segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Semana da Arte Moderna

MODERNISMO NO BRASIL


PRIMEIRO TEMPO MODERNISTA

(1922 – 1930)




“(...) Malditos para sempre os Mestres do Passado! Que a simples recordação de um de vós escravize os espíritos no amor incondicional pela Forma! Que um olhar passeando por acaso nos vossos livros se cegue a procura de um verso de ouro! Que uma flor tombada de umas mãos infantis sobre vosso túmulo rebente em silvas de tais espinhos que nelas se fira e sucumba a ascensão dessa infância! Que o Brasil seja infeliz porque vos criou! Que a Terra vá bater na Lua arrastada pelo peso dos vossos ossos! Que o Universo se desmantele porque vos comportou!
E que não fique nada! Nada! Nada!....”


Mário de Andrade, Mestres do Passado


I – LOCALIZAÇÃO:

O primeiro tempo modernista tem como marco inicial o centenário da Independência do Brasil e a realização da Semana de Arte Moderna (1922), “momento de maior orgia intelectual que a história do país registrara”, palavras de Mário de Andrade, no Teatro Municipal de São Paulo.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-SOCIAL:

O Brasil, no início do século XX, parecia uma Torre de Babel: processo de urbanização (São Paulo contava com 500 mil habitantes, deficiência nos serviços sanitários, maioria das ruas não pavimentadas); imigração (quase metade da população era italiana ou seus descendentes); quebra da Bolsa de Valores (a economia brasileira sofrerá uma grande instabilidade); industrialização; reflexos da I Guerra Mundial.....
O Rio de Janeiro ostentava-se com um cartão postal em estilo francês. Seus teatros, cafés, casarões escondiam a pobreza dos homens, mulheres e crianças que trabalhavam dezesseis horas por dia por um salário miserável e encobriam a febre amarela e outras doenças que irradiavam, para não assustar o turista estrangeiro.
Na “Confeitaria Colombo” (RJ) e no “Le Petit Trianon” (SP), jovens intelectuais desfilavam de fraque e com seus monóculos; bebendo chope, cachaça, champanhe e discutindo sobre arte.




As mulheres extremamente perfumadas e elegantes iam à “toilette” ajeitar seu “tailleur” e dirigiam-se a seu amado por “l’amour”.
Nesse ambiente maquiado, sobretudo em São Paulo desenvolveu um movimento que foi o marco do Modernismo brasileiro: a Semana de Arte Moderna.


III – ANTECEDENTES DA SEMANA DE ARTE MODERNA:

Foram vários os acontecimentos que culminaram para a realização do evento:

1912 – Oswald de Andrade retorna da Europa entusiasmado com o Futurismo de Marinetti e com a técnica do verso livre.

Lança “O Pirralho”, semanário paulista, contando com a ajuda de amigos, principalmente de Di Cavalcanti, um excelente desenhista.


1913 – Exposição de telas expressionistas de Lasar Segall (a exposição foi ignorada nos meios artísticos).

“Família”, 1913. Lasar Segall

1914 – Exposição não acadêmica de Anita Malfatti.


“Meu irmão Alexandre”, 1914. Anita Malfatti

1915 – Início do modernismo português com a publicação da Revista Orpheu, contando com a participação do brasileiro, Ronald de Carvalho.

1916 – Primeira redação de “Memórias sentimentais de João Mirama”r, de Oswald de Andrade.


1917 – Mário de Andrade publica “Há uma gota de sangue em cada poema”, com o pseudônimo de Mário Sobral.

- Menotti del Picchia publica Juca Mulato, poema regionalista.


- Di Cavalcanti realiza sua exposição de caricaturas em São Paulo.


- Mário de Andrade conhece Oswald de Andrade em uma festa no
Conservatório Dramático e Musical.
- Villa-Lobos compõe o balé “Amazonas”, baseado no folclore nacional.


- Gravação do samba Pelo Telefone, composto por freqüentadores do terreiro da Tia Ciata, em disco.
- Exposição de 53 telas de Anita Malfatti causando indignação em Monteiro Lobato, que publica no jornal O Estado de São Paulo, em 20/12/1917, um artigo (Paranóia ou Mistificação) criticando a obra da jovem pintora.

1918 – Manuel Bandeira publica “Carnaval”.


1920 – Victor Brecheret, um jovem escultor que estudara em Roma, apresenta uma maquete para o Monumento às Bandeiras.


1921 – Mário de Andrade publica sete artigos criticando a arte passadista, intitulado “Mestres do Passado”.
- Graça Aranha retorna ao Brasil, depois de ter vivido por vinte anos na Europa e empolga-se com a agitação cultural paulistana.
- Graça Aranha e Ronald de Carvalho convidam Villa-Lobos a participar de um evento em São Paulo para divulgação das nossas ideias. O compositor e maestro terá a sua viagem custeada por Paulo Prado, intelectual rico de São Paulo.

Ninguém sabe ao certo de quem foi à ideia da realização da Semana de Arte Moderna, mas o importante que em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, foi realizada a maior manifestação artística brasileira que se tem notícias.


IV – A SEMANA:




“É preciso que se saiba que nos manicômios se produzem poemas, partituras, quadros e estátuas, e que essa arte de doidos tem o mesmo característico da arte dos futuristas e cubistas que andam soltos por aí.”

Jornal do Comércio

“Precisa-se de um moço honesto que saiba fazer versos futuristas. Exige-se um atestado de ignorância.”

Jornal do Comércio

“Foi, como se esperava, um notável fracasso a récita de ontem da pomposa Semana de Arte Moderna, que melhor e mais acertadamente deveria chama-se Semana de Mal – às artes.”

Folha da Noite

“De um lado, artistas de fama faziam versos, recitavam trechos de prosa, enchiam o ambiente de harmonias. De outro lado, alguns indivíduos, que chegaram a envergonhar o gênero humano, por dele conservarem apenas o “Aspecto”, ladravam e cacarejavam.”

Correio Paulistano



São Paulo, 13 de fevereiro de 1922:


Segunda-feira, 20 horas, o evento inicia-se com uma exposição de artes plásticas no saguão do Teatro e é aberto com uma conferência proferida por Graça Aranha: “A Emoção Estética na Arte Moderna”.
Nem mesmo sua posição de membro da Academia Brasileira de Letras, nem seus 54 anos de idade, o pouparam de vaias.
A conferência de Graça Aranha foi acompanhada por músicas regidas por Ernani Braga e por declamações de poemas, realizadas por Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho.
A segunda parte do evento nesta noite, contava com a conferência de Ronald de Carvalho a respeito da “Pintura e a escultura moderna no Brasil” e em seguida uma apresentação de três danças africanas de Villa-Lobos, seguida de solos de piano por Ernani Braga.
Oswald de Andrade leu poemas de sua autoria sob vaias terríveis. “Apenas me levantei e o teatro estrugiu numa vaia irracional e infrene. Antes mesmo d’eu pronunciar uma só palavra (...)”
Mário de Andrade também tentou proferir no saguão do teatro uma palestra sobre estética. “Não sei como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas nas escadarias do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer”.

São Paulo, 15 de fevereiro de 1922:




Guiomar Novaes, famosa pianista, enviou ao jornal O Estado de São Paulo, uma carta contestando a sátira de Eric Satie à “Marcha Fúnebre” de Choppin, executada por Ernani Braga, na primeira noite do evento. “(...) Em virtude do caráter bastante esclusivista e intolerante que assumiu a 1ª festa de Arte Moderna realizada à noite de 13, no Teatro Municipal, em relação às demais escolas de músicas das quais sou intérprete e admiradora, não posso deixar de aqui declarar o meu desacordo com este modo de pensar. Senti-me sinceramente contristada com a pública exibição de peças satíricas alusivas à música de Chopin (...)”
Mesmo sentindo-se “sinceramente contristada”, a pianista participou da segunda noite do evento e desagradando aos organizadores do espetáculo executou alguns clássicos consagrados no intervalo de sua apresentação, sendo aplaudida freneticamente pelo público presente.
Menotti del Picchia proferiu uma palestra sobre estética e arte ilustrada acompanhado por vaias.
Aconteceu um número de dança executado por Yvone Daumerie e leituras de poemas e prosas modernistas.
O ápice da noite ocorreu quando, Ronald de Carvalho declamou o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, poema de ataque aos parnasianos. O público reagia latindo, miando, guinchando, fazendo o poeta interromper a leitura e afirmar: “Há um cachorro na sala, mas não está do lado de cá. Vamos ler o poema.”

São Paulo, 17 de fevereiro de 1922:


Um número reduzido de público pagante aguardava a apresentação dos artistas, desta última noite. Com a entrada de Villa-Lobos, calçando um pé de sapato e o outro de chinelo (o maestro estava com o pé machucado), causou alvoroço na platéia que gritava insistentemente: Futurista! A manifestação chegou ao cúmulo, de um espectador abrir um guarda-chuva dentro do Teatro.

V – REPERCUSSÕES DA SEMANA:


“(...) O senhor Villa-Lobos, pelo seu talento musical, bem merecia não ter se metido com meia dúzia de cretinos que transformaram o nosso Municipal em dois espetáculos memoráveis pela sandice, numa desoladora grita de feira.”

O Estado de São Paulo

“Felizmente foram vingados os brios paulistas na última pagodeira da Semana Futurista.”

A Gazeta

“São uns pândegos, filhos de famílias ricas, que decidiram ser modernos apenas porque não sabem rimar.”

O Estado de São Paulo


VI – AS REVISTAS:

KLAXON (SP)


“Klaxon cogita principalmente de arte. Mas quer representar a época de 1920, em diante. Por isso é polimorfo, onipresente, inquieto, cômico, irritante, contraditório, invejado, insultado, feliz.”

Klaxon foi a primeira manifestação pós-Semana. Subtitulada Mensário de Arte Moderna, seu objetivo era divulgar os ideais estéticos apresentados durante a Semana.
Contando com propagandas sérias (Chocolates Lacta) e satíricas (Panuosopho, Pateromnium & Cia – fábrica de sonetos) não resistiu muito tempo (maio de 1922 a janeiro de 1923) diante às diversidades de seus colaboradores, levando-os a se dividirem em duas direções: a corrente dinamista (influenciados ao futurismo) e a corrente primitivista (identificados com o surrealismo e o expressionismo).
Além da Klaxon, outras revistas surgiram pelo Brasil: Estética (1924, RJ.), A Revista (1925/26, MG.), Terra Roxa e Outras Terras (1926, SP.), Revista Verde (1927, MG), entre outras menores.

