quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

“NÓS QUE AQUI ESTAMOS, POR VÓS ESPERAMOS”(1999), MARCELO MASAGÃO


I – AUTOR:


Marcelo Sá Moreira Masagão nasceu no dia 16 de novembro de 1958. Sua formação acadêmica começou no curso de Psicologia (incompleto) na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Entre os anos de 1978 e 1982, estágio no Hospital Psiquiátrico de Trieste, na Itália, onde se desenvolve uma experiência inédita no campo da Psiquiatria, no sentido da abertura dos manicômios.
Masagão desenvolveu, no ano 1979 e 1980, atividades culturais como Coordenador do Grupo SANIDADE/LOUCURA, onde teve atuação junto á pacientes psiquiátricos e profissionais da área, no sentido de denunciar a situação desumana das instituições psiquiátricas brasileira.
Já nos anos de 1985 e 1986, Marcelo Masagão foi Coordenador da Rádio Xilik e teve experiência de rádio Livre em São Paulo. Em 1986, Coordenador da TV CUBO, uma experiência pioneira de TV Livre no Brasil. Fez inúmeras transmissões no Bairro de Pinheiros.
Nos anos de 1987 e 1988 foi Idealizador & Coordenador do Festival do Minuto. Desde 1991, o evento recebe anualmente 1000 vídeos de mais de 40 países. Em 2007, o evento se torna on-line.
Entre os anos de 1991 e 1997, escreveu livros, sendo co-autor dos livros Rádios Livres a Reforma Agrária no AR (edição já esgotada, pela Editora Brasiliense) e Rede Imaginária, editado pela editora Companhia das Letras.
Como realizador audiovisual, realizou diversas produções de cinema e vídeo. Em 1991 realizou como co-roteirista e repórter, o vídeo TV CUBO. Em 1987/88, envolveu-se com “Sexo, Fé, Sorte e Morte” no Centro de SP, enfocando uma enquete realizada no Centro de São Paulo para saber o que os paulistanos haviam sonhado na noite anterior. No ano de 1989, fez o roteiro de “Neurotec”, vídeo que discute as influências das descobertas eletrônicas na vida dos terrestres. Fez também 11 hs e 30 minutos na estação da Luz. Dez locais/fotos antigas da cidade de São Paulo, foram revisitados pelo olhar da câmera de vídeo. A produção recebeu o Prêmio Estímulo da Secretaria de Estado da Cultura em 1989.
Em 1990, Masagão realizou o vídeo documentário “O Ar Pertence a Deus”, que resgata as experiências de comunicações eletrônicas não oficiais realizadas no município de SP na década de 80. Produziu e dirigiu “Deus Tudo Pode”, vídeo edição de pronunciamentos à nação realizados pelos últimos sete presidentes da república do Brasil (1964 a 1991).
Como cineasta, realizou diversos filmes: em 1999, dirigiu “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, longa-metragem, de 35 mm, que discute a banalização da morte no século XX. O filme ganhou 16 prêmios nacionais e internacionais e esteve entre os dez filmes nacionais de maior bilheteria do ano de 1999 (tendo atingido 58.000 espectadores com apenas duas cópias).
Em “Nem Gravata nem Honra” (2001), longa de 35 mm diretor, discute as diferenças entre homens e mulheres de uma pequena cidade do interior de São Paulo.
Realizou como diretor “Um pouco mais um pouco menos”, curta-metragem de 35mm, co-dirigido por Gustavo Steinberg, mostrando a cidade de São Paulo vista do ponto de vista de um helicóptero e de suas estatísticas.
“1.99 – Um supermercado que vende palavras” (2004). Histórias dentro de um supermercado.
Em “O Zero não é Vazio”, longa-metragem em 35 mm, foi diretor co-dirigido por Andrea Menezes, produzido para a TV CULTURA de São Paulo, através do edital do Projeto DOCTV de 2005.
Marcelo Masagão também realizou Exposições: Adote um Satélite (uma homenagem à TV); Galeria Fotóptica (1989); Museu da Imagem e do Som (1989); 7º Encontro de Vídeo e Televisão de Monbeliard/França (1990). Atualmente, esta exposição está sendo mostrada em Centros Culturais Europeus. Ainda expôs Volto Logo, Favor Aguardar (1989), realizada a partir de mapas da cidade de São Paulo; Galeria da Consolação (1990); Totens Domésticos, no Sesc Pompéia; e Videobrasil de 1992 (1992).

II – FILME:

“Nós que aqui estamos por vós esperamos” surgiu após três anos de estudos sobre o século XX e de uma Bolsa de estudos da fundação MacArthur.
O trabalho de Masagão não foi o de filmar, já que 95% das imagens já estavam prontas, e sim, de editar. O filme foi editado em 3 cópias e teve um custo de R$140.000,00, onde R$80.000,00 foram gastos com direitos autorais (40 instituições ou pessoas nos 4 continentes).
O trabalho de montagem de um filme como este se dá principalmente a nível do plano (ou parte dele): um plano é extraído de seu contexto, o filme original é desmontado para ser inserido numa nova montagem. Nessa transposição, ele perde sua significação original, ou parte dela, e adquire outra que lhe é atribuída pelo novo contexto imagético e sonoro. O que era patético na montagem original pode tornar-se cômico na nova. Se, da primeira montagem, se guardam dois planos consecutivos respeitando o corte, em geral não será com a finalidade de preservar o original, mas porque a nova montagem terá como que contaminado a montagem anterior, o filme em elaboração contamina o filme já feito.
O filme usa uma estrutura pouco comum, que é a completa ausência de locutor e de depoimentos no filme. O diretor optou pela música minimalista, do compositor belga Wim Mertens, como seu fio condutor discursivo, que não foi composta originalmente para Nós que Aqui Estamos. Masagão escolheu algumas obras de Mertens, pagou os direitos autorais e depois sonorizou o filme.

“Queria deixar as imagens tão livres quanto possível, só que não consegui me livrar da palavra escrita, mas ela é diferente porque a palavra escrita envolve uma reflexão maior. Além disso, o que eu escrevi não é uma explicação, é simplesmente um dado que vai te fazer pensar sobre o que você está vendo", esclarece Masagão sobre “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”.

"Passei mais de 2.000 horas na frente de um computador fazendo a edição. Não era um Avid, mas o que chamo de seu primo pobre, um Pentium 240 MHZ com uma placa digitalizadora chamada Perseption, o software utilizado foi o Speed Razor 3.5, muito bacana e eficiente. Este é um sistema de edição não-linear relativamente barato, custou U$ 7 mil e fez tudo perfeitamente. A tecnologia é maravilhosa e tem que ser descoberta pelos cineastas brasileiros. Não se pode fazer um filme que é um elefante branco e que nunca vai se pagar. Acho que a película caminha a passos largos para ser uma nostálgica peça de museu", analisa Masagão.

Masagão utiliza imagens quase sempre clássicas do século XX, principalmente entre os anos 1912 até os anos 70 que colheu em arquivos de imagem da Europa e dos Estados Unidos, e alguma coisa do Brasil. Na edição, Masagão não colocou uma imagem sucedendo a outra simplesmente, na maioria das vezes, elas se fundem, com alguma influência de Dziga Vertov e Eiseistein. Inclusive são usadas algumas cenas de filmes clássicos de Vertov, Buñuel, Buster Keaton e Meliès.

"Além disso fica mais charmoso e menos repetitivos com imagens mais antigas e clássicas. Quase todo mundo já conhece estas imagens de algum lugar, mas elas estão distanciadas. Se eu usasse muitas cenas da vida cotidiana ficaria mais cansativo, todos teriam a sensação de que já viveram ou viram aquilo muito recentemente. Mas é claro que não resisti a algumas cenas marcantes da década de 90, como a daquele chinês em frente aos tanques de guerra", diz ele.

"O principal para fazer um documentário é ter uma ideia inicial, um objetivo. Em documentário não existe um roteiro feito com antecedência, sua ideia inicial é complementada ao longo do processo, ela pode até ser mudada, mas inicialmente tem que existir um pressuposto. Eu tinha dois objetivos que me guiaram ao longo do trabalho e impediram que eu me perdesse no meio das imagens e das histórias. Um era discutir a banalização da morte e consequentemente da vida. Nunca se criou tanto como neste século, mas nunca se destruiu tanto também. O outro tinha mais relação com a forma, isto é, como contar. Você pode até ter uma história fraca para contar, mas se você o faz de maneira interessante ela ganha vida", diz Masagão, que para melhor atingir seu primeiro objetivo utilizou uma pesquisa psicanalítica, que consta nos créditos.

O trabalho, também, trouxe vários contrapontos. Depois de enfrentar vários dissabores, a finalização acabou sendo financiada por um órgão do governo, a RioFilmes, para onde Masagão tece vários elogios.

"A Lei do Audiovisual é ridícula. Onde já se viu deixar que os artistas tenham que dialogar com diretores de marketing de grandes empresas, pessoas que não sabem nada de cultura. É esse tipo de gente que tem o poder de dizer qual projeto vai receber financiamento e qual vai continuar na gaveta. Era constrangedor eu falando da banalização da morte com um sujeito desses. Como a pesquisa foi financiada pela bolsa da MacArthur e a edição também já estava pronta eu só tinha que captar recursos para a Kinescopagem e quando ia às reuniões com os diretores de marketing já levava uma VHS com o filme pronto. Fiz um teste e deixei a fita sempre em um mesmo ponto, e não no começo, quando recebia o não definitivo, eu pedia o material de volta e a fita ainda estava no mesmo ponto, quer dizer, absolutamente nenhum destes diretores analisou o material que tinham em mãos", revolta- se Masagão.

ENTREVISTA COM MARCELO MASAGÃO:

Vida & Arte - Como surgiu a ideia de fazer “Nós que aqui estamos, por vós esperamos''?

Marcelo Masagão - Na verdade, esse trabalho é resultante de uma bolsa para pesquisa que eu ganhei da Fundação MacArthur pra estudar o século XX. Inicialmente era pra ter sido feito um CD-ROM, esse era o projeto, mas no meio da pesquisa eu fiquei muito animado com as imagens que fui achando e achei que merecia fazer um filme. Foi daí que surgiu.

Vida & Arte - O filme tem tido uma recepção muito boa da crítica e tem ganho vários festivais. Você esperava essa recepção tão positiva?

Marcelo Masagão - Não, eu não esperava e estou muito contente com ela. Tanto de crítica como de público também, que eu acho mais importante até.

Vida & Arte - O filme traz algumas inovações tecnológicas. Ele foi feito todo em computador e só depois foi passado para a película. Como foi esse processo?

Marcelo Masagão - Eu faço uma avaliação que aqui no Brasil é ridículo você fazer filmes que custem mais de um milhão de reais. Não sou, em principio, contra filmes caros, é porque eu acho que a gente tem pouquíssimas salas para exibir, então você fazer um filme caríssimo aqui é como você criar uma baleia numa piscina, ela morre. O preço do ingresso médio, pra um filme de três milhões, com uma média de público de 20, 30 mil espectadores, vai ter que ser R$ 100,00. Acho um absurdo isso. Então a minha produção teve um baixíssimo orçamento. Gastei 140 mil dólares para fazer todo o filme, dos quais U$ 80 mil foram consumidos só com direitos autorais. E eu fiz com um baixo orçamento porque hoje a tecnologia permite que você o faça. A placa que eu usei para editar custou U$ 2 mil, ou seja, cada hora de edição saiu a US$ 1,00.

Vida & Arte - Como você estruturou conceitualmente o seu filme?

Marcelo Masagão - Eu tenho duas coisas, dois nortes para o projeto. É muito difícil você ter um roteiro para um documentário. Em vista que você vai documentar uma coisa que você não conhece ainda, só quando você conhecê-la é que... é a partir daí que sai o roteiro. Mas isso não quer dizer que você não tem que ter nada na cabeça. Você ficar completamente a mercê do seu objeto de estudo, você pode ficar meio louco também e não sair nada. Você tem que ter alguns nortes. Eu tinha basicamente dois nortes que eu queria desenvolver no filme. O primeiro deles era a banalização da morte, que é um assunto que acho premente hoje dia. Quer dizer, permeou o século inteiro e terminou o século com esse problema ainda, cada vez a vida humana vale menos. E o outro norte que eu tinha era... não era bem um norte, mas era como eu ia contar a história. Resolvi optar em contar a História do ponto de vista de recortes biográficos de grandes e pequenas personagens. A História geralmente é vista como a história dos “grandes acontecimentos'”, dos “grandes homens que fizeram a História'” e tal. O que não é a realidade. Atrás desses dez homens teve um batalhão de pessoas que está de um lado ou de outro fazendo a História com seus sonhos, seus pequenos defeitos, suas pequenas indagações e tal. Isso foi um grande acerto do filme, porque conta a História de um jeito diferente.

Vida & Arte - Como tem sido a carreira de festivais de ``Nós que aqui estamos...''?

Marcelo Masagão - É curioso porque como é um documentário que não é tradicional ele causa, obviamente, uma sensação diferente nos festivais. Eu me surpreendi porque ele tem sido muito melhor recebido por festivais de ficção que por festivais de documentário.

Vida & Arte - Mas ele ganhou o prêmio máximo no “Tudo é Verdade'”...

Marcelo Masagão - Eu estou falando de uma tendência. Festivais como o “Tudo é Verdade'” ou o Festival de Amsterdam, que é o maior do mundo, onde os diretores têm uma abertura para documentários não tradicionais, ele tem entrado. Mas a maioria deles não é assim. O que acontece é que ele está tendo uma melhor recepção em festivais de ficção. Ganhei o Festival de Recife, que não é uma festival de documentários. Mesmo internacionalmente, vários festivais têm me convidado, mas festivais de ficção. Achei curioso isso.

Vida & Arte - Marcelo, como ficou resolvido o problema entre você e a organização do Festival do Recife por causa do prêmio que não foi pago?

Marcelo Masagão - Não está resolvido até o momento. O Festival de Recife está sendo processado e a empresa que organiza o festival está sendo processada por mim. Esse caso vai ser resolvido na Justiça. Mas vai resolver porque eles anunciaram em sete jornais, de cinco Estados diferentes, que iriam dar um prêmio. Eles até reconhecem que anunciaram, mas falam que foi um engano da assessoria de imprensa. Agora, como é que há um engano e não se preocupam em nenhum momento em desmentir? Quiçá para os oito participantes que foram para Recife, era só uma cartinha para cada um. Enfim, infelizmente vai ter que ser resolvido na Justiça porque eles não honraram o que divulgaram publicamente. Anunciou tem que pagar. Não é nem o fato de ser R$ 50 mil. Podia ser R$ 1.000,00. A coisa tem que ser séria, né? Teve membro do júri que me falou que esse prêmio existia e foi suspenso no meio da semana porque estourou o orçamento, convidaram muito artista da Globo, convidaram mais gente do que podiam. E aí tiram o prêmio? Palhaçada! Não avisam a ninguém? Não dá.

Vida & Arte - Um pouco antes da divulgação oficial dos competidores do IX Cine Ceará, chegou a ser comentado informalmente que o seu filme seria o único representante brasileiro na Mostra Internacional de Novos Talentos. Quando a programação oficial foi divulgada, o concorrente nacional foi “Um Copo de Cólera'”, de Aluizio Abranches. O que houve?

Marcelo Masagão - Olha, eu nem sabia disso. Estou tomando conhecimento agora. Fico surpreso em saber isso. Não sei o que aconteceu. Eu estava torcendo muito para participar do Cine Ceará. Acho que o pessoal (da comissão de seleção) viu o filme e avaliou que era melhor “Um Copo de Cólera”.

Vida & Arte - Quais foram os festivais internacionais que o filme participou?

Marcelo Masagão - Ele participou de um festival em Munique (Alemanha), onde ganhou menção honrosa. Três festivais nos Estados Unidos. Agora ele vai para Montreal (Canadá), depois segue para Cuba, onde já foi selecionado. Também já foi selecionado para o Festival de Amsterdam, que é o mais importante do mundo. Abre o Festival de Gramado... Enfim, tem uma boa carreira pro filme.

Vida & Arte - Você falou que o filme fugia do conceito clássico de documentário. Quais as inovações formais que ``Nós que aqui estamos...'' traz?

Marcelo Masagão - A primeira diferença é que eu tirei o personagem principal de qualquer documentário, que é o locutor. Na maioria dos documentários, o locutor fala tanto que as imagens são até detalhe. Quase sempre tem um texto lá e o cara sai procurando imagem para cobrir. Eu tirei isso. Tem uma coisa que o crítico de cinema Jean Claude Bernadet disse quando escreveu sobre o filme, que a gente falava que esse século era o século das imagens. E é mentira, é o século das imagens acompanhadas de palavras. Não é a imagem pela potencialidade dela, mas sempre existe uma palavra junto, como regra, que define o que é aquela imagem, tirando toda a potencialidade que ela possa ter, no sentido de pluralidade mesmo. A palavra meio que dá uma formatada, `”olha, essa imagem é exatamente o que eu estou dizendo'”. E eu tive essa preocupação de tirar isso. Eu me baseei na química: música e imagem em movimento. Isso, de cara, já faz com que a pessoa reflita muito mais.

III – GÊNERO:

“Nós que Aqui Estamos por vós esperamos” não é nem documentário nem ficção, é um "filme-memória" diferenciado e criativo que foge aos padrões tradicionais.
As imagens mostradas são todas verdadeiras, mas as pequenas histórias contadas em legendas que aparecem e desaparecem suavemente sobre as personagens das fotos são fruto da imaginação do diretor, que é também o roteirista, o pesquisador, o editor e o produtor do filme. Quanto às pequenas histórias, ele diz que são inventadas, porém nenhuma delas é absurda ou inverossímil.

"Chamo de filme-memória porque acho que esta palavra é um pouco esquecida por nós, e frequentemente mal utilizada. Vivemos numa época que costumo chamar de Presente Permanente, tudo tende a ser contado no presente e o passado fica esquecido, isso é muito perigoso, mas o contrário também. É preciso trazer à tona a questão da memória não para lembrar e sim para conscientizar e questionar o presente.”

"Eu simplesmente imaginava o que fizeram estas pessoas durante o tempo em que viveram, muitas delas passaram apenas uma vez por uma câmera de filmar ou uma máquina de fotografar e assim entraram para um registro histórico, estão num arquivo de imagens. A história do século também é a história destas pessoas e pode ser contada através delas".

De forma circular, cíclica e fragmentada, apresenta uma extensa pesquisa de imagens de fitas antigas e arquivos fotográficos do mundo inteiro. São 73 minutos de magia mesclada com a realidade, levando o público a experimentar as mais diversas reações, indo do choro ao riso, chegando a beirar a hipnose.
O filme impressiona pela escolha e sobreposição de imagens partindo da colagem e de fragmento de memória audiovisual que beira o delírio pessoal. Delírio, este, camuflado por uma aura de realidade que dá ao filme um tom de “documento”, de “verdade”, na tentativa de traçar a trajetória humana, levando o espectador a uma reflexão instigante sobre o século XX.
Sem seguir uma lógica temporal, é uma composição múltipla. Cada imagem é uma rede de relações não de ordem histórica, mas de ordem conceitual e comportamental.
Essa forma de montagem é usada em várias sequências do filme, por exemplo, a do Muro de Berlim: a construção do muro inicia-se no campo, prossegue em ambiente urbano, e a fuga do soldado se dá por cima de uma grade que nada tem a ver com o que apresenta sendo construído. Trata-se indiscutivelmente do Muro de Berlim, mas como que desrealizado, a montagem remete a um fato (muro) e ao mesmo tempo distancia-se dele para possibilitar que encaminhe para uma reflexão mais ampla, de teor político. Os regimes comunistas, a opressão.


Mas a reflexão é dirigida: não se caminha na direção de uma reflexão política geral, pois o primeiro plano do soldado que se prepara para a fuga, bem como os antecedentes do filme dedicado às "pequenas biografias", encaminha para a presença do muro na vida cotidiana de pessoas "insignificantes", um dos eixos temáticos do filme.

Dessa forma. o filme de Masagão opera com outras formas de montagem. Uma delas consiste na inserção de uma segunda imagem dentro de uma imagem principal. Essas incrustações quebram a montagem visual consecutiva que foi até agora a forma da montagem cinematográfica. Numa delas, a imagem incrustada passa a ter um papel mais importante do que aquela em que está incrustada, a qual se torna um fundo.
Pode-se tomar como exemplo o plano do cavalo caído que Masagão extraiu do filme de Walther Ruttmann "Berlim sinfonia de uma grande cidade". No filme de Ruttmann, o cavalo caído é em seguida erguido; e deve-se notar que, embora as ruas estejam dominadas por carros, a tração a cavalo continua presente em Berlim. A queda do cavalo tem em Ruttmann um pouco o caráter de uma anedota, do tipo coisas que acontecem numa cidade. Masagão guarda apenas o cavalo caído e lhe acrescenta o letreiro "a cidade já não cheirava a cavalo". O sentido que se imprime assim ao plano (desaparecimento da tração a cavalo) reverbera um pouco no filme de Ruttmann, porque, apesar da presença da tração a cavalo, sugere-se que ela está em via de desaparecimento inclusive em Berlim, ou seja, o plano anedótico de Ruttmann pode se carregar de uma significação mais genérica.
Esse tipo de montagem tem uma vertente destrutiva e outra construtiva. A destruição consiste em extirpar uma imagem da montagem original e despojá-la da significação que lhe atribuía o contexto imagético, sonoro e verbal em que estava inserida. É construtiva a sua colaboração à composição do novo filme. Em realidade a destruição nunca é total.
Na montagem da longa sequência das mulheres, aparece um plano amarelo apresentando uma mulher que brinca com outras, que se encontram dentro de copos cheios de água, estilo Bela Época. Nesta imagem, virão se instalar outras que ocuparão a quase totalidade da tela, deixando espaço apenas para as bordas do plano amarelo, as quais passam a funcionar como moldura.


Neste caso, a imagem incrustada tem o papel predominante, enquanto a outra funciona como uma espécie de leit-motiv que contribui para assegurar a unidade e o fluxo de uma sequência longa, que integra materiais díspares e aborda diversas vertentes do tema principal.

Masagão elegeu dois caminhos para narrar “essa verdade”: a psicanálise e o historiográfico.
Através da psicanálise apresenta imagens oníricas, fractais, imagens-síntese como as produzidas pelo inconsciente no sonho (Freud).
O filme é um documentário que não exatamente documenta no sentido histórico e até jornalístico, um filme histórico que não faz historiografia. Pode-se inseri-lo como um filme publicitário. Afinal, ele faz propaganda da história, possui uma estética persuasiva, convincente, que lembra os comerciais de TV, com suas sequências de imagens históricas com narrações-guia e música comovente. Embora, não assume qualquer postura política definida, em “Paranóia” apresenta uma lista de ditadores, todos responsáveis por alguma situação de totalitarismo, ausência de democracia e até violência extrema.
Masagão relaciona imagem com morte. É com fantasmas que ele narra á história que existem em um inconsciente que pode ser chamado de coletivizado, porque projetado na tela.

IV – TEMPO:



Afastando-se da linearidade e recorrendo ao tempo psicológico, Masagão sabe exatamente onde cativar seu espectador, onde interferir, ao mesmo tempo, trazendo um questionamento sobre o século XX, matizado não apenas pelo olhar do multicultural, do nostálgico ou da memória coletiva, e sim, na forma de pensar a própria prática do tempo e do conhecimento.


V – TÍTULO:


O pórtico de um cemitério no interior de São Paulo deu o mote para o cineasta Marcelo Masagão narrar, a seu modo, a História do século XX: Nós (mortos, ossos) que aqui (cemitério) estamos, por vós (vivos) esperamos.

O filme possui dois objetivos nítidos já encontrados no título:
a) A banalização da morte (cada vez a vida humana vale menos) e por correspondência direta a banalização da vida. A criação versus destruição, sugerindo que a morte iguala todos; que o homem veio do pó e ao pó retornará, independentemente de seus feitos no decorrer da vida.
b) A história não mais vista como a história dos “grandes acontecimentos” dos “grandes homens que fizeram a história”. Nesse filme, através de 10 homens selecionados, “os grandes homens”, milhares de pessoas fazem suas histórias com seus sonhos.

Dessa forma, permite uma reinterpretação do título: Nós (imagens) que aqui (bancos de imagens) estamos, por vós (novos cineastas, novos filmes) esperamos.

VI - INOVAÇÕES:

a) O diretor aboliu o locutor ou personagem-principal: “ele fala tanto que as imagens são detalhes”;
b) Século das imagens e de poucas palavras ou século das imagens acompanhadas de palavras? Como se dissessem: “olha, essa imagem é exatamente o que estou dizendo?” Afinal, a palavra em forma de fala é limitada;
c) Música e imagem em movimento;
d) Não enciclopedista e nem didática;
e) Sem linearidade temporal dos fatos;
f) Sem estatísticas;
g) Linguagem determinista: “a pintura já era Picasso, o balé já não era clássico”;
h) Irracionalidade: as guerras são iniciadas por aqueles que nunca carregaram um fuzil.

VII – PERSONAGENS:

“Grandes histórias versus pequenas personagens” e “Pequenas histórias versus grandes personagens”.
A partir de recortes biográficos reais e ficcionais das personagens e por extrema sensibilidade, Masagão cria uma arte da ilusão ótica, misturando o real-fantástico ou a fantasia-verdade, onde pontos importantes da história factual (Revolução Cultural, guerras, avanços científicos e tecnológicos) são povoados por personagens reais - os “grandes personagens”, ao mesmo tempo em que, mistura “pequenas personagens” de maneira alegórica.
Sensível e ponderado foi também o seu modo de jogar com as perspectivas de gentes simples e anônimas, nascidas no torvelinho das grandes transformações, dragadas pelas engrenagens dos gigantescos complexos industriais, as linhas de montagem, o lazer massificado, a publicidade, os apelos do consumo, as alegrias da dança e do corpo liberado, os rigores trágicos das crises e da guerra. Dando nome a essas criaturas minúsculas, ele ao mesmo tempo devolve o quinhão de humanidade que lhes foi negado, como destaca o modo pelo qual a dinâmica social opera através da modulação dos comportamentos, a rotinização do cotidiano e a galvanização das mentes.


Divide-se a tela Fred Astaire, Garrincha, Nijinski, Stalin, Hitler, Picasso; enfim, personagens históricas, heróis ou anti-heróis, sem máscaras, sem fantasias contracenando com personagens anônimas, como exemplo, uma empacotadora de cigarros soviética, soldados, camponês boliviano etc, todos igualmente representados, brincando com eles, acusando-os e lembrando-se de frases famosas e sugerindo reflexões.


O filme apresenta guerra e arte; sonho e realidade; vida e morte, um aparente antagonismo que se funde para retratar o decorrer do século mais violento da História, desembocando na dualidade criação versus destruição.

Os primeiros anos do século XX foram o cemitério no qual seriam enterradas as convicções do passado e o berço no qual nasceria uma civilização marcada pela incerteza e pela relatividade.
Masagão insiste em focar o ser humano: suas paixões, suas fobias, seus sonhos e suas paranóias, como agente direto ou indireto da História.
O filme apresenta a busca incessante dos sonhos e de ideais do ser humano. Algumas personagens limitam-se à simples questão da sobrevivência e outras, comprovam á onipotência humana, o egoísmo, o desejo de conquistar o inconquistável e a vaidade humana em busca de poder e glória.
A apresentação atenta sobre as “deixas” das grandes e das pequenas personagens e instiga sobre o posicionamento do ser humano atuando, às vezes, como sujeito e, em outras, como objeto de sua própria História.

VIII – TEMA:


“No inicio de meus estudos, cheguei perto de uma crise de esquizofrenia. Só acalmei e consolei-me quando percebi que mais esquizofrênico que eu era o próprio século. Em nenhuma outra época histórica a dualidade CRIAÇÃO/DESTRUIÇÃO se manifestou de forma tão POTENCIALIZADA. Qual aspecto deste século discutir, se os assuntos são tão intrincados, contraditórios e difíceis de se compreender?

Resolvi discutir um dos fatos que mais me chamam a atenção neste final de século, isto é a BANALIZAÇÃO DA MORTE e, por correspondência direta, a Banalização da VIDA.
Comecei então a visitar cemitérios e imaginar pequenos recortes biográficos da vida de pessoas que eu não conhecia. Como por exemplo, que time de futebol torcia José da Silva que durante 40 anos trabalhou numa linha de produção de Veículos da Renault; qual era a receita de bolo secreta que tal senhora fazia...
Comecei a imaginar como esses detalhes de cada pessoa ali morta poderia conectar-se com os fatos históricos ou tendências comportamentais do século: como estas pessoas e suas pequenas biografias davam consistência carnal, psíquica e social aos fatos históricos que os historiadores, sociólogos ou psicólogos do comportamento discutem em seus livros.
Pensar também como, na maioria das vezes, os pequenos personagens não só avalizam como dão consistência singular ao discurso maluco dos grandes personagens.
Apesar de falar muito da história do século, minha intenção não foi ser enciclopedista, professoral ou mesmo respeitar a linearidade temporal dos fatos.
Tomei duas decisões importantes ao desenhar meu documentário: não coloquei nenhum dado estatístico e nenhum tipo de locução no documentário.
O locutor é um personagem que geralmente ocupa o papel de ator principal na maioria dos documentários. É como se a realidade sempre necessitasse do aval da PALAVRA para ter legitimidade. Cada vez mais considero que a palavra em forma de fala é muito limitada e comunica muito pouco.
O locutor parece querer sistematizar o buraco do não compreendido.
Além do que o locutor adora vomitar dados estatísticos - e quando se fala de morte, a estatística vale pouco. Na morte, não interessa o milhar, mas a unidade-próxima. Ouvir notícias de milhares de mortos na Guerra da Bósnia, na fome africana ou no desastre de avião, parece sonorizar pouco e só acaba tendo dimensão real se o morto em alguma dessas catástrofes for meu parente ou amigo.
Resolvi também tirar todo tipo de depoimento, pois sejam de grandes ou de pequenos personagens, os depoimentos parecem estar cada vez mais fadados ao espetáculo, ao ego mentirinha, a dizer pouco sobre nossa complexa e conturbada vida psíquica.
Colocando só música, ruídos e silêncios, procurei não tapar o buraco do desconhecido, do não dito, do não que talvez seja o sim, ou, quem sabe, o talvez.”

No início do século XX, o mundo se encontrava em intensa turbulência. Ao lado da instabilidade política, as pessoas tinham também de construir um novo olhar para a vida, agora transformada pelo impacto das descobertas tecnológicas e científicas que começavam a causar espanto. Considerado a era da eletricidade (Futurismo de Marinetti), o século XX viu surgir o telefone, o telégrafo sem fio, o aparelho de Raio X, o cinema, o automóvel, o avião, entre outras invenções que ampliaram o domínio humano sobre o espaço e o tempo.
A ciência descobriu mundos invisíveis com o auxílio do microscópio (vírus e bactérias); a teoria da relatividade (Einstein) abalou certezas centenárias e provocou uma verdadeira revolução na Física (nada mais era definitivo, nada era certo) e com o surgimento da psicanálise, Freud identificou o inconsciente humano, revelando o impacto dessa força desconhecida sobre as noções tradicionais de identidade, personalidade, responsabilidade e consciência.
As dimensões da vida e do pensamento não podiam mais ser orientadas pelas referências herdadas do passado. Era o momento de o indivíduo estabelecer uma nova relação consigo mesmo e com o mundo em que vivia.
Os anos que antecederam a I Guerra foram chamados de “os anos loucos”, a “Belle époque”, tempos do “charleston”, das festas, do champanhe bebido no sapato, das mulheres aderindo à ousada maquiagem das boquinhas em coração, dos olhos de contornos negros, das saias escandalosamente curtas e dos cabelos curtos (antes esses costumes eram usados somente pelas prostitutas).


A inquietação intelectual e espiritual gestada nesse clima de oscilação entre a euforia e a descrença, gerou novas propostas de concepção de arte, conhecidas como “vanguardas européias”.

O impacto dessa mudança logo se fez sentir no mundo das artes indo da oposição à retaguarda.
Os manifestos foram o meio de dar maior visibilidade às propostas de diferentes ideologias. O contexto de circulação dos manifestos escolhido foi o jornal e quanto mais conservador, melhor para causar o choque, como por exemplo, “Le Fígaro” que em 20/02/1909, trouxe o manifesto “Futurista”, de Marinetti. Enquanto que, o Expressionismo (1910), defendia a não percepção da realidade em planos distintos (físico e psíquico) e, sim, “expressando” o lado obscuro da humanidade, retratando faces marcadas pela angústia e pelo medo.
O Cubismo de Picasso, no filme, força o espectador a questionar a realidade, não aceitando uma interpretação única, linear em um momento de posições políticas arraigadas de conflitos iminentes.
O Dadaísmo (1916) apresentado no filme retrata uma Europa caótica e em guerras, levando refletir sobre o absurdo da violência.
Na arte de Leonilson, as palavras e os textos eram bordados sobre tecidos ou apenas riscados sobre o papel, defendia a escrita livre de regras gramaticais em vários idiomas, escolhidas simplesmente pela musicalidade dos versos ou palavras.


A violência destruía as certezas e os modelos obrigavam o leitor reagir. O processo de recepção da nova arte passava a ser mais dinâmico e interativo. E, em um mundo totalmente descontrolado, o diretor uniu dois expoentes de manifestações culturais de grande importância do século XX: a arte e o esporte de uma maneira poética, ao apresentar o movimento das pernas de Garrincha driblando seus adversários, ao mesmo tempo em que, transporta a cena ao famoso bailado de Fred Astaire, numa magnífica performance cinematográfica.

Essas duas linguagens conquistaram espaço na mídia (rádio, cinema e a televisão) por se tratarem de produtos de grande penetração popular, basta lembrar-se da grande audiência dos Jogos Olímpicos e da Copa, como também da entrega do Oscar. Além de servirem como válvula de escape nas tensões e nas crises.




O instinto de limitação do ser humano também não passou despercebido na tela. A imagem de um aventureiro do começo do século, denominado pelo cineasta de “Alfaiate”, por estar enrolado em panos, saltando da Torre Eiffel, onde seus pára quedas (os panos) não abrem e ele cai, contracena com a imagem do ônibus espacial que explode no céu.

Se “Deus é o pai” dizem os créditos do filme, “Freud é mãe” e ele bem que avisou: “o homem tem limitações sérias, nem todas as barreiras são transponíveis.”
As crenças racionalistas do poder que o homem teria de controlar seus desejos e tornar-se o centro de suas próprias decisões foram seriamente abaladas pela teoria da psicanálise desenvolvida por Freud (1856-1939), através da “A Interpretação dos sonhos” (1900).
As dimensões da vida e do pensamento não podiam mais ser orientadas pelas referências herdadas do passado. Era o momento de o indivíduo estabelecer uma nova relação consigo mesmo e com o mundo em que vivia. E, as bases da psicanálise eram:
ID – lado agressivo; desejos sexuais; livre das imposições culturais e sócias e busca do prazer.
EGO – percepção; formas de encontrar a realização do desejo contido no ID. Quando os impulsos são inaceitáveis (contrariam as regras de convivência social), o EGO defende-se através dos mecanismos de repressão e defesa psíquica contra os ataques e demandas irracionais do ID.
SUPEREGO – censor do ID. É nele que ficam guardadas as proibições e as regras socialmente impostas ao indivíduo.
ID (desejos individuais) – EGO (árbitro desse embate) – SUPEREGO (regras coletivas)
Não resta dúvida de que o amplo desenvolvimento da psicanálise levou a uma nova concepção de moral cada vez mais orientada na direção do homem concreto, com ênfase aos valores da vida e da espontaneidade, o que certamente ajudou na superação de preconceitos e comportamentos hipócritas, bem como na valorização do corpo e das paixões.
O Surrealismo (1924) propunha a emancipação total do ser humano, para que este se libertasse da lógica, da razão, da inteligência crítica, da religião, da família e da moral, apoiando-se nas bases psicanalíticas freudianas sobre o subconsciente, os sonhos, a hipnose e a cura através do processo terapêutico.
O mecanismo que opera na sequência das mulheres pós-guerra e várias outras é um dos mais importantes do filme. Há uma nítida relação causal entre esta guerra e a situação das mulheres. Aí um dos elementos residuais entra em operação: a surpresa provocada pelo aparecimento de uma imagem dos primeiros anos do século numa sequência que aborda um tema da segunda metade dos anos 40.
O efeito de surpresa é atuante: abole o efeito narrativo e a preocupação cronológica, projetando a significação em outro nível: o conceitual. Não se trata de descrever a situação das mulheres após os anos passados nas fábricas, mas de impostar a questão num nível de tipo sociológico: a volta às fábricas dos homens desmobilizados devolve as mulheres às tarefas domésticas e, no filme de Masagão, provoca uma grande depressão.
As diversas imagens que compõem a sequência ao conectar entre si épocas diversas, mulheres e atividades domésticas diferenciadas, dilui a particularidade de cada uma delas para evoluir para o genérico. As diferenças são expulsas, o que não implica que fiquem totalmente inoperantes: a sua expulsão reforça o denominador comum. Para o espectador, é um processo que se dá no tempo, ele não começa na primeira imagem, mas na segunda ou na terceira; tendo sido rompido á linha narrativa e a cronológica, o espectador se reequilibra em outro nível, o do genérico, o do conceito e da depressão.
Apoiando-se nas regras burguesas de um mundo dito civilizado surge a histeria, considerada por Charcot como distúrbios femininos.
Freud passou estudar esses distúrbios femininos e desenvolveu sua linha própria. O psicanalista observou a necessidade de desabafo, principalmente da mulher burguesa. Esta, por não produzir rendimentos, raramente, era ouvida. Assim, Freud colocava-as num divã, olhando para o teto e deixava-as falar à vontade. Esse procedimento constituía num automatismo psíquico, pois não havia coerência nesse monólogo, e, sim, palavras aleatórias. Essas livres associações acabavam transmitindo o “funcionamento do pensamento”.
O caráter simbólico com imagens sem sentido com a razão, desperta uma lógica própria e revela o inconsciente. Símbolos, como por exemplo: gavetas e caixas, representando o sexo feminino e os objetos pontiagudos, referências ao sexo masculino, muito bem, explicitados em cenas do filme “O cão andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dali, são retomados por Masagão representando a solidão e a masturbação.
Lembrando-se que o século XX é o tempo da lógica, do capitalismo e das fábricas, o Surrealismo apresenta uma proposta revolucionária: libertação da mente para a estética (Belo) e da moral (Bom e Mau).
O filme apresenta o niilismo como um cristal de várias facetas, que designam tanto acontecimentos de nossa civilização como um modo de experimentar a existência humana.
Citando Nietzche e a concepção da “morte de Deus”, ele implica na desvalorização dos valores morais. O fim do Deus cristão será o fim da moral por ele sancionada e de todos os substitutos laicizados do cristianismo. Dessa forma, se “Deus é o pai” e “Freud a mãe”, e, se Deus está morto, nada, então, é proibido; portanto, é o fim da moral cristã. Então, o homem chegou à Lua!!!
Masagão brinca com a realidade, mescla paz e terror e cria uma epopéia da família Jones: o bisavô morreu na trincheira da Primeira Guerra; o avô morreu num desembarque da Segunda Guerra; o pai morreu no Vietnã; o filho foi piloto e jogou bombas inteligentes sobre o Iraque e de Martha Brinkley, americana, lanterninha de cinema que “teve a vida marcada pelo tédio”.


O diretor relembra a queda do Muro de Berlim, aborda a industrialização do mundo ou das partes que passaram pelo processo de modernização industrial; a Guerra química; o holocausto da Segunda Guerra; o bombardeio atômico sobre Hiroshima e Nagasaki; retrata a alienação dos trabalhadores que se transformaram em peças da engrenagem capitalistas; a dissipação de famílias e cita os intelectuais, cientistas e escritores que tiveram seus livros queimados em praça pública por soldados nazistas. E, com isso, o homem ultrapassou seus limites e como recompensa, foi homenageado com a queda da bolsa de Nova York trazendo fome e desemprego; com os corpos despedaçados pelas guerras e os amontoados de Serra Pelada.

Diplomas não tinham valor, o que foi representado pela imagem de um engenheiro vendendo maçã na rua, para sobreviver, de terno e gravata. Ou seres humanos que trocaram sonhos pela destruição da guerra ao se casarem às pressas e irem um, ao campo de batalha enquanto a outra produzia munição para alimentá-los.
Encontra-se outro uso da incrustação no plano de Artur Bispo do Rosário, "que fez uma roupa especial para se encontrar com Deus", como diz o letreiro. Incrustada na capa de Bispo, instala-se uma imagem mostrando um homem que tenta voar com asas artificiais. A ideia de vôo, pela elevação física no céu, remete ironicamente aproximar-se de Deus e a "perto de Deus", que é um dos temas da sequência das religiões conforme indicação dos letreiros. Tal incrustação, de curta duração, complementa a imagem base sem lhe contestar a primazia. Além disso, ela tem outra função, pois expande, à distância, a significação da sequência, vista anteriormente, do alfaiate que se jogou da Torre Eiffel para voar. Na sequência do alfaiate já havia uma incrustação, a de um pássaro voando, o que apontava para o aspecto físico do vôo, sem introduzir uma transcendência, nem que seja irônica.
Se, na altura do bispo, tiver sido esquecido o alfaiate, é claro que o efeito de enriquecimento não se produzirá. Em vários momentos, o filme de Masagão solicita a memória ativa do espectador, como na primeira metade do século ao trazer à tona o filme de Chaplin "Em busca do ouro", enquanto na sequência, Serra Pelada surge com o letreiro "atrás do ouro".
Verdades absolutas de um mundo real, representadas através de alegorias.


O filme, também, atenta para a história do chinês chamado Lin Yang, retratado por uma fotografia tirada numa fábrica de bicicletas, e em seguida, apresentado como responsável pela execução de três professores de matemática durante a Revolução Cultural e do professor de Literatura que, enfrentou vários tanques, abrindo pautas para mais uma reflexão sobre a História e a Arte.

A Arte também foi expressa com ênfase, seja na dança com Josephine Baker, com Vaslav Nijinski, na performance com Fred Astaire; na pintura com Picasso, Leonilson, Hopper, Munch, Dali; no cinema com “O cão Andaluz” de Dali e Buñuel, “A General” com Buster Keaton e a “Viagem à Lua” de Georges Meliès; de reportagens de TV; de fotos antigas, de um mosaico de centenas imagens extraídas de arquivos e música com Lennon.
O universo feminino é apresentado como um desafio aos costumes e as tradições. O liberalismo; o direito ao voto; o controle da natalidade; a queima dos soutiens; as mini-saias; os cigarros e bebidas como quebra de tabus; o “Girl Power” da década de 20; a nudez de várias formas e a igualdade entre os sexos. Algumas mulheres destacaram-se, por exemplo, Coco Chanel, um ícone da moda mundial.


IX – CONSIDERAÇÕES FINAIS:


• “Nós que aqui estamos por vós esperamos” remete a reflexão sobre o homem que através de suas proezas, destruiu sua civilização;
• Nem só de grandes personalidades vive a história. As guerras foram feitas por Hitlers, Stalins, Pinochets e ao mesmo tempo, Gandhi, Guevara, Lennon e muitas personagens anônimas todas que delas participaram: os Joãos, os Josés e as Marias. É partindo da micro-história que se chega à macro. Desta micro-história também fazem parte as mulheres, citadas honrosamente pelo diretor;
• Dentre a massa de personagens anônimas ressaltam alguns rostos e nomes famosos: artistas, cientistas, intelectuais, líderes políticos e espirituais. Eles funcionam como chaves que articulam tendências de ampla configuração em diferentes níveis da experiência social e cultural. Catalisando processos em andamento, eles ao mesmo tempo dão voz às minorias silenciosas, como sinalizam alternativas ou consolidam estados latentes de aspiração, conformação, revolta ou ressentimento;
• A história é tramada nessa imprevisível dialética entre pressões estruturais, decisões individuais, desejos, pavores e projeções subconscientes, tensões sociais e a polifonia de vozes que dão forma e expressão às conjunturas;
• A postura da humanidade é proposta através da narrativa da película, ou seja, da música de fundo e de sua ausência em determinados momentos. O silêncio utilizado pelo autor é propositalmente disposto à exaltação da imagem;
• Evoca a fragilidade e os estreitos limites da condição humana, os quais têm sido sistematicamente ignorados por poderes e ambições que atravessaram o período impondo demandas e sacrifícios exorbitantes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PINTURA COM DECORAÇÃO (ROCOCÓ)

I – DADOS CRONOLÓGICOS:

O rococó foi um fantasioso sistema decorativo inventado na França, por volta de 1700, para o tratamento de interiores e objetos ornamentais em geral, como uma fuga ao estilo pomposo e monumental, cujo arquétipo era a Versalhes de Luís XIV.
Nesses campos, a ornamentação e a decoração atingiram o apogeu em Paris, na década de 1730 se propagou as outras artes e outros países, particularmente à Alemanha, e foi mais tarde associado, retrospectivamente, à época de Luís XV.
Até o final do século continuou a ornamentar os luxuosos castelos e igrejas da Alemanha, da Áustria e da Europa Central.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

O século XVIII na pré-Revolução Francesa foi um período em que as mulheres dominavam as cortes européias.
Madame de Pompadour era regente virtual da França, Maria Teresa reinava na Áustria, Elizabeth e Catarina eram monarcas da Rússia.
As artistas mulheres deixaram sua marca nessa época, sendo as mais notáveis as duas pintoras da rainha Maria Antonieta: ELISABETH VIGÉE-LEBRUN (1755-1842) e ADÉLAIDE LABILLE-GUIARD (1749-1803).
Os retratos muito em moda da pintora veneziana ROSALBA CARRIERA (1675-1757) lançaram o uso de pastéis (lápis de giz, mais tarde usados pelos impressionistas.
O rococó é o mais atraente movimento artístico entre a Renascença e o Impressionismo.
O nome rococó é derivado de “rocaille”, referente a conchas e seixos que ornamentam grotas e fontes.
A arte decorativa foi um campo privilegiado para essa ornamentação delicada, curvilínea. Os pisos eram revestidos com elaborados padrões em folha de madeira, a mobília era ricamente marchetada, decorada com estofamento em gobelin e incrustações em marfim e casco de tartaruga. As roupas, talheres e porcelanas, nesta época, também eram sobrecarregados com desenhos de flores, conchas e folhas.
Até o desenho das carruagens trocava as linhas retas por floreios e arabescos, e os cavalos eram ajaezados com plumas imensas e arreios cravejados de pedras preciosas.

III – CARACTERÍSTICAS:

A arte rococó era tão decorativa e não funcional quanto à aristocracia que a adotou.
Depois da morte de Luís XIV, em 1715, a aristocracia trocou Versalhes por Paris, onde os salões das enfeitadas casas urbanas sintetizavam o estilo rococó.
A nobreza tinha uma vida frívola, dedicada ao prazer, refletida num tipo de pintura bem característico, a “fête galante”, mostrando jovens elegantemente trajados em brincadeiras ao ar livre.
O seu encanto é um lugar comum da crítica moderna; as suas qualidades estão todas do lado da fantasia, espírito, sensibilidade e sorridente facilidade. Ao invés dos movimentos barrocos e neoclássicos que vieram antes e depois dele, o rococó é amoral e intuitivo, não didático, nem intelectual. Não exige antecedentes elaborados de conhecimentos históricos ou teóricos, o seu objetivo essencial é dar prazer.
Um sentido de estilo, elegância até, é a qualidade distintiva da arte rococó. É uma qualidade que se mostra no domínio de um determinado movimento rítmico, a curva-S irregular, cultivada por si própria e manipulada, aparentemente com facilidade, sem esforço.
Damo-nos constantemente conta de uma conscientização artística, de um deleite na beleza da realização, de um prazer decorrente da “coisa bem feita”.
Pertencia à mesma categoria daquelas artes do séc. XVIII que tinham a ver com a comunicação entre duas ou, no máximo, um pequeno grupo de pessoas: a conversação, a epistolografia, a música de câmara, a dança, as boas maneiras, a sedução.
Assim, o ROCOCÓ não era uma arte pública, como o BARROCO, nem uma arte solitária, como o IMPRESSIONISMO, mas uma arte própria de uma sociedade polida.

CONCLUSÃO:

CLIMA: leve, vivaz, superficial e cheio de energia
DECORAÇÃO INTERIOR: marchetaria elaborada, painéis pintados e enormes espelhos de parede.
FORMAS: curvas sinuosas em formas de S e C, arabescos e floreados semelhantes a fitas.
ESTILO: leve, gracioso e delicado.
CORES: branco, prata, ouro, tons suaves de rosa, verde e azul.
PALAVRAS-CHAVES FRANCESAS: “la grace” (elegância) e “lê goût” (gosto refinado)

IV – AUTORES REFERIDOS:

JEAN-ANTOINE WATTEAU (1684-1721)



“WATTEAU renovou a qualidade da graça. Já não é mais a graça da Antiguidade que encontramos em sua arte...A graça de WATTEAU é a consubstanciação da própria graça. Tem aquele toque indefinível que concede às mulheres um encanto, uma coqueteria, uma beleza que está muito além da beleza física. É aquela coisa sutil que parece ser o sorriso de um contorno, a alma de uma forma, a fisionomia espiritual da matéria.”

WATTEAU estudou a grande série de pinturas executadas por RUBENS em 1621-25 para Marie de Médici no Palácio de Luxemburgo, do qual Audran era o conservador.
O seu próprio estilo era, em muitos aspectos, uma tradução do de Rubens em termos líricos e modernos, deixando de fora a pompa e a grandiosidade.
Mas, WATTEAU não é, meramente, um Rubens em escala reduzida, nem a sua obra é toda feita de graça, pose e pares elegantes dando-se as mãos ou dançando num terraço ou jardim. Pelo contrário, a sua arte é intensamente pessoal e radicada na realidade, tanto a realidade da natureza visível como a realidade psicológica das emoções e desejos humanos, independentemente de sanções religiosas e mitológicas.
Os desenhos de WATTEAU são os registros dos seus estudos baseados na própria vida. Como homem, era irrequieto, difícil de tratar e morreu relativamente moço de tuberculose, condenado talvez a ser mais um espectador do que um participante na vida que observou to agudamente.
Ele transformou essa vida em termos poéticos, sem depender da grandiloqüência barroca. Pressente-se que essa transformação foi consciente, até parcialmente irônica. Aí reside a importância para WATTEAU do seu interesse no teatro. A sua pintura parece representar a vida convertida em arte, justamente, da mesma maneira como a vida é transformada em arte no palco, embora a sua obra nunca seja uma “encenação”
Significativamente, as figuras de WATTEAU raramente olham para o espectador; estão juntas aos pares e mutuamente absorvidas. E quando se voltam para enfrentar-nos, revelam-se como atores fazendo suas vênias ao público, atores nos papéis tradicionais da “Comedia dell’Arte” italiana: Pantaleão, o mercador, Isabela e Horácio, os amantes contrariados, Arlequim, o servo jovial e travesso, Mezetino, o músico, e, finalmente, Pierrot ou Gilles, o inocente ludibriado, a quem WATTEAU ergueu ao status de herói, talvez o único herói em toda a sua arte.
A tinta, que é manipulada com destreza mágica, ainda mais desprende as figuras da realidade cotidiana, tornando-as intocáveis e remotas. Impregnando tudo há um sentido de antevisão, de expectativa do acontecimento, de sentimentos que nunca são traduzidos em ação.
WATTEAU morreu em 1721, deixando apenas alguns sucessores medíocres no gênero que ele inventara: a “fête galante”.

“Festas venezianas”


“Embarque para a Ilha de Cítera” ou “Peregrinação a Cítera” (1717)


O artista idealizou essa delicada paisagem imaginária, habitada por graciosos aristocratas em flertes românticos, em cores imprecisas e atmosfera enevoada; onde reinam a eterna juventude e o amor. Talvez a obra-prima da pintura rococó, embora essa cena represente um regresso da ilha e não o embarque para ela.


“É amor, mas amor poético, amor que sonha e medita, amor moderno com seus anseios e suas grinaldas de melancolia”, afirmam os irmãos Goncourt.


“Les plaisirs du bal” (“Os prazeres da danças”), 1719




Este registro dos prazeres de uma vida campestre altamente civilizada foi tomado como um documento histórico por Hazlitt, que viu Luís XIV como o principal dançarino; mas, como em toda a obra de Watteau, o cenário e os trajes vagamente quinhentistas colocam o quadro no reino da fantasia arcádica.
 
Os seus desenhos têm toda a delicadeza e sensibilidade de suas pinturas, mas com um encanto adicional devido à falta de acabamento. Apesar do seu caráter fragmentário, os vários estudos de que as folhas se compõem sempre se conjugam harmoniosamente em cada página.
Em “Desenho de uma concha” (1710-15) feito por razão de documentação, embora a concha ilustrada pode quase ser considerada um microcosmo Rococó. Muitas das características do estilo estão expostas: a curva-S irregular, as frondes e picos, a assimetria, a sensação de desenvolvimento e o fascínio com o mundo natural e o exótico. Os motivos de conchas ocorrem frequentemente na decoração rococó alemã, embora não tanto na francesa.
 
FRANÇOIS BOUCHER (1703-70)


“A voluptuosidade é a essência do ideal de BOUCHER; o espírito de sua arte está na sua condensação espiritual. E até no tratamento dos nus convencionais da mitologia, que a luz e que mão habilidosa é a sua! Como é pura a sua imaginação mesmo quando o tema é indecoroso! E como é harmonioso o seu dom de composição, naturalmente adaptado, poderia parecer, para a disposição de corpos encantadores sobre nuvens roliças como colos de cisnes!”

BOUCHER pintou pastoras e pastores belamente vestidos entre árvores frondosas, nuvens espessas e ovelhas dóceis.
O seu estilo era extremamente superficial. Ele se recusava a pintar a vida, dizendo que a natureza era “verde demais e mal iluminada”. Seus bonitos quadros de nus em poses sedutoras fazem grande sucesso entre a aristocracia decadente.
Com BOUCHER, a nuvem do Olimpo converteu-se nos travesseiros e lençóis de uma cama setecentista; e Vênus e Diana tornaram-se símbolos sexuais.
O mundo de Vênus, na imaginação de BOUCHER, com suas ninfas e sereias, suas conchas, recifes e bancos de coral, água e espuma, era o acompanhamento perfeito dos esquemas de decoração do rococó.
As ondas e os nus brincalhões têm os mesmos contornos sinuosos, enquanto o azul frio do mar, o branco do resplendor dos borrifos de espuma, o verde brilhante das folhas e o rosado dos corpos produzem uma harmonia cromática tipicamente rococó.
Como um manipulador de composição, ele atenuou o Barroco de várias maneiras: os corpos agrupam-se e entrelaçam-se numa associação moderada e assimétrica; mas, contínua, à semelhança dos motivos decorativos num troféu rococó, deixando um espaço livre e irregular entre si.

“Retrato de Madame de Pompadour“



“Rapariga em repouso”




Odalisca ou Mademoiselle O'Murphy”



“Diana saindo do banho”

 
 
JEAN-HONORÉ FRAGONARD (1732-1806)


"A Inspiração" (1769), auto-retrato

 
 
 


Os quadros de FRAGONARD eram igualmente leves e excessivamente ataviados.

Continuou o estilo rococó até a Revolução, imune à influência do movimento neoclássico, embora sensível a algumas tendências românticas iniciais.
FRAGONARD pertenceu à fase de “sensibilité” que varreu toda a Europa originada na Inglaterra, na segunda metade do séc. XVIII.
Os títulos de alguns de seus quadros indicarão essa sua veia característica: “O beijo roubado”, “Cupido roubando a camisola” e “A recordação”.
Também adorava os jogos e os episódios pitorescos.
Árvores de folhagem verde prateado suave espraiam-se em repuxo contra o céu, enquanto moços e moças jogam, embaixo, num jardim italianizado.


“O balanço”


Em seu famoso “O balanço”, num gesto provocante, uma jovem sentada num balanço atira longe a sandália de cetim enquanto um admirador espia as suas calçolas de renda.


“O amoroso coroado, ou O concurso musical”

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ZERA A REZA, CAETANO VELOSO


ZERA A REZA


Vela leva a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza
Zera a reza, meu amor
Canta o pagode do nosso viver
Que a gente pode entre dor e prazer
Pagar pra ver o que pode
E o que não pode ser
A pureza desse amor
Espalha espelhos pelo carnaval
E cada cara e corpo é desigual
Sabe o que é bom e o que é mau
Chão é céu
E é seu e meu
E eu sou quem não morre nunca
Vela leva a seta tesa
Rema na maré
Rima mira a terça certa
E zera a reza

“Zera a reza”, primeira letra do disco "Noites do Norte" (2000) revela mais uma demonstração da arte neobarroca de Caetano Veloso, artista engajado com seu tempo, cujas letras são, quase sempre, tidas como complexas e de difícil entendimento, ou seja, o receptor desfruta a letra e a melodia, mas encontra dificuldades para entender a mensagem.
O neobarroco, que segundo Chiampi (1998), é uma reciclagem do barroco histórico feita nos dias atuais, surge como característica do "fim das utopias". Severo Sarduy (1979), em seu ensaio O barroco e o neobarroco, apontam três mecanismos de artificialização que são á base da teoria neobarroca, a saber: substituição, troca do objeto-foco por outro, que faz referência àquele; proliferação, a multiplicação de metonímias do objeto-foco através da repetição de termos e mesmo sequências de significantes; e condensação, fusão de dois dos termos de uma cadeia de significantes, de cujo choque resulta um terceiro termo que resume semanticamente os dois primeiros.

“As palavras da letra são uma brincadeira nada rigorosa com inversões e espelhamentos" (Veloso, 2003).

Esta definição feita pelo compositor refere-se aos quatro primeiros versos da letra, em que os anagramas: vela-leva; seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa; sera-reza, utilizados aqui como ludismo, desviam a atenção do receptor para o texto sob a letra.
Em “Zera a reza” apresenta um dualismo pois, citando a reza, momento sagrado em que o ser se comunica com o divino, e a música/dança, momento de profanação do corpo e, o pecado, Caetano Veloso parodia veladamente com a letra Deus e o Diabo (1989), de sua autoria, em que o verso "O carnaval é a invenção do Diabo / que Deus abençoou", fortalece a correlação entre espírito e corpo; perdão e pecado; virtude e prazer, características fundamentais do estilo barroco.
Nos versos: "Zera a reza meu amor / canta o pagode do nosso viver" há um convite para que o receptor, evocado através da expressão "meu amor", abandone seu estado contemplativo, principalmente, a reza, e aproveite ao máximo sua vida, pois tudo é transitório e a vida breve. Há aqui a intertextualidade com os versos da canção Deixa sangrar (1989), também de Caetano: "Deixa o mar ferver, deixa o sol despencar / deixa o coração bater, se despedaçar / chora depois mas agora deixa sangrar, deixa o carnaval passar", ou seja, é preciso zerar a reza, livrar-se das convenções e extravasar os sentimentos e as emoções.


O carnaval é um conjunto de festividades populares que ocorrem em diversos países e regiões católicas nos dias que antecedem o início da Quaresma, principalmente do domingo da Quinquagésima à chamada terça-feira gorda, “a terça certa”.

A própria origem do carnaval é obscura, embora seja encontrado já no latim medieval, como carnem levare ou carnelevarium, palavra dos séculos XI e XII, que significava a véspera da quarta-feira de cinzas, isto é, á hora em que começava a abstinência da carne durante os quarenta dias nos quais, no passado, os católicos eram proibidos pela igreja de comer carne.
É possível que suas raízes se encontrem num festival religioso primitivo, pagão, que homenageava o início do Ano Novo e o ressurgimento da natureza, mas há quem diga que suas primeiras manifestações ocorreram na Roma dos césares, ligadas às famosas saturnálias, de caráter orgíaco. Contudo, o rei Momo é uma das formas de Dionísio, o deus Baco, patrono do vinho e do seu cultivo; e isto, faz recuar a origem do carnaval para a Grécia arcaica, para os festejos que honravam a colheita. Sempre uma forma de comemorar, com muita alegria e desenvoltura, os atos de alimentar-se e beber, elementos indispensáveis à vida. É, portanto "entre dor e prazer" que acontece o pagode, o samba, o carnaval, feito, em grande parte, por pessoas que passam a maior parte do ano em meio á dor, pela marginalidade social imposta.
Dessa maneira, é preciso “pagar pra ver o que pode / e o que não pode ser”, arriscar-se, extravasar-se com toda coragem, sem medo e sem culpas, mesmo que seja por poucos dias.
Segundo Bakhtin (1999), em seus estudos sobre o contexto de Rabelais, "os bufões não eram atores que desempenhavam seu papel no palco. Pelo contrário, eles continuavam sendo bufões e bobos em todas as circunstâncias da vida. Situavam-se na fronteira entre a vida e a arte". Bakhtin (1999) observa ainda que os atores assistiam às funções do cerimonial sério, para parodiá-los. O carnaval ignora toda distinção entre atores e expectadores, pois os expectadores vivem o carnaval. Obviamente, as representações carnavalescas atuais são outras, mas ainda percebe-se esta essência do carnaval como uma "segunda vida", principalmente para aqueles que trabalham durante o ano preparando a festa, apesar da turistização, e de se fazer hoje um carnaval com palco (Marquês de Sapucaí, Rio de Janeiro; entre outros).
O folião é um participante essencial para a existência do carnaval, seu sujeito e objeto; ator e expectador, onde o "chão é céu" por onde as estrelas, que são os passistas desfilam e brilham no palco ilimitado para o show de uma vida "que pode e o que não pode ser", livre das convenções morais, sociais, religiosas e, com a própria realidade.
Há uma citação de um verso da letra Gente (1977), do mesmo autor, em que diz que "Gente é pra brilhar". O carnaval permite a elevação do povo, inclusive os mais carentes, ao céu e às estrelas.
Não há hierarquia, desigualdades e nem diferenças. O essencial é festejar a vida com toda a expressividade que o corpo permite, libertando o “eu reprimido” até na “terça certa”, a "terça-feira gorda", o último dia da festa.
Para Bakhtin (1999) "convertia-se na forma de que se revestia a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância".
O verso "E eu sou o que não morre nunca", parodia com outros, "o samba não vai morrer", da canção Desde que o samba é samba (1993); "o samba é pai do prazer, o samba é filho da dor" e atenta para o fato de que, o eu-lírico incorpora o próprio samba, zerando o sagrado, transcendendo e imortalizando como um deus.
Nos versos: "A pureza desse amor / espalha espelhos pelo carnaval” apontam para as pessoas que ideologicamente e passionalmente trabalham o ano todo, envolvidas na expectativa do carnaval e em seu brilho.
Os espelhamentos, quase anagramáticos desenvolvendo novas técnicas poéticas em “Espalha-espelhos e cada-cara” retomam a ideia inicial do jogo como recurso para desviar a atenção do leitor tal como observa Affonso Ávila (1994), ao tratar do artista barroco. Ao fazer o jogo de espelhamentos com as palavras do refrão: vela-leva; seta-tesa; rema-maré; rima-mira; terça-certa; sera-reza, e ao dizer que "espalha espelhos" Caetano Veloso trabalha criando um processo de metalinguagem na letra.
A proliferação dos significantes: "pagode do nosso viver"; "pode entre dor e prazer"; "vê o que pode e o que não pode ser", "espelho", "conhece o bom e o mau", "que não morre nunca", resulta no significado “samba”, simbolizado no título por "zera a reza".
Não é por acaso que Zera a reza abre o disco Noites do Norte (2000), um disco que, inspirado pelo pensamento do abolicionista Joaquim Nabuco, tem fortemente impresso nas letras a questão da cultura afra-descendência. Portanto iniciá-lo falando do samba, dança de origem africana, herança dos negros trazidos como escravos, e do carnaval, festa popular que, no Brasil, incorporou o samba, além do frevo e hoje do axé, como ritmos matrizes. Todavia, Caetano Veloso faz essa homenagem de forma velada, através do jogo significante/significado, das proliferações e substituições que caracterizam a obra neobarroca.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE “MORTE VIDA SEVERINA” E “VIDAS SECAS”



I – INTRODUÇÃO:


O poema de João Cabral apresenta não apenas uma interpretação da obra de Graciliano Ramos como, também, aponta para os locais de encontro entre sua própria obra, em especial “Morte e Vida Severina” e “Vidas Secas”, do maior dos regionalistas de 30.



“O que me interessa é o homem, e homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece em literatura. (...) Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do meio físico e da injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense – e os meus personagens são quase selvagens – o que ele pensa merece anotação. (...) A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não têm tempo de abraçar-se. Até a cachorra é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos”. (Graciliano Ramos)


O mesmo poderia ser dito, sem qualquer alteração, de “Morte e Vida Severina”.


"O Homem pra mim é, precisamente, o homem sofredor do Nordeste. O homem que me interessa é o cidadão miserável, do nordeste cujo futuro, menos miserável, está ligado ao desenvolvimento do Brasil." (João Cabral de Melo Neto)
Dessa forma, “Vidas Secas” (1938) com seu cenário, sua crítica ácida e, principalmente sua linguagem seca e direta de falar com coisas do mestre Graciliano, é a fonte mais clara em que bebe João Cabral.

II – GRACILIANO RAMOS VERSUS JOÃO CABRAL DE MELO NETO:

“O realismo de Graciliano não é orgânico nem espontâneo. É crítico. O “herói” é sempre um problema: não aceita o mundo, nem os outros, nem a si mesmo. Sofrendo pelas distâncias que o separam da placenta familiar ou grupal, introjeta o conflito numa conduta de extrema dureza que é a sua única máscara possível. E o romancista encontra no trato analítico dessa máscara a melhor fórmula de fixar as tensões sociais como primeiro motor de todos os comportamentos”. (Alfredo Bosi)
Graciliano Ramos com “Vidas Secas” insere-se na contextualização do quadro da literatura de 30, uma vez que, a obra com matizes do regionalismo faz um retrato real, cruel e brutal das relações sociais, nitidamente, feudais imperantes no Nordeste do Brasil na época.
João Cabral de Melo Neto recuperando o valor formal e uma linguagem sóbria só é considerado poeta da Geração de 45, cronologicamente, pois esteticamente, afasta-se das propostas modernistas, por ter aberto caminhos próprios, apresentando uma poesia objetiva, cerebral e sensacionalista, tornando-se, portanto, um caso particular na evolução da poesia brasileira moderna.
Trata-se de um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão, fato que o levou, a desde cedo, dialogar com artistas plásticos contemporâneos como Mondrian ou Juan Miró e ter afinidade com os cubistas.
Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier. Conhecido por “poeta engenheiro”, Cabral valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização, com palavras concretas, denotativas e uma preocupação formal. Propõe para a poesia um verso construído, desmistificando o ato de "criar com inspiração".

A este respeito disse João Cabral:

"A poesia concreta é muito mais visual do que auditiva e talvez resida aí a possível influência minha sobre ela. A poesia concreta é muito interessante e não precisava de mim pra ser o que ela é."

"[...] Sempre escrevi poemas sobre o Recife longe da cidade. Eu não precisava estar lá para recriar o universo sobre o qual falo em meus poemas. Não acabaram as favelas nem as populações ribeirinhas do Capibaribe, que conheci na minha adolescência andando pelos mangues perto de casa, na Jaqueira. Algumas pessoas chegaram a me perguntar se eu tinha me inspirado em Josué de Castro e sua Geografia da Fome na hora de escrever esses dois poemas. Conheci, admiro e respeito Josué de Castro, que foi meu chefe em Genebra. Mas não me inspirei nele. Fiz poesia e emoção sobre aquela realidade miserável do Recife. Ele fez ciência. Essa é a diferença entre nós.” (João Cabral de Melo Neto)

E acrescenta:

“O que me chateou muito também a respeito do sucesso mundial de “Morte e Vida Severina” foi que a burrice nacional brasileira começou a fazer inferências políticas sobre o poema. Muita gente queria que depois de cada espetáculo eu subisse ao palco e gritasse "Viva a Reforma Agrária". Recusei-me a fazer isto. Não faço teorias para consertar o Brasil, mas não me abstenho de retratar em poesia o que vejo e sinto. Eu mostrei a miséria que havia no Nordeste. Cabia aos políticos cumprirem seu papel. Essas exigências de engajamento político me irritaram muito. Ainda bem que logo depois fui para Sevilha, Genebra, Assunção e fiquei muito tempo longe do Brasil. Foi o tempo necessário para que parassem de achar que eu deveria fazer arte engajada em vez de poesia pura."

III - ESTRUTURA:

Ambas as obras são curtas, mas apresentam algumas diferenças na estrutura.
A obra “Vidas secas” é apresentada em forma de prosa e o discurso é indireto livre; em “Morte e vida severina” o texto está em forma de poesia e o narrador em terceira pessoa, aparece apenas nas transições das partes do livro.
“Vidas Secas” é comporta por treze capítulos autônomos, que se encaixam de forma descontínua, com um raro talento artístico. Para alguns, a obra pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos; formado de cenas e episódios mais ou menos isolados; mas de tal forma solidários que só no contexto adquirem sentido pleno. A continuidade textual explícita somente se opera entre os capítulos 10 /11 e 12/13.
“Morte e vida Severina” se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos dos poemas em si. Costuma-se separá-los em dois grandes grupos:
As primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas a miséria e a morte. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte. Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos que trava ou escuta no caminho.
As últimas 6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina, em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra, portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina, foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios ou Pastoris do folclore pernambucano.

IV - LINGUAGEM:

Tanto em “Vidas Secas” como em “Morte e Vida Severina”, encontra-se uma linguagem objetiva, enxuta e direta.
“Vidas secas”, assim como o clima, a linguagem é seca. Sem adjetivações pesadas, a narrativa é baseada em substantivos e não há muitos detalhes. Com linguagem culta urbana, apresenta alguns poucos regionalismos e é sempre direta, “sem rodeios”.
As frases curtas; a pontuação precisa; o uso do futuro do pretérito nas passagens em que o discurso indireto livre, permite que sejam expressos os sonhos das personagens; a inexistência de diálogos; a abundância de interjeições; exclamações; sons onomatopaicos, substituindo a fala das personagens e mostrando-lhes a animalidade, constituem alguns dos elementos enriquecedores da obra. Além da dimensão visual e sonora explorada na descrição da natureza. A linguagem é constituída basicamente por monólogo interior e a personagem dialógica é construída por um processo de comunicação interativa.
A linguagem de “Morte e Vida Severina” é concisa, mas fluída e permeada de lirismo que soletra a vida e a celebra.
Ao longo do texto, a oralidade é reforçada pelo recurso constante da repetição que constitui elemento estrutural das ladainhas, intensificando no plano sonoro, expressa a condição de miserabilidade do nordestino, a monotonia e a repetitividade da vida.
“Morte e vida severina” é mais “musicalizada”, em redondilha maior, na maioria das vezes. João Cabral tenta, ao contrário do que Graciliano fez em “Vidas secas”, caracterizar o clima, o lugar e as personagens com o uso de adjetivos.

V – FOCO NARRATIVO:

Em “Vidas Secas“ “o narrador não quer identificar-se com o personagem, e por isso há na sua voz uma certa objetividade de relatar. Mas quer fazer às vezes do personagem, de modo que, sem perder a própria identidade, sugere a dele. É como se o narrador fosse, não um intérprete mimético, mas alguém que institui a humanidade de seres que a sociedade põe à margem, empurrando-os para a fronteira da animalidade. Aqui, a animalidade reage e penetra pelo universo reservado, em geral, ao adulto civilizado.” (Antônio Cândido)
Já em “Morte e vida severina”, a obra é narrada em primeira pessoa pela personagem Severino e é composta de monólogos e diálogos com outras personagens.

VI – TÍTULO:

Em “Vidas Secas” o “sentido da vida” ou os porquês de tantas desgraças são os temas pelos quais tudo se desenrola, aliás o próprio título da obra endossa esta tese, vez que seca, na linguagem popular, segundo o Aurélio, tem o significado de “má sorte” ou azar, portanto “Vidas Secas” tem a inteligência de Vidas sem sorte, o que reporta à razão e ao sentido desta existência desafortunada.
João Cabral, por sua vez, "ao inverter a ordem natural do sintagma "vida e morte", o poeta registra com precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo "severina". Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo por estar em posição privilegiada, no título da peça.
“Morte e Vida Severina”, porque é Severino o protagonista, que, desde a apresentação, insiste no caráter comum de seu nome, antes um "a-nome" no contexto em que vive. De substantivo próprio, "Severino" passa a ser comum; daí a ser adjetivo é um passo. (...) Será interessante advertir que o uso de "severino" como adjetivo no auto cabralino não é senão a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de "severo", "severino" é originariamente um adjetivo. (...)”
É importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida pela morte, o título também demonstra o percurso feito por Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida. A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente este caminho.
“Morte e Vida Severina” traz como subtítulo “Um Auto de Natal Pernambucano”. Trata-se, portanto, de uma obra que procura aclimatar a Pernambuco o espírito dos autos sacramentais ou hieráticos da península ibérica.

"Os autos (que assim se chamaram estas representações teatrais peninsulares por conterem apenas um ato) eram composições dramáticas de caráter religioso, moral ou burlesco (mas preferentemente devoto e com personagens alegóricas) desenvolvidas ao longo da Idade Média, de cujo teatro religioso se originaram, adquirindo sua forma típica na Península Ibérica entre os séculos XV e XVI. Suas origens se prendem às representações religiosas do teatro medieval (aos "mistérios", aos "dramas litúrgicos" e às "moralidades"), portanto ligadas ao teatro litúrgico europeu, embora não tenhamos hoje senão vestígios muitos imperfeitos dessas representações peninsulares anteriores a Gil Vicente (em Portugal) e a Juan del Encina e Lucas Fernandes (na Espanha)."

VII – PERSONAGENS:

A vida, nas duas obras é a mesma vida severina, é a mesma vida seca: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua e o homem fugindo da seca, o retirante.
Ainda mais: nas duas obras, retrata a representação do drama do trabalhador rural que ainda não obteve uma solução satisfatória. Severino e Fabiano são trabalhadores, buscam emprego, mas são marginalizados em sua própria condição.
Dessa forma, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos sem nome são todos Severinos. Em “Vidas secas” há a antropomorfização e a zoomorfização das personagens. Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos vivem menos como uma família do que como um grupo de desconhecidos. A cachorra Baleia parece ser o elo entre os membros da família e a única que consegue ter objetivos e tentar alcançá-los.
“Morte e Vida Severina” tem um forte apelo social, mostrando o drama de um homem que não tem trabalho fixo e (pior) fica vagando pelo sertão em busca de uma tarefa que não aparece, sem retratar especificamente o drama da seca, sabe-se, contudo, que ela está presente e que isso é determinante na vida das personagens.
Cabral ao caracterizar as personagens da obra, age de acordo com os modelos dos Autos, pois se trata de “tipos”, que podem ser vistos como alegóricos. Assim, o protagonista, Severino é uma personagem-tipo, que representa o nordestino sertanejo despersonalizado. Quanto ao ponto de vista alegórico, Severino representa o próprio Homem que, em busca de uma condição existencial verdadeiramente humana, oscila entre os pólos da morte e da vida.
Antes de narrar à história de sua vida, nos trinta primeiros versos, Severino inutilmente tenta apresentar-se ao público/leitor, mas esbarra na falta de individualidade, na despersonalização do sertanejo empobrecido, pois seu nome e também os de seus pais (Maria e Zacarias), como o lugar onde nasceu são comuns ao coletivo. Além disso, há o fato de que Severino também não consegue se diferenciar dos demais nordestinos, seja no tipo físico anêmico, seja na curta expectativa de vida, seja na luta pelo sustento tirado da terra seca e improdutiva.
Apresentando-se como um entre tantos retirantes "sem nome", Severino aparece como sinédoque (a parte pelo todo) de todo o povo sofrido do sertão.
Note-se que a descrição da vida severina começa pela apresentação da morte severina.
No final da peça, no momento em que ocorre a crise do protagonista se intensifica, surge o Mestre Carpina (São José, o carpinteiro), outra personagem “tipo” que representa a luta pela vida e que não consegue convencê-lo através de palavras não suicidar-se. Nesse momento, á anunciado (Anjo da anunciação) o nascimento do filho do carpinteiro (filho de Deus), numa clara alegoria ao Natal e a renovação da vida. Além de que, o Mestre Carpina vive num mocambo que metaforicamente servirá de manjedoura ao seu filho recém-nascido e os visitantes saúdam o nascimento do menino e trazem presentes aludindo os três reis magos.
As demais personagens do livro aparecem para contar um pouco de suas vidas e de sua situação no sertão a Severino.

VIII – TEMPO E ESPAÇO:


Tanto em “Vidas secas” como em “Morte e vida severina”, o ambiente predominante é árido.

“Vidas Secas” começa por uma fuga e acaba com outra. Decorre entre duas situações idênticas, de tal modo que o fim, encontrando com o princípio, fechando a ação num círculo. Entre a seca e as águas, a vida do sertanejo se organiza do berço à sepultura, a modo de retorno perpétuo. Como os animais atrelados ao moinho, Fabiano voltará sempre sobre seus passos, sufocado pelo meio físico. É um determinismo semelhante ao de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, pois retoma o problema dos “dois brasis”: o Brasil sertanejo, miserável e abandonado à própria sorte cujas condições climáticas ajudam a piorar, e o Brasil civilizado e cosmopolita, o Sul.
O tempo na obra está mais voltado ao psicológico, já que não se estabelecem cronologicamente datas. O período da ação narrativa é determinado entre duas secas.
O espaço da obra é o sertão nordestino, que entra aqui como elemento bem definido através de descrições e caracterizações minuciosas. O tempo e o espaço da obra também podem ser analisados a partir de duas contradições: seca/chuva e sertão/cidade.
O espaço da narrativa é, predominantemente, rural. São suas transformações que impulsionam as personagens. Estão fugindo da seca, estabelecem-se na fazenda, com a chegada da chuva conhecem a prosperidade por algum tempo, vêm com desânimo às arribações anunciarem nova seca e fogem novamente depois que o gado já morreu de sede. O espaço urbano aparece em dois capítulos, mas, também, não é acolhedor, as personagens não se movem com desenvoltura na cidade.
Em toda narrativa o espaço funciona como uma espécie de antagonista de Fabiano e família e suas vidas dependem do regime da seca.
Em “Morte e vida severina”, Severino sai da Paraíba em direção a Recife. Conforme ele anda, o ambiente fica um pouco mais “verde” e mais fértil, mas ainda carrega traços de seca.
O tempo e o espaço de “Morte e vida Severina” contribuem para o caráter de denúncia social do texto. O tempo não é determinado cronologicamente, o único indício que aparece é a situação da seca e a estação do verão, na época em que o Capibaribe seca.
O espaço possui um movimento de deslocamento: o retirante faz a travessia do Agreste para a Caatinga, da Zona da Mata para o Recife, ou seja, sai da serra, mais especificamente da Serra da Costela, e vai para o litoral, para Recife.
Mas o grande desafio do retirante é o confronto que trava, ao longo do poema, com a morte. Ousando um pouco, ela pode ser encarada como uma personagem, adquirindo um tratamento mágico, já que acompanha Severino durante toda sua jornada e não lhe deixa esquecer sua condição e seu destino fatal.
São elementos que certamente influenciaram João Cabral na construção do texto. O poeta viveu o que Antonio Candido denominou de consciência dilacerada do atraso, localizada em torno da metade do século XX. De um lado, o Brasil cresce num ritmo vertiginoso, com fábricas e indústrias instalando-se por todo país, com as grandes cidades recebendo o título de metrópoles, com a urbanização, enfim, tomando conta de áreas campestres (o que desencadeou o êxodo rural). Mas de outro lado, temos ainda um Brasil arcaico, que não tem luz elétrica – e em muitos casos, nem sabe o que é isso –, uma região onde não existem leis e a ordem é mantida por facões e espingardas, um local cujo único futuro legado à sua gente é a certeza da morte em torno do quarenta anos, no máximo.

CONCLUSÃO:



As duas obras em questão abordam a seca e os retirantes, mas de formas diferentes.


Em “Vidas secas” a finalização da narrativa é mais “negativa” e a impressão é de que Fabiano e sua família vão para sempre continuar a fugir da seca, que este é o destino deles como uma bolandeira. Além disso, mostra como o ambiente toma absorve o homem tornando-o menos humano a cada dia que passa, a ponto de seus filhos não terem nome.

“Morte e vida severina” mostra toda a degradação humana e ambiental em função da seca, discorre sobre a miséria, a morte e o triste destino de muitos. Entretanto, ao final a esperança surge e dá a entender que, apesar de todo o mal que a seca pode causar, ainda há espaço para a vida, mesmo para uma vida severina.