quarta-feira, 6 de abril de 2011

MOÇA, INTERROMPIDA - RESUMO E ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA


I – AUTORA:


SUSANNA KAYSEN nasceu em Cambridge, Massachusetts, em 11 de novembro de 1948.


"A única coisa que me salvou da loucura foi escrever", conta a escritora Susanna Kaysen, autora de três romances, “Asa, As I Knew Him, 1987, “Far Afield”, 1990, “The câmera my mother gave me”, 2001, além da obra autobiográfica “Girl, Interrupted”, 1993 que, tornou-se um best-seller e foi estrelado no cinema, ganhando reconhecimento mundial e indicado a vários Oscars. A crítica comparou-o a diversas outras crônicas contundentes e hoje auto-retratos clássicos sobre a loucura, como “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), “I Never Promised You A Rose Garden” e “A Redoma de Vidro” (The Bell Jar, cuja autora, Sylvia Plath, também é ex-interna do manicômio McLean).
A escritora, através do humor negro, da linguagem direta, da ousadia e do intimismo, traz à tona temas universais, embora extraia sua matéria-prima de sua vida pessoal.

II – TÍTULO:

O título em inglês, “Girl, Interrupted”, traz uma perspicaz inversão que só ficará esclarecida em seu epílogo.
A protagonista visitou o Museu Frick, de New York, pela segunda vez e ao observar a tela de Vermeer, pintor barroco holandês, “Garota Interrompida em Sua Música”, identificou-se com o olhar vago da garota do quadro, ignorando seu professor e a própria aula de música. Assim, como a estudante interrompera a música, ela havia sido,“interrompida na música dos 17 anos, como a vida dela havia sido, roubada e presa numa tela; um momento congelado no tempo mais importante que todos os outros momentos, quaisquer que fossem ou que viessem a ser. Quem pode ser recuperar disso?”


“Garota Interrompida em Sua Música”.


É importante lembrar que no idioma inglês os adjetivos precedem os substantivos. Kaysen, entretanto, inverteu sua ordem propositalmente, na intenção de enfatizar sua vida, antes e depois de sua internação e, adicionou uma vírgula desnecessária entre os dois verbetes do título com o intuito de realçar essa transição.

III – ESTRUTURA:

“Moça, interrompida” é narrada em primeira pessoa pela protagonista Susanna Kaysen.
A obra não segue uma estrutura narrativa linear e possui uma atmosfera memorialista e autobiografia.
Trata-se de um documento pessoal de sua estada no Hospital MacLean, contando incidentes vividos e testemunhados por Susanna, que apresenta a rotina hospitalar, o relacionamento com o pessoal da equipe de saúde, os pacientes e a sua própria experiência de vida.
Os acontecimentos exteriores são considerados na medida em que revelam o interior, os motivos profundos da ação, que a narradora devassa e apresenta. Daí, os menores gestos são significativos na composição do quadro psicológico das personagens, onde nada é desprovido de interesse.
“Moça, interrompida” é composta por capítulos curtos e independentes o que acelera, só por si, o ritmo de leitura e por títulos bem precisos.

IV – TEMPO:

“Moça, interrompida” é construído a partir de um flash-back. Debruçada sobre a sua passagem durante quase dois anos no hospital psiquiátrico, 1967-68, Kaysen vai reconstituindo o “tempo interrompido” e o “universo paralelo” de sua existência, filtrando os fatos sob sua ótica, num processo que se aproxima do impressionismo associativo.
No entanto, os fatos e as ações não seguem um fio lógico ou cronológico e obedecem a um ordenamento interior, assim, são relatados à medida que afloram à consciência ou à memória da narradora.
A preocupação maior é com o tempo psicológico - o que se passa dentro das personagens, dentro da própria vida. Dessa forma, a escritora faz uma análise dissecante e profunda, desnudando a si mesma e as pacientes que conheceu no hospital.

V – PERSONAGENS PRINCIPAIS:

LISA: charmosa sociopata. Lisa era magra, amarelada, com belas e longas unhas e muitas olheiras, por causa das insônias.
DAISY: uma "filhinha de papai" mimada, com uma queda por frangos de padaria e laxantes.
POLLY: trazia cicatrizes terríveis cor-de-rosa que marcavam seu corpo, principalmente, na área do pescoço e nas faces, contrastando com o branco da pele que não foi tingida pelo fogo. Polly era sensível, amiga, companheira e alegre. Estava sempre pronta para ouvir e consolar os outros.
LISA CODY: ex-dependente de drogas.
GEORGINA: companheira de quarto de Susanna
TORREY: mexicana e dependente de drogas.
ALICE CALAIS-CALOS: aparentemente abobalhada e tímida, logo foi aceita no grupo. Sua falta de informações sobre coisas prosaicas da vida causou curiosidade entre as garotas, chegando a imaginar que ela esteve isolada o tempo todo de sua vida. Um mês depois de sua chegada, ocorreu sua explosão e foi trancada na solitária.
VALERIE: a funcionária do hospital que inspirava confiança. Ela era severa, inflexível, calada, sincera e não demonstrava medo das internadas.
JERRY: atendente esguio e ansioso.
DRA.WICK: representava o conservadorismo e a rusticidade do colonialismo inglês. Retraída, chocava-se facilmente com algumas expressões utilizadas pelas internadas.
SRA. MC WEENEY: seca, contraída, miúda, com olhinhos de porco, determinada, inflexível e acaciana. A Sra. Mc Weeney vestia-se de maneira formal e impecável e, olhava com censura para os cabelos e as roupas de Valerie. De personalidade instável, às vezes, apresentava comportamentos estranhos.

VI – RESUMO DO ENREDO:


EM BUSCA DE UMA TOPOGRAFIA DO UNIVERSO PARALELO


Susanna Kaysen inicia a narrativa questionando sobre o porquê das pessoas escorregarem “para um universo paralelo”, o mundo marginalizado.
A narradora cita o exemplo de Georgina, sua companheira de quarto, que foi abatida quando estava no cinema e, de repente, uma onda negra a engoliu. Na época, a jovem cursava o antepenúltimo ano da Universidade de Vassar.
Susanna divaga que, geralmente, essa onda negra chega aos poucos e não se têm forças para evitá-la, visto que as pessoas só tomam consciência desse universo paralelo quando já estão fazem parte dele

“[...] depois que entramos fica fácil enxergar o mundo do qual vivemos.”

O TÁXI

Susanna revive os últimos dez minutos antes de ser colocada num táxi, rumo ao hospital McLean, em 27/04/67. Ela sentia-se cansada, com problemas com o namorado complicado e entediada com seu emprego na loja de utensílios para cozinha.
Em sua averiguação pré-internação que duraram três horas, constou que a paciente apresentava depressão aguda; desencanto; ideias suicidas; descompensação progressiva; inversão do ciclo do sono; fantasiosa; retraimento e isolamento progressivos. No fundo, essa internação, parecia-lhe, confortável.

ETIOLOGIA

A protagonista apresenta uma lista de dez itens sobre opções e procedimentos para se lidar com uma paciente com esse quadro.

FOGO

Susanna relata a tentativa de suicídio de Polly, que antes de sua internação, banhou-se de gasolina e ateou fogo.
Polly trazia cicatrizes terríveis cor-de-rosa que marcavam seu corpo, principalmente, na área do pescoço e nas faces, contrastando com o branco da pele não foi tingida pelo fogo.

“As cicatrizes não têm personalidade. Não são como a pele da gente: não mostram a idade ou alguma doença, a palidez ou o bronzeado. Não têm poros nem pêlos, nem rugas. São uma espécie de fronha, que protege e esconde o que houver por baixo. Por isso as criamos. Porque temos algo a esconder.”

Polly era sensível, amiga, companheira e alegre. Estava sempre pronta para ouvir e consolar os outros.
Nunca tiveram coragem de perguntar por que fizera tal ato contra seu próprio corpo.
Susanna ficava a imaginar de que maneira Polly arquitetou seu plano suicida. Tinha que ter muita frieza, afinal, para tanto, era necessária muita coragem.
A narradora cita outras formas suicidas como: ingerir aspirinas, cortar os pulsos e até com um revólver enfiado na boca. E, em seguida, descreve o dia que ingeriu cinquenta aspirinas.

“Era a minha incumbência para aquele dia.”

Não concluiu seus planos, saiu pela rua e desmaiou.
Com Polly foi diferente, onde e como ela executou seu plano?
E, agora, com apenas dezoito anos, quem beijaria uma pessoa sem pele?
Todos estes questionamentos absorviam Susanna.

“A vida era um inferno, ela sabia. Mas seu sorriso deixava entrever que ela queimara tudo dentro dela.”

Talvez, ela sorrisse porque era superior a todas internas: “nós não teríamos tido aquela coragem de nos queimar por dentro; e isso ela também compreendia.”
Um dia ouviram Polly chorar e gritar: “ – Meu rosto! Meu rosto! Meu rosto!”
Foi então que, naquele momento, compreenderam que estavam enganadas, “algum dia poderíamos sair, mas ela estava aprisionada naquele corpo para sempre.

LIBERDADE

Lisa, novamente, fugiu. Sempre que isso ocorria, ela era capturada até o final da tarde. Mas, dessa vez, a fuga tomou outra dimensão.
No terceiro dia, Susanna ouviu alguém da sala de enfermagem, mandar que intensificassem as buscas.
Lisa era magra, amarelada, com belas e longas unhas e muitas olheiras, por causa das insônias. Quando foi encontrada, foi colocada na solitária e lá, permaneceu por dois dias.
Assistíamos a muitas violências no hospital: o eletrochoque que Cynthia tomava semanalmente; Polly enrolada em lençóis umedecidos com água gelada e tremendo de frio; mas, a volta de Lisa da solitária foi algo desesperador. Apararam suas unhas, alegando serem “objetos cortantes” e confiscaram seu cinto para que ela não se enforcasse.
Depois, devolveram-lhe o cinto, suas unhas tornaram a crescer; entretanto, Lisa nunca voltou a ser aquela garota engraçada de outrora. Ficava sentada, assistindo à TV com as mais irrecuperáveis, comportamento que ela sempre recriminou.
Ela que ao invés de dormir, fazia as unhas, preparava chocolate para a equipe da noite; agora, vivia alienada, possivelmente de tanta medicação, enfrente à televisão.
Passado algum tempo, Lisa trocou a sala de TV pelos banheiros.
Um dia, depois do café da manhã, Lisa sorriu e pediu que a esperássemos no refeitório.
Houve grande barulho e correria.

Lisa tinha embrulhado todos os móveis – alguns deles ocupados pelas catatônicas -, bem como a TV e o sistema de sprinklers do teto, com papel higiênico, metros e mais metros de papel higiênico esvoaçando, pendurados, embolados e enrolados em tudo e por toda parte.”

Lisa, enfim, tinha voltado ao seu estado normal. Renasceu a sua alegria, voltou a contar histórias e relatou tudo o que viu e viveu durante sua fuga.

