quarta-feira, 16 de março de 2011

PETER PAUL RUBENS E A PINTURA BARROCA FLAMENGA


Meu talento é tal”, escreveu RUBENS, “que nenhuma tarefa, por maior que seja em tamanho...jamais superou a minha coragem”.

PETER PAUL RUBENS (1577-1640)

I – INTRODUÇÃO:


A história da pintura barroca flamenga é na verdade a história de um homem, SIR PETER PAUL RUBENS, maior expoente do Barroco Setentrional.
A região sul dos Países Baixos, chamada Flandres na época e mais tarde na Bélgica, permaneceu católica depois da Reforma, o que deu aos artistas grandes incentivos para as pinturas religiosas.
“Príncipe dos pintores e pintor dos príncipes”, Rubens teve uma vida sofisticada que o levou às cortes da Europa como pintor e como diplomata.
Rubens tinha uma formação clássica e era sociável; falava fluentemente seis idiomas e tinha uma energia inextinguível.
A energia é o segredo da vida e da obra de Rubens. Sua produção de mais de dois mil quadros é comparável apenas a Picasso. Assim, precisava de uma equipe de assistentes para atender à demanda.
Seu estúdio foi comparado a uma fábrica, onde Rubens fazia pequenos esboços de uma imagem em cores, em óleo, ou delineava uma obra em tamanho definitivo e contava com vários assistentes que ficavam responsáveis de transferi-lo para a tela grande, cabendo-lhe, no final a tarefa de dar vida aos elementos da tela e isso, tornava possível atender tantas encomendas.
Alguém relatou uma cena de Rubens de braços cruzados, olhando fixamente para um painel em branco, e depois explodindo numa torrente de pinceladas que cobriram o painel inteiro.

II – BIOGRAFIA DO ARTISTA:

Rubens nasceu em Siegen, na Vestefália, em 1577. A família Rubens encontrava-se na Vestefália porque Jan Rubens, pai de Peter, fora forçado a fugir da Antuérpia católica, dominada pela Espanha, sob suspeita de ser um calvinista e, só retornaram à Antuérpia após a morte de Jan Rubens, em 1587.
O pintor começou a estudar arte na adolescência, tornando-se aluno de vários artistas flamengos, inclusive o erudito e sábio pintor Otto van Veen. Provavelmente foi Van Veen quem aconselhou Rubens a ir para a Itália estudar pintura. O jovem, já então um artista promissor, foi para Veneza em 1600, onde ainda era dominante o legado de Ticiano. De Veneza, Rubens foi para Mântua assumir a posição de pintor da corte de Vincenzo Gonzaga, Duque de Mântua. Essa posição deu-lhe chance de expandir sua arte estudando pintura em Roma, Milão e Gênova.
Em 1603, o duque o enviou como embaixador à Espanha. Em Madri, Rubens defrontou-se com a obra de Ticiano e Rafael na coleção real, tendo-lhe sido atribuídas grandes encomendas para a coleção real e para o Duque de Lerma, primeiro-ministro do rei.
Em 1608 foi lhe oferecido o cargo de pintor da corte junto aos governantes espanhóis dos Países Baixos, o Arquiduque Alberto e a Arquiduquesa Isabel, filha de Filipe II da Espanha. Filipe II nomeara Alberto e Isabel governadores dos Países Baixos com a expectativa de que estes pudessem ter um filho que viria a se tornar o único soberano do país. Na realidade, nenhum filho foi gerado, e quando Alberto morreu, Isabel tornou-se a única regente dos Países Baixos sob o domínio espanhol e grande amiga e mecenas de Rubens.
Em 1609, estabeleceu-se uma trégua entre Holanda e Espanha, assegurando uma temporária suspensão da guerra nas antigas possessões espanholas no norte da França. Nesse ano, Rubens assumiu a posição de pintor da corte, casou-se com Isabel Brant e fixou-se como renomado artista.
Rubens produziu quadros mitológicos e religiosos, retratos e paisagens de grande força e beleza e em quantidade sem paralelo, sendo a sua magnífica pintura de nus femininos cheios e sensuais de difícil comparação. O seu ideal de beleza feminina seria a união de formas carnudas, rechonchudas, com pele luminosa e avermelhada, e cabelos dourados. Tinha uma preocupação com a representação fiel da carne, das roupas, era um detalhista.
Diferentemente de seus predecessores, Rubens preferiu utilizar as grandes telas para representar suas imagens que serviriam de decoração para igrejas e palácios, caindo assim no gosto dos príncipes e reis da época, recebendo muitas encomendas.
Sua obra teve uma dimensão européia, com encomendas de vários dirigentes, incluindo Filipe III e Filipe IV da Espanha, a rainha-mãe Maria de Médici da França e Carlos I da Inglaterra, que ajudaram a divulgar amplamente a sua fama. Também participou cada vez mais da diplomacia de sua época, tendo sido aproveitado pela Arquiduquesa Isabel em várias missões delicadas na Espanha, na França e na Inglaterra, onde foi agraciado cavaleiro por Carlos I, em 1630.
A morte da esposa Isabel, em 1626, foi um rude golpe para Rubens, para quem a vivência de felicidade doméstica era essencial ao seu bem-estar. Um longo período em Madri, em 1628-9, em missão diplomática que lhe permitiu bastante tempo para pintar, recuperou seu otimismo, e um segundo casamento, em 1630, com uma bela moça muitos anos mais jovem, trouxe à tona um segundo desabrochar do gênio artístico de Rubens.
A última década de sua vida, passada em parte no campo, na nova propriedade de Steen, cercado pela crescente família que teve com Hélène Fourment, foi um período de belas paisagens, pinturas da vida camponesa cheias de calor e felicidade e uma constante torrente de desenhos de intimidade e vida, esboços a óleo e pinturas da esposa e dos filhos.

Hélène Fourment


Nos últimos anos, Rubens tornou-se cada vez mais doente e também abalado pela gota, o que lhe tornava difícil pintar, de forma que teve praticamente de abandonar as obras de grande porte em favor das pinturas em cavalete.
Peter Paul Rubens faleceu em 30 de maio de 1640 e foi sepultado na Igreja de São João, na Antuérpia.

Auto-Retrato com Isabella Brant” (1609)


Esta obra retrata o artista com sua primeira esposa foi pintado na época do casamento. Com vivacidade do Barroco inicial, irradia encanto, afeição e o sucesso que o artista obtivera com a sua longa permanência na Itália e a sua nova posição de pintor da corte, em sua cidade natal, Antuérpia.
Os dois esposos estão sentados ao ar livre, com as mãos unidas, sendo que ele representou a si mesmo numa posição ligeiramente mais alta do que Isabela.
Peter Paul Rubens retrata o prazer do bem vestir em oposição ao que ditava a moral protestante. A partir do século XIV, o homem é o centro das questões artísticas e a roupa ganha importância

Juste Lipse e seus alunos” ou “Os quatro filósofos” (1615)


Também conhecido pelo título “Os quatro filósofos”, este quadro foi provavelmente composto logo após a morte de Filipe, irmão do pintor, em 1611; a obra é consagrada à sua memória e à do filósofo.
Representados no quadro, da esquerda para a direita, estão Rubens, seu irmão, Justus Lipsius e Jan Wowerius. Lipsius, filólogo e humanista foi amigo de Montaigne e empreendeu uma tentativa de restauração do pensamento antigo conhecido como Neo-estoicismo.
Uma paisagem romana ao fundo, uma coluna clássica e o busto de Sêneca reverenciado com flores dão uma noção clara da atitude de devoção dos presentes com relação à antiguidade.
Lipsius aponta com a mão esquerda para um livro enquanto gesticula com a mão direita dando a ideia de que a filosofia deveria alicerçar na verdade contida nos antigos, comentá-la e ensiná-la. Wowerius parece estar absorto, meditando no conteúdo do livro que traz aberto nas mãos, indicando a esperada atitude de reflexão pessoal sobre os conteúdos aprendidos.
Interessante também é a pena sobre a mesa, a ponto de cair, e não na mão dos dois filósofos mais próximos a ela, indicando que se dedicavam não à inovação, ao acréscimo, mas ao comentário e ao ensino da sabedoria encontrada nos grossos tomos à frente da pena.
A expressão do irmão de Rubens parece indicar a do aluno que, diante do que lhe é ensinado, raciocina sobre o que ouviu e faz conexões mentais, ainda incipientes, com outros ensinamentos de seu mestre ou de outras fontes. A pena em sua mão está suspensa, indicando que ele não se atreve a escrever, mas espera receber a formação adequada.
A atitude de Rubens é enigmática como um observador.
A tela data de 1615, um ano antes da condenação de Galileu em seu primeiro processo inquisitório. Rubens retrata filósofos que estão ligados intimamente a uma tradição científica que será forte e solenemente rejeitada na revolução galileana que, como uma tempestade, já estava se formando nos céus clássicos da tradição.

O rapto das filhas de Leucipo” (1617)


O rapto das filhas do rei da Tessália serve como pretexto para pintar um quadro muito mais épico do que violento. Os corpos das mulheres assumem posturas que respondem aos movimentos dos heróis; somente a expressão de seus rostos e de suas mãos exprime revolta.
Pintado com a participação de discípulos (1617 – 1618).
Os irmãos Castor e Pólux raptam as filhas de Leucipo, rei de Argos, que as prometera aos filhos de Afareu. Os cavalos pateiam e empinam-se, enquanto os dois heróis agarram a sua presa. Uma das filhas, rendida, estende os braços, a outra levanta os olhos para o céu, não para pedir socorro, mas por já se encontrar invadida pelo esplendor do Olimpo. O “divino” irrompe na terra: a violência transforma-se em amor, a resistência em abandono. Rubens é um mestre do contraste dinâmico: não só na composição, mas também no conteúdo os elementos opostos fundem-se numa união barroca e, ao mesmo tempo, vão tornar-se mais evidentes pelo contato mútuo.


VIDA DE MARIE DE MÉDICIS

 

O projeto mais ambicioso de RUBENS foi á sequência de quadros retratando, alegoricamente, a vida da regente Marie de Médicis, da França, viúva de Henrique IV. Em seu ateliê em Antuérpia chegou em 1622, uma encomenda de 21 pinturas sobre a referida rainha.

