domingo, 17 de outubro de 2010

A CONFISSÃO DE LÚCIO


I – AUTOR:



(Lisboa, 1890 – Paris, 1916)


“E eu cada vez mais me convenço de que não saberei resistir ao temporal desfeito – à vida, em suma, onde nunca terei lugar...Em suma, não creio em mim...”



MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO nasceu em Lisboa no dia 19 de maio de 1890, no seio de uma abastada família alto-burguesa, sendo filho e neto de militares. Os primeiros anos de sua vida são marcados pela dor causada pela morte da mãe, em 1892, quando ele tinha apenas dois anos.
Ficou entregue ao cuidado dos avôs, indo viver na Quinta da Vitória, na freguesia de Camarate, às portas de Lisboa, onde passou grande parte da sua infância.
Inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezesseis, Goethe e Schiller. No colégio teve ainda algumas experiências episódicas como ator, e começa a escrever.


Em 1911 matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, conhece aquele que foi, sem dúvida, o seu melhor e mais compreensivo amigo: Fernando Pessoa, o qual, em 1912, o introduziu no ciclo dos modernistas.

No ano seguinte, desiludido com a “cidade dos estudantes”, transfere-se para Universidade de Paris para dar continuidade ao curso de Direito, mas não conseguiu concluir, pois lhes preferiu desde logo a vida boêmia dos cafés e salas de espetáculos. Sá-Carneiro lutou com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional com uma prostituta, Hélène, a fim de combater as suas frustrações e crises existenciais.
Ainda em 1912 publica a peça teatral "Amizade" e o volume de novelas "Princípio".
Inadaptado socialmente, psicologicamente instável, tímido, incapaz de assumir-se adulto e dependendo financeiramente de seu pai, foi neste ambiente que compôs entre 1912 e 1916 (o ano da sua morte) e com curta estadia em Lisboa (1913-1914) grande parte da sua obra poética e a correspondência com o seu confidente Fernando Pessoa.



FRAGMENTO DA CARTA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO A FERNANDO PESSOA

“[...] Na minha psicologia deveras emeandrada há coisas interessantes que lhe detalharei de vez em quando, muito por alto, em paga dos seus estudos. Olhe, por exemplo: a impossibilidade de renúncia. Escute:
Eu decido correr a uma provável desilusão. E uma manhã, recebo na alma mais uma vergastada - prova real dessa desilusão. Era o momento de recuar. Mas eu não recuo. Sei já, positivamente sei, que só há ruínas no termo do beco, e continuo a correr para ele até que os braços se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem saída. E você não imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!… Há na minha vida um bem lamentável episódio que só se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplicável. Mas não era, não era. É que eu se começo a beber um copo de fel, hei-de forçosamente bebê-lo até ao fim. Porque - coisa estranha! - sofro menos esgotando-o até à última gota, do que lançando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que vão até ao fim. Esta impossibilidade de renúncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo tratá-la num dos meus contos, mas na vida é uma triste coisa. Os actos da minha existência íntima, um deles quase trágico, são resultantes directos desse triste fardo. E coisas que parecem inexplicáveis, explicam-se assim. Mas ninguém as compreende. Ou tão raros…
Se fui levado a estas divagações é que presentemente numa circunstância análoga me encontro. Lancei-me na carreira a uma ilusão dourada - pobre ilusão! - Ela podia entretanto ser uma realidade. Mas antes de ontem lá recebi, mais uma vez, a vergastada na alma. E continuo a correr…
Depois sinto-me tão pequeno, tão fraco, tão pouca coisa…
E sempre um calafrio na espinha, arrepiante, estirilizante…
E é nestes momentos ainda assim que - ó miséria! - encontro um pouco de cor-de-rosa na vida… [...]”
Paris, 21 de Janeiro de 1913.


CARTA DE FERNANDO PESSOA A MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

“Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginacão, ter baloucos para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que me sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena - chia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abracos do seu, sempre muito seu,

Fernando Pessoa

P.S. - Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tao características...

Você acha-me razão, não é verdade?”





Nessa correspondência já é refletido o agravamento dos seus problemas emocionais e as ideias de morte e suicídio.
Em 1914, além de publicar as obras "Dispersão" e "A confissão de Lúcio", Sá Carneiro intensifica sua correspondência com Fernando Pessoa, a quem envia seus poemas e projetos de obras, revelando crescentes sinais de pessimismo e desespero.


Com Pessoa e ainda Almada-Negreiros integrou o primeiro grupo modernista português (o qual, influenciado pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais européias, pretendia escandalizar a sociedade burguesa e urbana da época), sendo responsável pela edição da revista literária “Orpheu” (e que por isso mesmo ficou sendo conhecido como a Geração d’Orpheu ou Grupo d’Orpheu), um verdadeiro escândalo literário à época, motivo pelo qual apenas saíram dois números: março e junho de 1915.



No segundo volume dessa revista publica o poema futurista "Manucure", que, ao lado do poema "Ode triunfal" de Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa), provoca polêmicas nos meios literários.
O terceiro volume, embora impresso, não foi publicado, tendo sido os seus autores alvo da chacota social, ainda que hoje seja, reconhecidamente, um dos marcos da história da literatura portuguesa, responsável pela agitação do meio cultural português, bem como pela introdução do modernismo em Portugal.
Ainda em 1915 regressa à Paris, onde passa por constantes crises de depressões, que são agravadas por causa das suas dificuldades financeiras. Escreve ao pai, pedindo ajuda, mas este está se recuperando de uma falência e se aborrece com o filho, cortando-lhe a mesada.
Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava, e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá Carneiro, em 1916, numa carta a Fernando Pessoa, anuncia a sua intenção de suicídio, o que efetivamente ocorre no dia 26 de Abril, num quarto do Hotel Nice, em Paris, com o recurso a cinco frascos de estricnina, sem antes de convidar seu amigo José Araújo a presenciar-lhe a agonia. Contava apenas de vinte e seis anos. Foi extravagante tanto na morte como em vida de que o poema “Fim” é um dos mais belos exemplos.

FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos berros e aos pinotes —
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro...

(Paris, 1916)





Pessoa dedicou-lhe um belo texto, apelidando-o de “gênio não só da arte como da inovação dela”, e dizendo dele, retomando um aforismo das Báquides (IV, 7, 18), de Plauto, que “Morre jovem o que os Deuses amam” (tradução literal de Quem di diligunt adulescens moritur).


II – ESCOLA LITERÁRIA:

- PRIMEIRO MODERNISMO EM PORTUGAL (1915-1927)

O Orfismo, ou Orfeísmo ou Primeira Geração Modernista em Portugal, foi um movimento de inovação no campo artístico, não só por irreverência em insultar o burguês, como também pelo escândalo que causou em sua época.
Revista de publicação trimestral teve somente dois números publicados: no primeiro número, ainda nota-se uma influência saudosista-simbolista; o segundo número, livre da arte passadista e dirigida por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, provoca inquietações por suas tendências futuristas.



III - CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL EM PORTUGAL:

O Modernismo português ocorrerá em pleno período republicano, permeado entre crises de nacionalismo do povo português.
Em um período curto, os portugueses assistiram à derrocada da Monarquia, a Proclamação da República e a instauração da Ditadura de Salazar.
Assuntos como à expansão marítima, o Sebastianismo e o período de glória portuguesa, substituídos pela crise política econômica e social são retomados por vários artistas, com o intuito de fazer renascer o espírito saudosista, ressuscitar a cultura lusitana e atualizar Portugal na área cultural e artística.



IV - CARACTERÍSTICAS:

A obra de Mário Sá-Carneiro está intimamente relacionada à sua vivência pessoal, ou seja, revela toda a sua inadaptação ao mundo e a constante busca do seu próprio eu. Isso faz com que o poeta mergulhe no seu mundo interior e, diferente de Fernando Pessoa, que se desdobrou em heterônimos, atinja a autodestruição.
Mário de Sá-Carneiro tematiza os conflitos do homem moderno: à sua fragilidade, mediante o vazio e o questionamento sobre as suas crises existenciais (influência do simbolismo) e a modernidade entusiasta dos futuristas.
Na fase inicial da sua obra, Mário de Sá-Carneiro revela influências de várias correntes literárias, como o decadentismo, o simbolismo, ou o saudosismo, então em franco declínio. Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques ao tradicionalismo e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, posteriormente, por influência de Pessoa, viria a aderir a correntes de vanguarda, como o interseccionismo, o paulismo ou o futurismo, claramente niilista, onde a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.
Nessas pôde exprimir com vontade a sua personalidade, sendo notórios a confusão dos sentidos, o delírio, quase a raiar a alucinação; ao mesmo tempo, revela certo narcisismo e egolatria, ao procurar exprimir o seu inconsciente e a dispersão que sentia do seu “eu” no mundo – revelando a mais profunda incapacidade de se assumir como adulto consistente.
O narcisismo, motivado certamente pelas carências emocionais (era órfão de mãe desde a mais terna puerícia), levou-o ao sentimento da solidão, do abandono e da frustração, traduzível numa poesia onde surge o retrato de um inútil e inapto. A crise de personalidade levá-lo-ia, mais tarde, a abraçar uma poesia onde se nota o frenesi de experiências sensórias, pervertendo e subvertendo a ordem lógica das coisas, demonstrando a sua incapacidade de viver aquilo que sonhava – sonhando por isso cada vez mais com a aniquilação do eu, o que acabaria por o conduzir, em última análise, ao seu suicídio.
Verdadeiro insatisfeito e inconformista (nunca se conseguiu entender com a maior parte dos que o rodeavam, nem tão pouco ajustar-se à vida prática, devido às suas dificuldades emocionais), mas também incompreendido (pelo modo com os contemporâneos olhavam o seu jeito poético), profetizou acertadamente que no futuro se faria jus à sua obra, no que não falhou.
Com efeito, reconhecido no seu tempo apenas por uma fina elite, à medida que a sua obra e correspondência foi publicada, ao longo dos anos, tornou-se acessível ao grande público, sendo atualmente considerado um dos maiores expoentes da literatura moderna em língua portuguesa. Embora não tenha a mesma repercussão de Fernando Pessoa, a sua genialidade é tão grande (senão mesmo maior) que a de Pessoa, porém muito mais próxima da loucura que a do seu amigo.
As suas influências literárias são de Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Charles Baudelaire, Stéphane Mallarmé, Fiódor Dostoievski, Cesário Verde e Antônio Nobre.

“Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.”

(Lisboa, fevereiro de 1914)



V – FOCO NARRATIVO:

“A confissão de Lúcio” é narrada em primeira pessoa pelo narrador-personagem, Lúcio. Toda a obra tem uma atmosfera memorialista. Por isso, a visão que se tem dos fatos é perpassada pela ótica desiludida do protagonista.
Os acontecimentos exteriores são considerados somente na medida em que revelam o interior, os motivos profundos da ação, que Sá Carneiro devassa e apresenta detalhadamente. Daí a narrativa lenta, pois o menor detalhe, os menores gestos são significativos na composição do quadro psicológico; nada é desprovido de interesse. Essa fixação pelo pormenor é o que se denomina microrrealismo.
O narrador-personagem através da óptica confessional leva o leitor a um estado de aproximação e cumplicidade que vai envolvê-lo durante toda a narrativa.


VI - TEMPO:

O romance é construído a partir de um flash-back. Debruçado sobre a reconstrução da sua existência, o solitário e magoado Lúcio, que vai filtrando os fatos sob sua ótica, revivendo a vida subjacente, que jaz nas suas entranhas, "à la recherche de temps perdu" ("à procura do tempo perdido”). Perpassa, pois, o romance uma atmosfera memorialista, dando a impressão de autobiografia.
Assim, a narrativa começa pelo fim, ou seja, em 1913 quando o personagem-narrador, Lúcio, decide escrever sua confissão. O tempo da narração remonta ao ano de 1895 e segue cronologicamente, sendo pontuado diversas vezes pelas datas (1896, 1897, 1899, 1900) ou por expressões como “no dia seguinte”, “seis meses se passaram”.
O tempo psicológico que também domina o livro passa dentro da personagem, dentro da própria vida e tenta buscar a origem do problema focalizado. Assim, a narrativa linear obedece a um ordenamento interior que é relatado à medida que afloram à consciência ou à memória do narrador.


VII – ESPAÇO:

O espaço onde é narrada a obra é fechado e ageográfico: uma “vivenda rural, isolada e perdida”. A ação retrospectiva oscila entre Paris com seus cafés, restaurantes e, Lisboa, porém com poucos detalhes.
São citados a “Av. do Bosque de Bolonha” , o “Pavilhão de Armenonville” além, do palácio da americana.


VIII – ANÁLISE LITERÁRIA:


INTRODUÇÃO


“Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos; nada podendo já esperar e coisa alguma desejando - eu venho fazer enfim a minha confissão; isto é, demonstrar a minha inocência.
Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.
E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: - “Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal? “ - a esses responderei - A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido...Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro - um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.
De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro...Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente...E todas as simpatias estavam do meu lado.
O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um “crime passional”. Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta - um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.
Ah! foi bem curta - sobretudo para mim...Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter ação sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou - apenas - os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem têm a paz - pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.
Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.
Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de fatos. E são apenas fatos que eu relatarei. Desses fatos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob a minha palavra de honra afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverossímil.
A minha confissão é um mero documento.”


Lúcio após ter cumprido dez anos de prisão por um crime passional que alega não ter cometido e sem argumentos para se defender durante seu julgamento, decide fazer sua confissão e esclarecer todo o mistério que o envolve.
O protagonista garante que fará uma exposição clara dos fatos e que sua confissão é documental.


CAPÍTULO I


Em 1895, Lúcio estudava Direito em Paris, ou melhor, sedento de Europa, vagabundeava em sua mocidade, embrenhando-se pelos meios artísticos junto com Gervásio Vila-Nova, amigo conterrâneo e seu companheiro de todas as horas.
Gervásio tinha uma curiosa personalidade e detinha o dom da oratória, mesmo em seus erros e ignorâncias Era um artista falido ou predestinado à falência. Cabelos compridos, trajando sempre de preto, roupas largas, corpo de esfinge, enfim, aquele que quando passava na rua, encantava a todos.
Um dia Gervásio confessou:

“Lúcio, não sou eu nunca que possuo as minhas amantes, elas que me possuem.”

Um dia Gervásio invadiu o quarto de Lúcio contando que fora apresentado por um pintor americano de óculos azuis a uma americana interessante e riquíssima (havia mandado demolir dois prédios para construir seu palácio) na Avenida do Bosque.
Disse-lhe que a americana costumava às tardes tomar chá no Pavilhão de Armenonville.
No dia seguinte, ambos dirigem-se ao Pavilhão na tentativa de conhecer a fascinante mulher. Dez minutos depois, chegou um grupo de oito pessoas: duas inglesas adoráveis (Jenny e Dora); a americana maravilhosamente bela, alta, magra, de pele dourada e cabelos ruivos que causou medo em Lúcio; um o jornalista do “Fígaro”; um pintor holandês; um escultor inglês; dois pintores americanos e um visconde.
Reunidos, discursaram sobre banalidades da ultracivilização (modas, teatro e music-hall) e entre outros assuntos, foi citado o poeta das “Brasas”, Ricardo de Loureiro. Gervásio critica a obra o poeta afirmando ser passadista e que melhor eram os selvagens. Esta era outra característica marcante de Gervásio: elogiar uma pseudo-escola literária de última hora.
O selvagismo era uma novidade que defendia que os livros fossem impressos em diversos papéis e muitas tintas e numa estrambólica disposição tipográfica, jogos silábicos, onomatopéias - livro que seguramente Gervásio não lera e estava exaltando. Num determinado momento, a conversa deslizou-se para a voluptuosidade da arte e a razão que faziam essa voluptuosidade serem a mais bela arte. E, a americana afirmou:

“(...) Que fremir em espasmos de aurora, em êxtases de chama, ruivos de ânsia era um prazer mais arrepiado que uma tela genial, um poema de bronze. Entretanto o que é necessário é saber provocá-los. Ela dizia que para todos, os prazeres são a luxúria, beijos úmidos, carícias repugnantes e que se um artista tomasse a voluptuosidade, provocá-la, tinha o fogo, a luz, o ar, a música, os sons, as cores, os aromas, os narcóticos, as sedas...”

“A americana acrescentou que pretendia fazer uma festa onde fizesse descer a todos os arrepios misteriosos das luzes, dos fogos multicores e que a carne sentisse o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-os, excitando-os, provocando-os. (...)”

Durante toda a conversa, somente Jenny e Dora não arriscava uma palavra, mas, também, não desgrudavam os olhos sobre o meu amigo. Gervásio ao lado da americana ostentava beleza, perversidade, vício e doença.
A noite chegou e a americana ao levantar-se, deixou a mostra suas sandálias e suas unhas pintadas de douradas.
Gervásio costumava construir individualidades, por exemplo, uma criatura com a qual, por qualquer motivo, simpatizava-se, logo lhe atribuía opiniões, modos de ser do seu agrado, até que um dia chegava à decepção.
Um dia Gervásio apareceu dizendo que tinha estreitado amizade com a americana e descoberto que as duas moças eram amantes dela.
Passado um mês, Gervásio chegou o dia da festa de inauguração do palácio da americana. Gervásio e Lúcio marcaram de se encontrar na Closerie, às dez horas. Lúcio chegou e foi informado que teriam que esperar por Ricardo de Loureiro, que iria acompanhá-los.
E, foi assim foram apresentados:
“- O escritor Lúcio Vaz e o poeta Ricardo de Loureiro.”

Logo, Ricardo e Lúcio perceberam que tinham afinidades.

“Falei-lhe que admirava a sua obra e ele contou-me que lera o volume de minhas novelas e que ele gostou demais de “João Tortura”. Adorei este comentário, pois para mim também era a melhor e incrível que nenhum crítico destacara e os meus amigos, acharam ser a mais inferior.”

Lúcio, em seguida, descreve o assombro espetáculo que encontraram.