O SEGREDO DA VIDA

O namorado problemático de Susanna não foi visitá-la no hospício. Ele se justificou que não suportaria essa situação, visto que sua mãe já passara por um problema parecido com o dela. Dessa forma, Susanna e seu namorado problemático romperam o relacionamento.
Seu pai, também, não a visitava. Ele alegava que vivia sempre ocupado. Assim, Susanna, raramente, recebia visitas. Foi com surpresa, que um dia recebeu a visita de Jim Watson.

Fiquei contente em vê-lo, pois, nos anos cinquenta, ele descobrira o segredo da vida, e talvez agora me contasse qual era.”

James Watson foi uma das personagens principais num dos grandes avanços científicos.
Os seus esforços permitiram descobrir que a molécula de ADN tem a forma de uma dupla hélice. E que no meio se encontram quatro unidades químicas (adenina, timina, citosina e guanina). Watson, Crick e Maurice Wilkins, que também contribuiu para esta descoberta, receberam o Prêmio Nobel da Medicina de 1962.
Essa pequena informação explica as palavras de Susanna ao referir-se a ele, como descobridor do segredo da vida.
James Watson ou simplesmente Jim para os íntimos, sugeri-lhe que fugissem para Inglaterra; mostrou-lhe um carro luxuoso que os esperava e fez-lhe uma proposta para tornar-se sua governanta.

Durante uns dez segundos fiquei imaginando aquela outra vida que começava comigo entrando no carro vermelho de Jim Watson e nós dois disparando a toda do hospital para o aeroporto. A parte de ser governanta não me parecia clara. Aliás, nada me parecia claro.

Susanna, disse-lhe, não.

POLÍTICA

A narradora traça o perfil opositivo entre o mundo real externo e New Haven, o mundo paralelo.
Relata a namoro de Giorgina e Brad Barker, um garoto de dezesseis anos que dizia que seu pai era espião e que matou muitos cubanos com suas próprias mãos. Barker quando não estava trancafiado em seu pavilhão, visitava Georgina e namoravam sentados no chão do quarto.
Às vezes, mesmo não sendo convidada, Susanna acompanhava as conversas do casal na tentativa de obter alguma informação sobre o terrível Sr. Barker.
Brad entrou numa fase violenta e se afastou várias semanas de Giorgina.
Susanna na tentativa de animá-la sugere fazer uma comida. As duas dirigem-se à cozinha na intenção de fazer caramelos, mas por descuido de Susanna a calda quente cai na mão de Georgina, que não esboçou nenhuma reação.

SE VOCÊ MORASSE AQUI, JÁ ESTARIA EM CASA

Daisy, como sempre ocorria, foi internada às vésperas do feriado de Ação de Graças e ficava até depois do Natal. Houve um ou outro ano em que também, internou-se em seu aniversário. Ela necessitava ter um quarto só para ela e as enfermeiras precisaram remanejar alguma paciente.
A enfermeira-chefe reuniu as paciente e perguntou se alguém aceitaria dividir o quarto com uma companheira. Susanna e Georgina já dividiam e ficaram fora da discussão.
A namorada de um marciano que tinha um pênis pequenininho e que vivia a exibi-lo, se prontificou de imediato, mas ninguém aceitou.
Cynthia, que tornara a falar depois de seis meses em estado de choque se ofereceu e, Polly aceitou. Porém, dessa forma, o problema não estaria resolvido, já que Polly dividia seu quarto com uma anoréxica chamada Janet.
No final, juntaram duas catatônicas e o quarto para a chegada de Daisy foi liberado.
Daisy tinha duas obsessões: laxantes e frango. Diariamente pedia laxantes às enfermeiras e duas vezes por semana, seu pai, trazia-lhe um frango inteiro.
O comportamento de Daisy aguçava as curiosidades das outras jovens.
Daisy apesar de sexy também, fedia. Usava roupas ousadas atraindo atenção da namorada do marciano, que também estava apaixonada por ela e queria mostrar o seu pênis.
Lisa traçou em plano para entrar no quarto de Daisy. Simulou que estava com prisão de ventre e conseguiu alguns laxantes com a enfermeira. Com isso, bateu à porta de Daisy e conseguiu ser recebida.
No quarto havia nove carcaças de frango enfileiradas no chão. Daisy tirava toda a carne do frango e guardava a carcaça inteira, inclusive da asa. Depois, colocava a carcaça no chão, junto da anterior. Dizia que quando tivesse quatorze carcaças, era hora de ir embora.
Na outra semana, outra novidade circulou no hospício: Daisy ganharia de presente de natal um apartamento.
Georgina queria saber mais sobre seu presente natalino e quando, perguntou-lhe qual a parte que ela mais gostava, a resposta veio de imediato:

“– A placa onde está escrito, “Se você morasse aqui, já estaria em casa.”
Daisy brandiu o punho, empolgada.
– Entendeu? Todo dia as pessoas vão passar por ali e ler a placa, e ai vão pensar “É mesmo, se eu morasse aqui, já estaria em casa”.

Certa tarde circulou no hospital a notícia de que Daisy havia cometido suicídio, no dia do seu aniversário.

MEU SUICÍDIO

Susanna através do flash-back recorda-se de sua tentativa de suicídio. Antes, disserta sobre o pré-suicídio e suas sensações.
Na época de sua tentativa de suicídio, namorava o Johnny, um garoto romântico e apaixonado.

Liguei para ele, disse que ia me matar, deixei o fone fora do gancho, tomei as minhas cinquenta aspirinas e percebi o meu erro. Aí, saí para comprar leite, coisa que minha mãe me pedira para fazer, antes das aspirinas.
Johnny chamou a polícia, que veio até minha casa e contou para a minha mãe o que eu havia feito. Ela apareceu no supermercado da Av. Massachusetts no instante em que eu ia desmaiar em cima do balcão do açougue.
No trajeto de cinco quarteirões até o supermercado, a humilhação e o arrependimento me invadiram. Eu havia cometido um erro e agora ia morrer por causa dele. [...] A lavagem estomacal me fez recuperar os sentidos.”

Susanna, depois desse dia, sentiu que algo dentro de si havia morrido.
Novas mudanças ocorreram em sua vida: retornou ao colégio; separou-se do namorado; começou um relacionamento com seu professor de inglês e tornou-se vegetariana, talvez por relacionar o balcão do açougue com o seu desmaio no supermercado.

TOPOGRAFIA ELEMENTAR

Susanna esclarece que sua internação foi voluntária, visto que, na época, já contava com dezoito anos de idade. Ela não representava um perigo para sociedade e sim, para si própria.
Depois do episódio das cinquenta aspirinas, a protagonista sentiu-se restabelecida como se parte da personalidade que tanto lhe incomodava fora abortada.
No entanto, esse período passou e, em 1967, uma nova onda de depressão tomou-lhe conta, foi quando procurou ajuda médica.
O médico desconhecido em poucos minutos diagnosticou seu transtornou e optou pela internação. Na época, disse-lhe que bastavam duas semanas para descansar, mas, na realidade, foram quase dois anos.
Será que o médico, na ocasião, preferiu eliminar um problema social futuro e optou por uma espécie de medicina preventiva, passando o problema para outros?
Mais tarde, Susanna leu que o médico foi acusado por assédio sexual por uma ex-paciente.
Retomando a sua internação, a narradora recorda-se que após ouvir seu “veredicto”, tomou o táxi e dirigiu-se ao Setor Administrativo do Hospital McLean.

Eu estava tendo um problema com padronagens. Tapetes orientais, pisos de cerâmicas, cortinas estampadas, coisas desse tipo. Pior de tudo eram os supermercados, com seus corredores lembrando tabuleiros de xadrez compridos e hipnóticos. Quando olhava para essas coisas, eu via outras coisas dentro delas. Pode parecer que eu sofria de alucinações, mas não era o caso. Eu sabia que estava olhando para um piso ou para uma cortina. [...] A realidade estava se tornando demasiado densa.”

Susanna, também, ao olhar para o rosto de alguém, não conseguia sustentar uma conexão ininterrupta com o conceito de rosto. E, mesmo tendo consciência que suas interpretações eram equivocadas, elas persistiam.
Pensava, ela:

Quando você olha para um rosto e vê uma massa de borracha, é porque teme que o seu rosto seja mesmo uma massa de borracha.”

Susanna temeu estar louca ou que alguém pudesse achar que, realmente, ela estava louca. Outra característica marcante de sua personalidade foi á negação perante a tudo e a todos.
Assim, sua internação era uma forma de resistência.

Era um Não descomunal – o maior Não do lado de cá do suicídio.”

TOPOGRAFIA APLICADA

A decoração dos primeiros compartimentos do hospital agradava aos visitantes e convencia-os que se tratava de um estabelecimento sério e responsável. No entanto, após a sala de estar e ao dobrar o corredor, a realidade era bem diferente.
A narradora descreve a parte estrutural do hospital (quartos, banheiros, sala de estar, sala de TV) e ressalta a existência de um quadro negro que acusava entradas, saídas e mortes das internadas, sem nenhuma sensibilidade.
No final do corredor há a terrível solitária.

A solitária era do tamanho de um banheiro residencial. A única janela era a da porta, reforçada com tela de galinheiro, permitindo que espiassem para ver o que a gente estava fazendo. Não dava para fazer grande coisa ali dentro. Sobre o piso de linóleo verde, apenas um colchão sem lençol. As paredes estavam descascando, como se alguém as tivesse atacado com unhas ou dentes. A solitária, supunha-se, devia ser à prova de som. Não era.”

A solitária estava disponível para quem quisesse lá adentrar-se, gritar ou até pedir para ser trancado lá, fato que raramente acontecia.

Segundo as regras de etiqueta da solitária, qualquer pessoa podia juntar-se a você, desde que você não estivesse trancada. Uma das enfermeiras podia interromper sua gritaria para averiguar o seu motivo, ou outra maluca qualquer podia entrar e começar a gritar junto com você. Daí essa história de “solicitação”. O preço da privacidade era a liberdade.”

No entanto, a função da solitária era punitiva. Objetivava corrigir e acalmar quem extrapolasse o grau de loucura.

PRELÚDIO PARA UM SORVETE

Nosso hospital era famoso e abrigara muitos grandes poetas e cantores. Seria especializado em poetas e cantores? Ou poetas e cantores é que se especializavam em loucura?”

A narradora cita algumas celebridades que lá estiveram internadas, entre elas: Ray Charles; a família Taylor: Kate e Livingston; Robert Lowell; Sylvia Plath etc, músicos e escritores.

“Por que será que a métrica, a cadência e o ritmo produzem loucura em quem os produz?”

Os jardins eram bem formados, porém intocados. Quando recebiam o prêmio para tomar sorvete em Belmont, passavam pelo belo jardim. Essa retirada do hospital era acompanhava por enfermeiras e dependia do grau de insanidade.
Esta visita ao mundo exterior muitas vezes causava constrangimentos aos moradores da região e apreensão nas enfermeiras que as acompanhavam.

SORVETE

Em uma das idas a sorveteria, Susanna ao reparar no assoalhado que formava quadrados pretos e brancos teve uma recaída.

O chão queria dizer Sim, Não, Isto, Aquilo, Em Cima, Embaixo, Dia, Noite...todas as indecisões e opostos que, se na vida já são ruins, ficam ainda piores assim, explicitados no chão.”