VII – OS MANIFESTOS:

A. PAU-BRASIL E ANTROPOFAGIA:

“Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como Falamos. Como somos.”

“Não há luta na terra de vocações acadêmicas. Há só fardas. Os futuristas e os outros.
Uma única luta – a luta pelo caminho. Dividamos: Poesia de importação. E a Poesia Pau-Brasil, de exportação.”

Dirigida por Oswald de Andrade, o Manifesto Pau-Brasil, foi lançado em 1924 na edição do Correio da Manhã. Propunha uma retomada ao passado histórico brasileiro, aos nossos costumes e à nossa língua em oposição aos doutores de casacas, que se caracterizavam como “máquinas de fazer versos”.


O Movimento Antropofágico (1928), também liderado por Oswald de Andrade, era um amadurecimento do Pau-Brasil. O ideário Antropofágico era de “uma atitude brasileira de devoração ritual dos valores europeus, a fim de superar a civilização patriarcal e capitalista, com normas rígidas no plano social e os seus recalques impostos, no plano psicológico”. (Antônio Cândido).
Buscava a simbologia heróica do índio, mas não como os autores românticos o idealizaram e, sim, “Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D.Antônio de Mariz” e a valorização da cultura nacional.


B. VERDE-AMARELISMO E ANTA:


Surgiu em forma de crítica ao Movimento Pau-Brasil e Antropofágico, pois autores, entre eles: Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Plínio Salgado viam os movimentos de Oswald de Andrade “afrancesados” e apresentava uma proposta nacionalista primitiva, ufanista e elegendo a anta como símbolo nacional.

Nhengaçu Verde-Amarelo

(Manifesto do Verde-Amarelismo, ou da Escola da Anta)

“O grupo “Verdamarelo”, cuja regra é a liberdade plena de cada um ser brasileiro como quiser e puder; cuja condição é cada um interpretar o seu país e o seu povo através de si mesmo, da própria determinação instintiva; - o grupo “verdamarelo”, à tirania das sitematizações ideológicas, responde com a sua alforria e a amplitude sem obstáculo de sua ação brasileira. Nosso nacionalismo é de afirmação, de colaboração coletiva, de igualdade dos povos e das raças, de liberdade do pensamento, de crença na predestinação do Brasil na humanidade, de fé em nosso valor de construção nacional.
Aceitamos todas as instituições conservadoras, pois é dentro delas mesmo que faremos a inevitável renovação do Brasil, como o fez, através de quatro séculos, a alma da nossa gente, através de todas as expressões históricas.
Nosso nacionalismo é “verdamarelo” e tupi.
O objetivismo das instituições e o subjetivismo da gente sob a atuação dos fatores geográficos e histórico.”


VIII – CARACTERÍSTICAS DA FASE HERÓICA:

- Luta contra o tradicionalismo, contra a arte passadista e o academicismo literário;
- Busca de originalidade e pesquisa das raízes nacionais;
- Valorização poética do cotidiano;
- Crítica social, principalmente os da elite burguesa;
- Ruptura com a gramática normativa;
- Liberdade plena de forma, versos livres e brancos;
- Presença do humor: poema-piada, poema-paródia;
- Sequência de imagens baseadas na associação, livre de lógica de causa e efeito;
- Linguagem coloquial;
- Irreverência e
- Nacionalismo crítico.

sábado, 30 de outubro de 2010

O FILHO ETERNO (2007)



“Esse foi um livro em que lutei pelo “não sentimento” narrativo, no sentido de não me entregar ao aspecto sentimental da trama, que é poderoso, praticamente irresistível. Claro, é preciso distinguir aqui o narrador do personagem, o que eu tentei manter “frio”, o tempo todo, foi o narrador. Era fundamental que essa distância se mantivesse, ou eu estaria à mercê do personagem, e aí o livro não levantaria vôo, por assim dizer”.


“Só quem tem um filho especial sabe o que quer dizer esse eterno. É uma eternidade laica, concreta, visceralmente amarrada à vida cotidiana”.



I – AUTOR:



CRISTOVÃO TEZZA


Nasceu em 21 de agosto de1952, em Lages, SC. Professor, doutor em literatura e escritor, iniciou sua carreira literária com apenas treze anos, uma coletânea de contos “A cidade inventada”, publicada em 1980 e considerada “muito ruim” pelo próprio autor. Desde então, não parou mais de escrever, e na sequência vieram: “O terrorista lírico” (1981) e “Ensaio da paixão” (1982).
Em 1988 publicou o livro “Trapo” dando-lhe destaque no cenário da literatura brasileira.
Uma das inovações de seu texto é a presença de narradores múltiplos. Em “Trapo”, história que se passa em Curitiba, relata sobre o ponto investigador do professor Manoel, a vida e a obra o poeta Trapo através de seus escritos.

Nos dez anos seguintes, publicou os romances: “Aventuras provisórias” (1989), com o qual ganhou o Prêmio Petrobrás de Literatura, “Juliano Pavollini” (1989), “A suavidade do vento” (1991), “O fantasma da infância” (1994), “Uma noite em Curitiba” (1995). Em 1998, seu romance “Breve espaço entre cor e sombra” foi contemplado com o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional (melhor romance do ano); e “O fotógrafo” (2004) recebeu o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance do ano.
Em 2006, assinou contrato com a Editora Record, que começou a relançar sua obra. Em julho de 2007 foi publicado seu novo romance: “O filho eterno”, e foram reeditados, com novo projeto gráfico, seus romances: “Trapo”, “Aventuras provisórias” e “O fantasma da infância.”
“O filho eterno” foi premiado quatro vezes: o Prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor obra de ficção do ano, em 2007; o Prêmio Portugal Telecom, em 2008; Prêmio Jabuti, em 2008 e o Prêmio São Paulo de Literatura 2008.


II – FOCO NARRATIVO, TEMPO E ESPAÇO:


Por que escrever o livro na terceira pessoa?

“Esse detalhe técnico foi muito importante para mim. Era absolutamente fundamental que eu me afastasse da experiência pessoal para transformá-la em literatura. Ao descobrir a terceira pessoa, percebi a chave da narrativa, o que me deu uma liberdade maravilhosa. Claro que eu poderia escrever em primeira pessoa "mantendo distância", digamos assim. Mas como a experiência era muito pessoal, seria bem mais difícil; eu correria o grande risco de transformar o texto em confissão, o que destruiria o romance. Mas não podia perder de vista a dimensão concreta daquele pai. Assim, ao mesmo tempo mantive algumas "pistas" pessoais espalhadas pelo livro, como para lembrar o narrador do lastro existencial do personagem, para lhe dar mais carne e consistência, para o narrador saber exatamente de quem ele estava falando. O personagem escreveu um livro chamado Trapo, que, por acaso, é o título de um antigo livro meu; o nome do seu filho é Felipe, que é o nome do meu filho, mas o próprio pai não tem nome; é alguém que ainda não encontrou o seu nome. Essa realidade dupla, que aparece como que num espelho meio oxidado - umas partes nítidas, outras escuras e difusas, outras ocultas, algumas escancaradas - é uma das chaves narrativas do livro. No processo de transformar biografia em ficção, criamos uma outra percepção da realidade, que é, enfim, a arma da literatura. Gostaria de me estender um pouco mais sobre essa terceira pessoa e a relação entre literatura e vida, ou biografia, que é uma coisa que está chamando bastante atenção da crítica. Sobre a fronteira entre uma coisa e outra está o fato de que a literatura recorta e escolhe apenas o que tem relevância à unidade temática proposta pela narrativa, que afinal tem um começo, um meio, um fim e um narrador que, em cada momento, tem a visão completa do conjunto. A responsabilidade do narrador diz respeito exclusivamente a essa estrutura romanesca, não aos "fatos" ou às "verdades". Assim, o romance tem uma intensidade dramática que, de fato, não existe na vida, que se dilui pelo tempo. Não vivemos 200 páginas; vivemos 50, 60, 70 anos a fio, um conjunto disparatado de fatos que não são "organizados" por alguém.”

Escrito em terceira pessoa, por um narrador onipresente, depois de vinte anos em construção, a obra é reconhecidamente autobiográfica. Narra ás aventuras e desventuras de um pai adolescente, nos anos 70, seguramente, o próprio autor Tezza, do nascimento e crescimento de seu filho e dele próprio, nas décadas de 80 e 90, encerrando a história no ano de 2006.
Nesse processo, o narrador e autor aproximam-se tanto de seu tema como se misturam a ele, em uma relação visceral, que o distanciamento inicialmente pretendido se desfaz e revertendo-se num caso híbrido de terceira pessoa que soa mais como primeira.



Ao comentar sobre a dificuldade de romancear a sua própria realidade, Tezza afirma:

“Eu acho muito mais difícil romancear a realidade, partir do dado biográfico para daí fazer matéria ficcional. O risco de você apenas fazer uma confissão pessoal, de não sair dos limites da vida pessoal, é muito grande. Não é fácil transformar um fato da própria vida em objeto”.

Em “O filho eterno” o narrador e o protagonista estão impregnados. O nascimento do pai coincide com o nascimento do escritor que adquiriu maturidade e saiu do limbo do nada depois do nascimento do filho, como se um impulsionasse o nascimento do outro e se completassem.
O livro é composto por capítulos que parecem contos independentes sem uma sequência necessária.
Os primeiros capítulos retratam acontecimentos seguindo o tempo cronológico, em seguida, alternam-se aleatoriamente em épocas diferentes.
“O filho eterno” é uma narrativa seca de desencantamento, onde as personagens representam alegorias e denominadas por "ele", "o pai", "a mulher", "a mãe", "a filha", "a irmã", com exceção do filho, Felipe.
O conflito principal inicia-se com o pai aos 28 anos e termina com o filho perto dessa mesma idade.
Além da relação pai e filho são retratadas paralelamente as aventuras do pai quando jovem em Portugal (Coimbra), França (Paris) e Alemanha (Hauptbahnhof) como mochileiro que trabalhava em subempregos e conseguia só para ter o que comer e onde dormir, e que lia mais do que aproveitava o lugar. Ou, no Brasil, em um grupo de teatro interrogado por policiais durante a ditadura militar (em São Paulo) e quando se apaixona platonicamente pela primeira vez (em Antonina, Paraná).
O narrador contrasta suas tentativas de superar-se e vencer como marinheiro, faxineiro num hospital na Alemanha ou revisor de teses acadêmicas com sua dura progressão de aceitar seu filho com um histórico da Síndrome de Down.
Através de seu contato com o distúrbio genético do filho é retratada as dificuldades de aceitar as diferenças, enfrentar o preconceito social e encarar o desafio de educar uma criança como Felipe.
Embora seja um fato trágico e de forte apelo melodramático, o autor consegue equilibrar o discurso fazendo contrapontos com informações científicas engenhosamente colocadas durante as consultas médicas e nas leituras do narrador feitas em busca de explicações.


