sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

SÍNTESE DAS OBRAS LITERÁRIAS – UNICAMP/2018

TROVADORISMO
HUMANISMO
CLASSICISMO:
1. CAMÕES – SONETOS
Obra fundamental da literatura em língua portuguesa, foi produzida durante o século XVI, em Portugal. Além de expressar todo o pensamento filosófico do período áureo Renascimento, os sonetos camonianos representam a natureza da poesia clássica na sua forma mais legítima. O teor de sua universalidade está menos nos grandes temas com que lida e mais na forma com que consegue engendrar a linguagem na composição de seus sonetos. Daí a relevância atual da lírica de Camões: pensamento filosófico, atitude dialética diante do pensamento e argumentação retórica na invenção simbólica da poesia.
- O MANEIRISMO
- O NEOPLATONISMO AMOROSO
- O SAUDOSISMO METAFÍSICO
- A LÍRICA REFLEXIVA
- A INSPIRAÇÃO BÍBLICA

BARROCO:
2. 3. 4. SERMÃO DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS 1672, 1673 e o outro que não pregou
A temática dos sermões incide quase estritamente na grande questão religiosa da salvação da alma. Ao tratar da vida que começa depois da morte, o virtuosismo literário, típico do período barroco, parece ter oportunidade de se sobrepor ao pragmatismo político e social que pautou grande parte da vida e, consequentemente, da obra deste autor, sem, contudo, deixar de servir um fim persuasivo.
No seu conjunto, os Sermões de Quarta-Feira de Cinza permitem-nos observar a faceta do Vieira religioso, talvez a menos valorizada nos nossos dias. A própria celebração de Quarta-Feira de Cinza é propícia à revelação desta faceta do jesuíta. Recorde-se que, no calendário católico, a Quarta-Feira de Cinza marca o início do período da Quaresma, tempo de penitência e redenção que há de culminar na celebração da Paixão de Cristo e, posteriormente, na Páscoa. É nesse dia que a Igreja cumpre o ritual de colocar cinzas na testa dos crentes, recordando-lhe assim a necessidade da contrição perante a fugacidade inexorável da vida.
Padre Antônio Vieira faz uma profunda reflexão sobre um dos temas mais frequentes da arte barroca: a morte, a efemeridade da vida e as vaidades humanas, como glosa da citação bíblica da Liturgia de quarta-feira de cinzas, na cerimônia de imposição das cinzas.
A sua pregação religiosa torna-se em intervenção política numa acusação à acumulação de riquezas, às desigualdades sociais e numa violenta advertência à Igreja.

ARCADISMO
ROMANTISMO EM PORTUGAL:
5. “CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO”, CAMILO CASTELO BRANCO
Camilo Castelo Branco, temporalmente situado no FINAL DO ROMANTISMO, algumas de suas obras, ao menos em sua intencionalidade, foram marcadas pela nova estética. Camilo NÃO SE DIZIA REALISTA, mas deixou-se marcar por um certo HUMOR, por um certo distanciamento em relação ao narrado, que antecipam, de certa forma, a IRONIA/SÁTIRA/PARÓDIA REALISTA EM RELAÇÃO A CERTOS VALORES ROMÂNTICOS.
CRITICA A ESTÉTICA RECENTEMENTE DECAÍDA, apresentando-a como DEMODÉ, aponta uma sociedade injusta e interesseira e se aproveita, ainda, do AUTOR JÁ MORTE PARA DIMINUIR E FAZER POUCO DO SEU OLHAR DEMASIADO ROMÂNTICO.
A ESTÉTICA REALISTA GANHAVA FORÇA. A IRONIA DE CAMILO, DEIXA CLARA A DESCONSTRUÇÃO DO EDITOR SOBRE O AUTOR, COMO UMA LEITURA DA DECONSTRUÇÃO DO PRÓPRIO CAMILO REALISTA SOBRE O CAMILO ROMÂNTICO.
Entretanto, nos três momentos em que se divide a narrativa de CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO, apesar do tom irônico sempre frequente, é AINDA O MODELO ROMÂNTICA QUE IMPULSIONA a personagem e acaba por se tornar a sua autêntica opção.
Trata-se de uma OBRA METALINGUÍSTICA, pois o livro conta A HISTÓRIA DA ORIGEM DO PRÓPRIO LIVRO melhor explicando a obra é UMA HERANÇA DEIXADA PARA UM AMIGO, seu conteúdo é a biografia do autor que após morrer endividado explica o porquê de tê-lo escrito: DAR EXPLICAÇÃO PARA O SABER VIVER.
Acreditava o autor que tal obra seria de grande VALIA PARA A HUMANIDADE e isto alçaria a obra à lista dos BEST SELLERS e SANARIA AS SUAS DÍVIDAS PÓSTUMAS.
O romance não está apenas dividido em TRÊS PARTES. Há ainda dois acréscimos feitos pelo editor: um no início, o PREÃMBULO, e outro no fim, intitulado “O EDITOR AO RESPEITÁVEL PÚBLICO”.