Marie de Médicis


Marie de Médicis, rainha tola e cheia de caprichos, lembrada principalmente por esbanjar grandes somas de dinheiro pelas brigas incessantes com seu marido, reinou temporariamente depois que ele foi assassinado e, por contratar RUBENS para decorar duas galerias com pinturas comemorando seus feitos “heróicos”.
Rubens evitou produzir uma tela previsível, ele tinha audácia nas suas composições. Por isto, teve de se utilizar de seus conhecimentos em mitologia, muita imaginação, e de seu talento, é claro, para dar um enobrecimento ao cotidiano da rainha. A rainha teve a necessidade de demonstrar visualmente os fatos da própria história para que não ficasse no esquecimento.
O interessante é que o artista a serviço das cortes tinha a obrigação de divulgar o poder. Através de diversos meios de propaganda o artista buscava colocar um brilho especial nas pinturas para cumprir seu papel de forma satisfatória.
A retórica do barroco configurava suas imagens como discursos destinados a persuadir as massas. Esta técnica do convencimento não estava presente apenas na questão religiosa, mas também nos temas profanos, do cotidiano das grandes personagens retratados pelos artistas da época.
Rubens vai estar preso entre o passado e o presente, já que as imagens produzidas se remeterão a um passado próximo, e que só agora seriam retratadas utilizando-se de uma memória de certa forma distorcida dos acontecimentos. Estas imagens trabalhadas no presente sofrem a influência de uma memória, fazendo com que suas pinturas não conheçam um limite no tempo.
É notória a retratação de mais de uma cena em uma única tela, sendo também um elemento justificativo deste conceito de obra presa entre o passado e o futuro.
A memória de Maria de Médicis fará com que o grande rei, Henrique IV seja considerado nas pinturas um elemento acessório, um coadjuvante dos grandes acontecimentos da vida da grande rainha, autora da grande encomenda artística.

“Oferta do Retrato de Maria a Henrique”


Rubens não vai trabalhar a realidade nua, vai ser convidado a intervir na formulação das imagens, criando uma nova concepção dos grandes espetáculos, das descrições de fatos importantes, e até dos menos importantes. As imagens são trabalhadas para atingir um determinado fim, não importando se esta se mostrar verdadeira ou não, pois o que está em jogo é a mensagem que se deseja transmitir ao espectador.
Na tela “Oferta do Retrato de Maria a Henrique” encontra-se como tema principal o próprio retrato de Maria de Médicis, já que todos os presentes na pintura centralizam a atenção para o retrato. Henrique IV foi retratado como um elemento secundário, isto só possível devido à sua ausência, pois o grande rei já havia falecido. Desta forma, a celebração adotou Maria de Médicis como tema.
Rubens nessa tela faz uma alegoria dos fatos que fizeram parte da vida de Henrique IV. Ao fundo notamos ainda a presença de resquícios da guerra como a fumaça e o próprio rei ainda se encontra vestido com a armadura e portando sua espada.
Assim, tem-se uma representação histórica e ao mesmo tempo cotidiana. A história se daria com o fim da guerra e a consolidação do poder nas mãos de Henrique IV; enquanto que a representação do cotidiano estaria presente na apresentação da futura esposa, Maria de Médicis, sendo retratada num quadro dentro do próprio quadro.
As armas agora parecem ser inúteis, pois a guerra está vencida. Desta forma, dois querubins brincam com as mesmas, passando quase que despercebidos, graças ao direcionamento das atenções para o tema principal.
Como o principal acontecimento é o retrato, Minerva, deusa da guerra, direciona a atenção de Henrique IV para a imagem de Maria de Médicis, inserindo o artista, uma personagem da mitologia na representação. Algo muito comum para esta escola barroca, e bastante utilizado por Rubens.
É importante perceber uma sucessão de tempo que é relatada através da sucessão de imagens, de espaço, dando a impressão de dois tempos distintos retratados numa mesma tela através de dois planos: ao fundo a cidade em chamas, resquício da guerra; e no primeiro plano a oferta do retrato de Maria de Médicis.

Encontro de Maria de Médicis com Henrique IV em Lyon


No quadro “Encontro de Maria de Médicis com Henrique IV em Lyon” apesar de haver a representação de Henrique IV, o grande rei da França como é conhecido, o personagem principal mais uma vez se mostra ser a rainha mãe, que até bem pouco tempo ocupava o poder da França como regente, já que Luiz XIII era menor.
Rubens trabalha com muita suavidade a questão do contraste entre sombra e luz. O que de fato demonstra a centralidade da personagem da rainha é o direcionamento da atenção.
Outra preocupação do artista é a retratação dos querubins. Enquanto um deles fixa sua atenção para o expectador o outro direciona seu olhar para o grande acontecimento, o mesmo ocorrendo com as feras. E os cetros carregados pelos querubins estão dispostos de modo diferente um do outro. Enquanto um apóia o cetro em seu ombro mostrando o presente; o outro querubim levanta seu cetro numa atitude de saudação ao encontro divino.
Rubens trabalha nesta última tela o elemento superfície de forma magnífica. As ondulações da superfície da terra, em formas elevadas e depressivas, são de fácil percepção.
No plano celestial encontra-se certa leveza e movimento, ficando visíveis estes elementos através da escolha de tonalidades usadas nas vestimentas de Maria de Médicis. Enquanto que no plano terrestre a vestimenta se mostra escura, pesada, estática, pois o tema central é o encontro.
A rainha é retratada na parte superior da tela tentando cobrir sua semi nudez com um tecido muito fino e transparente, deixando transparecer seu ideal de beleza feminina na apresentação de um dos seios.

Outra temática encontrada nesse quadro é a discussão sobre civilidade. Isto é possível através da análise do olhar, dos movimentos e das posturas corporais. Olhos ferozes, como o do leão, denotam violência, enquanto que o olhar doce do querubim para o expectador demonstra respeito. Nota-se, também, o olhar de admiração de Maria de Médicis no plano terreno. Ainda sobre os olhos percebe-se no plano celestial, o olhar tímido e recatado da rainha, caracterizado pelo baixar das pálpebras.
As posturas também remetem a alguns significados que podem ser analisados e transformados em linguagem conferindo um contraste trabalhado por Rubens.
Henrique IV enquanto detém em uma das mãos raios, uma expressão de força, de poder, na outra recebe sua esposa numa demonstração de carinho, enquanto que, Maria de Médicis entrega uma de suas mãos ao rei todo poderoso com a outra tenta cobrir seu busto com um fino tecido.
Outro ponto importante é o da vestimenta. A vestimenta possui uma dupla função: a de esconder as partes do corpo, e a de demonstrar certa ascendência social. Em “Oferta do Retrato de Maria a Henrique” ambos estão vestidos elegantemente. Mesmo o rei estando ainda com sua armadura, devido à guerra que acabou de vencer. Já em “Encontro de Maria de Médicis com Henrique IV em Lyon”, Maria de Médicis demonstra um nu sensual enquanto Henrique encontra-se apenas com um tecido, encobrindo suas partes íntimas sem a preocupação de ostentação de riqueza. Sabe-se que Rubens tinha certo prazer em retratar o nu, mas especificadamente o nu das mulheres, sendo timidamente utilizado o nu da rainha nesta série de pinturas.
Encontra-se, também, nessa divisão espacial/temporal. O plano terreno ocorrendo antes e posteriormente o celeste, onde se dá o encontro dos dois.

A educação de Maria de Médicis” (terceiro quadro de “A vida de Maria de Médicis”) (1621-1625)


Seu painel sobre a educação de Marie apresenta deidades como Minerva e Apolo ensinando-lhe música e eloquência. As três Graças do painel estão entre os mais belos nus de RUBENS. Infelizmente, algum tempo depois de terem sido pintadas foram revestidas com roupas leves em respeito ao pudor cristão e ficaram seriamente danificadas. Uma das Graças estende uma coroa de louros à jovem Marie.

“O desembarque em Marselha”


Em “O desembarque em Marselha” ou “Marie chega a Marselha” (1621-1625), mostra a chegada da rainha em Marselha em 03 de novembro de 1600. Os gestos, as roupagens e as cores, tudo contribui para traduzir a excitação e a agitação provocadas por esse acontecimento. RUBENS tinha o costume de utilizar os vermelhos incandescentes para dar mais vitalidade a suas telas. Em todo o seu esplendor majestoso, a rainha é acolhida pela França, a mulher vestida com um manto azul bordado com flores-de-lis de ouro. A outra mulher que a recebe, e que tem uma coroa de torres, representa a cidade de Marselha.
A deusa da Fama anuncia com trombetas douradas o desembarque da rainha na França. Diplomaticamente, RUBENS omitiu o queixo duplo de Marie (apesar de, em cenas posteriores, retratar sua majestosa corpulência) e se concentrou em três voluptuosas enviadas de Netuno em primeiro plano, chegando a pintar deliciosas gotas de água nas amplas nádegas dessas ninfas.
Os nus de RUBENS são pintados com uma sensualidade que nenhum de seus contemporâneos pode igualar. Como podemos notar aqui, os azuis e os verdes do fundo se refletem de maneira característica sobre os tons da pele.
RUBENS compartilhou a tendência ao excesso típica da época barroca, presente nas cores exuberantes, na riqueza dos trajes, nos detalhes dourados.
Aplicava vigor, à sua vida e ao seu trabalho. Qualquer que fosse o tema, RUBENS imprimia à pintura um clima de triunfo e dizia “O importante não é viver muito, mas viver bem!”

A chegada a Lyon”, 1621-1625 (sétimo quadro de “A vida de Marie Médicis”), retrata Marie aguardando a chegada do rei a Lyon durante uma semana, antes da cerimônia de seu casamento em 11 de novembro de 1600.
Neste quadro, o rei e a rainha representam Júpiter e Juno.
A vista da cidade de Lyon aparece em um ângulo remoto do quadro. As paisagens eram consideradas um tipo de pintura muito particular, por isso era costume confiá-las a um especialista que as pintava em grande formato.

No quadro “Marie é entronizada regente”, 1621-1625 (nono quadro de “A vida de Marie de Médici”), apresenta a partida de Henrique IV em 20 de março de 1610, para a guerra na Alemanha. Antes de sua partida, ele confia o governo do reino à sua rainha. O globo decorado com a flor-de-lis representa o poder. Sob o globo está o jovem Delfim, com os olhos fixos nesse símbolo.

Em “O nascimento do Delfim”, 1621-25 (oitavo quadro de “A vida de Marie Médicis”) pode-se ver Apolo levando em seu carro pelo céu, para anunciar o nascimento de Luís XIII na manhã de 27 de setembro de 1601. É a Justiça que carrega o jovem príncipe em seus braços. Os cinco recém-nascidos, na cornucópia da abundância, representam as crianças que o rei e a rainha teriam em seguida.

Em “A coroação da rainha”, 1621-25 (décimo quadro de “A vida de Marie de Médicis”), dois gênios fazem chover moedas de ouro sobre a rainha. Nas grandes ocasiões, era costume jogar uma grande quantidade de moedas após a missa, e para celebrar esse acontecimento foram cunhadas moedas de ouro e de prata com o busto da rainha.
A rainha é auxiliada por muitas princesas. RUBENS foi frequentemente criticado porque os rostos de suas personagens femininas se pareciam muito. Ajoelhada, a rainha recebe a coroa das mãos do cardeal. Ao seu lado estão o delfim, vestido de branco, e sua irmã.


“A coroação da rainha”
 
Em “O triunfo de Juliers”, 1621-1625 (décimo terceiro quadro de “A vida de Maria de Médici”), no dia 1 de setembro de 1610, logo após a morte de Henrique IV, a rainha regente Marie de Médici devolve Juliers aos protestantes, cumprindo a promessa do rei morto. Acima dela podem-se ver a Vitória e a Celebridade, que proclama seu nome. A mulher com o leão, atrás de Marie, representa a Força e a Generosidade.


O quadro “O tratado de Angoulème”, de 1621-25 (décimo oitavo quadro de “A vida de Marie de Médici”, é igualmente intitulado “A Reconciliação de Marie de Médici com seu filho”, fato que ocorreu em 30 de abril de 1619. Mercúrio desceu do céu trazendo um ramo de oliveira, sinal de paz entre a rainha e seu filho. Sua natureza divina é claramente revelada pela forma diferente com que foi pintado e pela delicadeza de sua pele. O rosto que está ao lado da rainha é do cardeal Guise, o responsável pela reconciliação entre Marie de Médici e Luís XIII.



O tema do esboço da “A fuga de Paris”, 1621-25, estava carregado de alusões negativistas. O tema é a luta entre a inocência e a falsidade, e acredita-se que os monstros da falsidade representados em cima da cabeça da rainha deveriam ser interpretados não só como alegorias, mas também como alusões pessoais.


A tela “A fuga de Blois”, 1621-25 (décimo sétimo quadro de “A vida de Marie de Médici”, mostra a fuga de Marie de Médici de Blois, na noite de 21 para 22 de fevereiro de 1619. Para ela, essa foi uma prova penosa, mas ainda assim insistiu para que o tema fosse incluído nesse ciclo. Existem, neste quadro, três fontes de luz: a claridade da lua, a fosforescência das tochas e os primeiros clarões da aurora, no fundo à esquerda.

Apoteose de Jaime I” (1629) foi, provavelmente, o primeiro esboço de RUBENS para o teto da Banqueting House, Whitehall (Londres), encomendado por Carlos I, em honra de seu pai e da Casa Real dos Stuarts. As telas foram concluídas em Antuérpia e montadas no local devido, em 1635. Mostra o uso da arte como propaganda a favor de um monarca secular, correspondente ao uso da arte religiosa para fins semelhantes nas igrejas católicas. O esboço de RUBENS, em tonalidades cinza prateadas e amarelo mel, é um exemplo superlativo de seu estilo artístico.

Em “Jardim do Amor” (1630), o tema é “fête galante”, em que um número de pares elegantemente trajados, acompanhados de Cupidos e sob a égide de uma estátua de Vênus, conversam e beijam-se no terraço de uma casa.



A Adoração dos Reis Magos” (1634) foi pintado para o Convento das Monjas Brancas, de Malines, exemplifica o poder e a eloquência do altar barroco, em toda a sua opulência.

As três grandes figuras dos Reis representam o ato de oferenda da autoridade terrena ao Menino Jesus.
O estilo do artista, ultrapassada agora a sua fase mais agressiva, combina sua habitual energia com uma nova nota de ternura e dignidade.

“A Adoração dos Reis Magos”


Ao chegar à maturidade de sua arte, RUBENS busca inspiração ao mundo íntimo de sua vida familiar. No quadro “Hélène Fourment com seu filho” (1634) faz pensar em uma “Virgem com o menino”. Pode-se sentir a fusão do profano e do sagrado.

“Hélène Fourment com seu filho”


Em “Auto-retrato com Hélène Fourment no Jardim” (1631), Hélène é retratada de braços dados com seu marido, e acompanhada por seu filho no rico jardim da casa de RUBENS, na Antuérpia.

Já em “Família Sagrada” (1632), A Virgem e o Menino Jesus formam um todo extremamente unido, voltando os olhares plenos de ternura de Isabel e do jovem João Batista. São José permanece modestamente ao fundo.


“Família Sagrada”



A Descida da Cruz” (1612) causou sensação e definiu a fama de RUBENS como o maior pintor religioso em toda a Europa.
Contém todos os traços do estilo barroco amadurecido: a iluminação teatral, com o céu escuro pleno de augúrios e Cristo banhado numa profusão de luz, ritmos curvilíneos conduzindo à figura central, de Cristo, e um tema trágico, induzindo a uma forte reação emocional.
A cabeça pendida e o corpo caído para o lado evocam o peso da morte com intensa exatidão, que convida à identificação do espectador.

“A Descida da Cruz”


RUBENS em “A Conversão de S. Paulo” (1616) transformou o tema pictórico tradicional de cavalos e cavaleiros em luta, na primeira manifestação da pintura do alto barroco na Europa. A composição baseia-se numa série de curvas contrastantes que são mantidas unidas por um vigoroso “S” em espiral para cima e para dentro, a partir do canto esquerdo inferior. Notar também os violentos escorços, típicos do barroco.

“A Conversão de S. Paulo”



Paisagem com o Naufrágio de Enéias” (1624) as formas naturais: árvores, rochas, rios, veredas etc, estão sujeitas aos mesmos movimentos dinâmicos espiralados e motivos contrastantes de luz e sombra dos seres humanos em suas composições figurativas.

O Torneio” (1635-40) é um exemplo do paisagismo realista holandês do séc. XVII, repleto de uma vitalidade barroca, no estilo e de uma atmosfera misteriosa e romântica. A destreza da pincelada e, ta que, por vezes, as formas são indicadas pelos mais leves toques de tinta, na superfície, entretanto, tudo é vivo, tudo está firmemente posto em seu lugar.
A obra situa-se a meio caminho entre um esboço e uma pintura acabada, um novo tipo inventado por RUBENS.

O retorno do trabalho” (1635-1638) após a compra do castelo de Steen, o artista observa de perto a vida dos camponeses e acompanha seu trabalho diário.

Auto-retrato” (1638-1940) como em todos os seus retratos, RUBENS busca o elemento típico, característico, que dá ao personagem representado o seu valor objetivo. Aqui, ele adquire ares de um homem importante, severo e isolado. Este é seu último auto-retrato, executado pouco antes de sua morte.

O triunfo da Igreja” (data incerta), a Igreja triunfante vence seus inimigos. O anjo a cavalo tem as chaves de São Pedro, símbolo da Igreja. O direito divino do papado é indicado pela coroa mantida acima da cabeça do personagem que está no carro e que personifica a Igreja.







"O triunfo de Juliers"

A troca de roupas das princesas”, 1621-25 (décimo sexto quadro de “A vida de Marie de Médici”, refere-se à realização do casamento duplo de Ana da Áustria com o rei Luís XIII e de Isabel da França com o rei Filipe IV da Espanha.

A troca de roupas das princesas”

terça-feira, 15 de março de 2011

TROVADORISMO: CANTIGAS E PROSA MEDIEVAL

TROVADORISMO (1189/1198 até 1418/1434)


“Do medieval ao contemporâneo: religião, poder, cantigas e cavaleiros andantes”.


I – INTRODUÇÃO:


A palavra trovador vem do francês trouver, que significa achar, encontrar. Dizia-se que o poeta achava a música adequada ao poema e o cantava acompanhado de instrumentos como a cítara, a viola, a lira ou a harpa.


Os primeiros passos da história literária da moderna Europa foram dados, ao longo do século XII, pelos trovadores da Provença. Por Provença entende-se toda a civilização do Languedócio, região situada entre o Mediterrâneo e o Maciço Central, os Pireneus e a fronteira italiana. Nessa região surgiu uma poesia lírica que se pode considerar como fonte de todo o lirismo europeu dos séculos posteriores.

Lirismo ou poesia lírica é a poesia que busca expressar temas ligados à interioridade do poeta.
Os historiadores costumam limitar o Trovadorismo entre os anos de 1189 (ou 1198?) e 1418 (ou 1434?). Mais importante que essas datas convencionais são saber que o Trovadorismo corresponde à primeira fase da história portuguesa ao período da formação de Portugal como reino independente.
Didaticamente, considera-se como marco final desta época o ano de 1418, quando Fernão Lopes é nomeado guardador da Torre do Tombo, assinalando o início do Humanismo em Portugal.
A Cantiga da Ribeirinha ou Cantiga de Guarvaia, de Paio Soares de Taveirós é considerada o mais antigo texto escrito em galego-português: 1189 ou 1198, portanto fins do século XII. Uns a tomam por cantiga de amor; outros por de escárnio. Foi dedicada a Dona Maria Paes Ribeiro e pertence a uma coleção de textos arcaicos, denominada Cancioneiro da Ajuda.
Acorriam estrangeiros aos portos de Portugal, acolhia-os o Rei no intuito de aumentar a população, fazer fértil àquelas terras após os findos tempos das trevas bárbaras. Conhecido tal senhor, combatente dos mouros, ficou por Povoador. Dom Sancho I, o Povoador, segundo a subir no trono lusitano, quarto filho do monarca Afonso Henriques. Batizado fora de Martinho em honra ao santo do dia de seu nascimento, mas tendo seu irmão mais velho falecido recebeu alcunha um tanto mais monárquica, chamado ficou Sancho Afonso.
À infanta de Aragão e Catalunha, Dulce de Barcelona, teve por esposa, e com ela uma prole de onze filhos e filhas. Desses valem menção três de suas filhas, Dona Mafalda, Dona Sancha e Dona Teresa que se tornaram freiras, e por suas vidas fizeram-se beatas. O Rei não era, no entanto, tão santo, teve outros tantos filhos bastardos. Seis desses filhos ilegítimos teve com Dona Maria Pais Ribeiro, conhecida como a “Ribeirinha”.

No mundo nom me sei parelha,
mentre me for' como me vai,
ca ja moiro por vos - e ai
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia que me levantei, que vos enton nom vi fea!

No mundo ninguém se assemelha a mim / enquanto a minha vida continuar como vai / porque morro por ti e ai / minha senhora de pele alva e faces rosadas, / quereis que eu vos descreva (retrate) / quanto eu vos vi sem manto (saia : roupa íntima) / Maldito dia! me levantei / que não vos vi feia (ou seja, viu a mais bela).

E, mia senhor, des aquel di', ai!
me foi a mim muin mal,
e vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d'aver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós ouve nem ei
valia d'ua correa.

E, minha senhora, desde aquele dia, ai / tudo me foi muito mal / e vós, filha de don Pai / Moniz, e bem vos parece / de ter eu por vós guarvaia (guarvaia: roupas luxuosas) / pois eu, minha senhora, como mimo (ou prova de amor) de vós nunca recebi / algo, mesmo que sem valor.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:



“Os príncipes têm poder na terra, os sacerdotes, sobre a alma. E assim como a alma é muito mais valiosa do que o corpo, assim também mais valioso é o clero do que a monarquia [...]. Nenhum rei pode reinar com acerto a menos que sirva devotamente aos vigários de Cristo.”


PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985. p. 218. (Fragmento)

Primeira fase da história de Portugal - séculos XII a XIV:

1095 - O rei Afonso VI, de Leão e Castela, concede o condado Portucalense a seu genro Henrique de Borgonha.

1109-1385 - Dinastia de Borgonha. Declínio do feudalismo.


 O período de 1100 a 1300 já foi chamado de Revolução Industrial da Idade Média.


1139 - D. Afonso Henriques, filho e sucessor de Henrique de Borgonha, após vencer os mouros em batalha, declara a independência de Castela (tratado de Zamora).

1143 - Reconhecimento da independência de Castela (tratado de Zamora).

1385 - Fim da Revolução de Avis; D. João I é aclamado rei de Portugal; início da dinastia de Avis.

Alguns aspectos da história da Península Ibérica são importantes para entendermos certas características das manifestações literárias desse período:

• O feudalismo, já em declínio, terá reflexos até mesmo na linguagem da poesia amorosa, como veremos adiante. As cortes dos reis e dos grandes senhores feudais são os centros de produção cultural e literária.
• A reconquista do território, dominado pelos árabes desde o século VIII, faz prolongar, na nobreza ibérica, o espírito guerreiro e aventureiro das Cruzadas. Daí o gosto tardio em Portugal pelas novelas de cavalaria.
• Por último, o profundo espírito religioso medieval, o teocentrismo, que refletirá tanto nas já citadas novelas de cavalaria como na poesia de temática religiosa (Cantigas de Santa Maria, de D. Afonso X) e nas hagiografias (vidas de santos) e obras de devoção.

"A Lamentação", Giotto (1305)

III – ARTISTAS MEDIEVAIS:


Na hierarquia dos artistas medievais distinguiam-se quatro categorias:

a) o trovador: pessoa culta, fidalga, que não só escrevia a poesia, mas também era capaz de compor música e apresentar o seu trabalho, sem receber qualquer recompensa material. O mais famoso trovador foi D. Dinis, o Rei Trovador.
Em 1290, ele torna obrigatório o uso da Língua Portuguesa e funda a primeira Universidade em Coimbra.


b) o segrel: trovador profissional, geralmente um fidalgo decaído, que ia de corte em corte, de castelo em castelo com o seu executante (o jogral);

c) o jogral: designação que tanto poderia pertencer ao saltimbanco como ao ator mímico, ou simplesmente ao compositor; cantava nas festas e nos torneios as poesias de trovadores e segréis em troca de pagamento, às vezes, rivalizando com estes na elaboração da letra e da música;
d) o menestrel: músico ligado à determinada corte.

IV – A PRODUÇÃO MEDIEVAL PORTUGUESA:


Nos castelos, principiam novas formas de convivência social criadas pouco a pouco pela mulher, que começa a ter um papel especial nessa organização, elaborando um mundo à parte, no qual os salões tornam-se um centro da vida social. Desse modo, começa a se delinear uma nova civilização que trás consigo várias manifestações artísticas tais como a música, a pintura, a arquitetura etc.

Processa-se uma espécie de renascimento da mulher que estimula um verdadeiro culto na poesia dos trovadores da Provença.
O tema mais importante dessa poesia do sul da França é o amor sentimental, cortês, elegante, refinado, transformando a mulher numa fonte quase sagrada de sua inspiração.
A fidelidade do trovador à mulher que lhe servia de inspiração ficou conhecida como o “serviço amoroso” ou a vassalagem amorosa, como fruto de uma comparação com o homem feudal, isto é, com a relação de servidão entre o vassalo e o suserano. No entanto, é preciso deixar claro que a vida social das pessoas não era essa.
O amor cortês (praticado nas cortes e com cortesia) era uma atitude estritamente cavalheiresca, exclusiva da vida palaciana, e que rapidamente se espalhou e se afirmou em toda a Europa romana e anglo-germânica, como um modelo de atitude amorosa presente, sobretudo na imaginação poética dos trovadores.
A descoberta do amor espiritualizado que luta desesperadamente contra todos os obstáculos que se opõem à sua realização, como um tema central da inspiração poética, é a grande mensagem dessa poesia que se tornaria universal, mantendo seu interesse até os dias de hoje.
A produção artística vai estar impregnada, neste período, do espírito teocêntrico. As artes decorativas predominam, sempre deformando os elementos objetivos do mundo ou procurando simbolizar o universo espiritual e sobrenatural através do qual o homem interpreta sua realidade.
O estilo gótico, com suas formas alongadas, ogivais e pontiagudas, parece expressar forte desejo humano de ascender a uma nova e eterna vida.
A literatura, geralmente escrita em latim, não ultrapassa os limites religiosos em sua temática: a vida dos santos, a liturgia dos rituais cristãos. Mas em torno dos castelos feudais desenvolve-se também uma arte leiga que, mesmo, às vezes, chegando ao profano, redimensiona a visão de mundo medieval e aponta novos caminhos. É a arte dos trovadores e suas cantigas, das novelas de cavalaria.

V – TROVADORISMO EM PORTUGAL:

Provença exportou para outros lugares da Europa, entre os quais as terras galego-portuguesas, a influência de sua poesia sobre aquela que já produziam, de maneira espontânea, as populações rústicas e burguesas. Assim, com a nova forma importada, a “canso provençal ou o cantar d’amor, também ganha prestígio a velha poesia tipicamente local, cujo agente criador era a mulher e cuja expressão literária eram as cantigas de amigo.
De outro lado, pertencentes ao gênero satírico, surgiram as cantigas de escárnio e de maldizer, também bastante cultivadas durante a Idade Média.
Neste momento a poesia está bastante ligada à música e algo comprometida com a dança. Os poemas eram feitos para ser cantados e costumavam ser acompanhados de partituras musicais.
Em Portugal floresceram cantigas de tipos diversos quanto à temática:

a) GÊNERO LÍRICO - neste gênero, a emoção é a temática predominante. São divididos em cantiga de amor e de amigo.

CANTIGA LÍRICA DE AMOR



1- O trovador assume o eu-lírico masculino: é o homem quem fala, expressando seus sentimentos pela dama que deseja;

2- A mulher é um ser superior, casada, pertence a uma categoria social mais elevada que a do trovador;
3- Seu amor é platônico. Expressa a coita (dor, sofrimento) amorosa do trovador, por amar uma mulher inacessível, que não lhe corresponde e a quem rende vassalagem amorosa;
4 - Expressa o amor cortês da época;
5 - O eu-lírico masculino nunca revela o nome da amada, chamado-a de "mia senhor";
6 - O poeta se dispõe a um afastamento casto de sua amada, desejando-a a distância, por uma posição tomada pela moral cristã e pela distância hierárquica que os separa;
7 - O ambiente, culto e refinado, retrata a vida na corte;
8 - As cantigas, do ponto de vista formal, possuíam uma estrutura formal sofisticada, caracterizada pela diferenciação dos versos da estrofe e pela ausência de refrão, sendo chamada de “cantiga de maestria” ou de “mestria”;
9 - É de origem provençal (de Provença, região do sul da França).

Como morreu quem nunca amar
se fez pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.

Paio Soares de Taveirós


CANTIGA LÍRICA DE AMIGO


1- O trovador assume o eu-lírico feminino, exprime os sentimentos que supunha ter as amadas: é a donzela quem fala;

2 - A mulher, campesina, é de nível social baixo;
3- Expressa o sentimento de quem sofre por sentir saudade do amigo (namorado) que foi combater os mouros invasores. Essa cantiga procura mostrar a mulher dialogando com sua mãe, amiga ou com a natureza;
4- O ambiente é rural ou familiar obedecendo às convenções de sua forma folclórica inicial;
5- Teve origem em território galaico-português;
6 - A linguagem é menos rica e mais musical; possui estrutura paralelística caracterizada pela repetição quase integral dos versos e pelo uso do refrão;
7 - A relação amorosa é verdadeira e o amor de que se fala no poema tende a ser mais sensual ou carnal do que na cantiga de amor;
8 – O elemento da natureza invocado no poema é sempre uma metáfora do desejo amoroso do eu-lírico, um indício da origem popular dessa forma poética;


Por muito tempo, ó amado,
Sei eu que me dedicastes
Grande amor e que ficastes
Muito feliz a meu lado
Falo do tempo passado!
Já passou.

João Garcia de Guilhade


b) GÊNERO SATÍRICO - Expressa a psicologia medieval, despertando muitos comentários na época. Satiriza-se a vida social e política, sem as normas rígidas do gênero lírico.

1- Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa indiretamente, por intermédio da ironia e do sarcasmo. Apresenta críticas sutis e bem-humoradas expressas por jogos de palavras de duplo sentido, de subentendidos, de trocadilhos ao redor de uma pessoa muito conhecida;
2 - Criticava pessoas, costumes e acontecimentos, sem revelar o nome da pessoa ou pessoas visadas.

Ai, dona feia, foste-vos queixar
de que nunca vos louvei em meu trovar;
e uma das trovas vos quero dedicar
em que louvada de toda a maneira
sereis; tal é o meu louvar:
dona feia, velha e sandia!

João Garcia de Guilhade


CANTIGA SATÍRICA DE MALDIZER


1- Cantiga de caráter satírico, em que o ataque se processa diretamente com intenção de ofender a pessoa; a intenção de ferir a vítima é clara e escandalosa;
2- Criticava pessoas, costumes ou acontecimentos, citando o nome da pessoa ou pessoas visadas expondo-a á humilhação pública;
3 - Há o uso de palavras grosseiras e vulgares.

Roi Queimado morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por uma dona que gran bem queria;
e, por se meter por mais trobador,
por que lh' ela non quiso bem fazer,
feze-s' el em seus cantares morrer,
mais resurgiu depois, ao tercer dia.

Este fez ele por uma sa senhor
que quer gram bem; e mais vos ém diria:
por que cuida que faz i mestria,
enos cantares que fez, á sabor
de morrer i e des i d' ar viver;
esto faz el, que x' o pode fazer,
mais outr' omem per rem nono faria.



e nom á já de sa morte pavor,
se nom, sa morte mais la temeria,
mais sabe bem, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for;
e faz-s' em seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, - mais queno cuidaria!



E se mi Deus a mi desse poder
qual oj' el á, pois morrer, de viver,
ja mais morte nunca eu temeria.

Tema: cantiga de maldizer

Roi Queimado é atacado como trovador de pouca qualidade, e o amor cortês é ridicularizado.
Divisão em partes:

1ª. parte: 1ª. estrofe - roi Queimado para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua dama morreu de amor por ela;
2ª. parte: 2ª. estrofe - ele fez isso porque acha que assim mostra mais engenho do que os outros trovadores;
3ª. parte: 3ª. estrofe - ele é como que um eleito de Deus, pois morreu e ressuscitou; o trovador também se lhe fosse dado esse poder não temeria a morte e ressuscitaria como ele;

Forma:

Cantiga de mestria com três estrofes (sétimas) e finda (terceto) que retoma a rima dos três últimos versos das estrofes (coblas) abbabbb, rima emparelhada e interpolada, toante e consoante, pobre e rica.

ATUALIDADES:

A cantiga trovadoresca é importante por documentar a história de nossa língua, os costumes da época e por influenciar e inspirar o lirismo de poetas até hoje.
Veja, a seguir, alguns exemplos:

Queixa - Caetano Veloso

Um amor assim delicado, você pega e despreza
Não devia ter despertado, ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo pela sua grandeza
Não sou o único culpado, disso eu tenho a certeza



Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa



Um amor assim violento quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento, oceano sem água
Ondas: desejos de vingança nessa desnatureza
Batem forte, sem esperança contra a tua dureza



Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa



Um amor assim delicado nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo e vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo e eu te grito essa queixa



Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora e agora me diga onde eu vou
Amiga, me diga

Na canção de Caetano Velloso há um eu-lírico masculino em plena condição de vassalo que se dirige a amada com termos como "Senhora" e "Princesa" referindo-se a uma mulher que está em um grau superior, em uma posição quase inatingível. A palavra "Princesa" remete ainda à ideia de uma ambientação palaciana.



