segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Conto: Pai contra a Mãe - Machado de Assis


I – MACHADO DE ASSIS CONTISTA:


A produção do contista Machado de Assis se inicia em 1858 e estende-se aos inícios do século XX, com a produção de quase 300 contos, publicados nos jornais e revistas da época. Embora o conto literário já viesse se firmando no Brasil a partir de meados do século XIX, com Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães, é com Machado de Assis que essa forma ficcional revela todas as suas possibilidades.
Reconhecido como o maior prosador da literatura brasileira, a produção de seus romances é marcada pela habilidade de construir textos mesclados da ironia nascida da observação da sociedade em que vivia.
Nos contos machadianos, revela-se uma sociedade habitada por seres solitários capazes de alcançar tão somente uma felicidade mesquinha. A vida desenrola-se como alguma coisa que escapa ao controle das personagens, alheia a suas vontades.
O contador de casos, que se distancia, numa postura literária de observador, e revela uma visão abrangente da sociedade do Segundo Império e da Primeira República, faz do leitor uma presença constante em suas narrativas.
Machado de Assis mostra extrema habilidade na elaboração de seus contos de observação e psicológicos, em que o ponto de vista da personagem narrador e suas motivações tornam-se exclusivas. A ironia vai-se expandindo não só na análise dos hábitos sócio-culturais da sociedade do Rio de Janeiro, mas na observação da própria natureza humana, apresentada em seus vícios e limitações permanentes.
Senso de observação, pessimismo, ironia, sensualidade e um inegável senso de humor com que equilibra o pessimismo são aspectos enfeixados em sua arte combinatória capazes de fazer de seus contos o que Alfredo Bosi chama de "um dos caminhos permanentes da prosa brasileira na direção da profundidade e da universalidade".
Neste conto, “Pai contra mãe”, avulta um Machado quase desconhecido: o ficcionista social, capaz de interrogar, na ação concreta dos homens, o que nelas é reflexo brutal da ordem vigente. Tudo isso sem panfletarismo, sem populismo, sem concessões demagógicas..




II – CONTO NA ÍNTEGRA:


PAI CONTRA MÃE (1906)



“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a cerco ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também, à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcassem aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha a promessa: "gratificar-se-á generosamente", – ou "receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutasse.
Cândido Neves, – em família, Candinho, – é a pessoa a quem se liga a história de uma fuga, cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse homem, não agüentava emprego nem ofício, carecia de estabilidade; é o que ele chamava caiporismo. Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém, de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade, fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao ministério do império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos.
Quando veio a paixão da moça Clara, não tinha ele mais que dívidas, ainda que poucas, porque morava com um primo, entalhador de ofício. Depois de várias tentativas para obter emprego, resolveu adotar o ofício do primo, de que aliás já tomara algumas lições. Não lhe custou apanhar outras, mas, querendo aprender depressa, aprendeu mal. Não fazia obras finas nem complicadas, apenas garras para sofás e relevos comuns para cadeiras. Queria ter em que trabalhar quando casasse, e o casamento não se demorou muito.
Contava trinta anos, Clara vinte e dois. Ela era órfã, morava com uma tia, Mônica, e cosia com ela. Não cosia tanto que não namorasse o seu pouco, mas os namorados apenas queriam matar o tempo; não tinham outro empenho. Passavam às tardes, olhavam muito para ela, ela para eles, até que a noite a fazia recolher para a costura. O que ela notava é que nenhum deles lhe deixava saudades nem lhe acendia desejos. Talvez nem soubesse o nome de muitos. Queria casar, naturalmente. Era, como lhe dizia a tia, um pescar de caniço, a ver se o peixe pegava, mas o peixe passava de longe; algum que parasse, era só para andar à roda da isca, mirá-la, cheirá-la, deixá-la e ir a outras.
O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único. O encontro deu-se em um baile; tal foi – para lembrar o primeiro ofício do namorado, – tal foi a página inicial daquele livro, que tinha de sair mal composto e pior brochado. O casamento fez-se onze meses depois, e foi a mais bela festa das relações dos noivos. Amigas de Clara, menos por amizade que por inveja, tentaram arredá-la do passo que ia dar. Não negavam a gentileza do noivo, nem o amor que lhe tinha, nem ainda algumas virtudes; diziam que era dado cm demasia a patuscadas.
– Pois ainda bem, replicava a noiva; ao menos, não caso com defunto.
– Não, defunto não; mas é que...
Não diziam o que era. Tia Mônica, depois do casamento, na casa pobre onde eles se foram abrigar, falou-lhes uma vez nos filhos possíveis. Eles queriam um, um só, embora viesse agravar a necessidade.
– Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome, disse a tia à sobrinha.
– Nossa Senhora nos dará de comer, acudiu Clara.
Tia Mônica devia ter-lhes feito a advertência, ou ameaça, quando ele lhe foi pedir a mão da moça; mas também ela era amiga de patuscadas, e o casamento seria uma festa, como foi.
A alegria era comum aos três. O casal ria a propósito de tudo. Os mesmos nomes eram objeto de trocados, Clara, Neves, Cândido; não davam que comer, mas davam que rir, e o riso digeria-se sem esforço. Ela cosia agora mais, ele saía a empreitadas de uma coisa e outra; não tinha emprego certo.
Nem por isso abriam mão do filho. O filho é que, não sabendo daquele desejo específico, deixava-se estar escondido na eternidade. Um dia, porém, deu sinal de si a criança; varão ou fêmea, era o fruto abençoado que viria trazer ao casal a suspirada ventura. Tia Mônica ficou desorientada, Cândido e Clara riram dos seus sustos.
– Deus nos há de ajudar, titia, insistia a futura mãe.
A notícia correu de vizinha a vizinha. Não houve mais que espreitar a aurora do dia grande. A esposa trabalhava agora com mais vontade, e assim era preciso, uma vez que, além das costuras pagas, tinha de ir fazendo com retalhos o enxoval da criança. À força de pensar nela, vivia já com ela, media-lhe fraldas, cosia-lhe camisas. A porção era escassa os intervalos longos. Tia Mônica ajudava, é certo, ainda que de má vontade.
– Vocês verão a triste vida, suspirava ela.
– Mas as outras crianças não nascem também? perguntou Clara.
– Nascem, e acham sempre alguma coisa certa que comer, ainda que pouco...
– Certa como?
– Cerca, um emprego, um ofício, uma ocupação, mas em que é que o pai dessa infeliz criatura que aí vem, gasta o tempo?
Cândido Neves, logo que soube daquela advertência, foi ter com a tia, não áspero, mas muito menos manso que de costume, e lhe perguntou se já algum dia deixara de comer.
– A senhora ainda não jejuou senão pela semana santa, e isso mesmo quando não quer jantar comigo. Nunca deixamos de ter o nosso bacalhau...
– Bem sei, mas somos três.
– Seremos quatro.
– Não é a mesma coisa.
– Que quer então que eu faça, além do que faço?
– Alguma coisa mais certa. Veja o marceneiro da esquina, o homem do armarinho, o tipógrafo que casou sábado, todos têm um emprego certo... Não fique zangado; não digo que você seja vadio, mas a ocupação que escolheu, é vaga. Você passa semanas sem vintém.
– Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo, até de sobra. Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca; quase nenhum resiste, muitos entregam-se logo.
Tinha glória nisto, falava da esperança como de capital seguro. Daí a pouco ria, e fazia rir à tia, que era naturalmente alegre, e previa uma patuscada no batizado.
Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda. Cândido Neves lia os anúncios, copiava-os, metia-os no bolso e saía às pesquisas. Tinha boa memória. Fixados os sinais e os costumes de um escravo fugido, gastava pouco tempo em achá-lo, segurá-lo, amarrá-lo e levá-lo. A força era muita, a agilidade também. Mais de uma vez, a uma esquina, conversando de coisas remotas, via passar um escravo como os outros, e descobria logo que ia fugido, quem era, o nome, o dono, a casa deste e a gratificação; interrompia a conversa e ia atrás do vicioso. Não o apanhava logo, espreitava lugar azado, e de um salto tinha a gratificação nas mãos. Nem sempre safa sem sangue, as unhas e os dentes do outro trabalhavam, mas geralmente ele os vencia sem o menor arranhão.
Um dia os lucros entraram a escassear. Os escravos fugidos não vinham já, como dantes, meter-se nas mãos de Cândido Neves. Havia mãos novas e hábeis. Como o negócio crescesse, mais de um desempregado pegou em si e numa corda, foi aos jornais, copiou anúncios e deitou-se à caçada. No próprio bairro havia mais de um competidor. Quer dizer que as dívidas de Cândido Neves começaram de subir, sem aqueles pagamentos prontos ou quase prontos dos primeiros tempos. A vida fez-se difícil e dura. Comia-se fiado e mal; comia-se tarde. O senhorio mandava pelos aluguéis.
Clara não tinha sequer tempo de remendar a roupa do marido, tanta era a necessidade de coser para fora. Tia Mônica ajudava a sobrinha, naturalmente. Quando ele chegava à tarde via-se-lhe pela cara que não trazia vintém. Jantava e saía outra vez, à cata de algum fugido. Já lhe sucedia, ainda que raro, enganar-se de pessoa, e pegar em escravo fiel que ia a serviço de seu senhor; tal era a cegueira da necessidade. Certa vez capturou um preto livre; desfez-se em desculpas, mas recebeu grande soma de murros que lhe deram os parentes do homem.
– É o que lhe faltava! exclamou a tia Mônica, ao vê-lo entrar, e depois de ouvir narrar o equívoco e suas conseqüências. Deixe-se disso, Candinho; procure outra vida, outro emprego.
Cândido quisera efetivamente fazer outra coisa, não pela razão do conselho, mas por simples gosto de trocar de ofício; seria um modo de mudar de pele ou de pessoa. O pior é que não achava à mão negócio que aprendesse depressa.
A natureza ia andando, o feto crescia, até fazer-se pesado à mãe, antes de nascer. Chegou o oitavo mês, mês de angústias e necessidades, menos ainda que o nono, cuja narração dispenso também. Melhor é dizer somente os seus efeitos. Não podiam ser mais amargos.
– Não, tia Mônica! bradou Candinho, recusando um conselho que me custa escrever, quanto mais ao pai ouvi-lo. Isso nunca!
Foi na última semana do derradeiro mês que a tia Mônica deu ao casal o conselho de levar a criança que nascesse à Roda dos enjeitados. Em verdade, não podia haver palavra mais dura de tolerar a dois jovens pais que espreitavam a criança, para beijá-la, guardá-la, vê-la rir, crescer, engordar, pular... Enjeitar quê? enjeitar como? Candinho arregalou os olhos para a tia, e acabou dando um murro na mesa de jantar. A mesa, que era velha e desconjuntada, esteve quase a se desfazer inteiramente. Clara interveio:
– Titia não fala por mal, Candinho.
– Por mal? replicou tia Mônica. Por mal ou por bem, seja o que for, digo que é o melhor que vocês podem fazer. Vocês devem tudo; a carne e o feijão vão faltando. Se não aparecer algum dinheiro, como é que a família há de aumentar? E depois, há tempo; mais tarde, quando o senhor tiver a vida mais segura, os filhos que vierem serão recebidos com o mesmo cuidado que este ou maior. Este será bem criado, sem lhe faltar nada. Pois então a Roda é alguma praia ou monturo? Lá não se mata ninguém, ninguém morre à toa, enquanto que aqui é certo morrer, se viver à míngua. Enfim...
Tia Mônica terminou a frase com um gesto de ombros, deu as costas e foi meter-se na alcova. Tinha já insinuado aquela solução, mas era a primeira vez que o fazia com tal franqueza e calor, – crueldade, se preferes. Clara estendeu a mão ao marido, como a amparar-lhe o ânimo; Cândido Neves fez uma careta, e chamou maluca à tia, em voz baixa. A ternura dos dois foi interrompida por alguém que batia à porta da rua.
– Quem é? perguntou o marido.
– Sou eu.
Era o dono da casa, credor de três meses de aluguel, que vinha em pessoa ameaçar o inquilino. Este quis que ele entrasse.
– Não é preciso...
– Faça favor.
O credor entrou e recusou sentar-se; deitou os olhos à mobília para ver se daria algo à penhora; achou que pouco. Vinha receber os aluguéis vencidos, não podia esperar mais; se dentro de cinco dias não fosse pago, pô-lo-ia na rua. Não havia trabalhado para regalo dos outros. Ao vê-lo, ninguém diria que era proprietário; mas a palavra supria o que faltava ao gesto, e o pobre Cândido Neves preferiu calar a retorquir. Fez uma inclinação de promessa e súplica ao mesmo tempo. O dono da casa não cedeu mais.
– Cinco dias ou rua! repetiu, metendo a mão no ferrolho da porta e saindo.
Candinho saiu por outro lado. Nesses lances não chegava nunca ao desespero, contava com algum empréstimo, não sabia como nem onde, mas contava. Demais, recorreu aos anúncios. Achou vários, alguns já velhos, mas em vão os buscava desde muito. Gastou algumas horas sem proveito, e tornou para casa. Ao fim de quatro dias, não achou recursos; lançou mão de empenhos, foi a pessoas amigas do proprietário, não alcançando mais que a ordem de mudança.
A situação era aguda. Não achavam casa, nem contavam com pessoa que lhes emprestasse alguma; era ir para a rua. Não contavam com a tia. Tia Mônica teve arte de alcançar aposento para os três em casa de uma senhora velha e rica, que lhe prometeu emprestar os quartos baixos da casa, ao fundo da cocheira, para os lados de um pátio. Teve ainda a arte maior de não dizer nada aos dois, para que Cândido Neves, no desespero da crise, começasse por enjeitar o filho e acabasse alcançando algum meio seguro e regular de obter dinheiro; emendar a vida, em suma. Ouvia as queixas de Clara, sem as repetir, é certo, mas sem as consolar. No dia em que fossem obrigados a deixar a casa, fá-los-ia espantar com a notícia do obséquio e iriam dormir melhor do que cuidassem.
Assim sucedeu. Postos fora da casa, passaram ao aposento de favor, e dois dias depois nasceu a criança. A alegria do pai foi enorme, e a tristeza também. Tia Mônica insistiu em dar a criança à Roda. “Se você não quer levar, deixe isso comigo; eu vou à rua dos Barbonos.” Cândido Neves pediu que não, que esperasse, que ele mesmo a levaria. Notai que era um menino, e que ambos os pais desejavam justamente este sexo. Mal lhe deram algum leite; mas, como chovesse à noite, assentou o pai levá-lo à Roda na noite seguinte.
Naquela reviu todas as suas notas de escravos fugidos. As gratificações pela maior parte eram promessas; algumas traziam a soma escrita e escassa. Uma, porém, subia a cem mil-réis. Tratava-se de uma mulata; vinham indicações de gesto e de vestido. Cândido Neves andara a pesquisá-la sem melhor fortuna, e abrira mão do negócio; imaginou que algum amante da escrava a houvesse recolhido. Agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves a fazer um grande esforço derradeiro. Saiu de manhã a ver e indagar pela rua e largo da Carioca, rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não achou; apenas um farmacêutico da rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a noticia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata.
Voltou para a triste casa que lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si mesma a dieta para a recente mãe, e tinha já o menino para ser levado à Roda. O pai, não obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade. Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum prestava. Não podia esquecer o próprio albergue em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou resignada. Tia Mônica pintara-lhe a criação do menino; seria a maior miséria, podendo suceder que o filho achasse a morte sem recurso. Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da rua dos Barbonos.
Que pensasse mais de uma vez em voltar para casa com ele, é certo; não menos certo é que o agasalhava muito, que o beijava, que lhe cobria o rosto preservá-lo do sereno. Ao entrar na rua da Guarda Velha, Cândido Neves começou a afrouxar o passo.
– Hei de entregá-lo o mais tarde que puder, murmurou ele.
Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher: era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta.
– Mas...
Cândido Neves não lhe deu tempo de dizer nada; saiu rápido, atravessou a rua, até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma. No extremo da rua, quando ela ia a descer a de S. José, Cândido Neves aproximou-se dela. Era a mesma, era a mulata fujona.
– Arminda! Bradou, conforme a nomeava o anúncio.
Arminda voltou-se sem cuidar malícia. Foi só quando ele, tendo tirado o pedaço de corda da algibeira, pegou dos braços da escrava, que ela compreendeu e quis fugir. Era já impossível. Cândido Neves, com as mãos robustas, atava-lhe os pulsos e dizia que andasse. A escrava quis gritar, parece que chegou a soltar alguma voz mais alta que de costume, mas entendeu logo que ninguém viria libertá-la, ao contrário. Pediu então que a soltasse pelo amor de Deus.
– Estou grávida, meu senhor! exclamou. Se Vossa Senhoria tem algum o filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei sua escrava, vou servi-lo pelo tempo que quiser. Me solte, meu senhor moço!
– Siga! repetiu Cândido Neves.
– Me solte!
– Não quero demoras; siga!
Houve aqui luta, porque a escrava, gemendo, arrastava-se a si e ao filho. Quem passava ou estava à porca de uma loja, compreendia o que era e naturalmente não acudia. Arminda ia alegando que o senhor era muito mau, e provavelmente a castigaria com açoites, – coisa que, no estado em que ela estava, seria pior de sentir. Com certeza, ele lhe mandaria dar açoites.
– Você é que tem culpa. Quem lhe manda fazer filhos e fugir depois? perguntou Cândido Neves.
Não estava em maré de riso, por causa do filho que lá ficara na farmácia, à espera dele. Também é certo que não costumava dizer grandes coisas. Foi arrastando a escrava pela rua dos Ourives, em direção à Alfândega, onde residia o senhor. Na esquina desta a luta cresceu; a escrava pôs os pés à parede, recuou com grande esforço, inutilmente. O que alcançou foi, apesar de ser a casa próxima, gastar mais tempo em lá chegar do que devera. Chegou, enfim, arrastada, desesperada, arquejando. Ainda ali ajoelhou-se, mas em vão. O senhor estava em casa, acudiu ao chamado e ao rumor.
– Aqui está a fujona, disse Cândido Neves.
– É ela mesma.
– Meu senhor!
– Anda, entra...
Arminda caiu no corredor. Ali mesmo o senhor da escrava abriu a carteira e tirou os cem mil-réis de gratificação. Cândido Neves guardou as duas notas de cinqüenta mil-réis, enquanto o senhor novamente dizia à escrava que entrasse. No chão, onde jazia, levada do medo e da dor, e após algum tempo de luta a escrava abortou.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho, sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo. Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo; o menino estava lá dentro com a família, e ambos entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor.
Agradeceu depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo, com o filho e os cem mil-réis de gratificação. Tia Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse, é verdade, algumas palavras duras contra a escrava, por causa do aborto, além da fuga. Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto.
– Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração.”