RONDA

A vigilância das enfermeiras tirava a privacidade e incomodava as pacientes.

Clique, estalo, “ronda”, estalo, clique.”

Os casos mais graves eram fiscalizados de cinco em cinco minutos. Susanna atingiu a fiscalização de meia hora, mas como Georgina continuava no patamar dos cinco minutos, não fazia diferença para Susanna que dividia o quarto com a amiga. E a ronda prosseguia o tempo inteiro.

OBJETOS AFIADOS

Todos os objetos afiados eram confinados no hospício. No refeitório, somente talheres de plásticos e para raspar as pernas somente com autorização e fiscalização.

Havia muitas pernas cabeludas no nosso pavilhão. Precursoras do feminismo.”

OUTRA LISA

Chegou outra Lisa no hospital e para diferenciá-la da anterior, passou a ser chamada por Lisa Cody. Tornaram-se amigas e uma de suas atividades prediletas era conversar por telefone. Ambas eram ex-drogadas.
As cabines telefônicas eram um lugar onde se obtinha privacidade, embora, só eram permitidas ligações que constavam numa determinada lista autorizada.

Lisa Cody ainda não recebera um diagnóstico.”

Quando o recebeu constava que era uma sociopata o que lhe causou felicidade por ser o mesmo diagnóstico de Lisa. Enquanto que, no prontuário de Susanna, constava distúrbio da personalidade.

Passei a achar que minha personalidade era como um prato ou uma camisa com defeito de fabricação e, consequentemente, inútil.”

As Lisas passaram a “atuar”, pois se identificavam demais, travando uma guerra em torno de suas vidas pregressas.
Um dia desapareceram as lâmpadas do pavilhão. Todas saíram á procura. Lisa manteve-se na sala de TV. Quem as achou foi Lisa Cody.
Dois dias depois, Lisa Cody desapareceu.
Alguns meses mais tarde, Lisa, também desapareceu e conseguiu dois dias de liberdade. Quando voltou disse que esteve com Lisa Cody e que ela agora, era uma “autêntica viciada”.

A RONDA DOS NAMORADOS

As garotas discutem sobre as possibilidades e as dificuldades que elas têm em se relacionarem sexualmente, pois eram vigiadas, constantemente pela ronda.

EM QUEM VOCÊ ACREDITA, NELE OU EM MIM?

Susanna apresenta argumentos que ela estava com a razão sobre o tempo que se passou entre sua consulta até sua internação.

VELOCIDADE X VISCOSIDADE

A protagonista expõe sua definição sobre velocidade e viscosidade.

A viscosidade e a velocidade, embora opostas, podem parecer iguais. A viscosidade gera a inércia da falta de inclinação; a velocidade gera a inércia da fascinação. Quem observa não consegue saber se uma pessoa está calada e quieta porque sua vida interior estacionou ou porque sua vida interior é de uma atividade paralisante.”

TELA DE SEGURANÇA

Lisa exige que a enfermeira abra a janela do seu quarto, sob ameaça de chamar seu advogado.

GUARDIÃS

Susanna descreve os funcionários do hospital atentando às suas características físicas e comportamentais.
Valerie era considerada a funcionária do hospital que inspirava confiança. Ela era severa, inflexível, calada, sincera e não demonstrava medo das internadas.
Jerry era o atendente esguio e ansioso.
A Dra. Wick era a chefe do pavilhão South Belknap Dois, onde Susanna estava internada. Ela representava o conservadorismo e a rusticidade do colonialismo inglês. A sua imagem e voz, lembrava-se um cavalo.
Retraída, chocava-se facilmente com algumas expressões grosseiras utilizadas pelas pacientes. Em uma das sessões de terapia a Dra. Wick pede que Susanna fale sobre o seu relacionamento com o professor de inglês.

“ – Fomos ao Museu Frick. Eu nunca tinha ido antes. Havia um Vermeer, entende? Uma pintura maravilhosa, de uma moça na aula de música...Era tão maravilhosa que eu fiquei pasma...
- E quando foi que vocês...humm...quando foi?”

Depois dos interrogatórios com a Dra. Wick, era a vez dos residentes colherem depoimentos. Estes eram substituídos de seis em seis meses, assim, quando começava surgir efeito seu trabalho, eram transferidos.
Em seguida, ocorriam as sessões com o terapeuta. Os terapeutas não tinham poder de decisão junto ao hospital, nem interferir em seus problemas cotidianos.
Eles se limitavam a ouvir e passar receituários. Em caso de emergência, os residentes podiam interceder no trabalho dos terapeutas e medicar as pacientes.
Esses remédios tidos como controladores da depressão causavam dependência nas pacientes.
A equipe de funcionárias do turno da noite era mais sensível e compreensível. Elas demonstravam carinho para com as pacientes, abraçava-as quando carentes e chamava-as de “queridas” ou “benzinhos”. Diferente da equipe diurna que seguia firmemente a norma do hospital: “Nada de Contato Físico”.
Entre a transição das duas equipes, havia ainda, a seca, contraída, miúda, com olhinhos de porco, a Sra. Mc Weeney.
A Sra. Mc Weeney vestia-se de maneira formal e impecável e, olhava com censura para os cabelos e as roupas de Valerie.
A responsável pelo turno intermediário era determinada, inflexível e acaciana, vivia a repetir frases feitas. De personalidade instável, às vezes, apresentava comportamentos estranhos.
Sra. Mc Weeney dividia o seu turno com o misterioso Médico de Plantão. Misterioso, porque ninguém o conhecia e, raramente era consultado. Ela preferia resolver os problemas por sua própria iniciativa, inclusive sobre as normas, horários e medicamentos.
No dia seguinte, as garotas reclamavam a Valerie sobre o atraso dos medicamentos durante o turno da Sra. Mc Weeney. Mas, de nada adiantava, todos a protegiam, pesando a necessidade financeira que a mesma tinha de assegurar o seu emprego.
Havia, também, as estagiárias. Estudantes jovens, ansiosas, asseadas que se trajavam impecavelmente.

“[...] olhar para as estagiárias de enfermagem era olhar para versões alternativas de nós mesmas. Elas viviam uma vida que nós poderíamos estar vivendo se não estivéssemos às voltas com ser doentes mentais. Dividiam apartamentos, tinham namorados e conversavam sobre roupas. Queríamos protegê-las, para que pudessem continuar vivendo essa vida. Eram as nossas representantes por procuração”.

Assim, as garotas identificavam-se com as estagiárias e acabavam estreitando laços de amizade. Durante a curta passagem das estagiárias, as garotas apresentavam certa normalidade e controle.

Por causa disso, elas nunca aprendiam nada sobre enfermagem psiquiátrica. Quando seu estágio terminava, só levavam consigo uma versão melhorada de nós, um meio caminho entre nossa existência azarada e a normalidade que elas encarnavam aos nossos olhos.”

Tão logo elas partiam, a vida dentro do hospital retomava a sua rotina, pior do que antes, resultando em trabalho dobrado aos funcionários que lá permaneciam.

MIL NOVECENTOS E SESSENTA E OITO

O mundo lá de fora não parava seu percurso para esperar as confinadas alcançá-lo. Suas transformações e avanços eram televisionados diariamente e acompanhados na sala de TV.

Depois veio a época em que pessoas que conhecíamos – ainda que não pessoalmente – começaram a tombar. Martin Luther King, Robert Kennedy. [...] As pessoas estavam fazendo o tipo de coisa que nós fantasiávamos fazer: ocupavam as universidades e suspendiam as aulas; faziam abrigos com caixas de papelão e, com elas, obstruíam o caminho; mostravam a língua para a polícia.”

As garotas vibravam por esses “libertadores” que de certa forma, direta ou indireta, assumiam seu lugar e defendiam seus ideais. Claro que era cômodo torcer por seus rebeldes heróis, estando protegidas num hospital caro e bem equipado. Enquanto havia discórdias no mundo exterior, no hospital viviam tempos de calmaria para a equipe do hospital.

A gente não “atuava”; estavam atuando por nós lá fora.”

Entretanto, a esperança de um mundo mais justo conquistado através de seus heróis foi se dispersando. E, quando as garotas viram Bobby Seale, amarrado e amordaçado num tribunal de Chicago, compreenderam que o mundo não ia mudar nem para aqueles que reivindicaram nem á elas. Essa imagem causou sensações diversas nas pacientes.

OSSOS EXPOSTOS

A vida no hospital adquire dois valores entendidos como prisão e liberdade. Prisão, porque as limitava de seu livre arbítrio e liberdade, pois, ao mesmo tempo em que as isentava de suas responsabilidades perante a sociedade, também, protegia-as.

Enquanto estivéssemos dispostas a continuar transtornadas, não precisaríamos arranjar trabalho ou estudar. [...] Num estranho sentido, éramos livres. Chegáramos ao fim da linha. Não tínhamos mais nada a perder. Nossa privacidade, nossa liberdade, nossa dignidade, tudo isso acabara. Estávamos despidas até o osso da nossa própria pessoa.”

Essa suposta proteção tinha um custo alto. Além da hospedagem, eram cobrados à parte, os remédios, consultas, seguro, etc valor que correspondia aos custos de um curso universitário.
Algumas famílias sentiam-se culpadas pelos distúrbios mentais que seu filho ou parente apresentavam; outras, afirmavam: “não somos loucos; ela é que é”; e, também, existiam, ainda, aquelas que queriam provar que ninguém em sua família era louco.
Torrey é um bom exemplo das reações familiares diversas. Ela foi internada, pois era dependente de anfetaminas. Quando seus pais a visitavam, ela dissimulava uma loucura ensaiada, para não ter que voltar a viver com sua família no México.

Estar no México significa morrer e tomar pico para não se sentir totalmente morta.”

Em agosto os pais de Torrey telefonaram avisaram que viriam buscá-la.
As pacientes partiram em sua defesa e empenharam-se em protegê-la, traçando planos para Torrey fugir.
Os pais de Torrey combinaram com o hospital receber a filha no aeroporto de Boston.
As meninas arrecadaram dinheiro e entregaram a Torrey para que ela tivesse condições de sobrevivência após a sua fuga. Pela manhã, duas enfermeiras esperavam para levá-la ao aeroporto. As meninas estavam apreensivas, temiam que o plano não tivesse êxito.
Lisa saiu pelo corredor, gritando e batendo portas para chamar a atenção das funcionárias, na intenção de que somente uma enfermeira ficasse disponível para acompanhar Torrey, facilitando seu plano de fuga.
Antes da partida, Valerie encaminha Torrey à enfermaria e obriga-a tomar um dosador cheio de remédios, afirmando que era só para ela relaxar.
Na verdade, eram calmantes fortes que a doparam e isso se confirmou ao ver os olhos de Torrey brilhando e desequilibrando-se ao caminhar.
Havia uma pequena esperança de Torrey fugir, mas as garotas não tinham mais como lhe ajudar.
O resto do dia passou vazio. Sentadas na sala de estar, caladas e tristes.
Susanna evitava pensar em Torrey e passou a observar sua mão.
Em certo momento, Susanna tentou sentir seus ossos e como não conseguisse, passou a morder sua mão até sangrar.
Georgina sai em busca de Valerie que lhe dá uma dose de Thorazine. Susanna não havia tomado esse medicamento e em poucos minutos, o remédio começou a fazer efeito.