Fico Assim Sem Você - Adriana Calcanhotto (fragmento)

Composição: Abdullah / Cacá Moraes


Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu, assim, sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu, assim, sem você...
Porque é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim...



Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu, assim, sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem abraço
Sou eu, assim, sem você...



Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração...



Eu não existo longe de você
E a solidão, é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo...



Por quê? Por quê?

Já nesta canção o eu-lírico encontra-se no feminino e retrata a solidão e a ausência do amado, tema muito comum das cantigas de amigo.

VI – OS CANCIONEIROS:


Por ser transmitida oralmente, durante muito tempo, era de se esperar que boa parte da poesia trovadoresca acabasse desaparecendo, sobretudo, a que se produziu antes de 1198. Com o tempo, com o objetivo de fixar aquilo que a memória não podia reter, as letras das cantigas passaram a ser transcritas em pequenos apontamentos. Mais adiante, para evitar que se perdessem, foram postas em “cancioneiro”, isto é, em coletânea de canções, sempre por ordem e favor de um protetor das artes, de um mecenas.

• O Cancioneiro da Ajuda, o mais antigo, com 310 cantigas, quase todas de amor. Composto no reinado de D. Afonso III, fins do século XIII, o que excluía a contribuição de D. Dinis que reinou entre 1268 e 1325.

• O Cancioneiro da Vaticana, assim chamado por ter sido encontrado na Biblioteca do Vaticano, em Roma. Contém 1205 cantigas;

• O Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, anteriormente chamado de Collocci-¬Brancutti, homenagem a dois italianos que os possuíram e guardaram para a prosperidade. É uma cópia italiana do século XVI. Contém 1647 cantigas, de todos os tipos, e inclui trovadores dos reinados de Afonso III e de D. Dinis.

VII – PRINCIPAIS TROVADORES:

JOÃO GARCIA DE GUILHADE – notabilizou-se pelo forte estilo pessoal, pela originalidade de suas composições. São conhecidas 54 cantigas, entre líricas e satíricas.

MARTIM CODAX – dele são conhecidas apenas 7 cantigas, as quais, além de contarem entre as melhores do período, são as únicas de que temos as partituras musicais que normalmente acompanham os poemas.

São nomes bastante lembrados, ainda, os seguintes: Afonso Sanches (filho de D.Dinis); João Zorro; Aires Nunes; Nuno Fernandes Torneol; Bernardo Bonaval e Paio Soares de Taveirós, considerado o primeiro autor importante, do ponto de vista cronológico, do Trovadorismo português.

VIII - A PROSA MEDIEVAL PORTUGUESA:

A época do Trovadorismo ainda se caracteriza pelo aparecimento e cultivo das novelas de cavalaria. Originárias da Inglaterra e da França, e de caráter tipicamente medieval, nasceram da prosificação e metamorfose das “canções de gesta” (poesia de temas guerreiros): estas, alargadas e desdobradas a um grau que transcendia qualquer memória individual, deixaram de ser expressas por meio de versos para o ser em prosa, e deixaram de ser cantadas para ser lidas. Dessa mudança resultaram as Novelas de Cavalaria, que penetraram em Portugal no século XIII, durante o reinado de Afonso III.
Seu meio de circulação era a fidalguia e a realeza.


Como eram traduzidas, era natural que na tradução e cópia sofressem voluntárias e involuntárias alterações com o objetivo de aclimatá-las à realidade histórico-cultural portuguesa.

Convencionou-se dividir a matéria cavaleiresca em três ciclos. São eles:

- CICLO ARTURIANO, em torno do rei Artur e seus cavaleiros e os cavaleiros da Távola Redonda.

Rei Arthur, miniatura de "Flores Historiarum", por Matthew Paris, c.1250-52

- CICLO CAROLÍNGIO, a respeito de Carlos Magno e os doze pares da França.

- CICLO CLÁSSICO, relativo aos temas greco-latinos, narram á guerra de Tróia e as aventuras de Alexandre, o Grande.

Floresceram também, nessa época, formas paraliterárias:



- os cronicões: livros de crônicas que deram origem ao início da historiografia portuguesa;
- as hagiografias: vidas de santos;
- os livros de linhagem (ou nobiliários): relações de nomes, geralmente de fidalgos, com a intenção de estabelecer graus de parentesco a fim de evitar casamentos entre parentes próximos e esclarecer dúvidas no caso de heranças.

Tratando-se da literatura portuguesa só o ciclo arturiano deixou marcas vivas de sua passagem em Portugal. Sabe-se, ainda, que na biblioteca de D. Duarte (1391-1438) existiam exemplares de algumas novelas como ”Tristão”, o “Livro de Galaaz”, o “Mago Merlim”, o que revela o alto preço em que eram tidas e a grande influência que exerceram sobre os hábitos e costumes palacianos da Idade Média portuguesa.

SANTO GRAAL

Ao longo da história do cristianismo, a veneração por relíquias sagradas foi uma das mais corriqueiras demonstrações de fé vinculadas ao catolicismo. Esse tipo de experiência de fé visava reforçar materialmente a crença na história de vida dos santos e de Jesus Cristo. Por isso, principalmente a partir da Idade Média, as relíquias se transformaram em alvo da adoração e da constituição de várias lendas que descreviam os grandes poderes destes artefatos sagrados.
Em meio a tantas relíquias, o Santo Graal tem um significado especial, pois se trata de um suposto objeto utilizado por Cristo durante a Última Ceia. Ao longo do tempo, as interpretações e simbologias em cima desse objeto sagrado ganharam novas versões que, inclusive, inspiraram a narrativa do best-seller “O Código da Vinci”. Contudo, os estudos sobre o cristianismo primitivo em pouco contribuem para que essa crença se transformasse em realidade.
No primeiro século, os valores cristãos eram populares entre pessoas de origem humilde e que não tinham condições de ostentar nenhum tipo de luxo material maior. Por isso, caso o Santo Graal realmente existisse, não poderíamos imaginá-lo como um utensílio sofisticado e valioso. Além disso, os próprios relatos sobre a Última Ceia contidos nos evangelhos bíblicos não fazem nenhuma menção especial a qualquer objeto utilizado na última celebração entre Cristo e seus apóstolos.
No entanto, com o passar dos séculos, outros textos considerados sagrados foram responsáveis por articular a lenda que se criou em torno do Santo Graal. Em um desses textos, também conhecidos como evangelhos apócrifos, encontramos a menção de um cristão que, durante o julgamento e a crucificação de Cristo, teve o cuidado de zelar por utensílios supostamente utilizados pelo líder messiânico. Dessa maneira, estariam nesses relatos à origem do mito sobre o copo da Última Ceia, o Santo Graal.
Um dos responsáveis por dar continuidade ao mito do Graal foi um poeta medieval francês chamado Chrétien de Troyes. Em um de seus poemas épicos, Troyes contava a história de Percival, um camponês que se juntou aos cavaleiros do Rei Arthur e se lançou ao mundo em busca de aventuras. A certa altura da história, o cavaleiro Percival se depara resignadamente com uma procissão onde alguns cristãos carregavam valiosas relíquias, sendo uma delas “um graal”.
A história, que não teve prosseguimento pela morte de seu autor, diz em suas partes finais que o Graal avistado pelo cavaleiro tinha o poder de evitar várias intempéries. Apesar de mal explicada, a história do poeta francês foi importante para que o caráter divino do Graal fosse posteriormente explorado por outros escritores. Segundo alguns estudiosos, o termo “graal”, primeiramente utilizado por Troyes, faz referência a um tipo de prato raso, e não ao cálice que costuma simbolizar a famosa relíquia.
Algumas décadas após a morte de Troyes, a história por ele iniciada foi retomada por vários autores que reinventaram os destinos de Percival e o valor daquele graal. Em meio às reinvenções, os cavaleiros do rei Arthur perseguiriam o Santo Graal com o objetivo de curar e instruir o lendário rei Arthur. Entre os cavaleiros estava o puro Galahad, que ao encontrar a relíquia descobre importantes revelações sobre o mundo.
Na Idade Moderna, as famosas histórias do Santo Graal e das demais relíquias do mundo medieval se depararam com as críticas do movimento protestante. A crença e a compra das relíquias eram atacadas como um tipo de atividade contrária a outras mais importantes práticas cristãs. Contudo, a lenda conseguiu sobreviver ao longo do tempo e, no século XIX, foi relacionada com a Ordem dos Cavaleiros Templários, ordem religiosa criada no século XII com a missão de proteger a cidade de Jerusalém.
Essa interpretação histórica foi fundada a partir da leitura de um poema alemão intitulado como “Parzival”. Nessa obra, o graal é descrito como uma pedra protegida por um grupo de guerreiros chamados de “templeisen”. Anos depois, saberiam que esses indícios que ligavam o graal aos templários era fruto de uma interpretação errônea dos termos encontrados no poema alemão. Contudo, essa vinculação foi tomada como verdade durante um bom tempo.
No final do século XIX, em meio ao “boom” das descobertas arqueológicas, um grupo de pesquisadores resolveu imitar o fictício Percival, e assim saíram em busca do Santo Graal. Com o início da empreitada, vários “graais” foram encontrados e posteriormente desmascarados. No entanto, a lenda do graal ganhou um novo fôlego com o surgimento de grupos esotéricos que compreendiam o Santo Graal como um conjunto de textos sagrados de profunda importância religiosa.
A última e mais famosa versão sobre esse mito tenta levantar indícios pelos quais o Santo Graal, na verdade, faria uma truncada menção à expressão “sangue real”. Com base em tal premissa, acreditariam que o sangue real supõe a existência de uma linhagem de descendentes de Jesus Cristo que, segundo outras supostas fontes documentais, teria deixado herdeiros a partir de sua união com Maria Madalena. E assim, a lenda do graal cresce com novas, acalentadoras e instigantes promessas.



A DEMANDA DO SANTO GRAAL (SÍNTESE)


Em torno da “Távola Redonda”, em Cammalot, reino do Rei Arthur, reúnem-se os cavaleiros. É véspera de Pentecostes. Chega uma donzela à Corte e procura por Lancelot do Lago. Saem ambos e vão a uma igreja, onde Lancelot arma Galaaz cavaleiro e regressa com Boorz a Cammalot. Um escudeiro anuncia o encontro de maravilhosa espada fincada numa pedra de mármore boiando n’água. Lancelot e os outros tentam arrancá-la debalde. Nisto Galaaz chega sem se fazer anunciar e ocupa a “seeda perigosa” (cadeira perigosa) que estava reservada para o cavaleiro “escolhido”: das 150 cadeiras, apenas faltava preencher uma, destinada a Tristão. Galaaz vai ao rio e arranca a espada do Pedrão. A seguir, entregam-se ao torneio.

Surge Tristão para ocupar o último assento vazio. Em meio ao repasto, os cavaleiros são alvoroçados e extasiados com a aérea aparição do Graal (cálice), cuja luminosidade sobrenatural os transfigura e alimenta, posto que dure só um breve momento. Galvão sugere que todos saiam à demanda do Santo Graal.
No dia seguinte, após ouvirem missa, partem todos, cada qual por seu lado. Daí para frente, a narração se entrelaça, se emaranha, a fim de acompanhar as desencontradas aventuras dos cavaleiros do Rei Arthur, até que, ao cabo, por parecimento ou exaustão, ficam reduzidos a um pequeno número. E Galaaz, em Sarras, na plenitude do ofício religioso, tem o privilégio exclusivo de receber a presença do Santo Vaso, símbolo da Eucaristia, e, portanto, da consagração de uma cidade inteira dedicada ao culto das virtudes morais, espirituais e físicas.
A novela ainda continua por algumas páginas, com a narrativa do adulterino caso amoroso de Lancelot, pai de Galaaz, e de D. Guinevere, esposa do Rei Arthur. Tudo termina com a morte deste último. Tal excrescência contém o resumo de outra novela. “A morte do Rei Arthur”, ou “La mort de Le Roi Arthur”, novela francesa do século XIII. Justificaria sua presença como apêndice da “Demanda” o seguinte fato: na intricada selva da matéria cavaleiresca, havia-se formado uma trilogia, intitulada “Lancelot em Prosa”, que continha o “Lancelot”, a “Demanda” e “A morte do Rei Arthur”. Parece evidente que o tradutor português, ao executar sua tarefa, teve diante dos olhos a segunda e a terceira partes do triptico, e resolveu resumir á última, certamente por considerá-la desnecessária à compreensão do núcleo episódico e dramático da “Demanda”.

Massaud Moisés. A literatura portuguesa.


A LENDA DO REI ARTHUR


Há duas versões da lenda para a transformação de Arthur em Rei, são elas:

A VERSÃO DA EXCALIBUR:

 


Conta essa versão que Uther Pendragon estava sendo perseguido por inimigos que lhe armaram uma emboscada e antes de morrer fincou a sua espada mágica numa pedra e disse que o próximo rei seria quem a retirasse desta pedra. Para satisfazer suas vontades de se transformarem em rei, todos os grandes guerreiros tentaram, e passaram a organizar torneios anuais onde o vencedor receberia a chance de tentar retirar a espada mágica da rocha. Arthur, nessa época, era criado por Ectório e era o seu filho mais novo (de criação) e ele, como acontecia na era medieval, era o Pajem de seu irmão mais velho Cai. Numa dessas batalhas Arthur perdeu a espada de Cai e quando viu a espada encravada na rocha retirou-a e levou-a a seu pai. Neste momento alguns se ajoelharam e outro senhor, Ban da Bretanha, jurou guerra ao bastardo. Começada a guerra, Arthur imobilizou Ban e pediu para Ban jurar fidelidade a ele. Ban disse que não juraria fidelidade a um rei que não tivesse ainda se tornado um cavalheiro de verdade. E Arthur, sem pestanejar disse: "Estás certo meu senhor, faça-me então cavalheiro e jure fidelidade ao seu rei." Diante disso, Ban não acreditando na coragem do jovem, tomou a Excalibur em suas mãos e o cavalheiro jurando-lhe fidelidade diante de todos os seus soldados. Assim, Arthur foi feito rei de toda a grande Bretanha.Guinevere (ou Gwen) ainda era uma moça quando se casou. Ela foi aceita pelo rei que nem mesmo a conhecia; mais por causa do seu dote do que por qualquer outra coisa. Gwen trazia consigo 100 cavalos de guerra pesados e 100 soldados para montá-los. Artur ao vê-la encantou-se, mas o coração de Gwen já era de Lancelot do Lago, o chefe da cavalaria de Arthur. Gwen teve dias felizes em Cammalot e em Tintagel, mas o seu amor proibido fazia com que uma angústia enorme acompanhasse a Rainha da Bretanha. Gwen tornou-se uma mulher fria, calculista e vingativa. Ela deu forças para que Morgana se casasse com um velho rei e fez com que Lancelot tomasse ódio de Morgana. Guinevere tinha muitos ciúmes de Morgana; a rainha era também muito católica e fez com que Arthur trocasse a bandeira do Pendragon pela cruz do Cristianismo e com isso criou o início da decadência do reinado do seu marido. Guinevere mantinha encontros furtivos com seu verdadeiro amor, Lancelot. A figura da rainha é retratada como a mulher que se impõe num regime onde ela não tem vez. Guinevere e Morgana formam a espinha dorsal da trama e desencadeiam todas as histórias que acontecem dentro do reino. Guinevere é exilada mais tarde por Arthur devido a sua vida "indigna" com Lancelot.


A VERSÃO DAS BRUMAS:



Igraine foi forçada por Viviane a se deitar com Uther para que ele lhe fizesse um filho. Depois disso, Arthur foi dado a Ectório para ser criado como um bastardo, visto que ele fora feito enquanto Igraine ainda era mulher de Gorlois da Cornualha, e isso não seria aceito por seus súditos. Quando Uther morreu, Arthur foi levado para Avalon para ser coroado de acordo com as celebrações do Gamo-Rei, e depois do ritual ele teve que se deitar com a Deusa incorporando o gamo, para com isso finalizar a sua coroação. Após a coroação, Arthur recebeu a espada mágica, Excalibur que tinha uma bainha confeccionada pelas mãos das sacerdotisas de Avalon, e seus símbolos significavam as mágicas que ela continha. Para a confecção dessa bainha, a sacerdotisa dava também seu sangue para a magia, e dentre outras mágicas, a bainha continha a proteção contra ferimentos e desmaios. Com essa espada e a bandeira do Pendragon mantida como a bandeira do reino, Arthur conseguia que os povos antigos fossem seus aliados para o resto da sua vida. E não feria as tradições da Igreja Católica, outra forte aliada. Nesta cerimônia, Arthur jurou fidelidade aos preceitos da Antiga Religião.


PERSONAGENS PRINCIPAIS DA LENDA:

REI ARTHUR



Arthur, o rei, é a personagem principal desta lenda. Ele foi coroado aos 15 anos, após a cerimônia do Gamo Rei, onde ganhou a Excalibur (sua espada mágica). Existem duas versões para esta história, que serão contadas mais adiante. Ele teve uma irmã (Morgana) e um irmão de criação (Cai). Sua mãe (Igraine) era filha da Senhora de Avalon e irmã de Viviane (Sacerdotisa atual de Avalon na saga). O Mago Merlim é pai da mãe de Arthur, seu avô de direito. Arthur não teve filhos de seu conhecimento, mas ele foi pai em conjunto com Morgana no ritual do Gamo Rei. Morgana nunca contou ao seu irmão sobre o acontecido, visto que nesse ritual os corpos eram doados aos deuses para a unificação do ritual que será explicado na história do "Gamo Rei". Arthur criou a Távola Redonda, onde todos os seus cavaleiros se sentavam á uma mesa redonda de acordo que não houvesse ponta nem cabeceiras, reafirmando que todos eram iguais, perante ao rei e perante ao Cristo.

Arthur traiu o povo das fadas (seus familiares por parte de mãe) ao negar a bandeira do Pendragon e instituir em Cammalot, a bandeira com a cruz do Cristo e a Virgem Maria. Essa bandeira foi confeccionada por Guinevere, sua esposa e rainha de Cammalot. Arthur, após a mudança do reino de Tintagel para Cammalot, negou aos seus ancestrais, traiu o povo de Avalon e instituiu uma religião una em toda a Bretanha, o Cristianismo.

RAINHA GUINEVERE






MAGO MERLIM



Merlim era um título dado ao sacerdote mais graduado na religião antiga e corresponde ao representante masculino da Deusa. Merlim juntamente com a Sacerdotisa de Avalon formam o elo entre a magia e os humanos.

O Merlim, no início da lenda, é o Taliesin (aquele velho de barba branca, como ficou imortalizado na mente das pessoas) que teve duas filhas importantes no enredo da lenda: Igraine (a mãe de Arthur) e Niniane (a Sacerdotisa de Avalon que substituiu Viviane).
Taliesin foi um grande articulador e conselheiro do reino de Ambrósio e Uther Pendragon. No reino de Arthur ele participou pouco, em virtude de sua idade avançada foi substituído por Kevin, o Bardo.
Kevin era um homem com problemas físicos. Foi surrado por um cavaleiro em sua infância e com isso têm problemas para se locomover, ficando corcunda, manco e com problemas nas mãos, mas, não o impediram de fazer valer o seu maior dom: a Harpa. A bela voz também o acompanhava, Kevin era o melhor harpista de todo o reino de Cammalot e empunhava a sua amada (a sua harpa) de uma forma peculiar, pois não tinha forças para erguê-la e por isso abaixava-se junto ao instrumento como que reverenciando-o por todos os belos sons que ele emitia. Kevin era calmo e muito lúcido e por vezes se mostrou até pouco radical quanto à sua religião para não ferir os propósitos maiores que era manter a religião pagã viva e não torná-la a mais importante da Bretanha. Nesse período, os antigos já tinham a certeza de que a sua religião não era mais a dominante na região, mas que apenas continuaria viva e deveria se respeitada assim como a católica. O papel do Merlim na trama a partir daí não era o de fazer magia e feitiços, mas, sim de mostrar ao seu povo que ele continuava junto ao rei e com isso assegurar a paz entre o reino e os povos antigos, tornando-os aliados incontestáveis.

LANCELOT



Lancelot era filho de Viviane, o melhor guerreiro da Távola Redonda e o Mestre de Armas de Arthur. Lancelot mantinha vínculos com Avalon e sempre que podia visitava sua mãe, porém ele não seguia nenhuma das duas religiões da época (Católica e Wicca). Lancelot não era um homem ligado aos cultos religiosos, embora pertencesse à linhagem real e tivesse a visão. Ele era apaixonado por Guinevere, antes mesmo desta se tornar rainha. A sua vida sempre foi regada por vitórias em batalhas e campeonatos, Lancelot era o mais valioso guerreiro do rei e o mais hábil domador de cavalos selvagens. Casou-se tarde, com a filha do rei Pelinore e, com isso, se afastou um pouco do reino de Cammalot e da rainha Guinevere, com quem mantinha encontros furtivos e a quem realmente pertencia o seu coração. O seu romance com Guinevere foi descoberto pelos cavaleiros da Távola Redonda, e depois disso, ele foi expulso do reino de Arthur e nunca mais voltou. Lancelot morreu velho no reino de seu sogro, o Rei Pelinore.


