realismo fosse o ponto final do desenvolvimento das artes. Acreditava não haver mais terreno para os pintores alegóricos de passagens bíblicas, mitológicas, ou históricas, pois para ele, o único tema possível na arte era o retrato fiel das pessoas anônimas, objetos vulgares, e cenas cotidianas da vida. Assim como seus colegas, negou o lugar da imaginação na arte, afirmando que “um artista só é capaz de reproduzir o que puder ver e apalpar, e deve tentar fazê-lo tão simples e objetivamente quanto possível”. Apesar de suas convicções no realismo, na fase final de sua carreira, ele irá perceber, assim como seus sucessores, sobretudo Monet e Cezanne, que a realidade não se encerrava simplesmente em seus preceitos realistas, e irá começar a explorar a natureza da percepção, o efêmero, a passagem de tempo, e a maneira como representar essa impressão visual pictoricamente. Esses experimentos da trajetória final de sua carreira garantiram seu lugar como um dos principais precursores do impressionismo.

"Penhascos em Etretat", 1870.


Courbet morre no exílio, vítima de cirrose hepática, em dezembro de 1877. Pouco antes de sua morte, o pintor havia escrito em carta para um amigo:

“Só espero realizar um milagre: viver toda minha vida para minha arte, sem me afastar de meus princípios, sem ter por um só instante mentido à minha consciência, e sem ter nunca executado um palmo de pintura para agradar a alguém ou para vender”.









segunda-feira, 18 de abril de 2011

NOITE NA TAVERNA E O ULTRARROMANTISMO DE ÁLVARES DE AZEVEDO


“Narrativa frenética é de fato esta que Satã desvenda a Macário como uma espécie de experiência-limite, marcada pelo incesto, a necrofilia, o fraticídio, o canibalismo, a traição, o assassínio – cuja função para os românticos era mostrar os abismos virtuais e as desarmonias da nossa natureza, assim como a fragilidade das convenções.”


Antônio Cândido, “A educação pela noite e outros ensaios”

I - INTRODUÇÃO:


“Noite na taverna”, de publicação postumamente em 1855, é uma coletânea de contos que apresenta características bastante particulares, uma vez que as personagens se reúnem para relatar acontecimentos macabros e satânicos vividos ou imaginários.

A obra traduz com exatidão o entusiasmo dos românticos pelo mal-do-século que dominou a segunda fase do Romantismo.
Segundo Antônio Cândido, Álvares de Azevedo, dilacerado pelas contradições da adolescência, “sofre (...) o fascínio do conhecimento e se atira aos livros com ardor; mas, ao mesmo tempo, é suspenso a cada passo pela obsessão de algo maior, a que não ousa entregar-se: a própria existência, que lhe escorrega entre os dedos inexpertos”.
Nele “o cansaço precoce de viver, o desejo anormal do fim, assaltam com frequência a imaginação, atraída pela sensualidade e ao mesmo tempo dela afastada pelo escrúpulo moral e pela imagem punitiva da mãe, conduzindo a uma idealização que acarreta como contrapeso, em muitas imaginações vivazes, a nostalgia do vício e da revolta”.
A influência dessa corrente transparece em cada momento nos contos dessa obra, traduzindo magnificamente a inquietação de Shelley, o pessimismo de Leopardi, o amargor irônico e o satanismo Byron, grande mestre do autor, e a melancolia de Musset.
Essas influências geram uma prosa marcada pelo devaneio e pela fantasia, tomadas aqui como fuga do real, deformação da realidade, dos valores da sociedade, pela embriaguez e pelo tabagismo, estado de torpor que aproxima as personagens e mecanismo de consubstanciação de seus desejos e anseios, bem como de alívio das dores trazidas pela memória.
Álvares de Azevedo em “Noite na taverna”, constrói um mosaico narrativo, fazendo com que as personagens circulem entre os vários contos, criando para alguns leitores e críticos a possibilidade de classificar o texto como novela, se tomado por um todo.
Rodeados de prostitutas, bebidas e fumos, cada um configura um conto, sendo que o primeiro conto “Uma noite do século”, além de expor o ambiente, também apresenta o perfil das personagens e o último conto, “Último beijo de amor”, reuni as personagens dos outros contos, dando unidade à obra.
Dessa forma a independência de cada texto, se tomados os narradores e os elementos narrativos separadamente, anula-se em função da unidade, quando surge um narrador em terceira pessoa que reúne as personagens na taverna.
O enredo do conto, assim, acaba por tornar-se fragmentado, pois decorrem de suas memórias, que, aliás, estão adormecidas em virtude do sonho e da embriaguez.

II - FOCO NARRATIVO:

A obra “Noite na Taverna” gera certo estranhamento pela multiplicidade narrativa, pela configuração complexa dos focos narrativos, pela ideologia romântica contida em cada conto, ou ainda pela aproximação entre o material narrativo e o poético.
O primeiro e o último conto estão em terceira pessoa do singular, um narrador exterior ao texto, enquanto que, nos outros contos, o protagonista acaba por se confundir e muda às vezes de foco narrativo.

III – TEMPO E ESPAÇO:

O tempo é psicológico e indeterminado, embora fique claro o comportamento dos jovens no século XIX. Existe um tempo da narrativa, momento em que os protagonistas “viveram” a ação no passado; e um tempo da narração, momento em que os protagonistas contam a ação vivida, o presente, quando todos estão reunidos na taverna.
O espaço principal da ação é na taverna, lugar marcado por um clima de embriaguez e penumbras. Toda essa atmosfera é criada a partir do noturno, trazendo de volta o culto da noite que predomina na literatura do Romantismo.
Em “Noite na taverna” ocorre, ainda, uma espécie de “educação pela noite” pelas conotações de mistério e de treva, para chegar a um discurso aproximativo ou mesmo dilacerado, como convém ao derrame sentimental unido à libertação das potências recalcadas do inconsciente. (Antônio Cândido)

IV – CARACTERÍSTICAS:

"É preferivel morrer por amor que viver sem ele".

“Noite na taverna” não se prende apenas a um gênero ou espécie literária, aproximando-se, simultaneamente, dos gêneros épico, lírico e dramático. O épico por relatar façanhas narrativas; o lírico pela carga emocional das falas dos protagonistas, do emprego de um poema num dos contos e da prosa poética que aparece dominar boa parte dos textos e, o dramático, na ação das personagens e em seus diálogos carregados de significação, o que pode ser confirmado, no início da obra onde Macário e Satã dialogam na primeira cena.
Satã conduz Macário a uma orgia, a fim de que “leia uma página da vida, cheia de sangue e de vinho.”
Macário, então, vê da janela de uma taverna “uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, uma lívidas, outras vermelhas...”
A obra reveste-se de um caráter perverso, noturno, satânico ou demoníaco da mentalidade byroniana, expressa através de crimes e de orgias imaginários, vividos como compensação da incompatibilidade entre o sonho e a realidade e, relatada por cinco personagens-narradores: Solfieri, Bertram, Johann, Gennaro e Claudius Hermann, os quais se caracterizam como homens ébrios e devassos, cultivadores dos vícios e das perdições humanas.
“Noite na taverna” apresenta sete partes, cada uma com uma epígrafe, e ainda uma epígrafe geral. A epígrafe geral refere-se à aparição do pai de Hamlet, da obra homônima de Shakespeare. As demais serão comentadas no final de cada conto.
A ação é lenta, entrecortada por digressões dos narradores, que preferem ressaltar a beleza de suas amadas, geralmente mulheres pálidas, a filosofar a prosseguirem suas histórias.
O amor visto como platônico, inatingível, parece restar somente o aspecto sexual. Justificam o mito de que Eros (amor) e Thanatos (morte) andam sempre juntos, como sombra invisível do outro, o que parece ocorrer em todos os contos.
Ao lado do pólo do mal que predomina em “Noite na taverna”, personificado em especial pelas imagens do libertino e da mulher perdida, a prostituta, aquele que é o seu oposto complementar: o pólo do bem, manifestado através da presença da figura da mulher-anjo, e da ideia do amor como regenerador de todos os vícios, enfim, dos mais preciosos sonhos amorosos e libertários dos nossos byronianos.
O erotismo é algo latente em tais protagonistas. Mal resolvidos em suas aventuras amorosas, encontram na sedução, ao estilo da personagem byroniana Don Juan, o conquistador sem escrúpulos, a materialização de seu herói sem caráter.
A fragilidade das convenções sociais e a natureza fatalmente má da pessoa humana constituem os elementos justificadores da postura sexualmente doentia e perversa dos ultrarromânticos, sugerida pela obra.
A polarização entre idealismo e niilismo que se encontra desde o prólogo da obra, em que as personagens discutem o vício e a pureza, o materialismo e o espiritualismo, a fé e o ateísmo, e, significativamente, o epicurismo: a defesa do prazer com valor supremo da existência.

V – RESUMO DO ENREDO:

CONTO I

“Uma noite do século”

Conto introdutório do livro. O autor localiza o leitor do ambiente que se encontra e apresenta as personagens que constituíram as narrativas dos próximos contos.
Johann pede silêncio, disserta sobre as mulheres que dormem ébrias e pálidas como defuntos. Bertram manda-o calar e fala sobre a beleza das canções de orgia e das noites passadas ao reflexo das taças. Johann acusa-o de louco e acrescenta que não é a lua que vai macilenta, mas sim, o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre.
Exaltam o álcool; reclamam á taverneira que as garrafas estão vazias e comparam os lábios da garrafa com as das mulheres:


Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?”

Depois passam a brindar o fumo, concluindo que o fumo é a imagem do idealismo e, em seguida, brindam o fumo.
Solfieri passa a falar sobre a transmigração das almas (metempsicose), afirma que a alma era bela, mas podia se tornar lodo e podridão. Acrescenta que a alma não é como a lua, sempre moça, bela e nua. A vida é a reunião ao acaso das moléculas atraídas, o que era corpo de mulher podia se transformar em cipreste, ou em um verme em uma flor.
Archibald critica o materialismo de Solfieri e defende o espiritualismo. Para Solfieri o sonho mais lindo é a febre do libertino, a bebida, a sexualidade e a mulher seminua.
Archibald diz que Solfieri estava blasfemando e pergunta se sua descrença derrubou “todas as estátuas do seu templo, mesmo a de Deus?”
Ele responde que Deus só aparece na hora do medo, do desespero e não acredita nele não. Archibald pergunta-lhe se não acredita nem na Bíblia. Então, Johann responde que acredita somente em poesia, não em verdades religiosas e que o resto era tudo falso “mentiram como as miragens do deserto”.
Archibald diz que Johann está bêbado e desdenha do ateísmo e da ciência:
“(...) ela mente e embriaga como um beijo de mulher.”
Por fim concluem que a verdadeira filosofia de vida é o epicurismo (prazer).
Em seguida, brindam em homenagem a Pã, deus da natureza, correspondente a deus Baco, deus do vinho.
Archibald convida todos a contarem uma história medonha, macabra, iguais aos contos fantásticos como Hoffmann delirava ao clarão dourado do Johannisberg (vinho alemão).
Solfieri diz que começará. Mas que contará uma história de seu passado e não um conto.
Todos fazem silêncio.
A epígrafe do conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

OBSERVAÇÕES:

No primeiro conto “Uma noite do século”, as personagens são reunidas numa taverna entre copos de vinho e baforadas de cachimbo para contarem suas histórias. Os princípios de cada integrante do grupo são apresentados, bem como suas opiniões. É importante chamar a atenção para o posicionamento contrário entre as personagens no que se refere às ideias sobre o espiritualismo e ciência, mantendo, entretanto a mesma posição com relação ao vinho e ao tabagismo. Percebe-se que essa visão romântica do mal-do-século domina os presentes, preocupados constantemente com as garrafas vazias, pois só no álcool encontram a fuga ideal para seus temores e fantasmas, bem como a coragem para prosseguirem suas narrativas.
A grande preocupação dos presentes com a literatura e a filosofia pode ser tomada como intertextualidade, mantendo íntima ligação da presente obra com textos de autores famosos.
A epígrafe desse conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

CONTO II

“Solfieri”

Solfieri conta-nos uma aventura que teria “vivido” em Roma, cidade do fanatismo e da perdição (bem X mal).
Uma noite, ele passeava a sós por uma ponte, as luzes se apagaram e ele vê numa janela solitária e escura, uma sombra de mulher:
Era uma forma branca. A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas”.
A visão desaparece e ele ouve um canto triste, como o som dos ventos chorando à noite nos cemitérios, cantando o canto fúnebre das flores murchas da noite.
Não era uma voz melodiosa: havia naquele cantar como choro de frenesi, um como gemer de insânia – aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores murchas da morte”.
Depois que o canto cessou, a moça surgiu à porta, certificou-se que não tem ninguém e saiu.
Solfieri a seguiu. Andaram muito, até que a moça parou num campo com muitas cruzes, ajoelhou-se e parecia chorar.
Solfieri não se lembra da sequência dos acontecimentos, só que quando acordou, já tinha amanhecido e estava a sós no cemitério; mas, tem certeza que não foi sonho, tendo em vista que as plantas perto da cruz estar quebradas.
O protagonista teve febre em consequência daquela noite. Em seu delírio via a mulher pálida, ouvia seus soluços e um canto melancólico.
Nunca se esqueceu daquela mulher e daquele canto...
Depois de um ano regressou a Roma. Solfieri vivia incompleto, os beijos das mulheres não o saciavam e só pensava na visão de um ano atrás.
Uma noite, depois de uma orgia com a condessa Barbora, abandona-a em seu leito, e quando se deu por si, estava num lugar escuro, uma igreja. Dentro do templo observou as luzes de quatro velas que batiam num caixão entreaberto.


Abri-o e descobriu na morta a moça que vira à janela um ano atrás, o “Anjo do cemitério”.

Fechou as portas da igreja, despiu a moça, beijou-a e a possuiu (lembrou-se do caso de Maria Stuart, degolada e possuída, conforme conta Brantome).
Tal erotismo necrófilo, nos faz lembrar a posse da Bela Adormecida.
Depois de fazer amor com a moça morta, ela o abraça fortemente, abrindo os olhos.
Não era já a morte: era um desmaio. A moça sofria de catalepsia (estado mórbido caracterizado pelo enrijecimento dos membros, insensibilidade, palidez, diminuição de respiração e pulso).
A moça revivia aos poucos e ao acordar, torna-se a desmaiar.
Solfieri a enrolou numa capa tomou-a em seus braços e a raptou.
Na porta encontrou-se com um coveiro da igreja que ali dormira de bêbado.
Ao passar pela praça, deparou-se com a polícia que o questiona ser ladrão de cadáveres.
Ele prova que a moça estava somente desmaiada, beijando-a.
Ele corria temendo que a moça acordasse e assustada, gritasse, o que irá acontecer somente quando ele chega com ela em sua casa. Trancou-a em seu quarto. Os amigos libertinos chegando começaram a importuná-lo. Depois de meia hora, quando os amigos já bêbados não percebiam a sua ausência, volta ao quarto e encontra a moça em pé, rindo como se estivesse louca.
Dois dias e duas noites durou o seu delírio, morrendo após.
À noite, Solfieri procura um estatuário e pagou-lhe para fazer uma estátua da moça. Depois, ele mesmo cavou um túmulo debaixo de sua cama, enterrando-a. Antes se despediu, tomando-a nos braços, beijando-a e cobrindo-a com seu lençol.
Durante um ano dormiu sobre as lajes que a cobriam. Finalmente, recebeu sua encomenda (a estátua). Nisso Solfieri interrompe a sua narrativa para perguntar a Bertram se ele não se lembrava daquela forma de mulher branca que um dia ele vira pela cortina de seu quarto e que ele, Solfieri tinha na época respondido que era uma virgem que dormia. Bertram então quer saber o nome da moça.
Solfieri nega-se a contar, alegando que um nome não era tão importante perante a importância de tais acontecimentos. Quando Solfieri encheu novamente a taça e levantou-se, é detido por um companheiro que queria saber a veracidade da história. Solfieri afirma que é tão verdadeiro como o seu pai era um conde e bandido e a mãe, uma messalina (prostituta) das ruas. Abriu a camisa e viram-lhe no pescoço uma grinalda de flores murchas.
“- Vede-la? Murcha e seca como o crânio dela!”

OBSERVAÇÕES:

O conto revela uma relação macabra entre o protagonista e uma jovem supostamente morta, mas que estava apenas tomada de um sono cataléptico. Esse comportamento macabro, que poderia ser tomado como necrofilia, pois para o protagonista a moça estava morta, é continuado após a morte real da moça, enterrada sob as lajes debaixo da cama do protagonista, e pelo fato dele trazer ao pescoço as flores murchas da grinalda que a moça levava no caixão.
É importante ressaltar que nesse conto a figura da mulher dormindo revela um comportamento típico na obra de Álvares de Azevedo. Aqui se aliam o amor e o medo de amar. Diante desse temor, resultado típico da inexperiência amorosa, como observa Mário de Andrade sobre o autor, fica mais fácil possuir a mulher dormindo: “o medo de amor inventa a ideia de possuir a bela adormecida”. Cabe destacar que, enquanto, a mulher dorme, existe espaço para a fantasia, o sonho e a imaginação.
A epígrafe do conto, de autoria de Lord Byron, alude a um beijo apaixonado nos lábios de um corpo pálido e frio, o que ocorre no presente texto.

CONTO III

“Bertram”


A história de Bertram passa-se na Espanha.
Bertram cabelos ruivos, tez branca, conta o seu amor por uma espanhola que o levou a perdição. Afirma que por causa dessa moça é que caiu em orgias, bebedeiras, jogos e até em duelos com os três melhores amigos, matando-os, fazendo o sentir-se abandonado no mundo.
“Foi ela quem me queimou a fronte nas orgias, e desbotou-me os lábios no ardor dos vinhos e na moleza de seus beijos, quem de fez devassar pálido as longas noites de insônia nas mesas do jogo, e na doidice dos abraços convulsos com que ela me apertava contra o seio! Foi ela, vós o sabeis, quem fez-me num dia ter três duelos com meus três melhores amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida...”
Solidão que podia ser comparada com o de uma mulher que mata o seu próprio filho ou como o do mouro, que matou Desdêmona (Otelo).
Bertram amou Ângela, uma espanhola de Cádiz. Quando estava decidido a casar-se com ela, foi chamado pelo pai para partir para a Dinamarca.
Na despedida choros e promessas para o futuro. Quando chegou á casa de seu pai, encontrou-o velho e doente. Ele agradeceu a Deus por ver o filho, chorou e morreu, dizendo Deus...
Bertram ficou fora por dois anos. Ao regressar, encontrou Ângela já casada e com um filho.
Mas o amor entre eles não tinha se acabado e tornam-se amantes.
“Muitos ardentes foram aquelas horas de amor e de lágrimas, de saudades e beijos, de sonhos e maldições, para nos esquecermos um do outro.”
Bertram e Ângela encontravam-se constantemente, até que um dia, foram descobertos.
“Mas um dia o marido soube de tudo: quis representar de Otelo com ela. Doido”.
Bertram esperou Ângela passar pelas cortinas brancas e foi chamado por ela.
Ângela estava deslaçada, o vestido solto e o cabelo desgrenhado. Quando ele pegou em suas mãos, sentiu-as úmidas.
O casal seguiu por uma escada escura, quando Bertram levou sua mão até seus lábios e sentiu um gosto de sangue. Sem nada entender perguntou a Ângela sobre aquele gosto de sangue e ela riu.
No momento em que Ângela foi buscar uma luz, Bertram encostou-se numa mesa e ao passar sua mão sobre ela, sente a mesma umidade e uma cabeça fria.
“Procurei, tateando, um lugar para assentar-me, toquei numa mesa. Mas ao passar-lhe a mão senti-a banhada de umidade: além senti uma cabeça fria como neve e molhada de um líquido espesso e meio coagulado. Era sangue...”
Ângela chegou com a luz e iluminou o marido degolado. Sobre o peito do marido, encontrava-se também o filho morto, onde os sangues se misturavam.
A amante confessou-lhe que fez isso por amor a Bertram, que agora ela só pertencia a ele e que deviam fugir para o futuro.
E assim se fez.
“Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim. Ângela vestira-se de homem: era um formoso mancebo assim. No demais ela era como todos os moços libertinos que nas mesas da orgia batiam com a taça na taça dela. Bebia já como uma inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe e atirava as armas como um espanhol”.
Um dia ela partiu, deixando em Bertram lembranças e vícios. Bertram tentou esquecê-la na bebida, nas orgias e nos jogos.
Uma noite, bêbado foi atropelado por uma carruagem e socorrido num palácio por um nobre velho viúvo que tinha uma filha donzela de dezoito anos.
A filha desse nobre se apaixonou por Bertram.
“Não era amor que sentia por ela - era uma fatalidade infernal”. “A pobre inocente amou-me”.
Bertram desonrou a moça e a raptou. Deixando o velho a sofrer sem nada poder fazer.
Depois, Bertram cansou-se da moça e jogando com um pirata chamado Siegfried, após de ter perdido a última jóia dela, vendeu-a a esse pirata.
Na primeira noite, a moça envenenou o pirata e se afogou.
Certo dia na Itália, saciado de vinho e mulheres, Bertram resolveu suicidar-se e atirou-se de um rochedo. Um marinheiro tentou salvá-lo, mas acabou morrendo, como Bertram veio saber mai tarde ao recobrar os sentidos.
“Enquanto os homens do mar choravam, Bertram ria de sua sina negra.”
Um navio que estava de partida, na época, comandado por um homem belo, convidou-o a fazer parte da tripulação de seu navio. Bertram aceitou, mas impôs que o ajudaria na hora da luta, enquanto que na hora da manobra, ele dormiria.


Bertram não quis falar de seu passado.

O comandante trazia consigo a sua mulher, uma santa:
“Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecido esquecido entre as ondas...era uma santa”.
Todos os marinheiros a respeitavam, mas Bertram apaixonou-se por ela.
Às vezes, ela sorria triste.
“Um poeta a amaria de joelhos”.
Uma noite Bertram escreveu uns versos de pureza a ela ao contrário do amor que viveu com Ângela.
“Era a última folha da minha virgindade que lançava ao esquecimento”.
Justamente agora que ele imaginava que nunca mais amaria, pois os seus sentimentos estavam mortos como crianças afogadas em sangue ao nascer...
Ela também estava apaixonada por Bertram, e enquanto o comandante dormia, ela se entregava a Bertram.
Numa madrugada foram atacados por um navio pirata.
Houve muitas mortes.
“E nesse tempo, enquanto o comandante se batia como um bravo eu o desonrava como um covarde”.
Passados alguns dias, o navio encalhou num banco de areia. Os tripulantes acabaram numa jangada no meio do mar. Uma noite veio uma tempestade e restaram somente cinco pessoas (o comandante, Bertram, a moça e dois marinheiros).
“Quando a aurora veio, restávamos cinco: eu, a mulher do comandante, ele e dois marinheiros...”
Durantes muitos dias, só se alimentavam de bolachas.
Betram pergunta a Solfieri porque ele tinha se empalidecido e nesse momento há uma reflexão sobre o que é a vida, chegando á conclusão que a mocidade é só ilusões, depois envelhecemos e é só miséria e loucura.
Bertram é interrompido com a chegada de um velho no recinto. Interrogado pelos rapazes, o velho diz que foi soldado, já bebeu com Bocage, ajoelhou-se sobre o túmulo de Dante e já esteve na Grécia. Era um andarilho, libertino e vagabundo.
“Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta anos, sou um vagabundo sem pátria e sem crença aos quarenta anos...só trouxe duas lembranças – um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre – e uma agonia de poeta...Dela tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos”.
Tirou do bolso um embrulho, era um lenço vermelho e dentro tinha uma caveira. Os presentes ficaram espantados e um deles sugeriu que pudesse ser a cabeça de um poeta ou talvez de um louco.
O velho diz que o moço só errou em não pensar tratar-se de ambas as coisas e completa dizendo que Sêneca já dizia que a poesia era insânia (loucura).
O velho brindou à lembrança do poeta-louco Werner e saiu.
Bertram continuou a sua história: estavam os cincos famintos, com sede. Bertram filosofa sobre a grandiosidade do homem e conclui que tudo se apaga diante da fome e da sede.
“Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples...um fato velho e batido, uma prática do mar, uma lei do naufrágio – a antropofagia”.
Reflete sobre a criação do mundo, onde Deus fez tudo maravilhosamente e entregou ao homem para usufruir. Fala sobre o corpo humano, sua inteligência, da natureza, da beleza da mulher...depois completa dizendo que tudo isso é belo, mas tudo se apaga diante de dois fatos: a fome e a sede e que nos leva a uma prática do mar, a lei do naufrágio - Antropofagia.
Dois dias depois do naufrágio acabaram os alimentos. Restavam somente Bertram, a moça e o comandante e, o uso do mar manda a morte de um para a vida de todos. Tiraram a sorte para ver quem morreria para a sobrevivência dos outros e o comandante perdeu, tendo que morrer.
O comandante desesperado pediu para terem compaixão e implorou que esperassem por mais um dia, que Deus os ajudaria.
Bertram riu do desespero do homem “morrer hoje, amanhã, ou depois...tudo me era indiferente, mas hoje eu tinha fome e ri-me porque tinha fome”!
O comandante o lembrou que fora generoso com ele, que o acolhera, que o amara. Mas, quando ele percebeu que não conseguiria convencê-lo, tornou-se agressivo e partiu para a luta. Bertram o derrubou, pôs-lhe o pé na garganta, sufocando-o até morrer. Aquele cadáver foi o alimento de Bertram e da moça durante dois dias.
Bertram pede-nos que não fiquemos enjoados, pois teríamos feito o mesmo.
Quando as aves do mar chegaram para compartilhar os restos do cadáver, Bertram atirou o restante ao mar.
Ele e a moça ficaram mais dois dias sem ter o que comer e sem beber. Então, ela propôs morrerem juntos e ele acaba por concordar.
Antes disso, amaram-se em um gozo febril.
A mulher enlouqueceu e passou a delirar. Bebia as águas do mar dizendo que era vinho e dava gargalhadas.
“Ela tinha febre no cérebro...e meu estomago tinha fome”!
Apertou-a fortemente, sufocando-a.
“Aperteia-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em fogo, apertei-a convulsivo, sufoquei-a. Ela era ainda tão bela!”
Sentiu uma vertigem, parecia que o mar ria dele, de repente uma onda roubou-lhe o cadáver, ele viu o defunto erguer-se na escuma das vagas, depois desaparecer.
Não sabe por quanto tempo passou inconsciente, quando acordou desse pesadelo, estava a bordo de um navio inglês Swallow, que o salvara.
Em seguida, grita á taverneira, chamando-a de bastarda de Satã, pois as garrafas estavam vazias.

OBSERVAÇÕES:

Neste conto a figura de Ângela foge do modelo romântico de mulher idealizada pelo autor em toda em toda a obra. Ela não é pálida nem frágil como as demais, pelo contrário, é morena; não se mostra passiva, mas ativa, tem poder de decisão, entrega-se a Bertram porque assim o desejo. Para ficar com ele, não hesita em assassinar o marido e cometer infanticídio. Além do mais, foge do modelo de mulher-anjo para representar um ser demoníaco e decaído, afinal bebe, fuma, veste-se e age como homem, apesar de seu nome indicar o oposto.
Esse comportamento masculino traduz certa ambigüidade à personagem, daí o amor anormal que despertaria no protagonista.
O conto apresenta provas do comportamento devasso e desabusado do protagonista que, aproveitando-se daquele que o salvou de um atropelamento, seduz-lhe a filha e foge com a moça. Tal comportamento é continuado ao vender a moça para um pirata, traduzindo a visão da mulher como objeto de posse. A atitude da moça é geradora de mais duas tragédias: assassina o comprador e suicida. Como se não bastasse, paga a acolhida do comandante em seu navio tornando-se amante de sua mulher. O final do conto não poderia ser mais macabro, aludindo à necessidade de sobrevivência, mata o comandante e pratica a antropofagia. Assim temos: adultério, homicídio, suicídio e antropofagia reunidos no mesmo conto.
Como ocorre no comportamento do protagonista, predomina na epígrafe do terceiro conto uma tendência individualista: “Mas porque eu deveria chorar pelos outros / Se ninguém suspira por mim?”

CONTO IV

GENNARO

Esta história se passa na Itália.
Gennaro diz que enquanto ouvia a história de Bertram, lembrou-se de uma de suas histórias - uma história que envolve duas mulheres e um velho.
Godofredo Walsh era um pintor, um gênio e ele, Gennaro, um aprendiz de pintura que fora morar na casa do mestre.
Nesta época, o mestre estava casado em segundas núpcias com Nauza, uma jovem bela de vinte anos, que servira de sua modelo. Godofredo tinha uma filha do primeiro casamento, Laura de quinze anos.
Gennaro era lindo, tinha dezoito anos, puro, melancólico como o Rafael se retratou no quadro da galeria Barbefini.
Gennaro apaixonou-se platonicamente por Nauza, esposa do pintor.
Laura era uma moça pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados, parecia querê-lo como a um irmão.
“(...) Seus risos, seus beijos de criança de quinze anos eram só para mim. À noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha lâmpada, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces , nas trevas”.
Todas as noites antes de deitar-se, Gennaro despedia-se de Laura com um beijo nas faces. Uma manhã, quando o mestre tinha saído e Nauza ido à igreja, Laura aproveitou-se da ocasião, foi até o quarto de Gennaro e deitou-se ao seu lado. Excitado e atraído pela beleza da moça ainda inocente, possui-a e tornaram-se amantes.
“O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu, isso tudo...ao despertar dos sonhos alvos da madrugada , me enlouqueceu...”
A partir desse dias, todas as manhãs, Laura encaminhava-se ao quarto de Gennaro e lá se amavam.
Passaram três meses, até que um dia, Laura anunciou que estava grávida e implorou que ele se casasse com ela. Gennaro calou-se. Laura chorou muito e foi levada para o seu quarto por Gennaro.
Gennaro não sabia o que fazer, tinha medo de contar ao mestre o ocorrido e ele matá-lo, ou expulsá-lo de sua casa.
“Era uma luta terrível essa que se tratava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso”.
Além disso, existia Nauza e o seu amor por ela aumentava cada vez mais.
Laura calou-se. Tinha um sorriso frio e tornava-se cada dia mais pálida. A gravidez não aparecia e Laura ia morrendo aos poucos.
Godofredo tinha insônias, não pintava mais, arrancava os cabelos brancos vendo o estado de sua filha sem ter o que fazer.
Até que em uma noite, Gennaro foi chamado às pressas, Laura morria e queria falar com ele. No delírio de sua febre, ela murmurava o seu nome. Ao entrar em seu quarto, foi reconhecido pela doente. Laura apertou sua mão e com muitas dificuldades murmurou em seus ouvidos:
“- Gennaro, eu te perdôo tudo...Eras um infame...Morrerei...Fui louca...Morrerei...por tua causa...teu filho...o meu...vou vê-lo ainda...mas no céu...meu filho que matei...antes de nascer...”
Laura deu um último suspiro e morreu.
Passou um ano, o mestre parecia louco. Todas as noites, Godofredo se trancava no quarto que fora de Laura e lá passava a noite inteira em plena solidão, afogando-se em soluços.
“Depois tudo emudecia: o silêncio durava horas; o quarto escuro; e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de bêbado que cambaleia”.
Uma noite Gennaro confessou o seu amor por Nauza. Inicialmente, Nauza o desprezou, mas quando o jovem ameaçou partir para longe, ela chorou e tornaram-se amantes.
À noite, enquanto Gennaro passava soluçando no leito da sua filha falecida, Gennaro e Nauza se amavam em seu leito conjugal.
Uma noite, o mestre veio até o leito de Nauza e levou Gennaro pelo braço, arrastando-o para o quarto que fora de Laura e atirou-o no chão.
Em seguida, ergueu um lençol que cobria um painel e mostra-lhe uma pintura: era Laura moribunda, que murmurava nos ouvidos de Gennaro toda a sua verdade.
“Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me e chorei lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentro os lençóis de seu leito e me acendia o remorso e no remorso me rasgava o peito”.
A partir dessa noite, o mestre começou a tratá-lo com indiferença e friamente.
Gennaro recorda-se que na noite em que contara a verdade ao mestre, vira através de um espelho uma roupa branca passar por perto, só devia ser Nauza que ouvira tudo.
O ritual de Godofredo se repetia diariamente. Gennaro certa noite, o seguiu e descobriu que Godofredo era sonâmbulo.
Uma noite, depois da ceia, o mestre tomou sua capa e lanterna e chamou Gennaro para acompanhá-lo. Rinha que sair da cidade e não queria ir só.
A noite estava escura e fria, mas pelo barulho das pedras soltas, percebia que estavam à beira de um despenhadeiro.
Caminharam juntos por muito tempo, até que o mestre pediu que Gennaro o esperasse ali. O velho bateu à porta de uma cabana e entrou. Quando a porta se fechou deu para ver uma mulher lívida e desgrenhada com um facho na mão.
O mestre retornou e disse a Gennaro que iria contar-lhe uma história.
Na realidade, a história que o mestre contou-lhe era a própria história de Gennaro e Laura.
Gennaro pediu-lhe perdão e o mestre perguntou se Gennaro teve piedade da virgem, desonrada e infanticida.
Godofredo diz que se existisse castigo pior que a morte, ele lhe daria, pede, então, para que Gennaro olhasse para o despenhadeiro, pois lá seria o seu túmulo seguro.
Gennaro tinha que escolher entre o suicídio ou o assassinato, não tinha outra saída, além do mestre ser mais forte que ele, também estava armado. Restava apenas ser atirado ou jogar-se no abismo.
Gennaro disse que estava pronto, depois veio uma vertigem e de repente não sentiu mais nada.


Quando acordou estava numa cabana de camponeses que o salvaram. Na queda Gennaro ficou preso nos ramos de uma azinheira enorme.

Já totalmente recuperado, resolveu procurar o mestre, quem sabe agora ele o perdoaria, pois viver com aquele remorso era impossível.
No caminho encontrou um punhal e reconheceu ser do mestre. Então, veio-lhe a ideia de vingança e não de humilhação.
Chegando à casa do mestre, encontrou-a fechada, chamou e ninguém veio atender. Então, ele arrombou uma das portas e entrou.
Ao abrir a porta do quarto de Nauza, sentiu um cheiro pestilento.
Nauza estava morta, com a face na mesa e os cabelos caídos. O mestre, também, morto numa poltrona coberto com um capote, entre eles, um copo onde se depositara um resíduo.
Com certeza, esse veneno fora vendido por aquela mulher da cabana. O mestre acreditando que Gennaro estivesse morto envenenou Nauza e a si mesmo.
“Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça...Era Nauza, mas Nauza cadáver, já desbotada pela podridão. Não era aquela estátua alvíssima de outrora, as faces macias e o colo de neve...era um corpo amarelo...Levantei uma ponta da capa do outro: o corpo caído de bruços com a cabeça para baixo; ressoou no pavimento o estalo do crânio...Era o velho! Morto também, roxo e apodrecido!...Eu o vi: da boca lhe corria uma escuma esverdeada”.


OBSERVAÇÕES:

Nesse conto, a falta de virtudes morais do protagonista leva-o a desonrar a filha de seu mestre de pintura, mesmo amando loucamente a jovem esposa de seu preceptor. Seu ato é consciente, apesar de sua pouca idade. Tinha também consciência, ao descobrir que a jovem estava grávida, de que deveria assumir a paternidade e honradamente casar-se com ela. Entretanto, sabia que, se o fizesse, perderia qualquer chance de seduzir a mulher do mestre. Assim, deixou que a jovem fosse levada ao desespero de cometer o aborto e deixar-se morrer de tristeza e dor. Acaba conseguindo realizar seu intento e seduz a mulher do mestre. Este, tomado pela loucura, acaba descobrindo tudo e tenta matá-lo. Julgando-o morto, envenena a esposa e comete suicídio.
A epígrafe trabalha com a ideia de matar ou morrer, que se configura no clímax do conto.

CONTO V



CLAUDIUS HERMANN


Hermann é chamado para contar também a sua história.
Johann ergueu sua cabeça da mesa e zombou de Hermann dizendo que ele estava a sonhar com algum soneto no estilo de Petrarca.
Claudius a delirar disse que nesta vida também desfolhou crenças e despiu suas roupas perfumadas para trajar a túnica de saturnal.
Bertram empolgou-se dizendo que Claudius está completamente bêbado e romântico.
A história de Claudius passou-se em Londres.
Ele era um jovem rico, amante de prazeres e jogatinas.
“O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...”
Durante uma corrida de cavalos, enquanto todos estavam apreensivos, passou uma mulher a cavalo e despertou a atenção de Claudius.

 
Era uma mulher de “beleza plástica e harmônica, linda nas suas cores puras e acetinadas, nos cabelos negros e a tez branca da fronte, o oval das faces coradas, o fogo de nácar”.

Os amigos riem, ironizando o romantismo de Claudius.
“Romantismo! Deves estar muito ébrio, Claudius, para que nos teus lábios secos de Lovelace e na tua insensibilidade de D. Juan venha á poesia ainda passar-te um beijo!”
Bertram gritou por poesia e Claudius definiu a poesia como sendo meio cento de palavras sonoras e homens pálidos...”O vôo das aves da manhã”.
O jovem retrucou o escárnio dos rapazes. Em seguida, o pessoal pede para ele deixar de falar coisas que ninguém entende e prosseguir em sua história.
Claudius retomou a narrativa.
Naquele dia, no turfe com uma aposta, Claudius conseguiu dobrar a sua fortuna, mas o que mais lhe marcou foi à imagem daquela bela mulher.
No dia seguinte, reencontrou-a no teatro. Ficou tão pasmado que não prestou sequer a atenção ao que representavam na época.
Essa mulher era a duquesa Eleonora. Em outro dia, reviu-a num baile e assim passaram seis meses de febre de amor.
Uma noite não bastando somente a admirá-la de longe, subornou um empregado do castelo da duquesa, tirou uma cópia de suas chaves e invadiu o castelo à noite.
A duquesa cansada do baile adormecera num divã.
“Parecia uma fada que dormia ao luar...”
Desesperado por seu amor, havia jurado a si próprio que naquela noite ele a possuiria.
“Quanto a esses prejuízos de honra e adultério, não rias dele – não que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era como a folha de um punhal – ferir ou estalar”.
Na mesa encontrava-se um copo e um frasco de vinho espanhol. Chegou perto da moça, deu-lhe um beijo e semi-adormecida, ela murmurou “amor”.
Claudius pegou de um frasco de narcótico com afrodisíaco, despejou algumas gotas em seus lábios e ela caiu em um sono profundo. Então, Claudius, aproveitou-se da fragilidade de Eleonora e amou-a.
“Depois daquela mulher nada houvera mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco das uvas purpurinas do paraíso mais nunca deve inebriar-s do néctar da terra...”
Um mês se passou e a cena repetiu-se.
Uma noite após outro baile, ele a esperou escondido em seu quarto com o narcótico preparado num copo junto à sua cabeceira. Eleonora entrou com o duque Maffio. Fizeram-se carícias e o duque tomou alguns goles do líquido. A esposa apaixonada tomou-lhe o copo das mãos e terminou de beber o restante.
Eleonora perguntou ao marido se ele voltaria naquela noite e ele, confirma que sim.
Claudius escondido a assistir a cena, riu, pois tinha certeza que o marido estaria em sono profundo.
Eleonora começou a despir-se deixando Claudius completamente enlouquecido, mas como o preparado era muito forte, ela deixou-se cair de sono.
Claudius pegou a duquesa e a raptou, levando-a para uma estalagem e velando o seu sono.
Quando a moça acordou ficou desesperada, perguntava se aquilo não era um sonho, onde estava e quem era o homem encostado em seu leito, além de estar envergonhada por estar quase nua na frente de um estranho.
Eleonora não entendia que estava acontecendo. Tinha dormido em seu palácio e acordou em um lugar estranho. Ela perguntava sobre o marido e chegou a acreditar que fosse até brincadeira dele para assustá-la.
Desesperada, ela ajoelhou-se, implorou, questionou, no entanto, Claudius só a escutou e nem sequer ouviu suas palavras, perdido como estava com sua beleza.
A duquesa cobriu os seios e correu até a janela para gritar por socorro. Claudius a impediu tapou sua boca e passou a lhe dar explicação.
Claudius confessou sobre seu amor louco por ela e de seu passado.
Eleonora respondeu:
“- Meu Deus! Meu Deus! Por que tanta infâmia, tanto lodo sobre mim? Ó minha madona! Por que maldissestes minha vida, por que deixaste cair na minha cabeça uma nódoa tão negra?
Claudius pediu-lhe perdão e jurou tornar-se seu escravo. Disse-lhe que deitará aos seus pés, protegê-la o tempo todo e se um dia ela pudesse amá-lo...
Ela perguntou se ele não tinha compaixão por ela, pediu-lhe de joelhos que a perdoasse caso ela tivesse lhe ofendido e acrescentou que ela não tinha culpa dos sonhos dele e de seus desejos por ela.
Vendo-se completamente perdida, ela, então pediu que ele a matasse. Claudius diz que ela estava sendo insensata por desejar a morte, que havia muita vida e muito amor por se amar ainda. Ela responde que é impossível amá-lo.
“Põe a mão no teu coração...bate...e bate com força como o feto nas entranhas de sua mãe. Há ali dentro muita vida ainda, muito amor por amar, muito fogo por viver! Oh! Se tu quisesses amar-me!”
Claudius tentou convencê-la que era tarde para voltar atrás. As pessoas teriam ódio dela, principalmente Maffio, pois seria considerada como uma mulher adúltera. Todos zombariam e se afastariam dela. Agora, se ela ficasse, teria um amante apaixonado.
Disse ser muito rico a ponto de adorná-la como uma rainha, viajariam e seriam felizes. Deixou-a á sós para pensar e retornou duas horas depois.
Ao voltar, encontrou Eleonora deitada com o rosto entre as mãos e ele pode ver um papel molhado por suas lágrimas. Reconheceu serem seus versos que escreveu pensando nela. Viu também sobre a mesa sua carteira revirada.
Nesse momento, Claudius tirou do bolso um papel amarrotado e atirou na mesa. Os versos foram lidos por Johann.

Não me odeies, mulher, se no passado
Nódoa sombria desbotou-me a vida,
- É que os lábios queimei no vício ardente
E de tudo descri com fronte erguida.

A máscara de Don Juan queimou-me o rosto
Na fria palidez do libertino:
Desbotou-me esse olhar...e os lábios frios
Ousam maldizer do meu destino.

Sim! Longas noites no fervor do jogo
Esperdicei febril e macilento
E votei o porvir ao Deus do acaso
E o amor profanei no esquecimento!



..................................



E então acordarei ao sol mais puro,
Cheirosa a fronte às auras da esperança!
Lavarei-me da fé nas águas d’ouro
De Madalena em lágrimas!...e ao anjo



Talvez que Deus me dê, curvado e mudo,
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele!


Claudius perguntou a decisão de Eleonora. Ela ajoelhou-se, rezou, disse que iria com ele e, em seguida, desmaiou.
Claudius abaixou a cabeça na mesa e não conseguiu prosseguir a sua história. Archbald perguntou-lhe se ele estava bêbado ou morto. Levantou a cabeça e disse que estava com sono. Solfieri insistiu na continuação da história, mas Claudius estava sem condições. Disse, inclusive, que tinha esquecido tudo.
Arnold, o louro que acabara de acordar, pediu paciência que ele terminaria a história.
Disse que um dia Claudius entrou em casa e encontrou a cama ensopada de sangue e num canto escuro um homem abraçado a um cadáver.
O cadáver era Eleonora e o doido que estava quase que irreconhecível, mas, que Claudius o reconheceu, era Maffio.
“...o doido nem o pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos pauis entre as trevas...”
Claudius soltou uma gargalhada e caiu no chão bêbado.
Arnold esticou a capa no chão e deitou-se sobre ela e roncou.

OBSERVAÇÕES:

O protagonista do conto é um jovem rico e devasso, entregou a sua juventude ao jogo e ao amor com prostitutas. De repente, é tomado de paixão por uma jovem duquesa casada e apaixonada pelo marido. Sabendo da impossibilidade de conquistá-la por meio convencionais, consegue obter de um criado ambicioso uma cópia da chave da duquesa e vai visitá-la enquanto ela dorme. Lançando mão de um sonífero, apesar da mulher estar dormindo, satisfaz seus desejos sexuais. Cabe ressaltar que o protagonista não vê qualquer mal em sua atitude, pois visa unicamente à satisfação de seus apetites sexuais. Não satisfeito, entretanto, com as incursões noturnas, termina por raptá-la e tenta aceitá-lo como amante. O final do conto é marcado pela tragédia: o marido assassina a esposa adúltera e fica abraçado ao cadáver, tomado pela loucura.
Encontram-se, nesse conto, os elementos amor e medo. Ele só atinge a realização de seus objetivos porque a mulher dorme profundamente.
O autor toma Shakespeare como referência, empregando uma epígrafe que alude à temática do êxtase.

CONTO VI



“JOHANN”


Johann reclama a sua vez de contar sua história. Foi em Paris, num bilhar, bêbado de kirsch (bebida destilada de cerveja) e curaçau (licor). Jogava contra um moço chamado Arthur.
Arthur era uma figura loira e mimosa como uma donzela.
Faltava só um ponto para Artur vencer; para Johann faltavam muitos.
Quando soltou a bola, o bilhar estremeceu, a bola desviou e ele perdeu o jogo. Não se sabe se o moço fez isso de propósito. Arthur olhou para Johann e sorriu com escárnio. Johann tomado de raiva deu uma bofetada em Arthur e, este revidou com um punhal, mas os amigos o detiveram.
Arthur jogou-lhe uma luva contra o rosto de Johann, “era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue”, então, estabeleceram um duelo.
Artur diz que escolheria as suas armas e que o lugar Johann saberia. O duelo seria realizado naquela hora e não teriam testemunhas.
Deram-lhe os braços e saíram. Os amigos pensaram que tinha havido uma reconciliação, somente um dos assistentes percebeu a gravidade do problema e tentou convencê-los a entrarem num acordo.
No entanto, eles deixaram bem claro que estavam firmes em suas decisões.
Arthur levou Johann até o seu hotel e disse que já que não teriam perdão, que seria um duelo de morte.
“- Senhor – disse ele – não há meio de paz entre nós: um bofetão e uma luva atirada às faces de um homem são como nódoas que só o sangue lava”.
Artur pediu-lhe para esperar alguns minutos, escreveu algumas linhas e entregou a Johann que se negou a ler.
“- Senhor, sois um homem de honra. Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta, entregareis tudo a...Depois dir-vos-ei a que...”
Em seguida, selou o lacre com um anel que trazia nos dedos e ao ver o anel, uma lágrima corou sua face, molhando o papel.
Pediu a Johann caso ele morresse, para ele pegar aquele anel e a carta que se encontrava em seu bolso e entregar...
Antes do duelo, decidiram tomar vinho do Reno e brindarem àquele que morreria. Arthur pede permissão para brindar alguém, mas que era segredo.
Depois, Artur apanhou duas pistolas e disse que uma delas estava carregada. Atirariam à queima-roupa.
Johann protestou dizendo que isso era assassinato, mas, depois acabou por concordar. Foram até um canto deserto da rua, Artur pede que Johann escolha a sua pistola sem tocá-la. Artur tem um pressentimento e pede para rezar por sua mãe. Vendo essa cena, Johann lembrou-se que também tinha mãe, e irmã e que, sempre as esquecia perdido como estava nesse mundo de orgias. Acrescentou que até então só havia amado mulheres perdidas.
Encostaram, finalmente, as pistolas nos peitos.
“As espoletas estalaram, um tiro só estrondou, ele caiu morto...”
Artur estava no chão.
Johann tirou-lhe o anel e encontrou em seu bolso dois bilhetes. Como estava escuro, teve de esperar chegar à cidade para lê-los. Um bilhete era para sua mãe e o outro que estava aberto, estava escrito:
“À uma hora da noite na rua de...número 60, primeiro andar; acharás a porta aberta. Tua G.”
Sem saber o que pensar e tomado de ideias imorais, dirigiu-se ao local. Estava escuro.
“Tinha no dedo o anel que trouxera do morto...Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta fechou-se”.



Naquela noite, Johann amou a amante virgem de Artur e confessou ter sido uma noite deliciosa.

Ao sair, deparou-se com um vulto. A voz parecia-lhe conhecida. Dizia esperá-lo há muito tempo. O vulto acompanhou Johann e ele pode ver uma lâmina em sua mão. Lutaram no escuro.
O adversário perdeu o punhal. Johann conseguiu sufocar com o joelho a garganta do desconhecido que, antes de morrer, mordeu com violência sua mão.
Na saída Johann, tropeçou em uma lanterna, quis ver o rosto do homem que acabara de matar. Johann não acreditou no que vira, arrastou o cadáver até a calçada para ver melhor com a luz do lampião e reconheceu que o jovem morto era seu irmão.
Uma ideia martelava em sua mente, subiu correndo as escadas e encontrou a moça desmaiada de susto por causa da luta.
Desesperado Johann interrompeu sua narrativa para pedir mais conhaque, pois estava tremendo. Perguntaram o que ele tinha e Johann respondeu que ele descobriu que tinha amado a sua própria irmã

OBSERVAÇÕES:

A narrativa é marcada pelo clima boêmio que dominou o comportamento dos jovens do século passado, frequentadores assíduos de tavernas, cafés e bilhares. Misturavam-se nessa atitude típica de rebeldia contra a sociedade burguesa os comportamentos desregrados, tais como a jogatina, a sexualidade despudorada, o alcoolismo, a violência dos duelos, enfim uma vida marcada por valores repudiados pelas pessoas de bem.
O conto tem seu espaço inicial marcado em Paris, onde ocorre um duelo, um incesto e ainda um fratricídio. O que fica bem evidente, como nos demais contos, é o comportamento amoral, degradante e desprezível do protagonista. Johann, não satisfeito de matar num duelo por causa de um jogo de bilhar, ainda se aproveita de um pedido do antagonista (Artur), que confiando em sua dignidade, desvirginou a amante do rapaz (sua própria irmã) e, ainda não saciado em seu absoluto declínio moral, mata o irmão que surge para defender a honra da moça (no caso, seu próprio irmão). Assim se sucedem degradantes situações que ora chocam, ora assustam pelo absurdo das situações e coincidências.
Mário de Andrade considera que esse caso de incesto coincide com o comportamento do próprio Álvares de Azevedo, que sentiria profunda atração pela própria irmã como, aliás, boa parte da crítica costuma considerar, “de tudo ressaltando muito bem, e com violenta sensualidade, a esplendidez do ente irmã”.
Outro elemento importante é o caráter de Artur, cuja descrição aproxima-o da ambiguidade da personagem Ângela, claro que por oposição.
A epígrafe desse conto, de autoria de Alexandre Dumas, coloca a ideia da evasão, bem como a inadequação do indivíduo ao seu tempo e à impossibilidade de uma alegria presente. Assim, o indivíduo busca a dor através da memória, do passado.

CONTO VII



“ÚLTIMO BEIJO DE AMOR”

“A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas”.
Enquanto todos dormiam, a porta da taverna abriu-se e entrou uma mulher vestida de negro. Talvez tivesse sido bonita, hoje parecia mais um anjo perdido da loucura.
A mulher carregava uma lanterna na mão à procura de um rosto conhecido.
“Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo, alongou os lábios...Mas uma ideia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços, o olhar tornou-se-lhe sombrio”.
Abaixou-se e colocou uma lâmina no chão. Em seguida, segurou-lhe na garganta.
Levantou, tremeu e, ao segurar a lanterna, ressoou na mão um ferro.
Suas mãos tremiam, atirou o punhal no chão e limpou suas mãos vermelhas de sangue nos cabelos de Johann. A mulher misteriosa encaminhou-se até Arnald, acordou-o e perguntou se ele não a reconhecia.
Arnold ficou surpreso, fazia cinco anos que não se viam.
“-Sim, já não sou bela como há cinco anos! É a verdade, meu louro amante! É que a flor da beleza é como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza, e serão belas...Revolvei-as no lodo...e, como os frutos que caem e mergulham nas águas do mar, cobrem-se de um invólucro impuro e salobre! Outrora era Giórgia – a virgem mas hoje é Giórgia – a prostituta!”
Arnold recordou-se daquela noite a cinco anos atrás; o jogo de bilhar; o duelo; o hospital onde acordou ensanguentado após o duelo com o homem do bilhar e a vida devassa que lhe restou.
Giórgia diz que veio se despedir. Queria um beijo de adeus, da separação, pois na terra o seu amor seria impuro, não via possibilidade de um amor entre uma prostituta e um libertino. Satã riria deles.
Arnold diz que teria sido melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta a ser salvo. Que teria sido melhor morrer ébrio a vê-la e perdê-la novamente.
“Não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para deixar-te?”
“- Compaixão, Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida. Vês, minha sina é negra: nas minhas lembranças há uma nódoa torpe...Hoje! É o leito venal...Amanhã! Só espero o leito do túmulo! Arnold! Arnold!”
“- Não me chames Arnold! Chama-me Artur, como dantes. Artur! Não ouves? Chama-me assim! Há tanto que não ouço me chamarem por este nome!...Eu era um louco! Quis afogar meus pensamentos e vaguei pelas cidades e pelas montanhas, deixando em toda a parte lágrimas...nas cavernas solitárias, nos campos silenciosos e nas mesas molhadas de vinho! Vem, Giórgia! Senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos, bem conchegada a meu coração...tua cabeça no meu ombro! Vem! Um beijo! Quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios. Respire-o eu e morra depois!...Cinco anos! Oh! Tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu seio!...Depois...escuta...tenho tanto a dizer-te! Tantas lágrimas a derramar no teu colo! Vem! E dir-te-ei toda a minha história! Minhas ilusões de amante e as noites malditas da crápula e o tédio que me inspiravam aqueles beiços frios das vendidas que me beijavam! Vem! Contar-te-ei tudo isto, dir-te-ei como profanei minha alma e meu passado...e choraremos juntos...e nossas lágrimas nos lavarão como a chuva lava as folhas do lodo!
- Obrigada, Artur! Obrigada!
A mulher sufocava-se nas lágrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.
- Escuta Artur, eu vinha só dizer-te adeus! Da borda do meu túmulo; e depois contente fecharia eu mesma a porta dele...Artur, eu vou morrer!
Ambos choravam.
- Agora vê – continuou ela. – Acompanha-me: vês aquele homem?
Arnold tomou a lanterna.
- Johann! Morto! Sangue de Deus! Quem o matou?
- Giórgia! Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giórgia – a prostituta! Vingou nele Giórgia – a virgem! Esse homem foi quem a desonrou! Desonrou-a...a ela que era sua irmã..."
Giórgia após revelar seu segredo disse que se continuasse viva, haveria uma lembrança em seu passado e que estava morrendo. Arnold diz não se importar com o sonho da morte. Preferia morrer juntos.


"A mulher recuava...recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela...Ela deu um grito e caiu-lhe das mãos. Era horrível de ver-se. O moço tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo.

A lâmpada apagou-se”.


OBSERVAÇÕES:

A última parte do livro revela bem seu caráter nitidamente romântico. A irmã desvirginada no ato incestuoso do irmão Johann retorna para vingar-se, depois de tornar-se prostituta. Revela-se ainda que Arnold na verdade é Artur, o jovem que supostamente fora morto no duelo com Johann. Giórgia vinga-se tirando a vida do irmão e reencontra o antigo amante, terminando por morrer em seus braços. Arnold, vendo a amada, reencontrada depois de cinco anos em seus braços, mata-se, caindo sobre o seu corpo.
O título sugere bem o clima dessa última parte, pois é a despedida final dos amantes e ainda o encerramento da obra. É um beijo mortal e último, que se encerra com a morte dos protagonistas. Esse clima de desamor ou de amor impossível predomina, traduzindo com bastante clareza a visão do amor impossível ou do amor degradado que paira sobre os jovens escritores do romantismo.
Cabe também ressaltar que essa última parte sugere em seu clímax um desfecho de tragédia, aproximando o texto, que também emprega constantemente o diálogo, das peças dramáticas.
A epígrafe desse conto retoma, ainda uma vez, Shakespeare, traduzindo a ideia de amor e morte, que se configura no clímax do texto.

sábado, 16 de abril de 2011

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, MARCELO GOMES

Direção: Marcelo Gomes.

