quarta-feira, 25 de agosto de 2010

HÉLIO OITICICA


(RJ. 1937 – RJ. 1980)


“A beleza, o pecado, a revolta, o amor dão a arte desse rapaz um acento novo na arte brasileira. Não adiantam admoestações morais. Se querem antecedentes, talvez este seja um: Hélio é neto de anarquista.” (Mário Pedrosa, no artigo “Arte ambiental, arte pós-moderna, Helio Oiticica”. In: Correio da Manhã, 26/06/1966)



I – HÉLIO OITICICA:


“Eu comecei com Ivan Serpa no Grupo Frente, em 1954. Mas, ao meu ver, a partir do movimento neoconcreto, quando comecei a propor a saída para o espaço, a desintegração do quadro, isso tudo, aí é que eu realmente comecei a criar algo só meu e totalmente característico. A desintegração do quadro foi na verdade: a desintegração da pintura; ela é irreversível, não há possibilidade, nem razão para uma à pintura ou à escultura. E daí para a frente. Então parti para a criação de novas ordens, que se dirigiram da primeira série de espaços significantes para um abolição da estrutura significante. Eu procurava instaurar significados, que depois fui abolindo. Havia uma certa influência do Merleau-Ponty e das teorias do Ferreira Gullar na evolução de Lygia Clark, por exemplo (ela descobriu o negócio da imanência). Para mim, foi uma abolição cada vez maior de estruturas de significados, até um chegar ao que considero a invenção pura “Penetráveis”, “Núcleos”, “Bólides” e “Parangolés” foram o caminho para a descoberta do que eu chamo de “estado de invenção”. Daí é impossível haver diluição. Não se trata de ficar nas idéias. Não existe idéia separada do objeto, nunca existiu, o que existiu é a invenção. Não há mais possibilidade de existir estilo, ou a possibilidade de existir uma forma de expressão unilateral como a pintura, a escultura departamentalizada. Só existe o grande mundo da invenção.”

Hélio Oiticica



Hélio Oiticica nasceu no Rio de Janeiro em 1937. Neto de José Oiticica (1882-1957), filólogo e anarquista, que influencia sua formação. Por opção familiar, não frequenta escolas na infância. Recebe educação formal a partir de 1947, quando seu pai, o fotógrafo e docente da Faculdade de Medicina e do Museu Nacional da Universidade do Brasil, José Oiticica Filho (1906-1964), ganha bolsa da Fundação Guggenheim e a família se transfere para Washington.
Retornando ao Brasil, Oiticica iniciou seus estudos de pintura com seu irmão César Oiticica e frequenta o curso de desenho de Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1957, que possibilita Oiticica a ter contato com materiais variados e liberdade de criação.
Em 1957, inicia a série de guaches sobre papel denominada nos anos 70, Metaesquemas. Segundo Oiticica, essas pinturas geométricas são importantes por já apresentar o conflito entre o espaço pictórico e o espaço extra-pictórico, prenunciando a posterior superação do quadro. Baseada na Gestalt como estrutura de composição, cria jogos ópticos para o espectador, gerando uma ilusão de movimento.
Esta vibração é dada, em primeiro lugar, pelo deslocamento em diagonal dos retângulos, que desestruturam o quadro e, em segundo, pela relação de contraste com o fundo.
A arte concreta foi o primeiro estágio do artista para chegar à morte da pintura de representação.
A cor, que será explodida por Oiticica mais tarde, aqui aparece tímida, presa na estrutura formal.
O artista rejeita a obra justamente pela construção concreta que abandonaria alguns anos depois, na formação do grupo Neoconcreto.
Em 1959, o artista liga-se ao grupo Neoconcreto e com Invenções, marca o início da tela para o espaço ambiental, como exemplo em Bilaterais (chapas monocromáticas pintadas com têmpera ou óleo e suspensas por fios de nylon) e os Relevos Espaciais, obras tridimensionais.
Em 1960, cria os primeiros Núcleos, também denominados Manifestações Ambientais e Penetráveis, placas de madeira pintadas com cores quentes penduradas no teto por fios de nylon. Neles tanto o deslocamento do espectador quanto a movimentação das placas passam a integrar a experiência.



NC1 – Pequeno Núcleo nº1, 1960

Oiticica abandona os trabalhos bidimensionais e cria relevos espaciais, bólides, capas, estandartes, tendas e penetráveis.
Embora não tenha participado da 1ª Exposição Neoconcreta e nem assinado o Manifesto Neoconcreto, em 1960 participa da 2ª Exposição Neoconcreta no Rio de Janeiro e pensa sua produção em relação à Teoria do Não-Objeto, de Ferreira Gullar.
O artista constrói em 1961, a maquete do seu primeiro labirinto (um jardim em escala pública para a vivência coletiva que envolve tanto a relação com a arquitetura quanto com a natureza), o Projeto Cães de Caça, composto de cinco Penetráveis, o Poema Enterrado, de Ferreira Gullar, e o Teatro Integral, de Reynaldo Jardim. A maquete é exposta, no mesmo ano, no MAM/RJ, com texto de Mário Pedrosa, mas a obra nunca chega a ser construída.


A Invenção da Luz (1978): instalação da série Penetráveis, em fotografia tirada pelo sobrinho de Hélio, César Oiticica Filho

Em meados dos anos 60, através de Amílcar de Castro e Jackson Ribeiro, Oiticica entra em contato com a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, envolve-se com a comunidade do Morro da Mangueira, torna-se passista da Escola de Samba e dessa experiência nascem os Parangolés.



Caetano Veloso vestindo Parangolé


“A antiarte é pois uma nova etapa (...); é o otimismo, é a criação de uma nova vitalidade na experiência humana criativa; o seu principal objetivo é o de dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora. É o começo de uma expressão coletiva. O Parangolé, ou Programa Ambiental, como queiram, seja na sua forma incisivamente plástica (uso total dos valores plásticos tácteis, visuais, auditivos etc.) mais personalizada, como na sua mais disponível, aberta à transformação no espaço e no tempo e despersonalizada, é antiarte por excelência”.

Hélio Oiticica


Trata-se de tendas, estandartes, bandeiras e capas de vestir que fundem elementos como: cor, poesia, dança e música e pressupõem uma manifestação cultural coletiva.


O artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980) veste o Parangolé, um de seus trabalhos mais notáveis (1968)

“A minha posição ao propor Parangolé é a busca de uma nova fundação objetiva na arte. Não se confundir com uma “nova figuração”, isto é, pretexto para uma volta a uma representação figurada de todo superada, ou ao “quadro”, seu suporte expressivo. O “Parangolé” é não só a superação definitiva do quadro, como a proposição de uma estrutura nova do objeto-arte, uma nova reestruturação da visão espacial da obra de arte, superando também a contradição das categorias “pintura e escultura”. Na verdade ao propor uma arte ambiental não quero sair do “quadro” para a “escultura”, mas fundar uma nova condição estrutural do objeto que já não admite essas categorias tradicionais. Seria tentar a constituição de um novo “mito do objeto”, que não é nem o objeto transposto da pop art, nem o objeto-verdade do nouveau-realisme, mas a fundação do objeto em todas as suas ordens e categorias manifestadas no mundo ambiental, que é revelada aqui pela obra de arte. O objeto que não existia passa a existir e o que já existia revela-se de outro modo pela visão dada pelo novo objeto que passou a existir. Está reservada ao artista a tarefa e o poder de transformar a visão e os conceitos na sua estrutura mais íntima e fundamental; é esta a maneira mais eficaz para o homem de hoje dominar o mundo ambiental, isto é, para recriá-lo a seu modo e segundo sua suprema vontade. É esta também uma proposição eminentemente coletiva, que visa abarcar a grande massa popular e dar-lhes também uma oportunidade criativa. Esta oportunidade é claro teria que se realizar através das individualidades nessa coletividade; o novo aqui é que as possibilidades dessa valorização do indivíduo na coletividade torna-se cada vez mais generalizada – há a exaltação dos valores coletivos nas suas aspirações criativas mais fundamentais ao mesmo tempo em que é dada ao indivíduo a possibilidade de inventar, de criar – é a retomada dos mitos de cor, da dança, das estruturas criativas enfim.”

Hélio Oiticica

Em 1965, na abertura da mostra Opinião 65 no MAM/RJ, protesta quando seus amigos integrantes da escola de samba Mangueira são impedidos de entrar; Oiticica é expulso e, então, realiza uma manifestação coletiva com parangolés, capas, poemas de Lygia Pape, com a presença de passistas da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, do público e dos artistas Pedro Escosteguy e Rubens Gerchman.


Em 1967, surgem nas Manifestações Ambientais: a Tropicália, 1967; Apocalipopótese, 1968 e Éden, 1969, obras que proporcionam ao espectador as sensações mais elementares entre o humano e a terra, explorando todos os sentidos.




Detalhe da instalação “Tropicália”, de Hélio Oiticica - a primeira versão da obra está no Tate Modern, em Londres
Depois que o compositor Caetano Veloso passa a usar o termo tropicália como título de umas de suas canções ocorre diversos desdobramentos na música popular brasileira e na cultura que ficam conhecidos como tropicalismo.
Em 1969, apresenta-se em Londres, na Whitechapel Gallery, o projeto Éden, composto de Tendas, Bólides e Parangolés.
Detalhe da instalação “Tropicália”, de Hélio Oiticica - a primeira versão da obra está no Tate Modern, em Londres
Depois que o compositor Caetano Veloso passa a usar o termo tropicália como título de umas de suas canções ocorre diversos desdobramentos na música popular brasileira e na cultura que ficam conhecidos como tropicalismo.
Em 1969, apresenta-se em Londres, na Whitechapel Gallery, o projeto Éden, composto de Tendas, Bólides e Parangolés.


Hélio Oiticica com Bólide Cara de Cavalo

Preocupado com a vida em comunidade surge à proposição Crelazer, ligada à percepção criativa do lazer não repressivo e à valorização do ócio.
Em 1970, ganha bolsa de estudo da Fundação Guggenheim; muda-se para Nova Iorque; inicia os projetos ambientais chamados Newyorkaises e retoma os Parangolés, com ênfase não mais no samba, mas no rock.
Decepcionado com o cinema, observando a passividade do espectador, elabora juntamente com Neville d’Almeida e Thomas Valentin, a Cosmococa – programa in progress.
Em uma de suas muitas anotações, Oiticica escreveu que as cosmococas eram uma obra para o ano de 2000. Ele devia estar certo. Depois de 30 anos de sua elaboração e de passar por 14 instituições internacionais de forma isolada, uma série de quatro cosmococas pôde ser vista na Pinacoteca do Estado de São Paulo.
São basicamente filmes não narrativos, produzidos com base em slides e trilha sonora, projetados em ambientes especialmente criados para eles e com instruções para participação.

“A cosmococa rompe com a linguagem do cinema, criando uma narrativa através da projeção de imagens fixas. O cinema são imagens em movimento, o quase-cinema são imagens fixas em movimento. Você projeta uma imagem depois da outra e esse movimento vai criando uma narrativa, uma linguagem”, afirma Neville.


Ainda em Nova Iorque, o artista inicia alguns filmes em Super-8 entre dezenas de projetos de Penetráveis.
Retorna ao Brasil em 1978 e organiza alguns eventos coletivos: Caju-Kleemania; o contrabólide Devolver a Terra à Terra e 1980, no ano de sua morte, propõe o segundo acontecimento poético-urbano Esquenta pr’o Carnaval, no Morro da Mangueira.
Em 1996, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro funda o Centro de Artes Hélio Oiticica, para abrigar todo o acervo do artista e colocá-lo à disposição do público.
Infelizmente, no dia 16/10/2009, pelo menos 90% das obras do artista plástico Hélio Oiticica foram destruídas devido a um incêndio no primeiro andar da casa da família no Jardim Botânico, na zona sul do Rio. Lá estavam abrigadas mais de mil peças do acervo do Projeto Hélio Oiticica e nada se salvou. O prejuízo é estimado em US$ 200 milhões pelo arquiteto César Oiticica, irmão do artista, que mora no segundo andar da mesma casa e não possui seguro das obras.

"Fracassei. Porque minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da divulgação e da guarda da obra dele. Me sinto péssimo", disse o irmão. "Perdemos cerca de 200 milhões de dólares, mas esse não é o valor principal, o valor em dinheiro não significa nada. É uma perda que o mundo inteiro irá lastimar. A cultura brasileira ficou ferida. Eu me sinto pessimamente", disse César



METAESQUEMA II (1958) – coleção MAC-USP



Guache s/ cartão
55 x 63,9 cm
Doação Projeto Hélio Oiticica


“Hélio Oiticica (1937-1980) representa um dos mais importantes momentos da transformação do fazer artístico no país. Sua carreira começa no movimento concreto dos anos 50, passa pelo neoconcretismo, lançado com manifesto escrito por Ferreira Gullar e do qual Metaesquema faz parte, e chega a um programa ambiental radical, que praticamente borra as fronteiras entre arte e vida. Os conceitos desenvolvidos por Oiticica norteiam a 27ª Bienal de SP, que ocorre em outubro deste ano, e tem como tema “Como Viver Junto”. (FGV)

Os Metaesquemas representam, na trajetória de Hélio Oiticica, a investigação de uma nova estrutura espacial, prenunciando as direções que o artista irá tomar a partir de 1959, com o Neoconcretismo.

“Apesar de ter sido rejeitada pelo artista, segundo Aracy Amaral (In: Projeto Construtivo Brasileiro na Arte (1950-1962) São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1977), a série Metaesquemas é um documento histórico de sua obra, e precisa ser estudada.”

Metaesquema, diz Oiticica, é “esquema” (estrutura) e “meta” (transcendência da visualização), indicando uma posição ambígua do espaço pictórico, entre o desenho e a pintura.” (FAVARETTO, 1992, p. 51-52)

Em texto de 1972, Oiticica afirma que “não há porque levar a sério minha produção pré-59”, denominando seus metaesquemas de “apintura”, resquícios de seu aprendizado concretista “aconteudístico”. (HÉLIO OITICICA, “Metaesquema 57/58”, in Hélio Oiticica, 1992, p. 85)

É inquestionável, porém, que seus estudos deste momento, nos guaches que o jovem realiza com dedicação, revelam-se o ímpeto necessário às conquistas futuras do artista.
Os Metaesquemas, todos em guache sobre papel, são estruturas formadas por gráficos ou placas de cor criadas entre 1957 e 1958, remetendo-se à matriz neoplástica horizontal-vertical. Esta, entretanto, comparece perturbada pelo dinamismo imprimido pelas operações efetuadas na superfície com obsessiva dissecção do espaço sem tempo.
Oiticica já os considerava uma evolução da pintura, e traziam uma preocupação cromática através de um alto grau de racionalidade - a construção da cor, segundo o pensamento fenomenológico de Marleau Ponty, “do olho que vê”, do olhar que sintetiza as relações do pensamento, sem jogos óticos.
Obras da série Metaesquemas são compostas de quadrados e retângulos, normalmente contra um fundo claro, refletindo a influência de Kazimir Malevich e Mondrian Piet. Dispostos em uma estrutura gridlike, mas sem regularidade completo, suas formas parecem mudar ritmicamente e flutuar um pouco fora da superfície do papel.
Sobre a estruturação monocromática destes trabalhos, Paulo Venâncio Filho constata:

“ (...) desde o início ela é uma só, inequívoca, homogênea. Pois só quando falamos de uma cor podemos falar dela integral e substancialmente. Só assim a cor é sempre uma cor, aquilo que não se conforma a nenhum limite, vibração, presença que transcende. Tal condição só poderia surgir com a morte do horizonte, da relação entre figura e fundo, da pintura de cavalete. Uma nova condição, efetivo estar no mundo, que torna possível um presente sempre atual.”(VENÂNCIO FILHO, 1998, p. 224)

A diferenciação compositiva entre as duas obras, Metaesquema I e II, de 1958, está na conformação linear das formas vazadas, cuja oposição simétrica evidencia a vontade de expandir-se no espaço em uma composição e nas formas que se anunciam sólidas na obra em estudo, revelando o movimento incômodo de suas ordenações irregulares, reafirmado pelos intervalos entre elas.
Metaesquema II sugere a desestabilização de um padrão de distribuição das figuras, segundo um referencial perpendicular.
Nesse caso, Hélio Oiticica escapa do padrão supostamente universal para uma composição singularizada, ao mesmo tempo geométrica e não estática. O caráter sensível dessa obra de transição na trajetória do artista é alcançado pela junção de um símbolo de rigor objetivo ocidental (o ângulo reto) com a idéia de movimento.

Projeto Uakti


PROJETO CULTURAL UAKTI


O Projeto Cultural Uakti nasceu em 1989. Idealizado pela Associação dos Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (ASPI) e Associação dos Servidores do INPA (ASSINPA) e partindo do pressuposto de que a arte é o subconjunto da cultura e responsável pela reorganização de elementos do sensível dialogando com a tradição, seu foco inicial foi disseminar a causa da democratização cultural no ambiente universitário, gerar troca de conteúdos artísticos entre o meio acadêmico e os jovens universitários, defender o papel libertador da arte e integrar o mundo das artes e da cultura com o mundo da ciência.
O Projeto Cultural Uakti surgiu após as décadas de 60 e 70, quando o país vivenciou grandes transformações econômicas e sociais, passando de uma ingenuidade coletiva dos anos 50 às dificuldades políticas da ditadura militar e inicio da década de 80 com a população mais esclarecida sonhando com reabertura política e volta à democracia. Se por um lado era possível antever melhorias políticas, a economia não apresentava indicadores animadores; o país conviveria com índices econômicos apenas razoáveis e inflação crescente; a Amazônia passava a frequentar a página de crimes dos grandes jornais e TVs internacionais; Chico Mendes assassinado e, sobretudo, em 1989 o Brasil iria fazer sua primeira eleição direta depois de 20 anos e todos queriam participar da reconstrução da democracia.
Nas artes, em particular no cinema tivemos a consagração de Fernanda Torres no Festival de Cannes, recebendo o prêmio de melhor atriz de 1986 pelo filme "Eu sei que vou te amar". Evidentemente os movimentos musicais brasileiros foram influenciados pelas dificuldades da economia e da educação que iniciou um processo de forte declínio com a criação desenfreada de escolas e cursos de baixa qualidade.
Compositores e cantores já consagrados em outras décadas da MPB continuaram a brilhar nos anos 80: Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Djavan, Gonzaguinha, Toquinho, Milton Nascimento, Tim Maia, Roberto Carlos, Gal Costa, Beth Carvalho, Alcione, Paulinho da Viola, Ivan Lins, Simone, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Edu Lobo, Martinho da Vila, Jorge Ben, Fafá de Belém, Rita Lee, Baden Powell e muitos outros.
Com a grande explosão da mídia nos anos 80, principalmente TV e rádio, quando praticamente todas as residências possuíam pelo menos um receptor de rádio e de TV, a divulgação das novas músicas tornou-se muito mais rápida e eficaz, tendo como consequência grande disseminação de músicas de má qualidade e objetivos comerciais sobrepujavam os artísticos. Lamentavelmente foram rareando as músicas de boa qualidade.
Nesse quadro sócio econômico, o Projeto Cultural Uakti foi lançado como um importante locus de diversidade cultural em Manaus. Especialistas em eventos artísticos discutiram caminhos para ampliar o acesso à cultura amazônica com a proposta de garantir que os meios de produção, estivessem nas mãos de quem produz cultura e na tentativa de minimizar a distância entre o artista e o espectador. Para tanto, criou-se uma agenda de shows, iluminação, cenários, registros, exposições, notícias na imprensa, artistas e produtores remunerados, priorizando a população a apreciar espetáculos, além de participar de oficinas e cursos de formação artística.
O Projeto Cultural Uakti não se limita na construção de um crescimento reflexivo e sensível por meio da cultura. O Projeto integra o exercício de cidadania, exemplo disso, é sua parceria com o Projeto Cultura pela Viva, projeto beneficente, de caráter solidário, que através de manifestação de expressões artísticas voluntárias, buscam fundos em prol de causas sociais.
Então, gerou-se uma sinergia grande entre os artistas amazônicos. O Amazonas é berço de grandes expressões culturais (música, pintura, literatura, dança, performances, circenses e de teatro de revista; capoeira e maculelê; exposições fotográficas, charges, desenhos científicos e artísticos; colagens; artesanato de biojóias) que se destacam entre os maiores expoentes do cenário artístico nacional na atualidade e o Projeto Cultural Uakti transformou-se em um centro de referência de incentivo e acesso a esses bens culturais.

Passados vinte e um anos, o Projeto Cultural Uakti, renasce da necessidade de dar visibilidade a autêntica cultura amazonense, não se restringindo aos seus limites geográficos, ainda que de lá extraia a matéria prima de sua arte.
As atuais políticas públicas, estatais e as privadas através de editais buscam incentivar e promover projetos artísticos e científicos brasileiro, garantindo direitos culturais e exercitando a democracia cultural, o que envolve distribuição de bens, oportunidades e participação na criação, patrocinando e oferecendo “bolsas” que contribuem para a reconstrução da cultura nacional.
Dessa forma, o Projeto Cultural Uakti torna-se verdadeira referência de articulação, apoio e divulgação de vontades criadoras, com o objetivo de reconhecer e reverenciar aquilo que, como o próprio nome do projeto revela: a Cultura Amazonense.
O Projeto Cultural Uakti é a materialização de um sonho. Seu objetivo é conceder voz, participação e espaço às pessoas que expressam a cultura amazonense com seus costumes e particularidades para todo o país.



Acervo do Projeto Cultural Uakti

O acervo de fotos, fonogramas, hemeroteca, folders, cartazes e filmes do Projeto Uakti foram digitalizados pela ASPI através do Projeto Memória da Ciência e da Cultura na Amazônia (ASPI/INPA) e estão disponíveis para consulta e pesquisa. A intenção do Projeto é publicar um livro sobre os mesmos reunindo fotos e depoimentos.


O guarda roupa alemão - Lausimar Laus




LAUSIMAR LAUS
(1916-1979)

“O guarda-roupa era um móvel que havia em casa de minha avó Maria Amélia Stuart, mãe de minha mãe, que se casara com um norueguês. Era, de fato, um móvel alemão, quase até o teto, que me fazia, quando criança, pensar muito nele. Tinha milhões de coisas antigas dentro dele e até figurinos do século XVIII. A minha imaginação maquinava sempre. Pra mim ele não era um móvel. Era gente, porque eu sempre falava muito sozinha, como se houvesse gente a minha volta, quando criança.”
Lausimar Laus

I - AUTORA:


Segundo, a autora, em carta para um amigo, tudo o que escreve vem de suas vivências.

LAUSIMAR MARIA LAUS nasceu em Itajaí, em 1916. Estudou em Florianópolis e seguiu ao Rio de Janeiro, onde iniciou a carreira de escritora, educadora e jornalista.
Na década de 1950, colaborou com vários jornais e revistas literárias modernistas, inclusive com o grupo literário de Florianópolis, o Grupo Sul.
Em 1970 publicou seu primeiro romance, intitulado de “Tempo Permitido”. Em 1975 publicou sua obra de maior sucesso: “O guarda-roupa alemão”.
Escreveu também livros infantis; poesias; contos crônicas e ensaios; trabalhou no Ministério da Educação e Saúde; e, em 1952, ganhou o segundo lugar no concurso da Academia Brasileira de Letras na categoria de teses.
Morreu aos 63 anos, vítima de infarto, no Rio de Janeiro.
Em alguns documentos, Lausimar Maria Laus é citada pelos nomes Lausimar Laus Gomes e Lausimar Laus Conti.


II – ESCOLA LITERÁRIA:
LAUSIMAR integra-se ao grupo dos Modernistas do Sul e está inserida na literatura contemporânea como regionalista alemã, embora localizada no Vale do Itajaí.
A autora de “O guarda-roupa alemão” preocupou-se em registrar as influências culturais trazidas pelos alemães (Goethe, Heine, Verlaine), assim como o folclore catarinense presente na região numa tentativa de compreender e aceitar à “sua nova terra”.


III – CONTEXTO HISTÓRICO, SOCIAL E CULTURAL:



Mapa mostrando a dispersão das colônias alemãs no sul do Brasil.

A obra narra à colonização alemã no sul do Brasil a partir de 1850, a expulsão dos índios e a demarcação de terras e prolonga-se até o período de nacionalização imposto por Getúlio Vargas, quando a comunidade alemã sofre perseguições e repressões.
A autora contextualiza os fatos históricos, sociais, políticos e econômicos dos primeiros cem anos da cidade de Blumenau; registra as enchentes ocorridas em 1880 e em 1911; a industrialização da região (as fábricas Hering e Kormann); a Guerra do Paraguai; a Segunda Guerra Mundial; os choques entre as culturas, o preconceito quanto à língua e a adaptação da raça, gênero e nação na conciliação de culturas diferenciadas.


IV - LINGUAGEM:

Até meados do século XX havia uma grande produção literária em língua alemã nas regiões colonizadas do Brasil. Depois da grande onda de nacionalismo, a língua alemã foi perseguida e descriminalizada pela obrigatoriedade de se falar português e todo conteúdo criado em praticamente um século de imigração alemão no Brasil foi perdido.
LAUSIMAR através de uma linguagem simples, híbrida, lírica e irônica mesclou canções dos canoeiros; o modo de falar catarinense; o linguajar de origem açoriana, o tema da imigração; a situação dos colonizadores numa região “brasileira” e as dificuldades enfrentadas pela comunidade alemã que falava um português quase ilegível, utilizando-se de códigos metafóricos, decido ao preconceito existente em todas as culturas diferenciadas.
A relação ambígua entre os dois idiomas e seus falantes apresenta a importância da literatura em língua alemã para se compreender o contexto histórico do século passado, a influência das campanhas nacionalistas na utilização do idioma alemão e revitalizar a questão da literatura em língua alemã e de seus descendentes, produzida no sul do Brasil, antes da Era Getúlio.
Dessa forma, LAUSIMAR nos apresenta a relação entre a muttersprache (língua materna) e a freumdsprache (língua estrangeira), ou seja, a relação do idioma alemão e do português em tempos da colônia alemã de Blumenau.
HOMIG, personagem-narrador constrói toda a história de sua família a partir de lembranças que se cruzam no tempo, no espaço e na linguagem: a língua alemã (dentro de casa), a língua portuguesa (na escola), a língua francesa (da avó indígena).


V – FOCO NARRATIVO:

A narrativa não é linear e segue de acordo com o fluxo descontínuo dos pensamentos da personagem, utilizando-se vários pontos de vistas que se misturam em uma espécie de fusão de terceira e primeira pessoas.
Partes são narradas em primeira pessoa pelo próprio Homig e outras extraídas do diário de sua tia Hilda e de seu avô Klaus, de onde partem os pontos de vista de sua avó Sacramento e da professora Lula.
O narrador onisciente em terceira pessoa apresenta as sensações, os sentimentos e as reflexões de Homig sobre sua história de vida.
O velho Guarda-roupa alemão trazido da pátria distante, o Kleidrschrank ou o Kleid, como o chamavam para economizar esforços nas sílabas ásperas, recebe um tratamento essencial e humanizador na narrativa de Homig; afinal, acompanhou a trajetória da família Ziegel e guarda os segredos mais íntimos da mesma durante várias décadas.
Dessa forma, conclui-se que o narrador é heterodiegético, narra o tempo em que Homig fica à frente do guarda-roupa, recordando de todo o passado nesses cem anos.
“Homig, um metro e oitenta de homem, continuava: - Tu vês, Kleidrschrank? Aqui está o último dos Ziegel! E agora? Tu vais continuar. Eu sei. A casa vai ser vendida, meu velho. Aonde te levar, se este é o teu lugar? Eu? Sei lá para onde vou. Bem mais novo que tu a vida me entortou todo. Com sessenta, não presto mais nem para guardar as coisas. O homem foi feito para sentir.(...) A cidade mudou. Os jardins também. Blumenau “O campo de flores” do velho Ziegel virou fumaça de fábricas. As casas da velha colônia foram destruídas.”

VI – TEMPO:
Na obra encontramos dois tempos: o tempo cronológico e o psicológico.
A família Ziegel é o centro da narrativa, porém várias outras histórias familiares cruzam-se entre si, tecendo, assim, um painel cronológico dos primeiros cem anos da cidade de Blumenau; fatos históricos (a chegada dos alemães, por volta de 1850; o extermínio dos índios daquela região até a Segunda Guerra e o período de nacionalização imposta por Getúlio por volta de 1940); as viagens e o cotidiano dos imigrantes.
“Era tarde quando acordei, suando por todos os poros. Tia Clara preparava-se para ir ao hospital visitar seu Tibúrcio e levar Menininha para tomar a benção. Cedo já o empregado do Peitter tinha trazido o recado de dona Titã: era para tia Maria Clara levar a Menininha e um prato de comida para ela.”
E o tempo psicológico que narra às memórias; o saudosismo; as reflexões; as angústias; os conflitos existenciais; os sentimentos de Homig; as lembranças das enchentes que assombravam o Vale; as humilhações e os temores em se viver em uma nova terra.
“Ela mesma tinha mágoa das amargas palavras que dissera na hora das raivas. Mas, que fazer, quando um marido pobre, com cinco filhos se mete na política? Só mesmo metendo a língua! Tinha pesar sim. A casa tivera de ser hipotecada. A casa. Mas as terras, nem mais um pedaço!”
“À noitinha, todos os que podiam foram à capela para a benção. Chorava-se e rezava-se, enquanto a chuva, lá fora, em cantochão, continuava em fúria. As vozes saíam límpidas, num cristal penetrante até a alma. Eram rezas de dor, eram cânticos de socorro, eram lamentações de desespero.”



Pintura retratando a chegada dos primeiros imigrantes alemães no sul do Brasil

“Blumenau parece um jardim, não é dona Maria Clara? Não sei como tudo pode florir o ano inteiro. O calor do verão não mata a verdura e o colorido. Sempre penso que os alemães de tanto estudar as flores, sabem o que plantar em cada estação. O vale e o rio, entre as montanhas que se alinham em volta, dão a impressão de outro país, outras terras, que a gente aprende a ver no mapa e na história Universal. As casas são diferentes a maior parte com tijolinhos vermelhos, com riscos pretos de madeira, em moldura geométrica, formando ângulos perpendiculares. Lá em cima, a janela principal do segundo andar tem sempre uma jardineira cheia de flores.”


O espaço geográfico de “O Guarda-roupa alemão” compreende as cidades de Blumenau e Itajaí, retratando a imigração alemã em Santa Catarina, tendo como referência a casa da família Ziegel. Os ambientes formados naquela velha casa situam-se diante de um centenário guarda-roupa alemão.

VIII – PERSONAGENS:

As personagens são retratadas através do fluxo da consciência de Homig, centralizadas nas personagens femininas e caracterizadas por suas personalidades fortes e marcantes. Homig abre uma das gavetas do Guarda-roupa e revive toda a história dos membros de sua família


HOMIG é a personagem principal da história e o último descendente dos Ziegel. Ele é responsável por desvendar o grande enigma da narrativa: abrir a gaveta do velho Guarda-roupa alemão, que acompanha a família por muitas gerações, cuja chave a matriarca, fiel à sua raça, levou para o caixão junto com o seu segredo e através de suas reminiscências a história se desenrolará. Sua mãe morreu moça, numa epidemia da gripe espanhola, e seu pai na Segunda Guerra Mundial.
Homig recorda a história de amor entre o avô KLAUS e sua avó SACRAMENTO.
Seu avô era um alemão bonito, inteligente, bondoso e defensor dos índios. Uma vez ao demarcar terras na região de Tijucas foi atraído por uma cantoria de meninas num colégio de freiras. Tocou o sino, pediu um copo d’água e foi servido por uma menina chamava MARIA DO SACRAMENTO. No dia seguinte, voltou até o colégio e a pediu em casamento. Na época SACRAMENTO tinha doze anos.
SACRAMENTO era pura, ingênua e desconhecia o sentido de ser esposa e mulher. Índia, que devido à invasão dos alemães, tornara-se órfã de pai e mãe e que foi recolhida a um convento.
A família alemã repugnou a união. A mãe extremamente preconceituosa não aceitava o casamento do filho com uma “bugra”, só aceitava noras alemãs para o seio da família. SACRAMENTO sofreu discriminação quanto à compreensão da língua, à adaptação aos novos costumes, à vida de casada e, principalmente, quanto à rejeição por parte de Ethel, mãe de Klaus.
Trabalhava dia e noite, dormia isolada num quarto nos fundos, só recebia ordens e não conseguia se comunicar, pois a família falava em alemão e ela desconhecia o idioma.
Klaus a respeitava e mantinha-se distante dela. Um dia, explicou-lhe sobre ao ciclo menstrual, e dias depois, SACRAMENTO comunica-lhe que “o rio vermelho” viera visitá-la. Só depois disso, concretizaram a sua união.

“Ali, no imenso quarto de núpcias, sem as paredes dos homens, cujo teto era um céu chumbado de nuvens... Klaus deitou Sacramento em cima das margaridas. A seu lado ficou-lhe contando o que é casamento, o que é ser um só em dois...”

Klaus sempre foi carinhoso com sua esposa, seus filhos e netos e tornou-se referência na criação e educação de Homig. Carinhosa, compreensiva e religiosa, sua ingenuidade e a ternura marcaram todos os episódios em que esteve envolvida, e estas são as qualidades que fixaram nas lembranças de Homig.

ETHEL, a GROSSMUTTER: bisavó de Homig e matriarca da família Ziegel. Representa a seriedade típica alemã, mulher trabalhadora, bonita, enérgica, disciplinada e protetora dos seus. Era quem regia a casa com autoritarismo e competência. Fazia-se de forte, mas na realidade era uma pessoa frágil, saudosista, nacionalista (amava loucamente sua pátria e defendia a pureza da raça e da sua cultura), sonhadora, triste, artista (Homig encontrou alguns desenhos de sua autoria escondidos numa das gavetas do guarda-roupa) e preconceituosa (não aceitou sua filha Hilda ter engravidado do negro Bube).
A personagem é responsável pelo mistério da história, pois guardava o grande segredo familiar dentro do Guarda-roupa e que só poderia ser revelado pelo último descendente dos Ziegel.

“Mas como a bisavó fora bonita! Puxa vida! Até que aquele cabelo complicado, com uma grande igrette na cabeça, lhe dava uma graça estupenda. A legenda diz que ela nascera em Paris, de pais alemães e era autora de composições, onde se harmonizavam cores de extrema suavidade.”


GROSSMUTTER

“Tà certo. E a gente nunca soube da genialidade da Grossmutter. Pelo menos vó Sacramento só contava sobre aquela mulher forte como granito. Era lidando. Plantando flores, mas também plantando aipim. O morango. Cavando a terra. O avental sempre muito branco, rodeado de bordado inglês. Pesadona. Vermelha. Dando ordens. Organizando as festas da colônia. Aconselhando o marido. Nunca em jeito macio.”

HILDA é a filha mais nova de Ethel, personagem secundária e marginalizada perante a sociedade.

“Pegava o cavalo bravo no mato, tirava a roupa toda, montava nua em pêlo e cavalgava a vontade. O falatório da vizinhança.”

Amante da liberdade, rebelde, favorável a prática do amor-livre e desprendida de qualquer preconceito, regras e moralismo. Provocava comentários maldosos na população e era conhecida por “vagabunda e endemoniada”.
Em seu diário relata seus questionamentos sobre a vida e os códigos que a regem. Hilda acredita na natureza das coisas e nos sentimentos como obras de Deus e concluí que não podem ser pecados. Todos acreditam que voltou à Alemanha, segundo ordens de sua mãe, mas seu verdadeiro destino só é revelado no final do romance.

LULA: professora brasileira que ensinava a língua portuguesa na rede pública. Através dessa personagem é narrada a história dos brasileiros, descendentes de açorianos e de espanhóis.
Lula mudou-se de Itajaí onde vivia com a sua avó e seus irmãos depois de passar por problemas financeiros e veio residir na casa de sua tia Maria, junto com suas duas primas, a Cidinha e a Dora. A personagem é citada no diário de Klaus e por meio da mesma, são retratados: a enchente de 1911, as perdas, o abandono das casas, o refúgio da população para o convento das irmãs e o “caso de Menininha”.

MENININHA: filha adotiva de seu Tibúrcio e dona Tita, moradores de Itajaí e economicamente estabilizado.
Foi criada com muito zelo e paternalismo. Seus pais sempre super protetores, não a deixavam sair sozinha de casa, nem ter muitas amizades. Em uma ocasião, devido a uma cirurgia de hérnia do seu Tibúrcio, MENININHA foi deixada aos cuidados de D. Maria Clara, pessoa de confiança da família.
MENININHA vendo-se livre das amarras, da fiscalização de seus pais e avessa aos moldes da sociedade aproveitou-se da oportunidade para viver suas aventuras. Lula descobre seus encontros, às escondidas, com um homem casado, seu Ataliba, foguista do “vaporzinho” Blumenau. MENININHA confessa a Lula sua paixão pela vida e suas experiências homossexuais. No final, MENININHA casa-se, mas nunca abandona suas atividades.


RALF: Primo e amigo de Homig. Assistiu Homig até os seus últimos momentos.
Foi quem acabou descobrindo o segredo destinado “ao último dos Ziegel”


HERNA: Tia de Klaus. Viajara da Alemanha para batizar Hilda.


TIA CLARA, DORA E CIDINHA: Tia e primas de Lula. Personagens generosas que acolheram e apoiaram Lula, quando ela veio morar em Blumenau.


DR. BÜCHMANN: médico alemão.

ZECA: Empregado do Vapor Blumenau. Personagem solidária e amiga. Ajudou as pessoas afetadas pela enchente.

ATALIBA: Foguista do Vapor Blumenau. Homem adúltero; casado, mas, mantém um relacionamento com Menininha.


IX – ENREDO:


"O armário. Tinha sido, toda a vida, o seu grande problema. Naquela tarde, o canto escuro. O armário. Sua forma geométrica. Seu espelho geométrico.
-Por quê? Por que ainda o armário?
Não sabia. Havia dias e horas de multidões e mutilações. Sabia que em cada segundo lhe ia faltando uma partícula a mais, cá dentro. Mutilação perfeita. A alma se esvaziando. Tudo se ia soltando a esmo.
Procurou, na manhã imperfeita, o sinal. O acordar: era o morrer. O próprio sentido do fim. O sinal se perdera ao acaso. E como viver sem o sinal?
Levantou a cabeça para o reflexo tênue, meio azulado. A madrugada chamava para a angústia. Que era, afinal, angústia? Aquilo denso. Compacto. Tinha lembranças de como foram outros dias simples. Por que não voltar a ser aquele recipiente? Um vaso de flores? Claro. A mesma aparência viva na massa vítrea. O gesto solto para os outros.
Ele perdera o sinal. Sabia que era para sempre. Sem remédio.
Os cabelos, perpendicularmente. Os olhos oblíquos. Linhas, linhas, linhas. Até as rugas do meio da testa: um freio mostrando o esforço. Não importa. O pensamento cria outras veredas. Não é fácil perguntar, quando nada se responde.
Ethel: o rosto ali no espelho. A forma octogonal da transparência furando escombros. O tom escuro do jacarandá: o passaporte."

A narrativa de “O Guarda-roupa alemão” não enfoca somente a história da FAMÍLIA ZIEGEL, imigrantes alemães que vieram colonizar Santa Catarina; mas, várias outras histórias familiares que se cruzam entre si, tecendo, assim, um painel do contexto histórico, social, econômico e cultural dos primeiros cem anos da cidade de Blumenau, marcado pela feminilidade e suas relações ideológicas e de poder; fundindo ficção com fatos históricos e retratando fielmente as questões de uma época de dificuldades, de esperanças e de preconceitos.
A história é narrada, inicialmente, por Homig, o último descendente dos Ziegel, homem de sessenta anos, solteiro, de grande sensibilidade, fragilizado por uma doença no coração e consciente que seu fim estava próximo, assim como a história dos Ziegel.
O livro, no entanto, tem como personagem central Kleid, o velho Guarda-roupa que está presente na família Ziegel, desde a sua vinda da Alemanha, trazido por Ervin Ziegel e Ethel Moltke.
Kleid acompanhou todas as gerações dos Ziegel, sempre no mesmo lugar, guardando documentos importantes, enxovais e segredos.
Homig acompanha a venda da casa onde viveu toda sua vida e sabendo que o Guarda-roupa ficaria ali, porque lá era seu lugar; e, tendo a incumbência de abrir uma gaveta do mesmo, a qual foi trancada por sua bisavó ao falecer, senta-se em frente ao Kleid e decide realizar o desejo da sua bisavó. A atitude de abrir a gaveta é hesitada várias vezes e durante o período de um dia para outro, nostalgicamente, toda a história de sua família e de seu povo vem-lhe à lembrança, registrados em diários e que, ao serem lidos, por serem tão bem descritos, poderiam ser vivenciados.
O Guarda-roupa, o Kleid, é personalizado, humanizado e simboliza metaforicamente a união familiar, a incerteza, o deslocamento para o desconhecido, a preservação dos costumes, os conflitos culturais alemã, o cotidiano de cada personagem, a miscigenação entre índios, brasileiros e alemães e a adequação imposta pelo novo meio, enfim, a trajetória da imigração alemã no Brasil.
Na verdade, havia mais um primo que ainda estava vivo, Ralf. Dez anos mais velho que Homig, que chegou da Alemanha, já adulto e formado e viveu apenas parte da história dos Ziegel em Blumenau.
Homig conversa com o Guarda-roupa com intimidade e emociona-se ao recordar de seus familiares e de sua infância: a querida avó Sacramento e a chegada da tia Herna, que viera da Alemanha para batizar Hilda, uma moça linda e cheia de vida, que já contava com 16 anos e aguardava a presença da tia para ser batizada e “tirar o demônio do seu corpo”. Hilda era libertina e adepta a hábitos censurados e como sua cura não se realizou, foi enviada à Alemanha para evitar mais comentários maldosos da população.
Recordou-se da mãe mandando comprar “zuckar na fenda”, a paixão pela vizinha Diva, que não ligava pra ele, as aulas de alemão dadas pelo padre Melcher e sua a inseparável vara de marmelo para dar-lhes nas pernas quando não soubessem pronunciar as palavras:
“- Atenção, bandoleiro. Tu não pareces filho do Klaus e neto dos Ziegel. Tu tens tudo de índio. Até esses olhos puxados e esse pensamento aventureiro que se perde...”... “Eu gozava a minha imaginação. A vara do padre era o garfo do diabo... coitado do padre, eu era endiabrado.”

Seus pensamentos voam quando ele próprio foi enviado à Alemanha para estudar.

“Voltei depois de dois anos. Fui outra vez (universidade)... O que eu queria, era beber vinho e cerveja... Eu sempre fui um grande boêmio. A figura de Diva era um tormento agradável. Quando ficava bêbado, escrevia cartas e cartas...nunca levava ao correio... eu já estava um galalau de 16 anos... a Alemanha passava pela maior crise da história, o desemprego era geral, o povo em angústia, esperando o aparecimento de um líder... Surgiu a figura de Hitler...Só se falava no homem de bigodinho curto... Confesso que nunca gostei muito da cara dele, mas ia com os camaradas mais velhos ouvir sua palavra em praça pública. Ri sozinho, quando tirei a roupa de Hitler e o vesti de diabo, como fazia com o padre. Escrevi a Mama à vó Sacramento: Se vocês não me mandarem uma passagem, vou embora a nado”.

Homig voltara da Alemanha em 1933. Hitler já possuía prestígio. No Brasil, voltaram a funcionar as 2500 escolas alemãs que haviam fechado durante a Primeira Guerra. Porém, somente os professores treinados na ideologia nazista é que podiam lecionar. O material didático era importado e fiel ao pensamento da “nova” Alemanha, para introduzir tudo o que ditava o III Reich (lealdade à Alemanha nazista).
Nesta época Ethel apresentava transtornos mentais e vivia perguntando sobre Hilda. O partido nazista estava em plena ascensão e Homig não aguentava o radicalismo do movimento.
Ethel foi irredutível e insistia que Homig estudasse engenharia e casa-se com uma noiva alemã. A avó Sacramento conseguiu o dinheiro para a sua passagem de volta, deixando-o eternamente grato.

“Vó Sacramento era doce “Homig, mais feliz ficarei contigo ao meu lado...”

Homig voltou ao Brasil e a Grossmutter morreu. Seu desejo era ser enterrada em Berlim, mas diante da impossibilidade de embalsamá-la, acabou sendo enterrada em um jardim, ao lado de uma aroeira que ela tanto amava.
A personagem tenta se desvincular dessas memórias, mas, as lembranças trancadas no Guarda-roupa insistiam em se libertar.

“Homig volta ao presente e começa a repensar sua condição: por que não se esquecia de tudo? Lembra do bisavô; seu diário, suas manias, seu amor à pátria distante, tudo isso contado pela avó Sacramento. Olha para o Kleid, abre outra gaveta, tira a lembrança da avó e descobre-lhe pintora. Observara algumas fotos e vira como ela era bonita. Mulher exigente, prática, mas que sabia amar à sua maneira. No fim da vida, teve arteriosclerose e Homig ria de suas loucuras.”

Então, tenta fixar-se no presente e refletir sobre sua condição. Mas, os pensamentos insistem levá-lo aos tempos sofríveis: a II Guerra Mundial; a repressão sofrida pelos imigrantes alemães, devido à ascensão de Hitler; o decreto de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, fechando as escolas estrangeiras e exigindo a obrigatoriedade da língua portuguesa nas colônias alemãs; as violências ocorridas nesta época, inclusive ao negro Bube por ser brasileiro e falar somente alemão e a quase falência do hotel dos Weber por ter contratado Isolina, a recepcionista que falava português. O medo tomava conta. Uns concordavam com Getúlio, outros não.
Folheando o diário do bisavô, Homig recorda-se de Lula, a professora que viera de Itajaí com a missão de ensinar português aos alemães e chegava a entender o porquê de tanta repressão: eles insistiam em dizer que eram alemães, falar a língua alemã... mesmo tendo nascido aqui. Era necessário ter muita paciência.
Lula morava com a tia Clara e com as primas Cidinha e Dora.
Certa vez, Zeca veio bater-lhe à porta, pedindo um favor: ficar com a filha de criação Menininha, enquanto a esposa ficava no hospital com seu Tibúrcio. D. Clara aceitou. Menininha era criada com muitos cuidados, vivia praticamente presa. Descobriram que Menininha estava de caso com Ataliba, homem casado. Cidinha ficou indignada. Ataliba dava náuseas em Cidinha e Lula, que sabiam de tudo entre ele e a garota.
Depois, lembrou-se da enchente do Itajaí-Açú, em 1911, que arruinou a economia local e trouxe muitos sofrimentos à população, como a falta de alimentos, isolamento de comunidades, que se viam obrigadas a vender seus pertences para sobreviver e muitas vezes precisavam abandonar suas casas e procurar abrigo no convento.
Lá havia muita gente, vítimas da enchente. Menininha começou a ter um ataque de riso; o médico a examinou e diagnosticou: ataque histérico.
As pessoas se repartiam em cuidados. Quem estava bem, ajudava os doentes. “Os Ziegel foram os que mais ajudaram...” Lula ficou cuidando de Menininha.
A mulher de Ataliba se suicidou. Menininha não se abalou e ainda contou que sentia uma paixão ardente por Zoraide, uma amiga.
De volta ao presente, Homig olha para o Kleid. Levanta-se, passa as mãos pelos cabelos, olha para a casa que, em breve, não moraria mais e lembra-se que Kleid havia resistido à enchente de 1911. Ficara submerso, mas não deixou entrar uma gota sequer, conservando o que carregava dentro de si intacto. Por isso, a Grossmutter havia deixado o seu segredo dentro dele.
Pensa em Hilda, a incompreendida e seu diário, que fora encontrado jogado no sótão, muito tempo depois da morte das avós.

“Por onde andaria Hilda?... O tempo, que fizera dela? Tantas rugas como as da vó Sacramento? Que mistério a envolvera depois da última estada em Blumenau? Só se sabia, através da Grossmutter, que ela voltara para sempre à Alemanha.”

Homig volta novamente à cadeira em frente ao Kleid, relembrou-se dos vizinhos, a família de Diva, as superstições, as rezas da avó Sacramento e os casos contados por ela da grande enchente de 1880 e de 1911.

“As águas do rio Itajaí-Açu subiram até uma altura de 15 metros... arrastaram tudo... Blumenau foi atingida por uma grande desgraça.”

As pessoas tinham que reconstruir a cidade após a catástrofe. O escândalo de Menininha vinha-lhe à cabeça. Acabara fugindo para a “Fazenda”, lugar das mulheres da vida em Itajaí. Certo dia, soube-se que um rapaz chamado Eurípedes, muito honesto, apaixonara-se por ela e se casaram. Tiveram três filhos, tinham dinheiro. Mas, Menininha não renegou suas origens: de vez em quando, fugia com o marido de alguém. Quando voltava, o marido tratava dela, mandava-a ir ao dentista, pois voltava desdentada e quando o filho do outro nascia, era criado junto com os seus; depois, ela fugia de novo... O povo dizia que ele era um santo.

Homig misturava as imagens da enchente com pessoas, coisas e a conversa de Hilda, ainda em cima do cavalo, tudo gravado no “diário íntimo” de seu avô Klaus. Hilda era vista como vagabunda, por fazer as coisas que lhe davam vontade.

“Homig verificava cada linha do Kleid: - Claro, Kleid. Para mim tu és mais que uma pessoa. Tu é a única coisa que me compreende. E começa a se lembrar de Hilda: Hilda era um enigma? Acho que tinha razão. A vida é para ser vivida. Naquele dia, ela vinha correndo de cabelo solto. Cabelo solto, para mutter, era sinal de mulher da vida. Ela falava sozinha...” Hilda era uma mulher bonita, alta, loira... enlouquecia os homens. Homig era “guri pequeno”, mas se encantou pela moça: “ela cavalgava nuinha da silva”.

Homig relembra quando a tia Herna precisou fazer uma transfusão de sangue e o único que tinha sangue igual ao dela era um mulato, Praxedes. Ao saber disso, ela disse que preferia morrer a receber sangue brasileiro e os médicos tiveram que aplicar uma injeção de calmante para a conclusão da transfusão.
Em seguida, o primo Ralf contou as novidades a Homig: Lula casara-se e estava cheia de filhos; Menininha continuava enganando o marido. A guerra havia acabado... Por onde andaria Hilda? Ao lembrar o fim da guerra, os dois primos falaram da barbaridade feita pelos soldados: pegaram seu Werther, o hoteleiro adorador de Hitler, penduraram-lhe um saco de areia no pescoço, fizeram-no andar por longa distância. De volta à praça, mais morto do que vivo, foi sentado numa cadeira de barbeiro e obrigado a beber óleo de carro.
Então, Homig pede ajuda ao primo para desvendar o mistério preservado por tantos anos, abrindo a gaveta de Kleid.
Sentados, olham para o Kleid. Era chegado o momento. Homig brinda com um copo de conhaque, e outro, e mais outro... Ralf pega o pé-de-cabra e abre a gaveta.
Atentos percebem que há uma caixinha de jacarandá com incrustações de prata nos cantos, em forma de triângulos e, em cima da tampa, um retângulo pequeno, onde está gravado um nome: Hilda.
Ralf a retirou e colocou-a em cima do piano e verificou que havia uma carta lá dentro, com o subscrito: “Ao último dos Ziegel.”
Homig pegou o envelope, pôs no bolso, enquanto Ralf olhava o tesouro em moedas lá existentes. Homig já bastante debilitado físico e emocionalmente, é levado para o hospital e precisa ser internado com urgência sem antes entregar a chave da gaveta ao primo.
Não podia abrir aquela carta. Seu coração não aguenta, e ele cai desfalecido. O médico diz a Ralf que ele não podia beber, mas era teimoso. Ralf vai embora com a certeza de nunca mais ver o primo vivo.
Vai para casa, abre a caixinha e toma em suas mãos um pano de linho. Ao abri-lo, fica chocado com a descoberta mórbida que fez.
Tratava-se de uma ossada humana, quase desfeita, um pequeno crânio sorrindo patético com dentes certos e finos. Um cacho loiro envelhecido, meio esbranquiçado, posto num dos lados da caixa e acompanhada da seguinte carta.


Blumenau, 18 de janeiro de 1920.

Não me condenem. Hilda era como eu gostaria de ter sido: fiel a si mesma e às suas convicções. Era um pássaro. Não era gente. Há muito sabia de seus encontros com o negro Bube. Só quero dizer que ela estava grávida dele e isso não deveria acontecer. Uma raça é uma raça! Fi-la acreditar que ia pô-la num navio para a Alemanha, quando a levei no carro naquele dia. Sem que ninguém soubesse, pus uma pá na mala do carro. No caminho inventei um aquecimento no motor e pedi para que ela olhasse o que era. Enquanto ela fazia isso, pus o carro em movimento, fazendo-a cair sob as rodas. Somente cinco anos depois, desenterrei-a e tirei seus ossos. Aí estão.
Que Deus me perdoe. Enterre-os debaixo da aroeira brava, onde os pássaros cantam e o sol não castiga.


CONSIDERAÇÕES FINAIS:

. Homig representa o processo de construção da cultura híbrida na busca da identidade cultural e seus confrontos identitários desenvolvidos ao longo da obra.

. A narrativa apresenta contraditórias sensações: tristezas; melancolias; mortes; desavenças; angústias; preocupações e repressões políticas. Mas, também, festas, alegrias, casamentos e nascimentos.
“Quando cheguei na Velha, tia Maria Clara chorava. Cidinha ainda não tinha aparecido, e ela me apertou tanto, que seu vestido ficou molhado também. Na sala, Dora, Menininha, o Zeca de Blumenau, seu João Born, o coletor estadual, que era grande amigo nosso e tinha vindo de Florianópolis ao mesmo tempo em que nós viemos de Itajaí.”
“Naquela noite era festa na colônia. A caça fora farta. A grande fogueira trazia o clarão até a fresta, onde a cortina fina e fluida se abria levemente. De repente, de cansaço dormira. Um hálito de licor de framboesa lhe recheava a face, um leve perpassar em seu rosto, como a suave brisa de abril.”
. A obra dá destaque às tensões do Estado Novo com a perseguição aos alemães, o medo daí decorrente, as humilhações impostas a um dos protagonistas, o velho Werther no final da guerra: Uma avalanche de gente reunida na praça. Banda de música e tudo (...), vinha o velho Werther com um saco pendurado no pescoço, com a cara de Hitler desenhada em cima. Na praça, (...), mais morto do que vivo, foi sentado numa cadeira de barbeiro (...) e obrigado a beber óleo de carro.

. As idéias nazistas e não-nazistas; as perseguições políticas; o amor realizado; o homossexualismo; o adultério e o racismo.
. O clímax com o desfecho final da obra .
. O romance aborda várias temáticas sobre a colonização alemã na região de Blumenau. A demarcação de terras e o confronto com os índios são acontecimentos narrados pelo avô Klaus, o qual mostra respeito pela cultura nativa e acaba apaixonando-se por uma indiazinha de doze anos criada por freiras francesas.

. A dedicação das mulheres à organização familiar, à educação dos filhos e à manutenção da cultura germânica, pela qual têm tanto orgulho. As descrições das casas, dos jardins, das vestimentas, da própria cidade, de seus costumes e tradições.

. Choque entre as culturas distintas; o saudosismo e a nostalgia dos imigrantes pela pátria distante e assimilação de diferentes culturas pelas novas gerações.

. Caricatura do imigrante alemão, atingindo o cômico.
Herna necessitando uma transfusão de sangue, tem como único doador compatível o mulato Praxedes, tripulante do “vaporzinho” Blumenau. Herna, alemã nacionalista, entusiasta da “Nova ordem” proposta por Hitler, não aceitava misturar seu sangue com o de um mulato brasileiro: “Brasileiro tem sífilis...”. O doutor Büchmann, ginecologista conceituado e conhecido por sua personalidade autoritária, acaba usando da força física para realizar tal transfusão, inclusive com as enfermeiras, as quais recebiam caneladas, quando não faziam como foi mandado. Para complicar a situação, o voluntário a salvar a vida da alemã, em meio a tantos xingamentos, acaba desistindo da ação por achar um desrespeito à sua raça:

“Sabe o que mais, seu dotô? Eu vou mais é m’imbora. Deixa esse diabo morrê de uma vez...fico dês das 6 da manhã im jejum pra sarvá uma merda dessas e ela ainda me chama de sifílico?... O Dr. Büchmann, vermelho como um pimentão, os dentes cerrados, a boca aberta, agarrou o mulato, deu um safanão, jogou-o na cama e disse com todas as suas forças e todos os seus erres: “Fai a merrrdaaa!”. O Praxedes, de mulato que era, passou a meio desbotado...”

. Omissão da participação da cultura indígena na construção do painel cultural brasileiro No caso das regiões de colonização européia do Sul do Brasil, e mais especificamente ainda, no Estado de Santa Catarina, esta memória chega mesmo a ser “esquecida” pela historiografia e pelas construções identitárias de caráter étnico correntes na atualidade do Estado.

Andarilho


Meu coração é barqueiro
Giramundo, viajadeiro
É menino-passarinho,
Passa indo, sempre rindo
E não pára de remar.

Meu coração é traiçoeiro,
Navegador aventureiro,
É ventania e calmaria,
Rio abaixo, rio acima,
Mas tem sempre um lugar.

Meu coração é jardineiro,
Carpinteiro e seringueiro,
Manhãs, luas e alvoradas
Matas, rios e passaradas,
Que dá vontade de voar.

Meu coração é cativeiro,
Mas percorre o mundo inteiro.
É nascente, é poente,
Ribanceira e enchente,
Vazante até transbordar.

Meu coração é forasteiro,
Vive sem rumo e é fronteiro,
Nunca parte, nem reparte
Vagueia sem beira nem eira.
É o eterno viajar.

Meu coração é romanceiro,
Manso, remanso, maneiro
Orvalhada e poesia
Ciranda, cantoria, folia,
Que dá vontade de cantar.

Meu coração é grande demais
Tem sempre lugar,
Tem desejo de se querer,
De amar e de se perder
E nunca mais se encontrar.

Valéria de Cássia Pisauro Lima

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

PIERRE AUGUSTE RENOIR

I – AUTOR:

(1841-1919)

“Renoir”, disse um escritor contemporâneo, “talvez seja o único pintor que nunca produziu uma pintura triste”.

Pierre Auguste RENOIR nasceu em Limoges, região central da França, em 23 de fevereiro de 1841. Seu pai, Leonard, era alfaiate; e mãe, Marguerite, costureira. Embora artesãos pobres e todos trabalhassem muito, Pierre teve uma infância feliz, marcada pela descoberta de que era dono de ima bela voz. Na esperança de prosperar, a família muda-se para Paris quando Pierre tinha três anos de idade.
Aos quatorze anos de idade, entrou como aprendiz numa firma de pintores de porcelana, chamada Irmãos Lévy. Ali ele passou quatros anos pintado rosas em pratos e buquês de flores em bules de chá, motivos Luís XVI na tradição de Limoges, sua região natal.
Pouco depois recebia a incumbência de pintar o perfil de Maria Antonieta em delicadas xícaras de porcelana branca.
Em 1858, ano do início da Segunda República e época de grande mudança social, a Irmãos Lévy cessou as atividades: com os métodos industriais introduzidos no ramo da porcelana, a máquina começava a substituir artesãos.
Este foi seu primeiro contato com a máquina e bastou para colocá-lo em definitivo contra a produção em massa e a padronização da vida.
Enquanto permaneceu na fábrica, Renoir visitava as galerias de arte do Louvre durante as suas folgas do almoço. Apaixonara-se pelas estranhas pinturas do século XVIII sobre as festas da corte, pintadas por Watteau, Boucher e Fragonard, assim como pelas dramáticas e coloridas de Delacroix.
Renoir foi trabalhar então para certo M.Gilbert, pintor de temas religiosos para missionários. Pintava madonas e retratos de santos em tiras de tela que os missionários iriam desenrolar e pendurar em toscas igrejas.
Em 1862, aos vinte e um anos de idade, Renoir inscreveu-se na Escola de Belas-Artes e foi aprovado logo no primeiro exame. Achava que tinha sorte; na verdade, tinha talento. Também passou a freqüentar o estúdio de Charles Gleyre, uma escola particular de pintura, bastante respeitada em Paris.
Apesar de acadêmico, Gleyre reforçava a importância de se desenhar ao ar livre. Essa característica, assim como o admirável grupo de alunos que freqüentava sua academia, marcou profundamente a carreira de Renoir.
Os professores da Escola de Belas-Artes mal o notaram, mas Renoir conheceu ali outros jovens artistas que marcaram profundamente a sua carreira. Entre eles estavam Claude Monet, Alfred Sisley e Frédéric Bazille, por intermédio de quem Renoir conheceu Edgar Degas e Èdouard Manet, além de escritores e críticos em evidência.
Nessa época o mundo da arte vivia um tumulto. Em 1863 Manet tinha pintado “Almoço na relva” e, em 1865, “Olympia”. Renoir e os amigos agruparam-se em torno de Manet e formaram um grupo que se encontrava regularmente nos cafés, para discutir suas teorias: desse modo começaram a emergir as primeiras idéias do que seria o Impressionismo.


Ciente de que suas concepções de arte eram muito diferentes das dos professores, em 1863, Renoir deixou a Escola de Belas-Artes e passou a trabalhar com Monet na Floresta de Fontainebleau, a 60 quilômetros de Paris, um dos locais preferidos pelos parisienses para seus passeios domingueiros e preferido também pelos escritores e pintores: tanto a população que o frequentava como sua natureza exuberante serviam de tema para suas criações.
Ali conheceu Gustave Courbet, que influiria em seu trabalho, e também Diaz de La Pena, que um dia lhe disse: “Pintor de respeito jamais pega o pincel sem ter o modelo à sua frente”.
Além de Fontainevleau e de suas pequenas vilas vizinhas, como Barbizon e Chailly, surgiram outros agrupamentos, ao norte de Paris, ladeando o Sena, que atraíam os entusiastas das regatas e cuja paisagem também se imortalizou na arte: entre outras, Argenteuil, Bougival, a ilha de Chatou e o balneário La Grenouillère.
“Como se ria naquele tempo”, dizia Renoir mais tarde; “as máquinas ainda não tinham tomado as vidas por inteiro, havia tempo para viver e nós o fazíamos da melhor forma!”
Nesse clima, pouco a pouco Renoir definia um estilo próprio. Porém, viviam em dificuldade financeira. Renoir, ao menos, recebia alguma ajuda de sua família, dividindo com Monet. Mas nenhum deles tinha dinheiro para tintas ou telas, e, se conseguiam comprar algum material, é porque Bazille contribuía com uma parcela de sua pequena renda.
Em 1866, Renoir apresentou-se para o Salão Oficial, mas seu quadro “A Hospedaria da Mãe Anthony” foi rejeitado.
Dois anos depois ele conseguia ser aceito com “Lise”. Renoir conheceu Lise Tréhot, na casa de Le Coeur, amigo e colega pintor, e, em pouco tempo Lise passou a ser seu modelo preferido: nos anos seguintes, Renoir pintaria mais de vinte retratos dela. Entre estes: “Diana e Mulher com Sombrinha”, em 1867; “A Jovem Cigana”, em 1868; e “Odalisca”, ou “Mulher de Argel”, em 1870.
Nos primeiros retratos dela, o artista usava técnica tradicional, com esquema cromático um tanto escuro, tintas mescladas com suavidade e esbatimentos que deixavam transparecer o fundo aplicado à tela. Mas em “Mulher com Sombrinha” e “A Jovem Cigana” ele recorreu a meios mais modernos, que prenunciavam a técnica de Le Moulin de la Galette: esboçou o motivo diretamente na tela nua, usou ocre e vermelhão e substituiu com azuis os tons de terra dos retratos anteriores. Tornara-se adepto das cores brilhantes, que achava mais apropriadas para exprimir os efeitos da luz ao ar livre.
Durante esse período, Renoir mudou-se para casa de Bazille e pintou um atraente retrato de seu anfitrião. Bazille aparece sentado à frente de seu cavalete, chinelos vermelhos, cotovelos nos joelhos, olhos fixos na natureza morta que está pintando.
Também na casa de Bazille, conheceu Edmond Maître que o apresentaria a artistas e escritores. Ele e Maître foram muitas vezes juntos ao Café Guerbois, para encontrar Manet, velhos amigos das Belas-Artes, ou o romancista Émile Zola e seu amigo, Paul Cézanne.
Em 1870, a guerra franco-prussiana veio interromper esse período de intensa criação artística. Renoir foi convocado, mas, logo que pôde, voltou a Paris, ali chegando em 1871.
Mesmo no período da Comuna continuou a pintar. Seu grupo voltaria a se reunir em 1874, embora sem Bazille, morto em combate.
Por intermédio de Monet, Renoir conheceu Paul Durand-Ruel, o primeiro marchand que apoio os impressionistas. Com tanta confiança nos impressionistas, Durand-Ruel associaria sua carreira às deles, pois os apoiou até alcançarem reconhecimento e fama.
Nessa época Renoir estava terminando “Mulheres Parisienses Vestidas com Argelinas”, composição de grandes proporções, que exibiu com sucesso no Salão de 1872 e que inclui, pela última vez, as feições encantadoras de Lise Tréhot.


A Bailarina (1874)

Em 1873, Renoir começou dois quadros hoje famosos: “O Camarote”, que mostra um casal em camarote de teatro, e “A Bailarina”. Renoir havia alugado um sótão no nº 35 da Rue Saint Georges, em Montmartre e seu irmão mais novo, Edmond já despontava como escritor e crítico notável, e, como morava no andar inferior, esse endereço tornou-se ponto de encontro dos intelectuais da época.
Nessa época, o Impressionismo já havia firmado suas bases. Embora sem nome ainda, já se sabia qual era sua proposta: uma impressão momentânea, roubada ao tempo e ao espaço, percebida na conjunção de manchas coloridas; climas, atmosferas, fragmentos da vida que, sabe-se, sente-se, logo retomaria seu ritmo normal; enfim, o instante, em oposição ao eterno, ao imutável.
Para os impressionistas o mundo era exatamente este: o das ruas reluzentes, da luz, da vida cotidiana, que a fotografia imobilizava no tempo. Por isso, os jovens pintores se uniram e decidiram se rebelar contra a mumificação da arte oficializada nos salões. Por isso, sentiram-se atraídos pela fotografia e se aproximaram de Nadar, famoso fotógrafo parisiense que os apoiou, cedendo, inclusive, seu estúdio para exposições.
Em 1874 inaugurou-se a primeira exposição dessa pintura jovem, realizada pelo grupo que, pomposamente, se intitulava Sociedade Anônima dos Artistas, Pintores, Escultores e Gravadores.
Renoir participou dessa primeira exposição com os quadros “O Camarote” e “A Bailarina”, além de fazer uma exposição alternativa no Salão Oficial, na galeria parisiense do fotógrafo Nadar.
Mas o público zombou, indignado diante daquelas manchas coloridas. Ainda assim, Renoir conseguiu vender “O Camarote” a um marchand.
Na esperança de resolver dificuldades financeiras, Renoir, Monet, Sisley e Berthe Morisot decidiram organizar a venda de pinturas impressionistas em 1875, no Hotel Drouot. Foi um escândalo. Albert Wolff chamou-os, no Le Figaro, de “macacos com pincéis nas mãos”. Ainda assim, o evento trouxe certo benefício, pois nele conheceu um funcionário da alfândega, Victor Chocquet, que viria a ser seu mais forte apoio na época. Renoir pintou vários retratos da família de Chocquet e vendeu-lhe vários outros quadros.
Em 1875, Renoir vendeu “O passeio” e, na primavera de 1876, esboçou várias telas grandes em dependências do Moulin de la Galette: “A Árvore”, “Nu ao Sol”, “O Balanço” e o famoso “Le Moulin de la Galette” (“o moinho da massa folhada”).
No topo da Colina Montmartre, entre jardins e campos de como era então o bairro, havia um galpão quadrado entre dois velhos moinhos de vento com plataforma para orquestra e, ao lado, amplo jardim sombreado. Era o salão de dança do Moulin de la Galette, gerenciado por certo M.Debray e seu filho. Ali vinham dançar moradores de Montmatre. Renoir planejou captar um desses eventos populares numa grande composição. O resultado foi uma tela radiante, que exprime a atmosfera de todo um período. Gustave Caillebotte, amigo de Renoir, e também pintor, não hesitou em comprá-la.
Apresentada na terceira coletiva dos impressionistas, Le Moulin de la Galette recebeu elogios de Georges Rivière na primeira edição de L’Impressioniste (Paris, 1877): “È uma página da História, um momento precioso e estritamente preciso da vida parisiense. Sua ousadia a destina ao sucesso que merece!”



O baile no moulin de la galette (1876)

A partir de 1876, Renoir passou a justapor na tela pequenos toques de pincel em cores diferentes. Por efeito de óptica, os pontos pareciam fundir-se em áreas homogêneas, mas sem perderem suas vibrantes qualidades.
Figura esbelta, de conduta simples, adorável, Renoir inspirava extraordinária afeição entre seus amigos a quem ele devotava imensa lealdade e afeto com gestos generosos.
Durante todo esse período, não se casara, apesar de alguns romances. Rejeitava a idéia de casamento como um obstáculo que o afastaria de seu objetivo principal: a pintura.
Mas, quando se aproximava dos quarenta anos de idade, conheceu Aline Charigot, jovem chapeleira de vinte anos. Como o ateliê do pintor ficasse perto do apartamento onde ela vivia com a mãe, Aline muitas vezes ia posar para ele. Na amizade amadureceu o amor. O pintor já pintara Aline vestida de vermelho, agora planejara uma tela grande que teria por motivo uma festa a bordo. Fez então o esboço de “O Almoço dos Remadores”, o fim de uma animada festa em que ela foi um dos modelos.
Renoir vivia uma crise em sua pintura e, a despeito da sugestão de Aline para que se retirassem para sua pequena casa na Borgonha, ele relutava em deixar Paris e temia a perspectiva de filhos e dessa forma, o relacionamento acabou-se.
Renoir passou a viajar: Normandia, Argélia, Espanha e Itália, onde estudou os mestres do passado: Velásquez em Madri, Ticiano em Veneza, Rafael em Roma e os murais de Pompéia.
De volta a Paris, casa-se com Aline e teve uma união harmoniosa, duradoura e feliz.
Aline lhe deu paz de espírito, filhos e, conforme ele mesmo disse, “tempo para pensar. Ela criou uma atmosfera de atividade a meu redor exatamente do tamanho de minhas necessidades e preocupações.”
Renoir adora a esposa e modelo: descobre as formas opulentas de Aline, delicia-se com a plástica de seu corpo. Ousado, retrata-a nua em “A Banhista Loira” (1881), como que despindo uma madona de Rafael.

A dança em Bougival (1883)

Porém, seu modo de pintar de fato passava por mudança. Ele próprio escreveu a Ambroise Vollard: “Por volta de 1883, um tipo de descontinuidade ocorreu em minha carreira. Eu chegara ao fim com o impressionismo e vim a perceber que não sabia pintar nem desenhar. Numa palavra, eu tinha chegado a um beco sem saída.”
Enquanto isso, aos poucos ia tomando forma à versão grande de “As Banhistas”. Renoir fez estudos da obra em craiom e sanguínea, assim como vários croquis a óleo. Em 1886, Berthe Morisot visitou o ateliê do pintor e anotou: “Seria interessante mostrar todos esses estudos ao público, que em geral supõe que os impressionistas trabalham a toda velocidade. Não creio que se possa trabalhar mais a forma de um desenho. Essas mulheres nuas entrando no mar me deliciam tanto quanto as de Ingres. Renoir me diz que o nu é, para ele, uma das mais indispensáveis formas de arte”. Renoir só completaria essa tela em 1887.
O ar livre já não o atraía, pois achava que o excesso de luz comprometia a forma e o conjunto; o que ele buscava agora eram linhas, composições, volume e espaço, a estrutura das coisas. Ele e Monet queimaram algumas telas que ambos tinham produzido no período anterior e Renoir passou a pintar apenas no ateliê.
“Ao ar livre”, escreveu ele a Ambroise Vollard, “há mais variedade de luz do que na iluminação do estúdio, que é sempre a mesma. Mas, justamente por essa razão, lá fora ficamos tão empolgados pela luz que não damos atenção suficiente à composição. Ou seja, não chegamos a ver o que fazemos.”
Entre 1885 e 1886 Renoir pintou diversas versões da maternidade: mãe e filho são os motivos de numerosos quadros, pastéis, desenhos a sanguínea, craiom e bico-de-pena.

Menina com as Espigas (1888)

Em 1888, Renoir passou algum tempo à margem do Sena em Argenteuil, em Bougival, ou em Petit-Genevilliers.
Passou a pintar nus, banhistas, “Menina com as Espigas” e três variações do tema de “Menina Carregando uma Cesta de Flores”, “La Coiffure” (“o penteado”), uma de suas composições “rudes”, que mostra uma jovem arranjando o cabelo após o banho, também pode datar desse mesmo período.

La Lecture (1889)
Em 1889, marca o período “iridescente” de Renoir. O pintor rompia com seu prévio período “ingresco”, preciso e linear. Embora retivesse incomparável senso de volume e de formas plenas, recuperava agora a liberdade da juventude.


Durante breve estada em Essoyes, terra natal da esposa, Renoir pintou diferentes versões de “A Vendedora de Maçãs” e usando modelos cedidos por Berthe, pintou “Duas Meninas Colhendo Flores” e “No Prado” ou “Colhendo Flores”.
A partir de 1890, dedicou-se quase exclusivamente a nus e retratos. Com brancos, rosas e meias-tintas, que dão certo lustro perolado aos quadros, pintou em 1890 “Meninas com Chapéu Charlotte” e “Duas Irmãs Lendo”; a essas obras seguiram-se “Banhista Sentada numa Pedra”, de 1892, e, em 1894, “Moças à Beira-Mar” e variações do tema “Ao Piano.”
Mas um pequeno acidente em 1897, a queda de uma bicicleta lhe quebra um braço, teria sérias conseqüências. Um ano depois recrudescia o reumatismo que lentamente iria aleijá-lo.
Em 1907, Renoir muda-se com a família para Cagnes, na Riviera Francesa. Les Colletes, como a chamou, era uma bela propriedade, cercada de oliveiras e de laranjeiras. E diante de si Renoir tinha o azul profundo e único do Mediterrâneo. A luz intensa e o clima descontraído amenizam suas dores e liberam um fluxo criativo expresso em estilo quase clássico e cheio de cores.
Nesse tempo Renoir começou a estudar a Antiguidade. “Que admiráveis criaturas eram aqueles gregos!”, disse ele ao poeta Gasquet. “Viviam tão felizes que imaginavam os deuses vindo à terra para achar seu paraíso e o verdadeiro amor. Sim, a terra era o paraíso dos deuses, e isto é o que eu quero pintar.”

Auto Retrato (1910)

Em 1908, ele pintou sua primeira versão de “O Julgamento de Paris”, seguido por dois grandes croquis a óleo de “Le Rhône et lê Saône”. Renoir, nessa época, já precisava de bengala para caminhar. Quatro anos depois seus braços se paralisam, e ele se vê confinado a uma cadeira de rodas. Mesmo assim, continua a pintar e só pára, temporariamente, quando Aline morre.
Em junho de 1914 o assassinato do arquiduque austríaco Franz Ferdinand levou à eclosão da guerra mundial. A França convocou seus homens, e, Pierre e Jean, filhos de Renoir e Aline foi recrutados. Depois de semanas de ansiedade, esperando em vão por notícias deles, o pintor soube que ambos tinham sofrido ferimentos graves. Aline foi visitá-los, mas voltou exausta e perturbada pelos horrores da guerra. Ao chegar a Cagnes, adoeceu e morreu em 1915.
Renoir viveria poucos anos mais. Durante seus últimos anos de vida, o artista faz algumas esculturas, tendo dois jovens ajudantes como seus braços; mas, sobretudo, pinta. Trabalhava num estúdio envidraçado em seu jardim, com o pincel amarrado nos dedos, sentado em sua cadeira de rodas: sereno e, apesar de tudo, vital.
Um dia, depois de pintar algumas actínias (anêmonas-do-mar) que uma criada lhe trouxe, Renoir pede a um amigo que lhe retire o pincel dos dedos e comenta: “Acho que estou começando a entender alguma coisa sobre isto.”
Em agosto de 1919, depois de uma estada em Essoyes, passou várias semanas em Paris, onde viu seu “Retrato de Madame Charpentier” exposto no Louvre: o quadro tinha sido comprado pelo Estado e estava à mostra no Salão La Caze.
Foi um de suas últimas satisfações. Morreria poucos meses depois, em Cagnes, em 03 de dezembro de 1919. Uma pequena natureza morta com duas maçãs ficou inacabada no cavalete.



II – CARACTERÍSTICAS:


POR QUE NÃO PINTAR A ALEGRIA?


Na pintura, uma forma de expressar seu prazer pela vida: Renoir retratou seus amigos, seus amores, as festas populares, enfim, a alegria de seu tempo, explorando com profunda sutileza os contrastes entre luminosidade e sombras.
“Por que a arte não pode ser bonita?”, perguntou Renoir certa vez. “O mundo já tem muitas coisas desagradáveis.” Aqui se resume sua atitude em relação à pintura e à vida, já que ele mesmo tinha uma incrível capacidade para a alegria, e sua arte expressava esse prazer de viver.
Renoir só trabalhava quando estava feliz e escolhia temas que considerava atraentes: paisagens exuberantes, pessoas se divertindo, frutas, flores, crianças brincando, festas, bailes e mulheres bonitas.
Embora pareça natural hoje, a escolha de seus temas foi radical e corajosa para a época. O mundo das artes em Paris ainda era dominado pelo Salão oficial, que preferia exibir obras sobre temas históricos e literários, pintadas academicamente.
Renoir logo descobriu que estava muito mais interessado na vida das esquinas do que nos exercícios habituais de copiar os gessos das antigas esculturas.
Embora gostasse de paisagem, Renoir não escondia sua preferência em pintar gente. E o que buscava num modelo era: “um ar de serenidade” e uma pele que captasse a luz.
Vestidas ou nuas, as mulheres sempre inspiraram os artistas, não importa em que época ou escola. Os nus sensuais de Boucher, no século XVIII, por exemplo, foram admirados porque retratavam mulheres “ideais”, sob a aura de deusas ou ninfas; já as mulheres mais “reais” de Courbet, com aspectos comuns e traje da época que foram consideradas vulgares pelos críticos do século XIX.
Renoir admirava o realismo de Courbet, mas também amava aquilo que ele mesmo chamava de “mulheres cheias de raça e dignidade”, as habitantes do universo imaginário de Boucher.
Na década de 1870, Renoir expôs junto com os impressionistas, mas ao mesmo tempo submetia suas pinturas ao Salão oficial. No início, Renoir não via contradições entre a insistência dos impressionistas em pintar diretamente da natureza e seu reverente estudo dos grandes mestres do passado. Em “As Banhistas” (1884), embora a paisagem seja nitidamente impressionista, as figuras femininas, de formas opulentas, remetem a Rafael.


TEMAS: Nus femininos voluptuosos, com pele de pêssego, o café-society, crianças, flores.


CORES: Vermelhos ricos, cores primárias, detestava o preto – usava o azul em seu lugar.


ESTILO: Inicial: pinceladas rápidas e figuras manchadas e misturadas ao fundo nublado.
Final: retorna ao estilo clássico e retrata nus solidamente formados.


RECOMENDAÇÃO: “Pinte com alegria, com a mesma alegria com que faria amor com uma mulher.”


III – OBRA:


BANHISTA ENXUGANDO A PERNA DIREITA (1910)


“Pintor profícuo que produziu mais de 6 mil telas, Renoir (1841-1919) , outro impressionista, foi o retratista das festas parisienses ao ar livre, típica cena do movimento modernista. Para ele, assim como os demais impressionistas, o desenho da luz nas telas era uma forma de caracterizar o movimento. Suas telas também possuem visível influência do recorte fotográfico.” (FGV)



Ao olhar para o quadro, percebe-se o sangue que corre dentro das veias assim como os movimentos que os
Representar “a pele de uma moça” era o ápice da felicidade para o pintor, que considerava o nu “uma das formas indispensáveis da arte”.
RENOIR sempre explorou o tema das banhistas. A partir de 1888, o artista pintou uma grande quantidade de banhistas: jovens sonhadoras e mulheres adultas.
Essa composição apresenta a maturidade de RENOIR.
Destaca as formas arredondadas da silhueta feminina; a posição da mulher; suas pernas cruzadas; seu olhar contemplativo; o triângulo formado pelos braços, sendo um apoiado próximo ao joelho e, outro segurando uma toalha; um seio em evidência sugerindo sensualidade; a curva do quadril deixando em penumbra o rosto avermelhado sugerindo calor, sensação de vibração e vida à figura retratada, como também, o movimento que pode ser percebido através da musculatura ao enxugar sua perna.
A toalha de cores indefinidas (rosa e branco) ressalta as partes brancas da pele da mulher.
RENOIR optou por um fundo sombreado que se percebem breves pinceladas de cor contrastando com o avermelhado dos cabelos e o rosado do seu corpo.
Essas figuras arredondadas e sólidas vinham confirmar, mais uma vez, seu encanto e fascínio pelas formas femininas. “Eu nunca acho”, disse ele, “que terminei um nu até sentir que posso beliscá-lo.” “Minha preocupação tem sido a de pintar nus como se fossem frutas esplendorosas.”
O vermelho quente é a cor predominante em suas pinturas nuas, pois ele procurava uma aproximação dos tons de pele saudável.
“Quero que o vermelho fale alto, ressoe como sino; se não sair assim, ponho mais vermelho, ou outras cores, até conseguir”, explicou. “Olho uma mulher nua; ali estão miríades de minúsculas tinturas. Tenho de encontrar aquelas que farão com que a pele em minha tela viva e mexa.”
RENOIR queria expressar mais que apenas vitalidade, fertilidade e o frescor da mocidade feminina.
O artista fazia as mulheres nuas posarem em arranjos ondeados, de acordo com os protótipos clássicos, como as Vênus e as ninfas, mas eliminava os detalhes de fundo, criando um sentido de grandeza intemporal e afastava-se da imobilidade das figuras dando aos contornos das formas uma maneira distinta, à sua manière aigre (estilo aguçado).
“Gosto mais da pintura quando ela parece eterna, sem fazer alarde disso”, disse ele, “Uma eternidade diária, revelada na esquina: uma menina criada pára um instante, enquanto esfrega uma panela, e se torna Juno no Olimpo.”
Embora com a artrite avançada, Renoir demonstrava “a mesma boa disposição e a mesma felicidade quando (podia) pintar”.
Infelizmente, a redução do controle artístico fica evidente nos últimos nus de Renoir, em que as mulheres bem nutridas, de bochechas coradas, estão inchadas, grosseiramente exageradas e intensamente coloridas. Mas, a deficiência não afetou a sensibilidade do seu toque.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Monet - Impressionismo


Impressionismo puro.


I - CLAUDE MONET:

“as cores inconstantes da natureza”


“A palavra “impressionismo” foi criada para ele, e é mais apropriada a ele do que a qualquer outro.” (Félix Fénéon)

CLAUDE OSCAR MONET nasceu em Paris, em 14 de novembro de 1840, numa família de modestos comerciantes. Em 1845, a família se mudou para Le Havre.
Claude revelou bem cedo seu talento natural para o desenho. Seus cadernos escolares estão cheios de esboços e caricaturas de colegas e professores.
A princípio, Monet desenhava quase que apenas para distrair-se, embora não lhe faltasse talento. Mas por fim seu amor pelo desenho o levou a ter aulas com mestres como Ochard, que logo reconheceu o dom incomum de Monet.
Outro mestre, Eugène Boudin, dizia: “Estude, aprenda a ver e a pintar, a desenhar e a produzir paisagens”. O rapaz, porém, continuava a desenhar caricaturas.
Mesmo relutante assim, acabou por aceitar o conselho e começou a pintar. Boudin muitas vezes o levava a longas excursões, nas quais os dois se deleitavam com as tonalidades da luminosa atmosfera ao ar livre. Do ponto de vista artístico, essa foi uma época decisiva, na qual Monet começou a considerar a cor como o mais importante elemento da pintura.
“Compreendi de fato a natureza” comentaria o artista mais tarde, “e também aprendi a amá-la.”
Em 1859 o jovem provinciano decidiu tentar a sorte na capital. Paris era também a capital da arte, sede do Salão, nome pelo qual os artistas da época se referiam à exposição oficial promovida todo ano pelo governo.
Em Paris, Monet vivia sentado ao canto de uma mesa na Brasserie dês Martyrs e desenhava caricaturas (com as quais conseguia o dinheiro das refeições), mas sempre atento às discussões acaloradas que o cercavam.
Em 1862 Monet começou a freqüentar o estúdio de Marc-Charles-Gabriel Gleyre, onde conheceu Bazille, Renoir e Sisley. Mas sua natureza impaciente não lhe permitiria ficar estudando com Gleyre por muito tempo. Partiu para Chailly, aldeia no meio da floresta de Fontainebleau. Lá, vagando pelas trilhas da mata e aspirando o cheiro forte das árvores, vivia no exultante senso de liberdade que tanto amava. A solidão e os ritmos naturais condiziam com seu temperamento e estimulavam sua imaginação e criatividade. Observava, desenhava, pintava.
Em 1865, Monet alugou com Bazille um pequeno estúdio em Paris. Ali, deu os retoques finais em dois quadros que exporia no próximo Salão: O Estuário do Sena e Ponte sobre o Hève na Vazante. Os dois trabalhos foram aceitos e, pela primeira vez, Monet pode ler seu nome na Gazette dês Beaux-Arts.
Na mostra oficial, os dois quadros fizeram sucesso. Um crítico chegou a dizer que eles traziam nova luz e ar fresco ao Salão. Entre aqueles que nunca tinham ouvido falar em Monet havia os que o confundiam com Manet, que não gostou nada de ser elogiado por obras de outro pintor.
No Salão do ano seguinte expor: Camille ou O Vestido Verde e A Floresta de Fontainebleau., recebendo elogios inclusive de Émile Zola e de Manet de quem se tornara amigo.
Monet mudou-se para Ville-d’Avray e tentou algo novo: um quadro de grandes dimensões pintado por inteiro ao ar livre, no qual retrataria quatro mulheres num jardim. Camile, sua esposa, serviria de modelo para as quatro. Tão grande era a tela que Monet teve de baseá-la numa valeta que escavou para isso, e que ele ia afundando progressivamente à medida que o trabalho avançava; só assim podia manter estável o quadro e, ao mesmo tempo, alcançar-lhe a parte superior. É provável que o pintor não tenha terminado Mulheres no Jardim ao ar livre. Mesmo assim, o júri do Salão de 1867 não a aceitou


Em 1868, Navio Deixando o Cais de La Havre foi aceito no Salão, mas recebeu comentários desmoralizantes de um crítico.
Já Barcos de Pesca receberia medalha de prata na Exposição Marítima Internacional de La Havre, como prêmio por sua “incontestável sinceridade de execução”.
Passando por grande crise financeira, Monet recebeu apoio de um patrocinador generoso, Monsieur Gaudibert, que o ajudou a encontrar nova moradia e estúdio em Paris. Nem sempre o pintor teria o que comer, mas pelo menos agora não lhe faltava lugar para trabalhar. Também tinha amigos, entre eles Renoir, com o qual pintou lado a lado um mesmo tema, o dos quadros aos quais deram o mesmo título, La Grenouil-lère.
Nesse ano eclodiu a guerra franco-prussiana, conflito que traria tumultuosas dificuldades para a França nos anos seguintes. Muitos artistas deixaram o país durante esse período, entre eles Monet, que se refugiou com a família em Londres.
Ali encontraram segurança, mas não alívio para a miséria, agora agravada pelo isolamento.
Visitava museus na companhia de Pissarro, outro refugiado, e conheceu o marchand Paul Durand-Ruel, para quem começou a trabalhar.
Passou algum tempo em Zaandam, onde transpôs para a tela o colorido de canas campestres como a de Moinho perto de Zaandam, quadro datado de 1871.


Após a turbulência da guerra, Monet decidiu mudar-se para Argenteuil, onde o atraía o Sena. A paisagem o fascinava, como também a outros impressionistas. Sisley, Manet e Renoir, entre outros, muitas vezes foram pintar em Argenteuil na companhia de Monet.
São desse período algumas de suas obras mais famosas, entre elas Regata em Argenteuil com Bom Tempo, A Ponte Ferroviária em Argenteuil, A Ponte de Argenteuil e O Barco-Estúdio em Argenteuil.


Monet passava horas nas margens e nos jardins observando a luz do sol que vinha acender vermelhos, verdes, azuis.
Outro dois produtos desse fecundo período são Camille Monet na Janela, Argenteuil, de 1873, e A Família no Jardim em Argenteuil, de 1875.
Em visita à Holanda, a paleta de Monet assumiu nova escala cromática, como “uma harpa com acordes de luz”. As telas mostravam agora uma luminosidade diferente, que lhes dava ainda mais vida.
Experimentou a divisão de tons, usando pequenos toques de cor pura justapostos, para assim representar a luz de modo mais vibrante do que com a mera mistura das tintas na paleta. Usou essa técnica, motivo então de debate, numa marinha pintada em Le Havre.


Chamou-a de Impressão: Sol Nascente e incluiu-a numa exposição coletiva aberta em 15 de abril de 1874.
Um crítico derivou desse título o epíteto sarcástico – impressionistas – com o qual tencionava desmoralizar todo o grupo de artistas inovadores. O nome pegou, embora aos poucos viesse a perder sua conotação depreciativa.
Em Argenteuil conheceu um rico negociante, Monsieur Hoschédé, que lhe prestou ajuda financeira e ainda lhe comprou alguns quadros.
Retornou à Paris e descobriu luz e cores na capital cinzenta e transpôs na tela A Rua Montorgueil Ornamentada, que representa uma rua embandeirada para o feriado de 30 de junho.
Hoschédé foi à falência, ainda assim o negociante não abandonou de todo seu protegido. Convidou-o a partilhar sua residência em Vétheuil. As duas famílias moraram juntas durante o outono de 1878, mas o convívio resultou em drama, ao mesmo tempo em que o pintor se sentia cada vez mais atraído por Alice, esposa de Hoschédé, Camille adoeceu e faleceu logo depois.
Com o pesar agravado por remorso, mais a preocupação com os dois filhos pequenos, Monet buscava derivativo no trabalho intenso. Produziu naturezas-mortas e o famoso, Ruptura do Gelo perto de Vétheuil, que representa efeitos de um inverno rigoroso no Sena.
Em junho de 1880 a revista L aVie Moderne promoveu uma exposição de Monet, com resultados financeiros surpreendentemente animadores. E passado o inverno, as telas voltaram a ganhar a luminosidade de antes. Primavera e O Pomar de Maçãs em Vétheuil mostram ricos reflexos de verdes e luminosas vibrações amarelas.
Em 1883, Monet mudou-se para Giverny, na Normandia. Era uma aldeia agradável, aninhada entre colinas, no vale onde o Epte aflui ao Sena.
“Espero pintar obras primas aqui”, escreveu ele a um amigo, “pois gosto muito desta paisagem.”
Percorria trechos extensos do grande rio, ao longo de lavouras e pastagens e também das margens arborizadas que alinhavam choupos. Eram paisagens ideais para um pintor tão interessado em cenários naturais.
Viajou para vários lugares em busca de novos temas. Na maioria dessas viagens sua estada era curta, exceto em Bordighera, onde mantinha extensa correspondência com Alice: “Você precisa saber de uma vez por todas que você e meus filhos são a minha vida e em cada tema que pinto...digo a mim mesmo que devo fazê-lo bem, de modo que você veja onde estive e como é o lugar.”
“Às vezes sinto descontrolado receio de usar os tons de que preciso...a luz é terrível”, escreveu ele numa carta. Em outra ocasião, porém, ele escreveu: “Agora me sinto bem aqui, atrevo-me a aplicar os tons de vermelho e azul; é um país de fadas, delicioso, espero que a agrade”.
Em 1884, Monet voltou a Giverny, mas vivia atormentado por crises morais e angústia, além de dificuldades e problemas de ordem prática. Ele às vezes chegava a perder todo o interesse pela pintura. Essa ambivalência de sentimentos durou até a morte de Hoschédé, em 1891. No ano seguinte, Monet e Alice se casaram.
A partir daí a vida do pintor serenou um pouco e pode dedicar-se aos estudos de composições que chamava de “série”, o mesmo motivo sob diferentes efeitos de luz.
Como a luz mudava constantemente a aparência das paisagens e objetos, ele tinha de trabalhar com rapidez.
Monet descreveu um exemplo:
“Comecei a pintar alguns montes de feno que já tinham me chamado a atenção. Formavam um grupo magnífico, a menos de dois passos daqui. Vi então que a luz tinha mudado. Pedi à minha enteada que corresse à casa e me trouxesse outra tela. Mas pouco depois que ela a trouxe, a luz tinha mudado outra vez. Então eu lhe disse; “Outra! Traga-me outra” E não trabalhei em nenhuma delas a menos que o efeito fosse o pretendido. Só isto. Não é muito difícil de entender”.


Fazer uma série tonou-se para ele um método de trabalho, demonstrado na famosa série de quadros das catedrais de Rouen, produzida entre 1892 e 1894.
A maioria das mais lindas criações do período final do artista foi pintada nos arreadores de Giverny. Dali, em 1899, surgiu às várias versões de Nenúfares. Foram os primeiros quadros em que ele retratou a famosa lagoa que mandara escavar na divisa da propriedade e preenchê-la com água desviada do Epte.
A lagoa, com sua pequena ponte de estilo japonês, glicínia florida e admiráveis nenúfares, dominou nesse período o temário da pintura de Monet.
Em 1903, embora continuasse a pintar com intensidade, ele passou a concentrar toda a sua atenção na superfície simples da lagoa, com suas flores flutuantes, de coloração delicada.
Os quadros, quarenta e nove ao todo, geraram abrupto sucesso quando expostos na galeria de Durand-Ruel.
Contudo, dinheiro, celebridade e prestígio chegavam-lhe um tanto tarde. Os problemas de visão que Monet já tivera antes começaram a piorar, com ameaça real de cegueira. Acrescentou-se a isso, em 1911, o pesar pelo falecimento de Alice, que também vinha vivendo entristecida pela morte prematura de uma das filhas.
Durante esse período, Monet pareceu ter perdido todo o interesse pela vida. Nem a pintura o confortava.
Em 1908, em Veneza, Monet pintou os delicados ornatos arquitetônicos de igrejas e palácios do Grande Canal. Num desses quadros, O Grande Canal (ou A Igreja de Santa Maria della Salute, Veneza), o templo parece emergir dos reflexos da água.
Em 1912, Veneza parecia retribuir a bem-sucedida exposição de vinte e nove de seus quadros na Galleria Bernheim, da famosa cidade, veio aliviar a depressão de Monet. Outro fator de ânimo foi à amizade do influente político Georges Clémenceau, que incluiu Monet entre os interesses que tinha no mundo intelectual e artístico de seu tempo.
Animado por Clémenceau, Monet construiu em Giverny um grande estúdio em que, num tipo especial de cavalete móvel, mandou montar telas em chassis de quatro metros de largura e dois metros de altura. Usando estudos que fizera noutros tempos, pintou com serenidade os nenúfares banhados pela luz de um delicado pôr-do-sol.
O trabalho continuou durante o transcurso da Primeira Guerra Mundial. Encerrado o conflito, Monet ofereceu a obra ao povo francês, com intermediação de Clémenceau, que era então primeiro-ministro.
Embora Monet não tivesse terminado os painéis, o governo francês ofereceu-lhe alta soma por Mulheres no Jardim.
Foi o seu reconhecimento na carreira e na vida como homem e pintor, último sobrevivente do movimento impressionista.
Em 1923 sua atividade se interrompeu, porque o pintor estava quase cego. Operaram-lhe com êxito o olho direito, mais afetado do que o esquerdo.
Em 1925, Monet escreveu que trabalhava com entusiasmo. De fato, conseguiu terminar os grandes painéis de nenúfares destinados à rotunda do Salão.
Em 6 de dezembro fecharam-se para sempre os olhos pelos quais até hoje se podem ver extraordinários efeitos de luz e cor da natureza.
Não houve cerimônia oficial nem funeral solene. Apenas singela homenagem dos aldeões de Giverny ao artista que celebrizou o lugar.


II – CARACTERÍSTICAS:

“O mais popular dos impressionistas, Monet (1840-1926), por suas experiências com tintas, cores e luz, tem sua obra como um ponto de partida para a arte abstrata. Típico integrante do movimento impressionista, que busca retratar especialmente ambientes externos e naturais, Monet consagrou-se como o pintor dos jardins aquáticos, por conta de sua residência em Giverny, na França.” (FGV)

A maior parte do verão de 1888 foi vivida por Monet em Giverny, onde havia começado, no ano anterior, sua série de medas de feno. Se os feixes sobre os campos já atraíam os olhos do impressionista, um magnetismo mais forte exerceu a vegetação subaquática, serpenteando ao sabor das correntes fluviais.
Monet “queria pintar água com a erva a ondular por baixo da superfície, pois “é um aspecto maravilhoso, mas uma pessoa fica doída quando tenta fixar aquilo” (UFO, p.152).
O pintor audacioso consegue transpor “essa doidice” em duas telas: La Barque (1887) e Em Canot sur l’Epte (1890).
“Comecei algo que é impossível fazer: água com plantas que se mexem no fundo...É uma loucura quere fazer isso. É muito agradável quando se observa, mas dificílimo pintar. No entanto eu continuo insistindo. Estas paisagens aquáticas tornaram-se uma obsessão. Preciso transmitir o que sinto”. (Fragmento da carta de Monet, 1890 a Geffroy).

TEMAS: Paisagens marinhas, séries sobre campos de papoulas, rochedos, montes de feno, a Catedral de Rouen; fase final da obra: nenúfares aquáticos quase abstratos.

CORES: Tons solares, cores primárias puras em pinceladas uma ao lado da outra (as sombras eram cores complementares em pinceladas uma ao lado da outra).

ESTILO: Dissolvia a forma em luz e clima, contornos suaves, ar impressionista clássico.

RECOMENDAÇÃO: “Tente esquecer que objetos têm à sua frente, árvores, casa, campo ou o que for”. Pense apenas: “Aqui está um quadradinho azul, aqui uma forma cor-de-rosa, aqui uma faixa amarela e pinte-a exatamente como você a vê.”




III – OBRA:


CANOA SOBRE O EPTE (1890)


Óleo sobre tela: 133 X 145 cm


“Canoa sobre o Epte” apresenta um enquadramento sobremodo bizarro.
A canoa, em tom salmão ou rosa/laranja, tem um recorte inusitado, levando a imaginação do espectador a complementar a figura no extra-quadro. Monet retrata essa pequena embarcação na posição horizontal, ligeiramente inclinada. A composição diagonal da margem e da embarcação abre um ângulo com o remo, que por sua vez cria uma outra diagonal, interferindo na parte direita inferior da tela – são diagonais que salientam o movimento, o fluxo do Epte e reforçam a idéia da velocidade.
Um muro esverdeado que aparece atrás da embarcação é iluminado por raios dourados de sol que dão vida às folhagens azul-esverdeada contrastando com a paisagem aquática e seus reflexos.
Dentro da embarcação, róseas como sonhos inocentes, duas moças (suas enteadas, Suzanne e Blanche Hoschedé) navegam suavemente e despreocupadas, ressaltando a fugacidade do momento e indiferença dessas com relação ao artista; enquanto que, o artista dedica-se exclusivamente em captar essa imagem, criando dessa forma uma oposição psicológica.
Uma das moças está sentada a remar, sofre o fatal fracionamento em suas costas, alijando-a de seus centros somáticos.
O rosado dos vestidos serve como contraponto ao verde do conjunto.
Como o próprio título sugere, temos dois sujeitos para o tema: a canoa e o rio, mas fica evidente que as águas do Epte serão para Monet a personagem principal da obra. Como essa água não consegue desenvolver “drama” ou “narração” e ser agente ativo e condutor da pintura; o artista opta pela composição de diagonais da canoa como complementação da ação.
Monet trabalha as águas (a superfície do Epte) sem transparências artificiais, sem reflexos antinaturais; mas, de uma forma viva e verdadeira, revelando todas as possibilidades de cores que essa camada d’água esconde internamente: verdes em composição com um rosa-sal, como reflexos dos habitantes do mundo fluvial, que só o olho do artista e se pincel serão capazes de revelar.
Monet decide pintar aquilo que é impossível, não mais a cidade, que em alguns momentos permanece, mas aquilo que raramente é presente, algo efêmero, instantes improváveis, metáforas do futuro e da transitoriedade de todas as coisas.