segunda-feira, 13 de setembro de 2010

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA (1911)


I – AUTOR:




AFONSO HENRIQUE DE LIMA BARRETO

(Rio de Janeiro, 1881 – 1922)


“Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito!”

Lima Barreto


Filho de pai português e de mãe escrava nasceu no Rio de Janeiro em 1881. Perdeu a mãe ainda criança e foi morar com o pai na Colônia de Alienados da Ilha do Governador, onde o pai trabalhava no almoxarife do hospício. Lima Barreto, mulato e pobre, concluiu o curso secundário graças à proteção de seu padrinho, o Visconde de Ouro Preto. Ingressou na Escola Politécnica e seu sonho de tornar-se engenheiro foi interrompido pelas dificuldades econômicas, pelo alcoolismo e pela doença mental que abalou seu pai.
Empregou-se como escrevente na Secretaria da Guerra e pela sua formação cultural
(o autor era um autodidata), colaborou em vários jornais.
Em 1905, tornou-se jornalista do Correio da Manhã, e quatro anos mais tarde publicou, em Lisboa, seu primeiro romance: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Nesse trabalho, há fortes elementos autobiográficos, principalmente quando o autor focaliza os bastidores dos grandes jornais brasileiros de opinião, e o tema do preconceito racial, de que sempre se sentiu vítima.
Em 1911, Lima Barreto publicou, em forma de folhetim, seu romance mais conhecido, Triste Fim de Policarpo Quaresma. Em 1914, sofreu sua primeira internação, num hospício. Foi afastado por invalidez da Secretaria de Guerra, em 1918, e passou novo período no sanatório. Em 1920, candidatou-se sem sucesso à Academia Brasileira de Letras.
Perseguido pelo preconceito racial e econômico, boêmio, solitário, incompreendido, entregou-se à depressão e ao alcoolismo. Lima Barreto foi internado duas vezes na Colônia de Alienados na Praia Vermelha e faleceu vítima de um colapso cardíaco, aos 41 anos de idade, alguns meses depois da Semana de Arte Moderna, no Rio de Janeiro.
Sua experiência de vida deu-lhe alicerce para desmascarar a burguesia hipócrita de sua época e retratar os subúrbios cariocas habitados pelos humilhados e oprimidos.
A proximidade entre o jornalismo é visível em seus textos, nos quais a simplicidade e a objetividade da linguagem, sua aproximação da fala cotidiana e a ironia opõem-se ao beletrismo dos parnasianos e estão voltadas para a denúncia das mazelas e as arbitrariedades nacionais no período pós-republicano, de que o autor traça um verdadeiro painel crítico e repleto de indignação.


II -OBRAS:

Romance: Recordações do Escrivão Isaías Caminha
Triste Fim de Policarpo Quaresma
Numa e Ninfa
Vida e Morte de M.J.Gonzaga e Sá
Clara dos Anjos

Conto: Histórias e Sonhos

Sátira Política e Literária: Os Bruzundangas
Coisas do Reino do Jambon

Humorismo: Aventuras do Dr.Bogoloff

Artigos e Crônicas: Feiras e Mafuás
Bagatelas

Crônicas: Marginália
Vida Urbana

Memórias: Diário Íntimo
Cemitério dos Vivos

III – CARACTERÍSTICAS:

Segundo Moisés Gicovate, eis as principais características da obra de Lima Barreto:
– Não copiou nem imitou. Os personagens de Lima Barreto são arrancados de sua própria vida; escrevia por necessidade, era uma forma de libertar-se, de analisar-se a si próprio.
- Os escritos são, em grande parte, autobiográficos; encerram muitos fatos verdadeiros, com a interpretação de Lima Barreto.
- A espontaneidade e a marca de seu estilo: fazia da pena o instrumento do coração.
- Lançou mão da sátira, da ironia e do humor. Certo, tudo isso é um meio de defesa, ou, segundo Freud, é mesmo o principal meio de defesa. De qualquer forma, a caricatura e a mordacidade faziam ressaltar a brutalidade e o ridículo de certas situações e, na medida em que se fundamentavam na realidade, eram objetivamente válidas.
- A obra de Lima Barreto aborda quase tudo, no seu tempo: forma de governo, organização econômica, preconceitos de raça, a burocracia, os tráficos de influência; os grupinhos, as sociedades de elogio mútuo - sem as quais o literato era condenado à marginalização.
IV – ESTILO LITERÁRIO:


Os críticos geralmente concordam em situar Lima Barreto entre os pré-modernistas: "Caberia ao romance de Lima Barreto e de Graça Aranha, ao largo ensaísmo social de Euclides, Alberto Torres, Oliveira Viana e Manuel Bonfim, e a vivência brasileira de Monteiro Lobato o papel histórico de mover as águas estagnadas da "belle epoque", revelando, antes dos modernistas, as tensões que sofria a vida nacional" (Bosi, HCLB, Cultrix, 2ª. ed., p. 344).
O período que vai de 1902 a 1922 é considerado "atípico" dentro da literatura brasileira. Tivemos uma série de "neos": neo-realismo, neo-parnasianismo, neo-simbolismo, todos sem maior expressão. O que triunfou, mesmo, foi uma sintaxe acadêmica, lusitanizante, que cortou por um momento a irrupção do projeto linguístico brasileiro, começado no Romantismo e continuado no Realismo. Lima Barreto rompeu com essa literatura muito antes do Modernismo.


V – LINGUAGEM:

Enquanto alguns escritores do período escreviam como se estivéssemos no melhor dos mundos e viam a literatura como "o sorriso da sociedade" (Afrânio Peixoto), Lima Barreto escancarou as janelas e deixou entrar o cheiro forte da realidade. Ele assumiu os problemas do seu tempo e examinou-os em seus romances. Foi, sobretudo, o "romancista da Primeira República", vista pelos olhos da classe média dos subúrbios do Rio. Enquanto os historiadores oficiais falavam nas lutas patrióticas da consolidação da República, ele via o outro lado da medalha: o povo, massa de canhão totalmente inconsciente do que se passava; a luta pelo poder entre os barões da agricultura e a burocracia militar ou civil; e, sobretudo, a vida dos subúrbios, com seus dramas e suas pequenas felicidades, seus grotescos e ridículos, seu lado terno e humano.
A tradição desse romance realista remonta as "Memórias de Um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, e, depois de Lima Barreto, só teria continuadores expressivos já em pleno Modernismo, com o romance regionalista.
Lima Barreto rompeu conscientemente com a linguagem anacrônica e classicizada de um Rui Barbosa, de um Coelho Neto, de tanto prestígio na sua época e acusava os escritores acadêmicos de fazerem da literatura "uma continuação do exame de português". Foi por isso, e por alguns pequenos descuidos em suas obras, que os adversários o acusaram de desleixado, quando na verdade ele rompeu voluntariamente com os representantes da "idade de ouro do lídimo linguajar castiço e vernáculo" (M. Cavalcanti Proença). O combate a tal tipo de linguagem seria retomado pelo Modernismo. Lima Barreto chegou primeiro.
Os diálogos em “Triste fim de Policarpo Quaresma” são, geralmente, de extraordinária espontaneidade e adequação as personagens: a fala de Genelício é sempre pedante, afetada e superior; a do Major Quaresma trai as suas leituras patrióticas e seu jeito tímido a formaliza; a de Vicente Coleoni é entremeada de expressões e palavras italianas...


VI – FOCO NARRATIVO:

A narração é feita em terceira pessoa, "narrador onisciente". Em pequenos trechos, a história é contada pelas próprias personagens, como as circunstâncias da guerra que o major Quaresma descreve, em carta, a sua irmã Adelaide. Como o autor conduz simultaneamente vários núcleos dramáticos (várias histórias), ele às vezes antecipa alguns fatos para em "flash-back", voltar atrás e explicar como as coisas sucederam. Assim, no terceiro capítulo, Genelício dá a notícia de que o Major Quaresma fora internado num hospício. E só no capítulo quarto é que iremos saber as causas e circunstâncias desse internamento.
Lima Barreto desenvolve, simultaneamente, o núcleo principal e os núcleos secundários da história. Em quase todos os capítulos comparece a totalidade dos protagonistas. Para isso o autor se vale de encontros fortuitos entre as personagens, ou de correspondência, ou de visitas recíprocas, ou festas e almoços para narrar paralelamente à história de todos e de cada um.


VII – TEMPO:

O tempo da narrativa é cronológico: os fatos, normalmente são apresentados em sua sequência temporal. Em algum capítulo, temos um "flash-back" para restabelecer o elo perdido.
A ação do romance situa-se numa época precisa: a da implantação da República no Brasil, com os governos de Deodoro e, sobretudo, do Marechal Floriano.
Os acontecimentos políticos são vistos no livro não pela ótica oficial, mas pelos olhos do povo e, em particular, na perspectiva da classe média suburbana.
Sob o aspecto sociológico, Lima Barreto conseguiu uma pintura perfeita: surge diante dos olhos aquela época dos fraques, das casacas e sobrecasacas, do pince-nez (óculos de um aro só), das correntinhas de ouro nas cavas dos coletes, das bengalas e das cartolas... Dorme-se de camisão, paga-se em ceitis, mil réis e contos de réis. Anda-se de coches, de tílburis e de bondes puxados a mulas, joga-se o "pocker", as mulheres enfiam-se em cassas bem engomadas... As gravatas têm alfinetes, as casas são ornamentadas com monogramas na porta de entrada, compoteira nas cimalhas "e outros detalhes equivalentes..."


VIII – ESPAÇO:

Com exceção dos meses passados no "Sossego", a obra se ambienta, como outras de Lima Barreto, no Rio de Janeiro e, sobretudo, em seus subúrbios. Há um pano de fundo maravilhosamente bem retratado, econômica, social e folcloricamente: o sossego das ruas da periferia, as fofocas, a vigilância e o comentário dos vizinhos sobre os vizinhos, os tipos populares – como o próprio e inesquecível Ricardo Coração dos Outros. “A "aristocracia" dos subúrbios, composta de funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos de alguma clínica, de tenentes de diferentes milícias, nata essa que impara pelas ruas esburacadas daquelas distintas regiões..."
Além do ambiente burocrático das repartições públicas, a "papelada inçada", as conversas e "gozações" que são descritos com grande vivacidade; afinal, Lima Barreto o conhecia muito bem. Outra reconstituição perfeita é a do hospício porque é feita com fibras de sua própria vida e experiência, onde Quaresma passou uma temporada.
O sítio do "Sossego" é descrito logo no início da segunda parte.
O lugar tinha "o aspecto tranquilo e satisfeito de quem se julga bem com sua sorte". "A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe". Essa planície era cortada por um regato de águas sujas e, qual uma fita, pela via férrea. A habitação "era também risonha e graciosa nos seus muros caiados. Edificada com a desoladora indigência das nossas casas de campo, possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e uma varanda com uma colunata heterodoxa".
Outra excelente descrição dos subúrbios do Rio aparece no segundo capítulo da segunda parte. Finalmente, nos últimos capítulos do romance a ação decorre muitas vezes a beira-mar. E não faltam as poéticas reconstituições desse ambiente: a cerração que de manhã envolve tudo, o pôr-do-sol na praia...
O centro da cidade, a época da rebelião, era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava soldos dobrados... Os teatros eram frequentados e os "restaurantes" noturnos também.
Em contraste, o Campo da São Cristóvão: "ia vendo aquela sucessão de cemitério, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte".


IX – PERSONAGENS:

Lima Barreto, com este romance, criou tipos que já não mais lhe pertencem, mas à literatura brasileira. Em particular, o major Policarpo Quaresma e o menestrel "Ricardo Coração dos Outros".

MAJOR POLICARPO QUARESMA:

"Era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas quando fitava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava". "Contudo, sempre os trazia baixos como se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo". "Vestia-se sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo..." Tudo "made in Brasil": "de tudo que há nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com um pano nacional, calço botas nacionais e assim por diante."

Quaresma não tendo podido ser militar, tornou-se um burocrata, tendo chegado a subsecretário do Arsenal de Guerra.
Há quase trinta anos, a rotina do Major servia de relógio para a vizinhança. Vivia isolado, com a irmã Adelaide. Dedicava-se a estudar e conhecer o Brasil e suas riquezas, possuindo ótima biblioteca especializada nesse tema. Os colegas o respeitavam por sua modéstia e honestidade, mas, caçoavam de seu patriotismo infindo: "Este Quaresma! Que cacete. Pensa que somos meninos de tico-tico. Arre! Não tem outra conversa."
O que ele tem de mais característico, no entanto, é a sua filosofia de vida: "... uma disposição particular de seu espírito, forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente".

ADELAIDE, irmã de Policarpo:

“Era uma bela velha de corpo médio", ser metódico, ordenado e organizado, de idéias simples, médias e claras, seus olhos verdes não revelavam nenhuma paixão ou ambição."

Era totalmente diferente do irmão e não o entendia em nada. Censurava-o constantemente pela rigidez da preferência pelos artigos nacionais. Queixava-se dos temperos nacionais, da manteiga rançosa, da falta de "flores de verdade" no jardim...
Tinha seus cinquenta anos, quatro a mais que o Major.

ANASTÁCIO: era o criado que desde sempre acompanhava o Major. Preto africano muito trabalhador, mas precisava de comando por que era "baldo de iniciativa, de método, de continuidade no esforço".

VICENTE COLEONI, imigrante italiano a quem Quaresma emprestava dinheiro num momento difícil e que, vindo a prosperar em quitandas e na construção civil, jamais perdeu a gratidão. Vivia num palacete em Real Grandeza, com a única filha, Olga, afilhada do Major. Alma boa, reta, sempre fiel ao compadre, de quem, no entanto, não entendia suas excentricidades.

OLGA: era muito querida pelo Major, e lhe ocupava no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria. "Era pequena, muito mesmo". No seu rosto, nada de grego. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e própria, com seus grandes olhos negros e luminosos. "A boca pequena, de um desenho fino, exprimia bondade, malícia, e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade". Casou-se meio sem convicção com o Dr. Armando Borges, por quem perdeu toda a afeição. É de notar que, no romance, Olga parece muitas vezes exprimir as opiniões pessoais do próprio autor.

RICARDO CORAÇÃO DOS OUTROS: famoso por sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em cujos "saraus" ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de duques. Depois ela cresceu, e ele passou a "frequentar e honrar" as melhores famílias do Meier, Piedade e Riachuelo.
“Já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome...”
“Era magro, baixo, pálido, quase sempre carregando um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Vivendo para o violão e as modinhas, e para o ideal de chegar até Botafogo ficava alheio as contingências terrenas, isolado no seu cubículo de uma casa de cômodos, almoçando café, que ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma tasca próxima".
A sua figura de cabo recrutado à força era cômica: "a blusa (do fardamento) era curtíssima sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente; e as calças eram compridíssimas e arrastavam no chão".

Várias personagens estão ligadas à permanência de Quaresma no sitio Sossego:

FELIZARDO: muito trabalhador, foi contratado por Quaresma. Casado com a curandeira Sinhá Chica. "Era magro, alto, de longos braços, longas pernas, como um símio". Muito conversador, leva-e-traz. Rebentando a revolta da Esquadra, ocultou-se para fugir ao recrutamento.

SINHÁ CHICA, mulher de Felizardo, "velha cafuza, espécie de Medéia esquelética, cuja fama de rezadeira pairava por todo o município". "Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino, abismada nos misteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de múmia, tanto ela era encarquilhada e seca."

MANÉ CANDEEIRO: outro contratado. Era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amolecidas pelo sangue africano. Falava pouco e cantava muito.

TENENTE ANTONINO DUTRA: escrivão da Coletoria de Curuzu. Representa juntamente com o Dr. Campos, os piores vícios de nossa política do interior. Apareceu no "Sossego" sob pretexto de angariar donativos para Nossa Senhora da Conceição e, na realidade, para tirar suas conclusões sobre a "política" do Quaresma. Atacou o Major pela imprensa e intimou-o a pagar 500.000 réis de multa, por ter enviado umas batatas para o Rio. A sua gordura "tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de repente e comia a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro".

DR.CAMPOS: médico, presidente da Câmara Municipal de Curuzu. "Jovial, manso, de grande corpo, era alto e gordo, pançudo um pouco, olhos castanhos, quase a flor do rosto, uma testa média e reta; o nariz, mal feito". Um tanto trigueiro de cabelos corridos e já grisalhos – era um caboclo, mas o bigode era crespo. Tinha de cor uma meia dúzia de receitas, nas quais conseguira enquadrar as doenças locais. Tendo proposto um golpe a Quaresma, como este recusasse, passou a persegui-lo.

GAL. ALBERNAZ:

"Nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro". "O altissonante título de general... ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar pistolões para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar". "Era alto, o pescoço enterrado nos ombros, e o seu pince-nez era preso por um trancelim (corrente) de ouro que lhe passava por de trás da orelha esquerda. Em suas conversas, era indispensável uma referência a Guerra do Paraguai, dramatizada, importante". – O Sr. esteve lá, não foi, General ?" "- Não, adoeci antes e voltei ao Brasil. Mas o Camisão esteve..."

DONA MARICOTA, esposa de Albernaz:

"Muito ativa, muito inteligente, não havia dona de casa mais econômica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas". A pequena cabeça de cabelos pretos contrastava muito com o seu corpo enorme.
Ismênia, Quinota, Zizi, Lalá e Lulu eram os filhos do casal. Ismênia era noiva de Cavalcanti, Quinota casou-se com Genelício e Lalá noivava com o tenente Fontes.

ISMÊNIA:

"Era até simpática, com a sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade". Seu noivado com Cavalcanti durava anos: havia cinco que ele arrastava um curso de Odontologia de dois anos. "Na vida, para ela, só havia uma coisa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nela a pedia". "Amorenada, o seu traço de beleza dominante era os seus cabelos castanhos, com tons de ouro, sedosos ate ao olhar". Psicologicamente, era de uma natureza pobre, incapaz de qualquer vibração sentimental. Mostrava uma bondade passiva, indolência de corpo, de idéias e de sentidos. Ante a fuga do noivo, cujo pedido de casamento fora tão comemorado, viu desmoronar o sentido de sua vida. Incapaz de reunir forças para reagir, humilhou-se, entristeceu-se, definhou, enlouqueceu, morreu.

CAVALCANTI: tinha olhos esgazeados, o nariz duro e fortemente ósseo. Durante o curso fora financiado nos livros, taxas e comida pelo futuro sogro. Formado, dirigiu-se para o interior e nunca mais deu notícias à noiva.

CONTRA-ALMIRANTE CALDAS: nunca embarcara, a não ser por pouco tempo, na Guerra do Paraguai. Certa vez, deram-lhe o comando de um navio inexistente. Como não conseguisse encontrá-lo, apresentou-se aos superiores, foi preso e submetido a julgamento. Absolvido, nunca mais caiu nas graças deles. Levou quarenta anos para chegar a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, "todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas que se referiam a promoção de oficiais. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua reforma, choviam sobre os sucessivos ministros... Viu fugir a última esperança por ocasião da revolta da esquadra, quando ficou ao lado de Floriano, calculando que ele necessitaria de militares daquela arma, ensejando-lhe, afinal, a oportunidade de comandar uma frota."

INOCÊNCIO BUSTAMANTE: tinha a mesma mania demandista do Caldas. Renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major honorário, vivia com requerimentos pedindo diversas coisas: medalhas, honras de tenente-coronel...
A rebelião foi a sua oportunidade de ouro: imaginou e organizou o batalhão "Cruzeiro do Sul", cuja responsabilidade ficou de fato nos ombros de Quaresma, mas que deu, a ele, a patente tão ambicionada. No seu uniforme, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia, com uma banda roxa e casaquinha curta, "parecia ter saído, fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles... "Tinha uma, barba ‘mosaica’ e a sua especialidade, no batalhão, era cuidar da escrita, com caligrafia caprichada, tinta azul e vermelha.”

DOUTOR FLORÊNCIO: "Os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola. Era mais um guarda de encanamentos que mesmo um engenheiro".

GENELÍCIO: personagem estereotipado, convencional, caricatural. Nitidamente "plano", e brindado com todos os defeitos que mais aborreciam o próprio Lima Barreto:

"Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro". "Não havia ninguém mais bajulador do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha!" "Sabia todos os recursos para se valorizar perante os chefes. "Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Era tido em grande conta, e juntava a sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar". "Pequeno, já um tanto curva do, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos. Era um escriturário".

Casou-se com Quinota, filha do Gal.Albernaz.

TENENTE FONTES: noivo de Lalá, a terceira filha do Albernaz. Entendia de artilharia e serviu, na revolta, sob o comando de Quaresma - a quem, aliás, não se subordinava. "Era positivista e tinha de sua República uma idéia religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade humana... " "Era magro, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali". Falava com unção, a voz arrastada e nasal em tom de oratória.

DR.ARMANDO BORGES: outro tipo caricatural, como o Genelício. Casado com Olga, e por isso enriquecido, não se satisfazia: "a ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-no". Médico do Hospital Sírio, em meia hora atendia a trinta ou mais doentes. Seu grande sonho era ser médico do Estado, e valeu-se da rebelião para alcançar seus objetivos. Desonesto, roubara escandalosamente de uma órfã rica - o que lhe valeu o desafeto da esposa. Achava que o seu pergaminho e o anel de doutor tornavam-no superior aos mortais comuns. Procurava ficar sempre em evidência, por amizades com jornalistas e publicação periódica de artigos, "estiradas compilações, em que não havia nada de próprio". Para dar a impressão à esposa e aos outros de que estudava muito, arranjava para ler novelas de Paulo de Kock em lombadas de títulos trocados... Sua última invenção para se manter superior foi a de "traduzir para o clássico as coisas que escrevia, invertendo os termos da oração, repicando-a com vírgulas e entremeando-a com meia dúzia de vocábulos arcaicos.”


X – ESTRUTURA:

Lima Barreto publicou o romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma” em março de 1911. O livro possui três partes: a primeira conta a vida pacata de Policarpo Quaresma, a segunda mostra a vida do protagonista enquanto na fazenda Sossego e a terceira Quaresma vai à guerra e sofre seu duro fim.


XI – ENREDO:

“Triste fim de Policarpo Quaresma”

PARTE I:
O Major Policarpo Quaresma ou Major Quaresma era daqueles homens pontuais, chegava sempre do serviço às dezesseis e quinze. Quando ainda moço quis servir ao exército, mas por uma característica de seu corpo não pode realizar esse sonho. Desgostou-se, porém manteve fiel a pátria.
Estudou administração e escolheu o ramo militar para seguir carreira, como subsecretário no Arsenal de Guerra. Por ser um funcionário público perfeccionista e metódico é respeitado como homem sério e íntegro pela vizinhança, ficando conhecido como Major Quaresma.
Nacionalista exacerbado, durante seus lazeres burocráticos, estudava a Pátria em todos os sentidos: histórico, geográfico e político.
Gostava do clima dos batalhões, adorava ficar entre soldados e canhões. Lia tudo que dizia respeito ao Brasil, amava sua terra como um todo, não fazia distinção dos estados tão pouco da diversidade cultural nacional. Possuía em casa um vasto arsenal de livros. Sabia a geografia de todos os rios. Jamais aceitava ver alguém afirmar que o Nilo ganhava do Amazonas em extensão. Só tinha em mesa, comidas típicas da sua querida terra. No jardim só crescia plantas regionais. No trabalho ministrava verdadeiras aulas aos seus colegas, muito ouviam com respeito, menos o Sr. Azevedo. Não demorou em tarja-lhe um apelido, Ubirajara, pois estudava Tupiniquim. Viu no violão algo brasileiro e passou a tomar aulas, em casa, com um trovador de modinhas, o Ricardo Coração dos Outros. A vizinhança não gostava desse seu novo gosto, via no violão coisas de vagabundo. Em uma bela tarde, Ricardo foi à residência do discípulo onde jantou um prato com iguarias nacionais, depois foi ensinar ao aluno a arte dos malandros, como acreditavam todos. Quaresma não levava jeito. Coração dos Outros por fim cantou e tocou uma modinha. A janela estava aberta, os vizinhos chegaram para apreciar. Ismênia bate a porta, vinha pedir ao tocador que fosse a sua casa, o pai dela desejava muito conhecer o moço e vê-lo tocar.
Policarpo após trinta anos de estudos achava que o momento era oportuno para colocar suas ideias em prática. Queria ver o Brasil superar em prestígio a Inglaterra, afinal, o Brasil como ele mesmo afirmava, possuía todas as frutas, animais e climas.
O General ao ouvir o tocador ficara muito animado e com a ajuda de Quaresma saíram à procura da casa de certa lavadeira, de nome Maria Rita, na esperança que esta velha senhora os ensinasse antigas modinhas. Passaram por casas antigas, essas não lembrava mais as dos reinados; andam na antiga estrada que trazia o ouro das Minas Gerais, para uma corte imponente onde o rei era relaxado tendo como soldados homens tristes e fracos montando pangarés.
Chegaram a uma casinha baixa, ao lado havia um monturo e um mamoeiro. Bateu à porta. Uma moça de cor escura apareceu e mandou-os entrar.
“Nas paredes havia jornais antigos, folhinhas contendo calendários de anos mortos e imagens de santos. Não tardou para a velha entrar capengando pela porta. Sua memória o tempo consumia como algo que nascera fardado ao desaparecimento. Não conheceu o General.
- Queremos saber umas cantigas: Bumba-meu-boi, Boi Espácio.”
Maria Rita em seu esquecimento já acelerado pela velhice dava por desentendida. De tanto insistirem lembrou a do “Bicho Tutu”.

“É vem tutu
Por detras do murundu
Pra cumê sinhozinho
Com bucado de angu”.

Isso é coisa para fazer menino dormir, indagou o General. Foram embora e ficaram desanimados por alguns dias. Soube que havia um poeta que sabia tudo soube folclore. Correram a casa do velho. Ele os mostrou alguns textos, por fim resolveram fazer o “Tango-Lomango”.

“Uma mãe teve dez filhos
Todos dez dentro de um pote
Deu um Tangolomango nele
Não ficaram senão nove”.

Na festa do amigo, Policarpo vestiu o capote e fez o Tangolomango. Na quinta criança ele se espatifou no chão.
Passou a estudar folclore. Decepcionou em saber que as velhas cantigas pertenciam a outras pátrias. Nem mesmo o Tangolo-mango era fruto de algum formidável brasileiro.
Recebeu um amigo em casa, em vez de um aperto de mão o saudou com um chororô, como faziam os Tupinabás.

No capítulo terceiro, o autor nos transporta a uma festa em casa do general Albernaz, em comemoração ao noivado de sua filha, Ismênia, com o dentista recém-formado Cavalcanti.
O estudante de odontologia chegava, após muitos anos, ao término do curso. Marcaram a data para dali a três meses. D. Maricota estava feliz, o General nem se fala. As irmãs ainda mais, pois já podiam pensar em casamento. As moças daquele tempo viviam para o casamento, sonhava com seu grande dia, era o auge da vida. A pobre noiva se detinha, não possuía aquela mesma animação das irmãs e colegas.
O dia chegou.
Albernaz convidou seus amigos da marinha e do exército. Relembraram velhas histórias. Dessa forma, o leitor é apresentado a várias personagens “tipos”: o contra-almirante Caldas, o Dr. Florêncio, o major Bustamante, as filhas do General: Quinota, Zizi, Lalá e Vivi e, sobretudo, Ismênia. D. Maricota, a esposa ativa do General, e a principal animadora da festa. A conversa banal, versando sempre sobre assuntos militares, as batalhas de que nunca participaram ou burocráticos.
Em outro aposento estava o noivo a conversar com pessoas mais simples. A noiva estava rodeada pelas amigas que palpitava sobre assuntos pertinentes a casamento, a vida conjugal. Coração dos Outros não fora convidado, pois não pegava bem um cantador de violão comparecer a um acontecimento desta ordem. Quaresma havia recebido convite, porém não quis comparecer. Maricota chama o esposo e os amigos dele para dá início ao baile. A dança começa e logo os amigos sentaram para um joguinho de cartas. Fizeram uma pergunta a D. Quinota a respeito do Genelício. Ele era o namorado da moça, empregado do Tesouro, bajulador nato, fazia de tudo para acender a vida pública. Genelício chega e comenta que Policarpo ficara doido. Quaresma havia escrito um requerimento ao ministro na língua tupi. Soaram alguns comentários injuriosos: “Livros só poderia ser lidos por aqueles com títulos acadêmicos”. O requerimento foi lido na assembléia, todos sorriram. Os jornais estamparam, em primeira página, o tal requerimento. Passaram-se duas semanas com destaque nos jornais. Quaresma estava na boca do povo, da pior maneira.
Coleoni lê no jornal as críticas ao velho amigo. Olga faz um breve comentário e defende o padrinho. Policarpo sempre fechado, vivendo na companhia calada de seus livros, via aquilo tudo sem muito importar, pelo contrário, afinava ainda mais suas velhas convicções.
As razões desse internamento são esclarecidas no capítulo seguinte: Quaresma havia dirigido um requerimento à Câmara, solicitando ao Congresso a adoção do tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. Isto foi comentado na sociedade, na repartição, na imprensa, e Quaresma foi alvo de chacota geral. Poucos dias depois, por distração, envia um oficio em tupi sobre coisas de Mato Grosso ao Ministro do Exército e sem se dá conta colocou-o junto a outros papéis e encaminhou-os ao diretor.
O ofício causou estrondoso rebuliço, pois ninguém sabia em que língua estava escrito. O ministro devolveu o ofício ao Arsenal. O Coronel ao ver o estilo das letras soube de imediato que era coisa de Quaresma. Suspendeu Policarpo até segunda ordem.
Este, sequer olhou os papéis, passou-os ao ministério, o que lhe valeu uma suspensão do serviço e novos aborrecimentos. Isolado, não suportou tanta decepção, o que o levou à loucura.
Durante o período de internamento, recebia as visitas de Ricardo Coração dos Outros e, sobre tudo, de Vicente Coleoni e sua filha Olga, que era afilhada de Quaresma. Os três cuidaram dos interesses do Major, conseguindo, inclusive, a sua aposentadoria.
Em uma das visitas de Olga, a afilhada comenta sobre seus planos de casamento com um doutorando em Medicina, Armando Borges. Quaresma indaga-a se realmente gostava do noivo. Ela pensou um pouco e respondeu que sim. Deixaram o local para ir pegar o bonde. Pararam ao ver uma mulher em pranto. Pensaram que o filho havia morrido. Ela respondeu que chorava por algo pior, seu filho não a reconhecia mais.
Entraram no bonde e foram para casa de Quaresma. Passaram pela cidade que parecia a um esqueleto, faltam-lhe as carnes, que são: a agitação, o movimento dos carros, de carroças e de gentes, pois era domingo.
Na residência de Quaresma, Ricardo Coração dos Outros conversava com D. Adelaide. Ele precisava escrever suas canções, pois deveria enviar ao Sr. Paysandon, da Argentina, porém não tinha cabeça para tal tarefa, a mesma estava ocupada com o fato de ter um rival, um negro que tocava demais o violão. Não havia nele preconceito, todavia um medo mórbido de perder o pouco prestigio que tanto o custou a conquistar. Chegam Coleoni e sua filha. Olga anuncia que irá se casar.
Enquanto isso, com Ismênia, as coisas não iam bem: depois do noivado, Cavalcanti sumira no mundo e nunca mais dera notícias. Humilhada, a moça começou a definhar.
Quaresma deixa o hospício após seis meses, mas retornava triste, o tempo passado em meio a loucos lhe causou grande abalo emocional. Olga sugere-lhe uma experiência bucólica e as velhas chagas voltaram a brotar no rosto já feliz do padrinho. Os sonhos antigos rebrotavam do chão seco e outra manifestação aflora em sua mente: a reforma agrária. Passou a lê sobre agricultura. Comprou uma propriedade de nome “Sossego”. Nela havia uma modesta casa, que ao longe via passar a linha de trem.

PARTE II:
Dessa forma, a segunda parte da obra é transferida para o sítio do Sossego, adquirido por Quaresma, atendendo a uma sugestão de Olga, depois que tivera alta no hospício. A intenção do Major, na verdade, era dar sequência aos seus planos patrióticos: provar que o Brasil é o maior país agrícola. Chegara à conclusão de que uma agricultura forte seria o principal alicerce da pátria. Vendeu a casa de São Januário e mudou-se para o sítio, a quarenta quilômetros do Rio, no município de Curuzu, acompanhado pela irmã, Adelaide, e pelo fiel criado Anastácio.
As primeiras semanas são dedicadas à exploração do local, que estava abandonado. Quaresma observa os espécimes vegetais e animais, as rochas, organiza um museu e uma biblioteca agrícola...
No sítio, Quaresma e Anastácio labutaram alguns dias catalogando a fauna e a flora que ali conviviam, além dos minerais. Assim que terminaram, pegaram-se no cabo da enxada e puseram a limpeza do terreno abandonado.
Enquanto Quaresma trabalhava, seus pensamentos flutuavam ao sabor do vento, sonhava com o farto lucro, tinha certeza que provaria a partir da agricultura que sua pátria era de grandeza maior que todas as outras existentes.
Cercou-se de instrumentos que acreditava lhe seriam úteis: termômetro, barômetro, pluviômetro, higrômetro, anemômetro... Mas o simples manejo da enxada foi aprendido com muita dificuldade, apesar da paciência do "mestre" Anastácio.
Um dia o trem pára, desce Ricardo Coração dos Outros que vem andando em seus passos miúdos trazendo seu violão, em direção a casa de Policarpo.
“As casas em abundância em um ponto, noutro poucas ou nenhuma; ruas largas aqui, ali vielas. Era no alto onde Ricardo tinha sua morada; um pequeno quarto com vista a perder horizonte adentro.”
Sentindo amargurado por ver seu rival ser aclamado, enquanto ele perdia lentamente seu prestigio, passou queixar-se da vida, a lembrar da infância na fazenda. Foi quando, recebeu uma carta do Coronel Albernaz convidando-o para o casamento da filha Quinota com Genelício. Ficou alegre e no dia aprazado, compareceu com seu instrumento.
Em uma sala reservada os homens do exército conversavam sobre guerras. Coração dos Outros chegou e ficou a apreciar a conversa. Para aqueles homens o Exército era a mais bela das profissões.
O noivo de Quinota havia escrito um livro de contabilidade. Fez muito sucesso e o fez subir de cargo. Maricota pede para que eles fossem ver a garota cantar e tocar piano e avisa Ricardo que logo após será a vez dele. A moça cantou e recebeu tímidas palmas. Coração dos Outros tocou uma das suas modinhas. Todos o saudaram de pé com um arsenal de palmas. Uma moça pediu a ele a canção escrita. Ricardo aproveita o momento e pede a Albernaz uma passagem para ir visitar Quaresma. O homem de farda mandou que ele o procurasse no outro dia. Ismênia pede a Ricardo para falar a Adelaide que mandasse cartas para ela.
Num "flash-back", o autor descreve a vida que Ricardo levava numa "casa de cômodos", num subúrbio do Rio, e descreve a "fauna" que habitava tais casas.
Certo dia, um escrivão da coletoria, Antonino Dutra bate à sua porta pedindo dinheiro para a festa da padroeira da cidade. Quaresma diz ao homem que deseja muito ajudar, ainda mais por ser algo autêntico nacional. Antonino comenta sobre a disputa política que aflorava na região e deseja conhecer a sua posição política, e a de Ricardo Coração dos Outros.
Quaresma não tinha interesse no assunto e ignorou-o.
Uma semana após o casamento de Quinota, foi à vez de Olga subir ao altar. Casava por conveniência. Esteve bela, como todas as noivas da sua classe social. O marido era então formado em medicina. Foram morar na casa do pai da noiva.
Ricardo Coração dos Outros passou um mês no sítio e foi um triunfo na vila, onde fez muitas amizades e recebeu inúmeros convites para cantar, entre eles, o Dr. Campos, médico do local, chefe político e presidente da Câmara Municipal.
Policarpo contrata mais um funcionário, Felizardo. Esse conversava demais, tudo que passava na vizinhança o Felizardo sabia, contou certa vez que ouviu um negócio, segundo o próprio, de polícia, onde falava do Tenente Antonino e Dr. Campos.
Ricardo compôs nova canção: “Os lábios da Carola”.
Olga e o esposo foram passar alguns dias na companhia do padrinho. A moça ao fazer um passeio com a família do Dr. Campos esteve em uma linda cachoeira, esta ficava perto da fazenda onde hospedara. Depois, impressionou-se com a miséria do interior. Viu a pobreza da população que possuía vasta extensão de terras, água e sequer erguiam a enxada a favor do seu sustento. Não conteve e questionou Felizardo. Este lhe explicou que as terras não eram daquela gente, e se plantassem as formigas carregavam tudo.
Quaresma recebe o jornal da manhã, “O Município”, de Curuzu e fica pasmo ao ver seu nome em uma poesia. Acusava-o de fazer política.
“Passou o dia triste e pensativo. À noite sentou na varanda para ler um livro. Os sapos cantavam em uníssono. Quando paravam um pouco escutava um estranho ruído. Os sapos voltavam a cantar. Parou-se o canto, o estranho barulho aumentara. Entrou casa adentro para ver do que se tratava. Saúvas carregavam da sua despenca os mantimentos. Tentou dá fim nos insetos. Quando matava uma, dez novas surgiam.”
Adelaide, a irmã de Quaresma, era solteira e mais nova que ele quatro anos. Vivia já há muito tempo na companhia do irmão, as ideias diferentes dele não a incomodavam. Policarpo vivia no mundo dos sonhos, idealizava um país prospero. Tinha como meta: fazer suas terras produzirem. Não reparava na miséria alheia nem investigou qual a causa da ociosidade daquela gente. Colheu a primeira safra de abacate, por muito insistir vendeu cem frutos pelo valor de uma dúzia. Ao deduzir as despesas o lucro foi ínfimo, não compensava o trabalho. Em vez de ficar desanimado o fez ainda mais convicto da sua missão. Contratou mais um funcionário, esse iria ajudá-lo no trato com as fruteiras. Mané Candeeiro era de pouca conversa, no entanto cantava feito passarinho. Criava seus próprios versos. Um desses chamou a atenção do patrão, pois fora o único a falar de um pássaro da fauna local.
Plantou o milho, a batata, cresciam para mais de um palmo.
Certa noite, ao acordar alegre como sempre, viu o fruto de seu trabalho sumir ao sabor de uma noite. Na despensa, depara com milhares de formigas que carregavam as suas reservas de milho e feijão. A partir daí, travaria uma luta sem tréguas com elas - e não conseguiria vencê-las.
As saúvas haviam levado tudo para debaixo da terra. Sem desanimar, com muita determinação, comprou inseticida e atacou todas as casas de formiga que via pela frente. Quando pensava que o sossego chegara, às pestes ressurgiam com mais força em ritmo veloz de organização e trabalho que colocava inveja ao mais hábil humano. Para vencer a praga deveria agir em conjunto com os proprietários vizinhos. Com todos esses desafios, ainda assim o sítio proporcionou lucro. Colheu muita batata e abóbora. Angariou dois mil reis. A irmã ao ver aquela pequena quantia aconselhou-o parar com tamanha barbaridade, pois não compensava o suor derramado. Nada fazia Quaresma desistir dos seus objetivos.
No entanto, o duro aprendizado agrícola começava a mostrar-1he o verdadeiro vulto dos problemas nacionais: as pragas, como as formigas; os preços vis pagos ao produtor pelos atravessadores do Rio, onde colocava a produção do "Sossego"; a miséria, a pobreza e a improdutividade das terras.
Dr. Campos vai à residência de Policarpo propor que ele siga seu partido político. Não houve acordo. No dia seguinte chega uma carta ordenando que Quaresma limpasse uma faixa de terra defronte a sua chácara. Ele recusou a fazer o trabalho. No outro dia chega uma intimação avisando-o que deveria pagar um imposto pelas mercadorias vendidas. Começou a descobrir aí por que tanta miséria, os empecilhos era a grande trava ao progresso. Para que as terras do Brasil produzam deveria fazer uma reforma urgente no administrativo.
Felizardo diz ao patrão que não mais irá trabalhar. Ao ser indagado qual o motivo, ele passa a Quaresma um jornal. Lê e fica sabendo que a esquadra havia insurgido e intimado o Presidente a deixar o poder. Ficou alegre, pois via nesse golpe de Estado, uma chance para mudar o país.
O Brasil precisava realmente de um governo forte, para reformar em profundidade a administração e espalhar "sábias leis agrárias"... Talvez um novo Henrique IV (França), assessorado por um novo Sully.
E os acontecimentos pareciam ajustar-se as suas reflexões. Estalou, no Rio, a revolta da Esquadra contra Floriano. “Não seria este "Marechal de Ferro" o homem providencial, o governante forte de que o Brasil precisava? Foi ao correio e telegrafou: Mal. Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já - Quaresma".

A narrativa é transferida então, ao Rio para retratar a movimentação e os interesses particulares das pessoas trazidos pela revolta. Muitos fazem cálculos para avaliar os benefícios que ela lhes pode trazer: Albernaz terá uma comissão extra para reforçar as combalidas finanças; Caldas espera, enfim, comandar uma frota do Governo e ganhar suas infindáveis demandas; Fontes, positivista, criticava os insurretos e Bustamante já organiza um batalhão patriótico de voluntários; Genelício não perderia a chance para se promover a subdiretor da Secretaria da Fazenda e o Dr. Armando Borges enfim conseguiria ser médico do Estado.
Enquanto isso, no seu cubículo, Coração dos Outros, indiferente, ignorante de tudo, compunha suas modinhas e cantava os lábios da sua Carola, "onde encontrava a doce ilusão que adoça a vida..."

PARTE III:
A cidade do Rio de Janeiro fervia de soldados e adeptos. Albernaz e Costa andavam na direção da estrada de ferro. No caminho passam pelas árvores que deitava suas sombras a rua. Encontraram um soldado dormindo, acordou-o e indagou-lhe sobre os navios. Ao fim, mando-o ir embora para não ser vítima de ladrões. Albernaz viu uma moça na estação e quase chorou ao lembrar-se da filha Ismênia. A pobre filha andava passo a passo rumo à debilidade total.
Na cidade o clima era tenso, os que trabalhavam no setor público viam-se coagidos, os demais esperançosos com o futuro. Cada qual sonhava com suas realizações pessoais: o esposo de Olga desejava ser agraciado com um cargo de alto escalão, fingia ser estudioso, pouco conhecia da própria profissão. O amor da mulher por ele ia se acabando, pois o que a fascinava era os dotes intelectuais dele, ao saber da farsa, perdeu o carisma passando a ter raiva.
Ricardo Coração dos Outros vivia socado em casa. Sua fama crescera a tal ponto que nem se ouvia falar mais no nome do rival. Passava o tempo a escrever suas canções, preparava um livro. Saia à rua e tão logo retornava para seu quartinho. Enquanto relia um de seus trabalhos, “Os lábios de carola”, ouviram-se um tiro, outro e mais outro.
Quaresma deixou a Saudade e foi ao Palácio do Marechal Floriano. Ficou sentado um bom tempo esperando a coragem chegar para ir conversar com o novo rei da pátria.
A descrição do Presidente é antológica: "... tinha ainda o palito na boca, como sinal do almoço; sua fisionomia era vulgar e desoladora. O bigode caído, o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande "mosca"; os traços, flácidos e grosseiro. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões" "e todo ele era gelatinoso, parecia não ter nervos". "A sua concepção de governo era a de uma tirania doméstica: o bebê portou-se mal, castiga-se". "Portar-se mal era fazer oposição, e os castigos eram a prisão e morte.”
Floriano deixava transparecer uma preguiça mórbida, não a que acomete a homens fracos, mas aquela que toma do corpo. Lento nas decisões e humilde ao ponto de se igualar a subalterno. Chegado a sua vez teve uma conversa amigável com o Marechal. Quaresma havia redigido um memorial sobre os problemas agrícolas do país, entregou-o a Floriano que recebeu com má vontade e pediu que o deixasse sobre a mesa.
"- Deixa aí...". O Bustamante, que também lá estava presente, não perdeu tempo e alistou o Major Policarpo no seu batalhão patriótico, cobrando-lhe, além disso, 400.000 mil reis pela patente de Major. Sem antes, o Marechal arrancar um pedaço do memorando e escrever um recado, depois se desculpou com Quaresma.
Quaresma pega o bonde e no trajeto escuta tiros. Albernaz o encontra e vão conversando.
Quaresma passa pela casa do compadre Coleoni para revê-lo e, em seguida, foi conhecer seu posto. Ficava em um antigo cortiço de pequenos cômodos. Ganhou fardamento e logo viu Ricardo entrar pela porta aos gritos e berros, pedindo que lhe devolvessem o violão.
Ele foi alistado "voluntariamente" e vinha puxado por dois soldados. Coração dos Outros pedia loucamente para que o amigo o salvasse. Ele até que tentou, foi a Bustamante, porém não obteve sucesso. Ricardo enfim, concordou, mas exigiu seu violão de volta, foi feito cabo.
A orla estava coberta por uma densa cerração. Os soldados andavam tensos a esperar o inimigo, que insistia em não aparecer. Ricardo olhava aquela praia feia, diferente, estava acostumado a apreciar os lindos arvoreceres. Desejava cantar e tocar seu violão. Pediu o Major Quaresma, o mesmo consentiu desde que não fosse muito alto.
Em uma dessas noites surgiu uma lancha e lançou fogo, o projétil passou longe. E assim seguiu um lado tentando acertar o outro. Um rapaz gritava sempre que uma bala não atingisse seu alvo: “Queimou!”. Quando uma dessas, algo raro, atingia seu objetivo, aparecia à notícia nas páginas dos jornais. Com o passar do tempo, aquilo que era novidade cai em rotina, perde as graças. A guerra então ficara monótona. A vida retornava ao seu antigo cotidiano, Quaresma procurou seus livros e os demais, cada qual, em seus afazeres.
Coração dos Outros foi pego tocando o violão. Tenente Fontes o proibiu de tocar em serviço e foi tirar satisfação com o Major Quaresma. Esse achou sensato, pois ali não era lugar para cantorias. Após a conversa Policarpo saiu pela rua impregnada de mortes e foi parar na residência do General Albernaz. Sentou a mesa com os amigos das primeiras visitas. A guerra já esfriara, com isso levava a esperança. Discutiam sobre os episódios, mas o entusiasmo já não era o mesmo. Quaresma observava na tentativa de ver Ismênia, perguntou ao General, ele respondeu que estava na casa de uma das filhas casada e que ia de mal a pior. Deixou o ambiente e voltou ao seu posto.
O Marechal Floriano chegou para uma visita, gostava de sair à noite para ver como andava suas tropas. Conversou com Quaresma e saiu. O Major o seguiu e pergunto-o se ele havia lido o memorial. A resposta foi um sim. Policarpo falava a todo vapor, entusiasmado, sem ver o rosto do Marechal. Ao entrar no bonde ele diz: “Quaresma, você é um visionário”.
Na rotina da revolta, o peso e o comando do "batalhão patriótico" acabaram ficando por conta do herói, que passava os dias e as noites no quartel, enquanto os outros arrumavam inúmeras regalias e dispensas. Quaresma estuda furiosamente as artes militares, como artilharia, balística, mecânica, cálculo... Quase todas as tardes trocavam-se tiros entre o mar e as fortalezas, e "tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas".
Quaresma encontra com Albernaz, esse vinha triste e pensativo. Logo veio o assunto relacionado à Ismênia. O general deixou lágrimas precipitarem. O quadro da filha havia piorado, estava enferma e de cama. Ele já tinha feito de tudo na intenção de restituir a saúde à filha, porém essa pouco a pouco perdia o ânimo para viver. Médicos, curandeiros, espíritas, todos ele tinha procurado. Chamou um negro, velho e de barba branca. Dançou, pronunciava línguas estranhas, apertava um sapo que trazia na mão e passava o ramo na enferma. Nada. O estado da moça piorava a cada dia. Ninguém conseguia tirar da cabeça dela aquela obsessão pelo casamento. Quaresma tentou animar o companheiro, disse-o que iria levar o marido da afilhada, Dr. Armando, para vê-la. E para casa de Olga ele foi. No caminho pensava nos conflitos, nas pessoas que morriam por um Marechal que não desejava o progresso. Fatos dos conflitos vinham à mente naquele instante.

“Havia na Guarda Nacional certo homem de nome Ortiz, feroz. Conta que ao passar um pescador ele perguntou quanto era o peixe. Três mil reis, respondeu o pescador. Faça um menos? Dois mil e quinhentos. Leve-o para dentro de casa. O pobre homem fez o que ele mandou, voltou e ficou esperando o dinheiro. Ortiz responde: “Dinheiro?
Vá cobrar do Floriano”.

Ricardo Coração dos Outros fora efetivado, agora era Sargento, mas vivia triste como um "melro engaiolado" porque não podia mais tocar seu violão.
A revolta já durava quatro meses. O Dr. Armando já conseguira sua nomeação, na vaga de um colega demitido por ter visitado um amigo preso. Quaresma começava a decepcionar-se ao ver a repressão violenta e os crimes do governo, e ao perceber que Floriano jamais faria as reformas com que sonhara. "Era, pois, por esse homem que tanta gente morria?"
Recebe de Bustamante a notícia de que o "batalhão" iria marchar à frente de batalha, sob o comando de Quaresma: ele mesmo arranjara uma desculpa para não ir: tinha que fazer a escrituração contábil da unidade.
Quaresma vai à residência de Olga e pede ao seu marido que vá a morada de Albernaz para tentar uma solução para o caso de Ismênia. Policarpo pensa em tirar uma folga e ir a fazenda ver a irmã e seu empregado Anastácio. Frustrou-se ao saber que iria guiar seu batalhão em uma empreitada. Dr. Armando vai visitar Ismênia e também não consegue restabelecer a saúde da moça. Dona Maricota vive a esperança de ver a filha curada. Ismênia em um momento de lucidez pede à mãe que quando vier a morrer que a enterrasse com o vestido de noiva que guardara para o casamento. Certo dia, ao ver a porta do seu guarda-vestidos aberta, olhou e deparou-se com seu vestido de noiva, levantou e pressentindo a morte, vestiu-se de noiva.

"O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza, uma cousa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora..." "Quando a vieram ver, estava morta".

Sentiu uma leve tontura e caiu sobre a cama. No velório o pessoal que acompanhava o féretro chorava e soltava muitos porquês. Quaresma observava aquela cena com ar estranho; as sepulturas nesse momento derradeiro da vida humana andavam lado a lado, pobres misturados com ricos, umas belas outras nem tanto, dentro apenas lama, rastos daqueles que por aqui passaram. “Não via nenhum túmulo de alguém famoso, todos enterrados ali levavam consigo suas débeis existências. O carro funerário chega. O chororó aumenta. Os cavalos partem levando o caixão e nele o corpo de Ismênia. O povo segue-o até o cemitério. Enquanto o cortejo passava as janelas se abriam e os curiosos observavam atentos.”

A chácara de Policarpo aos poucos retornava ao seu estado de outrora, desleixe e pobreza. As formigas voltaram com ardor a devorar o que achava em seus caminhos. O mato que não servia a alimentação dos insetos tomava os espaços. Pouco ou quase nada produzia. A irmã Adelaide ficara só, foram-se os momentos de prosa com a Sinhá Chica, essa vivia no mundo dos feitiços, das conversas com os entes do além, ela era tão popular quanto o médico Caldas. A pobreza acompanhava a negra que tinha poder maior do que o do vigário. Caldas atendia mais a classe alta, Chica, a pobre. Quaresma de tempo em tempo escrevia cartas a irmã que sempre respondia muito chorosa a implorar pela sua volta. Uma carta chegou escrita pelo irmão: “Estava ferido. Havia matado. Deseja pedir perdão, mas não sabia a quem. Ricardo estava em estado físico pior que o dele, porém ele estava com o espírito afundado na lama. Sonhava com o fim dos conflitos para regressar ao Sossego. Seu sonho foi frustrado e morto. Via os colegas buscarem algo material ou um status. Sentia todas as dores. Estava arrependido de ter ido à guerra”.

O conflito chegou ao fim. Uma esquadra vinda de Recife decretou a vitória de Floriano. Clarimundo falece e por ser político recebe muitos amigos e curiosos no seu funeral. Muitos queriam apenas deixar seu nome no livro ou sair em algum jornal.
Policarpo melhora e é designado ao posto de carcereiro. Segue seu destino com uma dose alta de repugnância.
Desmoronara-se todo o sistema de ideias que o levara a meter-se na guerra.
"Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos, ou por interesse; nada de superior os animava". "Os prisioneiros eram a gentinha pequena", "inteiramente estranha à questão em debate...", "sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade própria, simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do vencedor..."
Suas dores espirituais agigantaram. Não conseguia olhar nos olhos dos detentos, carecia de alguém para conversar.
Certa noite não conseguia dormir, quando o sono veio foi desperto por um inferior. Um oficial do Itamarati vinha sortear a “turma do Boqueirão”, aqueles prisioneiros que seriam assassinados, por vingança.
Policarpo levou o choque decisivo: ele assistia "ao sinistro alicerçar do regime". Quaresma ao presenciar tamanha carnificina, escreve um texto protestando contra o que acabara de ver e enviou-o ao Marechal Floriano.
Foi preso e encarcerado na Ilha das Cobras, em cuja masmorra reflete sobre o seu estranho destino.
Grande desilusão sofria ao perceber que havia perdido toda a existência em favor de um sonho ou utopia.
Era essa a recompensa que recebia da Pátria, por tê-la amado tanto, por ter-lhe ofertado toda a sua vida, renunciando a tudo...
Lembrava dos estudos. Questionava a si mesmo qual a valia daqueles estudos. Saber os nomes dos rios. Gloriar os grandes homens. Dizer aos quatro cantos a bonança da sua pátria. Derrotado e preso iria morrer e não teria sequer um amigo ou ente no funeral. A política sempre fora a mesma. O governo usava da força para oprimir e impor o poder. Sabia que jamais voltaria a rever sua afilhada, sua irmã, seu empregado Anastácio e o grande amigo Ricardo Coração dos Outros.

“Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem...Em que lhe contribuíra para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada...O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas...Restava disso tudo em sua alma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o a loucura. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes como diziam os livros... "E onde estava a doçura de nossa gente?" "Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros?” "A sua vida era um encadeamento de decepções." "A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete". "A que existia, de fato era a do tenente Antônio, do Dr. Campos, a do homem do Itamarati".

Quaresma não sabia que Ricardo corria aos quatro cantos na tentativa de salvá-lo. Todos os antigos amigos viravam-lhe às costas estavam preocupados em galgar privilégios com o novo governo. A guerra tirou de Coração dos Outros a alegria que cantava no outrora. Tudo agora era seco e sem flor. Lembrou-se de Olga. Foi à residência da moça na tentativa de convencê-la a ir ver o padrinho. Olga discute com o marido e vai tentar falar com o Marechal, cercado então, de bajuladores. Não conseguiu e falou com um secretário de Floriano a respeito de Quaresma, foi insultada.
"Quaresma? Aquele traidor? O Marechal não a atenderá". Olga lhe deu as costas, arrependida por ter vindo. "Com tal gente, era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer, mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo".

Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, poe estas terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. [..]“Esperemos mais”, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

XII – CONSIDERAÇÕES FINAIS:

- Crítica ao funcionalismo público e a burocracia: na dificuldade em se "liquidar uma aposentadoria"; no ambiente nivelador e anônimo; na corrupção para se obter promoção e nas manobras do "especialista" Genelício.

- Política brasileira: os "golpes" nos adversários; a política rasteira, de fofocas, perseguições; a utilização do cipoal de leis, decretos, portarias em vinganças mesquinhas contra os desafetos, desestimulando as iniciativas e a produção...

- A política de colonização, com abandono dos brasileiros e favorecimento dos imigrantes: as taxas e impostos que esmagavam o produtor agrícola, deixado, por outro lado, as mãos dos atravessadores monopolistas. O ensino brasileiro, incapaz de formar doutores que pudessem combater uma simples peste de galinheiro...

- A desigualdade social e o atraso cultural interiorano: "O que mais a impressionou foi à miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido, da gente pobre". "Por que ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas?"
"De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da população campestre que nunca suspeitara, aquele abandono de terras a improdutividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas. Via o Major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio mútuo. Não se associavam para cousa alguma..."

- A República e o positivismo, em particular, do qual eram adeptos os "pais da República", e asperamente estigmatizado, no seu culto à falsa ordem, a tirania, a ditadura, ao próprio regime, como se este fosse à chave da felicidade geral da humanidade. O Mal. Floriano e o seu governo são impiedosamente dissecados: a apatia e a falsa auréola do Marechal, a bajulação que o cercava; as perseguições aos adversários, as prisões; a corrida interesseira para se colherem os frutos da rebelião da esquadra: promoções, patentes, comissões extras.

- O status e o poder do “diploma”, vistos em Cavalcanti, na festa do pedido de casamento, e cercado por uma turma de basbaques, quase a adorá-lo como a um deus, pela simples razão de ter concluído o curso de Odontologia e em Armando Borges, formado, passando a conversar "pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente", revirando no dedo o seu anelam, para marcar a infinita distancia que o separava de Quaresma. Ele resistia à idéia de ir visitar o padrinho da esposa, "gente sem fortuna e sem título, de outra esfera".

- Os casamentos interesseiros da burguesia - o esforço de Albernaz para levar a bom termo o casamento das filhas. O casamento de Quinota com Genelício: "Creio que casei bem minha filha..." Armando Borges meditando a sua ascensão social e financeira pelo matrimônio. A educação errada das mulheres para o casamento, como se fosse o sentido da vida - o que explica o drama de Ismênia.

- A loucura abordada na obra remetendo a ruptura entre o sonho e a realidade e a experiência amarga e a convivência do autor com a deficiência mental.

- A manipulação da imprensa: atacada na campanha de insultos, troças e zombarias promovida contra o major Quaresma, no episódio do tupi, língua brasileira: "Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi apontado na rua. Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha cheio dele..."

- Crítica a formalidade linguística: a "charge" do Dr. Armando Borges escrevendo seus artigos em "língua comum" e depois, traduzindo-os para o “clássico" mediante alguns truques e o famoso requerimento de Quaresma pedindo a oficialização do tupi não deixa de dar também uma alfinetada:
“...certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, aliás, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante a correção gramatical...”

- Religiosidade e superstições: em duas ocasiões especiais, são mencionadas e satirizadas: nos esforços de Albernaz para curar Ismênia, recorrendo a espíritas, médiuns e feiticeiros ex-escravos; e na descrição de Sinhá Chica e seus "dotes".

- O romance não termina, depois de tudo, no desespero: "esperemos mais", é o último pensamento sereno de Olga, que na verdade, reflete o pensamento do próprio autor.

domingo, 29 de agosto de 2010

A POESIA LÍRICA E SATÍRICA DE GREGÓRIO DE MATOS




“Não é apenas por ser o primeiro grande poeta da literatura luso-brasileira que Gregório de Matos deve ser incluído nestas obras seletas. Sua poesia é de uma contemporaneidade espantosa e tem influenciado poetas críticos brasileiros, sobretudo da modernidade. O rigor de sua ironia traz marcas profundas no modo como lê as relações sociais da época seiscentistas, as quais parecem se enquadrar perfeitamente na contemporaneidade. Sua poesia, construída em alto estilo barroco, faz permanente ironia às formas retóricas usadas na época, ao mesmo tempo que delas se vale. A questão política e as questões de justiça consistem num dos motes marcantes no lúcido procedimento argumentativo do poeta.”(FGV-Direito/2008)


O BARROCO - “PÉROLA IRREGULAR”

BARROCO: originalmente, uma palavra portuguesa que significa uma pérola de formato irregular ou, como alguns historiadores asseveram, deriva do italiano “baroco”, um obstáculo na lógica escolástica medieval. Num ou noutro caso, a palavra circulou num sentido metafórico quando significava qualquer idéia enrolada ou um processo tortuoso e intricado de pensamento.
Denis Diderot, autor francês do século XVIII e crítico de arte, designa-a como metáfora “pérola” igual a “coisa”, imperfeita no sentido etimológico.
Em 1797, o crítico italiano Milizia escreveu: “O Barroco é a última palavra em bizarria; é o ridículo levado a extremos...”


I – DADOS CRONOLÓGICOS:


A culminância do estilo Barroco deu-se no século XVI, ainda que não haja uniformidade de traços: há um Barroco ibérico-jesuítico (Espanha, Itália, Portugal, com projeções na América Latina), caracterizado pela exasperação do conflito provocado pela crise religiosa; há um Barroco reformista e luterano (Alemanha, Holanda, Inglaterra), doméstico, leigo, sem finalidade litúrgica, em virtude de serem países protestantes e há países em que as manifestações do Barroco foram muito tênues (Suécia, países nórdicos, onde quase não existiu conflito religioso).
Assim, o Barroco será mais intenso, quanto mais intensa tiver sido a atuação da Reforma Protestante ou da Contra-Reforma Católica, razão pela qual se diz entre nós que o “Barroco é a arte da Contra-Reforma”.
O Barroco português foi um estilo artístico que teve início em 1580, com a Unificação Ibérica (Portugal passando a ser dominado pela Espanha), e pela morte do grande poeta português, Camões, estendendo-se até 1756, com a fundação da Arcádia Lusitana (ou Ulissiponense) – início do Arcadismo em Portugal.
No Brasil, tem início em 1601, com a publicação do poema “Prosopopéia” de Bento Teixeira e vai até com a publicação de “Obras” de Cláudio Manoel da Costa.

II – CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL:

Para entendermos os acontecimentos daquele século, precisamos buscar suas origens, em fatos do século XVI, dos quais um dos mais importantes foi a Reforma Protestante, que se iniciou na Alemanha e expandiu-se por muitos outros países. Ao barroco, como estilo artístico, vinculam-se diretamente acontecimentos históricos, religiosos, econômicos e sociais de grande significação para a história da humanidade e que devem ser pelos citados aqui. Entre eles, destaca-se o início dos governos absolutistas europeus com especial ênfase para a França, Áustria e a Alemanha, quando os reis eram considerados como senhores absolutos, com amplos poderes adquiridos por direito pessoal.
Por outro lado, após a revolta de Lutero, que resultou na Reforma Protestante, a Igreja Católica foi obrigada a rever suas atitudes quanto aos principais dogmas e ao seu próprio fundamento, diminuindo os abusos do poder dos papas e dos religiosos em geral, como foi determinado pelo Concílio de Trento.

A REFORMA E A CONTRA-REFORMA:


A Reforma Protestante foi o movimento de contestação à doutrina da Igreja Católica, teve como principal líder o alemão Martinho Lutero. Apesar de ter sido um movimento religioso, provocou mudanças em outros setores da cultura européia. Favoreceu, por exemplo, a formação dos Estados nacionais, ao propor que cada nação se libertasse do poder do papa.
A Igreja Católica, porém, logo se organizou contra a Reforma. Na verdade, desde o início do século XV havia essa reação espiritual, mas apenas no século XVI essa reação viria a constituir a Contra-Reforma.
Com a ação das grandes ordens religiosas, como a Companhia de Jesus, a Igreja Católica retomou sua força e construiu novas e grandes igrejas.
A arte voltava a ser vista como um meio de ampliar a influência católica.
Dessa maneira, o Absolutismo e a Contra-Reforma, podem ser ainda somados outros eventos importantes como a Revolução Comercial, resultante do ciclo das grandes navegações que modificou os sistemas econômicos até então vigentes e favoreceu as descobertas de novas terras.
A própria cultura barroca seria instrumento ideológico de uma classe poderosa, a burguesia, que via naquela um agente de seu interesse, principalmente na Holanda, Bélgica e França.
Assim, a opinião pública, pré-condicionada, foi manipulada por inúmeros artifícios, notadamente nas artes plásticas, no teatro e nos festivais religiosos.

As reformas religiosas foram:
Função do sacerdote (líder, dízimo, impostos dos governantes): poder espiritual e temporal.
Calvino corta com a Igreja e obtêm apoio dos governantes (evitar mandar dinheiro para Roma e construir governos locais).
O sacerdote protestante não tinha o poder de perdoar ninguém, o perdão tem que vir da própria consciência do pecador e buscavam a ensinar a “salvação” através das leituras realizadas na Escola Dominical. O pecador reconhece a sua culpa com base nos ensinamentos religiosos. As traduções eram interpretativas, subjetivas e buscavam o enriquecimento pessoal pela graça divina, onde o trabalho é o caminho da salvação e da continuidade da obra divina.
O sacerdote não tinha acesso às escrituras. Ele era custeado pela comunidade, podia casar-se e o dízimo era recolhido no hollerith e controlado pelo Estado.
Com o enfraquecimento da nobreza e o fortalecimento da burguesia, o catolicismo centrado em Roma reagiu. O Concílio Tridentino visava conter a debandada e expandir os números de fiéis.
Na época a Península Ibérica dominava o mundo, ao invés de buscar àquele que demandou, buscou na Contra-Reforma (Santo Ofício da inquisição) mais na Companhia de Jesus representada pelo Pe. Inácio de Loyola (espanhol) através da catequese, trabalhando em troca da salvação.
Para garantir o acesso da comunidade negra, associaram as imagens africanas com o catolicismo.



O período entre 1600-1750 conseguiu casar a técnica avançada e o grande porte da Renascença com a emoção, a intensidade e a dramaticidade do Maneirismo, fazendo do estilo barroco o mais suntuoso e ornamentado na história da arte.

Com o desaparecimento de D. Sebastião, rei de Portugal, na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, e não tendo herdeiros à sucessão, o trono português ficou condicionado ao sucessor mais próximo, que reservava os direitos a D. Felipe II, rei da Espanha, culminando a união das coroas ibéricas.
O Barroco encontrou Portugal em seu período mais negro (Século das Trevas), sem sua autonomia política e acreditando na volta de D. Sebastião, que tornaria Portugal potência mundial (Mito do Sebastianismo).
Enquanto a Europa vive um avanço científico, a Península Ibérica está encoberta de medo, insegurança e contradições, tendo a religiosidade (contra-reforma) como ponto de partida para discussões.

III – CARACTERÍSTICAS:

O Barroco é considerado um dos estilos artísticos mais complexos. A historiografia e a crítica dividem-se desde a recusa do Barroco, por falta de temática e exagerada manipulação da palavra, à forte apologia que fazem à escola os anatomistas do estilo, maravilhados com a sua engenhosidade. A ala mais conservadora rotula o Barroco como “pérola irregular”, alegando que a escola na verdade, é um classicismo atrasado e imperfeito.
Heinrich Wölfflin analisa o Barroco como uma arte universal, expressiva dos períodos marcados por graves conflitos espirituais.
O Barroco é marcado pelo dualismo entre a conscientização do pecado versus a preocupação com a salvação da alma.
A linguagem rebuscada, o excesso de figuras de linguagem, a ordem inversa, o detalhismo, resultam numa arte obscura revestida de conflitos íntimos, onde o teocentrismo medieval duela com o antropocentrismo pagão renascentista.
O bifrontismo do homem Barroco é evidenciado na dúvida existencial; ele se coloca dividido entre o espírito versus carne, perdão versus pecado, céu versus terra, alma versus corpo, virtudes versus prazeres, levando o poeta abusar das antíteses, paradoxos, hipérboles, hipérbatos e metáforas.
A brevidade de vida e a transitoriedade de tudo fazem com que o homem Barroco viva intensamente o seu presente, gozando ao máximo os seus dias.
O homem do Barroco foi marcado por impulsos contraditórios e sua produção artística tem como traço fundamental o culto do contraste, do conflito e da contradição.

IV – ESTILOS DO BARROCO:

O Barroco literário possui dois estilos: o cultismo e o conceptismo.

CULTISMO – Também conhecido por GONGORISMO, esse estilo diz respeito à forma. Caracterizado por construções bem elaboradas, emprego excessivo de figuras de linguagem, vocabulário culto, é uma arte mais técnica, preocupada com a estética do poema
e constituído por um jogo de palavras.
O termo Cultismo deriva da obsessão barroca pela linguagem culta, erudita, e o termo Gongorismo alude ao autor espanhol Luís de Gôngora, expoente maior desse procedimento literário, criador de uma verdadeira escola que tem como seguidores, entre nós, Manuel Botelho de Oliveira e, em alguns momentos, Gregório de Matos Guerra.

CONCEPTISMO – Também conhecido por QUEVEDISMO, apresenta um raciocínio lógico, voltado para o jogo das idéias, para a argumentação sutil, para a dialética cerrada, que opera por meio de associações inesperadas, ainda fundadas na metáfora e, especialmente, nos procedimentos da lógica formal, como o silogismo, o sofisma e o paradoxo.

Enquanto os Cultistas ou Gongóricos consideravam que a percepção cognoscitiva das coisas deveria processar-se pela captação de seus aspectos sensoriais e plásticos (contorno, forma, cor, volume), produzindo como resultado um verdadeiro frenesi cromático, visando a apreender o como dos objetos, os Conceptistas pesquisaram a essência íntima, buscando saber o que são, visando à apreensão da face oculta, apenas acessível ao pensamento, ou seja, aos conceitos, assim, a inteligência, a lógica e o raciocínio ocupam o lugar dos sentidos, impondo a concisão e a ordem, onde reinavam a exuberância e o exagero. Assim, é usual a presença de elementos da lógica formal, como:

SILOGISMO – Dedução formal tal que, postas duas proposições, chamadas premissas, delas se tira uma terceira, nelas logicamente implicada, chamada conclusão. Assim, temos como exemplo: Todo homem é mortal (premissa maior); ora, eu sou homem (premissa menor); logo, eu sou mortal (conclusão).

SOFISMA – É o argumento que parte de premissas verdadeiras e que chega a uma conclusão inadmissível, que não pode enganar ninguém, mas que se apresenta como resultante de regras formais do raciocínio, não podendo ser refutado. É um raciocínio falso, elaborado com a função de enganar.
Ex.: Muitas nações são capazes de governarem-se por si mesmas, as nações capazes de governarem-se por si mesmas não devem submeter-se às leis de um governo despótico. Logo, nenhuma nação deve submeter-se às leis de um governo despótico.

Cultismo e Conceptismo são dois aspectos do Barroco que não se separam; antes, superpõem-se como as duas faces de uma mesma moeda.


V - GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

“O BOCA DO INFERNO”

Nascido no Brasil (BA), Gregório de Matos fez os seus primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas, partindo em seguida para Portugal, onde se forma em Direito.
De caráter explosivo, personalidade forte, vocabulário agressivo, produziu sátiras irreverentes, ocasionando perseguições e sua expulsão de Portugal.
Retornado ao Brasil, estabelece-se na Bahia, levando vida desordenada e boêmia. Casa-se com Maria dos Povos, vende as terras que recebeu como dote e vive mais da sua atividade artística que de advogado.
Suas críticas a toda a sociedade portuguesa e brasileira, principalmente a baiana, fez com que fosse deportado para Angola.
Regressou ao Brasil e morreu desacreditado em Pernambuco (1696).
Suas obras foram publicadas após sua morte e como o poeta não deixou nenhum texto produzido de próprio punho, há uma grande controvérsia de poemas que foram atribuídos a ele.
Desenvolveu temas: líricos, satíricos e sacros.

POESIA LÍRICA-AMOROSA: “Amar versus querer”


São classificados como líricos, na obra de Gregório de Matos, os poemas de caráter existencial, amoroso ou religioso.
A sua temática lírica amorosa é marcada pelo dualismo do Barroco: ora a mulher aparece em seus poemas como ideal, espiritualizada e de postura platônica, ora de maneira erótica, amor-carnal – conforme o tom da cor da pele da mulher.
O poeta confronta-se com os sentimentos mais puros e idealizados por sua amada e seus desejos mundanos. Seus poemas, no geral, são cultistas e o tema da consciência da finitude é freqüente.
As incertezas da vida levam o poeta a viver intensamente o presente.

I - “A DONA MARIA DOS POVOS, MINHA FUTURA ESPOSA”


Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada aurora
Em teus olhos e boca o sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
Te espalha a rica trança voadora,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”.

Esse soneto tornou-se famoso por parafrasear e traduzir, combinando de modo original, o soneto do espanhol Luís de Gôngora, que se inicia com os versos “Illustre y hermosíssima Maria”.
Note-se, nele, o forte impacto da gradação ascendente (em clímax) no verso final, antecipando a corrosão da “beleza em flor”, que o tempo converterá “em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”.
A discrição, as maneiras contidas e elegantes da jovem amada são o primeiro traço escolhido pelo poeta para iniciar a apóstrofe, o vocativo lírico inicial do poema.
A juventude e beleza da mulher são descritas através de metáforas freqüentes na poesia Barroca: a magnífica cor do rosto é associada à “rosada Aurora”; os olhos têm o brilho do sol; a boca, o frescor da manhã (dia).
No segundo quarteto, entende-se; “enquanto, com amável indelicadeza, o ar te espalha os cabelos brilhantes (porque dourados, louros), quando vem cortejar-te ao entardecer (pela fria). O ar fresco é comparado a Adônis, amado de Afrodite e símbolo da beleza juvenil.


II – TERCEIRA VEZ, IMPACIENTE, MUDA O POETA O SEU SONETO NA FORMA SEGUINTE

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo claramente
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a aurora fria:

Enquanto pois produz, enquanto cria
Essa esfera gentil, mina excelente,
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria:


Gozai, gozai da flor da formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura.

Que passado o zenit da mocidade,
Sem a noite encontrar da sepultura,
É cada dia ocaso da beldade.

Como se vê da rubrica acima, esta é a terceira variante que Gregório de Matos elaborou em torno do mesmo poema acima.
No segundo quarteto, entenda-se “enquanto tua cabeça, teu rosto, é como uma mina que produz, nos cabelos, o ouro mais brilhante (pois os cabelos são louros) e, na boca, as pedras mais preciosas referem-se aos belos dentes.
No primeiro terceto, o poeta insiste no poder destrutivo do tempo (“verdura” simboliza o frescor, a juventude), e agora compara a velhice (“a madura idade”) ao inverno rigoroso, que retira às árvores sua cobertura verdejante.
No segundo terceto, entenda-se “passado o zenit da mocidade” (auge da juventude), cada dia traz a decadência da beleza, antes que se encontre a morte, “a noite da sepultura”.
No verso 11 desse soneto há uma notável metáfora do tempo: á de um cavalo que trota ligeiro e em seu caminho vai pisando as flores da beleza e de uma figura sonora – a aliteração do “t”: que o Tempo Trota a Toda ligeireza.


III – AOS AFETOS E LÁGRIMAS DERRAMADAS NA AUSÊNCIA DA DAMA A QUEM QUERIA BEM

Ardor em firme coração nascido
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado; (incontido)
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passa brandamente,
Se és neve, como queima com porfia? (insistência)
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania, (equilibrar o domínio do Amor)
Como quis que fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.”

O soneto marca-se pela predominância do aspecto Cultista ou Gongórico, pelo jogo de palavras, predomínio do elemento sensorial, pela sintaxe apoiada na inversão e na repetição de elementos oracionais.
O soneto tematiza basicamente o sofrimento amoroso do eu-lírico, que derrama lágrimas na ausência da amada.
Trata-se de um soneto altamente metafórico, em que o lúdico se manifesta a todo instante, no jogo de oposições entre o amor (afeto), associado ao quente, enquanto a lágrima é relacionada ao frio.
Ornato dialético, retórica, metonímias, metáforas, eis o que o texto exibe, em cada concha.
A hiperbólica metáfora é acrescida de um pleonasmo (“mares de água”).
Pode-se perceber também, ao longo das estrofes, a oposição entre o que é estático, firme e o que se espalha, derrete, move-se e derrama.
Os belos olhos são dama e não do poeta. É o poeta quem chora por ela.
A técnica paralelística é marcante no segundo quarteto, em que o poeta dirige-se ao afeto (ardor) e às lágrimas (pranto) derramadas pela dama a quem queria bem.
Os cristais relacionam-se ao peito e às lágrimas (cor branca/pureza/refreamento) versus chama (vermelho/erotismo/paixão).
No 12º verso temos um exemplo de aliteração que torna o verso mais melódico.
A tirania do Amor será temperada paradoxalmente. Gregório de Matos faz nesse trabalho de confronto e fusão de opostos uma hábil alquimia dos contrários.
O poeta, como um artista barroco, tende a transformar toda diferença em oposição, toda oposição em simetria e a simetria em identidade.
O diferente torna-se o mesmo. Observa-se, ainda, no último verso, a fusão das antíteses entre aparência e essência.
Porém, tanto o sentimento ardente, “o ardor em firme coração nascido”, quanto sua manifestação, o “pranto por belos olhos derramado” (versos iniciais do soneto) é associado a metáforas visuais que se desenvolvem ao longo do poema. Assim, “incêndio”, “fogo”, e “chamas” são, no soneto, imagens para a paixão ardente; “mares”, “rio” e “neve”, imagens das lágrimas abundantes.

Notem-se os inesperados efeitos que o poeta obtém através da manipulação dessas imagens opostas, criando pares antitéticos, que se combinam de modo paradoxal no poema e se transformam no interlocutor enigmático do eu lírico ( o “tu”, ao qual ele se dirige, numa representação objetiva de seu sentimento, seu “ardor” e seu “pranto”), até que ele reconheça na fria aparência desse sintoma a mesma ebulição do sentimento.
Os dois últimos versos desse quarteto exprimem o mistério da transformação do “fogo” (o sentimento) em “cristais” (as lágrimas).
O eu lírico reconhece a ação paradoxal do Amor no seu sentimento (este último é o “interlocutor” ao qual ele se dirige): o ardor do estado amoroso é, curiosamente, transitório e suave (passas brandamente), como as lágrimas que escorrem pela face; estas, por sua vez, embora frias como a neve, conservam o calor intenso e insistente do sentimento (“queimas com porfia”).

Conclusão:
Gregório retoma um tema clássico: os paradoxos desencadeados pelo amor, que se desdobram nas perguntas introduzidas pelo primeiro terceto e encaminham a resposta: todos os paradoxos são responsabilidade do amor, que para “temperar a tirania”, permitiu que “parecesse a chama fria”.


IV – AO MESMO ASSUNTO E NA MESMA OCASIÃO



Corrente, que do peito destilada
Sois por dois belos olhos despedida;
E por carmim correndo dividida
Deixais o ser, levais a cor mudada.

Não sei, quando cais precipitada,
Às flores que regais tão parecida,
Se sois neve por rosa derretida,
Ou se rosa por neve desfolhada.

Essa enchente gentil de prata fina,
Que de rubi por conchas se dilata,
Faz troca tão diversa e peregrina,

Que no objeto, que mostra, ou que retrata,
Mesclando a cor purpúrea à cristalina,
Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

Esse soneto é uma variação em torno do mesmo tema e das mesmas metáforas, do soneto anterior. As lágrimas são vistas a princípio como uma “corrente destilada do peito”, imagem que sintetiza o fenômeno de sua transformação tratada no soneto anterior.
No curso das lágrimas, Gregório de Matos detecta outra transformação, a da cor que possui o que lhes define o próprio ser.
“Mesclando a cor purpúrea à cristalina”, isto é, alterando a sua transparência original diante do vermelho (“carmim”) das faces e dos lábios, as lágrimas acabam por despertar nova hesitação no poeta: “Não sei quando é rubi, ou quando é prata” (verso final). Este tratamento raro e delicado das imagens é tipicamente cultista, e imprime um novo sabor ao tema simples e já conhecido.
O eu lírico afirma não saber se as lágrimas que caem sobre as flores, isto é, o vermelho das faces (as “maçãs do rosto”, como hoje dizemos), é afinal, “neve por rosa derretida” (“derretida” no vermelho do rosto, e por isso avermelhada) ou, ao contrário, “rosa por neve desfolhada” (o vermelho do rosto desfeito em meio às lágrimas).
Essas imagens antecipam as seguintes: “prata”, “rubi”, que apenas as reiteram.
Entenda-se: a transformação da “enchente de prata fina” (nova imagem para a corrente de lágrimas), esparramando-se por “conchas de rubi” (as faces), é tão extraordinária que, estando sobre a face (“no objeto”), que ela deixa ver “que mostra” em sua transparência, ou com a qual se confunde em cor que “retrata” em si mesma, não se sabe qual é uma (a face, vermelha, “rubi”) e qual é a outra (a corrente de lágrimas, “prata”).


V – DESENGANOS DA VIDA HUMANA, METAFORICAMENTE


É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias aprestas, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

Exemplo do estilo cultista, seu tema é o da precariedade de todas as coisas diante da adversidade do tempo, que tudo arrasta para a “tarde”, o crepúsculo final que se sucederá à “manhã” de nossas vidas. Note-se o tratamento indireto da “vaidade” (palavra que significa, originalmente, “coisa vã, vazia”), à qual são associadas sucessivas imagens (“rosa”, “planta”, “nau”), disseminadas no poema e recolhidas em seu verso final, num procedimento chamado Disseminação e Recolha que é comum na poesia barroca.
Registre-se ainda a presença da mitologia antiga, através da Fênix, o pássaro-deus egípcio, símbolo da imortalidade, capaz de renascer das próprias cinzas, e com o qual a vaidade presumidamente se identifica. Note-se como, no verso final, temos a segunda recolha dos termos antes disseminados, confrontados com seus contrários (“ferro” é a lâmina que corta a planta; “penha”, o penhasco que destrói a “nau”, e “tarde”, o momento em que morre a “rosa”).
Esse soneto ao organizar de forma complexa e ornamentada um pensamento simples: parte da idéia de que a vaidade, apesar de sua aparência, não tem nenhuma substância na vida; desdobra esse pensamento em três metáforas resplandecentes, desdobradas em outras metáforas, que se distribuem simetricamente pelas três primeiras estrofes e são reunidas na quarta, acopladas aos seus contrários.
Na primeira estrofe, entenda-se: ”da manhã lisonjeada” como envaidecida pela juventude, indicada pela metáfora “manhã; “airosa”, como altiva e “presumida”, como “cheia de presunção”.
A vaidade é como uma rosa que abre (“rompe”), altiva, a “púrpura” de suas pétalas com “ambição dourada”, isto é, com ambição de brilhar, de se comparar ao ouro.
Na segunda estrofe: “que de abril favorecida”, significa animada pela primavera européia, que acontece em abril. Primavera também conota juventude; “soberba desatada” como arrogância incontida; “galeota empavesada” como uma embarcação equipada com defesas ou, em outro sentido, enfeitada e “sulca ufana” como navega orgulhosa.
Na terceira estrofe: “em breve ligeireza” refere-se ao vento brando; “com presunção de Fênix generosa” como pensando ser uma Fênix capaz de muitas ressurreições, por isso generosa e “galhardias apresta, alentos preza” como prepara valentias, preza estímulos do vento.
Na quarta estrofe, o último verso chamado “plurimembre”, é composto da enumeração de três pares de elementos antitéticos (contrapostos), recapitulando as três metáforas anteriores em ordem inversa à de seu aparecimento (nau, planta, rosa) e confrontando-as com os elementos que as hão de destruir, em três rápidas imagens da morte (penha, ferro, tarde).


VI – ADMIRÁVEL EXPRESSÃO QUE FAZ O POETA DE SEU ATENCIOSO SILÊNCIO



Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.

O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro do coração é que o sustento:
Com que para penar é sentimento,
Para não se entender, é labirinto.

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.

Mas oh do meu segredo o alto conceito!
Pois não chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro no peito.

Este é um soneto descritivo, porém o objeto da descrição não é externo ao sujeito, mas é o próprio sujeito, o eu lírico, o conflito entre o que sente e o que deixa transparecer.
A princípio, parece inverossímil que um poeta de tão poucas amarras quanto Gregório de Matos encontre dificuldade em expressar o seu “segredo” e o seu “tormento”, mas não é outro o tema deste poema.
No primeiro quarteto, encontramos a oposição entre “sentir” (interior) e “respirar” (exterior) e entre “largo” e “sucinto”: o grande sentimento não transparece exteriormente. A “finura” e a “atenção” são atitudes comuns no formalismo amoroso barroco. O poeta se diz “atento”, concentrando no sofrimento, mas “fino” porque não exprime a força desse sentimento. O ponto de partida amoroso dessa temática (sofrer sem manifestar esse sofrimento, em atenção à pessoa amada) encontra-se bastante rarefeito neste poema: o poeta nem se refere à amada e pode estar falando do sofrimento e sua expressão em geral.
Na terceira estrofe, entenda-se: “ninguém, na intimidade, pode calar seus sentimentos”. Em seguida, vêm imagens da natureza que funcionam como símiles da expressão violenta de agitação interior.
Na última estrofe, o tema, porém, é corrente na época: o conflito entre o sentir e o exprimir, entre o que vai ao interior do sujeito e o que ele demonstra, e talvez, mais profundamente, o que o sujeito sente e a dificuldade, o “labirinto”, que esse sentimento contrapõe a sua compreensão. Entenda-se: “o segredo de meu sofrimento corresponde a um “conceito” profundo, “alto”, difícil para o entendimento e para a expressão.”

VII – CONTEMPLA NA BORBOLETA EXEMPLOS DO SEU AMOR


Ó tu do meu amor fiel traslado,
Mariposa, entre as chamas consumida,
Pois se à força do ardor perdes a vida,
A violência do fogo me há prostrado.

Tu de amante o teu fim hás encontrado,
Essa flama girando apetecida, (girando em torno dessa flama desejada)
Eu, girando uma penha endurecida,
No fogo, que exalou, morro abrasado.

Ambos, de firmes, anelando chamas, (desejando)
Tu a vida deixas, eu a morte imploro,
Nas constâncias iguais, iguais nas famas.

Mas, aí! que a diferença entre nós choro;
Pois acabado tu ao fogo, que amas,
Eu morro, sem chegar à luz, que adoro.

Esse poema desenvolve comparações entre a mariposa, que morre por girar em torno da luz que a atraí, e o poeta, que morre por girar em torno de um rochedo (“penha”, metáfora da amada) que o destrói, sendo ambos, abrasados pelo fogo: a borboleta, pelo fogo da chama; o poeta, pelo fogo do amor. Mas, no final, o poeta lamenta a diferença entre a situação de sua morte e a da morte da mariposa: esta morre por chegar à chama, ele morre sem atingir aquela que o atrai.
As metáforas utilizadas no poema (“fogo” para o amor, “penha” e “luz” para a amada) são freqüentes na poesia barroca.


VIII - A MESMA D. ÂNGELA



Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
De verde pé, de rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu Custódio, e a minha guarda.
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

O soneto marca-se pelo aspecto Cultista, desenvolvendo-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”.
O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos dos poetas pela mulher, que é simultaneamente “flor” (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e “anjo” (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual.
A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais:
“Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.”


POESIA SATÍRICA – “Boca de inferno”

Numa época em que a imprensa era proibida no Brasil, Gregório de Matos foi “o primeiro prelo e o primeiro jornal que circulou na Colônia”, como afirma Segismundo Spina, importante estudioso de sua obra. De fato, os poemas de Gregório de Matos oferecem um amplo painel da nascente sociedade brasileira, vista desde o princípio com impressionante sagacidade crítica.
Ninguém se salvou da linguagem ferina do autor, fazendo dessa forma jus ao seu apelido. Desde o administrador português, o clero, os colono, os índios, os negros, os brancos; enfim, sua crítica à sociedade de sua época atingia a tudo e a todos. O poeta não deixou de retratar e censurar as mais diversas figuras do Brasil de então, independentemente da posição social que ocupavam, assim como as contradições do sistema colonial imperante no país, à época em que Portugal saía dos sessenta anos de domínio espanhol (1580-1640).
O inconformismo com a transformação da colônia, a corrupção da administração da capital, fizeram do poeta um crítico ativo, desenvolvendo um sentimento nativista.


I - DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA


A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.

Nesse soneto o autor apresente um plano crítico da degradação moral e econômica da cidade da Bahia, considerados oportunistas e corruptos pelo poeta.
Critica “um grande conselheiro”, incapaz de dirigir sua vida e desejoso de controlar a dos outros; os “olheiros”, os fofoqueiros que vigiam a vida alheia; a perversão dos valores morais da nobreza que são subjugados, “trazidos sob os pés”, e a malandragem, a “picardia”, é enaltecida, “posto nas palmas”, e o total disparate econômico: a “usura”, ou os lucros do “mercado financeiro”; os ladrões enriquecidos e os honestos muito pobres. Além, do racismo do poeta, presente na terceira estrofe.

II –



Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Nesse soneto, o poeta lamenta e repercute a transformação degeneradora da cidade, pela “máquina mercante” (as naus de comércio), que os “troca” e torna diferentes de seu estado anterior. O poeta recrimina o comércio nascente do açúcar, o “açúcar excelente”, então um produto muito precioso, que era trocado pelas “drogas inúteis” oferecidas pelo “sagaz Brichote” (“british”, o inglês, o estrangeiro, designado pejorativamente, visto como sagaz, isto é, esperto, perspicaz, pois trocou coisas inúteis pela riqueza do açúcar); no fim, roga pelo restabelecimento do juízo da cidade, que gostaria de ver “amanhecer recoberta por um manto simples de algodão”, e não mais pelas ricas roupagens que lhe propiciava o comércio degenerador.
O termo “abelhuda”, relacionado à cidade, mostra que ela, intrometida e ignorante, deixou-se levar pelas trocas dos gringos.
No último verso, há uma alusão ao fim do monopólio do açúcar e o início da cultura do algodão.
Segundo Ângela Maria Dias, o poema parodia uma composição de Francisco Rodrigues Lobo, poeta português do seiscentismo, que inicia assim seu soneto: “Formoso Tejo meu, quão semelhante...”
Os versos foram elaborados pelas antíteses rico/pobre, empenhado (endividado)/abundante que, diante de um mundo “trocado pela troca”, o poeta põe em jogo a maquinaria das trocas poéticas, “afiadas também nos seus truques, trocadilhos, jogos paronomásticos, em suma, numa série de deslocamentos de significante e significado. Há de se observar o jogo das aliterações em (tal/to/ti/ta) e assonâncias (trocando/tanto/negociante).


III - QUEIXA-SE O POETA DE QUE O MUNDO VAI ERRADO E, QUERENDO EMENDÁ-LO, O TEM POR EMPRESA DIFICULTOSA

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo?

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c’os demais, que, só, sisudo.

Trata-se de um soneto de caráter existencial e reflexivo. O autor retrata a insatisfação do homem de “engenho profundo”, cansado de andar por “vias desusadas” (incomuns, marginais) e que se vê obrigado a trilhar os rumos ordinários da sociedade (“O remédio será seguir o imundo / Caminho, onde dos mais vejo as pisadas”).
O poeta parece cético diante à qualquer possibilidade de salvação do “desconcerto do mundo” e conclui que ao homem resta enredar-se silenciosamente no “mar de enganos”, pois é preferível “ser louco c’os demais, que, só sisudo” (sábio sozinho)”.
No primeiro quarteto, entenda-se “ando no mundo suportando a carga que eu mesmo sou, e o peso dessa carga tolhe (embarga, atrapalha) os meus passos”.
No segundo quarteto, entenda-se “os animais irracionais (as bestas), em grupos, são mais arrojados do que o homem de maior capacidade (“engenho”) quando isolado”.
No primeiro terceto, entenda-se: “se não soube pôr fim a seus males”.

IV – A CERTA PERSONAGEM DESVANECIDA

Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira;
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vai também desta maneira;
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora, nos tercetos, que direi:
Direi que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós eu fico um rei.

Nesta vida um soneto já ditei;
Se desta agora escapo, nunca mais.
Louvado seja Deus, que o acabei!

Nesse soneto o poeta utiliza-se de uma ironia metalingüística. Ao compor esse poema, Gregório de Matos vai ao mesmo tempo descrevendo a elaboração do poema, e o faz com muita graça e, de sobre, zomba de alguma pessoa afetada que, presumidamente, queria ser elogiada (“gabada”) em sua poesia. “Regra”, no segundo verso, além de seu sentido normal, significa “linha, verso”.

V –

“Tudo é bebedice,
ou tudo uma borracheira
que se acaba co’o dormir,
e co’o dormir se começa.

O Amor é finalmente
Um embaraço de pernas,
Uma união de barrigas,
Um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
Uma batalha de veias,
Um reboliço de ancas,
Quem diz outra coisa, é besta.”


VI – TENTANDO A VIVER NA SOLEDADE, SE LHE APRESENTAM AS GLÓRIAS DE QUEM NÃO VIU, NEM TRATOU A CORTE

Ditoso tu, que na palhoça agreste (“palhoça agreste” – moradia rústica)
Viveste moço, e velho respirasse;
Berço foi, em que moço te criaste,
Essa será, que para morto ergueste. (“essa será” – túmulo)

Aí do que ignoravas, aprendeste,
Aí do que aprendeste, me ensinaste,
Que os desprezos do mundo, que alcançaste,
Armas são com que a vida defendeste.

Ditoso tu, que longe dos enganos
A que a Corte tributa rendimentos,
Tua vida dilatas e deleitas. (“dilatas” – alongas; “deleitas” – goza, aproveitas)

Nos palácios reais se encurtam anos,
Porém tu, sincopando os aposentos, (“sincopando” – suprimindo, cortando)
Mas te dilatas quanto mais te estreitas.

Este poema trata o tema da inserção do indivíduo numa sociedade desprezível, opondo-se aqui a vida saudável e simples do campo aos “enganos da Corte”, aos atrativos da vida palaciana que abreviam os anos.
Gregório de Matos saúda como “ditoso” (afortunado) aquele que conseguiu alcançar “os desprezos do mundo”, usando-os em defesa da própria vida. Essa oposição clássica entre o “mundo” e a “vida” tenderá a estereotipar-se na visão do Arcadismo, que condenará a cidade em favor da vida “natural” no campo. Portanto, “a Corte dá recompensa, estímulos, à vida enganosa dos que nela vivem” e “vivendo em habitação menor, mais humilde, mais simples do que os palácios (a Corte), mais ampliam a tua vida quando mais estreitas o espaço dela”.

VII – EPÍLOGOS


1

Que falta nesta cidade?...Verdade.
Que mais por sua desonra?...Honra.
Falta mais que se lhe ponha?...Vergonha.

O demo a viver se exponha.
Por mais que a fama a exalta.
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

2

Quem a pôs neste socrócio?...Negócio. (“socrócio” – confusão)
Quem causa tal perdição?...Ambição.
E o maior desta loucura?...Usura.

Notável desaventura (“desaventura” – infelicidade)
De um povo néscio e sandeu, (“sandeu” – ignorantes e idiotas)
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

3

Quais são os seus doces objetos?...Pretos.
Tem outros bens mais maciços?...Mestiços.
Quais deste lhe são mais gratos?...Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
Deou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal (“cabedal” – riqueza)
Pretos, mestiços, mulatos.

4

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?...Guardas.
Quem as tem nos aposentos?...Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vãos atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

5

E que a justiça a resguarda?...Bastarda.
É grátis distribuída?...Vendida.
Que tem, que a todos assusta?...Injusta.

Valha-me Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

6

Que vai pela cleresia?...Simonia (“cleresia” – clero; “simonia” – vendas de bens religiosos)
E pelos membros da Igreja?...Inveja.
Cuidei que mais se lhe punha?...Unha. (“unha” – roubalheira)

Sazonada caramunha, (“sazonada” – velha; “caramunha” – queixa)
Enfim, que na Santa Sé
O que mais se pratica é
Simonia, inveja, unha.

7

E nos frades há manqueiras?...Freiras.
Em que ocupam os serões?...Sermões.
Não se ocupam em disputas?...Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluís, na verdade,
Que as lidas todas de um Frade (“lidas” – funções, atividades)
São freiras, sermões, e putas.

8

O açúcar já se acabou?...Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?...Subiu.
Logo já convalesceu?...Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.

9

A Câmara não acode?...Não pode.
Pois não tem todo o poder?...Não quer.
É que o governo a convence?...Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Nesse soneto, o poeta faz um diagnóstico, válido para “todos os tempos”, dos males do país, cuja capital era então a Bahia, em linguagem às vezes licenciosa. Sua crítica volta-se para a situação da economia, a corrupção das autoridades policiais e militares, a libertinagem do clero, a farsa dos políticos, a venalidade da justiça.
Além disso, Gregório tem, mais uma vez, ocasião de exprimir seus preconceitos raciais. A atualidade de seu diagnóstico é evidente em muitos pontos, sobretudo no que diz respeito à crise econômica e à corrupção.
O título “Epílogos” se deve ao fato de que, em cada um dos três versos interrogativos (decassílabos) que iniciam cada bloco, a resposta, que encerra o verso, rima com o final (o epílogo) da pergunta. Depois de cada terceto, segue-se uma quadra conclusiva (em redondilhos maiores), em que o verso final é a recolha das três respostas disseminadas na estrofe anterior. Dividido em nove partes, nos tercetos, há exploração da rima horizontal ou eco, dando forte acento lúdico ao poema. Nas quadras, o esquema rímico é ABBA.
Os círios eram sacos de farinha distribuídos à população, que, em meio à crise econômica, vivia um período de tremenda escassez. Esses sacos ficavam pequenos (“mesquinhos”), porque a farinha, antes de chegar ao povo, era roubada pelos oficiais de justiça (“meirinhos”) e outras autoridades encarregadas de distribuí-la: os guardas atrasavam a entrega (faziam as farinhas ficarem tardas) e os sargentos as desviavam para si.
No verso “e nos Frades há mangueiras”, relaciona-se ao ato de mancar. No sentido figurado, um deslize moral. É também certa doença infecciosa dos animais, que o poeta poderia, talvez, associar às doenças venéreas dos frades.
Em “Baixou, Subiu e Morreu”, João Adolfo Hansen observa o uso da metáfora da doença, tão em uso na época. Em sua circulação, a metáfora efetua a equivalência de circulação monetária e circulação sangüínea. Na sátira, diagrama a corrupção e a morte da acumulação pela circulação defeituosa das trocas. Encena-se, assim, também o discurso que lamenta e critica os impostos que sobretaxam o açúcar.


VIII – ANA MARIA ERA UMA DONZELA NOBRE E RICA, QUE VEIO DA ÍNDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSÓRIOS, EMPREENDEU FR. TOMÁS CASÁ-LA COM O DITO, E O CONSEGUIU.

Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana e bela,
Porém serviu a Índia, e não a ela,
Que à Índia só por prêmio pretendia.

Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la;
Mas Fr.Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos (cacofonia – portão)
Se lhe usurpara a sua Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja Noiva.

O poeta mais uma vez está exibindo seus preconceitos, irá ridicularizar a mulher indiana, fazendo paródia do famoso soneto de Camões, inspirado na Bíblia, que se inicia assim: “Sete anos de pastor de Jacó servia/Labão, pai de Rachel, serrana bela...” O conhecimento de Camões é determinante para entender a paródia da forma lírica, não a agressão satírica. O tema do poema versa sobre a “limpeza do sangue” e boatos sobre o Frei Tomás e o noivo, Pedro Álvares de Neiva; e a degradação da noiva, de “sujo sangue”
No primeiro terceiro, Dona Elvira é provável alusão a uma senhora fidalga da época. O nome feminino contrastará com o de Rachel e de Lia, nomes bíblicos, presentes em Camões, distante da realidade social baiana. Ainda nesse terceto, encontramos o verso “quase a golpes de um maço e de uma goiva”, onde maço é uma espécie de martelo e goiva uma espécie de formão, instrumentos usados por carpinteiros, escultores etc.

IX –

Minha rica mulatinha,
Desvelo e cuidado meu,
Eu já fora todo teu,
E tu foras toda minha:

Juro-te, minha vidinha,
Se acaso minha ques ser,
Que todo me hei de acender
em ser teu amante fino
pois por ti já perco o tino,
e ando para morrer.

Este poema apresenta-se sobre o signo da dualidade barroca, oscilando entre a atitude contemplativa, o amor elevado, à maneira dos sonetos de Camões, e a obscenidade, o carnalismo. É curioso que a postura platônica é dominante quando poeta se refere a mulheres brancas, de condição superior, e a libido, quando o poeta se inspira nas mulheres de condição social inferior, especialmente as mulatas. Neste sentido destaca-se já certa “tropicalidade”, a antecipação de certo “sentimento brasileiro”.


X – CONTEMPLANDO NAS COISAS DO MUNDO DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA COM O SEU APAGE, COMO QUEM A NADA ESCAPOU DA TORMENTA.

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa;
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa; (“carepa” – sujeira)
Com sua língua ao nobre o vil decepa; (“o vil” – o que não presta, fala mau do nobre)
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa;
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa;
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.

No segundo quarteto do soneto, entenda-se: faz críticas aos oportunistas, àqueles que pretendem descender de uma linhagem nobre, fraudando a genealogia. Encontramos nesse quarteto uma paráfrase do provérbio: “o sujo falando do mau lavado ou o roto falando do maltrapilho”.
Temos um verso metafórico em “a flor baixa se inculta por Tulipa”, em que a flor baixa representa o vulgar, que quer aparentar uma condição nobre, como é nobre a tulipa; um verso metonímico, em que a bengala é índice de nobreza, ao passo que a garlopa (plaina), instrumento do carpinteiro, é índice do trabalho braçal, ou seja, de condição humilde. O poeta critica a rápida ascensão social dos arrivistas e outro verso metonímico em “mais isento se mostra, o que mais chupa”, os que mais cometem delitos ou corrupção querem aparentar inocência.
Em “para a tropa do trapo vazo a tripa”, vazar a tripa é defecar. O rumor dos gases intestinais foi sugerido pelas aliterações cortantes dos tr..tr..tr. No último verso do soneto temos a aplicação cômico do processo da disseminação e recolha: o poeta reagrupa as rimas usadas ao longo das estrofes. Pode-se pensar, também, no caráter onomatopaico desses sufixos, que sugerem o som dos excretos caindo.


XI – DESAIRES DA FORMOSURA COM AS PENSÕES DA NATUREZA PONDERADAS NA MESMA DAMA

Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado Cristal, viva escarlata,
Duas Safiras sobre a lisa prata,
Ouro encrespado sobre a prata fina.

Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
E raio a raio os corações fulmina.

Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias,
A quem já tanto amor levantou aras;

Disse igualmente amante, e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras!

O título já evidencia a intenção satírica: desairar é tirar o merecimento, apontar a deselegância. A dama Caterina, tão festejada em outros sonetos do poeta, continua sendo bela, mas sua pobre condição humana será denunciada, com termo chulo, no verso final.
A chave da primeira estrofe será fornecida no sexto verso, pois se trata da descrição do rostinho de Caterina. Assim, a boca iguala ao rubi, os dentes são pérolas dispostas em uma concha; os olhos são safiras, o cabelo é de ouro e a face rubra é a viva escarlata. O sorriso feminino é metaforizado num animado cristal.
No primeiro terceto, Fábio é uma espécie de alter ego do poeta. Ele vê a mulher, fica enlouquecido e a identifica como uma deusa a quem os altares foram levantados. O altar é sugerido metonimicamente pela ara, pedra de altar.
Na última estrofe, o termo “muchacha”, termo espanhol, significando rapariga, como a expressão anterior, “rostinho”, evidenciam a recaída da linguagem nobre e lírica para um linguajar mais rasteiro, culminando no vocábulo chulo final.


C - POESIA SACRA – “A consciência do pecado versus a certeza do perdão”

O conflito entre o teocentrismo versus o antropocentrismo é resultante do homem que busca salvar à sua alma, ao mesmo tempo deseja gozar os prazeres terrestres.
Desenvolvendo mais o estilo conceptista, Gregório de Matos, argumenta que Deus deve perdoá-lo, pois o amor de Cristo é infinito.

I – A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR


“Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a nos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.”

Além de ilustrar a atitude religiosa de Gregório de Matos, este poema é exemplo do conceptismo barroco.
Imediatamente após confessar-se diante de Cristo, reconhecendo o seu pecado, o eu lírico inicia uma argumentação em favor de si mesmo, o que diminui o impacto de sua submissão religiosa. O que possibilita essa versatilidade do pecador é certa ambigüidade inscrita na própria doutrina cristã, assim formulada pelo eu lírico: “a mesma culpa, que vos há ofendido, / vos tem para o perdão lisonjeado”, isto é, a própria culpa, que é ofensa a Cristo, vale como lisonja, elogio, que fará que Cristo perdoe o pecado.
Os tercetos encerram o soneto com completa reviravolta em relação aos versos iniciais, uma vez que o pecador se vê no direito de se dirigir ao Senhor usando até o modo imperativo do verbo, “Cobrai-a; e não queirais, pastor divino”.

II – BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos, (“sacrossanta” –sagrada e santa)
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Soneto de caráter penitente em cujas imagens transparecem a ambigüidade da motivação religiosa do poeta. Os traços da figura do Cristo crucificado são aproveitados para, através de engenhosas antíteses, servir à conveniência do pecador; os braços estão abertos para recebê-lo e pregados para não o castigar; os olhos divinos eclipsados estão despertos para perdoá-lo, assim como estão fechados para não condenar.
O soneto é construído a partir de um sistema de metonímias que vão relacionando as partes de Cristo (“bravos”, “olhos”, “pés”, “sangue”, “cabeça”, “cravos”), substituindo todo o Cristo crucificado.
Os versos 5, 9, 10, 11, 12, 13 constroem-se com a omissão do verbo, já referido no 1º verso – “correndo vou”. Em todos eles ocorre o procedimento estilístico denominado Zeugma.

III – NO DIA DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja;
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus que és pó para humilhar-te
E como o teu baixel sempre fraqueja (baixel – barco, navio)
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta, pois, que o vento berra.
Se assopra a vaidade e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano,
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

Este soneto se fundamenta em dois ditos bíblicos recorrentes: o primeiro, de que a vida humana é “vaidade das vaidades”, conceito central no Eclesiastes (livro do Antigo Testamento); o segundo, de que o homem não passa de “pó”, que afinal retorna sempre à terra. Dotados de conteúdo semelhante, os dois ditos aparecem no poema associados de forma tão surpreendente, porém, que a união soa como um achado até um pouco irônico do poeta, uma vez que precisamente a “terra”, que representa o fim desastroso do homem: a morte, a transformação no pó original, é também a salvação para os riscos dos “mares da vaidade” em que luta o homem, pois este, reconhecendo sua precariedade, sua mortalidade, reconhecendo que é terra, livra-se dos perigos da vaidade.

IV – ACHANDO-SE UM BRAÇO PERDIDO DO MENINO DEUS DE N.S. DAS MARAVILHAS, QUE DESACATARAM INFIÉIS NA SÉ DA BAHIA




O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas desse todo.

Esse poema é um exemplo da poesia conceptista de Gregório de Matos: nele, a complexidade não se deve à ornamentação, como no caso precedente, mas aos próprios conceitos desenvolvidos.
O episódio do encontro de um fragmento de escultura religiosa (“o braço de Jesus”) enseja a discussão conceitual do que seja “parte” ou “todo”, assim como das relações que mantêm entre si essas duas entidades. O poeta argumenta, nos dois primeiros versos, que a definição de “parte” e “todo” só pode ser recíproca, e extrai dessa premissa – a premissa da interdependência entre parte e todo – a conclusão paradoxal da equivalência de parte e todo (“mas se a parte o faz todo, sendo parte, / não se diga que é parte, sendo o todo”, isto é, se a parte, faz o todo ser todo, não se diga que ela é parte, pois ela é tudo no todo, sem ela o todo não o é).
Há uma referência à liturgia católica, segundo a qual Deus está presente inteiro em cada parte do Sacramento.

V – A CRISTO S.N. CRUCIFICADO ESTANDO O POETA NA ÚLTIMA HORA DE SUA VIDA



Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer,
Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É meu Jesus, a hora de ser ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

Mui grande é vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.

Este poema se baseia a crença de que o poeta, velho e arrependido da vida desregrada que levara, reconciliou-se com a religião, e, como Bocage, um século depois, compôs sonetos de arrependimento em seus últimos dias.
Expressa a cosmovisão barroca: a insignificância do homem perante Deus, a consciência nítida do pecado e a busca do perdão .Ao lado de momentos de verdadeiro arrependimento, muitas vezes o tema religioso é utilizado como simples pretexto para o exercício poético, desenvolvendo engenhosos jogos de imagens e conceitos.
Nas duas primeiras estrofes, o poeta expressa a contrição religiosa e a crença no amor infinito de Cristo, para manifestar, no final, a certeza do perdão. O soneto encobre uma formulação silogística, que se pode expressar dessa maneira: o amor de Cristo é infinito (verso 11); o meu pecado, por maior que seja, é finito, e menor que o amor de Jesus (versos 9 e 10). Logo, por maior que seja o meu pecado, eu espero salvar-me (versos 13 e 14).

REFLEXÃO-FILOSÓFICA – A INCONSTÂNCIA DO MUNDO


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância?

O tema é o da inconstância do mundo, da instabilidade da vida humana, da fugacidade de tudo, da inconsistência da beleza e das alegrias. No poema, a constatação da brevidade da luz do sol leva a interrogações sobre o motivo de existirem no mundo belezas assim passageiras; finalmente, a conclusão é que, nas coisas do mundo, a única constante é a variação.
No oitavo verso, entenda-se: “como o gosto (o que é belo e agradável) pode assim confiar na pena (o que é triste, doloroso)?” A idéia é de que o sofrimento é certo, já que a felicidade é fugaz, precária.
O poema não é conceptista, pois, o conceito que desenvolve, é simples e não é tratado de forma surpreendente ou sutil. Ele é cultista, pois desenvolve o tema acima indicado, que é comum no Barroco, apresentando um jogo de figuras contrastantes, através das quais idéias abstratas - a beleza, a passagem do tempo é apresentada em imagens concretas – a luz, o anoitecer. A exuberância do poema, portanto, não se deve a sua trama de raciocínio, como seria o caso do conceptismo, mas ao engenho com que uma idéia simples se traduz num espetáculo sensorial. A antítese é a figura mais repetida no poema: dia/noite; luz/sombras; tristezas/alegria; gosto/pena; firmeza/inconstância.

ARTISTAS MANAUARAS CANTAM E ENCANTAM POUSO ALEGRE-MG


A Praça João Pinheiros, Pouso Alegre-MG foi contemplada com uma bela exposição da cultura amazonense na noite de 13/08.
O evento contou com a participação de grandes talentos do universo artístico da Amazônia que encantou o público presente.

Valéria de Cássia, representando o Projeto Cultural Uakti, abriu o evento fazendo um breve relato sobre a história do Projeto idealizado pela Associação dos Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (ASPI), Associação dos Servidores do INPA (ASSINPA) e que conta com o apoio da Manaus Cult.

Valéria explicitou que o Projeto Cultural Uakti tornou-se verdadeira referência de articulação e divulgação de vontades criadoras e tem como objetivo primordial conceder voz, participação e espaço às pessoas que expressam a cultura amazonense com seus costumes e particularidades para todo o país.



Em seguida, chamou ao palco Dóri Carvalho, poeta e dramaturgo que declamou textos de sua autoria e de grandes expoentes da literatura universal.


Armando de Paula acompanhado por Afrânio (bateria), Herich (baixo) e William (teclado) contagiaram o público com a canção “Tartaruga”, “Mosquito da Malária” e outras reverenciando como o próprio nome do Projeto revela: a Cultura Amazonense.
Finalizando a apresentação, Antonio Pereira presenteou o público com sua voz inconfundível, suas letras e melodias inovadoras, que nos tocam a alma de forma suave e alegre. O músico é considerado um dos pioneiros na resistência dos ritmos amazônicos frente à cultura globalizada

O Projeto teve o privilégio de contar com a participação especial de Rita de Cássia, integrante do grupo “Caixeiras da Guia”, de Campinas e de João Bá, um dos mais respeitados cantadores vivos do Brasil.
O trabalho deste artista busca despertar o senso crítico e uma compreensão consciente de que todas as coisas estão interligadas entre si e suas raízes. Pesquisador da cultura popular brasileira traz nas suas poesias e nas suas melodias um canto de resistência da natureza, um jeito simples de louvar a terra, a vida, o respeito à história e memória de nossa cultura



O 40º FENAC – Festival Nacional da Canção de Pouso Alegre-MG encerrou-se com a belíssima apresentação do cantador e compositor Pereira da Viola que durante o show prestou homenagem ao seu grande mestre João Bá e ao Antonio Pereira, reafirmando seu apreço e respeito que tem pelo cantador amazonense.