Roteiro: Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz, inspirados em relato de viagem de Ranulpho Gomes.
Elenco: João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes, Oswaldo Mil, Irandhir, Fabiana Pirro, Verônica Cavalcanti, Daniela Câmera, Paula Francinete, Sandro Guerra, Madalena Accioly, Arílson Lopes, José Leite, Zezita Matos, Francisco Figueiredo, Mano Fialho, Lúcia do Acordeão, Jorge Clésio, Nanego Lira.
Fotografia: Mauro Pinheiro.
Montagem: Karen Harley.
Direção de Arte: Dedete Parente Costa.
Música: Tomás Alves de Souza.
Figurinos: Beto Normal.
Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr.
Duração: 90 min.

Filme baseado em relatos do tio avô do diretor Marcelo Gomes, a história contra o encontro deste paraibano que, na década de 40, resolve migrar para o sudeste para procurar uma vida melhor longe da seca nordestina, com o alemão Johann, que viaja pela região como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos os males”, a Aspirina. Para divulgar o produto, Johann exibe filmes em praça pública, proporcionando a primeira experiência cinematográfica para aquelas pessoas. Um filme do gênero “road movie” sobre a construção da amizade entre pessoas de culturas diferentes, é também um retrato da modernização do Brasil e da sua participação na 2ª Guerra Mundial.” (FGV-Direito)

I – HISTÓRICO:

A minha intenção foi fazer um filme que falasse sobre a alteridade. Ranulpho, o personagem brasileiro, é um homem sisudo e fechado, marcado pela dura vida no sertão. Johann, ao contrário, é alegre e gentil. Com esta “inversão”, eu queria desconstruir o estereótipo. Os dois estão na mesma situação e precisam um do outro para sobreviver: um foge da guerra; o outro, da seca. Através da amizade com Ranulpho, Johann consegue interagir com aquela pobre região brasileira. A necessidade obriga Ranulpho a abrir-se. Ele passa a ver Johann não mais como um alienígena, mas como um amigo", acrescenta o diretor.

O filme de Marcelo Gomes, no entanto, trata não apenas do luto que é deixar suas raízes, mas da busca de uma nova identidade para aquele que se exila. Por isso é tão importante o encontro do alemão e do sertanejo, porque é no embate com o diferente que vai se delinear o novo ser que nasce. Se a viagem é a perda de países e, do mesmo modo, uma forma subjetiva de morte, o encontro é um renascer modificado, é também um exercício de alteridade.
"Cinema, Aspirinas e Urubus", assim, metaforiza a possibilidade do encontro dessas duas culturas diferentes. Duas personagens em transformações, unidas pela incerteza de seus destinos.
Marcelo Gomes escreveu o roteiro do seu filme, baseando-se numa história real, contada por seu tio-avô, Ranulpho Gomes.

Meu tio vendeu aspirina e exibiu filmes no sertão”, afirma o diretor pernambucano Marcelo Gomes em entrevista para a Folha Online.


Folha Online - Em "Urubus", o sertão também aparece com força. Qual a sua relação com a região?
Gomes - Ele é o grande teatro onde acontece o drama dos personagens. Eu falo que o filme não é sobre o sertão, ele é no sertão, o que tem uma carga dramática importante. A seca do sertão em algum momento lembra a neve na Alemanha. Gravamos na Paraíba, com 42 graus, filmava só sol a pino porque queríamos aquela luz. A gente sofreu muito para filmar nessas condições.
Folha Online - O que mais lhe encantou nos elogios da crítica?
Gomes - Houve uma compreensão do filme, o que me deixou com muito ânimo para lançar no Brasil. É um filme sobre pessoas que querem descobrir um caminho melhor para as suas vidas. São personagens que, apesar de contingências políticas e sociais adversas, precisam buscar o seu próprio mundo. Neste momento, você não tem mais o nordestino fugindo da seca ou o alemão da guerra, mas dois seres humanos. Isso faz com que o brasileiro e o nordestino estejam no mesmo patamar. Isso fez do filme universal, e garantiu a compreensão.
Folha Online - Qual foi sua fonte de inspiração para escrever o roteiro?
Gomes - O meu tio-avô me contou esta história há dez anos. Depois disso, fui para a Inglaterra estudar cinema, voltei, mas a ideia ficou me martelando. Ele, inclusive, ainda mora em São Paulo e tem 97 anos. Quando ouvi a história, vi logo este elemento universal. O filme que se passa em 1942 poderia se passar agora, é muito contemporâneo, pois fala de solidão, de destino, de ter a compreensão, de aceitar pessoas de culturas diferentes. Meu tio realmente vendeu aspirinas e exibiu filmes pelo sertão nordestino na época.
Folha Online - Por que vocês não procuraram o laboratório farmacêutico para obter apoio já que falam da aspirina?
Gomes - (Risos) A gente pediu autorização para usar o nome, mas queríamos ter a maior liberdade possível. O filme não é sobre a aspirina, estamos falando sobre outras coisas.
Folha Online - Vocês tiveram contato com o povo da região?
Gomes - Os encontros que nós tivemos com as pessoas foram maravilhosos. Embora eu conheça o sertão desde pequeno, aquelas pessoas participaram do nosso filme. E estão impressas nele. Todo o elenco é de nordestinos, menos o alemão. Acho que tudo isso imprime essa cor local.

“Cinema, aspirinas e urubus” não almeja ser o “grande filme”, e é justamente por isso que se torna um: pela calma certeza sobre o seu relato e sobre o poder (quase esquecido no Brasil) do simples contar uma história pelo cinema. Em sua mistura precisa de preocupações narrativa e de personagens com o apuro técnico-conceitual (que em nada soa esquizofrênica), ele faz uma ponte entre um cinema popular possível e um instrumental mais caro de um “cinema de arte”.

II – MONTAGEM:

DIREÇÃO:
"Cinema, Aspirina e Urubus" é um emocionante “road-movie” brasileiro, gênero de filme em que o enredo centra-se em torno de uma viagem de estrada. Trata-se do primeiro longa-metragem realizado pelo cineasta amazonense, radicado em Pernambuco, Marcelo Gomes.
O enredo cabe em um curta-metragem, mas a direção de Marcelo Gomes o desdobra e alcança um tom de relato visual, que observa, registra e deixa as conclusões para a platéia. É de forma bem direta que retrata ao seu modo, um sertão inóspito e encantador.
A direção delicada, o texto sutil e vigoroso e as interpretações cativantes ganham reforço de uma bela embalagem técnica, desde a fotografia assumidamente estourada à cuidadosa direção de arte, passando pela bela trilha.
A pouca cerimônia ronda também as interpretações, bem sinceras, e chega a muitas das personagens, que sequer têm nomes, formados por moradores do sertão paraibano, bem como, por atores desconhecidos.
Um filme em que a câmera não acompanha a geografia e prefere prender-se a suas personagens, na sombra da boléia do caminhão e próxima às velas e lamparinas que lutam contra a noite. Dessa forma, os “road-movies” carreguem consigo o clichê de ser uma metáfora para a transformação ou redenção de suas personagens, de redescoberta, onde o ponto principal é a própria “viagem interna” das personagens.
Se para alguns espectadores o enredo peca em temática, por outro lado, é marcante pelo trabalho técnico acentuado pela câmera livre, frequentemente muito próxima dos atores, e pelas cenas ao ar livre e na estrada.
O júri justificou o prêmio pela "capacidade do filme de mudar nosso olhar sobre o mundo" e pela "recusa dos clichês”.

FOTOGRAFIA:
"Cinema, Aspirina e Urubus" apresenta, ainda, uma bela trilha sonora, a magnífica fotografia de Mauro Pinheiro Júnior e ótimas interpretações dos atores principais, com destaque para a atuação do baiano, João Miguel. A fotografia, longe de evitar a luz cáustica do sertão, busca assumi-la enquanto elemento vivo daquele ambiente hostil, retorcido e seco como elemento visual. É tão arisco, que não é permitido vê-lo em sua totalidade. As imagens surgem sempre esbranquiçadas, quase monocromáticas. Tudo é cor de terra.
Embora imprima um ritmo um pouco lento, em nenhum momento o filme torna-se desinteressante.
O sol parece ser integrante do elenco. As cores esmaecidas da imagem confundem gente e paisagem, tornando opacas como todas as outras cores, alegorizando a monotonia do cenário e a cor local. Trata-se do desmazelamento da realidade do sertão e do sertanejo; das atividades dos protagonistas; reflexões sobre o país e do contexto onde estão inseridas as personagens, destacando as cores de suas roupas em uma imposição social primária.
Contracenando com esse cenário, a cor da pele de Johann, o alemão, quase se dissocia como se devorado pela própria seca, tornando-se possuído por ela.
Já quando é noite, os sombreados revelam o intimismo das personagens.
É envolto pela sombra que Ramulpho, o nordestino, inventa uma história para a própria vida, assim como Johann conclui (após um pouco de febre causada por veneno de cobra) que passou "a vida inteira juntando dinheiro" e talvez morresse sem aproveitar.
O grande valor da imagem intensifica-se à medida que o filme torna-se mais contemplativo, e, portanto, mais silencioso, usando músicas da própria cena e não uma trilha sonora para arrematar os diálogos concisos.

III – TEMPO E ESPAÇO:

O filme se passa em 1942, no sertão nordestino arcaico, que desconhecia as razões da Segunda Guerra noticiada pelo rádio.
O filme conta a história de Johann (Peter Ketnath), alemão que fugiu do país de origem nos auges da II Guerra e chegou ao Brasil, onde percorre regiões nordestinas vendendo aspirinas.
Marcelo Gomes nos chamou a atenção para a tradição de viajantes alemães ao Brasil. Ele leu os relatos deixados por estes viajantes, que desde o descobrimento se interessaram pela nova terra, escrevendo suas impressões. Através desta visão alemã sobre o Brasil, o cineasta construiu o seu personagem Johann.
Antes do início das filmagens, ele visitou a Alemanha. Surpreso por encontrar aquilo que não esperava como alegria e simpatia, o diretor mudou o caráter do seu personagem.
O diretor não deseja apresentar uma tese sobre o espaço do sertão que retrata, nem sobre a época em que se passa, como vários filmes "regionais" ou "históricos", embora se insira cuidadosamente no espaço e tempo. Seja para abordar qualquer assunto ou simplesmente retratar as peculiaridades do universo sertanejo, o sertão nordestino parece sempre exercer forte fascínio sobre cineastas. Afinal, por sua natureza social e cultural, as figuras do semi-árido, suas casas, os animais, a vegetação e outros elementos do cenário sertanejo rendem boas histórias quando transportados para o cinema, aí adentrando um contexto – o da vida urbana, citadina – que é bem oposto a esses elementos.
Marcelo não negou o sertão humilde, atrasado, exótico aos olhos de fora. A diferença é que o sertão não é personagem aqui. É cenário. Marcelo Gomes explora as particularidades com graça invejável, sem nunca espetacularizá-las, usando-as apenas como suporte para contar sua história. E fazia tempo que o cinema brasileiro não contava tão bem e de maneira tão simples uma história.

IV – PERSONAGENS:

Johann tornou-se um "jovem doce e alegre, um hippie dos anos 40, que não tinha a menor vontade de matar alguém na Segunda Guerra Mundial e, por tal, teve que deixar a Alemanha", explicou o diretor.
Para o seu personagem alemão, Gomes queria um ator alemão que falasse português e não conhecesse o sertão. Ele o encontrou em Berlim. O bávaro Peter Ketnath, 32, já trabalhou para Joseph Vilsmaier em “And Nobody Weeps for Me”, como também para a televisão alemã e francesa.
O baiano João Miguel, 35, o protagonista brasileiro, deveria vir realmente do Nordeste. Ele ganhou o prêmio de melhor ator do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O baiano João Miguel, ator de teatro, estreante no cinema e que, para conquistar o papel, disputou com mais 300 atores. João Miguel é a revelação da trama. Consegue agregar autenticidade a um personagem clássico dos filmes sobre sertão brasileiro. Numa mescla de inocência e esperteza, seu personagem enternece o público; ao mesmo tempo, que, se mostra entre ranzinza e carente.
Um filme de amigos, de parceiros, que tem o mérito extraordinário no cinema brasileiro de nunca querer chamar atenção para si mesmo. É a delicadeza do roteiro e as belas performances dos dois protagonistas que transformar “Cinema, Aspirina e Urubus” na pérola que ele é. O destaque é, obviamente, João Miguel, que dribla com majestade as armadilhas de uma personagem muito fácil de se gostar, o nordestino simpático e engraçadinho. Mas sua atuação só ganha à dimensão que tem pela química acertada com Peter Ketnath.
Certamente, o maior trunfo da produção é a riqueza de suas interpretações. Os dois protagonistas estão competentemente representados.

V – RESUMO DO ENREDO:

Johann, um solitário alemão dirige um caminhão e está perdido pelas estradas esburacadas pelos sertões áridos do nordeste brasileiro, trava contato com sertanejos curiosos por ver um veículo e por ver um estrangeiro: um pequeno recorte da industrialização que começava a se espalhar pelo país de Getúlio Vargas.

Durante o caminho, nos pequenos vilarejos por onde passas, o alemão arma uma tenda, promove aspirinas no interior pernambucano, utilizando-se de filmes promocionais sobre a última novidade farmacêutica do laboratório alemão, Bayer.

O sucesso de sua empreitada está no modo como ele faz a publicidade do produto: projetando propagandas no meio de vilarejos, ao ar livre, e encantando os moradores, que, nunca antes tendo visto imagens em movimento, acreditam tratar-se de um medicamento de outro mundo.
Terminada a projeção, os ingênuos espectadores fazem filas para comprarem o milagroso medicamento que promete o fim de todos os males.
Seu destino o levará cruzar Ranulpho, um sertanejo que deixa o pequeno povoado em que mora e pretende fugir da aridez sem perspectivas do sertão, a fim de tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro, a sua terra prometida.

As duas personagens dividem suas projeções: Ranulpho é a alegoria dos insatisfeitos com a vida, para ele, nada é pior que o sertão; enquanto que, para Johann, nada é pior que a guerra.

Juntos, ambos passarão pelas mais incríveis histórias por ora cômicas, por ora trágicas.
Enquanto viajam pelas desertas estradas de terra, Ranulpho vai aos poucos se deslumbrando com a vida de Johann e termina chamando para si o título de ajudante do alemão, ajudando-o nas apresentações dos filmes publicitários nas praças das pequenas cidades.
Durante o filme tudo isso é dito sem muitas palavras, na lentidão do seu tempo e espaço que decorrem ou existem dentro da trama, com suas particularidades, limites e coerências determinadas pelo autor e na força física de suas atuações; quando um povo de uma pequena cidade se assombra e se encanta com a primeira projeção cinematográfica de suas vidas (improvisada, ao ar livre) e nos muitos silêncios das personagens.
As redescobertas acontecem para as personagens à medida que vão exibindo seu cinema publicitário aos sertanejos; à medida que estreitam laços de cumplicidade e descobrem no outro um laço de vida e parceria.

No primeiro terço do filme, as personagens trocam discursos politizados, forçados e fora de lugar. A questão social, embora não se evidencie, força sua entrada em todas as falas. Ranulfo fala de pobreza, de êxodo. Uma outra carona, que logo desaparece, reclama da vida sem expectativas. Parece que todos decidem, espontaneamente, falar sobre suas vidas e problemas a um alemão desconhecido.

No final de agosto, o Brasil declara guerra à Alemanha após vários navios nacionais terem sido torpedeados no litoral nordestino por submarinos nazistas. Como consequência, várias indústrias e empresas comerciais alemães, ou ligadas aos interesses alemães, são fechadas, bem como, seus proprietários e gerentes presos. Nesse contexto, Johann tem que decidir entre voltar para a Alemanha e permanecer no Brasil em um campo de prisioneiros.
Por sugestão de Ranulpho, entretanto, ele prefere tentar fugir para a Amazônia e se misturar aos imigrantes nordestinos que trabalham em seringais na tarefa de extração da borracha. Assim, o alemão se vê obrigado a queimar seus documentos e embarcar num trem de retirantes com destino à Fortaleza, de onde seguirão de navio para a Amazônia.
Antes de partir, Johann entrega as chaves de seu velho caminhão para Ranulpho.

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

“Cinema, aspirinas e urubus” está fadado a ser um filme-paradigma no cinema brasileiro recente.
O primeiro plano de “Cinema, Aspirinas e Urubus” é didático e chave para o entendimento da jornada das duas personagens.
A história de Johann e Ranulpho, espécie de buddy movie pelas estradas do sertão, comove exatamente pelo fato de seu registro apostar tão fortemente na verdade daquela construção ficcional. “Verdade” entendida aqui nem como verossimilhança, nem como “naturalismo”, e sim pelo sentido que realmente importa numa fabulação: a crença do próprio narrador (o cineasta) naquilo que nos narra.
Nesta parte, apresentada totalmente branca e extensa que pouco a pouco revelam detalhes através de um retrovisor de um veículo e de seu motorista, como se os olhos imersos no escuro do cinema precisassem de tempo para se acostumar à claridade seca daquela região.
Depois de quarenta minutos, parecemos estar vendo um outro filme. Se antes a força da história se diluía em diálogos secos e politizados, agora Gomes acerta a mão ao tornar mais clara a relação entre os amigos improváveis, expressando a opressão do mundo sobre o indivíduo, sobre como o exterior define seu caminho. No entanto, sua indecisão entre o panfleto político e a dissecação das relações humanas se mostra problemática, como se ele houvesse feito dois filmes.
Os dramas sociais caem para o segundo plano. Ranulfo se fascina pelo cinema, e, após algumas revelações, sua personagem ganha contornos mais humanos e verossímeis. Entre outros exemplos, um que pode parecer fortuito ou definitivo, de acordo com quem lê: em certo momento, quando o Brasil entra na guerra e a volta de Johann para a Alemanha é exigida, o alemão disfarça seu carro, ele o pinta de preto. Destaca-o do contexto, se concordamos com o que foi escrito, e aí a pintura é apenas simbólica o que se comprova, já que ele o faz para pouco depois abandoná-lo.
Porém, o diferencial da trama é o não exagero. Não há estereótipos. A sutileza pauta toda a abordagem. As cenas que são na sua maioria feitas dentro de um caminhão são agradáveis e a narrativa conduz o expectador, suavemente, ao desfecho já esperado; mas, nem por isso, menos encantador.
A narrativa de Marcelo Gomes é praticamente uma fábula pós-estruturalista: a identificação do "eu" vem através do "outro" e, assim, a alteridade fica preservada. A história nos mostra a possibilidade da coexistência de duas culturas sem que elas tenham que se tornar uma só.
É importante notar a oposição entre o branco e o preto, e a luz e a sombra utilizada por Gomes: de um lado, a aspirina, branca, onipresente na história, “cura para todos os males”; do outro, os urubus, aves de mau agouro, comedoras de restos surgindo no exato momento em que o rumo de uma vida se transforma pela segunda vez, desta vez de verdade e em definitivo. Em última análise, essa relação também está na palavra “cinema”: a luz possibilita a história, mas é sobre a sombra que ela ocorre. A sombra: o único lugar para o amor no filme. Sempre, à noite e à revelia.