domingo, 20 de junho de 2010

Entrevista - Jorge Amado

É PRECISO VIVER ARDENTEMENTE

LITERATURA COMENTADA - Há meio século, Jorge Amado, você lan¬çou seu primeiro livro. Em setembro de 1981 comemora-se o cinqüentenário de O País do Carnaval. Esta entrevista será incluída num livro dedicado especialmente a você, que será lançado no dia 10 de agosto, exatamente o dia em que você estará completando 69 anos de idade. Nossa intenção é fazer uma entrevista biográfica. Mas, numa entrevista de 1980, à revista francesa Lui, você disse que não gostava de falar de si mesmo. Por quê?

JORGE AMADO - É verdade, não gosto. Tem gente que adora falar de si próprio, alguns porque não têm importância nenhuma e falam para se dar importância, e outros, que são importantes, falam porque gostam. Agora, eu não sou importante e não gosto de falar sobre mim; aliás, não gosto nem de ouvir falar a meu respeito: fico encabuladíssimo, fico assim sem jeito... eu não gosto, é uma maneira de ser.

LC - Portanto, é normal que o públi¬co tenha uma grande curiosidade sobre o homem Jorge Amado. Em grande parte, os leitores de Literatura Comentada são jovens que não viveram tudo isso e querem saber suas opiniões, suas versões. Insistindo: essa entrevista tem um objetivo basicamente biográfico.

JA - Está bem, concordo. Estou às ordens. Toca o bonde!

LC - Para começar, você poderia fa¬lar um pouco sobre seu pai, João Amado de Faria, e sobre dona Eulália Leal, a dona Lalu, sua mãe.

Um grapiúna da região do cacau

JA - Eu quero falar um pouco tam¬bém sobre o meu nascimento porque há uma coisa controvertida. Há notícias diferentes, erradas. Há muitíssimos anos, na Enciclopédia Larousse, da França, existe um verbete que me dá como nascido em Piranji. Piranji é uma coisa que não existe mais. Deve existir outro no Brasil, porque aquele teve que mudar de nome, passou a ser Itajuípe. Outro dia, num texto que escrevi para uma re¬vista que dedicou um número a mim, a Vogue, eu disse que não nasci em Piranji, ao contrário, Piranji eu vi nascer. Eu assisti ao seu nasci¬mento, desde as primeiras casas que foram construídas.
Em geral, me dão como nascido em Ilhéus, o que é muito compreensível, pois eu fui pra Ilhéus com um ano, ou, para ser exato, com um ano e cinco meses, pois fui pra lá em janeiro de 14 e nasci em agosto de 12. Mas eu nasci realmente numa fazenda de cacau que meu pai estava montando, perto de um arraial cha¬mado Ferradas, distrito de município de Itabuna. O nome da fazenda era Auricídia... hoje, o arraial cresceu, chegou lá, chegou até a casa onde nasci. Aliás, faz poucos anos, eu estive lá e a população foi muito ge¬nerosa comigo, muito cordial, todo mundo me esperando na rua...
Sou nascido em Ferradas, distrito de Itabuna, sou itabunense, ou seja, sou um grapiúna da região do cacau. Mas Ilhéus também é minha cidade no sentido de que é o lugar on¬de eu vivi a minha infância - a infância, um tempo muito importante na vida da gente. E também a mi¬nha adolescência, as férias. Ilhéus é uma cidade extremamente ligada à minha vida, como todo o sul da Bahia, toda a região do cacau. Itabuna fica a 25 quilômetros de Ilhéus. Quando estava em Ilhéus, ia pra Itabuna sempre. Quando morreu meu irmão Jofre, nós fomos pra Itabuna porque minha mãe não quis ficar em Ilhéus. Passamos lá um ano e tanto, foi quando nasceu meu irmão Joelson, que é médico e mora em São Paulo. Dos três irmãos, o único nascido em Ilhéus é James.
Assim, eu sou, ao mesmo tempo, um menino de Itabuna e Ilhéus, como o Adonias Filho, que é nascido em ltajuípe, o antigo Piranji, e criado em Ilhéus.

A saga de Terras do Sem Fim

LC - Seu pai era fazendeiro, pioneiro do cacau ...
JA - Meu pai foi um homem que viera muito cedo de Sergipe, da cida¬de de Estância. Viera no início do século, quando das grandes lutas envolvendo o cacau, ele se envolveu nessas lutas, participou delas...

LC - Lutas pela posse das terras?

JA - A terra não era de ninguém, era mata, ele veio para ocupar a ma¬ta. A luta era para ver quem ficava com as melhores terras para plantar cacau. Meu pai plantou essa fazenda Auricídia - aliás, a saga que está contada em Terras do Sem Fim - e, bastante tempo depois, casou-se com minha mãe, dona Eulália Leal, que também era de uma família de desbravadores da terra.

A fuga pelo sertão

LC - Em conseqüência você acabou fugindo. Conta essa fuga.

JA - Quando terminei o segundo ano, pedi a meu pai que não me mandasse mais pro colégio interno. Como eu estava indo bem na escola, o Vieira era o melhor colégio de Salvador e meu pai podia pagar, ele dis¬se que sentia muito, mas como eu já estava lá, queria que eu continuas¬se. Cheguei aqui pra ir pro Vieira e o meu tio Alvaro, esse personagem formidável da minha infância, me levou até a porta do colégio e me deixou lá com o dinheiro pra pagar as despesas.
Bem, aí ele foi para um lado, eu fui pro outro e fugi. Eu tinha menos de treze anos naquela época. Foi uma coisa muito importante pra mim essa fuga.

LC - E foi pra onde?

J A - Eu atravessei todo o sertão da Bahia até Sergipe. É uma via¬gem hoje, você pode fazer em horas... tão poucas horas, mas, na¬quele tempo, eu levei dois meses para atravessar, dois meses vagabundando.
Pelo caminho, eu fui parando, fa¬zendo amizades. Meu dinheiro acabou logo. Gastei rapidamente o dinheiro que tinha, logo no início da viagem. Comprei uma coleção de revistas de cinema num sebo de livros. Mas consegui atravessar e viver sem nenhuma dificuldade. Cheguei até Itaporanga, onde vivia meu avô, o velho Zé Amado, pai de meu pai. E o curioso é que meu pai deixou.

LC - Ficou acompanhando à distância?

JA - À distância. Pronto, natural¬mente para intervir se qualquer coisa de pior me passasse, mas ele deixou... Depois, quando chegou junho, as férias de São João, meu pai pediu pra tio Álvaro ir me buscar.
Eu vim certo que ia levar uma surra, mas quando cheguei em casa ele só perguntou por que tinha fugido. Eu disse que não queria mais es¬tudar. Pois muito bem, ele respondeu, você vai pra fazenda.

LC - Foi plantar cacau?


À meia-noite, pulava o muro

JA - Eu fiquei lá seis meses. No fim do ano, ele me perguntou se queria voltar a estudar e eu disse que queria. Ele me mandou pro ginásio Ipiranga, um internato que fica aqui pertinho. No Ipiranga, fui colega do Adonias Filho. No Vieira, fui contemporâneo de muita gente depois importante, como o Mirabeau Sampaio, meu amigo até hoje, o Giovanni Guimarães, o Paulo Peltier de Queirós, o Antônio Balbino, que foi governador da Bahia, o jurista Maximiano da Mata Teixeira, o poeta Hélio Simões, o jornalista Jorge Calmon.

LC - Só que, apesar de tudo, você acabou voltando a um internato?

JA - O Ipiranga era um internato muito mais brando. A gente pulava o muro todas as noites e ia pras casas de putas, ia pras festas, para a rua Carlos Gomes, pro beco de Maria Paz ... eu fui amigado com uma rapariga chamada Benedita e então, toda noite, à meia-noite, pulava o muro e ia ficar com ela.
O Ipiranga era muito mais livre que o Antônio Vieira. Isaías Alves de Almeida era um homem que dei¬xava o barco correr. A meu ver, tinha mais sensibilidade pra tratar com os jovens do que os jesuítas- hoje não, mas, naquela época, os padres eram mais presos, mais conservadores. Um grupo de internos pula¬va o muro do colégio todas as noites e saía para a vida.
Passei lá um ano mas, no fim, já tinha liberdade de sair sem precisar fugir. No outro ano, já estava com catorze anos de idade, não voltei mais para o internato, cumprira mi¬nhas primeiras prisões.


Vivendo a vida do povo

LC - Em 1927, ao voltar pra Salvador, você fica externo do colégio e publica um poema?

JA - Ah! publicado na Luva, uma revista considerada importante. O título era Poema ou Prosa: Uma sáti¬ra aos poemas da época, poema¬-prosa, prosa-poema... é uma coisa as¬sim, uma espécie de gozação, um certo tipo de poesia modernista.
Bem, ao voltar, eu comecei a viver a vida do povo da Bahia. Para mim, foi a coisa mais importante de todas. Eu tinha catorze anos e comecei a trabalhar em jornal, primeiro no Diário da Bahia, depois num jornal chamado O Imparcial - onde eu viria a trabalhar de novo, em 43, depois de ser solto pela polícia do Rio. Como eu dizia, em 27 comecei a trabalhar em jornal e a viver misturado com o povo da Bahia. Era o pior estudante do mundo... vivia num casarão, no Pelourinho. Hoje tem uma placa no sobrado onde ha¬bitei, atualmente um hotel. Uma placa, falando de Suor, que eu iria escrever em 34. Eu morava naquele casarão, numa água-furtada, nos altos. Quando morei lá, via aqueles ratos que subiam escada acima ... era cada rato deste tamanho, um negó¬cio terrível! Mas eu não achava ter¬rível na época, eu era um garoto. Comia nos botecos mais incríveis, porque não tinha dinheiro.

LC - Doenças venéreas já com catorze, quinze anos?

JA - E, eu tinha uma vida muito ativa e misturada: festinhas populares, casas de raparigas. Posso dizer que a minha educação, em grande parte, se processou nas casas de raparigas.

LC - Enfim, para um adolescente dos anos 20, você tinha uma boa vida?

JA - E tem mais. O pessoal dos saveiros, por exemplo, era todo meu amigo. Eu saía, tomava um saveiro, ia pra Cachoeira, Valença, Porto Seguro, Maraú. Eu tinha uma vida muito livre, admirável no sentido de gostosa, de agradável.


Problema racial é social

LC - No início dessa entrevista, você disse que adquiriu consciência do problema racial em Salvador, em 1927...

JA - Foi quando eu passei a viver misturado com o povo da Bahia que o problema racial começou a me afetar. Foi sobretudo a minha relação com o povo dos candomblés, vendo a perseguição terrível de que eram objeto os cultos afro-brasileiros.
Mas eu nunca tive dúvidas: o pro¬blema racial é conseqüência do problema social. Não existe um problema racial isolado do contexto social. Se você isolar, vai errar na apreciação do problema e na busca das soluções. A solução não é você botar os pretos e os brancos a se matarem en¬tre si.

LC - A solução é fazê-Ios dormir uns com os outros?

JA - Exato. Não há outra solução para o problema de raça no mundo senão a mistura. Não há outra e, se alguém tiver, que me apresente... quero ver! Não é um racismo diferente, seja racismo preto, seja racismo árabe ou judeu, que vai acabar com o problema. Você não acaba com o racismo botando racismo con¬tra racismo. Isso é uma coisa idiota, '' que está em moda, mas é uma moda superficial... é como uma dessas erupções que se tem na pele, brotoejas, coceiras, que acabam passando.

Academia dos Rebeldes

LC - Você já fazia literatura nesse período?