“- Uau – exclamei. Não consegui ouvir direito a minha voz. Decidi ficar de pé, mas, quando o fiz, me vi no chão.”

Esse episódio foi avaliado pelo corpo médico como despersonalização por motivo não diagnosticado. No entanto, foi de suma importância esclarecedora para Susanna: “agora estava de fato louca e ninguém poderia me tirar dali.”

SAÚDE BUCAL

Susanna teve que ser encaminhada ao dentista. O dentista era alto, mal-encarado e sujo. Seu jaleco guardava respingos de sangue de outros procedimentos.
Examinou Susanna sem profissionalismo e decidiu extrair o abcesso.
Susanna não permitiu e teve o apoio de Valerie que pediu ao dentista uma receita de antibiótico para controlar a infecção. Na volta chamou-a de ajuizada.
Passados alguns dias, a penicilina ingerida apresentou efeitos colaterais.
Valerie prontificou-se de levar Susanna ao seu dentista, em Boston.
Ao saberem disso, as garotas pediram-lhe diversos favores de Boston e Cynthia sugeriu que ela saltasse do táxi e fugisse.
No consultório, o dentista aplicou-lhe uma anestesia e extraiu o dente.
Quando Susanna retomou a consciência queria saber:

“ – Onde é que ele foi parar?”

O dentista entendeu que ela se referia ao dente, e, mostrou-lhe.
Valerie na volta entregou-lhe o dente que ela havia trazido do consultório.
Mas, na realidade, Susanna questionava sobre o seu tempo perdido.

CALAIS ESTÁ GRAVADA NO MEU CORAÇÃO

Uma nova garota é internada, Alice Calais-Calos. Aparentemente abobalhada e tímida, logo foi aceita no grupo.
Sua falta de informações sobre coisas prosaicas da vida causou curiosidade entre as garotas, chegando a imaginar que ela esteve isolada o tempo todo de sua vida.
Um mês depois de sua chegada, ocorreu sua explosão e foi trancada na solitária.
De lá vinham batidas, gritarias e estrépitos abafados.
Depois de libertada da solitária e monitorada por duas enfermeiras, Alice é transferida para a ala de segurança máxima.
Passado algum tempo, as garotas decidem visitá-la e contaram com o apoio das enfermeiras.

Visto de fora, o lugar não parecia nada de especial. Nem sequer tinha mais portas. Lá dentro, porém, era diferente. As janelas tinham telas, como as nossas, mas havia grades em frente às telas. Havia barrotes – finos e separados por muitos centímetros, mas, ainda assim, barrotes. Os banheiros não tinham portas e as privadas não tinham assentos. (...) A sala das enfermeiras não era aberta, como a nossa, mas fechada por um vidro reforçado com tela. As enfermeiras ficavam lá dentro ou do lado de fora. Na segurança máxima, nada de se debruçar sobre a parte de baixo da porta para bater papo.
Além disso, os quartos não eram propriamente quartos. Eram celas. Na verdade, eram solitárias. Não havia nada neles, além de colchões sem roupa de cama, ocupados pelos pacientes. Ao contrário de nossa solitária, tinham janelas, mas eram janelas mínimas, altas, reforçadas com tela de galinheiro, telas de segurança e grades. Quase todas as portas dos quartos estavam abertas, de forma que, ao passar pelo corredor para visitar Alice, víamos as pessoas deitadas nos colchões. Algumas estavam nuas. Outras, em vez de deitadas, estavam de pé num canto ou encolhidas junto à parede.”

Alice estava sentada no colchão, abraçava os joelhos com os braços manchados. A sua cela fedia e Lisa comentou que Alice tinha espalhado merda por todo o local. Ela estava rouca, mas afirmou que se sentia melhor. A visita terminou rapidamente, por conta do cheiro forte que exalava e pela falta de diálogo.

A SOMBRA DA REALIDADE

A protagonista relata suas sessões de análise com Melvin e sua descoberta dos túneis que integravam todo o hospital. Susanna relaciona os túneis do hospital ao Mito da Caverna, de Platão.
Comenta que Melvin morreu jovem e que só depois de algum tempo, descobriu que ela foi sua primeira analisanda.

ESTIGMATOGRAFIA

O endereço do hospital psiquiátrico, 115 da Mill Street, era famoso e denunciava um passado marcante, principalmente ao tentar uma vaga na carreira profissional.

Aos olhos do mundo, porém, todas estávamos estigmatizadas.”

AVANÇOS RECENTES NO CAMPO DA SAÚDE BUCAL

Pronta para receber alta, Susanna passa a preocupar-se com seu futuro profissional.
Antes de sua internação, ela teve dois empregos frustrantes. No primeiro permaneceu durante três meses, como vendedora de utensílios domésticos; no segundo emprego, foi contratada como datilógrafa no departamento de cobranças da Harvard, nesse, trabalhou por uma semana e aterrorizou vários estudantes enviando-lhes cobranças erradas.
Na loja de utensílios de culinária para gourmets, Susanna deixava os objetos cair e quebrarem; no departamento de cobranças, não podia fumar e nem usar minissaia o que a deixava contrariada.

O negócio do cigarro foi na segunda-feira, o da minissaia, na terça. Quarta-feira eu vesti uma minissaia preta com meias pretas e esperei para ver se tinha sorte.”

O supervisor era um negro elegante e atraente, que passava o dia inteiro fumando e fiscalizando o trabalho das datilógrafas. Depois, de repreendê-la por seus trajes, Susanna dirigiu-se ao banheiro para fumar. Nova advertência do supervisor e a partir daí, passou a cometer erros graves no enviou das cobranças.

Discriminação sexual, sem dúvida. Mas agora o problema é com as leis antitabagistas. O problema passou a ser “discriminação tabagística”. Esse foi um dos motivos que me levaram a ser escritora: poder fumar em paz.”

Susanna recorda-se do momento em que a assistente social perguntou-lhe que carreira profissional seguiria ao sair do hospital. Susanna responde-lhe que seria escritora. Perante essa resposta, a assistente social acrescentou que ser escritora era um ótimo passatempo, mas que ela devia tentar a carreira de protética.

Por sorte, recebi um pedido de casamento e eles me deram alta. Em 1968, todo mundo entendia um pedido de casamento.”

TIPOGRAFIA DO FUTURO

Susanna conheceu Baptiste Perder Gareance, seu futuro marido, no natal em Cambridge. Ele tinha vindo de Reed passar o feriado com os pais. Foram apresentados pelo irmão de seu amigo, no Cinema Brattle. Naquele dia assistiram “O boulevard do crime” e depois, passaram a noite juntos.
Baptiste voltou para Reed e Susanna voltou para a sua rotina na loja de utensílios culinários e esqueceu-se dele. Depois de formado, Baptiste voltou para Cambridge e a visitou no hospital. Ele estava de partida a Paris, prometeu escrever-lhe, mas não cumpriu sua promessa.
Quando Baptiste retornou de Paris, visitou-a novamente no hospital, porém, Susanna passava por grande crise e recusou-se a recebê-lo.
Baptiste, antes de partir para Ann Arbor, ligou para Susanna e, depois de oito meses, retornou e a procurou novamente.
Nessa época, Susanna gozava de alguns privilégios e pode acompanhá-lo ao cinema, jantarem juntos e às onze e meia, regressar num táxi rumo ao hospital.
No verão daquele ano, o corpo do seu amigo de ambos foi encontrado em decomposição parcial no poço do elevador.
Em setembro, Baptiste pediu-a em casamento.
A protagonista imaginava que quando se cassasse, sua vida iria parar.

Não parou. Também não foi tranquila. No fim, eu o perdi. Fiz de propósito, como quando Garance perdeu Baptiste no meio da multidão. Achei que precisava ficar sozinha. Queria seguir sozinha em direção ao meu futuro.”

MENTE X CÉREBRO

A narradora disserta sobre os rótulos imbuídos nos termos: personalidade, alma e mente ou cérebro.

Dez vezes por semana, os neurobiólogos publicam dez artigos cheios de dados novos. Entretanto, parece que um grupo não lê os trabalhos do outro. Isto porque os analistas escrevem sobre um país que chamam de Mente, enquanto os neurocientistas informam sobre um país chamado Cérebro.”

DISFUNÇÃO DA PERSONALIDADE LIMÍTROFE

Susanna explicita as características determinantes da disfunção da personalidade limítrofe. Trata-se de “um padrão invasivo de instabilidade da auto-imagem, das relações interpessoais e do estado de espírito e que se manifesta no início da idade adulta e em diversos contextos”, afetando a orientação sexual, as metas a longo prazo ou a escolha de profissão, o tipo certo de amizades ou namorados que deve ter e que valores aceitar.
Em seguida, a narradora apresenta alguns sintomas básicos sobre essa disfunção: características secundárias; incapacitação; complicações; fator sexual; incidência; predisposição e quadro familiar e diferenciação do diagnóstico.

MEU DIAGNÓSTICO

Susanna depois de vinte e cinco anos, após contratar um advogado, teve acesso a sua ficha do hospital e constatou as definições em seu diagnóstico.
Ela leu atentamente o seu prontuário e concluiu que, exceto alguns itens, o diagnóstico correspondia a um retrato realístico do seu estado quando contava dezoito anos de idade.

A única coisa que posso fazer é acrescentar detalhes, apresentando um diagnóstico comentado.
[...] Se o meu diagnóstico tivesse sido moléstia bipolar, por exemplo, eu e a minha história provocaríamos uma reação um pouco diferente. Trata-se de um problema químico, diriam. Mania, depressão, Lithium, essas coisas. Em todo caso, eu não teria culpa. E se fosse esquizofrenia? Vocês sentiriam um arrepio na espinha. Afinal de contas, isso sim é loucura de verdade. Ninguém se “recupera” de uma esquizofrenia. Vocês inevitavelmente ficariam na dúvida se o que eu lhes conto é verdade e se perguntariam até que ponto é apenas imaginação minha.”

Enfim, personalidade limítrofe é “algo que fica a meio caminho entre a neurose e a psicose (...) cujo estilo de vida incomoda os outros”, como afirmou o psiquiatra pós-Melvin.

Um analista que conheço há anos disse: “Freud e seus seguidores acreditavam que todas as pessoas fossem histéricas; depois, nos anos cinquenta, elas passaram a ser psiconeuróticas; e hoje em dia, todo mundo tem personalidade limítrofe.”

Susanna passa a estudar sobre a loucura, seus sintomas e consequências. Reviu sua vida escolar, os trabalhos de história que para ela eram tediosos e sua dedicação à literatura; os sonhos de seus pais em vê-la encaminhada em uma universidade qualificada; seu relacionamento com o professor de inglês e seus vários namorados; o vazio e o tédio que sentia e a incompreensão de todos que a cercavam.

