segunda-feira, 18 de abril de 2011

NOITE NA TAVERNA E O ULTRARROMANTISMO DE ÁLVARES DE AZEVEDO


“Narrativa frenética é de fato esta que Satã desvenda a Macário como uma espécie de experiência-limite, marcada pelo incesto, a necrofilia, o fraticídio, o canibalismo, a traição, o assassínio – cuja função para os românticos era mostrar os abismos virtuais e as desarmonias da nossa natureza, assim como a fragilidade das convenções.”


Antônio Cândido, “A educação pela noite e outros ensaios”

I - INTRODUÇÃO:


“Noite na taverna”, de publicação postumamente em 1855, é uma coletânea de contos que apresenta características bastante particulares, uma vez que as personagens se reúnem para relatar acontecimentos macabros e satânicos vividos ou imaginários.

A obra traduz com exatidão o entusiasmo dos românticos pelo mal-do-século que dominou a segunda fase do Romantismo.
Segundo Antônio Cândido, Álvares de Azevedo, dilacerado pelas contradições da adolescência, “sofre (...) o fascínio do conhecimento e se atira aos livros com ardor; mas, ao mesmo tempo, é suspenso a cada passo pela obsessão de algo maior, a que não ousa entregar-se: a própria existência, que lhe escorrega entre os dedos inexpertos”.
Nele “o cansaço precoce de viver, o desejo anormal do fim, assaltam com frequência a imaginação, atraída pela sensualidade e ao mesmo tempo dela afastada pelo escrúpulo moral e pela imagem punitiva da mãe, conduzindo a uma idealização que acarreta como contrapeso, em muitas imaginações vivazes, a nostalgia do vício e da revolta”.
A influência dessa corrente transparece em cada momento nos contos dessa obra, traduzindo magnificamente a inquietação de Shelley, o pessimismo de Leopardi, o amargor irônico e o satanismo Byron, grande mestre do autor, e a melancolia de Musset.
Essas influências geram uma prosa marcada pelo devaneio e pela fantasia, tomadas aqui como fuga do real, deformação da realidade, dos valores da sociedade, pela embriaguez e pelo tabagismo, estado de torpor que aproxima as personagens e mecanismo de consubstanciação de seus desejos e anseios, bem como de alívio das dores trazidas pela memória.
Álvares de Azevedo em “Noite na taverna”, constrói um mosaico narrativo, fazendo com que as personagens circulem entre os vários contos, criando para alguns leitores e críticos a possibilidade de classificar o texto como novela, se tomado por um todo.
Rodeados de prostitutas, bebidas e fumos, cada um configura um conto, sendo que o primeiro conto “Uma noite do século”, além de expor o ambiente, também apresenta o perfil das personagens e o último conto, “Último beijo de amor”, reuni as personagens dos outros contos, dando unidade à obra.
Dessa forma a independência de cada texto, se tomados os narradores e os elementos narrativos separadamente, anula-se em função da unidade, quando surge um narrador em terceira pessoa que reúne as personagens na taverna.
O enredo do conto, assim, acaba por tornar-se fragmentado, pois decorrem de suas memórias, que, aliás, estão adormecidas em virtude do sonho e da embriaguez.

II - FOCO NARRATIVO:

A obra “Noite na Taverna” gera certo estranhamento pela multiplicidade narrativa, pela configuração complexa dos focos narrativos, pela ideologia romântica contida em cada conto, ou ainda pela aproximação entre o material narrativo e o poético.
O primeiro e o último conto estão em terceira pessoa do singular, um narrador exterior ao texto, enquanto que, nos outros contos, o protagonista acaba por se confundir e muda às vezes de foco narrativo.

III – TEMPO E ESPAÇO:

O tempo é psicológico e indeterminado, embora fique claro o comportamento dos jovens no século XIX. Existe um tempo da narrativa, momento em que os protagonistas “viveram” a ação no passado; e um tempo da narração, momento em que os protagonistas contam a ação vivida, o presente, quando todos estão reunidos na taverna.
O espaço principal da ação é na taverna, lugar marcado por um clima de embriaguez e penumbras. Toda essa atmosfera é criada a partir do noturno, trazendo de volta o culto da noite que predomina na literatura do Romantismo.
Em “Noite na taverna” ocorre, ainda, uma espécie de “educação pela noite” pelas conotações de mistério e de treva, para chegar a um discurso aproximativo ou mesmo dilacerado, como convém ao derrame sentimental unido à libertação das potências recalcadas do inconsciente. (Antônio Cândido)

IV – CARACTERÍSTICAS:

"É preferivel morrer por amor que viver sem ele".

“Noite na taverna” não se prende apenas a um gênero ou espécie literária, aproximando-se, simultaneamente, dos gêneros épico, lírico e dramático. O épico por relatar façanhas narrativas; o lírico pela carga emocional das falas dos protagonistas, do emprego de um poema num dos contos e da prosa poética que aparece dominar boa parte dos textos e, o dramático, na ação das personagens e em seus diálogos carregados de significação, o que pode ser confirmado, no início da obra onde Macário e Satã dialogam na primeira cena.
Satã conduz Macário a uma orgia, a fim de que “leia uma página da vida, cheia de sangue e de vinho.”
Macário, então, vê da janela de uma taverna “uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, uma lívidas, outras vermelhas...”
A obra reveste-se de um caráter perverso, noturno, satânico ou demoníaco da mentalidade byroniana, expressa através de crimes e de orgias imaginários, vividos como compensação da incompatibilidade entre o sonho e a realidade e, relatada por cinco personagens-narradores: Solfieri, Bertram, Johann, Gennaro e Claudius Hermann, os quais se caracterizam como homens ébrios e devassos, cultivadores dos vícios e das perdições humanas.
“Noite na taverna” apresenta sete partes, cada uma com uma epígrafe, e ainda uma epígrafe geral. A epígrafe geral refere-se à aparição do pai de Hamlet, da obra homônima de Shakespeare. As demais serão comentadas no final de cada conto.
A ação é lenta, entrecortada por digressões dos narradores, que preferem ressaltar a beleza de suas amadas, geralmente mulheres pálidas, a filosofar a prosseguirem suas histórias.
O amor visto como platônico, inatingível, parece restar somente o aspecto sexual. Justificam o mito de que Eros (amor) e Thanatos (morte) andam sempre juntos, como sombra invisível do outro, o que parece ocorrer em todos os contos.
Ao lado do pólo do mal que predomina em “Noite na taverna”, personificado em especial pelas imagens do libertino e da mulher perdida, a prostituta, aquele que é o seu oposto complementar: o pólo do bem, manifestado através da presença da figura da mulher-anjo, e da ideia do amor como regenerador de todos os vícios, enfim, dos mais preciosos sonhos amorosos e libertários dos nossos byronianos.
O erotismo é algo latente em tais protagonistas. Mal resolvidos em suas aventuras amorosas, encontram na sedução, ao estilo da personagem byroniana Don Juan, o conquistador sem escrúpulos, a materialização de seu herói sem caráter.
A fragilidade das convenções sociais e a natureza fatalmente má da pessoa humana constituem os elementos justificadores da postura sexualmente doentia e perversa dos ultrarromânticos, sugerida pela obra.
A polarização entre idealismo e niilismo que se encontra desde o prólogo da obra, em que as personagens discutem o vício e a pureza, o materialismo e o espiritualismo, a fé e o ateísmo, e, significativamente, o epicurismo: a defesa do prazer com valor supremo da existência.

V – RESUMO DO ENREDO:

CONTO I

“Uma noite do século”

Conto introdutório do livro. O autor localiza o leitor do ambiente que se encontra e apresenta as personagens que constituíram as narrativas dos próximos contos.
Johann pede silêncio, disserta sobre as mulheres que dormem ébrias e pálidas como defuntos. Bertram manda-o calar e fala sobre a beleza das canções de orgia e das noites passadas ao reflexo das taças. Johann acusa-o de louco e acrescenta que não é a lua que vai macilenta, mas sim, o relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que morre.
Exaltam o álcool; reclamam á taverneira que as garrafas estão vazias e comparam os lábios da garrafa com as das mulheres:


Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?”

Depois passam a brindar o fumo, concluindo que o fumo é a imagem do idealismo e, em seguida, brindam o fumo.
Solfieri passa a falar sobre a transmigração das almas (metempsicose), afirma que a alma era bela, mas podia se tornar lodo e podridão. Acrescenta que a alma não é como a lua, sempre moça, bela e nua. A vida é a reunião ao acaso das moléculas atraídas, o que era corpo de mulher podia se transformar em cipreste, ou em um verme em uma flor.
Archibald critica o materialismo de Solfieri e defende o espiritualismo. Para Solfieri o sonho mais lindo é a febre do libertino, a bebida, a sexualidade e a mulher seminua.
Archibald diz que Solfieri estava blasfemando e pergunta se sua descrença derrubou “todas as estátuas do seu templo, mesmo a de Deus?”
Ele responde que Deus só aparece na hora do medo, do desespero e não acredita nele não. Archibald pergunta-lhe se não acredita nem na Bíblia. Então, Johann responde que acredita somente em poesia, não em verdades religiosas e que o resto era tudo falso “mentiram como as miragens do deserto”.
Archibald diz que Johann está bêbado e desdenha do ateísmo e da ciência:
“(...) ela mente e embriaga como um beijo de mulher.”
Por fim concluem que a verdadeira filosofia de vida é o epicurismo (prazer).
Em seguida, brindam em homenagem a Pã, deus da natureza, correspondente a deus Baco, deus do vinho.
Archibald convida todos a contarem uma história medonha, macabra, iguais aos contos fantásticos como Hoffmann delirava ao clarão dourado do Johannisberg (vinho alemão).
Solfieri diz que começará. Mas que contará uma história de seu passado e não um conto.
Todos fazem silêncio.
A epígrafe do conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

OBSERVAÇÕES:

No primeiro conto “Uma noite do século”, as personagens são reunidas numa taverna entre copos de vinho e baforadas de cachimbo para contarem suas histórias. Os princípios de cada integrante do grupo são apresentados, bem como suas opiniões. É importante chamar a atenção para o posicionamento contrário entre as personagens no que se refere às ideias sobre o espiritualismo e ciência, mantendo, entretanto a mesma posição com relação ao vinho e ao tabagismo. Percebe-se que essa visão romântica do mal-do-século domina os presentes, preocupados constantemente com as garrafas vazias, pois só no álcool encontram a fuga ideal para seus temores e fantasmas, bem como a coragem para prosseguirem suas narrativas.
A grande preocupação dos presentes com a literatura e a filosofia pode ser tomada como intertextualidade, mantendo íntima ligação da presente obra com textos de autores famosos.
A epígrafe desse conto, de autoria de José Bonifácio, traduz uma ideia geral de transitoriedade de todas as coisas, mostrando que tudo é ilusão, tudo é provisório, devendo-se buscar o prazer na embriaguez.

CONTO II

“Solfieri”

Solfieri conta-nos uma aventura que teria “vivido” em Roma, cidade do fanatismo e da perdição (bem X mal).
Uma noite, ele passeava a sós por uma ponte, as luzes se apagaram e ele vê numa janela solitária e escura, uma sombra de mulher:
Era uma forma branca. A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas”.
A visão desaparece e ele ouve um canto triste, como o som dos ventos chorando à noite nos cemitérios, cantando o canto fúnebre das flores murchas da noite.
Não era uma voz melodiosa: havia naquele cantar como choro de frenesi, um como gemer de insânia – aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores murchas da morte”.
Depois que o canto cessou, a moça surgiu à porta, certificou-se que não tem ninguém e saiu.
Solfieri a seguiu. Andaram muito, até que a moça parou num campo com muitas cruzes, ajoelhou-se e parecia chorar.
Solfieri não se lembra da sequência dos acontecimentos, só que quando acordou, já tinha amanhecido e estava a sós no cemitério; mas, tem certeza que não foi sonho, tendo em vista que as plantas perto da cruz estar quebradas.
O protagonista teve febre em consequência daquela noite. Em seu delírio via a mulher pálida, ouvia seus soluços e um canto melancólico.
Nunca se esqueceu daquela mulher e daquele canto...
Depois de um ano regressou a Roma. Solfieri vivia incompleto, os beijos das mulheres não o saciavam e só pensava na visão de um ano atrás.
Uma noite, depois de uma orgia com a condessa Barbora, abandona-a em seu leito, e quando se deu por si, estava num lugar escuro, uma igreja. Dentro do templo observou as luzes de quatro velas que batiam num caixão entreaberto.


Abri-o e descobriu na morta a moça que vira à janela um ano atrás, o “Anjo do cemitério”.

Fechou as portas da igreja, despiu a moça, beijou-a e a possuiu (lembrou-se do caso de Maria Stuart, degolada e possuída, conforme conta Brantome).
Tal erotismo necrófilo, nos faz lembrar a posse da Bela Adormecida.
Depois de fazer amor com a moça morta, ela o abraça fortemente, abrindo os olhos.
Não era já a morte: era um desmaio. A moça sofria de catalepsia (estado mórbido caracterizado pelo enrijecimento dos membros, insensibilidade, palidez, diminuição de respiração e pulso).
A moça revivia aos poucos e ao acordar, torna-se a desmaiar.
Solfieri a enrolou numa capa tomou-a em seus braços e a raptou.
Na porta encontrou-se com um coveiro da igreja que ali dormira de bêbado.
Ao passar pela praça, deparou-se com a polícia que o questiona ser ladrão de cadáveres.
Ele prova que a moça estava somente desmaiada, beijando-a.
Ele corria temendo que a moça acordasse e assustada, gritasse, o que irá acontecer somente quando ele chega com ela em sua casa. Trancou-a em seu quarto. Os amigos libertinos chegando começaram a importuná-lo. Depois de meia hora, quando os amigos já bêbados não percebiam a sua ausência, volta ao quarto e encontra a moça em pé, rindo como se estivesse louca.
Dois dias e duas noites durou o seu delírio, morrendo após.
À noite, Solfieri procura um estatuário e pagou-lhe para fazer uma estátua da moça. Depois, ele mesmo cavou um túmulo debaixo de sua cama, enterrando-a. Antes se despediu, tomando-a nos braços, beijando-a e cobrindo-a com seu lençol.
Durante um ano dormiu sobre as lajes que a cobriam. Finalmente, recebeu sua encomenda (a estátua). Nisso Solfieri interrompe a sua narrativa para perguntar a Bertram se ele não se lembrava daquela forma de mulher branca que um dia ele vira pela cortina de seu quarto e que ele, Solfieri tinha na época respondido que era uma virgem que dormia. Bertram então quer saber o nome da moça.
Solfieri nega-se a contar, alegando que um nome não era tão importante perante a importância de tais acontecimentos. Quando Solfieri encheu novamente a taça e levantou-se, é detido por um companheiro que queria saber a veracidade da história. Solfieri afirma que é tão verdadeiro como o seu pai era um conde e bandido e a mãe, uma messalina (prostituta) das ruas. Abriu a camisa e viram-lhe no pescoço uma grinalda de flores murchas.
“- Vede-la? Murcha e seca como o crânio dela!”

OBSERVAÇÕES:

O conto revela uma relação macabra entre o protagonista e uma jovem supostamente morta, mas que estava apenas tomada de um sono cataléptico. Esse comportamento macabro, que poderia ser tomado como necrofilia, pois para o protagonista a moça estava morta, é continuado após a morte real da moça, enterrada sob as lajes debaixo da cama do protagonista, e pelo fato dele trazer ao pescoço as flores murchas da grinalda que a moça levava no caixão.
É importante ressaltar que nesse conto a figura da mulher dormindo revela um comportamento típico na obra de Álvares de Azevedo. Aqui se aliam o amor e o medo de amar. Diante desse temor, resultado típico da inexperiência amorosa, como observa Mário de Andrade sobre o autor, fica mais fácil possuir a mulher dormindo: “o medo de amor inventa a ideia de possuir a bela adormecida”. Cabe destacar que, enquanto, a mulher dorme, existe espaço para a fantasia, o sonho e a imaginação.
A epígrafe do conto, de autoria de Lord Byron, alude a um beijo apaixonado nos lábios de um corpo pálido e frio, o que ocorre no presente texto.

