domingo, 13 de maio de 2018

O PRIMEIRO BEIJO, CLARICE LISPECTOR


O PRIMEIRO BEIJO, CLARICE LISPECTOR

“Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
– Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
– Sim, já beijei antes uma mulher.
– Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…
Ele se tornara homem. ”

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONTO:

Repleto de riquezas de detalhes, o conto traz um narrador onisciente que revela o subconsciente do rapaz, em terceira pessoa do singular.
A narrativa inicia-se com um diálogo entre dois adolescentes apaixonados e não nomeados, ou seja, estão abetos ao coletivo e não ao perfil individual e, este é o ponto-ápice da trajetória do garoto que se dará por meio de digressões e flashbacks, servindo como gancho para o desenvolvimento da história, através das lembranças da personagem.
Enciumada, a namorada pergunta ao namorado quando tinha sido o primeiro beijo dele. O garoto ama sua namorada e quer ser leal com ela.
Ele, então, relata então uma história ocorrida em sua infância.
Numa excursão de ônibus escolar, ele estava com muita sede. Quando houve uma parada perto de um chafariz, ele foi o primeiro a chegar para beber. Colou a boca no orifício de onde jorrava a água. Depois que se saciou, abriu os olhos e viu que o orifício era a boca de uma estátua de mulher nua. Afastou-se, ficou olhando para a estátua. Fora seu primeiro beijo.
“Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva. [...] Ele se tornara um homem. ”
Clarice Lispector é escritora de detalhes, das “entrelinhas”, de fluxo de consciência, existencialista, intimista e desnuda as profundidades habitadas nas entranhas do ser-menino.
A riqueza da descrição é psicológica e não física, cujo tempo não é demarcado, porque anacrônico (atemporal), riquezas que narram sobre inocência da puberdade: “o primeiro beijo é dado realmente com os olhos e o coração”, diz a personagem Don Juan, isto é, o primeiro beijo fica na lembrança emotiva e, por isso, incompreensível.
Somente usando figuras é que se pode descrever o vento como descoberta, e a água como a substância, no caso do conto, feminina que vivifica e transforma, sacia e emociona.
Ao colar a boca aos lábios da estátua, aos poucos, em meio a inúmeras e difusas sensações, recupera a vida, da secura à fertilidade.
O encontro com o chafariz tem mais de um sentido, por um lado, representa a boca da mulher que alimenta, assim como os seios, e, de outro, é a metáfora da ejaculação. O ato em si pode significar a perda da inocência, a descoberta da libido e a sede que, no conto, é totalmente subjetiva.
O fato de matar a sede imensa que habitava nele é representado pelas simbologias da vida que saia da boca da estátua, ele precisou beijar os lábios que mataram a sede do menino que estava em fase transitória. Ele sente os lábios da mulher nos seus, avança faminto e sedento de vida e nem percebe que beijara aqueles lábios com tanta ânsia e tamanha voracidade que se sentiu vivo, tão vivo, tão excitante que teve uma ejaculação. O líquido da vida que saia da boca do feminino matara a sede do garoto, a metáfora da saliva, da vida que se modifica, torna-se realmente sensível. O liquido que sai da boca da estátua de mulher é o ápice da narrativa e o cerne do entendimento introspectivo do menino-homem.
Por meio dessa emoção incontrolável causada pela sede e, em seguida, pelo toque nos lábios da estátua (metáfora da sede interna), os lábios que matam a sede (metáfora da mulher- externa) o garoto sente-se maravilhado pelas curvas da mulher-estátua, matando sua sede de menino-homem. Lispector passa, por meio do narrador, o sentimento, a sensação do menino em face a uma situação inusitada em sua vida: matar a sede sem pensar ou raciocinar e, só depois, vivendo o momento de prazer em contato com a água, é que se percebe diante dos lábios femininos e torna-se homem. O conto marca, portanto, a transformação do adolescente em homem, como encerra tão claramente a última frase textual. 



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