III – CARACTERÍSTICAS:

Algumas características particulares são evidentes em sua narrativa. Uma delas é o uso excessivo dos dois-pontos. No primeiro capítulo o escritor abusa deles, aparecendo até quatro vezes em um parágrafo. Inicialmente, pode até parecer uma forma particular de escrita de Tezza, sua marca registrada e não um recurso proposital. Porém, é visível que todos os capítulos foram escritos na mesma época.
Cristovão utiliza uma linguagem rica para descrever a vida de um escritor que sobrevive de fazer revisões em teses e textos literários. Entre uns goles de uísques e tragos de cigarros, além de estar envolvido no romance O Ensaio da Paixão que foi publicado em 1985, ele vê sua vida mudar com o nascimento de um filho com trissomia 21.
O ritmo do livro flui de maneira leve e ágil. Recorre a intertextualidade, citações de vários nomes da literatura como de Goethe, Hemingway e Faulkner, filmes, pinturas, desenhos animados; do humor sarcástico; da ironia; das digressões; da rotina diária do menino; da maldição de Sísifo; do intelecto do filho ao dos bebês incubados em “Admirável Mundo Novo”; o restante é basicamente só citação.
De início, o ponto de vista do protagonista gera antipatia aos leitores para depois, transformar-se em aprendizagem e filosofia de vida.
A obra pertence à categoria de romance, embora em vários momentos do livro, ficção e realidade se confundem, por exemplo, o jeito escolhido para apresentar as informações médicas e científicas sobre a síndrome de Down; a dissertação de mestrado que revisou para um amigo geneticista; as buscas em dicionários; a política e economia do Brasil nas décadas de 80 e 90 e sobre a revolução dos Cravos em Portugal, em 1976.

“O escritor tem esse lado meio autista. Tive que me afastar da minha história para ganhar uma liberdade narrativa”, reconhece.

IV – TEMA:


“Começo lentamente a me ‘livrar’ do romance, o que sempre acontece comigo depois de publicar meus livros. Com esse, esta separação está demorando mais pelo impacto que o romance está tendo entre os leitores, mas felizmente já consigo vê-lo um pouco mais do lado de fora, digamos assim. De fato, eu temia que a literatura do romance não fosse percebida, eclipsada pelo tema, mas isso não aconteceu. E também a exposição pública, se “O filho eterno” fosse lido apenas como depoimento pessoal, o que também não aconteceu. Hoje estou muito tranquilo quanto a isso. Sei que escrever é uma atividade dura, difícil, áspera – não temos de esperar nada de ninguém, a não ser da própria cabeça. Mas posso dizer que “O filho eterno” me deu uma profunda e rara alegria como escritor”, confessou.
“O tema do livro é naturalmente reflexivo, transcende os limites do enredo, e assim obrigou a narração a abrir muitas comportas, desde a retomada biográfica do pai até as reflexões mais duras sobre a realidade que ele viveu. Talvez daí venha essa idéia de ‘libertação’ que o romance sugere”, diz o escritor.
“Queremos dizer a verdade e, no entanto, não dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fidelidade à verdade e, no entanto, o descrito é outra coisa que não a verdade.

V – ANÁLISE CRÍTICA LITERÁRIA:


O principal fio narrativo da história começa nos anos 80 com um aspirante a escritor que nunca teve emprego fixo na vida. Ele é sustentado pela mulher durante o período em que não publica nem vende nada e surpreendido pela notícia que seu primeiro filho é portador de síndrome de Down.
Já no hospital, no dia do nascimento, o pai assume o papel de anti-herói calhorda, hipócrita e insensível ao rejeitar e menosprezar seu filho diferente, tratando-o como um estorvo para os seus planos de sucesso, liberdade e sociabilidade, chegando inclusive desejar sua morte.

"Em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão "para sempre" - a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar. Tudo pode ser recomeçado, mas agora não: tudo pode ser refeito, mas isso não; tudo pode voltar ao nada e se refazer, mas agora tudo é de uma solidez granítica e intransponível: o último limite, o da inocência, estava ultrapassado; a infância teimosamente retardada terminava aqui, sentindo a falta de sangue na alma, recuando aos empurrões, sem mais ouvir aquela lengalenga imbecil dos médicos".
(...)
A manhã mais brutal da vida dele começou com o sono que se interrompe - chegavam os parentes. Ele está feliz, é visível, uma alegria meio dopada pela madrugada insone, mais as doses de uísque, a intensidade do acontecimento, a sucessão de pequenas estranhezas naquele espaço oficial que não é o seu, mais uma vez ele não está em casa, e há agora um alheamento em tudo, como se fosse ele mesmo, e não a mulher, que tivesse o filho de suas entranhas - a sensação boa, mas irremediável ao mesmo tempo, vai se transformando numa aflição invisível que parece respirar com ele. Talvez ele, como algumas mulheres no choque do parto, não queira o filho que tem, mas a idéia é apenas uma sombra. Afinal, ele é só um homem desempregado e agora tem um filho. Ponto final. Não é mais apenas uma idéia, e nem mais o mero desejo de agradar que o seu poema representa, o ridículo filho da primavera - é uma ausência de tudo. Mas os parentes estão alegres, todos falam ao mesmo tempo. A tensão de quem acorda sonado se esvazia, minuto a minuto. Como ele é? Não sei, parece um joelho - ele repete o que todos dizem sobre recém-nascidos para fazer graça, e funciona. O bebê é parrudo, grande, forte, ele inventa: é o que querem ouvir. Sim, está tudo bem. É preciso que todos vejam, mas parece que há horários. Daqui a pouco ele vem - aquele pacotinho suspirante. A mulher está plácida, naquela cama de hospital - sim, sim, tudo vai bem. Há também um rol de recomendações que se atropelam - todos têm alguma coisa fundamental a dizer sobre um filho que nasce, ainda mais para pais idiotas como ele. Eu fiz um curso de pai, ele alardeia, palhaço, fazendo piada. Mas era verdade: passou uma tarde numa grande roda de mulheres buchudas, a dele incluída, é claro, com mais dois ou três futuros pais devotos, atentíssimos, ouvindo uma preleção básica de um médico paternal, e de tudo guardou um único conselho - é bom manter uma boa relação com as sogras, porque os pais precisam eventualmente descansar da criança, sair para jantar uma noite, tentar sorver um pouco o velho ar de antigamente que não voltará jamais.
E as famílias falam e sugerem - chás, ervas, remedinhos, infusões, cuidados com o leite -, é preciso dar uma palmada para que ele chore alto, assim que nasce, diz alguém, e alguém diz que não, que o mundo mudou, que bater em bebê é uma estupidez (mas não usa essa palavra) - eles não vão trazer a criança? E que horas foi? E o que o médico disse? E você, o que fez? E o que aconteceu? E por que não avisaram antes? E por que não chamaram ninguém? E vamos que acontece alguma coisa? Ele já tem nome? Sim: Felipe.
Os parentes estão animados, mas ele sente um cansaço subterrâneo, sente renascer uma ponta da mesma ansiedade de sempre, insolúvel. Ir para casa de uma vez e reconstruir uma boa rotina, que logo ele terá livros para escrever - gostaria de mergulhar no Ensaio da Paixão de novo, alguma coisa para sair daqui, sair deste pequeno mundo provisório. Sim, e beber uma cerveja, é claro! A idéia é boa - e ele quase que gira o olhar atrás de uma companhia para, de fato, conversar sobre esse dia, organizar esse dia, pensar nele, literariamente, como um renascimento - veja, a minha vida agora tem outro significado, ele dirá, pesando as palavras; tenho de me disciplinar para que eu reconquiste uma nova rotina e possa sobreviver tranquilo com o meu sonho. O filho é como - e ele sorri, sozinho, idiota, no meio dos parentes - como um atestado de autenticidade, ele arriscará; e ainda uma vez fantasia o sonho rousseauniano de comunhão com a natureza, que nunca foi dele mas que ele absorveu como um mantra, e de que tem medo de se livrar - sem um último elo, o que fica? Em toda parte, são os outros que têm autoridade, não ele. O único território livre é o da literatura, ele talvez sonhasse, se conseguisse pensar a respeito. Sim, é preciso telefonar para o seu velho guru, de certa forma receber sua bênção. Muitos anos depois uma aluna lhe dirá, por escrito, porque ele não é de intimidades: você é uma pessoa que dá a impressão de estar sempre se defendendo. Sentimentos primários que se sucedem e se atropelam - ele ainda não entende absolutamente nada, mas a vida está boa. Ainda não sabe que agora começa um outro casamento com a mulher pelo simples fato de que eles têm um filho. Ele não sabe nada ainda. Súbito, a porta se abre e entram os dois médicos, o pediatra e o obstetra, e um deles tem um pacote na mão. Estão surpreendentemente sérios, absurdamente sérios, pesados, para um momento tão feliz - parecem militares. Há umas dez pessoas no quarto, e a mãe está acordada. É uma entrada abrupta, até violenta - passos rápidos, decididos, cada um se dirige a um lado da cama, com o espaldar alto: a mãe vê o filho ser depositado diante dela ao modo de uma oferenda, mas ninguém sorri. Eles chegam como sacerdotes. Em outros tempos, o punhal de um deles desceria num golpe medido para abrir as entranhas do ser e dali arrancar o futuro. Cinco segundos de silêncio. Todos se imobilizam - uma tensão elétrica, súbita, brutal, paralisante, perpassa as almas, enquanto um dos médicos desenrola a criança sobre a cama. São as formas de um ritual que, instantâneo, cria-se e cria seus gestos e suas regras, imediatamente respeitadas. Todos esperam.