TRÊS VOLUMES escritos ou três capítulos:
- O primeiro com o título CORAÇÃO – FASE DE 1844 a 1854
Quando SILVESTRE DA SILVA se dedicou aos seus amores e às "coisas do coração", às quais ele depois diz ser "tolice brava";
- O segundo, CABEÇA – FASE DE 1855 a 1860
Ele então se dedicou ao "intelecto";
- O terceiro, ESTÔMAGO – FASE de 1860 a 1861
Afirma ter se rendido aos apelos do estômago até morrer e afirmar em um soneto antes de sua morte: "E por muito comer eu desço à cova!"

ROMANTISMO NO BRASIL:
REALISMO NO BRASIL:
6. “O ESPELHO”, MACHADO DE ASSIS
O conto “O Espelho”, de Machado de Assis, foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias em 1882 e reunido em livro com o título de “Papéis Avulsos” do mesmo ano. Esta obra, segundo alguns críticos de Machado, é uma espécie de divisor de águas e marca o ápice de seu amadurecimento literário e, portanto, é considerada um de seus melhores livros de contos.
Machado de Assis esboça em “O Espelho” uma nova teoria da alma humana, aliás, um estudo sobre o espírito contraditório do homem, simbolizado pelo espelho. Carregado de simbolismo e significados que vão da filosofia à mitologia, o espelho é um antigo tema ligado à alma e, neste conto, representa a alma exterior de Jacobina, personagem principal da narração. O conto trata, pois, da dualidade da alma, da alma externa e da alma interna, do homem como um ser controvertido, dividido entre o consciente e o inconsciente.

NATURALISMO NO BRASIL:
7. “O CORTIÇO”, ALUÍSIO AZEVEDO
O romance de Aluísio Azevedo segue de perto as determinações do chamado “romance experimental”, onde a realidade é observada de uma perspectiva científica que se distancia da idealização romântica e mostra um retrato fiel da sociedade, mesmo de seus aspectos mais sórdidos – postura artística denominada então de “belo horrível”. A busca pelo registro fidedigno orienta o narrador no sentido da reprodução da linguagem das personagens com toda a riqueza da oralidade e das gírias do tempo. Nota-se ainda um aspecto fundamental da narrativa realista-naturalista: o interesse pela miséria, pela pobreza. Além de traços presentes na tendência naturalista do realismo, como a sexualização do enredo e a animalização das personagens.
Pode-se dizer que “O Cortiço” segue o figurino naturalista em duas linhas de exposição de comportamento humano. A trajetória de João Romão apresenta a visão naturalista das relações sociais, enquanto a de Jerônimo indica a perspectiva adotada pela escola no que diz respeito às relações pessoais. Nos dois casos, evidenciam-se patologias que definem os desvios morais das personagens. 
A ambição de João Romão não é condenada, afinal, ele apenas se aproveita das oportunidades oferecidas pela sociedade capitalista então nascente. Ocorre que, nele, a vontade de prosperar transforma-se em doença, em “febre de possuir”. Sua falta de escrúpulos é tamanha, que passa a explorar a companheira Bertoleza até o ponto da saturação, quando a troca por uma companhia que promete frutos mais lucrativos.
No retrato das relações sociais, o sobrado cumpre um papel fundamental, principalmente no contraste com o cortiço: este reúne os tipos miseráveis, enquanto aquele representa a riqueza das elites. Ficam assim representadas as diferenças sociais. Mas é bom observar que tanto em um ambiente quanto no outro o padrão moral é o mesmo, caracterizado pela baixeza e pelo domínio dos instintos.
Jerônimo sintetiza a visão naturalista do envolvimento amoroso. Na verdade, não se trata de amor, já que os naturalistas não consideravam esse sentimento, tomando-o apenas como uma máscara para a verdadeira motivação da aproximação entre casais, o instinto natural de preservação da espécie. Assim, o que une Jerônimo a Rita Baiana é o desejo sexual: o português se rende aos encantos da mulata brasileira, circunstância que mostra a sedução que a terra exótica exerce sobre o colonizador espantado.
A queda moral de Jerônimo também possui explicação ligada ao ambiente: o sol dos trópicos abate a vontade de trabalhar e o homem se entrega aos prazeres. Sua pureza original é superada por seus instintos, e ele se torna preguiçoso e dado à luxúria. O fato de a mesma decadência atingir Piedade e Pombinha confirma a tese de que a tendência à frouxidão de costumes se dá em função do ambiente.

PARNASIANISMO
SIMBOLISMO
PRÉ-MODERNISMO:
8. “NEGRINHA”, MONTEIRO LOBATO
A obra mostra a vida levada por uma pequena órfã, filha de uma ex-escrava, junto à antiga patroa de sua mãe. Tida como exemplo da boa moral e de religiosidade, a patroa estabelece com a menina uma relação de sujeito e objeto, respectivamente.
O conto revela que a “excelente dona Inácia era mestra em judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! ”
Ou seja, mesmo não podendo mais agredir tão duramente os negros como na época da escravidão, Dona Inácia desconta seu impedimento agredindo Negrinha. Nessa passagem nota-se que o sujeito, Dona Inácia, sente prazer, divertimento, em ser cruel, em bater em outro ser humano. Afinal, ela sente-se superior ao negro, considera uma “indecência de negro igual a branco”.

MODERNISMO EM PORTUGAL

I GERAÇÃO MODERNISTA NO BRASIL

II GERAÇÃO MODERNISTA NO BRASIL:

9. “CAMINHOS CRUZADOS”, ÉRICO VERÍSSIMO
Romance urbano de introspecção psicológica.
Cada história que se desenrola propõe e denuncia uma situação social em crise: a avidez e ingenuidade do novo-rico; a aparente felicidade da família abastada, roída de insatisfações e vícios; o sacrifício e as mazelas da baixa classe média, que luta pela sobrevivência dia a dia, sem muitas esperanças; as tragédias dos desempregados e desfavorecidos entregues apenas a si mesmos e sem condições para se auxiliarem. Enfim, cada história comove e inquieta porque é a nossa, a de nossos amigos, é a de nossa vida na cidade grande – convencional, vazia, cheia de falsidades, indiferente e egoísta e só excepcionalmente digna ou construtiva.

10. “POEMAS NEGROS”, JORGE DE LIMA
“POEMAS NEGROS”, de 1947, reúne dezesseis poemas do autor Jorge de Lima, já editados em livros anteriores e 23 novos poemas, estes apresentando, através de deuses africanos, uma espécie de história do negro no Brasil. Nesses poemas encontramos a segunda fase ortodoxamente modernista de Jorge de Lima.
O tema da obra é a realidade africana do Brasil. De fato, bem cedo Jorge de Lima manifestou a consciência da discriminação racial. Ele ultrapassa o registro pitoresco e folclórico, assimila o cerne da cultura afro-nordestina e demonstra que a barreira racial é nada perante a universalidade da poesia.
Jorge de Lima propõe também a reflexão sobre a importância do sangue africano na composição de um novo “ser”. Em Poemas Negros, o questionamento é refrisado nos versos de "Foi mudando, mudando", em que a voz poética deixa sem resposta à pergunta "Foi negro, foi índio ou foi cristão?", enquanto nomeia os pilares étnicos do povo brasileiro.

III GERAÇÃO MODERNISTA NO BRASIL:
11. “AMOR”, CLARICE LISPECTOR
O conto Amor de Clarice Lispector publicado no ano de 1982 presente na obra Laços de Família, apresenta uma temática voltada para as questões existenciais.  Foi nessa perspectiva que a autora, que de forma complexa e subjetiva, faz uso intenso de metáforas, relatando a história da personagem Ana, uma simples dona de casa entregue a uma vida de rotina, como por exemplo, cuidar dos filhos, da casa e do marido, mas guarda em seu inconsciente desejos que insiste em negar por considerá-los um perigo à situação segura e reconfortante que imagina viver.

12. “A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA” (“SAGARANA”), GUIMARÃES ROSA
A produção escrita de Guimarães Rosa se caracteriza por dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, pela tendência a conferir tratamento universal a temas de ambientação regional, quase sempre ligados ao interior de Minas Gerais. Em segundo lugar, pela linguagem inventiva elaborada pelo escritor, e que se tornou sua marca registrada.
A marca regionalista é evidente em “Sagarana”: as histórias se passam todas no interior de Minas Gerais. Além disso, há muito da cultura mineira na transmissão oral das histórias, veiculadas por contadores de causos. Isso sem contar os assuntos abordados, que atendem ao gosto das histórias populares: violência, traição, mistério etc. Mas sob cada narrativa existe a mensagem transcendental, que alarga as fronteiras locais para alcançar uma dimensão universal.
O próprio título do livro exemplifica um dos procedimentos linguísticos mais importantes da obra de Guimarães Rosa, o neologismo: ele é formado pela junção da expressão nórdica Saga (= lenda), com a terminação tupi rana (= à maneira de). 
Esse título é bastante feliz, as histórias são contadas “como se fossem lendas”, o que sugere que talvez não sejam. De fato, as narrativas de “Sagarana” oscilam entre o real e o irreal.
“A hora e vez de Augusto Matraga” é uma história de redenção, espiritualidade e de conversão, rica em alegorias e questionamentos de cunho universal, que nos faz refletir acerca dos eternos conflitos interiores e exteriores vividos pelo homem.
A história tem como pano de fundo a luta entre o bem e o mal e, consequentemente, todo o sentimento de angústia, de medo, de culpa e de vergonha decorridos de uma tomada de consciência do homem que, influenciado pelos acontecimentos e pelo mundo das ideias cristãs, opta por uma dessas forças.
A “travessia” desse conto está na passagem do homem cristão pela terra, um homem rude e primitivo, sem o contato com o mundo civilizado, onde as qualidades são: a força física e a intuição. Sua viagem consiste alegoricamente em sua “morte”, “ressurreição” e depois a “vida”.
O protagonista, primeiramente, aparece como um pecador e o castigo será a sua aprendizagem, levando-o a ressurreição e somente depois de seu aprimoramento, ganhará a vida.
O protagonista assume três nomes durante a narrativa: AUGUSTO ESTEVES, NHÔ AUGUSTO E MATRAGA.
O protagonista inicial da trama é Augusto Esteves ou Nhô Augusto. Augusto Matraga ainda não existe: Augusto Esteves, Nhô Augusto ou Augusto Matraga são faces diferentes de um mesmo personagem.
Nhô Augusto morre com sua identidade reencontrada. E realizando sua HORA E SUA VEZ, NHÔ AUGUSTO pode ser MATRAGA. É a própria figura de auto realização, numa situação-limite que é a morte em que se dá a atribuição de significado a toda uma vida. Ao mesmo tempo que individualizado, porém Matraga é o “HOMEM”, o ser humano, que tem que lutar para ser o que, fundamentalmente, é.
Como se sugere no verso de Píndaro:
“Torna-te o que és” (que se tornou um lema nietzschiano por excelência).
Nesse momento, Matraga atinge sua hora, sua áurea hora. Rico de toda sua identidade reencontrada, ele atinge sua realização e consegue seu destino, ele vai-se embora, como nos versos da cantiga que serve de epígrafe ao conto:
“Eu sou rica,
Rica, rica,
Vou-me embora daqui.”

Temos então: Augusto Esteves, o coronel temido e perverso (a morte); Nhô Augusto, o penitente (a ressurreição) e Matraga, o santo (a vida, o espiritual).
A original violência desabrida de Augusto Esteves adquire um rumo ético. De homem boêmio e violento, que maltratava a mulher, a filha e todas as pessoas que o rodeavam, o protagonista transforma-se num penitente, num pecador em busca de ascese, da conversão ao mundo de Deus. O arrependimento e o perdão, dois elementos essencialmente cristãos, constituem parte do processo de purificação. Augusto Matraga, ainda em vida, arrepende-se de ter perdido sua família e, a partir daí, tem início seu processo de conversão cristã. E a efetivação dessa conversão se dá quando, no momento de sua morte, Matraga perdoa seu assassino, perdoa sua mulher e pede que abençoem sua filha.
CONTEMPORÂNEA:
13. “O BEM AMADO”, DIAS GOMES
Escrita por Dias Gomes, a peça “O bem amado”, divide em nove quadros e pode ser considerada uma das maiores obras do teatro brasileiro. A comédia traz à baila a história da cidade fictícia de Sucupira e centra-se na figura do líder político e coronel abastado da região Odorico Paraguaçu, que se candidata a prefeito, tendo como plataforma política a construção de um cemitério na cidade.
Como não havia cemitério em Sucupira, os defuntos eram enterrados na cidade vizinha. Sendo assim, quando é eleito ergue a obra com recursos advindos da educação, saneamento básico, coisas mais urgentes para a população. Para infelicidade do prefeito durante dois anos ninguém morre na cidade.
Para justificar a sua obra e manter sua popularidade, já abalada pelo discurso da oposição, que considerava a obra um desperdício do dinheiro público, Odorico irá utilizar-se dos meios mais inescrupulosos possíveis para inaugurar o cemitério, para manter-se no poder, pois, segundo Odorico, em política: “os finalmentes justificam os não obstantes” (GOMES, [1961], (2014, p.70).