Namorados e literatura: como construir uma vida com esses dois elementos? No cômputo final, foi o que eu fiz; mais literatura do que namorados, ultimamente...mas não se pode ter tudo, imagino...”

Questiona os motivos que levam a essa disfunção ser diagnosticada com maior frequência em mulheres, levando-se em consideração a “promiscuidade compulsiva”; “potencialmente auto-agressivas”; “compulsão de compras, furtos em lojas e comilanças desenfreadas” e “abuso de substâncias psicoativas”. E, contra-argumenta esses dados. Depois, reflete sobre “morte prematura” e lembra-se de Daisy.
Volta a refletir sobre a loucura e chega à conclusão de que: “os túneis, as telas de segurança, os garfos de plásticos, a fronteira reluzente e sempre móvel que, como todas as fronteiras, nos acena e nos pede que a atravessemos. Não quero atravessá-las de novo.”
E, no final do capítulo, faz um balanço de seu diagnóstico e do que é a doença mental, de como os psicólogos e psiquiatras têm uma abordagem diferente do paciente (segundo ela, os primeiros tratam a mente, e os últimos, o cérebro, interessando-se somente pelas reações químicas que acontecem lá).

MAIS ADIANTE, NA ESTRADA, VOCÊ ME ACOMPANHARÁ

A narradora relata que a maioria das garotas de sua ala, tivera alta.
Susanna manteve contato com Georgina. A amiga morou algum tempo numa comunidade de mulheres no norte de Cambridge; depois, envolveu-se com um grupo de conscientização e insistiu muito que Susanna o aderisse.

As mulheres do grupo me deixavam com uma sensação de inadequação. Sabiam desmontar motor de carro e escalar montanhas. Eu era a única casada. Notei que Georgina tinha um certo privilégio, por causa de sua loucura; por algum motivo, esse privilégio não se estendia a mim. Mas o tempo que frequentei o grupo bastou para me deixar desconfiada com relação ao casamento e especialmente ao meu marido.”

Passado algum tempo, Georgina casou-se e abandonou o grupo.
Certo dia, Susanna e seu marido visitaram o casal. Moravam num celeiro rodeado de alguns hectares de mato, no sopé de um morro, no oeste de Massachusetts e tinham uma cabra que se chamava Darling.
Nesse dia fazia muito frio e o casal ocupava-se em colocar vidros nas molduras das janelas. No almoço foi servida batata-doce e, em seguida, Georgina com uma batata-doce nas mãos, fazia a cabra dançar.
Mais tarde, Georgina e seu companheiro, se mudaram para o Colorado. Georgina tentou dois contatos via telefone público com Susanna, mas perderam-se de vista.
Depois de alguns anos, Susanna encontrou-se com Lisa e uma criança de pele escura, seu filho. Contou-lhe que morava no Brookline; vivia sozinha em prol do menino; tinha um apartamento com móveis e que às sextas-feiras frequentava a sinagoga.

Quero que sejamos uma família de verdade, com móveis e tudo o mais. Quero que ele tenha uma vida de verdade. E a sinagoga ajuda. Não sei por que, mas ajuda.”

Na época Lisa ostentava algumas jóias e afirmou que “tudo muda quando a gente tem um filho”.
Susanna nada respondeu, já tinha decidido não ter filhos e seu casamento não estava com jeito de durar.
Lisa mostrou-lhe seu abdome flácido e antes de entrar no metrô, perguntou-lhe se ainda ela pensava naqueles dias.

MOÇA, INTERROMPIDA

Susanna recorda-se, quando em companhia do seu professor de inglês, visitou pela primeira vez o Museu Frick. Lá, estavam expostas três telas de Vermeer entre outras. Na época, Susanna tinha dezessete anos e uma das telas de Vermeer, atraiu-a em demasia.

Passei pela dama de vestes amarelas e pela criada que lhe entregava a carta, pelo soldado com seu magnífico chapéu e pela moça que lhe sorria, pensando em lábios cálidos, olhos castanhos, olhos azuis. Os olhos castanhos dela me fizeram parar.
É o quadro em que uma moça espia para fora da moldura, sem dar atenção ao robusto professor de Música, que apóia na sua cadeira a mão de proprietário. A luz é uma meia-luz invernal, mas o rosto da moça é luminoso.
Olhei dentro dos olhos seus olhos castanhos e me assustei. Ela me avisava alguma coisa – levantara os olhos da pauta para me avisar. Tinha a boca ligeiramente aberta, como se tivesse acabado de respirar fundo antes de me dizer, “Não faça isso!”

Susanna dividia sua atenção entre a obra de arte e o beijo que estava por vir; além da preocupação com o seu desempenho na prova de biologia e conseguir sua aprovação no segundo grau. Embora, a narradora interessa-se por essa disciplina, principalmente nos tópicos de genética, seria a sua reprovação pelo segundo ano consecutivo. Ela não lhe deu ouvidos à garota do quadro; ocorreu o beijo; jantou com o professor de inglês; reprovou em Biologia e, logo, em seguida, enlouqueceu.
Passado dezesseis anos, de volta a Nova York, Susanna com seu novo e rico namorado, visita, novamente o Frick.

Deixei os Fragonard para trás e caminhei pelo corredor que levava ao pátio. [...] Desta vez, li o título da pintura: “Moça interrompida em sua música”. Interrompida em sua música: tal qual acontecera com a minha vida, interrompida durante a música dos dezessete anos, tal qual a sua vida, arrebatada e presa à tela; um instante forçado à imobilidade, forçado a representar todos os demais instantes, fossem quais fossem ou pudessem ter sido.”

Susanna pôs-se a chorar e quando seu namorado perguntou-lhe o que estava acontecendo, ela respondeu, apontando ao quadro:

“ – Não está vendo? Ela está pedindo para sair.”

O namorado olhou para o quadro, acusou-a de egoísta e não entendedora de arte.

Desde então, tenho voltado ao Frick para vê-la e ver os outros dois Vermeer. Afinal de contas, é difícil encontrar um Vermeer, e o de Boston foi roubado.
Os outros quadros são auto-suficientes. As pessoas se entreolham – a dama e sua criada, o soldado e a namorada. Contemplá-los é espiar por um buraco na parede. E a parede é feita de luz – aquela luz de Vermeer, irreal e, no entanto, totalmente plausível.
Uma luz como essa não existe, mas nós desejamos que exista. Desejamos que o sol nos faça jovens e belos, desejamos que nossas roupas reluzam e deslizam sobre nossa pele e, acima de tudo de tudo, desejamos que todos os nossos conhecidos possam se iluminar com um simples olhar nosso, como acontece com a criada que segura a carta e o soldado de chapéu.
A moça e sua música vivem em outro tipo de luz, a luz caprichosa e mortiça da vida, que só permite que nos vejamos e aos outros imperfeitamente, e raras vezes.”

CONSIDERAÇÕES GERAIS:

Em “Moça, interrompida”, nota-se a perceptibilidade da narradora em relatar e conhecer profundamente sua própria patologia mental. Em Psiquiatria/Psicologia esse fato recebe o termo “Insight”, que significa o grau de entendimento que o paciente apresenta acerca da própria condição de estar doente.
Susanna explora a dualidade entre mente e cérebro a partir da evolução dos estudos em neurociências e mostra boa compreensão acerca do funcionamento de circuitos cerebrais e neurotransmissores. Dotada também de uma veia irônica fina, de realce tênue, ela critica a tendência já crescente em direcionar o tratamento das doenças mentais unicamente pelo ponto de vista químico. Essa questão norteia importantes pontos de divergências entre dois ramos que deveriam seguir contíguos, que são a Psicologia e a Psiquiatria. Mais tarde ela foi diagnosticada como tendo Transtorno de Personalidade Limítrofe (borderline personality disorder). Como a doença nem era conhecida na época, ela sofreu com a falta de um diagnóstico preciso, sem saber na verdade de que mal, sofria.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

PAUL GAUGUIN: PÓS-IMPRESSIONISTA, SINTETISTA E PRIMITIVISTA

1848-1903


“Coma bem, beije bem, trabalhe direito e você morrerá feliz.”

PAUL GAUGUIN nasceu em Paris, em 1848. Segundo filho de Clovis Gauguin e Aline-Marie Chazal.
Em 1849, seu pai, jornalista de “Le National” comprometido com a oposição a Louis Napoleão Bonaparte (mais tarde Napoleão III), teve de buscar asilo político no Peru, onde a esposa tinha parentes que o acolheram. A viagem transatlântica foi extremamente cansativa e Clóvis, já afetado por uma doença cardiovascular, morreu antes de desembarcar. Aline, a viúva, permaneceu em Lima, com seus dois filhos.
Gauguin, assim, cresceu em meio a uma exótica paisagem, que influenciará fortemente a sua formação artística.
Em 1854, a família retornou à França, graças à herança de Guillaume Gauguin deixada aos netos e se instalou em Orleans.
Orleans ostentava enorme tradição cultural na Europa e em nada lembrava o primitivismo das terras sul-americanas.
Em 1865, Gauguin alistou-se na Marinha, à qual serviu sem feitos heróicos até o fim da guerra franco-prussiana.
A mãe morrera em 1867, mais Gauguin tinha um protetor, Gustave Arosa, fotógrafo, amante da pintura e dono de seleta coleção de quadros contemporâneos, inclusive obras de Delacroix, Corot, Coubert, Pissarro e Daumier.
Em 1872 Gauguin abandonou a Marinha e, por conselho de Arosa, começou a trabalhar como corretor na Bolsa de Valores, ao mesmo tempo, cultivou interesse por artes plásticas e literatura.
A bem sucedida especulação na Bolsa rendeu-lhe bom padrão de vida. Em 1873, casou-se com a dinamarquesa Mette Gad, que havia conhecido por meio de Arosa.
Nessa época, Gauguin abandonou tudo para dedicar-se à arte, que ele chamava de “instinto selvagem”.
Pincéis, tintas e tela debaixo do braço, ele excursionava pelas adjacências campestres de Paris em companhia de seu amigo e colega Émile Schuffenecker.
Em 1876 arriscou inscrever no Salão dos Artistas Franceses, a obra “Bosque em Viro-flay” (Seine-et-Oise). A comissão selecionadora aceitou o quadro.
Animado, Gauguin deixou de ser pintor domingueiro e passou a pintar sempre que podia.
Em 1877, instalou-se em Vaugirard. Ali aprendeu técnicas artísticas com o escultor Jules Bouillot.
À medida que a técnica se aprimorava, mais aumentava seu desejo de dominar a pintura em todos os seus aspectos. Já vinha experimentando escultura com a produção de vários bustos posados pela mulher e pelos filhos. Estudava gravura japonesa, participava de debates que dividiam os artistas da época, discutia questões de técnica.
Amparado por sua estável situação econômica, passou a colecionar arte moderna.


Em 1879, a convite dos pintores Camille Pissarro e Edgar Degas, Gauguin participou da quarta exposição de Impressionismo. Ainda em 1879, foi a Pontoise em companhia de Pissarro, que o iniciou na técnica do paisagismo e com Degas, aperfeiçoou a pintura de interiores.