MORGANA DAS FADAS



Morgana era a irmã mais velha de Arthur. Filha de Igraine e Gorlois da Cornualha. Ela foi criada em Avalon como uma sacerdotisa, segundo as ambições de Viviane, sua tia, Morgana seria a próxima Senhora de Avalon, pois tinha a linhagem real e era muito aplicada à Deusa e aos seus ensinamentos. Mas, depois da Cerimônia do Gamo-Rei, onde Morgana foi dada ao seu irmão Arthur em nome da deusa, ela se aborreceu com Viviane e abandonou Avalon. Morgana foi morar com Morgause (sua tia) e depois viveu na corte de seu irmão. Morgana também era apaixonada por Lancelot, mas este nunca a quis por ela ser sua prima e por ver em Morgana traços de sua mãe Viviane. Morgana armou o casamento de Lancelot, e, com isso, afastou-o de Guinevere se vingando de tudo que sofrera até então. Morgana teve um filho (Gwydion ou Mordred) com o rei Arthur, que depois de muito tempo voltou para Cammalot e se tornou o conselheiro de Arthur até virar o grande herdeiro do trono depois da morte do filho de Lancelot. Morgana foi expulsa de Cammalot depois de roubar a bainha mágica de Excalibur e jogá-la no lago sagrado. Morgana não concordava com a transformação de Cammalot num reino cristão e lutou com todas as suas forças para derrubar Arthur do poder. Ela fracassou em todas as tentativas dessa sua luta pessoal e perdeu com isso a amizade dos poucos que gostavam dela. Acolon, um consorte dela, morreu tentando derrubar o rei para Morgana, isso a deixou muito abalada e fez com que ela se exilasse em Avalon para a eternidade. Morgana morreu velha em Avalon que se perdeu para sempre nas brumas.


VIVIANE - A SENHORA DE AVALON



Viviane é uma das grandes personagens da trama. Ela é irmã mais velha de Igraine e Morgause. Viviane teve dois filhos, Lancelot e Balam. Lancelot se tornou o mestre de guerra de Arthur e Balam era um dos cavaleiros do Rei. É a tia de Morgana e Arthur. Viviane é a fiel representante da Deusa, a Sacerdotisa de Avalon. Ela ganhou muitas inimizades devido à sua devoção incondicional às suas crenças. A primeira a se revoltar quanto ao seu modo de agir foi Igraine, que teve de casar com Gorlois de acordo com a vontade da Deusa, e depois teve que se dar a Uther antes mesmo de se tornar viúva, para conceber Arthur. Viviane morreu pelas mãos do meio irmão (Balim) de seu filho. Ela esteve na comemoração de Pentecostes para requerer que Arthur continuasse fiel às suas promessas de respeito à religião dos povos antigos. Balim, Cavaleiro do Rei, aproveitou-se disso para matá-la em frente a toda corte e sofreu as punições devidas a uma desonra como essa. Balim foi morto por Lancelot em vingança a sua mãe, com o consentimento do Rei Arthur. Viviane foi enterrada em frente a um convento no memorial da Corte, a contragosto de Morgana que queria levar o corpo a Avalon para que ela recebesse as últimas saudações


UTHER PENDRAGON



Uther Pendragon foi o rei que substituiu Ambrósio. Uther era o capitão da guarda de Ambrósio, não sendo herdeiro por direito, visto que não era filho do rei. Com a morte de Ambrósio, Uther era o seu preferido, e por isso foi o escolhido. O novo rei foi leal ao seu povo e muito voltado para os combates, já que era um ótimo guerreiro. Ele se apaixonou por Igraine que até então era a esposa de Gorlois, Duque da Cornualha. Igraine também se apaixonou por ele e Merlim os ajudou a ter uma noite de amor enquanto Igraine ainda era casada. Uther usou as roupas de Gorlois e com um encanto todos acharam que este realmente era o Duque e entrou no quarto de Igraine para passar a noite com ela. Desta noite surgiu Arthur, o Grande Rei. Depois disso Gorlois foi morto pelos homens do Rei e Uther pode se casar com Igraine. Pendragon era um título dado ao mestre das armas. O Pendragon era o melhor guerreiro, o mais respeitado e o chefe de guerra.

IGRAINE



Igraine era filha da Grande Sacerdotisa, irmã de Viviane (a Senhora do Lago) e de Morgause. Ela foi treinada para ser sacerdotisa em Avalon assim como sua irmã mais velha, mas Viviane a entregou para Gorlois e este a fez sua esposa. Ela teve uma filha de Gorlois (Morgana), e depois teve um filho de Uther (Arthur). Igraine, enquanto esposa de Gorlois ficou muito longe de sua fé e renunciou a visão (mais por raiva de ter sido casada contra a sua vontade do que por causa do afastamento de Avalon), e foi muito infeliz com este casamento. Depois, com Uther, o homem que amava, foi feliz e deu um herdeiro a ele. Teve ótimos dias em Tintagel, mas sempre teve muita tristeza por não ter conseguido dar um filho que fosse legitimado o príncipe herdeiro, visto que Arthur nasceu antes de Uther e Igraine constituírem matrimônio, e não poderia ser proclamado herdeiro com o consentimento do povo e de seus aliados. Com a morte de Uther, Igraine foi viver num convento (ela já tinha, nessa época se entregado ao cristianismo), só saindo de lá na ocasião do casamento de seu filho Arthur. Igraine morreu no convento, tendo ao lado somente Guinevere (a rainha) e clamando por Morgana.


O AMOR PROIBIDO ENTRE LANCELOT E GUENEVERE


Guinevere (Gwenwyfar ou Gwen) e Lancelot são duas personagens muito importantes em toda essa lenda de Cammalot. De um lado, a grande rainha e mulher de Arthur, o mais justo dos reis, e, do outro lado, o grande herói, o melhor cavaleiro, o chefe da cavalaria real: Sir Lancelot. Esse amor nasceu de uma visita de Lancelot ao reino do pai de Guinevere para cogitar se a herdeira daquele reino era digna de se sentar ao lado do grande rei da Bretanha, Arthur. Os dois se olharam e trocaram sorrisos, e a partir daí nasceu o amor tão comentado e polêmico que decreta a ruína de Cammalot. Depois de muitos anos, Lancelot se casa e some de vez do reino de Arthur, mas, com o retorno do grande cavaleiro à Cammalot, Gwen e Lancelot voltam a se encontrar e, guiados por Mordred, os Cavaleiros da Távola Redonda armam uma emboscada a fim de desmascarar toda essa traição ao seu grande Rei. Lancelot é descoberto, e numa luta contra os cavaleiros acaba fugindo, mas antes mata Gareth, o filho de Morgause e o seu maior fã. Arthur descobre, manda Gwen para um convento e decreta a expulsão de Lancelot de seu reino. Existe outra versão que diz que Arthur condenou Gwen à fogueira e Lancelot veio em seu auxílio e a livrou da morte lutando com muitos soldados do Rei e decretando guerra a Arthur. Por fim, Gwen acaba voltando para Cammalot depois de um pedido de perdão de Lancelot e a sua promessa de nunca mais voltar ao reino de Arthur enquanto os dois viverem.


O FILHO DE MORGANA

Mordred (ou Gwidion) era o filho de Morgana e Arthur, nascido da Cerimônia do Gamo Rei. Mordred foi criado em segredo longe dos olhos de Arthur por Morgause e aprendeu as artes da guerra em território saxão (os saxões eram inimigos do povo de Arthur, os bretões). Mordred voltou e se apresentou ao rei como filho de Morgana e foi feito cavaleiro da Távola Redonda por Lancelot, depois de desafiá-lo publicamente em uma festa de Pentecostes. Mordred também foi treinado para ser um Merlim da Bretanha em Avalon, e era como sacerdote que ele negara toda a religião cristã e se tornara o conselheiro de Arthur (que sabia que Mordred era seu filho). Mordred se tornou herdeiro do reino depois da morte de Galahad (filho de Lancelot) na busca do Santo Graal. Contudo, Mordred nunca assumiu esse trono. Ele morreu antes disso numa batalha, depois de comandar a derrocada do reino de Arthur revelando a todos o romance de Gwen e Lancelot. Mordred tinha raiva de seus pais por o terem abandonado e queria muito se vingar do rei por questões pessoais e pela traição á Avalon. Existe uma versão que diz que Arthur e Mordred morreram lutando um contra o outro, e fala-se também que Lancelot matou Mordred e depois morreu guerreando contra Arthur. Todas essas versões enriquecem essa história maravilhosa!

A TÁVOLA REDONDA



A Távola Redonda nada mais era do que uma mesa redonda que Arthur ganhou do pai de Guinevere em seu casamento (Aliás, Arthur se casou com Guinevere por causa de um dote de 100 cavalos de guerra pesados e 100 soldados cavaleiros). Após isso, com a criação de Cammalot, Arthur mandou construir um salão enorme para colocar essa mesa, de modo que todos os cavaleiros pudessem se reunir, não havendo lugares mais importantes entre eles, visto que, na mesa não havia quebras e por isso simbolicamente todos os presentes eram iguais. Os "Cavaleiros da Távola Redonda" eram todos os homens que eram feitos cavaleiros por Arthur ou aqueles formados fora do reino e que tenham sido absorvidos por Arthur como sendo de confiança (Lancelot, Gawaine e outros). A história fala de 12 cavaleiros, mas isso não deve ser uma regra.


A CRIAÇÃO DE CAMMALOT



Cammalot era o reino do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Ele foi criado depois que Arthur conseguiu expulsar os saxões de sua terra, ganhando com isso a aliança dos inimigos. Antes, Arthur morava no Castelo de Tintagel, onde era á base de seu reino. O local era em cima de uma montanha, rodeado por um lago e muito fortificado visto que a altura facilitava a visão da guarda. Foi ali que Arthur conseguiu a felicidade e a calmaria.

Supõe-se que o nome Cammalot ou Camelot, referindo-se à suposta capital de Arthur, tenha sido dado pela primeira vez, no século XII, pelo romancista francês Chrétien de Troyes. Não há nenhuma garantia histórica sobre a existência desse local e essa ideia só entra na história depois que o general Arthur se transformou mitologicamente na figura do rei.
Acredita-se que Cammalot seja uma corruptela francesa para Camalodunum, nome romano de Colchester. Em 1542, um antiquário chamado John Leland visitou a colina de Cadbury, em Somerset, onde os habitantes chamavam de Palácio de Arthur, e ficou realmente convencido de que lá ficava a Camelot de Arthur, o que levou a chamá-la de Camelot e interpretar erroneamente o nome da vila vizinha de Queen's Camel, dizendo que originalmente poderia ter-se chamado Queen's Camellat.
Cadbury, próxima a Glastonbury, é um monte de 75 metros de altura cujo topo se estende por 8 hectares. O monte é cercado por quatro elevações, uma acima da outra, remanescentes de antigas obras de defesa. Em 1960, provou-se que o local foi habitado entre 500 e 400 a.C.; que os romanos a encontraram ocupada, massacraram alguns de seus habitantes e removeram o restante para o nível do solo; e que mais tarde desmantelaram o forte e aplainaram o topo da colina. Outro estágio das escavações arqueológicas revelou que a colina havia sido refortificada em 470 d.C., fato provado pela presença, nos muros e pilares, de fragmentos de cerâmica do estilo Tintagel do século V.
Os locais foram sugeridos para a capital de Arthur, como Caerlon-on-Usk, no País de Gales, mostrado nos textos de Godofredo de Monmouth. O patrono de Willian Caxton, que editou a versão de Malory da lenda de Arthur, afirmava que existia uma cidade de Camelot, no País de Gales, que parecem ser os remanescentes romanos de Caerleon. Já Malory identificava Camelot como sendo a atual Winchester. No entanto, parece que as maiores evidências são para a Colina de Cadbury como a fortaleza de Arthur, já que esta servia perfeitamente como quartel-general para alguém que estivesse lutando no sudoeste da Inglaterra, em uma batalha travada no perímetro da planície de Salisbury.

