segunda-feira, 14 de março de 2011

O HUMANISMO E A PROSA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES


1. INTRODUÇÃO:


O antropocentrismo – o predomínio do humano sobre o transcendente – era o eixo dessa nova filosofia, que seria posteriormente conhecida sob o nome de Humanismo. A palavra deriva da expressão latina “studia humanitatis”, que se referia ao aprendizado, nas universidades, de poética, retórica, história, ética e filosofia, entre outras disciplinas. Elas eram conhecidas como artes liberais, porque se acreditava que dariam ao ser humano instrumentos para exercer sua liberdade pessoal.


Num sentido específico, tem ainda o seguinte sentido: para o pensador romano Cícero, “humanitas” significa “cultivo da mente”, certo tipo de educação ampla necessária à atuação adequada na vida social; para os gregos, a palavra “paidéia” designava o mesmo tipo de educação; essa educação deveria permitir às pessoas a exploração de todo a trajetória do conhecimento humano, incluindo as ciências e a Matemática, a fim de desenvolver todo seu potencial.


O homem é a medida de todas as coisas”, frase de autoria do filósofo grego Protágoras que sintetiza o Humanismo.


A fonte original de todo Humanismo foi o estado de espírito que grou o Renascimento e, num primeiro momento, entende-se como uma retomada do estudo dos autores antigos de uma maneira numérica e qualitativamente mais intensa do que se fazia durante a Idade Média.

A época era de redescoberta e reinterpretação das obras dos pensadores da Antiguidade a partir de seu próprio contexto histórico.
O interesse por esse período da história resultou o Humanismo europeu do século XIV, que consistiu basicamente na afirmação da dignidade e dos valores humanos, desdobrando-se historicamente no Iluminismo do século XVIII, até chegar aos nossos dias, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Deve-se lembrar que no momento em que aflora o movimento humanista a Europa se encontra por um lado, dominada pela ideologia da Igreja Católica, o Teocentrismo, a serviço da dominação das massas e da manutenção do poder das autoridades religiosas que, normalmente, acumulavam os poderes espiritual e temporal, e por outro, a revitalização das cidades, a formação de redes de comércio entre centros distantes, a consolidação de uma classe mercantil muito abastada, a criação de bancos e a centralização do poder político em torno de cidades ou de reinos.
A principal arma de combate dos humanistas contra o Teocentrismo e seus dogmas foi á faculdade humana da razão, exercida por meio da observação do mundo pelos filósofos. O uso da razão tinha por fim promover o desenvolvimento das capacidades humanas, abrindo novas possibilidades para a humanidade como um tal. Tal concepção de pensamento chamava-se Antropocentrismo. Essa nova perspectiva de ver o universo e a natureza fez com que o homem tentasse explicá-los através da ciência. Desse modo, essa nova atitude implicou o nascimento da ciência moderna e da Matemática nos trabalhos de Giordano Bruno, Leonardo da Vinci, Galileu e Nicolau Copérnico, entre outros.


2. CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

O humanismo é, dentro do revolucionário mosaico renascentista, um nostálgico e sentimental retorno à cultura e às letras clássicas.


Ambrogio Lorenzetti (c. 1290 - c. 1348). A Vida na Cidade. Os Efeitos do Bom Governo (c. 1337-1340). Afresco (detalhe). Siena, Palazzo Pubblico, Sala dei Nove.


O Humanismo surgiu inicialmente nas cidades prósperas da Itália, aonde vieram se alojar, sob a proteção dos mecenas, sábios foragidos da sede do Império Romano do Oriente, Constantinopla, antiga Bizâncio. Tais sábios traziam consigo as obras dos autores antigos, gregos e latinos. Esses autores, pouco lidos durante a Idade Média, começaram a ser novamente divulgados no Ocidente e o interesse por suas obras é que constituirá o Humanismo, movimento preparador do Renascimento.
O Humanismo português vai desde a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, em 1434, até o retorno de Sá de Miranda da Itália, em 1527, quando começou a introduzir em Portugal a nova estética clássica.
Torre do Tombo: arquivo do Reino, onde se guardavam os documentos oficiais. A Torre do Tombo foi destruída por um terremoto em 1755, mas o arquivo conservou sempre o mesmo nome.
Situada no Campo Grande, na Cidade Universitária, na zona norte da cosmopolita capital de Portugal, Lisboa, a Torre do Tombo é a designação do arquivo central do País, desde os remotos tempos da Idade Média.
Anteriormente, o arquivo central situava-se na Torre do Tombo do Castelo de São Jorge (de 1378 a 1755), ficando desde aí a sua designação.


Estando em perigo no grande terramoto de 1755, mudou-se o seu importante conteúdo para o Palácio de São Bento onde se manteve até à construção do edifício atual em 1990, pertencendo agora à tutela do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IANTT).


O projeto do atual edifício foi assinado por Arsénio Cordeiro e António Barreiros, ocupando uma área de 54.900 metros quadrados, contando com uma área de arquivo e investigação, outra para a realização das mais variadas atividades culturais e outra para os necessários serviços administrativos.


3. PROSA HISTORIOGRÁFICA DE FERNÃO LOPES:

"Fernão Lopes é a perfeição do estilo simples,
direto e nervoso na prosa portuguesa....".

William J. Entwistle.


3.1. DADOS CRONOLÓGICOS:

A compreensão das mudanças políticas e das decorrentes transformações sociais no cenário português nos fins do século XIV torna-se uma tarefa mais fácil e agradável, graças à possibilidade de utilização da obra de Fernão Lopes. Não é de impressionar o grande número de historiadores que se serviram e se servem dos relatos deste cronista: Fernão Lopes é o maior responsável pelas fontes históricas da nação portuguesa.
Abolindo a barreira do tempo, faz ressurgir o passado, permitindo aos leitores viver com ele acontecimentos que alteraram profundamente a sociedade portuguesa.
Um "homem de comunal ciência", Fernão Lopes foi apelidado de "pai" da História Portuguesa. E, de fato, este cronista/historiador teve uma importância fulcral para a História e Cultura de Portugal.
Fernão Lopes deu-nos a conhecer uma nova concepção da História, marcada, sobretudo, pela imparcialidade que se esforça por manter.
As suas crônicas transbordam de visualidade, realismo descritivo e dramatização, que a par de uma simplicidade linguística a todos atrai. Embora a sua obra não seja extensa a Crônica de D. João I é considerada uma obra-prima.


3.2. TRAÇOS BIOGRÁFICOS:


Fernão Lopes deve ter nascido entre 1378 e 1390, aproximadamente, visto que em 1418 já ocupava funções públicas de responsabilidade. Pertencia, portanto à geração seguinte à que se bateu no cerco de Lisboa e na batalha de Aljubarrota. A guerra com Castela acabou em 1411, pelo que Fernão Lopes pode ainda acompanhar a sua fase, e conhecer pessoalmente alguns dos seus protagonistas, como: D. João I, Nuno Álvares Pereira, os cidadãos de Lisboa que enfrentaram D. Leonor Teles e elegeram o Mestre de Avis seu defensor em comício popular, alguns dos procuradores às Cortes de Coimbra de 1385 que, apoiando o Dr. João das Regras declararam o trono vago e, chamando a si a soberania, elegeram um novo rei e fundaram uma nova dinastia.
Profissionalmente, Fernão Lopes era um tabelião, provavelmente de origem humilde, viloa, mesteiral, porque contava um sapateiro na família de sua mulher. Foi empregado da família real e da corte, escrivão de D. Duarte, ainda infante, do rei D. João I, e do infante D. Fernando, em cuja casa ocupou o importante posto de «escrivão da puridade».
Foi um dos últimos representantes do saber popular, pois já no seu tempo a imitação aos clássicos começava aflorar. Do ponto de vista da forma, o seu estilo representa uma literatura de expressão oral e de raiz popular. Ele próprio diz que nas suas páginas “não se encontra a formosura das palavras, mas a nudez da verdade”. Era um autodidata e considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade.
A partir de 1418 aparece a desempenhar as funções de guarda-mor da Torre do Tombo, ou seja, de chefe dos arquivos do Estado, lugar de confiança da corte.
Como burocrata ao serviço do Rei e da Corte, ele se apresentava como "...guardador das escrituras do Tombo, isto é, responsável pela conservação do Arquivo Geral do Reino, que, desde o Reinado de D. Fernando, ocupava uma Torre do Castelo de Lisboa" (FERREIRA:09).
Como prêmio dos seus serviços recebeu o título de «vassalo de El-rei», carta de nobreza atribuída então com certa liberalidade a membros das classes não nobres.
E foi em 1434 que Fernão Lopes recebeu o encargo de D. Duarte de "pôr em crônicas as histórias dos reis que antigamente foram em Portugal e os feitos de D. João I" (COELHO:199). Assim, vemos que a crônica maior deste escritor foi concebida 60 anos após os acontecimentos de 1383-1385.
Durante este longo período de atividade, Fernão Lopes atravessou os reinados de D. João I, D. Duarte, o governo de D. Pedro, e parte do reinado de D. Afonso V. Conheceu muitas alterações políticas e sociais. Ao rei eleito e popular, D. João I, viu suceder um rei mais dominado pela aristocracia, D. Duarte; viu crescer o poder feudal dos filhos de D. João I, e com ele o predomínio da nobreza, que saíra gravemente abalada da crise da independência. Assistiu à guerra civil subsequente à morte de D. Duarte, à insurreição de Lisboa contra a rainha viúva D. Leonor, e à eleição do infante D. Pedro por esta cidade, e em seguida pelas cortes, para o cargo de Defensor e Regedor do Reino, em circunstâncias muito parecidas com as que tinham levado o mestre de Avis ao mesmo cargo e seguidamente ao trono.
Assistiu depois à reação da partida da nobreza, à queda do infante D. Pedro, à sua morte na sangrenta batalha de Alfarrobeira, à perseguição e dispersão dos seus partidários, ao triunfo definitivo da nobreza, no reinado. Foi testemunha do início da expansão ultramarina e teve a sua quota parte no desastre militar de Tânger, por causa da morte de seu filho médico do infante D. Fernando que veio a morrer em cativeiro, em Marrocos. Fernão Lopes viveu uma das épocas mais perturbadas da história de Portugal, cheia de ensinamentos para o historiador.
A carreira de Fernão Lopes como historiador é provavelmente mais longa do que se supõe, pois é provável que já em 1419 realizasse por encargo do então infante D. Duarte a compilação e redação de uma Crônica geral do reino de Portugal ou Crônica dos sete primeiro reis de Portugal, manuscritos que só foram descobertos em 1942 e 1945.
A última obra em que Fernão Lopes trabalhou foi a “Crônica de D. João I” que, ficou incompleta e foi continuada por Zurara.
Aos nossos dias chegaram três obras cuja autoria é incontestavelmente sua: a Crônica de D. Pedro, a Crônica de D. Fernando e a Crônica de D. João I (primeira e segunda partes).
Em 1454 foi reformado do cargo de guarda-mor da Torre do Tombo devido à sua idade. Ainda vivia em 1459.

3.3. CARACTERÍSTICAS DAS CRÔNICAS DE FERNÃO LOPES:

O que se entendia por crônica à época do Humanismo foge da caracterização dos dias atuais. Crônica, atualmente, é o gênero literário cujas características são a brevidade (trata-se de um texto curto) e o caráter prosaico (normalmente sobre um tema extraído da vida cotidiana), surgido no século XIX, com o aparecimento do jornal, no qual até hoje a crônica é frequentemente veiculada.
A crônica é considerada um gênero de tanta grandeza artística quanto o romance ou o conto.
No entanto, para os humanistas, a crônica compreendia um gênero que se pode considerar o ancestral imediato da historiografia moderna. Obedecendo ao sentido etimológico da palavra: crônica advém do grego “cronos” igual a tempo, os homens do século XIV chamavam de crônica os textos que relatavam o transcorrer das dinastias, isto é, a sucessão no tempo dos nobres pertencentes a uma mesma família, nos “Livros de Linhagem” ou “Cronicões”. A crônica medieval, assim, era o relato dos feitos dos príncipes, entendidos como os autores da história. Essa concepção do desenvolvimento da história chama de concepção regiocêntrica.
A inovação no gênero da crônica que faz de Fernão Lopes, o “pai da moderna historiografia portuguesa é o fato de ele introduzir como agente histórico em seus escritos a figura do homem do povo, “a raia miúda”, além de praticar a escritura do gênero de forma literária e histórica e com qualidades artísticas antes nunca vistas.
Do ponto de vista histórico sua “modernidade” está na valorização dada ao estudo detalhado dos documentos escritos da Torre do Tombo, em vez de valorizar o relato oral, como era hábito em seu tempo.
O documento escrito é para ele a base fundamental para pintar os retratos de reis e fidalgos, passagens dramáticas da vida da nação e enredos com tal dinamismo, que possibilita ler algumas passagens de seus textos com o interesse de um romance. Na procura da verdade dos fatos examinará minuciosamente as fontes que consulta, fará a comparação de diferentes versões dos fatos, saberá ler com a desconfiança crítica necessária ao historiador, realizando, enfim, seus textos com um rigor que antecipa métodos da historiografia tal como praticada na atualidade.
Segundo Luís de Souza Rebelo, o ofício da cronistica é "...sempre um discurso de outros discursos, que se fazem e refazem numa interminável urdidura de textos recebidos e renovados...". (REBELO, 1986:16) Isto mostra que á concepção dos relatos seguem um processo de investigação de documentos e testemunhos, que, ao unirem-se ao fio condutor do escritor, tornam-se, por fim, a história relatada de maneira fiel ao ocorrido.
É neste método de trabalho que António Borges Coelho insere as crônicas de Fernão Lopes:"...(ele) construiu fatos, isto é, descreveu, narrou, criou descrições dos acontecimentos servindo-se quer de testemunhos orais ou escritos em primeira ou segunda mão, quer de documentos de onde extraiu, construiu narrações de acontecimentos" (COELHO:46).

3. 4. CRÔNICA DE D. JOÃO I:


No prólogo da “Crônica de D. João I”, afirma Fernão Lopes:


“Nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mistura, deixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao povo, quaisquer contrárias cousas, da guisa que avieram.”

Mais adiante, volta a afirma:

“Se outros por ventura em esta crônica buscam fremosura e novidade de palavras, e não a certidão das estórias desprazer-lhes-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles de ouvir, e não sem grão trabalho a nós de ordenar. Mas nós, não curando de seu juízo, deixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitam àqueles que ouvem, antepomos a simples verdade, que a afremosentada falsidade. Nem entendais que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada, e por escrituras vertidas de fé; doutra guisa, antes nos calaríamos, que escrever cousas falsas.”

É interessante ressaltar a importância dada pelos diversos autores à crônica de D. João I, em detrimento das crônicas de D. Pedro e D. Fernando.
Pode-se encontrar uma justificativa para este fato se traçar a relação entre a Revolução de 1383 em Portugal e a subida de D. João I ao poder, como rei, em 1385. Em vários momentos, os historiadores tentaram ver Fernão Lopes como um defensor da legitimidade do poder real, ou seja, tendo escrito sua obra com o intuito de justificar o poder concedido a D. João, Mestre de Avis. Esta tentativa de justificação ou não do poder real é um ponto de partida para examinar a obra de Fernão Lopes com os olhos na história de Portugal.
As possibilidades de análise histórica no quadro dos acontecimentos de 1383 são propostas pela leitura das crônicas, e tornam-se vastas na medida em que, enxerga-se o conflito dinástico como um elemento de perturbação da ordem social da época.
Outra maneira de analisar a relevância dos relatos de Fernão Lopes é lançar luz à discussão sobre o verdadeiro caráter da Revolução de 1383.
Este caráter que poderia ter obedecido aos interesses da camada burguesa, que, segundo António Borges Coelho, era a dona do capital, bem como proprietária de casas, terras e navios. Senão, poderia ter obedecido aos interesses da "a raia miúda", que vendiam a sua "força de trabalho aos proprietários de terras e rendeiros protocapitalistas...os braceiros, pastores, mancebos, homens de soldada..." (COELHO, 218).
O que procura nesta questão da definição do caráter é justamente saber para qual grupo social a Revolução de 1383 foi mais vantajosa. E, partindo deste ponto, medir as possibilidades de se reconhecer Fernão Lopes como um cronista do povo ou então identificado com o núcleo burguês dirigente da sociedade, escrevendo, deste modo, seguindo os interesses desta camada.

D. Pedro I


D. Fernando


D. João I


FERNÃO LOPES E A REVOLUÇÃO DE 1383


Segundo António Borges Coelho, em "A análise da concepção de poder", desenvolvida no livro (de Luis de Souza Rebelo), "pareceu-me obedecer à ideia subjacente de que o fim das crônicas, sua causa final, seria justificar a legitimidade do monarca ex-Mestre de Avis...(e que) Fernão Lopes...defenderia moral e politicamente a legitimidade da via eletiva do poder" (COELHO:40). Realmente, na obra do autor citado encontramos toda uma trama que, ao ser tecida, firma-se na organização da exposição de Lopes, tendo como base a ideia de justificação. Nas próprias palavras de Rebelo, ele diz que "(da legitimação)...vem o relevo muito especial que se confere no discurso de Fernão Lopes do plano providencial, onde uma paulatina acumulação de sinais prodigiosos e um sábio uso dos recursos da retórica fazem do Mestre de Avis a figura indigitada como rei tanto por Deus como pelo povo" (REBELO:20). E, numa outra passagem, completamos o pensamento do autor, vendo que "...as manifestações de simpatia e apoio popular ao Mestre de Avis, as premunições e sinais de ordem sobrenatural, que o elegem como objeto, ganham a força da prova necessária à legitimação da personalidade carismática do Mestre..." (REBELO:36).

Mas tal atitude tomada por Fernão Lopes poderia, talvez, ser considerada como correta. Afinal, ao obedecer ao encargo de escrever sobre os feitos de D. João I, tantos anos após o seu reinado, é natural que o cronista organizasse uma linha óbvia de pensamento para mostrar a racional indicação e a consequente escolha do Mestre de Avis como rei. É este o discurso que Teresa Amado emprega, ao concordar com tais razões de justificativa, dizendo que "antes, pois, de mostrar como a história do reinado veio a comprovar o acerto da escolha, tratava-se de fazer ver que ela se impusera por razão e por justiça, vindo por isso a merecer a sanção da proteção divina. Creio que é esta a linha dominante da estratégia narrativa do cronista e um dos motivos que o levaram a dar tão grande destaque aos dezessete meses da crise da sucessão" (ABADO, 1991:31-32).
Pode-se considerar como justa a maneira de narrar de Fernão Lopes também pelo lado social, se pensarmos que, para o cronista, nenhuma falha ou ruptura na dinastia real seria proveitosa, já que ele era um burocrata do rei. Com seu encargo de cronista, Fernão Lopes nada mais fez do que mostrar os acontecimentos reais como fatos envolvidos numa áurea divina e, de certa maneira, piedosa para com a sociedade. Neste trecho, percebemos que a finalidade de seus relatos era simplesmente a de mostrar à população que ela tinha um bom rei e que este era hábil o suficiente para lidar com tão importante cargo: "...Fernão Lopes compraz-se na descrição das reações das massas populares, que, instintivamente patrióticas, ao defenderem a eleição do Mestre de Avis, lutavam por um rei português..." (FERREIRA:28).
Note-se que o cronista realmente tinha a necessidade de centrar sua narração neste aspecto de legitimidade, já que "Bastardo, clérigo, frei da Ordem de Avis, e, consequentemente, incapacitado pela natureza de seus votos religiosos para ascender ao trono, tomar o governo do reino e casar, D. João aparece na cena política como um pretendente sem grandes possibilidades de êxito" (REBELO:53). Assim, Fernão Lopes transfere para sua narrativa, seis décadas depois, os anseios sociais ocorridos na época em que D. Leonor, rainha regente, não possuía nenhuma base popular para governar, e o Mestre de Avis era chamado pelo povo para servir como Defensor do Reino. O cronista mostra-nos de que maneira os caminhos foram abertos para que D. João conquistasse a população portuguesa e, por fim, o poder real.

O CARÁTER DA REVOLUÇÃO DE 1383

Ó cidade de Lisboa, famosa entre as cidades, forte
esteio que sustém todo Portugal!



Entre todos os autores citados, reina o consenso de que Fernão Lopes era um cronista popular. Mas, certamente, ele não era só isto, pois ele também estava interessado em defender a classe burguesa dirigente com a qual se identificava. Afinal, os acontecimentos de 1383-1385 acabaram por atender aos privilégios (ou necessidades?) desta nova classe social, desta nova ordem que emergia com a certeza de que teria, algum dia, o poder em suas mãos.
É interessante o fato de Fernão Lopes ter tomado um partido e "escolhido um lado"; deste modo, ele aparece-nos não como um escritor interessado em relatar fatos e datas sem jamais compreendê-los ou analisá-los, somente jogando para a crônica tudo o que realmente aconteceu. Ocorre o oposto: este cronista parece ter personalidade própria, possuindo razões de sobra para escrever à sua maneira e deixando transparecer certa dose de orgulho pelo povo de Lisboa.

"Como todos os historiadores, como todos nós, Fernão Lopes não é inocente, toma partido, mas sem comprometer a verdade a esse partido. O seu partido é o da cidade de Lisboa, é o da arraia-miúda, o dos ventres ao sol, o do bom Portugal e, também, o de João, Mestre de Avis, chefe eleito, rei de boa memória dos revolucionários de Aljubarrota" (COELHO:201).

Na obra de Joel Serrão é exposta uma possibilidade de definição do caráter da Revolução de 1383, diversa da exibida por António Borges Coelho. Na visão do primeiro autor, os acontecimentos do ano citado foram realmente colocados em prática pela "arraia miúda", e a revolução teve um caráter social até o momento em que a burguesia entra em cena e utiliza-se do povo para ganhar a luta. Já Borges Coelho nos revela que a revolução de 1383 fora "...desencadeada, dirigida e aproveitada no essencial pela burguesia das cidades e vilas de Portugal" (COELHO:12).
É importante ressaltar que a situação de Portugal nos tempos anteriores à Revolução era de choques entre os extremos, choques estes representados, principalmente, pela grande crise rural e pelo desgosto do povo em relação à promoção de Leonor Teles ao cargo de rainha.

"Tal era pois a situação social no momento de rebentar a revolução de Lisboa: por uma banda, a classe média dos mais honrados a pretenderem obrigar os da classe inferior a servirem por salários opressivamente baixos, e desejando que o rei os impusesse à força; pela outra, uma verdadeira greve da classe operária...Vivia-se assim numa atmosfera de ódios".

Seguindo a ordem dos acontecimentos, vemos que D. João surge como "defensor do povo" ao assassinar o amante da rainha regente (D. Leonor), pois este último começara a inspirar em demasia a política por ela acatada:

"Os rumores do povo miúdo, esse povo miúdo que Fernão Lopes simbolizara, recrescem: murmura-se e conspira-se contra o conselheiro da rainha..." (SERRÃO:36).

O Mestre de Avis, porém, não pretendia tornar-se o defensor do povo o que ocorreu foi que o próprio "comum povo livre e não sujeito a alguns que o contrário disto sentissem lhe pedissem (ao Mestre) por mercê se chamasse Regedor e Defensor dos Reinos" (Crônica de D. João I, cap. XXVI.).

"Quando o Mestre outorgou de ter cuidado e regimento do reino, toda tristeza foi fora das gentes, e seus corações não deram lugar a nenhum trespassado temor; mas todos ledos sob boa esperança, fundada em bem aventurado fim..." (Crônica de D. João I, cap. XXVI.).

Para Serrão, é neste instante que a burguesia impõe o seu caráter à revolução; pois esta classe "...compreendeu, a tempo, de que lado soprava o vento dos seus interesses e, a partir desse momento, deu então todo seu apoio ao Mestre d'Avis" (SERRÃO:44). Ora, isto quer dizer que a revolução teve uma ruptura em seu caráter. Ela iniciou-se como um movimento nitidamente popular, mas terminou caracterizada pela camada burguesa. No fim de tudo, esta última classe social foi a grande beneficiária, conseguindo-se "...impor...como política nacional, a sua política, isto é, a largada para além mar" (SERRÃO:47).

E, afinal, onde encontramos o papel de Fernão Lopes nesta revolução vencida pela burguesia? No fato de que este cronista "...tomava partido pela a raia-miúda, pela cidade burguesa, marítima e mercantil de Lisboa..." (COELHO:210). E, inclusive, que "Como escritor dos vilões e, portanto, também do seu estrato dirigente, a burguesia (a do comércio, a dos mestres, a da pesca, a agrícola), Fernão Lopes personifica a ascensão desta classe na sociedade portuguesa e européia" (COELHO:214).
Todas estas afirmações anteriores parecem contradizer o fato sustentado por vários autores: o de Fernão Lopes ser um cronista do povo. Mas, atentando para o que diz Maria Ema Tarracha Ferreira, vê-se que tais afirmações são plausíveis: "Contudo, o elogio à “comunal gente” não significava, para a mentalidade do cronista e da sua época, a reivindicação do poder político para um grupo ou classe social, nem Fernão Lopes atribui ao “povo miúdo” a iniciativa do movimento revolucionário" (FERREIRA:29). E esta autora acrescenta que "Do Terceiro Estado, isto é, da “comunal gente” que se batera pelo Mestre de Avis e o tomara por “Regedor e Defensor do regno” provinha grande parte da “nova nobreza”...".
Por fim, fica claro que Fernão Lopes escreve para "todas as gentes" de Portugal, e que, de algum modo, este cronista tem a habilidade de escrever também para Lisboa. É como se esta cidade fosse sua ouvinte, como se ela tivesse uma alma própria: "...Mas, do ponto de vista social, o espaço alarga-se. A zona da luz, o teatro da ação é agora ocupado, por vezes mesmo centrado, na a raia miúda, nos homens bons, nos comunais, nos honrados...O cenário também não se circunscreve apenas ao palácio ou ao campo de batalha. Vêm à praça, à reunião da Câmara, ao campo onde avançam camponeses de ventres ao sol e armados com pedras e estevas aguçadas." (COELHO:50).
Talvez não fosse possível conceber a Revolução de 1383 sem os relatos deste tão brilhante cronista. Todas as impressões que ele nos passa através da escrita, narrando não só os feitos do rei D. João I como também enfocando os comentários na vida pessoal e íntima das personagens mais influentes da época, têm um valor histórico inestimável.
Inestimável também é a possibilidade de reflexão sobre a história de Portugal através das crônicas, pois são infindáveis os debates e os questionamentos que giram em torno da órbita da realeza lusitana. E não é por acaso que tudo o que nos interessa nesta órbita real está reunido em Fernão Lopes; os acontecimentos desta parte da memória de Portugal são todos ligados entre si, a partir das crises de 1383. A crise no meio rural, o enfrentamento da arraia miúda com a classe exploratória e dona do poder, e a questão da sucessão dinástica são os principais elementos que, após deixarem a sociedade portuguesa em meio ao caos, dirigem-se naturalmente como colaboradores a subida de D. João, Mestre de Avis, ao poder real. E é aqui que Fernão Lopes atua. Depois que a poeira do tempo já estava levando os fatos passados carregados ao vento, para reavivar a história de uma nação, ele apresentou que, ao menos em um momento, sua pátria buscou recorrer à memória para tentar compreender o que estava vivendo no presente do ano de 1434.

4. RESUMO DA CRÔNICA DE D. JOÃO I:

D. João era filho ilegítimo do rei D. Pedro I e de D. Teresa, uma dama galega (ms. 352 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo da “Crônica de el-rei D. Pedro I”, de Fernão Lopes). Em 1364 foi consagrado Grão Mestre da Ordem de Avis.
À data da morte do rei D. Fernando I, Portugal colocava em risco a sua independência. A rainha D. Leonor Teles de Menezes era impopular e olhada com desconfiança. O fato de se ter tornado pública a sua ligação amorosa com o nobre galego João Fernandes Andeiro, personagem influente no paço, atraiu todas as críticas contra a sua pessoa e a do seu amante.
Para além do mais, a sucessão do trono recaía sobre a princesa D. Beatriz, única filha de Fernando I e de Leonor Teles de Menezes, casada aos onze anos de idade com o rei João I de Castela.
No entanto, a burguesia e parte da nobreza juntaram-se à voz popular que clamava contra a perda da independência, tão duramente mantida por D. Fernando I. Dois pretendentes apareceram para competir com João I de Castela e D. Beatriz pela coroa portuguesa:
D. João, príncipe de Portugal, filho de D. Pedro I e D. Inês de Castro, era visto por muitos como o legítimo herdeiro, dado o suposto casamento dos seus pais, e D. João, filho de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, que veio a tornar-se rei.
Acicatado por um grupo de burgueses e nobres, entre os quais Álvaro Pais e o jovem D. Nuno Álvares Pereira, e tomando em linha de conta o descontentamento geral, o Mestre de Avis assassina o conde de Andeiro no paço a 6 de Dezembro de 1383. Com a posterior fuga de Leonor Teles de Lisboa para Alenquer, inicia-se a sucessão de acontecimentos que lhe entregará a regência, a qual de início planejava exercer em nome de seu meio-irmão, o Infante D. João. Mas como este último já fora aprisionado por D. João I de Castela, abria-se então a possibilidade política de o Mestre de Avis vir a ser rei.


O assassinato do conde Andeiro explica-se, bem mais do que pela vontade de vingar a honra do falecido rei Fernando I, ainda que este tenha sido um dos motivos, pela razão de que João I de Castela havia começado a violar o pacto antenupcial de Salvaterra de Magos logo no primeiro dia em que se fez aclamar, em Toledo, "Rei de Castela e Portugal". Aquele tratado antenupcial apenas conferia a si e à sua mulher Beatriz, sendo esta herdeira de Fernando I, o título nominal de reis e senhores de Portugal, mas sem deterem poderes de efetiva governação. Além disso, os reinos de Castela e Portugal deviam manter-se separados. Para além de logo ter mesclado as armas dos dois reinos, João I de Castela, continuando a desrespeitar o tratado, entra em Portugal pela Guarda nos finais de Dezembro de 1383. Queria ser soberano pleno, e não de dois reinos separados mas dum único, considerando que não tinha que atender em nada ao tratado de Salvaterra porque a sua mulher Beatriz era a herdeira do trono português. Quem o diz de forma mais clara não é Fernão Lopes, mas sim o cronista castelhano Pero Lopez Ayala, contemporâneo dos acontecimentos, na sua “Crônica do Rei Dom João o primeiro de Castela e Leão”. Consultem-se, para o constatar, os capítulos IX e XI do ano quinto e os capítulos I e II do ano décimo segundo desta Crônica. Seguiu-se a Crise de 1383-1385, ou Interregno, um período de anarquia e instabilidade política onde as diferentes cidades e vilas de Portugal se declaravam umas por D. Leonor Teles (a maioria destas até ela abdicar da regência em benefício de João I de Castela e da filha), outras por D. Beatriz e o seu marido, outras ainda pelo Mestre de Avis, além das que se mantiveram neutras, na expectativa do desenlace.

A guerra civil arrastou-se por mais de um ano. D. Nuno Álvares Pereira, posteriormente Condestável de Portugal, revelou-se um general de grande valor, ao contrário, ao início, do próprio pretendente ao trono. Fernão Lopes é um crítico feroz das ações militares do Mestre durante o primeiro ano de guerra, dado que tinha tendência a preferir os cercos e a assistência dos grandes fidalgos, sem outros resultados que não fossem traições, ao contrário da luta militarmente inovadora e terrivelmente eficaz de Nuno Álvares, que arrancou muitas vitórias no Alentejo e deu boa ajuda a Lisboa, onde o Mestre ficou sitiado sem se ter podido abastecer das provisões necessárias para aguentar durante muito tempo o cerco. No entanto, depois das Cortes de Coimbra, o rei D. João I mostrou-se um bom seguidor das táticas militares de D. Nuno Álvares, e do conselho de guerra deste constituído por escudeiros.
Finalmente a 6 de Abril de 1385, as Cortes portuguesas reunidas em Coimbra elevam o Grão-Mestre de Avis, como D. João I, a rei de Portugal. Esta tomada de posição significava na prática que a guerra com Castela prosseguiria sem quartel, visto que declarava nulo o estatuto de D. Beatriz de Portugal, rainha consorte de Castela, como herdeira de D. Fernando, e isto devido em especial à violação do tratado de Salvaterra tanto pelo seu marido como por ela (com 11 anos de idade tivera de jurar o tratado em Badajoz, aquando do casamento). «Venhamos a outra maior contradição», disse João das Regras, ao começar a falar da «quebra dos trautos» no seu discurso perante as Cortes de Coimbra (Crônica de el-rei D. João I, cap. CLXXXV). E como os quebrara, não podia suceder ao pai, o «postumeiro (último) possuidor» destes reinos. É por isso que na História de Portugal, Beatriz não figura como Rainha, pois foram as próprias Cortes de 1385 a proclamar que ao rei D. Fernando I, postumeiro possuidor do reino de Portugal, quem sucedeu foi o rei D. João I.
Pouco depois, João I de Castela invade Portugal com o objetivo de tomar Lisboa e ver-se livre do «Mestre D'Avis que se chamava rei» (era o modo como os castelhanos o designavam). Com os castelhanos vinha então um grande contingente de cavalaria francesa. A França era aliada de Castela enquanto os ingleses haviam tomado o partido de D. João I (Guerra dos Cem Anos). Como resposta D. João I prepara-se com Nuno Álvares para a batalha decisiva. O Condestável de Portugal, que o rei nomeara quando das Cortes de Coimbra, e o seu conselho de escudeiros montaram então uma tremenda armadilha ao exército castelhano.
A invasão castelhana transformou-se em debandada durante o Verão, depois da decisiva batalha de Aljubarrota travada a 14 de Agosto, perto de Alcobaça, onde o exército castelhano foi quase totalmente aniquilado. Castela teve de retirar-se do combate e a estabilidade da coroa de D. João I ficou solidamente garantida. Muitos anos depois um tratado de paz será definitivamente confirmado, reconhecendo Castela sem quaisquer reservas D. João I como rei de Portugal.
Em 1387, D. João I casa com D. Filipa de Lencastre, filha de João de Gaunt, Duque de Lencastre, fortalecendo por laços familiares os acordos do Tratado de Aliança Luso-Britânica, que perdura até hoje. Depois da morte em 1390 de João de Castela, sem herdeiros de D. Beatriz, a ameaça castelhana ao trono de Portugal estava definitivamente posta de parte. A partir de então, D. João I dedicou-se ao desenvolvimento econômico e social do país, sem se envolver em mais disputas com a vizinha Castela ou a nível internacional. A excepção foi a conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415, uma praça de importância estratégica no controle da navegação na costa de África que é conquistada a 21 de Agosto. Após a sua conquista são armados cavaleiros, na mesquita daquela cidade, os príncipes D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique. Entretanto, na véspera da partida de Lisboa, falecera a rainha D. Filipa de Lencastre.
Cronistas contemporâneos descrevem D. João I como um homem arguto, cioso em conservar o poder junto de si, mas ao mesmo tempo benevolente e de personalidade agradável. Na juventude, a educação que recebeu como Grão Mestre da Ordem de Avis transformou-o num rei invulgarmente culto para a época.
O seu amor ao conhecimento passou também para os filhos, designados por Luís Vaz de Camões, nos Lusíadas, por "Ínclita geração": o rei D. Duarte de Portugal foi poeta e escritor; D. Pedro, Duque de Coimbra o "Príncipe das Sete Partidas", foi um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo e muito viajado, e o Henrique, Duque de Viseu, "o navegador", investiu toda a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia, dando início à epopéia dos Descobrimentos.
A sua única filha, D. Isabel de Portugal, casou com o Duque da Borgonha e entreteve uma corte refinada e erudita nas suas terras.
No reinado de D. João I são descobertas as ilhas de Porto Santo (1418), da Ilha da Madeira (1419) e dos Açores (1427), além de se fazerem expedições às Canárias. Tem início, igualmente, a colonização dos Açores e da Madeira.
D. João morreu a 14 de Agosto de 1433. Jaz na Capela do Fundador, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha.
Foi cognominado "O de Boa Memória", pela lembrança positiva do seu reinado na memória dos portugueses; alternativamente, é também chamado de "O Bom" ou "O Grande".







sexta-feira, 11 de março de 2011

INÊS DE CASTRO: "AGORA É TARDE - INÊS É MORTA" : HISTÓRIA DE AMOR ENTRE D. PEDRO E D. INÊS EM VERSOS E PROSA

"Com respeito aos dramas de Inês, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do herdeiro da coroa e o seu desenlace sangrento, mas também os seus reflexos de além-tumba." (Carolina de MICHAËLIS)



I – APRESENTAÇÃO:


O epísódio em torno da morte de Inês de Castro, amante do então Infante D. Pedro, teve, nas palavras do historiador português José Hermano Saraiva, “uma repercussão tão poderosa” que fez nascer uma lenda de amor que acabou por se entranhar profundamente no imaginário do povo português. Tem-se conhecimento de que foi o amor que a conduziu ao fim, à morte.
Este fato histórico notório no plano de Portugal, foi recuperado várias vezes em produções artísticas, literárias ou não, no plano luso ou universal, assim, verdade histórica e mito tendem a se confundir. Se se levar em conta que a raiz da História, em seus relatos inicialmente orais e depois escritos, reside nos mitos, parece mais natural que surpreendente a forma como é encarada a história de amor e morte de uma mulher que, por seus encantos, teve uma imerecida ruína.
Durante o período, surge um fato que, tendo um papel de segundo plano no que diz respeito a questões de natureza política, acaba por causar grande comoção nacional. De certa forma materializa um sentimento que, extensivamente, irá caracterizar o espírito lusitano: o amor, aflorado pelo sacrifício de Inês de Castro.

II – CONTEXTO HISTÓRICO SOCIAL:

Está-se em meados do século XIV, em Portugal, e D. Afonso IV, antepenúltimo rei da dinastia de Borgonha, é o soberano que comanda o país. O momento histórico não é despido de tensões. Sua própria ascensão ao trono é problemática. Sabedor de que seu pai, D. Dinis, tinha o propósito de alçar à condição de rei o filho bastardo Afonso Sanches, o infante desencadeia uma guerra civil que se estenderia de 1320 a 1324. Entre 1336 e 1338, já rei, D. Afonso IV tem de conviver com guerras entre as duas nações ibéricas.
Logo depois, em 1340, em decorrência dos avanços marroquinos sobre a península, unem-se Portugal e Espanha para impedir uma das últimas investidas mouras sobre a região européia. A Batalha do Salado, desairosa para os sarracenos, marca a afirmação da posse luso-hispânica sobre o seu próprio território.
D. Pedro I, Infante de Portugal, era o filho do rei D. Afonso IV e de D. Beatriz de Castela. De temperamento inquieto e nervoso levou a que Alexandre Herculano no seu julgamento sobre três monarcas da Primeira Dinastia escrevesse:

“D. Dinis foi um avaro, D. Afonso IV um homem de juízo, D. Pedro I um doido com intervalos lúcidos de justiça e economia”.




Ainda criança, foi-lhe acertado casamento com a princesa D. Branca, filha do Infante D. Pedro de Castela, prima do rei Afonso XI e neta de Sancho IV de Castela e D. Maria Molina. Casamento público que se dissolveu rapidamente, pois a jovem D. Branca, aos 14 anos, mostrava-se tão enfermiça que o Infante se recusou a casar-se com ela.

Passado algum tempo, D. Afonso IV voltou arranjar-lhe outro noivado, indicando-lhe D. Constança Manoel, filha do grande fidalgo D. João Manoel, cronista e poeta, senhor de várias vilas e castelos. Depois de tempos atribulados e de muitas intrigas pelo meio, D. Pedro e D. Constança receberam a benção nupcial na Sé de Lisboa, com as honrarias devidas a um descendente dos reis de Castela, Leão e Aragão.

III – O DESPERTAR DO AMOR:
  Viera de Castela, na companhia da princesa, uma linda moça, dama de companhia, que se chamava Inês de Castro. Era uma donzela de linhagem fidalga, nascida em Monforte, no ano de 1325, filha bastarda de um notável cavaleiro galego (primo, inclusive, de D. Pedro), Pedro Fernandez de Castro, com a portuguesa Aldonza Suárez de Valladares.

O Infante, no entanto, insatisfeito com uniões arranjadas abandonava a esposa à própria sorte preferindo as caçadas nas terras de Touguia, mais tarde denominadas de Atouguia da Baleia, por lá ter aportado uma baleia, num tempo em que o mar banhava estas terras e este porto era um dos mais importantes da Estremadura.
A vida de D. Pedro seguia em excessos e ausências até que um dia seus olhos pousaram na dama de companhia de D. Constança.


Linda como os amores e loura como o sol, duma elegância extrema, tais predicados levaram-no a apelidá-lo de “colo de garça” e entonteceram-no de tal maneira que nunca mais a largou...”



De olhos brilhantes, rosto prendado, de cabeleira abundante a cair sobre os ombros, de tronco roliço torneado pelo corpete de linho a mostrar o tronco generoso de encantos, a figura esguia de moça trigueira lembrava, no porte sereno e andar suave, em airoso traje pelos jardins do paço, uma garça de ternura e elegância.

A formosura de Inês atraiu D. Pedro. A convivência com tão bela mulher em pouco tempo cativou o coração do Infante e seus sentimentos tão intensos, ficaram impossíveis de disfarçar.
D. Constança desesperava-se percebendo o interesse de D. Pedro por Inês de Castro. A esposa infeliz, no entanto, acreditava que o nascimento de um próximo filho viria transformar D. Pedro em um ótimo pai e marido.
Quando a princesa teve a primeira filha, em 1342, a Infanta D. Maria, que viria a casar com D. Fernando, Infante de Aragão. Foi grande o contentamento na Corte e até o povo festejou o acontecimento. Entretanto, cada vez mais é notório ao conhecimento das pessoas amigas que a rodeavam, nobres damas e senhores, o desvario amoroso do Príncipe.
A Dona Constança lembrou-se, então, de usar a astúcia para afastar a Inês do esposo: convidou-a para madrinha do recém-nascido, Infante D. Luís.
O estratagema era bem arquitetado, pois que, sendo comadre de D. Pedro, a jovem fidalga teria uma espécie de parentesco espiritual e certamente o bom senso de manter a devida distância entre ambos, como mandava a lei divina da Igreja.
Aparentemente, a princesa mãe tinha conseguido o seu intento. Mas não duraria muito a ilusão: na verdade, D. Pedro e Inês extremamente apaixonados, não vergavam a nada que impedisse a concretização dessa paixão.
Para contornar a constrangedora situação, D. Afonso IV forçou Inês ao exílio, e esta veio a se alojar no Castelo de Albuquerque, próximo à raia alentejana, situado no alto de uma escarpa, construído por D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e era familiar a D. Inês, pois que aí tinha sido criada pela tia, D. Teresa de Albuquerque, desde tenra idade. Foi no entanto, uma afronta a D. Afonso IV que sempre odiou esse irmão bastardo, a quem culpava das desavenças tidas com o pai, o rei D. Dinis, amenizada somente pela esperança que a separação fizesse ruir essa louca paixão.
Entretanto, nem a distância foi o obstáculo aos dois amantes, visto que correspondiam-se secretamente através de cartas levadas pelos almocreves.
Os desgostos de uma vida amargurada e o desprezo do esposo agravaram o estado de saúde de D. Constança.

A mãe escondia a dor de sua desgraça conjugal procurando a distração e alívio nos passeios pelas verduras do palácio, por entre arbustos e flores, na terra viçosa, em conversas amenas com as suas aias, e no gozo dos serões, no interior do solar, ouvindo a melodia dos jograis, o som mavioso da flauta, da viola, das trompas e das harpas, no aconchego do salão iluminado por archotes, adornado de tapeçarias e brasões. (...)”

Dona Constança passava noites a meditar a sua triste sorte. Em longas noites de Inverno, sentada junto à lareira ampla da torre, pensava muitas vezes em fazer peregrinação a Santiago de Compostela, para rogar proteção e paz a seu lar ameaçado. Não chegou, porém, a realizar seus sonhos.
O infante D. Luís, pouco tempo depois de nascer, falecera.
Em 1345 nasceu o terceiro e último filho do casal, o futuro Rei D. Fernando. Dona Constança morre, logo após, por consequência deste parto.
Nem o físico nem o astrólogo da Corte haviam conseguido salvar a vida da princesa. A tragédia consternou a todos.
Por altura da morte de Dona Constança, andava o rei Afonso IV em grande questão com o bispo do Porto. Na verdade, o monarca submetera a cidade à sua jurisdição e o bispo lançou o interdito sobre a diocese. Este era um problema entre outros a resolver.
Habitualmente, com a sua comitiva de nobres, percorria o Reino, para ver como corria a administração, para aplicar justiça e para consumir alimentos de seus palheiros.
D. Pedro fica então liberto, mesmo contra a vontade de seu pai, para ir buscar a sua amada. Preso como estava a um casamento que não procurara nem queria, viu na morte da esposa a sua libertação.

IV – A UNIÃO:

D. Pedro traz D. Inês para as terras da Lourinha, instala-a numa quinta em Moledo, nas proximidades do Paço da Serra, encerrando o seu desterro e iniciando uma nova fase da amorosa para os dois.
Foram anos maravilhosos para o casal. Habitavam ás margens esquerda do rio Mondego; construíram um touril, onde se divertia com os touros, quando não passeava ou trovava para D. Inês, como um bom trovador como fora seu avô D. Dinis.
Ali nasceram seus filhos: o primeiro chamou-se Afonso, o nome do avô, mas morreu criança de tenra idade; os outros, dois meninos (João e Dinis) e uma menina (Beatriz), cresceram com saudável robustez física, rodeados de carinho e ternura dos pais, como flores de esperança no vale que se abria ar puro do céu azul.

V – A DISCÓRDIA:

Tinham passado dez anos desde que falecera a senhora Dona Constança e o seu pequeno infante Fernando vivia em Lisboa, nos paços reais do avô, sendo educado como um príncipe que, um dia, havia de subir ao trono de Portugal.
O rei D. Afonso IV continha, apesar de tudo, o seu furor pela desobediência de seu filho e sucessor. O soberano não queria, por sua vontade, entrar em guerra com o Infante porque sabia, por experiência própria, como eram terríveis as contendas familiares e que desgosto causaria a Dona Beatriz, sua mulher, a violência contra o filho herdeiro. Mas, o povo não via com bons olhos a união de D. Pedro com uma espanhola.
O problema é que a formosa dama tinha dois irmãos, Álvaro Pires de Castro e Fernando de Castro, que não escondiam pretensões em relação ao poder e cujos anseios, amedrontavam os portugueses, para os quais era incogitável retornar ao jugo castelhano.
Enquanto isso, em Castela, o partido do Sr. Albuquerque, que se colocara contra o soberano castelhano, tendia a contribuir para a má relação entre Portugal e Castela. Ambicionando submeter à sua influência os dois reinos peninsulares, consegue que D. Pedro se declarasse pretendente às coroas de Leão e Castela, o que desgostava D. Afonso IV, que queria Portugal independente e neutro nas lutas castelhanas.
Por outro lado, Afonso IV via com apreensão a existência dos bastardos de D. Pedro, que considerava de mau prenúncio para a paz interna do país.
O quadro português, já tenso, sofre um duro golpe com a proliferação da peste negra (em 1348 a 1349) que apavorava todos. Então, os mais medrosos, diziam ser “mau olhado” e culpavam Inês de todo o mal.
O reino até então própero, começa a empobrecer e o medo invade as populações. D. Afonso IV, para minimizar a crise, promulga e faz cumprir as “Leis do Trabalho”, mas a situação continua complicada. Os campos que tinham sido férteis, encontram-se abandonados e as populações, apavoradas com a morte, fogem sem destino.
Os conselheiros insistem que D. Pedro está dominado pelos irmãos de Inês; a desconfiança alastra e o ódio aos Castros também.
D. Afonso IV ouvia e ficava inquieto, sem saber o que havia de decidir. Chegou a pensar em reunir as Cortes para que lhe dessem opinião prudente. Tremia só de prever que, em tempos vindouros, os seus netos iriam lutar a ferro e fogo pela posse do Trono de seu avô.
D. Fernando, filho legítimo de Dona Constança e de D. Pedro, vê a sucessão ao trono ameaçada pelos bastardos de Inês. A insatisfação se espraia pelo reino.
D. Pedro e Inês partem à Coimbra e estabelecem-se numa quinta próxima ao Mosteiro de Santa Clara, causando mal estar na população, que não aceitava essa relação adúltera, principalmente num convento, onde a bondosa rainha D. Isabel de Aragão vivera e fora santificada.

VI – A TRAGÉDIA:

Os primeiros tempos do ano de 1355 iam testemunhar uma tragédia de sangue. O príncipe D. Pedro nem presumia o que estava para acontecer quando se despediu da sua querida Inês e seus filhos para iniciar a caça de montaria pelos montes e florestas da Beira, a cavalo, com nobres amigos e escudeiros.
Por aqueles dias, D. Afonso IV subiu a Montemor-o-Velho com o seu séquito e ali reuniu os seus conselheiros de Estado, Diogo Lopes Pacheco, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho, para tomar uma decisão sobre o destino da vida de Inês de Castro.
Os argumentos que ouviu não o convenceram, mas conseguiram, de fato, que a hesitação vencesse e finalmente, determinam pela morte da amante de D. Pedro e pedem ao rei a sua anuência.
Os cronistas apresentam o rei dividido entre a razão do Estado e o sentimento familiar. Mas, acaba por vencer a razão do Estado e no dia 7 de Janeiro de 1355, D. Afonso IV mete-se a caminho de Coimbra, acompanhado de homens armados, para vibrar o golpe na adúltera.
Um fato estranho se passara em Coimbra nessa triste madrugada. Antes da partida de D. Pedro para a caça, quando o Infante e os seus homens se preparavam para sair, um velho cão negro, de aspecto feroz, destacou-se da matilha e enfurecido por uma força sobrenatural, correu em direção a Inês. A fera tinha um brilho demoníaco nos olhos, a boca a espumar e os dentes a ranger prontos a atacar.
O príncipe e os seus homens ficaram petrificados. D. Pedro avançou com a espada e de um só golpe degolou a fera, que veio a cair cambaleante aos pés de Inês, salpicando-lhe o traje de gotas de sangue.
Um pavor supersticioso gelou o ambiente, mas o príncipe quebrou a angústia dizendo que eram horas de partir.
Ao cair da noite, Inês de Castro foi surpreendida pela chegada do rei e dos conselheiros e que, apesar das súplicas da “mísera e mesquinha”, a tragédia desenrola-se, não sem que o rei hesite, angustiado, perante a fragilidade da mulher.


Não houve lágrimas nem gemidos de crianças inocentes que impedissem a execução da vítima. Quando o luar brilhou no firmamento, junto à Fonte das Lágrimas, veio encontrar a pobre Inês sem vida, degolada friamente pelo machado do carrasco.

De imediato, o corpo da vítima foi trasladado para a igreja de Santa Clara.
Nunca, na história de Portugal, houve ou haveria um crime de horror tão inclemente.

VII – A FÚRIA DE D. PEDRO:

D. Pedro ao tomar conhecimento da tragédia reagiu com atrocidade. Unido aos Castros e com um exército considerável, partiu com um desejo mortal de vingança sobre o império paterno, chegando mesmo a impor um cerco à cidade do Porto.
Por intervenção da rainha D. Beatriz, mãe de Pedro, pai e filho acabaram por assinar a paz. Mas o infante ainda tinha ânsias de fazer com que se pagasse pelo mal cometido.
Se o filho perdoou ao pai a degolação de Inês, o amante nunca lhe perdoou. E assim, as promessas de amante, depressa esqueceram, principalmente, quando morreu D. Afonso IV e D. Pedro I subiu ao Trono, em 1357.
D. Pedro I passa a comandar os destinos de Portugal e tem como um de seus primeiros atos, demandar a extradição, para os paços de Santarém, dos responsáveis pela morte da bela Inês, Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves. E assim fez.
O rei não poupou requintes de horror em sua vingança implacável. Mandou amarrar as vítimas, cada uma a seu poste de suplício, enquanto os cozinheiros de sua Corte preparavam um abundante banquete de cerimônia.
Não se sabe ao certo, mas, novamente segundo o mito, Pero Coelho teve o coração arrancado pela frente, e Álvaro Gonçalves, por trás. Longe de dúvidas mesmo está que o terceiro procurado, Diogo Lopes Pacheco, acabou por fugir para terras francesas. Depois “pediu que lhe trouxessem cebola e vinagre para o coelho” e como sentisse que não bastava à tortura tremenda, ainda teve coragem para trincar aqueles corações que, para ele, seriam malditos para sempre.
Esta cena macabra, a ser verdade, confirmaria a loucura e excessos do rei e levou a que Fernão Lopes escrevesse:

“Muito perde o El Rei de sua fama por tal escambo como este”.

Depois desses fatos, os relatos que há em torno das atitudes de D. Pedro I tanto podem soar a verdade como a implausibilidade.
Veras são a trasladação do corpo de Inês do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra a uma bela lápide construída no Mosteiro de Alcobaça, em 02 de abril de 1361 e revelação de D. Pedro I ter-se casado secretamente com ela na cidade de Bragança, em 1360.


De acordo com Fernão Lopes:


“Mandou D. Pedro obrar um muymento de alva pedra, todo muy sutilmente lavrado, pondo, elevada sobre a tampa de cima a imagem della com coroa na cabeça como se fôra Rainha; e este muymento mandou pôr no Mosteiro de Alcobaça, não à entrada onde jazem os Reys, mas dentro da Igreja, à mão direita, junto da Capela Mor, e fez trazer o seu corpo do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde jazia, o mais honradamente que se fazer pode; porque ele vinha em umas andas muy bem preparadas para tal tempo, as quais trazião grandes cavallos acompanhados de grandes Fidalgos, e outra muita gente, e Donas, e Donzelas, e outra muita Cleresia; e pelo caminho estavão muito mil homens com círios nas mãos, de tal sorte ordenados, que sempre o seu corpo foy todo o caminho entre círios acezos; e assim chegarão até ao dito Mosteiro, que erão dalli dezassete léguas, onde com muitas Missas, e grande solemnidade foy posto aquelle muymento. E foi esta a mais honrada Tresladação, que até áquelle tempo em Portugal fôra vista.”

Comprovadas ainda são a bela estátua sepulcral que se mandou erguer em homenagem à rainha, bem como as grandiosas exéquias promovidas pela ocasião do transporte do corpo. No entanto, a lenda também se faz presente. Segundo a tradição, o rei fez colocar o cadáver de D. Inês num trono, colocou-lhe sobre o crânio a coroa real e obrigou todos os nobres a beijar a descarnada mão da rainha morta.


Diz-se ainda que o soberano tivera o cuidado, ao dispor o seu túmulo e o de sua amada no referido mosteiro, de postar as lápides não lado a lado, mas pé com pé. Para que quando tivessem, ambos, de se acordar no Juízo Final, poderiam um olhar nos olhos do outro.


O oitavo rei de Portugal, motivado pelos fortes sentimentos que o uniam a sua amada, agiria, de acordo com as palavras do historiador Fernão Lopes, motivado por um "grande desvairo".

Ainda, em 1357, nasce mais um filho bastardo de D. Pedro com D. Teresa Lourenço, a quem foi dado o nome de João e veio a ser o Rei D. João I.

VIII – REINADO DE D. PEDRO I:

Nunca mais o monarca amargurado teve companhia que lhe fizesse esquecer o grande amor da sua vida. Muitas vezes aconteceu que, nem de noite, tinha repouso tranquilo. Os pesadelos perturbavam-lhe o sono e o rei, para esquecer, saía para as ruas de Lisboa, acordava o povo ao redor, ateava fogueiras para a festa e dançava com ele até madrugada. Amiúde mandava matar bois e bezerros, distribuía carne aos pobres e necessitados, com um coração generoso que as gentes da capital e do Reino admiravam e amavam; não só porque era pródigo em dar de comer a quem tinha fome, mas também porque sempre soube fazer justiça, dar prêmios aos bons e castigo aos maus.
Dedicou-se afincadamente aos assuntos de Estado: foram cunhadas novas moedas, desenvolveu o tesouro real, promulgou o “beneplácito régio” e tornou-se extremamente rigoroso na justiça, tocando as raias da crueldade. Por vezes, ao lavrar uma sentença de morte, vinham-lhes as lágrimas aos olhos, mas outras, parecia que até gostava, gaguejava e ria como um louco.

“No Porto, quando informado que o bispo dormia com a mulher de um bom cidadão da cidade, logo o mandou vir ao Paço e à sua câmara e depois de ter posto fora das suas vistas os criados, mandou-o despir e açoitou-o de tal maneira que, se não aparecesse o seu escrivão de puridade, o desgraçado do bispo ficaria desfeito.”


Em fins de 1366, sempre fiel aos princípios de neutralidade que sempre o nortearam, celebrou tratados de paz e amizade com Castela e Aragão. Foi este o seu último ato político.

Em janeiro de 1367, morre em Estremoz, D. Pedro I e assume o Trono português o rei D. Fernando.
No testamento deixado, ordenou que o seu cadáver fosse conduzido a Alcobaça e ali colocado no formoso túmulo que mandara lavrar conjuntamente com o de D. Inês de Castro, em 1360.
Segundo Fernão Lopes, quando D. Pedro I morreu todos choraram e afirmaram que:

“Dez anos como estes nunca houve em Portugal”.

IX – DESCRIÇÃO DOS TÚMULOS:


O Mosteiro de Alcobaça foi fundado em 1153, por doação de D. Afonso Henriques a Bernardo de Claraval. A atual abadia só começou a ser construída em 1178.

A Igreja, iniciada como era prática corrente pela cabeceira, com três naves à mesma altura, o transepto de duas naves e o deambulatório, formam um conjunto que impressiona pela simplicidade, grandeza e austeridade. É a maior e primeira grande obra do gótico primitivo português, depois substancialmente, alargada e enriquecida com as sucessivas doações reais.


Em 1308, D. Dinis faz construir o Claustro do Silêncio, acrescentado de um piso já no reinado de D. Manuel, que mandou também construir a chamada Sacristia Manuelina, obras encomendadas ao arquiteto João de Castilho. A partir do Abade Comendatário Cardeal D. Henrique começam as grandes alterações espaciais, com a construção do Palácio Abacial no extremo Norte da Ala Norte e do Claustro do Cardeal, seguindo-se, no séc. XVII, a Hospedaria, a primitiva Sala dos Reis e o Noviciado. Notável, é o Relicário e o Altar da Morte de S. Bernardo dos finais do séc. XVII, em terracota, assim como a grande cozinha do séc. XVIII. A Sala dos Túmulos, em neogótico, guarda os túmulos de várias rainhas e príncipes. No transepto da Igreja encontram-se duas das mais belas obras da arquitetura tumular do séc. XIV: os túmulos de D Pedro e D. Inês de Castro.

Os túmulos são de estilo gótico e feitos em calcário da região de Coimbra.
A localização primitiva dos túmulos era lado a lado (estando o de D. Inês do lado direito de D. Pedro, o que deveria acontecer entre marido e mulher) no transepto sul da Igreja do Mosteiro de Alcobaça. Daqui passaram para a Sala dos Túmulos. No século XX voltaram a ser colocados no transepto da Igreja, onde se encontram atualmente: frente a frente, estando o túmulo de D. Inês no braço norte do transepto e o túmulo de D. Pedro I no braço sul, de tal modo a que quando ressuscitarem se levantem e vejam um ao outro.
Nos jacentes ambas as figuras estão coroadas, de expressão tranquila e rodeadas por seis anjos que lhes ajeitam as roupagens e lhes levantam a cabeça (como que a elevá-los para o Céu). As faces dos sarcófagos estão decorados com temática heráldica (representações de brasões das respectivas famílias), bíblica, vegetalista e geométrica.

TÚMULO DE D. PEDRO I


Em termos escultóricos, o túmulo de D. Pedro I deve ter ido realizado entre 1361 e 1367, ano da morte do manarca e tem as seguintes medidas: 3,21 m de comprimento; 1,18 m de largura e 2,27 de altura.

A figura jacente de D. Pedro I apresenta-se vestido de trajo longo e esporas, segura a espada com uma mão e a bainha com a outra. A espada significa a justiça e as esporas o cavaleiro.
Quatro anjos ladeiam e amparam a cabeça e os ombros e dois anjos turiferários posicionam-se no seu seguimento.
Aos pés da figura de D. Pedro I deita-se, no sentido transversal, um imponente lebreu, que fazia par com outro, entretanto desaparecido. A decoração do túmulo de D. Pedro I é predominantemente preenchida por edículas góticas contendo passagens da vida de São Bartolomeu.

No frontal direito são representadas cenas do nascimento e rapto de S. Bartolomeu; encontro de S. Bartolomeu no alto da montanha, defendido pela águia; revelação miraculosa da identidade do Santo; libertação da possessão demoníaca da filha de Polímio; o Santo mostrando ao rei o Demônio acorrentado; o Apóstolo expondo ao rei a fé cristã.
As três primeiras edículas encontram-se intactas, mas as três últimas ficaram bastante danificadas, por arrombamento, quando das Invasões Francesas.
Este Santo (século I) foi escolhido por Cristo para ser um dos seus Doze Apóstolos. Levou o Evangelho aos países mais bárbaros do Oriente e a sua última viagem foi para a grande Armênia, onde pregando num local muito devotado à adoração de ídilos, foi coroado num glorioso martírio, como refere S. Gregório de Tours. Essas conversões provocaram uma enorme inveja nos sacerdotes locais, que conseguiram a ordem de tirar a pele de Bartolomeu e depois decapitá-lo.


No frontal esquerdo segue a história de S. Bartolomeu: os Sacerdotes tentando derrubar o Ídolo; a sua destruição; a exaltação da cruz; interrogatório do Santo; Martírio de S. Bartolomeu e o Santo esfolado e decapitado, segurando a pele e a própria cabeça.

É assim que ele se apresenta perante ao rei que mandara matar.

O facial da cabeceira apreenta o elemento mais emblemático: a Roda da Fortuna ou Roda da Vida.


Esta rosácea simboliza o “ciclo da vida” e é formada por três circunferências concêntricas.

A do centro representa o estático, o imutável e é constituída por uma corola hexapétala e as duas exteriores representam o movimento, o dinamismo, a que correspondem ás alternâncias do destino.
Segundo Anacreonte “a vida humana gira instável como uma roda” e por isso talvez a analogia com as vidas de D. Pedro e D. Inês, rolando continuamente cheias de sucessos e desgraças até á morte redentora.
O círculo interior, a Roda da Fortuna, composto de 6 lóbulos, apresenta cenas da vida de dois amantes.
O círculo exterior, a Roda da Vida, constituído por 12 lóbulos com os momentos da vida amorosa e trágica de D. Pedro e de D. Inês. Com uma delicadeza e minúcia impressionantes, todo o real poema de amor se vai desenrolando perante os nossos olhos, desde a vida íntima dos dois amantes, até á tragédia sangrenta da degolação de D. Inês e a justa expiação dos seus assassinos.
Lateralmente à rosácea, encontramos duas figuras humanas: uma presumivelmente representando Adão e outra, sem cabeça, a Eva.
No sentido ascendente, da esquerda para a direita, a tragédia encontra-se no sentido descendente onde se destaca D. Pedro amortalhado no seu túmulo, em contraponto com a imagem oposta do Rei em majestade, segundo um eixo vertical de leitura que a frase inscrita sob o jacente sublinha “A (qui) é o Fim do Mu(ndo)".

Na leitura das edículas podemos observar:
• 1 D. Inês acaricia um dos filhos;
• 2 O casal convive com os três filhos;
• 3 D. Inês e D. Pedro jogam xadrez;
• 4 Os dois amantes mostram-se em terno convívio;
• 5 D. Inês subjuga uma figura prostrada no chão;
• 6 D. Pedro sentado num grandioso trono;
• 7 D. Inês apanhada de surpresa pelos assassinos enviados pelo rei D. Afonso IV;
• 8 D. Inês desmascarando um dos seus assassinos;
• 9 Degolação de D. Inês;
• 10 D. Inês já morta;
• 11 Castigo dos assassinos de Inês;
• 12 D. Pedro I envolto numa mortalha.

Nas edículas interiores – Roda da Fortuna – podemos observar (no mesmo sentido da Roda da Vida):
• I D. Inês sentada à esquerda de D. Pedro (por ainda não estarem casados);
• II O casal troca de posição (D. Inês sentada à direita de D. Pedro, o que indica que já estão casados);
• III D. Pedro e D. Inês sentados lado a lado parecendo um retrato oficial;
• IV D. Afonso IV a expulsar (por apontar do dedo) Inês do reino;
• V D. Inês repele um homem que parece ser de novo D. Afonso IV;
• VI D. Pedro e D. Inês prostrados no chão subjugados pela figura híbrida da Fortuna que segura com as mãos a roda.

O facial dos pés apresenta os preceitos relativos à “Boa Morte” de D. Pedro, as únicas em que existe alguma simetria: o viático e a extrema-unção, que o prepara para a última viagem. Estão divididas por uma edícula estrita onde, de forma hierática, se representa um monge, clara alusão aos monges de Alcobaça que o acolheram no derradeiro sono.

O monarca está representado no seu leito, rodeado de elementos do clero e familiares ou amigos e a ser confrontado com os sacramentos da Igreja.
Um friso heráldico com os escudos de Portugal, remata a parte superior deste túmulo que assenta em seis leões.


Estes escudos são de maiores dimensões que os que se encontram no túmulo de D. Inês e são mais espaçados.

Catorze castelos bordam os escudos de Portugal que têm três torres.
O espaço entre os escudos é preenchido com janelas maineladas cujo remate na parte superior é feito por seis rosetões redondos.

TÚMULO DE D. INÊS DE CASTRO


A estátua jacente de D. Inês é de uma Rainha e está coroada. Ela se apresenta cinginda num vestido franzido, de mangas curtas, apertado com alamares, repousando numa almofada, segura por dois anjos de asas abertas que a contemplam. Quatro outros anjos seguram-lhe o manto.

A mão direita toca na ponta do colar que lhe cai do peito e a mão esquerda, enluvada, segura a outra luva, ostentando a classe social da dama. A abrigar a cabeça, eleva-se um baldaquino honorífico, que não existe no túmulo de D. Pedro.
Aos pés, vêem-se como símbolos de fidelidade, três pequenos cães, dos quais só resta um inteiro.
No seu conjunto, a jacente de D. Inês demonstra uma enorme serenidade, beleza e majestade.

No frontal esquerdo, por ordem cronológica, encontra-se as seguintes cenas:
• Anunciação, profundamente mutilado;
• o Sonho de S. José: um anjo aparece em sonho a S. José, dizendo-lhe que Maria terá um filho que se chamará Jesus;
• Adoração dos Magos: a notícia do nascimento de Jesus foi levada por uma estrela ao Oriente e os três Reis Magos logo que souberam da nova, partiram à procura do recém-nascido. A estrela levou-os até onde estava a Sagrada Família e eles adoraram o Menino, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra;
• Herodes decretando a morte dos Inocentes: o rei Herodes temendo perder o trono, jurou matar o Menino Jesus e para que não lhe ecapasse, mandou matar todas as crianças menores de dois anos;
• Fuga da Família Sagrada para o Egito: o Senhor, não permitiu que o seu Filho caísse sob a espada do tirano e mandou um anjo avisar em sonho José, para que fugisse com a Família para o Egito;
• Apresentação do Menino Jesus no templo: conforme a lei hebraica, o primogênito foi consagrado ao Senhor, em sinal de total dependência d’Ele. Maria, pobre como era, ofereceu ao sacerdote duas pombinhas.

Duas das edículas apresentam coroa real e por isso, houve quem pensasse serem os reis D. Afonso IV e D. Pedro I. No entanto, hoje julga-se serem representações dos reis David e Salomão.

No frontal direito o espaço é ocupado pelos restantes passos da vida de Cristo. As edículas largas figuram:
• A Última Ceia: depois de Jesus ter anunciado que um dos Apóstolos era traidor. Judas, com a bolsa agarrada, vendo que vai ser descoberto, esconde-se debaixo da mesa;
• Oração na Horta e Agonia do Senhor: Jesus diz aos Apóstolos que vai orar. Devido ao sofrimento, um suor de sangue cai-lhe do corpo. Ao lado, as figuras adormecidas de Pedro e dos filhos de Zebedeu;
• Beijos de Judas: Judas previne os soldados que aquele que há de beijar é Jesus. Assim acontece; aproxima-se d’Ele, beija-O e os soldados cercan-nO;
• Pilatos lava as mãos: Pilatos lava as mãos lançando sobre os judeus a responsabilidade da condenação de Jesus;
• Flagelação de Jesus: Jesus é açoitado, depois de amarrado e coroado de espinhos;
• O Senhor a caminho do Calvário: O Senhor, com a cruz ao ombro, caminha para o Calvário. Fala com as mulheres que o pranteiam.

FACIAL DA CABEÇA:

O facial da cabeça é ocupado pela representação do Calvário, que se compõe em dois registros: a zona superior é como que o espaço celeste ocupado com bustos de anjos que surgem por entre as nuvens e a zona inferior tem como pano de fundo as muralhas de Jerusalem. É de salientar a Cruz com o corpo de Criste e a profunda trsiteza de Nossa Senhora.

FACIAL DOS PÉS:


O facial dos pés é todo ocupado pelo Juízo Final, que representa a ressurreição dos mortos no último dia, o julgamento geral e a subsequente sorte dos bons e dos maus por todo a eternidade.

Pensa-se que D. Pedro, com a representação desta cena dramática da religião cristã, quis mostrar a todos (inclusive a seu pai e aos assassinos) que ele e Inês tinham um lugar garantido no Paraíso e, que, quem os fizera sofrer tanto podia ter a certeza que iria entrar pela bocarra de Levitão representada no canto inferior direito do facial.
A iconografia do Juízo Final era frequente nos tímpanos das igrejas românicas ou góticas, mas muito rara em túmulos.
Neste espaço há três zonas distintas: na superior, vê-se ao centro o eterno e incorruptível Juiz Supremo, sentado no trono de divina majestade, erguido sobre nuvens, tendo na mão o terrível gládio da justiça.
À direita e à esquerda do trono, estão no alto, seis anjos, três de cada lado. O primeiro da direita segura a Cruz da redenção e o segundo da esquerda apresenta os cravos com que o Senhor foi pregado na Cruz. Junto de Deus, a Virgem-Mãe, de joelhos, intercede pelos homens e atrás dela, os doze Apóstolos, à frente dos quais Pedro com a chave do reino dos Céus.
Na zona média e inferior observa-se a estrada do Bem e do Mal, curiosa representação do Vale de Josafat. Caminham para o céu os bem aventurados, plenos de felicidade, que lhes transparece nos rostos e descem os precitos para o inferno, figurado por um monstro, de onde irrompem extensas chamas. Á esquerda, na zona inferior, representa-se a ressurreição dos mortos e saída dos túmulos.
No Julgamento Final encontra-se um conjunto localizado no canto superior esquerdo, composto por dois anjos músicos. Eles tocam um órgão e simbolizam a harmonia celeste.
No canto superior direito encontra-se duas figuras, presumivelmente D. Inês e D. Pedro, numa varanda.
No rebordo inferior da tampa do túmulo, um friso heráldico com escudos de Portugal e dos Castros, remata ao alto a decoração da arca.
Os brasões dos Castros, num total de 26, são em maior número do que os de Portugal, 18. Talvez a intenção fosse a de nobilitar D. Inês, para mostrar a sua alta estirpe. As armas de Portugal recordam a ligação amorosa de D. Pedro e D. Inês.
O espaço inferior entre os barões é decorado com janelas maineladas, amplamente decoradas. O espaço superior é preenchido com motivos geométricos que se repetem.
O túmulo assenta no lombo de 6 animais quadrúpedes de rosto humano, retratos individuais e personalizados; um dos homens tem barba, outros a cara rapada, uns têm cabelo e outros são calvos. Houve quem julgasse na época, serem as imagens dos assassinos de D. Inês, que D. Pedro quis retratados para carregarem para sempre com o peso da terrível culpa.
A autoria dos túmulos continua desconhecida, embora surjam em geral duas propostas: uma atribuindo-os a artistas estrangeiros (nomeadamente franceses), outra sugerindo que resultam da evolução da escultura tumular portuguesa.

X – O AMOR INFELIZ DE INÊS DE CASTRO E DE D. PEDRO NAS PRODUÇÕES ARTÍSTICAS:

Tal foi a comoção nacional despertada pelos acontecimentos e pela aura de mito que em torno deles se criou, que não passaria, a história de amor entre D. Pedro I e Inês de Castro, incólume na produção artística, seja de Portugal, seja mesmo de outras nações européias. De acordo com o historiador contemporâneo José Hermano SARAIVA, mais de 120 composições musicais foram elaboradas, somente na Itália, tendo por tema o caso de amor. Em França, Henry de MONTHERLAND compôs a peça teatral “La Reine Morte”; na Espanha, “Amor, Corona y Muerte” foi o título que Alejandro CASONA deu a sua peça inesiana. Mas foi na pátria do ocorrido, como não poderia deixar de ser, que as obras literárias acerca do tema proliferaram, promovendo-se enfoques que não podiam senão ecoar de forma profunda a alma lusitana. Segue abaixo abaixo alguns exemplos:

Os primeiros textos de que se tem notícia a enfocar o drama do "Romeu e Julieta português" (nas palavras de Alexandra MARTINS) são de Fernão LOPES (1380?-1460?), cronista que conduz a historiografia lusitana a novas perspectivas, ao filtrar as lendas dos fatos. Ansiava por "escrever verdade, sem outra mistura." Supõe-se que suas crônicas abarcassem do primeiro rei de Portugal (D. Afonso Henriques) até o momento histórico vivido pelo autor. No entanto, apenas três desses textos resistiram ao tempo, a saber: Crônica de D. Pedro, Crônica de D. Fernando e Crônica de D. João I. É precisamente a primeira aquela que relata a história de Inês. Serviu-se, LOPES, de historiadores da época do acontecido e de documentos que ao tempo do historiador chegaram.


Outros historiadores do Humanismo lusitano também se ocuparam da temática, como foi o caso de Rui de PINA (1440-1552) e Cristóvão Rodrigues ACENHEIRO (1474-1536?), que, sobre a reconciliação entre D. Afonso IV e o inconsolável filho, escreveu: "E vendo os povos de Portugal os estragos da terra disseram que se conviessem, se não os que não podiam sofrer."

Em termos propriamente literários, pensando-se em obras pautadas num fim estético, é nas "Trovas à Morte de D. Inês de Castro" que o desaparecimento da amante do infante tem seu debute. Redigidas por Garcia de RESENDE (1470?-1536), a composição é publicada no “Cancioneiro Geral” (1516), obra coligida pelo mesmo autor. É uma recolha de textos líricos, lírico-narrativos e lírico-dramáticos produzidos no âmbito do paço, a chamada poesia palaciana. A composição de RESENDE tende a fundir várias referências literárias, desde elementos da cultura clássica até práticas eminentemente medievais, como no momento em que o eu-lírico se dirige à audiência. O alçar-se à condição de heroína uma figura histórica é uma das inovações mais significativas que o poeta operou. Seguem três estrofes das trovas. Na primeira, fala Inês, já cumprido o seu destino. Na segunda, um de seus algozes, cavaleiro de D. Afonso IV, detém a voz. A derradeira, emitida pelo eu-lírico, é o desfecho do poema.

 
Qual será o coração,
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
ua tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que por ter muito fervente
lealdade, fé, amor,
ó príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente.

[...]

Â??Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos:
o príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora de pecado.
Quâ??agora seja anojado,
amanhã lhâ??esquecerá!â??

[...]

Em todos os seus testemunhos
a declarou por mulher,
e por sâ??isto melhor crer,
fez dois ricos moimentos,
em quâ??ambos vereis jazer
rei, rainha, coroados,
mui juntos, não apartados,
no cruzeiro dâ??Alcobaça.
Quem puder fazer bem, faça,
pois por bem se dão tais grados.

Se Garcia de RESENDE promoveu a estréia de Inês no plano literário, é Luís de CAMÕES (1525?-1580), a grande referência da poesia lusitana ao lado de Fernando PESSOA, que se responsabiliza por consagrar a temática. Em “Os Lusíadas”, grande épico do povo português, o autor inclui o “Episódio de Inês de Castro” (que, longe de catalisar a ação, mostra-se complementar à história das conquistas lusitanas). Eis uma estância (das 18 que há) a enfocar a temática. Está no Canto III de “Os Lusíadas”.


Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hua fraca dama delicada?

Contemporâneo de CAMÕES e classicista como este, Antonio FERREIRA (1528-1569) compõe a “Tragédia de D. Inês de Castro”, drama que, sem abrir mão da estrutura clássica, contempla um fato histórico de Portugal. Trata-se, um tal comportamento, de uma renovação do gênero, uma vez que se deixa de lado a mera imitação aos modelos da Antiguidade. A obra de FERREIRA é relevante, ainda, por conferir humanidade às personagens, que longe estão de ser indivíduos de comportamento linear. O trecho a seguir mostra Inês a pedir clemência ao soberano D. Afonso IV. Foi extraído do IV Ato.


INÊS -
Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura e livre tâ??esperar,
Em ti e em minhâ??inocência confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
Dâ??armas e cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.

Durante o período romântico (século XIX), há autores que, embalados pela recuperação do passado nacional, ocupam-se da história da mulher que foi rainha depois de morta. Adepto de ideais simbolistas e saudosistas, Antonio PATRÍCIO (1878-1930) será autor do poema dramático “Pedro o Cru”, que não despreza o episódio de D. Inês de Castro.


Ainda no plano do Saudosismo (movimento nacionalista que, associado à Renascença Portuguesa, algumas relações manteria com o Modernismo lusitano), destacou-se a figura de Teixeira de PASCOAES (1877-1952) a ocupar-se do tema da morte de Inês. A faceta místico-histórica de Fernando PESSOA (1888-1935), mais que natural, não despreza a temática, bem como farão Jaime CORTESÃO (1884-1960) e Ângelo LIMA (1872-1921), autor do poema "Inês de Castro".

No plano da segunda metade do século XX, cabe destaque à poetisa Fiama Hasse Pais BRANDÃO (1938-), com o seu "Inês de Manto", vindo a lume em 1971. É o adorno daquela que, só após morrer, é reverenciada como merece.

O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era de escarlata

Também de pranto
e vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa.

Num tempo mais próximo da atualidade, o que só vem a demonstrar a transtemporalidade da temática de Inês de Castro, Augustina BESSA-LUÍS (1922-) publica as “Adivinhas de Pedro e Inês”, de 1986. Num texto que transita entre o literário, o histórico e o biográfico, a autora enfoca o rei D. Pedro I, com referências contínuas, claro está, ao enlace amoroso do soberano com a dama galega. O trecho a seguir mostra João das Regras, personagem histórica, a comentar o suposto casamento entre o infante e a sua amante.


"Mas quanto a D. Pedro ter casado, nunca tive dúvidas; tive só escrúpulos em o afirmar, mas não dúvidas... Eu não provei nada. Limitei-me a calar as bocas, que a política não se faz com murmúrios. [...] Há uma regra que ainda aplico: apoio a tua causa nos modelos estereotipados da opinião popular."


Objeto de considerável produção artística, Inês de Castro parece não ter morrido em vão. Se não para manter airosos os destinos de Portugal, como ansiavam os seus algozes, ao menos para, fenecendo, eternizar-se como a representação deste sentimento tão português que é a saudade. Nesse processo, a mitificação é capital, e redefine os conceitos de realidade e verosimilhança quando se depara com a obra literária, capaz de reunir todos os discursos num só.