LITERATURA AFRICANA:
14. “TERRA SONÂMBULA”, MIA COUTO
Dois personagens: um menino Muidinga e o velho Tuahir vagam em território africano em busca de um lugar para se esconderem e não se tornarem alvo de bandos em guerra. Em uma estrada erma e poeirenta, encontram um machimbombo, que no linguajar local quer dizer autocarro ou ônibus. O veículo, que está incendiado, vai lhes servir de abrigo. Entre os corpos carbonizados, o menino acha uma mala com cadernos manuscritos pelo garoto Kindzu, vítima das guerrilhas que assolam o país. A partir daí, tem início a obra “Terra Sonâmbula”, do escritor moçambicano Mia Couto, que mescla histórias recheadas de motivos da cultura oral africana à guerra que apaga as identidades de cada um.
O livro traz como pano de fundo a devastação de Moçambique por sucessivos confrontos. De 1965 a 1975, a batalha é contra o domínio português. Após a independência, em 1975, outro conflito se sucede. Disputas internas entre os partidos Renamo e Frelimo ocorrem de 1976 a 1992 e fazem vítimas indiscriminadamente. O romance, que retrata o último período dessa guerra civil, foi publicado pela primeira vez em 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz entre os dois grupos, que hoje disputam pacificamente as eleições.
O menino Muidinga e o velho Tuahir encantam-se com a narrativa descrita pelos diários de Kindzu. Os cadernos ajudam a recuperar a humanidade que eles perderam. O “escritor” é o único a contar sua história familiar. Com uma mãe que leva diariamente comida para o fantasma do pai morto, Kindzu sai de casa para tentar se tornar um guerreiro local naparama. Suas aventuras, seus amores e dilemas pessoais somam-se aos de personagens igualmente complexas, que aparecem e desaparecem, ora se apoiando em crenças, muitas vezes fantasiosas, ora se desprendendo da tradição para garantir a sobrevivência. Enquanto isso, Muidinga e Tuahir permanecem no machimbombo, observando a alternância da paisagem minimalista e inóspita em que apenas as hienas, comedoras de mortos putrefatos, se contentam, debochando da morte espalhada por toda a parte.
Em seus cadernos, Kindzu tenta entender o conflito, porém não há indicação de solução: “tinha que haver guerra, tinha que haver guerra, tinha que haver morte.  E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros.
Em seu absurdo, a guerrilha se torna inexplicável: “nem isto guerra nenhuma não é. Isto é alguma coisa que ainda não tem nome”, diz um amigo de Kindzu, que vê os confrontos como resultado de uma guerra-fantasma, com um exército-fantasma, “temido por todos e mandado por ninguém”. “E nós próprios, indiscriminadas vítimas, nós íamos convertendo em fantasmas”, sentencia a personagem que antecipa o sonambulismo do país.
O espectro do pai louco ronda toda a narrativa de Kindzu, em uma metáfora da desumanização promovida pela guerra, que transforma os vivos em vivos-mortos e os mortos, insepultos, em assombrações ou xipocos, que é como se chamam os fantasmas em Moçambique.
Em uma aparição, o alucinado pai de Kindzu é quem, com lucidez, aborda uma sugestão central da trama: em terreno de guerra, onde o conflito se perpetua na supressão da humanidade do homem, talvez somente a literatura e os sonhos possam realizar o propósito de nos “despirmos deste tempo que nos fez animais”: Ao final, a imagem das folhas do diário que se espalham pela estrada, ao vento, e a conversão das letras em grãos de areia apontam, quem sabe, através de uma literatura que fale sobre e se torne terra, para a possibilidade de retorno a uma lembrança do que foi ser gente.


Nenhum comentário: