quinta-feira, 23 de novembro de 2017

“SARAPALHA”, GUIMARÃES ROSA


I - TÍTULO: “SARAPALHA”

O conto “SARAPALHA” chamava-se SEZÃO e dava nome também ao livro que viria a se chamar SAGARANA.
SARAPALHA, ONDE TUDO TREME, É REFLEXO AO ESPELHO: A NATUREZA, AS PERSONAGENS E OS SENTIMENTOS. Postos em relação, eles confirmam o ENTRELAÇAMENTO fundamental ENTRE A MALEITA E “A TERRA BONITA ONDE MORA A MALEITA”.
O conto tece a FUSÃO DE PRIMO RIBEIRO E PRIMO ARGEMIRO a um espaço habitado, trabalhado, existido por essa vida dispersa, atomizada, esses infinitos núcleos de pulsão de vida que dão carne à natureza: a SEZÃO, OS DOIS PRIMOS DOENTES E O VAU DA SARAPALHA habitam-se mutuamente.
SARAPALHA é a “TAPERA DO ARRAIAL” que fica À BEIRA DO TRECHO MAIS RASO, O VAU DO RIO PARÁ.
A “PALHA”, FINAL DA PALAVRA “SARAPALHA”, possivelmente se conecta com a COBERTURA DA TAPERA QUE PROJETA O SEU TREMOR NO ESPELHO D’ÁGUA DO RIO QUE LHE PASSA À BEIRA.
Ao espelho, O RIO PARÁ PASSA POR DENTRO DA PALAVRA “SARAPALHA” COMO RIO E COMO INSTÂNCIA DE REMOINHO DA DOR, ENTRECRUZANDO OS SENTIDOS DE CURAR PELA CESSAÇÃO DA DOR, DE “SARAR” PELO ATO DE “PARAR”, INTERROMPER O FLUXO, MORRER E NA PREPOSIÇÃO “PARA” QUE SE METAMORFOSEIA NO PRÓPRIO OBJETO LINGUÍSTICO CRIADO POR ROSA, E QUE INDICA O TREMOR “P’R’A”, DE PROLONGAMENTO NA SENSIBILIDADE.
O AUTOR UTILIZA-SE DAS INICIAIS DOS NOMES DAS PERSONAGENS (R, A) E A CONTAMINAÇÃO DE SEUS SENTIDOS: O NOME DO RIO PEQUENO “RIBEIRO” E, DO QUE DIANTE DO QUE O RIO GEME E MIRA: AR-GEMI (E) - MIRO (MIRAR).
A FALTA DE AR E O SEU TREMOR TAMBÉM PONTUAM A RESPIRAÇÃO CORTADA, O FÔLEGO SUSPENSO DA FRASE: “PARA, PARA TREMER. E PARA PENSAR. TAMBÉM. ”

II - EPÍGRAFE:

“Trecho da mais alegre, da cantiga mais alegre, de um capiau beira-rio” (ROSA, 1984, p.131)
Canta, canta, canarinho, ai, ai, ai...
Não cantes fora de hora, ai, ai, ai...
A barra do dia aí vem, ai, ai, ai...
Coitado de quem namora!... (ROSA, 1984, p. 131)

A EPÍGRAFE já anuncia a direção que o texto tomará: O ABANDONO.
O POVOADO ESTÁ ABANDONADO; A FAZENDA DE PRIMO RIBEIRO ESTÁ ABANDONADA; O PRÓPRIO RIBEIRO FOI ABANDONADO PELA MULHER E, NO FINAL, PRIMO ARGEMIRO DEVE TAMBÉM ABANDONAR A FAZENDA.

III - FOCO NARRATIVO E LINGUAGEM:

- O narrador em TERCEIRA PESSOA adota uma perspectiva de quem conhece os fatos de perto, vê trejeitos detalhadamente.
- O uso do DISCURSO DIRETO dá vez às FALAS DAS PERSONAGENS, confirmando o saber do narrador, que se limita a descrever o cenário e contar fatos; atem-se pouco ao desmantelo psicológico das personagens. Porque Primo Argemiro e Primo Ribeiro travam convivência na base do silêncio, O NARRADOR DÁ VOZ AO VAZIO, DEIXANDO QUE O LEITOR FAÇA AS INFERÊNCIAS SOBRE OS PENSAMENTOS DELES, QUE SÃO POUCO COMENTADOS.
- O NARRADOR FUNCIONA COM UM SPEAKER, ESCLARECENDO PONTOS VAGOS NO DESENROLAR DAS CENAS.
- REFERÊNCIA À CULTURA POPULAR, AOS ARCAICOS VALORES SERTANEJOS E À PAISAGEM, QUANTO À SENSIBILIDADE PARA CAPTAR A TRÁGICA TRAJETÓRIA HUMANA.
- CONSTRUÇÃO DRAMÁTICA, POIS A NARRATIVA É, QUASE TODA, CONSTRUÍDA EM FORMA DE DIÁLOGO.

IV - PERSONAGENS:

- OS PROTAGONISTAS DA HISTÓRIA SÃO: PRIMO ARGEMIRO, PRIMO RIBEIRO, CACHORRO JILÓ.
LUÍSA, EX-ESPOSA DE RIBEIRO E A PRETA VELHA, CEIÇÃO, QUE CUIDA DOS AFAZERES DOMÉSTICOS E COZINHA PARA OS DOIS PRIMOS, SÃO APENAS MENCIONADAS AO LONGO DA NARRATIVA.

- OS OPOSTOS ENTRE OS PRIMOS:

ARGEMIRO - “BANDA DO RIO”: PROVISÓRIA, TEMPORÁRIA, MAIS VIGOROSA.

RIBEIRO - “BANDA DO MATO”: FIXA, CRIA RAÍZES, QUASE ESTÁTICA, NÃO É PASSAGEIRA.
- A BELEZA, O VIGOR E A VITALIDADE PERTENCEM AO PASSADO NA MEMÓRIA DOS DOIS PRIMOS QUE PROSEIAM AO CALOR DO SOL. “DOIS VELHOS QUE NÃO SÃO VELHOS....”