II – ESTILO LITERÁRIO:

O conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, publicado em 1906, no livro “Relíquias da Casa Velha”, insere-se na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas.



III - FOCO NARRATIVO:

Narrado em 3ª pessoa, é um dos contos atípicos do autor, pois apresenta nos primeiros parágrafos grande descrição aos maus tratos que os escravos recebiam no século XIX, aproximando o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos.


IV – ESPAÇO E TEMPO:

A narrativa ambienta-se no Rio de Janeiro do século XIX, nos tempos do Império, antes da abolição da escravatura. Machado de Assis dando um caráter documental aos fatos cita nomes reais das ruas, becos estreitos, apresentando um painel sócio econômico da época contrapondo a miséria com a riqueza dos grandes proprietários de escravos, com destaque para a “coisificação do ser humano reduzindo os menos favorecidos a objetos.


V- CARACTERÍSTICAS:


- A intertextualidade:

O nome Cândido, protagonista de “Pai contra mãe” vem do latim e significa “alvo”, “puro”, “imaculado”, remete a personagem homônima, da obra de Voltaire, já que ambos são responsáveis por ironizar uma ideia vigente ou um sistema: Cândido, de Voltaire, o otimismo desenfreado; e outro, o sistema da escravidão em que negros são tratados como objetos e não como seres humanos. Porém, há uma contradição irônica, pois a personagem machadiana não apresenta nenhuma candura, e, sim, revela-se insensível no final do conto.


- A ironia:

Extremamente irônico Machado constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos". Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante, ao contrário do Cândido de Voltaire, sempre otimista. Este, todavia, no fim da obra, aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica. Melhor que ficar pensando nos dramas existenciais é colocar-se a trabalhar, pois só o trabalho pode ser o remédio para muitos males, o que não pensa o Candinho de Machado.
É conveniente também citar a ironia presente na construção de duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha, vive em companhia dos dois.


- O pessimismo:

Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.


- As classes sociais:

Machado, através de "Pai contra mãe", mostra como o negro livre e o trabalhador branco e pobre, estão em situação muito semelhante ao negro escravo. Ganha a liberdade, ou mesmo já a possuindo por uma questão de origem, o trabalhador livre possuía pouca perspectiva num país em que a bipolaridade social e econômica era, ainda, a principal característica. Ou seja, de um lado o senhor branco, rico, nesse momento não mais escravagista, e do outro o negro livre e o branco em estado pleno de miséria, vivendo numa sociedade em que as possibilidades de mudança são remotas. É esta a situação que Machado anuncia dentro de "Pai contra mãe". A figura central do conto é de um trabalhador miserável que forma uma família também miserável.