JA - Subliteratura. Naquele tem¬po, as idéias viajavam em navio de carga e levavam anos pra chegar. O Modernismo, que explodiu em São Paulo em 22, levou cinco, seis anos pra chegar aqui... chegou por volta de 26, 27, com o primeiro livro de Eugênio Gomes, o poema Moema, com o primeiro livro de Godofredo Filho, A Balada de Ouro Preto. Por volta de 27, formaram-se aqui três grupos de jovens: o grupo Arco e Fle¬cha, que publicava a revista Arco e Flecha, o Samba, que tinha a revista Samba, e a Academia dos Rebeldes, que editava a revista Meridiano.
O Arco e Flecha tinha como guru o Carlos Chiacchio, crítico literário do jornal A Tarde,•e reuniu pessoas como Pedro Aguiar, Hélio Simões, Carvalho Filho, o próprio Godofredo - Godofredo era mais velho -, Queirós Júnior e Eurico Alves.
O nosso grupo era a Academia dos Rebeldes, de uma rebeldia arretada. Na Academia estavam pessoas que depois foram literariamente muito importantes: o contista Dias da Costa, o grande ensaísta e etnógrafo Edison Carneiro, o grande poeta Sosígenes Costa, João Cordeiro, Wal¬ter da Silveira, Clóvis Amorim, Aidano do Couto Ferraz. Nosso guru era um homem chamado Pinheiro Viegas, poeta panfletário muito importante.
Era um homem de quase oitenta anos, que é um pouco o Pedro Ticiano do meu primeiro, livro, O País do Carnaval. Eu e o Edison Carneiro vivíamos juntos o dia inteiro. Nós, mais o Dias da Costa, íamos juntos pras casas de mulheres, vivíamos comendo no mercado das Sete Portas ... comendo. sarapatel à meia noite na feira de Água de Meninos.
Brigávamos uns grupos com os outros, mas todos queríamos a mesma coisa, a renovação literária e modificações na sociedade. Era o tempo do "tenentismo".


"Meu materialismo não me limita"

JA - Nós éramos muito ligados à vida popular. O Edison já começava seus estudos de etnografia, de antro¬pologia social. Com ele e Artur Ramos, comecei a freqüentar os candomblés. Outro dia, a Menininha de Gantois recordava que ela me conhe¬ce há mais de cinqüenta anos, daí pra lá... ela jovem mãe-de-santo, hoje está com 84 anos, devia ter uns, trinta anos.
Nessa época me tornei amigo do pai-de-santo Procópio. Foi ele quem me deu o primeiro título de candomblé, Ogan de Oxóssi. Procópio foi o pai-de-santo que mais perseguição sofreu da polícia por causa da questão religiosa. Ele tinha as costas marcadas pelas torturas. A questão religiosa, racial, era muito mais intensa do que hoje... muito mais violenta.
A polícia chegava, invadia, pren¬dia. Eu marquei isso, primeiro em Jubiabá, depois em Tenda dos Mila¬gres.

LC - Aliás, você é um dos doze Obás da Bahia, não?

JA - Sou, o Carybé é outro e o Caymmi também. E não é por acaso. Tenho vários títulos, um título dado por Joãozinho da Goméia, Ogan de Iansã no candomblé da Goméia. Joãozinho foi meu amigo e seu caboclo Pedra Preta foi herdado pela minha amiga Mirinha do Portão, que dançou tão bonito outro dia na festa do povo pra Carybe. Es¬sa gente toda é minha amiga, eu sou um deles.
Não é por acaso que tenho esses títulos. Desde criança eu vivo misturado com o povo dos candomblés. Em 43, quando a polícia do Rio me soltou e me forçou a viver em Salvador - e eu vivi aqui até 44, dois anos -, não fiz outra coisa senão ir à polícia buscar as armas de santo e as coisas todas dos candomblés que a polícia invadia, tomava os emblemas sagrados e os levava. Eu ia lutar para tirar meus amigos da ca¬deia ... Fui amigo de Procópio, de Aninha, a mãe- de-santo Aninha, uma figura extraordinária de mu¬lher. Quando ela morreu, em 38, o enterro dela foi acompanhado por 5 mil pessoas, um enterro nagô, magnífico.

LC - Logo depois disso, Jorge, você se ligou ao Partido Comunista, um partido marxista, materialista ...

JA - Em Tenda dos Milagres, que é o romance meu de que mais gosto, a certa altura, o professor de medicina pergunta a Pedro Archanjo como é que ele, sendo um materialista, conciliava isso com sua atividade no candomblé. Pedro Archanjo respon¬deu que "o meu materialismo não me limita".
Eu sou materialista, mas meu materialismo não me limita. Então, se o povo dos candomblés me dá um título e eu aceito, eu tenho que cumprir as obrigações desse título. Senão, eu não estaria tendo com eles o mesmo tipo de relacionamento, de amizade que eles têm comigo. Por isso, quando entro no Axé Opô Afonjá, com meus colares, faço tudo o que tenho que fazer e faço exatamente tudo com o maior prazer... Eu não poderia escrever sobre a Bahia, ter a pretensão de ser um romancista da Bahia se não conhecesse realmente por dentro, como eu conheço, os candomblés, que é a religião do povo da Bahia.

LC - Em 1935, você lançaria Jubiabá, em 1936 publicaria Mar Morto ... mas no começo de 1936 foi preso.



Livros queimados em público

JA - No começo de 36. Em novembro de 35, no dia 27, houve o levante do III Regimento de Infantaria. Fomos presos vários intelectuais... Eu acho que alguém que foi preso antes, foi espancado e falou. Graciliano Ramos foi preso em Maceió e levado pro Rio. Eu fiquei preso dois meses na Polícia Central. Vários intelectuais foram presos na época, Santa Rosa, Caio Prado Júnior, Di Cavalcanti, Hermes Lima, Eneida, Castro Rebelo, Aporelly, Álvaro Mo¬reyra etc.

LC - Nunca te interrogaram?

JA - Nunca me interrogaram. Fiquei lá um bocado de tempo... era uma prisão muito ruim por ser na Policia Central, com presos sendo torturados à noite. Eu não fui torturado, mas estive preso com gente que foi terrivelmente espancada.

LC - Você atribui sua prisão a seus li¬vros?

JA - Eu tive uma militância gran¬de na Aliança Nacional Libertadora... O Congresso Juvenil Proletário- Estudantil... não me lembro mais o nome, de 34, foi convocado com três assinaturas: a minha, a do Carlos Lacerda e a de um rapaz cujo nome não recordo, que era secretário da Juventude Comunista.

LC - Só um parêntesis: em outras entrevistas, em artigos e verbetes de enciclopédia, consta que você só entrou no Partido Comunista em 1945.

JA - Meu contato com o Partido é anterior a essa época. Em 45 minha militância fica pública. Eu era ligado à juventude. Naquele tempo, havia Juventude Comunista.

LC - Como foi sua libertação?

JA - Em certo momento me botaram em liberdade. Nunca me ouviram. Fiquei dois meses lá, jogado. Saí, fui pra Sergipe, a cidade em que meu pai nasceu, Estância, e lá terminei Mar Morto. Em 37, a coisa tinha melhorado um pouco, acabara o estado de guerra, a candidatura de Zé Américo estava lançada. Aí eu viajei por toda a América Latina: Uruguai, Argentina, Chile, Méxi¬co ... onde conheci Orozco e Rivera, escritores como Alfonsus Reves. E depois fui até os Estados Unidos, onde conheci Michael Gold vários escritores, John dos Passos .

LC - Você voltou pouco antes do golpe do Estado Novo?

JÁ - Eu cheguei a Belém em outubro. O Dalcídio Jurandir foi me ver às escondidas e disse pra eu sair imediatamente do Brasil que ia ha¬ver um golpe. Ele achava que eu seria mais útil no exterior, pra gritar contra o golpe lá fora.

LC - Capitães da Areia tinha sido lan¬çado em setembro, não?

JA - Tinha saído e estava sendo apreendido. Em São Paulo, na Bahia, estava sendo queimado em praça pública. Em Salvador tem até ata da queima... 1 694 exemplares dos meus romances queimados em praça pública por ordem do comando da 6ª. Região Militar.

Deputado contra a vontade

LC - Em 1945 você presidiu a delegação baiana e foi vice-presidente do Primeiro Congresso dos Escritores.

JA- O Congresso foi a primeira de¬monstração pública contra o Estado Novo.
Aqui na Bahia eu escrevi São Jorge dos Ilhéus e a primeira versão do Guia da Bahia de Todos os Santos, que teve sucessivas modificações para se atualizar. E escrevi uma peça de teatro, .D. Amor do Soldado, pra Bibi Ferreira, que colocou em minha mão um cheque de 20 contos, um dinheiro aloprado naquele tempo... não resisti, aceitei e escrevi; só que quando terminei, ela já não tinha a companhia teatral.
Ai fui pra São Paulo, passei um ano em São Paulo, aceitei mudar porque o Partido decidiu que eu devia ficar lá. Fui diretor do jornal do Partido, o Hoje, junto com o Caio Prado, o Clóvis Graciano ...
LC - E acabou sendo deputado por São Paulo à Assembléia Constituinte?

JA - Eu não queria ser candidato, aceitei por decisão do Partido e acabei eleito. O Partido disse: "Você se candidata e depois renuncia". Mas eu fui muito votado, fui um dos qua¬tro eleitos, o mais votado foi o José Maria Crispim, o segundo foi o Osvaldo Pacheco, eu fui o terceiro e o quarto, um ferroviário, não lembro o nome dele ... Eu conheci muita gente do povo aí, nos comícios ... em Santos eu tinha tanta popularidade que o Partido, para garantir a eleição do Osvaldo Pacheco, proibiu a ida das minhas cédulas pra lá. Considera¬vam que eu estava eleito no Estado, o que era verdade.

LC - Você lembra quantos votos teve?
JA - Não, não me lembro. Bem ... eu fui eleito, deixei minha carta de renúncia com o Partido e fui pro Uruguai com Zélia. Nós tínhamos casado em julho. Ela não conhecia o Uruguai. Quando estava lá, recebi um telegrama pedindo que eu voltasse. Queriam que eu assumisse, por¬que eu tinha tido uma grande vota¬ção e o fato de eu renunciar podia soar mal junto àqueles que tinham votado em mim. Queriam que eu fi¬casse três meses.

Casados há três, companheiros há 36 anos

LC - Falando um pouco de coisas ínti¬mas, você se casou em 1933 com Ma¬tilde Garcia Rosa.

JA - É verdade. Fui casado com ela até 44, quase dez anos.

LC - Tiveram filhos?

JA - Tive uma filha, Lila, em 35, que morreu quando eu estava na Europa, ela estava com catorze anos.

LC - Sua atual esposa escreveu• Anarquistas, Graças a Deus. No intervalo da conversa, ela disse que está escrevendo um livro contando fatos de sua vida.

JA - Zélia é uma ótima contadora de histórias.

LC - Desde quando vocês estão casados?

JA - Em 45 me casei com Zélia ... casei sem casar, porque naquele tempo não havia o divórcio. Ontem nós comemoramos três anos de casados pela lei. Legalmente. E temos... faz... vai fazer 36 anos em julho que realmente somos companheiros.

LC - Seus filhos nasceram durante os cinco anos de Europa?

JA - Não, João Jorge está com 33 anos, nasceu aqui em 47. Paloma nasceu em Praga, em 51, fará trinta anos em agosto.



Entrevista de julho de 1981 feita
por Antônio Roberto Espinosa

segunda-feira, 7 de junho de 2010

OS RATOS - DYONÉLIO MACHADO

DYONÉLIO MACHADO

(Quaraí-RS, 1895-Porto Alegre-RS, 1985)


1. AUTOR:
Nascido em 21 de agosto de 1895, em Quaraí, cidade do Rio Grande do Sul situada na fronteira com o Uruguai, Dyonélio Tubino Machado transferiu-se ainda jovem para Porto Alegre, onde, além do Jornalismo, praticou a Medicina Psiquiátrica, trabalhando no Hospital São Pedro. De seus estudos para o exercício profissional resultou a tese de Doutorado Uma definição biológica do crime, defendida em 1933. O tema conjugava dois pólos de interesse do autor: a questão médica e a social. Seu comprometimento político e social levou a participar da fundação da Aliança Nacional Libertadora, que fazia frente à ditadura imposta ao País por Getúlio Vargas. O fato custou-lhe a prisão, em 1935, quando foi transferido de Porto Alegre para o Rio de Janeiro. Lá, além de ficar detido por dois anos, estabeleceu contato com o Partido Comunista Brasileiro.
Sua estréia literária ocorreu em 1927, com os contos de Um pobre homem. Oito anos depois, a publicação da novela Os ratos granjeou-lhe, juntamente com Marques Rebelo, João Alphonsus e Érico Veríssimo, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Além das obras citadas, escreveu, entre outras, o romance de aventuras O louco do Cati (1942), os romances Desolação (1944) e Passos perdidos (1946), a Trilogia da Liberdade (Deuses econômicos, 1966; Sol subterrâneo, 1981, e Prodígios, 1980), bem como Endiabrado (1980), Fada (1982) e Ele vem do Fundão (1982). Faleceu em Porto Alegre, no dia 19 de junho de 1985.

2. “OS RATOS”


2.1. CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL:



O período que vai de 1930 a 1945 talvez tenha testemunhado as maiores transformações ocorridas neste século. A década de 1930 começa sob o forte impacto da crise iniciada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, seguida pelo colapso do sistema financeiro internacional: é a Grande Depressão, caracterizada por paralisações de fábricas, rupturas nas relações comerciais, falências bancárias, altíssimo índice de desemprego, fome e miséria generalizados. Assim, cada país procura solucionar internamente a crise, mediante a intervenção do Estado na organização econômica. Ao mesmo tempo, a Depressão leva ao agravamento das questões sociais e ao avanço dos partidos socialistas e comunistas, provocando choques ideológicos, principalmente com as burguesias nacionais, que passam a defender um Estado autoritário, pautado por um nacionalismo conservador, por um militarismo crescente c por uma postura anticomunista e antiparlamentar - ou seja, um Estado fascista. É o que ocorre na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler, na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar.
O desenvolvimento do nazifascismo e de sua vocação expansionista, o crescente militarismo e armamentismo, somados às frustrações geradas pelas derrotas na I Guerra Mundial: este é, em linhas gerais, o quadro que levaria o mundo à II Guerra Mundial (1939-1945) e ao horror atômico de Hiroxima e Nagasáqui (agosto de 1945).
No Brasil, 1930 marca o ponto máximo do processo revolucionário, ou seja, é o fim da República Velha, do domínio das velhas oligarquias ligadas ao café e o início do longo período em que Vargas permaneceu no poder. Tudo isso, formou um campo propício ao desenvolvimento de um romance caracterizado pela denúncia social, verdadeiro documento da realidade brasileira, atingindo um elevado grau de tensão nas relações do indivíduo com o mundo. Como relata os historiadores acima citados, o painel brasileiro dos anos 30, passava por uma transformação político-social, dando espaço para uma literatura engajada, de denúncia social e documental do verdadeiro retrato do Brasil.

“Até 1930, o Brasil ainda era governado pela oligarquia café-com-leite, que monopolizava o poder desde 1894. Outrora muito poderosa, a aristocracia cafeeira viu seu poder econômico e político declinar durante a década de 1920”. (Nicolina Luiza de Petta e Eduardo Aparício Baez Ojeda, História – uma abordagem integrada).

“A situação política no Brasil em 1928 e 1929 revelou que, ultrapassando a simples disputa entre forças conservadoras diferentes, estava em curso uma luta de classes que opunha irredutivelmente as classes dominantes, fossem elas ligadas à agricultura ou à indústria, e as classes trabalhadoras, do campo e da cidade” (Edgar de Decca, O silêncio dos vencidos).

Como relata os historiadores acima citados, o painel brasileiro dos anos 30, passava por uma transformação político-social, dando espaço para uma literatura engajada, de denúncia social e documental do verdadeiro retrato do Brasil.

2.2. ESTILO LITERÁRIO:

Envolvidos com a crise econômica e política da época, a segunda geração modernista, ocupou-se com a discussão e a retratação da realidade brasileira gerada pela ditadura que se instalou no Brasil com Getúlio Vargas e as relações entre o homem e o mundo.
“Em 30 nós vivemos o problema do realismo, ou neo-realismo, socialista ou não, bem como a incorporação daquilo que as vanguardas do decênio anterior tinham proposto como inovação. Vivemos um grande surto do romance, ligado aos pontos de vista opostos na moda pela sociologia e a antropologia, como um triunfo do social contraposto às tendências espiritualistas e religiosas. Houve dilaceramentos e disputas, com a formação de um antipolo metafísico e as mais rasgadas polêmicas que marcaram todos nós.”
Antonio Candido, Companhia das Letras, 1993

A prosa de 1930 é chamada de Neo-Realismo pela retomada de alguns aspectos do Realismo- Naturalismo, contudo, com características particulares preservadas.
A literatura estava voltada para a realidade brasileira como forma de manifestar as recentes crises sociais e inquietações da implantação do Estado Novo do governo Vargas e da Primeira Guerra Mundial.
Os romancistas observam com olhos críticos a realidade brasileira, as relações entre o homem e a sociedade. Pelo fato dos romancistas deste período adotar como componente o lado emocional das personagens, faz com que esta fase se diferencie do Naturalismo, onde este item foi descartado.
O segundo tempo modernista é marcado pela consolidação das propostas da fase heróica (1922) ao mesmo tempo pelo afastamento do seu radicalismo.
Os autores dessa época adotaram um modernismo mais moderado, voltado para a realidade social e espiritual do Brasil.
A prosa modernista da segunda geração desenvolveu-se em duas tendências: o romance regionalista do Nordeste e o romance psicológico ou intimista.
Nesse clima de denúncia da realidade brasileira, os escritores nordestinos se destacaram porque presenciaram a passagem de um Nordeste medieval para um nordeste inserido na nova realidade capitalista e imperialista. Graciliano Ramos não seria exceção. Engajado nesse clima de denúncia e vivenciando essa nova realidade, procurou exprimir em seus romances toda essa gama de mudanças sociais e psicológicas pelas quais passava o nordeste. Apesar de ser bem viajado e de conhecer costumes de outras terras, foi no Nordeste que encontrou solo propício ao desenvolvimento dos seus romances. Ele respirava nordeste. Comia nordeste. Vivia o nordeste. Tal constatação se explica em suas linhas romanescas, nas quais procurou imprimir sua marca registrada – o cotidiano da psicologia nordestina.
Com Dyonélio Machado e sua obra Os ratos (1935), o Romance de 30 terá uma marca. Nela, o retrato simbólico da realidade de Porto Alegre e de como o dinheiro se torna a síntese das relações sociais capitalistas e do consumismo da cidade grande, é mostrado com toda a profundidade psicológica. Através da vida de um funcionário público, endividado e envergonhado de olhar os credores, a visão cruel da miséria urbana aparece com intensidade em toda a narrativa.

2.3. TEMÁTICA:
A obra Os Ratos escrita por Dyonélio Machado é considerada por ele mesmo um romance social. Com enfoque bastante subjetivo, o romance traz à tona uma questão fundamental: como a dignidade humana é diminuída quando o essencial à sobrevivência humana começa a falar. E como o dinheiro passa a ser determinante nas relações humanas.
Dyonélio Machado deixa transparecer em sua obra a mediocridade, a mesquinhez e a miséria do homem comum, alienado e a preocupação com as relações desumanas pelo sistema capitalista. Todavia o seu texto não chega a ser panfletário ou ideológico. O autor parte do particular para o geral, da experiência pessoal para as contradições da coletividade. Neste momento deixa espaço o escritor, para entrar em cena o psiquiatra, o investigador da consciência egoísta do homem.
A leitura de Os Ratos é, portanto, um convite a uma profunda reflexão sobre uma sociedade regida pelo poder do dinheiro.

2.4. CARACTERÍSTICAS:
Seguem as características típicas do escritor:
- Sua narrativa tende a um fio dramático uniforme, embora termine geralmente por uma explosão alegórica, cada um dos 28 capítulos de Os Ratos tem sua própria célula de suspense, que será resolvida no máximo no seguinte, em que obrigatoriamente surgirá outra;
- Toques discretos e constantes cosidos um ao outro, que prescinde do espetacular;
- Estilo seco, linguagem simples, direta, rápida e com domínio da expectativa. A preocupação com a boa linguagem não afasta o escritor da realidade urbana. Assim, os diálogos entre as personagens retratam a língua coloquial, sem preocupação de formalidade;
- A não existência de heróis, epifanias, momentos sublimes, nada que venha tingir de glória e o cinzento do dia a dia, a pequenez e a mediocridade das ações humanas, na deformação, nos gestos miúdos e na fragmentação do homem;
- A obra de Dyonélio provoca logo a sensação, se colocado no seu contexto histórico, de excesso ou até, deslocando a observação, de insuficiência. Digamos que o autor, ao lançar mão à tarefa compositiva, dispunha objetivamente de duas formas romanescas dominantes: por um lado, o romance documentário, em pleno auge na época de envolvimento intelectual com a realidade do país, e pelo outro o romance psicológico, tributário da revisão intuicionista da categoria temporal, descentrando o enfoque narrativo de fora para dentro do sujeito. O narrador dominante focaliza do externo os acontecimentos, fornecendo uma impressão de materialidade real, histórica dos fatos: seu discurso é objetivo, documentário;
- Em Os Ratos o autor substitui os vocábulos “face” ou “fronte” por “focinho”, ou seja, transforma homens em animais, em ratos (zoomorfização);
- O melhor recurso que o escritor encontrou para nos mostrar que o desespero da personagem Naziazeno é grande, foi o excesso de reticências em toda hora, eis alguns exemplos: “Como já é tarde!...” Está tudo fechado...“Ele certamente estava escrevendo... notas..lançamentos...”;
- Outro recurso literário muito presente na obra é o uso da repetição de uma palavra sem outras intermediárias, para amplificar a idéia do que foi dito. Ex: “Aquela esperança é obstinada, obstinada. Entretanto, o duque confia-confia é inegável”. “Duque confabula, confabula”.

2.5. FOCO NARRATIVO:
O romance Os Ratos é narrado na terceira pessoa (narrador onisciente, discurso indireto livre e discurso direto, com predominância do primeiro).
O narrador (o próprio autor) relata as ações de todas as personagens, concentrando suas observações no íntimo do herói, revelando ao leitor as suas angústias interiores e psicológicas.
Em Dyonélio parece que o narrador foge da estória e temos a impressão de que a estória está sendo narrada pelos próprios fatos. O autor se preocupa com o pacto indissolúvel entre as coisas e os gestos humanos, como é que um vai viciando o outro por baixo da vigilância do espírito.

2.6. TÍTULO:
O título Os Ratos é uma referência ao drama psicológico de Naziazeno Barbosa, protagonista da história. Como os ratos, ele vai sobrevivendo de migalhas. Um rato não questiona sua situação apenas busca sobreviver com o que tem, assim é Naziazeno.
...“Quando foi da manteiga, a mesma coisa, como se fosse uma lei da polícia comer manteiga. Fica sabendo que quando eu era pequeno, na minha cidadezinha, só sabia que comiam manteiga os ricos... (p. 10)
...“Não digo com o leite - acrescenta depois - mas há muito esbanjamento...” (p.11)
Naziazeno depois de ter conseguido o dinheiro para saldar uma dívida com o leiteiro, meio dormindo, tem o seguinte pesadelo: os ratos estão roendo o dinheiro que ele deixara à disposição do leiteiro sobre a mesa da cozinha.

Os ratos, ganhando a possibilidade de roerem dinheiro, simbolizam o consumismo da cidade grande, o câncer que aniquila os sonhos dos proletários, a desvalorização da solidariedade em função de padrões materiais que elevam o dinheiro à condição meta principal a ser alcançada.

2.7. ESPAÇO:



Numa prosa urbana (a história se passa na cidade), regionalista (porto-alegrenses reconhecem facilmente sua cidade) e intimista (o drama de Naziazeno, embora banal, é sempre apresentado detalhadamente).

2.8. TEMPO:
O romance é linear, com tempo cronológico: vinte e quatro horas.
O posicionamento de Dyonélio em Os Ratos é o de um cronista das desventuras do modesto funcionário e, como bom cronista, remete quase obsessivamente para a categoria do tempo, um tempo inexorável cuja transposição discursiva gera e dilata o sentimento de ansiedade da personagem: O dia continuou... O dia não parou (OR8, p.65): a representação do dia de Naziazeno é assim marcada por referências diretas a inúmeros relógios que fornecem indicações temporais. É importante notar sempre o jogo de contrastes: o protagonista não tem relógio (já o empenhou) e a partir dessas indicações às vezes vagas - outras vezes empíricas, como a passagem de um bonde etc. - ele depreende sua noção aproximativa de tempo. Desse recorte também se delineiam dois mundos a confronto, um dominado pelo tempo externo, convencional dos relógios que se impõe definitivamente como emblema técnico, do moderno e urbano a partir das últimas décadas do século XIX (e é o de que o narrador dá conta), outro que é o tempo interno à variabilidade dos estados psicológicos que é uma projeção imperfeita (do ponto de vista do artifício) e humana do primeiro (e é o tempo vivencial de Naziazeno).
Assim como Machado de Assis ou Joyce, há uma convivência nem sempre harmônica, entre o tempo cronológico e o psicológico, cabendo destacar que em Os Ratos ocorrem entremeios entre as elocubrações psicológicas da personagem central e o relógio que comandava as suas ações, predominando, no entanto, o aspecto cronológico.

2.9. PERSONAGENS:
As personagens criadas por Dyonélio Machado são esféricas, densas. Não há preocupação com aspectos exteriores, aflorando o lado íntimo ou psicológico.

Naziazeno Barbosa – Retrato fiel do modesto funcionário público pobre, que se desdobra em sacrifícios para manter um padrão de vida com o mínimo de dignidade para a família. É um homem comum rebaixado à condição de miserável, exposto à humilhação e ao anonimato que caracterizam o viver das aglomerações urbanas. Trata-se de um herói impotente diante de uma situação aparentemente simples: a fragilidade pela condição de penúria material, atormentado pela necessidade de saldar uma dívida com o leiteiro.
Indivíduo de hábitos eminentemente urbanos, prevenido e observador; todavia fraco e indeciso, julgando constantemente ser inferir às outras pessoas, demonstrando incapacidade de ir além. Vive de imaginar que as coisas podem acontecer, sem, no entanto, tomar qualquer iniciativa.
Naziazeno retrata a espécie de personagem carregada de densidade psicológica doentia, são os neuróticos urbanos, suas obsessões e idéias fixas.

Adelaide - Dona de casa, esposa de Naziazeno. Convive, diariamente, com as dificuldades de um orçamento familiar minguado, insuficiente para o sustento digno da família.
Mainho - Filho de Naziazeno e Adelaide, de quatro anos de idade, que sonha ter um automóvel de brinquedo.

Dr. Romeiro - Engenheiro e diretor da repartição pública onde Naziazeno trabalha. Há suspeitas de corrupção sobre ele. Certa vez, emprestou dinheiro a Naziazeno.

Cipriano – O insolente motorista do diretor.

Horácio, Clementino e Jacinto: Serventes. Funcionários da repartição.

Seu Júlio – Porteiro das obras. “Velho ranzinza e antipático”.
Otávio Conti – Advogado “com a carteira sempre cheia dos mil réis”.

“Dr.” Anacleto Mondina - Falso advogado; bom papo, simpático e gentil, bajulado por conta do dinheiro de que dispõe. Foi quem desembolsou o dinheiro para o grupo (Naziazeno, Alcides e Duque), permitindo ao herói voltar para casa com a quantia devida ao leiteiro.

Rocco - Agiota para quem Alcides já deve uma grana. Nega-se a fazer novo empréstimo.

Fernandes - Agiota que se nega a emprestar dinheiro (cem mil réis) a Duque.

Assunção - Agiota da Rua Nova. Nega-se a emprestar dinheiro.

Alcides Kônrad - Amigo de Naziazeno. “Homem de bicos”, sempre andando pelas ruas, esquinas, sentado no banco das praças, parado nos cafés. Solteiro, vive com a velha mãe. Envolveu-se numa corretagem de automóvel com o Andrade e o Mr. Rees. Tem dívidas com o agiota Assunção e vive tentando fugir dos credores. Quando pressionado “desvia o olhar e fica sonolento, desligado do mundo”. É solidário com Naziazeno na pobreza e nas dificuldades, fazendo tudo para ajudá-lo.

Duque - Amigo de Naziazeno e de Alcides. Sujeito inteligente, “grande lábia”, está sempre dando um jeito de sair das dificuldades. Assim como Alcides, tem seus pontos na praça, em frente ao Banco Nacional, nos cafés, no mercado, no Restaurante dos Operários, etc. Jogador de talento, sorte e sapiência. Munido sempre de grandes idéias e iniciativa. Amigo de “negócios” de Anacleto Mondina e do Dr. Otávio Conti. Ganha alguns trocados com uma ou outra corretagem. Inspira confiança porque tem sempre uma solução para os problemas que envolvem dinheiro.

Fraga - Vizinho de Naziazeno. Parece ter uma vida bem arrumada e de “cumprimentos alegres” não precisando passar pelos vexames financeiros por que passa o protagonista.
Amanuense da Prefeitura – Vizinho dos fundos de Naziazeno. Tem mulher e filhos e anda sempre barbado. Tem “fama de não pagar ninguém”.
Rapaz silencioso – Mora numa casa contígua à de Naziazeno. Empregado de escritório da importadora. “Faz cara de quem não vê e não compreende nada”.

Costa Miranda – Cidadão baixote, cheio de pudores. Foi avalista de um empréstimo para o Alcides, que por sua vez não pagou. Amigo de Naziazeno; emprestou-lhe, na rua, cinco mil réis para o almoço.

Martinez - Dono da loja de penhores onde o anel de Alcides estava guardado. Mostrou boa vontade e foi, à noite, abrir a loja para devolver à jóia.
Mr. Rees: Gerente do New York Bank, que estava em viagem para o Rio de Janeiro.
Andrade – Corretor de valores, “lembra o Gonzaga, antigo dono de uma engraxataria, dinâmico, repleto de expediente”. Tem negócios com o Alcides.

Dupasquier - Dono de uma joalheria. Examina o anel de Alcides e oferece trezentos e cinquenta mil réis. Quando descobre que a proposta é de penhor, desiste do negócio.

2.10. SÍNTESE:
O drama urbano da classe média baixa encontra protótipo perfeito em Naziazeno Barbosa, o herói fragilizado pela preocupação de cumprir um papel social no caos urbano em que vive.
Os Ratos nasceu de um pesadelo relatado a Dyonélio por sua mãe. Narra a história de um pobre barnabé, Naziazeno Barbosa, que perambula um dia inteiro pelo centro de Porto Alegre atrás de uns trocados para saldar uma dívida improrrogável com o seu leiteiro. Ao cabo dessa extenuante jornada de sobressaltos e humilhações, quando se deita para dormir, à noite, Naziazeno deixa o dinheiro do leiteiro sobre a mesa da cozinha, para ser recolhido pelo implacável cobrador na manhã seguinte. Exausto, meio acordado, meio adormecido o pobre Naziazeno julgava que os ratos estão roendo o maço de dinheiro, mas já não encontra forças para saltar da cama e correr à cozinha a tempo de evitar um desastre. O pesadelo do dia torna-se pequeno comparado com a angústia e o sofrimento dessa situação absurda.

2.11. ENREDO:

PARTE I

A obra Os Ratos apresenta o percurso de vinte e quatro horas de angústia no dia a dia de Naziazeno. Sua aflição começa de manhã, com as insolências do leiteiro, que ameaçava cortar-lhe o fornecimento de leite, caso não pagasse os atrasados.
Através do diálogo entre Naziazeno Barbosa e sua esposa, Adelaide, o autor mostra a situação da família: por falta de pagamento, já suspenderam o fornecimento de manteiga e, agora, o leiteiro ameaça não trazer o leite das crianças. Enquanto a mulher argumenta que é possível viver sem gelo e sem manteiga, mas sem o leite das crianças, não, Naziazeno acha que a situação é de considerar o leite como supérfluo.
Naziazeno sai para o trabalho. No caminho vai observando um por um dos passageiros do bonde.
Põe-se a imaginar os problemas de cada um deles, suas manias e conversas.
Aparece o vizinho Fraga. Naziazeno tem a impressão de que ele possui uma vida bem arrumada. O leiteiro e o padeiro, depois de fazerem a distribuição dos seus produtos, ainda conversam um pouco com o Fraga. Ainda no meio do mês, ele já propõe pagamento aos dois, como se não tivesse problemas financeiros.
Pensamentos e recordações de Naziazeno enquanto perfaz o caminho para o trabalho, de bonde.


De quando em vez espia pela janela o cortejo barulhento das carroças de padeiros, lenheiros e leiteiros. Faz tudo para não ser percebido, notado; supões que seu abatimento desperte a curiosidade mórbida das pessoas. Em sua cabeça, a martelada insistente da fatal sentença do leiteiro: “Só tens mais um dia. Um dia...”. Lembra do médico que curou seu filho da meningite e das consultas que até hoje não pagou.
Lembra-se de que a mulher, Adelaide, tem um ar de fragilidade, de fraqueza que mantém acesa a chama da voluptuosidade. Mas, na vida prática, essa fragilidade atrapalha.
Observa as mansões ajardinadas e sonha com jardim que gostaria de poder dar ao seu filho.
O ponto se aproxima e ele começa a traçar os planos para conseguir os seus cinqüenta e três mil réis para o leiteiro.
Naziazeno desce do bonde, mas ainda é cedo para chegar à repartição. Então, decide sentar-se num café próximo.
Conclui que tem duas opções: pedi-lo emprestado ao diretor. Já uma vez fez isso, quando da doença do filho, para pagar os remédios. O diretor emprestou. Mas muitos riram dessa ingenuidade. Ter coragem de emprestar dinheiro para o Naziazeno? Só tinha uma explicação: era novato, não conhecia todo o pessoal. Naziazeno pagou o empréstimo, mas ainda faltaram alguns trocados que o diretor perdoou, não fez questão ou pedir um empréstimo que poderia conseguir com a influência do Duque ou do Alcides (“o Duque sim é esperto, inteligente, sempre arruma uma saída”).
Enquanto espera, fica desanimado. Claro que o diretor não vai emprestar-lhe o dinheiro. Que história vai-lhe contar? A verdadeira, a do leiteiro? Ou outra vez a história da doença do filho?
Naziazeno cria coragem e decide expor o problema ao diretor. Ele lhe emprestaria o dinheiro: sessenta mil réis (deve apenas cinquenta e três ao leiteiro). Voltaria para casa e entregaria o dinheiro à mulher, ocultando-lhe o modo como o conseguiu.
Tudo imaginação. O diretor sequer chegou à repartição. Naziazeno não consegue trabalhar. Finalmente chegou o diretor. É o momento de pedir-lhe o empréstimo.
A dúvida em obter o empréstimo com o diretor começa a abalá-lo. Enquanto o diretor demora-se na secretaria, Naziazeno vai até o centro da cidade à procura do Duque; afinal, ele tem sempre uma solução mágica para os problemas de dinheiro.
Planeja chegar às nove e meia na repartição.
Chega ao mercado e não encontra o Duque nos lugares habituais.
Vai até o cais. Pensa em comprar um jornal, mas o dinheiro de que dispõe não é suficiente, precisa economizar, além disso, o que ele faria com um jornal? “Se ainda fosse como o Alcides...”.
Naziazeno desiste de esperar o Duque. Volta à repartição.
O tempo vai passando. Naziazeno se apavora com o relógio, são quase dez horas e o diretor ainda não chegou. Imagina o absurdo do seu pedido, a repreensão do chefe, a humilhação. Por fim desiste do diretor, abandona o seu serviço (que já está há uns bons dez meses em atraso) sobre a escrivaninha, diz que não está com cabeça para aquilo e sai, vai à luta.
No café encontra Alcides e expõe as suas dificuldades. Alcides sugere uma visita aos cafés do centro. Vem-lhe a idéia de inutilidade, de falta de aptidão para ganhar dinheiro. O Duque consegue cavar, fazer um "biscate", arranjar dinheiro. Ele não. Por quê?
Ao lado de Alcides, enquanto espera o Duque, Naziazeno vai falando das impressões que tem das pessoas. Cansa-se de esperar o Duque no Café. Relembra um caso antigo, da infância, quando estivera doente, quase à morte. A mãe fizera uma promessa: Naziazeno teria que andar um ano vestido de Santo Antônio. Foi um vexame.
Alcides arma um plano: jogar no bicho. Com que dinheiro? Naziazeno deve voltar à repartição e "dar a facada" no diretor. Ele, Alcides, se encarregará do jogo.
Enquanto espera o diretor, Naziazeno perde-se em pensamentos e recordações. Finalmente, o diretor chega. A esperança ressurge. "O senhor pensa que eu tenho alguma fábrica de dinheiro? Quando o seu filho esteve doente, eu o ajudei como pude. Não me peça mais nada. Não me encarregue de pagar as suas contas: já tenho as minhas".
O diretor vai embora, os funcionários debandam. Naziazeno também.
Depois de tudo, ficou-lhe aquela frase na cabeça: "Não lhe pago as dívidas". Como contar tudo aquilo ao Alcides? Este plano fracassou. Como idealizar outro? Tem uma preguiça doentia. E o pior é que o sol já vai virando para a tarde. Meio dia perdido. Urge pensar numa solução. Como conseguir sessenta mil réis? Pensa em renunciar. Mas é preciso entregar o dinheiro ao leiteiro.
Alcides propõe que Naziazeno vá atrás do Andrade, cobrar-lhe uma dívida. É o resto de uma comissão. É ali na rua Coronel Carvalho. Naziazeno topa. O calor infernal da tarde mantém o seu corpo suado. À medida que se aproxima da casa, vai ficando gelado. Deve ser porque ainda não almoçou. Ou seria a expectativa? O número da casa do Andrade está próximo. Melhor seria não o encontrar. A rua é de gente rica. Claro que o Andrade tem cem mil réis. De repente, o número procurado. Mas é o final da rua. A casinha em que Andrade mora é humilde. A esperança de conseguir dinheiro ali diminui.


Naziazeno bate à porta de Andrade. Ele abre. Explica tudo: não deve exatamente ao Alcides (que ele conhece como Kônrad). Há uma comissão, sim, duma transação de um automóvel, mas a parte que Andrade lhe devia já pagou. Os outros cem mil réis, Alcides tem que recebê-los de Mister Rees. Naziazeno compreende tudo. Despede-se.
Naziazeno, enquanto volta a pé ao encontro de Alcides, vai pensando. Era mais ou menos uma hora da tarde. Se tivesse conseguido o dinheiro com o Andrade, a primeira providência teria sido almoçar. Agora, é encontrar o Alcides e ir atrás do Mister Rees, um alto funcionário bancário.
Alcides não se encontra no café. Naziazeno procura-o noutros cafés ali perto. Nada. Tem, então, uma idéia: o Banco é ali perto. Por que não dar um pulinho até lá? Com certeza, Alcides vai aprovar essa idéia. Ao entrar no banco, fica em dúvida. Teria mesmo direito de cobrar Mister Rees? E se fosse "armação" do Andrade?
Mister Rees está para o Rio de Janeiro. Agora, é tentar almoçar e partir para outro plano. Quem sabe o Duque esteja no Restaurante dos Operários? O problema é conseguir cinco mil réis para o almoço. Como? Talvez no escritório do Dr. Conti.
Naziazeno vai até o escritório do Dr. Conti, pensa em pedir um empréstimo, mas não tem coragem. Voltando, encontra um seu conhecido, o Costa Miranda. Foi a sua salvação: Costa empresta-lhe cinco mil réis para o almoço.
Naziazeno, com os cinco mil réis no bolso, fica indeciso: vai almoçar no Restaurante dos Operários ou em frege do mercado? Não come. Economiza no cafezinho.
Sofre só em pensar em recorrer novamente ao diretor da repartição.
De repente, uma idéia nova perturba-o: e se tentasse a sorte? Por que não? Está com o estômago oco, mas não pode perder essa oportunidade. Ele vê o dinheiro multiplicando-se e, em função disso, imagina a volta feliz para casa. Com este pensamento, dirige-se à tabacaria, onde, nos fundos, há um salão de jogos. Entra, vê o guichê do "bicho" vazio, dirige-se para o salão de onde lhe chega aos ouvidos um ruído fininho de fichas.
Naziazeno, nervosamente, tira os cinco mil réis do bolso e deposita a cédula no número 28. E o milagre acontece, tudo resolvido assim num segundo: os cinco mil réis transformaram-se em cento e setenta e cinco. Agora, é comprar mais fichas, fazer um jogo estudado. Os lances sucedem-se. Naziazeno ora ganha, ora perde. As fichas, pouco a pouco, vão sumindo das suas mãos. Tem agora duas fichas. Toma uma resolução súbita: aposta todas num único número. E perde.
Naziazeno sai da tabacaria, ganha a rua, e dirige-se a uma grande casa atacadista. Àquela hora, o comércio está fechando as portas. Um homem com cara de preocupação está fechando o armazém. Naziazeno, então, dirige-lhe a palavra:
- Queria pedir-lhe mais um favor. Só a grande necessidade me traz aqui na sua casa, antes de resgatar aquele vale. Não tenho a quem recorrer e preciso com urgência de sessenta mil réis.
- Não me é possível.
- Assino-lhe um vale. Venho pagar no fim do mês.
- Impossível.
Naziazeno insiste. Nada. Os dois seguem pela mesma rua, e Naziazeno vai-lhe falando de dificuldades, contando-lhe coisas, insistindo no empréstimo. O outro entra no bonde e vai embora.


PARTE II

Naziazeno caminha pela rua deserta. As casas estão todas fechadas. E assim, fechadas, crescem de importância e de mistério. Seu destino é o mercado. Enquanto anda, vai observando a rua, as casas, a escassez de automóveis, o silêncio. E a silhueta do mercado ao longe, para onde se dirige, vai-se aproximando à medida que caminha.
Naziazeno chega ao mercado. Num dos cafés, o Alcides chama-o. Conversam sobre o que se fez naquele dia. Naziazeno conta-lhe sobre o Andrade e sobre o jogo na tabacaria. O Duque, finalmente, está ali, em outra mesa, conversando com um indivíduo velhusco.
Naziazeno fala da fome, do dia inteiro sem comer. Alcides paga-lhe um leite. Exposto o problema de Naziazeno, Duque sugere um empréstimo com um agiota - o mesmo para quem Alcides já deve uma grana. O próprio Alcides encarrega-se de ir atrás do Rocco. No relógio da Prefeitura, já são seis e vinte.
Os três (Naziazeno, Duque e o cidadão velhusco (o "doutor" Mondina) sentam-se num café, à espera de Alcides (que foi ao agiota). O Alcides volta. O agiota suspendeu temporariamente os empréstimos.
Duque deixa Alcides e Mondina no café e sai com o Naziazeno. Seguem em silêncio. Assim andando, ao lado do amigo, Naziazeno sente-se mais confiante. Vão à casa de seu Fernandes - um agiota.

- Nós precisamos com urgência de cem mil réis.

- Impossível.

Duque arrasta o amigo a outro agiota. Eles vão agora à rua Nova, ao agiota Assunção. Nova negativa. Retornam ao café.
A idéia é abordar o próprio "dr." Mondina, o falso advogado. De início, Mondina nega-se. Mas surge a idéia de tirar um anel de Alcides (anel de bacharel) que está penhorado por um valor muito baixo. Mondina anima-se. Será que ainda dá tempo?
Os quatro (Naziazeno, Duque, Alcides e Mondina) vão à casa de penhores. Será que já está fechada?
Estava. E agora? Alcides propõe: dará a cautela do penhor ao Mondina. No dia seguinte, ele voltará ali e recuperará o anel. Mas o dinheiro tem que ser dado agora. Mondina parece pressentir o "truque", o "golpe". Alcides tem cara de vigarista. Duque intervém: não pode ser assim. Vamos encontrar outra solução. Alcides sugere: e se fôssemos à casa de Martinez, o dono da loja de penhores? Telefonam, e o seu Martinez diz que pode recebê-los em sua casa. No percurso para a casa de Martinez, Naziazeno vai pensando. Será que o homem reconhece Alcides? E o anel? Será que se lembra do Anel? Chegam finalmente.
Martinez, depois de ouvir Alcides sobre a proposta de resgatar o anel penhorado, pergunta pela cautela:
- O senhor trouxe a cautela aí?
Alcides anda sempre com os seus papéis. Martinez examina o papel e, depois, devolve-o. Depois de algum tempo, talvez consultando a esposa, Martinez diz que sim, que é possível ir à loja resgatar o anel.
A caminhada é feita em silêncio. Naziazeno conscientiza-se de que já é noite, embora lá em cima, no céu, ainda seja possível ver uma arzinho do dia.
Chegam. Martinez abre a porta, acende a luz. Convida-os a entrar. Com a cautela na mão, o cofre aberto, faz a procuração. Pronto. Achou o anel. Mondina já havia passado o dinheiro da penhora ao Alcides, que o passa agora ao senhor Martinez. Ele confere. Entrega, finalmente, o anel. Alcides passa-o a Mondina, que se detém a examinar a jóia.
Martinez toma o rumo da praça, de volta para casa. Despede-se ali de Alcides, de Mondina, de Duque e de Naziazeno.
Depois que Martinez vai embora, o grupo fica parado, sem saber o que fazer. Àquela hora, tudo está fechado. Duque sugere uma visita ao Dupasquier da joalheria. Por sorte, a vitrina está aberta. Entram. Dupasquier, meio desconfiado, ouve a proposta, analisa detidamente o anel, pergunta quanto Alcides quer por ele.
“- Ele não deixa por menos de quinhentos mil réis - sugere Duque.
- Não dou nem quatrocentos.
- Quatrocentos e cinqüenta - solicita Duque.
- Não. Não dou mais do que trezentos e cinquenta mil réis.”
Aceitaram. Mas quando falaram que era penhor, Dupasquier desistiu. O grupo não sabe o que fazer. Alcides sugere um dos agiotas, Assunção e Zeferino. Duque opina:
“- Vamos combinar isso num café.”
A proposta do Duque é a seguinte: entregar o anel ao "dr." Mondina como garantia de mais cento e vinte mil réis. Assim, o anel está empenhado por trezentos mil. No dia seguinte, ele e Alcides irão procurar Mondina, empenharão o anel por trezentos mil réis e, então, devolverão o dinheiro.
Naziazeno chega a casa, entra. São nove horas da noite. Adelaide estava preocupada. Todo o dia o marido ficara ausente. Ele mostra os embrulhos. Trouxera-lhe o sapato que estava no conserto. Para surpresa de Adelaide, ele trouxera também manteiga, queijo e dois leõezinhos de borracha para o filho, Mainho.
Enquanto esquenta a comida, Adelaide pergunta:
“- Onde é que arranjaste o dinheiro? Conseguiste "tudo"?”
Ele diz que sim. Conseguiu por intermédio do Alcides e do Duque. Cinquenta e quatro mil e setecentos. Põe todo o dinheiro em cima da mesa. Está com sono. Separa os cinquenta e três mil exatos do leiteiro. Guarda o resto no bolso do colete. Está com sono. São nove e meia da noite.
Naziazeno imagina a reação do leiteiro ao receber, na manhã seguinte, o dinheiro. Vem à tona, na conversa com Adelaide, a situação do Dr. Romeiro, diretor da repartição em que Naziazeno trabalha.
Ouve-se um baque lá fora. Eles levantam a cabeça, atentos. É o portãozinho. Naziazeno vai fechá-lo. Quando volta, reclama do frio.
“- Por que tu não vais deitar?
- Não quero dormir com o estômago muito cheio.”
Surge a preocupação de levantar cedo no outro dia para entregar, em mãos, o dinheiro ao leiteiro.
“- Porque não botava em cima da mesa da cozinha, junto com a panela do leite?”
Naziazeno aprova a idéia. E fica pensando na surpresa do leiteiro ao encontrar o dinheiro.
Adelaide acabara de pôr a panela do leite na ponta da mesa. Ao lado da panela, Naziazeno pusera o dinheiro para o leiteiro. Está preocupado. Deveria por algum peso sobre as notas?
“- Tu achas necessário? Não há vento aqui dentro.
- Não, não é preciso.”
Naziazeno não consegue abandonar a cozinha.
É interessante: passou-lhe o sono agora. É capaz de ler um pouco... Mas muda de idéia: não lhe apetece agora nenhuma leitura... nenhuma daquelas coisas que poderia ler...
Naziazeno acabou indo deitar-se. A mulher dorme, mas ele fica a recordar a "correria" por que teve de passar para conseguir o dinheiro. Está acordado. Entretanto queria dormir. "Tem necessidade de um sono longo, longo...”
Fica a ouvir os barulhos da noite: o vento... o bonde passando... o bonde voltando... de novo o vento... Precisa dormir, descansar a cabeça.
“Serão onze horas? Meia noite?”
Uma pancada, longe, sonora, indica uma hora.
Já lhe parece um século aquela noite e é apenas uma hora!...
Precisa dormir, precisa descansar. Tem de aproveitar esse resto de noite. É estranho: um cansaço tão grande, e não conseguir conciliar o sono...
A falta de sono perturba Naziazeno. A esposa dorme quieta. O filho, Mainho, também. O pensamento fica divagando por várias coisas: a repartição, o seu trabalho, a luz que não o deixa dormir, o médico de Mainho, o "dr." Mondina. Pensa em Alcides, no anel que o "desapertou". "Uma providência, aquele anel". Vem-lhe, na insônia, uma superposição vaga de figuras: o Assunção... Fernandes... Martinez... Duque... Duque arrasta-o de uma lado para outro. Tem um sobressalto: um estalo para o lado da frente. O filho chega também a assustar-se. Adelaide, meio dormindo, nana-o.
"Naziazeno não quis deixar ver que estava acordado".
A insônia continua. Naziazeno põe-se a pensar em tudo: a chegada a casa... o jantar tranquilo, como ele sonhara... o dinheiro ali na mesa, acariciado pelo seu olhar... a ideia de deixá-lo ali, sobre a mesa, evitando o confronto direto com o leiteiro. Se houvesse o confronto, viria inimizade. Assim, continuariam amigos.
E o sono? "Ainda não dormiu! Só ele! Só ele sem dormir..."
Procura não pensar em nada, manter os olhos fechados, buscar tranquilidade.
A insônia persegue Naziazeno. Por estar embrulhado, o calor aumenta. "Sente que vai ficando esperto outra vez".
Pensa no bonde. A recordação passeia por cenas e pessoas relacionadas à maratona do dia: Duque, Alcides, Mondina, o jornal... os "finalmente" da transação com o Mondina. Alcides está amuado. Hesita em passar o anel para o Duque. Finalmente Mondina tira o dinheiro do bolso. Precisa trocá-lo em notas menores, primeiro no café, depois no Bolão. Pronto: transação encerrada. Duque passa-lhe o dinheiro: sessenta e cinco mil réis.
Naziazeno toma o bonde para casa. Tem de passar no sapateiro para pegar o sapato de Adelaide. Pega. A chegada, enfim, a casa. Adelaide vem até ele.
"Outra vez um silêncio súbito". Naziazeno fica em dúvida: teria dormido? Passou toda a noite acordado? O ar tem um chiado... Fica muito tempo a ouvir esse chiado sonoro, metálico, fininho.
Agora, distingue nitidamente dois barulhos: o da respiração do filho e aquele chiado lá fora.
De repente, um barulho no forro... Ratos... São ratos. Fica esperando o barulho dos ratos na cozinha. O barulho aumentou: em vários pontos, no forro, o rufar... A casa está cheia de ratos!
"O chiado desapareceu. Agora, é um silêncio e os ratos..."
Há um roer ali perto. O que estarão comendo? É isto! "Os ratos vão roer - já roeram! - todo o dinheiro!..."
Tem um grande desespero. É preciso levantar-se. Mas o barulho cessou. Há só o silêncio. Será que ratos roem dinheiro? É melhor perguntar à mulher. Absurdo. Claro que ratos não roem dinheiro! "Vê os ninhos, os papéis picados, miudinhos, picadinhos... uma poeira".
"Vai levantar". Mas onde achar forças? "Está com sono. Mas é preciso reagir". Parece ouvir a voz da mulher: "Eles roem papel. Dinheiro é um papel engraxado..."
O barulho sumiu. Cessou também o roer. Decerto os ratos já foram embora. Está amanhecendo.
Ao redor de Naziazeno, as coisas vão ficando mais apagadas. "Depois duma trégua, os ratos voltaram a roer". Com certeza estão roendo a madeira. Seria mesmo madeira? "Talvez depois de consumido o dinheiro, eles passem a roer, a roer a tábua da mesa..."
Agora os ruídos confundem-se. "Está exausto". Precisa dormir, entregar-se.
"Não sabe que horas são". "Mas que é isso?!... Um baque?"
"Um baque brusco do portão. Uma volta sem cuidado da chave. A porta que se abre com força, arrastando. Mas um breve silêncio, como que uma suspensão... Depois, ele ouve que lhe despejam (o leiteiro tinha, tinha ameaçado cortar-lhe o leite...) que lhe despejam festivamente o leite. (O jorro é forte, certamente vem de muito alto...) - Fecham furtivamente a porta... Escapam passos leves pelo pátio... Nem se ouve o portão bater...
E ele dorme."

2.12. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
- Há na obra uma cruel crítica à maneira como o dinheiro acabou se tornando a mola propulsora das relações sociais, comandando a respeitabilidade, a ética, a dignidade e até injusta e facilmente, quando não arbitrária e despoticamente, degradando-as, detonando-as;

- O desenrolar do drama do funcionário público endividado e ainda com vergonha de olhar os credores que passam no cotidiano atravessa os capítulos e nos traspassa de angústia. O dinheiro do leite, a doença do menino, a fome do protagonista... Enfim, um empréstimo. Percebemos, na vida de Naziazeno, que ter conseguido o dinheiro para quitar a conta do leite é apenas o início de uma nova dívida, a expectativa de mais um dia caminhando em busca de uma solução;

- O livro Os ratos inicia com a advertência do leiteiro de que cortará o fornecimento de leite caso não receba o pagamento até o dia seguinte. Apenas vinte e quatro horas... Naziazeno sente o desespero da mulher, a vergonha diante dos olhares da vizinhança que presenciam o ultimato. O leitor é invadido pela espiral das angústias do fim do romance. O descanso de Naziazeno não é verdadeiro e não convence. Sabemos que amanhecerão novas inquietações e dívidas para o funcionário, novas cobranças para o chefe de família e novos olhares reprovadores. Mistura-se a essa luta a ansiedade, o desespero, a sensação de fragilidade e inutilidade do ser humano que não tem recursos sequer para garantir o sustento digno da família;

- A mediocridade do papel do protagonista no mundo se contrasta com a forma brilhante como Dyonélio Machado desenvolve a trama e nos envolve no drama do protagonista com diretas reflexões inseridas em nossas rotinas. A reviravolta na narrativa ocorre quando, ao anoitecer, pensamos que o caso está encerrado e percebemos que as vivências ecoam e retornam em ousadas lembranças dos movimentos do dia sob novos olhares. Sentimos com força a angústia de ser e de permanecer próximo do protagonista do escrito literário;

- O passado, principalmente a infância, mistura-se ao presente de Naziazeno Barbosa. O enredo é arquitetado numa superposição de planos: os pensamentos e reminiscências do herói em confronto com a crueza da realidade citadina. Presente e passado alternam-se na composição da história;

- O drama principal do romance não se concentra no leiteiro, nem nos ratos ou no dinheiro: concentra-se na dificuldade para conseguir a quantia desejada, respeitando-se o limite de tempo e espaço;
- Durante a sua via-sacra, Naziazeno encontra pessoas solidárias a sua situação. “- Eu já lhe disse: eu simpatizo muito com a situação dele. Simpatizo muito...” (p.87). Mas nenhuma dessas pessoas é capaz de questionar que estrutura social é esta que leva um pai de família não ter nem o dinheiro para comprar leite para o seu filho. É um livro que acaba questionando a realidade brasileira, onde a diferença social faz com que muitos assalariados, vivam como nossa personagem com dívidas para quitar. E por serem tão habituados a essa situação acham muito natural, sobrevivem assim... com o compadecimento de algumas pessoas;
- A obra Os Ratos desmascara as relações desumanas criadas pelo capitalismo: a causa geral da deformação das personagens. Dyonélio vai buscar essa deformação naquilo em que, com toda obviedade, ela parece não estar: nos gestos miúdos, quase imperceptíveis, como sacudir moedinhas dentro do bolso, cortar nervosamente um pedaço de pão em migalhas, espantar-se com as fisionomias dentro do bonde, estudar longas horas a melhor maneira de falar com um superior, perder o jeito diante de um credor. Enfim, como bom psicanalista, Dyonélio vê a chave humana no fragmentário; o homem de hoje é uma constelação de feridas, cicatrizes, contrações opacas;
- Em uma entrevista concedida ao jornal Movimento (24/11/1975), Dyonélio Machado fala sobre a angústia, principalmente, infantil: “Se nos prolongássemos às angústias infantis, não chegaríamos à idade adulta”; sendo assim, pode-se encontrar na infância um possível “berço” das angústias, muitas vezes inexplicáveis, que se acometem nos adultos.
O filósofo italiano Gianni Vattimo, autor do livro O fim da modernidade (editora Martins Fonte, 2000), ressalta um dos principais pensamentos de Heidegger sobre as reflexões existencialistas voltadas para o conhecimento, à consciência da liberdade do homem em poder fazer escolhas em que o limite será a “morte vivida a cada dia”, chamada angústia. Sendo assim, o pressentimento, a angústia é uma espécie de “morte dosada” do ser humano diante da sua “coisificação”, imposta pela Modernidade (Capra, O ponto de mutação e Harvey, O fim da modernidade).
Naziazeno, personagem principal do romance, enfrenta um dia inteiro, entre o medo e a angústia. O medo para Heidegger é sempre transitório e, quando fortificado por uma razão externa (no caso do romance, os ratos, a dívida) transforma-se em angústia e o referencial (a razão) se desvanece e fica o sentimento sufocante, inexplicável e profundo. No livro, o medo de não conseguir o dinheiro para saldar a dívida com o leiteiro se torna “a morte vivida a cada dia, cada minuto” (angústia) e acesso ao nada.
Por isso, Naziazeno, em certa altura do romance (diante de todas as suas tentativas fracassadas), não pensa mais, não discute mais, perde as esperanças;

- Para Freud, o pensamento obsessivo aparece como uma ligação do inconsciente a certas vontades, não satisfeitas, que levam ao estado de ansiedade ou angústia; o pensamento obsessivo de Naziazeno é a dívida. Em detrimento dela, e por ela, ele é capaz de se sacrificar: ficar sem almoço, pedir dinheiro para desconhecidos, não trabalhar, voltar tarde para casa, não dormir – tornando o ato de saldar uma dívida em um “calvário” (como se o empréstimo fosse a sua única salvação);

- Dyonélio Machado dedica o título da obra e dois capítulos aos ratos. Pelo menos aos olhos do convencional, os ratos (animais de hábitos noturnos que sobrevivem de restos de alimentos e vivem em lixos, sótãos, etc.) causam repugnância, medo, pavor, agonia, angústia, nojo e outros. Qual seria então a possível relação metafórica desse animal com Naziazeno ou com sua condição momentânea? Primeiramente, os ratos, normalmente, são animais indesejados em qualquer residência, ao contrário de gatos, cachorros, peixes ou pássaros, pode-se dizer, então, que os ratos vivem à margem da preferência humana, de uma sociedade. Naziazeno também vive à margem da sociedade, de uma sociedade que normalmente não abdica, por exemplo, do leite, da manteiga, do gelo (no caso particular de Naziazeno), do almoço (nem que esse seja simplesmente uma sopa com pão) de produtos ou condições essenciais para uma qualidade de vida. Esses animais são “desprezíveis”, bem como Naziazeno no início da obra, no momento que nega a necessidade do leite para seu filho. E é também em favor de seu filho que Naziazeno procura saldar sua dívida.
Os ratos, em certo momento da obra, perturbam o sono da personagem, prendem sua atenção, eles incomodam, parecem continuação do dia cansativo, parecem o inconsciente que procura nos detalhes dos barulhos algo para prolongar uma tarefa inacabada: Naziazeno ainda não pagou a dívida, sua vontade ainda não foi satisfeita; o subconsciente trabalha e não o deixa dormir, como se faltasse algum pedaço para juntar o quebra-cabeça. O pensamento obsessivo, a angústia, o inconsciente só param ou descansam com a chegada do leiteiro e a dívida aniquilada: um êxtase toma conta do corpo e da alma de Naziazeno que dorme, agora, tranquilamente; o pensamento obsessivo passa, o medo passa, a angústia desaparece;

- O discurso indireto livre é um recurso, relativamente, recente. Surgiu com os romancistas inovadores do século XX e tem como característica o misto dos discursos direto e indireto. Outro item abordado pelo autor e que remete ao modernismo é o linguajar simples, coloquial, direto, não há “rodeios” nem sentimentalismo exacerbado nas palavras ou pensamentos. A idéia da modernidade e a incorporação das “conquistas” do progresso são destacadas através da citação do “bonde”, da “fábrica”; elementos que também exemplificam coisas do cotidiano, bem como a descrição do café da manhã de Naziazeno, a dívida, o trabalho, as conversas banais em cafés são demonstrações de fatos ligados ao cotidiano e a realidade brasileira. Outra inovação modernista é relacionada ao tempo de ação: na obra de Dyonélio Machado toda a ação se passa em um dia, “interminável” e exaustivo dia que o narrador-observador acompanha entremeando o pensamento de Naziazeno e suas atitudes;

- Conclui-se que o romance Os Ratos possui uma complexidade de temas imperceptíveis em uma primeira leitura. Como se a obra fosse à mente humana: repleta de abismos escondidos em sorrisos e olhares superficiais, sendo necessária uma observação detalhada, com outros prismas, com um novo olhar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

POÉTICA I


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Na primeira estrofe, o poeta estabeleceu uma conexão lógica entre os espaços de tempo que instituem o dia (manhã, tarde, dia e noite), a fim de caracterizar a passagem do tempo. Trabalhou com a antítese, demonstrando que a sequência temporal que forma a vida é cheia de contrastes, de negação: manhã X escureço, talvez por interpretar manhã como o início, a inexperiência; tarde X anoiteço talvez por interpretar anoiteço, como cobrir de trevas (um dos significados figurado, de trevas é estupidez, ignorância); noite X ardo (perceber que arder, além de significar consumir-se em chamas, também significa estar aceso). É a ambiguidade da vida: no início, a inexperiência marca nosso viver; na adolescência, a ignorância ou seja, o início do aprendizado; na fase adulta, a sabedoria, a habilidade, a prática da vida.

Já na segunda estrofe, o poeta trabalhou com os pontos cardeais, elementos fixos, contrastando com a dinamicidade do tempo (tempo=dinâmico X espaço= fixo). Ao dizer o “O este é meu norte”, empregou o verbo nortear, cujo significado é dirigir, orientar, guiar, então ele diz que se guiava pelo este (leste), local em que o Sol nasce, ou onde está o oceano, que representa a saída para a Europa, o berço da civilização e da cultura (Vinicius viveu muitos anos no exterior).

A oeste a morte contra quem vivo: O oeste, onde o Sol se põe, representa o fim, a morte.

Do sul cativo: pode significar que ele se sentia seduzido pelo sul, talvez pelo hemisfério sul, onde se situa o Brasil.

Outros que contem passo a passo, ou seja, os outros é que possuem a responsabilidade de se preocupar com a sucessão de dias; a ele cabia o ato de renovar-se constantemente.

“Eu morro ontem”/”Nasço amanhã”, sem se inquietar com os acontecimentos cotidianos.

Ando onde há espaço, ou seja, ele não se preocupava com o espaço em que se encontrava. O que importa é viver o presente, independentemente do lugar em que se encontra.

Meu tempo é quando pode representar o eterno, ou seja, também não importa a época em que se vive. O que importa é viver, enfrentando as vicissitudes, as contradições, as negações que se nos apresentam durante a vida.

Segundo Carlos Felipe Moisés (ver bibliografia), a sequência vertical da primeira estrofe manhã-dia-tarde-noite obedece a um encadeamento lógico: a passagem natural do tempo. Tal encadeamento é rompido na linha horizontal, já no primeiro verso ("escureço" se opõe à "manhã") e ganha ambiguidade no quarto, em que "ardo" conota claridade, em oposição ao escuro da noite, mas, sobretudo, ganha passionalidade (arder, ardor de amor). Isso aproxima parcialmente os extremos, dia e noite, e sugere a passagem do tempo como sucessão de contrates, negação de expectativas, em um clima de intenso subjetivismo (1ª pessoa).

Na segunda estrofe, numa atitude de liberdade, de anticonvencionalismo, o eu lírico diz-se guiar pelo "este" e não pelo "norte" como todos fazem. O último verso da última estrofe privilegia o circunstancial (não é "aquilo que" acontece, mas o "momento quando" acontece que realmente importa), valorizando a disponibilidade do instante presente, para que seja intensamente vivido. Observando o aspecto formal do poema, parece haver
ali um soneto renovado. Isso confirma a valorização da liberdade e do individualismo, da insubordinação e da disponibilidade, também para o ato de criação poética.

Na saída de um show em Portugal, diante de estudantes salazaristas que protestavam contra ele na porta do teatro, Vinicius declama os versos de "Poética" (De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo). Um dos jovens tirou a capa do seu traje acadêmico e a colocou no chão para que Vinicius pudesse passar sobre ela - ato imitado pelos outros estudantes e que, em Portugal, é uma forma tradicional de homenagem acadêmica.

SONETO DO AMOR TOTAL


Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente.
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

A maior de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

O AMOR TOTAL E O DOM DO AMOR: UMA COMPARAÇÃO ENTRE O SAGRADO E O SECULAR

1. INTRODUÇÃO

O poeta Vinicius de Moraes é fonte inesgotável de comentários e análises, onde sua obra é perfeita matéria-prima para a literatura comparada. Mestre em descrever poeticamente os sentimentalismos humanos, esse autor tem capacidade de tocar o mais fundo da alma humana com sua arte de recitar palavras. Vinicius é surpreendente, por que consegue transpor as barreiras da linguagem culta e escrever com vocábulos simples os mais belos poemas.

Nesse artigo, contempla-se o tema amor retratado no "Soneto de Amor Total" de Vinicius de Moraes, com o amor bíblico de I Coríntios 13: 4- 13,comparando-os após uma análise axiológica de ambos os textos.

2. O AMOR TOTAL

Nesse soneto, alguém apaixonado declara-se a pessoa amada de maneira absolutamente desesperadora. Isso porque se vê frente a uma situação que realmente desejava. "O soneto de amor total" de Vinicius de Moraes, fala sobre o sentimento de amor que alguém pode sentir em relação a outro.

As primeiras obras de Vinícius de Moraes foram escritas sob o signo da religiosidade neo-simbolista, mas a urgência biográfica logo deslocou o eixo de poemas lírico por excelência para a intimidade dos afetos e para a vivência erótica.

Na primeira estrofe do poema verifica-se o vocativo, uma dualidade e um adjetivo de incondicionalidade:

No primeiro verso, a expressão "Amo-te tanto" indica uma condição de amplitude sentimental, onde o poeta, não determina o quanto sente, mas dá a entender que o que ele sente não é pouco. O vocativo se dá com a presença das palavras "meu amor", que confirma a condição de sentimentalidade. Após isso, "não cante..." quer dizer que o poeta deseja que não se celebre em poesia.

O segundo verso da primeira estrofe "O humano coração com mais verdade" explicita que o poeta ao se declarar a sua amada, despe-se de qualquer faceta e faz-se simplesmente humano para afirmar que o que sente está isento de mentiras e dedicado a mais verdades. No terceiro verso há desdobramento da palavra total, pois amar como "amigo e como amante " remete a dois planos. O primeiro tipo de amor (amor de amigo) está relacionado com o plano espiritual, e o segundo tipo de amor (amor de amante) está relacionado com o plano carnal, aspecto físico.

O quarto verso da primeira estrofe do poema significa implicitamente uma dualidade. A seqüência de palavras "Numa sempre diversa realidade" põe o amor sentido pelo poeta no âmbito do sentimento incondicional. Independentemente da situação externa em que se encontrem o amor que o poeta sente pela amada não mudará.

A segunda estrofe do poema de Vinicius de Moraes retrata a subserviência, saudosismo e na amplitude temporal e espacial. No primeiro verso, pode-se remeter aos amores do trovadorismo e do romantismo, onde o amador está em uma posição de subserviência ao amado. A frase "de um calmo amor prestante", significa que o poeta ama de maneira não relutante, calma de um amor prestativo, serviçal, tal qual o poeta da cantiga de amor ama. Ao recitar a palavra "além" na segunda estrofe, o poeta posiciona seu sentimento num patamar além do que já foi dito nas estrofes anteriores. Outro aspecto supra espacial do amor revelado pela análise são as palavras "presente na saudade".

O poeta tende concluir sua declaração ou ao menos definir seu sentimento ao pronunciar que "ama com grande liberdade". O sentimento ao qual se refere é aquele que não tem limites, um amor sem restrição, sem estar apegado à outra coisa senão a sua amada. Note-se que a utilização do vocábulo "grande" indica que o define o seu amor é ainda maior, porque é grande. Dá-se um sentido espacial nesse verso.

No último verso da segunda estrofe, está mencionado o aspecto temporal, verificados pela presença das palavras eternidade e instantes. A liberdade (definida como grande)na qual ama o poeta sua amada, está situada temporalmente no infinito, dela é abstraída a idéia de tempo cronológico, marcado pelo relógio ou calendário. Ao pensar em infinito, o consciente logo se desliga a idéia de presente e liga-se a de futuro sem determinação, de algo que nunca acaba. Ao mesmo tempo em que se desliga da temporalidade cronológica, o poeta vincula-se ao pormenor de "cada instante", que remete a idéia de tempo marcado, contáveis e finitos. Ele a ama nos dois pontos temporais seja no finito ou no infinito.

Na terceira estrofe, do primeiro verso pode-se concluir que o amor do poeta é irracional. Visto que, se quem ama como um bicho ama irracionalmente sem a capacidade avaliativa. A posição da palavra simplesmente conduz o leitor a interpretação de que o que o poeta sente é somente um amor irracional. Todavia, quer dizer que se sente é puramente um amor desvairado, despojado de consciência. Tornando-se apenas momentos de carnalidades. O segundo verso alude a um amor tido as claras, sem mistério. Como algo que não está indeciso. Sem virtude, desprovido de qualquer pudor humano, social. Com um desejo maciço ( forte, rígido) e permanente (ininterrupto, constante).

A quarta estrofe do soneto reflete a intensidade do amor e a sua freqüência, onde o poeta delimita o modo de amar: "E de te amar assim muito e amiúde" (amiúde = freqüentemente). Tendo como causa esse amor, pois o segundo verso inicia com as palavras "é que", que dá idéia de "devido a". Finalizando o verso com a plenitude do amor carnal e espiritual, onde quando os dois unidos pelo ato sexual, representado por "em teu corpo",um dia (indefinição temporal). O soneto expressa o desejo do poeta em findar sua vida no êxtase do amor, pois na ultima estrofe ele almeja (hei) morrer de amar (não de outra coisa) mais do que pude (ou do que é humanamente possível).

Assim, o "Soneto de amor total" trata de uma declaração de amor de um poeta apaixonado a sua amada, onde unem-se o amor espiritual ao carnal.

3. O DOM AMOR

Paulo escreveu duas cartas a Igreja de Coríntios, capital da província romana e Arcaica. Embora uma cidade antiga, Corinto fora destruída pelos exércitos romanos em 146 a. C. Após um século em ruínas, a cidade foi reconstruída em 44 d. C. como colônia de Roma. Paulo pregou pela primeira vez a mensagem de Jesus em Corinto durante sua permanência de um ano e meio lá, quando ele reuniu uma congregação formada, sobretudo por gentios nesse centro comercial do sul da Grécia (at 18: 1 – 18).

Nenhuma carta reproduz imagem mais vivida da vida dentro de uma comunidade cristã do primeiro século do que 1 Coríntios. Vêem em suas páginas o entusiasmo dos cristãos, suas lutas e tentativas de entender uma nova ordem religiosa e social, diferente das culturas judaicas ou greco-romanas em que eles haviam sido criados. A carta fala sobre as tentativas de Paulo para orientar os fieis na edificação da comunidade, baseadas em sua compreensão dos valores fundamentais da fé em Jesus Cristo (BIBLIA, 2003).