Há um início de preleção, quase religiosa, que ele, entontecido, não consegue ainda sintonizar senão em fragmentos da voz do pediatra:

- ...algumas características... sinais importantes... vamos descrever. Observem os olhos, que têm a prega nos cantos, e a pálpebra oblíqua... o dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro... achatamento da parte posterior do crânio... a hipotonia muscular... a baixa implantação da orelha e...”

O pai lembra imediatamente da dissertação de mestrado de um amigo da área de genética - dois meses antes fez a revisão do texto, e ainda estavam nítidas na memória as características da trissomia do cromossomo 21, chamada de síndrome de Down, ou, mais popularmente - ainda nos anos 1980 - "mongolismo", objeto do trabalho. Conversara muitas vezes com o professor sobre detalhes da dissertação e curiosidades da pesquisa (uma delas, que lhe veio súbita agora, era a primeira pergunta de uma família de origem árabe ao saber do problema: "Ele poderá ter filhos"? - o que pareceu engraçado, como outro cartum).
Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão "para sempre" - a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar. Tudo pode ser recomeçado, mas agora não; tudo pode ser refeito, mas isso não; tudo pode voltar ao nada e se refazer, mas agora tudo é de uma solidez granítica e intransponível; o último limite, o da inocência, estava ultrapassado; a infância teimosamente retardada terminava aqui, sentindo a falta de sangue na alma, recuando aos empurrões, sem mais ouvir aquela lengalenga imbecil dos médicos e apenas lembrando o trabalho que ele lera linha a linha, corrigindo caprichosamente aqui e ali detalhes de sintaxe e de estilo, divertindo-se com as curiosidades que descreviam com o poder frio e exato da ciência a alma do seu filho. Que era esta palavra: "mongolóide".
Ele recusava-se ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer outra coisa, ele concluiu - nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir. Não era um choro de comoção que se armava, mas alguma coisa misturada a uma espécie furiosa de ódio. Não conseguiu voltar-se completamente contra a mulher, que era talvez o primeiro desejo e primeiro álibi (ele prosseguia recusando-se a olhar para ela); por algum resíduo de civilidade, alguma coisa lhe controlava o impulso da violência; e ao mesmo tempo vivia a certeza, como vingança e válvula de escape - a certeza verdadeiramente científica, ele lembrava, como quem ergue ao mundo um trunfo indiscutível, eu sei, eu li a respeito, não me venham com histórias - de que a única correlação que se faz das causas do mongolismo, a única variável comprovada, é a idade da mulher e os antecedentes hereditários, e também (no mesmo sofrimento sem saída, olhando o céu azul do outro lado da janela) relembrou como alguns anos antes procuraram aconselhamento genético sobre a possibilidade de recorrência nos filhos (se dominante ou recessiva) de uma retinose, a da mãe, uma limitação visual grave, mas suportável, estacionada na infância. Recusa. Recusar: ele não olha para a cama, não olha para o filho, não olha para a mãe, não olha para os parentes, nem para os médicos - sente uma vergonha medonha de seu filho e prevê a vertigem do inferno em cada minuto subseqüente de sua vida. Ninguém está preparado para um primeiro filho, ele tenta pensar, defensivo, ainda mais um filho assim, algo que ele simplesmente não consegue transformar em filho.
No momento em que enfim se volta para a cama, não há mais ninguém no quarto - só ele, a mulher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar para o filho. Sim - a alma ainda está cabeceando atrás de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pensamento como que foi deixando-o novamente em pé, ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele quase acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: como sempre, está sozinho.”
Esse fragmento deixa evidente que a consciência de para sempre que traz consigo reflete a intensidade da dor e do medo do que o espera.
“A ideia – ou a esperança – de que a criança vai morrer logo tranquilizou-o secretamente. Jamais partilhou com a mulher a revelação libertadora” (pg. 39).

“Crianças cretinas (...) Crianças que jamais chegarão à metade do quociente de inteligência de alguém normal; que não terão praticamente autonomia nenhuma”.

"Pai e mãe são tomados pelo silêncio. É preciso esperar para que a pedra pouse vagarosamente no fundo do lago, enterrando-se mais e mais na areia úmida, no limo e no limbo, é preciso sentir a consistência daquele peso irremovível para todo o sempre, preso na alma, antes de dizer alguma coisa. Monossílabos cabeceantes, teimosos - os olhos não se tocam".

"Se eu escrever um livro sobre ele, ou para ele, o pai pensa, ele jamais conseguirá lê-lo".

"Eu não posso ser destruído pela literatura; eu também não posso ser destruído pelo meu filho - eu tenho um limite: fazer, bem-feito, o que posso e sei fazer, na minha medida. Sem pensar, pega a criança no colo, que se larga saborosamente sobre o pai, abraçando-lhe o pescoço, e assim sobem as escadas até a porta de casa".

"Durante todos esses anos sentiu o peso ridículo de ser escritor, alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê; e resistiu bravamente, e pelo menos nisso teve sucesso, ao consolo confortável, à coceira na língua, quase sempre calhorda, de despejar no mundo as culpas da própria escolha".

O narrador analisa os aspectos psicológicos do protagonista, demonstrando o conflito existencial entre o pai e sua batalha com a sociedade; com sua vida e a vida de seu filho; com a sua liberdade e os limites de seu filho.
O pai tem consciência de que não está preparado para o papel de ser pai e muito menos, ser pai de um portador da síndrome de Down e, entre o romance e a autobiografia, a narrativa converge entre outros temas, para refletir o seu amadurecimento diante dessa nova situação.

“Eu acredito que não, embora o resultado final, 27 anos depois, seja o mesmo. Há sempre um abismo entre o evento da vida, que é o acontecimento aberto do cotidiano, o nosso dia-a-dia, e a representação literária. Nesta, a vida é caprichosamente recortada, selecionada, escolhida e emoldurada, transformando-se em objeto, em algo que se vê de todos os lados, com uma nitidez que o simples ‘viver’ jamais nos dá. E, é claro, esse objeto literário não é em si a vida, mas a sua representação reflexiva - é na verdade um olhar (entre milhares de outros possíveis) sobre a vida. Assim, o desenvolvimento do personagem tem um grande grau de autonomia, obedece à lógica interna que a própria narrativa foi criando”, explicou o autor.

A esposa, denominada por Ela, aparece em um papel secundário na obra. Entretanto, representa a base, o porto seguro do protagonista, alicerce de seus objetivos e idealizações como apoio, cúmplice e até financeiramente.
Seus sentimentos maternos a levam acreditar nos tratamentos para a recuperação de Felipe, embora, às vezes, é vista como culpada ou tola por seu marido, inclusive levando o protagonista, várias vezes, pensar abandonar a esposa e filho e, recomeçar sua vida.
A história de amor entre o casal não é relatada. A obra não apresenta o despertar do amor entre eles, nem a concretização desse amor e nem em quais circunstâncias se ocorreu à gravidez e a gestação.
O conflito existencial não se atenta a uma paixão passageira e sim, em suas consequências.
As dúvidas do protagonista concentram-se não apenas em sua aversão a problemática de seu filho, mas, em sua maturidade e aceitação das atenções necessárias de tê-los, indicando que a gravidez provavelmente não foi planejada e confirmando a hipótese ao mesmo tratamento insensível dispensado para a filha caçula, normal.

“A primeira criança de um casamento é uma aporrinhação monumental – o intruso exige espaço e atenção, chora demais, não tem horário nem limites, praticamente nenhuma linguagem comum, não controla nada em seu corpo, que vive a borbulhar por conta própria, depende de uma quantidade enorme de objetos (do berço à mamadeira, do funil de plástico às fraldas, milhares delas) até então desconhecidos pelos pais, drena as economias, o tempo a paciência, a tolerância, sofre males inexplicáveis e intraduzíveis, instaura em torno de si o terror da fragilidade e da ignorância, e afasta, quase que aos pontapés, o pai da mãe. É uma criança – como todo recém-nascido – feia . É difícil imaginar que daquela coisa mal-amassada surja como que por encanto algum ser humano, só pela força do tempo” (pg. 73-74).



Entretanto, o tempo e a convivência transformam o protagonista, que passa dirigir seu olhar ao filho de forma diferente, comparando características e limitações do menino às que ele possui como pai, pessoa e escritor. É o pai que o filho revela, nas suas incompetências e fragilidades, na sua vaidade de homem, como os outros, ainda que redimido pela ilusão libertária de sua arte, a literatura.
O interessante é que muitas das limitações do filho descritas como a limitação visual de dez metros, o trabalho e as motivações artísticas, o sexo, etc. levam o pai a se reconhecer e identificar-se com filho.
Assim, aquele que se sentia um fracassado, “exceto por um leque de ansiedades felizes, ele não tem nada e não é ainda exatamente nada”, transforma-se num autêntico pai batalhador, voltado às necessidades primordiais do seu filho e pleiteando seus direitos na sociedade. Então, o que antes parecia obstáculos para a realização pessoal do protagonista, se tornou subsídios supérfluos perante a descoberta do amor, da aceitação e da posição de um verdadeiro pai. Embora, esta transformação custou-lhe a história de seus sonhos da juventude dos anos 1970 e 80.
O pai não deixa de ser um pai como os outros, encontra a si mesmo no espelho que o filho lhe oferece. Repisa as experiências de sua vida a partir daquelas que se advinham no filho, na fímbria dos limites de ambos.
A aflição do narrador em relação às deficiências de Felipe aparece na forma de observações sobre a limitação comunicativa do garoto; sua incapacidade de entender coisas abstratas como o amor e o tempo; e no seu comportamento cênico, baseado em ações de desenho animado, para se encaixar na sociedade onde vive. É a partir dessas constatações feitas pelo pai que ele começa a se comparar com o menino e passa recuperar na memória situações semelhantes às vividas por Felipe.
O treinamento neurológico nos primeiros anos de vida do filho é contrastado com o treinamento do pai em relação às tentativas de publicar seus livros e as recusas das editoras:

“Eu também estou em treinamento, ele pensa, lembrando mais uma recusa de editora. A vida real começa a puxá-lo com violência para o chão, e ele ri imaginando-se no lugar do filho, coordenando braços e pernas para ficar em pé no mundo com um pouco mais de segurança” (p. 130).
“Um filho é como um espelho no qual o pai se vê, e, para o filho, o pai é por sua vez um espelho no qual ele se vê no futuro.”
O desejo de liberdade e o tempo para a atividade criadora estão sendo sempre solicitados a ceder espaço às exigências cotidianas: o filho leva o pai a ter que trabalhar e exige atenção ininterrupta. Uma vida que queria dedicada à literatura, portanto, fica como plano B do pai de família, mas nunca a potência criadora é extinta, de modo que o pai se divide e se multiplica entre a vida prosaica e a existência no papel, o ser por escrito.