VI – ANÁLISE DO CONTO:

Em “Pai contra mãe”, Machado de Assis desmascara o psicológico das personagens e revela a hipocrisia humana, ironizando-a através de seus comportamentos ora de dominados ora de dominadores, remetendo a filosofia do Humanitismo, a lei do mais forte que configura a sobrevivência humana ao próprio canibalismo do sistema social. A narrativa analisa a capacidade que alguns homens têm de persuadir (como a Tia Mônica) o próximo, humilhar e matar (como o fez Candinho com Arminda) para se dar bem na vida, para sobreviver numa sociedade desigual e excludente. Afinal, ao vendedor as batatas!
Os acontecimentos e o cenário só têm relevância quando provocam reações psicológicas e do conhecimento da vida social. O autor inicia a narração do conto apresentando a descrição dos instrumentos de tortura em uso contra o escravo e os ofícios decorrentes dessa situação social. Utilizando-se do pretérito perfeito - "levou", retrata um tempo passado, além de reconhecer a escravidão como uma instituição social. Será justamente a escravidão como instituição social que dará ocupação ao protagonista: capturar escravos fugidos.
Em seguida apresenta a personagem principal, Candinho, o qual não se adaptando a ofício algum, acaba tornando-se caçador de escravos fugidos no perímetro urbano do Rio de Janeiro.
Para os escravos fugidos no meio urbano, a melhor coisa a fazer era misturar-se à população negra, livre, alforriada ou escrava para embaralhar as pistas. Aliás, os anúncios dos jornais da época, fonte documentária extraordinária para os historiadores, descrevem todo tipo de subterfúgio usado por escravos fugidos que buscavam confundir-se com o meio urbano. Havia anúncios do gênero: "Um tal escravo, de tal tamanho, fugiu, mas ele faz semblante de ser livre e é habituado de tal parte da cidade".
Os senhores e as autoridades, é claro, faziam questão de cercar de perto a população escrava e decretavam normas proibindo todo escravo de usar sapatos. Logo, todo negro ou mulato calçado era considerado a princípio como sendo livre ou alforriado. Nessas condições, os escravos fugidos que circulavam na cidade podiam facilmente obter sapatos para evitarem ser interpelados. Isso aumentava a confusão social fazendo recair a suspeita sobre todos os negros livres.
Cândido Neves ou Candinho não fixava em nenhum emprego, assim, encontrou no ofício de pegar escravos fugidos uma alternativa para seu sustento. Pela manhã, após ter lido os anúncios e ter tomado as anotações das características dos escravos fugidos, saía a sua caça e com auxílio de uma corda atacava a pessoa que julgava corresponder a um anúncio determinado.
Seu casamento com Clara, uma órfã que morava com uma tia, Mônica; a gravidez da esposa em meio à crescente pobreza; a escassez de oportunidades nesse ofício, devido ao aumento da concorrência coloca Candinho em total desespero e numa luta interior.
Sem recursos financeiros para criar seu filho, após muito hesitar, Candinho não vê outra saída a não ser acatar a proposta da tia Monica - entregar a criança à Roda dos Enjeitados.
Antes, porém, ele decidiu tentar, ainda uma vez, obter dinheiro para evitar a infelicidade de perder o filho. Retomou os jornais e suas fichas sobre os escravos fugidos. Selecionou então um anúncio que prometia uma grande recompensa por uma mulata fugida na cidade. O texto descrevia a aparência da escrava, os bairros que ela costumava frequentar e seu nome: Arminda. Com o dinheiro da recompensa, Cândido podia pagar suas dívidas e ter um descanso. Sobretudo, isso permitiria ao casal ficar com o filho.
No caminho que o levava em direção à Roda, por ironia do destino, ele se depara com Arminda, a mulata fujona e logo a reconhece. Deixa seu filho com um farmacêutico para tentar alcançar a mulata e a captura. Nesse momento, a escrava Arminda, implorando que a libertasse, afirma que está grávida.


Cândido recusou e arrastou-a até a casa de seu senhor que morava em um bairro próximo. Na medida em que eles se aproximavam da casa do senhor, Arminda reagiu ainda mais, ela se debatia e terminou por abortar na entrada da casa. O proprietário de Arminda chegou e deu a recompensa a Cândido. Esse voltou com o dinheiro e, após um pequeno suspense, recuperou seu nenê.
Na volta a sua casa, viu a tia de sua mulher e contou-lhe o que se passou. É interessante porque aqui a mãe não está presente, é um diálogo em que a mãe não intervém mais, somente a tia. Ele conta-lhe a história de Arminda e de seu aborto.
O conto é finalizado com um discurso direto: “- Nem todas as crianças vingam, bateu-lhe o coração”, só que esse discurso é emitido sem que nenhuma das personagens (sua esposa, sua tia) pedisse-lhe contas do aborto que a escrava fujona, pega por Cândido Neves, sofrera.


O discurso de Cândido vem de sua consciência, uma maneira de justificar sua tirania e sua crueldade. Dessa forma, sobrevivem apenas os que, mesmo em situação econômica difícil, contam com a proteção social. Candinho, mesmo próximo à miséria, era um homem livre e branco, estava ao lado dos fortes, enquanto a escrava, nem mesmo sendo considerada humana, não possuía chances.
Machado de Assis mostra a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra mãe, lutando por duas vidas, onde o indivíduo é capaz de aplacar sua consciência, mesmo tendo cometido o maior dos crimes, justificando a troca de uma vida pela outra.
O fato da escrava Arminda, implorar por sua liberdade porque estava grávida e não queria ter um filho escravo, faz com que Candinho se lembre de seu filho recém nascido que se ele não ganhar dinheiro urgentemente terá que perdê-lo, deixá-lo à Roda dos Enjeitados para não morrer de fome. Portanto, Candinho obstinamente, agarra a escrava e entrega ao seu dono, sem se importar com sua gravidez.
Tanto Arminda quando Cândido vê nos seus filhos a possibilidade de mudança, de retomada de alguns valores afetivos que antes não haviam gozado. Ter o filho em segurança era projetar um futuro distinto do que eles tinham até então.
Machado de Assis ao retratar a luta do pai branco, contra uma mãe, negra e escrava, traçou um paralelo nas condições de miséria e pobreza existentes durante a escravidão e que permaneceriam após o seu fim.

domingo, 17 de outubro de 2010

A CONFISSÃO DE LÚCIO


I – AUTOR:



(Lisboa, 1890 – Paris, 1916)


“E eu cada vez mais me convenço de que não saberei resistir ao temporal desfeito – à vida, em suma, onde nunca terei lugar...Em suma, não creio em mim...”



MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890, no seio de uma abastada família alto-burguesa, sendo filho e neto de militares. Os primeiros anos de sua vida são marcados pela dor causada pela morte da mãe, em 1892, quando ele tinha apenas dois anos.
Ficou entregue ao cuidado dos avôs, indo viver na Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, às portas de Lisboa, onde passou grande parte da sua infância.
Inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezesseis, Goethe e Schiller. No colégio teve ainda algumas experiências episódicas como ator, e começa a escrever.


Em 1911 matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, conhece aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais compreensivo amigo: Fernando Pessoa, o qual, em 1912, o introduziu no ciclo dos modernistas.

No ano seguinte, desiludido com a “cidade dos estudantes”, transfere-se para Universidade de Paris para dar continuidade ao curso de Direito, mas não conseguiu concluir, pois lhes preferiu desde logo a vida boêmia dos cafés e salas de espetáculos. Sá-Carneiro lutou com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional com uma prostituta, Hélène, a fim de combater as suas frustrações e crises existenciais.
Ainda em 1912 publica a peça teatral "Amizade" e o volume de novelas "Princípio".
Inadaptado socialmente, psicologicamente instável, tímido, incapaz de assumir-se adulto e dependendo financeiramente de seu pai, foi neste ambiente que compôs entre 1912 e 1916 (o ano da sua morte) e com curta estadia em Lisboa (1913-1914) grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Fernando Pessoa.



FRAGMENTO DA CARTA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO A FERNANDO PESSOA

“[...] Na minha psicologia deveras emeandrada há coisas interessantes que lhe detalharei de vez em quando, muito por alto, em paga dos seus estudos. Olhe, por exemplo: a impossibilidade de renúncia. Escute:
Eu decido correr a uma provável desilusão. E uma manhã, recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!… Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros…
Se fui levado a estas divagações é que presentemente numa circunstância análoga me encontro. Lancei-me na carreira a uma ilusão dourada - pobre ilusão! - Ela podia entretanto ser uma realidade. Mas antes de ontem lá recebi, mais uma vez, a vergastada na alma. E continuo a correr…
Depois sinto-me tão pequeno, tão fraco, tão pouca coisa…
E sempre um calafrio na espinha, arrepiante, estirilizante…
E é nestes momentos ainda assim que - ó miséria! - encontro um pouco de cor-de-rosa na vida… [...]”
Paris, 21 de Janeiro de 1913.


CARTA DE FERNANDO PESSOA A MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

“Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,

Fernando Pessoa

P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características...

Você acha-me razão, não é verdade?”





Nessa correspondência já é refletido o agravamento dos seus problemas emocionais e as ideias de morte e suicídio.
Em 1914, além de publicar as obras "Dispersão" e "A confissão de Lúcio", Sá Carneiro intensifica sua correspondência com Fernando Pessoa, a quem envia seus poemas e projetos de obras, revelando crescentes sinais de pessimismo e desespero.


Com Pessoa e ainda Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais européias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária “Orpheu” (e que por isso mesmo ficou sendo conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números: março e junho de 1915.



No segundo volume dessa revista publica o poema futurista "Manucure", que, ao lado do poema "Ode triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa), provoca polêmicas nos meios literários.
O terceiro volume, embora impresso, não foi publicado, tendo sido os seus autores alvo da chacota social, ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo em Portugal.
Ainda em 1915 regressa à Paris, onde passa por constantes crises de depressões, que são agravadas por causa das suas dificuldades financeiras. Escreve ao pai, pedindo ajuda, mas este está se recuperando de uma falência e se aborrece com o filho, cortando-lhe a mesada.
Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá Carneiro, em 1916, numa carta a Fernando Pessoa, anuncia a sua intenção de suicídio, o que efetivamente ocorre no dia 26 de Abril, num quarto do Hotel Nice, em Paris, com o recurso a cinco frascos de estricnina, sem antes de convidar seu amigo José Araújo a presenciar-lhe a agonia. Contava apenas de vinte e seis anos. Foi extravagante tanto na morte como em vida de que o poema “Fim” é um dos mais belos exemplos.

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes —
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro...

(Paris, 1916)





Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de “gênio não só da arte como da inovação dela”, e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides (IV, 7, 18), de Plauto, que “Morre jovem o que os Deuses amam” (tradução literal de Quem di diligunt adulescens moritur).


II – ESCOLA LITERÁRIA:

- PRIMEIRO MODERNISMO EM PORTUGAL (1915-1927)

O Orfismo, ou Orfeísmo ou Primeira Geração Modernista em Portugal, foi um movimento de inovação no campo artístico, não só por irreverência em insultar o burguês, como também pelo escândalo que causou em sua época.
Revista de publicação trimestral teve somente dois números publicados: no primeiro número, ainda nota-se uma influência saudosista-simbolista; o segundo número, livre da arte passadista e dirigida por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, provoca inquietações por suas tendências futuristas.



III - CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL EM PORTUGAL:

O Modernismo português ocorrerá em pleno período republicano, permeado entre crises de nacionalismo do povo português.
Em um período curto, os portugueses assistiram à derrocada da Monarquia, a Proclamação da República e a instauração da Ditadura de Salazar.
Assuntos como à expansão marítima, o Sebastianismo e o período de glória portuguesa, substituídos pela crise política econômica e social são retomados por vários artistas, com o intuito de fazer renascer o espírito saudosista, ressuscitar a cultura lusitana e atualizar Portugal na área cultural e artística.