CONTO III

“Bertram”


A história de Bertram passa-se na Espanha.
Bertram cabelos ruivos, tez branca, conta o seu amor por uma espanhola que o levou a perdição. Afirma que por causa dessa moça é que caiu em orgias, bebedeiras, jogos e até em duelos com os três melhores amigos, matando-os, fazendo o sentir-se abandonado no mundo.
“Foi ela quem me queimou a fronte nas orgias, e desbotou-me os lábios no ardor dos vinhos e na moleza de seus beijos, quem de fez devassar pálido as longas noites de insônia nas mesas do jogo, e na doidice dos abraços convulsos com que ela me apertava contra o seio! Foi ela, vós o sabeis, quem fez-me num dia ter três duelos com meus três melhores amigos, abrir três túmulos àqueles que mais me amavam na vida...”
Solidão que podia ser comparada com o de uma mulher que mata o seu próprio filho ou como o do mouro, que matou Desdêmona (Otelo).
Bertram amou Ângela, uma espanhola de Cádiz. Quando estava decidido a casar-se com ela, foi chamado pelo pai para partir para a Dinamarca.
Na despedida choros e promessas para o futuro. Quando chegou á casa de seu pai, encontrou-o velho e doente. Ele agradeceu a Deus por ver o filho, chorou e morreu, dizendo Deus...
Bertram ficou fora por dois anos. Ao regressar, encontrou Ângela já casada e com um filho.
Mas o amor entre eles não tinha se acabado e tornam-se amantes.
“Muitos ardentes foram aquelas horas de amor e de lágrimas, de saudades e beijos, de sonhos e maldições, para nos esquecermos um do outro.”
Bertram e Ângela encontravam-se constantemente, até que um dia, foram descobertos.
“Mas um dia o marido soube de tudo: quis representar de Otelo com ela. Doido”.
Bertram esperou Ângela passar pelas cortinas brancas e foi chamado por ela.
Ângela estava deslaçada, o vestido solto e o cabelo desgrenhado. Quando ele pegou em suas mãos, sentiu-as úmidas.
O casal seguiu por uma escada escura, quando Bertram levou sua mão até seus lábios e sentiu um gosto de sangue. Sem nada entender perguntou a Ângela sobre aquele gosto de sangue e ela riu.
No momento em que Ângela foi buscar uma luz, Bertram encostou-se numa mesa e ao passar sua mão sobre ela, sente a mesma umidade e uma cabeça fria.
“Procurei, tateando, um lugar para assentar-me, toquei numa mesa. Mas ao passar-lhe a mão senti-a banhada de umidade: além senti uma cabeça fria como neve e molhada de um líquido espesso e meio coagulado. Era sangue...”
Ângela chegou com a luz e iluminou o marido degolado. Sobre o peito do marido, encontrava-se também o filho morto, onde os sangues se misturavam.
A amante confessou-lhe que fez isso por amor a Bertram, que agora ela só pertencia a ele e que deviam fugir para o futuro.
E assim se fez.
“Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim. Ângela vestira-se de homem: era um formoso mancebo assim. No demais ela era como todos os moços libertinos que nas mesas da orgia batiam com a taça na taça dela. Bebia já como uma inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe e atirava as armas como um espanhol”.
Um dia ela partiu, deixando em Bertram lembranças e vícios. Bertram tentou esquecê-la na bebida, nas orgias e nos jogos.
Uma noite, bêbado foi atropelado por uma carruagem e socorrido num palácio por um nobre velho viúvo que tinha uma filha donzela de dezoito anos.
A filha desse nobre se apaixonou por Bertram.
“Não era amor que sentia por ela - era uma fatalidade infernal”. “A pobre inocente amou-me”.
Bertram desonrou a moça e a raptou. Deixando o velho a sofrer sem nada poder fazer.
Depois, Bertram cansou-se da moça e jogando com um pirata chamado Siegfried, após de ter perdido a última jóia dela, vendeu-a a esse pirata.
Na primeira noite, a moça envenenou o pirata e se afogou.
Certo dia na Itália, saciado de vinho e mulheres, Bertram resolveu suicidar-se e atirou-se de um rochedo. Um marinheiro tentou salvá-lo, mas acabou morrendo, como Bertram veio saber mai tarde ao recobrar os sentidos.
“Enquanto os homens do mar choravam, Bertram ria de sua sina negra.”
Um navio que estava de partida, na época, comandado por um homem belo, convidou-o a fazer parte da tripulação de seu navio. Bertram aceitou, mas impôs que o ajudaria na hora da luta, enquanto que na hora da manobra, ele dormiria.


Bertram não quis falar de seu passado.

O comandante trazia consigo a sua mulher, uma santa:
“Criatura pálida, parecera a um poeta o anjo da esperança adormecido esquecido entre as ondas...era uma santa”.
Todos os marinheiros a respeitavam, mas Bertram apaixonou-se por ela.
Às vezes, ela sorria triste.
“Um poeta a amaria de joelhos”.
Uma noite Bertram escreveu uns versos de pureza a ela ao contrário do amor que viveu com Ângela.
“Era a última folha da minha virgindade que lançava ao esquecimento”.
Justamente agora que ele imaginava que nunca mais amaria, pois os seus sentimentos estavam mortos como crianças afogadas em sangue ao nascer...
Ela também estava apaixonada por Bertram, e enquanto o comandante dormia, ela se entregava a Bertram.
Numa madrugada foram atacados por um navio pirata.
Houve muitas mortes.
“E nesse tempo, enquanto o comandante se batia como um bravo eu o desonrava como um covarde”.
Passados alguns dias, o navio encalhou num banco de areia. Os tripulantes acabaram numa jangada no meio do mar. Uma noite veio uma tempestade e restaram somente cinco pessoas (o comandante, Bertram, a moça e dois marinheiros).
“Quando a aurora veio, restávamos cinco: eu, a mulher do comandante, ele e dois marinheiros...”
Durantes muitos dias, só se alimentavam de bolachas.
Betram pergunta a Solfieri porque ele tinha se empalidecido e nesse momento há uma reflexão sobre o que é a vida, chegando á conclusão que a mocidade é só ilusões, depois envelhecemos e é só miséria e loucura.
Bertram é interrompido com a chegada de um velho no recinto. Interrogado pelos rapazes, o velho diz que foi soldado, já bebeu com Bocage, ajoelhou-se sobre o túmulo de Dante e já esteve na Grécia. Era um andarilho, libertino e vagabundo.
“Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta anos, sou um vagabundo sem pátria e sem crença aos quarenta anos...só trouxe duas lembranças – um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre – e uma agonia de poeta...Dela tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos”.
Tirou do bolso um embrulho, era um lenço vermelho e dentro tinha uma caveira. Os presentes ficaram espantados e um deles sugeriu que pudesse ser a cabeça de um poeta ou talvez de um louco.
O velho diz que o moço só errou em não pensar tratar-se de ambas as coisas e completa dizendo que Sêneca já dizia que a poesia era insânia (loucura).
O velho brindou à lembrança do poeta-louco Werner e saiu.
Bertram continuou a sua história: estavam os cincos famintos, com sede. Bertram filosofa sobre a grandiosidade do homem e conclui que tudo se apaga diante da fome e da sede.
“Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples...um fato velho e batido, uma prática do mar, uma lei do naufrágio – a antropofagia”.
Reflete sobre a criação do mundo, onde Deus fez tudo maravilhosamente e entregou ao homem para usufruir. Fala sobre o corpo humano, sua inteligência, da natureza, da beleza da mulher...depois completa dizendo que tudo isso é belo, mas tudo se apaga diante de dois fatos: a fome e a sede e que nos leva a uma prática do mar, a lei do naufrágio - Antropofagia.
Dois dias depois do naufrágio acabaram os alimentos. Restavam somente Bertram, a moça e o comandante e, o uso do mar manda a morte de um para a vida de todos. Tiraram a sorte para ver quem morreria para a sobrevivência dos outros e o comandante perdeu, tendo que morrer.
O comandante desesperado pediu para terem compaixão e implorou que esperassem por mais um dia, que Deus os ajudaria.
Bertram riu do desespero do homem “morrer hoje, amanhã, ou depois...tudo me era indiferente, mas hoje eu tinha fome e ri-me porque tinha fome”!
O comandante o lembrou que fora generoso com ele, que o acolhera, que o amara. Mas, quando ele percebeu que não conseguiria convencê-lo, tornou-se agressivo e partiu para a luta. Bertram o derrubou, pôs-lhe o pé na garganta, sufocando-o até morrer. Aquele cadáver foi o alimento de Bertram e da moça durante dois dias.
Bertram pede-nos que não fiquemos enjoados, pois teríamos feito o mesmo.
Quando as aves do mar chegaram para compartilhar os restos do cadáver, Bertram atirou o restante ao mar.
Ele e a moça ficaram mais dois dias sem ter o que comer e sem beber. Então, ela propôs morrerem juntos e ele acaba por concordar.
Antes disso, amaram-se em um gozo febril.
A mulher enlouqueceu e passou a delirar. Bebia as águas do mar dizendo que era vinho e dava gargalhadas.
“Ela tinha febre no cérebro...e meu estomago tinha fome”!
Apertou-a fortemente, sufocando-a.
“Aperteia-a nos meus braços, oprimi-lhe nos beiços a minha boca em fogo, apertei-a convulsivo, sufoquei-a. Ela era ainda tão bela!”
Sentiu uma vertigem, parecia que o mar ria dele, de repente uma onda roubou-lhe o cadáver, ele viu o defunto erguer-se na escuma das vagas, depois desaparecer.
Não sabe por quanto tempo passou inconsciente, quando acordou desse pesadelo, estava a bordo de um navio inglês Swallow, que o salvara.
Em seguida, grita á taverneira, chamando-a de bastarda de Satã, pois as garrafas estavam vazias.

OBSERVAÇÕES:

Neste conto a figura de Ângela foge do modelo romântico de mulher idealizada pelo autor em toda em toda a obra. Ela não é pálida nem frágil como as demais, pelo contrário, é morena; não se mostra passiva, mas ativa, tem poder de decisão, entrega-se a Bertram porque assim o desejo. Para ficar com ele, não hesita em assassinar o marido e cometer infanticídio. Além do mais, foge do modelo de mulher-anjo para representar um ser demoníaco e decaído, afinal bebe, fuma, veste-se e age como homem, apesar de seu nome indicar o oposto.
Esse comportamento masculino traduz certa ambigüidade à personagem, daí o amor anormal que despertaria no protagonista.
O conto apresenta provas do comportamento devasso e desabusado do protagonista que, aproveitando-se daquele que o salvou de um atropelamento, seduz-lhe a filha e foge com a moça. Tal comportamento é continuado ao vender a moça para um pirata, traduzindo a visão da mulher como objeto de posse. A atitude da moça é geradora de mais duas tragédias: assassina o comprador e suicida. Como se não bastasse, paga a acolhida do comandante em seu navio tornando-se amante de sua mulher. O final do conto não poderia ser mais macabro, aludindo à necessidade de sobrevivência, mata o comandante e pratica a antropofagia. Assim temos: adultério, homicídio, suicídio e antropofagia reunidos no mesmo conto.
Como ocorre no comportamento do protagonista, predomina na epígrafe do terceiro conto uma tendência individualista: “Mas porque eu deveria chorar pelos outros / Se ninguém suspira por mim?”

CONTO IV

GENNARO

Esta história se passa na Itália.
Gennaro diz que enquanto ouvia a história de Bertram, lembrou-se de uma de suas histórias - uma história que envolve duas mulheres e um velho.
Godofredo Walsh era um pintor, um gênio e ele, Gennaro, um aprendiz de pintura que fora morar na casa do mestre.
Nesta época, o mestre estava casado em segundas núpcias com Nauza, uma jovem bela de vinte anos, que servira de sua modelo. Godofredo tinha uma filha do primeiro casamento, Laura de quinze anos.
Gennaro era lindo, tinha dezoito anos, puro, melancólico como o Rafael se retratou no quadro da galeria Barbefini.
Gennaro apaixonou-se platonicamente por Nauza, esposa do pintor.
Laura era uma moça pálida, de cabelos castanhos e olhos azulados, parecia querê-lo como a um irmão.
“(...) Seus risos, seus beijos de criança de quinze anos eram só para mim. À noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com minha lâmpada, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces , nas trevas”.
Todas as noites antes de deitar-se, Gennaro despedia-se de Laura com um beijo nas faces. Uma manhã, quando o mestre tinha saído e Nauza ido à igreja, Laura aproveitou-se da ocasião, foi até o quarto de Gennaro e deitou-se ao seu lado. Excitado e atraído pela beleza da moça ainda inocente, possui-a e tornaram-se amantes.
“O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente, o seio seminu de uma donzela a bater sobre o meu, isso tudo...ao despertar dos sonhos alvos da madrugada , me enlouqueceu...”
A partir desse dias, todas as manhãs, Laura encaminhava-se ao quarto de Gennaro e lá se amavam.
Passaram três meses, até que um dia, Laura anunciou que estava grávida e implorou que ele se casasse com ela. Gennaro calou-se. Laura chorou muito e foi levada para o seu quarto por Gennaro.
Gennaro não sabia o que fazer, tinha medo de contar ao mestre o ocorrido e ele matá-lo, ou expulsá-lo de sua casa.
“Era uma luta terrível essa que se tratava entre o dever e o amor, e entre o dever e o remorso”.
Além disso, existia Nauza e o seu amor por ela aumentava cada vez mais.
Laura calou-se. Tinha um sorriso frio e tornava-se cada dia mais pálida. A gravidez não aparecia e Laura ia morrendo aos poucos.
Godofredo tinha insônias, não pintava mais, arrancava os cabelos brancos vendo o estado de sua filha sem ter o que fazer.
Até que em uma noite, Gennaro foi chamado às pressas, Laura morria e queria falar com ele. No delírio de sua febre, ela murmurava o seu nome. Ao entrar em seu quarto, foi reconhecido pela doente. Laura apertou sua mão e com muitas dificuldades murmurou em seus ouvidos:
“- Gennaro, eu te perdôo tudo...Eras um infame...Morrerei...Fui louca...Morrerei...por tua causa...teu filho...o meu...vou vê-lo ainda...mas no céu...meu filho que matei...antes de nascer...”
Laura deu um último suspiro e morreu.
Passou um ano, o mestre parecia louco. Todas as noites, Godofredo se trancava no quarto que fora de Laura e lá passava a noite inteira em plena solidão, afogando-se em soluços.
“Depois tudo emudecia: o silêncio durava horas; o quarto escuro; e depois as passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de bêbado que cambaleia”.
Uma noite Gennaro confessou o seu amor por Nauza. Inicialmente, Nauza o desprezou, mas quando o jovem ameaçou partir para longe, ela chorou e tornaram-se amantes.
À noite, enquanto Gennaro passava soluçando no leito da sua filha falecida, Gennaro e Nauza se amavam em seu leito conjugal.
Uma noite, o mestre veio até o leito de Nauza e levou Gennaro pelo braço, arrastando-o para o quarto que fora de Laura e atirou-o no chão.
Em seguida, ergueu um lençol que cobria um painel e mostra-lhe uma pintura: era Laura moribunda, que murmurava nos ouvidos de Gennaro toda a sua verdade.
“Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me e chorei lágrimas ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se erguia dentro os lençóis de seu leito e me acendia o remorso e no remorso me rasgava o peito”.
A partir dessa noite, o mestre começou a tratá-lo com indiferença e friamente.
Gennaro recorda-se que na noite em que contara a verdade ao mestre, vira através de um espelho uma roupa branca passar por perto, só devia ser Nauza que ouvira tudo.
O ritual de Godofredo se repetia diariamente. Gennaro certa noite, o seguiu e descobriu que Godofredo era sonâmbulo.
Uma noite, depois da ceia, o mestre tomou sua capa e lanterna e chamou Gennaro para acompanhá-lo. Rinha que sair da cidade e não queria ir só.
A noite estava escura e fria, mas pelo barulho das pedras soltas, percebia que estavam à beira de um despenhadeiro.
Caminharam juntos por muito tempo, até que o mestre pediu que Gennaro o esperasse ali. O velho bateu à porta de uma cabana e entrou. Quando a porta se fechou deu para ver uma mulher lívida e desgrenhada com um facho na mão.
O mestre retornou e disse a Gennaro que iria contar-lhe uma história.
Na realidade, a história que o mestre contou-lhe era a própria história de Gennaro e Laura.
Gennaro pediu-lhe perdão e o mestre perguntou se Gennaro teve piedade da virgem, desonrada e infanticida.
Godofredo diz que se existisse castigo pior que a morte, ele lhe daria, pede, então, para que Gennaro olhasse para o despenhadeiro, pois lá seria o seu túmulo seguro.
Gennaro tinha que escolher entre o suicídio ou o assassinato, não tinha outra saída, além do mestre ser mais forte que ele, também estava armado. Restava apenas ser atirado ou jogar-se no abismo.
Gennaro disse que estava pronto, depois veio uma vertigem e de repente não sentiu mais nada.