AVALON - O TÚMULO DE ARTHUR



Avalon, chamada de Avilion por Malory, surgiu pela primeira vez na história de Arthur através de Godofredo de Monmouth. Godofredo juntou uma miscelânea de tradições com relação à sobrevivência de Arthur e ao lugar de refúgio: tanto para britânicos, bretões ou galeses, o lugar é sempre um paraíso cercado de água, localizado na região costeira, que se chamava Avalon. E disse: "O renomado rei Arthur, gravemente ferido, foi levado para a ilha de Avalon, para a cura de suas feridas, onde entregou a coroa da Bretanha a seu parente Constantino, filho de Cador, duque da Cornualha, no ano de 542 do Nosso Senhor".
 

Mais tarde, no livro “Life of Merlin”, Godofredo descreve o lugar como uma ilha fantástica, habitado por nove damas, uma das quais a sua irmã, a fada Morgana.

Grande é a associação de Glastonbury com Avalon. A grande abadia de Glastonbury foi fundada no século V. Ao seu lado havia uma pequena igreja, muito antiga, de paredes de taipa, que se dizia ser o primeiro santuário construído na Bretanha, e, assim, associado a José de Arimatéia, que teria trazido o Santo Graal para a Bretanha. Em 1184, um incêndio destruiu a pequena igreja, bem como a maioria dos prédios da abadia. Um programa de reconstrução foi então iniciado por Henrique II, mas, como demandava somas intensas, era necessária alguma coisa para atrair peregrinos com suas bolsas. Giraldus Cambrensis, um galês de ascendência parcialmente normanda, produziu então, entre 1193 e 1199, uma obra intitulada “De Principis Instructione”, na qual registra que Arthur teria sido um benfeitor da abadia e que teria sido na verdade enterrado nela, já que seu corpo fora encontrado em 1190. Jazia entre duas pirâmides de pedra que marcavam os locais de outros túmulos, a 5 metros de profundidade, envolvido em um tronco de árvore oco. Do lado de baixo do tronco que servia de caixão, havia uma pedra e abaixo dela uma cruz de chumbo na qual estavam gravadas as seguintes palavras em latim:

"Aqui jaz enterrado o renomado rei Arthur com Guinevere, sua segunda esposa, na ilha de Avalon".

Dois terços do caixão eram ocupados por um homem de tamanho incomum e o restante por ossos de uma mulher, juntamente com uma trança de cabelos loiros que virou pó ao ser tocado por um monge. A tal descoberta teve o sucesso que interessava e Glastonbury tornou-se uma atração turística.
Godofredo de Monmouth dissera que Arthur fora levado embora, mortalmente ferido, para a ilha de Avalon. A partir do momento que os ossos de Arthur teria sido encontrados em Glastonbury, junto com a cruz funerária que dizia que ele teria sido enterrado em Avalon, Glastonbury tornou-se sempre Avalon. Guilherme de Malmesbury, em sua “Gesta Regum Anglorum” (Gesta do Rei dos Anglos), de 1125, apenas menciona o fato de os britânicos chamarem Glastonbury de Inis Witrin, a Ilha de Vidro. Caradoc de Lancafarn, em sua “Life of Gildas”, de 1136, repetiu que os britânicos a chamavam de Ynis Gutrin, Ilha de Vidro. Giraldus Cambrensis e Ralph, abade de Coggeshall, em sua “Chronicon Anglicanum” (Crônica Anglicana), foram os dois primeiros escritores a dizer que Glastonbury era Avalon.

OS ANAIS DA PÁSCOA

A história do Rei Arthur e seus cavaleiros é realmente apaixonante, tanto que no século XII ainda havia derramamento de sangue de bretões e ingleses, sendo que os primeiros lutavam em nome de Arthur. O mais empolgante é descobrir que Arthur realmente existiu. Como a Páscoa é uma festa móvel, era necessário fazer cálculos para saber quando cairiam as próximas festas, nos anos seguintes. Essas tabelas de cálculos, existentes em várias abadias, eram chamadas de Tabelas da Páscoa. Eram organizadas em colunas, sendo que a coluna da mão direita era deixada em branco. Nela eram anotados os eventos de importância relevante. Os itens desta coluna eram chamados de Anais de Páscoa.
É comumente aceito que a data do manuscrito que continha os anais é consideravelmente mais velha que os eventos anotados nela; mas os especialistas concordam que, quando novas tabelas de cálculo eram feitas, os principais eventos das tabelas anteriores eram transcritos para as mais novas.
No Museu Britânico há um maço de documentos conhecidos como “Historical Miscellany” O Merlim era um título e não um homem, é bom que isso fique muito bem claro. (Coletânea histórica) que contém um conjunto de tabelas de Páscoa.


Em suas colunas de anais ocorrem dois registros: o primeiro tem sua data discutida, já que o copista teria datado os registros a partir do ano em que se iniciaram os anais, que pode ser 499 ou 518 d.C. Está escrito:


"Batalha de Badon, na qual Arthur carregou nos ombros a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por três dias e três noites, e os bretões foram vitoriosos".

No segundo registro de 539, lê-se:

"Batalha de Camlann, na qual Arthur e Modred morreram. E houve pragas na Bretanha e Irlanda".

O argumento que mais demonstra se tratar de uma evidência histórica é que também Gildas mencionou a Batalha do Monte Badon, cuja ocorrência registrou a mesma data do seu nascimento, descrevendo-a como "a última matança do inimigo, depois do que, durante toda a sua vida, teria sido refreado o avanço saxônico no sudeste e no sudoeste". Além disso, em uma conhecida história marcada por ausência de nomes próprios, Gildas, apesar de não falar no nome de Arthur, cita o nome da batalha, atribuindo-lhe importância singular.
Os anais dizem que Arthur lutou por três dias e três noites, o que é verossímil, pois Gildas chamou essa batalha de cerco obsessivo Badonici. O fato de Arthur ter carregado a cruz nos ombros explica-se pela possível troca de palavras shield (escudo) por shoulder (ombros). A localização da colina chamada Badon é controvertida, mas supõe-se que deva estar localizada além de Kent e Essex, na rota do avanço saxônico.
É a partir desta batalha que a penetração anglo-saxônica proveniente do sudeste se interrompe, quando já tinha atingido as fronteiras da planície de Salisbury, em Berkshire e Hampshire, reiniciando somente meio século mais tarde. Não é sabido se Arthur e seus guerreiros atingiram o topo ou se foram os sitiantes; de qualquer modo o resultado foi o massacre dos saxões. Essa referência e aquela em que tanto Arthur como Modred morrem na Batalha de Camlann foram os profundos alicerces com os quais se ergueu a elevada e bem estruturada fama de Arthur.

A HISTÓRIA BRITTONUM


Em segundo lugar, em importância como documento histórico, é a coleção do monge galês Nênio, da metade do século VIII, onde, segundo ele, agrupou tudo aquilo que havia encontrado nos anais romanos, os escritos dos santos padres e a tradição dos sábios. Esta coleção faz parte da “Historical Miscellanny” e é conhecida como “Historia Brittonum” (História dos Bretões).

Relata a carreira de Vortigern e o estímulo dado aos saxões. Nênio conta a história da descoberta, feita por Vortigern, de um menino clarividente, chamado Ambrosius, cuja mãe confessa ter sido ele gerado por um íncubo. Esse menino diz que o castelo que Vortigern se esforça tanto para construir não ficará em pé e avisa-lhe para drenar o poço que ele encontrará debaixo de suas fundações. Assim que for esvaziado, nele se descobrirão dois dragões: um vermelho e outro branco, que lutarão entre si. O branco vence o vermelho e o menino diz que a luta prediz a vitória saxônica sobre os bretões.
Depois dessa fábula vem uma passagem que, apesar de ter sido escrito muito tempo depois, será tão preciosa quanto os registros dos Anais da Páscoa. Inicia indicando uma data:

"Depois da morte de Hengist, seu filho Octha, proveniente do norte da Bretanha, fixa-se em Kent, de onde inicia a dinastia dos reis de Kent".

A ascensão de Octha, sob o nome de Aesc, ocorreu em 488, de acordo com a Crônica Anglo-Saxônica. Nênio continua:

"Então, naqueles dias, Arthur lutou contra eles junto com os reis bretões, tendo sido o líder das batalhas".

Isto mostra que, após a retirada dos romanos, muitos reis, soberanos de pequenos reinos britânicos, uniram-se contra os saxões, sendo Arthur comandante geral das tropas combinadas. Não foi somente Nênio que afirmou que Arthur não foi um rei propriamente dito; em outro capítulo do livro “The Marvels of Britain” (As maravilhas da Bretanha), ele o chama de um simples soldado, ou miles; Nênio fala ainda de Cabal, o cachorro, e do túmulo de Anwr, filho de Arthur, o soldado.
A próxima passagem é rápida e misteriosa; é uma lista das doze batalhas onde Arthur lutou, das quais apenas duas são passíveis de identificação. Nênio diz que a primeira batalha ocorreu no rio Glen, que pode ser tanto em Northumberland como em Lincolnshire. A segunda, a terceira, a quarta e a quinta batalhas aconteceram no rio Dubglas, in regio Linnus, o que pode significar Lindsey, em Lincolnshire. A sexta foi em Bassas, nome que não foi traduzido. A sétima foi a Batalha de Caledonian Wood, que se acredita ser uma floresta em Strathclyde. A oitava foi na Tor Guinnion, lugar que não foi identificado geograficamente, mas é assinalado pela narração de que ali Arthur teria carregado nos ombros a imagem da Virgem Maria, por cuja virtude e pela de Jesus Cristo, os pagãos teriam sidos expulsos. A nona ocorreu na cidade de Legion, nome romano de Chester. A décima foi na praia de Tribuit; a décima primeira, na montanha de Agned; e a décima segunda no monte Badon, e foi aí que Nênio disse que tinham caído novecentos e sessenta em um violento ataque desfechado por Arthur. Apesar de não ser possível delinear com exatidão onde ocorreram, parece que as batalhas ocorreram em uma área ampla, que ia de Strathclyde, no noroeste oriental, talvez até Northumberland ou, mais para o sul, até Lincolnshire; de Chester no oeste até algum lugar no sudoeste, onde o combate do monte Badon culminaria com uma vitória definitiva, estabelecendo, por fim, cinquenta anos de paz.