O palácio tinha “uma sala com um teto elevadíssimo, colunas multicores, um estranho palco erguido sobre duas esfinges, uma piscina com águas translúcidas. A festa comemorava a inauguração da sala. A americana ao nos receber vestia-se com uma túnica com fios metálicos, que marcava a sua pele nua, os cabelos enrolados, entretecido de pedrarias e nos braços serpentes de esmeraldas.
Na sala condensava um Paris cosmopolita. Até a meia-noite, dançou-se e conversou-se. Em seguida foi anunciada a ceia e passamos ao salão de jantar. Sabíamos que depois da ceia seria o espetáculo.
Quando voltamos, o cenário mudara-se. Inundava um perfume denso, quanto à iluminação, declaro-me impotente para descrevê-la, provinha de uma infinidade de globos. Esta luz nós sentíamos mais do que a víamos, não impressionava a nossa vista; sim, o nosso tato. Se súbito nos arrancassem os olhos, nem por isso deixaríamos de ver. Respirávamos um estranho fluído que volvia todo o corpo.
No palco surgem três dançarinas. Usavam blusas vermelhas, seios livres e gazes rasgadas lhe pendiam das cinturas descobertas ostentando desenhos de flores simbólicas. Elas dançavam e mordiam-se nas bocas. Pouco a pouco os seus movimentos tornaram-se mais rápidos e rasgando toda a roupa - seios, ventres e sexos descobertos, os corpos se lhes amaranhavam.
Houve outras apresentações: dançarinas nuas perseguindo-se na piscina...Mas todas estas maravilhas, não nos excitavam fisicamente, dava-nos uma sensação de estarmos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. De repente, ela surgiu. Vestia uma túnica branca, listada de amarelo, cabelos soltos, jóias nas mãos e nos pés...Uma maravilha! Foi deixando a túnica cair. Lábios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados e ela toda serpenteava querendo dar-se ao fogo. Pegou o véu e se ocultou, deixando só o sexo nu e saltava por entre labaredas. Depois, num salto prodigioso, ela cai num lado de mil lâmpadas azuis, que ao recebê-la, se volveu vermelha, até que por fim, num mistério, o fogo se apagou em ouro e seu corpo flutuou sobre as águas douradas.
A luz normal regressara, as portas se abriram e nos encontramos na rua perplexos. A impressão fora tão forte, que não tivemos ânimo para dizer uma palavra.”

Na tarde seguinte, Lúcio encontrou-se com Ricardo no café Riche e discutem sobre a festa da americana, chamando o evento “A orgia do fogo”. Ricardo define a experiência como “uma visão onanista genial” (prática de coito interrompido para evitar a fecundação. Comumente a palavra é empregada como sinônimo de masturbação).
Lúcio revela que nunca mais viu a americana e se a sua lembrança ficou-lhe para sempre gravada, não foi por tê-la vivido - mas, sim, porque dessa noite, se originava a sua amizade com Ricardo.

“Desse encontro que marcou o princípio da minha vida...”, afirma Lúcio.

Esse capítulo sugere grande sensualismo através de sinestesia, “incêndio dos sentidos” e identidade mútua, afinal, Lúcio deixa claro que a importância da noite deu-se ao fato de ter conhecido Ricardo de Loureiro.


CAPÍTULO II


Gervásio regressou a Portugal, desiludido com suas esculturas sem pés nem cabeça. E, Ricardo e Lúcio tornaram-se amigos inseparáveis.

“Minhas conversas com Ricardo eram da alma. Claro que não éramos felizes. As nossas vidas eram torturadas de ânsias, incompreensões, de agonias. O nosso único refúgio era as nossas obras.”

Ricardo confessava que nada o encantava, que as coisas que o possuía não o saciava, se aborrecia, também as coisas que ele não tinha e se às vezes ele sofria pelas coisas que não tinha, se as tivera, ainda seria maior a sua dor e o seu tédio. Dizia que vivia para consumir instantes.
Lúcio punha-se a animá-lo, mas ele continuava dizendo que não se encontrava na vida, que tinha 23 anos e ainda não tinha conseguido dinheiro pelo seu trabalho. Sentia-se isolado, estranho. Acrescenta que tinha premonições e que não se via na velhice, nem doente e nem suicidado e se não tivesse a certeza de que todos morrem, ele não acreditaria em sua morte.

“Outras vezes, Ricardo surgia-me com revelações estrambólicas, lembrando-me um pouco do esnobismo de Gervásio. Assim, uma vez, no Olímpia, assistindo um espetáculo de dança, disse que tinha medos estranhos, como por exemplo, daquelas dançarinas, pois eram, todas tão iguais, que ele não conseguia atribuir-lhe um passado. Falou-me de seu pavor pelos arcos, pelo céu das ruas, prédios altos, disse-me que sua alma sangrava, que invejava as suas pernas, porque as pernas não tem alma, portanto não sofre. Meu amigo era uma criatura superior, perturbante. Éramos diferentes, mas algo conciliávamos: Amor à Paris. Suas ruas, praças, monumentos... Contou-me que sofreu muito quando se ausentou por um ano de Paris, sua saudade foi a mesma que se tivesse perdido uma amante. As ruas tristonhas da Lisboa do sul, descia-as às tardes magoadas rezando o seu nome. Ricardo depois afirmava que não sabia o por quê de seu amor à Paris...Amo-a por qualquer coisa, mas que eu não vejo; que eu sinto, que eu realmente sinto, e lhe não sei explicar.”


Ricardo dizia que vivia desolado, sem energia, que sua vida não tinha segredos, ou melhor, o seu segredo consistia em não o ter. Mas que admirava a vida como ninguém - ele era total incoerência.

“(...) Julga-me magro, corcovado? Sou-o; porém muito menos do que pareço. Admirar-se-ia se me visse nu. (...) E a minha vida, livre de estranhezas, é, no entanto, uma vida bizarra - mas de uma bizarria às avessas. Com efeito, a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que não encontram nas vidas normais, mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Ele então perguntava-me se eu o compreendia...e eu sempre o compreendia, por isso é que nossas conversas eram da alma e se prolongavam até de manhã, passeando pelas ruas desérticas como estivéssemos numa intoxicação mútua...”

Em tempos de tranquilidade, Ricardo desabafava com Lúcio que ansiava ter uma vida normal e confessava que às vezes chegava a invejar grupos de amigos banais que ele possuía.

”Lembrou-se de um jantar onde reunidos alguns de seus amigos de “vida de todos os dias”, ele tentava descer até eles, mas percebia que tudo era ilusão. Aquelas pessoas pensavam que eram felizes, mas Ricardo tinha orgulho de não ser feliz e também de não possuir esse tipo de vida. Ricardo contou-me que um amigo dele de Lisboa, hoje já falecido, admirava-se de vê-lo envolver-se com pessoas inferiores. Lamentava-se com a banalidade dos outros e como a “maioria” se contenta com poucas ânsias, poucos desejos espirituais, pouca alma...E o pior é que a maioria é feliz...”

Correram meses e Lúcio declara que Ricardo penetrava nos recantos ignorados de seu espírito, os mais sensíveis e dolorosos.
Uma tarde de domingo, na Avenida Campos Elíseos, Ricardo resvalou para um campo que até ai nunca fora tocado. Ele confessou que não sabia ter afetos, que seus amores foram somente ternuras. Ele nunca poderia amar uma mulher pela alma, isto é, por ela própria. Só a adoraria pela sua gentileza, pelos seus dedos trigueiros a apertarem os seus numa tarde de sol, pelo timbre de sua voz, pela sua gargalhada.

“Dizia que não era a formosura que o impressionava, mas sim a gentileza que o carregava a uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e cores! Ricardo desabafa o seu medo comigo, falava que as pessoas simples vivem sem terem essas complicações, pois elas não pensam. Ele não conseguia deixar de pensar e que o seu mundo interior ampliou de tal forma que, ele tinha medo de desaparecer da vida, perder-se em seu mundo interior. Ricardo tornava a afirmar que queria ser belo, e que o maior elogio que teve na vida não foi sobre os seus poemas...Que a sua maior glória de existência havia acontecido à três anos...andava sozinho quando ouviu uma gargalhada e tocaram-lhe no ombro. Eram duas raparigas e uma delas disse-lhe que ele era bonito, ele protestou e foram andando juntos. Na esquina despediu-se inventando uma desculpa de um encontro com um amigo, mas a verdade é que ele teve medo da magia acabar, medo que a aventura se prolongasse e ele desiludir-se.”
- Esta é a mais bela recordação da minha vida. Eu sempre quisera ser belo e nessa tarde, fui-o por instantes. Nunca mais a encontrei e na minha alegria envaidecida, nem sequer lembro-me do seu rosto. Como lhe quero.”

Lúcio refletia:

“Ricardo erguia-se realmente belo, nesse instante...Talvez ele realmente fosse belo. O que mais o prejudicava era o seu corpo que ele deixava “cair de si”. Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belíssimo. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens...”

Ricardo continuava:

“(...) como eu sinto a vitória de uma mulher admirável, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua...esplêndida...loura de álcool! A carne feminina - que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens - tristonha, seca, amarela; sem brilho e sem luz...Sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emaranham os corpos de mármore com outros iguais aos seus - femininos também...E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher, ao menos, para isto; para que, num encantamento, pudesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho...”

Lúcio recorda-se que se as obras de Ricardo eram cheias de sensualismos, de loucas perversidades e suas conversas eram todas cheias de pudores. Porém, pouco sabia sobre a sua vida sexual ou amorosa. Até que ouviu a confissão perturbadora de Ricardo.

“Eram sete e meia, depois de termos subido à Avenida Campos Elíseos, o poeta sugeriu jantarmos no Pavilhão de Armenonville. Decisão que eu aprovei na hora, principalmente por gostar do cenário literário, a grande sala de tapete vermelho, as árvores românticas que exteriormente o ensombram, o pequeno lago...toda essa paisagem lembrava com saudade uma aventura amorosa que eu nunca vivera. Luar de outono, folhas secas, beijos e champanhe...
Durante o jantar tudo correu normalmente até ao café. Ricardo, confessa como é grato pela nossa amizade, “como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em que nos encontramos”.
Dizia que antes de me conhecer as criaturas eram indiferentes, que só eu o compreendia e que eu tinha “a alma rasgada” para entendê-lo e que perante essa dedicação, ele tinha coragem de confessar pela primeira vez, o seu problema, a sua dor.
- Não posso ser amigo de ninguém. Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos, apenas ternuras. A amizade traduzir-se-ia pela ternura e uma ternura traz sempre o desejo de carinho, de beijar, de tocar, enfim de possuir. Portanto só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, sempre as adivinhei, pois para eu ter amizade com alguém, seja ele, homem ou mulher, teria de possuir quem eu estimasse. Logo, eu só poderia ser amigo de uma criatura de meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo. Sou desgraçado! Afinal nunca poderei retribuir nenhum afeto, pois, os afetos não se materializam dentro de mim!
Às vezes, sinto nojo de mim, pois todas as pessoas por quem admiro ternuras, assalta-me um desejo violento de a morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe...Esses desejos, eu os sinto na alma...só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que estimo...”




“ No caminho, ouvíamos sons de um violino e Ricardo chegou a compará-los com a sua vida: uma partitura admirável, estragada por um horrível, por um infame executante...”
No capítulo II encontra-se um embaralhado de monólogos de Ricardo expondo seus devaneios, com poucas intervenções de Lúcio, que fica extasiado com a confissão do amigo.

CAPÍTULO III


Lúcio e Ricardo, no dia seguinte, nada comentaram sobre a confissão da noite anterior, porém a confidência de Ricardo não saiu da cabeça de Lúcio como uma espécie de obsessão.
Em fins de 1896, após dez meses de amizade, Ricardo mesmo amando Paris, resolveu regressar a Lisboa.
Depois de um ano separado e somente três cartas de Lúcio e duas, de Ricardo, e por circunstâncias materiais, além das saudades de Ricardo, em l897, Lúcio desembarca em Lisboa.

“Ricardo me esperava na estação. Como seu aspecto físico mudara, ele estava feminilizado, a cor de seus cabelos, sua voz, seus gestos. Eu sabia que o poeta se casara durante a minha ausência, ele mesmo escrevera contando em sua primeira carta, mas sem juntar pormenores, como se tratasse de uma irrealidade. Pelo meu lado, também não lhe pedira explicações como se eu também soubesse que era uma irrealidade. O poeta me acompanhou até o hotel e marcamos que eu jantaria em sua casa naquela mesma tarde. Incrível que de sua mulher nenhuma palavra e também nenhuma pergunta minha. Ao chegar à sua casa, um criado me conduziu a uma sala escura, ainda que jorros de luz a iluminassem. Aos poucos fui distinguindo os objetos e sem saber como, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e sua companheira. Por mais que eu me esforce, ainda hoje é impossível saber se quando entrei naquele salão, já lá estava alguém, como também não consigo me lembrar das primeiras palavras que troquei com Marta - era este o nome da esposa de Ricardo. Era como se eu tivesse regressado a um mundo de sonhos ao entrar naquela sala. Durante a noite, jantou-se e conversou. Despedi-me à meia-noite. Ao chegar ao meu quarto, adormeci e tive a sensação de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida.”

Ricardo tinha se casado. Lúcio o sabia, pois se lembra de ter sido avisado em uma das cartas.
Lúcio passa frequentar constantemente à casa de Ricardo.
Marta era loira, alta, escultural, carne fugitiva, olhar azul, passos leves, indecisos, mãos inquietantes, pálidas, gentil; porém, sempre triste.
Lúcio revela que foram os seis meses que realmente, foi feliz. Outros artistas visitam frequentemente a casa do casal. Entre eles, havia o conde Sérgio Warginsky que, para Lúcio representava a sensualidade daquele grupo de artistas.

“Raros os dias em que eu não estava na casa de Ricardo, reunido às vezes com um pequeno grupo de artistas: Luís de Monfoirte, o dramaturgo da “Glória”, Aniceto Sarzedas, crítico, dois poetas de vinte anos, o conde Sérgio Warginsky, adido da legação da Rússia, que eu conhecera em Paris e achava estranho vê-lo frequentando à casa de Ricardo, às vezes, apareciam Raul Vilar e um seu amigo, personagem que escrevia novelas desvendando a vida íntima de seus amigos, no fundo para apresentar casos de psicologias estranhas e assim fazer uma arte perturbadora, apenas falsa e obscena. As conversas eram intelectuais e vinculadas à literatura. Marta participava evidenciando-se uma pessoa muito culta. Curioso é que a sua maneira de pensar não divergia da do poeta, sempre o complementava, reforçava-o. Sérgio era o símbolo sensual do grupo. Belo rapaz, 25 anos, alto, o seu corpo lembrava o de Gervásio Vila-Nova, que, há pouco, brutalmente se suicidara, arremessando-se para debaixo de um comboio. Seus lábios vermelhos, seus cabelos de um loiro arruivado, seus olhos de penumbra áurea que nunca se despregava de Marta. Possuía uma voz formosíssima e Ricardo sempre pedia para ele ler os seus poemas. Com certeza que Ricardo dedicava uma grande simpatia ao russo. Quanto a mim, ele só me irritava, sobretudo talvez pela sua beleza excessiva.
Entretanto bem mais agradáveis me eram ainda as noites que passava apenas na companhia de Ricardo e de Marta, mesmo quase só na companhia de Marta, pois, nessas noites, muitas vezes o poeta se ausentava para o seu gabinete de trabalho. Experimentávamos um pelo outro uma viva simpatia. Ricardo também me parecia feliz. Enfim, vivíamos.”

Decorreram meses. Chegara o verão. Os amigos se afastaram temporariamente. Ricardo propenso a terminar a sua nova obra “Diadema” (obra-prima), ausentava-se constantemente e a intimidade entre Lúcio e Marta se estreitou.

“De repente, uma estranha obsessão começou a me dominar. Percebi-me a questionar quem era essa mulher? Onde Ricardo a conhecera? Donde surgira? Ela nunca se referia a algum parente? Episódio do passado? Lugar? Seriam casados? Na carta enviada por Ricardo ele não usou a palavra casado, mas referia-se a Marta como sua mulher.
Mistério: Essa mulher nunca se referira a uma saudade de sua vida...Como se tivesse apenas um presente!
Nas minhas conversas com Marta tentava a levá-la a seu passado, mas ela disfarçava, como se não me percebesse e faltava-me sempre a coragem de insistir, preocupado em cometer uma indelicadeza.
Será que Marta amava Ricardo?
Um dia resolvi interrogar Ricardo. Ele empalideceu, murmurou algumas palavras e mudou de assunto.
Pensei estar enlouquecendo, pois no fundo o que mais me torturava não era o mistério de Marta, mas sim, se a minha obsessão era real ou apenas um sonho que eu tivera e não lograva esquecer, confundindo-o com a realidade?”

Voltou o inverno e com ele, os serões intelectuais na casa de Ricardo.
Uma noite, apareceu Narciso do Amaral, grande compositor e resolveu executar o concerto “Além”, que ainda era inédito. Lúcio buscou automaticamente os olhos de Marta, que estava sentada no funda da sala e de onde, somente ele a via.
À medida que a música aumentava de maravilha, viu lentamente a figura de Marta desaparecer...
De súbito acordado pelos aplausos e comentários de Ricardo, olhou e viu que Marta regressou misteriosamente em seu lugar. Lúcio atribuiu a visão fantástica à partitura imortal, bebedeira, alucinação...



“A minha obsessão aumentara e às vezes eu tinha que correr à sua casa para me certificar que ela era real. Talvez Ricardo tenha percebido pois aludiu ao fato de eu cuidar dos nervos.
Resolvi que descobriria o segredo de qualquer maneira, procuraria conhecidos que com certeza participaram do casamento. Comecei por Luís de Monforte. Ele achou que as minhas perguntas eram indiscrições e que seria pouco correto respondê-las. Com Aniceto Sarzedas foi um pouco mais explícito, volvendo-me com uma infâmia e uma obscenidade.
Dessas diligências a vantagem que obtive é que todos me ouviram como se nada de estranho houvesse no assunto, enfim ninguém se admirava do que eu admirava, mas apenas como se fosse indelicado, como se fosso estranho da minha parte tocar nesse assunto.
Um dia, encontrei-me com Sérgio no Tavares e não houve pretexto para que não jantássemos à mesma mesa. No meio de uma conversa, o russo aludiu aos nossos amigos, que já os conhecia em Paris, no trem sud-express para Lisboa, a dois anos atrás.”


CAPÍTULO IV


“Fiquei atordoado. Quer dizer que Ricardo trouxe Marta de Paris e como eu não a conhecera? Por que eu não fora o acompanhar na estação? Estava com uma forte gripe...Por que ele deixou Paris que tanto amava e decidira regressar a Portugal, sem que algo justificasse o seu regresso?”

Lúcio não consegue entender o mistério e arrepende-se de não ter ido até a estação, recordou-me que apesar da sua febre tentou despedir-se de Ricardo, mas algo o segurou como “numa estranha modorra de penumbra”...

Lúcio lembrou-se da carta de Ricardo. Ele falava em “transformações da sua vida” e que “agora, que vive alguém a meu lado; que enfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa.”
O mais extraordinário que Ricardo se referia a esses episódios como se Lúcio já os conhecesse, sendo, por conseguinte, inútil narrá-los, só comentando-os.

“O pior é que eu não admirara essa estranheza, como se eu já tivesse realmente conhecido tudo, nem perguntas fazia...
O mistério que velava a minha desconhecida só me atraía hoje e eu me esforçava por que ele permanecesse, eu amava o mistério, portanto, eu amava essa mulher! Eu queria-a!
Meu Deus, como sangrei! Desesperado percebi que essa mulher me enlouquecia, mas o que mais me levava a essa mulher, não era a sua alma, não era a sua beleza - era só o mistério. Derrubado o segredo, acabaria o encantamento. Decidi procurar Ricardo e confessar-lhe tudo e pedir-lhe que me contasse tudo que pudesse por termo ao mistério. Foi impossível e acreditei que o faria sofrer demais. Então resolvi fugir.
Desapareci por uma semana, Ricardo deixava bilhetes e como eu não respondera, um dia veio pessoalmente em minha casa e no mesmo instante resolvi não fugir mais do precipício; entregar-me à corrente. Com essa resolução voltou-me toda a lucidez. Jantei com Marta e Ricardo em sua casa. Marta estava linda essa noite e sentei-me pela primeira vez ao seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...
Duas semanas se passaram assim, “como se eu houvesse guardado o meu espírito numa gaveta.”


Progressivamente, a intimidade entre Lúcio e Marta aumentava. Primeiro, um toque de mãos, depois, nos seios; beijos ocultos até a entrega total.

“Duas noites após o meu regresso que suas mãos encontraram com as minhas. As palavras tinham-se volvido sem nexo, ocultando o que sentíamos e não queríamos ainda desvendar, num desejo perverso de sensualidade. Uma noite ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios...Ora beijávamos os dentes, ora ela estendia os pés descalços para que lhos roesse, me soltava o cabelo, me dava o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens roxas. Só depois de tantos requintes de brasa e sem forças para prolongarmos nossas perversidades, nos possuímos realmente.
Foi uma tarde chuvosa. Eu sonhava com Marta e de súbito, a encantadora surgiu na minha frente. Marta me fez calar com um beijo mordido. Era a primeira vez que vinha a minha casa. Queria dizer-lhe que a admirava, mas ela mordia-me sempre, sem poder lhe falar.
Por fim nossos corpos se embaralharam e em verdade não fui eu que a possuí, ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...”

À noite, como sempre Lúcio jantou na casa de Ricardo. Encontrava-se super disposto e sem um mínimo de remorso.
Ricardo terminara o seu livro e nessa noite não os deixou. “E no meio da sua conversa íntima, eu esquecera até o episódio dourado. Olhando em redor de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós.”

Na manhã seguinte, Lúcio lembrou-se o que o poeta contou-lhe que à tarde tivera uma bizarra alucinação, por volta das 4:00 horas, quando escreveu o último verso. Ele saiu do escritório e foi até o seu quarto, ao passar pelo espelho do guarda-vestidos ele não se viu refletido nele. Via tudo ao seu redor, só não via a sua imagem.

“Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”
“Agora refletindo melhor, descobri que o meu amigo não me dissera isso, apenas eu, numa reminiscência complicada, acreditava que ele deveria ter dito.”


CAPÍTULO V



Lúcio vivia um grande romance e receava que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
Sua amizade com Ricardo não se alterou.

“ (...) seguia a mesma, não me condenava e nem me arrependia. Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossível ter remorsos. E se lhe mentia, estimava-o com o mesmo afeto. Mentir não é menos querer.”

Mas, algo o intrigava. Por mais que considerava esse amor pleno, ele era incompleto.

“Amava-a, e ela queria-me também, decerto...dava-se-me toda em luz...Que me faltava?
O certo que ao possuí-la eu era todo medo e longe dela, recordando os nossos espasmos, vinha-me de súbito incompreensíveis náuseas. Mesmo até no momento da posse, nasciam essas repugnâncias, que eu sabia que eram físicas.
Como se eu tivesse possuído uma criança, um ser de outra espécie ou um cadáver. Mas como explicar isso, sendo que o seu corpo era um triunfo...
Como me foi difícil para que ela não percebesse essa repugnância que eu sentia e que cada vez aumentava mais.
Enlaçava-me sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, de fogo e gumes de punhais ou como se bebesse um veneno de maldição eterna. Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular, ou até mesmo se essa mulher não passasse de um demônio.
Mas de tanto meditar sobre estas estranhezas, como que enfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.”

Entretanto, trata-se de calma passageira, principalmente quando se lembrava que pouco ou quase nada conhecia sobre Marta.
“Olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo, também duvidava de seu presente. Que fazia Marta durante as horas em que estávamos longe? Nunca falou disso comigo.
Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.”

Às vezes, as suas feições escapavam-lhe como fossem irreais e querendo recordá-las, eram as de Ricardo que lhe surgiam.
Apesar de grandes amigos, Lúcio e Ricardo não se tratavam por tu, devido não serem íntimos, enquanto que, com Marta era diferente. E, quando esse deslize ocorria, Lúcio ficava constrangido como se tivesse cometido uma imprudência.
Seus encontros amorosos com Marta eram à tarde em sua casa. Na casa de Ricardo, contentavam-se com beijos e alguns vícios, sem mesmo, preocupar-se com a chegada repentina do marido. Lúcio recomendava-lhe mais prudência e ela ria perante essa situação.
“Era como se tal nos não pudesse acontecer - tal como se nós nos não beijássemos...”
Com o passar do tempo, as imprudências de Marta aumentaram. Dirigia-se com certa intimidade e ternura a Lúcio na frente de Ricardo, que não os via ou fingia não vê-los.
Ricardo aparentemente estava feliz como se todas as suas complicações da alma tivessem sido resolvidas.
Numa tarde lanchando no terraço, por castigo de alguma coisa, Ricardo pediu para Lúcio beijar Marta.

“Hesitei, estendi os lábios mal os pousando na pele. Marta disse que o meu beijo foi desengraçado e pede para Ricardo ensinar-me como se beija.
Ricardo ergueu-se, tomou-me o rosto e beijou-me.
O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.”

CAPÍTULO VI


Os encontros fortuitos continuaram e as repugnâncias anteriores foram amenizando. Contudo, mesmo com toda plenitude de seu amor, algo o incomodava, como se ele nunca a possuísse plenamente, talvez por uma impossibilidade física qualquer: “assim como se ela fosse do meu sexo!”
Lúcio dividia-se entre sua inquietação, mas de forma fria e distante, como se esse caso não estivesse acontecendo com ele e a criação de um novo volume de novelas - o último que devia escrever.

“Ficava a imaginar como tinha começado esse caso e por incrível que pareça eu me esquecera de todos os pequenos episódios necessários para um começo de relacionamento. Pois decerto não começáramos por beijos, carícias, deve ter acontecido algo antes, mas não consigo me recordar. Na verdade parecia-me que eu não tinha esquecido esses episódios, mas sim, que era impossível de recordá-los, como impossível é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam...
Só me lembrava do primeiro toque nas mãos, e do beijo. Mas, esse beijo fora dado na boca? Talvez tivesse sido na face...como o beijo de Ricardo, o beijo semelhante aos de Marta”...

Passados meses, Lúcio percebe que Marta estava estranha e melancólica. Passou a demorar-se menos nos encontros, não aparecia com tanta frequência, chegou até faltar e, às vezes, não se entregava a ele ou não se entregava com tanta intensidade. Marta nunca deu qualquer justificativa dessa mudança e Lúcio, evitando uma recepção, nunca lhe questionou a esse respeito.

“Devo explicar que desde que Marta fora minha, eu olhava-a como se olha alguém que nos é superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha, como aquilo que menos poderia esperar, como uma impossibilidade. Eu era apenas o seu escravo”

Numa dessas ausências, Lúcio decide procurá-la. Chegando a casa de Ricardo, encontrou-o sozinho selecionando alguns versos e ficou feliz com a visita inesperada. Marta apareceu somente no jantar trajando um vestido-tailleur, de passeio.

“Agora as minhas obsessões transformaram-se em ciúmes. Ciúmes que eu ocultava da minha amante por vergonha e também tentava ocultar de mim.
Contudo nunca se passaram três dias sem ela aparecer.
O horror de seu corpo junto com o meu ciúme faziam-me desejá-la mais..
Muitas vezes corri em sua casa quando ela faltava e só encontrava Ricardo em seu gabinete. Marta só aparecia no jantar.
Um dia Ricardo admirou-se dessas visitas intempestivas. Desde então, resolvi nunca mais procurá-la em sua casa e sim espioná-la.
Uma tarde a segui e a vi entrando em prédio de azulejos verdes. Entrou sem bater.
Como eu sofri, com a descoberta que ela tinha outro!
Aquele corpo maravilhoso dava-se a três homens - Quem sabe uma multidão? E, ao mesmo tempo, que, esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse.
Com efeito, sabê-la possuída por outro amante - se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos. Ao possuía agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuísse também todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu. A minha ânsia se convertera em achar em seu corpo algum rastro de outro amante e um dia encontrei uma mancha roxa em seu seio esquerdo. Num ímpeto, numa fúria, colei a minha boca a essa mancha e a chupei com tanta força. Marta, porém, não gritou. Era natural que gritasse perante minha violência, mesmo por que a minha boca ficou sabendo sangue, mas não, Marta não reagiu como se não notasse essa carícia brutal.
De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo - foi-me impossível relembrá-lo numa estranha dúvida.
Se Marta contasse para mim de seus amantes eu não sofreria tanto, pois todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido. Meu orgulho só não admitia segredos.
Será que as minhas repugnâncias não provinham pelo outro amante?
Sempre tive grandes antipatias físicas. Lembro-me de que em Paris, eu e Gervásio jantávamos todas as noites, e em algumas vezes ia uma moça italiana que cheguei a desejá-la. Um dia a encontrei de mãos dadas com um sujeito que eu abominava, tive vontade de vomitar. Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil, fora o mesmo do que a ver tombar morta aos meus pés. Ela não deixara de ser um amor, mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Se eu a beijasse, logo me ocorreria à lembrança daquele sujeito, vir-me-ia um gosto úmido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possuí-la, então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões.
Se a minha repugnância pelo corpo de Marta tivesse a mesma origem? Se o amante que eu ignorava fosse alguém que me inspirasse nojo? Ao possuí-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante. Na realidade o corpo de Marta não me causava repugnâncias - a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilépticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos papas - da gente que o mistério grifou...”

Lúcio enciumado resolve descobrir quem era o misterioso morador do prédio de azulejos verdes.
Ao dobrar a rua transversal, encontrou-se com Ricardo. Ele disse que acabara de concluir alguns versos e estava indo à casa de Sérgio Warginsky para lhos mostrar, aponta o prédio e convida-me para acompanhá-lo.
Em seguida, Ricardo perguntou-lhe sobre o término de sua peça e se o protagonista, o escultor, morria. Lúcio respondeu-lhe que tudo se resolveria muito bem.
De repente Lúcio viu Marta no outro passeio, nos seus passos leves, sem vê-los, dirigiu-se ao prédio misterioso, bateu à porta e entrou.
Ricardo diz que desistiu de visitar Sérgio e alegou que prefere a leitura da peça teatral que Lúcio acabara de escrever e puxa o amigo pelo braço, levando-o dali.
O resto do dia, Lúcio leu o seu drama a Marta (que já tinha voltado) e a Ricardo.

“Durante a leitura outra idéia estrambólica me apareceu: que eu era o meu drama - a coisa artificial - e o meu drama a realidade. Jantei com meus amigos e voltei cedo para minha casa. Ao dormir observei uma estranha coisa: ao pararmos em face do prédio verde, eu vira Marta bater à porta, segundo a direção que ela vinha, ela devia-me ter visto: logo eu, devia-a ter visto quando olhara para trás.”

Dois dias depois, sem prevenir ninguém, sem escrever uma palavra a Ricardo, Lúcio partiu.

“Ah! A sensação de alívio que experimentei ao descer na gare do Quai d’Orsay.
Durante a viagem, senti uma ânsia em chegar a Paris e também a sensação que jamais chegaria, que me prenderiam no caminho por engano, que me obrigariam a voltar a Lisboa, que Ricardo, Marta e todos os meus amigos vinham no meu encalço. Ao entrar um rapaz alto e loiro senti um calafrio, pensando ser o Sérgio Warginsky, não era. Enfim, vencera! O meu Paris dos meus vinte e três anos...
Foram os seis últimos meses da minha vida. Vivi-os de banalidade, de cafés, teatros. Ainda pensava no mistério de Marta, mas decidi esquecer. “Esquecer é não ter sido” Mas na infâmia de Ricardo eu nunca deixei de pensar: E então as coisas haviam chegado a ponto de a sua mulher ir atrás dele, quase com ele, a casa de um amante? Pois se nós a não víramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. “Mas nem por isso retrocedera!” Com certeza Ricardo sabia de tudo. E ele que me queria sempre ao lado de sua esposa, mudar de lugar à mesa, para nossas pernas se pudessem entrelaçar, saíamos os três de carro, Ricardo sempre no volante e eu e Marta sentados pertinhos de mãos dadas...Era impossível ele não ter percebido nada!
Estranho é que nesses momentos eu nunca receara que ele visse as nossas mãos, nunca me perturbara, como se as nossas mãos fossem soltas e nós sentados muito longe um do outro.
E dar-se-ia o mesmo com Sérgio? Oh, sem dúvida...”Ricardo estimava-o tanto..”
O pior que sabendo ele, a sua amizade, por mim e pelo Russo, aumentavam cada dia mais. Que ele soubesse e calasse, por muito amar a sua companheira e não a querer perder, pelo menos mostrasse uma atitude nobre, que nos não adulasse.
Às vezes, me assaltava uma saudade vaga do meu antigo sofrimento - isto é, do corpo nu de Marta - no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo. Por felicidade, não recebera uma carta do artista, que nem a teria aberto, se a recebera, ninguém sabia do meu endereço, saber-se-ia que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos. Eu não comprava jornais de Lisboa, quando chegava telegrama de Lisboa, eu não lia...Enfim, queria esquecer-me de quem era...entre a multidão cosmopolita, criava-me alguém sem pátria, sem amarguras, sem raízes em todo o mundo. Ah! Se eu não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse...”

Numa tarde, Lúcio folheando as últimas novidades literárias deparou-se com um volume de capa amarela e em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro, era a tradução francesa de “Diadema”.
Sua alucinação voltou e sentiu ódio de Ricardo misturado com um vago despeito de ciúme.

“Invejava-o por ela me haver pertencido...a mim, ao conde russo, e a todos..”

Essa sensação foi-lhe tão forte que teve vontade de assassiná-lo para satisfazer a sua inveja, o seu ciúme e vingar-se dele. Todos esses emaranhados de pensamentos misturavam-se com a estranha confissão que Ricardo fizera no jantar do Pavilhão d’Armenonville.


CAPÍTULO VII



Em 1900, Lúcio encontra-se casualmente com Santa-Cruz de Vilalva, um grande empresário português. Santa-Cruz comentou-lhe sobre o grande espanto que causou seu desaparecimento e sua falta de notícias. Depois, pede para conhecer sua peça (“Chama”).

“Desde que eu chegara a Paris não escrevera nenhum letra, nem sequer já me lembrava de que era um escritor. À noite após a leitura, Santa-Cruz, adorou. Entreguei-lhe o manuscrito nas seguintes condições: eu não participaria dos ensaios, nem me ocuparia da distribuição.
Ao despedirmo-nos, o empresário disse-me que Ricardo tinha perguntado sobre mim e que ele também representava um ato do Ricardo, em verso.”

O empresário adorou o texto e pediu para encená-la. Lúcio consentiu, mas com a exigência de que não precise acompanhar seus ensaios.
Depois desse encontro, Lúcio reescreveu o último ato de “A Chama” e partiu para Lisboa.
Lá, chegando os ensaios já tinham iniciados tendo Roberto Dávila, no papel do escultor.
Passaram dois dias e Lúcio ainda não havia falado sobre a modificação da peça, aliás, único motivo de sua viagem. No terceiro dia, Lúcio procurou Santa-Cruz, entregou-lhe os novos manuscritos e na manhã seguinte, teve como resposta que estava horrível, que o primeiro seria uma obra prima, mas o atual era um disparate.
Lúcio inconformado retirou o manuscrito e lançou-o ao fogo.
Transcorridas alguma semanas, Lúcio ainda permanecia em Lisboa, andando sem rumo pelas ruas e sem procurar qualquer conhecido.

“O que mais me espantava é que Ricardo não tinha me procurado. Talvez por ele perceber os motivos do meu afastamento e por isso retraíra, sensatamente. Vaguei vagabundeando pelas ruas de Lisboa, parecia-me que procurava uma pessoa que muito desejasse encontrar. Fato curioso, nunca me lembrei durante este período de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento de alma. Uma manhã de súbito vi alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro. Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se no solo. Ricardo estava na minha frente. Não me lembro das palavras banais que com certeza trocamos. Ele falava num tom de grande tristeza e em toda a sua figura havia a expressão de um sincero desgosto, seus olhos úmidos de lágrimas. Escutei os seus queixumes e de repente não me soube conter e lhe comecei gritando todo o meu ódio, a minha revolta e o meu nojo.Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, úmida, começou:
- Ah! como te enganas...Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!Doído que eu era no meu triunfo...Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam...Escuta-me. Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante..Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que me dizia sempre...Eu é que lhos mostrava sempre! Pois não te lembras Lúcio do meu martírio..Eu não podia ser amigo de ninguém...não podia experimentar afetos...eu só adivinha ternuras...Como eu sofri...dedicavas-me um grande afeto; eu queria vibrar esse teu afeto, mas era impossível...Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?
Uma noite, achei-A...sim....criei-A...Ela é só minha, entendes? Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma. Pensamos da mesma maneira, igualmente sentimos. Somos nós dois...Mandei-A ser tua! Mas, estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava...Satisfiz a minha ternura. Venci! E ao possuí-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar. Na hora em que a achei - tu ouves? Foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se tivesse materializado. E só com o espírito te possuí, materialmente.....Julgaste-me tão mal, fugiste de ciúme...Tu não era o meu único amigo...eras o primeiro, o maior...mas também por outro eu oscilava ternuras...Assim mandei beijar esse outro...Warginsky...julgava-o tão meu amigo...tão leal...tão digno de um afeto...enganou-me. Que valem os outros, entanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Não me acreditas? Vem...Ela é só minha! Pelo teu afeto eu trocaria tudo - “mesmo o meu segredo”. Vem.
Agarrou-me violentamente pelo braço...obrigou-me a correr com ele.Chegamos diante da sua casa. Ao atravessarmos o vestíbulo do primeiro andar, sem cima de um móvel, estava uma carta com um brasão a ouro. É estranho que num momento tão culminante eu possa me lembrar desses detalhes, mas mais estranho é que pareceu-me que eu próprio já recebera um sobrescrito igual àquele. Ricardo leu a carta e amassou, jogando-a pelo sobrado. Ricardo gritava-me: “ - Vamos ver! Vamos ver! Chegou a hora de dissipar os fantasmas...Ela é só tua...hás de acreditar...Foi como se a minha alma, sendo sexualizada se materializasse para te possuir...Ela é só minha..Só para ti a procurei...Mas não consisto que nos separe...Verás...No meio dessas frases impossíveis (curioso eu não as achava impossível, mas sim cheia de amargura) ele me levara aos aposentos de Marta.
Em pé, diante de uma janela, Marta folheava um livro. Ricardo puxou de um revólver, que trazia no bolso e disparou à queima-roupa. Marta tombou no solo. E então foi o mistério da minha vida. Quem jazia estiraçada junto da janela, não era Marta - não - era o meu amigo. E aos meus pés - caíra o seu revolver ainda fumegante...!
Marta desaparecera como se extingue uma chama. Soltei um grande grito, precipitei-me numa carreira louca por entre corredores e salões, mas os criados me seguraram.
Quando despertei deste pesadelo alucinante, que fora só a realidade inverossímil, achei-me preso num calabouço do governo civil.”

É interessante notar que quando Lúcio recusa acompanhar os ensaios da sua peça, dá-se entender que não pretende e não deseja retornar a Portugal. Entretanto, é o que mais deseja, embora não admita e por isso necessita de uma desculpa.


CAPÍTULO VIII


“Pouco me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão.
O processo passou rápido, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverossímil, ninguém se justifica. Por isso calei. O meu advogado disse que a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a polícia, segundo creio, procurou em vão.
Meu crime foi por causas passionais, pairava em ar de mistério e daí a benevolência do júri.
A minha vida ruíra quando o revólver de Ricardo pairou nos meus pés, e a prisão surgia-me como um descanso, “um termo”...Os meus “amigos” abstiveram-se, nenhum deles me veio visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Porém o meu advogado foi um verdadeiro amigo, esqueceu-me o seu nome, apenas me recordo de sua fisionomia e percebo uma semelhança notável com a de Luís de Monforte.
Mais tarde, nas audiências, havia de observar que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o médico que me tinha tratado, havia oito anos, de uma febre cerebral que me levara às portas da morte.
Passaram velozes os meus dez anos de prisão. Tínhamos uma larga cerca onde, certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas. A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga, em frente havia um quartel amarelo ou talvez outra prisão. O maior prazer dos detidos era de se debruçarem do alto do grande muro e olharem para a rua; isto é, para a vida. Eu poucas vezes me acercava do muro, pois nada me podia interessar do que havia para lá dele.
Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa me contavam os maus tratos de que eram vítimas. Em raramente me misturava com os prisioneiros - criaturas pouco recomendáveis, vindas do vício e do crime. Conhecei um rapaz louro, muito distinto, que estava preso por assassinato. Matara a sua amante: uma cantora francesa que trouxera para Lisboa.
Para ele como para mim, também a vida parara, ele vivera também o momento culminante a que aludi na minha advertência. Ele falava sobre a possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida - fulvas de amor ou de angústia - e assim poder vê-las, ressenti-las. Contara-me que fora essa a sua maior preocupação na vida - “a arte da sua vida...”
Os anos voaram. Devido à minha serenidade, todos me tratavam com a maior simpatia. Os próprios diretores tinham por mim as maiores atenções.
Até que chegou o termo da minha pena.
Morto, sem olhar um instante em redor de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé. Acho-me tranquilo - sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro. Permaneci, mas já não me sou. E até à morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face...A morte real - apenas um sono mais denso...
Antes, não quis porém deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade a minha estranha aventura. Ela prova como fatos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverossímil - embora verdadeira.
Assim eu, para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silêncio, durante dez anos, um crime que não cometi...
A vida...”



IX - CONSIDERAÇÕES FINAIS:


A obra “A Confissão de Lúcio” de Mário de Sá-Carneiro é apresentada como “narrativa” por seu autor. Uma pequena novela em que com toques de estilo fortemente decadentista, impressionista se exploram personagens de psicologia “especial”, que se movem num ambiente carregado de excentricidade e, vive uma história extraordinária, uma fantasmagoria por não poderem ser explicados pelas leis, das ciências naturais.
No inicio, o narrador diz que vai esclarecer os fatos, que irá provar a sua inocência e nem tenta explicá-los, aceitando-os naturalmente como “estranhas aventuras”, denominando a sua história como “pesadelo alucinante, infernal”, entretanto, quando termina, os leitores estão mais confusos do que ao começar a leitura. Assim, pode-se classificá-la como obra aberta, já que permite muitas discussões e interpretações variadas.
A “Confissão de Lúcio” arquiteta-se como o espaço em que o “EU” busca o “OUTRO”, em decorrência da própria exaustão provocada pelo círculo vicioso em que se movimenta o “EU” e pelas suas perspectivas do gênero e do sexo construídas através dos e nos protagonistas Lúcio-Marta-Ricardo.
A primeira parte da novela, o ambiente artístico de Paris e a loucura orgástica da Americana compõem o reino da ilusão da alteridade, contudo extraordinariamente sedutora. Já, na segunda parte se dá o desenlace absurdo, trágico e alucinante da amizade entre Lúcio e Ricardo. Este, para possuir o amigo, Lúcio (seu outro EU, isto é, para regressar à unidade), desdobra-se na própria mulher, Marta, que é pois ele próprio. A aventura de Lúcio com Marta é afinal a aventura de Lúcio, disso inconscientemente, com Ricardo.
Quando Ricardo mata a inexistente Marta, na realidade suicida-se e arrasta consigo, Lúcio no suicídio, embora o suicídio lento e póstumo, para que haja a reintegração do que se seccionara em três partes: Ricardo, Lúcio e Marta, isto é, Sá-Carneiro, ele próprio e o Outro que é o Mesmo.
Segundo Antônio Quadros:
“Ricardo é o desdobramento do narrador que é, afinal, desdobramento do autor, concluindo que o homicídio da ficção é um duplo suicídio: “ao disparar o revólver sobre Marta, sua figuração em projeção fantasmática, Ricardo de Loureiro cai morto, foi portanto um suicídio, mas, na desaparição de Marta (que não era real), o cenário compõem um crime, de que é acusado Lúcio, o qual, impotente para explicar tamanho absurdo”, aceita a prisão como um túmulo, recusando a vida. Mesmo quando libertado, fecha-se num lugar isolado à espera da morte real, para usar as palavras dele mesmo. É o suicídio do narrador, projeção do autor.
Em verdade nela podemos detectar, como em síntese e numa narrativa coerente, onde os efeitos de surpresa e de suspense são magistralmente conseguidos.
Esta projeção num duplo, este desdobramento de personalidade de Sá-Carneiro constitui-se como uma espécie de contemplação do eu real ao espelho, para nele ver o eu ideal, mas diferente como pode ser o outro do mesmo, surge, em vários registros, em diversas outras novelas de Sá-Carneiro, onde atinge o mais agudo de autoconsciência psicológica do referido fenômeno.
Outra tendência obsessiva encontrada é a sexualidade ambígua, sempre balançando entre o onanismo (sexualidade narcísica), que chega a ser idealizado e “elevado”, a heterossexualidade ou atração pela mulher, desde que mulher extraordinária, invulgar, encantadora porque toda de mistério e a homossexualidade fictícia, que no fundo nos remete de novo para o completo de Narciso, pois ele e ela significam no fundo a irrealidade do outro, de todo o Outro, tudo se reduzindo afinal ao Mesmo, a única realidade sólida e a única ortodoxia. Mas a situação do homem-Narciso, sobretudo quando se cinde entre um Eu e um Outro que também é o Eu, conduz fatalmente à morte ou à loucura.
Para José Régio, que a considera a obra-prima de entre as novelas de Sá-Carneiro, por ser a que melhor atinge “a verdadeira objetivação da obra de arte”, representa decerto um paradigma particularmente significativo da sua ficção fantástica.
Nesta linha de pensamento, vê-se na obra uma atitude de identificação com as ideias da abjeção de questionamento à ordem estabelecida, na qual à controvérsia das identidades de gênero em relação ao posicionamento do feminino versus masculino das personagens se vincula uma pretensão de vínculo do material com o espiritual.
Elaborados como partes da ambiguidade realizada sob os desejos eróticos e relacionamentos auto X homo X heterossexual, nos quais as relações humanas representam uma entrega erótica, as personagens podem ser consequentemente vinculados às identidades não predominantes ou não normativas. Percebe-se uma intenção de Mário de Sá-Carneiro de transgredir as leis da natureza, não só pela projeção da alma como também pela tentativa de encontrar o outro, o duplo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MACUNAÍMA – “herói sem nenhum caráter” (1928)




Cartaz do filme “Macunaíma”


I – AUTOR:


MARIO DE ANDRADE



SP. 1893 – SP. 1945

Mario Raul de Moraes Andrade nasceu no dia 9 de Outubro de 1893, em São Paulo, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e dona Maria Luísa Leite de Moraes Andrade. Estudou piano, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e a partir de 1922 passou a lecionar História da Música. Esteve sempre a serviço da arte em seu país.
Era um homem moreno, alto, cerca de dois metros, calvo, tinha olhos pequenos, usava óculos. Fumava muito, os fumos fortes de seu país, odiava fumos europeus e tomava café forte à maneira paulista, enquanto escrevia suas grandes obras. Não possuía nenhum cacoete a não ser, a curiosa mania de encostar a testa na máquina de escrever para sentir o frio do metal. Considerava sua Remington como uma grande amiga, que o acompanhava nas suas horas de maior prazer, deu até o nome a ela de Manuela, pois a comparava a seu melhor amigo chamado Manuel. Apesar de velha e ruidosa ele, a considerava como uma amante que tinha qualidades, defeitos, vícios; dedicou àquela máquina de escrever um de seus poemas.
Iniciou na poesia ainda criança, versinhos que caçoavam de amigos e parentes, que ele cantava ao piano, junto com melodias populares. Ele define estes primeiros trabalhos como: cantiguinhas "Surrealiste" que guardou em sua memória durante toda a sua vida, porém afirma que nunca tiveram sentido algum, até para sua mãe que ao ouvi-las disse-lhe que elas eram uma bobagem.
Em 1917, inspirado na guerra de 1914, escreveu seu primeiro livro: Há uma gota de sangue em cada poema, seu primeiro trabalho já na fase adulta, com ele recebeu várias críticas sobre a forma que o poema foi escrito, um exagero para a época.
Viveu pessimamente em São Paulo, pois detestava climas moderados, não apreciava a civilização, muito menos acreditava nela.


Seu maior desejo era viver longe da civilização, à beira de algum rio da Amazônia ou em uma praia do Norte brasileiro, entre pessoas incultas, do povo. Era espirituoso e odiava o trabalho, no sentido de cumprimento de horário e regras. Disse ele:

"Gosto de comer e beber bem. Exerço a preguiça sistematicamente por que a considero como uma necessidade para os povos de climas quentes, sente que suas obras são mais marcadas pelo tropicalismo que pelo nacionalismo.”

Foi poeta, contista, romancista, crítico, musicólogo, folclorista, mostrando principalmente como poeta, seu amor pelo país, que conheceu profundamente em viagens e pesquisas nacionais. Nunca viajou para o estrangeiro, nem mesmo a convite de um grande amigo.
Mario de Andrade preferia viver momentos de solidão, enquanto não escrevia; fazia longas caminhadas, quando colhia informações, puxando conversa com pessoas desconhecidas como: operários, vagabundos, etc. Dentre essas pessoas ele tirou vários de suas personagens. Até algumas personagens alemãs o boicotaram por terem se reconhecido em uma de suas obras (Amar: Verbo Intransitivo).


Escreveu sobre tudo, e nunca foi medíocre, detestava que o chamassem de culto apenas porque lia muito. Das críticas sobre suas obras lia apenas as que o elogiavam, as que o atacavam e as cartas anônimas, ele ignorava.
Participou da Semana de Arte Moderna em São Paulo de 13 a 18 de Fevereiro de 1922, fazendo parte do "grupo dos cinco", Anita Malfati, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Menotti Del Picchia e Graça Aranha. Mais tarde adere ao movimento a pintora Tarsila do Amaral.


Mario de Andrade (primeiro à esquerda, no alto), Rubens Borba de Moraes (sentado, segundo da esquerda para a direita) e outros modernistas em 1922, dentre os quais (não identificados) Tácito, Baby, Mário e Guilherme de Almeida e Yan de Almeida Prado.


Inicialmente chamado de Movimento "futurista", o que incomodava profundamente Mario de Andrade que detestava dar entrevistas a jornalistas, pois dizia que estes, à noite, logo após a entrevista mudariam todo o seu vocabulário, então, respondia a todas as questões dos entrevistadores à máquina, e depois da matéria pronta ele guardava todos os artigos dos jornais, tomando o cuidado de grifar e "corrigir", as palavras que teriam sido mudadas. Dono de uma gramática mais ágil e perfeita e de um estilo sutil foi considerado o "Papa" do modernismo.
Neste mesmo ano faz parte do grupo Klaxon, onde publicou poemas e fez críticas de literatura, artes plásticas, cinema e música. Utilizou-se dos Pseudônimos J. H.de A., G. de N..
Conheceu quem seria seu grande amigo e companheiro por toda sua vida, Manuel Bandeira.
Publica "Paulicéia Desvairada" livro de poemas e sua primeira obra modernista e o romance "Amar: verbo intransitivo"
Em 1926, passando suas férias em Araraquara, interior de São Paulo, escreveu "Macunaíma", que chamou de rapsódia, e que foi alvo de muitas críticas maldosas antes de se tornar uma das principais obras do Modernismo.
“Macunaíma” foi uma das obras que marcou o início do modernismo no Brasil, uma obra muito complexa, que só um gênio poderia ter escrito aquilo tudo em apenas uma semana, de 16 a 23 de dezembro, numa rede, entre um cigarro e outro. Esta obra se aproxima demais das epopéias medievais por ter em comum aqueles heróis a sobre-humanidade e o maravilhoso, podendo realizar façanhas, que só a magia poderia explicar, estando a cada hora em um local diferente do Brasil. Ele não tem preconceitos, mas concentra nele todas as virtudes e defeitos que uma pessoa pode ter, por isso é excepcional. É uma contradição de si mesmo, o caráter que demonstra num capítulo se desfaz no outro, porém está fora do bem e do mal, é um herói verdadeiro, às vezes contraditório.

"O que existe em Macunaíma, é uma sátira à imoralidade. O próprio herói termina vítima de seus ímpetos sexuais e acaba morrendo sem glórias, os amores esquecidos, exceto o que não teve companheiro por ter sido amor primeiro. Mário exagera no ridículo, carrega nas tintas, num feitio inteligente de quem não acredita que moralistas de cara fechada ou lamentosos profetas possam arranjar leitores hoje em dia. (M.C. Proença, em roteiro de Macunaíma, 1974, p.17.)

Em “Macunaíma” encontra-se a preocupação com a autenticidade. Nele a fantasia é dirigida, tem certa liberdade, mas não se afasta da realidade folclórica brasileira.
Mario de Andrade confessou um dia que desejaria ser Macunaíma:

"Macunaíma, Maria
era como eu brasileiro."


(Tempo de Maria, p. 158)

Mario de Andrade morreu em 25 de fevereiro de 1945, de enfarte do miocárdio, em sua casa da Rua Lopes Chaves, 546. E foi enterrado no Cemitério da consolação.
Após sua morte, ocorreu a publicação de “Lira Paulistana” e “Poesias Completas”.



II – ÉPOCA LITERÁRIA:

I Geração Modernista (1922-1930)

O movimento modernista da década de 20 ambicionava tornar o Brasil uma nação com forma própria, conquistando nossa individualidade cultural e um lugar no “concerto das nações”, como dizia Mario de Andrade. Nessa tarefa, o autor modernista, baseando-se em certas teorias históricas e filosóficas, empenhou-se em produzir um trabalho que afirmasse a entidade nacional e assim criou o seu “Macunaíma”.


III – CARACTERÍSTICAS:

Mario de Andrade, estudioso da cultura nacional, fez pesquisas e consultas detalhadas de elementos que apresentassem valores ou características brasileiras, como a fauna, flora, instrumentos musicais, práticas medicinais e, preocupou-se em apresentar um Brasil único construído pela miscigenação de raças, diversidades culturais e traçar o perfil psicológico do brasileiro. Assim, evidenciou as variedades culturais de cada região brasileira, numa rapsódia (fragmentos de cantos épicos populares) reunindo lendas, folclores, crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões, não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura.
O autor também realizou pesquisas bibliográficas, analisando estudos sobre a questão nacional, dentre eles, o etnógrafo alemão Theodor Koch-Grumberg, grande pesquisador das tribos indígenas ARECUNÁ e TAULIPANG e publicadas em “Von Roraima Zum Orenoco”, em 1916.
O próprio autor de Macunaíma, em prefácio que nunca chegou a publicar com o livro, nos conta como ocorreu a descoberta:

“O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente à preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não, em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional.
Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg. E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter. (Gozei)”

Nas palavras do poeta-crítico Haroldo de Campos:

“O próprio Koch-Grünberg, em sua “Introdução” ao volume, ressalta a ambiguidade do herói, dotado de poderes de criação e transformação, nutridor por excelência, ao mesmo tempo, todavia, malicioso e pérfido. Segundo o etnógrafo alemão, o nome do supremo herói tribal parece conter como parte essencial a palavra MAKU, que significa “mau” e o sufixo IMA, “grande”. Assim, Macunaíma significaria “O Grande Mau”, nome – observa Grünberg – “que calha perfeitamente com o caráter intrigante e funesto do herói”. Por outro lado, os poderes criativos de Macunaíma levaram os missionários ingleses em suas traduções da Bíblia para a língua indígena a denominar o Deus cristão pelo nome do contraditório herói tribal, decisão que Koch-Grünberg comenta criticamente”.


IV – FOCO NARRATIVO:

Narrado em 3ª pessoa, inicialmente por um narrador onisciente que não participa da história, mas acaba se identificando ao leitor no epílogo do texto, num processo metalinguístico.
No “Epílogo” ficamos sabendo que a história fora contada ao narrador pelo papagaio, portanto, um foco narrativo em primeira pessoa, com um narrador-personagem “ausente”.
O narrador apresenta-se como um estudioso da cultura brasileira, principalmente, do Amazonas e de São Paulo, e traz para a literatura uma obra revolucionária chocando o sistema cultural da época, mesclando o fantasioso, o épico, o lírico, o cômico, o paródico além de forma linear, mas fragmentária apresentar o dia a dia do “herói” em forma de crônica.


V – LINGUAGEM:


“Macunaíma” apresenta uma diversidade linguística. O autor desenvolve uma criatividade narrativa num discurso multicultural, metafórico e alegórico, utilizando-se de termos eruditos, clássicos, coloquiais, africanos, indígenas, gírias, ditados populares, provérbios, arcaísmos, regionalismos, enquanto a sua estrutura lembra o folclore.
Mario de Andrade colocou-se como um contador de causos. Foi responsável de unir o lendário e a literatura popular, como fontes de inspiração para a literatura erudita.
Utilizou-se para isso de uma linguagem simples. Tentou aproximar-se ao máximo da oralidade popular. Além disso, misturou os léxicos de várias regiões do país. Tudo isso fez para consolidar a ideia de que o Brasil possui um idioma próprio e tenta fundar a identidade do Brasil, enquanto Nação, pelo idioma.
Além de incluir traços das vanguardas européias (Dadaísmo, Futurismo, Expressionismo e Surrealismo), aplicados às raízes da cultura nacional, como a ausência de vírgulas e pontuação causando efeito melódico.
Mario de Andrade inova utilizando a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador, interrompendo-o para dar vez à fala das personagens, principalmente Macunaíma. Esta técnica imprime velocidade, simultaneidade e continuidade à narrativa.
No capítulo IX, Mário de Andrade satiriza a escrita empolada dos intelectuais da época.

VI – TEMPO:


O tempo é linear (nascimento, vida e morte do herói), mas impreciso (as fugas mágicas do herói), indeterminado (as regiões por onde o herói passa), fragmentado (o herói começa a falar aos seis anos de idade e as suas fugas) e mágico (o lendário, o folclórico).
O tempo cronológico é marcado com a chegada de Macunaíma e os manos a São Paulo e seu espanto com as máquinas.
O herói vive o presente, sem passado ou futuro. Embora, são citados fatos históricos (cronológicos), o autor não está preocupado com uma sequência tradicional e sim, repensar a identidade nacional, valendo-se de todos os fatos históricos.

VII - ESPAÇO:


“Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo em que, conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea = um conceito étnico nacional e geográfico.” (Mário de Andrade)

O autor defendia a construção de uma cultura, em sentido amplo, e não separatista ou regionalista, tornando indefinido o espaço e o tempo em que se passa a ação.
Dessa forma, o espaço é desregionalizado e inserido num plano mágico. Durante a trajetória do herói são citados: Amazonas e suas lendas; São Paulo e suas máquinas; Ponta do Calabouço-RJ; Guarujá-Mirim-MT; Itamaracá-PE e chupar manga; Barbacena-MG e tomar leite de vaca-zebu; Serra do Espírito Santo e decifrar litóglifos e, finalmente, esconder-se no oco de um formigueiro, na ilha de Bananal-GO.
A literatura moderna queria a origem popular e o apego às lendas não só com palavras, mas também com o modo de expressar, por exemplo: "No fundo do Mato- Virgem", designando onde ainda não penetrou a civilização, portanto sem contato com a raça invasora.

VII ENREDO:

Capítulo I - Macunaíma


Cena do filme Macunaíma


“No fundo do Mato-Virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:
- Ai! que preguiça!...”

Macunaíma, “herói de nossa gente” nasceu à margem do Uraricoera, em plena floresta amazônica, ou seja, totalmente integrado à natureza. Descendia da tribo dos Tapanhumas. Não é citada totalmente sua origem, apenas sua mãe, uma índia que não tinha um companheiro e já estava envelhecida. Assim, a origem de Macunaíma está relacionada ao nascimento de um mito e mais especificamente, a origem de uma cultura – a cultura brasileira.
O nome Macunaíma, que significa o grande mal, coisa ruim, já é o primeiro dado da sátira, de crítica, mas por outro lado tem "Herói de nossa gente", com tom profético ironizando, pois Cristo é o salvador. Isso aparece como uma visão de um herói pícaro ou de um herói às avessas, pois a caracterização dos heróis em outras obras são lindos, belos e perfeitos e já em Macunaíma, os seus defeitos estão mais exaltados, ou seja, mais evidentes do que as suas qualidades.
No nascimento de Macunaíma, a natureza foi narrada como se tudo tivesse parado para ver o menino nascer. Encontramos também neste episódio o verbo Parir, sendo que este verbo é utilizado para animais irracionais. Neste ponto, Mário de Andrade está usando o eufemismo, ou seja, a linguagem que parece querer acentuar ainda mais a feiúra da personagem.
Desde a primeira infância, Macunaíma revelava-se como um sujeito “preguiçoso” e esperto. Ainda menino, Macunaíma transforma-se num príncipe lindo e busca através de “brincadeiras”, prazeres amorosos com Sofará, mulher de seu irmão Jiguê.


Imagem do filme Macunaíma


Essa transformação será uma das muitas metamorfoses que desenrolará durante o processo narrativo.



Capítulo II - Maioridade



Macunaíma era individualista, destituído de qualquer espírito coletivo e mentiroso. Depois de muitas traquinagens, sua mãe não vê outra saída, a não ser abandoná-lo no mato.
Depois de muitas andanças pelo mato virgem, Macunaíma deparou-se com o Curupira.
O herói perguntou-lhe o caminho de sua casa e maliciosamente, o Curupira ensina-lhe um caminho errado que Macunaíma, por preguiça, não seguiu. Escapando do monstro, o herói encontrou-se com uma voz que cantava uma toada lenta: era a cotia, que depois de ouvir o piá contar como enganara o Curupira, jogou-lhe em cima calda envenenada de mandioca. Isto fez Macunaíma crescer, atingindo o “tamanho dum homem taludo”, porém com cabeça de criança.



Capítulo III – Ci, Mãe do Mato



Encontra Ci, a Mãe do Mato e inventa com ela lindas e novas maneiras de gozos de amor.

“Já Vei estava farta de tanto guascar o lombo dos três manos quando légua e meia adiante Macunaíma escoteiro topou com uma cunhã dormindo. Era Ci, Mãe do Mato. Logo viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada pelo Nhamundá. A cunhã era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com jenipapo.

Ci é uma icamiaba, uma amazona e personificação da natureza brasileira. O fato de Ci ser da tribo das amazonas é importante para que possa introduzir no texto a muiraquitã, amuleto esculpido com barro do fundo da lagoa com o qual as mulheres icamiabas presenteavam os homens de outras tribos quando do nascimento de um filho, fruto da ligação provisória entre os dois, já que as amazonas não podiam manter relações permanentes com os homens.

“O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria. Fez lança de flecha tridente enquanto Macunaíma puxava da pajeú. Foi um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos diminuindo de medo os corpos dos passarinhos. O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:
- Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!
Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no coco. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira. Quando ficou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato. Vieram muitas jandaias, muitas araras vermelhas tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo imperador do Mato-Virgem.”

O resultado desse idílio é o nascimento de um curumim. Essa união provocada por Vei, a Sol, permite que o herói se torne Imperador do Mato-Virgem. Em outras palavras: o povo brasileiro, representado por seu herói, casa-se com a geografia, com a natureza tropical, representada por Ci, através de uma circunstância criada pelo clima tropical, que representa o trópico, isto é, Vei, a Sol. Tem-se assim, segundo as teorias históricas, a possibilidade do nascimento de uma civilização e uma cultura genuinamente brasileira.

“Nem bem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. (...) O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.”

Mas, a criança morreu prematuramente depois de mamar no único peito de Ci, envenenado pela Cobra Preta.

“... Mas uma feita jacurutu pousou na maloca do Imperador e soltou o regougo agourento. Macunaíma tremeu assustado espantou os mosquitos e caiu no pajuari por demais pra ver si espantava o medo também. Bebeu e dormiu noite inteira. Então chegou a Cobra Preta e tanto que chupou o único peito vivo de Ci que não deixou nem o apojo. E como Jiguê não conseguira moçar nenhuma das icamiabas o curumim sem ama chupou o peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado e morreu.”

Enterrado o filho de onde nasceu o guaraná, Ci também resolveu deixar este mundo e subiu pro céu por um cipó, transformando-se numa estrela, a Beta de Centauro. O “campo vasto do céu” representa a tradição dos povos indígenas, é lá que estão os fundadores da cultura.
Ci deixou ao herói sua muiraquitã famosa, o símbolo dessa relação temporária, porém intensa, que culminou no nascimento de um filho e consequentemente na separação do casal. É a aliança eterna entre o herói e o mato, entre o povo brasileiro, a natureza tropical e a construção da civilização brasileira.

“Botaram o anjinho numa igaçaba esculpida com forma de jaboti e pros boitatás não comerem os olhos do morto o enterraram mesmo no centro da taba com muitos cantos muita dança e muito pajuari.
Terminada a função a companheira de Macunaíma toda enfeitada ainda, tirou do colar uma muiraquitã famosa, deu-a pro companheiro e subiu pro céu por um cipó. É lá que Ci vive agora nos trinques passeando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro.
No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol.”


Capitulo IV – Boiúna Luna

“No outro dia bem cedo, Macunaíma, saudoso de Ci, fura o lábio inferior e transforma a muiraquitã em tembetá, enfiando-o no orifício labial. Chama os manos, despede-se das icamiabas e parte. Vai sempre acompanhado do séquito de araras, jandaias etc.
Nas noites de amargura, com muita saudade de Ci, (porque ela tecera com os próprios cabelos a rede dos amores dos dois), o herói gemia "— Marvada!" e cantava invocando Rudá (divindade boa da mitologia indígena, protetora da procriação). Aí, chorava no ombro de Maanape e este invocava os deuses do sono, e Macunaíma adormecia.
Certo alvorecer ouviram um gemido de moça: era uma cascata, que depois da insistência de Macunaíma, conta-lhe a sua história. A cascata chamava-se Naipi e era filha do chefe de sua tribo. Muito linda, lutava a dentadas contra os índios que a queriam para esposa. Vencia todos. Mas sua tribo era escrava da boiúna Capei, que sempre vinha à taba e escolhia uma virgem para dormir com ela na cova cheia de esqueletos. Quando o corpo de Naipi chorou sangue, Capei a escolheu. Porém, na mesma noite, o guerreiro Titçatê vem dormir com Naipi. Ela o morde, mas ele lhe enche a boca de flores e a possui. Amam-se mais uma vez e fogem numa canoa, rio abaixo, a caminho do rio Zangado. À noite, Capei chega e só vê a rede manchada de sangue; persegue os fugitivos, empinando as águas do rio Zangado. Alcança-os mais adiante, transforma Naipi numa cascata e Titçatê numa planta de flores arroxeadas, e passa a morar embaixo da cascata, para vigiá-la.
Macunaíma se comove com a história e promete matar Capei:
— Si...si...si a boboiúna aparecesse eu... eu matava ela!
Ainda está falando, quando o monstro sai da água, cospe-lhe uma nuvem de marimbondos e logo depois dá um golpe de cauda no herói, que se livra porque uma formiga o picou no calcanhar e ele se abaixa. Com um rochedo, Macunaíma decepa a cabeça do monstro, que vem beijar-lhe os pés de vencedor.
O herói não entende e foge com os manos, apavorado. A cabeça vai atrás e não o abandona. Correm muito e chegam a um rancho; Macunaíma descobre que perdeu a muiraquitã e quer sair para procurar; os manos não deixam. A cabeça pede para entrar. Não abrem e ela resolve ser lua. Macunaíma diz que ela está solta e ela pede ajuda à aranha caranguejeira para ir para o céu: a aranha diz que só à noite. A cabeça vai comendo o fio e subindo, chegando ao céu pálida de esforço: vira lua.

Durante a luta contra o monstro, Macunaíma perde a muiraquitã. No outro dia os manos vão procurá-la. Perguntam para vários animais, mas ninguém a viu. O herói chora de saudade de Ci. Continua procurando e, durante um descanso, o negrinho do Pastoreio manda um uirapuru avisá-lo onde se encontrava a muiraquitã.

“Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo o bulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais. Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma tracajá engolira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê.(...)
Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse pros manos que estava disposto a ir em São Paulo procurar esse tal Venceslau Pietro Pietra e retomar o tembetá roubado.”

O uirapuru conta que uma tartaruga engolira sua pedra e que tinha sido apanhada por um mariscador. Este vendera a muiraquitã a um rico fazendeiro chamado Venceslau Pietro Pietra, proprietário de uma mansão na Rua Maranhão, em São Paulo. Macunaíma resolve, então, vir para a capital paulista recuperar seu talismã.
Quando os manos voltam, Macunaíma mente, dizendo que ouvira a história de uma lacraia mansa e resolve partir para São Paulo (trata-se de uma referência à crença popular de que não se deve contar um sonho bom, senão, ele não se realiza).
Nesse capítulo duas personagens antagônicas são apresentadas e passam ser geradoras de conflito no romance: Macunaíma, que tentará recuperar a muiraquitã e que representa a lembrança de Ci, ou seja, o seu Império, a floresta e sua tradição e por outro lado, Venceslau Pietro Pietra, que tentará manter-se dono da muiraquitã, para garantir sua prosperidade. Isso pode ser entendido, como a esperança de um desenvolvimento próprio do Brasil ir-se nas mãos do estrangeiro em outras palavras, a dominação estrangeira na industrialização dos centros urbanos, representaria um empecilho ao desenvolvimento próprio do Brasil, comprometendo um amadurecimento e consequente apogeu da cultura brasileira. Além disso, o Brasil receberia, assim, a decadência de uma civilização estrangeira e de uma raça que não pertence às raças formadoras da cultura nacional.
A situação sócio-econômica brasileira na época em que foi escrito “Macunaíma” apresentava uma grande tensão entre a oligarquia cafeicultora nacional tradicional e a nova burguesia industrial urbana formada em sua maioria, por estrangeiros, especificamente os italianos.



Capítulo V – Piaimã


“No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até a foz do rio Negro pra deixar a consciência na ilha de Marapatá. Deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas. Voltou pro lugar onde os manos esperavam e no pino do dia os três rumaram pra margem esquerda da Sol.
(...) Matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela.”

O herói junta seus irmãos e descem o Araguaia, com sua esquadra de igarités cheias de cacau.

“(...) Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que nem a marca dum pé gigante. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho.
(...) Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.
Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja de negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. (...)
Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa.”

Neste capítulo, o autor apresenta as três raças formadoras da cultura brasileira, ou seja, o português (branco), o índio e o negro.
O herói a caminho de São Paulo opta deixar sua consciência na ilha de Marapatá, lugar ligado às suas raízes (espaço rural), pois na cidade grande (a civilização) de nada serviria.
Mario de Andrade, neste capítulo, inverte os relatos quinhentistas da Literatura Informativa. Aqui é o índio que se depara com a dita “civilização” e procura assimilá-la, digerindo-a com suas próprias enzimas culturais.
O séquito de pássaros silvestres, herança de Ci, que acompanhava Macunaíma, volta para a floresta. O séquito não terá como protegê-lo na cidade.

“E foi numa boca-da-noite fria que os manos toparam com a cidade macota de São Paulo esparramada a beira-rio do igarapé Tietê. Primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do herói. E lá se foi o bando sarapintado volvendo pros matos do norte.
A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele diacho de sagui-açu que o carregara pro alto do tapiri tamanho em que dormira... Que mundo de bichos! Que despropósito de papões roncando, mauaris juruparis sacis e boitatás nos atalhos nas socavas nas cordas dos morros furados por grotões donde gentana saía muito branquinha branquíssima, de certo a filharada da mandioca!... A inteligência do herói estava muito perturbada. As cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagui-açu não era sagüim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não. Eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina.(...) Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar.
Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou? Nem o herói! Se levantou na cama e com um gesto, esse sim! Bem guaçu de desdém, tó! Batendo o antebraço esquerdo dentro do outro dobrado, mexeu com energia a munheca direita pras três cunhãs e partiu. Nesse instante, falam, ele inventou o gesto famanado de ofensa: a pacova.(...)”


O capítulo apresenta uma das passagens mais interessantes da obra: a chegada de Macunaíma e seus irmãos à cidade de São Paulo e o contato com a civilização.
Macunaíma estranha-se com o avanço tecnológico local. Desorientado, o herói decide brincar com a máquina na tentativa de tornar-se “imperador da metrópole”. Porém, ficou sabendo que não podia brincar com a máquina “porque ela mata”. Então, brincou com algumas cunhãs, filhas da mandioca.


“Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só maquinando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina... Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu:
- Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate.
(...) De toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma lua: Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens.”

Macunaíma conclui que os homens eram escravos das máquinas e elas, os patrões.
O herói descobre que Venceslau Pietro Pietra era o gigante Piaimã, comedor de gente, companheiro de uma caapora velha chamada Ceiuci, também antropófaga e muito gulosa.




Capítulo VI – A francesa e o gigante


Depois de uma tentativa de aproximação frustrada com o Gigante, Macunaíma resolve se travestir de francesa para seduzi-lo e reconquistar sua muiraquitã. O regatão não emprestou a pedra nem quis vendê-la. Mas deixou claro que poderia dá-la se a francesa resolvesse “brincar” com ele… Muito inquieto, Macunaíma foge, percorrendo, em louca correria, grande parte do território brasileiro.



Capítulo VII - Macumba


Sem conseguir a muiraquitã, Macunaíma busca forças espirituais no terreiro de macumba da tia Ciata, no Rio de Janeiro.
O herói pede à macumbeira que dê uma surra no gigante Piaimã que, além de receber a chifrada de um touro selvagem, é ferroado por quarenta mil formigas-de-fogo.
Depois que a polaca volta a si, os macumbeiros saem pela madrugada. Entre eles estavam Manu Bandeira, Raul Bopp, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira e outros. Em seguida, por vingança da árvore Volomã, da qual fizera cair todos os frutos, Macunaíma é lançado em uma pequena ilha deserta da Baía da Guanabara.



Capítulo VIII – Vei, a Sol


Chega Vei, a deusa-sol com suas três filhas, entram em uma jangada e aportam no Rio de Janeiro. A Sol, que deseja casar uma de suas filhas com o herói, recomenda-lhe que se comprometa com fidelidade, e em seguida parte.

“E Vei era a Sol. Foi muito bom pra Macunaíma porque lá em casa ele sempre dera presentinhos de bolo-de-aipim pra Sol lamber secando.
Vei tomou Macunaíma na jangada que tinha uma vela cor-de-ferrugem pintada com muruci e fez as três filhas limparem o herói, caçarem os carrapatos e examinarem si as unhas dele estavam limpas. E Macunaíma ficou alinhado outra vez. (...)
Vei queria que Macunaíma ficasse genro dela porque afinal das contas ele era um herói e tinha dado tanto bolo-de-aipim pra ela chupar secando, falou:
- Meu genro: você carece de casar com uma das minhas filhas. O dote que dou pra ti é Oropa, França e Bahia. Mas porém você tem de ser fiel e não andar assim brincando com as outras cunhãs por aí.
Macunaíma agradeceu e prometeu que sim jurando pela memória da mãe dele.”

(...)

“Nem bem Vei com as três entram no cerradão que Macunaíma ficou cheio de vontade de ir brincar com uma cunhã. Acendeu um cigarro e a vontade foi subindo. Lá por de debaixo das árvores passavam muitas cunhãs cunhé cunhé se mexemexendo com talento e formosura.
- Pois que fogo devore tudo! Macunaíma exclamou. Não sou froxo agora pra mulher me fazer mal!
- POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!
Pulou da jangada no sufragante, foi fazer continência diante da imagem de Santo Antônio que era capitão de regimento e depois deu em cima de todas as cunhãs por aí. Logo topou com uma que fora varinha lá na terrinha do compadre chegadinho-chegadinho e ainda cheirava nomais! Um farum bem de peixe. Macunaíma piscou pra ela e os dois vieram na jangada brincar. Fizeram. Bastante eles brincaram. Agora estão se rindo um pro outro.”

Contudo, vendo as mulheres da cidade, o herói não aguenta. Embora tivesse prometido fidelidade, Macunaíma não cumpriu a palavra empenhada. Grita “pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são”, salta em terra e logo que anoiteceu, encontrou uma portuguesa, vendedora de peixe e brincou com ela na jangada.

“Quando Vei com suas três filhas chegaram do dia e era a boca-da-noite as moças que vinham na frente encontraram Macunaíma e a portuguesa brincando mais. Então as três filhas de luz se zangaram (...)
Então a Sol se queimou e ralhou assim:
- Ara ara, ara, meus cuidados! Pois não falei pra você não dar em cima de nenhuma cunhã não!... Falei sim! E inda por cima você brinca com ela na jangada minha e agora estão se rindo um pro outro!
- Estava muito tristinho! Macunaíma repetiu.
- Pois si você tivesse me obedecido casava com uma das minhas filhas e havia de ser sempre moço e bonitão. Agora você fica pouco tempo moço talqualmente os outros homens e depois vai ficando mocetudo e sem graça nenhuma.
Macunaíma sentiu vontade de chorar. Suspirou:
- Si eu subesse...
- O “si eu subesse” é santo que nunca não valeu pra ninguém, meus cuidados! Você o que é mas é muito safadinho, isso sim! Não te dou mais nenhuma das minhas filhas não!
Daí Macunaíma pisou nos calos também:
- Pois nem eu queria nenhuma das três, sabe! Três, diabo fez!”

O herói, enquanto representante do povo brasileiro, teve a possibilidade de se tornar genro da Sol. Isso significa que o Brasil aliando-se a uma cultura tropical poderia dominar o mundo. Ao afirmar: “POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!”, ele reafirma que os problemas nacionais são ocasionados por favores externos, sem se atentar que ele próprio negou a preservação de sua cultura, preferindo se unir as culturas européias, através da amante portuguesa, além de recuperar conhecido poema de Gregório de Matos (1636-1695), em que o poeta satírico baiano enumera as vilezas do país, terminando cada estrofe com o irônico refrão: “Milagres do Brasil são.” Remete, também, à frase do cronista Saint-Hilaire: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”.

Depois foram descansar num banco da Avenida Beira-mar, no Flamengo, quando surgiu Mianiquê-Teibê, monstro de garras enormes com olhos no lugar dos peitos e duas bocarras nos pés, de dentes aguçados. Macunaíma saiu correndo pela praia; o monstro comeu a portuga e desapareceu.
No outro dia Macunaíma não achou mais graça na capital da República. Trocou a pedra Vató, presente de Vei por um retrato no jornal e voltou para taba do igarapé Tietê.
Perceba-se que Macunaíma não guarda nem o presente da Sol, prefere trocá-lo por algo civilizado, ou seja, a aparição de sua foto no jornal. Algo extremamente urbano.



Capítulo IX – Carta pras Icamiabas


O herói retorna a São Paulo e, saudoso, resolve escrever uma “Carta pras Icamiabas”, relatando como era sua vida em São Paulo. Faz, num satírico estilo beletrista, uma descrição da agitada vida paulistana, com seus arranha-céus, ruas “habilmente estreitas” cheias de gente, cinemas, casas de moda, ônibus, estátuas, jardim e faz crítica a polícia.

Diz que os paulistas "prosperam na mais perfeita ordem e progresso" e que são "a única gente útil do país, e por isso chamados de Locomotivas", mas que, devido ao "descalabro sem comedimentos" de gastos, estão corroídos pelas formigas e breve "seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!"

Nessa pernóstica missiva, o corrupto Imperador faz questão de detalhar às Icamiabas a prática constante de amores pecaminosos, tanto que ele até pensa em tirar proveito da exploração do lenocínio. Critica o capitalismo selvagem dos paulistas locomotivas e dos italianos arrivistas, destacando, horrorizado, ao final, uma curiosidade original desse povo que, “falam numa língua e escrevem noutra”. Depois de abençoar as suas súditas, termina a carta, com a maior desfaçatez, pedindo mais uma “gaita” pras suas fiéis Icamiabas.

"Quanto ao caso da Carta pras Icamiabas, tem aí um milhão de intenções. As intenções justificam a carta porém não provam que ela seja boa, é lógico e reconheço. Primeiro: Macunaíma, como todo brasileiro que sabe um poucadinho, vira pedantíssimo. O maior pedantismo do brasileiro atual é escrever português de lei: academia, Revista da Língua Portuguesa e outras revistas, Rui Barbosa etc. desde Gonçalves Dias. Que ele (Macunaíma) não sabe bem a língua acentuei nas confusões que faz (testículos da Bíblia por versículos etc. e o fundo sexual dele se acentua nas confusões testículos, buraco por orifício etc. Escreve pois pretensiosíssimo e irritante. Pra que escreve? Única e tão somente pra pedir dinheiro. Coisa que já serve de provérbio a respeito de brasileiro que mora no estrangeiro: pedir dinheiro pros patrícios em viagem. [...] Agora: como pedir dinheiro? Sorrateiramente, sub-repticiamente. É o que ele faz, dando como função da carta contar as coisas de São Paulo. Conta. [...] ... a ocasião era boa para eu satirizar os cronistas nossos (contadores de monstros nas plagas nossas e mentirosos a valer) e o estado atual de São Paulo, urbano, intelectual, político, sociológico. [...] Fiz tudo isso em estilo pretensioso, satirizando o português nosso, e pleiteando sub-repticiamente pela linguagem lépida, natural, simples, depourvue dos outros capítulos.[...]" (Mário de Andrade)

Em primeira pessoa, Macunaíma comenta que escreveu esse dístico no Livro de Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, famoso na Europa. Exibe conhecimentos de prosódia e outras regras de gramática, faz citações latinas, descreve a administração pública, fala do presidente da República, o "Papai-Grande".
Afirma que tem passado muitas horas discutindo fatos "importantes" da língua:

"[...] e muitas horas hemos ganho, discreteando sobre o z do termo Brazil e a questão do pronome ‘se’. Outrossim hemos adquirido muitos livros bilíngües, chamados ‘burros’, e o dicionário Pequeno Larousse;[...]"

A linguagem utilizada na obra até esse capítulo vinha da oralidade. Macunaíma ao escrever essa Carta utiliza-se de uma linguagem culta levando à carnavalização a erudição, ou seja, uma sátira da linguagem culta. A ridicularização aparece pelos recursos da hiper correção, onde suas textualidades são maiores do que suas qualidades.
Macunaíma se apresenta às Icamiabas como Imperador e sugere um grande distanciamento entre eles.
A carta parodia vários textos clássicos, como: “Os lusíadas”, de Luís Vaz de Camões,
"Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos [...]" e principalmente, a Carta de Pero Vaz Caminha.
Porém, os valores na Carta de Caminha são invertidos: nessa apresenta a visão do civilizado ao rei sobre o primitivismo encontrado, e, em Macunaíma é um Imperador que escreve às suas súditas. Pero Vaz descreve a terra primitiva, Macunaíma descreve a cidade civilizada. Há um contraste entre primitivismo e civilização.
Na carta às Icamiabas, Macunaíma pede dinheiro porque o que ele havia trazido estava no fim e sem dinheiro, Macunaíma não conseguiria fazer parte socialmente daquele contexto, e, ele não queria trabalhar.
Para disfarçar seu objetivo, floreia a narrativa com pedantismos e alusões eróticas, ridicularizando as normas cultas dos parnasianos. Havia também o deslumbramento com os homens públicos, os policiais. Ao conseguir o domínio da língua, procura apresentar-se diante das Icamiabas, como um poderoso, que é para mascarar a situação social anterior, que foi a surra que levou de Piamã.
Outro ponto importante é esclarecer que o foco narrativo que antes era do narrador, passa ser da personagem Macunaíma que não tinha pré-requisitos intelectuais para redigir uma carta no padrão da língua culta, então, cai na caricatura e no ridículo. Claro que é o narrador que critica a carta e não Macunaíma.
O uso da vírgula está coerente com a intenção formal da carta enquanto que, nos outros temas do livro, não há esta preocupação. Há uma excessiva preocupação com a gramática, a ponto de interromper a história para se ater na linguagem.
“Macróbios e micróbios”, essas confusões feitas por Macunaíma é que geram o humor, que é próprio da sátira. Não há qualquer compromisso de lógica com a verossimilhança.
A citação das palavras estrangeiras é intencional. "Carta pras Icamiabas" apresenta duas versões da língua brasileira: a oral que é falada por Macunaíma e a escrita que é culta, além da intencionalidade em colocar a distância do receptor para o interlocutor.

Segue alguns aspectos da linguagem na carta:

1. "Nem cinco sois...- Tenho uma pastite (imitação burlesca, intencionalmente mal feita do autor Camões), criticando a cultura portuguesa no Brasil;
2. "idos de maio" - "idos” (latinismo, que no calendário latino se dava os dias do mês);
3. "ano translato"- ano passado;
4. "súbditas"- seria a preocupação com a etimologia da palavra, mas com intenção de paródia;
5. "Trompas de Eustáquio"- é um termo científico;
6. "mui"- termo arcaico;
7. "saùdade"- erro ortográfico;
8. "devido ás oscilações do Cámbio e á baixa do cacau"- erros ortográficos e tentativa de mostrar conhecimentos nos assuntos financeiros da cidade;
9. "diligentes edis, uns antropóides, monstros hipocentáureos azulegos e monótonos..."- uso de uma linguagem postiça para impressionar as Icamiabas.




Capítulo X – Pauí-pódole


A surra que Venceslau Pietro Pietra recebeu de Exu foi tão violenta que ele ficou meses numa rede, travado pelos suplícios a que foi submetido. Sem poder readquirir a muiraquitã, Macunaíma ocupou-se então do complicado estudo das duas línguas da terra, “o brasileiro falado e o português escrito”. Interrompe um mulato pedante que fazia um verborrágico discurso sobre o Cruzeiro do Sul, falando que aquelas quatro estrelas que brilham no vasto campo do céu são, na verdade, o Pai do Mutum, figura zoocosmológica que teve seu corpo de ave metamorfoseado numa constelação.



Capítulo XI – A velha Ceiuci


Depois de ter passado a noite brincando com a patroa da pensão, Macunaíma falou para seus irmãos Maanape e Jiguê que tinha achado “rasto fresco de tapir”, em pleno asfalto paulistano, junto à Bolsa de Mercadorias. Induziu seus irmãos a caçarem o animal e estes quase acabam sendo linchados pela multidão que se aglomerou pra assistir à caçada. Um estudante subiu na capota de um automóvel e discursou contra Maanape e Jiguê. Foi interrompido por Macunaíma que, tomado por um efêmero acesso de fraternidade, resolveu defender os irmãos entrando no meio da multidão e distribuindo rasteiras e cabeçadas até ser preso por um “grilo”, soldado da antiga guarda-civil de São Paulo.
No meio da confusão, o herói conseguiu fugir e foi ver como passava o gigante Venceslau Pietro Pietra, ainda “convalescendo da sova apanhada na macumba”. Faz uma aposta com o curumim Chuvisco pra ver quem conseguia assustar o gigante e sua família. O herói perde a aposta e resolve fazer uma pescaria. Como não tivesse anzol, o herói se transforma numa “piranha feroz” pra cortar a linha de um inglês que pescava a seu lado.
Acontece que a velha feiticeira Ceiuci, mulher do gigante, também costumava pescar no igarapé Tietê e prende o herói. Ao ser pescado pela tarrafa da feiticeira, Macunaíma vira um pato que devia ser logo comido. Além de brincar com a filha mais moça de Ceiuci, ludibria-a e foge montado “num cavalo castanho-pedrez que pra carreira Deus o fez”.
É uma fuga espetacularmente surrealista: num momento está em Manaus e noutro em Mendoza, na Argentina, depois pegou carona com um tuiuiú e voltou à pensão.
“A filha expulsa corre no céu, batendo perna de déu em déu." A velha transformou-a em um cometa que correu o Brasil inteiro atrás do herói.



Capítulo XII – Tequeteque, chupinzão e a injustiça dos homens


Macunaíma desesperado porque ainda não conseguir reaver a muiraquitã, é aconselhado por Jiguê, disfarçar-se de pianista, porém o herói prefere passar por pintor e concorrer, junto ao governo, a uma bolsa de estudos na Europa, para onde Venceslau Pietro Pietra havia viajado.
Não conseguindo a bolsa de estudos, Macunaíma viaja com os manos pelo Brasil tentando encontrar “alguma panela com dinheiro enterrado”, mas nada encontraram. Então, foram jogar no bicho.
Em seguida, Macunaíma é enganado por um mascate que lhe oferece um gambá por quarenta contos que, supostamente, soltava moedas de prata quando na verdade, fazia necessidades.
Numa praça, quando refletia sobre a injustiça dos homens, viu um tico-tico e um chupim, este chorava atrás do outro pedindo comida e o pássaro tentava sustentá-lo achando que fosse seu filhote, então Macunaíma matou o tico-tico para acabar com a injustiça.
Nestas andanças, o herói encontra um macaco comendo coquinho baguaçu. Como estava com fome, o herói pergunta ao macaco o que estava comendo e ouve a seguinte resposta cínica:

“- Estou quebrando os meus toaliquiçus pra comer.” Macunaíma resolveu imitá-lo, agarrou um “paralelepípedo e juque! nos toaliquiçus. Caiu morto.”

Só conseguiu ressuscitar graças a um advogado que o socorre e leva-o a pensão. Chegando lá, Maanape que era feiticeiro colocou no lugar do órgão destruído dois cocos-da-baía. Depois “assoprou fumaça de cachimbo no defunto-herói”, deu-lhe guaraná, uma dose de pinga e ele reanimou.



Capítulo XIII – A piolhenta de Jiguê


Macunaíma depois de se recuperar do seu “machucado”, no dia seguinte, adoece de erisipela. Os manos cuidam dele com carinho e atenção.
Durante a sua recuperação, o herói sonha com um grande navio e lê as notícias de O Estado de São Paulo. A proprietária da pensão interpreta esse sonho como premonição de uma grande viagem.
Mesmo não estando totalmente curado, o herói passeia pelo Vale do Anhangabaú e tem a sensação de ver uma embarcação saindo do fundo de uma gruta e quando vai alcançá-la, ela desaparece – era a Mãe d’água, a boiúna, que vinha atentar Macunaíma.
Enquanto isso, Jiguê “arranjou” uma nova companheira: Susi, uma cunhatã muito ardilosa.
Diariamente, ela saía da pensão dizendo que ia comprar (mandioca) para alimentar os quatros, mas na verdade, ficava assediando Macunaíma. Passavam a tarda inteira juntos, depois retirava a macaxeira de dentro do maissó (útero) para não chegar à pensão de mãos vazias.
Jiguê precavido fez Susi engolir três bagos de chumbo para não engravidar (prática antiga de criadores de porcas que colocavam chumbos nas vaginas dos animais para evitar a fecundação), mas andava ressabiado e vivia afinando a faca e limpando a espingarda.
Manaape por ser feiticeiro, negava-se a comer a macaxeira, preferia passar fome ou mastigar ipadu e enganar o apetite
Um dia Jiguê segue os dois e flagra-os no Jardim da Luz. Ele fica furioso, dá uma baita surra em seu mano e tranca Susi no quarto.
Como Susi tinha muitos piolhos, se distraia, catando-os. Jiguê chama-a de porca e lhe dá outra surra.
Macunaíma quer brincar novamente com Susi e inventa que viu rasto de caça perto de uma fruteira. Enquanto Jiguê vai caçar, o herói entra na casa, providencia comes e bebes e depois, brinca com Susi.
Jiguê retorna a sua casa e surpreende-os brincando. Depois, de bater nos dois, expulsa Susi de casa.
Então, Susi pega todos os seus piolhos, atrela-os numa cadeira de balanço e vai “pro céu virada na estrela que pula”.
Macunaíma consola-se com Manaape, conta-lhe uma versão mentirosa e triste. Jiguê surge e desmente o herói que fica muito desconsolado. Então, concluem que o herói não tem caráter e, para consolá-lo, levam-no para passear de automóvel.



Capítulo XIV - Muiraquitã


No dia seguinte, Macunaíma abre a janela e vê um passarinho verde.
Manaape conta sobre a publicação nos jornais a respeito do retorno de Venceslau Pietro Pietra.
O herói, então, "resolveu que não ia ter mais contemplação com o gigante e matá-lo."
Para tanto, foi à cidade medir sua força e arranca um pé de peroba sem deixar sinal no chão. Voltou cheio de carrapatos, expulsou-os, afirmando que não lhes devia nada.

“Carrapato já foi gente e era comerciante. Como vendeu muito fiado e ninguém pagou, ele faliu. Por isso se agarra a qualquer pessoa, pensando ser um de seus devedores.”

O herói chega ao palacete do Gigante, mas já era noite. Decide vigiar o local, porém quando chega o Pai do Sono, Macunaíma cochila, bate com o queixo no peito e morde a língua. O sono foge. O herói resolve esperá-lo novamente. Finge-se de morto junto a um pau que serve de pinguela sobre um córrego.
Emeron-Pódole chega e diz: "Morto que não arrota onde já se viu!"
Macunaíma arrota, e ele: "Onde já se viu morto arrotar, gentes?"
O Pai do Sono caçoa e foge, deixando o castigo de que os homens não podem dormir em pé.
Em seguida, Macunaíma vê um chofer brincando com uma criadinha. Ele se aproxima do casal pede um cigarro, "um fósforo pros dois e outro pra ele" (crendice popular de que não se devem acender três cigarros com um mesmo fósforo, para o terceiro fumante não morrer).
Então, começa a contar um caso; para a noite passar depressa.
“Era o caso da onça parda, Palauá, que mandava os olhos brincar na areia e ficava cega. Depois os chamava e eles voltavam. Ao sentir a catinga do Pai-da-Traíra, ela interrompe a brincadeira, com medo de que ele lhe comesse os olhos. Nisso, chega a tigre preta e quer que Palauá mande seus olhos a ver o mar. A onça a previne do perigo, mas ela ameaça comer Palauá, se não obedecer. Palauá obedece e o Pai-da-Traíra come os olhos da tigre. Vendo o que acontecera, a onça foge, perseguida pela tigre preta. Passa por Ibiraçoiaba e apanha quatro rodas que põe nos pés. O barulho das duas aumenta com os gemidos do Noitibó, Pai-da-Noite. Palauá ainda engole um motor, dois vagalumes e purgante de óleo de mamona. O barulho era tão grande, que ela não ouviu o tinido dos pratos quebrados no morro do Assobio. Chega cansada a Santos, arranca uma folha de banana-figo e se cobre com ela. A tigre preta não conseguiu encontrá-la mais e ela se transformou em automóvel: por medo, não o abandonou mais. Mais tarde teve uma ninhada: "um forde", "uma chevrolé".
Terminada a história, os namorados ficam comovidos. Ouve-se um rugido: é a onça-automóvel de Venceslau Pietro Pietra, que chega e pára na porta da rua, conversando com um repórter. Os três o cumprimentam e Piaimã convida-os a entrar.
“Então Piaimã fez pra ele (Macunaíma) como fizera pro chofer, carregou o herói nas costas de cabeça pra baixo prendido os pés nos buracos das orelhas. Macunaíma aprumou a sarabatana e assim de cabeça pra baixo era ver um atirador malabarista de circo, acertando nos ovinos do alvo. O gigante ficou muito incomodado virou e percebeu tudo.
- Faz isso não, Patrício!
Tomou a sarabatana e jogou longe. Macunaíma agarrava quanto ramo caía na mão dele.
- Que você está fazendo? Perguntou o gigante ressabiado.
- Não vê que os ramos estão batendo na minha cara!
Piaimã virou o herói de cabeça para cima. Então Macunaíma fez cócegas com os ramos nas orelhas do gigante. Piaimã dava grandes gargalhadas e pulava de gozo.
- Não amola mais, patrício! Ele fez.
Chegaram no hol. Por debaixo da escada tinha uma gaiola de ouro com passarinhos cantadores. E os passarinhos do gigante eram cobras e lagartos. Macunaíma pulou na gaiola e principiou muito disfarçado comendo cobra. Piaimã convidava-o pra vir no balanço porém Macunaíma engolia cobras contando:
- Falta cinco...
E engolia mais outra bicha. Afinal as cobras se acabaram e o herói cheio de raiva desceu da gaiola com o pé direito. Olhou cheio de raiva pro gatuno da muiraquitã e rosnou:
- Hhhn... que preguiça!
Mas Piaimã insistia pro herói balangar.
- Eu até que nem não sei balançar... Milhor você vai primeiro, que Macunaíma rosnou.
- Que eu nada, herói! É fácil que-nem beber água! Assuba na japecanga, pronto: eu balanço!
- Então aceito porém você vai primeiro gigante.
Piaimã insistiu mas ele sempre falando pro gigante balançar primeiro. Então Venceslau Pietro Pietra amontou no cipó e Macunaíma foi balançando cada vez mais forte. Cantava:

Bão-ba-lão
Senhor capitão,
Espada na cinta
Ginete na mão!

Deu um arranco. Os espinhos ferraram na carne do gigante e o sangue espirrou. A caapora lá em baixo não sabia que aquela sangueira era do gigante dela e aparava a chuva na macarronada. Molho engrossando.
- Pára! Pára! Piaimã gritava.
- Balança que vos digo! Secundava Macunaíma.
Balançou até o gigante ficar bem tonto e então deu um arranco fortíssimo na japecanga. Era porque tinha comido cobra e estava furibundo. Venceslau Pietro Pietra caiu no buraco berrando cantando:
- Lem lem lem... si desta escapar, nunca mais como ninguém!
Enxergava a macarronada fumegando lá embaixo e berrou pra ela:
- Afasta que vos engulo!
Porém jacaré fastou? Nem tacho! O gigante caiu na macarronada fervendo e subiu no ar um cheiro tão forte de couro cozido que matou todos os ticoticos da cidade e o herói teve uma sapituca. Piaimã se debateu muito e já estava morre-não-morre. Num esforço gigantesco inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:
- Falta queijo! Exclamou...
E faleceu.
Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente.
Macunaíma quando voltou da sapituca foi buscar a muiraquitã e partiu na máquina bonde pra pensão. E chorava gemendo assim:
- Muiraquitã, muiraquitã de minha bela, vejo você mas não vejo ela!...”


Macunaíma, numa luta, mostra sua sagacidade, mata o gigante Piaimã, comedor de gente e retoma a muiraquitã.
Mas, o conflito principal do romance não é à perseguição de Macunaíma ao gigante, tanto é, que a narrativa avança, indicando que a verdadeira tensão é o conflito entre a Natureza (tradição) e Civilização (cidade).
Macunaíma após a posse da muiraquitã, símbolo de esperança do Brasil e de seu desenvolvimento próprio; o herói sente-se fragilizado, afinal, a cidade o descaracterizou e sem o apoio de Vei, a Sol, o vencedor, torna-se, um vencido.



Capítulo XV – A pacuera de Oibê



Então, Macunaíma e os manos resolvem retornar às suas origens.

“Então os três manos voltaram pra querência deles.(...)
(...)
- Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são...
(...)
Depois de muito refletir, Macunaíma gastara o arame derradeiro comprando o que mais o entusiasmara na civilização paulista. Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Patek e o casal de galinha Legorne. Do revólver e do relógio Macunaíma fizera os brincos das orelhas e trazia na mão uma gaiola com o galo e a galinha. Não possuía mais nem um tostão do que ganhara no bicho porém balangando no beiço furado pendia a muiraquitã.”


O herói carrega no peito “uma satisfação imensa”, mas não deixa de ter saudades de São Paulo.
Levava consigo lembranças que marcaram a sua passagem pela “civilização paulista”: um casal de legornes, um revólver Smith-Wesson e um relógio Patek, objetos de origem estrangeira originados da civilização das máquinas.
O herói, dessa forma, perdeu sua íntima relação com a floresta. Tanto é verdade que:

“(Macunaíma) Estava muito contrariado porque não compreendia o silêncio. Logo o silêncio do Uraricoera, que fora um dos fatores responsáveis pelo nascimento dele”.

Um bando de aves forma uma grande tenda de asas coloridas para protegerem o Imperador do Mato-Virgem.
Na viagem de volta, o herói teve outras aventuras amorosas, lembrando-se com saudade da vida dissoluta que levara em São Paulo: encontra-se com Iriqui (antiga companheira de Jiguê) e com uma linda princesa que tinha sido transformada num pé de carambola.
Com sua muiraquitã, o herói faz uma mandinga e o caramboleiro vira “uma princesa muito chique”, com quem tem vontade de brincar, mas não pode, pois são perseguidos pelo Minhocão Oibê. Através de outra mandinga, o herói transforma Oibê num cachorro-do-mato, de rabo cabeludo e goela escancarada.
Macunaíma agora só brinca com a princesa, Iriqui fica triste e decide subir “pro céu, chorando luz, virada numa estrela”.



Capítulo XVI - Uraricoera


“No outro dia Macunaíma amanheceu doente e Maanape, pensando que ele estava hético (tuberculoso), deu-lhe chá de broto de abacate (costume das tribos amazônicas). Mas era impaludismo (malária), e a tosse se devia à laringite que todos levam de São Paulo. (Diz-se que em São Paulo todos têm laringite.) Com a doença, Macunaíma fica mais indolente do que nunca: passava as horas deitado na proa da canoa e até se recusou a brincar com a princesa.
Chegavam ao fim da viagem:
No outro dia atingiram as cabeceiras dum rio e escutaram perto o ruidejar do Uraricoera. Era ali.
(...)

Chegam ao Uraricoera e ao passar pelo Pai da Tocandeira, reconhece suas raízes e chora: a maloca da tribo era agora uma tapera arruinada.

“Reconheceram a velha roça e o velho rancho, agora uma tapera. Macunaíma chorou.
Entraram na tapera; os manos e a princesa resolveram procurar comida. O herói ficou descansando e estava assim, quando sentiu no ombro o peso de uma mão: era João Ramalho (personagem da história do Brasil: colono português, respeitado pelos índios, que teve muitos filhos), que chama a esposa e a filharada e resolve mudar para outro lugar onde não haja ninguém.
No outro dia, vão todos trabalhar bem cedo. Macunaíma se desculpa, sobe numa montaria e dá uma chegadinha até a ilha de Marapatá, para buscar a consciência que deixara lá antes de ir para São Paulo. Mas não a achou mais; então, botou na cabeça a consciência dum hispano-americano e se deu bem da mesma forma.” (O próprio autor acentuou, em prefácio inédito, que desejava que Macunaíma não fosse nacionalista, mas sul-americano; daí o herói ter-se dado bem com a substituição).

Durante a viagem, Macunaíma acompanha um cardume de jaraquis (peixe de escama espinhenta) e, distraído, acaba chegando a Óbidos, com a montaria cheinha de peixes frescos. Porém, como lá dizem que "quem come jaraqui fica aqui", ele joga os peixes fora, para não ficar na cidade. Volta para o Uraricoera e resolve dormir na sombra da ingazeira (árvore frutífera da Amazônia), depois de catar os carrapatos.
Os manos preocupados saem à procura de Macunaíma. Jiguê tenta ouvir através do chão os passos do herói, mas nada se escuta. Macunaíma aparece e mente, dizendo que estava negociando uma inambu-guaçu (ave grande, habitante das matas virgens do Brasil).
Passados alguns dias, Macunaíma continua desolado, não caça, não pesca e só mente, despertando desentendimentos entre os manos.
Um dia, Jiguê foi pescar e encontra o feiticeiro Tzaló que possui uma cabaça encantada que atraía muitos peixes. Jiguê rouba a cabaça e volta para a tapera carregada de peixes.
Macunaíma desconfia de que Jiguê tenha pescado todos aqueles peixes, segue-o e descobre o seu segredo. Mas, na pressa de matar todos os peixes, deixa cair dentro da água à cabaça, que é engolida pela pirandira Pazdá e se transforma na bexiga do peixe.
O herói volta para a tapera e conta o sucedido. Jiguê sente raiva e reclama da preguiça do irmão, que protesta, afirmando ter caçado um veado e perdido o pedaço dele que trazia para todos. Como era feiticeiro, Maanape faz um gesto que leva Macunaíma a piscar e confessar que era tudo mentira.
No dia seguinte, Jiguê encontra Caiçãe, o tatu-canastra que cantava acompanhado de uma violinha e atraía todas as caças de pêlo.
Jiguê rouba a viola, toca e pega muitas caças. O herói desconfia, repete o que fizera com a cabaça e perde a viola também: ela cai no dente de uma queixada que tinha umbigo nas costas e se despedaça. Os bichos que ele tinha atraído com a viola engolem os pedaços e transformam-se nas bexigas das caças. Então, Jiguê enfurecido, nega-se a trabalhar e todos começam padecer de fome.
Macunaíma jura vingança. "Finge" ser um anzol com presa de sucuri e manda-o entrar na mão de Jiguê.
Jiguê não aguenta mais a fome e, vendo o anzol, pergunta ao herói se é bom, o que Macunaíma confirma.
Quando Jiguê pega no feitiço, o dente de sucuri entra-lhe na palma da mão e despeja ali todo o veneno. Jiguê corre para o mato e tenta vários remédios: mastiga maniva, põe cabeça de anhuma na mão, mas nada adianta. O veneno se transforma numa ferida leprosa e começa a comer-lhe o corpo: um braço, depois metade do corpo, depois as pernas, depois a outra metade do corpo, depois o outro braço, depois o pescoço e a cabeça. Só fica a sombra de Jiguê.
A princesa que andava brincando com Jiguê, fica furiosa com Macunaíma e manda a sombra virar um cajueiro, um churrasco de veado e uma bananeira para que o herói, comendo dessas coisas, ficasse leproso também e morresse. No outro dia, Macunaíma acorda com fome e vai passear para espairecer; encontra o cajueiro e, légua e meia adiante, o churrasco, mas percebe a sombra do irmão nos dois e não come deles.
Macunaíma lembra-se de passar a doença para outros, para não morrer sozinho: “esfrega seis tipos diferentes de formigas no nariz, uma de cada vez, e elas vão ficando leprosas, porque já foram gente como nós”.
Moribundo, não tem forças para estender o braço e pegar outro bicho, e fica esperando a visita da saúde (crença popular de que os moribundos, pouco antes da morte, sentem subitamente uma grande melhora, na verdade ilusória, que é o aviso de que não durarão muito). Na visita da saúde, cria força e passa a doença para o mosquito birigui que, por isso, quando morde provoca a chaga de Bauru. Como tinha transmitido a lepra para sete outros, o herói fica curado na mesma hora (crendice de que os leprosos ficam curados, desde que mordam sete pessoas).
Macunaíma volta à tapera. A sombra, constatando que o herói era mesmo muito inteligente, resolve também voltar para junto da família, mas era noite e ela não achava o caminho. Senta-se numa pedra e grita para que a cunhada princesa lhe traga fogo; ela traz e é engolida pela sombra, juntamente com o tição que iluminava o caminho. A sombra grita para Maanape, que se arrasta, molengo, porque o barbeiro lhe chupara o sangue, deixando-o opilado (anêmico, fraco). A sombra engole-o e ao fogo também. Grita para Macunaíma, mas este não atende, encosta a porta e fica bem quieto na tapera. Não obtendo resposta, a sombra se lastima até de madrugada, quando Capei aparece, iluminando a terra e ela consegue chegar até a tapera; lá, senta-se na soleira da porta e espera o dia amanhecer para se vingar do herói.
Macunaíma fica só e tem que trabalhar para sobreviver. Porém, a sombra persegue-o e tudo que ele pega para comer, a sombra come antes. Para livrar-se dela, o herói atira um peixe na Guiana e enquanto a sombra foi atrás, Macunaíma foge pelo mato fora.
Mas, a sombra volta persegui-lo. Então, Macunaíma corre, atravessa a terra dos índios tatus-brancos (referência à época das Bandeiras e passa sem pedir licença entre a sombra de Jorge Velho e Zumbi), que estavam discutindo. Cansadíssimo, olha para trás e vê que a sombra se aproxima; está na Paraíba e não tem vontade de fugir mais, porque está "impaludado" (com malária). Perto estavam uns trabalhadores construindo um açude. O herói pede-lhes água e eles lhe dão raiz de umbu (raízes ocas que se enchem de água). Macunaíma mata a sede dos legornes, agradece e grita:

“- Diabo leve quem trabalha!”

Os trabalhadores soltam a cachorrada no herói. Ao passar pela estrada das boiadas encontrou um "boi malabar chamado Espácio que viera do Piauí" (nome de um boi cantado em um antigo romance popular nordestino; vem do Piauí, referência à quadra do "Bumba meu Boi" ou "Boi Bumbá").
O boi estava dormindo e acorda assustado com o trompaço que o herói lhe deu: "saiu numa galopada louca de susto". Macunaíma se esconde e a sombra, ouvindo o galope do boi, achou que era Macunaíma e o persegue. Alcança o boi, percebe o engano, mas para não perder o esforço, sobe em seu costado. Satisfeita, canta os versos do "Bumba meu Boi".
A sombra passar comer tudo que o boi ia comer e assim, ele acaba morrendo de fome.
Uma giganta que brincava com ele vai visitá-lo, mas é tarde. A giganta sofre e é expulsa dali.
No outro dia o boi estava podre. Então chegam muitos urubus, "dançando de contentes". O maior puxava a dança, cantando: era o urubu-rei, o Pai do Urubu.
Ele manda o menor deles ver se a carne do boi já estava bem podre:

"[...] entrou por uma porta e saiu por outra dizendo que sim e todos fizeram a festa juntos [...]".
"E foi assim que inventaram a festa famosa do Bumba-meu-Boi, também conhecida por Boi-Bumbá."
A sombra teve raiva porque eles estavam comendo o boi dela e pulou no ombro do urubu-rei, ficando ali. O urubu, satisfeito, gritou:
"Achei companhia pra minha cabeça, gente!"
Por isso, o urubu-rei tem duas cabeças; a sombra leprosa é a da esquerda.




Capítulo XVII – Ursa maior




Obra de Ademir Martins


Macunaíma estava no abandono completo; os irmãos tinham morrido; a tapera estava caindo e ele estava muito contrariado, porque não conseguia compreender o silêncio, além de estar empaludado e sem forças para construir uma oca. Sentia muito tédio e, principalmente, muita preguiça.
O herói atou sua rede em dois cajueiros no alto da barranca junto do rio, onde havia dinheiro enterrado e, passa os dias: “caceteado e comendo cajus”.
O séquito de araras que sempre o acompanhara tinha voado para a terra dos ingleses (Guiana Inglesa), transformando-se antes em periquitos, para que estes levassem a fama.
Só ficara o casal de legornes e um aruaí (papagaio) muito falador, pra quem o herói conta seus casos, fazendo-o repeti-las na língua da tribo. Quando amanhecia, o papagaio devorava as aranhas que passavam a noite fiando as teias que envolviam a rede. Depois, acordava Macunaíma e repetia o caso aprendido na véspera.
Num dia de janeiro de muito calor, o herói acorda sentindo umas “cosquinhas”, que até lhe parecem feitas “por mãos de moça”. Era a última vingança de Vei, a Sol, para liquidá-lo de vez. Macunaíma lembra-se de que há muito não brincava e vai tomar banho num lagoão, pensando que a água fria viria amortecer seus desejos de amor.
A lagoa estava coberta de ouro e prata e lá, no fundo estava à alvinha e lindíssima, de cabelos negros com as asas da graúna, a Uiara (ou Iara, entidade de voz fascinante, que vive nos rios e lagos).
O herói sente vontade de brincar com ela, mas a água estava fria demais, ele não teve coragem de entrar.
A Uiara insiste e dança, chamando-o. A Sol torce para ele cair nos braços traiçoeiros do monstro. Como a Uiara só se mostrava de frente, Macunaíma não pode ver o buraco no cangote, por onde ela respirava.
Ele fica indeciso; a Sol, com raiva, pega um rabo-de-tatu de calor e chicoteia o lombo do herói. Macunaíma joga-se na lagoa e:

"[...] Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia."

Esta o mutila, devorando-lhe uma perna, os brincos, os cocos-da-baía, as orelhas, os dedões, o nariz e os beiços. Desaparece também sua muiraquitã: o herói pula e dá “um grito que encurtou o tamanho do dia”.
Quando conseguiu erguer-se, percebeu as perdas e sentiu ódio de Vei. Pegou o ovo deixado na praia por uma galinha e atirou nas bochechas da Sol, que amarelou para sempre. Entardecia.
Tem ainda força para lançar plantas venenosas no lagoão, matando peixes, piranhas e botos que lá estavam. No afã de recuperar seus tesouros.
Depois, Macunaíma abre-lhe as barrigas e o que encontra reprega no corpo mutilado, com sapé e cola de peixe. Não consegue, todavia, reconquistar a perna nem a muiraquitã, “engolidas pelo monstro Ururau”.

E assim tudo se acaba. Macunaíma, mutilado, vai bater na casa do Pai Mutum, que, com dó dele, faz uma feitiçaria e transforma-o na constelação da Ursa Maior.

“Ia pro céu viver com a marvada. Ia ser o brilho bonito, mas inútil, porém de mais uma constelação.”

Nesse balanço que Macunaíma faz de sua existência, ele dialoga com sua consciência e deixa sua mensagem para a posteridade:

“Não vim no mundo para ser pedra”.

A pedra simboliza disciplina rígida, método, lapidação de caráter, traços que Macunaíma, a própria encarnação da esperteza e da improvisação, nunca quis assumir.

Segundo Mário de Andrade:

“(...) Era malvadeza da vigarenta (a velha Vei, a sol) só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas da luz”, isto é, as grandes civilizações tropicais, China, Índia, Peru, México, Egito, filhas do calor. A alegoria está desenvolvida no capítulo intitulado “Vei, a Sol”. Macunaíma aceita se casar com uma das filhas solares, mas nem bem a futura sogra se afasta, não se amola mais com a promessa, e sai a procura de mulher. E se amulhera com uma portuguesa, o Portugal que nos herdou os princípios cristãos-europeus. E, por isso, no acabar do livro, no capítulo final, Vei se vinga do herói e o quer matar. Ela que faz aparecer a Uiara que destroça Macunaíma. Foi vingança da região quente solar. (O herói “perde” outra vez a muiraquitã). Macunaíma não se realiza, não consegue adquirir um caráter. E vai pro céu, viver o ‘brilho inútil das estrelas’.”

Então,

“ Macunaíma não achou mais graça nesta terra. (...) Tudo o que fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora senão um se deixar viver (...)”

Macunaíma foi destroçado pela Uiara, perdeu toda sua dignidade. A muiraquitã foi tomada pela Natureza, ou seja, a esperança de um desenvolvimento próprio para o Brasil continua com a Natureza tropical, porém não foi realizado por Macunaíma, herói de nossa gente.



Epílogo


(...)
“A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subirá pro céu (e se transformara na Ursa Maior), porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma imperador. E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.
(... )Uma feita um homem foi lá e, rompendo o silêncio enorme que dormia à beira-rio do Uraricoera, ouve-se:
- Curr-pac, papac! curr-pac, papac!…
Era o papagaio ao qual Macunaíma havia contado toda a sua história. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito!
Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toques rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói da nossa gente”. Era o próprio Mário de Andrade. “Tem mais não”.
“Acabou-se a história e morreu a vitória.


Graças a este papagaio é que se salvou do esquecimento a história do herói, parido por uma índia Tapanhumas.



CONSIDERAÇÕES FINAIS:

“Macunaíma” – questão da identidade nacional ou sátira?


A literatura é um dos métodos que tem sido às vezes, utilizada para retratar estereótipos brasileiros, apresentando, porém alguns perigos. Considerando a análise estudada sobre a personagem Macunaíma, diversas características negativas são apresentadas, causando um mal-estar e um inconformismo nacionalista ao leitor.
Mas, como conceituar esse “inconformismo nacionalista”? Afinal, o que é o nacionalismo senão artefatos culturais de um tipo peculiar, onde a história e as mudanças ocorridas através do tempo culminam num estado emocional e, subjetivamente conclui-se que o nacionalismo não passa de uma ideologia?
Mario de Andrade, estudioso totalmente envolvido com a problemática do homem brasileiro, não rotularia com metáforas pessimistas e destrutivas o caráter nacional, mas, sim, de uma maneira realística lidando com o maravilhoso, o realístico e com o mágico.
O protagonista não é um fracassado, e, sim um herói, como os grandes cavaleiros medievais. Macunaíma, apesar de preguiçoso é dinâmico; busca um objetivo, e às vezes se esquece do mesmo; enfrenta perigos e também foge deles; é um perseguidor, porém, acaba perseguido, portanto, todo esse antagonismo, faz de Macunaíma um símbolo: herói sem nenhum caráter ou herói sem caráter nenhum?
O autor retratou através da personagem, o painel cultural-social da jovem nação brasileira em fase de formação, portanto, incaracterística ou ambígua.
A preguiça, a mentira e o erotismo revelam traços de personalidade de um fracassado, tornando-o um anti-herói; então, ao desmistificá-lo, analisando esses caracteres, com outros olhos, tornaram-se virtudes. Macunaíma, graças a sua preguiça infinda, representa o homem primitivo ”lutando” contra a modernidade de um mundo alienado numa sociedade de consumo, até a sua malandragem e a esperteza o auxiliam a não se contaminar com a insensibilidade do mundo, dito, civilizado, tornando-o assim, portanto, um herói.
Depois do contato com a cidade civilizada, “a taba grande paulistana”, recuperado a muiraquitã, sentindo-se um vencedor, retorna ao Uraricoera, em busca de si próprio, entretanto, um desafio maior o aguarda: o reencontro com suas origens.
Interessante é notar que, Macunaíma foi fiel às suas origens enquanto pode: retornou a sua terra natal, como também a Ci, a única que amou, pois com ela “brincar era mais gostoso”, na cidade civilizada e com outras mulheres só tirou proveito, porém, ironicamente é através de sua sensualidade e infidelidade que será traído.
Desorientado e dividido entre a civilização impregnada de estrangeirismos, ou melhor, afirmar, dividido entre outros amuletos (o revólver Smith-Wesso, o relógio Pathek Phillip e o casal de galinhas legornes, dentro de uma gaiola) e a sua muiraquitã, entra em crise de consciência cultural, sentindo-se totalmente perdido e carente de definições.
Quando o leitor espera exaltar o herói por suas glórias (venceu o Gigante, recuperou a muiraquitã e retornou às suas raízes), percebe que este se sente mais derrotado que vencedor. Vivendo de nostalgia, lembrando das “filhas da mandioca”, doente, cansado, abandonado pela família e pelas mulheres, sem sonhos ou idealizações, sobrando-lhe somente um aruaí falador, para poder ouvir suas histórias, o herói sem sequer se desespera com a situação, ao contrário, deixa-se levar por ela, como se nada tivesse valor para ele.




Uma nação incaracterística e em fase de formação


O desapego atual a sua terra natal e a vontade imensa de brincar venceram o herói.
Macunaíma descumpriu sua promessa concordada com Vei e jurada em nome de sua mãe, de casar-se com uma de suas filhas. Assim, desrespeitando os valores cristãos europeus herdados, de amor eterno e fidelidade, preferindo a portuguesa à filha da luz, respectivamente representado de maneira alegórica: o Ocidente versus as grandes civilizações tropicais como a China, o Índia, o Peru, o México, o Egito.
Vei decide vingar-se do herói, escorregando-se pelo seu corpo, causando-lhe cócegas e dando-lhe vontade de brincar.
Macunaíma dirige-se a uma lagoa para afastar “as suas vontades” e lá, em meio da água fria, estava Uiara, uma cunhã lindíssima.
O herói temia pular na água porque estava fria, quando Vei, dá-lhe uma sova de rabo-de-tatu no lombo de Macunaíma que estremeceu de calor e caiu n’água, acaba sendo estraçalhado e perdendo a muiraquitã que é símbolo do seu destino, a razão do seu ser e a identidade nacional.
Talvez tenha sido o maior erro de Macunaíma escolher primeiro a portuguesa e depois a Uiara, civilizações que não estariam em acordo com as necessidades climáticas e sociais de sua personalidade. Essa infidelidade com suas origens e o distanciamento de seu caráter nacional dá ao herói conflitos exemplares de uma nação em fase de formação, dividida entre o tropicalismo e influências sul-americanas e, a sedução do progresso do mundo civilizado.



O determinismo e a busca de uma identidade cultural


Segundo Mário de Andrade, em entrevista concedida em 1925:

“Toda tentativa de modernização implica a passadização da coisa que a gente quer modernizar”. Vai mais além: “nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura”.


Macunaíma representa a alegoria da busca da identidade cultural brasileira.
O herói nasce de forma mágica (o “silêncio tão grande”), num espaço natural (“fundo do mato virgem”) e atemporal.
Com o passar do tempo, ele adquire corpo de um homem adulto, mas fica para sempre com “carinha enjoativa de piá”.
O herói tem descendência indígena, nasce preto e depois, “vira” branco. É importante notar que ao adquirir a “brancura”, Macunaíma sente-se superior perante aos seus.
Quando aparentemente, o herói está tranquilo e completo (seu amor por Ci, o nascimento de seu filho e a posição de Imperador do Mato Virgem), o destino reserva-lhe outros desafios, além da morte da “marvada” e de seu filho, a perda da muiraquitã.
Macunaíma ao defender Naipi, uma cascata, enfrenta o monstro, Boiúna Capei. Durante a luta, o herói decepa a cabeça do monstro, que aqui representa a tradição, a lenda e o folclore e acaba perdendo a muiraquitã. A cabeça torna-se sua escrava, porém o herói desconhecendo a tradição tem medo e foge da cabeça. Esta, sentindo-se abandonada e sem função na terra, decide virar lua.
Em seguida, Macunaína é informado que a muiraquitã (cultura brasileira) encontra-se em poder do gigante Piaimã. Enfim, o Brasil ao tentar construir sua unidade cultural, representada por Macunaíma, encontra a Europa no meio do percurso, representada pelo Gigante.
Assim, Macunaíma parte do seu habitat, abandona suas raízes, despreza suas tradições e troca o calor amazonense pelo clima frio paulistano.
Alguns aspectos formadores da identidade cultural nesse ponto são questionados: Macunaíma desliga-se do seu Meio; as Raças que o compõem são dominadas perante o dominador europeu e o contexto histórico, o Momento, trata-se de um país em transição da mão de obra agrícola para a industrialização nacional.
Portanto, seria possível que o Brasil viesse se estabilizar como entidade cultural se firmasse em suas próprias origens.
O herói “sem caráter” cede à nova cultura e substitui a natureza virgem da floresta pelas máquinas da “taba grande paulistana”.
Depois, de muitas aventuras e reflexões sobre a grande cidade, Macunaíma vence o Gigante e retorna ao seu ponto de partida, porém o herói não é o mesmo. Macunaíma foi contaminado pela cultura européia, corrompendo-se com seus vícios, sem, ao menos, ter compartilhado com a sua grandeza.
Descaracterizado e desorientado, o herói não consegue se fixar em nenhum lugar terrestre. Dessa forma, ele fica impossibilitado de ser detentor da muiraquitã, então Vei, a Sol, surge para concretizar sua vingança e resgatar a muiraquitã à natureza.
Para Mário de Andrade a conquista de uma identidade cultural só seria possível se tomássemos consciência de nossas tradições.



Venceslau Pietro Pietra


Venceslau Pietro Pietra, conhecido por Gigante Piaimã, é um regatão peruano; vive em São Paulo; possui sobrenome italiano (além de ser “regatão”, remetendo a atividade de muitos imigrantes italianos que viviam de pequenos comércios, regateando; como também, sua morte num tacho de macarronada); é conhecido por Gigante, remetendo à Antiguidade (mitologia) e por Piaimã (comedor de gente), origem indígena.
Macunaíma como um herói deve vencer o inimigo para restituir à cultura brasileira (a muiraquitã). Há também o aparecimento da antropofagia através do personagem, Piamã, comedor de gente.
No entanto, o dualismo entre o “nosso herói” versus o Gigante está focada na oposição primitivismo X civilização; mato virgem X cidade grande; natureza X máquinas; imperador X gigante.



Brasil ou América Latina


Mario de Andrade em seu projeto não se limitou apenas às fronteiras do Brasil.
O autor amplia seu espaço, ao narrar que Macunaíma, Imperador do Mato-Virgem, governa no Capão de Meu Bem, localizado nos cerros da Venezuela e quando retorna de São Paulo, Macunaíma dirige-se a foz do rio Negro buscar a consciência deixada na ilha de Marapatá antes de sua partida, mas não a encontra. “Então o herói pegou na consciência dum hispano-americano, botou na cabeça e se deu bem da mesma forma”.


Final otimista!!???


O herói escolhido para construir a identidade brasileira fracassou, perdeu-se em seu intento, por falta de caráter ou por incapacidade de enfrentar uma cultura dita “superior”.
O certo, é que ele não tinha mais espaço na terra e a solução era torna-se “o brilho bonito mas inútil porém de mais uma constelação”. Antes, contudo, escreve uma espécie de epitáfio em uma laje: “Não vim no mundo para ser pedra”, deixando claro que a civilização brasileira não estava morta, inerte, transformada em pedra e sim, iluminada e transmitida no vasto do céu tornando-se tradição.
Portanto, a obra apresenta um desfecho otimista oferecendo a possibilidade de se resgatar a identidade brasileira com cultura própria, deixando o futuro do Brasil em aberto.
É interessante refletir sobre a localização da Ursa Maior que é uma constelação do hemisfério norte, porém que pode ser vista em todo Brasil, sempre na direção norte (região amazônica), onde se encontra a muiraquitã.