Quando acordou estava numa cabana de camponeses que o salvaram. Na queda Gennaro ficou preso nos ramos de uma azinheira enorme.

Já totalmente recuperado, resolveu procurar o mestre, quem sabe agora ele o perdoaria, pois viver com aquele remorso era impossível.
No caminho encontrou um punhal e reconheceu ser do mestre. Então, veio-lhe a ideia de vingança e não de humilhação.
Chegando à casa do mestre, encontrou-a fechada, chamou e ninguém veio atender. Então, ele arrombou uma das portas e entrou.
Ao abrir a porta do quarto de Nauza, sentiu um cheiro pestilento.
Nauza estava morta, com a face na mesa e os cabelos caídos. O mestre, também, morto numa poltrona coberto com um capote, entre eles, um copo onde se depositara um resíduo.
Com certeza, esse veneno fora vendido por aquela mulher da cabana. O mestre acreditando que Gennaro estivesse morto envenenou Nauza e a si mesmo.
“Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabeça...Era Nauza, mas Nauza cadáver, já desbotada pela podridão. Não era aquela estátua alvíssima de outrora, as faces macias e o colo de neve...era um corpo amarelo...Levantei uma ponta da capa do outro: o corpo caído de bruços com a cabeça para baixo; ressoou no pavimento o estalo do crânio...Era o velho! Morto também, roxo e apodrecido!...Eu o vi: da boca lhe corria uma escuma esverdeada”.


OBSERVAÇÕES:

Nesse conto, a falta de virtudes morais do protagonista leva-o a desonrar a filha de seu mestre de pintura, mesmo amando loucamente a jovem esposa de seu preceptor. Seu ato é consciente, apesar de sua pouca idade. Tinha também consciência, ao descobrir que a jovem estava grávida, de que deveria assumir a paternidade e honradamente casar-se com ela. Entretanto, sabia que, se o fizesse, perderia qualquer chance de seduzir a mulher do mestre. Assim, deixou que a jovem fosse levada ao desespero de cometer o aborto e deixar-se morrer de tristeza e dor. Acaba conseguindo realizar seu intento e seduz a mulher do mestre. Este, tomado pela loucura, acaba descobrindo tudo e tenta matá-lo. Julgando-o morto, envenena a esposa e comete suicídio.
A epígrafe trabalha com a ideia de matar ou morrer, que se configura no clímax do conto.

CONTO V



CLAUDIUS HERMANN


Hermann é chamado para contar também a sua história.
Johann ergueu sua cabeça da mesa e zombou de Hermann dizendo que ele estava a sonhar com algum soneto no estilo de Petrarca.
Claudius a delirar disse que nesta vida também desfolhou crenças e despiu suas roupas perfumadas para trajar a túnica de saturnal.
Bertram empolgou-se dizendo que Claudius está completamente bêbado e romântico.
A história de Claudius passou-se em Londres.
Ele era um jovem rico, amante de prazeres e jogatinas.
“O suor de três gerações, derramava-o eu no leito das perdidas, e no chão das minhas orgias...”
Durante uma corrida de cavalos, enquanto todos estavam apreensivos, passou uma mulher a cavalo e despertou a atenção de Claudius.

 
Era uma mulher de “beleza plástica e harmônica, linda nas suas cores puras e acetinadas, nos cabelos negros e a tez branca da fronte, o oval das faces coradas, o fogo de nácar”.

Os amigos riem, ironizando o romantismo de Claudius.
“Romantismo! Deves estar muito ébrio, Claudius, para que nos teus lábios secos de Lovelace e na tua insensibilidade de D. Juan venha á poesia ainda passar-te um beijo!”
Bertram gritou por poesia e Claudius definiu a poesia como sendo meio cento de palavras sonoras e homens pálidos...”O vôo das aves da manhã”.
O jovem retrucou o escárnio dos rapazes. Em seguida, o pessoal pede para ele deixar de falar coisas que ninguém entende e prosseguir em sua história.
Claudius retomou a narrativa.
Naquele dia, no turfe com uma aposta, Claudius conseguiu dobrar a sua fortuna, mas o que mais lhe marcou foi à imagem daquela bela mulher.
No dia seguinte, reencontrou-a no teatro. Ficou tão pasmado que não prestou sequer a atenção ao que representavam na época.
Essa mulher era a duquesa Eleonora. Em outro dia, reviu-a num baile e assim passaram seis meses de febre de amor.
Uma noite não bastando somente a admirá-la de longe, subornou um empregado do castelo da duquesa, tirou uma cópia de suas chaves e invadiu o castelo à noite.
A duquesa cansada do baile adormecera num divã.
“Parecia uma fada que dormia ao luar...”
Desesperado por seu amor, havia jurado a si próprio que naquela noite ele a possuiria.
“Quanto a esses prejuízos de honra e adultério, não rias dele – não que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era como a folha de um punhal – ferir ou estalar”.
Na mesa encontrava-se um copo e um frasco de vinho espanhol. Chegou perto da moça, deu-lhe um beijo e semi-adormecida, ela murmurou “amor”.
Claudius pegou de um frasco de narcótico com afrodisíaco, despejou algumas gotas em seus lábios e ela caiu em um sono profundo. Então, Claudius, aproveitou-se da fragilidade de Eleonora e amou-a.
“Depois daquela mulher nada houvera mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco das uvas purpurinas do paraíso mais nunca deve inebriar-s do néctar da terra...”
Um mês se passou e a cena repetiu-se.
Uma noite após outro baile, ele a esperou escondido em seu quarto com o narcótico preparado num copo junto à sua cabeceira. Eleonora entrou com o duque Maffio. Fizeram-se carícias e o duque tomou alguns goles do líquido. A esposa apaixonada tomou-lhe o copo das mãos e terminou de beber o restante.
Eleonora perguntou ao marido se ele voltaria naquela noite e ele, confirma que sim.
Claudius escondido a assistir a cena, riu, pois tinha certeza que o marido estaria em sono profundo.
Eleonora começou a despir-se deixando Claudius completamente enlouquecido, mas como o preparado era muito forte, ela deixou-se cair de sono.
Claudius pegou a duquesa e a raptou, levando-a para uma estalagem e velando o seu sono.
Quando a moça acordou ficou desesperada, perguntava se aquilo não era um sonho, onde estava e quem era o homem encostado em seu leito, além de estar envergonhada por estar quase nua na frente de um estranho.
Eleonora não entendia que estava acontecendo. Tinha dormido em seu palácio e acordou em um lugar estranho. Ela perguntava sobre o marido e chegou a acreditar que fosse até brincadeira dele para assustá-la.
Desesperada, ela ajoelhou-se, implorou, questionou, no entanto, Claudius só a escutou e nem sequer ouviu suas palavras, perdido como estava com sua beleza.
A duquesa cobriu os seios e correu até a janela para gritar por socorro. Claudius a impediu tapou sua boca e passou a lhe dar explicação.
Claudius confessou sobre seu amor louco por ela e de seu passado.
Eleonora respondeu:
“- Meu Deus! Meu Deus! Por que tanta infâmia, tanto lodo sobre mim? Ó minha madona! Por que maldissestes minha vida, por que deixaste cair na minha cabeça uma nódoa tão negra?
Claudius pediu-lhe perdão e jurou tornar-se seu escravo. Disse-lhe que deitará aos seus pés, protegê-la o tempo todo e se um dia ela pudesse amá-lo...
Ela perguntou se ele não tinha compaixão por ela, pediu-lhe de joelhos que a perdoasse caso ela tivesse lhe ofendido e acrescentou que ela não tinha culpa dos sonhos dele e de seus desejos por ela.
Vendo-se completamente perdida, ela, então pediu que ele a matasse. Claudius diz que ela estava sendo insensata por desejar a morte, que havia muita vida e muito amor por se amar ainda. Ela responde que é impossível amá-lo.
“Põe a mão no teu coração...bate...e bate com força como o feto nas entranhas de sua mãe. Há ali dentro muita vida ainda, muito amor por amar, muito fogo por viver! Oh! Se tu quisesses amar-me!”
Claudius tentou convencê-la que era tarde para voltar atrás. As pessoas teriam ódio dela, principalmente Maffio, pois seria considerada como uma mulher adúltera. Todos zombariam e se afastariam dela. Agora, se ela ficasse, teria um amante apaixonado.
Disse ser muito rico a ponto de adorná-la como uma rainha, viajariam e seriam felizes. Deixou-a á sós para pensar e retornou duas horas depois.
Ao voltar, encontrou Eleonora deitada com o rosto entre as mãos e ele pode ver um papel molhado por suas lágrimas. Reconheceu serem seus versos que escreveu pensando nela. Viu também sobre a mesa sua carteira revirada.
Nesse momento, Claudius tirou do bolso um papel amarrotado e atirou na mesa. Os versos foram lidos por Johann.

Não me odeies, mulher, se no passado
Nódoa sombria desbotou-me a vida,
- É que os lábios queimei no vício ardente
E de tudo descri com fronte erguida.

A máscara de Don Juan queimou-me o rosto
Na fria palidez do libertino:
Desbotou-me esse olhar...e os lábios frios
Ousam maldizer do meu destino.

Sim! Longas noites no fervor do jogo
Esperdicei febril e macilento
E votei o porvir ao Deus do acaso
E o amor profanei no esquecimento!



..................................



E então acordarei ao sol mais puro,
Cheirosa a fronte às auras da esperança!
Lavarei-me da fé nas águas d’ouro
De Madalena em lágrimas!...e ao anjo



Talvez que Deus me dê, curvado e mudo,
Nos eflúvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lábios dele!


Claudius perguntou a decisão de Eleonora. Ela ajoelhou-se, rezou, disse que iria com ele e, em seguida, desmaiou.
Claudius abaixou a cabeça na mesa e não conseguiu prosseguir a sua história. Archbald perguntou-lhe se ele estava bêbado ou morto. Levantou a cabeça e disse que estava com sono. Solfieri insistiu na continuação da história, mas Claudius estava sem condições. Disse, inclusive, que tinha esquecido tudo.
Arnold, o louro que acabara de acordar, pediu paciência que ele terminaria a história.
Disse que um dia Claudius entrou em casa e encontrou a cama ensopada de sangue e num canto escuro um homem abraçado a um cadáver.
O cadáver era Eleonora e o doido que estava quase que irreconhecível, mas, que Claudius o reconheceu, era Maffio.
“...o doido nem o pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação luminosa dos pauis entre as trevas...”
Claudius soltou uma gargalhada e caiu no chão bêbado.
Arnold esticou a capa no chão e deitou-se sobre ela e roncou.

OBSERVAÇÕES:

O protagonista do conto é um jovem rico e devasso, entregou a sua juventude ao jogo e ao amor com prostitutas. De repente, é tomado de paixão por uma jovem duquesa casada e apaixonada pelo marido. Sabendo da impossibilidade de conquistá-la por meio convencionais, consegue obter de um criado ambicioso uma cópia da chave da duquesa e vai visitá-la enquanto ela dorme. Lançando mão de um sonífero, apesar da mulher estar dormindo, satisfaz seus desejos sexuais. Cabe ressaltar que o protagonista não vê qualquer mal em sua atitude, pois visa unicamente à satisfação de seus apetites sexuais. Não satisfeito, entretanto, com as incursões noturnas, termina por raptá-la e tenta aceitá-lo como amante. O final do conto é marcado pela tragédia: o marido assassina a esposa adúltera e fica abraçado ao cadáver, tomado pela loucura.
Encontram-se, nesse conto, os elementos amor e medo. Ele só atinge a realização de seus objetivos porque a mulher dorme profundamente.
O autor toma Shakespeare como referência, empregando uma epígrafe que alude à temática do êxtase.

CONTO VI



“JOHANN”


Johann reclama a sua vez de contar sua história. Foi em Paris, num bilhar, bêbado de kirsch (bebida destilada de cerveja) e curaçau (licor). Jogava contra um moço chamado Arthur.
Arthur era uma figura loira e mimosa como uma donzela.
Faltava só um ponto para Artur vencer; para Johann faltavam muitos.
Quando soltou a bola, o bilhar estremeceu, a bola desviou e ele perdeu o jogo. Não se sabe se o moço fez isso de propósito. Arthur olhou para Johann e sorriu com escárnio. Johann tomado de raiva deu uma bofetada em Arthur e, este revidou com um punhal, mas os amigos o detiveram.
Arthur jogou-lhe uma luva contra o rosto de Johann, “era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue”, então, estabeleceram um duelo.
Artur diz que escolheria as suas armas e que o lugar Johann saberia. O duelo seria realizado naquela hora e não teriam testemunhas.
Deram-lhe os braços e saíram. Os amigos pensaram que tinha havido uma reconciliação, somente um dos assistentes percebeu a gravidade do problema e tentou convencê-los a entrarem num acordo.
No entanto, eles deixaram bem claro que estavam firmes em suas decisões.
Arthur levou Johann até o seu hotel e disse que já que não teriam perdão, que seria um duelo de morte.
“- Senhor – disse ele – não há meio de paz entre nós: um bofetão e uma luva atirada às faces de um homem são como nódoas que só o sangue lava”.
Artur pediu-lhe para esperar alguns minutos, escreveu algumas linhas e entregou a Johann que se negou a ler.
“- Senhor, sois um homem de honra. Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma carta, entregareis tudo a...Depois dir-vos-ei a que...”
Em seguida, selou o lacre com um anel que trazia nos dedos e ao ver o anel, uma lágrima corou sua face, molhando o papel.
Pediu a Johann caso ele morresse, para ele pegar aquele anel e a carta que se encontrava em seu bolso e entregar...
Antes do duelo, decidiram tomar vinho do Reno e brindarem àquele que morreria. Arthur pede permissão para brindar alguém, mas que era segredo.
Depois, Artur apanhou duas pistolas e disse que uma delas estava carregada. Atirariam à queima-roupa.
Johann protestou dizendo que isso era assassinato, mas, depois acabou por concordar. Foram até um canto deserto da rua, Artur pede que Johann escolha a sua pistola sem tocá-la. Artur tem um pressentimento e pede para rezar por sua mãe. Vendo essa cena, Johann lembrou-se que também tinha mãe, e irmã e que, sempre as esquecia perdido como estava nesse mundo de orgias. Acrescentou que até então só havia amado mulheres perdidas.
Encostaram, finalmente, as pistolas nos peitos.
“As espoletas estalaram, um tiro só estrondou, ele caiu morto...”
Artur estava no chão.
Johann tirou-lhe o anel e encontrou em seu bolso dois bilhetes. Como estava escuro, teve de esperar chegar à cidade para lê-los. Um bilhete era para sua mãe e o outro que estava aberto, estava escrito:
“À uma hora da noite na rua de...número 60, primeiro andar; acharás a porta aberta. Tua G.”
Sem saber o que pensar e tomado de ideias imorais, dirigiu-se ao local. Estava escuro.
“Tinha no dedo o anel que trouxera do morto...Senti uma mãozinha acetinada tomar-me pela mão, subi. A porta fechou-se”.



Naquela noite, Johann amou a amante virgem de Artur e confessou ter sido uma noite deliciosa.

Ao sair, deparou-se com um vulto. A voz parecia-lhe conhecida. Dizia esperá-lo há muito tempo. O vulto acompanhou Johann e ele pode ver uma lâmina em sua mão. Lutaram no escuro.
O adversário perdeu o punhal. Johann conseguiu sufocar com o joelho a garganta do desconhecido que, antes de morrer, mordeu com violência sua mão.
Na saída Johann, tropeçou em uma lanterna, quis ver o rosto do homem que acabara de matar. Johann não acreditou no que vira, arrastou o cadáver até a calçada para ver melhor com a luz do lampião e reconheceu que o jovem morto era seu irmão.
Uma ideia martelava em sua mente, subiu correndo as escadas e encontrou a moça desmaiada de susto por causa da luta.
Desesperado Johann interrompeu sua narrativa para pedir mais conhaque, pois estava tremendo. Perguntaram o que ele tinha e Johann respondeu que ele descobriu que tinha amado a sua própria irmã

OBSERVAÇÕES:

A narrativa é marcada pelo clima boêmio que dominou o comportamento dos jovens do século passado, frequentadores assíduos de tavernas, cafés e bilhares. Misturavam-se nessa atitude típica de rebeldia contra a sociedade burguesa os comportamentos desregrados, tais como a jogatina, a sexualidade despudorada, o alcoolismo, a violência dos duelos, enfim uma vida marcada por valores repudiados pelas pessoas de bem.
O conto tem seu espaço inicial marcado em Paris, onde ocorre um duelo, um incesto e ainda um fratricídio. O que fica bem evidente, como nos demais contos, é o comportamento amoral, degradante e desprezível do protagonista. Johann, não satisfeito de matar num duelo por causa de um jogo de bilhar, ainda se aproveita de um pedido do antagonista (Artur), que confiando em sua dignidade, desvirginou a amante do rapaz (sua própria irmã) e, ainda não saciado em seu absoluto declínio moral, mata o irmão que surge para defender a honra da moça (no caso, seu próprio irmão). Assim se sucedem degradantes situações que ora chocam, ora assustam pelo absurdo das situações e coincidências.
Mário de Andrade considera que esse caso de incesto coincide com o comportamento do próprio Álvares de Azevedo, que sentiria profunda atração pela própria irmã como, aliás, boa parte da crítica costuma considerar, “de tudo ressaltando muito bem, e com violenta sensualidade, a esplendidez do ente irmã”.
Outro elemento importante é o caráter de Artur, cuja descrição aproxima-o da ambiguidade da personagem Ângela, claro que por oposição.
A epígrafe desse conto, de autoria de Alexandre Dumas, coloca a ideia da evasão, bem como a inadequação do indivíduo ao seu tempo e à impossibilidade de uma alegria presente. Assim, o indivíduo busca a dor através da memória, do passado.

CONTO VII



“ÚLTIMO BEIJO DE AMOR”

“A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas”.
Enquanto todos dormiam, a porta da taverna abriu-se e entrou uma mulher vestida de negro. Talvez tivesse sido bonita, hoje parecia mais um anjo perdido da loucura.
A mulher carregava uma lanterna na mão à procura de um rosto conhecido.
“Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo, alongou os lábios...Mas uma ideia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os beiços, o olhar tornou-se-lhe sombrio”.
Abaixou-se e colocou uma lâmina no chão. Em seguida, segurou-lhe na garganta.
Levantou, tremeu e, ao segurar a lanterna, ressoou na mão um ferro.
Suas mãos tremiam, atirou o punhal no chão e limpou suas mãos vermelhas de sangue nos cabelos de Johann. A mulher misteriosa encaminhou-se até Arnald, acordou-o e perguntou se ele não a reconhecia.
Arnold ficou surpreso, fazia cinco anos que não se viam.
“-Sim, já não sou bela como há cinco anos! É a verdade, meu louro amante! É que a flor da beleza é como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza, e serão belas...Revolvei-as no lodo...e, como os frutos que caem e mergulham nas águas do mar, cobrem-se de um invólucro impuro e salobre! Outrora era Giórgia – a virgem mas hoje é Giórgia – a prostituta!”
Arnold recordou-se daquela noite a cinco anos atrás; o jogo de bilhar; o duelo; o hospital onde acordou ensanguentado após o duelo com o homem do bilhar e a vida devassa que lhe restou.
Giórgia diz que veio se despedir. Queria um beijo de adeus, da separação, pois na terra o seu amor seria impuro, não via possibilidade de um amor entre uma prostituta e um libertino. Satã riria deles.
Arnold diz que teria sido melhor ter morrido devorado pelos cães na rua deserta a ser salvo. Que teria sido melhor morrer ébrio a vê-la e perdê-la novamente.
“Não pensaste que, após cinco anos, cinco anos de febre e de insônias, de esperar e desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para deixar-te?”
“- Compaixão, Arnold! É preciso que esse adeus seja longo como a vida. Vês, minha sina é negra: nas minhas lembranças há uma nódoa torpe...Hoje! É o leito venal...Amanhã! Só espero o leito do túmulo! Arnold! Arnold!”
“- Não me chames Arnold! Chama-me Artur, como dantes. Artur! Não ouves? Chama-me assim! Há tanto que não ouço me chamarem por este nome!...Eu era um louco! Quis afogar meus pensamentos e vaguei pelas cidades e pelas montanhas, deixando em toda a parte lágrimas...nas cavernas solitárias, nos campos silenciosos e nas mesas molhadas de vinho! Vem, Giórgia! Senta-te aqui, senta-te nos meus joelhos, bem conchegada a meu coração...tua cabeça no meu ombro! Vem! Um beijo! Quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lábios. Respire-o eu e morra depois!...Cinco anos! Oh! Tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu seio!...Depois...escuta...tenho tanto a dizer-te! Tantas lágrimas a derramar no teu colo! Vem! E dir-te-ei toda a minha história! Minhas ilusões de amante e as noites malditas da crápula e o tédio que me inspiravam aqueles beiços frios das vendidas que me beijavam! Vem! Contar-te-ei tudo isto, dir-te-ei como profanei minha alma e meu passado...e choraremos juntos...e nossas lágrimas nos lavarão como a chuva lava as folhas do lodo!
- Obrigada, Artur! Obrigada!
A mulher sufocava-se nas lágrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.
- Escuta Artur, eu vinha só dizer-te adeus! Da borda do meu túmulo; e depois contente fecharia eu mesma a porta dele...Artur, eu vou morrer!
Ambos choravam.
- Agora vê – continuou ela. – Acompanha-me: vês aquele homem?
Arnold tomou a lanterna.
- Johann! Morto! Sangue de Deus! Quem o matou?
- Giórgia! Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara numa casa de jogo. Giórgia – a prostituta! Vingou nele Giórgia – a virgem! Esse homem foi quem a desonrou! Desonrou-a...a ela que era sua irmã..."
Giórgia após revelar seu segredo disse que se continuasse viva, haveria uma lembrança em seu passado e que estava morrendo. Arnold diz não se importar com o sonho da morte. Preferia morrer juntos.


"A mulher recuava...recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos dela...Ela deu um grito e caiu-lhe das mãos. Era horrível de ver-se. O moço tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-o no peito e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo.

A lâmpada apagou-se”.


OBSERVAÇÕES:

A última parte do livro revela bem seu caráter nitidamente romântico. A irmã desvirginada no ato incestuoso do irmão Johann retorna para vingar-se, depois de tornar-se prostituta. Revela-se ainda que Arnold na verdade é Artur, o jovem que supostamente fora morto no duelo com Johann. Giórgia vinga-se tirando a vida do irmão e reencontra o antigo amante, terminando por morrer em seus braços. Arnold, vendo a amada, reencontrada depois de cinco anos em seus braços, mata-se, caindo sobre o seu corpo.
O título sugere bem o clima dessa última parte, pois é a despedida final dos amantes e ainda o encerramento da obra. É um beijo mortal e último, que se encerra com a morte dos protagonistas. Esse clima de desamor ou de amor impossível predomina, traduzindo com bastante clareza a visão do amor impossível ou do amor degradado que paira sobre os jovens escritores do romantismo.
Cabe também ressaltar que essa última parte sugere em seu clímax um desfecho de tragédia, aproximando o texto, que também emprega constantemente o diálogo, das peças dramáticas.
A epígrafe desse conto retoma, ainda uma vez, Shakespeare, traduzindo a ideia de amor e morte, que se configura no clímax do texto.

sábado, 16 de abril de 2011

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS, MARCELO GOMES

Direção: Marcelo Gomes.

Roteiro: Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Karim Aïnouz, inspirados em relato de viagem de Ranulpho Gomes.
Elenco: João Miguel, Peter Ketnath, Hermila Guedes, Oswaldo Mil, Irandhir, Fabiana Pirro, Verônica Cavalcanti, Daniela Câmera, Paula Francinete, Sandro Guerra, Madalena Accioly, Arílson Lopes, José Leite, Zezita Matos, Francisco Figueiredo, Mano Fialho, Lúcia do Acordeão, Jorge Clésio, Nanego Lira.
Fotografia: Mauro Pinheiro.
Montagem: Karen Harley.
Direção de Arte: Dedete Parente Costa.
Música: Tomás Alves de Souza.
Figurinos: Beto Normal.
Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu e João Vieira Jr.
Duração: 90 min.

Filme baseado em relatos do tio avô do diretor Marcelo Gomes, a história contra o encontro deste paraibano que, na década de 40, resolve migrar para o sudeste para procurar uma vida melhor longe da seca nordestina, com o alemão Johann, que viaja pela região como caixeiro viajante, vendendo “a cura para todos os males”, a Aspirina. Para divulgar o produto, Johann exibe filmes em praça pública, proporcionando a primeira experiência cinematográfica para aquelas pessoas. Um filme do gênero “road movie” sobre a construção da amizade entre pessoas de culturas diferentes, é também um retrato da modernização do Brasil e da sua participação na 2ª Guerra Mundial.” (FGV-Direito)

I – HISTÓRICO:

A minha intenção foi fazer um filme que falasse sobre a alteridade. Ranulpho, o personagem brasileiro, é um homem sisudo e fechado, marcado pela dura vida no sertão. Johann, ao contrário, é alegre e gentil. Com esta “inversão”, eu queria desconstruir o estereótipo. Os dois estão na mesma situação e precisam um do outro para sobreviver: um foge da guerra; o outro, da seca. Através da amizade com Ranulpho, Johann consegue interagir com aquela pobre região brasileira. A necessidade obriga Ranulpho a abrir-se. Ele passa a ver Johann não mais como um alienígena, mas como um amigo", acrescenta o diretor.

O filme de Marcelo Gomes, no entanto, trata não apenas do luto que é deixar suas raízes, mas da busca de uma nova identidade para aquele que se exila. Por isso é tão importante o encontro do alemão e do sertanejo, porque é no embate com o diferente que vai se delinear o novo ser que nasce. Se a viagem é a perda de países e, do mesmo modo, uma forma subjetiva de morte, o encontro é um renascer modificado, é também um exercício de alteridade.
"Cinema, Aspirinas e Urubus", assim, metaforiza a possibilidade do encontro dessas duas culturas diferentes. Duas personagens em transformações, unidas pela incerteza de seus destinos.
Marcelo Gomes escreveu o roteiro do seu filme, baseando-se numa história real, contada por seu tio-avô, Ranulpho Gomes.

Meu tio vendeu aspirina e exibiu filmes no sertão”, afirma o diretor pernambucano Marcelo Gomes em entrevista para a Folha Online.


Folha Online - Em "Urubus", o sertão também aparece com força. Qual a sua relação com a região?
Gomes - Ele é o grande teatro onde acontece o drama dos personagens. Eu falo que o filme não é sobre o sertão, ele é no sertão, o que tem uma carga dramática importante. A seca do sertão em algum momento lembra a neve na Alemanha. Gravamos na Paraíba, com 42 graus, filmava só sol a pino porque queríamos aquela luz. A gente sofreu muito para filmar nessas condições.
Folha Online - O que mais lhe encantou nos elogios da crítica?
Gomes - Houve uma compreensão do filme, o que me deixou com muito ânimo para lançar no Brasil. É um filme sobre pessoas que querem descobrir um caminho melhor para as suas vidas. São personagens que, apesar de contingências políticas e sociais adversas, precisam buscar o seu próprio mundo. Neste momento, você não tem mais o nordestino fugindo da seca ou o alemão da guerra, mas dois seres humanos. Isso faz com que o brasileiro e o nordestino estejam no mesmo patamar. Isso fez do filme universal, e garantiu a compreensão.
Folha Online - Qual foi sua fonte de inspiração para escrever o roteiro?
Gomes - O meu tio-avô me contou esta história há dez anos. Depois disso, fui para a Inglaterra estudar cinema, voltei, mas a ideia ficou me martelando. Ele, inclusive, ainda mora em São Paulo e tem 97 anos. Quando ouvi a história, vi logo este elemento universal. O filme que se passa em 1942 poderia se passar agora, é muito contemporâneo, pois fala de solidão, de destino, de ter a compreensão, de aceitar pessoas de culturas diferentes. Meu tio realmente vendeu aspirinas e exibiu filmes pelo sertão nordestino na época.
Folha Online - Por que vocês não procuraram o laboratório farmacêutico para obter apoio já que falam da aspirina?
Gomes - (Risos) A gente pediu autorização para usar o nome, mas queríamos ter a maior liberdade possível. O filme não é sobre a aspirina, estamos falando sobre outras coisas.
Folha Online - Vocês tiveram contato com o povo da região?
Gomes - Os encontros que nós tivemos com as pessoas foram maravilhosos. Embora eu conheça o sertão desde pequeno, aquelas pessoas participaram do nosso filme. E estão impressas nele. Todo o elenco é de nordestinos, menos o alemão. Acho que tudo isso imprime essa cor local.

“Cinema, aspirinas e urubus” não almeja ser o “grande filme”, e é justamente por isso que se torna um: pela calma certeza sobre o seu relato e sobre o poder (quase esquecido no Brasil) do simples contar uma história pelo cinema. Em sua mistura precisa de preocupações narrativa e de personagens com o apuro técnico-conceitual (que em nada soa esquizofrênica), ele faz uma ponte entre um cinema popular possível e um instrumental mais caro de um “cinema de arte”.

II – MONTAGEM:

DIREÇÃO:
"Cinema, Aspirina e Urubus" é um emocionante “road-movie” brasileiro, gênero de filme em que o enredo centra-se em torno de uma viagem de estrada. Trata-se do primeiro longa-metragem realizado pelo cineasta amazonense, radicado em Pernambuco, Marcelo Gomes.
O enredo cabe em um curta-metragem, mas a direção de Marcelo Gomes o desdobra e alcança um tom de relato visual, que observa, registra e deixa as conclusões para a platéia. É de forma bem direta que retrata ao seu modo, um sertão inóspito e encantador.
A direção delicada, o texto sutil e vigoroso e as interpretações cativantes ganham reforço de uma bela embalagem técnica, desde a fotografia assumidamente estourada à cuidadosa direção de arte, passando pela bela trilha.
A pouca cerimônia ronda também as interpretações, bem sinceras, e chega a muitas das personagens, que sequer têm nomes, formados por moradores do sertão paraibano, bem como, por atores desconhecidos.
Um filme em que a câmera não acompanha a geografia e prefere prender-se a suas personagens, na sombra da boléia do caminhão e próxima às velas e lamparinas que lutam contra a noite. Dessa forma, os “road-movies” carreguem consigo o clichê de ser uma metáfora para a transformação ou redenção de suas personagens, de redescoberta, onde o ponto principal é a própria “viagem interna” das personagens.
Se para alguns espectadores o enredo peca em temática, por outro lado, é marcante pelo trabalho técnico acentuado pela câmera livre, frequentemente muito próxima dos atores, e pelas cenas ao ar livre e na estrada.
O júri justificou o prêmio pela "capacidade do filme de mudar nosso olhar sobre o mundo" e pela "recusa dos clichês”.