IV - CARACTERÍSTICAS:

A obra de Mário Sá-Carneiro está intimamente relacionada à sua vivência pessoal, ou seja, revela toda a sua inadaptação ao mundo e a constante busca do seu próprio eu. Isso faz com que o poeta mergulhe no seu mundo interior e, diferente de Fernando Pessoa, que se desdobrou em heterônimos, atinja a autodestruição.
Mário de Sá-Carneiro tematiza os conflitos do homem moderno: à sua fragilidade, mediante o vazio e o questionamento sobre as suas crises existenciais (influência do simbolismo) e a modernidade entusiasta dos futuristas.
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio. Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques ao tradicionalismo e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo, claramente niilista, onde a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu “eu” no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo com os contemporâneos olhavam o seu jeito poético), profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra, no que não falhou.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina elite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo atualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, porém muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e Antônio Nobre.

“Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.”

(Lisboa, fevereiro de 1914)



V – FOCO NARRATIVO:

“A confissão de Lúcio” é narrada em primeira pessoa pelo narrador-personagem, Lúcio. Toda a obra tem uma atmosfera memorialista. Por isso, a visão que se tem dos fatos é perpassada pela ótica desiludida do protagonista.
Os acontecimentos exteriores são considerados somente na medida em que revelam o interior, os motivos profundos da ação, que Sá Carneiro devassa e apresenta detalhadamente. Daí a narrativa lenta, pois o menor detalhe, os menores gestos são significativos na composição do quadro psicológico; nada é desprovido de interesse. Essa fixação pelo pormenor é o que se denomina microrrealismo.
O narrador-personagem através da óptica confessional leva o leitor a um estado de aproximação e cumplicidade que vai envolvê-lo durante toda a narrativa.


VI - TEMPO:

O romance é construído a partir de um flash-back. Debruçado sobre a reconstrução da sua existência, o solitário e magoado Lúcio, que vai filtrando os fatos sob sua ótica, revivendo a vida subjacente, que jaz nas suas entranhas, "à la recherche de temps perdu" ("à procura do tempo perdido”). Perpassa, pois, o romance uma atmosfera memorialista, dando a impressão de autobiografia.
Assim, a narrativa começa pelo fim, ou seja, em 1913 quando o personagem-narrador, Lúcio, decide escrever sua confissão. O tempo da narração remonta ao ano de 1895 e segue cronologicamente, sendo pontuado diversas vezes pelas datas (1896, 1897, 1899, 1900) ou por expressões como “no dia seguinte”, “seis meses se passaram”.
O tempo psicológico que também domina o livro passa dentro da personagem, dentro da própria vida e tenta buscar a origem do problema focalizado. Assim, a narrativa linear obedece a um ordenamento interior que é relatado à medida que afloram à consciência ou à memória do narrador.


VII – ESPAÇO:

O espaço onde é narrada a obra é fechado e ageográfico: uma “vivenda rural, isolada e perdida”. A ação retrospectiva oscila entre Paris com seus cafés, restaurantes e, Lisboa, porém com poucos detalhes.
São citados a “Av. do Bosque de Bolonha” , o “Pavilhão de Armenonville” além, do palácio da americana.


VIII – ANÁLISE LITERÁRIA:


INTRODUÇÃO


“Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão; isto é, demonstrar a minha inocência.
Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.
E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: - “Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal? “ - a esses responderei - A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido...Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro...Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente...E todas as simpatias estavam do meu lado.
O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um “crime passional”. Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta - um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.
Ah! foi bem curta - sobretudo para mim...Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter ação sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem têm a paz - pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.
Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de fatos. E são apenas fatos que eu relatarei. Desses fatos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob a minha palavra de honra afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverossímil.
A minha confissão é um mero documento.”


Lúcio após ter cumprido dez anos de prisão por um crime passional que alega não ter cometido e sem argumentos para se defender durante seu julgamento, decide fazer sua confissão e esclarecer todo o mistério que o envolve.
O protagonista garante que fará uma exposição clara dos fatos e que sua confissão é documental.


CAPÍTULO I


Em 1895, Lúcio estudava Direito em Paris, ou melhor, sedento de Europa, vagabundeava em sua mocidade, embrenhando-se pelos meios artísticos junto com Gervásio Vila-Nova, amigo conterrâneo e seu companheiro de todas as horas.
Gervásio tinha uma curiosa personalidade e detinha o dom da oratória, mesmo em seus erros e ignorâncias Era um artista falido ou predestinado à falência. Cabelos compridos, trajando sempre de preto, roupas largas, corpo de esfinge, enfim, aquele que quando passava na rua, encantava a todos.
Um dia Gervásio confessou:

“Lúcio, não sou eu nunca que possuo as minhas amantes, elas que me possuem.”

Um dia Gervásio invadiu o quarto de Lúcio contando que fora apresentado por um pintor americano de óculos azuis a uma americana interessante e riquíssima (havia mandado demolir dois prédios para construir seu palácio) na Avenida do Bosque.
Disse-lhe que a americana costumava às tardes tomar chá no Pavilhão de Armenonville.
No dia seguinte, ambos dirigem-se ao Pavilhão na tentativa de conhecer a fascinante mulher. Dez minutos depois, chegou um grupo de oito pessoas: duas inglesas adoráveis (Jenny e Dora); a americana maravilhosamente bela, alta, magra, de pele dourada e cabelos ruivos que causou medo em Lúcio; um o jornalista do “Fígaro”; um pintor holandês; um escultor inglês; dois pintores americanos e um visconde.
Reunidos, discursaram sobre banalidades da ultracivilização (modas, teatro e music-hall) e entre outros assuntos, foi citado o poeta das “Brasas”, Ricardo de Loureiro. Gervásio critica a obra o poeta afirmando ser passadista e que melhor eram os selvagens. Esta era outra característica marcante de Gervásio: elogiar uma pseudo-escola literária de última hora.
O selvagismo era uma novidade que defendia que os livros fossem impressos em diversos papéis e muitas tintas e numa estrambólica disposição tipográfica, jogos silábicos, onomatopéias - livro que seguramente Gervásio não lera e estava exaltando. Num determinado momento, a conversa deslizou-se para a voluptuosidade da arte e a razão que faziam essa voluptuosidade serem a mais bela arte. E, a americana afirmou:

“(...) Que fremir em espasmos de aurora, em êxtases de chama, ruivos de ânsia era um prazer mais arrepiado que uma tela genial, um poema de bronze. Entretanto o que é necessário é saber provocá-los. Ela dizia que para todos, os prazeres são a luxúria, beijos úmidos, carícias repugnantes e que se um artista tomasse a voluptuosidade, provocá-la, tinha o fogo, a luz, o ar, a música, os sons, as cores, os aromas, os narcóticos, as sedas...”

“A americana acrescentou que pretendia fazer uma festa onde fizesse descer a todos os arrepios misteriosos das luzes, dos fogos multicores e que a carne sentisse o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-os, excitando-os, provocando-os. (...)”

Durante toda a conversa, somente Jenny e Dora não arriscava uma palavra, mas, também, não desgrudavam os olhos sobre o meu amigo. Gervásio ao lado da americana ostentava beleza, perversidade, vício e doença.
A noite chegou e a americana ao levantar-se, deixou a mostra suas sandálias e suas unhas pintadas de douradas.
Gervásio costumava construir individualidades, por exemplo, uma criatura com a qual, por qualquer motivo, simpatizava-se, logo lhe atribuía opiniões, modos de ser do seu agrado, até que um dia chegava à decepção.
Um dia Gervásio apareceu dizendo que tinha estreitado amizade com a americana e descoberto que as duas moças eram amantes dela.
Passado um mês, Gervásio chegou o dia da festa de inauguração do palácio da americana. Gervásio e Lúcio marcaram de se encontrar na Closerie, às dez horas. Lúcio chegou e foi informado que teriam que esperar por Ricardo de Loureiro, que iria acompanhá-los.
E, foi assim foram apresentados:
“- O escritor Lúcio Vaz e o poeta Ricardo de Loureiro.”

Logo, Ricardo e Lúcio perceberam que tinham afinidades.

“Falei-lhe que admirava a sua obra e ele contou-me que lera o volume de minhas novelas e que ele gostou demais de “João Tortura”. Adorei este comentário, pois para mim também era a melhor e incrível que nenhum crítico destacara e os meus amigos, acharam ser a mais inferior.”

Lúcio, em seguida, descreve o assombro espetáculo que encontraram.


O palácio tinha “uma sala com um teto elevadíssimo, colunas multicores, um estranho palco erguido sobre duas esfinges, uma piscina com águas translúcidas. A festa comemorava a inauguração da sala. A americana ao nos receber vestia-se com uma túnica com fios metálicos, que marcava a sua pele nua, os cabelos enrolados, entretecido de pedrarias e nos braços serpentes de esmeraldas.
Na sala condensava um Paris cosmopolita. Até a meia-noite, dançou-se e conversou-se. Em seguida foi anunciada a ceia e passamos ao salão de jantar. Sabíamos que depois da ceia seria o espetáculo.
Quando voltamos, o cenário mudara-se. Inundava um perfume denso, quanto à iluminação, declaro-me impotente para descrevê-la, provinha de uma infinidade de globos. Esta luz nós sentíamos mais do que a víamos, não impressionava a nossa vista; sim, o nosso tato. Se súbito nos arrancassem os olhos, nem por isso deixaríamos de ver. Respirávamos um estranho fluído que volvia todo o corpo.
No palco surgem três dançarinas. Usavam blusas vermelhas, seios livres e gazes rasgadas lhe pendiam das cinturas descobertas ostentando desenhos de flores simbólicas. Elas dançavam e mordiam-se nas bocas. Pouco a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rápidos e rasgando toda a roupa - seios, ventres e sexos descobertos, os corpos se lhes amaranhavam.
Houve outras apresentações: dançarinas nuas perseguindo-se na piscina...Mas todas estas maravilhas, não nos excitavam fisicamente, dava-nos uma sensação de estarmos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. De repente, ela surgiu. Vestia uma túnica branca, listada de amarelo, cabelos soltos, jóias nas mãos e nos pés...Uma maravilha! Foi deixando a túnica cair. Lábios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados e ela toda serpenteava querendo dar-se ao fogo. Pegou o véu e se ocultou, deixando só o sexo nu e saltava por entre labaredas. Depois, num salto prodigioso, ela cai num lado de mil lâmpadas azuis, que ao recebê-la, se volveu vermelha, até que por fim, num mistério, o fogo se apagou em ouro e seu corpo flutuou sobre as águas douradas.
A luz normal regressara, as portas se abriram e nos encontramos na rua perplexos. A impressão fora tão forte, que não tivemos ânimo para dizer uma palavra.”

Na tarde seguinte, Lúcio encontrou-se com Ricardo no café Riche e discutem sobre a festa da americana, chamando o evento “A orgia do fogo”. Ricardo define a experiência como “uma visão onanista genial” (prática de coito interrompido para evitar a fecundação. Comumente a palavra é empregada como sinônimo de masturbação).
Lúcio revela que nunca mais viu a americana e se a sua lembrança ficou-lhe para sempre gravada, não foi por tê-la vivido - mas, sim, porque dessa noite, se originava a sua amizade com Ricardo.

“Desse encontro que marcou o princípio da minha vida...”, afirma Lúcio.

Esse capítulo sugere grande sensualismo através de sinestesia, “incêndio dos sentidos” e identidade mútua, afinal, Lúcio deixa claro que a importância da noite deu-se ao fato de ter conhecido Ricardo de Loureiro.


CAPÍTULO II


Gervásio regressou a Portugal, desiludido com suas esculturas sem pés nem cabeça. E, Ricardo e Lúcio tornaram-se amigos inseparáveis.

“Minhas conversas com Ricardo eram da alma. Claro que não éramos felizes. As nossas vidas eram torturadas de ânsias, incompreensões, de agonias. O nosso único refúgio era as nossas obras.”

Ricardo confessava que nada o encantava, que as coisas que o possuía não o saciava, se aborrecia, também as coisas que ele não tinha e se às vezes ele sofria pelas coisas que não tinha, se as tivera, ainda seria maior a sua dor e o seu tédio. Dizia que vivia para consumir instantes.
Lúcio punha-se a animá-lo, mas ele continuava dizendo que não se encontrava na vida, que tinha 23 anos e ainda não tinha conseguido dinheiro pelo seu trabalho. Sentia-se isolado, estranho. Acrescenta que tinha premonições e que não se via na velhice, nem doente e nem suicidado e se não tivesse a certeza de que todos morrem, ele não acreditaria em sua morte.

“Outras vezes, Ricardo surgia-me com revelações estrambólicas, lembrando-me um pouco do esnobismo de Gervásio. Assim, uma vez, no Olímpia, assistindo um espetáculo de dança, disse que tinha medos estranhos, como por exemplo, daquelas dançarinas, pois eram, todas tão iguais, que ele não conseguia atribuir-lhe um passado. Falou-me de seu pavor pelos arcos, pelo céu das ruas, prédios altos, disse-me que sua alma sangrava, que invejava as suas pernas, porque as pernas não tem alma, portanto não sofre. Meu amigo era uma criatura superior, perturbante. Éramos diferentes, mas algo conciliávamos: Amor à Paris. Suas ruas, praças, monumentos... Contou-me que sofreu muito quando se ausentou por um ano de Paris, sua saudade foi a mesma que se tivesse perdido uma amante. As ruas tristonhas da Lisboa do sul, descia-as às tardes magoadas rezando o seu nome. Ricardo depois afirmava que não sabia o por quê de seu amor à Paris...Amo-a por qualquer coisa, mas que eu não vejo; que eu sinto, que eu realmente sinto, e lhe não sei explicar.”


Ricardo dizia que vivia desolado, sem energia, que sua vida não tinha segredos, ou melhor, o seu segredo consistia em não o ter. Mas que admirava a vida como ninguém - ele era total incoerência.

“(...) Julga-me magro, corcovado? Sou-o; porém muito menos do que pareço. Admirar-se-ia se me visse nu. (...) E a minha vida, livre de estranhezas, é, no entanto, uma vida bizarra - mas de uma bizarria às avessas. Com efeito, a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que não encontram nas vidas normais, mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Ele então perguntava-me se eu o compreendia...e eu sempre o compreendia, por isso é que nossas conversas eram da alma e se prolongavam até de manhã, passeando pelas ruas desérticas como estivéssemos numa intoxicação mútua...”

Em tempos de tranquilidade, Ricardo desabafava com Lúcio que ansiava ter uma vida normal e confessava que às vezes chegava a invejar grupos de amigos banais que ele possuía.

”Lembrou-se de um jantar onde reunidos alguns de seus amigos de “vida de todos os dias”, ele tentava descer até eles, mas percebia que tudo era ilusão. Aquelas pessoas pensavam que eram felizes, mas Ricardo tinha orgulho de não ser feliz e também de não possuir esse tipo de vida. Ricardo contou-me que um amigo dele de Lisboa, hoje já falecido, admirava-se de vê-lo envolver-se com pessoas inferiores. Lamentava-se com a banalidade dos outros e como a “maioria” se contenta com poucas ânsias, poucos desejos espirituais, pouca alma...E o pior é que a maioria é feliz...”

Correram meses e Lúcio declara que Ricardo penetrava nos recantos ignorados de seu espírito, os mais sensíveis e dolorosos.
Uma tarde de domingo, na Avenida Campos Elíseos, Ricardo resvalou para um campo que até ai nunca fora tocado. Ele confessou que não sabia ter afetos, que seus amores foram somente ternuras. Ele nunca poderia amar uma mulher pela alma, isto é, por ela própria. Só a adoraria pela sua gentileza, pelos seus dedos trigueiros a apertarem os seus numa tarde de sol, pelo timbre de sua voz, pela sua gargalhada.

“Dizia que não era a formosura que o impressionava, mas sim a gentileza que o carregava a uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e cores! Ricardo desabafa o seu medo comigo, falava que as pessoas simples vivem sem terem essas complicações, pois elas não pensam. Ele não conseguia deixar de pensar e que o seu mundo interior ampliou de tal forma que, ele tinha medo de desaparecer da vida, perder-se em seu mundo interior. Ricardo tornava a afirmar que queria ser belo, e que o maior elogio que teve na vida não foi sobre os seus poemas...Que a sua maior glória de existência havia acontecido à três anos...andava sozinho quando ouviu uma gargalhada e tocaram-lhe no ombro. Eram duas raparigas e uma delas disse-lhe que ele era bonito, ele protestou e foram andando juntos. Na esquina despediu-se inventando uma desculpa de um encontro com um amigo, mas a verdade é que ele teve medo da magia acabar, medo que a aventura se prolongasse e ele desiludir-se.”
- Esta é a mais bela recordação da minha vida. Eu sempre quisera ser belo e nessa tarde, fui-o por instantes. Nunca mais a encontrei e na minha alegria envaidecida, nem sequer lembro-me do seu rosto. Como lhe quero.”

Lúcio refletia:

“Ricardo erguia-se realmente belo, nesse instante...Talvez ele realmente fosse belo. O que mais o prejudicava era o seu corpo que ele deixava “cair de si”. Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belíssimo. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens...”

Ricardo continuava:

“(...) como eu sinto a vitória de uma mulher admirável, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua...esplêndida...loura de álcool! A carne feminina - que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens - tristonha, seca, amarela; sem brilho e sem luz...Sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emaranham os corpos de mármore com outros iguais aos seus - femininos também...E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher, ao menos, para isto; para que, num encantamento, pudesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho...”

Lúcio recorda-se que se as obras de Ricardo eram cheias de sensualismos, de loucas perversidades e suas conversas eram todas cheias de pudores. Porém, pouco sabia sobre a sua vida sexual ou amorosa. Até que ouviu a confissão perturbadora de Ricardo.

“Eram sete e meia, depois de termos subido à Avenida Campos Elíseos, o poeta sugeriu jantarmos no Pavilhão de Armenonville. Decisão que eu aprovei na hora, principalmente por gostar do cenário literário, a grande sala de tapete vermelho, as árvores românticas que exteriormente o ensombram, o pequeno lago...toda essa paisagem lembrava com saudade uma aventura amorosa que eu nunca vivera. Luar de outono, folhas secas, beijos e champanhe...
Durante o jantar tudo correu normalmente até ao café. Ricardo, confessa como é grato pela nossa amizade, “como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em que nos encontramos”.
Dizia que antes de me conhecer as criaturas eram indiferentes, que só eu o compreendia e que eu tinha “a alma rasgada” para entendê-lo e que perante essa dedicação, ele tinha coragem de confessar pela primeira vez, o seu problema, a sua dor.
- Não posso ser amigo de ninguém. Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos, apenas ternuras. A amizade traduzir-se-ia pela ternura e uma ternura traz sempre o desejo de carinho, de beijar, de tocar, enfim de possuir. Portanto só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, sempre as adivinhei, pois para eu ter amizade com alguém, seja ele, homem ou mulher, teria de possuir quem eu estimasse. Logo, eu só poderia ser amigo de uma criatura de meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo. Sou desgraçado! Afinal nunca poderei retribuir nenhum afeto, pois, os afetos não se materializam dentro de mim!
Às vezes, sinto nojo de mim, pois todas as pessoas por quem admiro ternuras, assalta-me um desejo violento de a morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe...Esses desejos, eu os sinto na alma...só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que estimo...”




“ No caminho, ouvíamos sons de um violino e Ricardo chegou a compará-los com a sua vida: uma partitura admirável, estragada por um horrível, por um infame executante...”
No capítulo II encontra-se um embaralhado de monólogos de Ricardo expondo seus devaneios, com poucas intervenções de Lúcio, que fica extasiado com a confissão do amigo.

CAPÍTULO III


Lúcio e Ricardo, no dia seguinte, nada comentaram sobre a confissão da noite anterior, porém a confidência de Ricardo não saiu da cabeça de Lúcio como uma espécie de obsessão.
Em fins de 1896, após dez meses de amizade, Ricardo mesmo amando Paris, resolveu regressar a Lisboa.
Depois de um ano separado e somente três cartas de Lúcio e duas, de Ricardo, e por circunstâncias materiais, além das saudades de Ricardo, em l897, Lúcio desembarca em Lisboa.

“Ricardo me esperava na estação. Como seu aspecto físico mudara, ele estava feminilizado, a cor de seus cabelos, sua voz, seus gestos. Eu sabia que o poeta se casara durante a minha ausência, ele mesmo escrevera contando em sua primeira carta, mas sem juntar pormenores, como se tratasse de uma irrealidade. Pelo meu lado, também não lhe pedira explicações como se eu também soubesse que era uma irrealidade. O poeta me acompanhou até o hotel e marcamos que eu jantaria em sua casa naquela mesma tarde. Incrível que de sua mulher nenhuma palavra e também nenhuma pergunta minha. Ao chegar à sua casa, um criado me conduziu a uma sala escura, ainda que jorros de luz a iluminassem. Aos poucos fui distinguindo os objetos e sem saber como, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e sua companheira. Por mais que eu me esforce, ainda hoje é impossível saber se quando entrei naquele salão, já lá estava alguém, como também não consigo me lembrar das primeiras palavras que troquei com Marta - era este o nome da esposa de Ricardo. Era como se eu tivesse regressado a um mundo de sonhos ao entrar naquela sala. Durante a noite, jantou-se e conversou. Despedi-me à meia-noite. Ao chegar ao meu quarto, adormeci e tive a sensação de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida.”

Ricardo tinha se casado. Lúcio o sabia, pois se lembra de ter sido avisado em uma das cartas.
Lúcio passa frequentar constantemente à casa de Ricardo.
Marta era loira, alta, escultural, carne fugitiva, olhar azul, passos leves, indecisos, mãos inquietantes, pálidas, gentil; porém, sempre triste.
Lúcio revela que foram os seis meses que realmente, foi feliz. Outros artistas visitam frequentemente a casa do casal. Entre eles, havia o conde Sérgio Warginsky que, para Lúcio representava a sensualidade daquele grupo de artistas.