“A criança parece não responder ao seu afeto; vive na sua própria redoma – parece que nada do que há em volta toca a ela de fato” (pg. 127).

“Ele não gosta do imperativo, nem mesmo para si próprio, ao espelho: ninguém me dá ordens. Um orgulho idiota, um pequeno teatro: passou a vida obedecendo, tentando se ajustar a alguma coisa que ele não sebe o que é” (pg. 199).
A casa transforma-se em clínica de estímulos. E, nos intervalos de tempo, o narrador vai escrevendo seus livros. O filho rolando no chão, firmando a cabecinha, sentando, tentando comer sozinho... Tudo é conquista, é vitória.
“A linguagem é conquista penosa, terreno em que o filho avança aos solavancos ininteligíveis, cacos de palavras e relações, em meio a gestos e afetos sem tradução. É preciso um certo esforço para amá-lo, ele pensa – ou ele não pensa, o pai, ele não pensa em nada.”
Passando o tempo, o menino tem aulas de pintura, de música, de teatro, assiste a futebol, à televisão, utiliza o computador. O pai descobre, aos poucos, que “a criança atinge, pela afetividade, uma compreensão superior da vida e do mundo.”
Concretizando a obra de Tezza, pai e filho preparam-se para assistir a um jogo de futebol na televisão, futebol que tornou-se, para o filho, porta de acesso para o mundo, emblema de identidade social, encontro com a palavra escrita através dos nomes dos times. O jogo vai começar e o escritor está concluindo: “um jogo que pai e filho não sabem como irá acabar”. Está o escritor e está Felipe, orgulhoso torcedor do Atlético Paranaense, exibindo seu contagiante sorriso de "campeão" (não de um campeonato de futebol, mas de um torneio bem mais difícil).


ENTREVISTA:


Como surgiu O Filho Eterno?
Esse livro surgiu de uma lenta maturação. Em 1980, meu primeiro filho nasceu com síndrome de Down, mas, na época, não pensei em usar uma situação pessoal como tema literário. De certa forma, não me sentia maduro o suficiente para isso. Depois, surgiu a ideia de um ensaio ou um depoimento pessoal, mas o texto não avançava. Então, veio o romance; criei um personagem e um narrador que sabia tudo sobre ele. Foi como nasceu O Filho Eterno.
A motivação cresceu com o tempo?
Sim, junto à intuição de que eu estava fugindo do acontecimento mais impactante da minha vida. Isto é, passei mais de 20 anos sem considerar a experiência de ter um filho especial como matéria literária. O assunto é tão difícil que eu só consegui escrever quando a experiência deixou de ser um problema para mim. Hoje não tenho mais nenhum problema com o fato de ser ele o meu filho, e não um outro.
Foi difícil reviver todos os questionamentos e sentimentos pelos quais você passou desde a descoberta da síndrome?
Difícil foi amadurecer para escrever o livro. Escrever até que foi relativamente fácil, ainda mais porque eu estava no meu terreno, o romance, a narrativa de ficção. Enfrentei o personagem como tal, sem dó nem piedade, como um "outro", mantendo a postura exata que todo narrador deve ter com o seu tema e os seus heróis. O impulso romanesco que nos leva a escolher um cenário, um tempo, um espaço, esse ou aquele diálogo ou uma palavra avulsa, as imagens, tem uma autonomia muito grande. Boa parte do livro é inventada, cenas, conversas imaginárias. Assim, não "revivi" nada; apenas escrevi a partir de algumas lembranças difusas de quase 30 anos atrás.
Qual foi a reação da família quando você disse que escreveria o livro e, depois, em relação ao resultado?
Em geral, minha mulher só lê meus textos depois de prontos. Ela gostou muito quando falei do projeto e também quando li o livro para ela. Sempre leio meus textos em voz alta, ao final, para sentir a melodia, o ritmo, a sintaxe. Minha filha, a quem o livro é dedicado, gostou muito. E o Felipe não tem a abstração da leitura. A leitura não é simplesmente a habilidade de decodificar sinais escritos. Se a pessoa não consegue perceber, por exemplo, a diferença entre "terça-feira" e "quinta-feira" - e é incrível a complexidade dessa simples percepção de tempo - ler essas palavras avulsas não tem sentido. O Felipe, na verdade, só consegue reconhecer bem rótulos de produtos, placas, logotipos, nomes dos times de futebol; ele é um torcedor apaixonado do Atlético Paranaense. É claro que se ele fosse capaz de ler e compreender um texto em todas as suas relações de sentido, o livro seria outro, completamente diferente - porque o pai também seria outro. Mas meu filho está muito feliz com o sucesso do livro, que ele diz, com razão, que é o livro dele, tanto que colocou os troféus de natação (Felipe nada muito bem) ao lado dos troféus que o livro ganhou este ano. Quando contei pelo telefone que havia ganho o Prêmio São Paulo de Literatura, ele perguntou imediatamente: o troféu é grande?
Você teve algum receio em se expor publicamente?
Depois que comecei, não. Tenho um processo meio autista de escrever. Avanço um pouco às cegas e sempre escrevi sem censura nenhuma. E, afinal, escrevi um romance, não uma biografia; aquele pai não sou eu, ainda que eu tenha usado tantos dados biográficos. Ao reler, levei alguns sustos com o que eu mesmo tinha escrito, mas foram passageiros. Meu maior medo era o de não estar tecnicamente à altura do tema, e, por isso, resvalar para o mais fácil. Como o tema é muito forte e mexe com emoções profundas, sociais, morais, religiosas, familiares, o risco de você simplesmente repetir lugares-comuns e chavões, "calmantes existenciais", é muito grande. Mas a literatura tem a obrigação de ir adiante. Ela precisa, de fato, fazer diferença, dizer o que não é dito, abrir camadas bloqueadas da consciência, criar empatias mais desconcertantes e menos previsíveis; em suma, arriscar, ir mais longe. Assim, escrevi o tempo todo atento para não pisar nas "cascas de banana" que o assunto ia colocando pelo caminho.
Você ficou surpreso com o sucesso do livro?
Fiquei de fato espantado com a extensão do sucesso do livro. Bem, eu esperava que ele tivesse algum impacto, por conta até de minhas obras anteriores. Sou um escritor já com uma fortuna crítica consolidada, de modo que sabia que O Filho Eterno receberia uma boa atenção até pelo tema, bastante pessoal. Mas jamais esperei esse sucesso todo. O que me deixa particularmente feliz é que o livro começou agradando à crítica e daí foi criando, pouco a pouco, sua corrente de leitores. Acho que o grande segredo é o fato de que ele alcançou também o leitor não especializado em literatura, e até o leitor eventual, que raramente se aventura num livro. Isto é, o crítico especialista e o leitor comum entram no livro e são agarrados pela narrativa. É raro que isso aconteça. Agora, brincando um pouco com a minha autoestima, que anda em alta, eu diria que o livro só pode estar fazendo todo esse sucesso, nas duas pontas de leitores, porque é mesmo muito bom...
Mas o que ele significa realmente para você?
Acho que um momento de dupla maturidade. Do ponto de vista literário, é um livro tecnicamente bastante sofisticado pela sua concentração e simultaneidade de tempo e espaço. O livro viaja de uma perspectiva a outra e em 200 e poucas páginas dá conta de uma vida inteira. Eu gosto muito de sua intensidade enxuta. De certa forma, parece que ele "sabe mais do que eu", mas isso quer dizer simplesmente que é obra também de uma maturidade existencial. Talvez essa maturidade seja a única vantagem de se ficar velho... Mas tem o lado prático também. O Filho Eterno, pela sua repercussão, está me abrindo muitas portas. Um dos meus projetos é passar a viver de literatura, e agora essa hipótese já não me parece tão absurda, como normalmente é em um país como o Brasil.
Como você o compara em relação aos seus outros livros?
Num sentido existencial, pessoal, é obviamente um livro único; não sei se vou escrever outro romance com tanta intensidade emocional, embora essa utopia esteja no meu horizonte imediato. No sentido técnico, é um livro que nasceu de dois momentos anteriores: dos romances Breve Espaço Entre Cor e Sombra, que é de 1998, e de O Fotógrafo, que é de 2004. Digamos que fui amadurecendo as formas literárias da intimidade. Uma das perguntas mais difíceis de se fazer a um escritor é sobre qual seu livro preferido. Sei que é um chavão, mas tem seu fundo de verdade: livros são como filhos, frutos de um grande envolvimento emocional, um trabalho pesado de muitos meses, uma viagem meio que sem volta, e a gente sempre sai diferente do outro lado. Às vezes, dão certo, outras, não. Escrever é um tiro no escuro. Eu costumo ter uma boa relação com os meus livros; cada um deles respondeu a um momento especial da minha vida. Em geral, costumo dizer que o último é sempre o melhor e o preferido. Bem, nesse caso acho que é verdade mesmo.
Você acha que escrever fora do eixo Rio-São Paulo dificulta a abertura de espaços para um escritor?
Nos anos 70 e 80, Curitiba era uma espécie de exílio para o escritor. Meus primeiros livros, publicados em edições caseiras, cooperativas de escritores, praticamente passaram em branco. Nenhuma notícia, ou crítica, ou resposta, em lugar nenhum. Os tempos eram outros; tudo muito lento e devagar. O melhor amigo do escritor era a agência de correio. Além disso, os originais eram datilografados; não existia essa facilidade de hoje. As coisas mudaram mesmo em 1988, com a edição de Trapo, pela Editora Brasiliense, numa coleção de prestígio, a Circo de Letras. Então, subitamente percebi a importância do célebre eixo Rio-São Paulo. Finalmente eu "entrava no mapa" da literatura brasileira. Ainda hoje esse aspecto é importante; para existir de fato, você tem de ser editado por uma grande editora, e elas estão quase todas no Rio e em São Paulo. Mas, hoje, é mais fácil publicar, os espaços estão mais abertos, e a internet virou de cabeça para baixo as formas de comunicação e mesmo de comércio do livro. A grande rede está sendo uma revolução total, e ainda não sabemos exatamente o que está acontecendo com o livro e nem o que vai acontecer adiante. Mas sou otimista; acho que para a palavra escrita tudo melhorou. Até porque a internet é o império da escrita, ao contrário da televisão, que é pura oralidade. E, nesse novo espaço da escrita, a literatura está pegando uma bela carona.
Como foi a experiência de ter um filho com síndrome de Down?
Gostaria de falar apenas como escritor, como ficcionista. O meu livro é uma narrativa sobre a experiência de um pai com um filho especial. O próprio fato de ser a síndrome de Down não é tão relevante no caso. E, é claro, o livro tem um espectro amplo de temas, que fazem uma reflexão ficcional que vai do Brasil das últimas décadas até as utopias da geração anos 70, tudo o que, de certa forma, fez a alma do personagem. Minha abordagem se dá sob a perspectiva da experiência literária, não científica ou ensaística. Sinto profunda dificuldade de dar conselhos ou indicações nessa área. Hoje a medicina e a psicologia dispõem de um conhecimento mais aprofundado dos problemas que envolvem a educação de um filho especial do que há 20 anos. Ao mesmo tempo, há também uma espécie de "consciência multicultural", que favorece a percepção das diferenças e das crianças especiais. Aliás, já se fez até novela com personagem Down. Isso é ótimo, porque elimina muita ignorância e desconhecimento a respeito. Sinto que, hoje, a percepção social dos "diferentes" é muito mais generosa do que costumava ser. Basta lembrar que o portador da síndrome, poucos anos atrás, ainda era chamado de "mongoloide", uma palavra extremamente violenta, sem falar do racismo explícito de identificar uma síndrome genética com as características físicas de uma etnia. Sobre uma política específica para as crianças especiais, creio que a inclusão escolar é uma utopia que deve ser sempre pensada como um horizonte de fraternidade. Mas não podemos esquecer que somos indivíduos, que cada caso é sempre um caso único. Descobrir no filho as suas habilidades e os seus limites é um ótimo exercício de realidade concreta, até para diminuir a terrível ansiedade da "normalidade", aliás, terrível até para os "normais". No caso do Felipe, ele é um bom desenhista e, orientado por um ateliê, pinta quadros figurativos muito coloridos e bonitos.Aliás, a singularidade das pessoas especiais, pelo leque amplíssimo de possibilidades, pelos diferentes graus de problemas e de sequelas, acaba por ser muito mais diversificada do que a das outras pessoas. Pensar sobre a inclusão é um importante problema de natureza política. Mas o meu livro é outra coisa. O Filho Eterno faz uma viagem emocional com a arma da literatura e da ficção, uma viagem radical entre pai e filho. O terreno de tudo o que eu escrevo é a solidão dos indivíduos, que, afinal, é sempre um dos grandes temas da arte.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NELSON RODRIGUES

(1912-1980)



I – AUTOR:


“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”

“Sou um homem que cultiva velhos sentimentos de culpa. Lembro-me de coisas que fiz aos sete, oito anos. Não tenho ilusões. O canalha é uma dimensão que existe em mim ou em qualquer um. Eis que, nas minhas insônias, me pergunto: - O que é que eu fiz?”


Nelson Rodrigues nasceu no Recife - PE, em 23 de agosto de 1912, quinto filho dos catorze que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues puseram no mundo.
Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, mudou-se para o Rio de Janeiro, em virtude de problemas políticos e empregou-se como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em julho de 1916, d. Maria Esther e filhos chegam ao Rio de Janeiro num vapor do Lloyd.
Nelson cresceu vendo as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa. Os velórios também eram feitos em casa, usava-se escarradeira e o banho era de bacia. Nelson registrava em sua memória esse cenário que mais tarde fariam parte de sua obra literária.
Em 1920 Nelson venceu seu primeiro concurso literário. A professora havia pedido uma redação de tema livre e Nelson escreveu uma história de adultério. O marido chega a casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois, ajoelha-se e pede perdão.
Nesse período, Nelson influenciado por seus irmão mais velhos, passou a ter a leitura como passatempo, saindo rapidamente do Tico Tico para romances mais "pesados" como Rocambole, de Ponson du Terrail, Epopéia do Amor, Os Amantes de Veneza e Os Amores de Nanico, de Michel Zevaco, O Conde de Monte Cristo e as Memórias de um Médico, de Alexandre Dumas, os fascículos de Elzira, a Morta-Virgem, de Hugo de América, e outros mais. Mudavam os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte.
Mário Rodrigues adquire prestígio junto a Edmundo Bittencourt, do Correio da Manhã e foi nomeado diretor do jornal. Na época, Nelson visitava o pai na redação do jornal.
Em 1924, envolveu-se numa discussão entre Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o que custou a Mário Rodrigues um ano de cadeia e, o Correio da Manhã foi silenciado pelo governo por oito meses.
Nelson inicia sua carreira jornalística em 29 de dezembro de 1925, como repórter de polícia, ganhando trinta mil réis por mês. Tinha treze anos e embora fosse filho do patrão, teve que comprar calças compridas para impor respeito aos colegas de redação. O autor impressiona os colegas com sua capacidade de dramatizar pequenos acontecimentos. Especializou-se em descrever pactos de morte entre jovens namorados, tão constantes naquela época.
No ano de 1926 foi expulso do Colégio Batista, na Tijuca, na segunda série do ginásio, por rebeldia. Nelson vivia contestando seus professores, em especial dos de Português e História e apresentava uma indolência melancólica, ficando depressivo, suspirando pelos cantos e dizendo: "Eu sou um triste!".
Mário ao ser libertado discute com Edmundo, acaba demitindo-se e fundando o seu próprio jornal, A Manhã.
O indomável escritor cria um tablóide de quatro páginas intitulado Alma Infantil, nascido da troca de cartas com seu primo Augusto Rodrigues Filho, que não conhecia pessoalmente e que morava no Recife. Ele queria ser como seu pai, um espadachim verbal. Depois de cinco números e muitos ataques a políticos pernambucanos e a cariocas, Nelson desiste do tablóide.
Em 1928, o autor e seus irmãos mais velhos trabalhavam no jornal A Manhã: Milton era o secretário, Roberto ilustrava algumas reportagens, Mário Filho começou como gerente, indo depois para a página literária e depois a de esportes. Nelson havia abandonado desde 1927 a terceira série do ginásio no Curso Normal de Preparatórios. Nunca mais voltou à escola, apesar do esforço desenvolvido por seu pai.
Tendo garantido uma coluna assinada na página três do jornal — a página principal — o escritor publica seu primeiro artigo, em 07 de fevereiro de 1928. Tinha o título de "A tragédia de pedra...", com as solenes reticências. Depois vieram "Gritos Bárbaros", "O elogio do silêncio", "A felicidade", e "Palavras ao mar", todos de grande sensibilidade poética. Seu lado monstro só apareceu na crônica de 16 de março, "O rato..." (com as famosas reticências), em que ele conta como viu um rato morto, achatado por um carro, defronte à Biblioteca Nacional. Para desespero de seu pai, começa a "bater" em Ruy Barbosa. No segundo artigo em que esculhambava o "Águia de Haia", antevendo o que aconteceria, Nelson achou que se safaria de seu pai se saísse bem cedo de casa, antes que o "velho" lesse o jornal. Enganou-se. O castigo foi mais duro do que ele imaginava: foi rebaixado, saindo da página três e retornando à seção de polícia, onde trabalhou nos cinco meses seguintes.
Mal teve tempo de voltar à terceira página e o pior acontece. O jornal, mal administrado, está cheio de dívidas e a intervenção do novo dono em seus artigos faz com que ele e a família deixem o jornal.
Em seguida, Mário Rodrigues lançou seu novo jornal de grande sucesso: Crítica, que chegou a ter uma circulação de 130.000 exemplares.
Em 26 de dezembro de 1929 o jornal estampa matéria, na primeira página, sobre o desquite de Sylvia e José Thibau Jr. Foi à fórmula encontrada para o diário não sair sem assunto, já que era o primeiro dia após o natal. No dia 27, pela manhã, Sylvia entra na redação da Crítica procurando por Mário Rodrigues. Não o encontrando, pede para falar com seu filho Roberto e dá-lhe um tiro no estômago. Nelson viu e ouviu aquilo tudo. Com dezessete anos e quatro meses, era a primeira cena de violência brutal que presenciava. Seu irmão faleceu no dia 29.
Apenas 67 dias após a morte do filho, Mário Rodrigues sofre, aos 44 anos, uma trombose cerebral e faleceu.
Estoura a revolução, em 3 de outubro, no Rio Grande do Sul, Minas e quase todo o Nordeste. Crítica, num erro de avaliação, continua a atacar os rebeldes. Em 24 de outubro Washington Luís é deposto e a turba saiu cedo para acertar as contas com os jornais do velho regime. As redações e oficinas de diversos jornais são invadidas e empasteladas. Dentre elas, a do jornal dos Rodrigues. De todos eles só um não voltaria a circular: Crítica. Isso sem contar que Milton e Mário Filho foram novamente presos, porém logo libertados.
Irineu Marinho havia fundado o jornal O Globo em 1925, mas, apenas 21 dias após o jornal circular pela primeira vez, morreu de enfarte. Roberto Marinho, filho de Irineu, era o sucessor natural, mas achou-se muito inexperiente para comandar um jornal. Roberto Marinho convida Mário Filho para assumir a página de esportes de O Globo. Mário aceita nas condições de que pudesse levar seus irmãos Nelson e Joffre.
Nelson era chamado de "filósofo" pelos colegas de O Globo, tinha um aspecto desleixado, um só terno e não vestia meias por não tê-las.
Em 1932 o autor teve sua carteira assinada em O Globo, um ano após começar a trabalhar naquele diário, com um ordenado de quinhentos mil réis por mês. Entregava todo o dinheiro para sua mãe e recebia uns trocados de volta para comprar seus cigarros (média de quatro carteiras por dia). Em compensação, economizava, pois voltava de carona com o "Dr. Roberto" para casa. Para arranjar mais algum dinheiro, trabalhou como redator da firma Ponce & Irmão, distribuidora no Rio dos filmes da RKO Radio Pictures. Criava textos para os anúncios dos filmes nos jornais.
Nesse meio tempo, tinha suas paixões: por Loreto Carbonell, argentina de olhos azuis, bailarina do Municipal; por Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, também bailarina, linda e jovem morena. Depois vieram: Clélia, uma estudante de Copacabana e Alice, professora de Ipanema.
O autor com apenas vinte e um anos, foi diagnosticado de tuberculose e vai, então, para Campos do Jordão - SP, local recomendado para tratamento, sozinho, sem saber se voltaria.
Foi a primeira de uma série de seis internações. Roberto Marinho, sabendo das dificuldades da família, continuou pagando seu ordenado normalmente. Nelson passou 14 meses no Sanatório, de abril de 1934 a junho de 1935. Durante esse período só os irmãos Milton e Augustinho foram visitá-lo uma única vez. Compensava a ausência de parentes e amigos com cartas, muitas delas para Alice, a professorinha.
Contam que, em 1935, um doente propôs encenarem um teatrinho. O autor foi encarregado de escrever a comédia, um "sketch" cômico sobre eles mesmos. Logo nas primeiras cenas a platéia começou a gargalhar e, com isso, surgiram os ataques de tosse que quase fizeram vítimas. Foi à primeira experiência "dramática" de Nelson.
O autor pede ao secretário do jornal O Globo que o transfira da página de esportes para a de cultura. Queria escrever sobre ópera. Com a ajuda de Roberto Marinho consegue a transferência e começa arrasando a "Esmeralda", ópera brasileira do compositor Carlos de Mesquita. Foi sua única incursão nessa área.
Em 1936, a terrível doença atacou seu irmão Joffre e levou-o a óbito.
Em 1937 conhece Elza Bretanha, apadrinhada do diretor administrativo e secretária de Henrique Tavares, gerente de O Globo Juvenil.
Nelson se aproxima de Elza, expõe sua situação de penúria de saúde e financeira, e fala em casamento. Consultada sua família, não encontrou objeção. Afinal, já tinha 25 anos. A mãe de Elza, D. Concetta, siciliana das boas, quase teve um ataque, tendo a honra de ter sido acompanhada nisso por Roberto Marinho. Ele disse a Elza: "Está sabendo que vai se casar com um rapaz muito inteligente e de grande talento, mas pobre, absolutamente preguiçoso e doente? Sua mãe está coberta de razão!" Mesmo assim marcaram para se casar no dia do aniversário de Elza: 08 de maio de 1939. Se fosse preciso, fugiriam. Porém, em 13 de maio, mandou para a noiva um recado que dizia: "Amor, estou com a alma cheia de pressentimentos tristes". Era a tuberculose que o atacava novamente.
Nos quatro meses em que ficou internado, Nelson mostrou seu lado ciumento. Vivia atormentado com isso e, na volta, acabou desfazendo o noivado. Mas o coração falou mais forte do que o infundado ciúme e marcaram novamente o casamento, contrariando a mãe da noiva e o patrão de ambos.
No dia 29 de abril de 1940, sem externar qualquer anormalidade, Elza saiu para trabalhar, foi para a casa de uma amiga onde trocou de roupa e casou-se no civil, diante do juiz. Depois, foram comemorar tomando uma média com torrada na leiteria "Palmira". Voltaram para O Globo Juvenil e trabalharam normalmente. Haviam acertado, por vontade de ambos, que a noite de núpcias só aconteceria após o casamento religioso.
Os irmãos de Elza ficaram sabendo e falaram até em matá-lo. Nelson, com a alma leve, alugou uma casinha no Engenho Novo. Era sua volta ao subúrbio. Compraram móveis de segunda mão e Mário, o irmão, lhe deu de presente a cama de casal e a penteadeira. Finalmente D. Concetta dá o "de acordo" e o casamento religioso se realiza, em 17 de maio, após o autor, com quase 28 anos, ter sido batizado, fazer a primeira comunhão e estudado o catecismo, como manda a santa madre Igreja.
Após seis meses de casamento, certa manhã Nelson acorda e comunica a Elza que estava ficando cego, tratava-se de uma sequela da tuberculose. Nelson procurava uma saída para seu aperto financeiro. Elza estava grávida e seu salário estava estagnado nos 500 mil réis mensais. Um dia, ao passar em frente ao Teatro Rival, viu uma enorme fila que se formava para assistir "A família Lerolero", de R. Magalhães Júnior. Alguém comentou: "Esta chanchada está rendendo os tubos!" Uma luz se acendeu na cabeça do autor: por que não escrever teatro?
No meio do ano de 1941 escreveu sua primeira peça, “A mulher sem pecado”. Nessa época as peças ficavam, no máximo, duas semanas em cartaz. Nelson oferece sua peça para dois grandes artistas de então: Dulcina e Jaime Costa, mas eles a recusam. O autor, necessitando de dinheiro, começou a se mexer: submeteu a peça a Henrique Pongetti, Carlos Drummond de Andrade e ao crítico Álvaro Lins. Mas não conseguiu encená-la.
Nasce Joffre, seu primeiro filho. O autor, por ordens médicas, não podia ficar perto do filho. Descobre que foi premiado com uma úlcera do duodeno. O médico lhe prescreve regime alimentar e manda que ele pare de tomar café e de fumar, coisa que nunca fez. Depois de muita luta, em 09 de dezembro de 1942, “A mulher sem pecado” foi levada à cena pela "Comédia Brasileira", com direção de Rodolfo Mayer, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Lá ficou por duas semanas e não teve repercussão nenhuma perante o público. Alguns críticos e amigos elogiaram, e isso bastava ao autor.


Em janeiro de 1943 Nelson escreve sua segunda peça teatral: “Vestido de Noiva”. Elza, sua mulher, fez mais de vinte cópias datilografadas para serem entregues a jornalistas, críticos e amigos. O primeiro a receber foi Manuel Bandeira. Ele gostou como tantos outros. Mas, todos diziam que era uma peça que exigia cenário complexo e teria custo muito alto. Falou então com um polonês recém-chegado ao Brasil: Zbigniew Ziembinski que após ler a peça, disse: "Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso". O autor conhece o diretor e tem início a epopéia do grupo "Os Comediantes". No dia 28 de dezembro de 1943, os portões foram abertos e 2.205 espectadores viram a peça e quando a peça chegou ao fim, o silêncio foi total na platéia. Nos bastidores ninguém sabia o que fazer. Ziembinski, entre palavrões em polonês, manda subir o pano. Os artistas surgem e o aplauso é ensurdecedor. O diretor aparece e o teatro delira. Alguém grita na platéia: "O autor, o autor". Nelson estava escondido em um camarote, lutando contra a dor de sua úlcera, e não foi visto por ninguém. Disse, depois, que sofreu naquele momento, sentindo-se "um marginal da própria glória".

Yoná Magalhães como Alaíde em montagem de 1965 da peça Vestido de Noiva. Foto Carlos.

Apesar da fama que a peça lhe deu continuava sendo mal pago pelo O Globo Juvenil. Em fevereiro de 1945 é contratado por David Nasser, de O Cruzeiro, cinco contos de réis, mais de sete vezes o que lhe pagava Roberto Marinho.
Nelson foi para seu novo emprego: diretor de redação das revistas Detetive e de O Guri. Sempre procurando fazer "bicos" que permitissem um ganho extra e sabendo que Freddy Chateaubriand estava querendo comprar um folhetim francês ou americano para O Jornal, Nelson ofereceu-se para escrever o folhetim. Daí nasceu “Suzana Flag” e “Meu destino é pecar”. Apesar de estar ganhando um extra por capítulo, o autor não gostava que soubessem que escrevia com pseudônimo feminino. Quando a história terminou, o sucesso foi tão grande que foi lançado um livro pelas Edições O Cruzeiro. Calcula-se que a venda tenha ultrapassado a trezentos mil livros. Isso provocou o começo de outro folhetim, “Escravas do amor”, cujo sucesso foi também retumbante.
Em março de 1945 é atacado, novamente, pela tuberculose. E nasceu o seu segundo filho, Nelsinho.
Começa a escrever, então, “Álbum de família”. Em fevereiro de 1946 o texto é submetido à censura federal e a peça foi proibida de ser encenada. A peça só foi liberada em 1965 e levada pela primeira vez em julho de 1967.
Outro sucesso de 1946 foi à publicação de “Minha Vida”, uma "autobiografia" de Suzana Flag.


Os diretores teatrais Zigmunt Turkow e Ziembinski, com Nelson Rodrigues no centro, durante ensaio de 'A Mulher Sem Pecado', 1946

ANJO NEGRO estréia em abril de 1948. Como sempre, gerou comentários polêmicos.

Em seguida, “Senhora dos afogados” é proibida em janeiro de 1948. Com duas peças interditadas, o autor luta como um mouro para tentar liberá-las. Não conseguindo, escreve “Dorotéia”, em 1949, que muitos consideram seu melhor trabalho teatral.
Ainda em 1948 é publicado mais um folhetim, “Núpcias de fogo”, ainda como Suzana Flag.


Em 1949 Freddy Chateaubriand vai comandar o jornal "Diário da Noite" e leva Nelson consigo. Para trás fica Suzana Flag, que o autor não agüentava mais. Em seu lugar surgiu “Myrna”, a nova máscara feminina do biografado. A diferença é que Myrna respondia a cartas de leitoras.
Em 1951 o autor transfere-se para a Última Hora e "A vida como ela é...", em junho Nelson estréia uma nova peça, "Valsa nº. 6", um monólogo estrelado por sua irmã Dulcinha e relançou Suzana Flag em "O homem proibido".
Em 08 de junho de 1953 estréia no Teatro Municipal do Rio a peça "A falecida". Chamada de "tragédia carioca" era, na verdade, uma comédia. Foi escrita em 26 dias. Nessa época Nelson mantinha um romance com Yolanda, secretária de um radialista da rádio Mayrink Veiga. Esse caso durou cinco anos e rendeu três filhos: Maria Lúcia, Sônia e Paulo César, que ele não reconheceu como seus. Com tudo isso acontecendo, o autor produziu o último folhetim de "Suzana Flag", que se chamou "A mentira" e foi publicado no semanário "Flan", lançado por S. Wainer.
"Senhora dos Afogados" é encenada no Rio, em 1954, com direção de Bibi Ferreira. A platéia, ao final, dividiu-se e uma parte gritava "GÊNIO" e a outra, "TARADO". O autor não aguentou e reagiu à platéia, gritando do palco: "BURROS! BURROS!".
Em março de 1955 a família Rodrigues ganha uma ação contra o governo de indenização pela destruição do jornal "Crítica".
"Perdoa-me por me traíres" teve, também, problemas de liberação com a censura, em 1957 e sofreu cortes. Outra surpresa ocorreu na estréia: Nelson interpretava o personagem Raul. Mais uma vez as vaias e os que aplaudiam pediam para o autor falar. Ele não se fez de rogado: "BURROS! ZEBUS!". Ninguém esperava, mas aconteceu um tiro! Na discussão entre prós e contras, o vereador Wilson Leite Passos sacou de seu revólver e deu um tiro para amedrontar alguém que o havia chamado de "palhaço". Tumulto geral. No dia seguinte a censura proibiria a peça.
"Viúva, porém honesta" estreou em 13 de setembro do mesmo ano. Dizem que nela o autor procurava atingir aos críticos que atacaram "Perdoa-me por me traíres". Um dos atores era Jece Valadão, cunhado do autor.