A princípio a crescente importância da pintura em sua vida não interferiu significativamente com o trabalho de corretor. O prelúdio da mudança foi o convite de Pissarro em 1880 para participar da Quinta Exposição Impressionista.
J.K.Huysmans, publicado no ano seguinte em “L’Art Moderne”, a respeito de “Estudo de Nu” ou “Suzanne Costurando”:

“Entre os pintores contemporâneos que trabalharam o nu, nenhum foi capaz de representá-lo com tão veemente realismo...Gauguin foi o primeiro artista em muitos anos que tentou representar a mulher de nossos dias...Seu sucesso é completo, ele criou uma tela ousada e autêntica”.



Entre 1880 e 1882, participou das três exposições organizadas pelos Impressionistas.

Em 1883, ocorreu á quebra da Bolsa de Paris e a pintura lhe parecia agora o único meio de ganhar a vida.
No entanto, essa esperança não se materializou, em vista da retração no mercado de arte, onde os trabalhos de Gauguin, em particular, não encontravam compradores. Com as dificuldades econômicas agravadas, Gauguin mudou-se com a família de Paris para Rouen. Mas, como a situação nas províncias não se mostrasse diferente, a família partiu para a Dinamarca, terra natal de sua esposa.
Em Copenhague trabalhou como representante de lonas nos países escandinavos. Como as dificuldades persistiram, em 1885 retornou à Paris com apenas um dos cinco filhos.
Tempos duros. Para sobreviver e tratar da varíola que acometeu seu filho, Gauguin chegou a trabalhar como colador de cartaz.
Continuava a pintar, mas nem a pintura o consolava, pois não conseguia encontrar uma definição de gênero. Retomou contatos e participou da oitava e última exposição dos Impressionistas, em 1886.
Em seguida, viajou pela primeira vez para Pont-Aven, na Bretanha.
Lá, Gauguin conheceu alunos de Cormin e Julian, pintores que então, estavam na moda, em Paris. Concepções acadêmicas como as desses mestres o arredavam e entediavam. Sua forte personalidade artística impressionava, mas entre os artistas dali, apenas Charles Laval se faria seu amigo.

“Por fim, consegui dinheiro para minha viagem à Bretanha e aqui estou vivendo de empréstimos. [...] Minha pintura provoca muitas discussões e devo reconhecer que desperta uma acolhida bastante favorável por parte dos americanos. Não deixa de ser uma esperança para o futuro”, escreveu Gauguin a sua esposa.

Durante a estada na Bretanha, o artista pesou com seriedade a importância de dar a seu trabalho uma dimensão mais ampla e menos comprometida. Transpôs então para a tela sensações que essa terra arcaica e rústica induzia em seu temperamento apaixonado.
Seus primeiros trabalhos na região exprimem conflito interior: meio sonho, meio realidade, meio complacência estética, meio visão alegórica. Compreendeu desde as paisagens de matiz ainda Impressionistas, como em “Lavadeiras em Pont-Aven”, até os primeiros traços do que se tornaria seu estilo. Embora não constituam ruptura com o Impressionismo, indicam que aos poucos ele ia deixando o período.
Ao pintar as mulheres bretãs com seus característicos adornos de cabeça, Gauguin concentrou-se mais em sugerir um momento ou um meio do que em descrever a realidade, como faria um genuíno Impressionista.
Em certos quadros, como “Costa Bretã”, aparecem tons mais claros e orientação mais agressiva, o pintor em busca de um caminho próprio, menos intelectualizado, pelo qual pudesse exprimir sentimentos mais íntimos.
De modo geral, a imaginação e a originalidade de composição dos quadros pintados por Gauguin, na Bretanha impressionavam todos os artistas que os viram em Pont-Aven, no verão de 1886.
Comentários chegaram a Paris e causaram em Van Gogh o desejo de conhecer Gauguin.
De volta a Paris, Gauguin rompeu com os artistas impressionistas mais ortodoxos, recusou-se a participar do Salão dos Independentes e encontrou-se pela primeira vez com Van Gogh.
Na época, Gauguin iniciou-se na linguagem da cerâmica, pelas mãos de Ernest Chaplet.
Gauguin estava interessado na estilização da cerâmica primitiva, como objetos peruanos que lhe evocam um reencontro com a infância.
Atento nas atividades culturais parisienses acompanhou por meio da publicação “Fígaro littéraire”, o surgimento do Simbolismo com o manifesto do poeta francês Jean Moréas.
Alternativamente, objetos orientais de contornos e cores simples teriam muita importância em seus estudos e na evolução de sua arte.
Em abril de 1887, Gauguin embarcou para o Panamá em companhia de Laval.

“Desejo principalmente fugir de Paris, que é um deserto para os pobres. Meu nome como artista se torna cada dia mais importante, mas, enquanto espero, passo até três dias sem comer. Isso destrói não apenas minha saúde, mas meu ânimo. Vou ao Panamá para viver de modo selvagem”.

Gauguin sentia de novo a necessidade de redescobrir a vitalidade perdida, longe da angústia e da frustração da vida civilizada. Parecia faltar-lhe na vida o excitamento, a cor e a magia da natureza.
Não levou muito tempo a desapontar-se e as dificuldades econômicas o obrigaram a trabalhar nas obras de construção do Canal do Panamá. Tentou outra vez, agora na Martinica. Ali caiu doente e, sem dinheiro, viu-se forçado a voltar à França.
As poucas semanas em viagem, porém, representaram para Gauguin um salto gigantesco na elaboração de sua pintura. O artista descobriu um ambiente com infinitos estímulos criativos.
As dificuldades do retorno à Paris foram suavizadas pelo amparo de seu antigo amigo e colaborador Émile Schuffenecker. Conheceu Daniel de Monfreid, que anos depois, exerceria papel relevante em suas posteriores passagens pela Oceania. Também estreitou relações com os irmãos Van Gogh.
Theo Van Gogh, irmão de Vincent, conseguiu promover uma exposição de suas últimas obras, em janeiro de 1888, embora sem grande sucesso. Theo, por sua vez, adquiriu diversas peças de cerâmica e alguns quadros de Gauguin, o que significou um importante aporte financeiro.
Os rendimentos permitiram-lhe regressar á Bretanha e refugiar-se, novamente, em Pont-Aven, onde reencontrou pintores que havia visto em sua primeira estada.
Na época, Gauguin já tinha aceitado a mensagem de Cézanne e do Pós-impressionismo e valorizava a importância do uso da cor não apenas para criar luz e movimento, mas, também para definir formas, de modo que ela própria, a cor em si, se convertesse em forma também.
Depois da Martinica, suas cores haviam se tornado mais quentes, com mais contrastes de tons e contornos mais nítidos.
Seu desejo era criar uma composição abstrata, na qual a natureza se deslocasse mais e mais para fora da realidade e chegasse perto do imaginário.
Na Bretanha conseguiria isto.
Com longas e generosas pinceladas de cor pura, ele criava ritmo e contraste, rompia superfícies, produzia forma, organizava espaço. Dava proeminência a figuras humanas que, fossem ou não os motivos principais do quadro.
Nascia, na época, em Pont-Aven uma nova concepção pictórica: o “Sintetismo” ou “Escola de Pont-Aven”, liderada por Gauguin e Émile Bernard, da qual participaram Émile Schuffenecker, Charles Laval, Louis Anquetin, Cuno Amiet, Henri Moret e Paul Sérusier, entre outros.
No Sintetismo, o objetivo da pintura não se limitava à reprodução de objetos. Sua finalidade consistia em expressar ideias por meio de uma linguagem especial. Mas, enquanto o Sintetismo de Bernard se limitava a uma concepção linear abstrata, Gauguin transformava tudo o que ainda estava intacto no mundo civilizado em imagens idealizadas, simplificadas e expressivas.
Mais do que descrever a realidade, capta a ideia. Gauguin usa linhas grossas, traços escuros que delimitam as formas e criam compartimentos de cor (técnica derivada do cloisonismo).
O resultado foi um tipo de Simbolismo em que todo aspecto figurativo se tornava a busca do essencial.
“A Visão depois do Sermão ou Luta de Jacó com o Anjo”, 1888, exemplifica essa mudança radical no estilo de Gauguin.

“A Visão depois do Sermão ou Luta de Jacó com o Anjo”, 1888.

Para mim, neste quadro a paisagem e a luta existem apenas na imaginação das pessoas rezando, como um resultado do sermão. Por isso, não há contraste entre as pessoas reais e a luta, em sua paisagem antinaturalista e desproporcional”, escreveu Gauguin a Van Gogh.

O tema do quadro é uma passagem do Gênesis. A personagem bíblica Jacó tem uma longa história de conflito com seu irmão, Esaú. Depois de muitos anos, afastado, Jacó volta para casa. Segundo o texto bíblico, na viagem de volta ocorre o episódio em que luta em silêncio com um estranho durante uma noite inteira. Em algumas versões, esse estranho é um anjo; em outras, é o próprio Deus.
No perímetro inferior esquerdo, desse quadro, há um grupo de mulheres bretãs rezando. Ele estilizou as mulheres da Bretanha que testemunhavam uma visão sobrenatural, para torná-las símbolos da fé.
No lado direito, o perfil de um rosto com as feições de Gauguin. Na parte superior direita, revela-se a razão das orações: Jacó luta com um anjo.
A tela representa o duelo do homem contra o demônio ou contra si mesmo. Destaca-se o conceito de dramatização de imagem mental com percepção quase cinematográfica do espaço.
O conceito de Sintetismo começa a se formar: a paisagem e as personagens são feitas com manchas de cor delimitadas, contornadas com sutil traço negro, em lugar das pinceladas Impressionistas.
É uma síntese de harmonia e equilíbrio em que referências à arte medieval e à arte japonesa se misturam com a inspiração decorativa, um quadro animado pelo ritmo dos tons de preto e branco, azul e vermelho.
Consumava-se o abandono do imperativo da representação meramente formal da natureza. Gauguin tentava agora penetrar o coração das coisas e revelar o que há por trás da realidade imediata, descobrir, em suas próprias palavras, “a imagem por trás do enigma inviolável”.
O que de fato importava em sua pintura era a síntese essencial da forma e da cor. Buscava a arte livre de qualquer concepção prévia de fórmula, técnica, escola, movimento ou estilo: uma arte que refletisse apenas a individualidade do artista. Ideias como essas, que de certo modo se assemelhavam à inspiração literária, por se situarem não apenas entre a ficção, o sonho e a realidade, atraíam não apenas Gauguin, mas também vários outros artistas da época.
Gauguin pintou a terra de vermelho, separando o mundo “real” das mulheres, no fundo, do mundo “imaginário” de Jacob lutando com o Anjo por meio das árvores em diagonal, pintada de azul.

Gauguin permaneceu em Pont-Aven até outubro de 1888. A relação com os Van Gogh ganhou tal intensidade que Gauguin concordou em se transferir para Arles, onde Vicent o aguardava.
A mudança de Pont-Aven para Arles foi articulada por Theo, movido pelo desejo de dar companhia a seu irmão para que juntos pudessem pintar.
Theo propôs a Gauguin comprar sua produção em troca de sua presença em Arles.
Cabe destacar que a amizade entre Gauguin e Van Gogh foi desgastante, ao mesmo tempo, riquíssima. Entre os dois artistas percebia-se uma forte atração criativa e, na mesma medida, uma rejeição mútua.

”Café em Arles”, 1888.


“Café em Arles” apresenta um tema comum para Gauguin e Van Gogh. Sobre este quadro Gauguin ainda chegou a comentar que não gostou muito, pois dizia que o possuí cores escuras e uma decoração que não o agradava.

Em Arles, encontro-me totalmente fora do eixo. Tudo – a paisagem e as palavras – me parece tão pequeno, tão mesquinho. Vincent e eu quase nunca concordamos, menos ainda em pintura. Ele admira Daumier, Daubigny, Ziem e o grande Theodore Rousseau, artistas pelos quais não sinto nada. Em compensação, ele detesta Ingres, Rafael, Degas e todos aqueles que eu costumo admirar. Ele gosta muito de meus quadros, mas quando os estou fazendo, sempre vê defeitos”.

Em dezembro de 1888 a relação entre os dois pintores chegou a extremos. Van Gogh tentou agredi-lo com uma lâmina de barbear. Na manhã seguinte, Van Gogh se automutilou, cortando parte de sua orelha.
Gauguin registrou:

Levou tempo até conseguir estancar a hemorragia, porque no dia seguinte, diversas toalhas molhadas cobriam o chão. O sangue havia manchado os dois cômodos do térreo e a escada que conduzia a nosso dormitório”.

Com Vincent no hospital, Gauguin e Theo seguiram para Paris.
Mais tarde, Gauguin reconhece que:

“[…] devo a Vincent a consolidação de minhas ideias pictóricas anteriores, aliado ao fato de poder me lembrar, nos momentos difíceis, de que sempre há alguém mais desgraçado que eu”.

Em 1889, Gaugin instalou-se em Le Pouldu, vila de marinheiros onde poderia se concentrar melhor na evocação da paisagem e da cultura bretão. Na mesma época, participou com várias obras de duas exposições artísticas de destaque: “Les XX”, de Bruxelas, e na exposição de pinturas do “Groupe Impressionniste et Synthétise”, durante a Exposição Universal de 1889, no Campo de Marte.
Gauguin compôs nos meses seguintes obras de qualidade extraordinária, entre elas, “O Cristo amarelo”.

“O Cristo Amarelo”, 1889.


Nesse quadro Gauguin pode ter buscado inspiração em uma escultura policromada da igreja de Trémalo de Pont-Aven.
Uma cruz plantada na paisagem da Bretanha, cercada por árvores cor de laranja, com mulheres vestidas com a indumentária característica do local, adoram Jesus, completamente amarelo. O artista põe seus traços na feição de Cristo.

Em “A bela Angèle”, tela que foi adquirida por Degas, em 1891 no leilão organizado por Gauguin para pagar sua viagem ao Taiti.

“A bela Angèle”, 1889.


A tela trata-se do retrato de Marie-Angèlique Satre, uma jovem com o típico traje bretão. A modelo Marie-Angèlique, através de entrevista concedida em 1920, afirmou que o quadro foi pintado em Pont-Aven, pouco antes da partida de Gauguin para o povoado de Le Pouldu.
A modelo comentou que sua primeira reação, quando o artista mostrou a obra finalizada, foi exclamar: “Que horror!”
Na expectativa de apreciar um retrato convencional, Marie-Angèlique estranhou o momento pictórico do artista.
O artista não optou por captar a fisionomia da modelo. Objetivava, na verdade, realizar um quadro simbolista dentro do qual a personagem adotasse caráter emblemático, com postura rígida, expressão austera e indumentária solene.
Outra inovação é a separação entre a figura humana e o fundo decorativo por meio de um círculo excêntrico ao conjunto da representação.
A associação com o Simbolismo almejada pelo artista se concretiza com a inclusão. À esquerda da tela, há uma cerâmica antropomórfica, que contrasta com a figura humana. É como se a cerâmica possuísse mais vida do que a própria modelo, enclausurada em um receptáculo ovalado, que destaca com precisão sua expressão cansada.
Gauguin pode ter escolhido esse efeito inspirado nas gravuras japonesas acessíveis na França da época.
É importante ressaltar que a partir dessa obra, Gauguin passou a escrever os títulos dos quadros na própria tela.

No enigmático “Auto-retrato com auréola”, 1889, o artista ironicamente coloca sobre sua cabeça uma auréola de santo.

“Auto-retrato com auréola”, 1889.


Essa tela marca a transição para o nascimento de uma nova fase do artista.
Gauguin colocou uma auréola sobre sua cabeça. O símbolo cristão contrasta com a serpente e a maçã. As frutas e a serpente que segura em sua mão evocam de modo ostensivo à tentação, retratando de forma irônica e um tanto caricaturesca, o próprio pintor como o “grande tentador”.
A coroa pode ser interpretada como sinal de santidade ou como expressão da mais absoluta perversão demoníaca. Pode significar também o desejo de salvação do artista em meio a um ambiente que é claramente condenatório.
Nota-se que a tela está dividida entre suas zonas de cores intensas e absolutas: o vermelho e o amarelo.
Destacam-se a simplicidade e a força expressiva das linhas, que podem ser percebidas tanto nos contornos como nos arabescos, sobre os fortes tons quentes.
As ideias sintetistas, nessa obra, resultam nos dois compartimentos, duas grandes massas de cor que dominam toda a representação.
A expressão facial expressa certa melancolia, uma aflição característica dos artistas, que contrasta com os elementos que o acompanham. Juntam-se a essa melancolia, o semblante nostálgico e sagaz que o artista nunca escondeu contra a sociedade de sua época.
Gauguin aproximou-se de alguns escritores jovens, entre eles, Albert Aurier.
Aurier escreveu:

Essa é a arte que me agrada sonhar, a que me desperta a imaginação em meio aos roteiros obrigatórios por entre lastimáveis ou infames artificialidades que atestam nossas exposições industrializadas. Essa é também a arte que – se não interpretei mal o pensamento de sua obra – quis instaurar em nossa lamentável e putrefata pátria esse grande artista genial com alma de primitivo e um pouco de selvagem: Paul Gauguin.”

Gauguin, realmente, nunca deixou de sonhar com lugares remotos, seu paraíso terrestre, onde pudesse pintar de modo natural e primitivo.
Em 1891, depois de viajar a Copenhague para despedir-se da família, embarcou em Marselha com destino a Papeete, capital da Polinésia Francesa.
Nessa mesma época, nascia em Paris, Germaine, filha de Gauguin e de Juliette Huet, com quem havia mantido relações como modelo e amante.
A vida em Papeete se mostrou muito parecida com a que ele deixara na Europa, se não pior. Mas havia elementos do sonho: a aldeia de Mataiea; a exuberante vegetação tropical; os nativos com suas vestimentas exóticas e sua naturalidade no cotidiano; e o amor de Teha’amana, sua “noiva” e modelo de treze anos.
Em “Noa Noa”, manuscrito ilustrado e elaborado por Gauguin a partir de anotações e desenhos de sua primeira viagem ao Taiti, o artista tratava a jovem como sua esposa.

 
Mais importante ainda, que Gauguin passou a levar uma vida primitiva, quase selvagem, como era sua proposta.

O artista se sentia invadido pelo silêncio, por uma profunda sensação de paz e tranqüilidade que compartilhava com sua “noiva”.
Teha’amana surgiu em vários quadros, convertendo-se na encarnação da mulher selvagem ideal.

“Nevermore”, 1893.


Gauguin chegou pintar, nesse período, cerca de vinte telas. Entre elas, algumas das mais relevantes contribuições à arte ocidental moderna: “Flores da França”; “A refeição”; “Mulheres do Taiti” e “Eu te saúdo, Maria”, entre outras.

“A refeição”, 1891.


O protagonismo dos nativos é evidente neste quadro, embora o artista ainda não mostre sua pintura mais selvagem. Gauguin compôs aqui uma natureza-morta sob os olhares de crianças de locais.
O pintor substituiu os motivos tradicionais dos bodegóns europeus por outros característicos da vila na ilha. Assim, destacam-se os “fei”, as bananas que tanto despertaram a sensibilidade de Gauguin, e a cumbuca habitualmente usada para cozinhar peixes.
Com longas pinceladas e cores cada vez mais agressivas, o pintor manteve temas procedentes da tradição pictórica européia, mas subverteu-os com maestria por meio de transformações nos motivos e nos traços. Adicionou tons de mistério, como no ângulo superior direito, onde se observa um personagem sentado que projeta uma grande sombra no chão.

“Mulheres do Taiti” ou “Na praia”, 1891.


Nesse quadro parece representar uma cena idílica: a nobreza das nativas sentadas na praia. No entanto, o artista transcreveu um estado de espírito e uma serenidade especiais, procurando potencializar aos olhos do observador uma sensação de harmonia e paz.
O artista trabalhou com base na oposição de grandes zonas de cor.
Gauguin evitou representar a praia de modo naturalista, optando por transmitir através das massas de cores aplicadas. O pintor retratou de maneira plana a natureza: areia, mar, horizonte, céu e as duas mulheres, tão corpóreas, de formas enigmáticas, uma apresentada frontalmente e a outra, de perfil sobre um fundo de faixas de cor.
Gauguin priorizou a perfeita delimitação dos contornos das figuras, de acordo com o método de “cloisonné” que já havia adotado em seus quadros da Bretanha.
O artista escreveu em “Noa Noa” que as mulheres taitianas possuíam “feições de harmonia rafaélica no encontro das curvas, com boca modelada por um escultor que conhecia a linguagem do beijo, do prazer e do sofrimento”. O rosto da mulher da direita transmite justamente essa melancolia mesclada ao prazer.
Gauguin deu um tratamento diferenciado e pouco ao pé da moça da esquerda. Em compensação, o pé da mulher da direita tem maior riqueza de detalhes e se aproxima mais da realidade.
Embora a natureza não seja protagonista nesta tela, Gauguin não deixou de incluir o exotismo da flora taitiana, ainda que seja como detalhe, no caso, a flor que enfeita o cabelo da mulher da esquerda. O branco das pétalas é impregnado pelas tonalidades negro-azuladas do cabelo e do reflexo da luz. As tonalidades azuladas são acentuadas na roupa da mulher.

A obra “Eu te saúdo, Maria” ou no idioma próprio dos nativos da Polinésia, “Ia irana Maria”, 1891-1892, é uma alegoria religiosa. Ela simboliza a Anunciação, radicalmente reinterpretada, na qual um anjo com asas amarelas parece apresentar dois nativos do Taiti para a Virgem e o Menino.

“Ia Orana Maria”, 1891-1892.


As figuras de Maria e Jesus estão posicionadas à direita do quadro e apenas são identificáveis pela coroa santa que portam sobre suas cabeças. A particularidade da tela reside no fato de que as personagens divinas também se passam por nativos: o Menino está nu; e a Virgem apresenta-se com vestido de tecido vermelho, confeccionado com motivos florais.
A cena se desenvolve em um ambiente tropical, distante do rebuscamento da pintura religiosa ocidental.
As duas mulheres taitianas têm as mãos juntas, em atitude de respeito, mas sem exageros; as figuras sacras estão desprovidas de traços de grandiosidade e seis rostos, simplesmente refletem serenidade.
A própria natureza contribui para transmitir a sensação de equilíbrio: os cachos de bananas localizados na porção inferior da tela retratam a refeição.
A cena contém apenas um discreto traço ocidental, um flerte de cumplicidade com a tradição cultural européia: o anjo. Este, também com características nativas, exibe formas que parecem extraídas da iconografia típica do Renascimento e, mais precisamente, da pintura religiosa de Botticelli.
Aqui, a cor e as formas se sujeitam à ideia do quadro ou, então, se misturam ao motivo do argumento com uma ponderação extraordinária.

No entanto, o sonho de Gauguin, logo se dissiparia pela falta de dinheiro e por problemas de saúde.
Em 1892 escreveu a Mette, sua esposa oficial, informando que havia pintado 38 quadros e que buscava subsídio para regressar.

“Passatempo”, 1892.


Em junho de 1893, Gauguin conseguiu embarcar graças ao Ministério do Interior francês, que pagou sua passagem na terceira classe e abandonou Teha’amana.
Voltou à França e, a respeito do seu retorno, escreveu em “Noa Noa”:

Parti dois anos mais velho e vinte anos mais jovem, mais bárbaro também do que quando vim, e, no entanto, mais escolado. Sim, os selvagens deram muitas lições ao velho civilizado, muitas lições deste povo ignorante sobre a ciência da vida e a arte de ser feliz.”

Durante esse período, restabeleceu contatos com a cultura parisiense e foi contemplado com metade da herança de seu tio Isidore Gauguin, morto no início de 1893.
Com o dinheiro, organizou uma exposição de seus quadros taitianos, prontamente bombardeados pelos críticos, que recriminaram as "cores exageradas" e "irreais".
Em 1894, Gauguin montou seu ateliê na Rue Vercingétorix. A partir de então, passou a conviver com Annah, uma javanesa de treze anos originária da Malásia que chegou a posar como modelo.

“Annah, a Javanesa”, 1893-94.


Entretanto, para o artista, o ano de 1894 foi marcado por uma série de eventos infelizes: a morte de Charles Laval; a viagem que fez à Bretanha não produziu resultados; a amante javanesa que o abandonou e levou consigo tudo o que havia de valor no ateliê e a briga com marinheiros que, em consequência, quebrou o tornozelo e teve de recorrer á morfina e álcool para amenizar sua dor.
Gauguin, então, decidiu cruzar os mares pela última vez.

Tomei uma decisão definitiva: mudar para sempre para a Oceania. Voltarei a Paris em dezembro para me ocupar exclusivamente da venda de todos os meus trabalhos pelo preço que for. Se conseguir, partirei imediatamente.”

Em 1895, Gauguin deixou Paris.
À primeira vista, ficou decepcionado com o progresso de ocidentalização do Taiti e encontrou sua antiga companheira, Teha’amana, casada.
O artista instalou-se em Punaauia, construiu um “fari”, cabana tradicional estruturada com bambu e coberta com folhas de palmeira e transformou a jovem Pahura, nativa de 14 anos, em nova modelo e amante.
O artista continuou a enfrentar problemas financeiros, sobrevivendo com as vendas de seus quadros na Europa e a sofrer os efeitos de outra doença: a sífilis. Para piorar, Pahura deu à luz uma menina que morreu precocemente.
Em 1897, foi hospitalizado apresentando um quadro clínico grave: dores nas pernas, infecção ocular – sequela da antiga sífilis, problemas cardíacos e erupções na pele que os nativos atribuíam, com temor, à lepra.
Pobre e enfermo, Gauguin teve atritos com as autoridades locais em virtude das críticas que fazia à administração colonial e à catequização dos nativos.
Deprimido, chegou a tentar o suicídio com arsênico, logo depois de receber uma carta de Mette, comunicando-lhe o falecimento de sua filha Aline, vítima de pneumonia, e de pintar sua obra mais monumental, a tela "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?", medindo 1,39m por 3,75m e pintada em apenas um mês.

“De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?”1897.


"Eu queria morrer. E pintei este quadro de um golpe só".

Esse quadro é uma alegoria que, apesar do tamanho, representa com grande simplicidade o drama da existência humana. A pergunta titular, que sublinha o conteúdo psicológico do quadro, revela a necessidade do artista comunicar seus mais profundos pensamentos através da forma evocativa da arte e da cor.
O artista decidiu nesse quadro ser extremamente primitivista, o que pode ser comprovado até pela escolha do material o qual pinta sua obra:

É uma tela cheia de nós e rugosidades”, cujo resultado, segundo suas palavras, “é terrivelmente grosseiro. Dir-se-ia que está sem terminar”.

A tela é uma espécie de afresco no qual Gauguin compôs um fundo com predomínio dos verdes. Sobre ele, posicionou uma série de figuras humanas, algumas nuas ou seminuas e com tonalidade alaranjada e outras vestidas.
O artista propôs deixar seu testamento pictórico e dessa forma, compôs um friso narrativo no qual aparecem em sequência diferentes imagens da evolução do ser humano.
Ao lado do recém-nascido, algumas jovens estão em repouso. Essas três figuras poderiam representar a felicidade do Éden, da vida simples. No centro, um rapaz colhe uma fruta: o corpo esbelto seria o apogeu na vida insular e, ao mesmo tempo, o início do declínio, já que a fruta poderia ser interpretada como a árvore da ciência; ao ser introduzido no conhecimento, começa sua decadência.
À esquerda, em segundo plano, Gauguin fez questão de colocar um elemento misterioso: uma estátua com braços levantados que parece anunciar o além e que representa as mais profundas crenças tribais.
Segundo diversas fontes, o ídolo representado nesta obra corresponderia à deusa polinésia Hina, que representaria a Mãe Terra e também, conforme essa mitologia, a morte e a ressurreição. De acordo com a lenda, quando seu companheiro morreu pelas mãos dos homens, Hina plantou sua cabeça, da qual brotou uma árvore. A inclusão da deusa na tela poderia ser interpretada como o conforto que o homem religioso encontra após a morte.
Por fim, nota-se uma jovem recostada, representação do dilema entre a vontade do saber e a felicidade da inconsciência. A seu lado, a anciã fecha o ciclo de vida. Junto a ela, no extremo inferior esquerdo, está um estranho pássaro, cuja inclusão Gaugin justificou como: “o ser inferior diante do ser inteligente”.
O recém-nascido e a anciã se posicionam nos dois extremos do ciclo da vida. Curiosamente, Gauguin inverteu a leitura visual habitual da esquerda para a direita e ordenou o ciclo a partir da direita. Gauguin pode ter utilizado as múmias peruanas que conhecera na infância como modelo para pintar a anciã.
As anunciadoras, duas figuras que simbolizam a sabedoria, Gauguin as relaciona com a “árvore da ciência”. Seriam duas figuras equivalentes àquelas que anunciam a Boa-Nova em representações religiosas. A escolha da cor, muito escura neste caso, estaria relacionada à visão negativa que Gauguin tinha do conhecimento. Para ele, os nativos seriam mais felizes em sua ignorância.

Entre 1897 e 1899, pintou “Vairumati”, “O cavalo branco”, “O ídolo”, “Nevermore” ou “Nu da Pahura deitada” e outras peças que exprimiam a ideia da arte de Gauguin na época.

“Vairumati”, 1897.


Nessa tela, o pintor se inspirou em uma lenda indígena. Para simbolizá-la, as formas foram simplificadas apesar de forte presença dos contornos, nos quais as cores quentes dialogam com grande tensão e, ao mesmo tempo, apresentam-se em harmonia.
A ave que agarra um lagarto e o trono amarelo que tem incrustado o relevo de uma divindade local confirma a leitura da mitologia nativa empreendida pelo pintor.


“O cavalo branco”, 1898.


Nesse quadro, Gauguin procurou captar, com impressionante riqueza pictórica, o misticismo das culturas polinésias, mais especificamente das crenças tribais que veneravam os cavalos brancos como entidades sagradas.
Os três cavalos da cena estão descritos com três cores diferentes. Dois deles merecem especial menção: o cavalo vermelho e o branco.
O cavalo branco que se abaixa para beber água no riacho revela a maestria do artista no tratamento da luz. Os efeitos de luz são perceptíveis na cor do cavalo, ele não é totalmente branco, já que seu corpo sintetiza as cores do entorno, da vegetação e dos reflexos da água.
Aqui, os ginetes montam o cavalo sem que apareça nenhum elemento típico da doma, ou seja, sem subjugar os animais a sua vontade; apenas contando com sua cumplicidade para poder montar.
Na faixa inferior, o pintor colocou uma flor exótica e algumas folhas não menos agrestes. A flor branca, junto ao cavalo também branco, reforça a ideia da importância que adquire a natureza dentro de suas pinturas.

”Cavaleiros na praia”, 1902.


Em “Duas taitianas com flores de manga”, 1899, a representação de duas mulheres que oferecem frutas e flores deu ao pintor oportunidade de produzir uma composição harmoniosa, no sentido musical, por meio do uso incomum da cor.

“Duas taitianas com flores de manga”, 1899.


Em 1901, Gauguin colaborou com o jornal de onde garantiu rendimentos regulares. Ao mesmo tempo, fundou o próprio jornal, “Le Sourire”, em que ele mesmo escrevia, ilustrava e imprimia. Gauguin desencadeou uma ofensiva contra o Partido Protestante e o governador Gustava-Pierre Gallet, além de realizar uma campanha contra os imigrantes chineses.
Em setembro de 1901, mudou-se para um local ainda mais isolado, Hiva Ao, nas ilhas Marquesas, também na Polinésia Francesa, para onde os amigos de Paris enviavam-lhe apoio financeiro.
Logo se uniu a Marie-Rose Vaeoho, nova modelo e amante, que assim que engravidou de Gauguin, foi abandonada pelo mesmo.
Faltava dinheiro, a saúde se deteriorava, e a morte de Clovis aos 21 anos, seu filho mais próximo, intensificou seu sofrimento.
Gauguin estava só. Repudiado pelos colonos franceses, que o viam como um renegado, acusado de difamação, julgado e condenado a três meses de prisão e multa.
A condenação, no entanto, não chegou a ser efetiva porque Gauguin morreu em 08 de maio de 1903, em sua residência. Ele tinha dado a seu lar o nome de “Casa de Contentamento” e mandara entalhar acima da porta frases: “Seja misterioso” e “Ame e será feliz”.
Era o seu adeus ao mundo.

"Quando a tua mão direita estiver hábil, pinta com a esquerda; quando a esquerda ficar hábil, pinta com os pés."

TEMA: Nativos do Taiti, camponeses na Bretanha.
ASSINATURA: Primitivismo exótico
TIPO: Simbólico, misterioso
PREOCUPAÇÃO: Cor viva para expressar emoção



MARCAS: Formas simplificadas em cores não-naturais; contornos fortes em padrões rítmicos.