“Raros os dias em que eu não estava na casa de Ricardo, reunido às vezes com um pequeno grupo de artistas: Luís de Monfoirte, o dramaturgo da “Glória”, Aniceto Sarzedas, crítico, dois poetas de vinte anos, o conde Sérgio Warginsky, adido da legação da Rússia, que eu conhecera em Paris e achava estranho vê-lo frequentando à casa de Ricardo, às vezes, apareciam Raul Vilar e um seu amigo, personagem que escrevia novelas desvendando a vida íntima de seus amigos, no fundo para apresentar casos de psicologias estranhas e assim fazer uma arte perturbadora, apenas falsa e obscena. As conversas eram intelectuais e vinculadas à literatura. Marta participava evidenciando-se uma pessoa muito culta. Curioso é que a sua maneira de pensar não divergia da do poeta, sempre o complementava, reforçava-o. Sérgio era o símbolo sensual do grupo. Belo rapaz, 25 anos, alto, o seu corpo lembrava o de Gervásio Vila-Nova, que, há pouco, brutalmente se suicidara, arremessando-se para debaixo de um comboio. Seus lábios vermelhos, seus cabelos de um loiro arruivado, seus olhos de penumbra áurea que nunca se despregava de Marta. Possuía uma voz formosíssima e Ricardo sempre pedia para ele ler os seus poemas. Com certeza que Ricardo dedicava uma grande simpatia ao russo. Quanto a mim, ele só me irritava, sobretudo talvez pela sua beleza excessiva.
Entretanto bem mais agradáveis me eram ainda as noites que passava apenas na companhia de Ricardo e de Marta, mesmo quase só na companhia de Marta, pois, nessas noites, muitas vezes o poeta se ausentava para o seu gabinete de trabalho. Experimentávamos um pelo outro uma viva simpatia. Ricardo também me parecia feliz. Enfim, vivíamos.”

Decorreram meses. Chegara o verão. Os amigos se afastaram temporariamente. Ricardo propenso a terminar a sua nova obra “Diadema” (obra-prima), ausentava-se constantemente e a intimidade entre Lúcio e Marta se estreitou.

“De repente, uma estranha obsessão começou a me dominar. Percebi-me a questionar quem era essa mulher? Onde Ricardo a conhecera? Donde surgira? Ela nunca se referia a algum parente? Episódio do passado? Lugar? Seriam casados? Na carta enviada por Ricardo ele não usou a palavra casado, mas referia-se a Marta como sua mulher.
Mistério: Essa mulher nunca se referira a uma saudade de sua vida...Como se tivesse apenas um presente!
Nas minhas conversas com Marta tentava a levá-la a seu passado, mas ela disfarçava, como se não me percebesse e faltava-me sempre a coragem de insistir, preocupado em cometer uma indelicadeza.
Será que Marta amava Ricardo?
Um dia resolvi interrogar Ricardo. Ele empalideceu, murmurou algumas palavras e mudou de assunto.
Pensei estar enlouquecendo, pois no fundo o que mais me torturava não era o mistério de Marta, mas sim, se a minha obsessão era real ou apenas um sonho que eu tivera e não lograva esquecer, confundindo-o com a realidade?”

Voltou o inverno e com ele, os serões intelectuais na casa de Ricardo.
Uma noite, apareceu Narciso do Amaral, grande compositor e resolveu executar o concerto “Além”, que ainda era inédito. Lúcio buscou automaticamente os olhos de Marta, que estava sentada no funda da sala e de onde, somente ele a via.
À medida que a música aumentava de maravilha, viu lentamente a figura de Marta desaparecer...
De súbito acordado pelos aplausos e comentários de Ricardo, olhou e viu que Marta regressou misteriosamente em seu lugar. Lúcio atribuiu a visão fantástica à partitura imortal, bebedeira, alucinação...



“A minha obsessão aumentara e às vezes eu tinha que correr à sua casa para me certificar que ela era real. Talvez Ricardo tenha percebido pois aludiu ao fato de eu cuidar dos nervos.
Resolvi que descobriria o segredo de qualquer maneira, procuraria conhecidos que com certeza participaram do casamento. Comecei por Luís de Monforte. Ele achou que as minhas perguntas eram indiscrições e que seria pouco correto respondê-las. Com Aniceto Sarzedas foi um pouco mais explícito, volvendo-me com uma infâmia e uma obscenidade.
Dessas diligências a vantagem que obtive é que todos me ouviram como se nada de estranho houvesse no assunto, enfim ninguém se admirava do que eu admirava, mas apenas como se fosse indelicado, como se fosso estranho da minha parte tocar nesse assunto.
Um dia, encontrei-me com Sérgio no Tavares e não houve pretexto para que não jantássemos à mesma mesa. No meio de uma conversa, o russo aludiu aos nossos amigos, que já os conhecia em Paris, no trem sud-express para Lisboa, a dois anos atrás.”


CAPÍTULO IV


“Fiquei atordoado. Quer dizer que Ricardo trouxe Marta de Paris e como eu não a conhecera? Por que eu não fora o acompanhar na estação? Estava com uma forte gripe...Por que ele deixou Paris que tanto amava e decidira regressar a Portugal, sem que algo justificasse o seu regresso?”

Lúcio não consegue entender o mistério e arrepende-se de não ter ido até a estação, recordou-me que apesar da sua febre tentou despedir-se de Ricardo, mas algo o segurou como “numa estranha modorra de penumbra”...

Lúcio lembrou-se da carta de Ricardo. Ele falava em “transformações da sua vida” e que “agora, que vive alguém a meu lado; que enfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa.”
O mais extraordinário que Ricardo se referia a esses episódios como se Lúcio já os conhecesse, sendo, por conseguinte, inútil narrá-los, só comentando-os.

“O pior é que eu não admirara essa estranheza, como se eu já tivesse realmente conhecido tudo, nem perguntas fazia...
O mistério que velava a minha desconhecida só me atraía hoje e eu me esforçava por que ele permanecesse, eu amava o mistério, portanto, eu amava essa mulher! Eu queria-a!
Meu Deus, como sangrei! Desesperado percebi que essa mulher me enlouquecia, mas o que mais me levava a essa mulher, não era a sua alma, não era a sua beleza - era só o mistério. Derrubado o segredo, acabaria o encantamento. Decidi procurar Ricardo e confessar-lhe tudo e pedir-lhe que me contasse tudo que pudesse por termo ao mistério. Foi impossível e acreditei que o faria sofrer demais. Então resolvi fugir.
Desapareci por uma semana, Ricardo deixava bilhetes e como eu não respondera, um dia veio pessoalmente em minha casa e no mesmo instante resolvi não fugir mais do precipício; entregar-me à corrente. Com essa resolução voltou-me toda a lucidez. Jantei com Marta e Ricardo em sua casa. Marta estava linda essa noite e sentei-me pela primeira vez ao seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...
Duas semanas se passaram assim, “como se eu houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.”


Progressivamente, a intimidade entre Lúcio e Marta aumentava. Primeiro, um toque de mãos, depois, nos seios; beijos ocultos até a entrega total.

“Duas noites após o meu regresso que suas mãos encontraram com as minhas. As palavras tinham-se volvido sem nexo, ocultando o que sentíamos e não queríamos ainda desvendar, num desejo perverso de sensualidade. Uma noite ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios...Ora beijávamos os dentes, ora ela estendia os pés descalços para que lhos roesse, me soltava o cabelo, me dava o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens roxas. Só depois de tantos requintes de brasa e sem forças para prolongarmos nossas perversidades, nos possuímos realmente.
Foi uma tarde chuvosa. Eu sonhava com Marta e de súbito, a encantadora surgiu na minha frente. Marta me fez calar com um beijo mordido. Era a primeira vez que vinha a minha casa. Queria dizer-lhe que a admirava, mas ela mordia-me sempre, sem poder lhe falar.
Por fim nossos corpos se embaralharam e em verdade não fui eu que a possuí, ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...”

À noite, como sempre Lúcio jantou na casa de Ricardo. Encontrava-se super disposto e sem um mínimo de remorso.
Ricardo terminara o seu livro e nessa noite não os deixou. “E no meio da sua conversa íntima, eu esquecera até o episódio dourado. Olhando em redor de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós.”

Na manhã seguinte, Lúcio lembrou-se o que o poeta contou-lhe que à tarde tivera uma bizarra alucinação, por volta das 4:00 horas, quando escreveu o último verso. Ele saiu do escritório e foi até o seu quarto, ao passar pelo espelho do guarda-vestidos ele não se viu refletido nele. Via tudo ao seu redor, só não via a sua imagem.

“Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”
“Agora refletindo melhor, descobri que o meu amigo não me dissera isso, apenas eu, numa reminiscência complicada, acreditava que ele deveria ter dito.”


CAPÍTULO V



Lúcio vivia um grande romance e receava que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
Sua amizade com Ricardo não se alterou.

“ (...) seguia a mesma, não me condenava e nem me arrependia. Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossível ter remorsos. E se lhe mentia, estimava-o com o mesmo afeto. Mentir não é menos querer.”

Mas, algo o intrigava. Por mais que considerava esse amor pleno, ele era incompleto.

“Amava-a, e ela queria-me também, decerto...dava-se-me toda em luz...Que me faltava?
O certo que ao possuí-la eu era todo medo e longe dela, recordando os nossos espasmos, vinha-me de súbito incompreensíveis náuseas. Mesmo até no momento da posse, nasciam essas repugnâncias, que eu sabia que eram físicas.
Como se eu tivesse possuído uma criança, um ser de outra espécie ou um cadáver. Mas como explicar isso, sendo que o seu corpo era um triunfo...
Como me foi difícil para que ela não percebesse essa repugnância que eu sentia e que cada vez aumentava mais.
Enlaçava-me sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, de fogo e gumes de punhais ou como se bebesse um veneno de maldição eterna. Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular, ou até mesmo se essa mulher não passasse de um demônio.
Mas de tanto meditar sobre estas estranhezas, como que enfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.”

Entretanto, trata-se de calma passageira, principalmente quando se lembrava que pouco ou quase nada conhecia sobre Marta.
“Olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo, também duvidava de seu presente. Que fazia Marta durante as horas em que estávamos longe? Nunca falou disso comigo.
Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.”

Às vezes, as suas feições escapavam-lhe como fossem irreais e querendo recordá-las, eram as de Ricardo que lhe surgiam.
Apesar de grandes amigos, Lúcio e Ricardo não se tratavam por tu, devido não serem íntimos, enquanto que, com Marta era diferente. E, quando esse deslize ocorria, Lúcio ficava constrangido como se tivesse cometido uma imprudência.
Seus encontros amorosos com Marta eram à tarde em sua casa. Na casa de Ricardo, contentavam-se com beijos e alguns vícios, sem mesmo, preocupar-se com a chegada repentina do marido. Lúcio recomendava-lhe mais prudência e ela ria perante essa situação.
“Era como se tal nos não pudesse acontecer - tal como se nós nos não beijássemos...”
Com o passar do tempo, as imprudências de Marta aumentaram. Dirigia-se com certa intimidade e ternura a Lúcio na frente de Ricardo, que não os via ou fingia não vê-los.
Ricardo aparentemente estava feliz como se todas as suas complicações da alma tivessem sido resolvidas.
Numa tarde lanchando no terraço, por castigo de alguma coisa, Ricardo pediu para Lúcio beijar Marta.

“Hesitei, estendi os lábios mal os pousando na pele. Marta disse que o meu beijo foi desengraçado e pede para Ricardo ensinar-me como se beija.
Ricardo ergueu-se, tomou-me o rosto e beijou-me.
O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.”

CAPÍTULO VI


Os encontros fortuitos continuaram e as repugnâncias anteriores foram amenizando. Contudo, mesmo com toda plenitude de seu amor, algo o incomodava, como se ele nunca a possuísse plenamente, talvez por uma impossibilidade física qualquer: “assim como se ela fosse do meu sexo!”
Lúcio dividia-se entre sua inquietação, mas de forma fria e distante, como se esse caso não estivesse acontecendo com ele e a criação de um novo volume de novelas - o último que devia escrever.

“Ficava a imaginar como tinha começado esse caso e por incrível que pareça eu me esquecera de todos os pequenos episódios necessários para um começo de relacionamento. Pois decerto não começáramos por beijos, carícias, deve ter acontecido algo antes, mas não consigo me recordar. Na verdade parecia-me que eu não tinha esquecido esses episódios, mas sim, que era impossível de recordá-los, como impossível é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam...
Só me lembrava do primeiro toque nas mãos, e do beijo. Mas, esse beijo fora dado na boca? Talvez tivesse sido na face...como o beijo de Ricardo, o beijo semelhante aos de Marta”...

Passados meses, Lúcio percebe que Marta estava estranha e melancólica. Passou a demorar-se menos nos encontros, não aparecia com tanta frequência, chegou até faltar e, às vezes, não se entregava a ele ou não se entregava com tanta intensidade. Marta nunca deu qualquer justificativa dessa mudança e Lúcio, evitando uma recepção, nunca lhe questionou a esse respeito.

“Devo explicar que desde que Marta fora minha, eu olhava-a como se olha alguém que nos é superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha, como aquilo que menos poderia esperar, como uma impossibilidade. Eu era apenas o seu escravo”

Numa dessas ausências, Lúcio decide procurá-la. Chegando a casa de Ricardo, encontrou-o sozinho selecionando alguns versos e ficou feliz com a visita inesperada. Marta apareceu somente no jantar trajando um vestido-tailleur, de passeio.

“Agora as minhas obsessões transformaram-se em ciúmes. Ciúmes que eu ocultava da minha amante por vergonha e também tentava ocultar de mim.
Contudo nunca se passaram três dias sem ela aparecer.
O horror de seu corpo junto com o meu ciúme faziam-me desejá-la mais..
Muitas vezes corri em sua casa quando ela faltava e só encontrava Ricardo em seu gabinete. Marta só aparecia no jantar.
Um dia Ricardo admirou-se dessas visitas intempestivas. Desde então, resolvi nunca mais procurá-la em sua casa e sim espioná-la.
Uma tarde a segui e a vi entrando em prédio de azulejos verdes. Entrou sem bater.
Como eu sofri, com a descoberta que ela tinha outro!
Aquele corpo maravilhoso dava-se a três homens - Quem sabe uma multidão? E, ao mesmo tempo, que, esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse.
Com efeito, sabê-la possuída por outro amante - se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos. Ao possuía agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuísse também todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu. A minha ânsia se convertera em achar em seu corpo algum rastro de outro amante e um dia encontrei uma mancha roxa em seu seio esquerdo. Num ímpeto, numa fúria, colei a minha boca a essa mancha e a chupei com tanta força. Marta, porém, não gritou. Era natural que gritasse perante minha violência, mesmo por que a minha boca ficou sabendo sangue, mas não, Marta não reagiu como se não notasse essa carícia brutal.
De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo - foi-me impossível relembrá-lo numa estranha dúvida.
Se Marta contasse para mim de seus amantes eu não sofreria tanto, pois todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido. Meu orgulho só não admitia segredos.
Será que as minhas repugnâncias não provinham pelo outro amante?
Sempre tive grandes antipatias físicas. Lembro-me de que em Paris, eu e Gervásio jantávamos todas as noites, e em algumas vezes ia uma moça italiana que cheguei a desejá-la. Um dia a encontrei de mãos dadas com um sujeito que eu abominava, tive vontade de vomitar. Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil, fora o mesmo do que a ver tombar morta aos meus pés. Ela não deixara de ser um amor, mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Se eu a beijasse, logo me ocorreria à lembrança daquele sujeito, vir-me-ia um gosto úmido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possuí-la, então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões.
Se a minha repugnância pelo corpo de Marta tivesse a mesma origem? Se o amante que eu ignorava fosse alguém que me inspirasse nojo? Ao possuí-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante. Na realidade o corpo de Marta não me causava repugnâncias - a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilépticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos papas - da gente que o mistério grifou...”

Lúcio enciumado resolve descobrir quem era o misterioso morador do prédio de azulejos verdes.
Ao dobrar a rua transversal, encontrou-se com Ricardo. Ele disse que acabara de concluir alguns versos e estava indo à casa de Sérgio Warginsky para lhos mostrar, aponta o prédio e convida-me para acompanhá-lo.
Em seguida, Ricardo perguntou-lhe sobre o término de sua peça e se o protagonista, o escultor, morria. Lúcio respondeu-lhe que tudo se resolveria muito bem.
De repente Lúcio viu Marta no outro passeio, nos seus passos leves, sem vê-los, dirigiu-se ao prédio misterioso, bateu à porta e entrou.
Ricardo diz que desistiu de visitar Sérgio e alegou que prefere a leitura da peça teatral que Lúcio acabara de escrever e puxa o amigo pelo braço, levando-o dali.
O resto do dia, Lúcio leu o seu drama a Marta (que já tinha voltado) e a Ricardo.

“Durante a leitura outra idéia estrambólica me apareceu: que eu era o meu drama - a coisa artificial - e o meu drama a realidade. Jantei com meus amigos e voltei cedo para minha casa. Ao dormir observei uma estranha coisa: ao pararmos em face do prédio verde, eu vira Marta bater à porta, segundo a direção que ela vinha, ela devia-me ter visto: logo eu, devia-a ter visto quando olhara para trás.”

Dois dias depois, sem prevenir ninguém, sem escrever uma palavra a Ricardo, Lúcio partiu.

“Ah! A sensação de alívio que experimentei ao descer na gare do Quai d’Orsay.
Durante a viagem, senti uma ânsia em chegar a Paris e também a sensação que jamais chegaria, que me prenderiam no caminho por engano, que me obrigariam a voltar a Lisboa, que Ricardo, Marta e todos os meus amigos vinham no meu encalço. Ao entrar um rapaz alto e loiro senti um calafrio, pensando ser o Sérgio Warginsky, não era. Enfim, vencera! O meu Paris dos meus vinte e três anos...
Foram os seis últimos meses da minha vida. Vivi-os de banalidade, de cafés, teatros. Ainda pensava no mistério de Marta, mas decidi esquecer. “Esquecer é não ter sido” Mas na infâmia de Ricardo eu nunca deixei de pensar: E então as coisas haviam chegado a ponto de a sua mulher ir atrás dele, quase com ele, a casa de um amante? Pois se nós a não víramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. “Mas nem por isso retrocedera!” Com certeza Ricardo sabia de tudo. E ele que me queria sempre ao lado de sua esposa, mudar de lugar à mesa, para nossas pernas se pudessem entrelaçar, saíamos os três de carro, Ricardo sempre no volante e eu e Marta sentados pertinhos de mãos dadas...Era impossível ele não ter percebido nada!
Estranho é que nesses momentos eu nunca receara que ele visse as nossas mãos, nunca me perturbara, como se as nossas mãos fossem soltas e nós sentados muito longe um do outro.
E dar-se-ia o mesmo com Sérgio? Oh, sem dúvida...”Ricardo estimava-o tanto..”
O pior que sabendo ele, a sua amizade, por mim e pelo Russo, aumentavam cada dia mais. Que ele soubesse e calasse, por muito amar a sua companheira e não a querer perder, pelo menos mostrasse uma atitude nobre, que nos não adulasse.
Às vezes, me assaltava uma saudade vaga do meu antigo sofrimento - isto é, do corpo nu de Marta - no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo. Por felicidade, não recebera uma carta do artista, que nem a teria aberto, se a recebera, ninguém sabia do meu endereço, saber-se-ia que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos. Eu não comprava jornais de Lisboa, quando chegava telegrama de Lisboa, eu não lia...Enfim, queria esquecer-me de quem era...entre a multidão cosmopolita, criava-me alguém sem pátria, sem amarguras, sem raízes em todo o mundo. Ah! Se eu não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse...”

Numa tarde, Lúcio folheando as últimas novidades literárias deparou-se com um volume de capa amarela e em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro, era a tradução francesa de “Diadema”.
Sua alucinação voltou e sentiu ódio de Ricardo misturado com um vago despeito de ciúme.

“Invejava-o por ela me haver pertencido...a mim, ao conde russo, e a todos..”

Essa sensação foi-lhe tão forte que teve vontade de assassiná-lo para satisfazer a sua inveja, o seu ciúme e vingar-se dele. Todos esses emaranhados de pensamentos misturavam-se com a estranha confissão que Ricardo fizera no jantar do Pavilhão d’Armenonville.


CAPÍTULO VII



Em 1900, Lúcio encontra-se casualmente com Santa-Cruz de Vilalva, um grande empresário português. Santa-Cruz comentou-lhe sobre o grande espanto que causou seu desaparecimento e sua falta de notícias. Depois, pede para conhecer sua peça (“Chama”).

“Desde que eu chegara a Paris não escrevera nenhum letra, nem sequer já me lembrava de que era um escritor. À noite após a leitura, Santa-Cruz, adorou. Entreguei-lhe o manuscrito nas seguintes condições: eu não participaria dos ensaios, nem me ocuparia da distribuição.
Ao despedirmo-nos, o empresário disse-me que Ricardo tinha perguntado sobre mim e que ele também representava um ato do Ricardo, em verso.”

O empresário adorou o texto e pediu para encená-la. Lúcio consentiu, mas com a exigência de que não precise acompanhar seus ensaios.
Depois desse encontro, Lúcio reescreveu o último ato de “A Chama” e partiu para Lisboa.
Lá, chegando os ensaios já tinham iniciados tendo Roberto Dávila, no papel do escultor.
Passaram dois dias e Lúcio ainda não havia falado sobre a modificação da peça, aliás, único motivo de sua viagem. No terceiro dia, Lúcio procurou Santa-Cruz, entregou-lhe os novos manuscritos e na manhã seguinte, teve como resposta que estava horrível, que o primeiro seria uma obra prima, mas o atual era um disparate.
Lúcio inconformado retirou o manuscrito e lançou-o ao fogo.
Transcorridas alguma semanas, Lúcio ainda permanecia em Lisboa, andando sem rumo pelas ruas e sem procurar qualquer conhecido.

“O que mais me espantava é que Ricardo não tinha me procurado. Talvez por ele perceber os motivos do meu afastamento e por isso retraíra, sensatamente. Vaguei vagabundeando pelas ruas de Lisboa, parecia-me que procurava uma pessoa que muito desejasse encontrar. Fato curioso, nunca me lembrei durante este período de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento de alma. Uma manhã de súbito vi alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro. Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se no solo. Ricardo estava na minha frente. Não me lembro das palavras banais que com certeza trocamos. Ele falava num tom de grande tristeza e em toda a sua figura havia a expressão de um sincero desgosto, seus olhos úmidos de lágrimas. Escutei os seus queixumes e de repente não me soube conter e lhe comecei gritando todo o meu ódio, a minha revolta e o meu nojo.Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, úmida, começou:
- Ah! como te enganas...Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!Doído que eu era no meu triunfo...Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam...Escuta-me. Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante..Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que me dizia sempre...Eu é que lhos mostrava sempre! Pois não te lembras Lúcio do meu martírio..Eu não podia ser amigo de ninguém...não podia experimentar afetos...eu só adivinha ternuras...Como eu sofri...dedicavas-me um grande afeto; eu queria vibrar esse teu afeto, mas era impossível...Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?
Uma noite, achei-A...sim....criei-A...Ela é só minha, entendes? Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma. Pensamos da mesma maneira, igualmente sentimos. Somos nós dois...Mandei-A ser tua! Mas, estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava...Satisfiz a minha ternura. Venci! E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar. Na hora em que a achei - tu ouves? Foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se tivesse materializado. E só com o espírito te possuí, materialmente.....Julgaste-me tão mal, fugiste de ciúme...Tu não era o meu único amigo...eras o primeiro, o maior...mas também por outro eu oscilava ternuras...Assim mandei beijar esse outro...Warginsky...julgava-o tão meu amigo...tão leal...tão digno de um afeto...enganou-me. Que valem os outros, entanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Não me acreditas? Vem...Ela é só minha! Pelo teu afeto eu trocaria tudo - “mesmo o meu segredo”. Vem.
Agarrou-me violentamente pelo braço...obrigou-me a correr com ele.Chegamos diante da sua casa. Ao atravessarmos o vestíbulo do primeiro andar, sem cima de um móvel, estava uma carta com um brasão a ouro. É estranho que num momento tão culminante eu possa me lembrar desses detalhes, mas mais estranho é que pareceu-me que eu próprio já recebera um sobrescrito igual àquele. Ricardo leu a carta e amassou, jogando-a pelo sobrado. Ricardo gritava-me: “ - Vamos ver! Vamos ver! Chegou a hora de dissipar os fantasmas...Ela é só tua...hás de acreditar...Foi como se a minha alma, sendo sexualizada se materializasse para te possuir...Ela é só minha..Só para ti a procurei...Mas não consisto que nos separe...Verás...No meio dessas frases impossíveis (curioso eu não as achava impossível, mas sim cheia de amargura) ele me levara aos aposentos de Marta.
Em pé, diante de uma janela, Marta folheava um livro. Ricardo puxou de um revólver, que trazia no bolso e disparou à queima-roupa. Marta tombou no solo. E então foi o mistério da minha vida. Quem jazia estiraçada junto da janela, não era Marta - não - era o meu amigo. E aos meus pés - caíra o seu revolver ainda fumegante...!
Marta desaparecera como se extingue uma chama. Soltei um grande grito, precipitei-me numa carreira louca por entre corredores e salões, mas os criados me seguraram.
Quando despertei deste pesadelo alucinante, que fora só a realidade inverossímil, achei-me preso num calabouço do governo civil.”

É interessante notar que quando Lúcio recusa acompanhar os ensaios da sua peça, dá-se entender que não pretende e não deseja retornar a Portugal. Entretanto, é o que mais deseja, embora não admita e por isso necessita de uma desculpa.


CAPÍTULO VIII


“Pouco me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão.
O processo passou rápido, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverossímil, ninguém se justifica. Por isso calei. O meu advogado disse que a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a polícia, segundo creio, procurou em vão.
Meu crime foi por causas passionais, pairava em ar de mistério e daí a benevolência do júri.
A minha vida ruíra quando o revólver de Ricardo pairou nos meus pés, e a prisão surgia-me como um descanso, “um termo”...Os meus “amigos” abstiveram-se, nenhum deles me veio visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Porém o meu advogado foi um verdadeiro amigo, esqueceu-me o seu nome, apenas me recordo de sua fisionomia e percebo uma semelhança notável com a de Luís de Monforte.
Mais tarde, nas audiências, havia de observar que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o médico que me tinha tratado, havia oito anos, de uma febre cerebral que me levara às portas da morte.
Passaram velozes os meus dez anos de prisão. Tínhamos uma larga cerca onde, certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas. A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga, em frente havia um quartel amarelo ou talvez outra prisão. O maior prazer dos detidos era de se debruçarem do alto do grande muro e olharem para a rua; isto é, para a vida. Eu poucas vezes me acercava do muro, pois nada me podia interessar do que havia para lá dele.
Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa me contavam os maus tratos de que eram vítimas. Em raramente me misturava com os prisioneiros - criaturas pouco recomendáveis, vindas do vício e do crime. Conhecei um rapaz louro, muito distinto, que estava preso por assassinato. Matara a sua amante: uma cantora francesa que trouxera para Lisboa.
Para ele como para mim, também a vida parara, ele vivera também o momento culminante a que aludi na minha advertência. Ele falava sobre a possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida - fulvas de amor ou de angústia - e assim poder vê-las, ressenti-las. Contara-me que fora essa a sua maior preocupação na vida - “a arte da sua vida...”
Os anos voaram. Devido à minha serenidade, todos me tratavam com a maior simpatia. Os próprios diretores tinham por mim as maiores atenções.
Até que chegou o termo da minha pena.
Morto, sem olhar um instante em redor de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé. Acho-me tranquilo - sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas já não me sou. E até à morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face...A morte real - apenas um sono mais denso...
Antes, não quis porém deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade a minha estranha aventura. Ela prova como fatos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverossímil - embora verdadeira.
Assim eu, para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silêncio, durante dez anos, um crime que não cometi...
A vida...”



IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A obra “A Confissão de Lúcio” de Mário de Sá-Carneiro é apresentada como “narrativa” por seu autor. Uma pequena novela em que com toques de estilo fortemente decadentista, impressionista se exploram personagens de psicologia “especial”, que se movem num ambiente carregado de excentricidade e, vive uma história extraordinária, uma fantasmagoria por não poderem ser explicados pelas leis, das ciências naturais.
No inicio, o narrador diz que vai esclarecer os fatos, que irá provar a sua inocência e nem tenta explicá-los, aceitando-os naturalmente como “estranhas aventuras”, denominando a sua história como “pesadelo alucinante, infernal”, entretanto, quando termina, os leitores estão mais confusos do que ao começar a leitura. Assim, pode-se classificá-la como obra aberta, já que permite muitas discussões e interpretações variadas.
A “Confissão de Lúcio” arquiteta-se como o espaço em que o “EU” busca o “OUTRO”, em decorrência da própria exaustão provocada pelo círculo vicioso em que se movimenta o “EU” e pelas suas perspectivas do gênero e do sexo construídas através dos e nos protagonistas Lúcio-Marta-Ricardo.
A primeira parte da novela, o ambiente artístico de Paris e a loucura orgástica da Americana compõem o reino da ilusão da alteridade, contudo extraordinariamente sedutora. Já, na segunda parte se dá o desenlace absurdo, trágico e alucinante da amizade entre Lúcio e Ricardo. Este, para possuir o amigo, Lúcio (seu outro EU, isto é, para regressar à unidade), desdobra-se na própria mulher, Marta, que é pois ele próprio. A aventura de Lúcio com Marta é afinal a aventura de Lúcio, disso inconscientemente, com Ricardo.
Quando Ricardo mata a inexistente Marta, na realidade suicida-se e arrasta consigo, Lúcio no suicídio, embora o suicídio lento e póstumo, para que haja a reintegração do que se seccionara em três partes: Ricardo, Lúcio e Marta, isto é, Sá-Carneiro, ele próprio e o Outro que é o Mesmo.
Segundo Antônio Quadros:
“Ricardo é o desdobramento do narrador que é, afinal, desdobramento do autor, concluindo que o homicídio da ficção é um duplo suicídio: “ao disparar o revólver sobre Marta, sua figuração em projeção fantasmática, Ricardo de Loureiro cai morto, foi portanto um suicídio, mas, na desaparição de Marta (que não era real), o cenário compõem um crime, de que é acusado Lúcio, o qual, impotente para explicar tamanho absurdo”, aceita a prisão como um túmulo, recusando a vida. Mesmo quando libertado, fecha-se num lugar isolado à espera da morte real, para usar as palavras dele mesmo. É o suicídio do narrador, projeção do autor.
Em verdade nela podemos detectar, como em síntese e numa narrativa coerente, onde os efeitos de surpresa e de suspense são magistralmente conseguidos.
Esta projeção num duplo, este desdobramento de personalidade de Sá-Carneiro constitui-se como uma espécie de contemplação do eu real ao espelho, para nele ver o eu ideal, mas diferente como pode ser o outro do mesmo, surge, em vários registros, em diversas outras novelas de Sá-Carneiro, onde atinge o mais agudo de autoconsciência psicológica do referido fenômeno.
Outra tendência obsessiva encontrada é a sexualidade ambígua, sempre balançando entre o onanismo (sexualidade narcísica), que chega a ser idealizado e “elevado”, a heterossexualidade ou atração pela mulher, desde que mulher extraordinária, invulgar, encantadora porque toda de mistério e a homossexualidade fictícia, que no fundo nos remete de novo para o completo de Narciso, pois ele e ela significam no fundo a irrealidade do outro, de todo o Outro, tudo se reduzindo afinal ao Mesmo, a única realidade sólida e a única ortodoxia. Mas a situação do homem-Narciso, sobretudo quando se cinde entre um Eu e um Outro que também é o Eu, conduz fatalmente à morte ou à loucura.
Para José Régio, que a considera a obra-prima de entre as novelas de Sá-Carneiro, por ser a que melhor atinge “a verdadeira objetivação da obra de arte”, representa decerto um paradigma particularmente significativo da sua ficção fantástica.
Nesta linha de pensamento, vê-se na obra uma atitude de identificação com as ideias da abjeção de questionamento à ordem estabelecida, na qual à controvérsia das identidades de gênero em relação ao posicionamento do feminino versus masculino das personagens se vincula uma pretensão de vínculo do material com o espiritual.
Elaborados como partes da ambiguidade realizada sob os desejos eróticos e relacionamentos auto X homo X heterossexual, nos quais as relações humanas representam uma entrega erótica, as personagens podem ser consequentemente vinculados às identidades não predominantes ou não normativas. Percebe-se uma intenção de Mário de Sá-Carneiro de transgredir as leis da natureza, não só pela projeção da alma como também pela tentativa de encontrar o outro, o duplo.