Nelson Rodrigues como ator de 'Perdoa-me por me Traíres' ao lado de Léa Garcia,


A atriz Sônia Oiticica e o dramaturgo Nelson Rodrigues na peça 'Perdoa-me por me Traíres', 1957

Dercy Gonçalves estréia "Dorotéia" em São Paulo. Ficou um mês em cartaz. Nelson não gostava dos "cacos" que a atriz introduzia no texto.
Em 1958 estréia "Os sete gatinhos", também com Jece Valadão no elenco. Apesar de malhar o presidente da República da época, Juscelino Kubitschek, Nelson vai até ele pedir um emprego. Consegue um cargo de tesoureiro em um instituto de aposentadoria e pensões (IAPETEC), mas é reprovado no exame de vista. Pede, então, a vaga para Elza. Juscelino queria agradar Mário Filho e a nomeia.
De agosto de 1959 a fevereiro de 1960, centenas de milhares de leitores acompanharam a história de “Engraçadinha” e sua família em "Asfalto Selvagem". Foram publicados dois livros, intitulados "Engraçadinha — seus amores e seus pecados dos doze aos dezoito", "Engraçadinha — depois dos trinta" e em 1961, o "Boca de Ouro" com Milton Morais no papel de Raul, estréia no Rio com grande sucesso.
Ainda no final de 1960 o autor entrega a Fernanda Montenegro e a seu marido Fernando Tôrres a peça "Beijo no asfalto".
Apresentado por sua irmã Helena, Nelson conhece Lúcia Cruz Lima, que logo passa a ser sua namorada. Só que desta vez a coisa era séria. Casada, mãe de três filhos, ela logo se apaixona, deixa o marido e volta a viver com os pais. Ele demora dois anos para se separar de Elza. Seus amigos Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Cláudio Mello e Souza ficam chocados. Nos primeiros meses de 1963 nada impedia a separação do autor. Já havia alugado um pequeno apartamento e Lúcia estava grávida. Após um almoço de despedida, onde Elza tentou suicidar-se, ele partiu de malas e bagagens para o apartamento de sua mãe. Ia ficar lá uns tempos até acertar tudo.
Na marquise do Teatro Maison de France, no Rio, piscava o título da nova peça de Nelson: "Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária". O autor só não se conformou de Otto não ter ido assistir ao espetáculo.


Os atores Tereza Rachel e Carlos Alberto em 'Bonitinha, mas Ordinária', 1962.


O ator Fregolente (centro da foto) na peça 'Bonitinha, mas Ordinária', de 1962.

Lúcia cuidou da aparência do escritor, já que ele participava desde 1960 do programa esportivo "Grande resenha Facit" na TV Rio, por obra e graça de Walter Clark, e era, portanto, um artista! Nasceu Daniela, a filha, que perdeu minutos de oxigenação no cérebro até que resultou numa paralisia cerebral e nunca conseguiu andar ou articular um movimento, além de ser irreversivelmente cega.
Nelson escreveu para Walter Clark a primeira novela brasileira de todos os tempos: "A morte sem espelho". Apesar do grande elenco: Fernanda Montenegro, Fernando Tôrres, Sérgio Brito (que também respondida pela direção), Ítalo Rossi, Paulo Gracindo (que estreava na TV), música de Vinícius de Moraes, não foi autorizada a sua apresentação às oito e meia da noite. Foi empurrada para o horário das vinte e três e trinta.
Ficou claro nesse episódio que o problema era o nome do autor. Na sua novela seguinte, "Sonho de Amor", em 1964, seu nome apareceu, mas ela foi anunciada como “uma adaptação de "O Tronco do Ipê”', de José de Alencar".


Sua última novela para a TV foi "O Desconhecido", com direção de Fernando Tôrres e Jece Valadão, Nathalia Timberg, Carlos Alberto, Joana Fomm e outros mais, que só foi liberada graças ao poder de convencimento de Walter Clark.
Depois de ser renegada por muitas atrizes, "Toda nudez será castigada" estréia no dia 21 de junho de 1965 e é um sucesso. Os artistas são aplaudidos em cena aberta, os ingressos são avidamente disputados e fica em cartaz por seis meses no Teatro Serrador e em excursão pelo Brasil.
Em 1966 o autor muda-se, a convite de Walter Clark, para a TV Globo. Em situação financeira apertada, como sempre, aceitou até aparecer como "tradutor" dos romances de Harold Robins, publicados pela Editora Guanabara. A TV Globo era a "lanterna" na preferência dos telespectadores naquela época.
Nessa época Carlos Lacerda pediu-lhe um romance. Ele escreveu "O Casamento". Era um carnaval de incestos e perversões às vésperas de um casamento. Vendeu-o para Alfredo Machado, da Editora Eldorado. O livro vendeu 8.000 exemplares nas primeiras duas semanas de setembro de 1966, empatando com as vendas do novo romance de Jorge Amado, "Dona Flor e seus dois maridos". A morte de seu irmão, Mário Filho, impediu por algum tempo que ele fizesse a divulgação da obra. Quando reanimou, o livro teve sua venda proibida pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros Silva. Sua venda foi liberada novamente em fevereiro de 1967.
Indignado com o apoio dado pelo jornal "O Globo" à proibição da venda de seu romance, Nelson começa a estudar sua mudança para o "Correio da Manhã". Avisa que não pode deixar a TV Globo e, para sua alegria, é informado que não precisaria deixar nem o jornal "O Globo". O que o "Correio" queria dele eram as suas "Memórias". A estréia ocorreu em 18 de fevereiro de 1967 em grande estilo. Fez um sucesso enorme.
Depois de muita insistência de Nelson e Otto, finalmente libera "Álbum de Família", que estava interditada desde 1946. Só em julho de 1967 foi levada à cena e, apesar do carrossel de incestos, foi aplaudida no final. Já não tinha o impacto de tempos atrás.


As atrizes Tânia Scher, Carmen Palhares, Ana Rita, Thelma Reston, Diana Antonaz e Ana Maria Magalhães em montagem da peça Os Sete Gatinhos de 1967.

Ele volta ao jornal "O Globo" passa a publicar "À sombra das chuteiras imortais" e "As confissões" (já que não podia usar "Memórias").
Em 1970 vai morar com Helena Maria (35 anos mais nova que ele), que trabalhava com ele no jornal. Em 1972 começa nova luta: seu filho, Nelsinho é um dos terroristas mais procurados pelas forças armadas. Dois anos antes, quando seu filho já vivia na clandestinidade, Nelson consegue com o presidente da República, Gal. Medici, que ele saísse do país. Nelsinho não aceita o privilégio. O drama de Nelsinho se desenrolava longe dos olhos do autor. Apesar disso, face a seu prestígio e contatos com os militares, era muito procurado para ajudar pessoas em apuros com o regime militar. De 1969 a 1973 ele teve participação ativa na localização, libertação ou fuga de diversos suspeitos de crimes políticos. Após a prisão de Nelsinho, começa a luta para localizá-lo e procurar mantê-lo vivo, pois a tortura corria solta.
Nelson escreve "Anti-Nelson Rodrigues" no final de 1973. Em 1974, a peça fazia bela carreira no teatro do Serviço Nacional do Teatro. O autor faz alguns exames e é levado de imediato para São Paulo para ser operado de um aneurisma da aorta. Passou por duas operações, quase morreu, retornou ao Rio e, apesar de terminantemente proibido pelo médico, voltou a fumar. Em abril de 1977 é internado com uma arritmia ventricular grave e nova insuficiência respiratória. Elza volta para casa e voltam a viver juntos. Na verdade, já se encontravam há tempos quase todas as noites no restaurante "O bigode do meu tio", em Vila Isabel, de propriedade de Joffre.
O autor escreveu sua grande e última peça "A Serpente" em meados de 1979, pouco antes de seu filho Nelsinho iniciar greve de fome com treze companheiros, os últimos presos políticos cariocas, com a finalidade de transformar a anistia ampla em anistia total e irrestrita. Finalmente, no dia 23 de agosto, dia do aniversário do autor, Nelsinho é autorizado a deixar a prisão e assistir ao nascimento da filha Cristiana. No dia 16 de outubro Nelsinho recebeu a liberdade condicional, mas não pode ver seu pai: estava inconsciente no hospital Pró-Cardíaco.

Nelson Rodrigues faleceu na manhã do dia 21 de dezembro de 1980, um domingo. No fim da tarde daquele dia ele faria treze pontos na loteria esportiva, num "bolo" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza cumpriu o seu pedido de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. É só".

DIVISÃO DAS PEÇAS:

Sábato Magaldi dividiu as peças de Nelson Rodrigues em três grandes grupos:

PEÇAS PSICOLÓGICAS: A mulher sem pecado (1941); Vestido de noiva (1943); Valsa nº 6 (1951); Viúva, porém honesta (1957); Anti-Nelson Rodrigues (1973).
PEÇAS MÍTICAS: Álbum de família (1945); Anjo Negro (1947); Senhora dos afogados (1947); Dorotéia (1949).
TRAGÉDIAS CARIOCAS: A falecida (1953); Perdoa-me por me traíres (1957); Os sete gatinhos (1958); Boca de ouro (1959); Beijo no asfalto (1960); Otto Lara Resende ou Bonitinha mas ordinária (1962); Toda nudez será castigada (1965); A serpente (1978).
Esta divisão não é estanque. Como o próprio crítico observou, as peças psicológicas contem elementos míticos e das tragédias cariocas. As peças míticas lidam com a análise psicológica e não deixam de revelar a realidade urbana do Rio de Janeiro. E, finalmente, as denominadas tragédias cariocas incorporam o mundo psicológico e mítico das obras anteriores.