No texto em análise o profeta diz que:

O amor é paciente, é benigno. O amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre tudo crê, tudo espera, tudo suporta (CORINTIOS, 13: 4-7)

Com isso ele elenca algumas características do amor, tais como, a paciência e o bem. Separando o amor de um sentimento presente em todas as sociedades, que é o ciúme. O amor para Paulo não se ufana (não é vaidoso), não se ensoberbece (não é orgulhoso). O amor procura olhar pelo próximo. Não se alegra com injustiças.

O amor jamais acaba; mas havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas cessarão; havendo ciência passará; porque em partes conhecemos e em partes profetizamos (CORINTIOS, 13: 8-9).

Nesse trecho do texto bíblico o amor é infinito, eterno, pois ele "jamais acaba". E cita como exemplos, as profecias, as línguas, a ciência que por mais que pareçam não são eternas. E nos próximos versículos Paulo adverte que: "Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado" (CORINTIOS, 13: 9). Isto é, que no dia (ainda indeterminado) em que vier (ou voltar) o perfeito (Jesus Cristo) então o que é em parte (não semente de Deus ou do Diabo) será aniquilado (destruído).

O amor é dom divino manifestado não em intensas experiências místicas, mas na vida quotidiana. Mostra a si mesmo a paciência e a bondade, evitando jactância, arrogância, egoísmo e ressentimento. Tudo tolera, crê, espera e suporta sem falta (BIBLIA, 2003, p. 386).

Conforme o exposto acima, o amor é mostrado como produto externo à condição humana ou animal. Está manifestado a partir da ligação entre homens e Deus – pai, diferentemente dos rituais míticos. Na prática da vida cotidiana.

Os Coríntios achavam que suas experiências místicas sentiam o poder da era vindoura. Nada disso, dizia Paulo. Os dons espirituais eram manifestações apenas para este mundo, auxílios para nossa capacidade limitada, infantil. Pois, só permanecem a fé, a esperança e caridade... Porém, o maior dela é o amor (BIBLIA, 2003, p. 386).

4. CONCLUSÃO

Portanto, o amor divino é diferente do amor total. E se diferem em vários aspectos.

O amor de Vinícius é absolutamente desesperador, isto é, não é paciente, ao contrário do amor bíblico que começa o texto afirmando que é paciente e benigno (não causa mal algum). O amor pagão tomou conta do poeta, deixando o quase cego de amor, perdido sem rumo. Declarando sua sentimentalidade de forma incondicional, seja de forma amiga ou sexual. Contudo o amor bíblico se abre para uma espécie de sentimento supremo, sem orgulho, como algo controlável, diferente da ardência da paixão.

O amor pagão retrata a subserviência, saudosismo e na amplitude temporal e espacial (a frase "de um calmo amor prestante", significa que o poeta ama de maneira não relutante, calma de um amor prestativo, serviçal, tal qual o poeta da cantiga de amor ama). Da mesma forma que o amor bíblico, refere-se ao amar como um sentimento que não procura os seus interesses.

O poeta secular ama além do aspecto supra espacial, querendo ainda afirmar a condição de incondicional sentimentalismo. A liberdade (definida como grande) na qual ama o poeta sua amada, está situada temporalmente no infinito, dela é abstraída a idéia de tempo cronológico, marcado pelo relógio ou calendário. Ao pensar em infinito, o consciente logo se desliga a idéia de presente e liga-se a de futuro sem determinação, de algo que nunca acaba. Ao mesmo tempo em que se desliga da temporalidade cronológica, o poeta vincula-se ao pormenor de "cada instante", que remete a idéia de tempo marcado, contáveis e finitos. Ele a ama nos dois pontos temporais seja no finito ou no infinito. Porém o amor bíblico "tudo sofre tudo crê, tudo espera, tudo suporta" e é complementado pela estrofe seguinte que diz que o "O amor jamais acaba; mas havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas cessarão; havendo ciência passará; porque em partes conhecemos e em partes profetizamos", sendo também considerado eterno e supremo a todas as outras coisas.

O amor bíblico o amor é mostrado como produto externo à condição humana ou animal. Está manifestado a partir da ligação entre homens e Deus – pai, diferentemente dos rituais míticos. O amor secular diferentemente é comparado com um animal (irracionalidade): amando como um bicho ama irracionalmente sem a capacidade avaliativa. A posição da palavra simplesmente conduz o leitor a interpretação de que o que o poeta sente é somente um amor irracional. Sendo esse amor fruto de carnalidades, sem virtude, desprovido de qualquer pudor humano, social. Com um desejo maciço ( forte, rígido) e permanente (ininterrupto, constante).

Segundo o texto bíblico o amor cristão é um DOM, manifestações apenas para este mundo, auxílios para nossa capacidade limitada, infantil. Tendo um aspecto mais espiritual do que terrenos. O amor secular se reveste de sentimentos de paixão e aspectos carnais, frutos de um mundo extremamente terreno, irracional, desligados das virtudes religiosas.

SONETO DO MAIOR AMOR



1. Maior amor nem mais estranho existe
2. Que o meu, que não sossega a coisa amada*1
3. E quando a sente alegre, fica triste*2
4. E se a vê descontente, dá risada.*3

5. E que só fica em paz se lhe resiste
6. O amado coração, e que se agrada
7. Mais da eterna aventura em que persiste
8. Que uma vida mal-aventurada.

9. Louco amor meu, que quando toca, fere
10. E quando fere vibra, mas prefere*4
11. Ferir a fenecer – e vive a esmo*5

12. Fiel à sua lei de cada instante
13. Desassombrado, doido, delirante
14. Numa paixão de tudo e de si mesmo.


*1 – “Transforma-se o amador na cousa amada”

*2 – paradoxo

*3 – “contentamento descontente”

*4 e *5 – aliteração e assonância

O poema acima é de Vinicius de Moraes, publicado no livro Poemas, Sonetos e Baladas (1946), com o título “Soneto do Maior Amor”. Cabe ressaltar antes de mais nada que este livro se insere entre as mais altas realizações do poeta, lugar onde se encontra sua “síntese de ritmos”, “onde encontramos Vinicius inteiro, o de antes e o de depois; o que apela para a transcendência e o que realiza o verso passando os dedos pela viola” (cf. CANDIDO, 2001, p. 121). Ou seja, onde se encontra o “Poeta da Paixão”, nas suas mais conhecidas formas, especialmente para o estudo aqui exercido, o soneto.

Como já menciona o próprio título, o poema a ser analisado trata-se de um soneto: modelo clássico italiano “apto pela sua estrutura a exprimir uma dialética; isto é (...) uma forma ordenada e progressiva de argumentação” (cf. CANDIDO, 1987, p. 22). Carrega o soneto, ainda, a tradição petrarquiana de disposição de estrofes, dois quartetos (versos 1 ao 4, 5 ao 8) e dois tercetos (versos 9 ao 11, 12 ao 14). Para este tipo de estruturação, a argumentação seria incorporada nas três primeiras estrofes (quartetos e primeiro terceto), ficando ao último verso (terceto) o papel de conclusão do exposto.

Sobre os versos, são eles decassílabos, com exceção somente do verso 12, um octossílabo. As rimas obedecem ao esquema ABAB, ABAB, CCD, EED; quanto à estrutura rítmica, nota-se que os versos 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 14 têm tônica na sexta e na décima sílaba, os chamados heróicos, que dão traços lógicos ou psicológicos da marcha intelectual e afetiva do poema. Aos demais versos, o 1 tem tônicas semelhantes nas sílabas segunda, quarta, sexta, oitava e décima, numa mistura de versos heróico e sáfico, aparentemente, que segue um compasso de sílabas não-tônica ou tônica, não ou sim, ou, numa interpretação ousada, representaria este movimento a indecisão do “Maior Amor” de sossegar-se ou não à “coisa amada”: “Mai/ OR/ a/ MOR/ nem/ MAIS/ es/ TRA/ nho e/ XIS/ te”. Já o verso 9 demonstra um legítimo esquema rítmico sáfico. E o verso 12, o octossílabo, semelhante ao anterior, recebe tônicas nas sílabas quarta e oitava, muito próximo de ser mais um sáfico.

Enjambemants (quebras dos versos para a transposição de um elemento sintático de um verso para o verso posterior – atenuação da pausa final do verso) são observados, ocorrendo entre os versos 1/2, 5/6, 6/7, 7/8, 10/11, 11/12, 12/13.

 Interpretação

À primeira vista, o “Soneto de Maior Amor” causa certa estranheza: amor que “não sossega a coisa amada” (v.2); que “quando a sente alegre, fica triste” (v.3), “se a vê descontente, dá risada” (v.4); “quando fere vibra” (v.10); “prefere/ Ferir a fenecer” (v. 10 e v. 11). Através destas antíteses, deste paradoxo de sentimentos, nota-se que, diferente ao que comumente se lê, vê, ouve sobre o amor, para Vinicius - ou para o eu-lírico - o “maior amor” não encontra essência na “coisa amada”, pois fenece; e vê só condição de prosperar se em “eterna aventura”, pois o faz vibrar. Precisaria o eu-lírico sempre estar envolvido pelo fogo da paixão, dentro das complexidades conflitantes do amor, para sentir-se “alegre”, “em paz”, talvez natural, “fiel à sua lei de cada instante” (v. 12).

Estrofe por estrofe embasaremos melhor este ponto de vista.

 Primeira estrofe

O eu-lírico se inicia com uma assertiva: “maior amor nem mais estranho existe/ que o meu”. Tal estranhamento do amor deve-se à aparentemente incomum confissão: ele “não sossega a coisa amada/ e quando a sente alegre, fica triste/ e se a vê descontente, dá risada”.

Estruturada num jogo de antíteses (a exemplo, um quiasma entre os versos 3 e 4: “alegre” e “risada” contrastando com “triste” e “descontente”) que corporificam parte do paradoxo sentimental vivido pelo eu-lírico em todo o poema, a primeira estrofe já dá indícios do porquê do “Maior Amor” ser o título do poema.

Segunda estrofe

O “e” conectivo que inicia a estrofe dá continuidade à justificação do aspecto incomum do “Maior Amor”. Mas tais justificativas agora tomam mais forma de um porquê: “se agrada/ mais da eterna aventura em que persiste/ que de uma vida mal-aventurada”. Ou seja, poeta deseja a constância do sentimento que a “aventura” lhe proporciona, possivelmente, a paixão, o “maior amor” que encontra na amada o fim.

Terceira estrofe

Esse “louco amor” relatado, “quando toca, fere/ e quando fere vibra”. E não à toa, uma vez que este não procura a alegria da coisa amada, deseja, sim, a “eterna aventura” que gera a inquietação, o sofrimento dela; tanto que “vibra” ao feri-la; e prefere “ferir a fenecer”, já que a “coisa amada” é o fim do “louco amor”.

Quarta estrofe

Pelo enjambement, o trecho final do último verso da terceira estrofe, “e vive a esmo”, mais o último terceto dão fim ao discurso do poema. O travessão, que inicia este final, geralmente tem a função de abrir espaço para comentários, observações acerca do tratado em texto. Ao caso, trata-se do “Maior Amor”. Este que vive “fiel à sua lei de cada instante/ desassombrado, doido, delirante”, sem regras cristalizadas de amor, prossegue em aventura não se importando com o que pode acontecer. Afinal, sua paixão abarca “tudo” e “si mesmo”, por isto, grande demais para ficar preso a apenas uma pessoa.

Desse “louco amor” disse David Mourão Ferreira: essa “necessidade de ‘ferir’ é um dos modos por que se revela a transcendência de uma concepção do amor que se não confina ao prazer dos sentidos nem tampouco à beleza física. Não sossega à “coisa amada”- o mesmo é que obrigá-lo a descobrir-se em toda a complexidade que realmente a caracteriza, a torná-la parceira da sua própria inquietação” (cf. FERREIRA, 2001, p. 113).

O “Maior Amor” do poeta, portanto, não é aquele que se satisfaz ao fim da conquista da amada. Há toque paixão, de conquista, de constante aventura por parte desse amor. Ao ritmo do soneto, Vinicius demonstra que há um além da concepção do amor, que talvez, este seja até maior que ao que vê a paz na amada. Maior porque nunca “fenece”, sempre está vibrando, altivo, obedecendo apenas a sua lei, aquela nascente dos instantes.