FOTOGRAFIA:
"Cinema, Aspirina e Urubus" apresenta, ainda, uma bela trilha sonora, a magnífica fotografia de Mauro Pinheiro Júnior e ótimas interpretações dos atores principais, com destaque para a atuação do baiano, João Miguel. A fotografia, longe de evitar a luz cáustica do sertão, busca assumi-la enquanto elemento vivo daquele ambiente hostil, retorcido e seco como elemento visual. É tão arisco, que não é permitido vê-lo em sua totalidade. As imagens surgem sempre esbranquiçadas, quase monocromáticas. Tudo é cor de terra.
Embora imprima um ritmo um pouco lento, em nenhum momento o filme torna-se desinteressante.
O sol parece ser integrante do elenco. As cores esmaecidas da imagem confundem gente e paisagem, tornando opacas como todas as outras cores, alegorizando a monotonia do cenário e a cor local. Trata-se do desmazelamento da realidade do sertão e do sertanejo; das atividades dos protagonistas; reflexões sobre o país e do contexto onde estão inseridas as personagens, destacando as cores de suas roupas em uma imposição social primária.
Contracenando com esse cenário, a cor da pele de Johann, o alemão, quase se dissocia como se devorado pela própria seca, tornando-se possuído por ela.
Já quando é noite, os sombreados revelam o intimismo das personagens.
É envolto pela sombra que Ramulpho, o nordestino, inventa uma história para a própria vida, assim como Johann conclui (após um pouco de febre causada por veneno de cobra) que passou "a vida inteira juntando dinheiro" e talvez morresse sem aproveitar.
O grande valor da imagem intensifica-se à medida que o filme torna-se mais contemplativo, e, portanto, mais silencioso, usando músicas da própria cena e não uma trilha sonora para arrematar os diálogos concisos.

III – TEMPO E ESPAÇO:

O filme se passa em 1942, no sertão nordestino arcaico, que desconhecia as razões da Segunda Guerra noticiada pelo rádio.
O filme conta a história de Johann (Peter Ketnath), alemão que fugiu do país de origem nos auges da II Guerra e chegou ao Brasil, onde percorre regiões nordestinas vendendo aspirinas.
Marcelo Gomes nos chamou a atenção para a tradição de viajantes alemães ao Brasil. Ele leu os relatos deixados por estes viajantes, que desde o descobrimento se interessaram pela nova terra, escrevendo suas impressões. Através desta visão alemã sobre o Brasil, o cineasta construiu o seu personagem Johann.
Antes do início das filmagens, ele visitou a Alemanha. Surpreso por encontrar aquilo que não esperava como alegria e simpatia, o diretor mudou o caráter do seu personagem.
O diretor não deseja apresentar uma tese sobre o espaço do sertão que retrata, nem sobre a época em que se passa, como vários filmes "regionais" ou "históricos", embora se insira cuidadosamente no espaço e tempo. Seja para abordar qualquer assunto ou simplesmente retratar as peculiaridades do universo sertanejo, o sertão nordestino parece sempre exercer forte fascínio sobre cineastas. Afinal, por sua natureza social e cultural, as figuras do semi-árido, suas casas, os animais, a vegetação e outros elementos do cenário sertanejo rendem boas histórias quando transportados para o cinema, aí adentrando um contexto – o da vida urbana, citadina – que é bem oposto a esses elementos.
Marcelo não negou o sertão humilde, atrasado, exótico aos olhos de fora. A diferença é que o sertão não é personagem aqui. É cenário. Marcelo Gomes explora as particularidades com graça invejável, sem nunca espetacularizá-las, usando-as apenas como suporte para contar sua história. E fazia tempo que o cinema brasileiro não contava tão bem e de maneira tão simples uma história.

IV – PERSONAGENS:

Johann tornou-se um "jovem doce e alegre, um hippie dos anos 40, que não tinha a menor vontade de matar alguém na Segunda Guerra Mundial e, por tal, teve que deixar a Alemanha", explicou o diretor.
Para o seu personagem alemão, Gomes queria um ator alemão que falasse português e não conhecesse o sertão. Ele o encontrou em Berlim. O bávaro Peter Ketnath, 32, já trabalhou para Joseph Vilsmaier em “And Nobody Weeps for Me”, como também para a televisão alemã e francesa.
O baiano João Miguel, 35, o protagonista brasileiro, deveria vir realmente do Nordeste. Ele ganhou o prêmio de melhor ator do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O baiano João Miguel, ator de teatro, estreante no cinema e que, para conquistar o papel, disputou com mais 300 atores. João Miguel é a revelação da trama. Consegue agregar autenticidade a um personagem clássico dos filmes sobre sertão brasileiro. Numa mescla de inocência e esperteza, seu personagem enternece o público; ao mesmo tempo, que, se mostra entre ranzinza e carente.
Um filme de amigos, de parceiros, que tem o mérito extraordinário no cinema brasileiro de nunca querer chamar atenção para si mesmo. É a delicadeza do roteiro e as belas performances dos dois protagonistas que transformar “Cinema, Aspirina e Urubus” na pérola que ele é. O destaque é, obviamente, João Miguel, que dribla com majestade as armadilhas de uma personagem muito fácil de se gostar, o nordestino simpático e engraçadinho. Mas sua atuação só ganha à dimensão que tem pela química acertada com Peter Ketnath.
Certamente, o maior trunfo da produção é a riqueza de suas interpretações. Os dois protagonistas estão competentemente representados.

V – RESUMO DO ENREDO:

Johann, um solitário alemão dirige um caminhão e está perdido pelas estradas esburacadas pelos sertões áridos do nordeste brasileiro, trava contato com sertanejos curiosos por ver um veículo e por ver um estrangeiro: um pequeno recorte da industrialização que começava a se espalhar pelo país de Getúlio Vargas.

Durante o caminho, nos pequenos vilarejos por onde passas, o alemão arma uma tenda, promove aspirinas no interior pernambucano, utilizando-se de filmes promocionais sobre a última novidade farmacêutica do laboratório alemão, Bayer.

O sucesso de sua empreitada está no modo como ele faz a publicidade do produto: projetando propagandas no meio de vilarejos, ao ar livre, e encantando os moradores, que, nunca antes tendo visto imagens em movimento, acreditam tratar-se de um medicamento de outro mundo.
Terminada a projeção, os ingênuos espectadores fazem filas para comprarem o milagroso medicamento que promete o fim de todos os males.
Seu destino o levará cruzar Ranulpho, um sertanejo que deixa o pequeno povoado em que mora e pretende fugir da aridez sem perspectivas do sertão, a fim de tentar uma vida melhor no Rio de Janeiro, a sua terra prometida.

As duas personagens dividem suas projeções: Ranulpho é a alegoria dos insatisfeitos com a vida, para ele, nada é pior que o sertão; enquanto que, para Johann, nada é pior que a guerra.

Juntos, ambos passarão pelas mais incríveis histórias por ora cômicas, por ora trágicas.
Enquanto viajam pelas desertas estradas de terra, Ranulpho vai aos poucos se deslumbrando com a vida de Johann e termina chamando para si o título de ajudante do alemão, ajudando-o nas apresentações dos filmes publicitários nas praças das pequenas cidades.
Durante o filme tudo isso é dito sem muitas palavras, na lentidão do seu tempo e espaço que decorrem ou existem dentro da trama, com suas particularidades, limites e coerências determinadas pelo autor e na força física de suas atuações; quando um povo de uma pequena cidade se assombra e se encanta com a primeira projeção cinematográfica de suas vidas (improvisada, ao ar livre) e nos muitos silêncios das personagens.
As redescobertas acontecem para as personagens à medida que vão exibindo seu cinema publicitário aos sertanejos; à medida que estreitam laços de cumplicidade e descobrem no outro um laço de vida e parceria.

No primeiro terço do filme, as personagens trocam discursos politizados, forçados e fora de lugar. A questão social, embora não se evidencie, força sua entrada em todas as falas. Ranulfo fala de pobreza, de êxodo. Uma outra carona, que logo desaparece, reclama da vida sem expectativas. Parece que todos decidem, espontaneamente, falar sobre suas vidas e problemas a um alemão desconhecido.

No final de agosto, o Brasil declara guerra à Alemanha após vários navios nacionais terem sido torpedeados no litoral nordestino por submarinos nazistas. Como consequência, várias indústrias e empresas comerciais alemães, ou ligadas aos interesses alemães, são fechadas, bem como, seus proprietários e gerentes presos. Nesse contexto, Johann tem que decidir entre voltar para a Alemanha e permanecer no Brasil em um campo de prisioneiros.
Por sugestão de Ranulpho, entretanto, ele prefere tentar fugir para a Amazônia e se misturar aos imigrantes nordestinos que trabalham em seringais na tarefa de extração da borracha. Assim, o alemão se vê obrigado a queimar seus documentos e embarcar num trem de retirantes com destino à Fortaleza, de onde seguirão de navio para a Amazônia.
Antes de partir, Johann entrega as chaves de seu velho caminhão para Ranulpho.

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

“Cinema, aspirinas e urubus” está fadado a ser um filme-paradigma no cinema brasileiro recente.
O primeiro plano de “Cinema, Aspirinas e Urubus” é didático e chave para o entendimento da jornada das duas personagens.
A história de Johann e Ranulpho, espécie de buddy movie pelas estradas do sertão, comove exatamente pelo fato de seu registro apostar tão fortemente na verdade daquela construção ficcional. “Verdade” entendida aqui nem como verossimilhança, nem como “naturalismo”, e sim pelo sentido que realmente importa numa fabulação: a crença do próprio narrador (o cineasta) naquilo que nos narra.
Nesta parte, apresentada totalmente branca e extensa que pouco a pouco revelam detalhes através de um retrovisor de um veículo e de seu motorista, como se os olhos imersos no escuro do cinema precisassem de tempo para se acostumar à claridade seca daquela região.
Depois de quarenta minutos, parecemos estar vendo um outro filme. Se antes a força da história se diluía em diálogos secos e politizados, agora Gomes acerta a mão ao tornar mais clara a relação entre os amigos improváveis, expressando a opressão do mundo sobre o indivíduo, sobre como o exterior define seu caminho. No entanto, sua indecisão entre o panfleto político e a dissecação das relações humanas se mostra problemática, como se ele houvesse feito dois filmes.
Os dramas sociais caem para o segundo plano. Ranulfo se fascina pelo cinema, e, após algumas revelações, sua personagem ganha contornos mais humanos e verossímeis. Entre outros exemplos, um que pode parecer fortuito ou definitivo, de acordo com quem lê: em certo momento, quando o Brasil entra na guerra e a volta de Johann para a Alemanha é exigida, o alemão disfarça seu carro, ele o pinta de preto. Destaca-o do contexto, se concordamos com o que foi escrito, e aí a pintura é apenas simbólica o que se comprova, já que ele o faz para pouco depois abandoná-lo.
Porém, o diferencial da trama é o não exagero. Não há estereótipos. A sutileza pauta toda a abordagem. As cenas que são na sua maioria feitas dentro de um caminhão são agradáveis e a narrativa conduz o expectador, suavemente, ao desfecho já esperado; mas, nem por isso, menos encantador.
A narrativa de Marcelo Gomes é praticamente uma fábula pós-estruturalista: a identificação do "eu" vem através do "outro" e, assim, a alteridade fica preservada. A história nos mostra a possibilidade da coexistência de duas culturas sem que elas tenham que se tornar uma só.
É importante notar a oposição entre o branco e o preto, e a luz e a sombra utilizada por Gomes: de um lado, a aspirina, branca, onipresente na história, “cura para todos os males”; do outro, os urubus, aves de mau agouro, comedoras de restos surgindo no exato momento em que o rumo de uma vida se transforma pela segunda vez, desta vez de verdade e em definitivo. Em última análise, essa relação também está na palavra “cinema”: a luz possibilita a história, mas é sobre a sombra que ela ocorre. A sombra: o único lugar para o amor no filme. Sempre, à noite e à revelia.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

MENINO DE ENGENHO, JOSÉ LINS DO REGO


I - AUTOR:


"Quando imagino nos meus romances tomo sempre como modo de orientação o dizer as coisas como elas surgem na memória, com os jeitos e as maneiras simples dos cegos poetas, José Lins do Rego."


Paraíba, 1901 – Rio de Janeiro, 1957
 
José Lins do Rego nasceu em Engenho Corredor, Pilar, Paraíba, 1901, filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti (morta pelo marido esquizofrênico), fez as primeiras letras no Colégio de Itabaiana, no Instituto N. S. do Carmo e no Colégio Diocesano Pio X, na então cidade da Paraíba, atual João Pessoa. Depois estudou no Colégio Carneiro Leão e Osvaldo Cruz, em Recife.

Após passar sua infância no engenho do avô e ver de perto os engenhos de açúcar perder espaços para as usinas, provocando muitas transformações sociais e econômicas, foi para João Pessoa, onde fez o curso secundário e depois, para Recife.
Em 1920, ingressou na faculdade de Direito.
Formou-se em 1923. Durante o curso, ampliou seus contatos com os intelectuais que seriam os responsáveis pelo clima Modernista Regionalista do Nordeste, tornando-se amigo de José Américo de Almeida, Osório Borba, Luís Delgado, Aníbal Fernandes e, sobretudo, Gilberto Freyre de quem receberia estímulo para dedicar-se à arte de raízes pernambucanas.
Ingressou no Ministério Público como promotor em Manhuaçu, em 1925, embora, por pouco tempo. Casou-se em 1924 com d. Filomena (Naná) Masa Lins do Rego e transferiu-se em 1926 para a capital de Alagoas, onde passou a exercer as funções de fiscal de bancos, até 1930, e fiscal de consumo, de 1931 a 1935.
O mundo rural do Nordeste, com as fazendas, as senzalas e os engenhos, serviu de inspiração para a obra do autor, que publicou seu primeiro livro, “Menino de engenho”, em 1932, chave de uma obra que se revelou de importância fundamental na história do moderno romance brasileiro. Além das opiniões elogiosas da crítica, sobretudo de João Ribeiro, o livro mereceu o Prêmio da Fundação Graça Aranha.
O colega Gilberto Freyre afirmou que José Lins havia iniciado, de fato, um "novo romance em língua portuguesa" e provocado no Nordeste a poesia modernista-tradicionalista.
Passou a conviver com um grupo de escritores muito especial: Graciliano Ramos (o autor de “Vidas Secas”), Rachel de Queiroz (a jovem cearense, que já publicara o romance “O Quinze”), o poeta Jorge de Lima, que se tornariam seus amigos para sempre.
Convivendo num ambiente tão criativo escreveu os romances “Doidinho” (1933) e “Banguê” (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936). Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou ativamente da vida literária, defendendo com vigor e polêmica a região de onde proveio.
O autor era um homem atuante e participava ativamente da vida cultural de seu tempo. Gostava de conversar, tinha um jeito bonachão e era apaixonado por futebol, ou melhor, pelo Flamengo. Seus livros são adaptados para o cinema e traduzidos na Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Em 1957, José Lins morreu. Sua obra foi publicada pela editora, José Olympio.

II – CARACTERÍSTICAS:

“Mas a verdade é que o romancista busca também o sentido de humanidade que define a consciência e o sentimento coletivos do homem da região. Contamina assim o mundo dos engenhos com outros aspectos e elementos da paisagem nordestina, com manifestações de cangaço e misticismo. A visão dessa humanidade em ruína e dessa sociedade decadente, presa à experiência da infância e da adolescência do romancista, sofre a deformação determinada pelo orgulho íntimo que gera o processo de seu próprio reconhecimento, como se desse vidas a fantasmas, que parecem presentes na moldura dos relatos orais. O íntimo orgulho da tradição, embora nos últimos reflexos de sua grandeza, e a imaginativa popular que ao mesmo tempo rebate o sentimento e os impulsos da alma coletiva, são assim componentes essenciais da obra do ficcionista. Ele se compara a um verdadeiro aedo popular, com o privilégio do poder de visão total. E de tal natureza, que só nos cantores e cantadores do Nordeste, que refletem a memória coletiva, através dos seus processos narrativos e da sua linguagem característica, o escritor, como ele próprio reconheceu, encontraria modelos e sugestões expressivas para os seus romances”. (Antonio Candido & José Aderaldo Castelo)
O estilo de José Lins é inteiramente despojado e sem atitudes ou artifícios literários. Ele próprio via a si mesmo como um escritor instintivo e espontâneo, chegando a apontar que suas fontes da arte narrativa estavam nas ruas.
Apesar desta simplicidade linguística com que escreve, ele descreve com muita técnica os estados psicológicos de suas personagens.
"Bem examinadas as coisas, este livro pungente é de uma realidade profunda. Nada há nele que não seja o espelho do que se passa na sociedade rural e na das cidades do Norte e do Sul do Brasil. É de todo o Brasil e um pouco de todo o mundo", disse José Ribeiro.
Alfredo Bosi, por sua vez, encontrou na obra de José Lins a mais alta expressão literária, poética e recordativa da transição do engenho para a usina na região canavieira da Paraíba e de Pernambuco.
Sérgio Milliet afirmou que José Lins fez uma grande obra ao "oferecer-nos uma imagem muito nítida do Nordeste dos últimos engenhos, evoluindo lentamente entre crises políticas e lutas domésticas, modorrento sob o sol das secas."
Carpeaux escreveu que todo o universo da casa-grande, da senzala, dos senhores de engenho e etc. não "existirão nunca mais a não ser nos romances de José Lins do Rego."
O livro faz referências a crendices populares, como a do lobisomem, que é citada através de João Cutia, um comprador de ovos da Paraíba. “Não tinha uma gota de sangue na cara e andava sempre de noite, para melhor fazer as suas caminhadas, sem sol”. Achava-se que ele era lobisomem.
“O lobisomem é outro mito presente no imaginário nordestino. Vinda da Europa, onde o mito do ser humano que vira lobo é conhecido desde a Grécia Antiga, onde Liacon, por ter atacado Zeus, foi transformado num desses animais, esse mito, que por sinal existe no resto do Brasil, no Nordeste é explicado de várias formas. Uma delas é que quando um casal tem sete filhos homens, se não der o último para ser batizado pelo mais velho, ele vira lobisomem. Irmão que tem relações sexuais com a irmã caso venham a ter filho, ele será lobisomem. Também filho de relação sexual entre compadre e comadre tem tudo para se um “lobo-homem”. Dizem que são nas noites de quinta para sexta-feira, principalmente se for noite de lua cheia, que a pessoa se transforma. Para haver o desencantamento há várias maneiras: deve-se tirar sangue dele, mas sem se sujar, pois se isso acontecer vira-se lobisomem também. Quando ele aparecer, deve-se fazer o sinal da cruz diante dele que ele corre. Ou, então, rezar três ave-marias.
Já para matar o lobisomem um jeito é usar bala besuntada com cera benta de vela de igreja”. (O Grande livro do folclore).
Quando José Gonçalo, um negro que trabalhava no engenho de José Paulino, é morto por Mané Silvino, aparece o lendário do engenho mal-assombrado, o qual no Nordeste ocorre à meia-noite, no meio do silêncio, quando o engenho começa a funcionar sozinho. Dizem que esta noite assombrada, só pode ser presenciada por aqueles que têm amor aos tempos que não voltam mais.
José Paulino também fazia remédios, uma crença nos medicamentos naturais. Ele tratava de tudo, fazia sinapismos de mostarda, dava banhos quentes, óleo de rícino, jacaratiá para vermes. Curava assim os negros, os netos, os trabalhadores e lancetava furúnculos.

III - FOCO NARRATIVO:

Primeira pessoa, narrado por Carlos Melo.
Segundo depoimento do próprio autor, sua intenção ao elaborar a obra era escrever a biografia de seu avô, o coronel José Paulino, a quem considerava uma figura das mais representativas da realidade patriarcal nordestina.
Seria também uma autobiografia das cenas da infância que ainda estavam marcadas em sua mente. O que se constata é que o biógrafo foi superado pela imaginação criadora do romancista. A realidade bruta é recriada através da criatividade do gênero nordestino.

IV - TEMPO E ESPAÇO:

O tempo da narrativa é cronológico, segue desde os quatro anos de Carlinhos até os doze anos, quando ingressa no colégio interno.
“Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu”.
“Tinha uns doze anos quando conheci uma mulher, como homem”.
O cenário apresentado é a Zona da Mata nordestina, especificamente no engenho Santa Rosa, do coronel José Paulino. Dentro desse espaço do engenho encontramos outros ambientes como a senzala, a casa-grande, a cachoeira, o engenho Santa Fé, do coronel Lula de Holanda, que estará presente no livro "Fogo Morto", de José Lins. Dessa forma, o engenho constitui o microcosmo da construção da obra.

V – LINGUAGEM:

A linguagem, perpassada de termos regionais, retrata bem a realidade do mundo enfocado e evocado pelo autor. Como é comum no Modernismo, são frequentes termos e construções próprios, porém equilibrados, apresentando a oralidade dos contadores e cantadores populares do folclore nordestino.

VI – ESTRUTURA DA OBRA:

“Menino de engenho” é composto por quarenta capítulos curtos.
Capítulos de 1 a 3:
Marca a passagem da criança para um novo mundo a ser apreendido. O pai mata a mãe e vai para um hospício, e Carlos com apenas quatro anos ouve e vê tudo sob a perplexidade da compreensão impossível.
Capítulo 4 em diante:
O tio Juca leva o menino para o engenho do avô materno. Inicia-se uma Segunda infância que vai até a puberdade. Há rápidos flagrantes: a viagem de trem; a chegada ao engenho; o tio Juca; a tia Maria (irmã de sua mãe); avô José Paulino; os primos; a prima Lili; os moleques; o moleque Ricardo; o banho de rio; o leite mungido; a primeira visita ao engenho; os meninos e os banhos ruidosos, proibidos; as brincadeiras e as traquinagens; o retrato da tia Sinhazinha, brutal e arbitrária; a presença do cangaço no famigerado Antonio Silvino; a visita aos engenhos vizinhos; o primeiro castigo da tia Sinhazinha; a revolta contida do órfão; a enchente; a escola; a professora; as primeiras letras e as “lições de sexo”.
Capítulos 16, 23, 26, 28 e 33:
Apresenta o coronel José Paulino e sua propriedade, no momento agudo de um poderio irremediavelmente ameaçado. Sucessivamente aparecem: o quadro religioso; as superstições; as crendices; o folclore; a literatura oral; notícias dos ambulantes dos engenhos; a briga e assassinato; o carneiro e seu cavaleiro; a doença e a medicina caseira; os incêndios de partido de cana e o heroísmo do homem na luta contra os elementos de uma natureza em convulsão; os serões; a mesa de refeição; a cozinha; o casamento da tia Maria e a segunda orfandade; os preparativos para o colégio e a transferência para este novo mundo, que ao contrário da primeira transposição, será envolvido pelas sombras das gameleiras, cheiros, sons e imagens do mundo inesquecível do “Menino de engenho”.

VII – PERSONAGENS:

CARLOS:
É o narrador do romance. Órfão aos quatro anos tornou-se um menino melancólico, solitário e bastante introspectivo. Em sua solidão guarda suas preocupações, medos e sonhos. De sexualidade exacerbada, mantém, aos doze anos, a sua primeira relação sexual, contraindo “doença-do-mundo”.

DONA CLARISSE:
Mãe de Carlos. É assassinada pelo marido no início do livro.

PAI DE CARLOS:
Homem alto e bonito, com olhos grandes, bigode preto. Beijava o menino, contava histórias, fazia os seus gostos. Tudo era para o menino, que mexia nos livros, sujava as roupas. Por outro lado, discutia com Dona Clarisse. Tinha um coração arrebatado pelas paixões, um coração sensível demais às suas mágoas. Assassinou sua esposa Dona Clarisse e, depois enlouqueceu.

CORONEL JOSÉ PAULINO:
Avô de Carlinhos. Representa a figura patriarcal nordestina. Homem trabalhador, honesto, realista e generoso, para Carlinhos, um ser infalível. Não era um devoto, mas era justo nem que para isso tivesse que suprimir alguns dos mandamentos. Todos no engenho respeitavam o senhor José Paulino. Depois do jantar ele sentava-se numa cadeira perto do grande banco de madeira do alpendre. Lia os telegramas do “Diário de Pernambuco” ou dava as suas audiências públicas aos moradores. Todo o dinheiro dele era para comprar terras.

TIA MARIA:
Irmã e muito parecida com Clarisse á mãe de Carlinhos. Querida e estimada por todos pela sua bondade e simpatia, era chamada carinhosamente de Maria Menina. Com seu amor e carinho substituirá a mãe na memória de Carlinhos.

VELHA TOTONHA:
Representa bem o folclore ambulante dos contadores de histórias. Vivia a contar história de Trancoso. Era pequenina e engelhada, tão leve que uma ventania poderia carregá-la, andava muito a pé, de engenho a engenho, “como uma edição viva das “Mil e uma noites”. Tinha talento em contar histórias. Não tinha nenhum dente na boca, mas dava tons às palavras”. Recitava contos inteiros em versos, intercalando a prosa com notas explicativas.
“O que fazia a velha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha nos seus descritivos. Quando ela queria pintar um reino era como se estivesse falando dum engenho fabuloso. Os rios e as florestas por onde andavam os seus personagens se pareciam muito com o Paraíba e a Mata do Rolo. O seu Barba-Azul era um senhor de engenho do Pernambuco”.
Para Carlinhos, sinhá Totonha possuía um “pedaço de gênio que não envelhece”.

ANTÔNIO SILVINO:
Cangaceiro temido pelo povo. Simboliza a justiça roubando dos ricos e protegendo os fracos.

TIO JUCA:
Filho do Coronel José Paulino. Goza de regalias e proteção no engenho. Libertino com as mulatas do engenho, por outro lado, representa o papel de pai de Carlinhos.

CORONEL LULA DE HOLANDA:
Alegoriza a decadência do engenho e do senhor de engenho, embora insista em manter seu perfil aristocrático.

SINHAZINHA:
Senhora idosa, mal-amada e carrancuda. Administrava a casa-grande e era odiada pelas crianças e pelas criadas, por seu autoritarismo e violência.

NEGRA GENEROSA:
Controlava a cozinha da casa grande.

VOVÓ GALDINA:
Velha doente que vivia entrevada numa cama.

VIII - ENREDO:

Carlos tinha quatro anos quando acordou com um enorme barulho, gritos e choros vindos do quarto de seus pais. Correndo até lá encontrou pessoas desconhecidas, sua mãe estendida no chão toda ensanguentada e seu pai caído em cima dela como um louco.
Com a chegada da polícia, todos foram retirados. Carlos foi levado para o quintal, donde ouvia os comentários dos empregados. Um criado dizia que acordara com uns tiros e ao correr, vira o doutor com o revólver na mão e dona Clarisse já morta.
Ninguém sabia o motivo e no momento, o que Carlos mais desejava, era correr e abraçar seus pais. Poucos detalhes ficaram na memória do narrador, como se ele não estivesse vivendo aquele fato, como não passasse de uma história com outras personagens, mas ao ver algumas fotos no jornal, onde sua mãe estendida, com cabelos soltos e a boca aberta, o menino caiu na realidade e chorou.
Á tarde brincou com os meninos, mas ao chegar á noite um vazio o amedrontou e chorou baixinho como se tivesse medo de chorar.
O doutor, um homem alto, bonito, com olhos grandes e um bigode preto era um excelente pai. Brincava com Carlinhos, contava-lhe histórias, enfim, fazia-lhe todos os gostos. Outras vezes, quando chegava á casa, permanecia calado, triste e rancoroso e geralmente, discutia com sua esposa.
Clarisse corria aos soluços para o quarto; mas, depois, estavam os dois novamente a se acariciarem, beijarem - ambos com os olhos vermelhos de tanto chorar...
Carlinhos o amava. Depois é que descobriu que seu pai tinha um temperamento excitado, um coração sensível, pois à vida só lhe tinha mostrado o lado amargo.
Carlinhos lembra-se do abraço apertado que lhe dera na ocasião que fora levado pelos soldados para a prisão.
Na verdade ele amava loucamente a sua esposa. Morreu dez anos depois, na casa de saúde, liquidado por uma paralisia geral.
A mãe, pequena, cabelos pretos, terna, era considerada como uma estampa. Tendo sido criada em colégios de freiras (seu pai ficara viúvo quando ela ainda nem falava), “filha do senhor de engenho, parecia mais, pelo que me contaram dos seus modos, uma dama nascida para a reclusão”.
Carlos reflete o porquê o destino reservara um final tão trágico para sua mãe, ela que era toda pura, sendo agora exposta com histórias mentirosas de sua vida íntima.

“Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um menino meio cético, meio atormentado de visões ruins.”

Três dias depois da tragédia, o Tio Juca e alguns homens vieram buscá-lo. Ele iria morar no engenho do avô materno, o Coronel Zé Paulino. O Tio Juca alegara que o doutor tinha enlouquecido.
Viajaram de trem e isso era uma novidade para Carlinhos, que não desgrudava da janela a reparar em tudo que via.
Uma senhora passa perto de Carlos e diz:

“ - Que menino bonitinho! Onde está a sua mãe, meu filho?”, Carlinhos novamente pôs a chorar.

Na estação, um pretinho os esperava e seria a primeira vez que Carlinhos cavalgaria.
Carlinhos achava tudo novo e bonito, os açudes, o caminho, os bois, a casa branca...Sua mãe e uma criada sempre lhe contava sobre maravilhas do engenho e Carlinhos o imaginava como de um conto de fadas.
No alpendre todos queriam conhecer o filho da D. Clarisse. Havia uma moça muito parecida com sua mãe e um velho a quem teve que pedir benção.


Carlinhos foi levado para conhecer a Tia Galdina que ao ver o menino começou a chorar. A moça parecida com sua mãe era a Tia Maria que o amparou e o encorajou para não chorar, que agora em diante, seria a sua mãe.

À tarde já estava íntimo dos moleques que o levaram ao pomar e colheram goiabas. De manhã, experimentou leite tirado ao pé da vaca.
Carlinhos observava o avô, homem sério dando ordens por onde passava. Os moleques estavam todos ocupados, não tinha com quem brincar. Tio Juca leva-o para o rio e ensina-o a nadar. Nunca mais esse banho sairia de sua memória, acostumado a tomar banhos de chuveiro, aquilo só poderia ser coisa de outro mundo.
Na volta, o café já estava pronto e Carlos notou que na mesa não estavam somente os familiares, mas também, homens de aspecto humilde - os pedreiros, carpinas etc.
As divergências de seu pai com o seu avô, nunca tinham permitido que sua mãe trouxesse-o para uma temporada no engenho, portanto tudo o que ele via, ficava deslumbrado.
Depois do café, Carlinhos foi conhecer o engenho, que estava nos fins da moagem. A fábrica ficava perto da casa-grande. O tio Juca mostrou-lhe como se faz o açúcar. Andaram pela boca da fornalha, pela bagaceira, mas o que mais o impressionou foi o maquinismo, “o movimento ronceiro da roda grande, e a agitação febril das duas bolas do regulador.”



Passados alguns dias, Carlos já era senhor de sua vida no engenho. Vieram dois meninos e uma menina, seus primos, passar uns dias lá.

Os primos eram bem afoitos, sabiam nadar, montar a cavalo no osso e comiam tudo e nada lhes fazia mal.
Tia Maria se preocupava com Carlos. Dizia que ele estava ficando um negro e que os meninos de Emília já estavam acostumados, mas ele não. Carlinhos não obedecia e passava horas inteiras dentro d’água.
Tia Sinhazinha era uma velha de uns sessenta anos, irmã da avó de Carlinhos. Ela tomava conta da casa, mandava as negras ao serviço doméstico, sempre com voz áspera e de temperamento esquisito.
Tinha sido casada com o Dr. Quincas, do Salgadinho e contava-se que foi devolvida, amarrada num carro de boi com uma carta do marido ao sogro.
Tia Maria um anjo, Tia Sinhazinha um tormento para a sua meninice. Ninguém gostava dela. Tia Sinhazinha criava sempre uma negrinha, que dormia aos pés de sua cama, para judiar, para satisfazer os seus prazeres brutais. Invocava com tudo e quando estava ausente, tudo era uma perfeita paz.
A prima Lili, magrinha, loirinha, pálida, sempre calada, “parecia mais um anjo do que gente”. Tudo lhe fazia mal: o chuvisco, o mormaço, o sereno e só vivia nos remédios.
Carlinhos gostava de lhe fazer companhia. Chegou até lhe dar um preá-da-índia.
Um dia ela amanheceu vomitando preto e com febre.


“Suas bonecas andavam por cima da cama como se fossem suas amigas em despedidas.”


Morreu no dia seguinte. Carlinhos lembra-se do caixão branco, cheio de rosas, e da tia Maria chorando.

“Ainda hoje, quando encontro enterro de crianças, é pela minha prima Lili que me chegam lágrimas aos olhos.”

Com a morte de Lili, Tia Maria dobrou os cuidados para com Carlinhos e começou a lhe ensinar as letras.

“Os meus ouvidos e os meus olhos só sabiam ouvir e ver o que andava pelo terreiro. E as letras não me entravam na cabeça.”

Passou então a prestar atenção nas conversas das costureiras. Falavam de outros engenhos. Uma contava que no Santarém só se comia bacalhau no almoço e no jantar; outra contava que o senhor do engenho do Poço Fundo, tinha mais de vinte mulheres...
Era a época das rolas sertanejas que desciam batidas pela seca, para o litoral. Carlinhos, os primos e os moleques as matavam á cacetadas. A sede era tão grande que elas não se davam pelos seus instintos.
Depois no colégio, lendo o “Gênio do Cristianismo”, onde falava sobre os pássaros da Bretanha que fugiam do inverno de sua pátria, com remorso, Carlos se lembrava das rolas que havia matado.
Uma tarde chegou um portador com um recado do Coronel Anísio, informando que Antonio Silvino, estaria naquela noite no engenho.
Antônio Silvino era um cangaceiro temível por todos, menos pelos meninos que em suas brincadeiras faziam-se de cangaceiros e o mais forte, representava o Antônio Silvino. O avô se transformou transparecendo preocupação, Tia Sinhazinha dando ordens e Tia Maria pôs-se a rezar.


Antônio Silvino vinha ao engenho em visita de cortesia, mas no ano passado, tinha estado em Pilar para cobrar uma nota falsa que o Coronel Napoleão tinha lhe passado como não encontrou o velho, destruiu sua loja e jogou uma barrica cheia de dinheiro para o povo.

À noite chegou o bando. Vinha Antonio Silvino acompanhado de mais doze homens. Os moleques punham-se a admirá-lo, com aqueles anéis de ouro, a medalha de pedras de brilhantes que trazia no peito. Jantaram tranquilamente ouvindo suas estórias e quando partiram Carlos sentiu decepção pelo seu herói.
No dia seguinte, o primo Silvino contou que havia dito ao Antonio Silvino que tia Sinhazinha não gostava dele. Eles sabiam de uma estória parecida com essa, que fez Antonio Silvino fazer uma velha dançar nua.
Um dia a Tia Maria o levou até o sítio do Seu Lucino. No caminho encontraram pessoas que voltavam da feira de São Miguel, inclusive o Zé Passarinho, bêbado como sempre.
Enquanto brincava com os primos, Tia Maria falava com as meninas de Seu Lucino como o povo chamava àquelas três velhas solteironas. As infelizes queixavam-se de doenças, e perguntavam quando viria ao engenho o doutor.
Na volta, já escurecia e os moleques conversavam sobre coisas mal-assombradas.
A Tia Sinhazinha dava-lhe beliscões, cocorotes e vivia com a chave da despensa no cós da saia para contrariar as gulodices. O ódio de Carlos para com a Tia Sinhazinha crescia. Um dia jogando pião na calçada, o brinquedo veio a cair no pé dela.


Ela levantou-se e começou a dar chineladas de couro em Carlinhos que teve de ser socorrido por Tia Maria. Carlinhos nunca tinha apanhado na vida. Chorou mais de vergonha que das pancadas e quando a negra Luísa disse-lhe que a velha faz isso porque ele não tinha mãe, o pranto veio à tona. Imaginou tudo o que era de vingança e “aquela injustiça brutal despertava em meu coração puro de menino os impulsos mais cruéis de desforra”.

Há oito dias chovia. Era o inverno chegando. O rio no verão ficava seco de se atravessar a pé enxuto, o povo pobre vivia de água salobra e das vazantes do Paraíba, o gado comia capim ralo. Dessa forma, era uma alegria quando anunciavam a chegada das cheias. Diziam que vinha do Itabaiana. Quando chegou, veio com uma grande força, arrastando tudo.
O avô contava episódios da enchente de 75, naquele ano o rio tinha subido até a calçada da casa-grande e que o velho Calixto querendo salvar um animal, foi arrastado pela correnteza.

“Mas há muito anos que o Paraíba não repetia a façanha.”

À noite, foram acordados com o barulho que ia pela casa. As águas estavam crescendo tanto que podia entrar pela casa-grande e acabar com a safra de açúcar que se encontrava em caixões de madeira e nos tanques cheios de mel-de-furo. Mandaram uma canoa com José Ludovina pela várzea em busca de socorro.


Carlinhos não sabe explicar, mas torcia para que as águas continuassem a subir e inundasse a casa-grande. De manhã a enchente já estava sobre controle e o avô vira a sua safra quase toda perdida.


“- Gosto mais de perder com água do que com sol”.

Os canoeiros traziam notícias tristes: pessoas que tinham perdido tudo; muitos desabrigados; o negro Salvador havia desaparecido e não se via um pé de cana, era só água.

“A canoa passou por cima do cercado do engenho.”

O Coronel Zé Paulino dava ordens para levarem alimentos para àquele povo.
À noite, o rio que vazara começou a encher novamente e eles tiveram que partir urgentemente. Para as crianças parecia uma festa toda aquela arrumação. No caminho encontravam pessoas fugindo e souberam de mortes e de pontes caídas.


No carro de boi, vieram a velha Tia Galdina, paralítica, tia Maria, quatro costureiras, e quatro negras. Tia Sinhazinha não quis abandonar o engenho sozinho. Todos tiveram respeito por esse ato grandioso que até perdoaram a sua ruindade.

Alojaram-se na casa do Sr. Amâncio e junto com outras famílias pobres desfrutaram do mesmo café e da mesma batata-doce. No dia seguinte chegaram os suprimentos da casa-grande e Tia Maria distribuiu carne-de-ceará com farofa a todos. Eles tinham perdido a sua plantação de mandioca, mas não desanimavam, dizia que o importante era ter saúde e confiar em Deus.
Voltaram para o engenho no dia seguinte e foram informados que Zé Guedes tinha encontrado o corpo do negro Salvador. Ele havia falecido há três dias e os urubus rodavam por cima dele.
Por onde as águas tinham passado, espelhava ao sol uma lama cor de moeda de ouro:

“O limo que ia fazer a fartura dos novos partidos”.

O engenho e a casa de farinha estavam repletos de flagelados. A enchente tinha sido pior que a de 75. João Umbelino aproveitava e mentia à vontade, contando estórias que ninguém tinha visto.
O engenho inteiro estava infeliz, só os canoeiros que lucravam com essa desgraça.
Carlos foi estudar na casa do Dr. Figueiredo, era a primeira vez que passaria o dia inteiro com gente estranha. Na realidade a sua professora era uma moça morena e bonita, chamada Judite. Carlos gostou dela, mas era um amor diferente que sentia por da Tia Maria.
Uma vez Carlos a viu chorando e outras, ouviu pancadas e gritos de quem estivesse apanhando. Judite o beijava, o abraçava e dizia que o queria como um bem de mãe. Carlos sonhava com ela e não gostava dos domingos, porque não tinha aula e não a veria.
Em seguida, foi estudar com outro professor. Tinha mais cinco alunos, pessoas pobres, e ele tinha um regime de exceção.


O outro mestre foi o Zé Guedes, professor também de coisas ruins.

Zé Guedes contava-lhe histórias de amor e de sacanagem. Um dia mostrou-lhe a casa de Zefa Cajá, um prostíbulo. Falava-lhe sobre as mulheres da vida e as “doenças-do-mundo” (cavalo, mula, crista-de-galo).
Às vezes, pediam para ele comprar algumas necessidades na vila e quando ia entregar, puxava conversa longa com as mulatinhas.
Um dia, Zé Guedes apontou uma mulatinha e contou-lhe que ela pertencia ao Dr. Juca. Outro dia, entrou numa casa que morava só uma negra e demorou muito a sair de lá.
No curral, os moleques tinham a sua lição de sexo e reprodução. Carlos lembrava-se de uma vaca malhada que morreu por malvadeza de seu primo Silvino. Ele quis dar um de médico e acabou matando a vaca.
Um dia Silvino chamou Carlos para fazer porcaria no curral e Carlos pode ver o primo trepado na cerca, “procurando pôr-se por cima de uma vaca mansinha”.
O avô gostava de percorrer sua propriedade e sempre levava Carlos para acompanhá-lo. Paravam nas portas dos casebres, ouviam reclamações. Quando perguntava por que Zé Ursulino não tinha ido trabalhar, respondiam que ele estava doente, mas o coronel não acreditava e logo depois, acabavam encontrando-se com Zé Ursulino, aliás, muito bem de saúde. Em outras casas, batia e ninguém atendia. Estavam todos na roça, inclusive as crianças.
Na casa de Chico Baixinho, encontrou a mulher fraca, com uma criança recém-nascida, dizia que o marido havia abandonado “com a barriga rachando, e danou-se”, ninguém sabia de seu paradeiro. Mandava, então, trazer bacalhau para alguns, remédios para outros e assim, eram as longas diligências do coronel Zé Paulino.
Nos dias de festas, descobriam o oratório e o quarto dos santos ficava aberto para quem quisesse ver. Não havia capela no Santa Rosa. O coronel José Paulino não era devoto.


Não iam a missas, não se confessavam, mas em tudo que diziam, colocavam um Deus ou uma Nossa Senhora. Tia Maria ensinava as rezas a Carlinhos e aos meninos, mas o avô, nunca foi visto rezando.

No engenho tinha uma imagem do menino Jesus que lembrava a prima Lili. Ele segurava com uma das mãos um bastão e na outra, uma bola do mundo. Carlinhos temia que a bola caísse e o mundo se acabasse. O menino Jesus vestia um manto azul, e as crianças levantavam o seu manto para ver “aquela rolinha bicuda de criança”.
Havia também algumas estampas das paredes: São Sebastião atravessado de setas; Anjo Gabriel com a espada no peito; São João com um carneiro; São Severino fardado, estendido num caixão de defunto.
Os moleques mostravam uma santa mulata com uma criança no colo e com uma marca de ferro no rosto. Contavam que a senhora queimou o rosto da escrava com um garfo quente.
Pela Semana Santa contavam-nos as malvadezas dos judeus com Nosso Senhor e na Sexta-Feira Santa, só se comia uma vez no engenho.
Às vezes, vinha uma velha ao engenho, a Totonha que contava sobre a Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo.
O avô mandou colocar Chico Pereira no tronco. Chico Pereira gritava que não tinha culpa e dizia: “ela botou pra cima de mim os estragos que os outros fez”, que não assumiria, não casaria com ela, podia ser preso, morto, mas ele não tinha culpa, “eu não tapo buraco dos outros”.
Todos acreditavam que ele que tinha feito mal a Maria Pia e o avô disse que ele só sairia do tronco, quando aceitasse casar-se com a sua vítima. No dia seguinte, Carlos não saiu de perto de Chico Pereira que continuava negando.
À tarde, chegaram Maria Pia e sua mãe, o avô mandou buscar o livro sagrado e fez com que Maria Pia colocasse suas mãos em cima do livro e jurasse a verdade. Então, Maria Pia, contou-lhe que o culpado na realidade era o Sr. Juca. Soltaram o cabra e à noite o Tio Juca não se sentou à mesa.
O Coronel disse: “- Não sei pra que servem os estudos. A gente gasta um dinheirão; e eles voltam pra fazer besteiras desta ordem.”
A estrada de ferro passava no outro lado do rio. Um dia o primo Silvino colocou uma pedra bem na curva da rampa em que o trem passaria, queria ver desgraça. Quando o trem estava chegando, Carlinhos teve a sensação de ver pessoas mortas, e num ímpeto, deslocou a pedra do caminho. Chorou muito e certificou-se que “nunca mais em minha vida o heroísmo me tentaria por essa forma.”
Corria-se a notícia que havia no local um lobisomem. Manuel Severino tinha fugido dele na Mata do Rolo. A desconfiança recaiu em José Cutia, um pobre comprador de ovos, muito branco, que procurava fazer suas caminhadas à noite para evitar o sol.
O povo não tinha raiva dele, tinha dó. Os meninos tinham medo. Comentavam que comia fígado de criança e tomava banho com sangue de criança de peito. Era o papa-figo!
Um dia o padre Ramalho ao dar a extrema-unção a um doente, viu uma coisa estranha puxando o rabo de um cavalo.
O cavalo não saía do lugar, tirou a caixinha da hóstia e apontou. Ouviu o baque de um corpo e o cavalo disparou. No outro dia encontraram José Cutia desfalecido na estrada.
O medo do lobisomem acompanhou Carlos até depois de crescido. Havia também os zumbis, era a alma dos animais. Quando morria um boi, não se enterrava, deixava no cemitério dos animais, à beira do rio, mas ele não tinha o poder dos lobisomens.
Carlinhos acreditava nessas estórias como acreditava em Deus. Só que de Deus tinha uma imagem abstrata, o lobisomem era de carne e osso. Jesus era diferente de Deus, ele tinha nascido, tinha mãe e pai e era jovem.

“Só depois o catecismo viria destruir a minha crença absoluta nos bichos perigosos do engenho”.

A velha Totonha era excelente contadora de histórias. Uma vez ela narrou sobre um homem condenado à forca, acusado de crime de morte. E, que quando passou o cortejo pela porta da casa de sua mulher, ela estava amamentando o seu filho, a criança tirou a boca do bico do seio da mãe e começou declamar versos, descobrindo assim a verdade e salvando o seu pai.
O interessante é que Totonha quando ia descrever algum reino, usada de cores locais, como se estivesse falando dum engenho fabuloso.
A história da madrasta que enterrara uma menina era sua obra prima. O pai saíra em viagem e deixara sua filha do primeiro casamento sobre os cuidados da segunda esposa. A madrasta com ciúmes de ter que dividir o amor de seu marido, pôs-se a judiar da menina, chegou até mandar que ela ficasse um dia inteiro debaixo de um pé de figueira com uma vara na mão a espantar sabiás. Um dia ela adormeceu pensando no pai, os sabiás picaram as frutas, a madrasta deu-lhe uma surra de matar, depois a enterrou ainda viva na beira do rio. Quando o pai voltou, a madrasta mentiu, dizendo que a menina tinha adoecido e morrido com a sua ausência. Um capineiro foi cortar capim para os cavalos e ouviu uma voz pedindo que não lhe cortassem os cabelos. Quando cavaram o lugar, encontraram a menina. Amarraram as pernas da madrasta em dois poldros brabos e os pedaços dela ficaram pela estrada, fedendo.
Havia outras histórias de Jesus e seus apóstolos. Jesus chegou para dormir na casa de uma família pobre, pediu para Pedro buscar o saco de mantimentos. Pedro falou que estava vazio e Jesus respondeu:

“- Homem de pouca fé, vai ver o saco!”.

Quando Pedro voltou, encontrou duas cargas de farinha e de carne na porta. Contavam histórias de naufrágios na Bahia que até dava medo antecipado de embarcar num desses navios.
As escravas depois da abolição, não deixaram a senzala e preferiram ficar no engenho, morrendo de velhice. Carlinhos conheceu algumas: Maria Gorda, Generosa, Galdina e Romana. Generosa foi á mãe-de-leite de D. Clarisse e defendia Carlinhos com unhas e dentes.
Carlos não conheceu marido de nenhuma, mas todas viviam parindo os seus filhos. Os filhos das escravas sabiam fazer tudo melhor que os primos, a única diferença é que não sabiam ler, mas isso parecia não ter importância na época.


Eles relatavam como se faziam crianças e o que os homens faziam com as mulheres, mesmo porque as escravas recebiam os seus homens na frente das crianças. No quarto de Maria Gorda não se podia entrar, fedia carniça, veio de Moçambique, e falava uma mistura de línguas, sempre resmungando.

A velha Galdina, nós a chamávamos de vovó. Andava de muletas, porque quebrara a perna brincando de cabra-cega com os meninos, viera da África, fora roubada do seu pai e vendida por um irmão aos compradores de negros.
A velha Generosa cozinhava para a casa-grande, era só pedir as coisas no seu ouvido, “e ela nos dava, sem ligar importância às impertinências da velha Sinhazinha.”
Uma vez chegou ao engenho um homem que tinha matado um sujeito no Oiteiro e viera pedir proteção ao coronel. O avô negou ajuda, dizendo que não protegia criminoso.
Foram passar o dia no Oiteiro. Iam parando e dando notícias de todos. O senhor de engenho de lá, era primo do Coronel Zé Paulino, o Coronel Lula, morrera deixando um palácio para os seus.
Carlinhos era um menino triste, tinha isolamentos de melancolia, e pensava que já estava no engenho há quatro anos e logo iria pro colégio. Os primos falavam que o colégio era horrível, tinha castigos, diretor medonho...
Às vezes perguntava pelo pai e respondiam que ele estava num hospital. Carlinhos tinha medo de morrer. Uma vez viu um homem morrendo no engenho e essa imagem não o deixou dormir. Mas, por outro lado, desejava a morte de Tia Sinhazinha.
A única alegria que tinha era quando algum canário caía em seu alçapão.
Carlinhos passava o dia inteiro próximo aos mestres de ofício atento para ouvir suas histórias. Um, contou-lhe que um senhor de engenho só mandava para eles bacalhau, a semana inteira e eles passavam o dia, bebendo água com a boca seca. Um dia, um negro reclamou e ele mandou peru. Agora era só peru. Outro, contava que o velho Duda do Riachão não gostava de mulheres e sempre que a mulher estava para dar à luz, ele fica apreensivo e se fosse mulher, mandava acabar com ela.
O Capitão Quincas, irmão do velho José Paulino, tinha uma mulher bonita, chamada Calu. Um dia a cabrocha deu corda ao feitor Salvino. O capitão chamou o feitor para a briga e acabou estendido com uma facada.
Carlinhos ganhou um carneiro. Chamava-o de Jasmim. Saía a passear com o carneiro e ouvia desabafos como: “- Se o velho fechar os olhos, quem vai sofrer é a pobreza do Santa Rosa.”
Pensava em Tia Maria que se preparava para casar-se com o seu primo do Gameleira.
O Santa Fé ficava encravado no engenho do Coronel José Paulino. Herdara o Santa Rosa pequeno, e fizera dele um reino. O Santa Fé ficara estacionado, de fogo morto, Carlinhos já o conheceu arruinado nas mãos do Coronel Lula de Holanda. Vinham visitar o Santa Rosa e traziam a filha Nenem que havia estudado nos colégios do Recife. Aquela menina sentava-se como se estivesse de castigo e sua mãe D. Amélia, também não saía da etiqueta, até sabia tocar piano. O mato cada vez mais ia tomando conta do Santa Fé. Falavam que o povo de lá não comia, que as negras viviam em jejum, que uma lata de manteiga dava para um mês e que o Sr. Lula tinha dinheiro de ouro enterrado.
Não se sabe se eram verdadeiros esses comentários. Mas, quem passava pelo local, via a irmã de D. Amélia, a Sra. Olívia, uma senhora, de cabelos brancos, andando de um lado para o outro, totalmente enlouquecida. Nada contavam sobre sua vida, parecia até que ela não tinha história.
Um dia chegou uma carta do Seu Lula pedindo socorro. Mais tarde, soube-se que o Doutor Luís Viana, pretendia roubar sua filha, Nenem.
Na realidade, ele tinha encontrado uma carta combinando a fuga. Nada aconteceu e fizeram até versos sobre o assunto.
Carlos começa a sofrer de puxado (peito chiando, falta de fôlego, vômitos). Passava dias em seu quarto num resguardo rigoroso. Os primos tinham chegado do colégio, parecia que tinham endireitado, mas era engano. O avô vinha até o quarto para medir-lhe a febre. A febre para ele era o grande mal e o seu grande remédio era as lavagens. Curava os negros, os netos, os trabalhadores.
O quarto do Dr. Juca vivia trancado, mas o Carlos era o seu sobrinho preferido. Mostrava-lhe livros, álbuns de fotografias. Um dia Carlos descobriu uma coleção de postais de mulheres nuas no quarto do tio e toda vez que acontecia uma oportunidade de ficar sozinho, era para esses postais imundos que corria.
Uma vez foi surpreendido pelo tio e foi proibido de entrar lá.
Um incêndio veio a queimar o canavial, a casa do negro Damião e do Zé Passarinho. Todos ajudaram a conter o fogo, enquanto o avô curava os feridos.
Era tempo de limpar o partido da várzea. Homens, mulheres e crianças trabalhavam o dia inteiro com a enxada na mão. O costume de ver todo dia esta gente na sua degradação, habituava Carlinhos com a sua desgraça. Esse fato era encarado como uma obra de Deus.

“Eles nasceram assim porque Deus quisera, e porque Deus quisera nós éramos brancos e mandávamos neles. Mandávamos também nos boi, nos burros, nos matos.”


Depois da ceia o avô costumava a contar fatos antigos. Lembrava do Major Ursulino que maltratava os escravos e tinha orgulho de falar que o dia 13 de Maio nada serviu para os seus escravos, que preferiram ficar no engenho. Contava que D. Pedro chegou uma vez em Pilar sem avisar. O Tio Henrique era vereador nessa época e tinha mandado todos os móveis da Câmara para o marceneiro. D. Pedro vendo isso acabou deitando-se na rede de um pedreiro e o Tio Henrique foi preso pelo desastre.
A primeira paixão de Carlos tinha sido por Judite. Até que um dia, chegaram alguns parentes do Recife, os filhos do Tio João que revolucionaram os hábitos pacatos do engenho.
Passavam o tempo todo de meias, conversavam em francês e sobre teatro.
Os moleques ficavam espantando os sapos e as meninas tinham medo de baratas.
A prima Maria Clara era mais velha que Carlos e vivia a passear com ele pela horta.
Maria Clara tocou tão forte o coração de Carlos que ele até se esqueceu do carneiro e dos seus passeios melancólicos. Ela contava-lhe suas viagens a navio; ele, a cheia, a enchente, o fogo e sobre Antonio Silvino.
Maria Clara dizia que a mãe falava que vivendo no engenho acabaria virando bicho.
Um dia, após a prima narrar um filme de dois namorados, Carlinhos a beijou e correu para a casa. Sonhou com ela a noite inteira.
Estava chegando o dia da despedida, vinham presentes de todos os lados, “os bichos dos engenhos gostavam das primas assanhadas”.
Na terça-feira partiram, o tio Juca e tia Maria acompanharam até a estação, Maria Clara não demonstrava tristeza com a separação, ao contrário, estava alegre e ansiosa com a viagem.
Alguém comentou que Carlinhos tinha ficado sem namorada.
Carlinhos chorou o que foi motivo de graça durante o dia todo.
O coronel José Paulino recebeu uma carta do diretor do hospício onde estava internado o pai de Carlinhos.
O coronel conversava com o tio Juca sobre o assassino de sua filha Clarisse e não notaram a presença de Carlinhos.
O hospital reclamava as prestações em atraso e o coronel José Paulino refletia se deveria pagar a pensão. Depois de muita discussão decidiram que pagariam.
A imagem que seu pai estivesse amarrado num quarto e doente doía muito em Carlinhos.
Uma vez chegou um louco no engenho, foi amarrado e passou a noite inteira gritando.
De manhã estava com um sorriso de menino, diziam que o diabo tinha saído de seu corpo e que os doidos iriam para o céu, pois eram inocentes.
Carlinhos imaginava que seu pai deveria proceder igualmente àquele doido e, o medo da doença ser hereditária amedrontava-o.
Um médico tinha ido ver o Carlos por causa do puxado, perguntou de que a mãe morrera, sobre o pai e passou uma grande dieta. Outra vez ele e o Silvino brigavam pela mesma coisa. Acabaram dando a ele e diziam: “- Carlinhos é doente, ninguém pode fazer raiva a ele!”
Carlinhos queria ser independente e sentia raiva quando insistiam cuidar dele. Às vezes fugia para os arredores dos engenhos e passava tardes inteiras na casa de Maria Pitu. Ela tinha três filhos, um era doente, vivia sentado num caixão, não andava, não falava e tinha uma cabeça enorme. A mãe tratava-o como um bicho doméstico. Como não foi batizado, não tinha um nome próprio e passou ser chamado por Cabeção.
Maria Pitu pedia sempre a morte do filho, dizendo que seria um alívio. Carlinhos ouviu dizer que o pai de Cabeção tinha morrido de tanto beber, podia acontecer o mesmo com o filho de Zé Passarinho. Desse modo, o problema da hereditariedade o perseguia.
Pensava em Maria Clara com desejos. Depois, passava horas no curral a observar a reprodução das vacas.

“O sexo crescia em mim mais depressa do que as pernas e os braços.”

Nessa época, a negra Luísa arrastava-o para brincadeiras íntimas.
Tia Maria se casaria no dia de São Pedro. Os preparativos corriam a todo vapor. Chegava gente de todo o lugar e começava a matança dos porcos e dos carneiros. Jasmim estava muito gordo e seria morto também. A casa-grande estava tomada por uma multidão. Diziam que agora a educação do Carlinhos ficaria a encargo da Tia Sinhazinha.
Carlinhos não foi ao casamento, ficou chorando em seu quarto, ouvindo toda a festa de lá. Quando Maria Menina, ou tia Maria se foi com seu noivo a impressão de Carlinhos era que estava perdendo a sua segunda mãe.
Tia Sinhazinha chamou Carlos, fez-lhe um carinho e comunicou-lhe que no próximo mês, ele iria para o colégio. A partir daí, todos se empenhavam a fazer o enxoval do menino.
Com a chuva e ausência da Tia Maria, tudo ficava mais triste e Carlinhos tinha mais tempo para pensar.
Tinha doze anos e diziam que ele era um atrasado. Os meninos do colégio sabiam fazer contas e ele conhecia só ruindades, na maioria das vezes ligadas ao sexo. Já não tinha mais a negra Luísa que estava grávida, olhava para um São Luís Gonzaga e sentia vergonha dos seus atos imundos de sem-vergonha.
Ocorreu uma briga no engenho, dois cabras se atracaram: o Mané Salvino e o negro José Gonçalo. O negro Gonçalo deu um grito e tombou de lado morto, deixando cinco filhos pequenos e um de peito ainda.
Carlinhos tinha doze anos quando conheceu uma mulher, como homem. Era a Zefa Cajá. Há dias ficava atrás dela, levava coisas do engenho para ela, dava-lhe dinheiro que o avô deixava por cima das mesas.
Ela dizia que o Carlos tinha gosto de leite na boca. Quando o avô ficou sabendo, deu uns gritos com o menino, que não adiantou nada. Quando ele brigou com o tio Juca por causa da Maria Pia, Carlinhos ouviu uma negra dizer: “Quem fala! Quando era mais moço, parecia um pai-d’égua atrás das negras. O Seu Juca teve a quem puxar.”
Carlinhos pegou doença-do-mundo. No começou tentou esconder do pessoal da casa-grande, mas doía muito e ele tinha medo até de urinar.
Foi um escândalo. Falavam que ele estava com gálico.
Colocaram a Zefa Cajá na cadeia e o tio Juca cuidou do tratamento do menino.
De repente Carlinhos começou a se envaidecer com a doença. Achava que as pessoas do sexo masculino o veriam como uma “espécie de virilidade adiantada” e passava a andar de pernas abertas para chamar a atenção.
O amigo Ricardo também tinha pegado a doença, mas sofria mais que ele, estava sendo medicado somente com ervas domésticas.
A doença operou uma transformação no menino, que agora já era visto como um homem pelas criadas do engenho.
Nessa época, o engenho oferecia-lhe amor por toda a parte. Sentia vergonha em pensar em Tia Maria quando soubesse de tudo aquilo. Agora, Carlinhos corria com um cachorro no cio. Os moradores reclamavam que não podiam deixar suas meninas em casa com o Seu Carlinhos solto por aí.
João Rouco “deu-me uma carreira por causa do filho pequeno, que eu quis pegar.”
Em junho iria para o colégio.

- Lá ele endireita.”

No dia seguinte tomaria o trem para o colégio. Já sentia saudades do engenho. Precisava de freio, não tinha religião, estava atrasado nos estudos, e tinha um grande mal dentro de si. Diziam que quando voltasse do colégio, viria outro. Com certeza esse outro era o sonho de sua mãe.
Zé Guedes levava a mala, o tio Juca o acompanhava, os moleques vinham se despedir. Na porta de Zefa Cajá só se viam panos estendidos no sol. O engenho inteiro se despedia dele.
Quando o trem passou pelo Santa Rosa, os moleques estavam na beira da linha para lhe dar adeus, com os olhos cheios de lágrimas, partia.

“ - Não vá perder o seu tempo. Estude, que não se arrepende.”

Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo. Aquele Sérgio, de Raul Pompéia, entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio.
Menino perdido, menino de engenho.”

IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


O autor apela constantemente para as recordações de sua infância e adolescência, para compor seu ciclo de cana-de-açúcar, séries de romances de caráter memorialista que retratam a Zona da Mata nordestina num período crítico de transição: a decadência dos engenhos esmagados pelas poderosas usinas.

Em todo o ciclo, o cenário é o engenho de Santa Rosa, do velho coronel Zé Paulino, avô de Carlos Melo (o narrador de “Menino de Engenho”, que, em muitas passagens, é o próprio José Lins do Rego). Além deles, povoam o Santa Rosa o tio Juca, os moleques - filhos dos empregados que vivem soltos pelos engenhos e brincam com os meninos, os filhos dos proprietários, na ingênua igualdade da infância, apesar dos preconceitos dos adultos.
Dessa forma, tudo será carregado de um saudosismo que tornará a obra melosa, sentimental, próxima da idealização da realidade, muitas vezes até ingenuidade. No entanto, pode-se verificar no romance certa postura social engajada, principalmente, ao contrapor as desigualdades econômicas, entre os habitantes da casa-grande e da senzala, envolvendo as mais diversas castas, desde o senhor de engenho até o moleque da bagaceira.
A obra nasceu com a intenção de ser memórias, o primeiro título de fato ia ser “Memórias de um Menino de Engenho”. Dentro desse contexto agrário-rural, o menino de engenho cresce solto, na ampla liberdade do latifúndio. Carlinhos, assim, tem precocemente a sua sexualidade exacerbada, pois vivia em contato direto com o mundo de “porcarias”, à solta com os moleques “depravados” da bagaceira, a ver livremente o sexo do gado no curral da fazenda. As masturbações precoces são inevitáveis, e o sexo, estimulado pela negra Luísa, que se torna para ele uma verdadeira professora de iniciação sexual, aflora em toda sua intensidade. Precocemente, aos doze anos de idade, o menino de engenho conhece a sua primeira mulher e contrai “doença-do-mundo” — a gonorréia. Esse fato, contudo, não o deprecia ou humilha; ao contrário, a gonorréia era, no mundo do engenho, uma espécie de atestado de virilidade adiantada.
O autor está mais preocupado em reunir flashes do passado do que em produzir uma análise aprofundada de sua realidade, essa técnica faz lembrar o estilo impressionista de “O Ateneu” de Raul Pompéia, romance que o próprio José do Lins do Rego citou no último parágrafo de seu livro comparando os protagonistas Carlos, “Menino de Engenho” com Sérgio, de “O Ateneu”: Carlos sai de uma vida jovem e “levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o corpo” para seguir seus estudos, enquanto, o segundo, ingênuo e sem experiências “entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade”.
No romance de Raul Pompéia há uma atitude de exigência interior de libertação de uma amargura avassaladora, intensificada e marcada pela caricatura, pelo sarcasmo e impiedade. Já o que ocorre no romance de José Lins do Rego é algo de ternura e intensa humanidade, dominado pela nostalgia do ambiente do engenho sob a decadência do poderio da civilização açucareira. Esse autor procura sentir e compreender a grandeza e a memória da natureza humanos limites de um mundo do qual não deseja se desprender.