- PRIMO RIBEIRO: AQUELE QUE SENTA NA “BANDA DO MATO”, PARECE UM DEFUNDO E ALMEJA A MORTE. A DOENÇA CHEGOU NUM PONTO EM QUE ELE PREFERE MORRER A VER-SE ABANDONADO E PADECENDO.

“UM DEFUNTO – SARRO DE AMARELO NA CARA CHUPADA, OLHOS SUJOS, DESBRILHADOS, E AS MÃOS PENDULANDO, COMPONDO O EQUILÍBRIO, SEMPRE A ESCORAR DOS LADOS A BAMBEZA DO CORPO” (ROSA, 2001, p. 155).
- RIBEIRO É UM ARQUÉTIPO DO SENHOR DE TERRAS BRASILEIRO DO SÉCULO XIX, INÍCIO DO SÉCULO XX, QUE VIVE NUM UNIVERSO ARCAICO E
EXTREMAMENTE MACHISTA.

- PRIMO RIBEIRO PADECE DE UMA PROFUNDA VERGONHA POR NÃO TER IDO ATRÁS DA MULHER PARA MATÁ-LA E AO AMANTE.

Ele não tomou esta ATITUDE – que seria a “CORRETA”, DE ACORDO COM A HONRA DO UNIVERSO SERTANEJO – NÃO POR FALTA DE CORAGEM, NEM POR DISCORDAR DESTE CÓDIGO, AO CONTRÁRIO, ELE NÃO SÓ COMUNGA COM TAIS VALORES, COMO OS ADMIRA. ELE NÃO “LAVA A HONRA COM SANGUE”, POR AMAR DEMAIS A MULHER E POR SABER QUE JAMAIS TERIA CORAGEM DE MATÁ-LA.

ENTRETANTO, RESSENTE-SE DESTA FRAQUEZA E, DESDE A FUGA DELA, JAMAIS TOCARA NO NOME DE LUÍSA.

RIBEIRO AO SENTIR A PROXIMIDADE DA MORTE – COMO SE JÁ NÃO PERTENCESSE INTEGRALMENTE AO MUNDO DOS VIVOS – PODE DAR-SE AO DIREITO DE ROMPER ESTE PACTO E, COM ISSO, SE DESFAZEM OS LAÇOS DE AMIZADE QUE OS UNIRA NA DESGRAÇA DA SAUDADE, DA DECADÊNCIA ECONÔMICA E NA FALÊNCIA FÍSICA. CABE, ASSIM, RIBEIRO QUEBRAR O SILÊNCIO E OS CÍRCULOS DA IMAGEM DA MULHER QUE, DESDE SUA FUGA, ENLAÇARA OS DOIS HOMENS.

PRIMO ARGEMIRO: AQUELE QUE SENTA NA “BANDA DO RIO”, TEM A SAÚDE MELHOR QUE A DO PRIMO.
VIVIA CHEIO DE REMORSOS, POUCO DORMIA, CULPAVA-SE POR AMAR A MULHER DO MELHOR AMIGO.

- TINHA MEDO DO SILÊNCIO. TINHA MEDO TAMBÉM DA DOENÇA, NÃO PELA MORTE, MAS PELO ACESSO FÁCIL AO DELÍRIO, POIS ESTE PODERIA FAZÊ-LO REVELAR AQUILO DE QUE MAIS SENTIA VERGONHA: TER-SE APAIXONADO POR PRIMA LUIZA.

LUÍSA: DETERMINANTE NAS VIDAS DOS DOIS HOMENS.

- NÃO FALAR SOBRE ELA PARA NÃO DAREM CONCRETUDE AO FATO. ERA COMO SE NÃO TIVESSE EXISTIDO.

- RIBEIRO: POR VERGONHA - AMOR ETERNO
- ARGEMIRO: RESPEITO A DOR DO PRIMO, SOLIDARIEDADE - AMOR PLATÔNICO

ROMPIMENTO ENTRE OS PRIMOS:

- AS PALAVRAS DE PRIMO RIBEIRO FAZEM COM QUE ARGEMIRO NÃO CONSIGA MAIS CONTER O TURBILHÃO DE SENTIMENTOS, HÁ MUITO REPRIMIDOS, QUE ELE JAMAIS PUDERA CONVERTER EM PALAVRAS.

- A FRASE: “EU TAMBÉM GOSTEI DELA”, RETUMBA VIOLENTAMENTE NOS OUVIDOS DE PRIMO RIBEIRO.
ALÉM DE ATUALIZAR A DOR E A VERGONHA DA TRAIÇÃO, FAZ COM QUE ELE SE SINTA TRAÍDO MAIS UMA VEZ, COMO SE O FATO DE ARGEMIRO GOSTAR DE LUÍSA FIZESSE DELA UMA ADÚLTERA REINCIDENTE, SÓ QUE ESTE SEGUNDO ADULTÉRIO ACABA DE SE MATERIALIZAR ATRAVÉS DA PALAVRA.

- “FUI PICADO DE COBRA... Ô MUNDO! ”(GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 134).

- O SENTIMENTO É DE TRAIÇÃO, INFIDELIDADE, CONSUMADA OU NÃO.

- CAI POR TERRA AQUELA CUMPLICIDADE NASCIDA DA DOR E DO ABANDONO QUE OS MANTINHA UNIDOS POR AMOR OU MORBIDADE.

CACHORRO JILÓ: “TEM ORDEM DE SER SEMPRE FIEL” e está sempre fazendo COMPANHIA AOS DONOS,

“É O CACHORRO MAGRO, QUE AGITA AS ORELHAS DORMINDO, E DORME ALERTADO, COM O FOCINHO CÚBICO ENCOSTADO NO CHÃO” (ROSA, 2001, p. 156).
O NOME DO CACHORRO É SIMBÓLICO, COMO SE REPRESENTASSE A AMARGURA DA VIDA DAQUELES DOIS HOMENS ABANDONADOS A SEUS PRÓPRIOS DESTINOS.


V - TEMPO:
- No que TANGE AO TEMPO, A MALÁRIA E O ISOLAMENTO QUE ELA IMPÔS PRENDERAM ARGEMIRO E RIBEIRO NUMA BOLHA DE TEMPO CIRCULAR, em que os DIAS SE MEDEM NO AMADURECER DA DOENÇA NO CORPO, E CADA DIA É DANÇADO NOS MESMOS PASSOS – A DOR, O REMÉDIO, O REMÉDIO, OS CALAFRIOS, A FEBRE, O DELÍRIO.
- Os primos vivem em CONSTANTE OCIOSIDADE:
 “HÁ MAIS DE DUAS HORAS QUE ESTÃO ALI ASSENTADOS, EM SILÊNCIO, COMO SEMPRE.  PORQUE FAZ MUITO TEMPO, ENTRA ANO E SAI ANO, É TODA MANHÃ ASSIM. ” (ROSA, 1994, p. 283).
- O TEMPO PARA ELES É MARCADO PELO IR E VIR DAS CRISES: “O SOL CRESCE, AMADURECE. MAS ELES ESTÃO ESPERANDO É A FEBRE, MAIS O TREMOR” (ROSA, 1994, p. 283).

VI - ESPAÇO:

O conto roseano SARAPALHA expõe um INTERIOR MINEIRO: “TAPERA DE ARRAIAL. ALI, NA BEIRA DO RIO PARÁ”, que tem como narrativa principal OS REFLEXOS DA DISSEMINAÇÃO DA “SEZÃO” (FEBRE/MALÁRIA), em um POVOADO SITUADO NA VAU DA SARAPALHA e demonstra o ABANDONO DA REGIÃO PROVOCADO PELA MALÁRIA, QUE DEIXAM PARA TRÁS NÃO SÓ SEUS BENS DE RAIZ (CASA E TERRA) COMO TAMBÉM O QUE ELES TÊM DE SIMBÓLICO (CAPELA E CEMITÉRIO) como um dos elementos desencadeadores das ações das personagens do conto.
Em SARAPALHA, O ESPAÇO RURAL é IMPORTANTE PARA A COMPREENSÃO DAS AÇÕES DAS PERSONAGENS: O ESPAÇO MARCADO PELA CIVILIZAÇÃO VAI SE RECOMPONDO, TORNANDO-SE SELVAGEM, VOLTANDO ÀS ORIGENS.
O ABANDONO EM QUE A FAZENDA DE PRIMO RIBEIRO SE ENCONTRA, DEMONSTRA, CLARAMENTE, O ABANDONO PESSOAL E O ABANDONO AMOROSO, RESULTANDO EM UMA EXTREMA ANGÚSTIA E UMA TOTAL SOLIDÃO.
A FAZENDA ENORME E CENTENÁRIA, COM CHIQUEIRO E CURRAL – DESCRIÇÃO PRECISA DO PROCESSO DE DECADÊNCIA – ACENTUA A SENSAÇÃO DE CAOS, VISTO QUE AS COISAS NÃO ESTÃO MAIS NOS LUGARES DEVIDOS.

A ROÇA, QUE DEVERIA ESTAR FORA DOS LIMITES DA CERCA, ESTÁ PRÓXIMA À CASA, E ESTA, POR SUA VEZ, DESMANTELA-SE E APENAS A NATUREZA – O CEDRO E O MATO – MANTÊM O VIÇO E A FORÇA.
OS HOMENS, ASSIM COMO A FAZENDA, SÃO VERDADEIRAS RUÍNAS PRESTES A SER ACABAR.

ESTÁ SE ACABANDO O LUGAR NO MUNDO QUE CONFERIRA IDENTIDADE ÀS PERSONAGENS.
PRIMO RIBEIRO ESTÁ DE TAL FORMA PRESO AO SEU ESPAÇO QUE PREFERE SER ENTERRADO NO ARRUINADO CEMITÉRIO DO POVOADO, A SAIR DO ESPAÇO CONHECIDO. ESSE APEGO É ASSOCIADO À SUA HUMILHAÇÃO.

 - PARA ALÉM DA SIMPLICIDADE DO ENREDO, o conto aborda algumas QUESTÕES PRIMORDIAIS no que se refere às RELAÇÕES SIMBÓLICAS ENTRE O HOMEM E SEU ESPAÇO E SEUS SENTIMENTOS.
“Quero ir mas é p’rá o cemitério do povo­ado.... Está desdeixado, mas ainda é chão de Deus” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 124).

DO ARRAIAL, PASSA-SE À DESCRIÇÃO DA FAZENDA DESMANTELADA PELA FALTA DE ZELO E, COMO ESPAÇO PRIVILEGIADO NO CONTO É UM “CASCO DE COCHO” ONDE OS DOIS HOMENS TOMAM SOL, CONVERSAM E ESPERAM A MORTE.
Nesta direção, ELES NÃO SÃO APRESENTADOS DENTRO DA CASA, MAS FORA DELA, NA ENTRADA:
“Tem também DOIS HOMENS SENTADOS, JUNTINHOS, NUM CASCO EMBORCADO, CABISBAIXOS, QUENTANDO-SE AO SOL” (ROSA, 2001, p. 153).
O COCHO é uma ESPÉCIE DE CAIXÃO FEITO DE MADEIRA, ONDE OS DOIS ENTERRAM-SE AINDA EM VIDA, TÃO DEGRADADO COMO O RESTO DA PAISAGEM, É APENAS A LEMBRANÇA DO QUE ERA, POIS SE TRATA APENAS DE UM “CASCO” E “EMBORCADO” COM OS HOMENS SENTADOS NELE.
“A CASA ABRIGA O DEVANEIO, A CASA PROTEGE O SONHADOR, A CASA NOS PERMITE SONHAR EM PAZ”, MAS OS PRIMOS NÃO TÊM PAZ, VIVEM DO SONHO, NUM INFERNO INTERIOR.
PRIMO ARGEMIRO E PRIMO RIBEIRO são os únicos moradores que ficaram na região e vem sobrevivendo à SEZÃO. Doença a qual, do ponto de vista geográfico, é explicada como originalmente VINDA DO SÃO FRANCISCO ATÉ CHEGAR E FICAR NO PARÁ:
“Ela veio de longe, do São Francisco. Um dia, tomou caminho, entrou na boca aberta do Pará, e pegou a subir” (ROSA, 2001, p. 151).
- A presença do espaço no entorno narrativo é tão marcante que, À MEDIDA QUE A SEZÃO AVANÇAVA POR ELE, AS PERSONAGENS ENCONTRAVAM-SE CADA VEZ MAIS ENCURRALADOS, SENTINDO A OBRIGATORIEDADE DE PARTIR DALI NO INTUITO DE FUGIR DA DOENÇA.
- AS PESSOAS ACABARAM POR SER EXPULSAS DA SUA REGIÃO, ABANDONANDO O QUE FOSSE PRECISO PARA TRÁS:
“... DEIXARAM LARGADO UM POVOADO INTEIRO: casas, sobradinho, capela; três vendinhas, o chalé e o cemitério; e a rua, sozinha e comprida, QUE AGORA NEM MAIS É UMA ESTRADA, DE TANTO QUE O MATO A ENTUPIU” (ROSA, 2001, p. 151).
Assim, “AS TERRAS NÃO VALIAM MAIS NADA. ERA PEGAR A TROUXA E IR DEIXANDO, DEPRESSA, OS RANCHOS, OS SÍTIOS, AS FAZENDAS [...]” (ROSA, 2001, p. 152).
- O FATO DE O POVOADO TER ESTADO NOS MAPAS INSERE-SE, CLARAMENTE, NO ESPAÇO CONCRETO E A EXISTÊNCIA SIMBÓLICA, REPRESENTADA PELA LINGUAGEM, UMA VEZ QUE O NOME DO POVOADO, QUE PODERIA PERENIZÁ-LO SE PERDEU AO SER APAGADO DOS MAPAS E NÃO É RESGATADO NEM MESMO NO CONTO.

- AS PERSONAGENS ENCONTRAM-SE APRISIONADAS, DENTRO DE SUAS CONCHAS, COM MEDO DE VIVEREM, DE ROMPEREM O ELO COM O LUGAR, POIS A PIOR DAS DOENÇAS FOI A PERDA DA MULHER AMADA.
- A SOLIDÃO E A MONOTONIA COLABORAM PARA QUE OS PRIMOS REMOAM SEUS PASSADOS, ENQUANTO DISSOLVEM-SE COMO O POVOADO E PENSEM NOS FATOS ACONTECIDOS:
“Escuta, Primo Ribeiro: se alembra de quando o doutor deu a despedida pr’a o povo do povoado? Foi de manhã cedo, assim como agora [...]. Foi seis meses em-antesde ela ir s’ embora [...]. É isso, Primo Argemiro... Não adianta mais sojigar a ideia... Esta noite sonhei com ela, bonita como no dia do casamento [...]” (ROSA, 2001, p. 161).
- A INVASÃO DA NATUREZA SOBRE O ARRAIAL, RECRUDESCEM NAS PERSONAGENS.
OS HOMENS, ATÉ ENTÃO CIVILIZADOS, VÃO SE PERDENDO, TORNANDO-SE BICHOS MANSOS A ESPERA DE SEUS DESTINOS.
ENQUANTO A MORTE RONDA OS HOMENS A NATUREZA SE ENCHE DE VIDA.
ELA REASSUME SEU ESPAÇO E VAI SE RECOMPONDO AOS POUCOS, DISSOLVENDO A PRESENÇA HUMANA AO “BARRO ORIGINAL” E DESTRUINDO OS ARCAICOS VALORES PATRIARCAIS, SOB O SIGNO DOS QUAIS SE CONSTITUIU.
“Aí a beldroega, em carreirinha indiscreta [...]. Morcegos das lapas se domesticaram na noite sem fim dos quartos, [...]. E aí, então, taperização consumada [...], o povoado fechou-se em seus restos, que nem o coscorão cinzento de uma tribo de marimbondos estéreis” (ROSA, 2001, p. 152).
- O AVANÇO DAS ERVAS DANINHAS E DE ÁRVORES DESTRUIDORAS REMETE-NOS À INVASÃO DA DOENÇA NOS CORPOS DOS PRIMOS, MAS MAIS QUE A DOENÇA FÍSICA, A DOENÇA MORAL, QUE FAZ DELES MORTOS VIVOS, SENDO DESTRUÍDOS DIA A DIA, POR ISSO RIBEIRO AFIRMA:
“A maleita não é nada. Até ajudou a gente a não pensar” (ROSA, 2001, p. 160).
Ao FINAL DE “SARAPALHA”, à medida que ARGEMIRO SEGUE SEU CAMINHO, A MANDO DE SEU PRIMO RIBEIRO, QUE AO EXPULSÁ-LO DE SUA CASA, INVOCA, SEU DIREITO DE POSSE, ELE PASSA A OBSERVAR DETALHADAMENTE O QUÃO BONITO É AQUELE LOCAL, CHEGANDO A PENSAR EM SUA MORTE BEM ALI, AO PASSO QUE OS CALAFRIOS COMEÇAM A MANIFESTAR-SE:
“[...]. Mas, meu Deus, como isto é bonito! QUE LUGAR BONITO P’R’A GENTE DEITAR NO CHÃO E SE ACABAR!... É O MATO, TODO ENFEITADO, TREMENDO TAMBÉM COM A SEZÃO” (ROSA, 2001, p. 173).
ACONCHEGANDO O ACESSO DE PRIMO ARGEMIRO NO ESTREMECER DA MATA, SARAPALHA TERMINA NESSA NOTA DE DISSOLUÇÃO DO MICROCOSMO QUE GEME NO MACROCOSMO QUE DANÇA.
A DOENÇA É ASSIMILADA AO TEMPO CÍCLICO DA NATUREZA, E RESSOAM MAIS CLAROS OS DOIS ACORDES QUE COMPÕEM A PALAVRA SEZÃO: “SEZÃO” – ACESSO (febre dos sentidos que é por vezes o amor) E “SAZÃO” – TEMPO DE SEMEAR (tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar e tempo para sarar [...]; tempo para chorar e tempo para rir; tempo para gemer e tempo para dançar -Eclesiastes 3, 2-4).

VIII - CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1. A DOENÇA E O LOCAL:

- A história se inicia com a retratação do que sobrou da tapera de arraial, na beira do rio Pará, onde UM POVOADO INTEIRO FOI ABANDONADO.
- Antigamente, o LOCAL EXISTIA NOS MAPAS, mas com a CHEGADA DA MALÁRIA TUDO FICOU LARGADO, ATÉ A ESTRADA “de tanto que o MATO A ENTUPIU” (ROSA, 2001, p. 151).
- A doença chegou, ficou e disseminou e “QUEM FOI S’EMBORA FORAM OS MORADORES: OS PRIMEIROS PARA O CEMITÉRIO, OS OUTROS POR AÍ A FORA, POR ESTE MUNDO DE DEUS” (ROSA, 2001, p. 152).
- SEZÃO: VEM DE ACESSO, aquilo que ACOMETE, que TOMA CONTA, mas, também, fala de momento oportuno, de ensejo.
- Nesta história, é a INSTALAÇÃO DA CRISE o que permite a chegada às REVELAÇÕES OCULTAS ENTRE AS PERSONAGENS ao desvelamento da intimidade. Não há como encobrir o que mais DÓI NO CORPO E NO CORAÇÃO.
- MEDEM E COMPARAM SUA DESGRAÇA PELA DETERIORAÇÃO DOS CORPOS, O CRESCIMENTO DO BAÇO:
“É DA PASSARINHA. NO VÃO ESQUERDO, ABAIXO DAS COSTELAS, OS BAÇOS JAMAIS CESSAM DE AUMENTAR. E TODOS OS DIAS ELES VERIFICAM QUAL FOI O QUE PASSOU À FRENTE”.
- PASSARINHA – SUPOSIÇÃO DE QUE É NO BAÇO QUE SE MEDE AS EMOÇÕES, DENUNCIANDO O MAL E A MÁGOA QUE OS DEVASTAM.

2. O DOUTOR:

- “NINGUÉM NÃO ACREDITOU... NEM NO ARRAIAL [...] E ENTÃO ELE FICOU BRAVO POIS NÃO FOI? COMEU GOIABA, COMEU MELANCIA DA BEIRA DO RIO, BEBEU ÁGUA DO PARÁ, E NÃO TEVE NADA...[...]...DEPOIS DORMIU SEM CORTINADO, COM A JANELA ABERTA... APANHOU A INTERMITENTE; MAS O POVO FICOU ACREDITANDO...” (ROSA, 1969, p. 124)
- UM BOM MÉDICO COMO UM BOM PASTOR MELANCÓLICO, DE QUEM O SACRIFÍCIO NÃO BASTASSE PARA SALVAR AS OVELHAS:
“- ELE AJUNTOU A GENTE... ESTAVA MUITO TRISTE... FALOU:
- “NÃO ADIANTA TOMAR REMÉDIO, PORQUE O MOSQUITO TORNA A PICAR... TODOS TÊM DE SE MUDAR DAQUI... MAS ANDEM DEPRESSA, PELO AMOR DE DEUS!”... (ROSA, 1969, p.125)
- ENQUANTO, A CIÊNCIA DO DOUTOR E A MUDANÇA DOS MORADORES DO POVOADO COM O FLUIR DO TEMPO, ALTERAM O COTIDIANO DO POVOADO, PRIMO RIBEIRO E PRIMO ARGEMIRO PERMANECEM NO LOCAL, INDO CONTRA A QUALQUER FORMA DE MUDANÇA.
- ESTA FORMA ARCAICA DE VIVER, ESTÁ PRESENTE PELO USO DO SABÃO DE DECOADA E PELO COSTUME DE “QUENTAR FOGO” É UM INDICATIVO DE QUE SEUS PRESCRITOS COSTUMES ESTÃO EM SINTONIA COM OS CALORES HÁ MUITO CAÍDOS EM DESUSO.

3. PRIMO RIBEIRO E PRIMO ARGEMIRO UNIDOS:

- PRIMO RIBEIRO E PRIMO ARGEMIRO SÃO RETRATADOS COM ESTADO DE SAÚDE CADA VEZ MAIS DEBILITADOS: DOIS VELHOS “QUE NÃO SÃO VELHOS”.
- O que faz com que os dois primos PERMANEÇAM NO LUGAR E DESISTAM DE LUTAR PELA VIDA É A PAIXÃO PELA MULHER.
- A FUGA DE LUÍSA DETERMINA OS DESTINOS DOS DOIS. A DEVOÇÃO À IMAGEM DA MULHER FAZ COM QUE ELES NUTRAM UMA LEVE ESPERANÇA PELA SUA VOLTA.
- MESMO SABENDO IMPOSSÍVEL SEU AMOR, ARGEMIRO PERMANECE JUNTO A RIBEIRO, NUTRINDO UM SENTIMENTO DE REMORSO E RESPEITO À CONDIÇÃO DE SEU PRIMO COMO MARIDO DE LUÍSA.
- “MESMO NO CÉU”, POIS ELE MESMO ESTABELECE UMA HIERARQUIA DE POSIÇÃO NO CORAÇÃO DA MULHER: PRIMEIRO O BOIADEIRO, DEPOIS O MARIDO.

4. LUÍSA, EVA OU LILITH: 

- A AUSÊNCIA DE LUÍSA PROVOCA MELANCOLIA NOS DOIS PRIMOS: EM RIBEIRO, POR TER SIDO TRAÍDO E EM ARGEMIRO, POR NÃO TER TIDO A CORAGEM DE TOMAR QUALQUER ATITUDE, O QUE NÃO INSPIRA PIEDADE E SIM VERGONHA.
- LUÍSA NÃO É, APENAS, UMA MULHER E SIM O SÍMBOLO DE MULHER.
- PARA RIBEIRO, LUÍSA SERIA COMO EVA PARA ADÃO, EMBORA, DE FATO, ELA SE APROXIME MAIS DE LILITH, PERSONAGEM MENCIONADA NO ANTIGO TESTAMENTO.
“QUE, NA AFIRMAÇÃO DE SEU DIREITO À LIBERDADE E AO PRAZER, À IGUALDADE EM RELAÇÃO AO HOMEM, PERDE A SI PRÓPRIA, ASSIM COMO PERDE AQUELES QUE ENCONTRA. MULHER SENSUAL E FATAL” (BRUNEL, 1997, p. 583).
- TANTO É ASSIM QUE, EM SEUS DELÍRIOS, RIBEIRO, AO VER PASSAR UM RANCHO DE MOÇAS, DIZ:
“CADA QUAL MAIS BONITA... MAS EU NÃO QUERO, NENHUMA!... QUERO SÓ ELA... LUÍSA...” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 131).

- HÁ ALGUNS INDICADORES DE QUE ELE É UM VELHO ADÃO E A MULHER QUE, DA PERSPECTIVA DOS DOIS PRIMOS SE APRESENTA COMO UMA LILITH, POSSA SER, APENAS, UMA NOVA EVA.
ISTO É, HÁ UM DESENCONTRO HISTÓRICO ENTRE A MULHER, SEU MARIDO E O PRIMO.
- EMBORA O NARRADOR NÃO DÊ MUITOS DETALHES SOBRE O CARÁTER DE LUÍSA, É VISÍVEL DE QUE ELA NÃO SE AJUSTAVA À CONCEPÇÃO DE MULHER, ADEQUÁVEL AO CONSERVADORISMO DO MARIDO.

- PODE-SE DEPREENDER QUE LUÍSA TEM ALGO DE DISSONANTE:
“ESQUISITA, SIM QUE ELA ERA ... DE RISO ALEGRINHO, MAS DE OLHAR DURO... QUE BONITA!...” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 128).

- A ESQUISITE, A ALEGRIA – COISA REPROVÁVEL EM UMA MULHER SÉRIA – E A DUREZA DO OLHAR SÃO INDICATIVOS DA RUPTURA COM O ARQUÉTIPO DA SUBMISSÃO FEMININA.
- SUA CORAGEM DE TROCAR A ESTABILIDADE DO CASAMENTO, DA FAZENDA E DO NOME PELOS RISCOS DA FUGA COM UM BOIADEIRO CONFIRMAM O DESENCONTRO ENTRE O CONSERVADOR MARIDO E A, SE NÃO MODERNA, PELO MENOS ARROJADA MULHER.
- LUÍSA ROMPE NÃO APENAS COM O CASAMENTO, MAS, PRINCIPALMENTE, COM A IDEALIZAÇÃO DO MARIDO A SEU RESPEITO.
- TORNA-SE AGENTE E PRODUTORA DE MUDANÇAS, AO ROMPER COM A TRADIÇÃO. A PARTIR DE SEU ATO ELA MUDA NÃO SÓ O DESTINO DE SUA VIDA, MAS DE TODOS QUE A CERCAM.
“O BOIADEIRO TINHA FICADO TRÊS DIAS NA FAZENDA, COM DESCULPE DE ESPERAR OUTRA PONTA DE GADO ... NÃO ERA A PRIMEIRA VEZ QUE ELE SE ARRANCHAVA ALI ... MAS NUNCA NINGUÉM TINHA VISTO OS DOIS CONVERSANDO SOZINHOS” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 128).

- NO INÍCIO DA SEGUNDA METADE DO SÉC. XIX, ÉPOCA PROVÁVEL DO TEMPO DA HISTÓRIA, A HONRA SE LAVAVA COM SANGUE, CONFORME OS CÓDIGOS QUE NORTEIAM O ARCAICO MUNDO DO SERTÃO, MAS RIBEIRO FOI INCAPAZ DE MATAR A ESPOSA.
- FAZER VALER SEU DIREITO DE MARIDO, QUE, SEGUNDO A TRADIÇÃO, DEVE MANTER A MULHER “EM TOTAL SUJEIÇÃO SE QUISER EVITAR O RIDÍCULO DA DESONRA”, POR ISSO VAI SE MATANDO AOS POUCOS.
- PRIMO RIBEIRO DIZ QUE NÃO PODIA FICAR MAIS COM ELA E NÃO QUE NÃO QUERIA FICAR MAIS COM ELA. HÁ, NESTE CASO, UMA GRANDE DISTINÇÃO ENTRE QUERER E PODER.
- AO EXPLICAR SUA INCAPACIDADE DE QUERER MAL À MULHER:

- PRIMO RIBEIRO, POR QUE FOI QUE O SENHOR NÃO ME DEIXOU IR ATRÁS DELES QUANDO FUGIRAM? EU MATAVA O HOMEM E TRAZIA MINHA PRIMA DE VOLTA P’RA TRÁS...
- P’RA QUE, PRIMO ARGEMIRO? QUE É QUE ADIANTAVA? ... EU NÃO PODIA FICAR COM ELA. [...] TODO MUNDO JÁ SABIA... E, ELA, EU TINHA OBRIGAÇÃO DE MATAR TAMBÉM, E SABIA QUE A CORAGEM P’RA ISSO HAVIA DE FALTAR... (GUI­MARÃES ROSA, 1967, p. 127).
- ELE CONTINUA A LHE QUERER BEM E NÃO PODE LHE IMPINGIR A PUNIÇÃO DEVIDA PELO PECADO DO ADULTÉRIO:
“EU NÃO TENHO RAIVA DELA ... NÃO TENHO NÃO. AINDA FICAVA MAIS TRISTE, SE SOUBESSE QUE ELA ANDAVA PENANDO POR AÍ À-TOA”. (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 126-127).

- PRIMO RIBEIRO VIVE ATORMENTADO PELA MALEITA, PELA SAUDADE E, PRINCIPALMENTE PELA VERGONHA DE NÃO TER MATADO A SUA ESPOSA E SEU AMANTE.
- ELE CONFIDENCIA QUE “FOI BOM A SEZÃO TER VINDO, PRIMO ARGEMIRO, P’RA ISSO AQUI VIRAR UM ERMO E A GENTE PODER FICAR MAIS SOZINHOS”. (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 127).

A CONFISSÃO DE ARGEMIRO:

- AO CONFESSAR QUE TAMBÉM AMARA LUÍSA, CONVERTE-SE DE PARENTE E COMPANHEIRO DE INFORTÚNIO EM INIMIGO E A CASA, DENTRE MUITOS VALORES SIMBÓLICOS, TEM A FUNÇÃO DE ESTABELECER DISTÂNCIA ENTRE O CAOS QUE REINA NO MUNDO E O COSMOS QUE ELA REPRESENTA.
- A REVELAÇÃO DE ARGEMIRO, FAZ DELE UM TRAIDOR E REPRESENTA O PONTO MÁXIMO DA DECADÊNCIA E DA SOLIDÃO DE RIBEIRO, QUE NÃO O PERDOA.
- A MERA EXISTÊNCIA DESTE SENTIMENTO OFENDE, MAIS UMA VEZ, A HONRA, O NOME E A MORAL DE RIBEIRO, UMA VEZ QUE ELES PARTILHAM OS MESMOS CÓDIGOS E VALORES.

“ – JÁ LHE JUREI QUE NÃO LHE FALTEI COM O RESPEITO A ELA... NEM EU NÃO ERA CAPAZ DE CAIR NUM PECADO DESSES...”(GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 134)
- O QUE ESTÁ EM JOGO É A HONRA E A MORAL MACHISTA, O FATO DE RIBEIRO CONSIDERAR ARGEMIRO: “NEM UM IRMÃO, NEM UM FILHO NÃO PODIA SER TÃO BOM ... NÃO PODIA SER TÃO CARIDOSO” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 133) NÃO REDIME A TRAIÇÃO, AO CONTRÁRIO, SÓ ACENTUA O SENTIMENTO DE ULTRAJE À HONRA.
- É EM NOME DESTA HONRA QUE SE ROMPEM OS LAÇOS DE CONFIANÇA E TAL RUPTURA FARÁ COM QUE AMBOS AGUARDEM A PRESENÇA DA MORTE QUE SE AVIZINHA NA MAIS ABSOLUTA SOLIDÃO.
- MAIS UMA VEZ PRIMO RIBEIRO, AO INVÉS DE LAVAR SUA HONRA COM SANGUE, O QUE GARANTIRIA A MANUTENÇÃO DA SUA DIGNIDADE, ACENTUA SUA MÁCULA, POR NÃO TER ÂNIMO NEM CORAGEM DE MATAR O PRIMO “TRAIDOR”, COMO ATESTA SUA ÚLTIMA FALA:
“VOCÊ NÃO TEM PENA DE MIM, QUE NÃO TENHO ARMA NENHUMA AQUI COMIGO, E, NEM QUE TIVESSE, NÃO TENHO MAIS NEM FORÇA P’RA LHE MATAR?!” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 135).
- PRIMO RIBEIRO AGUARDA A MORTE, ENQUANTO PRIMO ARGEMIRO, EM UM ESTADO FÍSICO E PSÍQUICO SEMELHANTE AO DO PRIMO, “GANHA O MUNDO”, PARA AGUARDAR A MORTE FORA DOS DOMÍNIOS DA CASA DE PRIMO RIBEIRO.
- RIBEIRO INVOCA O INQUESTIONÁVEL DIREITO À TERRA E À CASA, PORTANTO, AO SEU ESPAÇO NO MUNDO, PARA EXPULSAR DEFINITIVAMENTE O PRIMO “TRAIDOR”.
“ESTE CACO DE FAZENDA AINDA BEM QUE É MEU ... É MEU!...ANDA!... NÃO QUERO VER VOCÊ MAIS” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 135).
- AO FAZER A SUA CONFISSÃO EM BUSCA DO PERDÃO, DA REDENÇÃO, ACABA TENDO A PUNIÇÃO.


O BOIADEIRO, RIBEIRO E ARGEMIRO:

- É NECESSÁRIO PERCEBER A INSERÇÃO SOCIAL DAS PERSONAGENS NO UNIVERSO SERTANEJO:
- O BOIADEIRO REPRESENTA A MOBILIDADE DAQUELES QUE NÃO ESTÃO PRESOS À TERRA E, GRAÇAS À MOBILIDADE DO SEU OFÍCIO, GOZA DE UMA MAIOR LIBERDADE.
- OS DOIS PRIMOS, AO CONTRÁRIO, ESTÃO DE TAL FORMA ENRAIZADOS À TERRA E AOS TRADICIONAIS VALORES FAMILIARES, QUE PREFEREM A MORTE A TEREM QUE DEIXAR SEU ESPAÇO NO MUNDO.
- NO PLANO SOCIAL, O BOIADEIRO REPRESENTA OS INDIVÍDUOS “SEM EIRA NEM BEIRA” QUE, POR UM LADO, VIVEM MAIS OU MENOS À MARGEM DA SOCIEDADE ORGANIZADA E GOZAM DA LIBERDADE.
- ASSIM, O BOIADEIRO E LUÍSA SÃO MOTIVADOS MAIS PELO DESEJO DO QUE PELAS REGRAS, DÃO LIVRE VAZÃO AOS SEUS IMPULSOS.
- ARGEMIRO, POR SUA VEZ, APESAR DE DESEJAR A MULHER DO PRIMO E DE TER RECORRIDO AO SUBTERFÚGIO DE MUDAR PARA A FAZENDA DO RIBEIRO PARA ESTAR MAIS PERTO DE LUÍSA, EM RESPEITO ÀS REGRAS SOCIAIS, NÃO TENTARA “TOMAR” A MULHER DO PRIMO, COISA QUE, POSTERIORMENTE, O BOIADEIRO FARÁ COM SUCESSO.
“ – SE ELE, PRIMO ARGEMIRO. TIVESSE TIDO CORAGEM...SE TIVESSE SIDO MAIS ESPERTO...TALVEZ ELA GOSTASSE...PODIA TER QUERIDO FUGIR COM ELE; O BOIADEIRO AINDA NÃO TINHA APARECIDO ...
AGORA, ELA HAVIA DE LEMBRAR, ACHANDO QUE ERA UM PAMONHA, UM HOMEM SEM DECISÃO.
E, NO ENTANTO, VIERA PARA A FAZENDA SÓ POR CAUSA DELA. PRIMO RIBEIRO NÃO PUNHA MALÍCIA EM COISA NENHUMA. SIM, OS DOIS TINHAM SIDO BEM TOLOS, SÓ O HOMEM DE FORA ERA QUEM SABIA LIDAR COM MULHER” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 130).

O DESFECHO:

- PRIMO ARGEMIRO, POR NÃO TER MAIS NENHUMA REFERÊNCIA AFETIVA NO MUNDO, NEM QUALQUER OUTRO LAÇO SOCIAL, UMA VEZ QUE ESTÁ SOZINHO E EXPULSO POR PRIMO RIBEIRO, SUA ÚLTIMA REFERÊNCIA AFETIVA NO MUNDO, DESEJA ARDENTEMENTE DISSOLVER-SE E REINTEGRAR-SE AO BARRO, COMO ADÃO, ANTES DO SOPRO DIVINO.

“ – MAS, MEU DEUS, COMO ISTO É BONITO! QUE LUGAR BONITO P’R’A DEITAR NO CHÃO E SE ACABAR!... É O MATO TODO ENFEITADO, TREMENDO TAMBÉM COM A SEZÃO” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 137).

- “DEITAR NO CHÃO E ACABAR”, SIMBOLICAMENTE É VOLTAR PARA A MÃE TERRA, AO “BARRO ORIGINAL”, DE ONDE TUDO EMERGIU E PARA ONDE TUDO VOLTARÁ.
- ENTRETANTO, O PRINCÍPIO CRISTÃO DE ETERNIDADE OU A VOLTA DA CRIATURA PARA O CRIADOR, NÃO OFERECE CONSOLO A PRIMO ARGEMIRO., POIS ACREDITA QUE TAMBÉM NO PLANO ESPIRITUAL, SEU AMOR POR LUÍSA SERIA IMPOSSÍVEL, VISTO QUE “MESMO NO CÉU, ELA TERÁ QUE GOSTAR DO BOIADEIRO DA IPORANGA. E ELE ARGEMIRO, TERÁ DE RESPEITAR PRIMO RIBEIRO, QUE É O MARIDO EM NOME DE DEUS” (GUIMARÃES ROSA, 1967, p. 136).

PASSADO E PRESENTE:

- O CONTO RETRATA OS ESQUECIDOS, DOS QUE FICARAM NA ESPERANÇA DE UM REACENDER DO PASSADO.

- OS QUE PARTIRAM LEVARAM NA BAGAGEM O SONHO DE UM FUTURO MELHOR, OS QUE FICARAM, TRAZIAM A ESPERANÇA DO RETORNO DE UM PASSADO.
- OS PRIMOS SE RECORDAM DO PASSADO, MAS A ORDEM A QUAL ELES DESEJAM RETORNAR É UMA ORDEM DE DOMINAÇÃO E PATRIARCAL.

A SEZÃO E A MULHER:

- A DOENÇA SOBRE O CORPO ESPELHA E PERFORMA A TIRANIA DA LEMBRANÇA DE LUÍSA SOBRE OS DOIS PRIMOS:
- “É A SEZÃO. MAS NÃO QUERO ... BEM QUE O DOUTOR, QUANDO PEGOU A FEBRE E ESTAVA VARIANDO, DISSE.....VOCÊ LEMBRA? ... DISSE QUE A MALEITA ERA UMA MULHER DE MUITA LINDEZA, QUE MORAVA DE-NOITE NESSES BREJOS, E NA HORA DA GENTE TREMER ERA QUEM VINHA ... E NINGUÉM NÃO VIA QUE ERA ELA QUEM ESTAVA MESMO BEIJANDO A GENTE ... (ROSA, 1969, p.132)

- A AUSÊNCIA DE LUÍSA APRESENTA MUITAS SIMBOLOGIAS: A MALIGNIDADE DA FÊMEA ALADA QUE PROPAGA A DESGRAÇA; NA PASSARINHA QUE NÃO CESSA DE CRESCER; NA SEZÃO QUE TOMA CONTA DO CORPO E DA IDEIAS; NA PRESENÇA FUGIDIA DA NEGRA CEIÇÃO QUE PASSA AO LARGO DA CENA E NEM ACODE AOS CHAMADOS QUANDO MAIS SE PRECISA DELA.
- “O COMEÇO DO ACESSO É BOM, É GOSTOSO: É A ÚNICA COISA BOA QUE A VIDA AINDA TEM. PARA TREMER E PARA PENSAR. TAMBÉM”.
- O PRAZER NÃO TEM COMO ESCAPAR A ESTE ALGOZ QUE: “VEM SOTURNO E SOMBRIO. ENQUANTO AS FÊMEAS SUGAM, TODOS OS MACHOS MONTAM GUARDA, PASALMODIANDO TREMIDO, NUMA NOTA ÚNICA, EM TOM DE DÓ. E, UMA A UMA, AQUELAS JÁ FARTAS DE SANGUE ABREM RECITATIVO, ESVOAÇANTES, UMA OITAVA MAIS BAIXA, EM MEIGA VOZ DE DESCANTE, NA ORGIA CREPUSCULAR”.
- “PRIMO RIBEIRO DORMIU MAL E O OUTRO NÃO DORME QUASE NUNCA. MAS AMBOS ESCUTARAM O MOSQUITO A NOITE INTEIRA. E O ANOFELINO É O PASSARINHO QUE CANTA MAIS BONITO, NA TERRA BONITA ONDE MORA A MALEITA”. (ROSA, 1969, p. 119)
- “MAS SE ELE [O MOSQUITO] VEM NA HORA DO SILÊNCIO, QUANDO O QUININO ZUMBE NA CABEÇA DO FREBRENTO, É PARA CONSOLAR. [...] E QUANDO A FEBRE TOMA CONTA DO CORPO TODO, ELE PARECE, DENTRO DA GENTE, UMA MÚSICA SANTA, DE OUTRO MUNDO” (ROSA, 1969, p. 119).
- “PRIMO ARGEMIRO JÁ SE ACOSTUMOU COM O TRINCAR DE DENTES E COM OS GEMIDOS DE PRIMO RIBEIRO. NÃO PODE DAR-LHE AJUDA NENHUMA. O QUE PODE É PENSAR. E PENSA MAIS, QUASE COCHILANDO, GEMENDO TAMBÉM, COM AS FERROADAS NO BAÇO” (ROSA, 1969, p. 130).


Nenhum comentário: