sexta-feira, 4 de março de 2011

A QUEDA DA CASA DE USHER, EDGAR ALLAN POE


I. EDGAR ALLAN POE:


Nascido em Boston, EUA, no ano de 1809, o pequeno Edgar perdeu os pais antes de completar três anos de idade (a mãe morreu de tuberculose e o pai, também doente, desapareceu).

Poe foi adotado pelo rico casal John e Francis Allan, que lhe ofereceram uma educação primorosa, tanto na Inglaterra quanto na Escócia. Sua relação com o pai adotivo nunca foi muito boa, principalmente quando o assunto era o futuro: John o queria um advogado ou político, mas Edgar só conseguia se imaginar nos caminhos da literatura. Cedendo à pressão, porém, cursou Direito na Universidade de Virgínia, mas ainda escrevia. Suas farras na universidade, sua notória fraqueza para o álcool e sua compulsão pelo jogo ajudaram a piorar sua relação com os pais adotivos, principalmente pelo montante de dívidas adquiridas em tão pouco tempo longe de casa. Até hoje se ouvem rumores de que Poe usava ópio, mas isto nunca foi comprovado (embora a possibilidade seja realmente muito forte). Decidido a fugir de tudo, ele se alistou no Exército com um nome falso, mas aguentou apenas poucos meses. Sua estada na caserna apenas lhe serviu para ter mais tempo e mais calma para escrever.
Aos 27 anos casou-se com sua prima Virgínia, de apenas 13 anos de idade, e que serviu de inspiração para Ligéia, Berenice, Madeline, Morela, Annabel Lee, Eleonora e todas as outras mulheres presentes nos contos de Poe. É importante destacar que mesmo se afogando em bebedeiras, noitadas, festas sem fim e a loucura constante de sua vida, Edgar Allan Poe mantinha sua mente ágil, a mórbida imaginação em pleno funcionamento e o mesmo voraz apetite para a escrita. Lançou entre 1831 e 1848 várias obras, incluindo "O Relato", "Contos do Grotesco e do Arabesco" (conhecido pelo título de "Histórias Extraordinárias" no Brasil) e o mundialmente conhecido "O Corvo e Outros Poemas".
Em 1847, porém, uma nova desgraça é acrescentada à já conturbada vida de Poe: sua amada Virgínia morre depois de meses de intenso sofrimento, perdendo a luta contra a tuberculose Poe, um homem já atormentado por seus próprios demônios, vê-se mais sozinho ainda no mundo e começa a caminhar lentamente para o seu próprio fim: após mais uma noite louca, a sete de outubro do ano de 1849, o mundo perdeu para sempre o escritor que renovou a palavra "conto" de forma primorosa..
Sua vida sofrida e marcada por tragédias, seu temperamento melancólico e seu talento incontestável fazem de sua figura "maldita" um intrigante mistério e de sua obra uma leitura obrigatória e satisfatória para qualquer pessoa interessada no que há de mais oculto e mais profundo no espírito humano
Tendo feito da alma humana seu tema, Poe era considerado difícil por seus contemporâneos, mas lê-lo hoje é uma obrigação, porque ainda somos os mesmos sobre os quais escreveu.

II. A QUEDA DA CASA DE USHER (ÍNTEGRA):

Son coeur est un luth suspendu;
Sitôt qu’on le touche il rèsonne.*

De Béranger.

* “Seu coração é um alaúde pendurado; tão logo alguém o toca, ressoa.”.

“Durante todo um dia tedioso, escuro e silencioso daquele outono, quando as nuvens pendiam opressivamente baixas no firmamento, estive passando a cavalo por um trecho singularmente lúgubre de terra; e por fim achei-me, enquanto punham-se as sombras da tarde, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como era — mas à primeira vista um senso de insuportável de desânimo tomou minh’alma. Digo insuportável porquanto a sensação não era aliviada por quaisquer daqueles sentimentos meio prazerosos, pois poéticos, com os quais a mente consegue absorver até as imagens naturais mais austeras do desolado e terrível. Examinei a cena situada diante de mim, a mera casa, e os simples traços paisagísticos da propriedade, as paredes áridas, as janelas em forma d’olhos encarando o nada, um pequeno canteiro de junças e uns poucos troncos brancos de árvores apodrecidas, com uma completa depressão d’alma que não posso comparar mais apropriadamente a qualquer outra sensação senão àquele instante posterior ao sonho do farrista do ópio, a amarga passagem para o quotidiano, o terrível tombar do véu. Havia uma algidez, uma depressão, um adoecimento d’alma, uma irredimível aridez do pensamento que nenhum estímulo da imaginação poderia falsear como parte do sublime.
O que era — parei para pensar — o que é que me perturbava tanto ao contemplar a Casa de Usher? Era um mistério todo insolúvel; nem podia eu lutar contra as sombrosas fantasias que se apinhavam sobre mim, enquanto eu ponderava. Fui forçado a recorrer à conclusão insatisfatória de que, apesar de indubitavelmente existirem combinações de objetos naturais bem simples que têm o poder de assim nos afetar, ainda a análise desse poder está entre considerações que estão fora do nosso alcance. Era possível, refleti, que um mero arranjo diferente das particularidades da cena, dos detalhes da imagem, fosse capaz de modificar, ou talvez anular essa impressão pesarosa; e trabalhando essa ideia prendi o meu cavalo à orla escarpada de um pequeno lago escuro mas lúrido que se estendia num tranquilo lustro às cercanias da moradia, e baixei meus olhos — com um estremecimento ainda mais horrífero — na direção das imagens remodeladas e invertidas das junças cinzentas, e os cadavéricos galhos, e as janelas em forma d’olhos encarando o nada.
Não obstante nesta mansão da melancolia então me propunha uma estada d’algumas semanas. O seu proprietário, Roderick Usher, fora um dos meus melhores amigos de infância; mas muitos anos haviam decorrido desde o nosso último encontro. Uma carta, no entanto, viera a mim numa parte remota do país — uma carta da parte dele — que, na sua natureza premente, não admitia outra que a minha réplica. O manuscrito dava clara evidência duma agitação nervosa. O autor falava numa severa enfermidade física — uma deplorável idiossincrasia mental que o oprimia — e um franco desejo de ver-me, eu que era o seu melhor e de fato único amigo, buscando, através da minha prestimosa companhia, algum alívio do seu mal.
Foi à maneira de tudo isso, e muito mais, ter sido dito — foi à clara sinceridade do seu pedido — que não me permitiu sequer hesitar; e de pronto obedeci ao que mesmo assim ainda considerava uma intimação muito singular.
Embora enquanto jovens tivéssemos sido até íntimos, já sabia muito pouco do meu amigo. A sua reserva sempre fora excessiva e costumeira. Tinha ciência, no entanto, que a sua família muito antiga era conhecida, de tempos imemoriáveis, por uma sensibilidade peculiar do seu temperamento, expressando-se por longos períodos em diversas obras de elevada arte, e manifesta, recentemente, em repetidos atos de munificente embora discreta caridade, bem como em apaixonada devoção às complexidades, talvez mais do que às belezas ortodoxas e facilmente reconhecíveis, da ciência musical. Fiquei conhecendo também o fato notório de que da estirpe da família Usher, a todo o momento reverenciada como era, em momento algum, brotara um ramo duradouro; noutras palavras, toda a família sempre se perpetuava por descendência direta, e assim permaneceu com insignificantes e efêmeras variações.
Era esta deficiência, assim considero, enquanto inundava-se em pensamentos acerca da perfeita concordância da propriedade com o caráter exato dos seus habitantes, e enquanto especulava sobre a possível influência que aquela, no longo decorrer dos séculos, possa ter exercido sobre aqueles — era essa deficiência, talvez de natureza colateral, e a consequente transmissão sem desvios de pai para filho do patrimônio com o nome que afinal identificava a ambos fundindo a denominação original da propriedade com o próprio nome curioso e ambíguo da “Casa de Usher” — uma denominação que parecia incluir na mente dos camponeses que a usavam tanto a família quanto a mansão da família.
Já disse que o efeito exclusivo da minha experiência um tanto infantil — o de olhar para o lago — servia para aprofundar a primeira impressão tão singular que eu tivera. Não pode haver dúvida de que a consciência do rápido aumento da minha superstição — e por que não haveria de assim a denominar? — serviu principalmente como acelerador desse aumento. Tal é, há muito já sabia, a paradoxal lei de todos os sentimentos que têm como base o terror. E pode ter sido por essa razão apenas que, quando novamente ergui os meus olhos na direção da casa em si, a partir da sua imagem n’água, cresceu na minha mente uma estranha imaginação — uma imaginação realmente tão ridícula que apenas a menciono para ilustrar a vívida força das sensações que me oprimiam. De tal forma trabalhei a minha mente para de fato acreditar que em torno de toda a mansão e da propriedade pendia uma atmosfera peculiar a estas mesmas e às suas proximidades, uma atmosfera que não tinha qualquer afinidade com o ambiente celeste, mas que exalava das árvores em decomposição, e a parede cinzenta, e o lago silente, um vapor místico e pestilento, monótono, indolente, mal discernível e de um tom carregado.
Tentando desvencilhar o meu espírito do que deve ter sido um sonho, perscrutei mais detalhadamente o aspecto real do prédio. A sua característica central parecia ser o da excessiva antiguidade. O tempo agira fortemente no descolorir das paredes. Minúsculos fungos haviam se espalhado por toda a porção exterior, dependurados numa fina rede vinda da cimalha. Ainda assim não havia qualquer dilapidação mais extraordinária. Nenhuma porção da alvenaria caíra; e parecia haver uma violenta inconsistência entre a ainda perfeita adaptação das suas partes e a condição de desmoronamento das pedras individuais. Nisso havia muito que me lembrava da totalidade especiosa do velho madeiramento interior da casa que há muitos anos apodrecia nalguma abóbada negligenciada, sem qualquer perturbação do fôlego da parte externa. Além dessa indicação de intensa decomposição, o tecido, no entanto, não passava qualquer impressão de instabilidade. Talvez o olho de um observador mais detalhista houvesse descoberto uma fissura mal perceptível, que se estendendo do telhado na parte da frente do prédio, fazia o seu caminho parede abaixo em ziguezague, até perder-se nas soturnas águas do lago.
Apercebendo-me destas coisas, segui por um caminho elevado até a casa. Um criado à minha espera levou o meu cavalo, e atravessei por um arco gótico do vestíbulo. Outro senhor, a passo furtivo, então me conduziu em silêncio através de diversas passagens escuras e intricadas até o estúdio do seu mestre. Muito do que encontrei no caminho contribuiu, não sei de que forma, no sentido de exaltar os sentimentos vagos os quais mencionei anteriormente. Enquanto os objetos ao meu redor — enquanto os entalhes do telhado, as sombrias tapeçarias das paredes, a ebânea negritude dos assoalhos, e os fantasmagóricos troféus heráldicos que chocalhavam aos meus passos, eram coisas com as quais me familiarizara desde a infância — enquanto não hesitei em admitir o quão familiar era tudo isso — ainda me indagava o quanto não familiares eram as imaginações suscitadas por imagens comuns. Numa das escadarias passei pelo médico da família. O seu semblante, pensei, tinha uma mistura de pouca sagacidade com perplexidade. Dirigiu-se a mim trêmulo e seguiu. O criado escancarou uma porta e anunciou-me a seu mestre.
O aposento em que me encontrava era amplo e grandioso. As janelas eram longas, estreitas e pontudas, e a uma distância tão grande do negro assoalho de carvalho que se tornava absolutamente inacessível de dentro. Finos raios duma luz carmínea passavam através da treliça da janela e permitiam que os objetos mais proeminentes ficassem suficientemente distintos; olho, no entanto, não alcançava os ângulos mais remotos do aposento nem os recessos do teto abobadado e com as gregas corroídas. Tapeçarias escuras pendiam nas paredes. A mobília em geral era copiosa, desconfortável, antiga e desconjuntada. Estavam espalhados livros e instrumentos musicais, mas isso não dava qualquer vitalidade à cena. Um ar de severo, arraigado e irredimível desânimo perpassava tudo.
Com a minha entrada, Usher ergueu-se do sofá em que estivera estendido e recebeu-me com uma animação que a princípio me parecia uma cordialidade excessiva — do esforço reprimido do homem viajado, mas entediado. Uma olhada, no entanto, na sua fisionomia convenceu-me da sua perfeita sinceridade. Sentamo-nos; e por alguns momentos, enquanto ele falava, olhei para ele com um sentimento misto de piedade e reverência. Sem dúvida, jamais vi homem algum mudar tão terrivelmente, num período tão breve, quanto Roderick Usher! Tive dificuldade para admitir a identidade do homem lânguido que estava diante de mim com o companheiro da minha infância. Contudo, a feição do seu rosto fora notável em todas as épocas. Uma compleição cadavérica; olhos grandes, líquidos e luminosos sem comparação; lábios um tanto finos e muito pálidos mas com uma curva extraordinariamente bela; um nariz dum delicado tipo hebraico mas com uma largura das narinas incomum em formações semelhantes; um queixo finamente modelado, denunciando, na falta de proeminência, a falta de energia moral; cabelos de uma maciez e delgadeza qual teia de aranha; esses traços, com uma ampliação desordenada acima das têmporas, formavam uma fisionomia nem um pouco fácil de esquecer-se. E então com o mero exagero do caráter predominante desses traços e da expressão que costumavam transmitir, havia tanto de mudança que eu duvidava com que estava falando. A agora lívida palidez da sua pele e o miraculoso brilho do olho, acima de tudo assustava e até me atemorizava. O cabelo sedoso também sofrera parecendo mais descuidado, e com a sua textura turbulenta de teia de aranha, flutuando em vez de cair sobre o rosto, eu não conseguia, mesmo com muito empenho, ligar a sua expressão arabesca com qualquer idéia dalgum ser humano.
Nos modos do meu amigo fiquei imediatamente impressionado com uma incoerência — uma inconsistência; e logo descobri que vinha duma série de fúteis e delicadas lutas para superar um tremor habitual seu — uma excessiva agitação nervosa. Para tal natureza eu realmente já estava preparado, não menos pela sua carta, do que por lembranças de certos traços seus de infância, e por conclusões deduzidas da sua peculiar configuração física e o seu temperamento. Suas ações eram alternadamente vivazes e taciturnas. Sua voz variava rapidamente de uma indecisão trêmula (quando o espírito animal parecia estar absolutamente em estado de latência) àquela espécie de concisão energética —aquela abrupta, opressiva, desapressada e cavernosa enunciação — aquela expressão deprimente, equilibrada e de modulação guturalmente perfeita, que pode ser observada no bêbado inveterado ou no irremediável fumador de ópio nos períodos da sua mais intensa excitação.
Foi então que falou dos propósitos da minha visita, do seu sincero desejo de ver-me, e do alívio que esperava que eu lhe propiciasse. Passou em fim ao que considerava ser a natureza do seu mal. Era, ele disse, um mal físico e de família e para o qual com desespero buscou remediar — uma mera disposição nervosa, imediatamente acrescentou, que sem sombra de dúvida passaria. Expressava-se numa série de sensações sobrenaturais, algumas das quais, como detalhou, interessaram e aturdiram-me; embora talvez os termos e a forma geral de tudo narrar pesasse. Ele sofria muito de uma agudeza mórbida dos sentidos; só a comida mais insípida lhe era suportável; só podia vestir roupas de certa textura; os odores de todas as flores lhe eram opressivos; os seus olhos eram torturados pela mais fina luz; e havia apenas sons peculiares dos instrumentos de corda que não lhe inspiravam horror.
Com uma espécie anômala de terror encontrei-o com inelutável escravo. “Perecerei”, disse, “devo perecer nesta deplorável loucura. Assim, assim mesmo, estarei perdido. Temo o futuro, não o próprio, mas as suas consequências. Estremeço ao pensar em qualquer, no mais trivial incidente que possa se dar nessa minha intolerável agitação d’alma. Na verdade não tenho medo do perigo, exceto no seu absoluto efeito — o terror. Nesta condição desalentadora, desprezível sinto que cedo ou tarde terei de deixar dessa vida e abandonar a razão em absoluto, na luta contra este hediondo fantasma, o MEDO.”
Fiquei ciente, além disso, em intervalos e através de insinuações irregulares e ambíguas, doutro traço singular da sua condição mental. Ele estava acorrentado a certas impressões supersticiosas quanto à sua própria residência a qual jamais ousou abandonar — quanto a uma influência cuja força supositícia era transmitida em termos demais sombrios para aqui relatar — uma influência cujas peculiaridades da mera forma e substância da mansão da família tinham, por força de muito sofrimento, ele disse, predominado sobre o seu espírito — um efeito que a física das paredes e torres cinzentas e do obscurecido lago para o qual todas elas olhavam trouxera finalmente à moral da sua própria existência.
Admitiu, no entanto, embora hesitando, que boa parte da sua peculiar melancolia que tanto o afligia poderia ser advinda de uma origem mais natural e bem mais palpável — de uma doença severa e perseverante — de fato de uma dissolução evidentemente próxima — de uma tenra e amada irmã — por longos anos a sua única companheira — a sua última e única parente na terra. “O seu falecimento”, disse com uma amargura que jamais esquecerei, “transformá-lo-ia (ele, frágil e sem esperança) no último dos descendentes dos Usher.” Enquanto falava, a senhorita Madeline (assim era chamada) passou lentamente por uma porção mais escondida do recinto e, sem tendo percebido a minha presença, desapareceu. Observei-a com absoluto espanto não destituído de apreensão. Sua figura, os seus cabelos, as suas feições — tudo, até as minúcias do seu desenvolvimento eram aquelas — eram identicamente (não encontro termo mais preciso) eram identicamente aquelas do Roderick Usher que estava ao meu lado. Uma sensação de estupor oprimiu-me ao acompanhar os seus passos de retirada. Quando uma porta, por fim, fechou-se depois de ela passar, os meus olhos buscaram instintiva e ansiosamente a fisionomia do irmão — mas ele enterrara o seu rosto nas mãos, e eu só conseguia perceber que uma palidez nem um pouco comum estendera-se sobre os dedos emaciados dos quais gotejavam lágrimas apaixonadas.
A doença da senhorita Madeline há muito tem baldado a habilidade dos médicos. O diagnóstico era uma apatia fixa, uma gradual debilitação da identidade e frequentes embora passageiras afecções de uma natureza parcialmente cataléptica. Até então ela suportara firme a pressão da doença e não se entregara à cama; mas, no cair da tarde em que eu chegara, sucumbiu (como contou o seu irmão numa agitação indescritível) à força opressiva do flagelo; e descobri que o relance que eu tivera da sua figura provavelmente seria a última que eu tivesse — que a senhorita, pelo menos em vida, eu não mais veria.
Por vários dias seguidos o seu nome não era mencionado nem por Usher nem por mim: e nesse período eu estava ocupado em sinceras tentativas de aliviar a melancolia do meu amigo. Pintamos e lemos — ou eu assisti, como num sonho, às entusiásticas improvisações do seu violão. E assim, ao passo que uma intimidade cada vez profunda possibilitava que eu conhecesse sem reserva os recessos do seu espírito, com maior tristeza eu percebia a futilidade de qualquer tentativa de reanimar uma mente da qual a escuridão, como que uma qualidade positiva inerente, derramava sobre todos os objetos do universo moral e físico, numa incessante radiação de melancolia.
Jamais sairá da minha mente as muitas horas solenes que assim permaneci com o senhor da Casa de Usher. Ainda assim era difícil de passar uma noção exata da natureza dos estudos ou das ocupações a que ele me envolvia ou que ele me mostrava o caminho. Uma idealidade excitada e altamente destemperada lançou um lustre incandescente sobre tudo. Suas longas e improvisadas nênias hão de ressoar para sempre nos meus ouvidos. Entre outras coisas, guardo de forma dolorosa na mente uma certa deturpação e amplificação singular da atmosfera entusiasmada da última valsa de Von Weber. Das pinturas sobre as quais remoia a sua imaginação, e que se inseriam a cada toque mais e mais na imprecisão que fazia eu ter um tremor cada vez maior, porquanto tremia sem saber por quê; — dessas pinturas (tão vívidas quanto hoje são para mim) em vão buscava deduzir mais do que apenas uma pequena porção que deviam estar no compasso de meras palavras escritas. Pela absoluta simplicidade, pela nudez dos seus desenhos, ele aprisionava e intimidava a atenção. Se alguma ideia já foi pintada por algum mortal, este foi Roderick Usher. Para mim pelo menos — nas circunstâncias em que me encontrava — ascendia das puras abstrações que o hipocondríaco excogitava para jogar na tela, uma intensidade de intolerável respeito, mas nenhuma sombra eu percebia ao contemplar os devaneios certamente brilhantes embora demasiado concretos de Fuseli.
Uma das concepções fantasmagóricas do meu amigo, que não partilhavam tão rigidamente do espírito da abstração, podem ser esboçados, embora debilmente, em palavras. Uma pequena pintura apresentava o interior de uma abóbada ou túnel imensamente extenso e retangular, com paredes baixas, lisas, brancas e sem interrupção nem ornamento. Certos pontos acessórios do desenho transmitiam muito bem a ideia de que esta escavação jazia numa excessiva profundidade abaixo da superfície da terra. Não se achava uma saída em qualquer porção da sua vasta extensão e não era discernível qualquer tocha ou outra fonte artificial de luz; não obstante uma inundação de intensos raios rolavam e banhavam o todo num esplendor assustador e impróprio.
Há pouco falei daquela condição mórbida do nervo auditivo que traduzia todo tipo de música como intolerável para a vítima, com exceção de certos efeitos dos instrumentos de corda. Talvez fossem os limites débeis de seu confinamento ao violão, que deu origem, em grande parte à fantástica natureza da sua arte. Mas a fervorosa facilidade do seu improptu não podia ser explicado dessa forma. Devia estar, e estava, nas notas bem como nos versos das suas entusiásticas fantasias (pois não raramente era acompanhada de improvisações verbais rimadas), o resultado dessa intensa coletânea e concentração mental a que aludi anteriormente como perceptíveis apenas em momentos singulares da excitação artificial mais acerbada. Lembro-me bem dos versos de uma dessas rapsódias. Estivesse eu talvez mais fortemente impressionado, quando ele ma apresentou, pois, na corrente subterrânea ou mística dos seus significados, imaginei ter percebido, pela primeira vez, uma total consciência da parte de Usher quanto ao vacilar da sua sublime razão do seu trono. Os versos, intitulados “O Palácio Mal-Assombrado” eram muito aproximados senão precisamente estes:

I.
No mais verde dos nossos vales,
Que os bons anjos têm como seus lares,
Outrora um palácio justo e majestoso—
Radiante palácio
Ergueu o seu corpo.
Nos Pensamentos do monarca
Lá se encontrava!
E nenhum serafim jamais estendeu suas asas
Sobre construção tão imaculada.

II.
Estandartes da cor douro, gloriosos
No alto de suas torres flamejavam;
(Tudo isso nos velhos tempos doutrora)
E cada brisa gentil que lá brincava,
Naqueles serenos dias,
Pelos baluartes emplumados e pálidos,
Odor alado transmitia.

III.
Os viajantes daquele vale feliz
Através de duas janelas luminosas viam
Espíritos que com a música se moviam
Segundo as notas harmoniosas de um alaúde
Em torno do trono
Onde estava o todo poderoso
Porfirogênito
Do seu reino de glórias.

IV.
E cheio de pérolas e rubis
Resplandecente era aquele palácio
Onde vinha sempre fluindo
E cintilando para todo o sempre
Um esquadrão de ecos cuja doce tarefa
Era cantar e cantar
Com vozes de excelsa beleza
A sabedoria e a sapiência régia.

V.
Mas o mal, em trajes de pesar
Veio assaltar a grande propriedade
Do monarca;
(Ah, haveremos de lamentar,
Pois manhã alguma será como dantes!)
E em torno daquele trono
A glória que flamejava e vicejava
Agora é só um sonho dos amantes
Que dormem o sono desse outono.

VI.
E os viajantes que hoje andam nesse vale,
Através das mal iluminadas janelas, vêem
Vastas formas fantasmagóricas que vão e vêm
Numa melodia de discórdia;
Enquanto, qual um rápido rio lívido
Através da pálida porta,
Horrenda multidão se precipita
À fora em meio a risadas sem um sorriso.

Bem me lembro que as sugestões vindas desta balada levou-nos a uma corrente de ideias onde estava manifesta a opinião de Usher que menciono não tanto pela sua novidade (pois outros homens têm pensado assim) quanto pela pertinácia com que a mantinha. Tal opinião, na sua forma geral, era a da perceptibilidade de todas as coisas vegetais. Mas na sua imaginação desordenada a ideia assumia um caráter ainda mais ousado e sob certas condições ia além do reino dos inorgânicos. Faltam-me palavras para exprimir a completa extensão ou o franco abandono da sua persuasão. A crença, no entanto, estava ligada (como já insinuei) às pedras cinzentas da casa dos seus antepassados. As condições dessa perceptibilidade consistiam, imaginava ele, no método de colocação destas pedras — no arranjo destas bem como no daqueles fungos que por ali se espalhavam, e das árvores em decomposição que estavam ao redor — sobretudo, na longa e imperturbada duração desse arranjo e na sua reduplicação nas águas quietas do lago. Sua evidência — a evidência da perceptibilidade — era visível, dizia ele, (e eu aqui me assustei com as suas palavras) na gradual mas segura condensação de uma atmosfera própria em torno das águas e das paredes. O resultado era discernível, acrescentou, naquela influência silente, embora terrível e persistente que por séculos moldara os destinos da sua família, e que fizera dele tal como eu agora o via — o que ele era. Tais opiniões não necessitam quaisquer comentários e não os farei.
Nossos livros — livros que por anos não foram poucos na existência mental do inválido — estavam, como poderia se supor, dentro da linha estrita desta natureza do fantasmagórico. Acumulamos obras como “Ververt et Chartreuse”, de Gresset; “Belphegor”, de Maquiavel; “O Céu e o Inferno”, de Swedenborg; “A Viagem Subterrânea de Nicholas Klimm”, de Holberg; “A Quiromancia de Robert Flud”, Jean D’Indaginé e de La Chambre; “Viagem no Azul”, de Tieck; e “Cidade do Sol”, de Campanella. Um dos volumes favoritos era uma edição in octavo do Directorium Inquisitorium do dominicano Eymeric de Gironne; e havia passagens de Pomponius Mela, sobre os velhos sátiros africanos e dos egipãs.....Seu principal deleite, no entanto, consistia na leitura dum livro excessivamente raro e curioso, um in quarto gótico — manual duma igreja esquecida —, Virgiliae Mortuorum Secundum Chorum Eclesiae Maguntinae.
Não pude deixar de pensar no violento ritual desta obra e a sua provável influência sobre o hipocondríaco, quando, numa tarde, tendo me informado de súbito que a senhorita Madeline partira, declarou a sua intenção de preservar o corpo dela por uma quinzena (antes do seu sepultamento final) numa das numerosas adegas que havia nas principais paredes do prédio. Não me senti, no entanto, à vontade para contestar a razão secular atribuída a este procedimento singular. O irmão fora levado a tal decisão (assim me contou) ao considerar a natureza incomum do mal da falecida, ao considerar certas indagações impacientes e intrometidas da parte dos médicos e a localização remota e desprotegida do cemitério da família. Não nego que quando me lembro da fisionomia sinistra da pessoa que encontrei na escada no dia da minha chegada a casa, não tive qualquer disposição para opor-me ao que eu considerava na melhor das hipóteses uma precaução inofensiva e de forma alguma não natural.
A pedido de Usher, pessoalmente o auxiliei no enterro provisório. O corpo sendo confinado no caixão, a sós levamo-lo ao seu lugar de descanso. A adega em que a colocamos (e que há tanto tempo não havia sido aberta que as nossas tochas, semi-amortecidas no seu ambiente arquejante, não nos permitiam uma investigação mais apurada) era pequena, úmida e sem qualquer possibilidade de entrada de luz; ficando, em grande profundidade, imediatamente abaixo daquela porção do prédio em que se localizava o meu aposento. Fora usado, aparentemente, nos antigos tempos feudais, para os piores propósitos de calabouço, e, mais tarde, como espaço para depósito de pólvora ou alguma outra substância altamente inflamável, uma vez que uma parte do assoalho e todo o interior de um extensa passagem em arco através da qual ali chegamos estavam cuidadosamente revestidos de cobre. A porta, de ferro maciço, fora também protegida dessa forma. Seu imenso peso produzia um som inusitadamente agudo e irritante, quando movida sobre os seus gonzos.


Tendo depositado o nosso pesaroso fardo sobre cavaletes nesta região de horrores, deixamos ainda parcialmente aberta a tampa não parafusada do caixão e olhamos para o rosto do seu ocupante. A formidável semelhança entre o irmão e a irmã pela primeira vez chamara a minha atenção; e Usher, talvez adivinhando os meus pensamentos, murmurou umas poucas palavras das quais depreendi que a finada e ele eram gêmeos e que afinidades de uma natureza mal discernível sempre existira entre eles. Nossos olhares, no entanto, não eram para a morta, pois não conseguíamos a contemplar sem temor. A doença que dessa forma sepultara a senhorita na plenitude da sua mocidade deixara, como é comum em todos os males de natureza estritamente cataléptica, a zombaria de um leve rubor no peito e no rosto, e o sorriso suspeitosamente prolongado nos lábios que é tão terrível na morte. Recolocamos e parafusamos a tampa e, tendo verificado a porta de ferro, dirigimo-nos com afã aos recintos um pouco menos sombrios da porção superior da casa.

E agora, alguns dias de amargo pesar tendo transcorrido, deu-se uma mudança visível nos sintomas do distúrbio mental do meu amigo. Desaparecera aqueles seus modos costumeiros. Suas ocupações usuais foram negligenciadas ou esquecidas. Ele vagava de quarto em quarto a passo apressado, desigual e sem objetivo. A palidez da sua fisionomia assumira, se é possível, um tom ainda mais cadavérico — mas a luminosidade do seu olho absolutamente desaparecera. A rouquidão outrora ocasional da sua voz já não se ouvia; e um tremido, como se de um extremo horror, agora caracterizava a sua voz. Havia vezes, de fato, que eu pensava que o seu espírito incessantemente agitado estava lidando com um segredo que o deprimia, lutando ele para ter a necessária coragem de divulgá-lo. Por vezes, eu era obrigado a incluir tudo nas extravagâncias meramente inexplicáveis da sua loucura, quando o vi olhando para o nada durante horas a fio, numa atitude da mais profunda atenção, como que escutando um som imaginário. Não é de se surpreender que este seu sintoma aterrorizasse — que me contagiasse. Senti subirem, rastejando em mim, lenta mas definitivamente, as ferozes influências das suas fantásticas, impressionantes superstições.
Foi ainda mais especialmente depois de ir deitar-me, já noite alta, no sétimo ou oitavo dia após termos colocado a senhorita Madeline no calabouço, que experimentei a verdadeira força de tais sentidos. O sono não alcançava a minha cama — enquanto as horas minguavam. Lutava para discernir o nervosismo que tinha domínio sobre mim. Esforcei-me para acreditar que tal, senão tudo que eu sentia, era devido à influência fantasmagórica da mobília lúgubre do quarto — das tapeçarias escuras e esfarrapadas, que, forçadas ao movimento pelo sopro de uma tempestade vindoura, balançavam espasmodicamente de um lado para o outro contra as paredes e roçagavam nos ornamentos da cama. Mas os meus esforços foram em vão. Um tremor insopitável gradualmente se impregnou no meu corpo e longamente pousou na minh’alma um íncubo de absoluto e infundado alarme. Lutando para sacudi-lo de cima de mim, com um suspiro, ergui-me sobre os travesseiros, e francamente espiando a intensa escuridão do aposento, atentei — não sei por quê, a não ser que estivesse me incitando um espírito instintivo — para certos sons baixos e indefinidos que me vinham, através das pausas da tempestade, em longos intervalos, não sei donde. Acabrunhado por um intenso sentimento de terror, inexplicável e ainda assim insuportável, vesti as minhas roupas com pressa, pois senti que não mais dormiria naquela noite, e esforcei-me para irromper da deplorável condição a que sucumbira, dando passos rápidos para lá e para cá pelo recinto.
Dera apenas algumas voltas, quando um leve passo numa das escadarias contíguas deteve a minha atenção. Logo percebi que era Usher. Um instante depois ele bateu, com um leve toque, à minha porta, e entrou, trazendo uma lâmpada. Sua fisionomia estava, como de costume, cadavericamente descorada — mas havia uma espécie de entusiasmada hilaridade nos seus olhos — uma histeria evidentemente constrangida no todo do seu comportamento. Sua aparência estarreceu-me — mas qualquer coisa era melhor do que a solidão que tanto eu aguentara, e recebi a sua presença até mesmo como um alívio.
“E não viste?” disse abruptamente, após eu ter olhado para ele por alguns instantes em silêncio — “não viste? — mas espera, e verás!” Assim falando e cuidadosamente protegendo a lâmpada, apressou-se na direção de uma das gigantescas janelas e escancarou-a para a tempestade. A fúria impetuosa de uma lufada entrou no quarto e quase nos levantou do chão. Era uma noite de fato de tempestade mas rigorosamente bela e entusiasticamente singular quanto ao seu terror e à sua beleza. Um remoinho reuniu aparentemente as suas forças na nossa vizinhança; pois havia alterações frequentes e violentas na direção do vento; e a excessiva densidade das nuvens (que estavam tão baixas que pareciam pressionar sobre as torres da casa), todavia, não impedia que percebêssemos a velocidade real com que elas passavam em carreira de todos os lados umas contra as outras, sem seguirem para longe. Digo que mesmo essa densidade excessiva não impedia que tal percebêssemos — ainda assim não conseguíamos ver as estrelas e a lua — nem havia qualquer projeção da luz dos relâmpagos. Mas as superfícies inferiores das enormes massas de vapor agitado, bem como todos os objetos terrestres ao nosso redor, brilhavam na luz não natural de uma exalação gasosa pouco luminosa mas bem visível que se desprendia e encobria a mansão.
“Não deves — não podes olhar para isso”, disse, estremecendo, para Usher, enquanto o afastava, com branda violência, da janela na direção de um assento. “Estas aparições, que te desnorteiam, são meros fenômenos elétricos nada extraordinários — ou talvez tenham a sua horripilante origem no rançoso miasma do lago. Fechemos esta janela — o ar é frio e perigoso para a tua saúde. Lerei para ti — e venceremos esta terrível noite juntos.
O velho volume que eu apanhara era o “Mad Trist” (“Assembléia dos Loucos”) de Sir Launcelot Canning — mas o considerara um dos favoritos de Usher mais como uma triste brincadeira do que a sério; pois na verdade pouco da sua desajeitada e não criativa prolixidade poderia ser interessante para a idealidade espiritual exuberante do meu amigo. Era, contudo, o único livro que estava imediatamente à mão; e agarrei-me a uma vaga esperança de que a agitação que então tumultuava o hipocondríaco pudesse ser aliviada (pois a história do distúrbio mental está cheia de anomalias semelhantes) mesmo com o excesso de insensatez que leria. A julgar, de fato, pelo ar extremamente tenso de vivacidade com que atentava, ou parecia atentar, às palavras do conto, eu poderia congratular-me pelo êxito dos meus propósitos.
Chegara àquela parte muito bem conhecida da história onde Etelredo, o herói de Trist, tendo em vão buscado entrada pacífica na residência do eremita, passa a tentar abrir caminho à força. Aí, como hão de recordar-se, as palavras da narrativa são as seguintes:
“E Etelredo, que era por natureza audaz e que agora sentia-se também forte, por conta do poder do vinho que bebera, não mais esperou para travar discussão com o eremita, que, na verdade, era obstinado e malicioso, mas, sentindo a chuva nos ombros e temendo a chegada de uma tempestade, sem rodeios, ergueu sua clava e, a pancadas, abriu rombo no entabuamento da porta por onde podia entrar a sua manopla, e então puxando a porta com firmeza, deixou tudo em pedaços, de tal forma que o barulho da madeira seca e oca ressoou e sobressaltou toda a floresta.”
Ao término desta frase e por um momento me assustei e interrompi a leitura; pois tive a impressão (embora, imediatamente conclui que a minha imaginação instigada iludira-me) — parecera que, d’alguma parte muito remota da mansão ou da sua vizinhança, vinha, indistintamente, aos meus ouvidos, o que poderia ter sido, pela exata semelhança da sua natureza, o eco (mas certamente abafado, sumido) da destruição desferida pelo herói e tão singularmente descrita por Sir Launcelot. Sem dúvida fora apenas uma coincidência que chamara a minha atenção; pois, em meio aos estalidos dos caixilhos das janelas e dos ruídos misturados da tempestade ainda aumentando, o som, em si, certamente não tinha nada que pudesse me interessar ou perturbar. Retomei a narração.
“Mas o glorioso Etelredo, então passando pela porta, ficou encolerizado e perplexo ao perceber que não havia qualquer sinal do malicioso eremita; mas, no seu lugar, um dragão com um ar monstruoso e vil e uma língua ígnea que ali postado estava diante de um palácio de ouro com um assoalho de prata; e cuja parede portava um reluzente escudo de bronze com a seguinte legenda —
Quem aqui entrar, um conquistador será,
Quem matar o dragão, este brasão receberá.
E Etelredo ergueu a sua clava e bateu na cabeça do dragão, que caiu diante dele e deu o seu suspiro pestilento, com um guincho tão hórrido e estridente e ademais tão penetrante, que Etelredo teve a satisfação de tapar os ouvidos com as mãos perante o medonho ruído que nunca antes ouvira.”
Eis que abruptamente interrompi a leitura e então assaltado de desenfreado assombro — pois não podia haver dúvida do que fosse que naquele instante eu de fato ouvira (embora fosse incapaz de dizer qual era a sua procedência) um grito ou som baixo e aparentemente distante mas estridente, prolongado e por demais incomum — a exata correspondência daquilo que a minha imaginação já evocara como sendo o som do guincho desnatural do dragão descrito pelo romancista.
Impressionado, como certamente estava, com a ocorrência daquela segunda e ainda mais extraordinária coincidência, através de miríades sensações conflitantes, em que admiração e extremo terror eram predominantes, ainda mantive suficiente presença de espírito para evitar o incitamento, por qualquer observação que fosse, do sensível nervosismo do meu companheiro. Eu não tinha qualquer certeza de que ele reparara nos sons em questão; embora seguramente uma estranha alteração nos últimos minutos dera-se no seu comportamento. De uma posição de frente para mim, aos poucos girara a sua cadeira, de forma a ficar de frente para a porta do aposento, e assim eu percebia as suas feições apenas em parte, embora eu visse que os seus lábios tremiam como se murmurasse algo inaudível. Sua cabeça caíra sobre o peito — ainda assim eu sabia que ele não estava dormindo, devido à larga e rígida abertura dos olhos, quando tive um vislumbre do mesmo de perfil. O movimento do seu corpo também dava essa ideia — uma vez que ele se balançava dum lado a outro com uma oscilação suave embora constante e uniforme. Rapidamente tomando ciência disso tudo, retomei a narração de Sir Launcelot, que assim procedia:
“Então o campeão, tendo se desvencilhado da terrível fúria do dragão, lembrando-se do brônzeo escudo e de que o encantamento havia se quebrado, removeu a carcaça da sua frente e deu corajosos passos sobre o pavimento de prata do castelo acima do qual estava o escudo pendurado na parede; que na verdade não esperou para cair aos seus pés no chão de prata, com um estrondoso terrível som ressonante.”
Mal proferiram meus lábios tais sílabas, e — como se de fato um escudo de bronze tivesse no momento despencado pesadamente sobre um chão de prata — tive a exata impressão de ter percebido um ressoar distinto, cavernoso, metálico e estrepitoso, embora aparentemente abafado. Tomado de pavor, convulsivamente me pus de pé; mas o balanço cadenciado de Usher não se alterou. Precipitei-me à cadeira em que ele estava sentado. Seus olhos estavam fixamente inclinados para dentro dele mesmo e em torno de toda a sua fisionomia reinava uma rigidez mais do que empedernida. Mas quando coloquei a mão sobre o seu ombro, um forte estremecimento percorreu todo o seu corpo; um sorriso doentio trepidou nos seus lábios; e vi que proferiu um murmúrio baixo, precipitado e numa algaravia, como se não ciente da minha presença. Curvando-me bem perto da sua pessoa, finalmente mergulhei na horrenda significação das suas palavras.
“Não estás escutando? — sim, estou, e tenho escutado. Há longos — longos, muitos minutos, muitas horas, muitos dias tenho escutado — ainda assim não ouso — oh, pobre de mim, miserável, deplorável criatura que sou! — não ouso — não tenho coragem de dizer! Nós a sepultamos viva! Não disse que os meus sentidos estavam aguçados? Agora afirmo que ouvi os seus primeiros frágeis movimentos no falso caixão. Eu os ouvi — muitos, muitos dias atrás — ainda assim não ousava — não ousava contar! E agora — esta noite — Etelredo — ha! ha! — o rompimento da porta do eremita, e o choro de morte do dragão, e o estrondo do escudo — ou melhor, o romper-se do caixão, e ranger dos gonzos de ferro, e o seu debater-se no interior da passagem em arco revestida de cobre da adega! Oh onde me esconderei? Não estará ela conosco daqui a pouco? Não estará correndo para repreender-me pela minha precipitação? Não foram os seus passos na escada que ouvi? Não distingo o pesado e horrendo bater do seu coração? Louco!” — então ergueu-se abruptamente e guinchou as sílabas como se com aquele esforço estivesse entregando a sua própria alma — “Louco! Digo que agora ela está doutro lado da porta!”


Como se a energia sobre-humana da sua declaração desencadeasse a força de um encantamento — as enormes e antigas almofadas para as quais Usher apontava escancararam imediatamente suas ponderosas mandíbulas de ébano. Fora obra de furiosa lufada — mas então doutro lado da porta estava de pé a altiva e amortalhada figura da senhorita Madeline de Usher.



Havia sangue sobre as suas vestes brancas e evidência de uma amarga luta em cada parte do seu corpo emaciado. Por um momento permaneceu tremendo e cambaleando para lá e para cá na soleira da porta — então, com um soluço baixo e gemebundo, caiu pesadamente para frente sobre a figura do irmão, e nos seus estertores horrendos e ora finais, derrubou-o ao chão, um cadáver e uma vítima dos horrores dos que ele mesmo temia.

Daquele recinto e daquela mansão fugi apavorado. A tempestade ainda estava lá fora com toda a sua fúria, quando me vi cruzando aquele velho caminho elevado. De súbito irrompeu ao longo do caminho uma luz desenfreada, e voltei-me para tentar ver donde poderia vir um raio de luz tão incomum; pois atrás de mim só havia a imensa casa e as suas sombras. A radiação era a de uma lua cheia cor de sangue, que então brilhava vivamente através daquela fissura outrora mal discernível, que, já falei, se estendia desde o telhado em ziguezague até a sua estrutura. Enquanto olhava, essa fissura rapidamente se alargou — veio o sopro violento de um remoinho — a órbita inteira do satélite rebentou-se de uma só vez à minha vista — minhas ideias giraram enquanto eu via as possantes paredes desmoronarem — fez-se um longo e tumultuoso estrondo qual o som retumbante de uma multidão de águas — e o profundo e encharcado lago aos meus pés soturna e silenciosamente se fechou sobre os fragmentos da Casa de Usher.”

III – TÍTULO:

O título anuncia, de certo modo, o desfecho do conto, ou seja, a destruição da casa. É uma antecipação, uma premonição da queda da casa, tanto da casa em si quanto da família Usher: Roderick Usher e sua irmã Madeline, seus últimos descendentes.

IV – TEMPO:

O tempo predominante da narrativa é cronológico. A história se passa no outono, período em que as folhas caem, o que pode sugerir metaforicamente a decadência e a morte.

“Durante todo um dia tedioso, escuro e silencioso daquele outono, (...) por fim achei-me, enquanto punham-se as sombras da tarde, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como era - mas à primeira vista um senso de insuportável desânimo tomou minha’ alma.”

V – FOCO NARRATIVO:

Narrado em 1a pessoa por uma personagem cujo nome não é revelado, procura inserir o leitor em uma atmosfera fria e depressiva marcada por certo mistério e mal-estar, durante o tempo em que esteve na casa do amigo Roderick Usher, que padece de uma grave doença e adivinhando o seu fim, chama-o para seu convívio.

"Havia uma algidez, uma depressão, um adoecimento d'alma, - uma irredimível aridez do pensamento que nenhum estímulo da imaginação poderia falsear como parte do sublime. O que era - parei para pensar - o que é que me perturbava tanto ao contemplar a Casa de Usher? Era um mistério todo insolúvel (...)"

 VI – CARACTERÍSTICAS:

Edgard Allan Poe é famoso por suas narrativas fantásticas e perturbadoras e, o conto “A queda da casa de Usher” não foge à regra.

Para Poe, (...) existe sempre a ideia de um projeto, ou propósito ou intenção, que posteriormente passa a ser executado, mediante trabalho racional. Segundo ele, "com a precisão e rígida lógica de um problema matemático." (GOTLIB, 1985, p.38)

VII – ESTRUTURA:

Esta obra é composta por três contos de Edgar Allan Poe representativos do legado sui generis deixado pelo autor americano natural de Boston: “A Queda da Casa de Usher”, “Uma Descida ao Maelström” e “O Homem da Multidão”.

VIII – ANÁLISE DO CONTO:



Em “A Queda da Casa de Usher” o leitor é arrastado, tal como o próprio narrador, para um ambiente de reclusão e loucura inquietantes personificados pela fantasmagórica Casa dos Usher e pelos seus habitantes, os derradeiros herdeiros de um nome antigo que, agora, condenados ao desaparecimento precoce a que a doença, irremediavelmente, o parece sentenciar.
O isolamento dos dois irmãos Usher, Roderick e Madeline, é quebrado pelo aparecimento do narrador, amigo de longa data do primeiro, chamado pelo enfermo para o serenar com a sua companhia no momento particularmente opressivo que vivia.
O narrador inicia o conto descrevendo o caminho que percorre para chegar até a casa de um amigo de infância que há muito não vê.
São descrições minuciosas que retratam o ambiente mórbido, tanto o físico quanto o psicológico de toda a situação.
Ao chegar a casa, o narrador defronta-se com duas janelas que parecem olhos vazios, entre as quais destaca uma rachadura. Além disso, a casa fica junto a um pântano, que reflete a arquitetura ameaçadora do edifício.

Tapeçarias escuras pendiam nas paredes. A mobília em geral era copiosa, desconfortável, antiga e desconjuntada. Estavam espalhados livros e instrumentos musicais, mas isso não dava qualquer vitalidade à cena. Um ar de severo, arraigado e irredimível desânimo perpassava tudo.”

As sensações experimentadas pelo narrador causam-lhe acentuada angústia, principalmente por trazer-lhe recordações de dias felizes de infância passados lá e são preparatórias para algo de estranho que iria acontecer.
Nesse ambiente há forte ideia de morte e de decomposição, tanto na casa como na aparência física de seu amigo, que mais lembrava um defunto.

Uma compleição cadavérica; olhos grandes, líquidos e luminosos sem comparação; lábios um tanto finos e muito pálidos (...)”

Usher informa ao amigo que sofre de uma doença nervosa que atacou toda sua família, conta-lhe que morrerá disso e que também em consequência dessa doença sentirá infindáveis sensações anormais. Mora também naquela casa Lady Madeline Usher, sua única parente viva, epiléptica e cataléptica.
Roderick Usher é uma personagem em desacordo com o mundo, avesso a tudo que se remete a vida; sua casa é seu mundo, fora disso se sente inadaptado, pois "estava acorrentado a certas impressões supersticiosas quanto à sua própria residência a qual jamais ousara abandonar". A mansão representava seu mundo particular.
A irmã Usher não é descrita fisicamente. Ela aparece e desaparece rapidamente, dando a impressão de um ser etéreo, alheio àquilo que o cerca, mesmo assim consegue despertar o terror e o assombro no narrador:

Enquanto falava, a senhorita Madeline (assim era chamada) passou lentamente por uma porção mais escondida do recinto e, sem ter percebido minha presença, desapareceu”.

O narrador relata sobre a doença da senhorita Madeline que inutilmente tem desafiado a habilidade dos médicos. Vivia melancólica, apática e apresentava afecções de uma natureza parcialmente cataléptica.

Até então ela suportara firme a pressão da doença e não se entregara à cama; mas, no cair da tarde em que eu chegara, sucumbiu (como contou o seu irmão numa agitação indescritível) à força opressiva do flagelo; e descobri que o relance que eu tivera da sua figura provavelmente seria a última que eu tivesse — que a senhorita, pelo menos em vida, eu não mais veria.”

Os dias seguiram e o nome de Madeline foi omitido pelo irmão e também, não mencionado pelo narrador, que dedicava suas horas, pintando e lendo, na tentativa de aliviar a melancolia do amigo. E assim prossegue, narrando seus afazeres na casa, quando fica sabendo da morte da senhorita Madeline e da decisão de Roderick de aguardar quinze dias antes do sepultamento final, devido à catalepsia, encerrando-a na adega da casa, um calabouço, uma "região de horrores".
No enterro provisório, no calabouço, revela que são gêmeos e por isso a tamanha semelhança na aparência.
Usher parece que já previa o que o destino lhe reservava. A mansão é carregada de lembranças de fatos passados, dando impressão que o medo de Usher está ligado a essas reminiscências, aos acontecimentos pretéritos; medo de que um dia uma verdade dolorosa e traumática venha à tona, causando maiores estragos. Talvez esse seja o motivo que o levou a enterrar a irmã viva, porque a presença dela representa sua própria lembrança, na medida em que os dois compartilhavam todos os momentos de suas vidas:

“(...) à morte e à decomposição evidentemente próxima (...) de uma irmã ternamente amada, sua única companheira durante longos anos, e sua última e única parenta sobre a terra"
Neste momento, a narrativa apresenta a suposta existência de uma relação incestuosa entre os dois irmãos. Embora o incesto não seja revelado, é possível pensar que seja uma das causas que atormenta Usher a tomar certas atitudes:

“(...) devo perecer nesta deplorável loucura. Assim, assim, e não de outra maneira, é como devo morrer. Aterram-me os acontecimentos futuros, não por si próprios, mas pelos seus resultados. (...) sinto que chegará logo o momento em que deverei abandonar, ao mesmo tempo, a vida e a razão, em alguma luta com o horrendo fantasma: o medo.”

Depois da morte da irmã, a doença de Usher se agrava e o seu comportamento se altera, indicando a dependência que um tinha do outro.

Havia vezes, de fato, que eu pensava que o seu espírito incessantemente agitado estava lidando dom um segredo que o deprimia, lutando ele para ter a necessária coragem de divulgá-lo.”

Sete ou oito dias após a morte de Madeline, o narrador sai pela casa sem sono e encontra Usher trêmulo e apavorado. Tentando distrair a si e ao amigo, lê um conto de Ethelred. A leitura prende a atenção de ambos, mas ao ler sobre um arrombamento, um grito e um estrondo, parecem ser reais, porém abafados.
A leitura de episódios do conto coincide com uma série de acontecimentos estranhos que resultam no reaparecimento da irmã morta, que na verdade sofria de catalepsia e fora enterrada viva.
Depois de algum tempo Usher declara: "Nós a sepultamos viva!".
Dessa forma, possíveis segredos são desvendados: ter enterrado viva a sua irmã e o incesto.
Usher tomado por um sentimento de culpa que o afligia; ao enterrá-la viva, procura eliminar seu objeto de desejo, além de enterrar as lembranças desse passado, mas este passado está presente em toda a casa, nos objetos e espaços. Mesmo após ser enterrada ela não morre, continua a manifestar-se por meio de ruídos e sons indefinidos, até que surgiu "altiva e amortalhada".
Em pânico, assistem à aparição de Lady Madeline Usher, que com uma forte rajada de vento surge e cai por sobre seu irmão, que previra todo aquele terror e ambos morrem.

Por um momento permaneceu, trêmula e vacilante, sobre o umbral; depois, com grito abafado e queixoso, caiu pesadamente sobre o irmão e, em sua violenta e, agora, final agonia, o arrastou para o chão já cadáver, vítima dos terrores que havia previsto.”

O narrador, então, foge aterrorizado da casa e quando olha para trás vê somente a lua vermelha como o sangue e a casa desmoronando e sendo sucumbida pelo lago.
Sabe-se que há uma tempestade terrível lá fora e o lago que existe ali é mais um dos motivos porque os alicerces da casa não resistam à tempestade.
O surgimento da Lady marca o retorno de tudo aquilo que deveria ficar recôndito e a destruição final da mansão, remete à expiação de todos os erros e pecados mantidos ocultos por tanto tempo.

Enquanto olhava, essa fissura rapidamente se alargou - veio o sopro violento de um remoinho (...) eu via as possantes paredes desmoronarem - fez-se um longo e tumultuoso estrondo qual o som retumbante de uma multidão de águas - e o profundo e encharcado lago aos meus pés soturna e silenciosamente se fechou sobre os fragmentos da Casa de Usher.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1. O efeito do terror, do medo interno:

O narrador já se coloca de início que, encontrando-se em frente à Casa de Usher, ele foi invadido de uma “insuportável tristeza” provocada pelas “imagens naturais mais severas da desolação e do terrível”. Logo mais, essa sensação será acentuada: a consciência da superstição (assim diz Poe) potencializou aquela sensação, o sentimento de terror. Roderick Usher, o anfitrião do narrador, também revela seu terror:

Aterram-me os acontecimentos futuros, (...) Tremo ao pensar mesmo no mais trivial incidente, pelo efeito que possa ter sobre esta intolerável agitação de minha alma. Não receio, efetivamente, o perigo, exceto em seu efeito absoluto: o terror. Neste estado de excitação... nesta lamentável condição... sinto que chegará logo o momento em que deverei abandonar, ao mesmo tempo, a vida e a razão, em alguma luta com o horrendo fantasma: o medo.”

Toda a narrativa, assim, será construída tendo-se em mente o medo e, então, a forma escolhida será uma novela fantástica, em que o estranho será o elemento provocador do efeito. O terror será tanto maior, quanto maior o espanto causado pelo estranho. Tendo como arcabouço os passos descritos pelo teórico Poe, verifica suas considerações na composição desta sua novela. Primeiramente a extensão “deve ser calculada para conservar sua relação matemática com seu mérito, (...) com a emoção” para que a hesitação do fantástico, que deve provocar o terror, se mantenha, é necessária que a composição não se estenda demais: ela terá o formato de uma novela (essa é a forma, por excelência, do conto policial e do conto fantástico). O ambiente, o cenário escolhido se enquadra de “maneira lógica” ao tom da narrativa – um tom de tristeza e de melancolia. Aliás, é pela descrição da paisagem que o narrador indica o tom do ambiente melancólico, frio; logo, a estação em que se passam os acontecimentos só poderia ser o outono ou o inverno (a primavera e o verão estão fora de cogitação). Mas é no outono em que as folhas caem, que toda a paisagem fica nua, triste. É esse o tempo. O clima é pesado, as nuvens e os céus, que poderiam inspirar dois amantes, aqui são sombrios, escuros, opressores. Tem-se, então, um cenário propício a despertar a tristeza em qualquer indivíduo.

O estranho (que provoca o terror) estará presente em todos os elementos pelo excesso. Na caracterização das personagens, e na escolha das palavras:

Sua reserva fora sempre excessiva e habitual. Sabia, contudo, que sua família, muito antiga, se distinguira, desde tempos imemoriais, por uma peculiar sensibilidade de temperamento, revelada, através dos séculos, em muitas obras de arte de exaltada inspiração e manifestada, havia muito, em repetidos atos de estupenda mas recatada caridade, bem como por uma apaixonada devoção às dificuldades (...)”

Some-se o fato de que a estirpe dos Usher se desenvolveu em linha direta, sem ramificações. Tal estranheza era uma “perfeita concordância existente entre o caráter daquelas premissas e a índole atribuída àquela gente”.
A “excessiva agitação nervosa” de Usher também se refletia nos seus atos, na sua saúde, na sua “agudeza mórbida dos sentidos”, na misteriosa ligação dos dois irmãos – Roderick e Lady Madeline.
O excesso também se verifica nas coincidências: a doença dos irmãos gêmeos Usher; as leituras sinistras (os títulos e autores são cuidadosamente escolhidos) a que levam o hipocondríaco a conservar o corpo da irmã durante quinze dias (já este em si um ato excessivo); o “exagero das loucuras” na leitura de Mad Trist, acompanhada de um “eco dos próprios estalidos e estragos descritos” e, enfim, a queda da casa após Lady Madeline cair desfalecida nos braços do irmão.
Em suma, todos os fatos, nomes e acontecimentos são meticulosamente pensados para se obter os resultados desejados, pressupostos para a elaboração da narrativa – vale relembrar, o efeito de terror e medo causado pelo estranho, através de um tom de tristeza e melancolia.

2. As metades que se contrapõem, completam-se e formam novos significados:

- A rachadura que divide a casa ao meio, forma duas metades complementares, assim como os irmãos gêmeos de sexos diferentes constituem uma unidade. As duas janelas separadas pela rachadura podem simbolizar os olhos de duas faces similares, como as dos gêmeos, que são muito próximos um do outro. A casa mostra a relação de dependência de dois irmãos – cujo vínculo indissolúvel é necessário à sobrevivência de ambos;

- O interior da casa pode simbolizar a mente de Roderick. Dividida em duas partes, possui tanto um porão escuro, que simboliza os desejos secretos e o subconsciente de Roderick, quanto uma parte iluminada, representativa da consciência e da razão da personagem. Essa oposição fica clara quando Roderick decide enterrar Madeline no porão. Quando ela estava na parte iluminada da casa, o irmão sentia-se culpado por ter fantasias incestuosas; ao colocá-la no porão, procura reprimir um desejo que sabe ser proibido. Porém, como o reprimido busca meios de vir à tona, Madeline volta para o mundo da consciência – ou seja, para Roderick;

- Há no fim do texto um importante jogo de oposições entre o conto lido pelo narrador, a “metade fictícia”, e o que está acontecendo de fato, a “metade da realidade”, que se misturam e encerram a história de Edgar Allan Poe. Ao terminar a leitura, o narrador e seu amigo vivem a situação fictícia no plano da realidade. A ficção tomando conta da realidade é a representação dos desejos secretos de Roderick que vêm à tona; é sua metade, vindo se juntar a ele;

- É possível supor que a casa, a “metade real”, por estar refletida no pântano, que forma a “metade simbólica”, está fadada a desaparecer, pois o pântano é justamente um lago morto, em que nada mais cresce, o reflexo na água é uma espécie de premonição. O pântano constitui a “metade morta” que se opõe à “metade viva” da casa, que seria a vegetação dos canteiros, sinônimo de vitalidade, que, assim como os gêmeos, resiste em terreno hostil;

- Madeline cai morta sobre o irmão e este acaba por morrer também. A casa desaba, engolida pelo pântano, porque, com a irmã gêmea morta, é como se fosse necessário que uma das metades da residência desabasse também;

- Por fim, pode-se dizer que o narrador representa o mundo exterior a casa, em oposição a Madeline, que representa seu mundo interior. Com a interdição de seu desejo por Madeline, ele recorre a esta válvula de escape que é o mundo exterior.

3. Poe e o romantismo:

A realidade neste conto é sufocante e distorcida. Ele ainda aborda temas insólitos como a catalepsia. É interessante observar que as mulheres de Poe sempre são uma catapulta para a loucura inevitável de seus protagonistas homens, a ponto de vencerem as leis do universo, como por suas belezas estranhas e fora dos padrões, mas ainda assim incandescentes. Enfim, os contos de Poe são cheios de canibalismo, pestes, cataclismos, incinerações ainda com vida, navio cheios de cadáveres em putrefação, estranhos males físicos e pacientes internados em manicômios, explorando de forma crua os recônditos menos visitados e mais insanos da psique humana.
É um dos representantes máximos do romantismo porque tem como características a figura feminina onírica e etérea e o ambiente mórbido, que reproduzem os "anseios" da escola romântica.
Aliado a uma técnica brilhante, sintetizando de um lado toda a herança de literatura ocidental e do outro as conquistas do melhor de literatura sua contemporânea, fez de sua obra um épico sobre a degradação do homem, o desespero, a alienação, a completa falta de perspectivas. O homem solitário na multidão é o emblema do homem na sociedade industrial, preso a uma lógica que o aliena e arranca de si sua própria humanidade. A queda de Usher é a queda do homem na sociedade capitalista, que, doente, tenta enterrar seus cadáveres (embora tema o tempo todo o retorno deste). Seu apurado ouvido, um símbolo das avançadas técnicas da sociedade industrial, torna-se uma poderosa e violenta arma, que o ajuda a enlouquecer. A ressurreição do cadáver, que não havia de fato morrido, é a ressurreição de seu próprio ser, esquálido e sem vida, que Usher teme ouvir e mesmo vislumbrar.














quinta-feira, 3 de março de 2011

JOAN MIRÓ E O SURREALISMO


1893-1983


Creio que, depois do grandioso movimento impressionista francês – um canto à vida e ao otimismo -, depois do movimento pós-impressionista, da coragem dos simbolistas, do sintetismo fauvista e da dissecação do cubismo e do futurismo, depois de tudo isso, teremos uma arte livre e todo o interesse estará centralizado na vibração do espírito criador. Esse movimento moderno de análise vai elevar o espírito para uma liberdade luminosa”, escreveu Miró.

O pintor catalão contou que, durante uma visita de Picasso a seu ateliê, o pintor andaluz afirmou ao ver essas pinturas:

Este é o único passo que a pintura deu depois de mim.”

MIRÓ é um dos últimos catalães universais, nasceu em Montroig (Tarragona), em 1893.
Na juventude, Miro estudou na Escola de Belas Artes de Barcelona e na Academia de Gali.
O ingresso da França na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) motivou o sentimento francófilo dos intelectuais catalães – dez mil voluntários partiram para lutar com os aliados. Ao mesmo tempo, Barcelona se transformou temporariamente na capital da arte européia e em refúgio dos artistas franceses. Entre eles, encontrava-se o dadaísta Francis Picabia, que publicou em Barcelona o primeiro número de sua revista “391”.
Naqueles anos, a cosmopolita Barcelona era dominada pelo chamado “Noucentisme”, movimento intelectual que, desde 1906, priorizava valores como razão, ordem e clareza na arte a fim de resgatar a herança greco-romana e as tradições populares catalãs diante das influências estrangeiras. Embora compartilhasse de alguns de seus postulados, Miró acreditava que a arte catalã deveria adotar caráter aberto e universal.
A partir de 1915, tenta encontrar por si só seu estilo artístico, olhando atento a tudo o que o ajude a sair da imensa rede da rica, importante, e muito burguesa e conservadora arte de seu denso entorno barcelonês.

A pintura e a poesia são feitas quando se faz amor, um abraço total, a prudência é jogada para o alto, sem nada ocultar.”

Entre tantos artistas de rotina boêmia, Miró se destaca pela simplicidade de seu caráter catalão. Ordem, respeito, equilíbrio, tenacidade e perfeccionismo são os traços que marcam um pintor de vida discreta, mas de força interior extraordinária.
Entre 1917 e 1918, Miró pintou mais telas do que nos anos anteriores. Com influência do fauvismo, do cubismo, do futurismo, das estampas japonesas e da arte românica, produziu auto-retratos e retratos de pessoas próximas, pintou naturezas-mortas, paisagens de Mont-roig e arredores e dois nus femininos, um deles foi “Nu com pássaros e flor” (1917), um prelúdio de duas grandes fixações temáticas de sua obra posterior: mulheres e pássaros.

“Auto-retrato”


No contraste entre a agitação intelectual e a exaltação de Paris dos “loucos anos de 1920”, onde Miró esteve uma única e breve passagem assimila certas possibilidades do Cubismo que enriquecem seu estilo daquela época, porém manifestada com ingenuidade, sem complicações literárias ou cerebrais; mas repleta de cor e poesia, tão espontaneamente simples, onde se nota a presença da dureza estrutural, as formas recortadas, o desenho rápido, as tintas curtidas, o frontalismo e a ordem certeira.


"É essencial ter os pés firmemente plantados no chão para nos podermos lançar no espaço", disse Miró.

Como Paris, Mont-roig desempenhou papel fundamental na vida e na obra de Miró. Foi ali que o artista se recuperou do tifo e decidiu se tornar pintor. Daí o estabelecimento de um laço sagrado com o local. Tarragona resgatava a magia de sua infância em contato com a natureza.

“Ciruana, o povoado” (1917)


As paisagens de 1917 de Miró dispensavam figuras humanas. Embora o artista tivesse dificuldade para representá-las, a omissão era deliberada. No vilarejo de Ciurana, em Tarragona, distante da intensa agitação intelectual que vivia a industrial e cosmopolita Barcelona, a tranquilidade do campo proporcionava a Miró a chance de se isolar e enclausurar-se em si mesmo.

“Ciruana, o povoado” oferece um panorama dos arredores do povoado.
A tela está dividida em três planos horizontais de diferentes proporções. A metade inferior da tela é destinada à representação do solo; o restante é reservado às construções e ao fundo montanhoso.
As linhas curvas dominam o fundo, as formas cúbicas e triangulares dominam a zona central, enquanto retas e ondulações alternam-se na metade inferior do quadro. O leito do rio divide a cena. Traçado a partir do centro do quadro em uma suave inclinação com duas linhas quebradas e paralelas, o sulco proporciona, graças a suas cores, a ilusão de perspectiva e profundidade; garante um dinamismo que se expande para a direita do quadro. No lado contrário, a tensão causada pelos três triângulos é suavizada com linhas onduladas que, colocadas em paralelo, simulam um plano elevado.
Do mesmo modo que o ritmo compositivo, a intensidade cromática cresce de cima para baixo: as cores suaves aparecem na cabeceira e as mais escuras estão presentes na metade inferior da tela.

“Nord-Sud” (1917)


No início do século XX, os jovens pintores catalães praticavam a natureza-morta e Miró não foi uma exceção. Em 1917, pintou “Nord-Sud”, um bodegón que testemunha o substrato cultural do autor.

Sobre uma mesa posicionam-se uma moringa, uma maçã, um brinquedo, uma tesoura, um livro, uma gaiola com um pintassilgo e um vaso com flores. No centro da composição aparece em destaque o rótulo da revista “Nord-Sud”, fundada naquele ano pelo poeta francês Pierre Reverdy.
O nome da publicação foi inspirado na linha de metrô que liga Montmartre a Montparnasse, os dois pólos da vanguarda artística e literária parisiense.
Os críticos tentaram buscar significados nos elementos deste “bodegón”. Assim, a moringa simbolizaria a herança mediterrânea e catalã de Miró; a maçã, sua preocupação com a saúde; o brinquedo, sua infância e sua fascinação pelas cores; a tesoura, seus primeiros trabalhos em colagem; o livro de Goethe, sua paixão pela leitura e pela poesia; a gaiola com a ave, seu amor pelos seres pequenos e pela música; o vaso com flores, sua firme convicção no amadurecimento de seu dom artístico; e o título “Nord-Sud”, sua preocupação pela atualidade artística e seu desejo de triunfar em Paris.
Os objetos dispostos em círculo e destacados com cores próprias, cada um dos objetos apresenta autonomia sobre a toalha de mesa de colorido estridente. Ao traço negro que contorna os objetos, Miró adiciona grossas pinceladas de cor; a coroa semicircular em torno da base da moringa, as pinceladas verdes e azuis ao redor da maçã, e as espessas linhas verdes junto ao brinquedo e ao livro.
Os arabescos da moringa, o oco do vaso, as aberturas do recipiente da gaiola e o formato de flecha ao redor do brinquedo acentuam o sentido espiral da peça, enquanto o rótulo branco da revista serve como eixo e ponto de fuga.

Em 16 de fevereiro de 1918 realizou sua primeira exposição individual nas Galerias Dalmau de Barcelona, que gerou indignação de parte do público pelo vanguardismo.
Em 1920, Miró desembarcou pela primeira vez a Paris.

“É preciso ir a Paris como lutador, não como espectador da luta”.

A viagem serviu para confirmar que apenas em Paris encontraria o clima intelectual favorável para sua arte.
Em 1921 retornou à Paris e conheceu os poetas Pierre Reverdy, editor da extinta revista “Nord-Sud”, e Tristan Tzara, um dos fundadores do dadaísmo, com quem fez amizade.
Em maio de 1921 realizou a sua primeira exposição individual em Paris. O evento, porém, não se traduziu em vendas.
Depois do novo fracasso, Miró voltou a Mont-roig, onde começou a pintar “A fazenda”, obra-prima que é a síntese e o auge de sua etapa realista e foi finalizada em Paris. O artista chegou a carregar na mala plantas de Mont-roig para finalizar a tela.

“A fazenda” (1921-1922)


Miró imprimiu um ritmo bastante cadenciado à execução dessa obra. Seu desejo era reproduzir em minúcias cada um dos elementos da propriedade familiar de Mont-roig.

Pintada em estilo “naif”, um tipo de arte popular espontânea e autodidata, esta obra representa a visão mais íntima e pessoal de Miró sobre o mundo que melhor conhecia.
A precisão do detalhismo oriental é evidente. Detectam-se as influências de Modest Urgell e de Aduaneiro Rousseau no brilhante astro no céu; e de Galí no cuidadoso desenho das superfícies: o tronco do eucalipto e a textura e as falhas da parede da construção. Também se nota a estilização dos afrescos românicos que Miró tanto admirava.
“A fazenda” mescla diversos modelos de composição. Além da publicação de diferentes perspectivas, a simultaneidade de pontos de vista cubistas pode ser vista em alguns elementos: o grande círculo negro central, o pavimento de ladrilhos, a sombra trapezoidal em primeiro plano, fragmentos de chão onde estão depositados os recipientes e o bebedouro dos animais do galinheiro, entre outros. A ordem compositiva também é sustentada pelas rítmicas formas geométricas ao fundo.
A linha do horizonte divide o quadro entre céu e terra. De um lado, a simplicidade de um céu nu, onde brilha um astro solitário. De outro, a terra repleta de objetos, exuberante como um retábulo barroco, em que cada elemento é importante em si mesmo. Apesar do detalhismo realista, a cor branca do astro sobre um céu homogeneamente azul cria paradoxalmente um ambiente onírico e irreal.
O eucalipto, bem arraigado a terra, é o único elo entre o chão e o firmamento.
A árvore e o ponto negro que serve de base ao os elementos centrais do plano terreno, representado pela fazenda e parece proteger sob seus galhos o pacífico e monótono mundo rural da propriedade de Mont-roig. Foi o elemento mais trabalhado por Miró. Sua figura reúne algumas das obsessões do pintor. A base branca reproduz o fetiche do artista pelos pés, a extremidade por onde se recebe a energia da terra. O tronco rugoso ilustra a fascinação de Miró pelos acidentes das superfícies. O artista acreditava que a superfície viva revelava sua substância e sua realidade interna. Sustentava que era necessário tocá-las para penetrar em seus segredos.
A porção esquerda da tela é reservada ao mundo domesticado: a granjeira e seu filho, a seara e as pegadas, os cavalos, a carruagem, o cachorro e as ferramentas.
A figura feminina ocupa a posição central da tela, o que dá ideia da relevância da mulher na obra do pintor. Miró a apresenta lavando roupas, enquanto a seus pés aparece a imagem de um menino nu. Desse modo, o pintor resume as duas condições fundamentais da mulher camponesa: trabalho e maternidade.
À direita da árvore posicionam-se integrantes mais indomáveis, mas igualmente ligados ao homem.
O tratamento diverso de cor no solo do galinheiro e de forma no terreno que abriga a lagartixa, o caracol e a minhoca reforça essa divisão. Miró sempre admitiu sua fascinação pelos animais pequenos, especialmente insetos.
Miró eliminou a grade frontal do galinheiro porque impediria ver os animais. Substituiu-a por um quadrado vermelho. Não era a primeira vez que utilizou esse recurso. Em “Nord-Sud”, a gaiola do pintassilgo também aparece sem a grade. A presença da tela é reservada às áreas em que não prejudica a visão de outros elementos representados com maiores detalhes.
Aqui aparece pela primeira vez a imagem da escada e da ave, que, assim como o eucalipto, foram considerados posteriormente por Miró como elementos de mediação entre o céu e a terra.
Apesar de seu desejo de se desfazer das influências não catalãs, Miró introduziu um elemento estranho: o conhecido jornal francês “L’Intransigeant”.

Em 1924, fez duas de suas obras iniciais mais importantes, as pinturas “O carnaval de Arlequim” e “Maternidade”.

“O Carnaval de Arlequim” (1924-25)


Esta tela encerra a fase das obras dominadas pela imaginação, série que Miró havia iniciado no verão de 1923 com “Terra lavrada”. Assim como “A fazenda”, essa pintura é meticulosa e forma um conjunto frenético e colorido de figuras fantásticas que exige observação minuciosa.

Usando o tema tradicional de interiores domésticos (a que voltou em 1928, sob a influência da pintura holandesa do século XVII), MIRÓ apresenta nesta obra uma de suas visões mais surrealista simultaneamente humorística e sinistra.
A composição gira em torno de dois personagens centrais: um robô que toca viola e um Arlequim com grandes bigodes e corpo de viola. A seu redor, uma multidão heterogênea de animais e objetos excêntricos se revela alheia à ação dos dois personagens. Sobre um plano quadriculado, Miró divide horizontalmente a tela ao meio, separando cromaticamente a parede do chão, e distribui as figuras de forma equilibrada.
A obra foi inspirada nas alucinações causadas pela fome.

“Voltava ao ateliê da Rua Blomet à noite e deitava às vezes sem jantar: via coisas e as anotava no caderno. Via alucinações no teto”, escreveu o artista.

A tela mostra um ambiente, provavelmente um quarto com manchas de umidade nas paredes; uma mesa e uma janela, onde vêem o sol e a torre Eiffel, reflexos do exterior.
No entanto, o que nele se destaca são elementos oníricos que uns identificam como uma referência ao mundo das crianças, e outros atribuem à influência do surrealismo na sua obra ou mundo interior de Miró.
Trata-se de um retrato irônico da nossa sociedade, onde um permanente espetáculo nos faz esquecer a degradação humana atinge a maior parte da humanidade.

“Maternidade” (1924)


A figura de mulher era quase sempre retratada como a mãe terra: um símbolo de fecundidade.

A tela foi construída sobre um fundo monocromático. Apenas algumas manchas equilibram a monocromia dominante.
A mulher é representada pelos elementos colocados nos extremos dos dois eixos lineares oblíquos, o que garante a esta composição maior agilidade quando comparada às outras da série.
Um desses eixos une a cabeça, semelhante à de um manequim com cabelos de serpentina, a um grande esquadro arredondado, que simboliza o ventre e o sexo feminino.
O outro eixo liga um seio desenhado de perfil e escuro com outro visto frontalmente, um disco perfeito, branco e de contorno pontilhado.
Uma forma sinuosa e visceral amarela e vermelha representa os órgãos internos femininos. Próximo de cada seio aparece duas figuras diminutas: no canto inferior esquerdo encontra-se um pictograma de aspecto masculino, enquanto na porção superior direita observa-se um de aspecto feminino.
Utilizando poucos elementos, Miró transmitiu a ideia de maternidade em um dos maiores desafios de redução simbólica de toda sua obra.

Em 1925, aproximou-se do Surrealismo. Depois da publicação do primeiro “Manifesto surrealista”, o vínculo de Miró com essa corrente artística cresceu até o ponto em que Breton, o líder do grupo, qualificou Miró como o “mais surrealista de todos nós”. Porém, a arte de MIRÓ não contém as profundezas das questões psicanalistas surrealistas.
A falta de envolvimento real com os postulados do grupo, especialmente nas questões estéticas e políticas, gerou desconfiança mútua entre Breton e Miró, que acusava o artista catalão de “infantilismo”.

A plenitude da infância no Surrealismo; o caso extraordinário de Miro”.

Em 1926, Ernst e Miró trabalharam na preparação da decoração e do figurino do balé “Romeu e Julieta”, produzido pelo Ballet Russo de Sergei Diaghilev. Na estréia do balé, Breton e Aragon promoveram uma ação de protesto pelo fato de Ernst e Miró terem colaborado com os “interesses burgueses”.

Em contato com os poetas surrealistas compreendi uma coisa e isso é o que conta para mim: a necessidade de transcender a pintura”, afirmou Miró.

O artista abandonou a figuração fantástica e aprofundou-se ainda mais na simplicidade da pintura e da abstração, superando o real e o imaginário. Os especialistas catalogaram as obras pintadas entre 1925 e 1927 como pinturas oníricas.

“O nascimento do mundo” inaugurou uma centena de obras, a maioria sem título, em que predomina uma atmosfera onírica, a tendência à monocromia, a onipotência do fundo e a inclusão de elementos isolados, como manchas, círculos de cor, figuras, arabescos ou simples ou simples pinceladas.


Em seguida, Miró passou introduzir em seus quadros quase vazios, palavras e frases poéticas, com as quais inaugurou suas pinturas-poemas.


Durante os verões de 1926 e 1927, em Mont-roig, Miró deixou a pintura onírica para retornar às paisagens. Assim, aproveitou para consolidar as composições nas quais a linha do horizonte delimitava o céu e a terra, um recurso muito utilizado pelos pintores surrealistas. Pertencem a esse período as chamadas “paisagens imaginárias”: “Personagem atirando uma pedra em uma ave”; “Cão ladrando para a lua” e “Paisagem da serpente”, que obtiveram grande sucesso em abril de 1928 em Paris.


“Cão ladrando para a lua” (1926)


Assim surge a grande festa mironiana com a qual se enche, da mais alegre e desejável puerícia, as salas de exposições. Primeiro, com muita surpresa e depois, com reprovação, dizendo que a pintura de MIRÓ pode ser feita por qualquer criança; sem saber que uma coisa é a plena vivência e tensão do infantil num caso tão excepcional como o de MIRÓ e outra muito diferente da arte infantil em si própria.

MIRÓ não ficou estancado na infância, mas teve que recuperá-la e se liberar de tudo que culturalmente alheio se sobrepusesse como se sobrepõe a todo ser humano. E o Surrealismo não abandonou a pouco conhecida e utilizada energia da infância para a arte e muito do restante da vida imaginativa, inventora ou criadora.
MIRÓ se pôs a fazer trinar os intensíssimos vermelhos, azuis, verdes, amarelos; a maioria das vezes sem disfarce nem mistura nenhuma, direta desde a integridade ao consumidor; pelos amplos fundos e frequentemente planos, uniformes, com muito cuidado; por alegres e bem delineadas ilhotas, em saltitantes espécies de células, como globos de cores no ar, triângulos e qualquer outra inesperada e alegre invenção formal.
O artista movia o pincel em guinadas sobre a tela num estado semelhante ao transe ou jogava a tinta na tela num frenesi criativo, intensificado pela fome, pois só podia se permitir uma refeição ao dia. Dizia que seu objetivo “era expressar com precisão todas as fagulhas douradas que a alma solta”.
Entretanto, é preciso muitas vezes compreender o que deseja o autor para poder visualizar melhor a pintura.

No quadro "Personagem atirando pedras em um pássaro" o personagem tem de alguma maneira, a forma de um pássaro, mas sabe-se que o pássaro é a outra entidade porque voa.


O mar negro, em contraste com as cores fortes do céu e da terra mostra que o artista não se limitava pela naturalidade das cores. O efeito é de grande profundidade e vigor e a terra parece movimentar-se em seu amarelo marcante. A pedra, no meio do caminho, não define por si mesmo em que direção faz o percurso.

O uso de frases quase explicativas nos títulos das obras é bem interessante e às vezes muito facilitador.
O título de "personagem" é também muito comum e identifica exatamente isso: alguma entidade não muito definida e que exerce uma ação. A mente de Miró mostrou-se muito criativa ao longo de sua vida. Durante os seus estudos de arte treinava, por orientação dos seus professores, a desenhar objetos que conhecia apenas através do tato. De olhos vendados, lhe era dado um objeto e depois então o desenhava para libertar-se da aparência real das coisas. Também treinava pintando paisagens gravadas na mente. Ia a um lugar, observava e depois voltava para o atelier para começar a trabalhar. Talvez esses exercícios, somados a uma tendência natural, tenham feito de Miró uma mente privilegiada.

Na primavera de 1928, Miró viajou para a Bélgica e a Holanda, onde visitou os museus mais importantes. A viagem gerou a série de “Interiores holandeses”, baseada em obras dos maiores pintores dos Países Baixos.

“Interior holandês I” (1928)


O realismo intimista dos mestres holandeses do século XVII despertou profundo interesse em Miró, que reanimou seu gosto pelo detalhismo.

Em “Interior holandês I”, Muro recriou o quadro “O tocador de alaúde” (1661), de Hendrick Maertens Sorgh, transformando as personagens e incluindo figuras alheias à obra original.


Com tamanho descomunal, a figura do tocador de alaúde e seu instrumento dominam a superfície da tela e são os elementos centrais da composição. A cabeça do músico se prolonga pela mesa branca. Forma, assim, um eixo que cruza a tela diagonalmente dividindo os espaços do interior (chão, paredes e teto) e destaca a paisagem exterior.

O rosto do personagem domina o ponto para o qual convergem os diferentes planos.
No chão, um cachorro rói um osso, uma grande faca triangular descasca uma maçã, uma rã persegue um inseto e um gato descansa sob uma banqueta. Ao fundo, nota-se na parede a figura de um morcego e de duas pinturas, enquanto duas aves parecem ter construído um ninho entre a imensa cabeça do tocador de alaúde e o teto. Pela janela se observam os canais de Amsterdã, com peixes, cisnes, embarcações e casas ao longe.
Em contraste à grandiosidade do homem, a diminuta figura da mulher parece reduzida a uma protuberância branca que culmina em um ponto: a cabeça. Apenas a forma negra de um sapato ao final do conjunto branco e a silhueta de um pé fazem referência de forma simbólica à mulher, enraizada a terra.

“Interior holandês II” (1928)


Neste quadro, MIRÓ improvisou formas geométricas e biomórficas em lúdicas imagens de sonho.


Entre 1929 e 1931, Miró passou por um conturbado período de introspecção que culminou em uma crise de expressão artística denominado por ele mesmo de “assassinato da pintura”. Durante essa fase, a pintura foi praticamente substituída por desenhos, papiers collés e colagens. Assim. Miró anexou às telas objetos reais (chaves, conchas, lixas e cordas, entre outros).
A crise expressiva de Miró coincidiu com a do surrealismo. Diante do avanço do autoritarismo fascista na Europa, o grupo liderado por Breton propôs adotar uma postura política.
Miró era contrário a qualquer ato de militância por considerar que a conduta supriia a liberdade do artista.
No início dos anos de 1930, a crise econômica mundial afetava profundamente o mercado da arte e a situação econômica de Miró em Paris não era confortável. Desse modo, Miró resolveu voltar a Barcelona em 1932.
Seis anos após a estréia de “Romeu e Julieta”, o Ballet Russo de Montecarlo fez nova encomenda a Miró. “Brincadeira de criança”, que estreou em 1932, no Teatro de Montecarlo, com música de Georges Bizet.

“Ao observar a combinação das formas e das cores em sua pintura, desperta-se a alegria e o desejo de dançar”, afirmou o coreógrafo Léonide Massine.

Miró desenhou a cortina, o palco, os figurinos e os objetos.

O triunfo da direita espanhola nas eleições de 1933 marcou o início do “biênio negro”, período em que os conservadores tentaram destruir as reformas sociais implementadas pelo governo anterior.
Pouco antes, como prenúncio da situação político-social da Espanha, Miró havia iniciado uma série de obras de seres monstruosos e disformes chamadas “pinturas selvagens”

Vivia uma atmosfera de mal-estar. Era um mal-estar mais físico do que moral. Pressentia uma catástrofe e não sabia qual seria. Sucederam-se a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Tentei representar esse ambiente trágico que me torturava e que percebia dentro de mim”, informou Miró.

Em 1936, Miró e sua família refugiaram-se em Paris. Ali pintou, entre janeiro e maio de 1937, “Natureza-morta com sapato velho”, obra de grande intensidade dramática que descreve a tensão dos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial.

“Natureza-morta com sapato velho”(1937)


Vou pintar naturezas-mortas completamente realistas. Quero expressar à realidade a realidade poética das coisas; o que não posso assegurar é se conseguirei na medida desejada. Vivemos um drama horrível; o que está ocorrendo na Espanha supera o imaginável”, escreveu Miró.


Baseando-se no temor da guerra, pôs na mesa uma garrafa quebrada de gim envolvida em papel amarrado com barbante, uma maçã espetada com garfo, um pedaço de pão e um sapato velho.
Com esses objetos transmitiu sentimentos de pobreza, abandono, desorientação e raiva. A cor é essencial. O preto e o verde pressionam os objetos, que, graças a uma coloração incandescente, parecem arder na escuridão. Esse efeito, sublinhado pela linha do horizonte, evoca um incêndio apocalíptico.
O biógrafo Jacques Dupin chamou a obra de “Guernica de Miró”.

Miró com “O ceifeiro” e o cartaz “Ajudem a Espanha” demonstrou seu posicionamento a favor da liberdade em meio a um ambiente político de vertentes extremas. Sob uma atmosfera de angústia, Miró executou “Auto-retrato I”, uma obra definida como “realismo trágico” e a única inacabada.

“Ajudem a Espanha” (1937)


Ainda em 1937, trabalhou em pinturas-mural e, anos depois, em 1940, inspirado pelo mundo celeste, o efeito das marés e a paisagem aberta empreendeu com entusiasmo a série de aquarelas “Constelações”, interrompida pelo avanço das tropas alemãs.

A série “Constelações” foi composta de 23 guaches de pequenas dimensões pintados entre 1940-1941. O conjunto resultante da introspecção iniciada em Varengeville representou uma nova etapa na inquietação característica de Miró.


Personagens estranhos e animais convivem com planetas, estrelas, cometas, o sol a lua e outros corpos celestes em um firmamento vivo e dinâmico, que se inter-relacionam por uma espécie de rede que ordena toda a composição. É um universo próprio que serviu para Miró consolidar uma linguagem pictórica singular e que rendeu a ele fama universal.

No aspecto técnico, o artista iniciava o trabalho pela preparação do papel que serviria de suporte à pintura, a partir do sentido tátil. Molhava a folha e a esfregava de leve a fim de criar uma superfície rugosa. Em seguida, aplicava as cores do fundo, cuja gradação dependia tanto do tratamento específico como do estado do suporte.
Esse emaranhado de linhas é acompanhado de grande economia cromática: verde, amarelo, azul, vermelho e preto. Além de criar os grafismos, o preto serve de elo entre as formas.
Miró adicionou novas formas de estrelas à clássica figura das cinco pontas: o asterisco, dois pontos unidos por uma linha, dois triângulos invertidos unidos pelo vértice e uma cruz com ou sem pontos ao final de seus braços.
Os atributos femininos aparecem na feição de um felino é composta de atributos sexuais da mulher. O que parecem olhos do animal são os seios e o objeto com forma de amêndoa, pintada em metades de vermelho e preto e rodeada de pêlos pubianos.

Mais tarde, em 1944, iniciou-se em cerâmica e escultura. Em suas obras, principalmente nas esculturas, utiliza materiais surpreendentes, como a sucata. Miró considerava essa forma de trabalho muito gratificante, pois lhe possibilitava tocar e mexer com os objetos, vasos, pratos, que usava como suporte para o seu talento. Passou longos anos dedicando-se a isso e o resultado são trabalhos importantes dentro do contexto de sua vida, embora menos valorizados no universo dos museus e menos conhecidos do público.


Criador de novas técnicas nos trabalhos de cerâmica e de uma maneira peculiar de exercer o ofício de pintor, Miró foi premiado, agraciado com títulos e homenageado nos 4 cantos do mundo, superando amplamente todas as dificuldades iniciais encontradas na juventude e no início da idade adulta. Na última fase de sua carreira foi regiamente pago por trabalhos encomendados e colocado na galeria dos grandes artistas da humanidade.


Realizou a sua primeira viagem aos Estados Unidos e trabalhou no mural em Cincinnati, no ano de 1947; em 1950 num mural para a Universidade de Harvard; em 1958 em dois murais de cerâmica: “O Mur du Soleil le Mur de la Lune” , edifício da UNECO, em Paris. Diversificado, versátil, criativo, Joan Miró deixou um legado inesgotável para estudo e deleite. Neste período envolveu-se, também, com litografia e com projetos de vitrais, já com 80 anos.

“Mural em Cincinnati” (1947)




Já nos anos seguintes; durante um período muito produtivo, trabalhou entre Paris e Barcelona. No fim da sua vida reduziu os elementos de sua linguagem artística a pontos, linhas, alguns símbolos e reduziu a cor, passando a usar basicamente o branco e o preto, ficando esta ainda mais “naïf”, nem por isso fez arte “naïf”; dado que o “naïf” é verista e narrativo ao máximo e a criatividade pura quase não serve para nada.


Miró foi prolífero até a sua morte em 1983, entregando-se não apenas à pintura de cavalete; mas, também, à cerâmica e realizando grandes murais, praticando a escultura e multiplificando-se em sua obra gráfica riquíssima.
Joan Miró morreu em 25 de dezembro de 1983, aos 90 anos, em Palma de Maiorca, na Espanha, ainda em atividade. Na última fase parecia predominar a ausência de cores em seus trabalhos, dedicando grande espaço ao preto e ao branco.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

MIRÓ inventou signos biomórficos singulares para objetos da natureza, como o sol, a lua e os animais. Com o passar dos anos, essas formas foram sendo progressivamente simplificadas até chegar a uma estenografia em pictogramas de formas geométricas e gotas parecidas com amebas, uma mistura de fatos e fantasias.

As formas semi-abstratas de MIRÓ, embora estilizadas, aludiam ludicamente aos objetos reais. Em cores vivas e sempre extravagantes, parecem quadrinhos de outro planeta.

Joan Miró deixou-se prazerosamente influenciar por todas as correntes de arte com que tomou contato. Influências cubistas, surrealistas, abstracionistas são facilmente percebidas em seus trabalhos e a maneira de ver dos cubistas combina fortemente com a sua visão das coisas. A sua admiração pela pintura clássica encontrada desde cedo em sua origem na Catalunha mistura-se com a admiração pela escola flamenga e por fortes traços por onde foi passando. Aquilo tudo ia sendo absorvido, processado, misturado, temperado e apresentado, ao final, como uma maneira própria e extremamente rica de interpretar o mundo. Miró procurava mostrar a realidade de uma forma simplificada, quase infantil, simbólica, sem a complexidade e o mistério de um surrealismo tipo Salvador Dali ou René Magritte, mas isso era por si mesmo, cheio de uma profundidade que ele não enfatizou.

quarta-feira, 2 de março de 2011

ÁPORO, A ROSA DO POVO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


"A Rosa do Povo" reúne poemas escritos entre 1943 e 1945 e representa o auge do lirismo engajado de Carlos Drummond de Andrade. A obra é composta por 55 poemas e entre suas diversas vertentes, encontra-se o poeta de ação, a lírica social e o metalirismo, alternando a solidariedade da palavra poética para com o homem do povo, seu fechamento e a consciência da "crise da poesia".

Os temas de “A Rosa do Povo” se entrelaçam, porém nunca se distanciam do realismo social participante.
A atitude lúdica explorada intensamente em suas obras iniciais; o fechamento do discurso, levando em conta certas afinidades formais; o poema geralmente curto, anti-retórico e a experimentação linguística estão projetados no instigante poema "Áporo".


ÁPORO


Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.



Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?



Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:



em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se


A primeira leitura do poema “Áporo” tem-se à sensação de estranhamento, que se prolonga por sua linguagem sintética e pela ruptura da linearidade discursiva. Esse processo ocorre pelo fato da imagem do “áporo” tratar-se de algo comum, porém em forma metafórica, trazendo à tona essa sensação de estranhamento.
“Áporo” é uma intersecção de três temáticas essências de “A rosa do povo”: a crítica social, o existencialismo e a metalinguagem.

Considerando-se as acepções de “áporo”, num renomado dicionário, depara-se:

Problema de difícil resolução. Bot. Planta da família das orquidáceas. Zool. Inseto himenóptero.”

Conclui-se, assim, que “áporo” é um signo que admite vários significados desde sem saída (da sua origem grega), e sua variação problema difícil de se resolver, até uma espécie de inseto, passando também por um tipo de orquídea.


Cada estrofe do poema transcrito constrói-se com três isotopias temáticas relacionáveis pela pluralidade de significados e linearidade de sua estrutura:

- a primeira corresponde ao inseto, que cava sem alarme perfurando a terra;
- a segunda estrofe fala da aporia, que corresponde a um problema quase sem solução, implicando o labirinto;
- a última trata da orquídea, o desfecho e a surpresa.

Outra leitura metafórica possível trata-se de:


- o inseto correspondendo ao poeta (o ser humano) que, oprimido busca sua libertação;

- através do seu fazer poético cava sem alarme perfurando o poema que, encontra-se “bloqueado” em sua interioridade (nas páginas vazias de sua obra) como um construtor de conscientização;
- até transformar o seu poema em forma de uma flor (orquídea), efetivando sua escrita.

A escolha das palavras, nesse poema, prevalece e o eixo de combinação segue em segundo plano; a relação se faz por analogia das imagens que sugerem a luta do “inseto-homem-poeta” para sair do labirinto faz com que a adversidade, o obstáculo, se transforme em esperança e, como por mistério, do impossível surge á transformação: o inseto se faz “orquídea antieuclidiana”, destruidora da geometria convencional, fenômeno que quebra a lógica e automaticamente, abertura para o novo.


Pode-se analisar o poema como sendo um exemplo de dialética, o qual inicia-se com uma tese (ou fato) seguida por uma antítese (ou negação dessa tese) e por fim apresenta uma síntese, que é a convivência paradoxal dessas duas ideias. Assim, cada estrofe representa também um dos passos descritos. O inseto que cava insistente, porém pacíficamente, sem achar saída da terra é a tese. É seguida por uma antítese, que nega a pacificidade do bichinho, tornando sombrio e sem saída seu ambiente e futuro. Por fim, nasce uma orquídea antieuclideana (contra o criador da geometria, Euclides de Alexandria, o que indica que nasce contra todas as leis da geometria, ou do que se esperava), que é apresentada como a salvação, a solução, em meio ao escuro, à noite.


Percebe-se ainda no poema uma referência ao contexto histórico e político do Brasil na época. A obra foi escrita em plena ditadura de Getúlio Vargas, a qual o escritor era contra.

Neste poema a interpretação política possível, relaciona-se aos trechos que se referem a Luís Carlos Prestes (“presto se desata”) que acabara de ser libertado pelo regime ditatorial e “em país bloqueado” reforçado pelas metáfora noite, raiz e minério, sugerindo escuridão, entrelaçado, prisão, dureza e improbabilidade de escape. A figura histórica pode ser vista, portanto, como um áporo buscando caminho na pátria sem saída que se tornou o Brasil na Era Vargas e a orquídea, uma imagem de esperança pelas transformações que já se anunciavam.

Ainda assim, existe quem interpreta “Áporo” como um mero exercício lúdico, em que as palavras são contempladas, manipuladas, transformadas, enquanto outros buscam seu significado nos campos da filosofia e da matemática para uma situação, um problema sem solução.

O que importa não é o que dito, mas de que forma é dito; o conteúdo entrelaça-se à expressão. Por essa via, entende-se que um áporo não teria o mesmo valor como aparece no poema de Drummond; a forma o torna o “Áporo”, ou seja, a literariedade o singulariza.
Nesse sentido, o poema tem um corpus autônomo, o qual se deve analisar, imanentemente, tendo em vista sempre os seus aspectos intrínsecos. Entende-se, assim, que não interessa recorrer diretamente aos pontos da razão para compreender o fenômeno literário. Drummond valeu-se da imagem por sua capacidade de transmitir uma idéia que não aparece no texto literário apenas de forma pictórica, integra-se, fundamentalmente, ao sentido; contribui para uma nova percepção da realidade ao ponto em que se distancia dela.

Note que a essência do áporo, do inseto, vai se movimentando em todo o poema, transformando-se, até o ápice do último verso da terceira estrofe. É o momento da transformação e da iniciação, já anunciadas na segunda estrofe na aliteração do /s/ e do /t/ e da assonância do /e/ que acabam criando a forma verbal “encete” (ENlaCE de noiTE), que significa principiar, mas que possui também uma forte aproximação sonora com “inseto”. A mutação final virá no último verso: o áporo inseto se transforma em áporo orquídea. Tanto que a raiz SE está prestes a se libertar, pois virou a forma pronominal “se” (e, portanto, com relativa vida própria) que encerra o poema. Além disso, a essência etimológica do signo “inseto” são as letras: “s” e “e”, diluídas na corporação do poema.

Um inSEto cava
cava SEm alarme
perfurando a terra
SEm achar EScape.

Que faZEr, ExauSto,
Em paíS bloqueado,
enlaCE de noite
raiZ E minério?

EiS que o labirinto
(oh razão, miStÉrio)
prESto SE dESata:

em verdE, Sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-SE.